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Análise das obras literárias da UEL
© Hexag Sistema de Ensino, 2018
Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2019
Todos os direitos reservados.
Autores
Lucas Limberti
Murilo de Almeida Gonçalves
Pércio Luis Ferreira
Diretor geral
Herlan Fellini
Coordenador geral
Raphael de Souza Motta
Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica
Hexag Sistema de Ensino
Diretor editorial
Pedro Tadeu Batista
Editoração eletrônica
Arthur Tahan Miguel Torres
Bruno Alves Oliveira Cruz
Eder Carlos Bastos de Lima
Felipe Lopes Santos
Iago Kaveckis
Letícia de Brito
Matheus Franco da Silveira
Raphael de Souza Motta
Raphael Campos Silva
Projeto gráfico e capa
Raphael Campos Silva
Foto da capa
pixabay (http://pixabay.com)
Impressão e acabamento
PSP Digital Gráfica e Editora LTDA
ISBN: 978-85-9542-114-1
Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusivo o 
ensino. Caso exista algum texto, a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à disposição 
para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos direitos sobre 
as imagens publicadas e estamos à disposição para suprir eventual omissão de crédito em futuras edições.
O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra é usado apenas para fins didáticos, não representando qual-
quer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora.
2019
Todos os direitos reservados para Hexag Sistema de Ensino.
Rua Luís Góis, 853 – Mirandópolis – São Paulo – SP
CEP: 04043-300
Telefone: (11) 3259-5005
www.hexag.com.br
contato@hexag.com.br
UEL diversifica na escolha de gêneros literários
Universidade Estadual de Londrina vai 
do Barroco ao contemporâneo na prova de Literatura
A prova de Literatura da Universidade Estadual de Londrina chega com dez obras literárias em sua lista de leituras obrigatórias. 
Partindo do Barroco, passando pelos românticos até chegar na literatura que se produz atualmente, o vestibular ganha um peso 
especial na pluralidade de gêneros. Esta especificidade requer uma atenção especial do candidato, no que diz respeito a entender 
como cada tipo de texto se comporta esteticamente.
A lista conta com romances, poemas, crônicas, diário e peça teatral, um percurso em gêneros diversos que vão cobrar 
destreza analítica e bastante atenção à relação estética, ou seja, a interação entre forma e conteúdo.
Cronologicamente, a lista começa com Poemas escolhidos, de Gregório de Matos – uma escolha bem interessante que 
leva o candidato aos primórdios da produção literária no Brasil, com o nosso primeiro grande poeta: o irreverente “Boca do 
Inferno”.
Na sequência, temos dois representantes do Romantismo. Da literatura portuguesa, desponta o famoso escritor das nove-
las passionais, Camilo Castelo Branco, com Amor de perdição – um amor proibido, famílias brigadas no spleen do século. Este ro-
mance é considerado um Romeu e Julieta lusitano. O outro romântico da lista é o brasileiro José de Alencar, criador de um projeto 
de literatura nacional, com uma obra do gênero dramático: O demônio familiar. Em quatro atos, o espetáculo se passa na segunda 
metade do século XIX, no Rio de Janeiro, e gira em torno da escravidão e dos efeitos do progresso sobre as relações sociais.
Clara do Anjos é a próxima obra aqui analisada, na qual Lima Barreto expõe o papel feminino e os preconceitos que a 
mulher sofria na passagem do século XIX para o XX, como a submissão, o abandono, a violência e o constrangimento público.
O segundo representante do gênero lírico na lista da UEL é o poeta Carlos Drummond de Andrade, com seu estrondoso 
livro de estreia: Alguma poesia. O candidato deverá analisar poemas mais do que famosos em nossa literatura, como “Poema de 
sete faces”, “No meio do caminho” e “Quadrilha”.
O gênero diário aparece com a obra Quarenta dias, na qual Maria Valéria Rezende cria a personagem Alice, vinda do 
Nordeste brasileiro para Porto Alegre. Lá, ela registra seu cotidiano em um diário (chamado de Barbie), e que, apesar de seu nome, 
não vive nem de perto no “País das Maravilhas”.
A magnânima novela A hora da estrela, de Clarice Lispector, surge na lista também com uma nordestina, a Macabéa, que 
vai para o Rio de Janeiro, onde viverá sua existência pisada pelo ardor da cidade grande. Escritos recheados de um olhar crítico e 
singelo para a condição da mulher, a partir de um revelador mergulho em sua íntima geografia.
Comédia para se ler na escola é um dos livros mais divertidos da lista. Ana Maria Machado organiza crônicas do escritor 
Luis Fernando Verissimo, que, de forma bem-humorada, irônica e crítica, discute as questões cotidianas, as relações sociais, sexuais 
e políticas, além de pensar, em caráter metalinguístico, sobre a língua portuguesa.
A literatura contemporânea está representada na lista com a figura de Cristovão Tezza, e sua obra O filho eterno, discu-
tindo a relação do pai com seu filho, que possui síndrome de Down... Enfim, as dificuldades e belezas dessa biografia narrada em 
terceira pessoa.
Encerrando o conjunto de dez obras, surge Vozes anoitecidas, que traz a figura de grande destaque da literatura lusófona 
africana em seu primeiro livro de contos, o moçambicano Mia Couto – um escritor contemporâneo que se destaca por retratar as 
mazelas de seu povo, mesclando as lendas míticas e perspectivas culturais com uma linguagem inventiva, cheia de neologismos 
bem ao estilo do brasileiro Guimarães Rosa. Como ele gosta de afirmar, é um leitor assíduo e assumidamente influenciado pela 
obra rosiana.
Seguindo as orientações e as análises propostas neste volume especial do “Entre Aspas”, tenho certeza de que os candi-
datos darão conta de entender o processo constitutivo desta lista tão plural e, ao mesmo tempo, tão interessante.
Boas leitura e análise!
Lucas Limberti
PREFÁCIO
SUMÁRIO
UEL
ENTRE ASPAS
Obra 1: Poemas escolhidos 5
Obra 2: Amor de perdição 17
Obra 3: O demônio familiar 27
Obra 4: Clara dos Anjos 37
Obra 5: Alguma poesia 47
Obra 6: Quarenta dias 57
Obra 7: A hora da estrela 65
Obra 8: Comédias para se ler na escola 81
Obra 9: O filho eterno 91
Obra 10: Vozes anoitecidas 101
L
ENTRE ASPAS
C
Poemas escolhidos
Obras
L C
Gregório de Matos
7
GREGÓRIO DE MATOS GUERRA, O BOCA DO INFERNO
“De que pode servir calar, quem cala nunca se há de falar, o que se sente? Sempre se há de sentir, o que se fala!” 
(Gregório de Matos Guerra)
O primeiro poeta brasileiro: adequação e irreverência
Gregório de Matos (1633-1696) é o maior poeta barroco 
brasileiro e um dos fundadores da poesia lírica e satírica 
em nosso país. Nasceu em Salvador, estudou no Colégio 
dos Jesuítas e, depois, em Coimbra, Portugal, onde cur-
sou Direito, tornou-se juiz e ensaiou seus primeiros po-
emas satíricos. Retornando ao Brasil, em 1681, exerceu 
os cargos de tesoureiro-mor e de vigário-geral, porém, 
sempre se recusou a vestir-se como clérigo. Devido às 
suas sátiras, foi perseguido pelo governador baiano Antônio de Souza Menezes, o Braço de Prata. Depois de se 
casar com Maria dos Povos e exercer a função de advogado, saiu pelo recôncavo baiano como cantor itinerante, 
dedicando-se às sátiras e aos poemas erótico-irônicos, o que lhe custou alguns anos de exílio em Angola. Voltou 
doente ao Brasil e, impedido de entrar na Bahia, morreu em Recife.
Ao contrário do padre Antônio Vieira, Gregório foi de encontro a uma 
tendência generalizadora da época, se alastrando e acolhendo a poesia religio-
sa, os costumes e a reflexão moral.
Em relação aos costumes temáticos, convivem nos poemas e nas vonta-
des de seus fieis um desenfreado sentimento de sensualismo, erotismo e paixão 
idealizada. Da estética reteve o poeta ao gosto pelo jogo de palavras e das 
brincadeiras.
 
Ilustração de Carybé para o livro Bahia, 
imagens da terrae do povo.
8
O “língua de trapo”
Gregório de Matos primou pela irreverência. Foi irre-
verente como pessoa, ao afrontar os valores e a falsa 
moral da sociedade baiana de seu tempo com compor-
tamentos considerados indecorosos; como poeta líri-
co, ao seguir e, ao mesmo tempo, quebrar os modelos 
barrocos europeus; como poeta satírico, ao denunciar 
as contradições da sociedade baiana de século XVII, 
criticando os mais diferentes grupos sociais – gover-
nantes, fidalgos, comerciantes, escravos, mulatos etc. 
–, numa linguagem que agrega ao código da língua 
portuguesa vocábulos indígenas e africanos, além de 
palavras de baixo calão.
Pelo fato de não ter publicado nenhuma obra 
em vida, seus poemas foram transmitidos oralmente, 
na Bahia, até meados do século XIX, quando então 
foram reunidos em livro por Varnhagen. Antes disso, 
houve algumas complicações de valor discutível, pois 
os copistas nem sempre seguiram critérios científicos 
para realizar esse tipo de trabalho. Por isso, há contro-
vérsias sobre a autoria de alguns dos poemas atribuí-
dos ao poeta baiano, e é comum os textos apresenta-
rem algumas variações de vocabulário ou de sintaxe, 
dependendo da edição consultada.
Apesar desses problemas, a obra de Gregório 
de Matos vem sendo reconhecida como aquela que, 
além de ter iniciado uma tradição entre nós, superou 
os limites do próprio Barroco. Em pleno século XVII, 
o poeta chegou a ser um dos precursores da poesia 
moderna brasileira do século XX.
Barroco no Brasil
O marco inicial do Barroco brasileiro é 1601, ano em 
que o poeta português Bento Teixeira publicou, no 
Brasil, o poema épico “Prosopopeia“, com estrofes em 
oitava rima e versos decassílabos, tal qual Os lusíadas, 
de Camões, cujo modelo ele seguiu de perto.
Embora nessa época não houvesse um público 
leitor significativo no Brasil, a poesia barroca ganhou 
impulso com a fundação de várias academias literárias, 
entre os anos de 1720 e 1750. Estendeu-se por todo o 
século XVII e início do século XVIII, e seu final se deu 
com a fundação da academia chamada Arcádia Ultra-
marina, em 1768, e a ascensão do movimento árcade.
O retrato crítico da Bahia
Gregório de Matos Guerra, por Camila Martins Saraiva
No Brasil, Gregório de Matos encontrará na sátira a 
arma mais poderosa para criticar o cenário político de 
sua época. Seguindo os passos de Juvenal, o poeta 
vai ridicularizar os políticos corruptos que governam 
a Bahia, de forma tão debochada que isso lhe valerá 
também o desterro de sua terra natal. Observe, no tre-
cho abaixo, como ele critica a falta de princípios dos 
políticos de sua cidade.
[...]
na política de estado
nunca houve princípios certos,
[...]
Eia! Estamos na Bahia,
onde agrada a adulação,
onde a verdade é baldão,
e a virtude hipocrisia:
sigamos esta harmonia
de tão fátua consonância,
e inda que seja ignorância
9
seguir erros conhecidos,
sejam-me a mim permitidos,
se em ser besta está a ganância.
MATOS, Gregório de. In: WISNIK, José Miguel. Poemas 
escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 70-71
Tendência ao dualismo 
e ao culto do contraste
Um modo de ver o universo dualista faz destacar o 
contraste pela já citada tentativa de aproximar opos-
tos. Por isso, o Barroco literário é, ao mesmo tempo, 
místico e sensual, religioso e erótico, espiritual e carnal. 
Esse eixo dualista ocasiona nas manifestações barrocas 
um conflito entre o homem e o mundo. Para traduzi-lo, 
os recursos da linguagem figurada mais utilizados são 
antíteses, metáforas, sinestesias e hipérboles.
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz, se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em continuas tristezas a alegria
Note, neste trecho, o contraste entre dia e noite; 
luz e sombra; nasce e morre; tristeza e alegria.
Soneto fusionista 
O soneto fusionista é um aspecto muito importante a 
ser analisado quando se trata da poesia barroca de 
Gregório de Matos, muito porque a relação entre for-
ma e conteúdo revelam aspectos da arte e da socieda-
de seiscentista baiana. 
A primeira questão se dá no âmbito da progres-
são semântica em que os 14 versos se estruturam, do 
ponto de vista temático em:
 Tese: apresentação de um tema específico.
 Antítese: apresentação de uma progressão se-
mântica contraditória em relação ao proposto 
na tese.
 Síntese: a conclusão que representa uma fu-
são entre os aspectos contrários anteriormente 
apresentados. 
As obras barrocas revelam grande atenção de 
seus artistas aos detalhes. Nas artes plásticas, configu-
ra-se no excesso de ornamentação. Na literatura, tra-
duz-se pela exploração dos jogos de palavras, pelo uso 
de figuras de linguagem, pelas sutilezas de raciocínio. 
Dependendo da forma como explora o rebuscamento 
formal e o raciocínio lógico, o Barroco literário se clas-
sifica em estilos cultista e conceptista.
O estilo cultista ou cultismo, muito influenciado 
pelo poeta espanhol Luis de Gongora (1561-1627), é 
caracterizado pela linguagem rebuscada, culta, extra-
vagante, que supervaloriza o uso de metáforas e hipér-
boles, e pela valorização dos jogos. O poema a seguir é 
um exemplo do emprego do estilo cultista:
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
Em todo sacramento esta deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em parte todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo, 
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
O estilo conceptista ou conceptismo valoriza 
o raciocínio lógico, racionalista. A ideia é exposta por 
meio de conceitos, analogias, histórias paralelas que 
facilitam o entendimento.
10
POEMAS ESCOLHIDOS
A obra é uma coletânea de poemas escolhidos pelo 
professor José Miguel Wisnik, nos anos 1970; todavia, 
ganhou nova roupagem, com uma nova visita ao livro 
pelo seu próprio organizador. Os melhores poemas de 
Gregório de Matos, nas diversas modalidades que cul-
tivou, como é o caso da satírica, da encomiástica, da 
lírica amorosa e da religiosa.
Características
Poesia satírica
A crítica aos mais variados aspectos do sistema e do 
poder fez de Gregório de Matos o poeta maldito. A ca-
pacidade de provocação aos políticos e a ridiculariza-
ção dos que viviam para bajular e louvar os poderosos 
foram traços que contribuíram para o “abrasileiramen-
to” do Barroco importado da Europa.
O crítico social mordaz, que aponta a sociedade 
de competição, em que vence quem for mais esperto 
e/ou desonesto, apresenta-se no soneto a seguir trans-
crito, que vem precedido da seguinte expedição: “Con-
templando nas coisas do mundo desde o seu retiro, lhe 
atira com seu ápage, como quem a nado escapou da 
tormenta”.
Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa:
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser papa.
A flor baixa se inculca por tulipa:
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do Trapo vazo a tripa, 
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
“Para a tropa do trapo vazo a tripa” é uma 
expressão idiomática que se aproxima de “não quero 
mais dar importância a esse bando de miseráveis”.
No poema a seguir, Gregório de Matos critica, 
de forma impiedosa, a incompetência, a promiscuidade 
e a desonestidade. O poema vem procedido da seguin-
te explicação: “Torna a definir o poeta os maus modos 
de obrar na governança da Bahia, principalmente na-
quela universal fome, que padecia a cidade”.
EPÍLOGO
Que falta nesta cidade?...... Verdade.Que mais por sua desonra?...... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?...... Vergonha.
O demo a viver se exponha, 
Por mais que a fama a exalta,
Nesta cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.
[...]
E que justiça a resguarda?...... Bastarda.
É grátis distribuída?...... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?...... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa,
O que El-Rei nos dá de graça, que anda a justiça 
 [na praça
Bastarda, vendida, injusta.
[...]
O açúcar já se acabou?...... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?...... Subiu.
Logo já convalesceu?...... Morreu.
À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece,
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, morreu.
11
A câmara não acode?...... Não pode.
Pois não tem todo o poder?...... Não quer.
É que o governo a convence?...... Não vence.
Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, na vence.
Num ritmo de perguntas e repostas, o verso se 
estrutura bem aos modelos da tradição oral. O espaço 
é a Bahia em que o eu poemático critica os desmandos 
de sua cidade, a degradação moral e religiosa, bem 
como o aspecto econômico. Os oportunistas da socie-
dade são os detentores do poder político e econômico, 
enquanto os trabalhadores honestos encontram-se na 
pobreza. 
Conforme explica o professor José Wisnik – or-
ganizador do livro escolhido para a análise –, o poe-
ma satírico de Gregório de Matos é marcado por essa 
cizânia entre uma sociedade do homem bem nascido, 
dita “normal”, e outra, considerada “absurda”, que 
é composta por pessoas oportunistas, mas que estão 
instauradas no poder. 
No entanto, no caso de Gregório de Matos, a 
“sociedade absurda” é real, pois é na Bahia onde ele 
vive e, pela lógica aplicada, inverte-se o conceito apre-
endido. Logo, tanto uma como outra são consideradas 
absurdas, em que o impasse é o da realidade histórica, 
um mesmo local, duas Bahia: uma “normal”, que é 
vista com ar nostálgico, e outra “absurda” e amaldi-
çoada.
Poesia lírica: sacra e amorosa
No conjunto da obra de Gregório de Matos, a poesia 
lírica é idealista, às vezes emocional, às vezes concei-
tual, mas quase sempre preocupada com a busca de 
entender contradições, conforme ensina o professor 
Antônio Candido.
Nesse soneto, o xeque entre as temáticas con-
troversas da “culpa” versus “perdão” ganha formato 
no soneto fusionista. O eu lírico se vale da linguagem 
para conseguir seu perdão e salvação enfrentando o 
poder divino. Logo, mesma forma como o poder divino, 
colocado aqui na figura de Jesus, precisa perdoar, o 
pecador precisa pecar para poder ser perdoado. 
Apresenta versos decassílabos (versos com dez 
sílabas poéticas), rimas regulares, ou seja, rimas opos-
tas ou interpoladas nos dois quartetos (ABBA-ABBA) e 
rimas mistas nos dois tercetos (CDE-CDE).
Ressalta-se na lírica sacra o senso do pecado, 
ao lado do desejo do perdão, como se pode verificar 
neste soneto:
A Jesus Cristo Nosso Senhor
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentinho
Vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e a não queirais, Pastor divino
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
O lirismo amoroso é contraditório, fortemente 
marcado pela ambiguidade da mulher, vista a partir de 
uma dualidade entre a matéria e o espírito. No soneto 
dedicado à D. Ângela de Souza Paredes, transcrito a se-
guir, o eu lírico está diante do dilema: qual a finalidade 
da beleza, se esta leva à perdição? Que papel tem o 
anjo (a mulher admirada), se causa a desventura?
Não vira em minha vida a formosura,
Ouvia falar dela a cada dia
E ouvida, me incitava e me movia
A querer ver tão bela arquitetura:
Ontem a vi, por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma mulher, que em Anjo se mentia
De um Sol, que se trajava em criatura:
Matem-me, disse eu vendo abrasar-me,
Se esta a coisa não é, que encarecer-me
Sabia o mundo e tanto exagerar-me:
Olhos meus, disse então por defender-me,
Se a beleza heis de ver para matar-me,
Antes olhos cegueis, do que eu perder-me
12
A poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos é 
construída em torno de contradições e pares de opos-
tos, utilizando figuras de linguagens como o oximoro, 
que reforça essas contradições. Porém, deve-se ter em 
mente que estas contradições não se anulam e a men-
sagem final que o poeta passa é de que “diferença é 
identidade”.
Poesia lírica filosófica
A lírica filosófica de Gregório de Matos evidencia um 
poeta que, tal qual os clássicos, transmite um forte sen-
so do “desconcerto do mundo” e preocupa-se com a 
transitoriedade da vida, o escoamento do tempo e a 
fragilidade do ser humano, como se pode perceber no 
soneto que segue.
À INSTABILIDADE DAS COISAS NO MUNDO
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas, a alegria.
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz falta a firmeza,
Na formosura não dê Constância,
E na alegria sinta-se a tristeza,
Começa o mundo enfim pela ignorância, 
E tem qualquer dos bens por natureza.
A firmeza somente na inconstância.
Esse soneto exemplifica, pelo tema desenvolvi-
do, o estado transitório da condição humana. Ao lon-
go do poema, repete-se a utilização da antítese, pela 
aproximação de duas ideias naturalmente opostas.
Na segunda estrofe, o elemento comum a todos 
os versos é o ponto de interrogação, que representa 
não só o questionamento do eu poético, como tam-
bém sua perplexidade diante do mistério insolúvel do 
universo.
Essa visão de mundo corresponde à da arte bar-
roca, que vê o homem como um ser instável diante da 
realidade que lhe faz apelos opostos, ora dirigidos aos 
sentidos, ora dirigidos ao espírito.
Poesia erótica
Também alcunhado de profano, o poeta exalta a sen-
sualidade e a volúpia das amantes que conquistou na 
Bahia, além dos escândalos sexuais envolvendo os 
conventos da cidade.
NECESSIDADES FORÇOSAS 
DA NATUREZA HUMANA
Descarto-me da tronga, que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.
Busco uma freira, que me desentupa
A via, que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei por quem mo vase toda Europa?
Amigo, quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da mão sua cachopa.
13
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
d) lamenta a inexistência de instituições reli-
giosas, pois elas organizariam moralmente a 
cidade.
e) descreve as condições do local, mostrando 
que os habitantes vivem rusticamente e com 
poucos recursos.
 3. (UCS) As obras literárias marcam diferentes 
visões de mundo, não apenas dos autores, 
mas também de épocas históricas distintas. 
Reflita sobre isso e leia os fragmentos dos 
poemas de Gregório de Matos e de Tomás An-
tônio Gonzaga.
Arrependido estou de coração,
de coração vos busco, dai-me abraços,
abraços, que me rendem vossa luz.
Luz, que claro me mostra a salvação,
a salvação pretendo em tais abraços,
misericórdia, amor, Jesus, Jesus!
(MATOS, Gregório. Pecador contrito aos pés 
do Cristo crucificado. In: TUFANO, Douglas. 
Estudos de literatura brasileira. 4 ed. rev. e 
ampl. São Paulo: Moderna, 1988, p. 66.)
Minha bela Marília, tudo passa;
a sorte deste mundo é mal segura;
se vem depois dos males a ventura,
vem depois dos prazeres a desgraça.
Estão osmesmos deuses
sujeitos ao poder do ímpio fado:
Apolo já fugiu do céu brilhante,
já foi pastor de gado.
(GONZAGA, Tomás António. Lira XIV. In: TUFANO, 
Douglas Estudos de literatura brasileira. 4 ed. rev. 
e ampl. São Paulo: Moderna, 1988, p. 77.)
Em relação aos poemas, analise a veracidade 
(V) ou a falsidade (F) das proposições abaixo.
( ) O poema de Gregório de Matos apresenta 
um sujeito lírico torturado pelo peso de 
seus pecados e desejoso de aproximar-se 
do Divino.
( ) Tomás Antônio Gonzaga, embora perten-
ça ao mesmo período literário de Gre-
gório de Matos, revela neste poema um 
sujeito lírico consciente da brevidade da 
vida.
( ) Em relação às marcas de religiosidade, a 
visão antagônica que se coloca entre os 
dois poemas reflete, no Barroco, a influ-
ência do cristianismo e, no Arcadismo, a 
da mitologia grega.
Assinale a alternativa que preenche correta-
mente os parênteses, de cima para baixo. 
a) V V V
b) V F F
c) V F V
d) F F F
e) F V F
 1. (Uepa)
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
(Gregório de Matos Guerra)
Assinale a alternativa que contém uma carac-
terística da comunicação poética, típica do 
estilo Barroco, existente no quarteto acima. 
a) Reflexão sobre o caráter humano da divinda-
de.
b) Associação da natureza com a permanência 
da realidade espiritual.
c) Presença da irreverência satírica do poeta 
com base no paradoxo.
d) Utilização do pleonasmo para reforçar a su-
perioridade do cristianismo sobre o protes-
tantismo.
e) Uso de ideias contrastantes com base no re-
curso da antítese.
 2. (G1 IFSP) Leia o soneto do escritor barroco 
Gregório de Matos.
DESCRIÇÃO DA CIDADE DE SERGIPE D’EL-REI
Três dúzias de casebres remendados,
Seis becos, de 1mentrastos entupidos,
Quinze soldados, rotos e despidos,
Doze porcos na praça bem criados.
Dois conventos, seis frades, três letrados,
Um juiz, com bigodes, sem ouvidos,
Três presos de piolhos carcomidos,
Por comer dois meirinhos esfaimados.
As damas com sapatos de 2baeta,
Palmilha de tamanca como frade,
Saia de 3chita, cinta de raqueta.
O feijão, que só faz 4ventosidade
Farinha de pipoca, pão que greta,
De Sergipe d’El-Rei esta é a cidade.
(DIMAS, Antônio. Gregório de Matos. 
São Paulo: Nova Cultural, 1988.)
1mentrasto: tipo de erva
2baeta: tecido felpudo
3chita: tecido de algodão de pouco valor
4ventosidade: que provoca flatulência
Pela leitura do soneto, é correto afirmar que 
o poeta: 
a) critica veladamente o governo português 
por ter escolhido essa cidade para ser a sede 
administrativa da colônia.
b) escreve esse poema para expor as angústias 
vividas durante o período em que cumpria a 
primeira ordem de desterro.
c) comenta a elegância e a sensualidade das 
damas, visto que sempre apreciou as mulhe-
res brasileiras.
14
 4. (UFPR) Considerando a poesia de Gregório de 
Matos e o momento literário em que sua obra 
se insere, avalie as seguintes afirmativas:
I. Apresentando a luta do homem no emba-
te entre a carne e o espírito, a terra e o 
céu, o presente e a eternidade, os poemas 
religiosos do autor correspondem à sen-
sibilidade da época e encontram paralelo 
na obra de um seu contemporâneo, padre 
Antônio Vieira.
II. Os poemas erótico-irônicos são um exem-
plo da versatilidade do poeta, mas não 
são representativos da melhor poesia do 
autor, por não apresentarem a mesma so-
fisticação e riqueza de recursos poéticos 
que os poemas líricos ou religiosos apre-
sentam.
III. Como bom exemplo da poesia barroca, a 
poesia do autor incrementa e exagera al-
guns recursos poéticos, deixando sua lin-
guagem mais rebuscada e enredada pelo 
uso de figuras de linguagem raras e de 
resultados tortuosos.
IV. A presença do elemento mulato nessa 
poesia resgata para a literatura uma di-
mensão social problemática da sociedade 
baiana da época: num país de escravos, 
o mestiço é um ser em conflito, vítima 
e algoz em uma sociedade violentamente 
desigual.
Assinale a alternativa correta. 
a) Somente as afirmativas I e II são verdadeiras.
b) Somente as afirmativas I, II e III são verda-
deiras.
c) Somente as afirmativas I, III e IV são verda-
deiras.
d) Somente as afirmativas II e IV são verdadei-
ras.
e) Somente as afirmativas III e IV são verdadei-
ras.
 5. (Uff) 
Senhora Dona Bahia,
nobre e opulenta cidade,
madrasta dos naturais,
e dos estrangeiros madre:
Dizei-me por vida vossa
em que fundais o ditame
de exaltar os que aqui vêm,
e abater os que aqui nascem?
Se o fazeis pelo interesse
de que os estranhos vos gabem,
isso os paisanos fariam
com conhecidas vantagens.
E suposto que os louvores
em boca própria não valem,
se tem força esta sentença,
mor força terá a verdade.
O certo é, pátria minha,
que fostes terra de alarves,
e inda os ressábios vos duram
desse tempo e dessa idade.
Haverá duzentos anos,
nem tantos podem contar-se,
que éreis uma aldeia pobre
e hoje sois rica cidade.
Então vos pisavam índios,
e vos habitavam cafres,
hoje chispais fidalguias,
arrojando personagens.
(Gregório de Matos_
Nota: entenda-se “Bahia” como cidade.
Vocabulário
 alarves: que ou quem é rústico, abrutado, 
grosseiro
 ignorante: que ou o que é tolo, parvo, es-
túpido
 ressábios: sabor; gosto que se tem depois.
 cafres: indivíduo de raça negra
Todas as afirmativas sobre a construção es-
tética ou a produção textual do poema de 
Gregório de Matos (texto) estão adequadas, 
exceto uma. Assinale-a. 
a) Existem antíteses, características de textos 
no período barroco.
b) Há uma personificação, pois a Bahia, ser 
inanimado, é tratada como ser vivo.
c) A ausência de métrica aproxima o poema do 
Modernismo.
d) O eu lírico usa o vocativo, transformando a 
Bahia em sua interlocutora.
e) Há diferença de tratamento para os habitan-
tes locais e os estrangeiros.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS TRÊS QUESTÕES
1Triste Bahia! Oh quão dessemelhante
2 Estás, e estou do nosso antigo estado!
3 Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
4 Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.
5 A ti trocou-te a máquina mercante,
6 Que em tua larga barra tem entrado,
7 A mim foi-me trocando, e tem trocado
8 Tanto negócio, e tanto negociante.
9 Deste em dar tanto açúcar excelente
10 Pelas drogas inúteis, que abelhuda
11 Simples aceitas do sagaz Brichote.
12 Oh se quisera Deus, que de repente
13 Um dia amanheceras tão sisuda
14 Que fora de algodão o teu capote!
(MATOS, Gregório de. Poesias selecionadas. 
3. ed. São Paulo: FTD, 1998, p. 141.)
15
 6. (UEL) No que diz respeito à relação entre o 
eu lírico e a Bahia, considere as afirmativas 
a seguir.
I. Na primeira estrofe, o eu lírico identifi-
ca-se com a Bahia, pois ambos sofrem a 
perda de um antigo estado.
II. Na primeira estrofe, a Bahia aparece per-
sonificada, fato confirmado no momento 
em que ela e o eu lírico se olham.
III. Na terceira estrofe, constata-se que a 
Bahia não está isenta da culpa pela perda 
de seu antigo estado.
IV. Na quarta estrofe, o eu lírico conclui que 
a lamentável situação da Bahia está em 
conformidade com a vontade divina.
Assinale a alternativa correta. 
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas II e IV são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
e) Somente as afirmativas I, III e IV são corre-
tas.
 7. (UEL) A partir da leitura do texto, considere 
as afirmativas a seguir.
I. O poema faz parte da produção de Gregó-
rio de Matos caracterizada pelo cunho sa-
tírico, visto que ridiculariza vícios e im-
perfeições e assume um tom de censura.
II. As figuras do desconsolado poeta, da tris-
te Bahia e do sagaz Brichote são imagens 
poéticas utilizadas para expressar a exis-
tência de um triângulo amoroso.
III. O poema apresenta a degradação da Bahia 
e do eu lírico, em virtude do sistema de 
trocas imposto à Colônia, o qual privile-
giava os comerciantes estrangeiros.
IV. Osversos “Que em tua larga barra tem 
entrado” e “Deste em dar tanto açúcar 
excelente” conferem ao poema um tom 
erótico, pois, simbolicamente, sugerem a 
ideia de solicitação ao prazer.
Assinale a alternativa correta. 
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas I e III são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e IV são corretas.
e) Somente as afirmativas II, III e IV são corre-
tas.
 8. (UEL) Sobre figuras de linguagem no poema, 
considere as afirmativas a seguir.
I. A descrição do eu lírico e da Bahia confi-
gura uma antítese entre o estado antigo 
e o atual de ambos.
II. A antítese é verificada na oposição en-
tre as expressões “máquina mercante” e 
“drogas inúteis”, embora ambas se refi-
ram à Bahia.
III. Os versos 3 e 4 são exemplos do papel re-
levante da gradação no conjunto do poe-
ma, pois enumeram estados de espírito 
do eu lírico.
IV. Os versos “Um dia amanheceras tão sisu-
da/ Que fora de algodão o teu capote!” 
configuram exemplos de personificação e 
metáfora, respectivamente.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas I e IV são corretas.
b) Somente as afirmativas II e III são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e III são corre-
tas.
e) Somente as afirmativas I, II e IV são corre-
tas.
