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ERGONOMIA ERGONOMIA Copyright © UVA 2019 Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição. Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. AUTORIA DO CONTEÚDO Antônio Carlos da Fonseca Sarquis REVISÃO Clarissa Penna Theo Cavalcanti Maria Lucia Daflon Luiz Werneck Maia Lydianna Lima PROJETO GRÁFICO UVA DIAGRAMAÇÃO UVA SUMÁRIO Apresentação Autor 6 7 Aplicação da ergonomia 25 • Caráter interdisciplinar da ergonomia • Aperfeiçoamento do sistema homem-máquina, organização do traba- lho e melhoria das condições de trabalho na indústria, na agricultura e na mineração • Criação de postos de trabalhos inexistentes, produtos que atendam novas tecnologias, bancos, escolas, centrais de abastecimento e novos horários de trabalho UNIDADE 2 8 • Século XVIII: Revolução Industrial e nascimento e evolução da ergo- nomia • NR 17 – Ergonomia • Análise de sistemas, análise do posto de trabalho, concepção e cons- cientização Introdução à ergonomia UNIDADE 1 SUMÁRIO Biomecânica ocupacional e antropometria 62 • Trabalhos estático e dinâmico e sistema OWAS • Antropometria para noções de escala e proporções para elaboração de projetos (máquinas, móveis, salas, edifícios etc.) • Padrões internacionais de medidas antropométricas, antropometria estática e antropometrias dinâmica e funcional UNIDADE 4 42 • O organismo humano e os impactos durante a operação • Projetos e produtos ergonomicamente corretos • Introdução à análise ergonômica do trabalho – AET As características humanas UNIDADE 3 6 A ergonomia possui diversas definições, e todas procuram focar o caráter interdisciplinar e o objetivo do seu estudo, que é a interação entre o ser humano e o trabalho no sistema humano-máquina-ambiente e, de forma mais precisa, as interfaces desse sistema e suas trocas, que resultarão na realização do trabalho. A mais antiga das definições foi formulada pela Ergonomics Research Society – ERS (www.ergonomics.org.uk), da Inglaterra, no ano de 1950: Ergonomia é o estudo do relacionamento entre o homem e o seu traba- lho, equipamento, ambiente e, particularmente, a aplicação dos conheci- mentos de anatomia, fisiologia e psicologia na solução dos problemas que surgem desse relacionamento. (ERS apud ERGONOMIA, 2012) A Associação Brasileira de Ergonomia – Abergo (www.abergo.org.br) adota a definição aprovada em 2000 pela Associação Internacional de Ergonomia (International Ergonomi- cs Association – IEA): Ergonomia (ou fatores humanos) é a disciplina científica que estuda as interações entre os seres humanos e outros elementos do sistema de trabalho, aplicando princípios teóricos, dados e métodos a fim de realizar projetos para otimizar o bem-estar do ser humano e o desempenho geral desse sistema. (DEFINITION…, 2019, tradução nossa) Antes da Segunda Guerra Mundial, a ergonomia focava apenas o binômio homem-má- quina, sendo oficializada como disciplina científica logo após a Segunda Guerra Mun- dial, resultando de um trabalho interdisciplinar que envolveu engenheiros, fisiologistas e psicólogos. A expansão da ergonomia ocorreu de forma horizontal, uma vez que se aplica a quase todas as atividades humanas. Os engenheiros, arquitetos e profissionais que gerenciam de uma maneira geral as atividades humanas, considerando os estudos ergonômicos, serão capazes de projetar edificações, máquinas, produtos e processos de trabalho que visem melhorar a qualidade de vida no trabalho, dos produtos e serviços que resultarão desse trabalho e das atividades humanas de uma forma mais geral. APRESENTAÇÃO 7 ANTÔNIO CARLOS DA FONSECA SARQUIS É mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal Fluminense – UFF (2002), com pós-graduação lato sensu (especialização) em Administração Universitária pela Universidade Veiga de Almeida – UVA (1994), e graduado em Física (bacharelado e licenciatura) pela Faculdade de Humanidades Pedro II – Fahupe (1994) e em Engenharia Civil pela UVA (1985). Atuou como engenheiro civil na EngeRio Engenharia e Consultoria S.A., na área de controle de qualidade de projetos de usinas hidrelétricas (1986-1998), professor de Física no ensino médio (1984-2018) e professor universitário visitante (Uerj, 2001-2004). Hoje, é professor universitário (UVA, desde 1986) e consultor independente de qualidade, ergonomia e qualidade de vida no trabalho (desde 2005). Escreveu diversos artigos científicos sobre temas ligados à área de engenharia, qualidade e ergonomia. AUTOR C. Lattes http://lattes.cnpq.br/7256892667978336 Introdução à ergonomia UNIDADE 1 9 No início do século XVIII, junto com a Revolução Industrial, nascia a ergonomia, que logo após a Segunda Guerra Mundial se tornou uma disciplina científica e, de lá até os dias atuais, vem evoluindo e se expandindo por todas as áreas em que existem atividades humanas. Nesse contexto, e de modo a orientar as atividades laborais nos postos de trabalho, viu-se a necessidade de normatizar as rotinas de trabalho por meio da Norma Regulamentadora 17 (ou NR 17, que trata da ergonomia), do Ministério do Trabalho e Emprego, regulamentada pela Portaria nº 3.214, de 8 de junho de 1978, que aprova as normas regulamentadoras do Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT relativas à segurança e medicina do trabalho. Assim, esta primeira unidade identi- ficará as origens da ergonomia e tratará da adequação dos ambientes ergonomicamente deficientes, dentro de suas necessidades reais, propiciando uma condição de redução dos riscos ocupacionais e proporcionando melhor qualidade de vida no trabalho. INTRODUÇÃO Nesta unidade você será capaz de: • Adequar ambientes ergonomicamente deficientes, dentro de suas necessidades reais, propiciando uma condição de redução dos riscos ocupacionais. OBJETIVO 10 Século XVIII: Revolução Industrial e nasci- mento e evolução da ergonomia Como veremos mais adiante, a origem oficial da ergonomia aconteceu no ano de 1949, ocasião em que o engenheiro inglês Kenneth Frank Hywel Murrell oficializou a primeira sociedade de ergonomia do mundo, a ERS. A partir daí foram pensados e criados todos os preceitos que regem a ergonomia. Curiosamente, é possível que os princípios ergo- nômicos tenham surgido nos primórdios da história da humanidade. É provável que o homem, na Pré-História, tenha adaptado a pedra, a madeira e outros objetos às suas necessidades, considerando a anatomia da mão para, de forma eficaz e segura, manu- sear ferramentas utilizadas para caça e defesa pessoal (Figura 1). Basta observarmos o formato dos objetos daquela época que essa suposição se torna bastante evidente. De acordo com os elementos que deveriam ser trabalhados e com as características dos trabalhadores, era estabelecido um padrão (formato e dimensões) para as ferramentas, que também eram feitas utilizando madeira e ferro. Figura 1: Martelo pré-histórico feito de pedra e madeira. O Renascimento (século XIV até o início do século XVII) marcou o começo dos estudos na área da ergonomia, destacando-se Leonardo da Vinci (1452-1519), com a figura do Homem vitruviano, de sua autoria, que representa o ideal clássico da beleza, do equilí- brio, da harmonia e da perfeição do corpo humano em suas proporções. 11 Figura 2: Homem vitruviano. A chegada da Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII, ge- rou uma série de avanços tecnológicos e, como consequência, o trabalho mereceu uma nova abordagem, notadamente nos processos de produção. Consequentemente, a con- cepção de ergonomia foi tomando novas proporções, abrangendo o regime de trabalho, com jornada média de 16 horas diárias e as condições em que era executado, tais como higiene, níveis de ruído, indumentária apropriada e, sobretudo, segurança. A primeira fase trata do surgimento da ergonomia como ciência, e o ano de 1949 é o mar- co inicial da ergonomia, logo após a Segunda GuerraMundial, encerrada em 1945. No decorrer da guerra, tanques, aviões, armas de diversos tipos e submarinos tiveram um rápido desenvolvimento, assim como os radares e os sistemas de comunicação mais avançados. Esses equipamentos, na sua grande maioria, não eram adequados às ca- racterísticas perceptivas daqueles que os operavam, tendo como consequências erros, acidentes e mortes. A morte de pilotos e soldados em combate representava sérios pro- blemas para as Forças Armadas. Esses e outros problemas estimularam diversos estu- dos e pesquisas realizados por engenheiros e cientistas de todas áreas, buscando novas concepções de projetos desenvolvidos para modificar comandos (botões, gatilhos, ala- vancas, cabos etc.) e painéis, além da melhoria na amplitude do campo visual no maqui- nário de guerra. Iniciava-se, assim, a adaptação de tais equipamentos aos soldados, que tinham que utilizá-los em condições críticas, ou seja, em combate. Logo após a Segunda Guerra Mundial, muitos dos profissionais envolvidos nesses projetos reuniram-se na In- glaterra para trocar ideias sobre o assunto. Nessa mesma época, a Força Aérea e a Mari- nha dos Estados Unidos montaram laboratórios voltados para pesquisas em ergonomia (human factors, ou “fatores humanos”), com esses mesmos objetivos. 12 Logo em seguida, em decorrência da “corrida espacial” e da Guerra Fria entre a URSS e os EUA, a Agência Aeroespacial Norte-Americana – Nasa promoveu um enorme de- senvolvimento da ergonomia, que rapidamente se espalhou por todas as indústrias da América do Norte e da Europa. Nessa primeira fase da ergonomia, percebe-se uma maior atuação no que diz respeito às dimensões de objetos e ferramentas, visando a uma melhor utilização e desempenho por parte dos operadores, bem como aos painéis de controle dos postos de trabalho. Ainda nessa fase, o trabalho dos cientistas concen- trava-se mais no redimensionamento dos postos de trabalho, melhorando o alcance motor e visual dos trabalhadores. A segunda fase da ergonomia é marcada pela ampliação da sua área de atuação, rela- cionando-se com outras ciências e utilizando-as para o desenvolvimento de suas pró- prias técnicas como ciência. Assim, passa o ergonomista a projetar postos de trabalho que isolam os trabalhadores do ambiente industrial agressivo, seja por agentes físicos (calor, frio, ruído etc.), seja pela intoxicação por agentes químicos (vapores, gases, par- ticulado sólido etc.). O que se percebe é uma abrangência maior do ergonomista nessa fase, adequando o ambiente e as dimensões do trabalho ao homem. A partir da terceira fase, já nos anos 1980 e também nos dias de hoje, atuando mais na região da Europa, disseminando-se a seguir pelo resto do mundo, a ergonomia passa a atuar em outro ramo científico, mais relacionado com o processo cognitivo do ser humano, estudando e elaborando sistemas de transmissão de informações mais ade- quados às capacidades mentais do homem, muito comuns junto à informática e ao controle automático de processos industriais. Temos, nos dias de hoje, como exemplo a indústria automotiva, que inseriu nas linhas de produção processos autônomos, com a utilização de robôs, o que diminui em números significativos o número de acidentes que ocorriam na atividade quando executada exclusivamente por seres humanos. A quarta fase, já com uma visão mais ampla da ergonomia, que já não se restringe ape- nas às relações homem versus máquina e atividade versus ambiente, passa também a englobar o contexto organizacional, psicossocial e político de um sistema. Entre outras, a principal diferença das fases anteriores caracteriza-se por dar prioridade ao processo participativo que envolve recursos, equipe, jornada e projeto de trabalho, o que garante a aplicação da ergonomia com melhores resultados, diminuindo erros e gerando maior aceitação e colaboração por parte dos envolvidos. 13 A palavra ergonomia vem da junção das palavras gregas ergon (“trabalho”) e nomos (“leis”, “preceitos”), que significam “ciência do trabalho”, matéria voltada para abordagem sistêmica da atividade humana em todos os seus aspectos. Essencialmente, está orientada a analisar a adequação dos tipos de trabalho ao ser humano e observar o ambiente em que esse trabalho é executado. O conceito da palavra trabalho é bastante amplo, abrangendo todas as ações de- senvolvidas com a utilização de equipamentos e tudo que diz respeito à relação ser humano versus produção. Saiba mais E quando teve início a ergonomia no Brasil? No Brasil, foi apenas a partir da década de 1970 que pesquisadores de várias universida- des brasileiras começaram a introduzir a ergonomia como conteúdo nas diversas áreas do conhecimento. O primeiro trabalho acadêmico foi publicado no ano de 1973, com o título Ergonomia: notas de classe, escrito por ltiro lida e Henri A. J. Wierzbicki. A Abergo surge em 1973 como entidade sem fins lucrativos que estuda a prática e a di- vulgação das interações dos seres humanos com a tecnologia, a empresa e o ambiente, considerando habilidades e limitações no atendimento das necessidades laborais. O Brasil, nos dias de hoje, conta com uma grande quantidade de profissionais direta- mente ligados à área e que se preocupam com a saúde ocupacional, a organização do trabalho e os projetos de equipamentos e produtos, destinando um uso ergonomica- mente correto. MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 1 e veja o conteúdo complementar indicado sobre história e evolução da ergonomia. 