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Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 1 MORFOLOGIA BÁSICA DA CÉLULA DESCREVER OS MECANISMOS DE SINALIZAÇÃO E COMUNICAÇÃO ENTRE AS CÉLULAS Quando o ambiente muda, as células respondem. Cada célula, desde a bactéria mais simples à célula eucariótica mais sofisticada, monitora seu meio interno e externo, processa a informação adquirida e responde de forma adequada. Os organismos unicelulares, por exemplo, alteram seu comportamento em resposta a alterações nos nutrientes ou a toxinas. As células dos organismos multicelulares detectam e respondem a incontáveis sinais intra e extracelulares que controlam seu crescimento, divisão e diferenciação durante o desenvolvimento, bem como seu comportamento em tecidos adultos. No centro de todos esses sistemas de comunicação, estão proteínas que produzem sinais químicos, que são enviados de um lugar a outro no corpo ou dentro de uma célula, sendo geralmente processados ao longo do trajeto e integrados com outros sinais para realizar uma comunicação clara e efetiva. A comunicação intercelular alcançou um nível de complexidade surpreendente durante a evolução dos organismos multicelulares. A comunicação entre as células em organismos multicelulares é mediada, principalmente, por moléculas de sinalização extracelular. Algumas delas atuam a longas distâncias, sinalizando para células distantes; outras sinalizam apenas para células vizinhas. A maioria das células em um organismo multicelular emite e recebe sinais. A recepção dos sinais depende das proteínas receptoras, geralmente (mas nem sempre) localizadas na superfície celular, às quais as moléculas de sinalização se ligam. A ligação ativa o receptor, o qual, por sua vez, ativa uma ou mais vias ou sistemas de sinalização intracelular. Esses sistemas dependem de proteínas sinalizadoras intracelulares, que processam o sinal dentro da célula receptora e o distribuem para os alvos intracelulares apropriados. Os alvos localizados na porção final das vias de sinalização geralmente são denominados proteínas efetoras, as quais são, de alguma forma, alteradas pelo sinal recebido e implementam a alteração adequada no comportamento celular. A comunicação entre as células em organismos multicelulares é mediada, principalmente, por moléculas de sinalização extracelular. Algumas delas atuam a longas distâncias, sinalizando para células distantes; outras sinalizam apenas para células vizinhas. A maioria das células em um organismo multicelular emite e recebe sinais. A recepção dos sinais depende das proteínas receptoras, geralmente (mas nem sempre) localizadas na superfície celular, às quais as moléculas de sinalização se ligam. A ligação ativa o receptor, o qual, por sua vez, ativa uma ou mais vias ou sistemas de sinalização intracelular. Esses sistemas dependem de proteínas sinalizadoras intracelulares, que processam o sinal dentro da célula receptora e o distribuem para os alvos intracelulares apropriados. Os alvos localizados na porção final das vias de sinalização geralmente são denominados proteínas efetoras, as quais são, de alguma forma, alteradas pelo sinal recebido e implementam a alteração adequada no comportamento celular. Dependendo do sinal, do tipo e do estado da célula que o recebe, esses efetores podem ser reguladores de transcrição, canais iônicos, componentes de uma via metabólica ou partes do citoesqueleto. LEGENDA: Via de sinalização intracelular simples, ativada por uma molécula de sinalização extracelular. A molécula de sinalização geralmente se liga a uma proteína receptora que está inserida na membrana plasmática da célula- alvo. O receptor ativa uma ou mais vias de sinalização intracelular, envolvendo uma série de proteínas de sinalização. No final, uma ou mais dessas proteínas alteram a atividade de proteínas efetoras, modificando, assim, o comportamento da célula. OS SINAIS EXTRACELULARES PODEM ATUAR EM DISTÂNCIAS CURTAS OU LONGAS Muitas moléculas de sinalização extracelulares permanecem ligadas à superfície das células e influenciam somente as células que estabelecem contato. Essa sinalização dependente de contato é importante, especialmente durante o desenvolvimento e na resposta imune. Durante o desenvolvimento, essa Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 2 sinalização às vezes pode atuar em distâncias relativamente longas se as células que se comunicam estenderem longos prolongamentos finos para fazer contato umas com as outras. LEGENDA: Quatro formas de sinalização intercelular. (A) A sinalização dependente de contato requer que as células estejam em contato direto membrana- -membrana. (B) A sinalização parácrina depende de mediadores locais que são liberados no espaço extracelular e agem sobre as células vizinhas. (C) A sinalização sináptica é realizada por neurônios que transmitem sinais elétricos ao longo de seus axônios e liberam neurotransmissores nas sinapses, que frequentemente estão localizadas longe do corpo celular neuronal. (D) A sinalização endócrina depende das células endócrinas que secretam hormônios para a corrente sanguínea, de onde são distribuídos para todo o corpo. Muitas moléculas sinalizadoras de um mesmo tipo participam nas sinalizações parácrina, sináptica e endócrina: as diferenças básicas estão na velocidade e na seletividade com que os sinais são enviados para seus alvos. Na maioria dos casos, contudo, as células sinalizadoras secretam moléculas para o fluido extracelular. Com frequência, as moléculas secretadas são mediadores locais, que atuam somente sobre as células no ambiente da célula sinalizadora. Isso se chama sinalização parácrina. Geralmente, nessa sinalização, as células sinalizadoras e as células-alvo são de tipos celulares diferentes, mas também podem produzir sinais aos quais elas mesmas respondem: a isso se denomina sinalização autócrina. As células cancerosas, por exemplo, frequentemente produzem sinais extracelulares que estimulam sua própria sobrevivência e proliferação. Uma estratégia bem diferente de sinalização a longas distâncias utiliza as células endócrinas, que secretam suas moléculas sinalizadoras, chamadas hormônios, na corrente sanguínea. Esta se encarrega de transportá-las por todo o corpo, permitindo que atuem sobre as células- alvo que podem estar em qualquer lugar do corpo. AS MOLÉCULAS DE SINALIZAÇÃO EXTRACELULAR SE LIGAM A RECEPTORES ESPECÍFICOS Nos animais multicelulares, as células se comunicam por meio de centenas de tipos diferentes de moléculas de sinalização extracelular. Estas incluem proteínas, peptídeos pequenos, aminoácidos, nucleotídeos, esteroides, retinóis, moléculas derivadas de ácidos graxos, e mesmo gases dissolvidos, como óxido nítrico e monóxido de carbono. A maioria dessas moléculas é liberada pela célula sinalizadora no espaço extracelular por exocitose. Algumas, contudo, são enviadas por difusão através da membrana celular, enquanto outras são expostas na superfície externa da célula e permanecem ligadas a ela, sinalizando para outras células somente quando entram em contato. As proteínas-sinal transmembrana podem agir dessa forma ou, seus domínios extracelulares podem ser liberados da superfície da célula sinalizadora por clivagem proteolítica e atuar à distância. O sítio de ligação do receptor possui uma estrutura complexa que é organizada para reconhecer, com alta especificidade, a molécula de sinalização, ajudando a assegurar que o receptor responda ao sinal adequado e não às muitas moléculas sinalizadoras presentes no ambiente da célula. Na maioria dos casos, os receptores são proteínas transmembrana expostas na superfície da célula-alvo. Ao se ligarem a uma molécula de sinalização extracelular (um ligante), esses receptores são ativados e geram uma cascata de sinaisintracelulares, que alteram o comportamento da célula. Em outros casos, os receptores proteicos são intracelulares, e a molécula de sinalização tem que penetrar na célula-alvo para se ligar a eles: isso requer que ela seja suficientemente pequena e hidrofóbica para que possa se difundir através da membrana plasmática. Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 3 LEGENDA Ligação de moléculas de sinalização extracelular aos receptores de superfície e intracelulares. (A) A maioria das moléculas de sinalização é hidrofílica e, por isso, incapaz de atravessar a membrana da célula- alvo; elas se ligam a receptores de superfície que, por sua vez, geram sinais no interior da célula-alvo. (B) Em contraste, algumas moléculas de sinalização pequenas se difundem através da membrana plasmática e se ligam a proteínas receptoras no interior da célula-alvo – no citosol ou no núcleo (conforme mostrado na figura). Muitas dessas moléculas pequenas são hidrofóbicas e pouco solúveis em soluções aquosas; por isso, são transportadas, na corrente sanguínea ou em outros fluidos extracelulares, ligadas a proteínas carreadoras, das quais se dissociam antes de entrar na célula-alvo. Uma célula típica em um organismo multicelular está exposta a centenas de moléculas de sinalização diferentes em seu ambiente. Essas moléculas podem ser solúveis, ligadas à matriz extracelular ou, ainda, ligadas à superfície de uma célula vizinha; elas podem ser estimuladoras ou inibidoras; podem atuar em inumeráveis combinações diferentes; e podem influenciar praticamente qualquer aspecto do comportamento celular. A célula responde a essa gama de sinais de modo seletivo, em grande parte por expressar somente aqueles receptores e sistemas de sinalização intracelular que respondem aos sinais que são necessários para a regulação dessa célula. A maioria das células responde a muitos sinais diferentes do ambiente, e alguns deles podem influenciar a resposta a outros sinais. Um dos grandes desafios da biologia celular consiste em determinar como uma célula integra todas essas informações para tomar suas decisões. Todas as variadas formas de combinação existem e então permitem a programação dos inúmeros feitos da célula, dentre eles a diferenciação celular, crescimento, locomoção, morte celular programada (apoptose) e claro, a sobrevivência. Além disso, uma molécula de sinalização normalmente tem diferentes efeitos sobre diferentes tipos de células-alvo. O neurotransmissor acetilcolina, por exemplo, diminui a velocidade do potencial de ação das células cardíacas e estimula a produção de saliva pelas glândulas salivares apesar dos receptores em ambas as células serem os mesmos. No músculo esquelético, a acetilcolina causa a contração das células por se ligar a uma proteína receptora diferente. LEGENDA Diferentes respostas induzidas pelo neurotransmissor acetilcolina. (A) A estrutura química da acetilcolina. (B-D) Tipos celulares diferentes são especializados para responder de maneiras diferentes à acetilcolina. Em alguns casos, (B e C), a acetilcolina se liga a proteínas receptoras similares, mas os sinais intracelulares produzidos são interpretados de forma diferente por células especializadas em diferentes funções. Em outros casos (D), a proteína receptora também é diferente (aqui, um receptor acoplado a um canal iônico; EXISTEM TRÊS CLASSES PRINCIPAIS DE PROTEÍNAS RECEPTORAS DE SUPERFÍCIE CELULAR A maioria das moléculas de sinalização extracelular se liga a receptores específicos na superfície das células- alvo e não entra no citosol ou no núcleo. Esses receptores funcionam como transdutores de sinal. Eles convertem um evento extracelular de interação com o ligante em sinais intracelulares que alteram o comportamento da célula- alvo. A maioria das proteínas receptoras de superfície celular pertence a três classes, definidas por seus mecanismos de Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 4 transdução. Os receptores acoplados a canais iônicos, também conhecidos como canais iônicos controlados por transmissores ou receptores ionotrópicos, estão envolvidos na sinalização sináptica rápida entre as células nervosas e outras células- alvo eletricamente excitáveis, como os neurônios e as células musculares. Os receptores acoplados à proteína G atuam indiretamente na regulação da atividade de uma proteína-alvo ligada à membrana plasmática, que pode ser tanto uma enzima como um canal iônico. A interação entre o receptor e essa proteína-alvo é mediada por uma terceira proteína, chamada de proteína trimérica de ligação a GTP (proteína G). A ativação da proteína-alvo altera a concentração de uma ou mais moléculas sinalizadoras intracelulares pequenas (se a proteína-alvo for uma enzima) ou altera a permeabilidade da membrana plasmática aos íons (se a proteína-alvo for um canal iônico). As pequenas moléculas sinalizadoras intracelulares afetadas, por sua vez, alteram o comportamento de outras proteínas de sinalização na célula. Os receptores acoplados a enzimas, quando ativados, funcionam como enzimas, ou estão associados diretamente a enzimas ativadas por eles. Geralmente, são proteínas transmembrana de passagem única, cujo sítio de interação com o ligante está do lado de fora da célula e cujo sítio catalítico, ou de ligação à enzima, está do lado de dentro. Os receptores acoplados a enzimas apresentam estrutura heterogênea em comparação às outras duas classes; a