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ANGELO RICARDO DE SOUZA

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importante de se destacar se refere justamente à não-
participação, porém entendida como ação política estratégica71. A força da tese da
participação leva à incorporação desse argumento por todos os segmentos da vida social
e política, incluindo aqui os dirigentes governamentais (e escolares) mais conservadores
ou autocráticos, a princípio contrários à participação. Isso se dá pelas dificuldades de
quaisquer pessoas se manterem à margem dos rumos políticos balizados pelos
princípios (como a democracia e a participação) adotados pela sociedade. Em reação às
políticas adotadas por determinados governantes, não é incomum encontrar movimentos
de rejeição à participação nas decisões (movimentos pelo voto nulo, são um exemplo
disto).
O último aspecto se relaciona menos com a participação, mas mais com a
associação entre democracia e participação nos processos de tomada de decisões.
Vimos, com Lima, que a participação é um discurso omnipresente. Mas, o é na defesa
dela apenas nas tomadas de decisões72. Contudo, se tomamos o conceito de gestão
democrática há pouco mencionado, veremos que a gestão (da escola) pública é mais do
que tomar decisões. Implica identificar problemas, acompanhar ações, controlar e
fiscalizar, avaliar resultados. Se se trata de democratizar a gestão (da escola) pública, e
isso pressupõe a ampliação da participação das pessoas nessa gestão, isso significa que
a participação não pode se resumir aos processos de tomada de decisões. Nesse sentido,
a participação democrática pressupõe uma ação reguladora, fiscalizadora, avaliadora,
além de decisória sobre os rumos da vida política e social das instituições (escolares) e
da sociedade. Mas, a participação só é efetiva quando as pessoas que são chamadas a
participar são colocadas em condições adequadas para tal, como vimos com Bobbio
(2000). Como é possível um sujeito participante avaliar o trabalho desenvolvido na
escola se não tem acesso às informações que lhe permitam produzir tal avaliação?
Assim, situações de participação normatizadas em excesso, ao ponto de
limitarem o direito de manifestação das pessoas, ou nas quais não se encontrem as
condições mínimas para a efetivação da ação política coletiva, podem estar direcionadas
com vistas a “outras lógicas mais orientadas para a legitimação da organização
 
falta de tradição participativa dos pais, horários inadequados para as reuniões e atendimentos, o
desconhecimento dos direitos e deveres pelos próprios pais e o fato de eles não se sentirem muito à
vontade na escola (V. Sá, 2004, p. 402).
71 Há uma longa relação de motivos para a não-participação, que vão desde o simples desinteresse até os
incômodos provocados pelas conseqüências da participação. Lima (2001, pp. 81-92) faz um aprofundado
estudo sobre esses aspectos, bem como sobre os mitos que cercam a participação. Mas aqui se trata de
enfatizar a não-participação como um aspecto político ativo, intencional.
escolar” (V. Sá, 2004, p. 139) ou para o chancelamento de decisões já tomadas pelo
grupo dirigente e/ou hegemônico na escola.
A análise sobre a democratização da organização e gestão escolar não pode, de
qualquer jeito, estar desarticulada da compreensão sobre as diferentes formas e razões e
instâncias da participação e não-participação das pessoas de todos os segmentos. É certo
que a participação, per si, não garante a democracia, ela depende das formas
participativas mais dialogadas e que garantam o “registro polifônico” (V. Sá, 2004, p.
494) de todos os sujeitos que agem na/sobre a escola cotidianamente, através dos
diversos instrumentos e processos da gestão escolar.
Instrumentos e Processos da Gestão Escolar: Conselho de Escola
A constituição de conselhos de escola e outros procedimentos mais
participativos na gestão escolar articulam-se, de um lado, à crescente complexidade dos
problemas educacionais e escolares que exige a constituição de formas mais
qualificadas de gestão escolar (Teixeira, 1961, p. 84) e, de outro, aos reclames por
maior democracia. Mas, até que ponto esses instrumentos verdadeiramente cumprem
essas demandas e não são apenas elementos técnicos que até mesmo falseiam o objeto e
objetivo de uma gestão escolar democrática e de qualidade? O desenvolvimento de
instrumentos técnicos de gestão escolar, fruto do avanço científico, tão reclamado nessa
área pelos seus precursores no Brasil, bem como a constituição de espaços mais abertos
para a participação popular, por vezes parecem se tornar mitos, isto é, parecem
encontrar a razão de ser em si mesmos.
Curiosamente, os desenvolvimentos técnico e político que ajudam o
desenvolvimento humano, que permitem a sua realização, são eles mesmos que
submetem o humano às normas e procedimentos instituídos com a intenção de servir ao
próprio humano, e isso leva a uma perda no foco do humano como a razão da ação, uma
vez que procura promover a adaptação ou a repressão.
É contraditório, mas a ciência e a política voltadas ao incremento da vida
individual e social e que permitem a superação das respostas mitológicas aos fenômenos
da vida e do mundo, ao mesmo tempo, são responsáveis pela regressão ao mito, ao
“tecnificar”, “cientificizar” as respostas aos diferentes problemas humanos, enfatizando
a forma e deslocando-se do conteúdo. O que o mito faz é juntar, ou pelo menos não
separar e se opor à separação entre natureza e cultura.
 
72 Isso também é explícito em Bobbio (2000) e Touraine (1996 e 1998).
A ciência e a política, ao se direcionarem para a técnica/forma/meio, mitifica-a,
pois a coloca acima do objeto para o qual a técnica/forma/meio foi criada, ou ao qual
está (ou deveria estar) atrelada, e dessa forma, transforma a forma em conteúdo,
elevando-a a posição de verdade absoluta, de mito que responde a tudo (Adorno &
Horkheimer, 1985). O indivíduo é colocado pela ciência e pela política como o sujeito a
ser adaptado ao seu objeto, que não existe mais, uma vez que substituído pela técnica,
logo a repressão que a ciência e a política promovem é a repressão da submissão do
indivíduo à técnica/forma.
Nesse sentido, a criação de instituições que tecnificam o diálogo, normatizando-
o, organizando em excesso a participação das pessoas através dos seus procedimentos
formais, é um procedimento político voltado a direcionar a disputa pelo poder na escola
nos moldes como classicamente ela é colocada, assim essas instituições acabam não
alcançando objetivos mais democráticos verdadeiramente.
A face técnica quando oposta à função política dos instrumentos de gestão
agrava os problemas acima mencionados quando pensa o humano como recurso da
gestão escolar, como entende Ribeiro, para quem a efetivação de uma gestão escolar
qualificada demanda observar e organizarem-se os meios distintos em três
agrupamentos: os humanos, os legais e os materiais (Ribeiro, 1952, p. 132)73. Quando
as pessoas deixam de ser o fim de uma atividade humana e passam a ser recurso para
esta atividade, definitivamente parece que o que havia de humano na atividade
desapareceu, “tecnificou-se”.
De forma diversa a Ribeiro, Vitor Paro compreende a administração como um
fenômeno que opera com o trabalho humano coletivo, mas tendo o homem sempre
como o fim das ações: “não parto do homem como recurso, como meio, mas
essencialmente como fim. Considerar o homem como fim implica tê-lo como sujeito e
não como objeto do processo em que se busca a realização de objetivos” (Paro, 1988, p.
25). Aquela atitude, ao colocar o homem na condição de recurso, também o reduz no
sentido de que menos humano ele se torna, passando a ser apenas mais um insumo a ser
controlado. De forma equivalente à discussão anteriormente

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