 9. (G1 CFT-MG) O poeta Gregório de Matos tor-
nou-se importante na representação da lite-
ratura barroca brasileira porque: 
a) enfatizou a produção poética satírica em de-
trimento da religiosa.
b) pautou sua vida pelo respeito às normas e 
costumes sociais e estéticos.
c) criticou membros do clero e do poder políti-
co e exaltou índios e mulatos.
d) apropriou-se de formas e temas do barroco 
europeu, adequando-os ao contexto local.
 10. (UEG) Segue neste soneto a máxima de bem 
viver, que é envolver-se na confusão dos nés-
cios para passar melhor a vida. 
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c'os demais, que só, sisudo.
(MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. 
São Paulo: Cultrix, 1989, p. 253.) 
(Aleijadinho, Cristo do carregamento da 
Cruz. Enciclopédia Barsa, 1998)
16
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
(Obra poética de Gregório de Matos. 
Rio de Janeiro: Record, 1990.)
Durante o período colonial brasileiro, as 
principais manifestações artísticas, popu-
lares ou eruditas, foram, assim como nos 
demais aspectos da vida cotidiana, marca-
das pela influência da religiosidade. Nesse 
sentido, com base na análise da presença da 
religiosidade na obra de Aleijadinho e Gre-
gório de Matos, é correto afirmar: 
a) Ambas são modelos da arte barroca, uma 
vez que se inspiram mais na temática cristã 
do que em elementos oriundos da mitologia 
greco-romana.
b) A presença da temática religiosa em ambos 
deve-se à influência protestante holandesa 
na região da Bahia e de Minas Gerais.
c) No trecho do poema, tem-se a expressão de 
um pecador que, embora creia em Deus, não 
tem certeza de que obterá o perdão divino.
d) A pobreza estética da obra de Aleijadinho e 
Matos deriva da censura promovida pela San-
ta Inquisição às obras artísticas no Brasil.
GABARITO
1. E 2. E 3. C 4. C 5. C
6. D 7. B 8. A 9. D 10. A
L
OBRAS
C
Amor de perdição
Obras
L C
Camilo Castelo Branco
19
CAMILO CASTELO BRANCO
O escritor Camilo Castelo Branco nasceu na Freguesia dos Mártires, em Lisboa, Portugal, no dia 16 de março 
de 1825. Filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, ficou 
órfão muito cedo, de mãe com apenas 1 ano e de pai com 10 anos. Sua biografia dramática certamente poderia 
assemelhar-se à sua obra, especialmente suas tradicionais novelas de cunho passional, do qual ele foi o criador. 
Composta de mais de cem obras, suas publicações seguem a lógica folhetinesca, abordando temas em no-
velas satíricas, de terror, de mistério, históricas e passionais. O ficcionista viveu de literatura e foi um dos primeiros 
portugueses a viver de sua produção. Em 1889, foi homenageado na Academia de Lisboa e se tornou uma cele-
bridade como escritor. É autor de várias crônicas de cunho irreverente para jornais. Recebeu o título de visconde, 
concedido pelo rei de Portugal, D. Luís I.
Casou-se aos 16 anos de idade, porém não durou muito e separado seguiu para o Porto, em 1843. Lá, 
ingressou na faculdade de Medicina, mas não finalizou o curso, lançando-se ao jornalismo e à vida boemia por-
tuense. Em 1845, publicou seus primeiros trabalhos literários.
Foi detido, julgado e, inclusive, preso, em 1852, por protagonizar escândalos amorosos na época, bigamia 
etc. Porém, no ano de 1856, conheceu o grande amor de sua vida, só que havia mais um problema: Ana Plácido 
já era casada com um comerciante brasileiro, mas abandonou o marido em 1859 e foi viver com Camilo. O casal, 
sempre assolado pelas questões financeiras, foi morar em Lisboa e depois em São Miguel de Seide.
O ano de 1863 foi decisivo em sua carreira, pois publicou Amor de perdição, um de seus romances mais 
renomados. Suas novelas também reconstituíram um panorama dos costumes de Portugal de seu tempo. Camilo 
sempre buscou estabelecer profunda sintonia com a cultura do povo português.
Tipicamente, viveu os dramas dos relacionamentos burgueses, a ideia de que os relacionamentos são como 
contratos, onde as pessoas são mercadorias e posses, por isso a instituição da monogamia tanto o assolava, bem 
como o influenciava nas tradicionais novelas passionais da segunda geração romântica portuguesa. A tragédia da 
geração que não aceitou os ditames burgueses, e trouxe ou levou da própria vida os temas de suas obras literárias, 
fez com que Camilo tivesse um fim marcado por uma tragédia: cegueira, em 1887, e suicídio, em 1 de junho de 1890.
20
Contexto: o Romantismo 
em Portugal
Certamente, a literatura escrita na França, Inglaterra e 
Alemanha influenciou muito os escritores ligados ide-
ologicamente ao liberalismo português. O momento 
antimiguelista, dos partidários de D. Pedro, conectava 
os jovens escritores Almeida Garret e Alexandre Hercu-
lano, inclusive exilados na Inglaterra e na França, onde 
tomaram contato com as obras de Lord Byron, Walter 
Scott e William Shakespeare.
O Romantismo português durou aproximada-
mente 40 anos, tendo como marco final, por volta de 
1865, a Questão Coimbrã, ou questão do Bom Senso 
e do Bom Gosto, encabeçada por Antero de Quental. 
Como em países europeus, o Romantismo português 
atrelou-se ao liberalismo e à ideologia burguesa, assu-
mindo compromissos com o novo público leitor.
Geração do Romantismo português
A luta entre liberais e conservadores foi o pano de fun-
do para que os românticos implantassem, ao seu tem-
po, as reformas literárias que de fato modificariam o 
quadro estético neoclássico português, no qual a pro-
dução se desenvolveu de forma inédita em Portugal.
Houve três momentos distintos no desenvol-
vimento do Romantismo português. A obra Coração, 
cabeça e estômago encontra-se na segunda geração 
romântica (ultrarromântica).
 A primeira geração, atuante entre os anos 
de 1825 e 1840, muito contribuiu para a 
consolidação do liberalismo em Portugal, 
principalmente com Almeida Garrett e Ale-
xandre Herculano.
 A segunda geração, ou ultrarromântica, le-
vou o movimento ao exagero e prevaleceu 
entre os anos de 1840 e 1860. Seu maior 
escritor foi Camilo CasteloBranco.
 A terceira geração, a de transição para o Re-
alismo, teve presença marcante nos anos de 
1860, sobretudo com Júlio Dinis.
Linhas temáticas
Caricatura de Camilo Castelo Branco feita por Júlio Pomar
Um escritor profissional: “Não deixei de escrever um 
só dia”. Essa afirmação demonstra um escritor que as-
sumiu a literatura como uma missão cotidiana. Camilo 
Castelo Branco concentrou seus esforços profissionais 
na carreira de escritor, que era a fonte de seu sustento.
Em suas várias obras, é possível observar que 
ele estruturou linhas temáticas específicas, lembrando 
que a obra em questão, Coração, cabeça e estômago, 
se coloca na vertente satírica. 
 Foco satírico, com predomínio à crítica de 
costumes (destaque para Coração, cabeça e 
estômago e para A queda dum anjo).
 Foco de mistério – são exemplos Os misté-
rios de Lisboa e Livro negro de Padre Dinis.
 Foco histórico: O judeu, e a série O regicida, 
A filha do regicida e A caveira do mártir.
21
AMOR DE PERDIÇÃO
O romance Amor de perdição, escrito de 1862, nar-
ra a história de amor de Simão Botelho e Teresa de 
Albuquerque, dois jovens que experimentam sua pri-
meira e grande paixão. A inimizade entre as respec-
tivas famílias impede o casamento. Depois de todos 
os obstáculos sucessivamente colocados à realização 
amorosa dos apaixonados, a solução em seu favor vai 
se tornando impossível.
O pai de Teresa, Tadeu de Albuquerque, deseja 
casar a filha com Baltasar Coutinho, recusado por ela. 
Decide, então, interná-la num convento, esperando ver 
terminado o romance entre Teresa e Simão.
A partir daí, os namorados comunicam-se por 
cartas, na maior parte das vezes levadas e trazidas por 
uma mendiga, que consegue passar despercebida du-
rante quase todo o tempo.
A tentativa de Simão ir ao encontro de Teresa 
no convento coincide com o momento em que lá tam-
bém estão o pai dela e o pretendente.
Após discutirem, Simão dispara contra Baltasar, 
na frente de Teresa, ferindo-o mortalmente. Entrega-
-se, em seguida, à justiça, sem nenhuma decisão de 
atenuar o crime. Preso na cadeia da Relação da cidade 
do Porto, é condenado à morte; logo em seguida, tem 
a pena comutada e deve ser enviado para exílio na 
Ásia, por dez anos. Simão consome-se em sofrimentos, 
assim como Teresa.
Em um convento dirigido por uma parenta, Te-
resa morre quando vê partir o navio que levará o ama-
do ao degredo. Pouco tempo depois, Simão também 
morre. No decorrer dos acontecimentos, há o suicídio 
de Mariana, amiga e dedicada companheira de Simão 
em todas as desgraças. Amando-o silenciosamente du-
rante todo o tempo, atira-se ao mar quando o corpo do 
moço é lançado às águas.
Leia alguns trechos do romance Amor de per-
dição:
 Fragmento 1
No espaço de três meses fez-se maravilhosa 
mudança nos costumes de Simão. As companhias da 
ralé, desprezou-as. Saía de casa raras vezes, ou só, ou 
com a irmã mais nova, sua predileta. O campo, as árvo-
res e os sítios mais sombrios e ermos eram o seu receio. 
Nas doces noites de estio demorava-se por fora até ao 
romper da alva. Aqueles que assim o viam admiravam-
-lhe o ar cismador e o recolhimento que o sequestrava 
da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, a 
saía quando o chamavam para a mesa.
D. Rita pasma da transfiguração, e o marido, 
bem convencido dela, ao fim de cinco meses consentiu 
que seu filho lhe dirigisse a palavra.
Simão Botelho amava. Ai está uma palavra 
única, explicando o que parecia absurda reforma aos 
dezessete anos.
Amava Simão uma sua vizinha, menina de 
quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem 
nascida. Da janela do seu quarto é que ele a vira a 
primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incó-
lume na ferida que fizera no coração do vizinho: amou-
-o também, e com mais serenidade que a usual nos 
seus anos.
[...]
Teresa de Albuquerque devia ser, por ventura, 
uma exceção no seu amor.
O magistrado e sua família eram odiosos ao pai 
de Teresa, por motivos de litígios, em que Domingos 
Botelho lhe deu sentenças contra. Afora isso, ainda no 
ano anterior dois criadores de Tadeu de Albuquerque 
tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. 
É, pois, evidente que o amor de Teresa, declinando de 
si o dever de obtemperar e sacrificar-se ao justo azedu-
me de seu pai, era verdadeiro e forte.
E este amor era singularmente discreto e cau-
teloso. Viram-se e falaram-se três meses, sem darem 
rebate à vizinhança, e nem sequer suspeitas às duas 
famílias. O destino, que ambos se prometiam, era o 
22
mais honesto: ele ia formar-se para poder sustentá-la, 
se não tivesse outros recursos; ela esperava que seu 
velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o 
coração, o seu grande patrimônio.
 Fragmento 2
Acerca de Simão Botelho, nunca diante de sua 
filha Tadeu de Albuquerque proferiu palavra, nem antes 
nem depois do disparate do corregedor. O que ele fez 
logo foi chamar a Vizeu o sobrinho de Castro-d’Aire, e 
preveni-lo do seu desígnio, para que ele, em face de Te-
resa, procedesse como convinha a enamorado de fei-
ção, e mutuamente, se apaixonassem e prometessem 
auspicioso futuro ao casamento.
Por parte de Baltasar Coutinho a paixão in-
flamou-se tão depressa, quanto o coração de Teresa 
se congelou de terror e repugnância. O morgado de 
Castro-d’Aire, atribuindo a frieza de sua prima à mo-
déstia, inocência e acanhamento, lisonjeou-se do vir-
ginal melindre daquela alma, e saboreou de antemão 
o prazer de uma lenta, mas segura conquista. Verdade 
é que Baltasar nunca se explicara de modo que Teresa 
lhe desse resposta decisiva; um dia, porém, instigado 
por seu tio, afoitou-se o ditoso noivo a falar assim à 
melancólica menina:
— É tempo de lhe abrir meu coração. Está bem 
disposta a ouvir-me?
— Eu estou sempre bem disposta a ouvi-lo, pri-
mo Baltasar.
O desdém aborrecido desta resposta abalou 
algum tempo as convicções do fidalgo, respeito à ino-
cência, modéstia e acanhamento da sua prima. Ainda 
assim, quis ele no momento persuadir-se que a boa 
vontade não poderia exprimir-se de outro modo, e con-
tinuou:
— Os nossos corações penso eu que estão uni-
dos; agora é preciso que as nossas casas se unam.
Teresa empalideceu, e baixou os olhos.
— Acaso lhe diria eu alguma cousa desagradá-
vel? – prosseguiu Baltasar, rebatido pela desfiguração 
de Teresa.
— Disse-me o que é impossível fazer-se – res-
pondeu ela sem turvação. — O primo engana-se: os 
nossos corações não estão unidos. Sou muito sua ami-
ga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lem-
brou que o primo pensasse em tal.
— Lucro saber, pelo menos, que a minha prima 
ama outro homem... É exato?
— É.
— E com tamanha paixão que desobedece a 
seu pai?
— Não desobedeço: o coração é mais forte que 
a submissa vontade de uma filha. Desobedeceria, se 
casasse contra a vontade de meu pai; mas eu não dis-
se ao primo Baltasar que casava; disse-lhe unicamente 
que amava.
 Fragmento 3
O coração de Teresa estava mentindo. Vão lá 
sinceridade coração!
Para finos entendedores, o diálogo do anterior 
capítulo definiu a filha de Tadeu de Albuquerque. É mu-
lher varonil, tem força de caráter, orgulho fortalecido 
pelo amor, despego das vulgares apreensões, se são 
apreensões a renúncia que uma filha fez do seu alve-
drio às imprevidentes e caprichosas vontades de seu 
pai. [...] Teresa adivinha que a lealdade tropeça a cada 
passo na estrada real da vida, e que os melhores fins 
se atingem por atalhos onde não cabem a franqueza e 
a sinceridade. Estes ardis são raros na idade inexperta 
de Teresa; mas a mulher do romance quase nunca é 
trivial, e esta, de que rezam os meus apontamentos, 
era distintíssima. A mim me basta, para crer em sua 
distinção, a celebridade que ela veio a ganhar à conta 
da desgraça.
Da carta que ela escreveu a Simão Botelho, con-
tando as cenas descritas, a crítica deduz que a meni-
na de Vizeu contemporizava com o pai, pondoa mira 
no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem 
romper com o velho em manifesta desobediência. Na 
narrativa que fez ao acadêmico omitiu ela as ameaças 
do primo Baltasar, cláusula que, a ser transmitida, arre-
bataria de Coimbra o moço, em que sobejavam brios e 
bravura para mantê-los.
 Fragmento 4
Às onze horas da noite, o comandante recolhe-
ra-se num beliche de passageiro, e Mariana, sentada 
no pavimento, com o rosto sobre os joelhos, parecia 
sucumbir ao quebranto das trabalhosas e aflitivas ho-
ras daquele dia.
Simão Botelho velava prostrado no camarote, 
com os braços cruzados sobre o peito, e os olhos fitos 
23
na luz que balançava, pendente dum arame. O ouvido 
tê-lo-ia, talvez, atento a um assobio da ventania: devia 
de soar-lhe como um ai plangente aquele silvo agudo, 
voz única no silêncio da terra e céu.
À meia-noite, estendeu Simão o braço trêmulo 
ao maço das cartas que Teresa lhe enviara, e contem-
plou um pouco a que estava ao de cima, que era dela. 
Rompeu a obreia, e dispôs-se no camarote para alcan-
çar o baço clarão da lâmpada.
Dizia assim a carta:
É já o meu espírito que te fala, Simão. A tua ami-
ga morreu. A tua pobre Teresa, à hora em que leres esta 
carta, se meu Deus não engana, está em descanso.
Eu devia poupar-te esta última tortura; não 
devia escrever-te; mas perdoa à tua esposa do céu a 
culpa, pela consolação que sinto em conversar contigo 
a esta hora, hora final da noite da minha vida.
Oh! Simão, de que céu tão lindo caímos! À hora 
que te escrevo, estás tu para entrar na nau dos degre-
dados, e eu na sepultura.
Que importa morrer, se não podemos jamais 
ter nesta vida a nossa esperança de há três anos?! 
Poderias tu com a desesperança e com a vida, Simão? 
Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escas-
sos benefícios que Deus me concedia; a morte é mais 
que uma necessidade, é uma misericórdia divina, uma 
bem-aventurança para mim.
(CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de perdição. 
São Paulo: Ática, 1975.)
Glossário
declinando: afastado
obtemperar: obedecer
rebate: sinal
desígnio: intenção
morgado: filho mais velho
melindre: delicadeza
afoitou-se: encorajou-se
turvação: impedimento
alvedrio: vontade própria
24
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
 3. (Mackenzie) Assinale o fragmento que, em-
bora pertencendo ao mesmo estilo de época 
de Camilo Castelo Branco, apresenta ponto 
de vista irônico sobre a aventura amorosa. 
a) ”Eu te amo, Maria, eu te amo tanto/ Que meu 
peito me dói como em doença/ E quanto mais 
me seja a dor intensa/ Mais cresce na minha 
alma teu encanto.” (Vinicius de Morais)
b) ”O Amor enganoso, que fingia,/ Mil vonta-
des alheias enganando,/ Me fazia zombar de 
quem o tinha.” (Camões)
c) ”E o eco ao longe murmurou – é ela!/ E a vi – 
minha fada aérea e pura –/ A minha lavadeira 
na janela!” (Álvares de Azevedo)
d) ”Cansei-me de tentar o teu segredo:/ No teu 
olhar sem cor, – frio escalpelo –,/ O meu 
olhar quebrei, a debatê-lo,/ Como a onda na 
crista dum rochedo.” (Camilo Pessanha)
e) ”Ai! Se eu te visse, Madalena pura,/ Sobre o 
veludo reclinada a meio,/ Olhos cerrados na 
volúpia doce,/ Os braços frouxos – palpitante 
o seio!...” (Casimiro de Abreu)
 4. (Mackenzie) De acordo com o texto: 
a) o amor de Simão e Teresa é visto pelo narra-
dor como uma brincadeira de criança.
b) o amor de Simão e Teresa, caracterizado 
como ”amor à primeira vista”, foi intenso no 
início, mas não durou muito.
c) Teresa, aos quinze anos, amava como uma 
”avezinha que ensaia o voo fora do ninho”.
d) o caso de amor entre Simão e Teresa quebrou 
as expectativas do narrador com relação a 
namoros de juventude.
e) o amor de Simão e Teresa é prova de que 
os poetas e prosadores estão enganados com 
relação aos relacionamentos juvenis.
 5. Assinale corretamente qual alternativa 
aponta a atitude de Simão na novela pas-
sional Amor de perdição, de Camilo Castelo 
Branco, após o assassinato de Baltasar, na 
cidade do Porto.
a) Foge com o ferreiro João da Cruz.
b) Casa-se com Mariana.
c) Suicida-se em frente ao convento.
d) Volta como herói para Viseu.
e) Assume a culpa e seu castigo.
 6. (Fuvest) Na novela Amor de perdição, de Ca-
milo Castelo Branco: 
a) Simão ficou indeciso entre o amor de Maria-
na e o de Teresa.
b) Simão rejeitou a oportunidade que lhe foi 
oferecida para livrar-se do desterro.
c) a apresentação do pai e de suas origens jus-
tifica o orgulho que a família de Simão os-
tenta.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS QUATRO QUESTÕES
Amava Simão uma sua vizinha, menina de 
quinze anos, rica herdeira, regularmente bo-
nita e bem-nascida. Da janela do seu quarto 
é que ele a vira a primeira vez, para amá-
-la sempre. Não ficara ela incólume da feri-
da que fizera no coração do vizinho: amou-o 
também, e com mais seriedade que a usual 
nos seus anos.
Os poetas cansam-nos a paciência a falarem 
do amor da mulher aos quinze anos, como 
paixão perigosa, única e inflexível. Alguns 
prosadores de romances dizem o mesmo. En-
ganam-se ambos. O amor dos quinze anos é 
uma brincadeira; é a última manifestação do 
amor às bonecas; é a tentativa da avezinha 
que ensaia o voo fora do ninho, sempre com 
os olhos fitos na ave-mãe, que a está da fron-
de próxima chamando; tanto sabe a primeira 
o que é amar muito, como a segunda o que é 
voar para longe.
Teresa de Albuquerque devia ser, porventu-
ra, uma exceção no seu amor.
(Camilo Castelo Branco, Amor de perdição)
 1. (Mackenzie) Assinale a alternativa correta. 
a) A divergência do narrador com relação à 
concepção de amor veiculada pela ficção é 
prova de que o texto pertence ao Realismo.
b) No contexto, a crítica a poetas e prosadores 
funciona como estratégia para o narrador 
obter credibilidade dos leitores.
c) A temática do amor não correspondido, im-
plícita no texto, revela-nos um ponto de vis-
ta narrativo comprometido com a fidelidade 
aos fatos da realidade.
d) O estilo romântico do texto é comprovado 
pela linguagem rebuscada com que o nar-
rador comenta a fragilidade do amor entre 
Simão e Teresa.
e) O aproveitamento de temática amorosa nos 
moldes de Romeu e Julieta, de Shakespeare, 
atesta o estilo clássico de Camilo Castelo 
Branco.
 2. (Mackenzie) Assinale a alternativa correta. 
a) A analogia presente no segundo parágrafo 
corresponde a um argumento do narrador 
para provar a afirmação ”Enganam-se ambos”.
b) A analogia presente no segundo parágrafo 
contradiz a afirmação ”Enganam-se ambos”.
c) A analogia presente no segundo parágrafo 
retoma e confirma a afirmação feita por po-
etas e prosadores.
d) O último período do texto exemplifica a ana-
logia usada pelo narrador no segundo pará-
grafo.
e) O último período contesta, ironicamente, a 
afirmação feita pelo narrador no primeiro 
parágrafo.
25
d) o autor revela grande respeito pelas institui-
ções religiosas de seu tempo.
e) Ritinha, irmã mais nova de Simão, abando-
nou a família para apoiá-lo em suas dificul-
dades.
 7. (Mackenzie) É uma característica da obra de 
Camilo Castelo Branco: 
a) a influência rica em sua poesia de símbolos, 
imagens alegóricas e construções.
b) a oscilação entre o lirismo e o sarcasmo, dei-
xando páginas de autêntica dramaticidade, 
vibrando com personagens que comumente 
intervêm no enredo, tecendo comentários 
piedosos, indignados ou sarcásticos.
c) a busca de uma forma adequada para conter 
o sentimentalismo do passado e das formas 
românticas.
d) o fato de deixar ao mundo um alerta sobre o 
mal-estar trazido pela civilização moderna e 
industrializada.
e) o apego ao conto como principal realização 
literária, através do qual se tornou um dos 
autores mais respeitados na literatura por-
tuguesa.
 8. Amor de perdição é um romance de Camilo 
Castelo Branco em que a instituição ”famí-
lia” desempenha um papel decisivo.
a) Estabeleça um paralelo entre os papéis exer-
cidos pela família Albuquerque sobre Teresa 
e aqueles exercidos pela família Botelho so-
bre Simão.
b) Nesse romance, um dos tópicos importantesé o da relação entre pais e filhos: contraste 
as relações que se dão na família de João da 
Cruz, por um lado, com as que se dão nas 
famílias Botelho e Albuquerque, por outro. 
 9. Leia com atenção o trecho a seguir, extraído 
do último capítulo de Amor de perdição, de 
Camilo Castelo Branco:
”Viram-na, um momento, bracejar, não para 
resistir à morte, mas para abraçar-se ao ca-
dáver de Simão, que uma onda lhe atirou 
aos braços. O comandante olhou para o sí-
tio donde Mariana se atirara, e viu, enleado 
no cordame, o avental, e à flor da água, um 
rolo de papéis, que os marujos recolheram 
na lancha.”
a) Que relação há, em Amor de perdição, entre 
as personagens Simão e Mariana?
b) No trecho citado, o narrador menciona um 
”rolo de papéis”. Que papéis são esses?
c) Considerando as respostas dadas aos itens 
[a] e [b], analise a função desempenhada 
pela personagem Mariana na estrutura do 
romance. 
GABARITO
1. B 2. A 3. C 4 D 5. E
6. B 7. E
 8. 
a) Os Albuquerque e os Botelho representam 
as intrigas familiares marcados pelo ódio 
e falta de compreensão. Nesse contexto, 
surge o drama amoroso vivido por Teresa 
e Simão.
b) As famílias Albuquerque e Botelho são 
tradicionalistas e sujeitam as transfor-
mações. A família de João da Cruz, mais 
humilde, tem uma relação mais amorosa 
com a filha.
 9. 
a) Mariana ama Simão em segredo mas não 
é correspondida.
b) As cartas trocadas entre Simão e Teresa.
c) Ela funciona como elo entre Simão e Te-
resa e simboliza o amor puro e desinte-
ressado.
L
OBRAS
C
O demônio familiar
Obras
L C
José de Alencar
29
JOSÉ DE ALENCAR
José Martiniano de Alencar Júnior (1829-1877) foi romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político bra-
sileiro. É um dos maiores representantes da corrente literária indianista. Destacou-se na carreira literária com a 
publicação do romance O guarani, em forma de folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, no qual alcançou enorme 
sucesso. Este romance serviu de inspiração ao músico Carlos Gomes, que compôs a ópera heterônima. Foi escolhido 
por Machado de Assis para patrono da cadeira no 23 da Academia Brasileira de Letras.
Consolidou o romance brasileiro ao escrever movido pelo sentimento de missão patriótica. O regionalismo 
presente em suas obras abriu caminho para outros sertanistas preocupados em mostrar o Brasil rural. Criou uma 
literatura nacionalista, na qual se evidencia uma maneira de sentir e pensar tipicamente brasileiras. Suas obras são 
especialmente bem-sucedidas, quando o autor transporta a tradição indígena para a ficção. Tão grande foi a pre-
ocupação de José de Alencar em retratar sua terra e seu povo, que muitas das páginas de seus romances relatam 
mitos, lendas, tradições, festas religiosas, usos e costumes observados pessoalmente por ele, com o intuito de cada 
vez mais abrasileirar seus textos.
Nasceu no sítio Alagadiço Novo, perto de Fortaleza, no Ceará, no dia 1o de maio de 1829. Filho de José 
Martiniano de Alencar, senador do império, e de Ana Josefina, em 1838 mudou-se com a família para o Rio de 
Janeiro. Com nove anos, José de Alencar e Antônio Gonçalves Dias (futuro poeta), atravessaram o sertão em um 
carro de boi e ficaram deslumbrados ao ver um grupo de índios, com penas coloridas, arcos e flechas. Chegando 
em Salvador, tomaram um navio e seguiram para a capital do império.
Com dez anos, José de Alencar ingressou no Colégio de Instrução Elementar. Durante a noite, presenciava 
os encontros políticos de seu pai. Em sua casa, tramou-se a maioridade de D. Pedro II, decretada em 1840. Com 
14 anos, Alencar foi para São Paulo, onde terminou o secundário e ingressou na Faculdade de Direito do Largo 
São Francisco. Em 1844, ao ver o sucesso do livro A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, resolveu que seria 
escritor de romances. Entregou-se à leitura dos autores mais influentes da época, como Alexandre Dumas, Balzac, 
Byron, entre outros.
Em 1847, com 18 anos, escreveu seu primeiro romance, Os contrabandistas (obra inacabada). Em 1848, foi 
para Pernambuco, onde continuou seu curso na Faculdade de Direito de Olinda, concluindo em 1851. De volta a 
São Paulo, levou o esboço de dois romances históricos – Alma de Lázaro e O ermitão da Glória –, que só seriam 
publicados no fim da vida.
30
Ainda em 1851, voltou para o Rio de Janeiro, 
onde exerceu a advocacia. Em 1854, ingressou no Cor-
reio Mercantil, na seção “Ao Correr da Pena“, na qual 
comentava os acontecimentos sociais, as estreias de 
peças teatrais, os novos livros e as questões políticas. 
Em 1855, assumiu as funções de gerente e redator – 
chefe do Diário do Rio, no qual publicou seu primeiro 
romance, Cinco minutos (1856). No dia 1o de janeiro 
de 1857, começou a publicar o romance O guarani, 
em forma de folhetim, que alcançou enorme sucesso e 
logo foi editado em livro.
Em 1858, abandonou o jornalismo para ser che-
fe da Secretaria do Ministério da Justiça, chegando a 
consultor com o título de conselheiro, ao mesmo tem-
po em que lecionava Direito Mercantil. Em 1860, com 
a morte do pai, candidatou-se a deputado pelo Ceará, 
pelo Partido Conservador, sendo reeleito em quatro le-
gislaturas. Em visita a sua terra natal, encantou-se com 
a lenda de “Iracema“ e a transformou em livro.
Em 1865, sob um pseudônimo, publicou Cartas 
de Erasmo, dirigidas ao imperador, no qual pintava a 
situação do país. Defendia um governo forte e propu-
nha uma abolição gradativa da escravatura. Embora 
D. Pedro II não simpatizasse com Alencar, não se opôs 
a sua escolha para o Ministério da Justiça do Império. 
Em 1870, foi eleito senador pelo Ceará, porém, com os 
conflitos com o ministro da Marinha, não foi o escolhi-
do. Voltou para a Câmara, onde permaneceu até 1877, 
rompido com o Partido Conservador.
Mesmo no auge da carreira política, José de 
Alencar não abandonou a literatura. Em 1864, casou-
-se com Georgina, com quem teve quatro filhos, entre 
eles, Mário Alencar, que seguiria a carreira de letras do 
pai. Viu suas obras atacadas por jornalistas e críticos, 
que faziam campanha sistemática contra o romancista. 
Triste e desiludido, publicou sob o pseudônimo de Sê-
nio. Porém, a maioria o louvava. Durante toda sua vida, 
procurou trazer para os livros as tradições, a história, 
a vida rural e urbana do Brasil. Ficou famoso a ponto 
de ser aclamado por Machado de Assis como “o chefe 
da literatura nacional“. José de Alencar faleceu aos 48 
anos, vítima da tuberculose no Rio de Janeiro, em 12 
de dezembro de 1877.
O DEMÔNIO FAMILIAR
A peça “O demônio familiar“ foi encenada pela pri-
meira vez no Teatro do Ginásio do Rio de Janeiro, no 
dia 5 de setembro de 1857, fundindo uma temática 
europeia, como a interferência do dinheiro nas rela-
ções afetivas, com uma temática brasileira, a atuação 
do escravo no interior das casas das famílias brasileiras. 
O objetivo de José de Alencar era produzir uma 
peça original e de efeito moral, capaz de revelar a sin-
gularidade da comédia brasileira e de educar as famí-
lias no combate a um vício, que era o de permitir a 
figura do escravo no interior das casas.
Tema
Quanto ao aspecto temático, “O demônio familiar“ 
apresenta uma ideia curiosa: aparentemente, a peça 
é avançada para a época. Em 1857 (ano de estreia 
da peça), trinta anos antes da abolição da escravidão, 
o tema do abolicionismo soaria aos ouvidos da pla-
teia como algo avançado e contrário aos interesses da 
elite dominante. Entretanto, a apologia da liberdade 
é apenas aparente, pois a liberdade na peça é vista 
como um instrumento de punição. A liberdade traria 
para o escravo consequências severas, porque ele teria 
de aprender com a vida o que não conseguiu assimi-
lar como escravo, como o respeito e a educação. Em 
outras palavras, a escravidão é um mal não porque o 
branco subjuga o negro, mas porque a maldade vem 
do negro. Este paga com tramas e desejos mesquinhos 
o bem que lhes queria seus senhores. Em suma,não se 
trata de livrar o negro da crueldade do branco, mas de 
preservar o branco das maldades do negro.
Como a “classe” branca era econômica e poli-
ticamente a dominadora, podia falar e escrever o que 
quisesse, como a mensagem interpretada acima. José 
de Alencar emprega recursos convencionais para se 
fazer entender pelo público, objetivando a educação 
moral das famílias brasileiras. As principais lições são: a 
escravidão é um mal, porque expõe a família à falta de 
escrúpulo dos negros; a família é mais importante que 
a sociedade, pois é ela que fornece as bases para que 
o indivíduo possa evitar os prazeres excessivos da vida 
social; na família, a mulher, por desconhecer os perigos 
do mundo, deve sempre agir em nome do verdadeiro 
amor; e o dinheiro interfere, de forma negativa, nas 
relações afetivas.