14 NR 17 – Ergonomia Uma das principais causas de doenças adquiridas no ambiente de trabalho é o risco ergonômico, que, além de tudo, é um dos principais responsáveis por diversos tipos de doenças ocupacionais. Um ambiente de trabalho inadequado para execução de uma de- terminada atividade laboral e que seja falho em relação ao aspecto ergonômico é fator determinante para adquirir doenças físicas e mentais. Caso você trabalhe, já se ques- tionou se a sua empresa considera a ergonomia e a NR 17 no ambiente de trabalho? Trata-se de um conceito bastante simples: a NR 17 é o referencial para as diretrizes que regulam a ergonomia no ambiente de trabalho. Considerando-se o Guia Trabalhista, a NR 17 estabelece os parâmetros necessários para a adequação do trabalho às características psíquicas e fisiológicas do trabalhador, pro- porcionando conforto na atividade a ser exercida, segurança e desempenho eficiente, conseguindo-se um substancial aumento da produtividade, ou seja, regulamenta a ergo- nomia nos postos de trabalho, visando ao conforto essencial, à diminuição de lesões e ao aumento da produtividade dentro das empresas. A NR 17 é de importância ímpar, uma vez que grande parte das doenças laborativas se devem à inadequação do ambiente para o trabalhador a algum tipo de risco ergonômico em suas tarefas rotineiras, tais como: • Trabalhos realizados em pé durante longos períodos sem descanso. • Pouca atividade programada ou mal programada, o que gera monotonia e perda de sincronismo com as atividades. • Grande esforço no manuseio de cargas pesadas. • Esforços repetitivos (lesão por esforço repetitivo – LER). A NR 17, além de proporcionar cuidado com a saúde do trabalhador, é importante para que os empresários tomem consciência de que o desconforto no ambiente de trabalho pode gerar, entre pequenos problemas, a queda de produtividade da empresa, indicador importante para a meta de qualquer organização. A aplicação da ergonomia no ambiente de trabalho nos traz a certeza de um ambien- te de convívio de pessoas saudáveis e bem-dispostas, o que, obviamente, gera grande motivação para a execução das atividades laborais e, consequentemente, um melhor desempenho dos trabalhadores. 15 Entre os inúmeros benefícios, podemos verificar a diminuição do absenteísmo devi- do a problemas de saúde tais como lesões, disfunções por movimentos repetitivos e problemas posturais, mostrando que o uso da ergonomia no ambiente de trabalho é benéfico para os empresários,uma vez que funcionários saudáveis, motivados e pro- dutivos impactam diretamente o faturamento e crescimento da empresa no cenário mercadológico atual. Quais são as consequências do descumprimento da NR 17? O não cumprimento da NR 17 pelos empregados e empregadores pode acarre- tar inúmeras consequências tanto para a empresa quanto para o funcionário. Vejamos abaixo quais são: Descumprimento da norma pelo empregador: Se houver alguma irregularidade durante a fiscalização, as empresas sofrerão notificação específica, e será estipulado um prazo de um a 60 dias para que as correções sejam realizadas. Decorrido o prazo da notificação, outra inspeção acontecerá; se houver a continuidade da irregularidade, inicia-se o procedimen- to para a aplicação de multa à empresa, que poderá responder processo peran- te a Justiça do Trabalho. Descumprimento da norma pelo empregado: No caso de recusa injustificada do empregado ao cumprimento da NR 17, é caracterizado o ato faltoso, e ele estará suscetível às penalidades previstas na legislação, podendo chegar a ser demitido por justa causa. Portanto é extremamente importante que as empresas deem a devida atenção à aplicação da ergonomia dentro do ambiente de trabalho, a fim de se evitarem futuros problemas trabalhistas. Saiba mais Fonte: NR 17 (BRASIL, 1978). 16 Elaboração de um programa de ergonomia adequado às atividades laborais desenvolvidas na empresa. Convidar os colabora- dores a participar desse programa, realizando aperfeiçoamentos no programa, sempre que se fizerem necessários. Conscientizar os colaboradores importância de seguirem à risca todas as normas estabelecidas e embasadas na NR 17. Capacitações e palestras sobre os riscos ergonômicos e sua prevenção. Levantamento de todos os riscos ergonômicos. Evidenciar a importância do tema, utilizando car- tazes e outros meios. Sempre analise as questões que podem ser melhoradas e aperfeiçoadas de modo a promover um ambiente em que a qualidade de vida dos colaboradores seja a principal motivação para o trabalho, mas sempre observando a impor- tância de otimizar a produtividade, que ocorrerá de forma natural. Importante MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 1 e veja o conteúdo completo da NR 17 e o Guia Trabalhista. Para aplicar a NR 17 nos postos de trabalho é necessário criar um planejamento adequa- do e preciso. Para tanto, sugerem-se os seguintes passos: 17 Análise de sistemas, análise do posto de trabalho, concepção e conscientização Neste tópico focaremos o projeto de um posto de trabalho, de modo a permitir que o trabalhador execute as suas atividades com conforto e eficiência. Para que o chão de fábrica ou escritório funcione bem, é de suma importância que cada posto de trabalho funcione bem. Uma visão mais tradicional dos postos de trabalho está embasada no modelo taylorista, que é uma concepção de produção baseada em um método científico de organização do trabalho desenvolvido pelo engenheiro americano Frederick Winslow Taylor (1856- 1915), que se baseia no estudo dos movimentos do corpo humano na realização de uma determinada tarefa e o correspondente tempo médio gasto para executá-las. Essa vi- são preocupava-se exclusivamente com a economia de movimentos, que tinha como consequência um aumento considerável da produtividade, sem considerar as questões ergonômicas. Resumidamente, esse modelo era chamado de “estudo de tempos e movi- mentos”. Esse enfoque difundiu-se durante a primeira metade do século XX, sendo ainda adotado por muitas empresas. Na visão da ergonomia, um posto de trabalho, fisicamente falando, é a configuração fí- sica do sistema homem-máquina-ambiente. Constitui a unidade (célula) física produtiva formada por um ser humano, o(s) equipamento(s) que ele utiliza para execução de um determinado trabalho e o ambiente (espaço físico) que o envolve. Fica fácil entender que uma fábrica ou escritório se constituem de conjuntos de postos de trabalho, sendo o ser humano o “órgão” central dessa célula. Nos dias de hoje, devido às novas demandas e às novas formas de trabalho, tais como o home office, entre outras, a ideia de posto de trabalho tem apresentado diferentes aspec- tos, quando a comparamos com tempos passados, o que não faz com que a adequação da ergonomia seja deixada em segundo plano. Nos projetos dos postos de trabalho temos que considerar as aplicações da biomecâ- nica ocupacional, que é uma parte da biomecânica geral que estuda os movimentos do corpo e das forças aplicadas durante uma determinada atividade que deve ser feita em um determinado tipo de trabalho. Analisa a postura, as forças aplicadas e suas conse- quências, preocupando-se com a atuação do trabalhador nesse posto de trabalho e sua interação com ferramentas, máquinas e materiais, com o objetivo de minimizar os riscos osteomusculares provenientes da atividade desenvolvida. 18 Existem produtos e postos de trabalhos totalmente inadequados sob o ponto de vista da ergonomia e que causam problemas à saúde dos trabalhadores, causando desde es- tresse muscular a incômodos diversos e dores intermitentes, reduzindo sua eficiência e levando à consequente perda de produtividade. Providências simples, como a regu- lagem da altura de uma cadeira, sua inclinação, mesa apropriada, melhoria do layout, a concessão de horários para interrupção da tarefa, para que o trabalhador possa fazer uma pequena caminhada, relaxar e alongar a musculatura, ajudariam a diminuir tais incômodos e os riscos a eles inerentes. A ergonomia contribui para o planejamento, o projeto e a avaliação das atividades realizadas nos postos de trabalho, de produtos, sistemas e ambientes para torná-los compatíveis com as necessidades, habilidades e limitações dos indivíduos que, segundo a legislação relativa à inclusão no ambiente de trabalho, devemos levar em consideração. Regulagem da altura de uma cadeira, sua inclinação. Mesa apropriada. Melhoria do layout. Concessão de horários para interrupção da tarefa para que o trabalhador possa fazer uma pequena caminhada, relaxar e alongar a musculatura. 19 A ergonomia contribui para o planejamento, o projeto e a avaliação das ativida- des realizadas nos postos de trabalho, de produtos, sistemas e ambientes para torná-los compatíveis com as necessidades, habilidades e limitações dos indi- víduos que, segundo a legislação relativa à inclusão no ambiente de trabalho, devemos levar em consideração. Importante Os sistemas e projetos dos postos de trabalho podem variar segundo a área de atuação. No entanto as atividades são sempre focadas em garantir que um sistema ou produto esteja de acordo com as necessidades dos usuários e, geralmente, incluem a investiga- ção das habilidades psicofisiológicas do corpo humano, bem como suas limitações. No mesmo contexto, prescreve-se analisar e avaliar os seguintes fatores, ligados aos postos de trabalho de uma maneira geral: Riscos gerados pela própria natureza do ambiente de trabalho. Maneira pela qual as pessoas manuseiam máquinas e equipamentos. Com base nos dados levantados da análise anterior, elaborar projetos, visando às melhorias necessárias, de modo a atender o que determina a NR 17 no que tange à adequação dos sistemas e postos de trabalho e à criação de manuais que sirvam de orientação e capacitação dos trabalhadores, garantindo que os novos sistemas e produtos sejam utilizados de forma correta. Para realizar todas essas e outras análises, os ergonomistas devem ter um conheci- mento avançado em diversos campos do conhecimento, como antropometria e biome- cânica, anatomia e fisiologia humanas, psicologia, engenharia e qualquer outro campo 20 que seja necessário à sua prática. Sendo assim, podemos inferir que a ergonomia se trata de uma disciplina transdisciplinar. Essa transdisciplinaridade será estudada na próxima unidade. MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 1 e veja o conteúdo completo da NR 17 e o Guia Trabalhista. Antropometriae biomecânica nos postos de trabalho Os principais fatores que interferem na saúde física dos trabalhadores em um posto de trabalho são exatamente a postura e o movimento realizado nas ativi- dades laborais desenvolvidas no posto. As demandas físicas na execução dessas tarefas utilizam músculos e articula- ções que, quando exigidos sob grande estresse e de forma constante, podem apresentar lesões, dores, podendo comprometer os movimentos normais do trabalhador. Para adequar os movimentos e a postura do trabalhador às tarefas executadas nos postos de trabalho, torna-se necessária uma análise biomecânica e postu- ral que oriente de forma racional os movimentos adequados, para que a saúde do trabalhador não fique comprometida. Sendo assim, o profissional, normal- mente da área de saúde, deverá ter conhecimento dos princípios básicos que compõem a biomecânica e a antropometria. Segundo Rasch et al., a biomecânica é definida como o estudo da aplicação dos “princípios de engenharia a sistemas biológicos, ou o estudo das forças internas e externas geradas por, e atuantes sobre, sistemas biológicos e dos efeitos dessas forças” (RASCH et al., 1991, p. 175 apud FATORES…, 2014). Saiba mais 21 A biomecânica analisa o movimento humano, considerando sua anatomia e fi- siologia, embasando-se nos princípios da mecânica clássica de Isaac Newton. Segundo Zilio, a antropometria (do grego anthropos, “homem”, e metron, “medi- da”) “é o conjunto de processos ou técnicas de mensuração do corpo humano e de suas várias partes” (ZILIO, 2005, p. 25 apud FATORES…, 2014). Segundo Dul e Weerdmeester (2004, p. 10 apud FATORES…, 2014), a antropo- metria “ocupa-se das dimensões e proporções do corpo humano”. Visando sempre à saúde do trabalhador, a antropometria adequará as dimen- sões das ferramentas e dos objetos destinados ao trabalho, considerando as características físicas de cada trabalhador, sendo respeitados seu peso, sua altura e suas demais habilidades, englobando tanto os profissionais da saúde como das demais áreas do conhecimento, a saber: engenheiros, administrado- res, assistentes sociais etc. MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 1, clicando no link da Abergo, e acompanhe a evolução de grupos de pesquisa em ergonomia no Brasil e que se encontram cadastrados no CNPQ. NA PRÁTICA Na engenharia de produção e na maioria das profissões, a ergonomia sempre se apresentará com relevante importância em qualquer ambiente de produção, devido às vertentes dentro de um ambiente produtivo, que vai desde um simples escritório até sistemas mais complexos, como a linha de produção de 22 uma montadora de veículos ou até mesmo uma fábrica de aviões comerciais. Nota-se de forma cada vez mais evidenciada que as inovações nos ambientes de trabalho e seus respectivos postos de trabalho vêm apresentando novos paradigmas em relação ao trabalho, o que tem levado as organizações a rever a relação homem-máquina-ambiente, projetando novos postos de trabalho ergonomicamente adequados e adaptando, quando possível, os postos de trabalhos já existentes, de modo a proporcionar um local mais adequado e confortável para os trabalhadores que nele atuam. No decorrer desta unidade procuramos expor de forma bastante objetiva os benefícios da ergonomia, que contribui para a análise de postos de trabalho, evitando a utilização de métodos inadequados na execução das tarefas, diminuindo os acidentes de trabalho, que geram grandes preocupações no ambiente industrial, melhorando assim a produtividade, a qualidade do produto e/ou serviço e o bem-estar dos trabalhadores. 