grande maioria, contudo, é representada por cinases ou é a elas associada e, quando ativados, fosforilam grupos específicos de proteínas na célula-alvo. Existem alguns receptores de superfície celular que não se enquadram facilmente em nenhuma das classes citadas anteriormente, mas têm funções importantes no controle da especialização de diferentes tipos celulares durante o desenvolvimento e na renovação ou regeneração de tecidos em adultos. Estes serão discutidos em uma seção posterior, após a explicação detalhada de como funcionam os receptores acoplados à proteína G e os receptores acoplados a enzimas LEGENDA Três classes de receptores de superfície celular. (A) Receptores acoplados a canais iônicos (também chamados de canais iônicos controlados por transmissores), (B) receptores acoplados à proteína G e (C) receptores acoplados a enzimas. Apesar de muitos receptores acoplados a enzimas terem atividade enzimática intrínseca, como mostrado à esquerda em (C); muitos outros contam com enzimas associadas, como mostrado à direita em (C). Os ligantes ativam a maioria Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 5 dos receptores acoplados a enzimas por promover sua dimerização, o que resulta na interação e ativação dos domínios citoplasmáticos. OS RECEPTORES DE SUPERFÍCIE CELULAR TRANSMITEM OS SINAIS ATRAVÉS DE MOLÉCULAS SINALIZADORAS INTRACELULARES Algumas moléculas sinalizadoras intracelulares são substâncias químicas pequenas chamadas de segundos mensageiros (os “primeiros mensageiros“ seriam os sinais extracelulares). Eles são gerados em grande quantidade em resposta à ativação do receptor e se difundem rapidamente para longe de sua fonte de produção, transmitindo o sinal para outras partes da célula. Alguns, como o AMP cíclico e o Ca21, são hidrossolúveis e se difundem no citosol, enquanto outros, como o diacilglicerol, são lipossolúveis e se difundem no plano da membrana plasmática. Em ambos os casos, eles transmitem o sinal por se ligarem a proteínas de sinalização ou efetoras específicas e alterarem seu comportamento. A maioria das moléculas sinalizadoras intracelulares são proteínas que auxiliam na transmissão do sinal pela geração de segundos mensageiros ou pela ativação da proteína seguinte navia sinalizadora ou efetora. A maior classe de comutadores moleculares consiste em proteínas que são ativadas ou inativadas por fosforilação. No caso dessas proteínas, elas são, por um lado, fosforiladas por uma proteína-cinase, que adiciona um ou mais grupos fosfato de modo covalente, e, por outro lado, desfosforiladas por uma proteína- -fosfatase, que remove os grupos fosfato da molécula. As proteínas-cinase adicionam fosfato ao grupo hidroxila de aminoácidos específicos na proteína-alvo. Existem dois tipos principais de proteínas-cinase. A grande maioria delas consiste em serinas/treoninas-cinase que fosforilam os grupos hidroxila de serinas e treoninas nos seus alvos. Outras são as tirosinas-cinase, que fosforilam resíduos de tirosina. LEGENDA Dois tipos de proteínas sinalizadoras intracelulares que atuam como comutadores moleculares. (A) Uma proteína-cinase adiciona covalentemente um fosfato do ATP à proteína sinalizadora, e uma proteína-fosfatase remove o fosfato. Apesar de não estarem representadas na figura, diversas proteínas são ativadas por desfosforilação e não por fosforilação. (B) Uma proteína de ligação a GTP é induzida a trocar seu GDP por GTP, o que a ativa; esta proteína é autoinativada quando hidrolisa seu GTP a GDP. Várias proteínas sinalizadoras intracelulares controladas por fosforilação também são proteínas-cinase e, com frequência, estão organizadas em cascatas de cinases. Em tais cascatas, uma cinase, ativada por fosforilação, fosforila a próxima cinase na sequência, e assim por diante, transmitindo adiante o sinal e, em alguns casos, amplificando-o ou distribuindo-o para outras vias. Outra classe importante de comutadores moleculares são as proteínas de ligação a GTP. Elas passam de um estado “ativado” (sinalizando ativamente), quando o GTP está ligado, para um estado “inativado”, quando o GDP está ligado a elas. As grandes proteínas triméricas de ligação a GTP (também chamadas de proteínas G) ajudam a transmitir sinais a partir dos receptores acoplados à proteína G que as ativam. As pequenas GTPases monoméricas (também chamadas de proteínas monoméricas de ligação a GTP) auxiliam na transmissão de sinais de muitas classes de receptores de superfície celular. As proteínas reguladoras específicas controlam ambos os tipos de proteínas de ligação a GTP. As proteínas de ativação da GTPase (GAPs) convertem as proteínas a um estado “inativado” pelo aumento da taxa de hidrólise do GTP. Ao contrário, os fatores de troca de nucleotídeos de guanina (GEFs) ativam as proteínas de ligação a GTP por estimular a liberação do GDP, o que permite a ligação de um novo GTP. No caso das proteínas G triméricas, o receptor ativado atua como a GEF. Nem todos os comutadores moleculares em sistemas de sinalização dependem de fosforilação ou de ligação a GTP. Veremos mais tarde que algumas proteínas de sinalização são ativadas ou inativadas pela ligação de outra proteína sinalizadora ou de um segundo mensageiro como AMP cíclico ou Ca²+ ou, por outras modificações covalentes diferentes da fosforilação e desfosforilação, como ubiquitinação. É importante observar, que a maioria das vias de sinalização contém etapas inibidoras e, uma sequência de duas etapas de inibição pode ter o mesmo efeito de uma etapa de Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 6 ativação. Essa ativação duplanegativa é muito comum nos sistemas de sinalização. OS SINAIS INTRACELULARES DEVEM SER PRECISOS E ESPECÍFICOS EM UM CITOPLASMA REPLETO DE MOLÉCULAS SINALIZADORAS De preferência, uma molécula sinalizadora intracelular ativada deve interagir somente com seus alvos apropriados e, da mesma forma, os alvos devem ser ativados somente pelo sinal apropriado. Na realidade, contudo, as moléculas sinalizadoras intracelulares compartilham o citoplasma com um grande número de moléculas sinalizadoras intimamente relacionadas que controlam conjuntos de processos celulares diferentes. É inevitável que uma molécula sinalizadora ocasional se ligue ou modifique o parceiro errado, potencialmente criando conexão e interferência entre sistemas de sinalização. A primeira linha de defesa para concertar tal erro vem da alta afinidade e especificidade das interações entre as moléculas sinalizadoras e seus parceiros corretos quando comparadas com a afinidade relativamente baixa entre parceiros inapropriados. Outra importante maneira das células evitarem respostas a sinais não desejados depende da capacidade de muitas proteínas-alvo de simplesmente ignorar tais sinais. Essas proteínas respondem somente quando o sinal alcança uma alta concentração ou um certo nível de atividade. LEGENDA Regulação de uma GTPase monomérica. As proteínas de ativação da GTPase (GAPs) inativam a proteína por estimularem a hidrólise de seu GTP a GDP, o qual permanece ligado com alta afinidade à GTPase inativada. Os fatores de troca de nucleotídeos de guanina (GEFs) a ativam por estimularem a liberação do GDP; como a concentração citosólica do GTP é 10 vezes maior do que a do GDP, a proteína liga GTP e torna-se, assim, ativa As proteínas-cinase, por exemplo, contêm sítios ativos que reconhecem uma sequência específica de aminoácidos ao redor do sítio de fosforilação na proteína-alvo correta e, com frequência, contêm sítios de ancoragem adicionais que promovem uma interação específica e de alta afinidade com o alvo. Outra importante maneira das células evitarem respostas a sinais não desejados depende da capacidade de muitas proteínas-alvo de simplesmente ignorar tais sinais. Essas proteínas respondem somente quando o sinal alcança uma alta concentração ou um certo nível de atividade. LEGENDA Uma sequência de dois sinais inibidores produz um sinal positivo. (A) Neste sistema de sinalização simples, um regulador de transcrição é mantido em um estado inativo pela ligação de uma proteína inibidora. Em resposta a algum sinal, uma proteína-cinase é ativada e fosforila o inibidor, causando sua dissociação do regulador de transcrição ativando, dessa forma, a expressão gênica. (B) Esta via de sinalização pode ser representada como uma sequência de quatro etapas, incluindo duas etapas sequenciais inibidoras que são equivalentes a uma única etapa ativadora. OS COMPLEXOS DE SINALIZAÇÃO INTRACELULAR FORMAM-SE EM RECEPTORES ATIVADOS Uma estratégia simples e eficiente para aumentar a especificidade das interações entre moléculas sinalizadoras consiste em localizá-las na mesma região da célula ou mesmo dentro de grandes complexos proteicos, Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 7 assegurando desta forma que interajam somente umas com as outras e não com parceiros inapropriados. Às vezes, esses mecanismos envolvem proteínas de suporte, que organizam grupos de proteínas sinalizadoras em complexos de sinalização, frequentemente antes que o sinal seja recebido. Uma vez que a proteína de suporte mantém as demais proteínas muito próximas, elas podem interagir em concentrações locais altas e podem ser ativadas sequencialmente, de forma rápida, eficiente e seletiva, em resposta a um sinal extracelular apropriado, evitando a comunicação cruzada indesejada com outras vias. LEGENDA Três tipos de complexos de sinalização intracelular. (A) Um receptor e algumas proteínas sinalizadoras intracelulares, que são ativadas sequencialmente por ele, são pré- associados em uma grande proteína de suporte, formando um complexo de sinalização com o receptor inativo. (B) Um complexo de sinalização é organizado sobre o receptor somente após sua ativação pela ligação de uma molécula de sinalização extracelular; aqui o receptor ativado faz autofosforilação em múltiplos sítios, que atuam, então, como sítios de ancoragem para proteínas sinalizadorasintracelulares. (C) A ativação de um receptor leva ao aumento da fosforilação de fosfolipídeos específicos (fosfoinositídeos) na membrana plasmática adjacente, os quais servem como sítios de ancoragem para proteínas sinalizadoras intracelulares específicas, que podem agora interagir entre si. Outra maneira de reunir receptores e proteínas de sinalização intracelular é concentrá-los em uma região específica da célula. Um exemplo importante é o cílio primário que se projeta como uma antena da superfície da maioria das células de vertebrados. Ele geralmente é curto, imóvel, possui microtúbulos no seu interior e contém uma alta concentração de receptores de superfície e proteínas de sinalização. AS INTERAÇÕES ENTRE AS PROTEÍNAS DE SINALIZAÇÃO INTRACELULAR SÃO MEDIADAS POR DOMÍNIOS DE INTERAÇÃO MODULARES Muitas vezes, simplesmente reunir as proteínas de sinalização intracelular é suficiente para ativá-las. Assim, a proximidade induzida, na qual um sinal desencadeia a associação de um complexo de sinalização, comumente é utilizada na transmissão de sinais de uma proteína para outra ao longo de uma via de sinalização. A associação de tais complexos depende de vários domínios de Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 8 interação pequenos e altamente conservados, que são encontrados em muitas proteínas de sinalização intracelular. Existem muitos tipos de domínios de interação nas proteínas de sinalização. Os domínios de homologia com Src 2 (SH2) e os domínios de ligação à fosfotirosina (PTB), por exemplo, ligam-se a tirosinas fosforiladas em uma sequência peptídica específica nos receptores ativados ou nas proteínas de sinalização intracelular. Os domínios de homologia com Src 3 (SH3) se ligam a sequências curtas ricas em prolina. Alguns domínios de homologia com plequistrina (PH) se ligam a grupos carregados de fosfoinositídeos específicos, produzidos na membrana plasmática em resposta a um sinal extracelular; eles permitem que a proteína, da qual fazem parte, ancore na membrana e interaja com outras proteínas sinalizadoras recrutadas da mesma maneira. Algumas proteínas de sinalização consistem somente em dois ou mais domínios de interação e funcionam somente como adaptadores para reunir duas ou mais proteínas em uma via. Os domínios de interação permitem que as proteínas se liguem umas às outras em combinações múltiplas. Como peças de brinquedos de encaixar (tipo Lego), as proteínas podem formar cadeias lineares ou ramificadas, ou redes tridimensionais de interações que determinam o caminho seguido pela via de sinalização. LEGENDA Este modelo tem como base o receptor de insulina, um receptor acoplado a enzima (um receptor tirosina- cinase). Inicialmente, o receptor ativado sofre autofosforilação em suas tirosinas, e uma delas recruta uma proteína de ancoragem chamada substrato 1 do receptor de insulina (IRS1) via um domínio PTB IRS1; o domínio PH do IRS1 também se liga a fosfoinositídeos específicos sobre a superfície interna da membrana plasmática. Então, o receptor ativado fosforila as tirosinas da IRS1, e uma delas se liga ao domínio SH2 da proteína adaptadora Grb2. A seguir a Grb2 usa um dos seus dois domínios SH3 para se ligar a uma região rica em prolinas de uma proteína chamada Sos, que transmite o sinal adiante por sua ação como uma GEF, ativando uma GTPase monomérica chamada Ras (não mostrado). A Sos se liga também aos fosfoinositídeos na membrana plasmática via seu domínio PH. A Grb2 usa seu segundo domínio SH3 para se ligar a uma sequência rica em prolinas na proteína de suporte. Esta liga várias outras proteínas sinalizadoras, e as outras tirosinas fosforiladas no IRS1 recrutam proteínas sinalizadoras adicionais com domínios SH2 (não mostrado). A RELAÇÃO ENTRE O SINAL E A RESPOSTA VARIA NAS DIFERENTES VIAS DE SINALIZAÇÃO A função de um sistema de sinalização intracelular é a de detectar e quantificar um estímulo específico em uma região da célula e gerar uma resposta no tempo certo e na medida certa em outra região. Todos os sistemas de sinalização não trabalham exatamente da mesma maneira: cada um desenvolveu comportamentos especializados que produzem uma resposta apropriada para a função celular controlada por esse sistema. Nos próximos parágrafos enumeraremos alguns desses comportamentos e descreveremos como variam em diferentes sistemas. 