31
Forma
No que tange ao aspecto formal, a peça não apresenta 
novidades, pois emprega recursos típicos da tradição 
teatral para a solução dos problemas de enredo. O 
recurso inesperado surge na forma de uma carta de 
alforria ao moleque Pedro, funcionando como um ins-
trumento de punição para a personagem. 
A técnica que liga um ato ao outro da peça é 
conhecida como “técnica do gancho”, porque cria um 
pequeno suspense no final do ato para prender a aten-
ção do espectador. O texto se configura como comédia, 
portanto, traz consigo a crítica de costumes, não aos 
moldes gregos, pois é romântico, mas com aspectos 
da observação social em perspectiva da não realização 
amorosa ou conflitos típicos da ascensão da burguesia.
Escola literária
A peça de José de Alencar reúne alguns dos ingre-
dientes românticos mais convencionais. Todo o enre-
do é montado sobre tensões, maledicências, fofocas, 
mal-entendidos, que lhe dão o ritmo rocambolesco e 
complicado das narrativas folhetinescas do Romantis-
mo. Estão presentes, ainda, os inescapáveis obstáculos 
para a realização amorosa do par central, como o pro-
jetado casamento da heroína com Azevedo e as atitu-
des de Pedro, que fazem com que o herói não se sinta 
amado por Henriqueta. Porém, José de Alencar conduz 
as confusões da narrativa até o nível das contradições, 
que fazem com que a peça atinja um nível superior, ao 
expor ao espectador diferentes perspectivas a respeito 
dos conceitos em jogo.
Assim, o amor romântico aparece em duas for-
mas distintas: de um lado, o amor contido e confor-
mado de Henriqueta, que se submete às vontades do 
destino; e de outro, o amor decidido e ativo de Car-
lotinha, que luta por seu amor, não se rendendo às 
circunstâncias que conduziam à inevitável separação. 
A peça vai ainda além: há, de um lado, o amor or-
namental defendido por Azevedo; e de outro, o amor 
que é pura sinceridade proposto por Alfredo. Os dois 
rapazes personificam ainda duas posições contrárias a 
respeito da arte brasileira: o afrancesado Azevedo vê 
nela apenas imitação de modelos europeus, enquanto 
Alfredo – nesse sentido, porta-voz do autor – destaca 
seus traços de originalidade e nacionalismo. 
Contexto
A peça consegue ainda registrar os novos costumes de 
uma sociedade que se urbaniza com rapidez. A novi-
dade capitalista atinge as relações sociais, colocando 
em foco a chamada question d’argent (problemas fi-
nanceiros), um dos temas mais frequentes do nascente 
Realismo francês. Ressalve-se que essa questão é fo-
calizada de uma perspectiva romântica, à medida que 
desvia os homens de sentimentos verdadeiros. Além 
disso, há uma cena em que se relata o interesse que as 
vitrines coloridas despertam em Pedro – sugestão de 
que aqueles novos hábitos teriam contribuição decisiva 
nos desvios morais do menino. 
Moral
Em “O demônio familiar“, todas as lições de moral são 
dadas pelo personagem Eduardo. A moral da peça é 
justamente esta: os efeitos do progresso sobre as rela-
ções sociais, principalmente para quem – como Pedro 
– não tem consciência plenamente formada pela edu-
cação. Esse argumento caminha no sentido da defesa 
32
da escravidão, como forma de tutela sobre o negro que, 
de outra maneira, estaria submetido aos desvios mo-
rais fornecidos pela liberdade plena. Na transmissão 
dessa moralidade tão peculiar, destaca-se a imagem 
do herói, Eduardo, moço equilibrado e honrado, cuja 
nobreza de caráter contrasta com os maus princípios 
defendidos por Azevedo, com manias europeizadas. 
Linguagem
No plano da linguagem, José de Alencar se mostra 
tensionado a mostrar as potencialidades da língua 
brasileira. Vai estabelecendo diferenças no nível de lin-
guagem, de acordo com a localização social do falante. 
Neste tocante, a linguagem será modulada tanto ao 
coloquialismo desregrado de Pedro quanto à retórica 
mais educada de Eduardo.
Resumo
Peça teatral escrita para ser encenada em quatro atos, 
a ação se desenrola na cidade do no Rio de Janeiro, já 
na segunda metade do século XIX. A trama gira em tor-
no da família da viúva D. Maria e seu filho mais velho, 
Eduardo, que acabara de se formar médico e assume 
a posição de líder familiar. Ele vai auxiliar a condução 
dos destinos da irmã Carlotinha (jovem que mantém 
um discreto namoro com Alfredo, amigo do irmão) e 
cuidar também do irmão caçula, Jorge.
Eduardo possui um escravo particular: Pedro, 
um moleque nada interessado no trabalho doméstico 
e que não perdia nenhuma oportunidade de passear 
pela cidade que se urbanizava. O grande amor de Edu-
ardo é Henriqueta, amiga de Carlotinha, que também 
ama o rapaz. No entanto, a união é impedida pelo pro-
jeto de casamento da moça com Azevedo, moço rico 
recém-chegado de Paris, ao qual ela se submetia para 
auxiliar seu pai, Vasconcelos, a saldar algumas dívidas. 
Pedro, menino escravo da família de Eduardo, 
assume um papel essencial no enredo, em função de 
suas intromissões na vida amorosa dos amos. Ao mes-
mo tempo em que luta para promover a união entre 
Carlotinha e Alfredo, usa artifícios para separar Hen-
riqueta e Eduardo, aproximando-o de uma viúva rica 
interessada nele. 
Quando Eduardo descobre tudo, ameaça ven-
der Pedro, mas o menino implora para ficar e se com-
promete a resolver tudo. Começa, então, a desenvolver 
ações no sentido contrário, inventando coisas a respei-
to de Henriqueta para fazer Azevedo desistir do casa-
mento. Enquanto isso, Eduardo também se movimenta 
no sentido de romper a obrigação do casamento da 
amada com Azevedo. Para tanto, salda por conta pró-
pria as dívidas de Vasconcelos. 
Procurando agora deixar Henriqueta livre para 
seu amo, Pedro busca separá-la de Azevedo. Para tan-
to, tenta aproximar este de Carlotinha, provocando 
um mal-entendido entre esta e Alfredo. Mais uma vez, 
Eduardo descobre todas as ações do moleque e escla-
rece tudo aos familiares e aos envolvidos. Declara seu 
amor a Henriqueta, ao mesmo tempo em que Azevedo 
se afasta. Alfredo e Carlotinha finalmente tornam pú-
blico seu amor.
Para o moleque Pedro, responsável por todos 
os desencontros da peça, sobra o castigo final: Eduar-
do lhe entrega a sua carta de alforria, o que significa 
deixá-lo, dali por diante, por sua própria conta e sem a 
proteção da família que o acolhia.
Personagens
 Eduardo: é um jovem médico, órfão de pai, 
que exerce o papel de chefe de família. Res-
ponsável pela mãe e pelos irmãos, opõe-se ao 
casamento por interesse.
 Carlotinha: é irmã de Eduardo, e procura aju-
dar a amiga Henriqueta, pois sabe que ela e 
Eduardo se amam. Porém, Henriqueta foi pro-
metida pelo pai em casamento a Azevedo, em 
troca do perdão de dívidas da família.
33
 Azevedo: homem rico e pedante, valoriza so-
mente o que é estrangeiro. Deseja casar-se ape-
nas para desfilar com uma mulher bonita nos 
salões e, assim, angariar prestígio.
 Alfredo: amigo de Eduardo, é jovem modesto, 
sincero e de bons princípios; está apaixonado 
por Carlotinha e por ela é correspondido.
 Pedro: é o escravo da família, que tudo faz 
para realizar seu desejo: tomar-se cocheiro,a 
fim de ascender socialmente, revelando, assim, 
a postura política do autor.
Espaço
O registro espacial do drama de José de Alencar re-
produz a preocupação central da peça, que é a de 
destacar a vida familiar no Rio de Janeiro na segunda 
metade do século XIX. Praticamente, todos os atos se 
passam na “casa de Eduardo”. 
 Cenário: ambientado na casa de Eduardo
 Ato 1o: gabinete de estudo (cena primeira a XV).
 Ato 2o: jardim (cena primeira a IX)
 Ato 3o: sala interior (cena primeira a XVIII)
 Ato 4o: sala de visitas (cena primeira a XVII)
 Vida urbana: passeio público, Rio de Janeiro
Os espaços externos aparecem apenas indireta-
mente, é possível perceber referências à Rua do Catete, 
aos hábitos urbanos, como o teatro, as lojas da moda, 
e outros recantos mundanos da cidade.
Tempo
Os três primeiros atos da peça ocorrem em um único 
dia. O quarto ato ocorre um mês após os acontecimen-
tos do final do terceiro ato.
Foco narrativo
O foco narrativo – se é que podemos atribuir este con-
ceito no gênero dramático –, se estabelece em terceira 
pessoa, com base em diálogos diretos entre as perso-
nagens.
Análise
Nota-se que José de Alencar, na obra em questão, mos-
trou alguns comportamentos cariocas do século XIX: o 
rico influenciado pela cultura europeia e vivendo em 
função dela (Azevedo); o falso rico (sr. Vasconcelos); o 
casamento por interesse financeiro ou social (Vascon-
celos e Azevedo); a moça virginal e sonhadora (Carlo-
tinha); o serviçal negro e fofoqueiro (Pedro); a viúva e 
mãe exemplar (dona Maria); o verdadeiro amor (Edu-
ardo e Henriqueta); e o jovem humilde e nacionalista 
(Alfredo).
A trama é leve, a linguagem é objetiva, mes-
clando termos da língua francesa e da língua portu-
guesa. O objetivo da comédia é provocar riso no pú-
blico e, de forma graciosa, mostrar os comportamentos 
ridículos de uma sociedade. Diferente da crença de que 
os demônios são causadores do mal, Pedro, o serviçal, 
age de maneira pensada, desejando o bem para ele 
e para os demais; quando percebe que causou algum 
mal, ele volta e repara.
O personagem está mais para anjo do que para 
diabo. É ele quem dá o tom de humor à narrativa, atra-
vés de uma série de confusões. Nota-se, também, que 
era totalmente improvável o criado Pedro ser tratado 
como membro da família de dona Maria, visto que era 
escravo. As mulheres da época, superficiais e artificiais, 
eram bonecas enfeitadas a fim de laçarem um marido 
o mais rapidamente possível e domesticá-los Sem dú-
vida alguma, a peça “O demônio familiar“ é uma obra 
considerada abolicionista, vendo sobretudo a questão 
pelo lado do senhor (o escravo Pedro introduz na casa 
de Eduardo a mentira, a fofoca e a intriga), então, cabe 
à família alforriá-lo (punição) pelo mau comportamen-
to do negro escravo.
34
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
 2. Leia a seguinte passagem de “O demônio fa-
miliar“.
O texto teatral, exemplificado pelo trecho 
acima, apresenta se melhanças com o tex-
to narrativo por utilizar personagens, re-
presentar ações e marcação de tempo e espa-
ço. No texto tea tral:
a) as ações das personagens são descritas por 
um nar rador, sendo este o mediador da nar-
rativa.
b) as falas das personagens são diluídas no tex-
to, sen do confundidas com a voz do narra-
dor.
c) as características das personagens são reve-
ladas por meio de suas falas e assim a ação é 
conduzida por elas mesmas.
d) as vozes das personagens são importantes 
para a construção da narrativa, embora haja 
a voz de um narrador onisciente.
e) as atitudes das personagens são conduzidas 
por um narrador intruso, embora o conflito 
esteja nos diálo gos.
 3. Um dos motores essenciais do riso na comé-
dia é o quiproquó, situação na qual equívo-
cos, mentiras, trocas de objetos ou de pessoas 
acabam por gerar confusões que alimentam 
o conflito dramático. Logo nas primeiras 
cenas de “O demônio familiar“, de José de 
Alencar, há referência a um quiproquó, ins-
taurado quando Pedro:
a) entregou a Azevedo uma carta de Carlotinha 
destinada a Henriqueta, levando Alfredo a 
sentir-se enganado.
b) distorceu as palavras de Azevedo, induzindo 
Vasconcelos a se indispor com o pretendente 
de Henriqueta.
c) inventou falsas pretensões de Vasconcelos e 
este se irritou, indispondo-se com Azevedo.
d) entregou a Azevedo uma violeta, inventan-
do ter sido enviada, com um beijo, por Car-
lotinha.
e) mentiu a Eduardo sobre Henriqueta e este 
fechou sua janela, fazendo a jovem sentir-se 
desprezada por ele.
 4. Em “O demônio familiar“, de José de Alen-
car, o personagem que dá título à peça é:
a) Eduardo. 
b) Alfredo 
c) Azevedo. 
d) Vasconcelos. 
e) Pedro.
 1. Leia atentamente o trecho retirado da peça 
teatral “O demônio familiar“, de José de 
Alencar.
EDUARDO: Por que, minha irmã? Todos de-
vemos perdoar-nos mutuamente; todos so-
mos culpados por havermos acreditado ou 
consentido no fato primeiro, que é a causa 
de tudo isto. O único inocente é aquele que 
não tem imputação, e que fez apenas uma 
travessura de criança, levado pelo instinto 
da amizade. Eu o corrijo, fazendo do autô-
nomo homem; restituo-o a sociedade, porém 
expulso-o do seio de minha família e fecho-
-lhe para sempre a porta de minha casa. (A 
Pedro) Toma: é tua carta de liberdade, ela 
será a tua punição de hoje em diante, porque 
as tuas faltas recairão unicamente sobre ti; 
porque a moral e a lei te pedirão uma conta 
severa de tuas ações. Livre, sentirás a neces-
sidade do trabalho honesto e apreciarás os 
nobres sentimentos que hoje não compreen-
des. (Pedro beija-lhe a mão)
AZEVEDO: Mas agora, por simples curiosida-
de, diz-me, Gamim, que interesse tinhas em 
desfazer o meu casamento?
PEDRO: Sr. moço Eduardo gosta de sinhá 
Henriqueta!
AZEVEDO: Ah!... Bah!...
EDUARDO: Sim, meu amigo. Eu amo Henri-
queta e para mim esse casamento seria uma 
desgraça; para o senhor era uma pequena 
questão de gosto e para seu pai um compro-
misso de honra. Hoje mesmo pretendia sol-
ver essa obrigação. Aqui está uma ordem so-
bre o Souto; O Sr. Vasconcelos nada lhe deve.
VASCONCELOS: Como? Fico então seu devedor?
EDUARDO: Essa dívida é o dote de sua filha.
HENRIQUETA: Oh! Que nobre coração!
EDUARDO: Quem mo deu?
HENRIQUETA: Sou eu que sinto orgulho em 
lhe pertencer, Eduardo.
(O demônio familiar, José de Alencar)
Sobre a peça, é incorreta a alternativa:
a) A atmosfera da classe burguesa do século 
XIX é apresentada em tonalidades românti-
cas.
b) Ideologicamente, subjaz a ideia de que a es-
cravidão não é tão maléfica, e que a relação 
entre patrões e escravos é cordial.
c) O papel conferido à mulher representa a su-
balternidade e a submissão características 
do patriarcalismo burguês.
d) A história dramatiza as relações familiares 
em que o escravo é recompensado com a al-
forria, em paga de seus serviços domésticos.
35
 5. Leia atentamente o trecho retirado da peça 
teatral “O demônio familiar“.
EDUARDO: Os antigos acreditavam que toda a 
casa era habitada por um demônio familiar, 
do qual dependia o sossego e a tranquilidade 
das pessoas que nela viviam. Nós, os brasi-
leiros, realizamos infelizmente esta crença; 
temos no nosso lar doméstico esse demônio 
familiar. Quantas vezes não partilha conos-
co as carícias de nossas mães, os folguedos 
de nossos irmãos e uma parte das atenções 
da família! Mas vem um dia, como hoje, em 
que ele, na sua ignorância ou na sua malícia, 
perturba a paz doméstica; e faz do amor, da 
amizade, da reputação, de todos esses obje-
tos santos, um jogo de criança. Este demônio 
familiar de nossas casas, que todos conhece-
mos, ei-lo.
a) A quem Eduardo se refere como “demônio 
familiar”?
b) Qual é o principal desejo do “demônio fami-
liar”?
c) Segundo Eduardo, o que o torna um “demô-
nio familiar”?
 6. No final da peça “O demônio familiar“, de 
José de Alencar, ocorre a união entre os pa-
res românticos da peça.
a) Qual o artifício empregado pelo autor dapeça para dificultar a união entre os pares?
b) Pode-se dizer que este artifício tem uma fi-
nalidade que transcende o aspecto literário? 
Justifique sua resposta.
 7. ATO IV
Em casa de Eduardo. Sala de visitas.
Cena primeira
Eduardo, Henriqueta, Carlotinha, Pedro 
(Carlotinha na janela; Pedro sacudindo os 
tapetes.) 
CARLOTINHA (baixo, a Pedro): Não passará 
ainda hoje?
PEDRO: Não sei, nhanhã.
CARLOTINHA: Está doente?... Zangado comi-
go?... Por quê?
PEDRO: Não se importe mais com ele! Há 
tanto moço bonito! Sr. Azevedo... (Pedro vai 
colocar o tapete e sai.)
No fragmento anterior transcrito, a persona-
gem Carlotinha está preocupada com a au-
sência do seu amado.
a) Quem é o seu amado?
b) Qual o motivo da ausência do rapaz?
 8. Leia atentamente o trecho retirado da peça 
teatral “O demônio familiar“.
EDUARDO (a Pedro): Toma, é a tua carta de 
liberdade, ela será a tua punição de hoje em 
diante, porque as tuas faltas recairão unica-
mente sobre ti; porque a moral e a lei te pe-
dirão uma conta severa de tuas ações. Livre, 
sentirás a necessidade do trabalho honesto 
e apreciarás os nobres sentimentos que hoje 
não compreendes. (Pedro beija-lhe a mão.) 
Ao entregar a carta de alforria a Pedro, Edu-
ardo afirma que ela será, para o escravo ago-
ra liberto, uma punição.
a) Por que, segundo Eduardo, a carta de alfor-
ria será uma punição para Pedro?
b) No contexto da peça, qual a visão de José de 
Alencar sobre a abolição da escravidão?
36
GABARITO
1. D 2. C 3. E 4. E
 5. 
a) Eduardo refere-se ao seu escravo Pedro.
b) O principal desejo de Pedro é tornar-se 
cocheiro.
c) O que o torna um “demônio familiar” é o 
fato de o escravo menosprezar todo o afe-
to que lhe é dedicado pelos seus senhores 
e agir sempre de acordo com interesses 
inescrupulosos. Pedro não consegue ab-
sorver a moral, o carinho e o afeto da 
família em que se encontra, agindo so-
mente em função de uma ambição mes-
quinha, que é a de tornar-se cocheiro de 
amos ricos.
 6. 
a) O artifício são as traquinagens do escra-
vo Pedro, que, em nome do seu desejo de 
tornar-se cocheiro, procura aproximar 
seus senhores de pessoas ricas.
b) Sim. As traquinagens de Pedro o trans-
formam no “demônio familiar”, capaz de 
comprometer a moralidade de uma famí-
lia. O objetivo maior de Alencar parece ser 
uma defesa da abolição, não pelo absurdo 
da exploração do trabalho do negro, mas 
pelo fato de este só trazer malefícios para 
a família brasileira.
 7. 
a) O amado de Carlotinha é o moço Alfredo.
b) Alfredo anda ausente por motivo de uma 
traquinagem de Pedro. Este lhe mostrou 
uma carta escrita por Carlotinha e desti-
nada a Henriqueta. Como gracejo, Carlo-
tinha havia escrito no envelope o nome 
do destinatário – Madame Azevedo. Pedro 
ocultou o primeiro nome do sobrescrito 
com o dedo, mostrando a Alfredo o nome 
de seu rival no amor, Azevedo, dizendo-
-lhe que a carta era destinada a ele.
 8. 
a) Porque, uma vez livre, Pedro não contará 
mais com a proteção de seu senhor, de-
vendo responder pelos seus atos. Livre, 
Pedro terá que aprender sozinho os valo-
res que não conseguiu absorver na convi-
vência com uma família honesta.
b) No contexto da peça, Alencar vê a abolição 
como algo necessário para o bem-estar da 
família, pois os desejos mesquinhos dos 
escravos não condizem com a nobreza e a 
dignidade de uma família de “bem”. Sua 
visão é a de que o negro não merece ser 
escravo do branco, pois não sabe e não 
consegue entender os valores dignos que 
lhe são transmitidos pelos seus senhores.
L
OBRAS
C
Clara dos Anjos
Obras
L C
Lima Barreto
39
LIMA BARRETO
Afonso Henrique de Lima Barreto (1881-1922) nasceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de maio de 1881, foi escritor 
e jornalista. Filho de Joaquim Henriques e Amália Augusta, ambos pobres e mestiços, sofreu esse preconceito em 
toda sua vida. Seu pai era tipógrafo e sua mãe, professora primária. Logo cedo, ficou órfão de mãe.
Lima Barreto estudou no Liceu Popular Niteroiense, concluiu o curso secundário no Colégio Pedro II e fez 
faculdade de Engenharia na Escola Politécnica. Seu pai enlouqueceu e foi internado, por isso, em 1904, foi obrigado 
a abandonar o curso de Engenharia. Para sustentar a família, empregou-se na Secretaria de Guerra e, concomitan-
temente, escrevia para alguns jornais do Rio de Janeiro. 
Ainda estudante, já colaborava para a Revista da Época e para a Quinzena Alegre. Em 1905, passou a es-
crever para o Correio da Manhã, que era um jornal de grande prestígio na época.
Lima Barreto publicou o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha, em 1909. O texto acompanha a 
trajetória de um jovem mulato que, vindo do interior, sofre sérios preconceitos raciais. Em 1915, escreveu Triste fim 
de Policarpo Quaresma e, em 1919, escreveu Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá. Esses três romances apresentam 
nítidos traços autobiográficos.
A obra-prima de Lima Barreto, não perturbada pela caricatura, foi Triste fim de Policarpo Quaresma, na qual 
o autor conta o drama de um velho aposentado, Policarpo, em sua luta pela salvação do Brasil.
40
Com seu espírito inquieto e rebelde, seu incon-
formismo com a mediocridade reinante, Lima Barreto 
se entrega ao álcool. Suas constantes depressões o le-
vam duas vezes para o hospício. Em 1 de novembro de 
1922, morreu de um ataque cardíaco.
CLARA DOS ANJOS
Concluído em 1922, ano da morte de Lima Barreto, o 
romance Clara dos Anjos é uma denúncia áspera do 
preconceito racial e social, vivenciado por Clara, uma 
jovem mulata de 17 anos. Ela é filha de Joaquim dos 
Anjos, carteiro, flautista e casado com Engrácia, dona 
de casa. Eles moram em um casebre simples e humilde 
que possui dois quartos, sala de jantar e de visitas, co-
zinha, despensa e quintal, situada no subúrbio do Rio 
de Janeiro.
A família não frequenta a casa dos outros, ape-
nas a de Antônio da Silva Marramaque, padrinho de 
Clara. Possui poucos vizinhos, inclusive alguns deles 
eram estrangeiros. 
Em seu aniversário, Clara conhece o violeiro 
que fora convidado para tocar na festa... Seu nome é 
Cassi Jones de Azevedo.
Cassi Jones é branco (a questão racial é pre-
ponderante para o enredo, sobretudo no conjunto da 
obra de Lima Barreto), tem vinte e poucos anos e pos-
sui fama de sedutor. De classe mais abastada, sempre 
envia cartas de amor a Clara para que ela se apaixone.
Clara acredita na pureza do amor, é ingênua e 
frágil e não possui grandes ambições. O plano do rapaz 
dá certo e ela resolve se entregar a ele. O padrinho de 
Clara intercede pela afilhada, mas é assassinado por 
Cassi e uns capangas.
Passa o tempo, descobre-se que a moça está 
grávida e, logo, Cassi desaparece em fuga. Clara pensa 
em interromper a gravidez, todavia segue o conselho 
de sua mãe e vai à casa de Cassi esperando “repa-
ração”, mas é maltratada pela mãe do rapaz, que a 
humilha por ser mulata e pobre. Portanto, tudo isso 
faz com que Clara se dê conta de sua posição na so-
ciedade, do lugar da mulher, que é pobre e negra do 
subúrbio carioca. 
Estética
O Realismo-Naturalismo, que tanto influenciou Lima 
Barreto na composição de Clara dos Anjos, é cientificis-
ta e determinista, considerando que as ações humanas 
são produtos de leis naturais: do meio, das caracterís-
ticas hereditárias e do momento histórico. Portanto, os 
romances naturalistas procuravam, através da repre-
sentação literária, demonstrar teses extraídas de teo-
rias científicas. Para isso, o Naturalismo buscou compor 
um registro implacável da realidade, incluindo seus as-
pectos repugnantes e grotescos. São exatamente esses 
os aspectos que mais chamam a atenção na narrativa 
exagerada de Clara dos Anjos.
Temática
Em Clara dos Anjos, relata-se a estória de uma pobre 
mulata, filha de um carteiro de subúrbio, que apesar 
das cautelas excessivas da família, é iludida, seduzida 
e, como tantas outras, desprezada, enfim, por um rapazde condição social menos humilde que a sua. É uma 
estória na qual se tenta pintar em cores ásperas o dra-
ma de tantas outras moças da mesma cor e do mesmo 
ambiente. O romancista procurou fazer de sua perso-
nagem uma figura apagada, de natureza “amorfa e 
pastosa“, como se nela quisesse resumir a fatalidade 
que persegue tantas criaturas de sua casta.
41
Linguagem
Com uma linguagem descuidada, suas obras são im-
pregnadas da justa preocupação com os fatos históri-
cos e com os costumes sociais. Lima Barreto torna-se 
uma espécie de cronista e um caricaturista, vingando-
-se da hostilidade dos escritores e do público burguês. 
Poucos aceitam aqueles contos e romances que revela-
vam a vida cotidiana das classes populares, sem qual-
quer idealização.
Produz um tipo de literatura que se distancia 
dos padrões e, por isso, foi muito criticado pelos bele-
tristas tradicionais. As injustiças sociais e as dificulda-
des das primeiras décadas da república são as temáti-
cas primordiais de suas obras.
Espaço
O romance se passa no subúrbio carioca e Lima Bar-
reto descreve o ambiente suburbano com riqueza de 
detalhes, como os vários tipos de “casas, casinhas, ca-
sebres, barracões, choças”, e a vida das pessoas que 
ali vivem.
Ao descrever o subúrbio, aborda o advento dos 
“bíblias”, os protestantes que alugam uma antiga chá-
cara e passam a conquistar novos fiéis para seu culto:
Joaquim dos Anjos ainda conhecera a “chácara“ 
habitada pelos proprietários respectivos; mas, ulti-
mamente, eles se tinham retirado para fora e alu-
gado aos “bíblias“... O povo não os via com hos-
tilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres 
raparigas dos arredores frequentavam-nos, já por 
encontrar nisso um sinal de superioridade intelectu-
al sobre os seus iguais, já por procurarem, em outra 
casa religiosa que não a tradicional, lenitivo para 
suas pobres almas alanceadas, além das dores que 
seguem toda e qualquer existência humana.
E reflete sobre a nova seita:
Era Shays Quick ou Quick Shays daquela raça curio-
sa de yankees fundadores de novas seitas cristãs. 
De quando em quando, um cidadão protestante 
dessa raça que deseja a felicidade de nós outros, 
na terra e no céu, à luz de uma sua interpretação de 
um ou mais versículos da Bíblia, funda uma novíssi-
ma seita, põe-se a propagá-la e logo encontra dedi-
cados adeptos, os quais não sabem muito bem por 
que foram para tal novíssima religiãozinha e qual a 
diferença que há entre esta e a de que vieram.
Personagens
 Marrameque 
Poeta modesto, semiparalisado, que frequen-
tara uma pequena roda de boêmios e literatos, dizia 
ter conhecido Paula Nei e ser amigo pessoal de Luís 
Murat.
 Clara, a “natureza elementar”
Tinha 17 anos, era ingênua e fora criada “com 
muito desvelo, recato e carinho; e, a não ser com a 
mãe ou pai, só saía com dona Margarida, uma viúva 
muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava à 
Clara bordados e costuras”. Clara era a segunda filha 
do casal, “o único filho sobrevivente… Os demais… 
Haviam morrido”.
 Cassi, o corruptor 
Por intermédio de Lafões, o carteiro Joaquim 
passa a receber em casa o pretendente de Clara, Cassi 
Jones de Azevedo, que pertencia a uma posição social 
melhor.
42
 Joaquim dos Anjos 
Joaquim é um carteiro que achava ser músico. 
Escreveu algumas valsas, tangos e polcas.
 Dona Engrácia
Era católica romana e trazia seus filhos para a 
mesma religião. Caracterizava-se por ser caseira, com 
uma boa dose de insegurança e rudeza.
 Calado 
Músico e compositor brasileiro.
 Patápio Silva 
Uma polca sua – “Siri sem unha“ – e uma val-
sa – “Mágoas do coração“ – tiveram algum sucesso, 
a ponto de vender a propriedade de cada uma, por 50 
mil-réis, a uma casa de música e piano da Rua Ouvidor.
 João Pintor 
Era um cidadão que visitava “os bíblias“, aque-
les que pregavam o evangelho. Um preto retinto, gros-
sos lábios, malares proeminentes, testa curta, dentes 
muito bons e muitos claros, longos braços, manoplas 
enormes, longas pernas e uns tais pés que não havia 
calçado.
 Mr. Shays
É um homem cheio de eloquência bíblica, che-
fiava uma seita e fazia seus adeptos ouvirem a palavra. 
Quando os adeptos sentem-se preparados, põem-se a 
propagá-la.
 Eduardo Lafões
Era um homem simplório, que vivia em círculos 
limitados, habituado a ver o valor dos homens nas rou-
pas e no parentesco, gostava de assuntos de comércio. 
Frequentava, aos domingos, a casa de Joaquim para 
jogar o solo.
 Manuel Borges de Azevedo e 
Salustiana Baeta de Azevedo
São os pais de Cassi. O pai não gostava dos 
procedimentos do filho, enquanto a mãe cobria-lhe as 
desfeitas com as proteções.
 Dona Margarida Weber Pestana 
Dona de uma pensão, Margarida é uma senho-
ra viúva e corajosa. Ela é mãe de Ezequiel. No Brasil, 
casou-se com um tipógrafo, que morreu dois anos após 
o casamento. 
 Dona Laurentina Jácone
Figura que gostava de rezar e ficar cuidando 
das questões da paróquia e da igreja.
 Dona Vicêntina 
O seu procedimento era inatacável e exercia a 
sua profissão de cartomante com toda a seriedade e 
convicção.
 Praxedes Maria dos Santos
Foi um dos convidados de Joaquim. Era um ho-
mem bom. Ele gostava de ser tratado por doutor Pra-
xedes.
 Etelvina
Etelvina é colega de Clara. Um crioula que no-
tou a impaciência de Clara, quando Cassi ainda não 
chegou à festa.
 Leonardo Flores
O grande poeta.
 Velho Valentim
Um dos portugueses da história. 
 Barcelos 
Figura na história de um português fichado na 
detenção.
 Arnaldo
Arnaldo é um colega do grupo dos Valdevino 
(grupo de desocupados da turma de Cassi).
 Menezes
É o dentista da família, que atua como um inter-
mediário entre as cartas e bilhetes de Cassi para Clara. 
 Senhor Monção 
Um caixeiro vendedor; Belmiro Bernedes & Cia. 
– “tocava realejo“, era um moço português simpático, 
educado e de bom porte.
 Dona Castolina 
É a esposa de Menezes.
 Helena
Tia de Marramaque, econômica, prendada, cos-
turava para o arsenal do governo.
 Leopoldo
Era marinheiro. Cedo, saiu do seio da família 
para melhorar de vida. Há 30 anos, não via a família.
43
A crítica
Lima Barreto claramente não gostava da influência dos 
EUA no Brasil, especialmente critica as “novas seitas 
cristãs”. 