23 Resumo da Unidade 1 Nesta unidade você iniciou o estudo da ergonomia com uma visão panorâmica da disciplina e dos conceitos a ela relacionados e sua localização no tempo e no espaço, bem como sua evolução no mundo e, principalmente, no Brasil. Em seguida, foi possível verificarmos que a ergonomia passou a ser estudada como ciência a partir da Segunda Guerra Mundial, expandindo-se de forma horizontal e englobando quase todos os tipos de atividades humanas, preocupando-se inicialmente com a aplicação da ergonomia, principalmente na indústria, estudando as relações homem-máquina. De modo a entendermos melhor a evolução da ergonomia, passamos a fundamentar as bases desse estudo, tendo como base a regulamentação do trabalho no Brasil no que diz respeito à ergonomia e que é regido pela NR 17, que estabelece os parâmetros que norteiam a adequação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente, melhorando a produtividade da empresa. Terminamos a unidade caracterizando as necessidades que os postos de trabalho devem atender para se adequarem ao que é preconizado pela NR 17 e a criação de manuais que sirvam de instrumento na orientação e capacitação dos trabalhadores, garantindo que os novos sistemas e produtos sejam utilizados de forma correta, destacando que os ergonomistas devem ter um conhecimento avançado em diversos campos do conhecimento, como antropometria e biomecânica, anatomia e fisiologia humanas, psicologia, engenharia e qualquer outro campo que seja necessário à sua prática, conferindo à ergonomia um caráter transdisciplinar, que será estudado na Unidade 2. Até a próxima unidade! Nesta unidade destacaram-se três conceitos fundamentais para a compreen- são da introdução ao estudo da ergonomia: Revolução Industrial, norma regula- mentadora sistemas e postos de trabalho. CONCEITO 24 Referências BRASIL. Norma Regulamentadora 17 – NR 17: ergonomia. Aprovada pela Portaria nº 3.214, de 8 de junho de 1978. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 6 set. 1978, Disponível em: http://www.guiatrabalhista.com.br/legislacao/nr/nr17.htm. Acesso em: 1º maio 2019. CORRÊA, V. M.; BOLETTI, R. R. Ergonomia: fundamentos e aplicações. Porto Alegre: Bookman, 2015. DEFINITION and domains of ergonomics. International Ergonomics Association. Thônex, c2019. Disponível em: https://www.iea.cc/whats/. Acesso em: 3 mar. 2019. ERGONOMIA. Portal Educação. São Paulo, 19 jan. 2012. Disponível em: https://www. portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/fisioterapia/ergonomia/10546. Acesso em: 3 mar. 2019. FATORES biomecânicos e fatores antropométricos no ambiente de trabalho. Portal Edu- cação. São Paulo, 11 mar. 2014. Disponível em: https://www.portaleducacao.com.br/con- teudo/artigos/medicina/fatores-biomecanicos-e-fatores-antropometricos-no-ambiente- -de-trabalho/54954. Acesso em: 3 mar. 2019. IIDA, I.; BUARQUE, L. Ergonomia: projeto e produção. 3. ed. São Paulo: Blucher, 2016. KROEMER, K.; GRANDJEAN, E. 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Podemos observar que, em algumas empresas, as aplicações das técnicas ergonômicas são mais abrangentes do que em outras, levando ao envolvimento e participação das hierarquias administrativas e profissionais dessas empresas. Devido à interdisciplinaridade, um dos conceitos principais aserem abordados nesta unidade, iremos verificar a ampla aplicabilidade da ergonomia em diversas profissões, uma vez que, ao projetarmos postos de trabalho e equipamentos, aplicaremos a ergonomia desde a concepção desses projetos (ergonomia de concepção). Caso os postos de trabalho e equipamentos já existam e busquem melhorias das condições de trabalho, promoveremos adequações dos equipamentos e do ambiente, aplicando as ações corretivas necessárias para que fiquem em conformidade com as prescrições ergonômicas relativas a tais equipamentos e ambientes, considerando-se a forma como serão utilizados (ergonomia de correção). Para que a melhoria das condições de trabalho seja contínua, torna-se primordial a criação de uma cultura organizacional voltada para as questões ergonômicas, em que caberá à empresa informar e capacitar seus colaboradores, visando à conscientização ampla (ergonomia de conscientização) e envolvendo assim a alta administração da empresa e seus empregados — o que levará à participação de todos os envolvidos, independentemente de níveis hierárquicos (ergonomia de participação). INTRODUÇÃO OBJETIVO Nesta unidade, você será capaz de: • Aplicar os conceitos de ergonomia no contexto organizacional, a fim de contribuir para melhorar a eficiência, a confiabilidade e a qualidade das operações industriais. 27 Caráter interdisciplinar da ergonomia Este tópico pretende deixar claro que a ergonomia não é uma ciência específica, mas se faz presente em várias ciências e profissões, adquirindo, assim, um caráter de multi- disciplinaridade e, na maioria das vezes, de interdisciplinaridade. A ergonomia não existe como uma ciência pura, pois o especialista em ergonomia deve ao mesmo tempo, mes- mo que de forma não muito profunda, ter conhecimentos de engenharia, medicina, psi- cologia, antropometria, desenho etc. Da mesma forma que existem engenheiros que se especializam em ergonomia, há também médicos, psicólogos, desenhistas e vários ou- tros profissionais ligados a diversas outras áreas do conhecimento que se especializam em ergonomia. O campo de aplicação é vasto, devido às inúmeras atividades laborais desenvolvidas pelo ser humano, o que obviamente leva a esse caráter multidisciplinar A solução para a adaptação do ser humano ao trabalho não é trivial e muito menos pode ser resolvida nas primeiras tentativas, pois devemos considerar o universo que abrange todo o trabalho que um ser humano pode realizar, considerando-se o caráter interdiscipli- nar da ergonomia como ciência. O acervo do conhecimento retido na área da ergonomia, obtido em diversas pesquisas, aponta princípios gerais e medidas da capacidade do ser humano para permitir projetos de máquinas, ferramentas, sistemas e ambientes de tra- balho que preservem a integridade física e psicológica do ser humano no desempenho das suas funções laborais. Totalmente baseada e fundamentada nos conhecimentos das ciências humanas, a ergo- nomia adquire um caráter interdisciplinar por se relacionar direta ou indiretamente com diversas áreas de investigação e profissões, entre as quais podemos destacar: - Medicina: médicos especializados em medicina do trabalho são capazes de ajudar na identificação de locais que podem originar acidentes ou doenças advindas do trabalho, além de poder acompanhar a saúde dos trabalhadores. - Segurança do trabalho: analistas do trabalho ajudam no estudo de métodos, tempos, movimentos e ajustes nos postos de trabalho. - Psicologia: psicólogos, normalmente envolvidos em processos de seleção, treinamen- to e capacitação dos trabalhadores, podem ajudar na implantação e implementação de novos métodos. 28 - Engenharia: talvez um dos maiores usuários da ergonomia, os engenheiros podem aju- dar nos aspectos técnicos, projetando e modificando máquinas e ambientes de trabalho, implantando, em seus projetos, conceitos que visem à plena aplicação da ergonomia. - Desenho industrial: desenhistas industriais poderão trabalhar de forma conjunta com engenheiros, principalmente em engenharia de produção, civil e mecânica, adaptando máquinas, equipamentos diversos, projetos de postos de trabalho e sistemas de comuni- cação, visando à utilização correta sob o ponto de vista ergonômico. - Educação física e fisioterapia: educadores físicos e fisioterapeutas podem desenvol- ver em conjunto técnicas e exercícios para fortalecer a musculatura, bem como para desenvolver uma postura correta, visando ao tipo de atividades que o trabalhador desen- volve em seu posto de trabalho. Estabelecer programas de aptidão física e implementar a ginástica laboral, como já ocorre em muitas empresas, são exemplos de como esses profissionais podem atuar. Cabe ainda ressaltar, para ficarmos mais de acordo com as atuais aplicações da ergo- nomia, questões relacionadas tanto aos serviços de um modo mais geral como também a vida diária, tais como: ergonomia nas atividades domésticas (acidentes domésticos); no ensino (carteira escolar, cor da sala de aula, iluminação etc.); no transporte (urbano e rodoviário); no projeto de escritórios (aberto e fechado); no projeto de edifícios e espaços públicos (acessibilidade e segurança); ergonomia social. Figura 1: Postura errada e postura correta no trabalho doméstico. Fonte: Grandjean (1973). Más posturas Boas posturas 29 Você sabia... – Que acidentes domésticos são responsáveis por mais de 60% das mortes de crianças no Brasil? (IBGE, 2015). – Que as quedas (tropeços, escorregamentos, escadas) representam 67% das causas de acidentes domésticos? (IIDA; BUARQUE, 2016). – Que o índice de acidentes com motoristas de caminhão está bastante rela- cionado com a hora do dia? É relativamente baixo na parte da manhã, entre 4h e 10h, tende a crescer quando se aproxima a hora do almoço (por volta de 11h e 12h), cai novamente após o horário de almoço (provavelmente devido a um período de descanso), mas começa a aumentar novamente à noite, atingindo o “pico” por volta da meia-noite. O risco de acidente nesse horário é 400% maior, se comparado àquele entre 6h e 8h da manhã (IIDA; BUARQUE, 2016). – Que os “escritórios abertos”, chamados também de escritórios planejados ou landscape offices e conhecidos ainda como estações de trabalho, não costu- mam ter paredes fixas até o teto para subdividir os ambientes? Os postos de trabalho são separados por divisórias baixas e sem portas. Esses escritórios, em comparação com os tradicionais, segundo os ergonomistas, melhoram a comunicação, quebram a monotonia e diminuem o absenteísmo (IIDA; BUAR- QUE, 2016). Curiosidade MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 2 e veja o conteúdo complementar indicado sobre a ergonomia no trabalho. 30 Aperfeiçoamento do sistema homem- -máquina, organização do trabalho e melhoria das condições de trabalho na indústria, na agricultura e na mineração O que é um sistema homem-máquina? O sistema homem-máquina representa uma relação de reciprocidade entre o ser huma- no e a máquina, conforme ilustra a figura abaixo: Figura 2: Processamento das informações no sistema humano-máquina. Fonte: Kroemer e Grandjean (2007). A informação é processada como parte do sistema homem-máquina, o que leva o ser humano a perceber, interpretar e processar a informação recebida pelos órgãos dos sen- tidos. Em seguida, ele/ela parte para o momento de decisão, tomando como base o co- nhecimento adquirido para a operação da máquina (capacitação). Considere um motorista trafegando em uma via pública em que a velocidade per- mitida é de 80 km/h. Ao perceber, pelo velocímetro do veículo (informação), que está a 110 km/h (informação) — portanto, acima do limite permitido para o local —, ele desacelera o veículo (decisão) até que o velocímetro indique uma velocidade Exemplo Interpretação / Decisão Percepção Mostrador Produção Instrumento de controle Manuseio dos controles MÁQUINAOPERADOR 31 menor ou igual aos 80 km/h permitidos para o local (conhecimento). Veja que existeuma grande relação entre o cognitivo, a reação e a informação. A cognição também pode ser descrita em termos de tipos específicos de processos, como atenção, percepção, memória, aprendizado, leitura, fala e audição, resolução de problemas, planejamento, raciocínio e poder de decisão. É importante notar que muitos desses processos cognitivos são interdependentes: vários podem estar envolvidos em uma determinada atividade. É raro que ocorram de forma isolada. Pelo exemplo anterior fica fácil concluirmos a importância da “interface” entre o homem e a máquina, já que por intermédio dessa interface o humano interpretará e processa- rá as informações transmitidas pela máquina para, em seguida, continuar interagindo com ela, tomando as decisões necessárias em função das informações transmitidas por meio da interface. A máquina registra mensagens acessíveis aos usuários (verbais, sonoras ou pictóricas e icônicas) e compreendidas pelo programa (gráficas, verbais e de sinais elétricos). Contém dispositivos de entrada e saída de dados disponibilizados para o intercâmbio de mensagens (mouse, teclado, microfone, tela do monitor) e conta com o auxílio das zonas de comunicação capacitadas em cada dispositivo (barras de tarefas, teclas do teclado, áreas de trabalho e menus no monitor). A adequação ao usuário, ou seja, a usabilidade, e a coerência são atribuições da interface amigável, que deve primar pela facilidade de comunicação, de uso e de aprendizagem. Com toda certeza, a melhoria das interfaces melhora efetivamente a comunicação ho- mem-máquina, tornando a execução do trabalho mais produtiva, segura e confiável. A figura abaixo ilustra a interface de um smartphone da Apple, que nos dias atuais é uma excelente ferramenta de trabalho e comunicação, tanto no dia a dia dos cidadãos como nos ambientes profissionais. Figura 3: Interface amigável do Iphone 6 da Apple. Fonte: Apple (2019). 