1. O tempo de resposta varia drasticamente em diferentes sistemas de sinalização, de acordo com a velocidade requerida para a resposta. Em alguns casos, como na sinalização sináptica, pode ocorrer dentro de milissegundos. Em outros casos, como no controle do destino celular pelos morfógenos durante o desenvolvimento, uma resposta completa pode demorar horas ou dias. 2. A sensibilidade aos sinais extracelulares pode variar muito. A sensibilidade é frequentemente controlada por alterações no número ou na afinidade dos receptores na célula-alvo. Um mecanismo particularmente importante para aumentar a sensibilidade de um sistema de sinalização é a amplificação do sinal, pelo qual um pequeno número de receptores de superfície celular evoca uma resposta intracelular grande por produzir grandes quantidades de um segundo mensageiro ou por ativar várias cópias de uma proteína sinalizadora adiante na via. 3. A variação dinâmica de um sistema de sinalização está relacionada com sua sensibilidade. Alguns sistemas, como aqueles envolvidos em decisões simples de desenvolvimento, são responsivos em uma variação pequena de concentrações do sinal extracelular. Outros sistemas, como aqueles que controlam a visão ou a resposta metabólica a alguns hormônios, são altamente responsivos em uma variação muito mais ampla de intensidades do sinal. Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 9 4. A persistência de uma resposta pode variar muito. Por exemplo, uma resposta transitória de menos de um segundo é apropriada em algumas respostas sinápticas, enquanto uma resposta prolongada ou mesmo permanente é requerida em decisões do destino celular durante o desenvolvimento. 5. O processamento do sinal pode reverter um sinal simples em uma resposta complexa. Em muitos sistemas, por exemplo, um aumento gradual de um sinal extracelular é convertido em uma resposta abrupta do tipo “tudo ou nada”. Em outros casos, um sinal simples de entrada é convertido em uma resposta oscilatória, produzida por uma série repetida de sinais intracelulares transitórios. 6. A integração permite que uma resposta seja controlada pelo recebimento de múltiplos sinais. A célula, portanto, tem que integrar a informação oriunda de sinais múltiplos, os quais, com frequência, dependem dos detectores de coincidência intracelulares; estas proteínas são o equivalente às portas “E” no microprocessador de um computador, visto que elas somente são ativadas se receberem sinais múltiplos convergentes. 7. A coordenação de respostas múltiplas em uma célula pode ser alcançada por um único sinal extracelular. Essa coordenação geralmente depende dos mecanismos de distribuição de um sinal para efetores múltiplos, com a criação de ramificações na via de sinalização. LEGENDA Integração do sinal. Os sinais extracelulares A e B ativam diferentes vias de sinalização intracelulares, que levam à fosforilação de diferentes sítios da proteína Y. Esta é ativada somente quando ambos os sítios forem fosforilados, ou seja, é ativada somente quando os sinais A e B estiverem presentes de forma simultânea. Tais proteínas são chamadas de detectores de coincidência. A VELOCIDADE DE UMA RESPOSTA DEPENDE DA REPOSIÇÃO DAS MOLÉCULAS SINALIZADORAS A velocidade de qualquer resposta sinalizadora depende da natureza das moléculas de sinalização intracelular que executam a resposta da célula-alvo Quandoa resposta envolve somente mudanças em proteínas já existentes na célula, ela pode ocorrer muito rapidamente: por exemplo, uma mudança alostérica em um canal iônico controlado por neurotransmissor pode alterar, em milissegundos, o potencial elétrico da membrana plasmática, e as respostas que dependem somente de fosforilação de proteínas podem ocorrer em segundos. Contudo, quando a resposta envolve mudanças na expressão gênica e na síntese de novas proteínas, ela normalmente demora muitos minutos ou horas, não importando o mecanismo de liberação do sinal. É natural pensar nos sistemas de sinalização intracelulares em termos das mudanças produzidas quando o sinal extracelular é recebido. No entanto, é importante considerar também o que acontece quando o sinal é removido. O efeito é transitório, porque o sinal exerce seu efeito pela alteração de um grupo de moléculas de vida curta (instáveis), que sofrem reposição contínua. Assim, quando o sinal extracelular é removido, a degradação das moléculas velhas rapidamente elimina todos os vestígios de sua ação. O resultado é que a velocidade com a qual a célula responde à remoção do sinal depende da velocidade de degradação ou de reposição das moléculas afetadas por ele. É também verdade, embora muito menos óbvio, que a velocidade dessa reposição também determina a rapidez da resposta quando um sinal é emitido. Considere, por exemplo, duas moléculas sinalizadoras intracelulares, X e Y, cada uma sendo mantida a uma concentração de 1.000 moléculas por célula. A molécula Y é sintetizada e degradada a uma velocidade de 100 moléculas por segundo, tendo cada molécula uma vida média de 10 segundos. A molécula X tem uma velocidade de reposição 10 vezes menor do que a Y: ela é sintetizada e degradada a uma velocidade de 10 moléculas por segundo, de forma que cada molécula tem uma vida média de 100 segundos. Se um sinal atuando na célula aumentar em 10 vezes a velocidade de síntese de ambas as moléculas, sem mudança nas suas vidas médias, ao final de 1 segundo a concentração de Y terá aumentado para aproximadamente 900 moléculas por célula (10 3 100 2 100), enquanto a concentração de X terá aumentado para somente 90 moléculas por célula. De fato, após o aumento ou a diminuição abrupta da velocidade de síntese da molécula, o tempo necessário para que metade das moléculas mude da concentração de equilíbrio antiga para a nova é igual à sua meia-vida normal, isto é, igual Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 10 ao tempo necessário para que a sua concentração diminua à metade, se a síntese parar completamente. Muitas respostas celulares aos sinais extracelulares dependem mais da conversão das proteínas sinalizadoras intracelulares de uma forma inativa para uma forma ativa, do que da sua síntese ou degradação. LEGENDA Respostas lentas e rápidas a um sinal extracelular. Determinados tipos de respostas celulares induzidas por um sinal, como o aumento do crescimento e divisão celular, envolve mudanças na expressão gênica e a síntese de novas proteínas; portanto elas ocorrem lentamente, iniciando, com frequência, 1 hora ou mais após a chegada do sinal. Outras respostas – como mudanças no movimento, na secreção, ou no metabolismo celular – não requerem o envolvimento de alterações na transcrição de genes e por isso são muito mais rápidas, tendo início em segundos ou minutos; estas podem envolver, por exemplo, a fosforilação rápida de proteínas efetoras no citoplasma. As respostas sinápticas mediadas por mudanças no potencial de membrana são ainda mais rápidas e ocorrem em milissegundos (não mostrado). Alguns sistemas de sinalização geram tanto respostas lentas quanto rápidas conforme mostrado aqui, permitindo que a célula responda rapidamente a um sinal enquanto, simultaneamente, inicia uma resposta mais persistente e de longa duração AS CÉLULAS PODEM RESPONDER DE FORMA ABRUPTA A UM SINAL QUE AUMENTA GRADUALMENTE Outros sistemas de sinalização geram respostas significativas somente quando a concentração do sinal aumentar acima de um valor limiar. Essas respostas abruptas são de dois tipos. Uma delas é uma resposta sigmoide, na qual baixas concentrações do estímulo não têm muito efeito quando então a resposta aumenta abrupta e continuamente em níveis intermediários de estímulo. Tais sistemas fornecem um filtro para reduzir respostas inapropriadas a baixas concentrações basais de uma molécula de sinalização, mas respondem com alta sensibilidade quando o estímulo está dentro de uma pequena variação das concentrações do sinal fisiológico. Um segundo tipo de resposta abrupta consiste na resposta descontínua ou “tudo ou nada”, na qual a resposta é inteiramente ativada (e com frequência de forma irreversível) quando o sinal alcança certa concentração limiar. Tais respostas são particularmente úteis para controlar a escolha entre dois estados celulares alternativos, e geralmente envolvem retroalimentação positiva, conforme descreveremos em mais detalhes em breve. As respostas também são mais abruptas quando uma molécula sinalizadora intracelular ativa uma enzima, e também inibe outra que catalisa a reação oposta. A RETROALIMENTAÇÃO POSITIVA PODE GERAR UMA RESPOSTA “TUDO OU NADA” Semelhantemente às vias metabólicas intracelulares e aos sistemas que controlam a atividade gênica, a maioria dos produtos sistemas de sinalização intracelular incorporam ciclos de retroalimentação, nas quais o produto final de um processo atua na regulação desse processo. Na retroalimentação positiva, o produto estimula sua própria produção; na retroalimentação negativa, o produto inibe sua própria produção. Os ciclos de retroalimentação são muito importantes em biologia, regulando diversos processos químicos e físicos na célula. Os que regulam a sinalização celular podem atuar exclusivamente dentro da célula-alvo ou envolver a secreção de sinais extracelulares. A retroalimentação positiva em uma via de sinalização pode transformar o comportamento da célula-alvo. Se a retroalimentação positiva tiver intensidade apenas moderada, seu efeito será simplesmente o aumento abrupto da resposta ao sinal, gerando uma resposta sigmoide como as descritas anteriormente; mas se for suficientemente forte, pode produzir uma resposta “tudo ou nada”. Por meio da retroalimentação positiva, um sinal extracelular transitório pode induzir mudanças de longa duração nas células e na sua progênie, as quais podem persistir por toda a vida do organismo. Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 11 LEGENDA Retroalimentação positiva e negativa. Nestes exemplos simples, um estímulo ativa a proteína A, que, por sua vez, ativa a proteína B. Esta atua retroativamente sobre A, aumentando ou diminuindo sua atividade. A RETROALIMENTAÇÃO NEGATIVA É UM MOTIVO COMUM NOS SISTEMAS DE SINALIZAÇÃO Em contraste à retroalimentação positiva, a retroalimentação negativa neutraliza o efeito de um estímulo e, dessa forma, abrevia e limita o nível da resposta, tornando o sistema menos sensível a perturbações. No entanto, como no caso da retroalimentação positiva, podem ser obtidas respostas qualitativamente diferentes quando a retroalimentação atua de forma mais vigorosa. Uma retroalimentação negativa com um retardo suficientemente longo pode produzir respostas oscilantes. As oscilações podem persistir enquanto o estímulo estiver presente ou podem mesmo ser geradas de forma espontânea, sem a necessidade de um sinal externo. Se a retroalimentação negativa opera com um retardo curto, o sistema se comporta como um detector de mudança. Ele dá uma resposta forte ao estímulo, mas ela decai rapidamente mesmo com a persistência do estímulo; se o estímulo for aumentado de forma súbita, contudo, o sistema respondede novo de forma intensa, mas novamente a resposta decai com rapidez. Esse é o fenômeno de adaptação que será o próximo tópico a ser discutido. LEGENDA Alguns efeitos da retroalimentação simples. Os gráficos mostram os efeitos de ciclos simples de retroalimentação positiva e negativa. Em cada caso, o sinal inicial é uma proteína-cinase ativada (S) que ativa, por fosforilação, outra proteína-cinase (E); uma proteína-fosfatase (I) inativa, por desfosforilação, a cinase E. Nos gráficos, a linha vermelha indica a atividade da cinase E ao longo do tempo. A barra azul indica o tempo durante o qual o sinal inicial está presente (cinase S ativada). (A) Diagrama do ciclo de retroalimentação positiva, no qual a cinase E ativada atua retroativamente promovendo a sua própria fosforilação e ativação; a atividade basal da fosfatase I desfosforila a cinase E em uma taxa baixa e constante. (B) O gráfico superior mostra que, sem retroalimentação, a atividade da cinase E é simplesmente proporcional (com um pequeno retardo) ao nível de estimulação pela cinase S. O gráfico inferior mostra que, com o ciclo de retroalimentação positiva, a estimulação transitória pela cinase S troca o sistema de um estado “inativado” para um estado “ativado”, o qual persiste mesmo após a remoção do estímulo. (C) Diagrama do ciclo de retroalimentação negativa, no qual a cinase E ativada fosforila e ativa a fosfatase I, aumentando, dessa forma, a taxa na qual a fosfatase desfosforila e inativa a cinase E. Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 12 (D) O gráfico superior mostra novamente a resposta da atividade da cinase E sem retroalimentação. Os outros gráficos mostram os efeitos, sobre a atividade da cinase E, da retroalimentação negativa agindo após curtos ou longos períodos de retardo. No retardo curto, o sistema mostra uma resposta intensa e curta quando o sinal é alterado abruptamente, e a retroalimentação conduz a resposta de volta a um nível mais baixo. No retardo longo, a retroalimentação produz oscilações sustentadas enquanto o estímulo estiver presente. AS CÉLULAS PODEM AJUSTAR SUA SENSIBILIDADE AO SINAL As células e os organismos são capazes de detectar a mesma porcentagem de variações de um sinal em uma escala muito ampla de intensidade do estímulo em resposta a muitos tipos de estímulos. As células-alvo conseguem isso por meio de um processo reversível de adaptação, ou dessensibilização, pelo qual uma exposição prolongada a um estímulo reduz a resposta celular. Na sinalização química, a adaptação permite que as células respondam a alterações na concentração da molécula de sinalização extracelular (em vez de responderem a sua concentração absoluta) em uma escala muito ampla de concentrações do sinal. O mecanismo básico é o de uma retroalimentação negativa que opera com retardo curto: uma resposta intensa altera a maquinaria de sinalização envolvida, de forma que esta se torna menos responsiva à mesma concentração do sinal. Devido ao retardo, contudo, uma alteração súbita no estímulo é capaz de estimular a célula novamente, por um curto período, antes que a retroalimentação negativa possa atuar. SINALIZAÇÃO POR MEIO DE RECEPTORES ACOPLADOS À PROTEÍNA G Os receptores acoplados à proteína G formam a maior família de receptores de superfície celular, e medeiam a maioria das respostas a sinais de origem externa ao organismo, assim como a sinais vindos de outras células, incluindo hormônios, neurotransmissores e mediadores locais. Consistem em uma única cadeia peptídica que atravessa a bicamada lipídica sete vezes, formando uma estrutura cilíndrica, frequentemente com um sítio de interação com o ligante localizado no seu centro. A superfamília dos GPCRs inclui a rodopsina, uma proteína ativada pela luz no olho dos vertebrados, bem como os numerosos receptores olfatórios nas fossas nasais dos vertebrados. LEGENDA Receptor acoplado à proteína G (GPCR). (A) Os GPCRs que interagem com ligantes pequenos, tais como a epinefrina, têm domínios extracelulares pequenos, e o ligante geralmente interage profundamente dentro do plano da membrana em um sítio formado por aminoácidos de vários segmentos transmembrana. Os GPCRs que interagem com ligantes proteicos têm um domínio extracelular grande (não mostrado aqui) que contribui na interação com o ligante. (B) A estrutura do receptor adrenérgico b2, um receptor do neurotransmissor epinefrina, ilustra o arranjo cilíndrico das hélices transmembrana de sete passagens, típico de um GPCR. O ligante (laranja) interage com um bolsão entre as hélices, resultando em mudanças de conformação na superfície citosólica do receptor que promove a ativação da proteína G. AS PROTEÍNAS G TRIMÉRICAS TRANSMITEM OS SINAIS A PARTIR DOS RECEPTORES ASSOCIADOS À PROTEÍNA G Quando uma molécula de sinalização extracelular se liga a um GPCR, o receptor sofre uma mudança conformacional que o permite ativar uma proteína trimérica de ligação a GTP (proteína G), que acopla o receptor a enzimas ou canais iônicos na membrana. Existem vários tipos de proteínas G, cada uma específica para um conjunto particular de receptores associados e para um conjunto particular de proteínas-alvo na membrana plasmática. Todas têm, contudo, uma estrutura semelhante e funcionam de modo similar. As proteínas G são formadas por três subunidades – 𝛼𝛽𝛾. No estado não estimulado, a subunidade a está ligada ao GDP, e a proteína G está inativa. Quando um receptor Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 13 associado é ativado, ele atua como um fator de troca de nucleotídeos de guanina (GEF) e induz a subunidade 𝛼 a dissociar o GDP, permitindo que o GTP se ligue no seu lugar. Esta ligação causa uma mudança conformacional ativadora na subunidade Ga, liberando a proteína G do seu receptor e desencadeando a dissociação da subunidade Ga do par Gbg – ambos interagem então com vários alvos, tais como enzimas e canais iônicos na membrana plasmática, a qual transmite o sinal adiante. A subunidade 𝛼 é uma GTPase que se inativa ao hidrolisar o GTP ligado a ela em GDP. O tempo necessário para a hidrólise do GTP é curto porque a atividade de GTPase é grandemente aumentada pela ligação da subunidade 𝛼 a uma segunda proteína, que pode ser a proteína-alvo ou um regulador da sinalização da proteína G (RGS) específico. LEGENDA A estrutura de uma proteína G inativa. (A) Observe que as subunidades a e g possuem moléculas de lipídeos covalentemente ligadas (caudas vermelhas) que as ajudam na ligação à membrana plasmática, e a subunidade a tem um GDP ligado. (B) A estrutura tridimensional da forma inativa da proteína G ligada a GDP chamada Gs , que interage com muitos GPCRs, incluindo o receptor b2-adrenérgico. A subunidade a contém o domínio GTPase e se liga de um lado da subunidade b. A subunidade g se liga ao lado oposto da subunidade b e as duas subunidades juntas formam uma unidade funcional única. O domínio GTPase da subunidade a contém dois subdomínios principais: o domínio “Ras”, que se relaciona com outras GTPases e fornece uma face do bolsão de ligação ao nucleotídeo; e o domínio em hélice a ou “AH”, que fixa o nucleotídeo no lugar. LEGENDA Ativação de uma proteína G por um GPCR ativado. A ligação de uma molécula de sinalização extracelular a um GPCR altera a conformação do receptor, o que permite que ele se ligue e altere a conformação de uma proteína G trimérica. O domínio AH da subunidade a da proteína G se move para o exterior para abrir o sítio de ligação ao nucleotídeo, promovendo, assim, a dissociação do GDP. A ligação do GTP promove, então, o fechamento do sítio de ligação ao nucleotídeo, desencadeando as mudanças de conformação que provocam a dissociação da subunidade a doreceptor e do complexo bg. A subunidade a ligada ao GTP e o complexo bg regulam as atividades das moléculas de sinalização em etapas posteriores da via (não mostrado). O receptor permanece ativo enquanto a molécula de sinalização extracelular estiver ligada a ele, e pode, por isso, catalisar a ativação de muitas moléculas de proteína G. O AMP cíclico é sintetizado a partir do ATP por uma enzima chamada adenililciclase, e é rápida e continuamente destruído pelas fosfodiesterases de cAMP. A adenililciclase é uma proteína transmembrana de passagem múltipla grande, com o seu domínio catalítico no lado citosólico da membrana. Nos mamíferos existem pelo menos oito isoformas, sendo a maioria delas regulada por proteínas G e íons 𝐶𝑎2+. Esses sinais ativam os GPCRs que estão acoplados a uma proteína G estimuladora (Gs). A subunidade a ativada da Gs se liga e ativa a adenililciclase. Outros sinais extracelulares, atuando por meio de diferentes GPCRs, reduzem os níveis de cAMP pela ativação de uma proteína G inibidora (Gi ), a qual inibe a adenililciclase. Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 14 A toxina da cólera, produzida pela bactéria que causa a cólera, é uma enzima que catalisa a transferência da ribose do ADP do NAD+ intracelular para a subunidade 𝛼 da Gs . Essa ribosilação altera a subunidade a de forma que ela não possa mais hidrolisar seu GTP, fazendo com que se mantenha no estado ativo, estimulando indefinidamente a adenililciclase. A elevação prolongada nos níveis de cAMP nas células epiteliais intestinais provoca um grande influxo de Cl2 e de água para o lúmen do intestino, causando, dessa forma, a diarreia grave que caracteriza a cólera. A toxina pertússis, produzida pela bactéria que causa a coqueluche, catalisa a ribosilação do ADP da subunidade a de Gi , impedindo a interação da proteína com os receptores; como resultado, a proteína G permanece no estado inativo ligado a GDP sendo incapaz de regular suas proteínas-alvo. Essas duas toxinas são amplamente utilizadas em experimentos para determinar se a resposta celular a um sinal é mediada por Gs ou por Gi. A PROTEÍNA-CINASE DEPENDENTE DE AMP CÍCLICO (PKA) MEDEIA A MAIORIA DOS EFEITOS DO AMP CÍCLICO o cAMP exerce seus efeitos principalmente pela ativação da proteína-cinase dependente de AMP cíclico (PKA). No seu estado inativo, a PKA consiste em um complexo de duas subunidades catalíticas e de duas subunidades reguladoras. A ligação do cAMP às subunidades reguladoras altera a conformação dessas subunidades, provocando sua dissociação do complexo. As subunidades catalíticas liberadas são, assim, ativadas e fosforilam substratos proteicos específicos. As subunidades reguladoras da PKA (também chamada de cinase A) são importantes para localizar a enzima dentro da célula: proteínas de ancoragem à cinase A (AKAPs, A- kinase anchoring proteins) especiais se ligam simultaneamente às subunidades reguladoras e a componentes do citoesqueleto ou à membrana de uma organela, confinando o complexo enzimático a um determinado compartimento subcelular. LEGENDA Ativação da proteína-cinase dependente de AMP cíclico (PKA). A ligação do cAMP às subunidades reguladoras do tetrâmero da PKA induz uma mudança de conformação, causando sua dissociação das subunidades catalíticas e ativando, dessa forma, a função cinásica dessas subunidades. A liberação das subunidades catalíticas requer a ligação de mais de duas moléculas de cAMP às subunidades reguladoras no tetrâmero. Essa exigência aumenta muito a definição da resposta da cinase a alterações na concentração do cAMP, conforme discutido anteriormente. As células de mamíferos possuem, pelo menos, dois tipos de PKA: o tipo I está principalmente no citosol, enquanto o tipo II está ligado, por meio de suas subunidades reguladoras e de proteínas de ancoragem especiais, às membranas plasmática, nuclear, mitocondrial externa e aos microtúbulos. Em ambos os tipos, contudo, quando as subunidades catalíticas estão livres e ativas, elas migram para o núcleo (onde fosforilam proteínas reguladoras de genes), enquanto as subunidades reguladoras permanecem no citoplasma. Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 15 LEGENDA Como o aumento na concentração intracelular de AMP cíclico altera a transcrição gênica. A ligação de uma molécula de sinalização extracelular ao seu GPCR ativa a adenililciclase via Gs e aumenta a concentração de cAMP no citosol. Esse aumento ativa a PKA, e suas subunidades catalíticas liberadas entram no núcleo, onde fosforilam a proteína reguladora CREB. Após a fosforilação, esta proteína recruta o coativador CBP, que estimula a transcrição gênica. Pelo menos em alguns casos a CREB inativa está ligada ao elemento de resposta ao AMP cíclico (CRE) no DNA antes deste ser fosforilado (não mostrado) Nas células que secretam o hormônio peptídico somatostatina, por exemplo, o cAMP ativa o gene que codifica esse hormônio. A região reguladora do gene da somatostatina contém uma sequência reguladora cis curta, chamada elemento de resposta ao cAMP (CRE) que é encontrado também na região reguladora de muitos outros genes ativados por cAMP. Um regulador de transcrição específico denominado proteína de ligação a CRE (CREB; do inglês, CRE-binding) reconhece essa sequência. Quando a PKA está ativada pelo cAMP, ela fosforila a CREB em uma única serina; então, a CREB fosforilada recruta o coativador de transcrição chamado de proteína de ligação a CREB (CBP, CREB-binding protein), que estimula a transcrição dos genes-alvo. Assim, a CREB pode transformar um sinal curto de cAMP em uma mudança de longa duração na célula, um processo que se acredita ter uma função importante em algumas formas de aprendizado e memória no cérebro. ALGUMAS PROTEÍNAS G TRANSMITEM SINAIS ATRAVÉS DE FOSFOLIPÍDEOS Muitos dos GPCRs exercem seus efeitos via ativação da enzima de membrana fosfolipase C-𝛽. A fosfolipase atua sobre um fosfolipídeo de inositol (um fosfoinositídeo) chamado de fosfatidilinositol 4,5-bifosfato (PI[4,5] 𝑷𝟐), que está presente em pequenas quantidades na camada interna da bicamada lipídica da membrana plasmática. Os receptores que ativam essa via de sinalização do fosfolipídeo de inositol o fazem principalmente por meio de uma proteína G chamada de Gq, que ativa a PLC𝛽, basicamente da mesma forma que a Gs ativa a adenililciclase. A fosfolipase ativada age sobre o PI(4,5)𝑃2, gerando dois produtos: inositol 1,4,5-trifosfato (I 𝑃3 ) e diacilglicerol. A IP3 é uma molécula hidrossolúvel que sai da membrana e se difunde rapidamente no