Como colocou Antônio Arnoni Prado sobre o 
tom profético:
O autor de Clara dos Anjos interessou-se pelos Es-
tados Unidos, em virtude do tratamento desuma-
no que este país dispensava aos seus cidadãos de 
cor. (...) Censurou duramente a discriminação racial 
estadunidense, assim como o expansionismo impe-
rialista dos yankees, que, através da diplomacia do 
dólar, ia, a seu ver, convertendo o Brasil num autên-
tico protetorado.
Clara é uma mulata pobre, que vive no subúrbio 
carioca com seus pais, Joaquim e Engrácia, mulher “se-
dentária e caseira”. Joaquim era carteiro, “gostava de 
violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instru-
mento que já foi muito estimado em outras épocas, não 
o sendo atualmente como outrora”. Também “compu-
nha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas”. 
Além da música, a outra diversão do pai de Clara era 
passar as tardes de domingo jogando solo com seus 
dois amigos: o compadre Marramaque e o português 
Eduardo Lafões, um guarda de obras públicas.
Clara engravida e Cassi Jones desaparece. Con-
vencida pela vizinha, dona Margarida, que procurara 
na tentativa de conseguir um empréstimo e fazer um 
aborto, ela confessa o que está acontecendo à sua 
mãe. É levada a procurar a família de Cassi e pedir 
“reparação do dano”. A mãe do rapaz humilha Clara, 
mostrando-se profundamente ofendida porque uma 
negra quer se casar com seu filho. Clara “agora é que 
tinha a noção exata da sua situação na sociedade. 
Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus 
melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do 
seu algoz, para se convencer de que ela não era uma 
moça como as outras; era muito menos no conceito de 
todos”.
O autor representa,na figura de Clara e no seu 
drama, a condição social da mulher, pobre e negra, ge-
ração após geração. No final do romance, consciente e 
lúcida, Clara reflete sobre a sua situação:
O que era preciso, tanto a ela como às suas iguais, 
era educar o caráter, revestir-se de vontade, como 
possuía essa varonil dona Margarida, para se de-
fender de Cassi e semelhantes, e bater-se contra to-
dos os que se opusessem, por este ou aquele modo, 
contra a elevação dela, social e moralmente. Nada 
a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a 
covardia com que elas o admitiam...
No final do livro, especialmente na cena final, 
ao relatar o que se passara na casa da família de Cassi 
Jones para a sua mãe, conclui, em desespero, como se 
falasse em nome dela, da mãe e de todas as mulheres 
em iguais condições: “— Nós não somos nada nesta 
vida”.
44
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
 3. (UFU) 
— Mamãe, Mamãe! 
— Que é minha filha? 
— Nós não somos nada nesta vida. 
Todos os Santos – Rio de Janeiro – Dezembro 
de 1921-janeiro de 1922. 
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. 
Tecnoprint/Ediouro, s/d, p. 77. 
De acordo com o trecho acima, assinale a al-
ternativa correta. 
a) O diálogo entre dona Engrácia e sua filha 
Clara simboliza de forma alegórica a desu-
manização da mulher negra e pobre, numa 
sociedade regida por D. Pedro I, mas mani-
pulada por uma elite branca preconceituosa. 
b) Este pequeno diálogo pode ser considerado 
uma metáfora de uma classe social típica da 
primeira república: indivíduos escravos, sem 
perspectiva de ascensão econômica, os quais 
lutavam pela assinatura da lei Áurea. 
c) O diálogo entre Clara e sua mãe, Engrácia, 
que aparece ao final do romance Clara dos 
Anjos, publicado em plena monarquia, sim-
boliza a falta de perspectiva da mulher ne-
gra, analfabeta e pobre. 
d) Este pequeno diálogo, que fecha o final do 
romance Clara dos Anjos, pode ser conside-
rado uma metáfora do sofrimento de uma 
classe social que, mesmo com a assinatura 
da lei Áurea, continuava estigmatizada etni-
camente. 
 4. (UEPB) Considere as afirmações: 
I. Os pensamentos de Clara revelam as difi-
culdades da mulher em geral, negra em 
particular, nas últimas décadas do século 
XIX e primeiras décadas do século XX, em 
ter seus direitos assegurados num país que 
se transforma mas ainda mantém velhas 
estruturas oligárquicas de exclusão: “Ela 
devia ter aprendido da boca dos seus pais 
que a sua honestidade de moça e de mu-
lher tinha todos por inimigos”. 
II. As trajetórias de Cassi e Clara demonstram 
ao longo do romance como, a despeito de 
serem ambos da pequena burguesia sem 
posses, as relações sociais não deixaram de 
ser ainda fortemente racializadas: “Ora, 
uma mulatinha, filha de um carteiro!”. 
III. Em Clara dos Anjos, em meio a seus muitos 
tipos humanos, aparecem na narrativa per-
sonagens nos quais sobressai uma espécie 
de força moral incorruptível, humana e so-
lidária, como dona Margarida: “O que era 
preciso, tanto a ela como as suas iguais, era 
educar o caráter, revestir-se de vontade, 
como possuía essa varonil dona Margarida, 
para se defender de Cassi e semelhantes, e 
bater-se contra todos os que se opusessem, 
por este ou aquele modo, contra a elevação 
dela, social e moralmente”. 
 1. (UFU) Texto I
O único personagem feminino que escapa 
ao estereótipo de “coisa amorfa e pastosa” 
nesse romance (Clara dos Anjos) é dona Mar-
garida, uma forte e voluntariosa senhora 
alemã, de olhos azuis e “traços enérgicos”. 
MICHELETTI, Guaraciaba. Contra o racismo e a 
injustiça. In: BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. 
Rio de Janeiro: Ática, 2011, p. 10. 
Texto II 
A mórbida ternura da mãe por ele, a que não 
eram estranhas as suas vaidades pessoais, 
junto à indiferença desdenhosa do pai, com o 
tempo, fizeram de Cassi o tipo mais completo 
de vagabundo doméstico que se pode imagi-
nar. É um tipo bem brasileiro. Se já era egoís-
ta, triplicou de egoísmo. Na vida, ele só via o 
seu prazer, se esse prazer era o mais imediato 
possível. Nenhuma consideração de amizade, 
de respeito pela dor dos outros, pela desgraça 
dos semelhantes, de ditame moral o detinha, 
quando procurava uma satisfação qualquer. 
Só se detinha diante da força, da decisão de 
um revólver empunhado com decisão. 
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. 
São Paulo: Ática, 2011, p. 35. 
Com base nos textos, faça o que se pede. 
a) Dona Engrácia, esposa de Joaquim dos Anjos 
e mãe de Clara, encaixa-se na definição do 
texto I. Apresente, em um parágrafo, as ca-
racterísticas de dona Engrácia que revelam, 
no contexto da obra, que ela é “coisa amorfa 
e pastosa”. 
b) Para além da condição de progenitora, dona 
Salustiana, mãe de Cassi Jones, protegia-o 
de forma desmesurada, com grande intensi-
dade. A partir da leitura do texto II, expli-
que, em um parágrafo, os planos e objetivos 
de dona Salustiana para defender o filho dos 
crimes que este cometia. 
 2. (UFU) Uma dúvida lhe veio, ele era branco; 
ela mulata. Mas, que tinha isto? Havia tantos 
casos... Lembra-se de alguns... E ela estava 
tão convencida de haver uma paixão sincera 
no valdevinos, que, ao fazer esse inquéri-
to, já recolhida, ofegava, chorava, e os seus 
seios duros quase estouravam de virgindade 
e ansiedade de amar. 
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: 
Tecnoprint/Ediouro, s/d, p. 100. 
a) Elabore um texto explicando quais as conse-
quências advindas do rápido romance entre 
a ingênua Clara dos Anjos e o conquistador 
Cassi Jones, em pleno Rio de Janeiro do sé-
culo XIX. 
b) Elabore um texto explicando os motivos da 
reação negativa de dona Salustiana, mãe de 
Cassi Jones, quando Clara dos Anjos a visi-
tou acompanhada de dona Margarida. 
45
a) Nenhuma está correta. 
b) Apenas II e III estão corretas. 
c) Apenas I e II estão corretas. 
d) Apenas I está correta. 
e) Todas estão corretas. 
 5. (UEPB) Considere o fragmento de Clara dos 
Anjos para responder à questão. 
A educação que recebera, de mimos e vigi-
lâncias, era errônea. Ela devia ter aprendido 
da boca dos seus pais que a sua honestidade 
de moça e de mulher tinha todos por inimi-
go, mas isto ao vivo, com exemplos, clara-
mente... O bonde vinha cheio. Olhou todos 
aqueles homens e mulheres... Não haveria 
um talvez, entre toda aquela gente de am-
bos os sexos, que não fosse indiferente à sua 
desgraça... Ora, uma mulatinha, filha de um 
carteiro! O que era preciso, tanto a ela como 
as suas iguais, era educar o caráter, revestir-
-se de vontade, como possuía essa varonil D. 
Margarida, para se defender de Cassis e se-
melhantes, e bater-se contra todos os que se 
opusessem, por este ou aquele modo, contra 
a elevação dela, social e moralmente. Nada 
a fazia inferior às outras, senão o conceito 
geral e a covardia com que elas o admitiam... 
Chegaram em casa; Joaquim ainda não tinha 
vindo. D. Margarida relatou a entrevista, por 
entre o choro e os soluços da filha e da mãe. 
Num dado momento, Clara ergueu-se da 
cadeira em que se sentara e abraçou muito 
fortemente a mãe, dizendo, com um grande 
acento de desespero: 
— Mamãe! Mamãe! 
— Que é minha filha?
— Nós não somos nada nesta vida. 
Assinale a alternativa correia. 
a) Clara dos Anjos é ambientado em uma cida-
de imaginária, na qual a estrutura agrária 
do Brasil colonial e de suas relações sociais 
tradicionais não permitia casamentos entre 
brancos e negros. 
b) Em Clara dos Anjos e em suas principais 
obras, a linguagem de Lima Barreto é o por-
tuguês parnasiano, no qual o trabalho retó-
rico com a linguagem tinha prioridade sobre 
sua comunicabilidade. 
c) O romance Clara dos Anjos é narrado em ter-
ceira pessoa por um narrador que emite opi-
niões e juízos de valor sobre as personagens 
e as cenas que narra. 
d) Os personagens de Clara dos Anjos são po-
bres que, à força de viverem em uma socie-
dade de privilégios, sucumbem, sem exce-
ção, à corrupção e à miséria. 
e) Clara dos Anjosé um romance de resignação, 
que nos ensina a nos conformarmos com o 
lugar que nos é previamente reservado em 
nossa sociedade, sem lutar por condições 
humanas mais dignas nem por cidadania 
plena. 
 6. (Enem) Texto I
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza 
toda íntima não vos seria revelado por mim 
se não julgasse, e razões não tivesse para jul-
gar, que este amor assim absoluto e assim 
exagerado e partilhado por todos vos. Nós 
somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e 
iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povo-
ados, não porque soframos, com a dor e os 
desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos 
une, nivela e agremia o amor da rua. E este 
mesmo o sentimento imperturbável e indis-
solúvel, o único que, como a própria vida, 
resiste as idades e as épocas.
RIO. J. A rua. In: A alma encantadora das ruas. São 
Paulo: Companhia das Letras, 2008 (fragmento).
Texto II
A rua dava-lhe uma forca de fisionomia, 
mais consciência dela. Como se sentia estar 
no seu reino, na região em que era rainha e 
imperatriz. O olhar cobiçoso dos homens e 
o de inveja das mulheres acabavam o sen-
timento de sua personalidade, exaltavam-no 
ate. Dirigiu-se para a rua do Catete com o 
seu passo miúdo e solido. [...] No caminho 
trocou cumprimento com as raparigas pobres 
de uma casa de cômodos da vizinhança.
[...] E debaixo dos olhares maravilhados das 
pobres raparigas, ela continuou o seu ca-
minho, arrepanhando a saia, satisfeita que 
nem uma duquesa atravessando os seus do-
mínios.
BARRETO, L. Um e outro. In: Clara dos Anjos. 
Rio de Janeiro: Mérito (fragmento).
A experiência urbana e um tema recorrente 
em crônicas, contos e romances do final do 
século XIX e início do XX, muitos dos quais 
elegem a rua para explorar essa experiência. 
Nos fragmentos I e II, a rua é vista, respecti-
vamente, como lugar que: 
a) desperta sensações contraditórias e desejo 
de reconhecimento. 
b) favorece o cultivo da intimidade e a exposi-
ção dos dotes físicos. 
c) possibilita vínculos pessoais duradouros e 
encontros casuais. 
d) propicia o sentido de comunidade e a exibi-
ção pessoal. 
e) promove o anonimato e a segregação social.
46
GABARITO
 1. 
a) Dona Engrácia é uma “coisa amorfa e pas-
tosa”, pois representa o estereótipo da 
tradicional mulher brasileira do início do 
século XX: sua submissão às vontades do 
marido, sua religiosidade e seu descaso 
com os reais sentimentos da filha ilus-
tram um panorama do Brasil patriarcal.
b) Dona Salustiana temia aparentar ser uma 
mulher que era, de classe média; por esse 
motivo, temia que seu filho se envolves-
se com mulheres mais pobres ou mesmo 
trabalhasse. Para tanto, usa de sua influ-
ência e contrata advogados para que seu 
filho saia impune, mesmo que tal com-
portamento fosse antiético ou prejudicial 
para a formação do caráter do próprio fi-
lho. 
 2. 
a) Do breve romance entre Clara dos Anjos e 
Cassi Jones, ocorreram a gravidez dela, a 
qual se tornaria mãe solteira em um con-
texto social que não aceitava esse fato, 
colocando-a em situação desonrosa; o as-
sassinato do padrinho dela, Marramaque, 
personagem que tentava alertá-la a res-
peito de Cassi Jones; processo de amadu-
recimento de Clara, percebendo que sua 
condição depende da visão da sociedade 
em que vive – nitidamente vítima do de-
terminismo de meio.
b) Dona Salustiana não aceita Clara dos 
Anjos, pois a protagonista representa o 
oposto de Cassi Jones: ela é afrodescen-
dente, pertence à classe baixa da socieda-
de, reside em áreas marginais. Por esses 
motivos, dona Salustiana não aceita que 
Clara sinta-se em condições de ser repa-
rada pela situação de desonra ocasionada 
por Cassi Jones. 
3. D 4. E 5. C 6. D
L
OBRAS
C
Alguma poesia
Obras
L C
Carlos Drummond de Andrade
49
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro, em Minas Gerais, no dia 31 de outubro de 1902. 
De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio 
Anchieta de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, de onde foi expulso por “insubordinação mental“. De novo em Belo 
Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais 
do incipiente movimento modernista mineiro.
Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em Farmácia na cidade de Ouro Preto, 
em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação 
do Modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi 
chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou, depois, a trabalhar no Serviço 
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954, colaborou como cronista no 
Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.
O Modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond – Alguma poesia 
(1930) e Brejo das almas (1934) –, em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o con-
trário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecunda-
mente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por 
este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico 
e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, 
entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.
Vem daí o rigor, que beira a obsessão. O poeta trabalha sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana 
e subjetiva, no que destila do corrosivo. Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e, sobretudo, em A rosa 
do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, partici-
pando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão 
para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade 
do poeta, mantida sempre.
Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos 
Drummond de Andrade morreu na cidade do Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte 
de sua única filha, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.
50
ALGUMA POESIA
Drummond publicou Alguma poesia em 1930, numa 
edição simples, com pequena tiragem não comercial 
(apenas 500 exemplares). Uma perspectiva bem in-
dependente, intitulada Pindorama. A obra assinala a 
estreia de um autor que, então com 28 anos, iria revo-
lucionar a poesia de língua portuguesa no século XX. 
Não é para menos. Com peças como “Poema de sete 
faces”, “Infância”, “No meio do caminho”, “O sobre-
vivente”, entre tantos outros textos decisivos, o livro 
demonstra já a enorme maturidade do jovem Drum-
mond, ainda estabelecido em Belo Horizonte.
O volume apresenta 49 poesias, reunindo pro-
duções de Carlos Drummond de Andrade, de 1925 a 
1930, e está dedicado ao poeta e amigo Mário de An-
drade, que publicou, no mesmo período, Remate dos 
males, obra que viria a dar uma nova conformação à 
poética de uma das figuras mais importantes do Mo-
dernismo brasileiro.
Alguma poesia é escrito sob a efervescência da 
modernidade oriunda da Semana de Arte Moderna de 
1922. Entre outros aspectos, surge a prática do poema-
-piada, que utiliza os coloquialismos apregoados pela 
estética influenciada por Oswald de Andrade, cultiva a 
poesia do cotidiano, negando os antigos influxos par-
nasiano-simbolistas que dominaram a poesia até então.
Dois anos antes, Drummond havia causado es-
cândalo entre as hostes literárias ao publicar, na Revis-
ta de Antropofagia,o poema “No meio do caminho”. 
Era o início da carreira de escândalo do poema, recons-
truída na década de 1960 pelo próprio autor em um li-
vro que reuniria os ataques, as paródias e as contendas 
relacionadas ao poema.
Mas para além da polêmica, Alguma poesia já 
apresenta aquilo de melhor que Drummond iria ofe-
recer ao longo de quase 60 anos de uma das carrei-
ras mais fecundas da literatura moderna: o lirismo, o 
humor, o tom meditativo e irônico, a observação de-
sencantada dos fatos, o sensualismo, a reflexão aguda 
sobre o amor e a morte.
NO MEIO DO CAMINHO
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. 
São Paulo: Companhia das Letras, 2013.)
51
Características
 Prosaísmo: um tipo de escolha poética que pressupõe a adoção de processos que aproximam-se da prosa, 
como o discurso direto, a ausência de rimas, a conversa com o leitor etc.
 Versilibrismo: a ideia de verso livre, sem a preocupação formal da metrificação, em geral.
 Percepção de mundo do íntimo ao universal na perspectiva filosófica, um processo metonímico de poe-
tizar assuntos cotidianos e banais.
 Densidade e compactação na constituição da matéria poética, com linguagem dinâmica, concisa e 
irônica.
 Recriação de temas poéticos que são imagens que retratam cenas do cotidiano: retorno à infância em 
Itabira, as relações com a família, a metrópole carioca, o poeta e a capital do país.
Temas
 O indivíduo (um eu todo retorcido) – o eterno conflito entre o eu e o social
Seção que investiga a formação do poeta e sua visão acerca do mundo. Sempre lúcido, discorre com amar-
gor, pessimismo, ironia e humor o que ele, atento observador, capta de si mesmo e das coisas que o rodeiam. Alguns 
poemas sintetizam a visão do indivíduo, como o poema de abertura “Poema de sete faces“ em que designa o seu 
destino.
As sete faces correspondem a sete estrofes, apesar de configurar-se de maneira descontínua, inesperada 
e coloquial. Escrito com versos livres e com estrofes heterogêneas. Drummond é irônico na revelação do eu e do 
mundo, colocando-se como gauche (esquerdo, desajeitado), todavia seu coração transborda com humor sarcástico 
e desencantado. De maneira antilírica, sua emoção surge em secura. Observe o tom de confidência da última estrofe 
e, assim, o poema expõe o contato com um mundo fragmentário, múltiplo e caótico. 
52
O poeta gauche é um contemplador orgulhoso 
que se considera maior que o mundo num ínterim que 
se vê arrebatado pela tenacidade da realidade, pelo 
dualismo do “Eu menor que o Mundo”, o poeta sente-
-se fraco e, se titubear, em apelo a Deus questionando 
por que mesmo o abandonou. Confira o poema:
POEMA DE SETE FACES
Quando nasci, um anjo torto 
desses que vivem na sombra 
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. 
As casas espiam os homens 
que correm atrás de mulheres. 
A tarde talvez fosse azul, 
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas: 
pernas brancas pretas amarelas. 
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu 
 [coração. 
Porém meus olhos 
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode 
é sério, simples e forte. 
Quase não conversa. 
Tem poucos, raros amigos 
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste 
se sabias que eu não era Deus 
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo, 
se eu me chamasse Raimundo 
seria uma rima, não seria uma solução. 
Mundo mundo vasto mundo, 
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer 
mas essa lua 
mas esse conhaque 
botam a gente comovido como o diabo. 
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. 
São Paulo: Companhia das Letras, 2013.)
 A terra natal, Itabira – saudades e vivências
 A família (a família que me dei) em Itabira 
e as vivências íntimas de menino
Uma das constantes temáticas de Drummond, 
presente desde Alguma poesia até seus versos finais, 
é a família, sua vivência interiorana em Minas Gerais, 
a paisagem que marca sua memória. Contrariando o 
lugar-comum, ao invés de se referir à família como algo 
que lhe foi atribuído por Deus, o poeta coloca um “que 
me dei“ e analisa suas relações pessoais, consciente de 
que se assentam na perspectiva pessoal. De modo mui-
to individual, retrata o escoar do tempo, como é possí-
vel observar em “Infância“, “Família“, “Sesta“, alguns 
dos mais significativos poemas de Alguma poesia.
INFÂNCIA
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se 
 [esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
— Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a do Robinson Crusoé.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. 
São Paulo: Companhia das Letras, 2013.)
 Amigos – homenagem aos amigos reais ou 
intelectuais
53
 O choque social e a evolução humana – a 
violência humana
Drummond constrói poemas em que contempla 
a mudança dos tempos, o progresso chegando e inva-
dindo a antiga paisagem, como em “A rua diferente“ 
ou “Sobrevivente“. Ele acaba tendo nesta temática a 
produção de um tipo de poema que passa a ser uma 
das mais emblemáticas de nossa literatura.
A RUA DIFERENTE
Na minha rua estão cortando árvores
botando trilhos
construindo casas.
Minha rua acordou mudada.
Os vizinhos não se conformam.
Eles não sabem que a vida
tem dessas exigências brutas.
Só minha filha goza o espetáculo
e se diverte com os andaimes,
a luz da solda autógena
e o cimento escorrendo nas formas.
 O conhecimento amoroso (amar-amaro) – 
o amor altruísta (como só ele poderia existir)
Com o jogo de palavras “amar-amaro“, títu-
lo emprestado de um poema do livro Lição de coisas, 
o poeta acrescenta ao substantivo “amar“ o adjetivo 
“amargo“, sentimento recorrente em alguns de seus 
poemas e livros escritos posteriormente. Em Alguma po-
esia, o tema é tratado com boas doses de humor, sátira 
ou pitadas de idealismo, como em “Toada do amor“, 
“Sentimental“, “Quero me casar“, “Quadrilha“.
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que 
 [amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o 
 [convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para 
 [tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto 
 [Fernandes
que não tinha entrado na história. 
 Paisagem e viagens – um grupo de poesias 
faz anotações sobre viagens, retratando paisa-
gens vistas e vividas, mas também recuperando 
as influências recebidas da sempre subservien-
te postura brasileira ante as supercivilizações, 
como em “Lanterna mágica“, “Europa, França 
e Bahia“.
“Lanterna Mágica” é, na verdade, um conjun-
to de pequenos poemas numerados que Drummond 
incluiu no seu primeiro livro, Alguma poesia. São oito 
poemas ao todo, sendo cinco deles sobre cidades mi-
neiras, um sobre Nova Friburgo (RJ), um sobre o Rio de 
Janeiro e outro sobre a Bahia. A expressão “lanterna 
mágica” sugere a projeção de imagens coloridas, de 
slides com cartões postais projetáveis na parede, mos-
trando imagens de pontos turísticos do mundo inteiro.
LANTERNA MÁGICA
Belo Horizonte
Meus olhos têm melancolias
minha boca tem rugas.
Velha cidade!
As árvores são repetidas.
Debaixo de cada árvore faço minha cama,
em cada ramo dependuro meu paletó.
Lirismo.
Pelosjardins Versailles
ingenuidade de velocípedes.
E o velho fraque
na casinha de alpendre com duas janelas 
 [dolorosas
 A própria poesia – metalinguagem
 Exercícios lúdicos – a consequência do amar 
e desamar
 Uma visão, ou tentativa da existência – o 
estar no mundo
54
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
 4. (Fuvest) 
POLÍTICA LITERÁRIA
O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.
(Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia)
ANEDOTA BÚLGARA
Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam 
 [borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.
(Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia)
Costuma-se reconhecer que estes poemas, 
pertencentes ao Modernismo, apresentam 
aspectos característicos do “poema-piada“, 
modalidade bastante praticada nesse período 
literário.
a) Identifique um recurso de estilo tipicamente 
modernista que esteja presente em ambos os 
poemas. Explique-o sucintamente.
Considere a seguinte afirmação:
O poema-piada visa a um humorismo instan-
tâneo e, por isso, esgota-se em si mesmo, não 
indo além desse objetivo imediato.
b) A afirmação aplica-se aos poemas aqui repro-
duzidos? Justifique brevemente sua resposta. 
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS DUAS QUESTÕES
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do 
 [caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. 
In: Reunião: 10 livros de poesia. 
Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.)
 5. (PUC-SP) As alternativas a seguir destacam 
recursos de linguagem que dão expressividade 
ao texto em questão. Contudo, uma delas se 
constitui em vício de linguagem. Indique-a. 
a) Quiasmo ou ordenação cruzada, presente em 
“No meio do caminho tinha uma pedra/ ti-
nha uma pedra no meio do caminho.“
b) Metáfora, expressa nas palavras “caminho e 
pedra“
 1. (PUC-MG) Todas as alternativas abaixo, so-
bre o “Poema de sete faces“, de Alguma poe-
sia, são verdadeiras, exceto: 
a) Cada uma das sete estrofes do poema repre-
senta uma das faces mencionadas no título.
b) A presença e a ausência de rimas no poema 
podem significar ruptura com as estéticas 
literárias anteriores.
c) A inexistência de pontuação entre alguns de 
seus versos pode estar ligada à liberdade de 
expressão modernista.
d) Foi o primeiro poema escrito por Carlos 
Drummond de Andrade, razão pela qual abre 
o livro.
 2. (PUC-MG) Entre os grupos de versos que se 
seguem, de Alguma poesia, marque aquele 
no qual o tema não foi abordado de modo 
prosaico. 
a) Me abraçou com tanto amor
 me apertou com tanto fogo
 me beijou, me consolou.
b) Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
 Minha mãe ficava sentada cosendo.
 Meu irmão pequeno dormia.
c) O homem disse para o amigo:
 — Breve irei a tua casa
 e levarei minha mulher.
d) Um silvo breve: Atenção, siga.
 Dois silvos breves: Pare.
 Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna.
 Um silvo longo: Diminua a marcha.
 Um silvo longo e breve: Motoristas a postos.
 (A este sinal todos os motoristas tomam 
lugar nos seus veículos para movimentá-los 
imediatamente.)
 3. (PUC-MG) Leia os versos abaixo, parte do 
“Poema de sete faces“, de Alguma poesia.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Se considerarmos que Tomás Antônio Gon-
zaga é autor do verso “Eu tenho um coração 
maior que o mundo“, podemos afirmar que, 
nos dois versos de Drummond acima trans-
critos, existe: 
a) mera cópia do verso de Tomás Antônio Gon-
zaga.
b) plágio visível do verso de Tomás Antônio 
Gonzaga.
c) intertextualidade flagrante com o verso de 
Tomás Antônio Gonzaga.
d) apropriação indevida do verso de Tomás An-
tônio Gonzaga.
55
c) Hipérbato, em “No meio do caminho tinha 
uma pedra“
d) Anáfora, em “Nunca me esquecerei“
e) Solecismo, em “Tinha uma pedra no meio do 
caminho.“
 6. (PUC-SP) O texto suscitou, desde sua pu-
blicação em 1930, muita polêmica na lite-
ratura brasileira, provocando adesões e re-
pulsas entusiásticas. É, contudo, um texto 
com posição marcada na produção de Carlos 
Drummond de Andrade. Da leitura dele po-
de-se entender que: 
a) não chega a ser propriamente um poema, 
porque um simples jogo verbal e lúdico não 
faz despertar vibrações intelectuais de poe-
sia.
b) é um texto de forma aparentemente simples, 
mas o esquema de repetição, aí, quase abso-
luta, o descarta do universo poético.
c) faz uso irreverente de modismos da lingua-
gem coloquial, marca-se pela repetição, e re-
vela, como poema, consciência da realidade 
linguística brasileira.
d) o uso do verbo “ter“ por “haver“ constitui 
um erro gramatical e impede o texto de rea-
lizar-se como poema.
e) a estrutura prosaica da composição e a au-
sência de recursos imagéticos prejudicam a 
organização poética do texto.
GABARITO
1. A 2. C 3. D
 4. 
a) Ambos os poemas são compostos em ver-
sos denominados “livres“, pois não obe-
decem às convenções da métrica tradicio-
nal, isossilábica (isto é, na qual os versos 
“medem“ o mesmo número de sílabas). 
Em ambos os poemas, o registro de lin-
guagem é coloquial, ou seja, próprio da 
conversação, despido dos traços retóricos 
que caracterizam o discurso de registro 
formal, típico da tradição literária de que 
o Modernismo de então procurava afas-
tar-se. Em ambos os poemas, o humor 
(outro ingrediente de predileção moder-
nista) é essencial ao efeito crítico e não 
compromete sua gravidade.
b) Nos dois poemas, o humorismo é instru-
mento de crítica, de “crítica de vida“: em 
“Política literária“, trata-se da vida cul-
tural, suas relações com o poder e suas 
hierarquias espúrias; em “Anedota búlga-
ra“, trata-se da opressão política. 
5. E 6. C
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ia�
L
OBRAS
C
Quarenta dias
Obras
L C
Maria Valéria Rezende
59
MARIA VALÉRIA REZENDE
Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, na cidade de Santos (SP), onde viveu até aos 18 anos. Vive na Paraíba 
desde 1976, tendo já recebido o título de cidadania paraibana.
Formada em Língua e Literatura Francesas, Pedagogia e com mestrado em Sociologia, dedica-se, desde 
os anos 1960, à educação popular, em diferentes regiões do Brasil e no exterior, tendo trabalhado em todos os 
continentes.
Desde 2004, participa do Clube do Conto da Paraíba. O seu romance O voo da guará vermelha foi publica-
do em Portugal, França e na Espanha. Escreve ficção, poesia e é também tradutora. Além disso, é ainda ativista e 
participa do Movimento Mulherio das Letras.
Ganhou um Prêmio Jabuti em 2009, categoria infantil, com a obra No risco do caracol e, em 2013, na ca-
tegoria juvenil, outro Jabuti com o romance Ouro dentro da cabeça. Os Jabutis para melhor romance e o livro do 
ano de ficção chegaram em 2015, com o romance Quarenta dias. O seu último romance, Outros cantos (2016), é 
o vencedor do Prêmio Casa de Las Américas (Cuba, 2017), do Prêmio São Paulo de Literatura e do terceiro lugar 
no Prêmio Jabuti 2017.
A literatura de Maria Valéria também é marcada por uma opção preferencial pelos pobres, sobre gente que 
nem sequer sabe ler e escrever. 
“Eu não entendo nada de rico e também não acho que eles precisam ser mostrados.”
 “Chega uma hora em que não quero mais saber dos sofrimentos íntimos de um jovem jornalista frus-
trado porque não consegue terminar um romance sobre um jovem jornalista que quer ser escritor.”
QUARENTA DIAS
“Quarenta dias no deserto, quarenta anos” é o que diz (ou escreve) Alice, a narradora de Quarenta dias, romance magistral de 
Maria Valéria Rezende, ao anotar num caderno escolar pautado, com a imagem da boneca Barbie na capa, seu mergulho gra-
dual em dias de desespero, perdida numa periferia empobrecida que ela não conhece, à procurade um rapaz que ela não sabe 
ao certo se existe. Alice é uma professora aposentada, que mantinha uma vida pacata em João Pessoa até ser obrigada pela 
60
filha a deixar tudo para trás e se mudar para Porto Alegre. 
Mas uma reviravolta familiar a deixa abandonada à própria 
sorte, numa cidade que lhe é estranha, e impossibilitada de 
voltar ao antigo lar.
Ao saber que Cícero Araújo, filho de uma conhecida 
da Paraíba, desapareceu em algum lugar dali, ela se lança 
numa busca frenética, que a levará às raias da insanidade. 
“Eu não contava mais horas nem dias”, escreve Alice em 
Quarenta dias, um relato emocional e profundo. “Guiavam-
-me o amanhecer e o entardecer, a chuva, o frio, o sol, a 
fome que se resolvia com qualquer coisa, não mais de dez 
reais por dia (...). Onde andaria o filho de Socorro?, a que 
bando estranho se havia juntado, em que praça ficara es-
quecido?”.