32 Um dos grandes objetivos deste tópico é a aplicação dos conhecimentos da er- gonomia na organização do trabalho, de modo a diminuir a fadiga, a monotonia, os erros e as doenças ocupacionais, e para que se criem ambientes menos es- tressantes, mais cooperativos e motivadores. Desde o surgimento dos ambientes de trabalho, ficar sentado durante um lon- go período de tempo tornou-se normal. A maioria dos escritórios tem estruturas com cadeiras e mesas, e o colaborador fica sentado cerca de oito horas por dia. Para muitos, trabalhar sentado é algo positivo devido à comodidade da prática, mas diversos estudos indicam que isso pode ser muito prejudicial à saúde. Em pesquisas realizadas por institutos da área de saúde, constatou-se que ficar sen- tado oito horas por dia pode aumentar o risco de morte por doenças cardiovas- culares em até 50%. Para o neurocirurgião Maurício Mandei, o corpo humano não está estruturado para ficar muito tempo parado em uma posição. A falta de movimento faz com que os músculos entrem em estado de fadiga e comecem a doer. E os músculos estão longe de serem os únicos prejudicados. Em entrevista para o New York Times, o pesquisador da Clínica Mayo, James Levine, ressaltou: Passar muito tempo sentado é uma atividade letal. Ao simples ajuste do corpo na cadeira, vários processos negativos se ini- ciam no corpo, a perna perde as atividades elétricas e a quei- ma de caloria diminui em 75%. Após algumas horas sentado, a eficiência da insulina diminui e o corpo fica mais suscetível ao risco de diabetes. (SILVA, 2014) Importante Ao organizarmos o trabalho, devemos considerar dois aspectos de suma importância: a alocação do trabalhador em um tipo de grupo e a do trabalho em turnos diurno e noturno. Saiba mais 33 Na produção industrial, a alocação do trabalhador em grupo é regra geral. Frequente- mente, diferentes tipos de trabalho (produção) dependem do esforço coordenado de cen- tenas e muitas das vezes milhares de pessoas. Cabe ressaltar que de 25% a 35% dos trabalhadores da produção industrial estão alocados em grupos que trabalham no turno noturno, com diferenças profundas em relação ao trabalho realizado no turno diurno. No que diz respeito à indústria, constata-se claramente que a aplicação da ergonomia melhora a forma de o ser humano realizar seus afazeres laborais, bem como o ambiente e a organização do trabalho. Ao aplicarmos a ergonomia na agricultura e na mineração, teremos melhores projetos de máquinas agrícolas e de mineração e, como consequência, a obtenção de melhor quali- dade em tarefas de colheita, transporte e armazenagem. Quando aplicamos a ergonomia no setor de serviços, esperamos avanços nos projetos de sistemas de informação (ergonomia da informática) e também o desenvolvimento de sistemas inteligentes que forneçam suporte para as decisões tomadas em serviços oferecidos por supermercados, bancos, hospitais, entre outros. MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 2 e veja o conteúdo complementar indicado sobre a ergonomia no trabalho rural. 34 Criação de postos de trabalhos inexistentes, produtos que atendam novas tecnologias, bancos, escolas, centrais de abastecimento e novos horários de trabalho Neste tópico introduziremos noções básicas de como devem ser projetados os postos de trabalho inexistentes e produtos ergonomicamente corretos. Será feita também uma análise ergonômica de centrais de abastecimento, bancos, escolas e dos horários de trabalho para atividades que exijam muito além da capacidade humana no trabalho a ser realizado em um dado posto. Define-se posto de trabalho como a configuração física do sistema homem-má- quina-ambiente. É uma unidade produtiva em que ser humano e equipamento compartilham de um mesmo ambiente para execução do trabalho, levando-se em conta o local em que o homem e o equipamento se encontram. Podemos in- ferir que uma fábrica ou um escritório são compostos por um conjunto de postos de trabalho. Importante O projeto ergonômico do posto de trabalho busca maior eficiência do trabalho humano, trazendo segurança, saúde e consequentemente a satisfação do trabalhador. Os proje- tos dos postos de trabalho devem atender aos seguintes objetivos: Garantir posturas adequadas, para que os movimentos corporais necessários à operação de equipamentos e/ou à execução das tarefas possam ser realizados sem prejuízo à saúde do trabalhador. Manter as cargas de trabalho dentro dos limites da tolerância, de modo a di- minuir ou mesmo evitar os estresses físicos (cansaço constante e indolência) e cognitivos (perda de memória, dificuldade em manter a concentração, ansie- dade excessiva, pensamentos acelerados, visão negativa dos fatos e situações e preocupação constante). 35 O enfoque ergonômico busca projetar e desenvolver postos de trabalho que reduzam as exigências físicas e cognitivas. Os objetos a serem manipulados devem ficar na área de alcance dos movimentos corporais necessários para a execução da tarefa. Em ou- tras palavras, o posto de trabalho deve funcionar como um envoltório do trabalhador, ou como uma “roupa confortável” e bem adaptada, em que ele possa realizar o trabalho com eficácia, conforto e segurança. Um bom exemplo são os centros de controle complexos, conforme ilustra a figura abaixo: Figura 4: Centro de Controle da Usina Nuclear de Kursk – Rússia – 23 jun. 2016. O operador monitora as leituras dos dispositivos e equipamentos de trabalho. De modo a projetar produtos chamados de ergonomicamente corretos, a análise ergo- nômica deverá sempre verificar as reais necessidades do usuário para desenvolver um produto que esteja em conformidade com as normas de segurança do trabalho, que tenha design moderno e prático e ofereça conforto. Nos dias de hoje, existe grande preo- cupação em alinhar o design (estética) com a usabilidade do produto (maneira de utilizar de modo a alcançar o desempenho para o qual o objeto foi projetado, sem causar danos à saúde do usuário). Muitas vezes, produtos com design que obedecem às prescrições ergonômicas e em conformidadecom o projeto que lhe deu origem não alcançam o desempenho esperado pelo usuário, pois, de um modo geral, as pessoas não têm o hábito de ler os manuais dos produtos que adquirem. Facilitar a execução das tarefas, permitindo aquisição e processamento de informações e execução de movimentos musculares favoráveis. 36 Fica claro que a adequação ao uso depende bastante do perfeito entendimento do usuário acerca do produto que adquiriu e de suas condições de uso. Somente dessa forma, observaremos o desempenho desejado e o cumprimento da vida útil do produto informada pelo fabricante. Nesse sentido, é sempre útil ressaltar que o produto deverá ser usado conforme as especificações do respectivo “ma- nual do usuário”. Importante A ergonomia direcionada ao projeto de produtos estará sempre focada na usabilidade, ou seja, na facilidade e no conforto do usuário durante o manuseio e a utilização desses produtos, tanto no lar como no uso profissional. Considerando-se que usabilidade rela- ciona-se diretamente com conforto e eficiência, os produtos, ao serem utilizados, não podem provocar acidentes ou induzir a erros seus usuários. De acordo com a espécie de serviço a ser efetuada, seja em escolas, bancos e hospitais, seja em centrais de atendimento, centrais de abastecimento etc., utilizam-se instrumen- tos de trabalho específicos para cada uma das atividades laborais a serem realizadas em cada tipo de posto. Assim, nem sempre o que é confortável e prático para executar uma atividade o será para a execução de outra. Ao planejar ou otimizar a disposição do posto de trabalho, adapte-o ao tipo de serviço a ser realizado. Para isso, vale lembrar que a forma de uso de equipamentos, acessórios, documentos e outros materiais de trabalho também deve ser pensada (BRANDIMILLER, 1999). Ao planejar móveis, são esquemati- zados locais apropriados para a acomodação de mãos, braços, troncos, pés e pernas. Também toma-se certo cuidado para a adequação ao ângulo de visão do trabalhador. É pesquisada, ainda, a movimentação da cabeça e da nuca. Ao iniciar um projeto, determine seu grau de abrangência. Para criar o posto de trabalho, siga estas etapas: Análise da atividade Arranjo físico Dimensionamento do posto de trabalho Construção e teste do modelo Ajustes individuais 37 Quanto ao arranjo físico ou layout, considere a distribuição do espaço e o posiciona- mento dos componentes do posto de trabalho. Nos projetos dos ambientes escolares, considera-se de suma importância o atendimento das prescrições relativas a mobiliário, iluminação, cor das salas de aula, equipamentos de informática, ruídos, temperatura e laboratórios. Tais prescrições são fundamentais para que o professor desempenhe sua missão de ensinar com conforto, segurança e satisfa- ção, de modo que o ensino e o aprendizado possam acontecer dentro do que se espera. Vale ressaltar que alunos e professores permanecem nesse ambiente por cinco horas ou mais ao longo de um dia. A análise ergonômica se faz necessária em qualquer atividade laboral do ser humano, con- siderando-se o caráter multidisciplinar da ergonomia, já visto no início desta unidade. O atendimento a bancos, tanto para clientes como para os funcionários, assemelha-se com o das escolas. Fica claro que os projetos, nesse caso, deverão considerar mobiliário, mesas de computadores (principalmente), caixas, mesas de um modo geral, iluminação, ruídos, temperatura e segurança, que são fundamentais para o funcionamento de uma agência bancária, já que esse ambiente é formado pela composição de diversos postos de trabalho, dependendo do tipo de atendimento oferecido ao cliente e de quem prestará o atendimen- to. É preciso, por exemplo, evitar a formação de filas, de modo que os clientes não per- maneçam em pé por muito tempo. Uma solução para esse problema vem das máquinas de autoatendimento de fácil utilização, com explicações de possíveis dúvidas expostas de forma visível e inequívoca. A figura abaixo ilustra como deve ser um posto de trabalho de um escritório na utilização do computador, segundo os preceitos da ergonomia. Figura 5: Posto de trabalho de um escritório. Fonte: conexaoacademia.wordpress.com Ombros e quadris alinhados Encosto adaptado à curvatura da coluna Descanso de braço na altura do cotovelo Altura do assento abaixo da rótula Pés apoiados no solo ou em descanso para os pés Joelhos discreta- mente abaixo do quadril Punho em uma direção neutra (Sem dobrar) Teclado dire- tamente à sua frente Mouse próximo ao teclado e no mesmo nível https://conexaoacademia.wordpress.com/2013/08/19/ergonomia-no-trabalho 38 Algumas formas de manifestação de desconforto no trabalho: Exemplo Tipo de desconforto Climático Condições do tempo, temperatura e circulação do ar Visual Condições da visão, como irritação e falta de descanso Sonoro Níveis de ruído, de música e de voz Corporal Situação dos músculos e articulações Auditivo Ruído do ambiente e velocidade do vento Olfativo Odores e sua intensidade Respiratório Níveis de poluição e umidade do ar Formas de manifestação MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 2 e veja o conteúdo complementar indicado sobre a ergonomia na atividade de ensino-aprendizado. 39 NA PRÁTICA No exercício da profissão de engenheiro de produção, você irá, na maioria das vezes, elaborar e gerenciar processos de um “chão de fábrica” ou do “setor de serviços”, que hoje também é uma área largamente explorada na engenharia de produção. Você não deverá preocupar-se apenas com os resultados do traba- lho, mas deverá acompanhá-lo desde o planejamento e a execução até a fina- lização. Por ter estudado ergonomia, você sabe que, para atingir os resultados esperados e não perder em eficiência, eficácia e produtividade, torna-se neces- sário e fundamental que os trabalhadores estejam confortáveis no desenvolvi- mento de suas tarefas, que deverão ser analisadas ergonomicamente, assim como as interações humano-máquina, se for o caso. Você estará igualmente confortável aplicando os conhecimentos que adquiriu na disciplina de ergono- mia e obedecerá às seguintes etapas na análise ergonômica, em um processo que esteja sob sua gerência: a) Análise da demanda e do contexto. b) Análise global da empresa nos contextos de condições técnicas, econômi- cas e sociais. c) Análise da população de trabalho. d) Definição das situações de trabalho a serem estudadas. e) Descrição das tarefas prescritas, das tarefas reais e das atividades. f) Análise das atividades – elemento central do estudo. g) Diagnóstico. h) Validação do diagnóstico. i) Recomendações. j) Simulação do trabalho com as modificações propostas. k) Avaliação do trabalho na nova situação. 40 Resumo da Unidade 2 Nesta unidade, aplicamos os conceitos da ergonomia no contexto organizacional, como fator principal para a melhoria de eficiência, produtividade, conforto e qualidade de vida no trabalho, em qualquer atividade laboral do conhecimento humano. Considerando-se o caráter multidisciplinar da ergonomia, observamos sua aplicabilidade em praticamen- te todas as atividades do conhecimento humano, muito além da engenharia. Vimos também que, com os indicadores apropriados, é possível medir a eficiência e a eficácia dos postos de trabalho e planejar sua consequente melhoria em todos os aspectos, principalmente na interação homem-máquina, em busca de conforto e segurança para os trabalhadores. Em seguida, e já com o conhecimento acerca desses indicadores e de sua utilização, passamos aos itens sobre a ergonomia nos projetos de postos de trabalho inexistentes e nos projetos de produtos que utilizam tecnologias para torná-los ergonomicamente corretos, desde que o usuário tenha o perfeito entendimento do seu manuseio e condições de uso, considerando-se que todos os produtos vêm acompa- nhados dos respectivos manuais de utilização. Finalmente, pudemos verificar de forma mais específica a utilização da análise ergonômica em escolas, bancose centrais de atendimento e abastecimento. CONCEITO Nesta unidade, destacaram-se três conceitos fundamentais para a compreensão da aplicação da ergonomia: o caráter multidisciplinar da ergonomia e sua rela- ção com outras profissões, além da engenharia; a interação homem-máquina e a melhoria dos postos de trabalho na indústria e nos serviços; e os produtos ergonomicamente corretos. 