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Origem e Desenvolvimento do Direito Agrário Claudinei Amaral da Silva1 Resumo A intima conexão entre terra e homem remete à própria histórica da humanidade. Nesse contexto e ao passar do tempo, a criação das leis que foram paulatinamente se modificando, ampliando seu alcance. Entretanto o coração humano, no que concerne ao dever de partilha não parece haver evoluído. Hodiernamente, em pleno século 21, vivendo em democracia, nada obstante ocorrerem lamentáveis conflitos fundiários, resultantes da interminável cobiça de grandes fazendeiros em detrimento de trabalhadores rurais que anseiam conquistar um pedaço de chão para nele morar, trabalhar, produzir, dando ao solo sua tão necessária função social. Palavras-chave: Conexão, terra, democracia, propriedade rural, função social. 1 Acadêmico de Direito na Faculdade de Ciências Humanas de Pernambuco (5º Ano – Noite), especialista em Privacidade e Proteção de dados. Fundador da Jusconsulte Academy em parceira com IBM no Brasil para Educação e Capacitação Corporativa especializada e dedicada exclusivamente em privacidade e proteção de dados pessoais (LGPD & GDPR). Perito Forense com especialização em processos de Reconhecimento Facial e InteligÊncia Artificial com participação no desenvolvimento do primeiro Robô Advogado do Brasil, claudinei.amaral@jusconsulte.adv.br mailto:claudinei.amaral@jusconsulte.adv.br 2 1. 1 Introdução Na presente pesquisa acerca do Direito Agrário é imperativo discorrer acerca de questões ligadas à agricultura no tocante ao seu descobrimento e seu significado. Além da atividade relacional do homem no cultivo da terra; produzindo, extraindo, vezes para seu próprio consumo ou com o fito de atingir uma escala de abrangência maior. É cediço que entre o ser humano e a terra há um vínculo antigo. Forte e monolítico não se separa, não se rompe, pelo contrário! Mesmo a duras penas resiste. Ao retumbar dos gritos, ao cair das lágrimas, ao jorrar do sangue, o homem sempre combateu em busca do seu pedaço de chão. Com o passar do tempo descobriu técnicas como agricultura e pecuária, produziu alimentos e permutou-os com seus próximos, todavia foi escravizado pelos seus semelhantes. Trabalhador vigoroso, porém, nada abastado, submetido foi ao poder dos seus patrões, ambiciosos senhores de terras que, sequiosos de riquezas não pouparam a ninguém, transformando a terra em palco de desigualdades sociais. Dessarte, somando a fome de riquezas dos grandes dominadores à miséria dos dominados, consectário são as revoltas frequentes, repletas de lamentáveis ocorridos. Então, em socorro estatuem- se regras, em contínua e constante evolução, conforme a transformação lenta e progressiva da sociedade. Assim se construiu e permanece a ser edificado o Direito Agrário, em um conjunto de normas que regulam as relações jurídicas do homem com a terra, haja vista o liame inquebrantável entre ambos. 3 2. UMA ALUSÃO AO NASCIMENTO DO DIREITO AGRÁRIO No que tange às relações entre o homem com a terra que remonta a antiguidade, caberia apresentar, in verbis, o livro bíblico de Levítico, onde já se cuidava de questões referentes ao homem e a terra. Em seu capítulo vinte e cinco se verificam determinadas regras sobre o assunto. Confira-se, a seguir, o ordenamento constante dos versículos 23 a 28, in verbis: “23. Também não se venderá a terra em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós estais comigo como estrangeiros e peregrinos: 24. Portanto em toda a terra da vossa possessão concedereis que seja remida a terra. 25. Se teu irmão empobrecer e vender uma parte da sua possessão, virá o seu parente mais chegado e remirá o que seu irmão vendeu. 26. E se alguém não tiver remidor, mas ele mesmo tiver enriquecido e achado o que basta para o seu resgate, 27. contará os anos desde a sua venda, e o que ficar do preço da venda restituirá ao homem a quem a vendeu, e tornará à sua possessão. 