Quarenta dias conta a história da paraibana Ali-
ce, professora, que após muita insistência de sua filha, 
troca João Pessoa por Porto Alegre, para ajudar a filha 
na futura gravidez. Alice depara-se com uma cidade 
com costumes diferentes e diferente linguajar, onde os 
nordestinos parecem restritos à periferia da cidade. 
Alice, sozinha em Porto Alegre, lança-se sem 
rumo pela cidade a fim de descobrir o paradeiro de Cíce-
ro Araújo, filho de uma conhecida da Paraíba. Dormindo 
em parques, em hospitais, rodoviárias com um motivo 
(ou não) para encontrar o filho de uma amiga pernam-
bucana. Os encontros e aprendizados com as pessoas 
do lugar é o que impulsiona Alice a viver essa provação. 
A solidão, falta de ação, solidariedade, angus-
tia. Uma denúncia ambulante quanto ao racismo e ao 
preconceito. ”Barbie” é o ponto de desabafos de Alice, 
em seu caderninho infantil de anotações, ela luta com 
a relação com a filha, o genro e sua vida de ”cinza” 
em que foi forçada a viver devido a tanta pressão dos 
familiares. Quando Alice abre a porta e sai sem destino 
por uma cidade até então desconhecida, suas vivências 
permitem uma aventura nas ruas frias e desertas de 
Porto Alegre.
“E aqui estou vomitando nestas páginas amareladas 
os primeiros garranchos com que vou enchê-las até 
botar tudo para fora e esconjurar toda essa gente que 
tomou conta de mim e grita e anda para lá e para cá 
e chora e xinga e gargalha e geme e mija e sorri e 
caga e fede e arenga e escarra e morre e ressuscita 
sem parar Ave-Maria! Quanto nome feio acabei de 
escrever!, eu que nunca fui disso! Nem me importa, 
ninguém vai ler essa...”
“Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a úni-
ca maneira de voltar inteiramente, se é que ainda dá 
para fazer meia-volta-volver.”
“Já enchi páginas e não achei o começo. Deixe de em-
bromar, Alice, confesse que o broto desse espinheiro 
que cresceu dentro de você foi a revelação do egoís-
mo da sua filha.”
“Em resumo, o certo para ela é que eu, afinal, já tinha 
chegado ao fim da minha vida própria, agora o que me 
restava era reduzir-me a avó.
Eu, de cara, disse não, eu não queria me mudar pra 
Porto Alegre, aquele frio danado!, nem era preciso, que 
hoje a moda é todo mundo botar a pobre da criança 
presa numa creche assim que desmama, eu não havia 
de largar pra trás tudo o que custei tanto a conquistar, 
meus velhos amigos, os alunos que se tornavam novos 
amigos, a praia, o Atlântico todinho na minha frente, 
planos de viagens e atividades que tinha tido que adiar 
até então, mas ainda em tempo de realizar, a vida que 
eu considerva feliz, apesar das cicatrizes.
Foi pelas cicatrizes que ela me pegou e não me largou 
mais, chantageando: por minha culpa ela tinha cres-
cido praticamente sozinha, eu me ausentava, só pen-
sando em trabalhar pra esquecer a tragédia da minha 
juventude, ela não tinha culpa de nada, fui eu que nem 
tive coragem de recomeçar a vida, de lhe dar um novo 
pai, que ela, a bem-dizer, nunca teve nenhum, não lhe 
dei irmãos, eu nem imaginava como doía ver Umberto, 
eufórico, assando churrasco com sua enorme família 
gaúcha, o bando de irmãos que ele tinha, os sobrinhos, 
os pais, um casal feliz e realizado, recebendo todos de 
braços abertos, inclusive a ela, mas não era a mesma 
coisa, não eram do mesmo sangue (...)”
61
Linguagem
A personagem de Alice depara-se com uma cidade 
com costumes diferentes e diferente linguajar, onde os 
nordestinos parecem restritos à periferia da cidade. A 
modalidade discursiva se mostra algo importante na 
obra, uma vez que as diferenças regionais se estabe-
lecem para além da perspectiva meramente vinculada 
ao léxico, mas que subscrevem aspectos fundamental-
mente sociais. A voz dos sujeitos marginalizados ecoa 
na literatura de Quarenta dias a partir da periferia, dos 
próprios lugares de fala, constituindo o sujeito empo-
derado do seu discurso que tem a autonomia devida 
para falar da realidade vivenciada.
“O texto foi escrito de maneira cuidadosamente des-
cuidada. “Inventei” a história, que não tem nada de 
autobiográfico, e fui para Porto Alegre “testá-la”, 
fazendo em parte o que a personagem faria. Escrevi 
tudo depois que voltei pra casa”. 
(Maria Valéria Rezende)
Intertextualidade
Durante os quarenta dias, a personagem vivencia in-
tensamente, na busca por Cícero, as mais diversas 
experiências na descoberta de um mundo que, apesar 
de tão perto, lhe parecia tão longe, repleto de coisas 
desconhecidas. 
Assim como a ”Alice no País das Maravilhas”, 
de Lewis Carrol, que adentra no Wonderland pela 
curiosidade despertada pelo coelho, e ao cair no bura-
co depara-se com um mundo mágico, repleto de seres 
fantásticos, distantes de sua realidade. Porém, o mun-
do que Alice da obra Quarenta dias se refere é deveras 
diferente. A linguagem leva o leitor a uma viagem ári-
da a um mundo para ela desconhecido, o mundo dos 
grandes centros suburbanos, desbravando espaços que 
não lhes eram comuns, em situações inimagináveis.
Tempo e espaço
O nome do título refere-se aos 40 dias que Alice passa-
rá em Porto Alegre, migrando de uma vida nordestina 
para um ambiente sem conhecidos e amigos, no qual 
o consumismo, o comodismo tentam sua vida vazia, 
uma antítese aos 40 dias que Jesus passa no deserto, 
tentado pelo diabo com coisas materiais.
A narradora divide a cidade em duas partes 
(a superfície e as rachaduras), as brechas da cidade. 
A superfície corresponde aos bairros nobres, ao passo 
que as rachaduras da cidade representam as periferias, 
as localidades à marginalizadas. Ao findar sua jornada 
(quarenta dias) por Porto Alegre.
Alice escreve em seu caderno de Barbie (diário): 
“Continuei por semanas minha romaria pelo 
avesso da cidade, explorando livremente todas 
as brechas, quase invisíveis para quem vive na 
superfície”. 
62
Gênero e foco narrativo
O gênero da obra analisada é um ”diário”, onde desa-
bafos de uma mulher comum que tem sua vida virada 
de cabeça para baixo por acontecimentos e é pegando 
um lápis e escrevendo na ”Barbie” que ela consegue 
entender o que se passa na sua vida.
O aspecto específico do gênero leva em con-
sideração quesitos como a primeira pessoa (instância 
narrativa), relato pessoal (intimismo) e a metalingua-
gem em que o suporte papel passa a interlocutor do 
emissor. 
O tom confessional da narrativa é propício para 
esse sentimento. Em um caderno velho, com a Barbie 
na capa, Alice despeja suas memórias, especialmente 
as mais recentes, desde sua mudança a contragosto 
para o sul. 
Esta escolha técnica torna possível refletir como 
a memória é construída na obra Quarenta dias sob a 
perspectiva da configuração da cidade e da represen-
tação da violência. 
Personagens
 Alice: personagem narradora, nasceu em Boi 
Velho (Paraíba), tem cerca de 60 anos, viúva de 
um desaparecido político e professora de línguas. 
 Aldenora/Norinha: é filha única de Alice, pos-
sui 33 anos, faz doutorado na Ufrgs, em Porto 
Alegre (primeira fase do curso), é egoísta e mi-
mada. Obrigaa mãe a se mudar de João Pes-
soa para Porto Alegre para cuidar do filho que 
pretendem ter.
 Umberto: é marido de Norinha, 35 anos, faz 
doutorado na Ufrgs, em Porto Alegre (já defen-
dendo a tese)
 Aldenor: marido de Alice; é um desaparecido 
político – ele aparece na história somente na 
lembrança de Alice. 
 Elizete: prima de Alice, que mora em João Pes-
soa – totalmente influenciada por Norinha; é 
contato de Alice entre a Paraíba e o Rio Grande 
do Sul.
 Milena: faxineira de Alice, assim “brasileiri-
nha” (do Nordeste do país) como a patroa. 
 Lola, Arturo, Penha, Galo e outros: pessoas 
que Alice encontra nas ruas de Porto Alegre. 
 Cícero Araújo: filho de uma manicure conhe-
cida de Alice, que morava em João Pessoa e se 
mudara para Porto Alegre, mas nunca mais ha-
via dado notícia.
63
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
seus rancores, dores e vivências ocorridas 
depois de sua mudança para Porto Alegre, 
em um caderno com a capa da Barbie. Retra-
ta várias críticas sociais. 
d) Quarenta dias foi escrito por Maria Valéria 
Rezende e relata, em forma de poesia, as di-
ficuldades vividas por Alice após sua repen-
tina mudança para Porto Alegre. 
GABARITO
1. B 2. C
 1. Sobre a autora Maria Valéria Rezende, é cor-
reto afirmar: 
a) Foi uma autora realista, que ajudou a com-
bater os ideais românticos. Suas narrativas 
eram voltadas para a análise psicológica e 
criticam à sociedade, relatando os problemas 
da época. Escreveu obras como O mulato, 
Casa de pensão e O cortiço.
b) Maria Valéria estreou na ficção em 2001, 
com o livro de contos Vasto mundo. Ganhou 
duas vezes o prêmio Jabuti, uma delas em 
2015, com o livro Quarenta dias, que relata 
as dificuldades de Alice ao se mudar para 
Porto Alegre. Em suas obras, Maria costuma 
utilizar referências das culturas eruditas e 
populares, apresentando sempre uma crítica 
a sociedade. 
c) Autora regionalista e de enorme sucesso, 
relata em suas obras a beleza do Nordeste, 
mostrando apenas a qualidade da região, 
sem se preocupar em denunciar os inúmeros 
problemas vividos pela população. Sua obra 
mais famosa foi Vidas secas. 
d) Maria Valéria lançou seu primeiro livro, 
Vasto mundo, em 2001, e desde então não 
parou mais de escrever. Publicou livros que 
fizeram muito sucesso, como Quarenta dias. 
Também escreveu obras infantis, como O voo 
da guará vermelha. Em suas obras, Maria não 
costuma utilizar referências de culturas po-
pulares e se preocupa somente em relatar 
a vida das elites brasileiras. Não é possível 
encontrar nenhuma crítica social em suas 
obras.
 2. “Engraçado é que eu tinha a impressão de, 
afinal, quase nada ver de tão estranho as-
sim, neste Sul tão longe de casa, o povo 
misturado de todas as cores, os petiscos de 
pobre, aquele tanto de negros gaúchos que 
eu nunca soube que existiam, violência e so-
lidariedade, pobreza e necessidades, iguais 
às da minha terra, a pedir milagres”.
Esse trecho foi retirado do livro Quarenta 
dias. Sobre ele é correto afirmar: 
a) Foi escrito por Maria Valéria Rezende e re-
trada a vida e as dificuldades que Alice, 
personagem principal, passou ao se mudar 
para Porto Alegre para poder reencontrar o 
sobrinho.
b) Escrito por Maria Valéria Rezende, conta so-
bre as aventuras de uma burguesa na cidade 
de Porto Alegre, junto com a sua filha Nori-
nha e seu marido Umberto. 
c) Quarenta Dias se apresenta em formato de 
diário, escrito pela personagem principal. 
Após viver uma aventura de 40 dias pelas 
ruas de Porto Alegre, Alice desabafa sobre 
L
OBRAS
C
A hora da estrela
Obras
L C
Clarice Lispector
67
CLARICE LISPECTOR
O mundo intimista e o apelo social de Clarice Lispector
Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Chegou ao Brasil em março 
de 1922, passou a infância na cidade do Recife e, em 1937, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em 
Direito.
Estreou na literatura ainda muito jovem com o romance Perto do coração selvagem (1943), que teve calo-
rosa acolhida da crítica e recebeu o Prêmio Graça Aranha.
Em 1944, recém-casada com um diplomata, viajou para Nápoles, na Itália, onde serviu num hospital durante 
os últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Depois de uma longa estada na Suíça e nos Estados Unidos, voltou a 
morar no Rio de Janeiro.
Clarice começou a colaborar na imprensa em 1942 e, ao longo de toda a vida, nunca se desvinculou to-
talmente do jornalismo. Trabalhou na Agência Nacional e nos jornais A Noite e Diário da Noite. Foi colunista do 
Correio da Manhã e realizou diversas entrevistas para a revista Manchete. A autora também foi cronista do Jornal 
do Brasil. Produzidos entre 1967 e 1973, esses textos estão reunidos no volume A descoberta do mundo.
“Os sonhos são a expressão de um desejo.” (Freud)
Entre suas obras mais importantes estão a reunião de contos em A legião estrangeira (1964) e Laços de 
família (1972) e os romances A paixão segundo G.H. (1964) e A hora da estrela (1977).
Foi internada logo depois do lançamento da obra A hora da estrela e, por causa do câncer no ovário, faleceu 
no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos e menos de dois meses depois de lançar um 
dos seus livros mais famosos.
68
Contexto histórico
A partir de 1930, o Modernismo ganhou uma nova no-
menclatura e passou a ser chamado de Neorrealismo, 
uma vez que retomava alguns aspectos do Realismo-
-Naturalismo, porém com algumas peculiaridades, 
como a questão do Nordeste brasileiro e suas mazelas, 
bem como a questão do mergulho no intimismo psico-
lógico do sujeito.
A implementação do Estado Novo do governo 
Vargas e a Primeira Guerra Mundial tiverem violenta 
influência sobre a produção literária em questão.
A realidade brasileira foi descrita e observada 
com os olhos atentos e críticos dos escritores brasilei-
ros, em que as relações entre o homem e a sociedade 
foram atreladas ao lado emocional das personagens, 
sobretudo em seus aspectos psicológicos.
A década de 1930 trouxe três fases internas ao 
momento histórico, ligadas pela lógica modernista de 
consolidação e aproximação do sujeito e da literatura: 
a fase regionalista; a fase urbana; e a fase intimista.
Destas três fases, podemos enquadrar o conto 
“Amor”, de Clarice Lispector, ao momento intimista, 
em que os autores buscaram as reverberações psico-
lógicas do sujeito, no sentido em que elas destacam a 
real situação do homem de seu tempo.
Logo, a fase intimista tem, por consequência, 
a influência das teorias psicanalíticas de Freud, bem 
como de outras correntes da psicologia. Ou seja, a in-
fluência do escritor se dá em função do mundo interior, 
também chamado de sondagem psicológica.
Terceira fase modernista: 
ficção experimental
As experimentações que acrescentaram direções novas 
ao curso literário no Brasil ganharam corpo com a pu-
blicação, em 1943, do romance Perto do coração selva-
gem, de Clarice Lispector. Nesta obra, a escritora esmiú-
ça o interior do ser humano, dando à luz a grandeza da 
vida e do significado das experiências dos seres.
Três anos mais tarde, em 1946, Guimarães Rosa 
publicou o livro de contos Sagarana, no qual as regi-
ões brasileiras dos sertões indefinidos transcendiam o 
âmbito da realidade histórica e transformavam-se em 
espaços de seres míticos.
Clarice aproximou da palavra escrita o ato de 
pensar e de narrar com grande criatividade, enquanto 
Guimarães realizou uma verdadeira alquimia verbal, 
ao fundir sua experiência pessoal à experiência coleti-
va. Os escritos de Clarice revelaram uma ficcionista de 
aguda sensibilidade, o que levaria a crítica literária ao 
espanto diante de sua obra. Perplexos também ficaram 
os críticos diante de Guimarães Rosa, cujas ousadias 
mórficas estabeleceram uma completa transformação 
linguística na literatura ao recriar o mundo sertanejo.
Características de ficção do terceiro 
tempo modernista
 Narrativas interiorizadas: fluxo da cons-
ciência – Uma das marcas mais flagrantes da 
ficçãoexperimental é a interiorização do narrar, 
o chamado fluxo da consciência. Geralmente, 
as narrativas são centradas em momentos de 
vivência interior dos personagens. Aconteci-
mentos exteriores provocaram a interioriza-
ção. É assim em A hora da estrela, na qual o 
narrador-personagem, Rodrigo S.M., conduz a 
narrativa entremeando os fatos narrados com o 
instante da sua própria história, sobretudo seus 
pensamentos e dramas psicológicos de ordem 
existencial, social e afetiva.
 Da consciência para o inconsciente – A 
consciência de uma ou mais personagens é fla-
grada e relatada numa época qualquer, em lugar 
qualquer. Assim se dá também nos romances e 
contos de Clarice Lispector: um acontecimento 
pode liberar ideais que vão até o inconsciente 
da personagem.
 Narrativas em primeira pessoa – A narra-
ção em primeira pessoa não é um mero acaso 
na ficção desse tempo. Ela proporciona ao re-
lato um intimismo inigualável, assim como lhe 
outorga verossimilhança. O narrador funciona 
como uma pessoa que confessa e o leitor ou 
ouvinte, como confidente:
Revelando-se uma “sentidora”, uma “intuiti-
va“, ressaltou em alguns depoimentos que seus livros, 
mais do que histórias, continham “impressões”, pois 
“não se preocupam com os fatos em si, porque o im-
portante é a repercussão do fato no indivíduo”.
69
A HORA DA ESTRELA 
A hora da estrela (1977) foi o último livro publicado, 
em vida, por Clarice Lispector. O narrador do romance 
é Rodrigo S.M., escritor que ironiza, por meio de con-
tínuas intrusões no texto, o estilo de narrativa que ele 
próprio utiliza.
A protagonista é Macabéa, reduzida ao apelido 
Maca, imagem irônica dos sete macabeus, persona-
gens bíblicas, “herança do sertão”, todas as formas de 
repressão cultural, o que a deixa alheada de si e da 
sociedade. Dessa forma, segundo o narrador, ela nunca 
se deu “conta de que vivia numa sociedade técnica 
onde ela era um parafuso dispensável”. Ignorava até 
mesmo por que se deslocou de Alagoas para o Rio de 
Janeiro, onde passara a viver com mais quatro colegas 
na Rua do Acre, e por que trabalhava como datilógrafa.
Seu namorado, Olímpico de Jesus, também nor-
destino, procurava a ascensão social a qualquer pre-
ço – seja roubo ou crime de morte. Ela nada possuía 
nesse sentido: vai perdê-lo, por isso, para sua colega 
Glória, que possuía os atrativos materiais que ele am-
bicionava.
Enredo 1
O narrador conta a história de Macabéa, jovem alago-
ana de 19 anos que vive no Rio de Janeiro. Órfã, mal 
se lembrava dos pais, que morreram quando ela era 
ainda criança. Foi criada por uma tia muito religiosa e 
moralista, cheia de superstições e tabus, os quais ela 
passou para a sobrinha.
Essa tia também tinha certo prazer mórbido em 
castigar Macabéa com cascudos na cabeça, muitas ve-
zes sem motivo, além de privá-la de sua única paixão: 
a goiabada com queijo na sobremesa. Assim, depois de 
uma infância miserável, sem conforto nem amor, sem 
ter tido amigos nem animais de estimação, Macabéa 
vai para a cidade grande com a tia.
Apesar de ter estudado pouco e não saber es-
crever direito, Macabéa faz um curso de datilografia e 
consegue um emprego, no qual recebe menos que o 
salário mínimo. Após a morte da tia, deixa de ir à igreja 
e passa a repartir um quarto de pensão com quatro 
balconistas de uma loja popular.
Macabéa cheirava mal, pois raramente tomava 
banho. À noite, não dormia direito por causa da tosse 
persistente, da azia – em virtude do café frio que to-
mava antes de se deitar – e da fome, que ela disfarçava 
comendo pedacinhos de papel.
A moça tinha hábitos e manias que aliviavam 
um pouco a solidão e o vazio de sua existência. Entreti-
nha-se ouvindo a Rádio Relógio num aparelho empres-
tado de uma das colegas. Essa emissora informava a 
hora certa, transmitia cultura inútil e propaganda, sem 
nenhuma música. A garota colecionava também anún-
cios de jornais e revistas, que colava num álbum. Certa 
vez, cobiçou um creme cosmético, que preferia comer 
em vez de passar na pele.
Era muito magra e pálida, pois não se alimenta-
va direito. Basicamente, vivia de cachorro-quente com 
Coca-Cola, que comia na hora do almoço, em pé, no 
balcão de uma lanchonete ou no escritório em que 
trabalhava. Não sabia o que era uma refeição quente. 
Seus luxos consistiam em pintar de vermelho as unhas, 
que roía depois, comprar uma rosa e, quando recebia 
o salário, ir ao cinema, o que a fazia desejar ser estrela 
de cinema, como Marilyn Monroe, seu grande sonho.
70
Certo dia, o chefe de Macabéa, Raimundo, 
cansado do péssimo trabalho que ela executava, com 
textos datilografados cheios de erros de ortografia e 
marcas de gordura, resolve despedi-la. A reação da 
garota, de se desculpar pelo aborrecimento causado, 
acaba desarmando Raimundo, que decide mantê-la 
por mais um tempo.
Num dia 7 de maio, Macabéa mente dizendo 
que arrancaria um dente e falta ao trabalho para poder 
aproveitar a liberdade da solidão e fazer algo diferente. 
Assim que as colegas saem para trabalhar, ela colo-
ca uma música alta, dança, toma café solúvel e até 
mesmo se dá ao luxo de se entediar. É nesse dia que 
conhece Olímpico de Jesus, único namorado que teve.
Não foi um namoro convencional. Olímpico 
também havia migrado do Nordeste, onde matara um 
homem, fugindo para o Rio de Janeiro. Conseguira em-
prego numa metalúrgica, o que dá delírios de grandeza 
em Macabéa. Afinal, ambos tinham profissão: ela era 
datilógrafa e ele, metalúrgico. 
Mau-caráter e ambicioso, Olímpico morava de 
favor no trabalho, roubava os colegas e almejava um 
dia ser deputado. O passeio dos namorados era sem-
pre seguido de chuvas e de programas gratuitos, como 
sentar-se em bancos de praça para conversar. Nessas 
ocasiões, Olímpico se irritava com as perguntas que 
Macabéa fazia, o que a levava constantemente a se 
desculpar, pois não queria perdê-lo, apesar de seus 
maus-tratos.
Certo dia, admitindo que ela nunca lhe dava 
despesa, Olímpico decide pagar um cafezinho para 
Macabéa no bar da esquina. Avisa, porém, que se o 
café com leite fosse mais caro, ela pagaria a diferença. 
Macabéa, emocionada com a ”bondade” do namora-
do, acaba enchendo o copo de açúcar para aproveitar, 
ficando enjoada depois. Em um passeio ao zoológico, 
Macabéa fica com tanto medo do rinoceronte que uri-
na na roupa e tenta disfarçar para não desagradar ao 
namorado. Um dia, vendo que só o chefe e sua colega 
de escritório, Glória, recebiam telefonemas, Macabéa 
dá uma ficha telefônica para que Olímpico ligue para 
ela. Ele se recusa, dizendo que não queria ouvir as 
”bobagens” dela.
Leia um trecho do romance
[...]
Olímpico de Jesus trabalhava de operário numa 
metalúrgica e ela nem notou que ele não se chama-
va de “operário”, e sim de “metalúrgico”. Macabéa 
ficava contente com a posição social dele porque tam-
bém tinha orgulho de ser datilógrafa, embora ganhas-
se menos que o salário mínimo. Mas ela e Olímpico 
eram alguém no mundo. “Metalúrgico e datilógrafa” 
formavam um casal de classe. A tarefa de Olímpico ti-
nha o gosto que se sente quando se fuma um cigarro 
acendendo-o do lado errado, na ponta da cortiça. O 
trabalho consistia em pegar barras de metal que vi-
nham deslizando de cima da máquina para colocá-
-las embaixo, sobre uma placa deslizante. Nunca se 
perguntara por que colocava a barra embaixo. A vida 
não lhe era má e ele até economizava um pouco de 
dinheiro: dormia de graça numa guarita em obras de 
demolição por camaradagem do vigia.
Macabéa disse:
— As boas maneiras são a melhor herança.
— Pois para mim a melhor herança é mesmo 
muito dinheiro. Mas um dia vou ser muito rico – disse 
ele que tinha uma grandeza demoníaca: a sua força 
sangrava.
Os negócio públicos interessavam Olímpico. Ele 
adorava ouvir discursos [...]. Ele dizia alto e sozinho:
— Sou muito inteligente, ainda vou ser deu-
tado.
[...]
Macabéa era na verdade uma figura medieval 
enquantoOlímpico de Jesus se julgava peça-chave, 
dessas que abrem qualquer porta. Macabéa simples-
mente não era técnica, ela era só ela. Não, não quero 
ter sentimentalismo e portanto vou cortar o coitado 
implícito dessa moça. Mas tenho que anotar que Ma-
cabéa nunca recebera uma carta em vida e o telefone 
do escritório só chamava o chefe e Glória. Ela uma vez 
pediu a Olímpico que lhe telefonasse. Ele disse:
— Telefonar para ouvir as tuas bobagens?
[...]
As poucas conversas entre os namorados ver-
savam sobre farinha, carne-de-sol, carne-seca, rapadu-
ra, melado. Pois esse era o passado de ambos e eles 
esqueciam o amargor da infância porque esta, já que 
71
passou, é sempre acre-doce e dá até nostalgia. Pare-
ciam por demais irmãos, coisa que – só agora estou 
percebendo – não dá para casar. Mas eu não sei se eles 
sabiam disso. Casariam ou não? [...]
Enfim o que fosse acontecer, aconteceria. E por 
enquanto nada acontecia, os dois não sabiam inventar 
acontecimentos. Sentavam-se no que é de graça: ban-
co de praça pública. E ali acomodados, nada os distin-
guia do resto do nada. Para a grande glória de Deus.
Ele: — Pois é.
Ela: — Pois é o quê?
Ele: — Eu só disse pois é!
Ela: — Mas “pois é” o quê?
Ele: — Melhor mudar de conversa porque você 
não me entende.
Ela: — Entender o quê?
Ele: — Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar 
de assunto e já!
Ela: — Falar então de quê?
Ele: — Por exemplo, de você.
Ela: — Eu?!
Ele: — Por que esse espanto? Você não é gen-
te? Gente fala de gente.
Ela: — Desculpe mas não acho que sou muito 
gente.
Ele: — Mas todo mundo é gente, meu Deus!
Ela: — É que não me habituei.
Ele: — Não se habituou com quê?
Ela: — Ah, não sei explicar.
Ela: — E então?
Ele: — Olhe, eu vou embora porque você é im-
possível!
Ela: — É que só sei ser impossível, não sei mais 
nada. Que é que eu faço para conseguir ser possível?
Ele: — Pare de falar porque você só diz bestei-
ra! Diga o que é do teu agrado.
Ela: — Acho que não sei dizer.
Ele: — Não sabe quê?
Ela: — Hein?
Ele: — Olhe, até estou suspirando de agonia. 
Vamos não falar em nada, está bem?
Ela: — Sim, está bem, como você quiser.
Ele: — É, você não tem solução. Quanto a mim, 
de tanto me chamarem, eu virei eu. No sertão da Para-
íba não há quem não sabia quem é Olímpico. E um dia 
o mundo todo vai saber de mim.
Ela: — É?
Ele: — Pois se eu estou dizendo! Você não 
acredita?
Ela: — Acredito sim, acredito, acredito, não que-
ro lhe ofender.
[...]
In: CAMPEDELLI, Samira Youssef; ABDALA JR., Benjamin. 
Clarice Lispector. São Paulo: Abril Educação, 1981.
Até que, após conhecer Glória, Olímpico decide 
romper com Macabéa para ficar com a sua amiga. O 
rapaz considera a troca um progresso, já que elas eram 
opostas: Glória era loira (oxigenada), cheia de corpo, 
morava numa casa confortável, tinha três refeições por 
dia e, o mais importante, seu pai era açougueiro, pro-
fissão ambicionada por Olímpico.
Após esse episódio, Macabéa vai ao médico e 
descobre que tem tuberculose, mas não entende muito 
bem a gravidade da doença. Sente-se bem só por ter 
ido ao consultório e não acha necessário comprar o 
medicamento receitado. Com dor na consciência por 
ter roubado o namorado de Macabéa, Glória a convida 
para lanchar em sua casa. Macabéa, mais uma vez, 
aproveita a oportunidade e come demais. Apesar de 
passar mal, não vomita para não desperdiçar o luxo do 
chocolate, mas sente remorsos por ter roubado uma 
rosquinha.
Finalmente, aconselhada por Glória, Macabéa 
vai até uma cartomante para saber de sua sorte. Lá, é 
recebida pela própria, madama Carlota, que impres-
siona a pobre moça pelo ”requinte” de sua residência, 
repleta de plástico, e pela amabilidade afetada com 
que a trata. Após madama Carlota contar sobre sua 
vida como prostituta e cafetina, lê as cartas para Ma-
cabéa, que, emocionada, pela primeira vez vislumbra 
um futuro e se permite ter esperança. Afinal, iria se 
casar com um estrangeiro rico, que daria todo o amor 
de que ela precisava.
Inebriada com as previsões da cartomante, Ma-
cabéa atravessa a rua sem olhar e é atropelada por uma 
Mercedes-Benz. Caída na calçada e sangrando, seu fim 
é testemunhado por inúmeros espectadores que se 
aglomeram em torno dela, sem que nenhum ofereça 
socorro. Por fim, a garota tosse sangue e morre. Havia 
chegado a hora da estrela. 
72
Enredo 2
Começa quando o narrador, andando pela rua, cap-
ta o olhar de desespero de uma jovem nordestina no 
meio da multidão. A partir daí, nasce Macabéa, que 
representa a miséria inerente ao autor e a todas as 
pessoas. Em uma relação de amor e ódio, Rodrigo S.M. 
narra a vida dessa moça como tentativa de se livrar 
da sensação de mal-estar que ela representa e que o 
contagiava, ao mesmo tempo em que se apieda e se 
revolta, inclusive se sentindo culpado por viver num 
padrão mais elevado que a maioria da população mar-
ginalizada.
Dessa forma, intima o leitor a também se colo-
car no lugar do outro para experimentar essa miséria 
e perceber que, no fundo, ela faz parte de todos nós. 
Por isso, não basta denunciar as mazelas sociais, como 
a fase anterior do Modernismo pregava, mas induzir o 
leitor a uma epifania, uma revelação, ainda que des-
pertada pela náusea, como nesse caso. 
Enredo 3
Nessa parte, Rodrigo S.M. discute a limitação da litera-
tura diante da busca existencial. Também ironicamente 
condena os autores de estilo pretensamente original, 
que abusam de modismos, de adornos que descaracte-
rizam o poder das palavras, bem como a obsessão pelo 
rigor formal, pela ortografia impecável.
Assim, há na obra diversos recursos metalin-
guísticos. Essas três narrativas se interligam, não sen-
do possível separá-las, pois o livro nem mesmo tem 
divisão por capítulos.
 
Cena de ”A hora da estrela”, filme de Suzana Amaral baseado no 
romance homônimo de Clarice Lispector
Características da obra
 Personagens tensos e inadaptados ao 
mundo: seus personagens, representativos da 
situação alienada dos indivíduos das grandes 
cidades, geralmente são tensos e inadaptados 
a um mundo repetitivo e inautêntico, que os 
despersonaliza.
 Quebra da fronteira entre a voz do narra-
dor e a dos personagens: Clarice afasta-se 
das técnicas tradicionais do romance, caracteri-
zado como um espelho de época. Sua literatura 
é um ambíguo espelho da mente, registrado 
através do fluxo da consciência, que indefine 
as fronteiras entre a voz do narrador e a dos 
personagens.
 Narrativa interiorizada: rompe-se a narra-
tiva referencial, ligada a acontecimentos. Em 
lugar dela, emerge interiorizada, centrada num 
momento de vivência interior do personagem 
(ou do narrador). É possível, até mesmo, que um 
acontecimento exterior provoque o desencade-
ar do fluxo da consciência: um acontecimento 
pode liberar ideias que vão até o inconsciente 
do personagem.
 Epifania ou momentos de revelação: a 
abertura da consciência para momentos “lumi-
nosos”, de revelação, é o que mais marca os 
personagens de Clarice.
Personagens
Macabéa
Alagoana, 19 anos, foi criada por uma tia beata que 
batia nela (sobre a cabeça, com força); completamente 
inconsciente, raramente percebe o que há à sua volta. 