41 Referências BRANDIMILLER, P. O corpo no trabalho. Rio de Janeiro: Senac, 1999. CORRÊA, V. M.; BOLETTI, R. R. Ergonomia: fundamentos e aplicações. Porto Alegre: Bookman, 2015. FALZON, P. Ergonomia. 2. ed. São Paulo: Blucher, 2018. GRANDJEAN, E. Ergonomics of the home. London: Taylor & Francis, 1973. IIDA, I.; BUARQUE, L. Ergonomia: projeto e produção. 3. ed. São Paulo: Blucher, 2016. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio – 2014. Portal do IBGE. Rio de Janeiro, 2015. Disponível em: https://www. ibge.gov.br/busca.html?searchword=pnad%202014&searchphrase=all&start=135. Aces- so em: 4 mar. 2019. KROEMER, K.; GRANDJEAN, E. Manual de ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2007. PINHEIRO, A. C.; CARNEIRO, B. M. Conforto ambiental. São Paulo: Saraiva, 2016. SILVA, R. Saúde ocupacional: levante dessa cadeira! Proteção Digital. Nova Hamburgo, 15 ago. 2014. Disponível em: http://www.protecao.com.br/noticias/doencas_ocupacio- nais/saude_ocupacional:_levante_dessa_cadeira!/AQyAA5y4/7043. Acesso em: 4 mar. 2019. https://www.ibge.gov.br/busca.html?searchword=pnad%202014&searchphrase=all&start=135 https://www.ibge.gov.br/busca.html?searchword=pnad%202014&searchphrase=all&start=135 http://www.protecao.com.br/noticias/doencas_ocupacionais/saude_ocupacional:_levante_dessa_cadeira!/AQyAA5y4/7043 http://www.protecao.com.br/noticias/doencas_ocupacionais/saude_ocupacional:_levante_dessa_cadeira!/AQyAA5y4/7043 As características humanas UNIDADE 3 43 Conforme estudado na unidade anterior, ficou claro que o ergonomista deve conhecer minimamente as características físicas e cognitivas do ser humano de modo a poder conceber e adaptar projetos que sejam adequados às suas proporções e possibilidades. O ergonomista ainda deverá ter entendimento da forma como o corpo humano realiza o trabalho e mapear as características do indivíduo que o tornem apto a exercer uma deter- minada função. Nesta unidade, estudaremos os fundamentos de anatomia, cinesiologia, biomecânica funcional e fisiologia humana, que são disciplinas diretamente ligadas à especialização da ergonomia física. A antropometria, que se refere às medidas humanas, será estudada de forma mais detalhada, e, sempre que necessário, será feita a relação entre o conteúdo e a qualidade de vida no trabalho, que na unidade seguinte será tratada com mais profundidade. INTRODUÇÃO OBJETIVO Nesta unidade, você será capaz de: • Dimensionar as soluções ergonômicas às condições e características do indivíduo. 44 O organismo humano e os impactos durante a operação Neste tópico serão apresentados conhecimentos básicos sobre o organismo humano e que são requeridos pela ergonomia. Os conhecimentos das características sensoriais, dos sistemas ósseo e muscular e, também, algumas das funções auxiliares, tais como: circulação, respiração, regulação térmica e outras, são necessários para que se possa conceber o projeto dos postos de trabalho e dimensionar o trabalho humano no am- biente em que irá desempenhar suas atividades laborais. O projeto deverá considerar de um modo geral as principais habilidades e capacidades humanas e, também, agregar conhecimentos sobre as variações das medidas corporais de um indivíduo para ou- tro, além de forças, resistências e as capacidades perceptivas e de processamento de informações, que são necessárias para que as exigências do trabalho humano sejam mantidas dentro de certos limites aceitáveis. A seguir destacaremos e conceituaremos as principais doenças relacionadas ao trabalho e como prevenir o organismo humano, tendo na ergonomia o suporte necessário para que, além da adequação de ambiente e equipamentos, as empresas possam desenvolver programas efetivos para prevenção dessas doenças. Doenças relacionadas ao trabalho Os conceitos básicos referentes ao organismo humano que foram explicados acima estarão relacionados com a maior incidência de doenças laborais e nos ajudarão a en- tender melhor como elas afetam o organismo humano. As enfermidades ocupacionais ou laborais são doenças relacionadas à atividade desen- volvida pelo trabalhador em determinado posto de trabalho e que são contraídas em função das condições ergonômicas do ambiente em que realiza as suas tarefas. Será dada maior ênfase às enfermidades mais encontradas, que são conhecidas como lesões causadas por esforço repetitivo – LER e distúrbios osteomusculares relaciona- dos ao trabalho – Dort (LER/Dort), que por si só englobam mais de 30 doenças laborais cadastradas pela Organização Mundial de Saúde – OMS, tendo como consequência as enfermidades mais encontradas, que são a tendinite (inflamação de tendão) e a tenos- sinovite (inflamação da membrana que recobre os tendões). 45 Passaremos agora a estudar as doenças mais recorrentes e como evitá-las, criando os programas de prevenção baseados no que está prescrito nas legislações brasileira e in- ternacional. As principais causas de afastamento temporário do trabalho são as doenças profissionais ou ocupacionais, acidentes de trabalho e as doenças do trabalho, embora muitos empreguem de forma errônea as doenças ocupacionais e as doenças do trabalho com o mesmo significado, entretanto é importante deixar claro que não são sinônimas. Ambas as formas de doença decorrentes do trabalho são consideradas acidente de trabalho e têm o respaldo da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991: Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do arti- go anterior, as seguintes entidades mórbidas: I - Doença profissional, assim entendida a produzida ou desenca- deada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada ativida- de e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social; II - Doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desen- cadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, constante da rela- ção mencionada no inciso I. (BRASIL, 1991) Importante Vamos às principais doenças: LER/Dort: São doenças contraídas em atividades laborais que requerem do trabalhador muita atenção. Esses tipos de atividades é que são mais suscetíveis de causarem LER e são especificamente provocadas por movimentos repetitivos e/ou por posturas não adequadas para a realização do trabalho — chamadas de posturas antiergonômicas. 46 Um grande exemplo encontra-se no meio rural, em que os cortadores de cana são o gru- po de trabalhadores mais atingidos pelas LER/Dort. O mesmo ocorre na região urbana com outras profissões: bancários, operadores de linha de montagem, digitadores e ope- radores de telemarketing, caixas de supermercados, cabeleireiros e outros estão entre os profissionais nos quais se encontra grande incidência dessas doenças. Entretanto, bal- conistas, professores, seguranças e a maioria dos trabalhadores que exerce suas tarefas em posição estática de pé tendem a desenvolver problemas circulatórios nos membros inferiores. As mulheres que exercem medicina e jornalismo e as policiais militares, por exemplo, desenvolvem endometriose devido à exposição em situações de excessivo es- tresse. Os trabalhadores que atuam na mineração e refinarias de níquel, por exemplo, são mais acometidos por câncer na traqueia. Existem outras doenças ocupacionais em que a inalação de gases e outras substâncias podem afetar os pulmões, levando o trabalha- dor a crises de asma e asbestose. O quadro abaixo evidencia a relação entre trabalho e algumas patologias: Lesões Causas ocupacionais Exemplos Alguns diagnósticosdiferenciais Epicondilites do cotovelo Movimentos com esforços estáticos e preensão prolon- gada de objetos, principalmente com o punho estabiliza- do em flexão dorsal e nas pronossupina- ções com utilização de força. Apertar parafu- sos, jogar tênis, desencapar fios, tricotar, operar motosserra. Doenças reumá- ticas e metabóli- cas, hanseníase, neuropatias periféricas, trau- mas e forma T de hanseníase. Síndrome do canal cubital Flexão extrema do cotovelo com ombro abduzido; vibrações. Apoiar cotovelo em mesas. Epicondilite medial, sequela de fratura, bursite olecraniana e forma T de han- seníase. Saiba mais 47 Lesões Causas ocupacionais Exemplos Alguns diagnósticos diferenciais Síndrome do canal de Guyon Compressão da bor- da ulnar do punho. Carimbar. Cistos sinoviais, tumores do nervo ulnar, tromboses da artéria ulnar, trauma, artrite reumatoide etc. Síndrome do desfiladeiro torácico Compressão sobre o ombro, flexão lateral do pescoço, elevação do braço. Fazer trabalho manual sobre veículos, trocar lâmpadas, pintar paredes, lavar vidraças, apoiar telefones entre o ombro e a cabeça. Cervicobraquial- gia, síndrome da costela cervical, síndrome da primeira costela, metabólicas, artrite reumatoide e rotura do su- praespinhoso. Síndrome do interósseo anterior Compressão da metade distal do antebraço. Carregar objetos pesados apoia- dos no antebraço. Síndrome do pronador redondo Esforço manual do antebraço em pronação Carregar pesos, praticar muscu- lação, apertar parafusos. Síndrome do túnel do carpo. Síndrome do túnel do carpo Movimentos repeti- tivos de flexão, mas também extensão com o punho, principalmente se acompanhados por realização de força. Digitar, fazer montagens in- dustriais, empa- cotar. Menopausas, ten- dinite da gravidez (particularmente se bilateral), artrite reumatoi- de, amiloidose, diabetes, lipomas, neurofibromas, insuficiência renal, obesidade, lúpus eritemato- so, condrocalci- nose do punho, trauma. 48 Fonte: Instituto Nacional do Seguro Social (2002). Além das doenças aqui mencionadas, temos a perda auditiva induzida por ruído, devido a longo tempo de exposição em ambientes de ruídos intensos. A NR 15 do Ministério do Trabalho, além dessa doença, fala de outras doenças insalubres e como preveni-las. Lesões Causas ocupacionais Exemplos Alguns diagnósticos diferenciais Tendinite da porção longa do bíceps Manutenção do an- tebraço supin ado e fletido sobre o braço ou do membro su- perior em abdução. Carregar pesos. Antropatias metabólicas e endócrinas, artrites, osteofi- tose da goteira biciptal, artrose acromioclavicular e radioculopatias (C5-C6). Tendinite do su- praespinhoso Elevação com ab- dução dos ombros associada à eleva- ção de força. Carregar pesos sobre o ombro, jogar vôlei ou peteca. Bursite, trauma- tismo, artopatias diversas, doenças metabólicas. Tenossinovite dos extensores dos dedos Fixação antigravita- cional do punho; movimentos repetiti- vos de flexão e ex- tensão dos dedos. Digitar, operar mouse. Artrite reumatoi- de, gonocócica, osteoartrose e distrofia simpáti- co reflexa (síndro- me ombro-mão). MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 3 e veja o conteúdo sobre a NR 15 do Ministério do Tra- balho indicado como material complementar pelo professor. 49 MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 3 e veja o conteúdo sobre as doenças ocupacionais indicado como material complementar pelo professor. 50 Projetos e produtos ergonomicamente corretos Do ponto de vista ergonômico, não podemos considerar os produtos como simples objetos que satisfazem as necessidades dos indivíduos, mas devemos vê-los, também, como objetos que servem para o ser humano executar determinadas funções, consi- derando-se a segurança e o conforto no seu manuseio; assim, os produtos passam a fazer parte de um sistema mais complexo, que chamamos de sistema homem-máqui- na-ambiente. Com isso, fica clara a preocupação da ergonomia em estudar esses sistemas, para que máquinas, equipamentos e o próprio ambiente proporcionem harmonia no funciona- mento com o homem, o que garantirá adequação ao uso e desempenho. A economia globalizada dos dias atuais tem proporcionado uma aproximação mais ampla entre esses mercados. Essa maior interação incentiva o aumento da concorrência entre os produtos, devido aos seus diferenciais. Com a necessidade das empresas em conquistar fatias maiores desses mercados de- vido à concorrência, elas são obrigadas a oferecer nos seus produtos mais diferenciais a fim de que se tornem mais competitivos que os demais concorrentes e apresentem uma melhor configuração ergonômica. Verifica-se, então, que a ergonomia vem ajudan- do as empresas na conquista de novos mercados e na manutenção dos mercados nos quais já estejam atuando. Produtos projetados de forma ergonômica permitem que sejam usados por pessoas considerando-se os diversos níveis de cultura, faixa etária, capacida- des físicas e mentais, forma e tamanho do corpo, força física, habilidades di- versas, linguística e até mesmo paciência em aprender a utilizá-los de forma correta, de modo a tirar o maior desempenho possível. Importante 51 O papel dos projetistas e designers de produtos tem sido diminuir a distância entre a funcionalidade e estética desses produtos, incorporando ao design as característi- cas da ergonomia que levarão ao melhor desempenho na utilização desses produtos. Como princípio norteador, todo projeto ergonômico tem na sua concepção produtos que promovem efeitos desejáveis sobre o seu usuário, e não efeitos que venham a ser prejudiciais. As pessoas que realizam as tarefas são as mais indicadas para definir as condições ideais de trabalho e, portanto, devem ser ouvidas no momento em que um projeto ― seja de um produto, seja de um equipamento e dos postos de trabalho ― encontra-se na fase de concepção, pois assim haverá mais consistência entre o que é constatado na prática e o que é “dito” pela teoria. Para isso, a metodologia ergonômica se insere como a mais indicada para avaliação dos postos de trabalho. Segundo Moraes e Mont’Alvão: É neste momento que métodos e técnicas utilizados pela ergonomia, como observação assistemática e sistemática, registros de comporta- mentos, entrevistas não estruturadas e semiestruturadas, verbalizações, análise hierárquica da tarefa, cartas de-para mapofluxogramas, análise de ligações e análise temporal, permitem pesquisar, de fato, a usabili- dade de produtos e de estações de trabalho. (MORAES; MONT’ALVÃO, 2000, p. 54) Para simplificar, devemos deixar claro que a ergonomia de produto está ligada às recomendações que a ergonomia prescreve para o projeto de um produto, enquanto para o projeto de produção do trabalho, incluindo a organização, as recomendações da ergonomia são entendidas como ergonomia de produção. As duas situações são exemplificadas conforme a situação do exemplo a seguir. 