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Abelhas nativas sem ferrão - Jerônimo Vilas-Boas

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existem exemplares de espécies de abelhas sem ferrão em hábitat 
natural, é a manutenção de exemplares manejados ente gerações que tem per-
mitido a salvaguarda de muitas espécies. É o caso da Uruçu-Nordestina (Melipona 
scutellaris), nativa de ecossistemas da Mata Atlântica – matas de tabuleiro e brejos 
de altitude – que hoje são representados por menos de 10% da formação original. 
Outro caso é o da abelha Jandaíra (Melipona subnitida), cada vez menos encon-
trada nas árvores de Umburana da Caatinga e salva pelos meliponicultores que há 
gerações praticam a meliponicultura familiar.
O bioma amazônico, que é gigantesco, pode até não compartilhar o mesmo 
status de vulnerabilidade da Mata Atlântica e da Caatinga, mas caminha para o 
mesmo destino com a expansão das fronteiras agrícolas promovida pela pecuária 
e pelo monocultivo de grãos para exportação. Nesse contexto, a baixa densidade 
demográfica e o modelo sustentável de uso de recursos naturais desenvolvida por 
índios, quilombolas e ribeirinhos, fazem das terras indígenas, terras de quilombo e 
reservas extrativistas grandes berços de conservação de espécies em uma paisagem 
amazônica cada vez mais degradada pelo desmatamento.
2. Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) fundada em 2002, cujo principal objetivo é difundir a 
meliponicultura na região amazônica.
3. www.slowfoodbrasil.com
4. www.peabiru.org.br
5. www.saudeealegria.org.br
6. www.socioambiental.org
7. www.spvs.org.br
Manual Tecnológico44
Diferentes méis 
produzidos pelos 
caiçaras da APA de 
Guaraqueçaba, no 
Paraná
Criação de abelhas nativas sem ferrão 45
MELIPONICULTURA DE EMPREENDEDORES INDIVIDUAIS
É desenvolvida por indivíduos focados no aproveitamento econômico das abe-
lhas nativas. Isso pode se dar pela obtenção de seus produtos, com a comercializa-
ção de colônias ou com a exploração de seus serviços. Existem casos em que esses 
meliponicultores de origem ou mesmo integrantes de comunidades tradicionais 
são motivados pela predileção cultural, mas não integram uma iniciativa comuni-
tária, acessando o mercado individualmente. Em outros casos são empreendedores 
que conheceram a meliponicultura por meios diferentes da transmissão cultural 
inter-geracional, começaram a praticar, enxergaram uma oportunidade e passaram 
a se aventurar no mercado. Para exemplificar esse perfil empreendedor na melipo-
nicultura brasileira podemos mencionar: o senhor Wilson Melo, de Barra do Corda-
-MA, criador da abelha Tubi e um dos grandes entusiastas da própolis de abelhas 
nativas; o senhor Paulo Menezes, de Mossoró-RN, criador da abelha Jandaíra; o 
senhor Ezequiel Medeiros, também do Rio Grande do Norte, criador de várias es-
pécies da Caatinga; o casal Selma Carvalho e Francisco Chagas Carvalho, criadores 
das abelhas Uruçu-Nordestina na Zona da Mata pernambucana e da Uruçu-do-
-Chão na Chapada do Araripe, no município de Crato-CE; o senhor Ederson Hol-
dizs, produtor de mel de várias espécies da Mata Atlântica em Guaraqueçaba-PR.
Meliponicultura Kawaiweté no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso.