A principal característica de Macabéa é a sua completa 
alienação. Ela não sabe nada de nada. Feia, mora numa 
pensão em companhia de três moças que são balconis-
tas nas Lojas Americanas (Maria da Penha, Maria da 
Graça e Maria José). Macabéa recebe o apelido de Maca 
e é a protagonista da história. Possivelmente, o nome 
Macabéa seja uma alusão aos macabeus bíblicos, sete 
ao todo, teimosos, criaturas destemidas demais no enfren-
73
tamento do mundo; a alusão, no entanto, faz-se pelo lado 
do avesso, pois Macabéa é o inverso deles.
É pobre, magra e passa a morar no Rio de Janeiro 
com a tia, que morre em seguida. Trabalha como datiló-
grafa. Gosta de Coca-Cola. Fã de Marilyn Monroe, sonha 
em ser estrela de cinema e escuta a Rádio Relógio. É feia, 
cheira mal por não gostar de tomar banho e é (e morre) 
virgem.Não tem autoestima, inteligência e esperteza. É 
uma jovem sem qualquer tipo de vida interior, sem futuro 
e com um passado inexpressivo, quase cretina.
A datilógrafa vivia numa espécie de atordoado nim-
bo, entre o céu e inferno. Nunca pensara em “eu 
sou eu”.
Olímpico
Apresentava-se como Olímpico de Jesus Moreira Cha-
ves. Trabalhava numa metalúrgica e não se classificava 
como ”operário”: era um ”metalúrgico”. Ambicioso, 
orgulhoso e matara um homem antes de migrar da 
Paraíba. Queria ser muito rico, um dia; e um dia queria 
também ser deputado. Um secreto desejo era ser tou-
reiro, gostava de ver sangue.
Nordestino que veio do sertão por ter matado 
um homem, é bem falante, metido, convencido, vaido-
so e usa dente de ouro. Trata sempre mal sua namo-
rada Macabéa, que, por medo de perdê-lo, sempre se 
desculpa quando deveria ser o contrário. 
E não é que ele dava para fazer discurso? Tinha o 
tom cantado e o palavreado seboso, próprio para 
que abre a boca e fala pedindo e ordenando os di-
reitos do homem (...)
Rodrigo S.M.
Narrador-personagem da história, tem domínio abso-
luto sobre o que escreve, inclusive sobre a morte de 
Macabéa, no final.
(...) para falar da moça tenho que não fazer a barba 
durante dias para adquirir olheiras escuras por dor-
mir um pouco, só cochilar de pura exaustão, sou um 
trabalhador manual. Além de vestir-me com roupa 
velha rasgada. Tudo isso para me pôr no nível da 
nordestina (...)
Em relação à história da vida da protagonista, 
ele está em terceira pessoa. É um narrador de onisci-
ência relativa, que sabe o que se passa pela cabeça da 
nordestina, mas também apresenta insegurança no que 
diz. Há uma narrativa à parte, feita em primeira pessoa 
por Rodrigo S.M., que se mostra tanto como pessoa 
quanto como profissional. Assim, o narrador se mani-
festa, no decorrer da história, de três formas: através 
de um monólogo e reflexão; conta e descreve de forma 
simples o que acontece; e valoriza o discurso direto.
É o pseudoautor e narrador do relato. Apresen-
ta-se como profissional escritor. É um narrador intru-
so, por isso (e também por revelar seus sentimentos) 
torna-se uma das personagens. É o primeiro narrador 
masculino na obra de Clarice. Ele questiona o tempo 
inteiro o seu modo de narrar, o seu estilo, a sua capaci-
dade de compreender Macabéa. Em última instância, o 
que ele procura é desvendar o significado da literatura 
e da existência. 
E ouço passos cadenciados na rua. Tenho um arrepio 
de medo. Ainda bem que o que vou escrever já deve 
estar na certa de algum modo escrito em mim (...)
Na obra, o narrador-personagem tem o intuito 
de narrar a história sem sentimentalismo, pois o fato da 
autora ter criado um narrador masculino é para que ele 
não relate com comoção Macabéa, e dê a ela um final 
feliz:
(...) também eu não faço a menor falta, e até o que 
escrevo, um outro escreveria. Um outro escritor sim, 
mas teria que ser homem porque escritora mulher 
pode lacrimejar piegas (...)
Glória
Filha de um açougueiro, nascida e criada no Rio de 
Janeiro, Glória rouba Olímpico de Macabéa. Tem um 
”quê” de selvagem, cheia de corpo, é esperta, atenta 
ao mundo.
Colega de trabalho de Macabéa, é gorda, bran-
ca e tem cabelos crespos e pretos, que ela oxigenava 
sempre. Um adágio popular que caracterizaria bem sua 
relação com Macabéa é “quem tem uma amiga dessas 
não precisa de uma inimiga”, pois ela acaba ficando 
74
com o namorado de Macabéa e a recomenda ir a uma 
cartomante... A nordestina, ao sair da casa da adivi-
nha, acaba morrendo.
O fato de ser carioca tornava-a pertencente ao ambi-
cioso clã do sul do país. Vendo-a, ele logo adivinhou 
que, apesar de feia, Glória era bem alimentada.
Madame Carlota
É a mulher de Olaria que colocará as cartas do baralho 
para ”ler a sorte” de Macabéa. Contará que foi prostituta 
quando jovem, que depois montou uma casa de mulhe-
res e ganhou muito dinheiro com isso. Come bombons, 
diz que é fã de Jesus Cristo e impressiona Macabéa. Na 
verdade, madame Carlota é uma enganadora vulgar.
(...) então caí na vida. E gostei porque sou uma 
pessoa muito carinhosa, tinha carinho por todos os 
homens (...)
Raimundo Silveira
Chefe do escritório em que Macabéa trabalha. Tenta 
demiti-la por ter muitos erros de ortografia e sujar os 
papéis nos quais datilografava, mas acaba admitindo-a 
de volta.
Outras personagens
Ainda há as três Marias que moram com Macabéa no 
mesmo quarto e o médico que diagnostica sua tuber-
culose.
Espaço
Apesar de se passar no Rio de Janeiro, ocorre que o 
espaço físico, externo, não importa muito nesta histó-
ria. O ”lado de dentro” das criaturas é o que interessa 
aos intimistas.
Embora a história de Macabéa seja profundamente 
dramática, a narrativa é toda permeada de muito hu-
mor e ironia. O próprio nome da protagonista consti-
tui-se numa grande ironia (tragicomédia).
Pobre, seco, ininteligível, frio – no sentido de 
isenção de paixão, insensível, indiferente – desinteres-
sante, morto. O ambiente é, na verdade, uma descrição 
de Macabéa. Parece que em todo o espaço que a nor-
destina visita, há penetração de suas características, 
além das angústias da vida da protagonista que atin-
gem o pseudoautor.
Tempo
O tempo é psicológico, pois há uma análise psicoló-
gica mais aprofundada dos personagens, que revela, 
por meio da narrativa interior, o fluxo da consciência 
e o intimismo.
Pelos indícios que o narrador nos oferece, o 
tempo é a época em que Marylin Monroe já havia mor-
rido – possivelmente, fins da década de 1960 ou co-
meço da década de 1970 –, mas faz ainda um grande 
sucesso como mito que povoa a cabeça e os sonhos 
de Macabéa.
Segundo Affonso Romano de Sant’Anna, os ro-
mances e contos de Clarice Lispector percorrem, geral-
mente, quatro passos:
1. O personagem é disposto em uma determinada 
situação cotidiana.
2. Prepara-se um evento, que é pressentido dis-
cretamente.
3. Ocorre o evento, que lhe “ilumina” a vida.
4. Ocorre o desfecho, que aponta um personagem 
mudado, “reformado” interiormente.
75
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
— Eu também acho esquisito mas minha mãe 
botou ele por promessa a Nossa Senhora da 
Boa Morte se eu vingasse, até um ano de idade 
eu não era chamada porque não tinha nome, 
eu preferia continuar a nunca ser chamada 
em vez de ter um nome que ninguém tem mas 
parece que deu certo – parou um instante re-
tomando o fôlego perdido e acrescentou desa-
nimada e com pudor – pois como o senhor vê 
eu vinguei... pois é...
— Também no sertão da Paraíba promessa é 
questão de grande dívida de honra.
Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob 
a chuva grossa e pararam diante da vitrine de 
uma loja de ferragem onde estavam expostos 
atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e 
pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio 
já significasse uma ruptura, disse ao lançado 
recém-lançado-namorado:
— Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o se-
nhor?
Da segunda vez em que se encontraram caía 
uma chuva fininha que ensopava os ossos. Sem 
nem ao menos se darem as mãos caminhavam 
na chuva que na cara de Macabéa parecia lágri-
mas escorrendo.
(Clarice Lispector, A hora da estrela)
Neste excerto, as falas de Olímpico e Macabéa: 
a) aproximam-se do cômico, mas, no âmbito do 
livro, evidenciam a oposição cultural entre a 
mulher nordestina e o homem do sul do país.
b) demonstram a incapacidade de expressão 
verbal das personagens, reflexo da privação 
econômica de que são vítimas. 
c) beiram às vezes o absurdo, mas, no contexto 
da obra, adquirem um sentido de humor e 
sátira social. 
d) registram, com sentimentalismo, o eterno 
conflito que opõe os princípios antagônicos 
do Bem e do Mal. 
 3. (Fuvest) Considere as seguintes compara-
ções entre Vidas secas e A hora da estrela:
I. Os narradores de ambos os livros adotam um 
estilo sóbrio e contido, avesso a expansões 
emocionais, condizente com o mundo de es-
cassez e privação que retratam.II. Em ambos os livros, a carência de lingua-
gem e as dificuldades de expressão, presen-
tes, por exemplo, em Fabiano e Macabéa, 
manifestam aspectos da opressão social.
III. A personagem sinha Vitória (Vidas se-
cas), por viver isolada em meio rural, 
não possui elementos de referência que 
a façam aspirar por bens que não possui; 
já Macabéa, por viver em meio urbano, 
possui sonhos típicos da sociedade de 
consumo.
 1. Leia o texto.
Domingo ela acordava mais cedo para ficar 
mais tempo sem fazer nada.
O pior momento de sua vida era nesse dia 
ao fim da tarde: caía em meditação inquieta, 
o vazio do seco domingo. Suspirava. Tinha 
saudade de quando era pequena – farofa 
seca – e pensava que fora feliz. Na verdade 
por pior a infância é sempre encantada, que 
susto. Nunca se queixava de nada, sabia que 
as coisas são assim mesmo e – quem organi-
zou a terra dos homens? [...] Juro que não 
posso fazer nada por ela. Afianço-vos que 
se eu pudesse melhoraria as coisas. Eu bem 
sei que dizer que a datilógrafa tem o corpo 
cariado é um dizer de brutalidade pior que 
qualquer palavrão.
(Clarice Lispector, A hora da estrela)
Nas alternativas abaixo, transcrevem-se 
adaptações de comentários críticos colhidos 
em bibliografia especializada. Todos se refe-
rem à produção de Clarice Lispector, exceto: 
a) A linguagem contém como que uma armadi-
lha: a sua simplicidade enganosa. Nem pela 
escolha dos vocábulos, nem por sua cons-
trução frásica parece ultrapassar um tom de 
coloquialismo e de narração sem surpresas.
b) É essa existência absurda, ameaçadora e 
estranha, revelando-se nos indivíduos e a 
despeito deles, o único fundo permanente 
de encontro ao qual as personagens se des-
tacam e de onde tiram a densidade humana 
que as caracteriza.
c) Em sua ficção, o cotidiano é, a partir de cer-
to momento, completamente desagregado.
d) Numa obra literária, para que o jogo da lin-
guagem tenha a propriedade reveladora, é 
necessário que a linguagem, além de ser ins-
trumento da ficção, seja também, de certo 
modo, o seu objeto, como de fato ocorre nos 
textos da autora.
e) O mito poético foi a solução romanesca ado-
tada pela autora. Uma obra de tão aguda 
modernidade que, paradoxalmente, se nutre 
de velhas tradições, as mesmas que davam à 
gesta dos cavaleiros feudais a aura do conví-
vio com o sagrado e o demoníaco.
 2. (Fuvest) Leia o texto.
Ele se aproximou e com voz cantante de nor-
destino que a emocionou, perguntou-lhe:
— E se me desculpe, senhorinha, posso convi-
dar a passear?
— Sim, respondeu atabalhoadamente com 
pressa antes que ele mudasse de ideia.
— E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?
— Macabéa.
Maca — O quê?
Bea, foi ela obrigada a completar.
— Me desculpe mas até parece doença, doença 
de pele.
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Está correto apenas o que se afirma em: 
a) I.
b) II.
c) III.
d) I e II.
e) II e III.
 4. (Fuvest) Identifique a afirmação correta so-
bre A hora da estrela, de Clarice Lispector. 
a) A força da temática social, centrada na mi-
séria brasileira, afasta do livro as preocupa-
ções com a linguagem, frequentes em outros 
escritores da mesma geração. 
b) Se o discurso do narrador critica principal-
mente a própria literatura, as falas de Maca-
béa exprimem sobretudo as críticas da per-
sonagem às injustiças sociais. 
c) O narrador retarda bastante o início da nar-
ração da história de Macabéa, vinculando 
esse adiamento a um auto questionamento 
radical. 
d) Os sofrimentos da migrante nordestina são 
realçados, no livro, pelo contraste entre suas 
desventuras na cidade grande e suas lem-
branças de uma infância pobre, mas vivida 
no aconchego familiar. 
e) O estilo do livro é caracterizado, principal-
mente, pela oposição de duas variedades 
linguísticas: linguagem culta, literária, em 
contraste com um grande número de expres-
sões regionais nordestinas. 
 5. (Fuvest) Sobre o narrador de A hora da estre-
la, de Clarice Lispector, pode-se afirmar que:
a) é do tipo observador, pois revela não ter 
conhecimento sobre o que se passa no uni-
verso sentimental e psíquico da personagem 
(Macabéa).
b) é onisciente, pois assume o papel de criador 
de uma vida, sobre a qual detém todas as in-
formações; o poder da onisciência é, para ele, 
fonte de satisfação, pois Rodrigo S.M. perce-
be que os fatos dependem de seu arbítrio.
c) é do tipo observador, pois limita-se a des-
crever superficialmente as emoções de Ma-
cabéa, o que fica evidente nas ocorrências 
enigmáticas do termo “explosão“, apresen-
tado sempre entre parênteses.
d) constitui-se como um personagem, pois nar-
ra em primeira pessoa; não há, entretanto, 
referências à sua história pessoal, visto que 
seu objetivo é falar sobre um personagem de 
ficção (Macabéa).
e) é um dos personagens do livro; entretanto, 
ao apresentar-se não só como narrador, mas 
também como criador da história, problema-
tiza a essência da literatura de ficção, que 
reside na recriação arbitrária do real.
 6. (Fuvest) Devo registrar aqui uma alegria. é 
que a moça num aflitivo domingo sem faro-
fa teve urna inesperada felicidade que era 
inexplicável: no cais do porto viu um arco-
-íris. Experimentando o leve êxtase, ambi-
cionou logo outro: queria ver, como uma vez 
em Maceió, espocarem mudos fogos de ar-
tifício. Ela quis mais porque é mesmo uma 
verdade que quando se dá a mão, essa gen-
tinha quer todo o resto, o zé-povinho sonha 
com fome de tudo. E quer mas sem direito 
algum, pois não é?
(Clarice Lispector, A hora da estrela)
Considerando-se no contexto da obra o tre-
cho sublinhado, é correto afirmar que, nele, 
o narrador:
a) assume momentaneamente as convicções 
elitistas que, no entanto, procura ocultar no 
restante da narrativa.
b) reproduz, em estilo indireto livre, os pensa-
mentos da própria Macabéa diante dos fogos 
de artifício.
c) hesita quanto ao modo correto de interpretar 
a reação de Macabéa frente ao espetáculo.
d) adota uma atitude panfletária, criticando 
diretamente as injustiças sociais e cobrando 
sua superação.
e) retoma uma frase feita, que expressa pre-
conceito antipopular, desenvolvendo-a na 
direçao da ironia.
 7. (Fuvest) “A ação desta história terá como 
resultado minha transfiguração em outrem 
(…)”
Neste excerto de A hora da estrela, o narra-
dor expressa uma de suas tendências mais 
marcantes, que ele irá reiterar ao longo 
de todo o livro. Entre os trechos abaixo, o 
único que não expressa tendência corres-
pondente é:
a) “Vejo a nordestina se olhando ao espelho e 
(…) no espelho aparece o meu rosto cansa-
do e barbudo. Tanto nós nos intertrocamos”
b) “é paixão minha ser o outro. No caso a ou-
tra”
c) “Enquanto isso, Macabéa no chão parecia se 
tornar cada vez mais uma Macabéa, como se 
chegasse a si mesma”
d) “Queiram os deuses que eu nunca descreva o 
lázaro porque senão eu me cobriria de lepra”
e) “Eu te conheço até o osso por intermédio de 
uma encantação que vem de mim para ti”
 8. (PUC-SP) A obra A hora da estrela, de Clarice 
Lispector, marca-se pela depuração da arte 
de escrever e dialoga com todo o universo 
ficcional da autora. Despontam nela as per-
plexidades da narrativa moderna.
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Indique a alternativa que não condiz com 
esse romance entendido como um todo.
a) A história são as fracas aventuras de uma 
moça alagoana, “numa cidade toda feita 
contra ela”, o Rio de Janeiro.
b) Macabéa, personagem do romance, tem a co-
ragem e o heroísmo dos fortes e se torna, 
na vida, a grande estrela com que sempre 
sonhou.
c) A estrela que dá título à obra é a estrela de 
cinema e só aparece mesmo na hora da morte.
d) A narrativa constrói-se da alternância entre 
as reflexões do narrador que parece narrar a 
si mesmo e os fatos apresentados que dão o 
retrato da protagonista.
e) O espaço da ação é o social-urbano, mas res-
trito à “Rua do Acre para morar” e à “Rua do 
Lavradio para trabalhar”.
 9. (PUC-SP) A respeito de A hora da estrela, de 
Clarice Lispector, indique a alternativa que 
não confirma as possibilidadesnarrativas do 
romance.
a) Livro com muitos títulos que se resumem à 
história de uma inocência pisada, de uma 
miséria anônima.
b) História do narrador Rodrigo S.M., que se faz 
personagem, narrando-se a si mesmo e com-
petindo com a protagonista.
c) História da própria narração, que conta a si 
mesma, problematizando a difícil tarefa de 
narrar.
d) História de Macabéa, moça anônima e que 
não fazia falta a ninguém.
e) História de Olímpico de Jesus, paraibano e 
metalúrgico, vivendo o mesmo drama de Ma-
cabéa e identificando-se com ela.
 10. (PUC-SP) Assinale a alternativa que não está 
de acordo com a personagem Macabéa, do ro-
mance A hora da estrela, de Clarice Lispector.
a) Nordestina pobre, anônima e semianalfabe-
ta, era impotente para a vida e não fazia 
falta a ninguém.
b) Tinha a “felicidade pura dos idiotas” e “vivia 
num atordoado limbo entre céu e inferno”.
c) Personagem-título do romance, embora feita 
de matéria rala, tornou-se, na vida, a grande 
estrela com que sempre sonhou.
d) Ingênua, acreditou no que a cartomante lhe 
disse, mas acabou sendo atropelada e morta 
por um Mercedes amarelo.
e) Viveu um conto de fadas às avessas, deline-
ando um contraponto bíblico sem, contudo, 
apresentar a coragem e o heroísmo dos fortes.
 11. (Fuvest) Será que eu enriqueceria este relato 
se usasse alguns difíceis termos técnicos? Mas 
aíque está: esta história não tem nenhuma 
técnica, nem de estilo, ela é ao deus-dará. Eu 
que também não mancharia por nada deste 
mundo com palavras brilhantes e falsas uma 
vida parcacomo a da datilógrafa.
(Clarice Lispector, A hora da estrela)
Em A hora da estrela, o narrador questiona-
-se quanto ao modo e, até, à possibilidade 
de narrar a história. De acordo com o trecho 
acima, isso deriva do fato de ser ele um nar-
rador:
a) iniciante, que não domina as técnicas neces-
sárias ao relato literário.
b) pós-moderno, para quem as preocupações de 
estilo são ultrapassadas.
c) impessoal, que aspira a um grau de objetivi-
dade máxima no relato.
d) objetividade, que se preocupa apenas com a 
precisão técnica do relato.
e) autocrítico que percebe a inadequação de um 
estilo sofisticado para narrar a vida popular.
 12. (UFV) Leia o trecho abaixo.
Bem, é verdade que também eu não tenho 
piedade do meu personagem principal, a 
nordestina: é um relato que desejo frio. (...) 
Não se trata apenas da narrativa, é antes de 
tudo vida primária que respira, respira, res-
pira. (...) Como a nordestina, ha milhares de 
moçasespalhadas por cortiços, vagas de cama 
num quarto, atrás de balcões trabalhando 
até a estafa.
Não notam sequer que são facilmente subs-
tituíveis e que tanto existiriam como não 
existiriam.
(Clarice Lispector)
Em uma das alternativas abaixo, há um as-
pecto do livro de Clarice Lispector, A hora da 
estrela, presente no fragmento acima, que o 
aproxima do chamado “romance de 30“, rea-
lizado por escritores como Graciliano Ramos 
e Rachel de Queiroz.
a) A preocupação excessiva com o próprio ato 
de narrar.
b) O intimismo da narrativa, que ignora os pro-
blemas sociais de seus personagens.
c) A construção de personagens que têm sua 
condição humana degradada por culpa do 
meio e da opressão.
d) A necessidade de provar que as ações huma-
nas resultam do meio, da raça e do momento.
e) A busca de traços peculiares da Região Nor-
deste.
78
 13. (Acafe) No livro A hora da estrela, ocorre a 
quebra das convenções da arte de narrar: o 
narrador estabelece com o leitor um jogo. 
Assim, é verdadeiro o que se afirma em:
a) O narrador faz uma narrativa aberta para o 
leitor, procurando fazer com que o leitor se 
identifique com os personagens.
b) Existe um narrador que dificulta a localiza-
ção de sua voz, misturando-a com a das ou-
tras personagens.
c) A escritura do texto é extremamente rebus-
cada e, portanto, difícil de estabelecer qual-
quer relação do texto com o narrador.
d) O narrador, a todo momento, chama a aten-
ção do leitor, alertando-o de que se trata de 
uma obra de ficção e, consequentemente, 
dificultando uma identificação do leitor com 
os personagens.
e) Não é possível identificarmos a presença do 
narrador.
 14. (Acafe) Sobre o texto “Tentarei tirar ouro 
de carvão. Sei que estou adiando a história 
e que brinco de bola sem a bola. O fato é 
um ato? Juro que este livro é feito sem pa-
lavras.“, extraído do livro A hora da estrela, 
pode-se afirmar que:
a) o narrador-escritor vai transformar situações 
cotidianas em uma história de vida, de fatos 
e acontecimentos, e o “livro é feito sem pa-
lavras“ pelo fato de ser um retrato da vida.
b) a história de Macabéa (protagonista do livro) 
é um conto de fadas, em que ela encontra o 
seu príncipe e vivem felizes para sempre.
c) o narrador explica a relação de poder que um 
homem mantém sobre a mulher.
d) é uma crítica ao “canibalismo“ deste mundo 
cão, no caso, a anulação do ser humano pela 
cidade grande.
e) se trata de um jogo de palavras em que o 
autor busca explicar a história de vida de um 
trabalhador sem qualificação, vivendo numa 
grande metrópole.
 15. (Acafe) Sobre o romance A hora da estrela, 
de Clarice Lispector, é falso afirmar que:
a) ao ser atropelada e morta por um caminhão 
Mercedes-Bens, a protagonista tem, enfim, 
um grande momento, à maneira de uma es-
trela de cinema, no centro da cena cinema-
tográfica.
b) narra a história de Macabéa, uma alagoana 
simples que se muda para o Rio de Janeiro, 
onde passa a morar numa pensão.
c) distante de seu meio, alheia ao mundo da 
cultura e sem compreender claramente os 
valores que regem uma cidade grande e com-
petitiva como o Rio de Janeiro, Macabéa não 
consegue definir sua própria identidade.
d) opondo-se a um curso sentimental, retórico, 
ornamental da poética nacional, a autora 
construiu uma poesia antilírica, anticonfes-
sional, presa ao real e dirigida ao intelecto.
e) Olímpico, namorado de Macabéa e também 
nordestino, ao contrário dela, deseja ascen-
der na vida a qualquer preço.
 16. (PUC-Camp) Maquiavel (...) admitia que a 
posição dos subalternos é estratégica para a 
análise de quem está por cima.
Relacionando-se a frase acima com o roman-
ce A hora da estrela, de Clarice Lispector, 
verifica-se que a afirmação de Maquiavel:
a) se confirma, pois Rodrigo faz excelente aná-
lise das classes privilegiadas.
b) se confirma, pois Macabéa faz análise crítica 
do poder de seus superiores.
c) não se confirma, pois Rodrigo tem reduzida 
consciência de sua classe social.
d) não se confirma, pois Macabéa não tira pro-
veito crítico de sua posição.
e) não se confirma, pois Olímpico não se inte-
ressa por quem tem algum poder.
 17. (PUC-RS) ________, a personagem de Clarice 
Lispector, em A hora da estrela, é uma nor-
destina, pobre, feia, sem vida interior, inca-
paz de manter a relação com o namorado.
Sua “hora da estrela” só acontece quando sai 
feliz e distraída da cartomante e ________.
No romance, os problemas existenciais estão 
relacionados às ________ da moça.
As lacunas podem ser, correta e respectiva-
mente, preenchidas por:
a) Gabriela – é assassinada e desaparece – cren-
ças religiosas
b) Macabéa – é atropelada e morre – condições 
socioculturais
c) Aurora – encontra Fernando e se casa – de-
bilidades físicas
d) Capitu – é atropelada mas salva-se – dificul-
dades financeiras
e) Diadorim – volta ao sertão e vive só – neces-
sidades econômicas
 18. (Enem) Tudo no mundo começou com um 
sim. Uma molécula disse sim a outra molécu-
la e nasceu a vida. Mas antes da pré-história 
havia a pré-história da pré-história e havia o 
nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o 
quê, mas sei que o universo jamais começou.
[...]
Enquanto eu tiver perguntas e não houver 
resposta continuarei a escrever. Como come-
çar pelo início, se as coisas acontecem antes 
de acontecer? Se antes da pré-pré-história 
já havia os monstros apocalípticos? Se esta 
história não existe, passará a existir. Pensar 
é um ato. Sentir é um fato. Os doisjuntos – 
sou eu que escrevo o que estou escrevendo. 
[...] Felicidade? Nunca vi palavra mais doi-
da, inventada pelas nordestinas que andam 
por aí aos montes.
Como eu irei dizer agora, esta história será o 
resultado de uma visão gradual – há dois anos 
e meio venho aos poucos descobrindo os por-
quês. É visão da iminência de. De quê? Quem 
sabe se mais tarde saberei. Como que estou es-
crevendo na hora mesma em que sou lido. Só 
não inicio pelo fim que justificaria o começo 
79
– como a morte parece dizer sobre a vida – 
porque preciso registrar os fatos antecedentes.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. 
Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (fragmento).
A elaboração de uma voz narrativa peculiar 
acompanha a trajetória literária de Clarice 
Lispector, culminada com a obra A hora da 
estrela, de 1977, ano da morte da escritora. 
Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade 
porque o narrador:
a) observa os acontecimentos que narra sob 
uma óptica distante, sendo indiferente aos 
fatos e às personagens. 
b) relata a história sem ter tido a preocupação 
de investigar os motivos que levaram aos 
eventos que a compõem.
c) revela-se um sujeito que reflete sobre ques-
tões existenciais e sobre a construção do 
discurso.
d) admite a dificuldade de escrever uma histó-
ria em razão da complexidade para escolher 
as palavras exatas. 
e) propõe-se a discutir questões de natureza fi-
losófica e metafísica, incomuns na narrativa 
de ficção.
 19. (Fuvest) Em A hora da estrela, o narrador 
apresenta a seguinte reflexão: “Pois na hora 
da morte a pessoa se torna brilhante estrela 
de cinema, é o instante de glória de cada um 
e é quando como no canto coral se ouvem 
agudos sibilantes“.
Com base nela, explique:
a) Por que o romance tem o título “A hora da 
estrela“?
b) Por que é irônica a relação entre o título e a 
história de Macabéa?
 20. (Fuvest) Leia este trecho de A hora da estre-
la, de Clarice Lispector, no qual Macabéa, de-
pois de receber o aviso que seria despedida 
do emprego, olha-se no espelho:
Depois de receber o aviso foi ao banheiro 
para ficar sozinha porque estava toda ator-
doada. Olhou maquinalmente ao espelho 
que encimava a pia imunda e rachada, cheia 
de cabelos, o que tanto combinava com sua 
vida. Pareceu-lhe o espelho baço e escureci-
do não refletia imagem alguma. Sumira por 
acaso sua existência física? Logo depois pas-
sou a ilusão e enxergou a cara toda deforma-
da pelo espelho ordinário: o nariz tornado 
enorme como o de um palhaço de nariz de 
papelão. Olhou-se e levemente pensou: tão 
jovem e já com ferrugem.
a) Neste trecho, o fato de parecer, a Macabéa, não 
se ver refletida no espelho liga-se imediata-
mente ao aviso de que seria despedida. Pro-
jetando essa ausência de reflexo no contexto 
mais geral da obra, como você interpreta?
b) Também no contexto da obra, explique por 
que o narrador diz que Macabéa pensou “le-
vemente“?
GABARITO
1. E 2. C 3. B 4. C 5. E
6. E 7. C 8. B 9. E 10. C
11. E 12. C 13. D 14. A 15. D
16. D 17. B 18. D
 19. 
a) A hora da estrela alude, metaforicamen-
te, à morte, ao instante de fulguração rá-
pida, mas reveladora de todo um sentido 
de existência. É a epifania à maneira de 
Clarice Lispector, dentro da óptica exis-
tencialista da busca do sentido da experi-
ência humana.
b) A ironia, trágica no caso, dá-se pela dis-
crepância entre a breve aspiração de gló-
ria de Macabéa, insuflada pela cartoman-
te (a miragem da estrela hollywoodiana), 
a sua condição social (migrante nordes-
tina marginalizada no Rio de Janeiro) e 
seu destino: atropelada por um carro de 
luxo, na porta do Copacabana Palace. A 
hora da estrela, banal e reveladora, é o 
instante maior de Macabéa, anônima, es-
tatelada na rua, mas objeto da atenção 
fugaz de transeuntes anônimos.
20. 
a) O fato de Macabéa não se ver refletida no 
espelho remete ao fato de ser a nordes-
tina uma “Maria Ninguém“ que sequer é 
nomeada em boa parte da obra. A datiló-
grafa é um ser “invisível“, que não é per-
cebido pela maioria da sociedade. A sua 
potencial demissão apenas reforça o seu 
caráter de pessoa dispensável, descartá-
vel pelo sistema, “enferrujada“.
b) A alienação de Macabéa a impede de con-
siderar qualquer questão em toda a sua 
amplitude. Pensa “levemente“, ou super-
ficialmente, sem se aprofundar nas ra-
zões dos fenômenos que a circundam ou 
que a afetam.
L
OBRAS
C
Comédias para se ler 
na escola
Obras
L C
Luis Fernando Verissimo
83
LUIS FERNANDO VERISSIMO
Luis Fernando Verissimo, filho do escritor Erico Verissimo e de Mafalda Halfen Volpe, é um escritor brasileiro, famoso 
por suas crônicas e contos de humor; é também jornalista, tradutor, roteirista de programas para televisão e músico. 
Nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 26 de setembro de 1936. Em 1941, sua família foi morar nos 
Estados Unidos, onde ele fez o curso primário em São Francisco e Los Angeles. Fez o curso secundário no Roosevelt 
High School, em Washington. Desenvolveu o gosto pelo jazz, chegando a ter aulas de saxofone.
De volta ao Brasil, em 1956, retornou para Porto Alegre, onde começou a trabalhar na Editora Globo, no 
departamento de artes. Em 1960, passou a integrar o conjunto musical “Renato e seu sexteto“. Mudou-se para o 
Rio de Janeiro, onde trabalhou como tradutor e redator publicitário. Em 1963, casou-se com a carioca Lúcia Helena 
Massa, com quem teve três filhos.