52 Considere a ilustração abaixo, que é o ambiente de um escritório (posto de tra- balho) qualquer. Figura 1: Escritório típico. Exemplo O conceito de mobiliário ergonômico é disseminado, mas o projeto do mobiliá- rio correto deve ser feito em uníssono com a análise do ambiente de trabalho. No cenário ilustrado anteriormente, por exemplo, dependendo da luz do am- biente, talvez a luminária não fosse necessária, ou deveria estar posicionada em outro lugar. Já o teclado torna a digitação mais confortável, visto que o uso do teclado acoplado ao laptop provavelmente seria muito desconfortável, preju- dicando a postura do usuário. O projeto do produto considerando os aspectos ergonômi- cos e a sua usabilidade Cabe salientar que o projeto para concepção de um produto ergonomicamente correto deve considerar a sua usabilidade, já que os estudos considerados vão além da afinidade entre os colaboradores de uma organização e os seusrespectivos equipamentos de tra- balho, ou seja, a interação do homem com a máquina, encontrando espaço nos mais di- versificados segmentos e incluindo questões econômicas, de saúde pública e tecnologia. Considerando-se ainda a fase de criação e concepção, devemos ter de forma clara as necessidades do produto e as consequentes limitações de quem irá utilizá-lo, seja como operador, no caso de uma máquina em um chão de fábrica, seja de um produto, que terá como usuário um cliente. Ao projetar um produto, é fundamental ponderar sobre o 53 MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 3 e veja o conteúdo complementar sobre os produtos centrados no usuário indicado pelo professor. design, a automatização, o processo e o público a que ele se destina. Deve-se dar ênfase à visualização social e técnica dos produtos, sua credibilidade, eficiência (desempenho) e eficácia, atendo-se para a minimização dos custos e a compatibilidade de normas e composições humanas. Como vimos, a usabilidade de um produto se refere ao grau de facilidade de interação que oferece ao usuário, favorecendo tanto o desempenho do usuário como a funcio- nalidade do produto. É atribuição do ergonomista estudar a usabilidade do produto, a fim de garantir produtos e sistemas adaptados às habilidades de quem os utiliza e apropriados às tarefas que as pessoas desempenham. Para analisar a usabilidade, é importante a realização de uma pesquisa para verificar o perfil do usuário, suas expectativas e as necessidades do produto. Posteriormente, deve ser estudada a ope- racionalidade, a performance e a segurança do produto. O design também deve ser considerado, uma vez que os potenciais consumidores geralmente são atraídos pela beleza, cor e textura dos artigos. 54 Introdução à análise ergonômica do traba- lho – AET Nas unidades anteriores, abordamos todos os conceitos básicos de ergonomia; a partir de agora vamos abordar de forma detalhada a intervenção ergonômica e o seu proces- so, que é tecnicamente conhecido como AET. Abordaremos de forma geral o método de AET e as análises das atividades, das demandas e das tarefas, bem como a elaboração do diagnóstico e suas recomendações. A AET é uma das abordagens de intervenção ergonômica no trabalho, tratando os aspec- tos físicos, psicológicos e fisiológicos que orientam as tarefas exercidas pelo trabalhador no ambiente em que está produzindo. Ela tem como fundamento o papel de constituir uma ligação entre os obstáculos na organização do trabalho e suas consequências no ser humano. Considerando-se tal fato, busca prevenir ou debelar de vez os problemas que possam vir a comprometer a saúde dos trabalhadores. Ao estabelecer uma estraté- gia de abordagem ergonômica no ambiente instalado, tem-se como foco principal o ser humano, ocupante do espaço. Nesse contexto, o ergonomista deve analisar e sugerir mu- danças, tanto espaciais quanto culturais, no local de trabalho que visem à qualidade de vida do funcionário, de modo que ele possa realizar suas atividades sem comprometer sua saúde física e mental. A análise é resultante da demanda que gera as ações ergonômicas e busca definir a origem do problema, sendo a base para a elaboração de um diagnóstico. Entre as pre- missas da AET, destacam-se: Entendimento da situação de trabalho e suas implicações. Investigação das circunstâncias mais preocupantes e os res- pectivos diagnósticos. 55 Emitir relatórios com pareceres. A verificação das competências e restrições ergonômicas. Análise dos postos de trabalho e do ambiente no qual as tare- fas são executadas. Elaborar soluções que levem à melhoria das condições, ofere- cendo indicações de adequação em diversos âmbitos. A AET é um método de construção e participação que visa a sanar uma dificuldade com- plicada. Para isso, requer ciência sobre os afazeres, a função desempenhada para con- cretizá-los e as problemáticas sofridas até obter o desempenho e a produtividade estabe- lecidos. A grande premissa da análise ergonômica é identificar os problemas observados pelos trabalhadores que resultem em deterioração do conforto e queda de produtividade, interferindo na segurança do trabalho. Com a aplicação da AET, identifica-se o trabalho, com a descrição da maneira de operar, de seus agravantes, das comunicações, do trabalho coletivo, das aptidões exigidas pela função e das que os trabalhadores já possuem. Também se assimilam fatores como postura, esforço, busca de informação, tomada de decisão e comunicação na atividade de cada pessoa. Assim, são compreendidos fatores determinantes relacionados à cor- poração, como projeto de posto de trabalho, organização do trabalho formal, restrição de tempo e aspectos relacionados ao operador, como idade e os atributos antropométricos. 56 A estratégia de implantar várias medidas para a melhoria da qualidade de vida nos pos- tos de trabalho — por exemplo, a aplicação de treinamentos ergonômicos, capacitação e instrução sobre os equipamentos de segurança e seu respectivo uso, orientações das melhores posturas para o carregamento de cargas, blitz posturais etc. — é fundamental. Devemos sempre lembrar que a aplicação da NR 17 é obrigatória, independentemente do tamanho e do número de funcionários da empresa, e que há fiscalização sobre a em- presa, considerando que deverão ser informadas ao eSocial as condições a que ficam expostos os trabalhadores de possível adoecimento e acidentes, considerando, inclusive, o que se refere à ergonomia. Análise da empresa de forma abrangente (global): O negócio da empresa (produto ou serviço), posicionamento no mercado, situação econômica, a forma ou técnicas de como desenvolve os seus produtos ou serviços e um profundo conhecimento dos trabalhadores da organização, considerando faixa etária, funções, tempo de serviço, existência de morbidades, índices de mortalidade e absenteísmo. Elencar as principais demandas que deverão ser analisadas, observando as atividades realizadas e a utilização dos meios para sua execução e o diagnóstico do posto de trabalho. A partir do diagnóstico, elaborar a concepção do projeto e implementação do plano de ação, objetivando a consequente melhoria das condições de trabalho, tanto da produção como da saúde do trabalhador. Análise dos tipos de trabalho que existem na organização: Concepção do projeto e implementação do plano de ação: Para uma boa análise ergonômica do trabalho, deveremos considerar minimamente as seguintes fases e suas respectivas etapas: Com uma análise ergonômica completa, torna-se possível relacionar e, assim, avaliar as condições de trabalho, com acidentes, doenças e produtividade, em conformidade com o que determina a NR 17. Importante 57 Figura 2: Aplicação do método de AET. Análise das demandas er- gonômicas Análise das condições de trabalho Diagnóstico ergonômico Recomendações ergonômicas Análise da carga física dos trabalhadores COMISSÃO INTERNA DE PREVENÇÃO DE ACIDENTES – CIPA Essa comissão visa a prevenir os acidentes e as doenças resultantes do traba- lho, favorecendo a compatibilidade entre o trabalho e a preservação da vida hu- mana e zelando pela saúde de quem trabalha. A Cipa possui normas, regras e funções específicas para seus integrantes, sendo composta por representantes do empregador e dos empregados, titulares e suplentes designados, de acordo com o previsto no Quadro I da NR 5 (BRASIL, 1978). Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, são atribuições dos representan- tes da Cipa: • Expressar aos trabalhadores informações relacionadas à saúde e segurança no trabalho. • Divulgar e promover a execução das normas regulamentadoras. • Cooperar no incremento e na implementação dos seguintes programas: Pro- grama de Controle Médico de Saúde Ocupacional e Programa de Prevenção de Riscos Ambientais. • Promoção anual da Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho – Sipat, em conjunto com o serviço especializado em engenharia de segurançae medicina do trabalho, se houver. Quanto às atas de reuniões, elas deverão ficar disponíveis na empresa e tam- bém na inspeção do trabalho feito por seus agentes e devem ser assinadas pe- los membros presentes às reuniões para posterior envio de cópias para todos os membros. Importante A Figura 2 a seguir resume de forma bem objetiva o processo de aplicação do método de AET: 58 MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 3 e veja o conteúdo complementar sobre AET indicado pelo professor. NA PRÁTICA Vamos refletir sobre a elaboração de projetos ergonômicos? Se observarmos, por exemplo, os automóveis modernos, encontraremos várias interfaces que facilitam o trabalho do condutor, evitando que ele tire as mãos do volante, que é a “regra nº 1” de segurança no trânsito. Os comandos de som, telefone ce- lular, ajustes pré-configurados de controle de tração, bancos, ar-condicionado etc. encontram-se disponibilizados no volante do automóvel e no comando de setas, tudo literalmente na mão do condutor. Claro que tudo isso foi pensado pelo engenheiro a fim de atender às condições de trabalho do corpo humano, fazendo com que dirigir um automóvel seja muito mais fácil atualmente, já que eles são ergonomicamente corretos. O engenheiro de produção e qualquer profissional de engenharia têm como es- copo de trabalho a elaboração de projetos, sejam eles de concepção, sejam de adequação. No caso da ergonomia, ela se fará presente em ambos os casos. No caso da concepção, que tratará de algo “novo”, que pode ser um equipa- mento, uma máquina, um prédio, postos de trabalho, ferramentas etc., o pro- jeto deverá considerar a análise ergonômica do fruto do projeto, uma vez que será usado por seres humanos, portanto as características do corpo humano serão levadas em consideração nessa análise, bem como o ambiente em que acontecerá a utilização do fruto do projeto, seja para fins de trabalho ou en- tretenimento, e até mesmo ambos. No caso da adequação não será diferente, uma vez que projetos de adequação tratam exatamente de não conformidades, as quais — no nosso caso em questão, as de ordem ergonômica — merecem nossa atenção. 59 Assim como o projeto do automóvel que citamos como exemplo, há diversas outras aplicações da análise ergonômica de projetos! Sugiro que você, por conta própria e motivado por esta leitura, busque outras aplicações, como, por exemplo: nas edificações, aviação civil, cinemas, teatros, mobiliários (tanto resi- denciais como de escritórios). Uma boa pesquisa para você! 60 Resumo da Unidade 3 Nesta unidade, você estudou os conceitos básicos e fundamentais para o dimensiona- mento das soluções ergonômicas a fim de adequar as condições e características do indivíduo ao trabalho, e vice-versa. Primeiro, você verificou e constatou a existência de doenças relacionadas ao trabalho e que prejudicam o desempenho do trabalhador, diminuindo a sua produtividade e causando-lhe desconforto, o que contribui para desmotivação e queda da qualidade de vida no trabalho. Ao longo desta unidade, foi dada maior ênfase às enfermidades mais recorrentes, que são conhecidas como LER e Dort, que por si só englobam mais de 30 doenças laborais cadastradas pela OMS, tendo como consequência as enfermidades mais comuns, que são a tendinite (inflamação de tendão) e a tenossinovite (inflamação da membrana que recobre os tendões). No segundo tópico, você se tornou apto a compreender e aplicar os métodos e técni- cas da ergonomia na elaboração de projetos que visem à obtenção de produtos ergo- nomicamente corretos e também constatou a possibilidade de, por meio de técnicas ergonômicas, ser possível adequar ambientes existentes, equipamentos e ferramentas com a concepção de projetos para obtenção de tal adequação, o que chamamos de ergonomia de concepção. Finalizando esta unidade, você aprendeu a elaborar e a aplicar as técnicas da AET e a listar as etapas de sua realização, constatando que essa metodologia, aplicada de for- ma correta, leva aos resultados esperados, os quais, em última análise, têm como ponto convergente a melhoria da qualidade de vida no trabalho. CONCEITO Nesta unidade, destacaram-se três conceitos fundamentais para a compreen- são das características humanas: o organismo humano e suas características individuais, a concepção de projetos, bem como projetos de adequação, visan- do aos produtos ergonomicamente corretos e a um dos conceitos mais impor- tantes desta unidade, que é o da AET. 61 Referências BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 24 jul. 1991. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8213cons.htm. Acesso em: 1º maio 2019. . Norma Regulamentadora 5 – NR 5: Comissão Interna de Prevenção de Aci- dentes – Cipa. Aprovada pela Portaria nº 3.214, de 8 de junho de 1978. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 6 set. 1978, Disponível em: http://www.guiatrabalhista.com.br/legisla- cao/nr/nr5.htm. Acesso em: 1º maio 2019. CORRÊA, V. M.; BOLETTI, R. R. Ergonomia: fundamentos e aplicações. Porto Alegre: Bookman, 2015. FALZON, P. Ergonomia. 2. ed. São Paulo: Blucher, 2018. IIDA, I.; BUARQUE, L. Ergonomia: projeto e produção. 3. ed. São Paulo: Blucher, 2016. KROEMER, K.; GRANDJEAN, E. Manual de ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2007. MORAES, A.; MONT’ALVÃO, C. Ergonomia: conceitos e aplicações. Rio de Janeiro: 2AB, 2000. PINHEIRO, A. C.; CARNEIRO, B. M. Conforto ambiental. São Paulo: Saraiva, 2016. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8213cons.htm http://www.guiatrabalhista.com.br/legislacao/nr/nr5.htm http://www.guiatrabalhista.com.br/legislacao/nr/nr5.htm Biomecânica ocupacional e antropometria UNIDADE 4 63 Na unidade anterior, foi possível compreender e dimensionar as soluções ergonômicas e as condições e características do indivíduo e do tipo de tarefa a ser realizada em um determinado posto de trabalho. Nesta unidade, definiremos e utilizaremos os parâme- tros mínimos de adequação ergonômica para os projetos de produtos, máquinas, ferra- mentas etc. diante das características funcionais e da influência de variáveis, buscando uma abordagem ampla da antropometria em biomecânica ocupacional, incluindo dados sobre peso, volume, centro de massa e comprimento dos membros, avaliando a capa- cidade do ser humano para o trabalho sob o ponto de vista biomecânico, considerando a força muscular e o movimento. Introduziremos as metodologias de pesquisa do movi- mento humano, o uso da eletromiografia, a medida da força muscular, a pressão discal, a estatura, a vibração etc. em seres humanos utilizando estudos detalhados sobre a distri- buição de forças sobre a coluna vertebral durante o levantamento e o movimento de car- gas, levando em consideração os aspectos mecânicos do sistema musculoesquelético. INTRODUÇÃO OBJETIVO Nesta unidade, você será capaz de: • Definir e utilizar parâmetros mínimos de adequação ergonômica para os projetos de produtos, máquinas, ferramentas etc. diante das características funcionais e da influência de variáveis. 64 Trabalhos estático e dinâmico e sistema OWAS Considerando a “elasticidade” do tecido muscular, podemos observar que este realiza um trabalho mecânico que é dividido em: dinâmico (no qual existe movimento) e estáti- co (de acordo com a postura). Um bom exemplo de trabalho muscular dinâmico é fazer girar o volante de um automóvel, enquanto segurar uma bolsa de compras com o braço esticado é um exemplo de trabalho estático. Método Ovako Working Posture Analysing System – Owas Considerado um dos principais e tradicionais métodos de avaliação ergonômica, foi desenvolvido na Finlândia no ano de 1977 por um grupo siderúrgico denominado Ovako Oy, tendo a participação conjunta do Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional. Os pes- quisadores membros da equipe eram Karu, Kansi e Kuorinka,que batizaram o método por Owas. O método propõe a análise da postura dividindo o corpo em três regiões: dorso, membros superiores e membros inferiores (Figura 1), levando em considera- ção, também, as cargas suportadas ou forças necessárias à realização da ta- refa (Figura 2). Com base nessas variações, atribui pontuações para cada posi- cionamento, sendo que, quanto menor for o resultado, mais adequada estará a postura do colaborador; em contrapartida, quanto maior for a pontuação, maior será o potencial de danos à saúde do funcionário. Além disso, deve-se atentar para o tempo de permanência nessas posições (Figura 3) em relação ao tempo da jornada de trabalho. A partir da classificação estabelecida, o método propõe o enfrentamento da situação, como pode ser observado na Figura 4. Saiba mais 65 Figura 1: Sistema Owas para registro de posturas. Fonte: Iida e Buarque (2016, p. 95). A partir da figura, faremos a codificação da tarefa seguindo os passos: Classificação de postura Durante a observação, são consideradas as seguintes posturas: 1º Dígito – Costas 1 - Ereta. 2 - Inclinada para frente ou para trás. 3 - Torcida ou inclinada para os lados. 4 - Inclinada e torcida ou inclinada para frente e para os lados. 2º Dígito – Braços 1 - Ambos os braços abaixo do nível dos ombros. 2 - Um braço no nível dos ombros ou abaixo. 3 - Ambos os braços no nível dos ombros ou abaixo. 3º Dígito – Pernas 1 - Sentado. 2 - De pé com ambas as pernas esticadas. 66 3 - De pé com o peso em uma das pernas esticadas. 4 - De pé ou agachado com ambos os joelhos dobrados. 5 - De pé ou agachado com um dos joelhos dobrados. 6 - Ajoelhado em um ou ambos os joelhos. 7 - Andando ou se movendo. 4º Dígito – Levantamento de carga ou uso de força 1 - Peso ou força necessária é 10 kg ou menos. 2 - Peso ou força necessária excede 10 kg, mas é menor que 20 kg. 3 - Peso ou força necessária excede 20 kg. 5º e 6º Dígitos – Fase do trabalho Dois dígitos são reservados para a fase da atividade, variando de 00 a 99, sele- cionados a partir da subdivisão de tarefas. Figura 2: Fases do trabalho. Dorso Braço 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 1 1 1 1 1 11 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 11 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 11 1 1 1 1 2 2 2 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 1 1 1 2 2 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 2 2 4 4 4 44 4 4 444 4 44 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 44 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 3 3 3 4 4 4 44 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 3 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 3 3 32 2 2 2 2 3 2 2 2 2 2 2 1 3 3 3 3 3 3 3 1 1 1 1 1 1 1 2 2 3 2 2 3 1 1 2 3 3 3 3 3 3 3 32 2 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 4 4 4 4 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 3 3 3 3 3 3 4 4 5 6 7 Pernas Carga 67 Fonte: Iida e Buarque (2016, p. 96-97). Figura 4: Classes. Figura 3: Classificação de acordo as posições das partes do corpo. Extremamente prejudicial Mudar a postura imediatamente4 Claramente prejudicial Mudar postura o mais breve possível3 Levemente prejudicial Verificar postura na próxima revisão dos métodos de trabalho2 Normal, dispensa cuidado Nenhuma1 Postura AçãoClasse Posições das partes do corpo 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 1. Dorso reto 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 1 1 1 2 2 2 2 2 3 3 1 2 2 3 3 3 3 4 4 4 1 2 2 3 3 3 3 4 4 4 1 1 2 2 2 3 3 3 3 3 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 1 1 1 2 2 2 2 2 3 3 1 1 2 2 2 2 2 3 3 3 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 3 3 1 1 2 2 2 3 3 3 3 3 1 2 2 3 3 3 3 4 4 4 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 4. Inclinado e torcido 3. Dois braços para cima 3. Duas pernas flexionadas Dorso 2. Dorso inclinado 1. Dois braços para baixo 1. Duas pernas retas 4. Uma perna flexionada Braços 3. Dorso reto e torcido 2. Um braço para cima 2. Uma perna reta 5. Uma perna ajoelhada 6. Deslocamento com as pernas 7. Duas pernas suspensas Pernas Duração máxima (% da jornada de trabalho) Classificação das posturas 68 MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 4 e veja o conteúdo complementar com a indicação de livros sobre ergonomia e a aplicação do método Owas para a análise de posturas dos trabalhadores em uma determinada tarefa. 69 Antropometria para noções de escala e pro- porções para elaboração de projetos (má- quinas, móveis, salas, edifícios etc.) Conforme vimos nas unidades anteriores, é muito importante que o posto de trabalho esteja de acordo com as dimensões antropométricas; do contrário, a realização de ta- refas pode gerar malefícios à saúde do funcionário, além de, obviamente, afetar seu de- sempenho. É essencial, portanto, considerar as formas e medidas do corpo ao projetar ambientes e equipamentos. Para aprender a projetar respeitando as medidas do corpo humano e a mobilidade do usuário, precisamos, antes de qualquer coisa, entender no que consiste a antropometria, o que é exatamente e o que abrange. Então, vamos ao trabalho! A antropometria (do grego anthropos, “homem”, e metry, “medida”) é um ramo das ciên- cias biológicas que estuda caracteres mensuráveis da morfologia humana. Em outras palavras, podemos dizer que avalia e estuda as medidas de comprimento e massa e as proporções do corpo humano, tendo como objetivo geral predizer e estimar os vários componentes corporais de populações. Na área da ergonomia, a antropometria é utiliza- da como técnica estatística de estudo do corpo humano, que, fazendo uso das medidas físicas tomadas como base para o dimensionamento e o desenho de postos de trabalho, busca conservar a postura mais apropriada para a execução de uma determinada tarefa. A antropometria permite projetar considerando a altura adequada para cada ser humano e suas diferenças individuais e étnicas na avaliação e na elaboração de máquinas e apa- relhos de um modo geral e, também, dos postos de trabalho. Como existe grande varia- bilidade nas medidas corporais dos indivíduos, será sempre um intenso desafio para os projetistas. Torna-se necessário considerar tanto as pessoas mais altas (por exemplo, na determinação do espaço necessário sob a mesa para que a perna possa se acomodar sem que o indivíduo trabalhe em uma postura inadequada) como as pessoas mais bai- xas (por exemplo, de modo a termos certeza de que a pessoa alcançará uma determina- da altura para que possa desempenhar sua tarefa sem que haja comprometimento em sua postura). Se no dimensionamento da altura das portas fosse considerada uma altura média, muitas pessoas bateriam no marco ao tentar passar por elas. 70 Cabe ressaltar que utilizar dados antropométricos tomando como base o ho- mem médio para o projeto de um equipamento qualquer é um equívoco que pode resultar em consequências graves. Para que isso não ocorra, o projeto deve ser adequado ao contexto, ou seja, é preciso ponderar sobre a maior possibilidade de dimensões relacionadas aos distintos percentis (mínimo, médio e grande). Importante No que diz respeito às diferenças individuais, William Sheldon, em 1940, definiu três biótipos básicos com características dominantes: - Endomorfo. - Mesomorfo. - Ectomorfo. O endomorfo apresenta um corpo arredondado, com preponderância de depó- sitos de gordura, braços e pernas curtos e com muita flacidez, tendo a cabeça e o ombro arredondados e possuindo ossos pequenos. O mesomorfo apresenta o corpo musculoso, com pouco tecido adiposo e ca- beça em formato cúbico, tendo ombros e tórax largos, possuindo um abdômen pequeno. O ectomorfo apresenta o corpo e os membros afinados, com ombros largos e caídos. Possui tórax e abdômen estreitos e finos, queixo recuado e testa alta. A figura a seguir ilustra bem as situações descritas: Saiba mais 71 Figura 5: Diferenças individuais. É praticamente impossível falarmos em novos projetos de aplicações da ergonomia, e até mesmo em projetos de alteração de postos de trabalho, sem falarmos, antesde mais nada, em fazer um levantamento antropométrico para resolver os problemas de um pro- duto, equipamentos, máquinas e postos de trabalho. Por exemplo, a produção de vestuários em escala industrial oferece um ajuste adequado ao corpo do usuário. Para que esse objetivo seja alcançado, temos que ter em mente as características do corpo e as diferenças nas formas, con- siderando populações e etnias variadas. São notórias as variações não só no tamanho como também nas formas dos corpos de seres humanos de popula- ções em diferentes localizações geográficas, considerando também os diferen- tes grupos étnicos existentes em uma mesma área geográfica. Considerando essas razões, percebe-se a importância de pesquisar, estudar e quantificar es- sas diferenças, pois o vestuário é projetado para servir nesses mesmos seres humanos em seus corpos. Exemplo Ectomorfo Endomorfo Mesomorfo 72 A antropometria como ciência é a responsável pelo estudo das especificidades corpo- rais e, sendo assim, uma preciosa ferramenta para os projetos de produtos e máquinas ergonomicamente corretos, passando a ser área de estudo da ergonomia que trata das medidas físicas do corpo, em termos de tamanhos e proporções, o que terá influência direta nos projetos citados. Da necessidade da melhoria de todo o sistema no qual convi- vem produtor e consumidor — em ambos os lados estamos tratando de seres humanos e de sua qualidade de vida —, a ergonomia tem buscado unir esforços de outras áreas do conhecimento para lhe dar sustentação, e uma das aéreas consideradas mais atuantes, com toda a certeza, é a antropometria. MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 4 e veja o conteúdo sobre os riscos biomecânicos na ergonomia indicado como material complementar pelo professor. 