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ANGELO RICARDO DE SOUZA

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escolar, a qual por vezes atrapalha o
desenvolvimento da escola no que tange à economia e à unidade (outro objetivo
escolar).
A conclusão da primeira parte do livro do professor Querino Ribeiro apresenta
aquilo que ele chama de “fontes de inspiração da administração escolar”, que são as
bases teóricas sobre as quais a área se sustenta. F. W. Taylor e H. Faiol são os principais
autores citados por Ribeiro nessa apresentação teórica do campo. A escolha desses
autores não é casual e nem extemporânea. A área da administração escolar no Brasil
 
2 Especialmente Taylor e Faiol e seus seguidores.
estava, do ponto de vista teórico (e mesmo prático) apenas se iniciando, uma vez que os
problemas escolares decorrentes da constituição de uma educação de massas apenas
haviam começado em 1950, época da produção da obra em tela. Ademais, aqueles
autores eram a expressão mais expoente mundialmente da chamada administração
científica, que se apresentava na área da educação como uma espécie de antídoto às
tradicionais (e conservadoras) formas de se pensar e organizar a escola. Isto é, a âncora
teórica em Taylor e Faiol se constituía, à época, como algum avanço em favor da
construção autônoma do campo da administração escolar no país, em que pese todo o
negativo aspecto “desumano” dessas teorias, destacado inclusive pelo próprio Ribeiro
(1952, p. 87). As críticas mais fortes à relação entre a administração científica, a
educação e os aspectos econômicos e sociais serão discutidas no capítulo seguinte desta
tese.
A base teórica que o autor utiliza sustenta a tese de que a ação administrativa
não é improdutiva, ao contrário, a boa organização administrativa garante ampliação da
produção das organizações, bem como também afirma que as funções de planejamento
e administração são aspectos que devem ser conservados em seções diferentes das de
execução propriamente dita. Daqui, particularmente, decorrem as maiores críticas ao
pensamento de Ribeiro e dos teóricos por ele utilizados. Isto é, a produtividade de uma
organização está acima do interesse das pessoas que nela trabalham e, mesmo, das
pessoas que utilizam/acessam os seus produtos/serviços, uma vez que os trabalhadores
são considerados insumos do processo de produção. Ribeiro destaca esse pensamento,
particularizando-o na visão de Taylor, como um tanto desumano, mas não faz realmente
a crítica mais aprofundada a esta concepção:
Taylor não dispunha em sua época de conhecimento e experiências que lhe permitissem
distinguir entre as conveniências de sua rigorosa e metodicamente cronometrada análise
de trabalho e as inconveniências psico-sociais resultantes da super-especialização. A
desumanização do trabalho (...), advinda de seus princípios, (...) não entrou nas suas
previsões, principalmente porque seus objetivos foram quase exclusivamente técnicos e
o lado social do problema (...) ficou prejudicado por aquela preocupação dominante
(Ribeiro, 1952, p. 81).
Após demonstrar o conceito de administração também em Faiol, que o
compreende como o processo de prever, organizar, comandar, coordenar e controlar, e
de identificar demais contribuições desse autor, Ribeiro resume as principais idéias, em
sua opinião, acerca dos pensamentos de Taylor e Faiol a respeito da administração:
- Administração é um problema natural inerente a qualquer tipo de grupo humano em
ação; - Administração é uma atividade produtiva; - Administração é um conjunto de
processos articulados dos quais a organização é parte; - Administração pode ser tratada
por método científico; - Administração interessa a todos os elementos do grupo, embora
em proporção diferente (Ribeiro, 1952, p. 82)
E sintetiza assim as principais contribuições de ambos para a administração
escolar:
a) O ponto de vista básico do funcionalismo de Taylor é a questão pacífica e não se
apresenta mais como oposto ao linear de Faiol. b) Aumentados ou diminuídos, alterados
em sua seqüência ou simplesmente reproduzidos, os elementos da administração
continuam a ser aqueles que Faiol considerou. c) Não se pode mais sustentar a distinção
feita por Faiol quanto à natureza das operações de uma empresa. d) Há uma imposição
crescente para as especializações dos estudos de administração, quer quanto à natureza
dos empreendimentos, quer tanto aos diferentes setores das atividades da empresa, quer
ainda quanto aos próprios elementos da administração. e) Estão sendo claramente
distinguidos e considerados dois diferentes aspectos da atividade administrativa: um que
concerne à própria coisa administrada e outro que concerne aos meios ou métodos de
administração. (...) as primeiras variam com a natureza do empreendimento e as
segundas são sempre as mesmas para qualquer tipo de empresa. f) É evidente, nos
estudos modernos de administração, (...) por força das críticas que foram feitas à ordem
econômica vigente (...), a preocupação de corrigir a primitiva tendência à
desumanização legada aos estudos administrativos. g) Está generalizada a tendência
para conduzir os estudos de administração pela via sociológica mais do que psicológica
ou tecnológica do passado. h) As novas concepções dos objetivos da administração
inclinam-se a considerá-la com a possibilidade de vir a ser uma das chaves de solução
dos mais graves problemas gerais que afligem o mundo moderno (Ribeiro, 1952, pp. 88
e 89).
Ribeiro conclui a primeira parte do seu estudo colocando o problema da
administração escolar, identificando a origem estadunidense daquilo que ele denomina
de ramo da Pedagogia no início do século XX para atender os problemas próprios do
sistema de ensino daquele país, bastante relacionados ao espírito local e autônomo que
se configura em suas escolas. No Brasil, o autor percebe a administração escolar como
uma importação norte-americana, bastante interligada na prática com a área da educação
comparada. E, também, observa que ainda não havia, em seu tempo, qualquer
preocupação mais ampliada com a construção teórica do campo, por duas razões
basicamente. Inicialmente, pelo fato de os estudos originais serem dirigidos a situações
diversas daquelas encontradas no nosso país e de serem, portanto, estudos com poucas
bases teóricas amplas, dificultando o incremento teórico em outros lugares e, em
segundo lugar, “o fato de, nos outros países, (...) os problemas escolares serem
propostos quase exclusivamente em função dos movimentos políticos gerais, ficando
assim atribuída a solução deles aos políticos mesmo e não aos profissionais do ensino”
(Ribeiro 1952, pp. 101 e 102). Desta forma, a literatura sobre a administração escolar no
Brasil era muito frágil em 1950, sendo que o estudo de Carneiro Leão, já citado e
comentado neste texto, era então a única obra nacional com alguma envergadura e,
assim como destacado, Ribeiro também vê nesta obra mais um trabalho sobre educação
comparada do que sobre administração escolar.
Na segunda parte de seu livro, Ribeiro trata de apresentar um conjunto de
classificações acerca da administração escolar no que tange aos seus aspectos, tipos,
processos, meios e objetivos. E quanto a esses elementos, o autor vê que a
“Administração Escolar é uma das aplicações da administração geral; naquela como
nesta os aspectos, tipos, processos, meios e objetivos são semelhantes” (Ribeiro, 1952,
p. 113). Mas, ainda assim a administração escolar possui características específicas. De
qualquer jeito, o autor reconhece a escola como um espaço específico, ou com funções e
natureza específicas. Neste sentido, e por entender a administração escolar como
possuindo predominantemente uma face técnica, a compreensão e o domínio do
conhecimento sobre aquela especificidade escolar, com o suporte técnico da
administração geral e escolar, permitiria inevitavelmente a solução dos problemas
escolares.
Em relação aos processos da administração escolar, Ribeiro os entende como os
trabalhos desenvolvidos na organização da escola que ocorrem antes,

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