28. Mas, se as suas posses não bastarem para reavê-la, aquilo que tiver vendido ficará na mão do comprador até o ano do jubileu; porém no ano do jubileu sairá da posse deste, e aquele que vendeu tornará à sua possessão.” Ressaltando o trecho do versículo dezessete do mencionado capítulo de Levítico versa o seguinte conselho: “Nenhum de vós oprimirá ao seu próximo; mas temerás o teu Deus; porque eu sou o Senhor vosso Deus”. E nos versículos dezoito e dezenove conclui: “Pelo que observareis os meus estatutos, e guardareis os meus preceitos e os cumprireis; assim habitareis seguros na terra. Ela dará o seu fruto, e comereis a fartar; e nela habitareis seguros”. O criador ou mesmo Moisés, seu porta-voz, já podia prever que o homem oprimiria seus semelhantes, e assim aconteceu. Poucos se tornaram grandes poderosos, e muitos tornaram-se miseráveis; aqueles foram senhores, esses foram escravos; aqueles tinham terras, tinham poder, e tendo terra e poder, imperavam sobre os pequenos, que nada lhes restava senão a dura realidade de servir para o enriquecimento dos seus patrões. Eis aí o surgimento fatídico das desigualdades sociais, até hoje promotoras de desgraças. Retomando o enfoque histórico no tocante ao desenvolvimento do Direito Agrário, conta a história que, quando as primeiras sociedades humanas formadas por caçadores de animais e coletores de raízes descobriram a técnica da agricultura e abandonaram a vida nômade para estabelecerem moradia em lugares fixos, isso é, sem mais ocorrer a mudança frequente de um local para outro, intensificou-se a produção de alimentos. Cresceu a oferta de alimentos, e tal foi a mola propulsora do sistema de trocas existente entre as pessoas; os pequenos agrupamentos humanos se tornaram tribos e civilizações; a população paulatinamente se expandiu, ampliando suas habilidades na atividade em que se empenhava, de molde a propiciar, entre si, a permuta do que cada um se dedicava a produzir. 4 A agricultura do período era baseada no cultivo de variados alimentos, como arroz, batata, mandioca, milho, cevada, centeio, trigo, entre outros; a pecuária, a seu turno, domesticava cavalos, porcos, bois, cabras e carneiros. Outras inovações foram a criação da cerâmica, tecelagem, metalurgia e construção de muralhas, templos, armazéns para a conservação de alimentos, além de demais outras. Esse período, pelos historiadores denominado Neolítico, representa o desenvolvimento exordial da criação de animais e das primeiras formas de agricultura, conforme acima aclarado, marcado pelo estilo de vida sedentário, posto que as populações ao dominarem a agricultura e a pecuária puderam fixar-se por mais tempo nas regiões. Segundo grande parte dos historiadores o Neolítico não aconteceu em todas as partes do mundo ao mesmo tempo, mas houve diferentes períodos e regiões onde o Neolítico entrou em vigor. Os cálculos indicam que o início se deu em 8.000 a.C. no Oriente Próximo, região compreendida entre a Mesopotâmia, Egito e demais áreas habitadas pelo povo hebreu; na América Central, por sua vez, o Neolítico teria iniciando-se em 2.500 a.C. Segundo Benedito Ferreira Marques, essa é a origem do Direito Agrário. Assim leciona o referido professor: “Remontam aos primórdios da civilização as origens do Direito Agrário. E não poderia ser outra a constatação, pois que o primeiro impulso do homem foi retirar da terra os alimentos necessários à sua sobrevivência. Depois, quando os homens se organizaram em tribos, tornou-se imprescindível a criação de normas reguladoras das relações entre eles, tendo por objeto o “agro”. Nascia, ali, com tais normas, o ordenamento jurídico agrário”. (Marques (2015, p. 1) Marques registra que, conforme conclusão do professor Alcir Gursen de Miranda, “o Código de Hamurabi, do povo babilônico, pode ser considerado o primeiro Código Agrário da Humanidade”. (Miranda (1988 apud MARQUES, 2015, p. 2) O supracitadoCódigo, organizado em duzentos e oitenta parágrafos, apresentava, já em seus remotos tempos (1792 a.C.), número de sessenta e cinco temas voltados para o conteúdo agrário. Abordava assuntos como: locação e cultivo dos fundos rústicos (Cap. V); empréstimo e locação de bois (Cap. XII); tipificação delituosa da morte humana em virtude da chifrada de um boi (Cap. XIV); regimento sobre a situação dos agricultores (Cap. XVI); e o Cap. XVII, o qual tratava dos pastores. 5 2. SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO DIREITO AGRÁRIO Podemos iniciar, em apertada síntese, o nosso estudo de pesquisa proposto em sala pelo Douto Mestre Luiz Andrade pela colonização do Brasil. Portugal lançou mão do instituto jurídico das sesmarias, porquanto, no Brasil, as sesmarias eram aplicadas de forma diversa do que se dava em Portugal. Comparando-se com os países europeus que baseavam sua economia no Mercantilismo, no Brasil não havia demanda por produtos. Após o período pré-colonial, o Governo português resolve criar o sistema com quinze capitanias hereditárias, doando-as aos nobres portugueses, que receberam o título de Capitão Donatário e uma carta de doação de terras, porém, tinham que obedecer ao rei e deviam prosperar. Esse sistema durou 17 anos, mas