Em 1967, voltou para Porto Alegre, ingressou no jornal Zero Hora, trabalhando como revisor de textos. A 
partir de 1969, passou a assinar sua própria coluna diária. No mesmo ano, começou a redigir para a agência de 
publicidade MPM Propaganda.
Trabalhou no Jornal Folha da Manhã, entre 1970 e 1975, escrevendo contos sempre bem humorados sobre 
esporte, música, cinema, literatura e política. Em 1973, publicou O popular, uma coletânea de textos já publicados 
nos jornais onde trabalhava.
Em 1975, retornou ao Zero Hora, passou a escrever para o Jornal do Brasil e publicou A grande mulher nua. 
Publicou Ed Mort e outras histórias, em 1979, livro de crônicas cujo personagem viria a ser um dos mais populares 
de sua obra. Entre 1980 e 1981, morou em Nova Iorque, época em que escreveu Traçando Nova Iorque.
Luis Fernando Verissimo lançou, em 1981, na Feira do Livro de Porto Alegre, o livro de crônicas O analista 
de Bagé, que se esgotou em dois dias. Entre 1982 e 1989, foi redator semanal, com artigos bem humorados, para 
a Revista Veja. Em 1994, publicou Comédias da vida privada, que foi adaptada para uma minissérie na televisão. 
Passou a integrar o grupo “Jazz 6“, em 1995, lançando os álbuns “Agora é hora“ (1997), “Speak low“ (2000), 
“A bossa do jazz“ (2003) e “Four“ (2006).
Em 2003, seu livro Clube dos anjos, na versão em inglês (The club of angels), foi escolhido pela New York 
Public Library um dos 25 melhores livros daquele ano. Em 2004, recebeu o Prix Deus Oceans do Festival de Cultu-
ras Latinas de Biarritz, na França. Recebeu o prêmio Juca Pato e foi considerado o intelectual do ano pela União 
Brasileira de Escritores, em 1997.
No dia 21 de novembro de 2012, o escritor foi internado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, 
em consequência do agravamento de uma gripe do tipo Influenza A. Durante 24 dias de internação, doze foram 
passados na UTI. Já recuperado, recebeu alta no dia 14 de dezembro. No dia 3 de janeiro, escreveu sua primeira 
coluna para o Jornal O Estado de São Paulo.
Disponível em: <www.ebiografia.com/luis_fernando_verissimo>. Por Dilva Frasão. Acesso em: 19 ago. 2018.
84
Contexto histórico
A literatura brasileira contemporânea engloba as produ-
ções do final do século XX e da primeira metade do sé-
culo XXI, sendo marcada pela pluralidade de tendências.
A contemporaneidade aglutina um conjunto 
de caraterísticas das mais diversas escolas literárias 
anteriores. Neste sentido, apresenta uma mistura de 
tendências que irão inovar a poesia e a prosa (contos,crônicas, romances, novelas etc.) do período.
COMÉDIAS PARA 
SE LER NA ESCOLA
O título, publicado em 2001, resulta da teoria de Luis 
Fernando Verissimo de que até pessoas que não têm 
o hábito da leitura poderão gostar muito de seu texto.
Apesar do título indicar uma ambientação es-
pecífica para a leitura, ou seja, a escola, é ideal para 
ser lida em qualquer lugar, sobretudo para aqueles que 
desejam ter momentos de descontração.
Verissimo sempre aparece em forma de carica-
tura na capa das últimas edições de seus livros. Em 
Comédias para se ler na escola, o autor surge sentado 
em uma cadeira escolar, arremessando um aviãozinho 
de papel.
Ana Maria Machado 
na abertura do texto 
de Verissimo
Ana Maria Machado é responsável pela apresenta-
ção e pela seleção dos textos do livro aqui analisado. 
A dobradinha não podia ser melhor: de um lado, as 
histórias de um mestre do humor; de o outro, o olhar 
perspicaz de uma das especialistas em literatura para 
jovens. Leitora inveterada de Luis Fernando Verissimo, 
Ana Maria preparou uma seleção de crônicas capaz de 
despertar nos leitores e estudantes o prazer e a paixão 
pela leitura.
“Depois de ler este livro, duvido que algum jo-
vem ainda seja capaz de dizer, sinceramente, que não 
curte ler. E, para não ficar achando que só gosta deste 
livro, que leia os outros do autor. Aposto que, em sua 
maioria, os novos leitores vão se viciar em livro e sair 
procurando outros textos, de outros autores. Com von-
tade de, um dia, chegar a escrever assim. Quem sabe? 
O Verissimo nunca pensou que ia ser escritor quando 
crescesse. Seu negócio era mesmo um bom solo de sa-
xofone, instrumento em que ainda arrasa, escondido. 
Mas com essa história de ser músico, desenvolveu tan-
to o ouvido que acabou assim: hoje ele ouve (e conta 
pra nós) até o que pensamos, sentimos e sonhamos em 
silêncio. Em qualquer idade.“
85
Gênero: crônica
A crônica narra, de forma artística e pessoal, fatos do 
cotidiano, geralmente colhidos no noticiário jornalísti-
co. Geralmente, é um texto curto e leve, escrito com o 
objetivo de divertir o leitor e também levá-lo a refletir 
criticamente sobre a vida e o comportamento humanos. 
O narrador presente na crônica pode ser do tipo 
observador ou personagem. A crônica emprega geral-
mente a variedade padrão informal em linguagem cur-
ta e direta, próxima do leitor. 
Linguagem
Comédias para se ler na escola é um livro de textos 
curtos, fáceis e divertidos, escritos numa linguagem 
clara e coloquial. As situações inusitadas são escritas 
em uma linguagem que até os menos adeptos da lite-
ratura se identificam. No livro, o autor encontra alguns 
exemplos de um trabalho que se debruça sobre a gra-
mática da língua, o discurso, tudo por meio de jogos 
linguísticos e de ironia. 
A linguagem inteligente ficou marcada na obra 
de Verissimo, que costumava utilizar a ironia para tra-
tar de temas como a política nacional. A língua por-
tuguesa se estabelece como mecanismo para o sur-
gimento de situações cômicas e também serve para 
apontar uma realidade. Em caráter metalinguístico, o 
texto cede lugar a reflexões em torno da linguagem e 
seu funcionamento.
Temas
Foram reunidas diversas crônicas humorísticas a res-
peito da vida alheia. O leitor é convidado a viajar entre 
as situações mais esquisitas no dia a dia de uma pes-
soa comum. As personagens fictícias deixam aqueles 
que leem com vontade de perguntar: por que essas 
coisas não acontecem comigo?
O tema predominante das crônicas é o cotidia-
no. Veja como é possível subdividir esta abordagem, 
a partir de alguns parâmetros que ajudam o entendi-
mento da obra:
 Exercício da linguagem
Neste aspecto, é possível perceber a habilidade 
que o autor, um “artesão das letras”, possui, no que 
tange aos exercícios de linguagem ou de estilo. As crô-
nicas que melhor exemplificam este parâmetro temá-
tico são: “Palavreado“, “Jargão“, “O ator“ e “Siglas“. 
 Comédia de erros
A comédia é, sem dúvida, uma das marcas re-
gistradas do autor. Este parâmetro está presente espe-
cialmente nas crônicas “O homem trocado“, “Suflê de 
chuchu“ e “Sozinhos“. 
 Fábula
Luis Fernando Verissimo cria pequenas fábulas 
que apresentam moralidade não explícita. Surgem em 
crônicas como “A novata“, “Hábito nacional“ e “Pode 
acontecer“. 
 Memórias
O resgate do passado aparece em crônicas de 
memórias como “Adolescência“, “A bola“ e “História 
estranha“. 
 Originalidade
Temas cotidianos são abordados com origina-
lidade em crônicas como “Da timidez“, “Fobias“ e 
“ABC“.
86
Estrutura
A coletânea de crônicas escolhida por Ana Maria Ma-
chado conta com uma reunião de 35 narrativas curtas. 
O livro é dividido em seis partes. Acompanhe as 
especificidades de cada uma delas:
Parte 1: equívocos
Nesta primeira parte do livro, as crônicas são selecio-
nadas sob a perspectiva da imaginação. Situações apa-
rentemente surreais que prendem os leitores, sobretu-
do aqueles afeitos ao tema da aventura. 
 A espada
A crônica trata de um garoto de 7 anos que 
ganha uma misteriosa espada no dia de seu aniver-
sário. Ele fala ao pai que agora era um thunder boy. O 
pai, à princípio, não o leva a sério, porém, surpreende-
-se quando escuta um barulho bem alto e vê seu filho 
cumprindo sua missão de thunder boy.
 O marajá
O marido de dona Morgadinha está cansado 
das crises de histeria da mulher, no que diz respeito 
à limpeza da casa. Ele pede a um amigo que se finja 
de marajá, a fim de que a mulher se esquecesse um 
pouco da mania de limpeza. Não dá certo, e a mulher 
se apaixona pelo falso marajá.
 O homem trocado
Uma das crônicas mais engraçadas do livro, tra-
ta de um homem que teve toda a vida trocada, desde 
seu nascimento, e agora estava em um hospital para 
operar a apendicite, mas enganaram-se na cirurgia: 
trocaram-lhe o sexo.
 Suflê de chuchu
Duda é uma garota de classe média que vai ten-
tar a vida na Europa, mas não tem habilidades e não 
sabe fazer nada. Ela fica ligando para a mãe com o obje-
tivo de receber explicações sobre assuntos domésticos.
 Sozinhos 
A crônica trata de dois velhinhos roncadores 
que descobrem, mesmo que sem querer, que ladrões – 
ou a morte – invadiram sua casa.
 A foto 
A crônica narra a história de uma família que se 
junta para tirar foto com a bisa e o biso, que já estão 
muito velhinhos. Como ninguém queria deixar de apa-
recer na foto, o velhinho se irrita, tira a foto da família 
e vai dormir.
Parte 2: outros tempos
Nesta segunda parte da obra, é possível verificar como 
o autor lida com a temática do passado, mergulhando 
na juventude, e como as lembranças podem ser bem-
-humoradas, como apresentadas no futuro.
 A bola 
Esta crônica trata de um garoto viciado em 
videogame, que ganha uma bola, mas não sabe o que 
fazer com ela, para a decepção de seu pai.
 História estranha
Um homem, do alto de seus 40 anos, se reco-
nhece em uma criança que está brincando no parque. 
A criança também o identifica, eles se abraçam e o 
garoto pensa em como seria sentimental quando cres-
cesse.
 Vivendo e... 
Nesta crônica, o narrador começa a recordar do 
que fazia na infância e percebe que já não é mais ca-
paz nem de cuspir com a língua entre os dentes como 
outrora.
 Adolescência
Um garoto ganha um violino e perturba a vizi-
nhança como o barulho, inclusive o próprio pai. Para 
tanto, os vizinhos e o pai, que já estavam cansados, 
contratam Vandeca Furacão para que o garoto se es-
quecesse do instrumento musical.
87
Parte 3: de olho na linguagem
Nesta parte, o autor prova que é possível ser bem-hu-
morado sem abdicar do bom português. 
 Sexa
Nesta história bem intrigante, embaraçosa e 
engraçada, um garoto interroga o pai sobre o feminino 
de sexo.
 Pá, pá, pá
Com apelo interessante sobre o cotidiano da 
linguagem, esta crônica fala sobre um brasileiro que 
tenta explicar a uma estadunidense o que significam 
certas expressões da línguacomo “pois é”, “pois sim“, 
“pois não“ e “pá, pá, pá”.
 Defenestração 
Nesta crônica, o narrador brinca com o signifi-
cado de certas palavras e se interroga com o sentido 
de “defenestrar”, que é o ato de atirar algo ou alguém 
da janela.
 Tintim 
A questão da linguagem mais uma vez ganha 
destaque na caracterização de elementos brasileiros. 
Brincadeira com as expressões brasileiras: “tintim“ – 
barulho das moedas.
 Papos
Nesta crônica, o narrador, por meio da colo-
cação pronominal, brinca com as palavras e critica a 
gramática.
 O jargão
O narrador desta crônica imagina ser um ma-
rinheiro, mesmo que não entenda nada de barcos. Ele 
começa a usar vários jargões (provavelmente inventa-
dos), fazendo uma crítica aos economistas que usam 
palavras as quais ninguém entende, mas que as pesso-
as jamais ousariam questionar.
 Pudor
O significado de algumas palavras é o tema da 
brincadeira do narrador desta crônica. Entre elas, “tri-
lhão”, que antigamente significava um número muito 
alto, impossível de se imaginar e que, hoje, devido à 
inflação e às mudanças de planos econômicos, torna-
-se quase íntimo nosso.
 Palavreado
O narrador brinca com as palavras e imagina 
novos significados para elas, como é o caso de “fa-
lácia“, “lascívia“, “fornida“, “lipídio“, “otorrino“, 
“pseudônimo“ etc.
Parte 4: fábulas
Nesta parte, Verissimo aponta para as situações mais 
embaraçosas e engraçadas do cotidiano.
 A novata 
Esta história narra o primeiro dia de trabalho na 
vida de uma jornalista. No início, o chefe não acredi-
ta muito na moça, mas ela se revela uma profissional 
bem ousada.
 Bobagem 
Nesta crônica, Verissimo conta a história de 
dois amigos que não se viam há muitos anos, porque 
estavam brigados e nem se lembravam do porquê. Am-
bos pensaram que deveria ser bobagem: conversaram, 
beberam, marcaram um outro encontro, mas um deles 
não compareceu porque havia se lembrado da boba-
gem que os fez brigar.
 Hábito nacional 
Nesta crônica engraçada e crítica da realidade 
brasileira, Verissimo apresenta vários políticos famosos 
brasileiros que morrem em um desastre de avião. Surge, 
então, são Pedro, que quer levá-los direto para o infer-
no, mas Deus lhes perdoa. “Sabe como é, brasileiro...”.
 Pode acontecer
A trágica realidade política surge nesta crôni-
ca em que dois amigos tramam atacar o Congresso 
Nacional e pegar políticos como reféns. O fracasso se 
deu, pois, no dia combinado, os políticos faltaram ao 
serviço.
 Direitos humanos
Algemiro é um motorista, personagem cen-
tral desta crônica. Ao levar uns estadunidenses para 
conhecer o Rio de Janeiro, encontra Budum Filho, um 
homem que estava lhe vendendo o dinheiro do jogo de 
bicho. O motorista briga com o rapaz, mas este se faz 
de vítima para os gringos, que o defendem.
88
 Segurança 
Esta crônica fala de moradores de um condomí-
nio fechado que estão cansados de serem assaltados. 
Por isso, tentam buscar maneiras de se livrar dos la-
drões e ficam cada vez mais trancados em suas pró-
prias casas. Ao final, fazem uma rebelião, querendo 
fugir do condomínio.
Parte 5: falando sério
Esta parte junta crônicas cuja temática aponta para 
problemas comuns do cidadão brasileiro.
 Fobias 
Nesta crônica, o autor expõe diversos tipos de 
medo e aversões a alguma coisa, como claustrofobia, 
acrofobia, Collorfobia etc. Do ponto de vista da lingua-
gem, ele brinca com o leitor querendo saber como se 
chamaria o medo de não ter o que ler.
 Anedotas 
O narrador faz reflexões sobre as anedotas e diz 
que nem todos os humoristas conseguem fazê-la, pois 
é um processo único.
 Da timidez 
As pessoas tímidas são o tema desta crônica, 
que mesmo querendo se esconder de todos, sempre 
acaba chamando a atenção, de alguma forma.
 ABC 
A relação da caligrafia com a idade é o tema 
desta crônica. O narrador faz comentários irônicos so-
bre o tamanho das letras, de acordo com as idades. 
Quanto mais velhos ficamos, mais as letras diminuem, 
porém, segundo o narrador, esse processo está errado.
Parte 6: exercícios de estilo
No conjunto final da obra, o autor brinca com estilos 
de texto, sem perder seu estilo.
 Amor – “poema mais ou menos de amor” 
Esta crônica fala de alguém que queria ser o 
guarda-roupa da amada para guardar seus segredos.
 Um, dois, três 
Nesta história de caráter metalinguístico, o 
narrador diz querer fazer uma crônica que enchesse o 
mundo de magia.
 O ator 
A vida do ator é tematizada nesta crônica sob um 
aspecto que tange a peculiaridade de sua função. Ele leva 
seu trabalho tão a sério, que confunde sua vida com a de 
seu personagem, perdendondo sua própria identidade.
 O recital 
Esta crônica gira em torno da figura de um in-
vasor que tenta tocar seu instrumento musical, que é 
uma tuba (instrumento de sopro) junto com um quar-
teto de cordas e, claro, a confusão está feita.
 Siglas 
Numa comédia de moralidade política, esta crô-
nica apresenta personagens que estão preocupados 
em arrumar uma sigla para seu novo partido. Porém, 
esquecem-se de seus princípios e de suas lutas e, em 
nome de uma boa sigla para o partido, mudam seus 
ideais políticos.
 Rápido 
Estruturada em forma de diálogos, esta crônica 
de poucas palavras conta a história de vida um casal 
que se encontra, casa-se, tem filhos, viram avós e já 
estão na idade “perigosa”: a de morrer de velhice.
 O classificado através da história 
Nesta crônica, o autor faz brincadeiras com 
a própria língua e com os objetos a serem vendidos, 
como se estivessem estrtuturados em classificados de 
jornais.
89
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
16) O pai fica intimidado com o assunto so-
bre sexo, puxado pelo filho, e desconver-
sa, aproveitando a oportunidade para en-
sinar gramática ao menino.
 2. (UFSM) Assinale a alternativa em que não se 
enquadra a ficção de Luis Fernando Verissi-
mo. 
a) Enfatiza o diálogo com a exploração de dis-
curso direto não mediado pelo narrador.
b) A irreverência é uma característica frequen-
te em suas histórias.
c) Para o emprego da sátira e de outros recur-
sos do cômico, privilegia temas do tempo do 
império.
d) Utiliza o recurso de explorar diferentes e 
particulares sentidos de determinados vocá-
bulos.
e) Costuma recorrer a estratégias como o exa-
gero e a inversão da ordem lógica.
 3. (Enem PPL) DA TIMIDEZ
Ser um tímido notório é uma contradição. O 
tímido tem horror a ser notado, quanto mais 
a ser notório. Se ficou notório por ser tími-
do, então tem que se explicar. Afinal, que 
retumbante timidez é essa, que atrai tanta 
atenção? Se ficou notório apesar de ser tími-
do, talvez estivesse se enganando junto com 
os outros e sua timidez seja apenas um es-
tratagema para ser notado. Tão secreto que 
nem ele sabe. É como no paradoxo psicana-
lítico, só alguém que se acha muito superior 
procura o analista para tratar um complexo 
de inferioridade, porque só ele acha que se 
sentir inferior é doença.
[...]
O tímido tenta se convencer de que só tem 
problemas com multidões, mas isto não é 
vantagem. Para o tímido, duas pessoas são 
uma multidão. Quando não consegue escapar 
e se vê diante de uma plateia, o tímido não 
pensa nos membros da plateia como indiví-
duos. Multiplica-os por quatro, pois cada in-
divíduo tem dois olhos e dois ouvidos. Qua-
tro vias, portanto, para receber suas gafes. 
Não adianta pedir para a plateia fechar os 
olhos, ou tapar um olho e um ouvido para 
cortar o desconforto do tímido pela meta-
de. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma 
pessoa convencida de que é o centro do Uni-
verso, e que seu vexame ainda será lembrado 
quando as estrelas virarem pó.
VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler 
na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
 1. (UFSC)
— Pai…
— Hmmm? 
— Como é o feminino de sexo? [...]
— Não tem.
— Sexo não tem feminino? 
— Não. 
— Só tem sexo masculino? 
— É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. 
Masculino e feminino. 
— E como é o femininode sexo? 
— Não tem feminino. Sexo é sempre mas-
culino. 
— Mas tu mesmo disse que tem sexo mascu-
lino e feminino.
— O sexo pode ser masculino ou feminino. A 
palavra “sexo” é masculina. O sexo masculi-
no, o sexo feminino. 
— Não devia ser “a sexa”?
[...]
— A palavra é masculina. 
— Não. “A palavra” é feminino. Se fosse 
masculina seria “O pal…” 
— Chega! Vai brincar, vai. 
O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta: 
— Temos que ficar de olho nesse guri... 
— Por quê? 
— Ele só pensa em gramática. 
VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler 
na escola. Apresentação e seleção de Ana Maria 
Machado. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 53-54. 
Considerando o texto, o livro Comédias para 
se ler na escola e a biografia de seu autor, 
assinale a(s) proposição(ões) corretas(s). 
01) Ana Maria Machado, ao fazer a apresen-
tação do livro de Luis Fernando Verissi-
mo, diz que o autor tem “uma admirável 
economia no uso das palavras – tudo é 
enxuto, nada sobra” (p. 14). Essa carac-
terística do estilo do autor pode ser per-
cebida no texto acima.
02) A crônica “Sexa”, que integra a parte do 
livro intitulada “De olho na linguagem”, 
aborda um aspecto gramatical da língua 
portuguesa – a flexão de gênero – e se 
organiza em torno da confusão entre gê-
nero gramatical e sexo biológico.
04) Existe um contraste entre o título do li-
vro e o seu conteúdo, pois Verissimo, de 
forma recorrente, retrata cenas densas de 
sua infância num tom intimista, carrega-
do de saudosismo e melancolia.
08) Luis Fernando Verissimo, filho do escri-
tor gaúcho Erico Verissimo, pode ser situ-
ado na categoria de romancista, como seu 
pai.
90
Entre as estratégias de progressão textual 
presentes nesse trecho, identifica-se o em-
prego de elementos conectores. Os elemen-
tos que evidenciam noções semelhantes es-
tão destacados em: 
a) “Se ficou notório por ser tímido” e “[...] en-
tão tem que se explicar”.
b) “então tem que se explicar” e “[...] quando 
as estrelas virarem pó”. 
c) “[...] ficou notório apesar de ser tímido [...] 
e “[...] mas isto não é vantagem [...].
d) “[...] um estratagem para ser notado [...]” e 
“Tão secreto que nem ele sabe”.
e) “[...] como no paradoxo psicanalítico [...]” e 
“[...] porque só ele acha [...]”.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS TRÊS QUESTÕES 
VIVENDO E...
Eu sabia fazer pipa e hoje não sei mais. Du-
vido que se hoje pegasse uma bola de gude 
conseguisse equilibrá-la na dobra do dedo 
indicador sobre a unha do polegar, quanto 
mais jogá-la com a 1precisão que tinha quan-
do era garoto. (...)
Juntando-se as duas mãos de um determi-
nado jeito, com os polegares para dentro, e 
assoprando pelo buraquinho, tirava-se um 
silvo bonito que inclusive variava de tom 
conforme o posicionamento das mãos. Hoje 
não sei mais que jeito é esse. Eu sabia a 2fór-
mula de fazer cola caseira. Algo envolvendo 
farinha e água e 3muita confusão na cozi-
nha, de onde éramos expulsos sob ameaças. 
Hoje não sei mais. A gente começava a con-
tar depois de ver um relâmpago e 11o núme-
ro a que chegasse quando ouvia a trovoada, 
multiplicado por outro número, dava a 4dis-
tância exata do relâmpago. Não me lembro 
mais dos números. (...)
12Lembro o orgulho com que consegui, pela 
primeira vez, cuspir corretamente pelo espa-
ço adequado entre os dentes de cima e a pon-
ta da língua de modo que o cuspe ganhasse 
distância e pudesse ser mirado. Com prática, 
conseguia-se controlar a 5trajetória elíptica 
da cusparada com uma 6mínima margem de 
erro. Era 7puro instinto. Hoje o mesmo feito 
requereria 8complicados cálculos de balísti-
ca, e eu provavelmente só acertaria a frente 
da minha camisa. Outra 9habilidade perdida.
Na verdade, deve-se revisar aquela antiga 
frase. É vivendo e __________. Não falo da-
quelas 13coisas que deixamos de fazer porque 
não temos mais as condições físicas e a cora-
gem de antigamente, como subir em bonde 
andando – mesmo porque 14não há mais bon-
des andando. Falo da sabedoria desperdiça-
da, das 10artes que nos abandonaram. Algu-
mas até úteis. Quem nunca desejou ainda ter 
o cuspe certeiro de garoto para acertar em 
algum alvo contemporâneo, bem no olho, e 
depois sair correndo? Eu já.
(Luis Fernando Verissimo, Comédias para se ler na escola.) 
 4. (Fuvest) Considere as seguintes substitui-
ções propostas para diferentes trechos do 
texto:
I. “o número a que chegasse” (ref. 11) = o 
número a que alcançasse.
II. “Lembro o orgulho” (ref. 12) = Recordo-
-me do orgulho.
III. “coisas que deixamos de fazer” (ref. 13) 
= coisas que nos descartamos.
IV. “não há mais bondes” (ref. 14) = não 
existe mais bondes.
A correção gramatical está preservada ape-
nas no que foi proposto em: 
a) I.
b) II.
c) III.
d) II e IV.
e) I, III e IV.
 5. (Fuvest) Um dos contrastes entre passado e 
presente que caracterizam o desenvolvimen-
to do texto manifesta-se na oposição entre 
as seguintes expressões: 
a) “precisão” (ref. 1) / “fórmula” (ref. 2).
b) “muita confusão” (ref. 3) / “distância exa-
ta” (ref. 4).
c) “trajetória elíptica” (ref. 5) / “mínima mar-
gem de erro” (ref. 6).
d) “puro instinto” (ref. 7) / “complicados cál-
culos” (ref. 8).
e) “habilidade perdida” (ref. 9) / “artes que 
nos abandonaram” (ref. 10).
 6. (Fuvest) A palavra que o cronista omite no 
título, substituindo-a por reticências, ele a 
emprega no último parágrafo, na posição 
marcada com pontilhado. Tendo em vista o 
contexto, conclui-se que se trata da palavra: 
a) desanimando.
b) crescendo.
c) inventando.
d) brincando.
e) desaprendendo.
GABARITO
1. 01 + 02 = 03 2. C 3. C 4. B 5. D
6. E
L
OBRAS
C
O filho eterno
Obras
L C
Cristovão Tezza
93
CRISTOVÃO TEZZA
“Literatura sempre foi sentida por mim, ou por parte da minha geração, como a linguagem que não se enqua-
dra.” (Cristovão Tezza)
Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952. Em junho de 1959, morreu seu pai; dois anos depois, 
a família se mudou para Curitiba, Paraná. 
Em 1968, passou a integrar o Centro Capela de Artes Populares (Cecap), dirigido por Wilson Galvão do 
Rio Apa, com quem trabalhou até 1977. Ainda em 1968, participou da primeira peça de Denise Stoklos e, no ano 
seguinte, de duas montagens do grupo XPTO, dirigido por Ari Para-raio, sempre em Curitiba. 
Em 1970, concluiu o ensino médio no Colégio Estadual do Paraná. No ano seguinte, entrou para a Escola de 
Formação de Oficiais da Marinha Mercante (RJ), desligando-se, em agosto do mesmo ano. Em dezembro de 1974, 
foi a Portugal estudar Letras na Universidade de Coimbra, matriculado pelo Convênio Luso-Brasileiro, mas como a 
universidade estava fechada pela Revolução dos Cravos, passou um ano perambulando pela Europa. 
Em janeiro de 1977, casou-se. Em 1984, mudando-se para Florianópolis, Santa Catarina, trabalhou como 
professor de Língua Portuguesa da UFSC. Voltou a Curitiba em 1986, dando aulas na UFPR até 2009, quando se 
demitiu para dedicar-se exclusivamente à literatura.
Seus primeiros livros – os contos de A cidade inventada e os romances Gran Circo das Américas e O terroris-
ta lírico – foram publicados entre 1979 e 1981. Hoje, fora de mercado, estão disponíveis apenas em versão digital.
Em 1985, publicou o romance Ensaio da paixão, mas foi apenas em 1988, quando publicou Trapo, que seu 
nome começou a se tornar conhecido nacionalmente. Nos dez anos seguintes, publicou os romances Aventuras 
provisórias (Prêmio Petrobras de Literatura), Juliano Pavollini, A suavidade do vento, O fantasma da infância e Uma 
noite em Curitiba.
Em 1998, seu romance Breve espaço entre cor e sombra foi contemplado com o Prêmio Machado de Assis 
da Biblioteca Nacional (melhor romance do ano); e O fotógrafo, publicado em 2004, recebeu, no ano seguinte, o 
Prêmio da Academia Brasileira de Letras de melhor romance do ano e o Prêmio Bravo! de melhor obra.
Sua tese de doutorado (USP), “Entre a prosa e a poesia: Bakhtin e o formalismo russo“, foi publicada em 
2002.Também na área acadêmica, Cristovão Tezza escreveu dois livros didáticos em parceria com o linguista Carlos 
94
Alberto Faraco (Prática de texto e Oficina de texto) e há 
vários anos publica, eventualmente, resenhas e textos 
críticos em revistas e jornais. Durante um ano, assinou 
uma coluna quinzenal no “Rodapé Literário“ da Folha 
de S.Paulo. De março de 2008 a novembro de 2014 foi 
cronista do jornal curitibano Gazeta do Povo.
Em 2006, assinou contrato com a Editora Re-
cord, que começou a relançar sua obra. Em julho de 
2007, foi publicado seu novo romance, O filho eterno, 
que recebeu, em dezembro do mesmo ano, o Prêmio 
da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de 
melhor obra de ficção do ano. Em 2008, recebeu os prê-
mios Jabuti de melhor romance, Bravo! de melhor obra, 
Portugal-Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 
(1° lugar) e o Prêmio São Paulo de Literatura de melhor 
livro do ano. Em 2009, recebeu o prêmio Zaffari & Bour-
bon, da Jornada Literária de Passo Fundo, como o me-
lhor livro dos últimos dois anos. Em dezembro de 2009, 
O filho eterno foi considerado pelo jornal O Globo uma 
das dez melhores obras de ficção da década, no Brasil.
Em março de 2010, a tradução francesa de 
O filho eterno (Le fils du printemps) recebeu o prêmio 
Charles Brisset, concedido pela Associação Francesa de 
Psiquiatria. O romance foi lançado na Itália, Inglater-
ra, Portugal, França, Holanda, Espanha (em catalão), 
México, Estados Unidos, Austrália, China e Eslovênia, 
e já tem edições contratadas na Dinamarca, Noruega, 
Macedônia, Ucrânia e Sérvia.
Em 2011, a Companhia Atores de Laura, do Rio 
de Janeiro, montou uma adaptação teatral de “O filho 
eterno“, um monólogo com direção de Daniel Herz e 
atuação de Charles Fricks. A peça recebeu os prêmios 
Shell de melhor ator e de direção de movimento; APTR 
de melhor ator; e Orilaxé de melhor direção. A adapta-
ção do texto foi de Bruno Lara Resende. 
Em abril de 2012, O filho eterno entrou na lista 
dos dez finalistas do Prêmio Internacional Impac-Dublin 
de Literatura. Em dezembro de 2016, a produtora RT Fe-
atures, em parceria com a Globo Filmes e a distribuidora 
Sony, lançou “O filho eterno“, em circuito nacional, com 
direção de Paulo Machline, e com Marcos Veras, Débora 
Falabella e Pedro Vinicius nos papéis principais. Em abril 
de 2017, Cristovão Tezza começou a assinar uma coluna 
quinzenal no caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo.
O FILHO ETERNO
O romance é introduzido por duas epígrafes significati-
vas: a primeira, de Thomas Bernhard, apresenta o con-
flito entre o desejo pela descrição fiel da verdade e o re-
sultado dessa descrição; a segunda, de S. Kierkegaard, 
aponta a reflexão especular entre pai e filho, tema de 
que se ocupa o livro em suas 222 páginas: as vicissi-
tudes, o calvário e as amarras de um jovem escritor ao 
receber a notícia de que seu primeiro filho era portador 
da síndrome de Down e a peregrinação vital em torno 
desse fato até sua liberta aceitação.
S. Kierkegaard
Personagens
Os personagens da história são o pai, a mãe (que pos-
sui um certo apagamento), Felipe (o filho eterno), a 
filha e a irmã. A descrição da trajetória do pai conse-
quentemente apresenta a do filho.
95
Desde a euforia do nascimento do filho até 
saber que ele possui síndrome de Down, fato que o 
faz eternamente pai. A impossibilidade de recomeço, 
as primeiras reações como vergonha e rejeição até o 
entendimento da morte como símbolo de liberdade, 
uma vez que crianças com esta especialidade vivem 
menos.