73 Padrões internacionais de medidas antro- pométricas, antropometria estática e an- tropometrias dinâmica e funcional A princípio, a operação de medição de um ser humano nos remete a pensar que é uma tarefa fácil, pois bastaria termos uma balança, régua, trena etc., mas não é bem assim e muito menos algo simples, pois se pretende obter medidas confiáveis e que realmente possam representar uma população, que normalmente é composta de seres humanos de vários tipos e dimensões. Fatores relacionados às condições em que as medições são feitas, tais como se a pes- soa está vestida ou não, descalça ou com sapato, e a postura, se está relaxada ou ereta, terão influência decisiva nos resultados. Só para termos uma ideia da relevância da antropometria, vejamos algumas indústrias importantes em que são aplicadas medidas do ser humano: têxtil, automobilística, de cal- çados e aeroespacial, sendo evidenciadas, por meio de estudos, diferentes medidas de- vido a etnia, alimentação e saúde. Só aqui, encontramos relativa facilidade em entender o quanto as medidas dos seres humanos são importantes. Para termos ideia do quanto essas medidas variaram ao longo dos anos ao considerarmos a evolução da sociedade e o lançamento de novos produtos, podemos observar que, na Idade Média, por exemplo, os sapatos eram todos do mesmo tamanho e, hoje, obedecem a um padrão de acordo com uma escala de valores adequados ao tamanho dos pés de homens e mulheres. Até o ano de 1950, a indústria automobilística preocupava-se apenas em proje- tar automóveis para o público masculino. Curiosidade 74 A diferença das medidas entre os sexos (homens e mulheres) tornou-se uma das principais informações antropométricas nos padrões internacionais de me- didas, uma vez que a mulher passou a disputar com o homem os mercados de trabalho em que os postos eram projetados considerando-se medidas exclu- sivamente masculinas e, também, a consumir produtos que no passado eram projetados visando à sua utilização pelo público masculino. Importante Variações nas principais medidas em homens e mulheres: Os padrões internacionais de medidas antropométricas levam em consideração o ser humano característico para homens e mulheres, considerando, também, fatores relacio- nados com a etnia, entre outros. Variações das principais medidas nos homens: • Os bebês, em relação às mulheres, chegam a um comprimento de 0,6 cm maior e a ter 0,2 kg a mais de peso em média. • Os adolescentes e jovens possuem um crescimento acelerado dos 12,5 aos 15,5 anos e atingem a estatura final em torno dos 20 aos 23 anos de idade. • Os adultos possuem ombros mais largos, tórax maior, com escápulas mais largas e clavículas mais longas, e apresentam estreitamento da bacia. São mais muscu- losos e apresentam cabeças maiores, braços mais longos e os pés e as mãos são sempre bem maiores. Variações das principais medidas nas mulheres: • No caso das mulheres jovens, o crescimento começa a se acelerar em tomo dos 10 anos, atingido a maior taxa dos 11 aos 13 anos, chegando à estatura final em torno dos 20 aos 23 anos. • As mulheres adultas possuem ombros estreitos e tórax menores com maior arre- dondamento e apresentam as bacias mais largas. As diferenças de estaturas entre homens e mulheres são de 6% a 11%. 75 Variações étnicas: Devemos ainda considerar as variações étnicas e suas maiores disparidades, que serão encontradas na África, conforme os dados a seguir: • Na África Central, encontramos os seres humanos com a menor estatura do pla- neta, os pigmeus, que chegam a medir, em média, 143,8 cm (homens) e 137,2 cm (mulheres). Existem dados que relatam que o menor pigmeu já encontrado media cerca de 130 cm. • Os negros nilóticos, que também habitam a África, mais precisamente no Sudão, são os povos de maior estatura no mundo. Os homens medem 182,9 cm, com desvio-padrão de 6,1 cm, e as mulheres, 168,9 cm, com desvio-padrão de 5,8 cm. • Para se ter uma ideia, os homens mais altos do Sudão chegam a medir cerca de 210 cm. Em termos percentuais, o sudanês, em média, chega a ser cerca de 60% mais alto que os pigmeus. Para ilustrar melhor o quanto essas diferenças influenciam diretamente o uso de equipamentos, citaremos como exemplo a guerra do Vietnã, na qual os soldados vietnamitas, que tinham altura média de 165 cm, tinham uma enorme dificuldade para operar as máquinas bélicas oferecidas pelos EUA, uma vez que foram projetadas para serem utilizadas pelos soldados norte-americanos, com altura média de 174,5 cm. Principais variações étnicas em termos de antropometria Saiba mais Fonte: Iida e Buarque (2016, p. 194). 76 As medidas antropométricas compreendem as dimensões, as constituições e as ca- racterísticas da massa corpórea de diversas partes do corpo humano, bem como as articulações, suas junções e mobilidade, a movimentação corporal e as ações, como o uso de forças e torções, e a intensidade de atitudes de controle e equilíbrio, além do uso de utensílios de trabalho. Internacionalmente, as principais medidas corporais são: a massa do corpo, a estatura, o perímetro, as dobras cutâneas e os diâmetros ósseos. Considerando esses padrões internacionais de medição, devemos ainda avaliar: as diferenças antropométricas entre homens e mulheres e as variações étnicas e genéticas das medidas antropométricas. Antropometria aplicada à ergonomia A antropometria será aplicada considerando os seguintes tipos de atividades laborais realizadas pelo ser humano: estática, dinâmica e funcional. Antropometria estática Leva em consideração as medidas do corpo humano em atividades em que ele permanece em repouso, ou seja, parado, sendo utilizada de forma mais comum em projeto de produtos com pouca ou nenhuma mobilidade. Verifica e analisa a limitação dos movimentos das partes do corpo de forma individual, priorizando o movimento sem a adição de esforço físico de maior magnitude e considerando conforto, segurança e bem-estar físico. Nesse caso, as medidas antropométricas estão ligadas à execução de tarefas específicas, requerendo uma movimentação conjunta de vários segmentos corporais para realizar uma função. Antropometria dinâmica Antropometriafuncional 77 Um exemplo de antropometria funcional ocorre em atividades em que o alcan- ce das mãos não depende apenas do comprimento dos braços, envolvendo também a rotação do tronco e o movimento dos ombros, a inclinação das cos- tas e o tipo de trabalho que será executado com as mãos. Conhecimentos sobre biomecânica são muito utilizados para a obtenção de medições antropométricas, pois é a disciplina que se ocupa do emprego de princípios mecânicos para a análise de organismos vivos, contribuindo, entre outras finalidades, para verificar as propriedades da massa corporal humana. No contexto da biomecânica, a antropometria atua com modelos de represen- tação do corpo humano, viabilizando avaliar a massa, o centro de gravidade e o período de inércia. Exemplo O estudo das antropometrias (estática, dinâmica e funcional) requer dados estatísticos, adaptados às características funcionais de cada posto de trabalho, principalmente da- queles que exigem muitos movimentos. No projeto do posto de trabalho, máquinas e ou- tros equipamentos, torna-se essencial estipular medidas que englobem estatisticamente as parcelas da população a serem contempladas pelo produto, considerando as diversi- dades de raça, sexo e classe social/econômica. Devemos sempre levar em consideração que não é possível dimensionar o espaço de trabalho considerando as dimensões extremas do corpo humano (muito grandes ou mui- to pequenas), pois teremos sempre que contemplar a satisfação da maioria tomando como base as medidas que são representativas da maior parte da população. Importante 78 MIDIATECA Acesse a midiateca da Unidade 4 e veja o conteúdo sobre a aplicação da ergonomia na indústria 4.0 indicado como material complementar pelo professor. NA PRÁTICA ESTUDO DE CASO – FADIGA AO DIRIGIR E OS RISCOS A fadiga é um estado psicofisiológico complexo e reversível caracterizado por perda de qualquer eficiência e aversão a qualquer esforço físico ou mental. Apesar de não ser considerada uma doença e não provocar lesões patológicas, a fadiga representa um desequilíbrio fisiológico, manifestando-se por sinais funcionais e biológicos. Sob o ponto de vista físico, o trabalho muscular pesado ou estático leva à fadiga; sob o ponto de vista psíquico, as atividades sensoriais e intelectuais também levam à fa- diga, causando medos, ansiedades, depressão etc. Entre os últimos, deve ser dada particular atenção às falhas na organização do trabalho, principalmente o trabalho monótono, no qual se encaixa nosso estudo sobre o ser humano ao volante, seja em veículos de passeio (como amador), seja em veículos de carga ou transporte (profis- sional). É inquestionável o papel da fadiga na gênese de erros e acidentes de trânsi- to, para os quais inúmeros trabalhos e estudos em medicina do tráfego apontam a fadiga como a principal causa. Em 1936, Ryan e Warner desenvolveram uma pesquisa entre caminhoneiros compa- rando a eficiência das funções nervosas em dias de descanso e em dias que dirigem mais de 450 km. A fadiga foi evidenciada pela observação do retardamento dos reflexos; do aumento de oscilações corporais na posição em pé; da menor coor- denação de olhos e mãos; da redução da capacidade de acomodação visual e da redução da velocidade e da precisão de cálculos mentais simples. Obviamente, isso leva à conclusão de que dirigir por longos períodos ao volante reduz a eficiência do motorista e representa um sério risco de acidentes devido à fadiga, e, de modo a re- duzir os riscos, a ergonomia tem influência direta no projeto do cockpit dos veículos, 79 garantindo conforto ao motorista para que possa reduzir de forma significativa os riscos devido à fadiga física. Já quanto à fadiga psíquica, os comandos do veículo e os painéis devem ser projetados com comandos bem próximos ao motorista e de fá- cil visualização, caracterizando uma ótima interface humano-máquina, como já visto anteriormente. Podemos resumir o presente estudo com as seguintes conclusões: - Os primeiros sinais de fadiga aparecem após poucas horas ao volante (em torno de quatro horas). - O grau de fadiga é determinado pela conjunção de diversos fatores, principalmente a duração e o grau de estresse mental, a monotonia e as perturbações do ritmo cir- cadiano (períodos de sono bem elaborados). Noventa por cento dos acidentes são causados por falha humana, portanto, ao primeiro sinal de fadiga, pare e descanse, pois nossa vida e a dos seres humanos não têm preço!! Nessa situação prática, não somente a engenharia, mas a biomecânica e a antropo- metria se inserem em um campo interdisciplinar no qual os princípios e métodos da engenharia, das ciências básicas e da tecnologia são aplicados para projetar, testar e fabricar equipamentos adequados às características físicas do ser humano, e, na prática, os objetivos da biomecânica podem ser atingidos em diversos domínios e em diferentes campos de aplicação. 80 Resumo da Unidade 4 Nesta unidade, você estudou os conceitos básicos e fundamentais para utilizar os parâ- metros mínimos de adequação ergonômica para os projetos de produtos, máquinas, fer- ramentas etc. diante das características funcionais e da influência de diversas variáveis, como sexo, etnia, vestuário, entre outras. Logo no início da unidade, aprendemos como diferenciar trabalho muscular estático de dinâmico e, no último tópico, a aplicação desses conceitos nos permitiu compreender as antropometrias estática, dinâmica e funcional. Ainda no primeiro tópico, abordamos o método Owas, tradicional método de avaliação ergonômica desenvolvido na Finlândia no ano de 1977 e utilizado até os dias de hoje em larga escala para levantamento e análise dos riscos ergonômicos. Vimos que o método consiste em analisar o corpo humano dividindo-o em três regiões: dorso, membros superiores e membros inferiores, e leva em consideração as cargas suportadas ou forças necessárias à realização de uma determi- nada tarefa, tendo como base suas possíveis variações. Fechando a unidade, discutimos os padrões internacionais das medidas antropométricas considerando as diferenças en- tre homens e mulheres, as variações étnicas das medidas antropométricas e, também, as variações genéticas. Concluindo, ficou claro que, para o projeto de postos de trabalho, máquinas e outros equipamentos e produtos, torna-se essencial estipular medidas que englobem estatisticamente as parcelas da população a serem contempladas pelo produ- to, considerando as diversidades de raça, sexo e classe social/econômica. CONCEITO Nesta unidade, destacaram-se três conceitos fundamentais para a compreensão da biomecânica ocupacional e da antropometria: trabalhos estático e dinâmico e suas diferenças, conceito de escala e proporção antropométricas, visando a projetos de produtos (máquinas, móveis, salas, edifícios etc.) ergonomicamente corretos, e um dos conceitos mais importantes desta unidade, que é o da utilização e da discussão dos padrões internacionais das medidas antropométricas. 81 Referências CORRÊA, V. M.; BOLETTI, R. R. Ergonomia: fundamentos e aplicações. FALZON, P. Ergonomia. 2. ed. São Paulo: Blucher, 2018. IIDA, I.; BUARQUE, L. Ergonomia: projeto e produção. 3. ed. São Paulo: Blucher, 2016. KROEMER, K.; GRANDJEAN, E. Manual de ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2007. MORAES, A.; MONT’ALVÃO, C. Ergonomia: conceitos e aplicações. Rio de Janeiro: 2AB, 2000. PINHEIRO, A. C.; CARNEIRO, B. M. Conforto ambiental. São Paulo: Saraiva, 2016.