dava muita autonomia aos capitães donatários. Então o Rei de Portugal resolve substituir o sistema de capitanias pelo sistema de Governador Geral, que durou mais ou menos três séculos, período que ficou conhecido como Colonial. Em 20 de novembro de 1530, Dom João III outorgou a Martim Affonso de Souza o direito de conceder sesmarias no Brasil. Mas foi só através da Carta Foral de 06 de outubro de 1531, que o regime de sesmaria foi oficialmente introduzido no Brasil. As primeiras sesmarias no Brasil foram dadas, em 1532. Diferente do que se aplicava em Portugal, o regime sesmarial brasileiro caracterizou-se pela transferência do domínio útil da terra não cultivada ao sesmeiro para que a colonizasse, tendo nela sua morada habitual e cultura permanente, demarcando os limites das áreas e pagando os tributos devidos. O regime sesmarial vigorou no Brasil até ser extinto em 1822. No Período Colonial as grandes posses se fortaleceram muito mais do que as pequenas posses. O regime de posse deu origem a dois institutos jurídicos existentes ainda hoje: legitimação de posse e usucapião. Naquele mesmo ano (1822) se deu a declaração da independência do Brasil. Por isso se diz que o novo estado nasceu sem ter uma legislação própria, específica e adequada à questão agrária – Período Extralegal. Se o antigo instituto sesmarial foi o instrumento que permitiu a concessão e o acesso privilegiados à propriedade territorial no Brasil, o “império das posses”, como é conhecido o período extralegal, foi ainda mais, porque reforçado pelas novas garantias constitucionais, permitiu a ampliação ao nível concreto, de tais privilégios. Esse período significou a transferência, de fato, do controle sobre as terras devolutas, que, embora formalmente, permanecendo na esfera do Estado, passou, na prática, para o campo de influência direta dos poderosos locais”. 6 2.1 A Lei de Terras. A primeira Lei de Terras do Brasil foi a Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, que disciplinava as questões da terra e do trabalho rural, estabelecendo que as terras devolutas somente poderiam ser adquiridas por compra. A Lei de Terras, como ficou conhecida, resultou em entrave ao crescimento da pequena propriedade destinada à agricultura para produção de alimentos. De fato, favoreceu o grande proprietário rural, pois somente ele tinha recursos financeiros para efetuar a compra de grandes áreas. O simples colono e o escravo não possuíam dinheiro. O grande proprietário rural, além desse favorecimento, contava, ainda, com a força de trabalho do imigrante, submetido à condição de servidão nas grandes lavouras de café. 2.2 Normas agrárias no Código Civil de 1916. De 1889 a 1930 não se teve grandes alterações na legislação fundiária. Tinha- se de um lado a grande massa camponesa pobre e, de outro, uma minoria aristocrata detentora da maior parte das terras. Isto foi gerando inconformismos e, em consequência, o surgimento de projetos de Código Rural. Relevante destacar, neste período, a promulgação da Lei n. 3.071, de 01 de janeiro de 1916, o Código Civil de 1916, que regulou, entre as relações jurídicas da vida privada, as relações jurídico-rurais (posse, contratos agrários, etc.) • A CF de 1934 fez prever institutos de nosso interesse, como a usucapião, a colonização e a proteção do trabalhador. • A CF de 1946, além da desapropriação por necessidade ou utilidade pública contemplou, pela primeira vez, a desapropriação por interesse social. • Leis especificas (Dec.Lei 3.365/41 e Lei 4.947/66) tratam de desapropriação e de direito agrário. Além disso, outras leis específicas regularam a fauna, florestas, águas, etc. • Em 1962 foi criada a SUPRA (Superintendência Nac. de R. Agrária). • Entre 1951 e 1964 surgiram inúmeros projetos de Código Rural, de reforma agrária, etc, com inspiração, sobretudo nos códigos rurais da Argentina e do Uruguai. No final dos anos 50 e início dos 60 as chamadas reformas de base (agrária, urbana, bancária e universitária) eram consideradas essenciais, mas foi a reforma agrária que polarizou as atenções. Em 1962, foi criada a Superintendência de Política Agrária - SUPRA, com a atribuição de executar a reforma agrária. • A lei n. 4.132, de 10 de setembro de 1962, regula a desapropriação por interesse social. • Em março de 1963, foi aprovado o Estatuto do Trabalhador Rural, regulando as relações de trabalho no campo, que até então estivera à margem da legislação trabalhista. 