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ANGELO RICARDO DE SOUZA

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durante e depois
das funções pedagógicas da instituição. Os processos que ocorrem antes são os de
planejamento, de previsão e de organização (Ribeiro, 1952, p. 125). Os que ocorrem
durante são os de comando e de assistência à execução. E os que acontecem depois são
os de medir os rendimentos escolares e os de medir a utilização. Os processos que
ocorrem antes, segundo o autor, são especificamente técnicos, ou seja, “implicam em
conhecimento da realidade escolar e experiência profissional, sendo, por isso, da
alçada e da competência de especialistas” (Ribeiro, 1952, p. 128). 
Parece que o autor qualifica os processos que ocorrem durante como sendo mais
políticos e menos técnicos, pois trata-se de garantir que as relações cotidianas entre as
pessoas na escola se pautem pela colaboração e cumpriria ao dirigente escolar a garantia
deste clima de trabalho:
Considerando que na escola a idéia de autoridade tem um sentido particular, já porque a
distância que separa os que devem comandar dos que devem ser comandados é muito
pequena. (...) A base das relações humanas na unidade ou no sistema escolar é a
colaboração esclarecida e consentida e não a subordinação fundada na autoridade com
força para se fazer obedecer ou se fazer crer (Ribeiro, 1952, p. 129).
Em relação aos meios de que se serve a administração escolar, Ribeiro observa-
os em três grupos: humanos, legais e materiais (Ribeiro, 1952, p. 132). Os meios
materiais são em sua interpretação os recursos financeiros. Os meios legais são aqueles
que dão sustentação jurídica, estatutária ao processo de administração. E os meios
humanos são os mais importantes de que se vale a administração escolar tanto que,
citando Voltaire, o autor afirma que “importa menos a forma de governo do que a
qualidade dos homens” (Ribeiro, 1952, p. 140). Destaca, ainda em relação às pessoas,
que devem ser qualificadas, experientes e que as funções de administração escolar não
são funções individuais e sim tarefas coletivas (Ribeiro, 1952, p. 141).
E, por fim, o autor trata dos objetivos da administração escolar, que são
basicamente dois: a unidade e a economia do processo de escolarização. A respeito do
primeiro objetivo, Ribeiro destaca que a escola tornou-se bastante complexa e
especializada e, como tal, colocou em risco o princípio da unidade da instituição.
Assim, a administração escolar teria a tarefa de concentrar esforços para garantir a
unidade de trabalho coletivo desenvolvido na escola. Em relação ao segundo objetivo, a
economia, o autor afirma que a administração escolar teria a tarefa de garantir os
melhores rendimentos escolares a partir do mínimo dispêndio possível dos recursos.
Para tanto, a divisão do trabalho pode auxiliar, mas a administração escolar cuida para
que “essa divisão não chegue a determinar, irremediavelmente, a perda da unidade;
por outras palavras, deve impedir que as conveniências de especialização perturbem o
esforço básico de integração” (Ribeiro, 1952, p. 147).
O autor termina sua obra mostrando os três problemas fundamentais para a
administração escolar:
a) apreender os ideais propostos pela Filosofia da Educação para, em função deles,
determinar os objetivos da escola; b) conhecer a Política de Educação para, em função
dela, adotar um estilo de ação adequado; c) aproveitar as contribuições da ciência para o
conhecimento dos elementos humanos envolvidos no processo de escolarização e, em
função dele, empregar as técnicas mais convenientes às atividades da escola (Ribeiro,
1952, p. 152).
E, para lidar com esses problemas, a administração escolar necessita planejar as
ações, organizar as funções, acompanhar e dar assistência à execução das ações e
controlar os resultados do trabalho escolar (Ribeiro, 1952, p. 152). Desta forma, o autor
esboça o seguinte conceito de administração escolar, ao final do texto: “Administração
Escolar é o complexo de processos, cientificamente determinados que, atendendo a
certa filosofia e a certa política de educação, desenvolve-se antes, durante e depois das
atividades escolares para garantir-lhes unidade e economia” (Ribeiro, 1952, p. 153).