citosol. Quando alcança o retículo endoplasmático (RE), liga-se aos canais de liberação de 𝐶𝑎2+ controlados por IP3 (também chamados de receptores de IP3) na membrana do RE, abrindo-os. O 𝐶𝑎2+ estocado no RE é liberado através dos canais abertos, aumentando rapidamente sua concentração no citosol. Ao mesmo tempo em que o IP3 produzido pela hidrólise do PI(4,5)𝑃2 aumenta a concentração do 𝐶𝑎 2+ no citosol, o outro produto da clivagem do PI(4,5)𝑃2, diacilglicerol, exerce diferentes efeitos. Ele também atua como um segundo mensageiro, mas permanece na membrana plasmática, onde tem vários papéis potenciais na sinalização. Uma de suas funções principais é a de ativar uma proteína-cinase chamada proteína-cinase C (PKC), assim denominada porque é dependente de 𝐶𝑎2+ . O aumento inicial no 𝐶𝑎2+ citosólico, induzido por IP3, altera a PKC de forma que ela se desloca do citosol para a face citoplasmática da membrana. Aí ela é ativada pela combinação de 𝐶𝑎2+ , diacilglicerol e do fosfolipídeo de membrana carregado negativamente, fosfatidilserina. Uma vez ativada, a PKC fosforila proteínas-alvo que variam dependendo do tipo celular. MóduloXI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 16 O diacilglicerol pode ser clivado e liberar ácido araquidônico, que pode agir como um mensageiro ou ser usado na síntese de outras moléculas de sinalização lipídicas pequenas, chamadas de eicosanoides. A maioria das células de vertebrados produz eicosanoides, incluindo as prostaglandinas, as quais têm muitas atividades biológicas. LEGENDA Como os GPCRs aumentam o 𝐶𝑎2+ citosólico e ativam a proteína-cinase C. O GPCR ativado estimula a fosfolipase C-b (PLCb) ligada à membrana plasmática via uma proteína G chamada Gq. A subunidade a e o complexo bg da Gq estão envolvidos nessa ativação. Dois segundos mensageiros são produzidos quando o PI(4,5) 𝑃2 é hidrolisado pela PLCb ativada. O inositol 1,4,5-trifosfato (IP3) se difunde pelo citosol e se liga aos canais de 𝐶𝑎2+ controlados por IP3 na membrana do retículo endoplasmático, abrindo-os e liberando 𝐶𝑎2+ . O gradiente eletroquímico de 𝐶𝑎2+ através da membrana do retículo faz com que o íon saia para o citosol quando os canais de liberação estão abertos. O diacilglicerol permanece na membrana plasmática e, juntamente com a fosfatidilserina (não mostrada) e o 𝐶𝑎2+, auxilia na ativação da proteína-cinase C, a qual é recrutada do citosol para a face citosólica da membrana plasmática. Do total de mais de 10 isoformas diferentes da enzima em humanos, pelo menos quatro são ativadas pelo diacilglicerol. O 𝑪𝒂𝟐+ FUNCIONA COMO UM MEDIADOR INTRACELULAR UBÍQUO Muitos sinais extracelulares, e não somente aqueles que atuam via proteínas G, desencadeiam um aumento na concentração citosólica de 𝐶𝑎2+ . Esse íon é um mediador efetivo de sinalização porque sua concentração no citosol é normalmente muito baixa (~ 10−7 M), enquanto sua concentração no fluido extracelular (~ 10−3 M) e no lúmen do retículo endoplasmático (RE) (e no retículo sarcoplasmático [RS] no músculo) é alta. Assim, existe um grande gradiente através da membrana plasmática e da membrana do RE e do RS, tendendo a conduzir o íon para o citosol. Quando um sinal abre transitoriamente os canais de 𝐶𝑎2+ nessas membranas, o íon flui para o citosol, e o aumento resultante de 10 a 20 vezes na concentração local do 𝐶𝑎2+ ativa, na célula, proteínas responsivas ao íon. O mais importante é que existem bombas de 𝐶𝑎2+ na membrana plasmática e na membrana do RE que usam a energia da hidrólise do ATP para bombear o íon para fora do citosol. As células que fazem uso extensivo da sinalização mediada por 𝐶𝑎2+, como as musculares e as nervosas, possuem, em suas membranas plasmáticas, um transportador de 𝐶𝑎2+ adicional (permutador de 𝐶𝑎2+ ativado por 𝑁𝑎+) que acopla o efluxo de 𝐶𝑎2+ ao influxo de 𝑁𝑎+ . A RETROALIMENTAÇÃO GERA ONDAS E OSCILAÇÕES DE 𝑪𝒂𝟐+ Outra propriedade importante dos receptores de IP3 e rianodina consiste na sua inibição, após um determinado intervalo de tempo, por altas concentrações de 𝐶𝑎2+ (uma forma de retroalimentação negativa). Assim, o aumento do 𝐶𝑎2+ em uma célula estimulada leva à inibição de sua liberação; como as bombas removem o 𝐶𝑎2+ citosólico, sua concentração cai. Esse declínio eventualmente elimina a retroalimentação negativa, permitindo que o 𝐶𝑎2+ citosólico aumente outra vez. Essas oscilações persistem pelo tempo em que os receptores permanecem ativados na superfície celular, e sua frequência reflete a intensidade do estímulo extracelular A frequência das oscilações de 𝐶𝑎2+ pode ser traduzida em uma resposta celular dependente de frequência. Uma determinada frequência de picos de 𝐶𝑎2+ ativa a transcrição de um determinado conjunto de genes, enquanto uma frequência mais alta ativa a transcrição de um conjunto diferente. AS PROTEÍNAS-CINASE DEPENDENTES DE 𝑪𝒂𝟐+ /CALMODULINA FAZEM A MEDIAÇÃO DE MUITAS RESPOSTAS AOS SINAIS DE 𝑪𝒂𝟐+ A calmodulina funciona como um receptor intracelular polivalente de 𝐶𝑎2+ , mediando muitos processos regulados por 𝐶𝑎2+ . Essa proteína consiste em uma única cadeia polipeptídica altamente conservada, com quatro sítios de ligação ao 𝐶𝑎2+ de alta afinidade. Quando ativada pela ligação ao íon, ela sofre uma mudança de conformação. A ativação alostérica da calmodulina pelo 𝐶𝑎2+ é análoga à ativação da PKA pelo cAMP, exceto pelo fato de o complexo 𝐶𝑎2+ /calmodulina não ser dotado, ele próprio, de atividade enzimática: o complexo atua ligando-se a outras proteínas. O complexo 𝐶𝑎2+ /calmodulina ativado sofre uma acentuada mudança de conformação quando se liga à sua proteína-alvo. Entre os alvos regulados pela calmodulina estão muitas enzimas e proteínas de Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 17 transporte de membrana. Como exemplo, 𝐶𝑎2+ /calmodulina ativa uma bomba de 𝐶𝑎2+ da membrana plasmática que usa a hidrólise do ATP para transportar o íon para fora da célula. Assim, sempre que a concentração intracelular do 𝐶𝑎2+ aumenta, a bomba é ativada, auxiliando no retorno do íon aos níveis citosólicos normais. Legenda A estrutura da 𝐶𝑎2+ / calmodulina. (A) A molécula tem a forma de um haltere, com duas extremidades globulares que se ligam a diversas proteínas-alvo. As extremidades globulares são conectadas por uma hélice a longa e exposta, que permite à proteína adotar um grande número de conformações diferentes, dependendo da proteína-alvo com a qual está interagindo. Cada uma das cabeças globulares possui dois domínios de ligação ao 𝐶𝑎2+. (B) Está ilustrada a principal mudança estrutural que ocorre no complexo 𝐶𝑎2+ /calmodulina ao se ligar a uma proteína-alvo (neste exemplo, um peptídeo que forma o domínio de ligação de uma proteína--cinase dependente de 𝐶𝑎2+ /calmodulina). Observe que o complexo 𝐶𝑎2+ /calmodulina forma uma espécie de “foice” que envolve o peptídeo. Ele pode adotar diferentes conformações quando se liga a outros alvos. (A, baseado em dados de cristalografia por difração de raios X obtidos por Y.S. Babu et al., Nature 315:37–40, 1985. Com permissão de Macmillan Publishers Ltd; B, baseado em dados de cristalografia por difração de raios X obtidos por W.E. Meador, A.R. Means, e F.A. Quiocho, Science 257:1251–1255, 1992, e dados de espectroscopia por ressonância magnética nuclear (RMN) obtidos por M. Ikura et al., Science 256:632–638, 1992.) ALGUMAS PROTEÍNAS G REGULAM CANAIS IÔNICOS DIRETAMENTE A subunidade 𝛼 de um tipo de proteína G (chamada de 𝐺12 ), por exemplo, ativa um GEF que converte uma GTPase monomérica da família Rho em sua forma ativa capaz de regular o citoesqueleto de actina. As proteínas G ativam ou inativam diretamente os canais iônicos na membrana plasmática da célula-alvo, alterando, dessa forma, a permeabilidade aos íons e, por conseguinte, a excitabilidade da membrana. A acetilcolina, liberada pelo nervo vago, por exemplo, reduz a frequência cardíaca. A subunidade 𝛼 da proteína 𝐺𝑖, uma vez ativada, inibe a adenililciclase, enquanto as subunidades 𝛽𝛾 se ligam aos canais de 𝐾+ da membrana plasmática das células musculares cardíacas, abrindo-os. A abertura desses canais dificulta a despolarização da célula, o que contribui para o efeito inibitório da acetilcolina no coração. O ÓXIDO NÍTRICO É UM MEDIADOR DE SINALIZAÇÃO GASOSO QUE PASSA ENTRE AS CÉLULAS Um importante e extraordinário exemplo é o gás óxido nítrico, que funciona como molécula de sinalização em vários tecidos de animais e plantas. Nos mamíferos, uma das muitas funções do NO é a de relaxar a musculatura lisa nas paredes de vasos sanguíneos. O neurotransmissor acetilcolina estimula a síntese do NO pela ativação de um GPCR na membrana das células endoteliais que revestem o interior do vaso. O receptor ativado desencadeia a síntese de I 𝑃3 e a liberação de 𝐶𝑎2+ , levando à estimulaçãode uma enzima que sintetiza NO. LEGENDA As famílias são determinadas pela sequência de aminoácidos das subunidades 𝛼. São mostrados somente exemplos selecionados. Em humanos foram descritas cerca de 20 subunidades 𝛼 e, pelo menos, seis subunidades 𝛽 e 11 subunidades 𝛾. Como o óxido nítrico dissolvido atravessa facilmente membranas, difunde-se para fora da célula onde é produzido e para as células musculares lisas adjacentes, onde causa relaxamento muscular e, com isso, dilatação dos vasos saguíneos. Ele atua apenas localmente, porque tem uma meia-vida curta, de 5 a 10 segundos no espaço extracelular, antes de se converter em nitratos e nitritos pela ação do oxigênio e da água. Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 18 O gás NO é produzido pela desaminação do aminoácido arginina, catalisada pelas enzimas chamadas óxido NO sintase (NOS). Em algumas células-alvo, incluindo as da musculatura lisa, o NO se liga reversivelmente ao ferro no sítio ativo da guanililciclase e estimula a síntese de GMP cíclico. O NO pode aumentar o GMP cíclico no citosol em segundos, porque a velocidade normal de reposição do GMP cíclico é alta: a degradação rápida a GMP, por ação de uma fosfodiesterase, constantemente equilibra a produção de GMP cíclico por guanilil-ciclase. O medicamento Viagra® e outros similares inibem a fosfodiesterase de GMP cíclico no pênis, aumentando, dessa forma, o tempo no qual os níveis de GMP cíclico permanecem elevados nas células musculares lisas dos vasos sanguíneos penianos depois que a produção de NO é induzida por terminais nervosos locais. O GMP cíclico, por sua vez, mantém os vasos sanguíneos relaxados e o pênis ereto. LEGENDA Papel do óxido nítrico (NO) no relaxamento do músculo liso da parede de um vaso sanguíneo. (A) Corte transversal simplificado de um vaso sanguíneo, mostrando as células endoteliais revestindo o lúmen e as células musculares lisas em volta delas. (B) O neurotransmissor acetilcolina estimula a dilatação do vaso pela ativação de um GPCR – o receptor muscarínico de acetilcolina – na superfície das células endoteliais. Esse receptor ativa uma proteína G, Gq, estimulando, assim, a síntese de IP3 e a liberação de 𝐶𝑎2+. O 𝐶𝑎2+ ativa a óxido nítrico sintase, induzindo a produção de NO pelas células endoteliais a partir da arginina. O NO se difunde para fora das células endoteliais e para dentro das células musculares subjacentes, onde ativa a guanililciclase para produzir GMP cíclico. Este desencadeia uma resposta que causa o relaxamento das células musculares, aumentando o fluxo de sangue pelo vaso. OS SEGUNDOS MENSAGEIROS E AS CASCATAS ENZIMÁTICAS AMPLIFICAM OS SINAIS Da mesma maneira, quando uma molécula de sinalização extracelular se liga a um receptor que ativa indiretamente a adenililciclase via Gs , cada proteína receptora pode ativar muitas moléculas de Gs, e cada uma delas ativa uma molécula de ciclase. Qualquer uma dessas cascatas amplificadoras de sinais estimuladores requer mecanismos de regulação em cada etapa, a fim de restabelecer o estado de repouso do sistema quando o sinal cessa. Conforme enfatizado anteriormente, a resposta à estimulação será rápida somente se os mecanismos de inativação também forem rápidos. Para isso, as células são dotadas de mecanismos eficientes para degradar (e ressintetizar) nucleotídeos cíclicos de forma rápida, para tamponar e remover o 𝐶𝑎2+ citosólico e para desativar enzimas e canais iônicos que tenham sido ativados. Isso não é essencial somente para desativar uma resposta, mas também é importante para definir o estado de repouso a partir do qual ela inicia. A DESSENSIBILIZAÇÃO DOS RECEPTORES ASSOCIADOS À PROTEÍNA G DEPENDE DA FOSFORILAÇÃO DO RECEPTOR No caso dos GPCRs, existem três formas gerais de adaptação (1) No sequestro do receptor, eles são temporariamente transferidos para o interior da célula (interiorizados) de forma que não têm mais acesso ao seu ligante. (2) Na retrorregulação, eles são destruídos nos lisossomos após a internalização. (3) Na inativação do receptor, eles são alterados de forma a não poder mais interagir com as proteínas G. LEGENDA Funções das GPCR-cinases (GRKs) e das arrestinas na dessensibilização desses receptores. Uma GRK fosforila somente os receptores ativados porque são estes que a ativam. A ligação de uma arrestina ao receptor fosforilado impede a ligação deste à proteína G e controla também sua endocitose (não mostrado). Camundongos deficientes em