7 A organização camponesa pela reforma agrária fez acelerar a elaboração de normas reguladoras das relações atinentes à atividade agrária, inclusive atendendo a pressões internacionais. No encontro de cúpula dos países da américa, realizado em Punta Del Este (Uruguai), o Brasil, assim, como outros países, assumiu o compromisso de aprovar leis referentes à reforma agrária, como estratégia para evitar a organização da esquerda no campo. É dali que surge a nossa legislação agrária. A partir de 1970, o governo federal criou o INCRA e ao mesmo tempo vários programas especiais de desenvolvimento regional. A Constituição Federal de 1988, seus regulamentos; e projetos e tendências atuais em matéria de direito agrário. O Novo Código Civil (Lei nº 10.406/02) – Mesmo que de aplicação subsidiária no Direito Agrário, traz uma orientação nova, sobretudo superando a visão individualista, inserindo em seu conteúdo a função social da propriedade e, igualmente, a função social do contrato. Além disso, o novo C. Civil repetiu a redação da CF referente à usucapião constitucional (de 5 anos, em área de terra até 50 hectares). Após quinze anos de discussão, o Congresso Nacional aprovou a Emenda Constitucional n. 81, de 5 de junho de 2014, a qual, com o novo texto dado ao art. 243 da Constituição de 1988, que determina a expropriação de propriedades rurais e urbanas em que se localizem culturas ilegais de plantas psicotrópicas, acresceu a possibilidade de expropriação nos casos de exploração de trabalho escravo, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei. As propriedades confiscadas, ainda conforme regulamentação em lei, se destinarão a reforma agrária e a programas de habitação popular. Em maio de 2016 foi publicado o Decreto nº 8.738, de 3 de maio de 2016, que regulamenta a Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 e a Lei n° 13.001, de 20 de junho de 2014, para dispor sobre o processo de seleção das famílias beneficiárias do programa nacional de reforma agrária, e dá outras providências. Através da Medida Provisória nº 759, de 22 de dezembro de 2016, o GovernoFederal altera a forma de regularização fundiária rural e urbana, dispõe sobre a liquidação de créditos concedidos aos assentados da reforma agrária e sobre a regularização fundiária no âmbito da Amazônia legal, institui mecanismos para aprimorar a eficiência dos procedimentos de alienação de imóveis da união, dentre outras providências. O documento atualiza as Leis 8.629/1993, que trata da reforma agrária; e 11.952/2009, que regula a titulação de terras em estados da Amazônia pelo programa terra legal. Atualmente, quase um milhão de famílias estão assentadas em terras espalhadas por todo o brasil. Desse total, apenas 15% têm o título. 8 CONCLUSÃO O presente trabalho proposto pelo Douto Luiz Andrade Oliveira, sugere a realização de um estudo sobre os principais aspectos histórico-jurídicos que contribuíram para a formação do Direito Agrário brasileiro. Conclui-se que apesar de teoricamente parecer um sistema bem organizado, capaz de produzir efeitos salutares e influenciar fortemente o destino das terras brasileiras, o regime das sesmarias não foi bem sucedido no país, ineficaz se comparado a seus efeitos em outros países. Ademais é possível afirmar que tal regime, conforme jus-agraristas, se tornou o maior e principal propulsor responsável pela formação da concentração latifundiária e todas as desigualdades sociais dela decorrentes. Após tentativas falhas de reparação surgiram novos regimes como o de posse, que ao contrário do regime sesmarial, contribuiu para o surgimento de minifúndios, favorecendo a marginalização das terras, cooperando novamente pela desigualdade agrária brasileira. O regime de terras, apesar de declínio ao favorecimento dos conservadores se revelou, após um período de tempo, parcialmente eficaz ao objetivo que fora desempenhado, demonstrando assim sua tentativa de equilíbrio entre os grandes fazendeiros e os posseiros. O estudo de pesquisa aqui apresentado é de suma importância para a compreensão das questões agrárias no país, porquanto o Brasil ainda se encontre em recuperação das falhas dos antigos regimes, contudo, ainda se conjectura que nos próximos anos, décadas ou milênios, a estrutura agrária brasileira possa mudar, realidade que, no entanto, só pesquisas e estudos terão condições de avaliar. 9 Referências ARAÚJO, Felipe. As Primeiras Sociedades; InfoEscola. Disponível em <http://www.infoescola.com/historia/as-primeiras-sociedades/> Acesso em 20 de Abril de 2021. BIZIAK, Juliano. Histórico da distribuição fundiária no Brasil e a evolução legislativa; JusBrasil. 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