A maior rede de estudos do Brasil

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ANGELO RICARDO DE SOUZA

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análises funcionais (Lourenço Filho, 1976, pp. 23 e 25) e chamando a atenção das
possíveis dificuldades que teriam os iniciantes na área, especialmente com uma
compreensão exagerada e inadequada das funções da legislação do ensino sobre a
determinação dos mecanismos e processos da gestão escolar4, o autor passa a destacar
as alternativas e estratégias de estudo sobre a área, demonstrando sua ótica acerca da
realidade da organização e administração escolar e as perspectivas gerais de estudo.
Quando o autor trata do método, da organização e da administração (Lourenço Filho,
1976, p. 31) é que de fato ele entra no objetivo principal desta parte do livro.
Temos então, de pronto, a apresentação de algumas idéias que expressam parte
do pensamento hegemônico à época acerca da administração escolar, advindas da
administração científica de F. Tailor, como é o caso da passagem a seguir:
Se muitos os agentes, as atividades terão de distribuir-se por cada um deles, ou por
grupos em que funcionalmente se diferenciem. Umas pessoas poderão receber o
encargo de definir os objetivos ou alvos gradativos em que as finalidades devam
decompor-se por exigência do trabalho; outras, o de reunir e coordenar elementos, a fim
de que efeitos graduais sejam obtidos; ainda outras, o de executar determinadas
 