uma forma de arrestina, Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 19 por exemplo, não são dessensibilizados em resposta à morfina, atestando a importância das arrestinas no processo. A arrestina ligada ao receptor contribui de duas formas, pelo menos, com o processo de dessensibilização. Na primeira, ela impede a interação do receptor ativado com as proteínas G. Na segunda, ela serve como uma proteína adaptadora que acopla o receptor à maquinaria endocítica dependente da clatrina , induzindo endocitose mediada por receptor. SINALIZAÇÃO POR MEIO DE RECEPTORES ACOPLADOS A ENZIMAS Assim como os GPCRs( da proteína G), os receptores acoplados a enzimas são proteínas transmembrana, com seu domínio de interação com o ligante localizado na superfície externa da membrana plasmática. Seu domínio citosólico, entretanto, em vez de estar associado a uma proteína G trimérica, associa-se diretamente a uma enzima ou tem atividade enzimática intrínseca. Enquanto os GPCRs possuem sete segmentos transmembrana, cada subunidade dos receptores acoplados a enzimas possui apenas um. Os GPCRs e os receptores acoplados a enzimas frequentemente ativam algumas das mesmas vias de sinalização. Os receptores tirosinas-cinase ativados se autofosforilam Diversas proteínas de sinalização extracelular atuam por meio dos receptores tirosinas- -cinase (RTKs). Estas incluem proteínas secretadas e ligadas à superfície celular que controlam o comportamento celular nos animais em desenvolvimento e em adultos. LEGENDA Algumas subfamílias de receptores tirosinas-cinase. Estão indicados somente um ou dois membros de cada subfamília. Observe que em alguns casos, o domínio tirosina-cinase é interrompido por uma “região de inserção de cinase” que é um segmento extra que emerge do domínio cinase enovelado. Não estão mostradas as funções da maioria dos domínios ricos em cisteínas, dos domínios semelhantes à imunoglobulina e dos domínios semelhantes à fibronectina do tipo III. Na Tabela, estão listados alguns dos ligantes desses receptores, juntamente com alguns exemplos das respostas mediadas por eles. Existem 60 RTKs humanos, que podem ser classificados em 20 subfamílias estruturais, cada uma delas destinada à sua família complementar de ligantes proteicos. Em todos os casos, a ligação da proteína de sinalização ao domínio de interação com o ligante na face extracelular do receptor ativa o domínio tirosina-cinase na face citosólica. Isso leva à fosforilação das cadeias laterais da tirosina na parte citosólica do receptor, criando sítios de ancoragem para várias proteínas de sinalização intracelular que transmitem o sinal. Acredita-se que, no caso de um GPCR( da proteína G), a ligação altere a orientação relativa de várias a-hélices transmembrana, alterando, dessa forma, a posição relativa das alças citoplasmáticas. Contudo, é improvável que uma mudança conformacional se propague através da bicamada lipídica por meio de uma única ahélice transmembrana. Em vez disso, para a maioria dos RTKs, a interação com o ligante provoca a dimerização dos receptores, unindo os dois domínios citoplasmáticos da cinase, promovendo, dessa forma, sua ativação. A dimerização estimula a atividade da cinase por uma variedade demecanismos. Em muitos casos, como no do receptor da insulina, a dimerização simplesmente aproxima os domínios cinase em uma orientação que permite que fosforilem um ao outro em tirosinas específicas nos sítios ativos da cinase, promovendo, desse Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 20 modo, mudanças conformacionais que ativam ambos os domínios cinase. Em outros casos, como no do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGF), a cinase não é ativada por fosforilação, mas por mudanças conformacionais resultantes de interações entre os dois domínios cinase fora dos seus sítios ativos. LEGENDA Ativação dos receptores tirosinas-cinase por dimerização. Na ausência de sinais extracelulares, a maioria dos RTKs existem como monômeros, nos quais o domínio cinase interno está inativo. A interação com o ligante reúne dois monômeros para formar um dímero. Na maioria dos casos, a grande proximidade dos domínios cinase no dímero causa sua fosforilação mútua, o que tem dois efeitos: Primeiro, a fosforilação de algumas tirosinas no domínio cinase provoca a ativação completa destes. Segundo a fosforilação de algumas tirosinas em outras partes do receptor gera sítios de ancoragem para proteínas de sinalização intracelular, resultando na formação de grandes complexos de sinalização que podem, então, transmitir o sinal ao longo de múltiplas vias. Os mecanismos de dimerização variam amplamente entre os diferentes membros da família dos RTKs. Em alguns casos, como mostrado aqui, o próprio ligante é um dímero e promove a ligação de dois receptores simultaneamente. Em outros casos, um ligante monomérico pode interagir com dois receptores simultaneamente mediando sua ligação, ou dois ligantes podem interagir independentemente com dois receptores para promover a dimerização. Em alguns RTKs – principalmente naqueles da família dos receptores da insulina – o receptor é sempre um dímero (ver Figura 15- 43), e a interação com o ligante causa uma mudança de conformação que promove a associação de dois domínios cinase internos. Embora muitos RTKs sejam ativados por transautofosforilação, como mostrado aqui, existem algumas exceções importantes, incluindo o receptor de EGF. LEGENDA Ativação do receptor de EGF. Na ausência do ligante, o receptor de EGF é fundamentalmente um monômero inativo. A ligação de EGF resulta em uma mudança de conformação que promove a dimerização dos domínios externos. O domínio cinase, ao contrário de muitos RTKs, não é ativado por transautofosforilação. Em vez disso, a dimerização orienta os domínios cinase internos a formar um dímero assimétrico, no qual um domínio cinase (o “ativador”) pressiona contra o outro domínio (o “receptor”) causando, assim, uma mudança conformacional ativadora no “receptor”. Esse domínio ativo fosforila múltiplas tirosinas nas caudas C-terminais de ambos os receptores, gerando sítios de ancoragem para as proteínas de sinalização intracelular. As tirosinas fosforiladas nos RTKs servem como sítios de ancoragem para proteínas de sinalização intracelular Quando os domínios cinase de um dímero RTK são ativados, eles fosforilam múltiplos sítios adicionais nas partes citosólicas dos receptores, em regiões desordenadas fora do domínio cinase. Essa fosforilação cria sítios de ancoragem de alta afinidade para proteínas de sinalização intracelular. Cada uma delas se liga a um sítio fosforilado específico nos receptores ativados, porque contém um domínio específico de ligação à fosfotirosina. Uma vez ligada ao RTK ativado, a proteína sinalizadora pode ser fosforilada em algumas tirosinas, tornando-se ativa. Em muitos casos, contudo, a ligação por si só é suficiente para ativar a proteína sinalizadora, tanto por induzir uma mudança na conformação da proteína, como simplesmente por aproximá-la da proteína seguinte na via de sinalização. Assim, a fosforilação do receptor serve como um comutador para deflagrar a associação de um complexo de sinalização intracelular, que pode transmitir o sinal adiante, frequentemente ao longo de múltiplas vias, para vários destinos na célula. Diferentes RTKs desencadeiam diferentes respostas, pois se ligam a diferentes combinações de proteínas sinalizadoras. Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 21 As proteínas com domínios SH2 se ligam às tirosinas fosforiladas Algumas das proteínas de ancoragem são enzimas, como a fosfolipase C-g (PLCg, phospholipase C-g), que age da mesma forma que a PLCb, ou seja, ativando a via de sinalização do fosfolipídeo de inositol, discutida anteriormente, junto com os GPCRs. É através dessa via que os RTKs podem aumentar os níveis citosólicos de Ca21 e ativam a PKC. A tirosina-cinase citoplasmática Src é outra enzima que ancora nesses receptores e fosforila tirosinas de outras proteínas sinalizadoras. Outra, ainda, é a fosfatidilinositídeo 3-cinase (PI 3-cinase), que fosforila lipídeos em vez de proteínas; como será discutido mais adiante, os lipídeos fosforilados servem, então, como sítios de ancoragem que atraem várias proteínas sinalizadoras para a membrana plasmática. As proteínas de sinalização intracelular que se ligam a fosfotirosinas apresentam estrutura e função variadas. Contudo, elas geralmente compartilham domínios de ligação à fosfotirosina altamente conservados. Esses podem ser tanto os domínios SH2 (denominação derivada de região de homologia com Src, por terem sido encontrados pela primeira vez nessa proteína) ou, menos comumente, os domínios PTB (ligação à fosfotirosina). Pelo fato de reconhecerem tirosinas fosforiladas específicas, esses pequenos domínios de interação permitem que as proteínas que os possuem liguem-se a RTKs ativados, bem como a muitas outras proteínas sinalizadoras intracelulares que tenham suas tirosinas fosforiladas temporariamente. Nem todas as proteínas que se ligam aos RTKs ativados via domínios SH2 auxiliam na transmissão de sinais. Algumas agem inibindo o processo, promovendo uma retroalimentação negativa. Um exemplo é a proteína c- Cbl, que pode se ligar a alguns receptores ativados e catalisar sua ubiquitinação, por adição covalente de uma ou mais moléculas de ubiquitina a sítios específicos no receptor. As mutações que inativam a degradação dos RTKs, dependente de c-Cbl, prolongam a sinalização dos receptores e promovem, dessa forma, o desenvolvimento de câncer. LEGENDA Ligação de proteínas de sinalização intracelular contendo SH2 a um RTK ativado. (A) Esta representação de um receptor do fator de crescimento derivado de plaquetas (PDGF) mostra cinco sítios de ancoragem, três na região de inserção da cinase e dois na cauda C- terminal, à qual se ligam as três proteínas de sinalização, como indicado. Os números à direita indicam as posições das tirosinas na cadeia polipeptídica. Esses sítios foram identificados utilizando-se a tecnologia do DNA recombinante para alterar tirosinas específicas no receptor. As mutações nas tirosinas 1.009 e 1.021, por exemplo, impedem a ligação e a ativação da PLCg, de forma que a ativação do receptor não estimula mais a via de sinalização do fosfolipídeo de inositol. A localização dos domínios SH2 (vermelho) e SH3 (azul) nas três proteínas sinalizadoras está indicada. (Não estão mostrados os sítios de ancoragem de fosfotirosinas nesse receptor, como aqueles que servem como sítios de ligação para a tirosina-cinase citoplasmática Src e para as proteínas adaptadoras Grb2 e de Shc, discutidos mais adiante.) Ainda não está claro como ocorre a ligação simultânea de várias proteínas sinalizadoras a um único RTK. (B) A estrutura tridimensional de um domínio SH2, conforme determinado por cristalografia de difração de raios X. O bolsão de ligação para a fosfotirosina está colorido em laranja à direita, e um bolsãopara ligação de uma cadeia lateral de um aminoácido específico (neste caso, a isoleucina) está colorido em amarelo, à esquerda. O segmento polipeptídico do RTK que se liga ao domínio SH2 Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 22 está mostrado em amarelo (C) O domínio SH2 é um módulo compacto que pode ser inserido em praticamente qualquer lugar na proteína, sem perturbar sua estrutura ou sua função (discutido no Capítulo 3). Uma vez que cada domínio possui sítios distintos para o reconhecimento da fosfotirosina e para o reconhecimento da cadeia lateral de um aminoácido específico, diferentes domínios SH2 reconhecem as fosfotirosinas no contexto de diferentes sequências de aminoácidos adjacentes. (B, baseado em dados de G. Waksman et al., Cell 72:779– 790, 1993. Com permissão de Elsevier. Código PDB: 2SRC.) A GTPase Ras medeia a sinalização da maior parte dos RTKs A superfamília Ras consiste em várias famílias de GTPases monoméricas, mas somente a família Rho e a família Ras estão envolvidas na transmissão de sinais dos receptores de superfície. Existem, em humanos, três principais proteínas Ras intimamente relacionadas: H-, K- e N-Ras. Como muitas GTPases monoméricas, as proteínas Ras possuem um ou mais grupos lipídicos, ligados covalentemente, que auxiliam na ancoragem da proteína à face citoplasmática da membrana, de onde a proteína transmite sinais para outras partes da célula. Assim como outras proteínas de ligação a GTP, as proteínas Ras funcionam como comutadores moleculares revezando em dois estados conformacionais distintos – com GTP ligado são ativas e com GDP ligado são inativas. Os fatores de troca de nucleotídeos de guanina-Ras (Ras- GEFs) promovem a permuta dos nucleotídeos pela estimulação da dissociação do GDP e da ligação do GTP do citosol, ativando, desse modo, a Ras. As proteínas de ativação de Ras-GTPase (Ras-GAPs) aumentam a taxa de hidrólise do GTP pela Ras, inativando, dessa forma, Ras. As formas de Ras mutantes hiperativas são resistentes à estimulação da GTPase mediada por GAP e são permanentemente mantidas no estado ativo ligado a GTP, o que explica porque promovem o desenvolvimento de câncer. LEGENDA Como um RTK ativa Ras. A Grb2 reconhece uma tirosina específica fosforilada no receptor ativado por meio de um domínio SH2 e recruta Sos por meio de dois domínios SH3. A Sos estimula a Ras inativada a substituir seu GDP por um GTP, o que a ativa promovendo a transmissão do sinal Ras ativa um módulo de sinalização de MAP-cinase As proteínas-fosfatase específicas para tirosina (discutidas mais tarde) revertem as fosforilações rapidamente, e as GAPs induzem a Ras ativada a se autoinativar pela hidrólise do GTP ligado que é convertido em GDP. Para estimular a proliferação ou a diferenciação celular, esses eventos sinalizadores de curta duração precisam ser convertidos em eventos de longa duração, que possam manter o sinal e transmiti-lo para o núcleo, onde irão alterar o padrão de transcrição gênica. Um dos mecanismos-chave utilizado para esse propósito é um sistema de proteínas chamado de módulo proteína- cinase ativado por mitógenos (módulo MAP-cinase; do inglês, mitogen-activated protein kinase module). Os três componentes desse sistema formam um modulo de sinalização funcional extremamente bem conservado ao longo da evolução e é utilizado, com algumas variações, em muitos contexto diferentes de sinalização. Todos os três componentes são proteínas-cinase. A última da série é chamada simplesmente de MAP-cinase (MAPK). A penúltima é a MAP-cinase-cinase (MAPKK), ela fosforila a MAP-cinase e, dessa forma, a ativa. A seguinte é a MAP-cinase-cinase-cinase (MAPKKK), que recebe um sinal de ativação diretamente da Ras. Ela fosforila e ativa a MAPKK. Na via de sinalização da Ras-MAP-cinase, nos mamíferos, estas três cinases são conhecidas por nomes mais curtos: Raf (5 MAPKKK), Mek (5 MAPKK) e Erk (5 MAPK). Dessa forma, a via de sinalização da Ras- MAP-cinase transporta sinais desde a superfície celular até o núcleo e altera o padrão de expressão gênica. Entre os genes ativados dessa forma estão aqueles necessários à proliferação celular, como os que codificam as ciclinas G. Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 23 Muitos fatores influenciam a duração e outras características da resposta de sinalização, incluindo ciclos de retroalimentação positiva e negativa, as quais podem ser combinadas para gerar respostas graduais ou do tipo “tudo ou nada”, assim como respostas curtas ou de longa duração. Proteínas de suporte ajudam a prevenir erros de sinalização entre módulos paralelos de MAP-cinases As células de mamíferos também usam essa estratégia para evitar intercomunicação entre as vias de sinalização das MAP-cinases. Nessas células existem, pelo menos, cinco módulos de MAP-cinase paralelos. Esses módulos fazem uso de, pelo menos, 12 MAP-cinases, 7 MAPKKs e 7 MAPKKKs. Dois deles (terminando nas MAP-cinases chamadas de JNK e p38) são ativados por diferentes tipos de estresse celular, como irradiação ultravioleta (UV), choque térmico, estresse osmótico e estimulação por citocinas inflamatórias; outros medeiam principalmente respostas a sinais oriundos de outras células. GTPases da família Rho acoplam, funcionalmente, os receptores de superfície celular ao citoesqueleto As GTPases monoméricas da família Rho regulam o citoesqueleto de actina e os microtúbulos, controlando a forma da célula, a polaridade, a mobilidade e a adesão; elas também regulam a progressão no ciclo celular, a transcrição gênica e o transporte de membrana. Ao contrário de Ras, que estão associadas à membrana mesmo na forma inativa (com GDP ligado), as GTPases da família Rho inativas estão ligadas a inibidores de dissociação de nucleotídeos de guanina (GDIs; do inglês, guanine nucleotide dissociation inhibitors) no citosol, que impedem a interação das GTPases com suas Rho-GEFs na membrana plasmática. A PI 3-cinase produz sítios lipídicos de ancoragem na membrana plasmática Uma das proteínas que se ligam à cauda intracelular das moléculas dos RTKs é a enzima fosfoinositídeo 3-cinase (PI 3-cinase), ligada à membrana plasmática. O fosfatidilinositol (PI) é exclusivo entre os lipídeos de membrana, porque pode ser fosforilado reversivelmente em múltiplos sítios, gerando uma grande variedade de diferentes fosfolipídeos de inositol, chamados de fosfoinositídeos. A produção de PI(3,4,5)P3 é a mais importante, porque ele pode servir de sítio de ancoragem para várias proteínas de sinalização intracelular, que se organizam em complexos de sinalização que transmitem o sinal para dentro da célula a partir da face citosólica da membrana plasmática. Em contraste, o PI(3,4,5)P3 não é clivado pela PLC. Ele é formado a partir de PI(4,5)P2 e permanece na membrana plasmática até ser desfosforilado por fosfatases de fosfoinositídeos específicas. Uma desas é a fosfatase PTEN, que desfosforila a posição 3 do anel inositol. As mutações na PTEN são encontradas em muitos tipos de cânceres: elas promovem crescimento celular descontrolado, porque prolongam a sinalização pela PI 3-cinase. Os RTKs ativam as PI 3-cinases de classe Ia, nas quais a subunidade reguladora é uma proteína adaptadora que se liga, por meio de seus dois domínios SH2, a duas fosfotirosinas dos receptores ativados. Os GPCRs ativam as PI 3-cinases da classe Ib, que possuem uma subunidade reguladora que se liga ao complexo bg de uma proteína G trimérica ativada (Gq) quando os GPCRs são ativados por seu ligante extracelular. Uma proteína especialmente importante que contém domínio PH é a serina/ treonina-cinase Akt. A via de sinalização PI 3-cinase-Akt estimula a sobrevivência e o crescimento das células animais LEGENDA Módulo de MAP-cinaseativado por Ras. O módulo de três componentes inicia com a MAP-cinase-cinase- - cinase, chamada de Raf. A Ras recruta a Raf para a membrana plasmática e ajuda na sua ativação. A Raf, então, ativa a MAP-cinase-cinase Mek, que, por sua vez, ativa a MAP-cinase Erk. Esta fosforila várias proteínas, incluindo outras cinases, bem como reguladores nucleares de transcrição. As alterações resultantes nas atividades proteicas e na expressão gênica causam mudanças complexas no comportamento celular. Eles se ligam a RTKs , os quais ativam a PI 3-cinase para que produza PI(3,4,5)P3.OPI(3,4,5)P3 recruta duas proteínas-cinase da membrana plasmática via seu Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 24 domínio PH – Akt (também chamada proteína-cinase B, ou PKB) e a proteína-cinase 1 dependente de fosfoinositídeos (PDK1), o que leva à ativação da Akt. O controle do crescimento celular pela via da PI 3-cinase- Akt depende em parte de uma grande proteína-cinase chamada TOR. O complexo 1 mTOR contém a proteína raptor; esse complexo é sensível à rapamicina e estimula o crescimento celular – promovendo a produção dos ribossomos e a síntese proteica, além da inibição da degradação das proteínas. O complexo 1 também promove o crescimento e a sobrevivência celular pela estimulação do metabolismo e da captação de nutrientes. O complexo 2 mTOR contém a proteína rictor e é insensível à rapamicina. Ele ajuda na ativação da Akt e regula o citoesqueleto de actina via GTPases da família Rho. O mTOR no complexo 1 integra informações de várias fontes, inclusive de proteínas-sinal extracelulares conhecidas como fatores de crescimento e de nutrientes, como aminoácidos, ambos ajudando na ativação de mTOR e promovendo o crescimento celular. Os RTKs e os GPCRs ativam vias de sinalização que se sobrepõem Os RTKs e os GPCRs ativam algumas vias de sinalização intracelular comuns, conforme mencionado anteriormente. Ambos, por exemplo, podem ativar a via do fosfolipídeo de inositol desencadeada pela fosfolipase C. Além disso, mesmo quando ativam diferentes vias, estas convergem nas mesmas proteínas-alvo. Receptores de citocinas ativam a via de sinalização JAK- STAT A grande família dos receptores de citocinas inclui receptores para muitos tipos de mediadores locais (coletivamente chamados de citocinas), bem como receptores para alguns hormônios, como o hormônio de crescimento e a prolactina. Janus-cinase (JAKs) (em homenagem ao deus romano de duas faces), que ativam reguladores de transcrição chamados de STATs. Essas proteínas localizam-se no citosol e são referidas como reguladores de transcrição latentes, porque migram para o núcleo e regulam a transcrição gênica somente após serem ativadas. A via de sinalização JAK-STAT é uma das mais diretas. Os receptores de citocinas são dímeros ou trímeros e estão associados a uma ou duas das quatro JAKs conhecidas (JAK1, JAK2, JAK3 e Tyk2). A ligação da citocina altera a organização, causando a aproximação de duas JAKs para que possam fazer fosforilação, aumentando, assim, a atividade de seus domínios de tirosina-cinase. As JAKs fosforilam as tirosinas nas caudas citoplasmáticas dos receptores de citocinas, criando sítios de fosfotirosina de ancoragem para as STATs. Pelo menos seis STATs são conhecidas nos mamíferos. Cada uma delas possui um domínio SH2 que realiza duas funções. A primeira consiste na mediação da ligação da proteína STAT a um sítio de ancoragem de fosfotirosina em um receptor de citocina ativado. Uma vez ligada, suas tirosinas são fosforiladas pelas JAKs, o que provoca sua dissociação do receptor. A segunda consiste na mediação, pelo domínio SH2 da STAT livre, da ligação desta a uma fosfotirosina de outra STAT, formando um homo ou um heterodímero de STAT. O dímero de STAT se transloca para o núcleo, onde, em combinação com outras proteínas reguladoras da transcrição, se liga a uma sequência específica reguladora cis em vários genes e estimula sua transcrição. LEGENDA Via de sinalização JAK- STAT ativada por citocinas. A ligação das citocinas causa a dimerização das duas cadeias polipeptídicas do receptor (conforme mostrado) ou reorienta as cadeias do receptor em um dímero pré- formado. Em ambos os casos, os JAKs associados são reunidos de forma que podem fosforilar as tirosinas um do outro e se tornam totalmente ativados, e, depois disso, fosforilam os receptores para gerar sítios de ligação para os domínios SH2 das proteínas STAT. Os JAKs também fosforilam as proteínas STAT, que se dissociam do receptor Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 25 e formam dímeros que penetram no núcleo para controlar a expressão gênica. As proteínas tirosinas-fosfatase revertem as fosforilações das tirosinas Em todas as vias de sinalização que usam fosforilação de tirosinas, estas são revertidas por proteínas tirosinas- fosfatase. Essas fosfatases asseguram que as fosforilações sejam de curta duração e que o nível de tirosinas fosforiladas seja muito baixo nas células em repouso. No entanto, elas não revertem simplesmente os efeitos das tirosinas-cinase; elas estão programadas para agir somente na hora apropriada. As proteínas sinalizadoras da superfamília TGFb atuam por meio de receptores serina-treonina-cinase e Smads. A superfamília fator de crescimento transformador b (TGFb; do inglês, transforming growth factor-b superfamily) consiste em um grande número (33 em humanos) de proteínas diméricas de secreção estruturalmente relacionadas. Nos adultos, estão envolvidas com reparo de tecidos e regulação imune, assim como em muitos outros processos. Existem duas classes desses receptores serinas/treoninas- cinase – tipo I e tipo II – que são homodímeros com estrutura semelhante. O receptor tipo I ativado se liga a um regulador de transcrição latente da família Smad (denominação derivada dos primeiros membros da família identificados, Sma em C. elegans e Mad em Drosophila) e o fosforila. Smads ativadas por receptores (R-Smads) tenha sido fosforilada, ela se dissocia do receptor e se liga à Smad4 (chamada de co-Smad), que pode formar um complexo com qualquer uma das cinco R-Smads. Esse complexo se desloca para o núcleo, onde se associa a outros reguladores de transcrição e controla a transcrição de genes-alvo específicos. LEGENDA A via de sinalização dependente de Smad ativada por TGFb. O dímero de TGFb promove a formação de um complexo receptor tetramérico contendo duas cópias dos receptores do tipo I e do tipo II. Os receptores do tipo II fosforilam sítios específicos nos receptores do tipo I, ativando, assim, seus domínios cinase e levando à fosforilação de R-Smads como a Smad2 e Smad3. As Smads se abrem para expor uma superfície de dimerização quando são fosforiladas, levando à formação de um complexo trimérico contendo duas R- Smads e a co-Smad, Smad4. O complexo Smad fosforilado penetra no núcleo e colabora com outros reguladores de transcrição para controlar a transcrição de genes-alvo específicos. As Smads transitam de forma contínua entre o citoplasma e o núcleo durante a resposta à sinalização: elas são desfosforiladas no núcleo e exportadas para o citoplasma, onde podem ser refosforiladas por receptores ativados. VIAS ALTERNATIVAS DE SINALIZAÇÃO NA REGULAÇÃO GÊNICA As principais mudanças no comportamento de uma célula tendem a depender de mudanças na expressão de um grande número de genes. Desse modo, muitas moléculas de sinalização extracelular exercem seus efeitos, total ou parcialmente, por iniciarem vias de sinalização que alteram as atividades de reguladores de transcrição. Existem numerosos exemplos de regulação gênica nas vias dos GPCR e dos receptores acoplados a enzimas. Receptor de proteína Notch Sinalização muito usada duranteo