Manual Tecnológico46
MELIPONICULTURA RECREATIVA
Desenvolvida por indivíduos ou grupos não interessados na exploração econô-
mica das abelhas, mas no bem estar pessoal, no consumo particular de produtos, 
na conservação das espécies, na divulgação, etc. Essa modalidade muitas vezes é 
tratada como “meliponicultura hobista” ou “meliponicultura conservacionista”. A 
segunda designação, entretanto, pode causar equívocos, uma vez que a conserva-
ção de espécies animais e vegetais, representada pela ciência denominada Biologia 
da Conservação, engloba aspectos de ecologia, biogeografia, genética, ciências 
políticas, sociologia, antropologia e outras áreas afins. Ao divulgar as espécies, 
promover a educação ambiental e a salvaguarda de algumas espécies, a melipo-
nicultura recreativa desempenha de fato um importante papel na preservação de 
algumas espécies de abelhas nativas, mas tratá-la como sinônimo de conservação 
é um excesso. Não podemos esquecer que se por um lado temos todos os bene-
fícios citados acima, também temos aspectos negativos, que merecem atenção, 
com a febre de criação doméstica de abelhas sem ferrão que tem se manifestado 
nas redes sociais: o aquecimento de mercado e a hipervalorização de algumas 
espécies, o que acaba incentivando a retirada predatória de colônias do hábitat 
natural; o colecionismo, que coloca a satisfação pessoal acima do bem estar das 
abelhas, promovendo o transporte descontrolado de espécies para fora da sua 
área natural de ocorrência geográfica; a banalização do conhecimento, que acaba 
incentivando a aquisição de colônias por pessoas inaptas ao cuidado com algumas 
espécies mais frágeis.
Feita a ressalva, vale reiterar que os meliponicultores hobistas tem grande po-
tencial para desempenhar papel chave na conservação das espécies de abelhas 
nativas. Para isso, precisam de políticas públicas adequadas e referências técnicas 
consistentes. Boa intenção existe de sobra, e esse é um bom começo para um 
caminho virtuoso.
MELIPONICULTURA CIENTÍFICA
É desenvolvida em universidades e centros de pesquisa, mantém colônias de 
abelhas nativas para investigação de aspectos que vão desde a biologia básica, 
como genética, morfologia e fisiologia, até meliponicultura aplicada, testando téc-
nicas de manejo como modelos de colmeias, alternativas de nutrição, métodos de 
combate à inimigos etc. O Brasil é referência mundial em pesquisa sobre abelhas e 
a meliponicultura científica é a que tem mais condições de estabelecer parâmetros 
para uma “meliponicultura conservacionista”. Algumas iniciativas caminham nes-
se sentido, mas talvez pequem por se aproximar ainda pouco dos meliponicultores. 
Se muito se avançou nos últimos anos em tecnologias de manejo, ainda existem 
algumas lacunas para o melhor entendimento dos aspectos ecológicos para com-
patibilizar manejo e conservação e otimizar algumas abordagens como a de uso 
aplicado na polinização agrícola. Algumas lacunas que gostaria de mencionar são: 
Criação de abelhas nativas sem ferrão 47
pesquisas com migração controlada das espécies, avaliando o comportamento de 
enxameagem e a dispersão das abelhas fora da sua área geográfica de ocorrência 
natural; incremento das informações sobre raio de voo de diferentes espécies para 
entender com mais precisão a abrangência da relação dos meliponários com o en-
torno; melhor entendimento do comportamento de forrageamento em diferentes 
fisionomias da paisagem (floresta, campo, pastagens, cultivos, etc.); aumento da 
base de dados sobre os recursos florais explorados por cada espécie; entendimento 
de como as colônias e populações de deslocam em paisagens fragmentadas. Elas 
dependem da conectividade entre fragmentos? Qual a influência do tamanho dos 
fragmentos paras a populações em hábitat natural e para as colônias manejadas 
que acessam essa fonte de recursos?; com base nos parâmetros anteriores, enten-
der a capacidade de suporte de cada ambiente, estabelecendo o número ideal de 
colônias para determinada área, evitando adensamento, otimizando a produção, 
dando parâmetros para a meliponicultura migratória e balizando planos de ação 
conservacionistas; aumentar a base de dados sobre polinização de espécies vege-
tais cultivadas; aprofundar o conhecimento sobre os produtos, como as caracte-
rísticas físicas, químicas, microbiológicas, organolépticas, efeitos medicinais e etc.
Regularização de meliponários
Antes de começarmos a tratar das técnicas de criação, é importante destacar 
que as abelhas sem ferrão são animais silvestres, nativos do território brasileiro 
e possuem legislação específica que orienta o seu manejo. Está longe de existir 
unanimidade entre os meliponicultores sobre as diretrizes gerais dessa legislação, 
mas sobre um aspecto todos concordam: o procedimento para

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