O principal problema nas concepções que Ribeiro tem da administração escolar
está menos vinculado à matriz faiolista na qual especialmente se ancora, mesmo com as
reservas da especificidade da administração escolar, e está mais na proposição de um
modelo de organização e gestão das escolas, ao que parece, pouco (ou nada!) embasado
na prática real da gestão escolar. Isto é, ao que tudo indica, o trabalho do autor não
decorreu de pesquisas empíricas sobre a administração escolar. A vinculação com
aquela matriz do pensamento da administração geral parece ser sustentada na força do
argumento de origem, ou seja, na empiria conforme apresentada por Faiol. Todavia, a
transposição deste pensamento para a educação não parece ter sido testada em lugar
algum, segundo se depreende do seu texto.
De qualquer jeito, há contribuições muito importantes do trabalho de Ribeiro
para a gestão escolar. A primeira delas é o já anunciado ineditismo de estudos de tal
monta no país. Isto talvez auxilie a esclarecer aquela crítica do parágrafo anterior, pois a
ausência de diálogo acadêmico dificulta o desenvolvimento de pesquisas. Um segundo
tópico a ser destacado é novamente, como vimos em Leão e voltaremos a ver em
Teixeira, o apelo pedagógico à origem da função do diretor escolar. É certo que, no
texto de Ribeiro, a face pedagógica do dirigente escolar não tem todo aquele destaque
que vimos em Leão, mas ainda assim é curioso que textos como esses tão criticados nos
anos 80 justamente pela sua subsunção à manutenção das relações de dominação na
sociedade, de um lado, e pelo tecnicismo administrativo de outro, tenham tido a
preocupação de defender a administração escolar como tarefa profissional e científica e
que parte, sempre, da razão pedagógica da escola. E, por fim, outro ponto importante do
trabalho do autor diz respeito ao fato de poder servir mais do que como um modelo de
gestão escolar, podendo ser pensado como uma matriz de análise da realidade da gestão
escolar, ou seja, considerando a importância, a temporalidade, a contraposição à escola
tradicional, mesmo que sem o devido aporte empírico, é possível tomar a materialidade
da proposta do autor como indagações para se percorrer os caminhos da investigação, na
busca, por exemplo, de se verificar até que ponto tais considerações constituíram corpo
teórico que orientou a prática da gestão escolar no Brasil.
Outros autores, para além de Ribeiro e Leão, foram responsáveis pela edificação
e divulgação dos principais conceitos da administração escolar no Brasil. Dentre eles, o
próprio Ribeiro (1952, p. 107) comenta acerca do trabalho de Lourenço Filho, o qual
através de Boletim do INEP teria, em 1941, trazido contribuições importantes para o
entendimento do que deva ser a área da administração escolar. E em obra de 1963,
denominada “Organização e Administração Escolar”, este autor compila os seus
principais estudos sobre o tema. Esta obra, em sua 3ª. edição de 1976, é adiante
comentada3.
Lourenço Filho inicia sua obra afirmando acerca da relação entre escola e vida
social que “assim como seja cada sociedade, assim serão suas escolas” (1976, p. 19),
permitindo compreender que a escola não é espelho da sociedade, mas que ela em
grande parte reproduz aspectos significativos da organização da vida social. Para o
autor, esta constatação inicial é importante porque dá a condição de se observar, nos
estudos sobre a escola, que esta instituição não é expressão arbitrária dos desejos que
tenham os governantes, nem mesmo dos seus projetos para a sua organização e gestão,
mas representa a confluência da história e dos “padrões culturais em cada lugar e a
cada época existentes” (Lourenço Filho, 1976, p. 20).
Fazendo sugestões iniciais acerca dos estudos sobre a administração escolar,
particularmente destacando a importância de investigações sistemáticas baseadas

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