processo de desenvolvimento. ela tem uma atuação geral no controle da escolha do destino das células e na regulação do padrão de formação (principalmente no processo de Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 26 migração das células nervosas), bem como na renovação de tecidos. Essa proteína se comunica com células vizinhas por um processo denominado inibição lateral, que é um mecanismo de sinalização dependente de contato mediado por uma proteína-sinal transmembrana de passagem única chamada de Delta, exposta na superfície da futura célula neural. A proteína Delta liga-se a proteína Notch na célula adjacente e sinaliza para impedir as células adjacentes aos neurônios não se diferenciem em célula neuronal. LEGENDA Processamento e ativação de Notch por clivagem proteolítica. As setas vermelhas numeradas indicam os sítios de processamento proteolítico. A primeira etapa do processamento ocorre dentro da rede trans Golgi e gera um receptor Notch heterodimérico maduro que é exposto na superfície celular. A ligação a Delta em uma célula adjacente, desencadeia as duas etapas proteolíticas seguintes: o complexo de Delta e do fragmento Notch ao qual ela está ligada são endocitados pela célula que está expressando Delta, expondo o sítio de clivagem extracelular na subunidade Notch transmembrana. Observe que Notch e Delta interagem por meio dos seus domínios repetidos similares a EGF. A cauda de Notch liberada migra para o núcleo, onde se liga à proteína Rbpsuh e a converte de repressor em ativador de transcrição. Notch é uma proteína transmembrana de passagem única que necessita de processamento proteolítico para funcionar. Ela atua como regulador latente de transcrição e produz a via de sinalização mais simples e mais direta de um receptor de superfície celular para o núcleo. Quando ativada pela ligação de Delta de outra célula, a cauda citoplasmática de Notch é hidrolisada por uma protease ligada à membrana e se desloca para o núcleo, onde ativa a transcrição de um grupo de genes que respondem a Notch. A cauda interage com uma proteína de ligação ao DNA, convertendo-a de repressor em ativador da transcrição. Acredita-se que o complexo proteolítico das proteases relacionadas à Notch contribua para esta e outras formas da doença de Alzheimer por gerar fragmentos peptídicos extracelulares os fragmentos se acumulam em grande quantidade, formando agregados de proteínas malformadas chamadas de placas amiloides, que danificam as células nervosas, contribuindo para sua degeneração e perda. As proteínas Wnt interagem com os receptores Frizzled e inibem a degradação de b-catenina As proteínas Wnt são moléculas de sinalização secretadas que agem como mediadores locais e morfógenos no controle de muitos aspectos do desenvolvimento. Essas proteínas foram descobertas independentemente em moscas e em camundongos. Observou-se nos roedores que o gene Int1 (responsável por síntese da proteína Wnt) promovia o desenvolvimento de tumores de mama. Existem 19 Wnt em humanos, cada uma com funções distintas, mas frequentemente sobrepostas. As Wnt ativam, pelo menos, dois tipos de vias de sinalização intracelular. A via Wnt/b-catenina, que está centralizada no regulador latente de transcrição b- catenina. Uma segunda via, chamada de via de polaridade planar, coordena a polarização das células no plano do epitélio em desenvolvimento e depende das GTPases da família Rho. Ambas as vias iniciam com a ligação das Wnts aos receptores de superfície celular da família Frizzled, que são proteínas transmembrana de sete passagens, mas que, em geral, não atuam por meio da ativação de proteínas G. As proteínas Frizzled, quando ativadas pela ligação da Wnt, recrutam a proteína de suporte Dishevelled, a qual ajuda na transmissão do sinal para outras moléculas sinalizadoras. A via Wnt/b-catenina age regulando a proteólise da proteína multifuncional b-catenina por se ligarem à proteína Frizzled e a um correceptor relacionado ao receptor da lipoproteína de baixa densidade (LDL) sendo, por isso, chamada de proteína relacionada ao receptor de LDL. Sendo assim, a proteína Wnt, entre outras funções, agem controlando a proteólise do LDL. Proteínas hedgehog é uma família de proteínas sinalizadoras que atuam como mediadores locais envolvidos no desenvolvimento de vertebrados e invertebrados. Estudos realizados em moscas Drosophila Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 27 serviram de base para a descoberta da proteína. Foi verificado que uma mutação no gene que a codifica (nesse caso, apenas um) cria na larva da mosca prolongamentos pontiagudos, dando um aspecto semelhante a um ouriço. A via de sinalização hedgehog é um dos reguladores chave do desenvolvimento animal, conservado desde as moscas até aos humanos. A via toma o nome do seu ligando proteico, uma molécula de sinalização intercelular chamada Hedgehog (Hh) encontrada em moscas-da-fruta do género Drosophila. Hh é um dos produtos génicos de polaridade de segmentos em moscas Drosophila, envolvida no estabelecimento das bases do plano corporal. A molécula permanece importantes nos estágios posteriores da embriogênese e metamorfose A via dá às células embrionárias informações que lhes permitem fazer o embrião desenvolver-se de maneira correta, de modo que as células desenvolvem-se diferentemente na cabeça ou na cauda, à direita ou esquerda, e em outras posições. Também formam segmentos que se desenvolvem em diferentes partes do corpo. A via também desempenha um papel em adultos. Quando a via funciona mal, pode provocar doenças, como o carcinoma de células basais. LEGENDA Via de sinalização Wnt/b-catenina. (A) Na ausência de um sinal de Wnt, a b-catenina, que não está ligada às junções aderentes célula-célula (não mostrado), interage com um complexo de degradação que contém APC, axina, GSK3 e CK1. Neste complexo, a b-catenina é fosforilada pela CK1 e pela GSK3, o que desencadeia sua ubiquitinação e degradação nos proteassomos. Os genes que respondem a Wnt são mantidos inativos pela ligação da proteína correpressora Groucho ao regulador de transcrição LEF1/TCF. (B) A Wnt se liga a Frizzled e LRP agrupa os dois correceptores, e a cauda citosólica de LRP é fosforilada por GSK3 e por CK1. A Axina se liga à LRP fosforilada e é inativada e/ou degradada, resultando na dissociação do complexo de degradação. A fosforilação da b-catenina é, assim, prevenida, e a proteína não fosforilada se acumula e penetra no núcleo, onde se liga a LEF1/TCF, desloca o correpressor Groucho, e atua como um coativador na ativação dos genes-alvo de Wnt. A proteína de suporte Dishevelled é necessária para que a via de sinalização opere; ela se liga a Frizzled e torna-se fosforilada (não mostrado), no entanto sua função específica não é conhecida. via de sinalização dependente de NFkB & inflamação As proteínas NFkB são reguladores de transcrição latentes presentes na maioria das células animais e estão envolvidas na maioria das respostas estressantes, inflamatórias e inatas do sistema imune. Essas respostas fazem parte das reações a infecções ou a lesões e ajudam a proteger os organismos multicelulares estressados e suas células. No entanto, quando excessivas ou inapropriadas, essas respostas podem danificar os tecidos e causar muita dor, e a inflamação crônica pode levar ao câncer. Vários receptores de superfície celular ativam a via de sinalização da NFkB nas células animais. Os receptores tipo Toll nos vertebrados, reconhecem patógenos e ativam esta via no desencadeamento das respostas imunes inatas do ser humano. Além disso essa via também é ativada pelo fator de necrose tumoral (TNF-a) e pela interleucina-1 (IL-1). Quando ativados, desencadeiam uma ubiquitinação multiproteicae uma cascata de fosforilações que libera a NFkB de um complexo proteico inibidor, possibilitando sua translocação para o núcleo, onde ativa centenas de genes que participam nas respostas imunes inflamatórias e inatas. Entre os genes ativados pela NFkB liberada está o que codifica IkBa. Essa ativação leva a uma síntese aumentada da proteína IkBa, que se liga à NFkB inativando-a, criando assim um ciclo de retroalimentação negativa. Sinalização mediada por ciclos de retroalimentação controlada pelo ciclo circadiano Poderíamos supor que o relógio circadiano seria um mecanismo multicelular complexo, com diferentes grupos de células responsáveis por diferentes partes do mecanismo de oscilação. É surpreendente, entretanto, que, na maioria dos organismos multicelulares, incluindo os humanos, os marcadores de tempo sejam células Módulo XI Proliferação Celular Raquel Rogaciano 28 individuais. Assim, um relógio que opera em cada membro de um grupo especializado de células do cérebro controla nossos ciclos diurnos de dormir e acordar, da temperatura corporal e da liberação de hormônios. Mesmo que essas células sejam removidas do cérebro e colocadas em um meio de cultura, elas continuam a oscilar individualmente, mostrando um padrão cíclico de expressão gênica com um período de aproximadamente 24 horas. O relógio circadiano mais bem conhecido é encontrado na cianobactéria fotossintética Synechococcus elongatus. Receptores nucleares & Transcrição Várias moléculas de sinalização pequenas e hidrofóbicas se difundem através da membrana plasmática das células-alvo e se ligam a receptores intracelulares que são reguladores de transcrição. Entre essas moléculas estão os hormônios esteroides, os hormônios tireoides, os retinóis e a vitamina D. Embora essas moléculas sejam muito diferentes entre si tanto em estrutura química como em função, seu mecanismo de ação é similar. Elas se ligam às suas respectivas proteínas receptoras intracelulares e alteram a capacidade delas de controlar a transcrição de genes específicos. Assim, essas proteínas servem, ao mesmo tempo, como receptores e efetores intracelulares do sinal. Os receptores nucleares se ligam a sequências específicas de DNA adjacentes aos genes regulados pelo ligante. Alguns deles, como os do cortisol, localizam-se inicialmente no citosol e entram no núcleo somente após a interação com o ligante; outros, como os receptores do hormônio tireóideo ou do retinol, ligam-se ao DNA no núcleo, mesmo na ausência do ligante. Em ambos os casos, o receptor inativo está ligado a complexos proteicos inibidores. A interação com o ligante altera a conformação do receptor, causando a dissociação do complexo inibidor e a ligação do receptor a proteínas coativadoras que estimulam a transcrição gênica. GANCHO – REVISTA MÉDICA. Detecção de mutações no gene do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR). O EGFR é uma proteína transmembrana com atividade quinase citoplasmática que exerce transdução de sinalização do fator de crescimento do meio extracelular para a célula, uma via associada com crescimento e sobrevida celular, sendo expresso em mais de 60% dos casos de carcinoma de pulmão de não pequenas células (NSCLC, na sigla em inglês), que representa a maioria (85%) dos casos de câncer de pulmão – o adenocarcinoma é o tipo histológico mais frequente. Por essa razão, o EGFR tornou-se um importante alvo para o tratamento de tais tumores, levando ao desenvolvimento de inibidores do domínio quinase desse receptor, como os inibidores da tirosinoquinase (TKI, na sigla em inglês), a exemplo do erlotinibe e do gefitinibe, que previnem a ativação dessas vias de sinalização e melhoram a sobrevida em pacientes selecionados com NSCLC. As mutações mais frequentes no gene EGFR são encontradas nos éxons 18, 19, 20 e 21 e podem estar presentes em indivíduos que nunca fumaram, em pessoas do sexo feminino e nos tumores com histologia de adenocarcinoma. Apesar de as características clínicas e histopatológicas correlacionarem-se com alterações genéticas, somente o teste molecular por meio da técnica de reação em cadeia da polimerase é considerado efetivo para identificar os casos com mutações no EGFR. As associadas com sensibilidade aos TKI, e que ocorrem com mais frequência, incluem deleções do éxon 19, L858R, L861Q e G719A/C/S, estando relacionadas a taxas de resposta superiores a 70% em pacientes tratados com erlotinibe e gefitinibe, de acordo com alguns estudos. Dessa forma, a terapia inicial com TKI, em lugar da quimioterapia, vem sendo sugerida como a melhor escolha terapêutica para pacientes com NSCLC avançado com mutações no EGFR. Por outro lado, alterações como T790M e inserção no éxon 20 condizem com resistência aos TKI. Em 2011, a Sociedade Americana de Oncologia Clínica emitiu uma opinião clínica sobre a utilidade do teste de detecção de mutações no gene EGFR para pacientes com NSCLC avançado nos quais a terapia de primeira linha com TKI está sendo considerada. Após a análise dos resultados de cinco estudos clínicos randomizados de fase III, a entidade passou a recomendar que esses indivíduos realizem o exame previamente para determinar se, de acordo com o significado das mutações encontradas, esse tratamento é mesmo a melhor opção em lugar da quimioterapia. REFERÊNCIAS ALBERTS, Bruce; et al. Biologia molecular da célula. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J. Histologia básica: textos e atlas. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.