3 O livro está dividido em duas partes. A primeira denominada “Princípios de organização e
administração escolar” é, mais detidamente, a parte da obra pela qual este texto tem interesse, pois trata
de esforço razoável de teorização e análise sobre a organização e gestão das escolas. A segunda parte,
chamada pelo autor de “Organização e administração escolar no Brasil”, dedica-se a um trabalho de
descrição e análise das bases legais e dos aspectos concernentes ao ensino da organização e administração
escolar no país, objetos que são aqui secundários, sendo, portanto, dispensáveis neste momento maiores
esforços sobre ela.
4 Este destaque que Lourenço Filho faz de pronto em seu livro se deve, em parte, à tradição normativa que
a administração escolar possuía no Brasil, dificultando o avanço de estudos mais científicos influenciados
pelo campo da administração. Todavia, a tradição legalista da administração escolar ainda perduraria por
bastante tempo, e ainda hoje parece ter significativo peso.
operações, em certa seqüência, coordenadas por alguém; e outras, ao cabo de tudo, o de
conferir a produção, nos termos da concepção inicial (...) (Lourenço Filho, 1976, p. 32).
Lourenço Filho, mais adiante, busca discutir a organização e a administração a
partir de sua origem etimológica e encontra na expressão “órgão”, significando
instrumento, a origem para a expressão organização. Isto é, com base nesta origem,
organizar significaria “instrumentar, aparelhar, combinar ou dispor elementos, a fim de
que algo bem funcione” (Lourenço Filho, 1976, p. 33). Segundo estudos citados pelo
autor, a organização humana somente é possível onde exista esforço coletivo, de
cooperação, de um lado e divisão do trabalho e sistematicidade na sua coordenação, de
outro. Isto sugere que o coletivo humano organizado teria interesses próprios que se
apresentam apenas quando coletivo, e que poderiam até ser distintos dos interesses
particulares dos indivíduos que compõem aquele coletivo. Esses aspectos são
importantes para a compreensão do conceito de organização para o autor.
Quanto à administração, Lourenço Filho parte do verbo “ministrar”, significando
servir, para articular esse significado àquelas noções sobre organização. Administração
para o autor significa a ação de “congregar pessoas, distribuir-lhes tarefas e regular-
lhes as atividades, a fim de que o conjunto bem possa produzir, ou servir aos propósitos
gerais que todo o conjunto deva ter em vista” (Lourenço Filho, 1976, p. 34). De forma
geral, organização e administração representam a composição do trabalho coletivo sob
sistematicidade na sua coordenação. Ou nas palavras do autor: “Em sentido lato,
organização e administração representam, portanto, aspectos de um mesmo e só
processo, o da coordenação da atividade de muitas pessoas em empreendimentos
solidários” (Lourenço Filho, 1976, p. 34).
A “classe de aula” é menor célula possível de ser estudada na área da
administração escolar, segundo Lourenço Filho (1976, p. 37). Todavia, o autor destaca
que o professor não se percebe como um administrador da sua classe de aula, pois
Se perguntarmos a um professor se ele administra a sua classe, ou se participa da
administração do conjunto em que trabalhe, será quase certo ouvirmos resposta
negativa. Ele dirá que organiza a sua classe, não que a administra. É que, de seu
trabalho criador, elimina o que lhe pareça pertencer a esse último aspecto (Lourenço
Filho, 1976, p. 38).
O autor ainda soma à classe, os “conjuntos e subconjuntos”, seja na condição de
conjunto de escolas ou mesmo da escola como subconjunto de uma rede de ensino,
como dimensões/escalas distintas para os estudos na área. Articulada aos conjuntos e
subconjuntos, está a categoria de “gradação” para os estudos sobre a administração
escolar, significando as já citadas classes de ensino, as escolas graduadas, as redes de
ensino, os sistemas locais de ensino, os sistemas regionais de ensino e o sistema
nacional de ensino, numa perspectiva de que há diferentes níveis/graus para o estudo e
análise da administração escolar. Outra categoria para a organização dos estudos sobre a
administração escolar é o “setor”: “nesse caso, não é a escala das realidades a estudar
que diretamente importará, mas certo setor, segundo o qual diferentes unidades de
estudo se articulem entre si, agindo e reagindo sobre as demais” (Lourenço Filho,
1976, p. 39). E, por fim, ainda acerca das diferentes escalas e setores de estudo, o autor
vê a categoria da “eficiência” como um aspecto diretamente relacionado à razão de ser
da administração escolar e que pode pautar esses estudos:
O remédio para isso será compreender que as providências de Organização e
Administração não valem como fins, por si mesmas. Devem ser entendidas sempre, em
qualquer escala e qualquer setor, como um meio, o de tornar as instituições escolares
mais eficientes, e que, assim, justifiquem os esforços que reclamam para satisfatório
funcionamento (Lourenço Filho, 1976, p. 40).
Passa, então, Lourenço Filho a tratar das teorias gerais de organização e
administração e as devidas relações dessas teorias com a sua efetiva aplicação nas
escolas. O autor observa que as teorias clássicas se apresentam em duas tendências: a
concepção de Taylor e a de Faiol e seus continuadores. A esta última o autor agrega os
trabalhos de Gulick e Urwick e de Mooney e Reiley, todos centrados na idéia da
departamentalização ou especialização dos processos de produção e na definição da
administração como o processo de planejamento, organização, seleção de pessoal,
direção e comando, coordenação e articulação, relato e informação, e conferência dos
produtos e processos (Lourenço Filho, 1976, pp. 44 e 45). Neste ponto, o autor
demonstra denodado respeito às idéias dessa segunda tendência e particular entusiasmo
com elas.
As “teorias novas” (Lourenço Filho, 1976, p. 48) são destacadas pelo autor
como contrapostas às clássicas especialmente no que tange à incompreensão que estas
teriam acerca do papel que as pessoas têm na organização, uma vez que os então
chamados recursos humanos seriam apenas peças puramente abstratas. Essas novas
teorias não estariam se contraponto às clássicas no sentido de contradizê-las, mas sim de
complementá-las. Sem mencionar as devidas referências, Lourenço Filho cita a
Psicologia como uma fonte importante para estas novas teorias, especialmente no que se
refere aos seus estudos quanto às motivações do comportamento humano e às
influências que os ambientes organizacionais promoveriam nos indivíduos. A
burocracia, como campo de investigação dos pesquisadores das ciências

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