Prévia do material em texto
CASO CLÍNICO Participante Ingrid (nome fictício), sexo feminino, tinha 2 anos e era filha única. A criança residia com os pais e tinha seu próprio quarto. Pai e mãe tinham 35 anos, ambos com ensino superior completo. O estrato social da família, segundo o Critério de Classificação Econômica do Brasil, era de classe alta (A2). Ambos os pais trabalhavam de segunda a sexta-feira, permanecendo longe da criança a maior parte do dia durante os dias úteis. A mãe retornava para a casa às 16h, e o pai, às 18h. Dessa maneira, os pais passavam a maior parte do tempo com Ingrid no período noturno. No entanto, nos finais de semana permaneciam tempo integral com a filha. Segundo a mãe, todas as noites Ingrid resistia frequentemente a ir para a cama. Ela só adormecia na presença materna e despertava durante a noite, chamando pela mãe. No outro dia, acordava irritada, o que demonstrava prejuízo durante o dia. Essas queixas se enquadram, pela Classificação Internacional de Distúrbios de Sono (AASM, 2014), sob a categoria de diagnóstico de Insônia Crônica. Dados relevantes da relação familiar da criança De acordo com o relato da mãe, ela e o marido se sentiam culpados por passar o dia longe da criança por conta do trabalho; por isso, muitas vezes tinham dificuldades em estabelecer limites, principalmente no momento que tinham maior tempo com Ingrid, isto é, à noite, na hora de dormir. A mãe relatou que, ao mesmo tempo em que ficava muito irritada com as dificuldades com o sono da criança, ela tinha dó e sentia que os choros de Ingrid representavam necessidade de carinho. Dessa forma, negar atenção à filha era interpretado pela mãe como falta de afeto. Os cuidadores oscilavam entre necessidade de “educar” a criança e dar atenção quando ela solicitava e encontravam muitas dificuldades de controle de comportamento, sobretudo à noite, quando estavam cansados e com necessidade de dormir. Avaliação comportamental e análise funcional Para auxiliar a avaliação comportamental e a análise funcional do caso, foi utilizado um diário de registro de sono e de comportamento. Diário de sono e de comportamento Consiste de uma folha de registro que é preenchida pelo cuidador diariamente com o objetivo de coletar informações, como os horários em que a criança dormiu e despertou, estimativa de quanto tempo demorou a adormecer, comportamentos da criança no momento de dormir e resposta dos pais ante tais comportamentos, número dos despertares ao longo da noite, se a criança dormiu sozinha ou acompanhada e a disposição ao levantar pela manhã. Isso ajuda a determinar a extensão e a natureza dos problemas de comportamentos associados ao sono, como também os comportamentos relacionados à relação pais-crianças. Os diários foram preenchidos durante todo o período de intervenção. Procedimento de avaliação Houve uma sessão de avaliação individual entre a mãe da criança e a terapeuta. Nessa ocasião, a mãe de Ingrid relatou a queixa e recebeu os diários e as orientações para a realização dos registros. Os registros foram efetuados em um período de 15 dias. Com as informações coletadas por meio dos diários, foi possível a realização da análise funcional dos comportamentos da criança e de seus pais relacionados ao sono. Análise funcional do caso A identificação das relações entre os eventos ambientais e as ações de um organismo, denominada na Análise do Comportamento pela nomenclatura de análise funcional, está intimamente ligada às intervenções e à análise de contingências realizadas no contexto clínico. Baseando-se no estudo da relação entre as variáveis dependentes e independentes de um comportamento, a análise funcional permite ao terapeuta encontrar subsídios teóricos e explicativos para identificar o comportamento de interesse a ser trabalhado, avaliar possíveis efeitos comportamentais na vida do indivíduo e explicitar as relações ordenadas entre as variáveis ambientais e o comportamento selecionado para análise. Ao identificar e explicitar as contingências que controlam qualquer comportamento, torna-se possível levantar hipóteses acerca da aquisição e manutenção dos repertórios considerados problemáticos, assim como planejar possibilidades de ensino a novas respostas. De acordo com os passos indicados para a realização de uma análise funcional (identificar o comportamento de interesse; identificar e descrever o efeito comportamental: frequência, duração e intensidade; identificar relações ordenadas entre variáveis ambientais e o comportamento de interesse; identificar relações entre o comportamento de interesse e outros comportamentos existentes), apresentamos o caso da família de Ingrid, descrito a seguir. A partir dos registros em diários completados pela mãe de Ingrid, é possível observar os comportamentos de interesse e realizar a análise funcional. Como houve muita semelhança nos 15 dias de registros de avaliação, foram selecionados cinco dias para exemplificar. A tabela abaixo apresenta cinco dias de registro da avaliação inicial. A partir dos registros dos diários, demonstrados na tabela, podemos identificar os “comportamentos-problema” da criança, bem como as condições que contribuem para a manutenção desses comportamentos. FAÇA ANÁLISE FUNCIONAL DOS COMPORTAMENTOS DE INGRID E DE SEUS PAIS NO MOMENTO DE DORMIR. Análise Funcional A partir dos registros obtidos e das informações fornecidas pela mãe, foi possível identificar o “comportamento problema” de Ingrid, bem como o contexto que contribuiu para sua manutenção. Nesse sentido, tal comportamento refere-se a criança só adormecer na presença dos pais, visto que, durante a noite, ao começar a chorar e chamá-los, seu comportamento é reforçado por meio de atenção e contato físico, sendo essas as consequências que aumentam a probabilidade da resposta acontecer novamente. É evidente, portanto, que os comportamentos apresentados fazem parte de uma mesma classe de respostas, e que há, nessa relação, um histórico de reforçamento positivo por meio do estímulo acrescentado no ambiente; a atenção e contato físico vindo dos pais quando a filha chora, podendo ser ocasionada pelo fato de não serem presentes em seu cotidiano. De modo geral, as contingências analisadas indicam que o padrão de comportamento de Ingrid no momento de dormir, se dá em função do comportamento dos pais. Identificamos também, em relação aos pais que, quando a bronca é vocalizada, há um reforçamento negativo, sendo o estímulo aversivo presente no momento da bronca, evidenciando assim, um comportamento de fuga, uma vez que eles obtém o silêncio do cessar do choro da criança e podem voltar a dormir. Por outro lado, ao acrescentarem a bronca no ambiente, observamos que houve uma punição positiva para Ingrid que, pouco tempo depois, chora novamente e, ao pedir a presença dos pais, eles juntam-se a ela, retirando, assim, o choro do ambiente e reforçando o comportamento, de qualquer forma, com sua presença.