 Pai
É o próprio escritor ficcionalizado, um homem 
das Letras que vive sustentado pela mulher. Configura-
-se como idealista, apesar de teimoso, e seu mundo 
mental é deveras imaturo. Algumas vezes, o pai é per-
sonagem introvertido, ansioso, que tem dificuldades 
para demonstrar seus sentimentos.
Um homem de 28 anos, que bebe e fuma com-
pulsivamente. Vê a solidão como um projeto de vida, 
para assim demonstrar sua aversão à sociedade, e a 
literatura como fuga da realidade.
O pai é apresentado em dois planos, o presente 
e o passado:
a. Presente: o pai é professor universitário da fa-
culdade de Letras e também é escritor. Vive as 
várias recusas das editoras e troca a poesia pela 
prosa. Com a persistência nas publicações, tem 
um princípio de reconhecimento.
b. Passado: retoma o envolvimento com drogas, 
os vandalismos da adolescência, o período que 
viveu na Europa como imigrante ilegal (Portugal 
e Alemanha), seus pensamentos anarquistas, o 
grupo de teatro e retorno a Antonina, no Paraná.
 Mãe
A mãe possui um apagamento e, segundo o 
narrado, lamenta ter dado à luz a um filho com síndro-
me de Down. Lamenta também que tenha estragado 
a vida do marido, esperando que ele diga o contrário, 
mas o mesmo não retruca aceitando.
 Filho
Felipe é o nome do filho, o único personagem 
que tem nome na narrativa. Durante toda a narrativa, 
Felipe recebe estímulos para sua evolução motora e 
mental: a esperança do pai, com isto, é aproximar o 
filho da normalidade, uma conquista que, na verdade, 
sabe que será impossível.
Segundo o narrador: “Observem os olhos, que 
tem as pregas nos cantos, e a pálpebra oblíqua... O dedo 
mindinho das mãos, arqueado para dentro... Achatamen-
to da parte posterior do crânio... A hipotonia muscular... 
A baixa implantação da orelha e...”
Segundo o pai: “(...) é uma pedra silenciosa no 
meio do caminho.”
Foco narrativo
A obra se configura em uma narrativa em terceira pes-
soa, ao invés da primeira pessoa do singular. Com esse 
expediente de foco narrativo, que é uma exceção ao 
gênero, Tezza dá uma cara diferenciada ao romance 
autobiográfico e, mesmo que os aspectos mais exacer-
bados de sua vida e sua alma estejam latentes no tex-
to, ainda continua sendo a ficção. Logo, considera-se 
uma ficcionalização da experiência pessoal ou auto-
ficção com traços intimistas e subjetividade discursiva.
O narrador invade os pensamentos do pai tes-
temunhando todos os acontecimentos de sua vida, de 
forma invisível está presente em todos os cenários da 
narrativa; assim, expõe ao leitor os sentimentos, as 
emoções e as aflições de criar um filho com necessida-
des especiais, em uma época que pouco se sabia sobre 
a síndrome. 
Quando o autor foi questionado sobre o expe-
diente, a resposta foi muito reveladora para o entendi-
mento do teto em geral.
Por que escrever o livro na terceira pessoa?
-Esse detalhe técnico foi muito importante para 
mim. Era absolutamente fundamental que eu me afas-
tasse da experiência pessoal para transformá-la em 
literatura. Ao descobrir a terceira pessoa, percebi a 
chave da narrativa, o que me deu uma liberdade ma-
ravilhosa. Claro que eu poderia escrever em primeira 
pessoa ”mantendo distância”, digamos assim. Mas 
como a experiência era muito pessoal, seria bem mais 
96
difícil; eu correria o grande risco de transformar o texto 
em confissão, o que destruiria o romance. Mas não po-
dia perder de vista a dimensão concreta daquele pai. 
Assim, ao mesmo tempo mantive algumas ”pistas” 
pessoais espalhadas pelo livro, como para lembrar o 
narrador do lastro existencial do personagem, para lhe 
dar mais carne e consistência, para o narrador saber 
exatamente de quem ele estava falando.
O personagem escreveu um livro chamado 
”Trapo”, que, por acaso, é o título de um antigo livro 
meu; o nome do seu filho é Felipe, que é o nome do 
meu filho, mas o próprio pai não tem nome; é alguém 
que ainda não encontrou o seu nome. Essa realidade 
dupla, que aparece como que num espelho meio oxi-
dado – umas partes nítidas, outras escuras e difusas, 
outras ocultas, algumas escancaradas – é uma das 
chaves narrativas do livro. No processo de transformar 
biografia em ficção, criamos uma outra percepção da 
realidade, que é, enfim, a arma da literatura.
Gostaria de me estender um pouco mais sobre 
essa terceira pessoa e a relação entre literatura e vida, oubiografia, que é uma coisa que está chamando bastante 
atenção da crítica. Sobre a fronteira entre uma coisa e 
outra está o fato de que a literatura recorta e escolhe 
apenas o que tem relevância à unidade temática propos-
ta pela narrativa, que afinal tem um começo, um meio, um 
fim e um narrador que, em cada momento, tem a visão 
completa do conjunto. A responsabilidade do narrador 
diz respeito exclusivamente a essa estrutura romanesca, 
não aos ”fatos” ou às ”verdades”. Assim, o romance tem 
uma intensidade dramática que, de fato, não existe na 
vida, que se dilui pelo tempo. Não vivemos 200 páginas; 
vivemos 50, 60, 70 anos a fio, um conjunto disparatado 
de fatos que não são ”organizados” por alguém.
Cristovão Tezza
Espaço e tempo 
O romance se desenvolve em plano linear, de 1980 a 
2006; porém, o leitor deve atentar-se para as digres-
sões que voltam aos anos de 1960 e 1970. A história 
se passa no Brasil, predominantemente em Curitiba, 
no estado do Paraná, mas também em Antonina (PR). 
A linha cronológica da narrativa se desenvolve à medi-
da que Felipe (o filho eterno) cresce, aprende a andar, 
desenvolve a fala e inicia a vida escolar.
O narrador apresenta passagens da adolescên-
cia do pai e, neste sentido, surgem as transformações 
do espaço que ocorrem juntamente com as interrup-
ções do tempo cronológico. Este expediente aparece 
sempre em que o pai reflete sobre si e sobre a própria 
vida: regredindo no tempo e no espaço. É ai que sur-
gem as digressões, que voltam no tempo e no espaço, 
como quando ele morava em Portugal ou na Alema-
nha, os trabalhos, os estudos, a infância em Santa Ca-
tarina, o grupo de teatro amador, o mestre guru e o 
primeiro amor vivido na ilha da Cotinga.
O tema, por Cristovão Tezza
Só quem tem um filho especial sabe o que quer dizer 
esse eterno. É uma eternidade laica, concreta, visceral-
mente amarrada à vida cotidiana.
Começo lentamente a me “livrar“ do roman-
ce, o que sempre acontece comigo depois de publicar 
meus livros. Com esse, esta separação está demoran-
97
do mais pelo impacto que o romance está tendo entre 
os leitores, mas felizmente já consigo vê-lo um pouco 
mais do lado de fora, digamos assim. De fato, eu te-
mia que a literatura do romance não fosse percebida, 
eclipsada pelo tema, mas isso não aconteceu. E tam-
bém a exposição pública, se O filho eterno fosse lido 
apenas como depoimento pessoal, o que também não 
aconteceu. Hoje, estou muito tranquilo quanto a isso. 
Sei que escrever é uma atividade dura, difícil, áspera – 
não temos de esperar nada de ninguém, a não ser da 
própria cabeça. Mas posso dizer que O filho eterno me 
deu uma profunda e rara alegria como escritor.
O tema do livro é naturalmente reflexivo, trans-
cende os limites do enredo, e assim obrigou a narração 
a abrir muitas comportas, desde a retomada biográfica 
do pai até as reflexões mais duras sobre a realidade 
que ele viveu. Talvez daí venha essa ideia de “liberta-
ção“ que o romance sugere.
Queremos dizer a verdade e, no entanto, não 
dizemos a verdade. Descrevemos algo buscando fideli-
dade à verdade e, no entanto, o descrito é outra coisa 
que não a verdade.
No momento em que enfim se volta para a 
cama, não há mais ninguém no quarto - só ele, a mu-
lher, a criança no colo dela. Ele não consegue olhar 
para o filho. Sim - a alma ainda está cabeceando atrás 
de uma solução, já que não pode voltar cinco minutos 
no tempo. Mas ninguém está condenado a ser o que 
é, ele descobre, como quem vê a pedra filosofal: eu 
não preciso deste filho, ele chegou a pensar, e o pen-
samento como que foi deixando-o novamente em pé, 
ainda que ele avançasse passo a passo trôpego para a 
sombra. Eu também não preciso desta mulher, ele qua-
se acrescenta, num diálogo mental sem interlocutor: 
como sempre, está sozinho.
98
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
d) Durante o tempo em que o personagem vi-
veu em Portugal, ele se aliou aos revolucio-
nários que fizeram a Revolução dos Cravos.
e) O filho eterno é uma obra na qual se pode 
acompanhar a trajetória de Tezza, não só 
como homem, em sua relação com o filho, 
mas também seu percurso como autor, que 
se revela em plena maturidade nesta obra.
 3. Sobre a obra O filho eterno, de Cristovão 
Tezza, assinale a alternativa correta.
a) A obra é um romance nacionalista, em pri-
meira pessoa.
b) O livro se apoia no relato pessoal, sempre em 
primeira pessoa.
c) O narrador da história se apoia no princípio 
lírico-poético para descrever as cenas.
d) O narrador é em terceira pessoa, sendo uma 
exceção ao gênero memórias.
 4. (UFSC) [...] Na escola especial que ele fre-
quenta todos os dias, um paciente e talen-
toso professor de arte cria números sur-
preendentes de teatro com aquele grupo 
de crianças díspares. Uma das peças é uma 
versão simplificada da “Comédia dos er-
ros“. Uma concepção original: em cena, as 
crianças dublam a própria voz, previamen-
te gravada em trechos isolados que depois 
são montados na mesma sequência. Assim, 
cada uma das frases avulsas do texto, peno-
samente praticadas pelas crianças e depois 
gravadas em sequência, são o pano de fundo 
de uma deliciosa e ingênua pantomima, que 
elas levam a cabo com comovente dedicação 
e eficiência. As crianças jamais seriam capa-
zes de memorizar aquelas falas mais longas 
– e alguns deles, como o seu menino, sequer 
conseguiriam dizer naturalmente uma fra-
se completa com uma oração subordinada e 
uma coordenada em sequência (a única es-
trutura de que ele dá conta no seu dia é o 
conjunto básico sujeito-predicado, nessa or-
dem, e jamais em voz passiva). 
TEZZA, Cristovão. O filho eterno. 8. ed. 
Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 187.
Considerando a obra O filho eterno e o frag-
mento acima, é correto afirmar que: 
01) o autor escreve na terceira pessoa, recur-
so estilístico que lhe permite um certo 
distanciamento da esfera emocional, pois 
lança um olhar de fora sobre os fatos de 
sua vida. Assim, ao mesmo tempo em que 
o protagonista representa o próprio au-
tor, também não deixa de ser uma perso-
nagem de ficção – o pai no papel de anti-
-herói –, o que dá ao romance um cunho 
autobiográfico. 
 1. Leia atentamente o trecho a seguir, retirado 
do livro O filho eterno, de Cristovão Tezza, e 
marque a única alternativa incorreta.
Escrever: fingir que não está acontecendo 
nada, e escrever. Refugiado nesse silêncio, 
ele voltava à literatura, à maneira de anti-
gamente. Uma roda de amigos – o retorno a 
tribo – e ele lê em voz alta o capítulo quatro 
do Ensaio da paixão, que continua a escrever 
para esquecer o resto.
Ler em voz alta: um ritual que jamais repe-
tiu na vida. Naquele momento, ouvir a pró-
pria voz e rir de seus próprios achados, com 
a plateia exata, é um bálsamo. E ele escreve 
de outras coisas, não de seu filho ou de sua 
vida – em nenhum momento, ao longo de 
mais de vinte anos, a síndrome de Down en-
trará em seu texto. Esse é um problema seu, 
ele repete, não dos outros, e você terá que 
resolvê-lo sozinho.
(TEZZA, Cristovão. O filho eterno. Rio de 
Janeiro: Record, 2009, p. 63)
a) O narrador em terceira pessoa é um recurso 
utilizado pelo autor que facilita o distancia-
mento e mantém o narrador afastado do sen-
timentalismo, já que o livro tem forte cunho 
autobiográfico.
b) Ao narrar a história do filho com síndrome de 
Down, Cristovão Tezza abandona a ficção para 
construir uma autobiografia, na qual todos os 
fatos narrados realmente aconteceram.
c) O filho eterno é um romance muito premiado, 
reconhecido pela crítica, de modo geral, já 
como um clássico, embora tenha sido publi-
cado há pouco tempo.
d) Embora a narrativa seja em terceira pessoa, o 
narrador, diversas vezes, parece penetrar na 
mente do personagem “pai”, aproximando-se 
da narração em primeira pessoa, embora per-
sonagem e narrador nunca se confundam.
e) O texto dialoga frequentemente com as várias 
artes e também há várias referênciasa outras 
obras de Tezza, como acontece no trecho se-
lecionado.
 2. Assinale a única alternativa correta sobre 
O filho eterno, de Cristovão Tezza.
a) Este foi o primeiro livro de Cristovão Tezza 
a ter Curitiba como espaço. Em todos os ou-
tros, a ação acontece em uma cidade de San-
ta Catarina, onde o escritor nasceu.
b) A leitura do romance remete o leitor ao pro-
cesso de autoajuda, claramente identificado 
pelas explicações dadas pelo personagem 
“pai” sobre a síndrome de Down.
c) Na narrativa, as figuras da mãe e da irmã 
desviam o foco narrativo da relação pai e 
filho, ganhando peso na história que se de-
senvolve no núcleo familiar.
99
02) o texto busca destacar a extrema dificul-
dade de inclusão de crianças especiais e a 
impossibilidade de levá-las a desenvolver 
atividades mais elaboradas e que requei-
ram bom desempenho verbal, como o te-
atro. 
04) segundo o texto, o filho do protagonista 
seria incapaz de produzir a frase “Pai, eu 
quero que você fique aqui comigo e veja 
a nossa peça” ou a frase “Ontem eu fui 
convidado pra ir numa festinha de ani-
versário”. 
08) o uso do recurso da dublagem e a esco-
lha de um texto adaptado, “Comédia dos 
erros“, revelam, por parte do professor, 
respectivamente, criatividade para aju-
dar seus alunos a superar dificuldades e 
confiança nas potencialidades das crian-
ças especiais. 
16) essa passagem, relatando as atividades 
de teatro na escola frequentada por Fe-
lipe, é emblemática da visão alienada do 
protagonista, que vive num mundo intei-
ramente fantasioso, onde cartuns cômi-
cos se alternam com cenas dramáticas. 
É nesse plano irreal que se projetam, ao 
longo do livro, conflitos entre casais, por 
um lado, e entre pais e filhos, por outro. 
GABARITO
1. B 2. E 3. D 4. 01 + 04 + 08 = 13
L
OBRAS
C
Vozes anoitecidas
Obras
L C
Mia Couto
103
MIA COUTO
“Sou um escritor africano, branco e de língua portuguesa. Porque o idioma estabelece o meu territó-
rio preferencial de mestiçagem, o lugar de reinvenção de mim. Necessito inscrever na língua do meu 
lado português a marca da minha individualidade africana. Necessito tecer um tecido africano e só o 
sei fazer usando panos e linhas europeias. O gesto de bordar me ensina que estou inventando uma 
outra ordem e nessa ordem esses valores iniciais de nacionalidade já pouco importam.” (Mia Couto)
O autor Mia Couto é africano e nasceu em Beira, Moçambique, no ano de 1955. Filho de portugueses que emi-
graram para Moçambique em meados do século XX, Mia nasceu e foi escolarizado em Beira. Além de um exímio 
escritor, é laureado em Biologia e Jornalismo. É filho do jornalista e escritor Fernando Couto. Começou a escrever 
muito cedo, com 14 anos. O exemplo paterno motivou-o para as primeiras produções literárias e, mais tarde, para 
o jornalismo. Depois, descubriu a sua vocação na crônica e no conto. Desde a estreia do primeiro livro de poemas 
Raiz de orvalho (1983), impôs-se como um dos escritores mais dotados da nova geração. Publicou uma seleção 
de crônicas com o título Cronicando, ganhando o Prêmio Anual da Crônica, em seu país. Em 1992, foi publicada a 
obra Terra sonâmbula, que é um romance sobre os efeitos da guerra e a devastação da paisagem natural e humana. 
José Eduardo Agualusa e Germano de Almeida são os escritores da nova geração que podemos comparar com Mia 
Couto, em quantidade de obra e reconhecimento internacional. 
O estilo do escritor é inovador porque introduz elementos, expressões e léxico que não são característicos 
dos outros autores. Desde a infância, conheceu diversos grupos étnicos em Moçambique, de maneira que pôde 
contar as histórias do seu povo. Na narrativa, o autor intenta mostrar as culturas que fazem parte do mosaico étnico 
de Moçambique.
A linguagem literária de Mia Couto é tocada pela oralidade e cheia de neologismos, de aglutinação, de 
prefixação e de outros modos de recriação do léxico.
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Destaca-se mundialmente como escritor, autor 
de mais de 30 livros, entre prosa e poesia. Seu romance 
Terra sonâmbula é considerado pela crítica um dos dez 
melhores livros africanos do século XX. Recebeu uma 
série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões 
de 2013, o mais prestigioso da língua portuguesa, e o 
Neustadt Prize de 2014. É membro correspondente da 
Academia Brasileira de Letras.
Mia Couto é o escritor moçambicano mais tra-
duzido. Em suas obras, recria a língua portuguesa com 
influência moçambicana, utilizando o léxico de várias 
regiões do país e produzindo um modelo peculiar de 
narrativa africana.
Contexto histórico
A maioria dos contos da coletânea mostra persona-
gens passando por dificuldades e problemas sociais, 
questões que incomodavam Mia Couto, uma vez que 
na época em que o livro foi escrito, o país passava pela 
guerra civil e a população sofria com isso.
Soldados da Frelimo durante a guerra civil em Moçambique
Numa Moçambique devastada pela guerra, o 
cenário que se tem é o da devastação por conflitos 
armados sequenciais. O processo de independência 
ocorreu de 1965 a 1975, em que a batalha se deu 
contra o domínio português. 
Na sequência da recente independência e da 
liberdade conquistada frente ao domínio de Portugal, 
em 1975, dois partidos começam a conflitar pelo poder 
local: de um lado, o Renamo, e de outro, o Frelimo. 
Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolo-
nial (1965-1975), o país do sudeste africano viu-se às 
voltas com um longo e sangrento conflito interno que 
se estendeu de 1976 a 1992. Este estado de coisas fez 
milhares de vítimas e arrasou o país. 
A obra Vozes anoitecidas é também um reco-
nhecimento das marcas da cultura moçambicana. A 
guerra civil em Moçambique é o cenário da maioria 
dos contos, que têm um sentido trágico, cujo fim é a 
morte. Isso se particulariza nas histórias pessoais de 
cada uma das personagens e suas desventuras.
VOZES ANOITECIDAS
“O que mais dói na miséria é a ignorância que ela 
tem de si mesma. Confrontados com a ausência 
de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desar-
mando-se do desejo de serem outros. Existem no 
nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida 
e anoitecer as vozes.”
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A obra é composta por uma coletânea de contos do 
moçambicano Mia Couto, escrita no ano de 1987 e 
publicada no Brasil só em 2013. O livro foi vencedor 
de alguns importantes prêmios da literatura mundial, 
tais como o Prêmio Camões, e reúne doze pequenos 
contos. Vozes anoitecidas foi o livro de estreia de Mia 
Couto na prosa, apesar de, antes disso, já atuar como 
escritor – era jornalista e escrevia poemas. Já era um 
poeta moçambicano com muito renome.
A obra Vozes anoitecidas, em todo seu lirismo, 
pode ser interpretada como a voz daqueles que não a 
tem. Na maioria dos contos, a temática proposta gira 
em torno da relação entre o sexo feminino, que é exal-
tado, e o masculino, que é criticado, claro, em função 
da sua violência.
Outra característica presente e que deve rece-
ber atenção especial para uma melhor interpretação 
será o abandono da delimitação clara de onde está 
a realidade e a imaginação. Este aspecto traz para as 
alegorias valorosas doses interpretativas, pensando 
que uma obra realista, que abrange uma dolorosa re-
alidade local, por vezes se permite sonhar com a ima-
ginação. Segundo Mia Couto, “para um leitor europeu, 
a referência a um homem que, de noite, se transmuta 
em hiena pode ser do domínio do fantástico. Mas para 
um moçambicano rural (e para a maioria dos urbanos), 
esse detalhe é da ordem do natural”.
Diferentemente das obras posteriores do escri-
tor Mia Couto, Vozes anoitecidas não abrange muito a 
área dos neologismos (apesar de possuir neologismos 
que devem receber atenção especial do estudante), ou 
seja, da criação de palavras que dão um tom lírico, po-
ético, apesar de carregar sensibilidade lírica em outros 
aspectos, sobretudo a temática de desenvolvimento 
das tramas.
EstruturaA obra está dividida em doze contos. A narrativa crua 
e poética de Mia Couto já pode ser observada nesses 
pequenos contos, que valorizam o folclore e a oralida-
de de Moçambique, através de personagens fortes e 
enigmáticos. Em toda a obra, entrelaçam-se episódios 
fantásticos, trágicos e humorísticos que incluem per-
sonagens interessantes representativos da sociedade 
moçambicana.
Linguagem
A língua utilizada pelo autor na escrita dos contos é 
uma forma de nos informar sobre a constante crise que 
a sociedade moçambicana vive, através das histórias 
trágicas do seu cotidiano. Porém, a língua é um dos 
meios escolhidos pelo autor para recuperar as marcas 
culturais da oralidade da sociedade tradicional, a visão 
do mundo mítica e o onirismo, ou seja, a relação entre 
o homem, a natureza e a comunidade. A língua é um 
sistema em constante mudança e parece que Mia Cou-
to sabe aproveitar tudo o que ela oferece com tanta 
facilidade. Comum também é a recriação literária dos 
falares populares, uma característica que o aproxima 
do escritor Guimarães Rosa. 
Nos doze contos da obra Vozes anoitecidas, o 
autor utiliza a tradição africana, a oralidade, uma lin-
guagem coloquial cheia de inovações linguísticas e os 
traços do fantástico para retratar os problemas cotidia-
nos do povo moçambicano. Usando o humor, o escritor 
revela os acontecimentos mais trágicos daqueles que 
sofrem pela miséria e pobreza e que têm muitas difi-
culdades no dia a dia. Além disso, usa ironia e humor 
negro para criticar a sociedade, a guerra civil e a ideo-
logia política do país.
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Contos
 A fogueira
Mostra um senhor cavando a sepultura de sua 
velha esposa, ainda viva. A ideia central se apresenta 
com a figura da mulher submissa, apesar do marido 
se preocupar com o fato de que não queria deixar a 
esposa sofrer, no caso de ele morrer antes. Ao final, 
não morreu a mulher, mas faleceu o marido. Na obra 
de Mia Couto, a única coisa certa na vida do casal é 
a morte. 
— Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém 
não temos. É melhor começar já a abrir tua cova, 
mulher.
A mulher comovida, sorriu:
— Como és bom marido! Tive sorte no homem da 
minha vida.
Durante duas semanas, o velho dedicou-se ao bura-
co. Quanto mais perto do fim, mais se demorava. Foi 
de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia 
de água, parecia um charco sem respeito. O velho 
amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.
 O último aviso do corvo falador
Surge uma mostra de realismo mágico, uma das 
marcas registradas do escritor Mia Couto. Neste conto, 
o mito se instala no processo narrativo sem nenhuma 
surpresa. O pintor Zuzé, após um acesso de tosse, cos-
pe um corvo, animal este muito especial oriundo da 
fronteira da vida e capaz de fornecer informações so-
bre os mortos através de seu crocito. As pessoas acre-
ditavam que Zuzé era detentor de poderes mágicos. Ele 
prestava consultas a toda gente e previa-lhes o futuro. 
Certa vez, no seu consultório chegou a dona Cândida 
(mulher mulata e esposa de Sulemane, que era comer-
ciante indiano). Também era viúva de um negro que 
se chamava Evaristo. Zuzé disse à dona Cândida que 
trouxesse as roupas de Sulemane. Zuzé queria con-
seguir novas roupas e não resistiu e vestiu as roupas 
entregues, mas Sulemane soube que Zuzé tomou o seu 
vestuário e o encontro dos dois resultou em agressão 
física. O corvo foi morto. Após isso, Zuzé faz algumas 
profecias sobre o que aconteceria a Sulemane. Zuzé 
previu uma praga na cidade e decidiu abandonar a re-
gião, e todos seguiram o exemplo. 
Foi ali, no meio da praça, cheio da gente bichando 
na cantina. Zuzé Paraza, pintor reformado, cuspiu 
migalhas do cigarro “mata-ratos”. Depois, tossiu 
sacudindo a magreza do seu todo corpo. Então, 
assim contam os que viram, ele vomitou um corvo 
vivo.
A notícia, como um relâmpago, correu a povoação. 
Afinal, esse Zuzé! Era mesmo, o gajo. Dono de bru-
xezas, realmente. No dia seguinte, todos levanta-
ram cedo. Correram à casa de Zuzé Paraza. Todos 
queriam ver o pintor, todos queriam-lhe pedir favor, 
encomendar felicidades.
 O dia em que explodiu Mabata-bata
Narrativa que começa com fatos aparentemen-
te inconcebíveis para a lógica racional (de um boi que 
explode) e que quando ganham status de realidade ve-
rossímil e explicável, imediatamente se tornam surre-
ais. Mabata-bata era o boi mais forte da manada sob a 
responsabilidade de Azarias, um jovem pastor que era 
órfão e vivia com o tio Raul e a avó Carolina.
Certo dia, o Mabata-bata pisou numa mina, 
que explodiu, e ele morreu. Já que Azarias não regres-
sava com os bois, a avó Carolina ficou muito preocu-
pada. Seu tio decidiu ir procurá-lo, porém Carolina não 
queria que ele fosse, pois os soldados haviam dito que 
a região estava cheia de minas. Conseguiram localizar 
Azarias e muito prometeram-lhe um prêmio que es-
colhesse: ele disse que queria ir à escola no próximo 
ano e seu tio Raul aceitou. Porém, finda a conversa, 
Azarias, de igual modo, acionou uma mina e morreu. 
 Os pássaros de Deus
Narrativa de fundo analítico sobre as linhas que 
separam a crença da religião e da loucura. A história 
narra o encontro de Ernesto Timba com um pássaro 
e os devotados cuidados que ele começa a ter para 
com a criatura. Certa vez, Ernesto salvou uma ave 
ajudando-a a retomar voo. Porém, a ave sempre re-
gressava ao barco dele, que achava ser um sinal de 
Deus. Levou-o para casa, deu a ele o peixe que havia 
pescado. A mulher achava que ele estava louco. O pás-
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saro engordava e fica só. Ernesto pediu a Deus que 
enviasse uma companheira para a ave solitária. Com o 
tempo, tiveram crias e Ernesto cuidava mais das aves 
do que da própria família. A mulher abandonou o lar 
e levou os filhos com ela. As pessoas achavam que era 
louco. Numa tarde, encontrou as aves mortas: haviam 
sido queimadas pelo fogo. Chorando, pediu a Deus que 
não castigasse ninguém porque ele queria entregar-se 
em nome da comunidade. Dias depois, foi encontrado 
morto com o seu corpo na superfície do rio.
Desculpa: mais peregrino que o rio não conheço. As 
ondas vão, vão nessa ida sem fim. Há quanto tempo 
a água tem esse serviço? Sozinho sobre a velha ca-
noa, Ernesto Timba media a sua vida.
 De como se vazou a vida de Ascolino do 
Perpétuo Socorro
Este conto narra as peripécias de um português 
que vai ao bar todos os dias, montado na bicicleta que 
seu empregado vai pedalando. Até que um dia, ao re-
tornar para casa de uma de suas bebedeiras, descobre 
que sua mulher o abandonou, e parte em seu encalço. 
No bar, Ascolino contava aos amigos sobre os aconte-
cimentos da sua vida.
Houvesse ou não visitas, repetia-se o ritual. Vasco 
João Joãoquinho, fiel e dedicado empregado, surgia 
da sombra das mangueiras. Fardava caqui, balalaica 
e calção engomado. Aproximava-se trazendo uma 
bicicleta. Ascolino Fernandes, protocolar, inclinava-
-se perante ausentes e presentes. O empregado en-
tregava-lhe uma pequena almofada que ele ajeitava 
no quadro da bicicleta. Acomodava-se, com cuidado 
de não manchar as calças na corrente. Ultimados os 
preparos, Vasco João Joãoquinho montava no selim 
e, com um puxão vigoroso, dava início ao desfile.
 Afinal, Carlota Gentina não chegou de 
voar?
O marido de Carlota Gentina já está na prisão 
há seis anos e o conto gira em torno de seu relato 
confessional sobre o assassinato de sua esposa. Para 
explicar o motivo pelo qual matou sua mulher, conta a 
história do seu cunhado Bartolomeu, que achava que a 
mulher dele era feiticeira porque uma noite deu um gri-
to de animal. Então, o marido de Carlota queria testar 
se Carlota era animal e deveria submetê-la a um sofri-
mento profundo. Decidiu derramar no corpo de Carlota 
água fervente. Curiosamente, ela não gritou e não fez 
nada. Apenas chorou baixinho. Quando trouxe Carlota 
para fora de casa, viu que ela tinha morrido e concluiu 
que era um pássaro, e depois ficava sonhandocom ela.
Em seus sonhos, ela cantava e ele viu a própria 
morte confessando que era culpado pelo crime. Barto-
lomeu era consciente de seu engano, por isso entre-
gou-se à polícia. Bartolomeu foi à prisão e contou-lhe 
tudo como se passou. A mulher de Bartolomeu não era 
animal e isso ele confirmou muitas vezes. Nem “gati-
nhava”, nem “passarinhava”, nada: era pessoa. E se a 
irmã de Carlota não era animal, Carlota também não 
podia ser.
 Saíde, o Lata de Água
O conto é uma metáfora crítica à violência con-
tra a mulher. Um dos mais poéticos contos do conjunto 
da obra. O personagem principal do conto é Saíde: um 
homem infértil. Em função disso, ele fez um contrato 
com a mulher Júlia que outro homem ia engravidá-la. 
Só queria ter um filho com ela, nada mais, e não impor-
tava quem seria o pai da criança.
Às noites, Júlia saía e voltava muito tarde, de 
forma que engravidou. Saíde festejou a notícia, mas 
queria saber o nome do pai. Fazia parte do contrato o 
fato de que Saíde nunca perguntaria sobre a paterni-
dade do filho. Na vizinhança, ninguém desconfiava da 
identidade do pai. Saíde, às vezes, gostava do filho e, 
às vezes, lhe parecia como um intruso na sua vida. A 
vida se tornou difícil, então bebia muito e batia na mu-
lher. Certa vez, Júlia foi-se embora e Saíde fingia todas 
as noites bater nela. Queria que os vizinhos pensassem 
que a família permaneceu intacta, porque se sentia 
envergonhado da partida da mulher. Apesar disso, foi 
descoberto uma noite pelo chefe do quarteirão, Severi-
no, que decidiu guardar o segredo de Saíde.
 As baleias de Quissico
A história deste conto é ligeiramente parecida 
com “O dia em que explodiu Mabata-bata”. Aqui tam-
bém surge a estranha inversão entre o real e o fan-
tástico, onde o mágico é mais plausível e o real (pelo 
contesto de guerra), incrível. A personagem Bento João 
Mussavele imagina que existem as baleias salvadoras 
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que vão salvar a população da pobreza. Conforme um 
jornalista tratava-se de um peixe grande que aparecia 
à noite na praia e as pessoas chegavam e pediam vá-
rias coisas, especialmente comida. Porém, tudo isto era 
uma fantasia. O povo de lá estava com muita fome e, 
por isso, inventava esses aparecimentos. Bento decidiu 
perguntar aos sábios do bairro sobre o assunto.
O preto Agostinho disse que a baleia não era 
peixe, mas um mamífero, e esse papo não convenceu 
Bento. Falou também com o senhor Almeida sem su-
cesso. Nesse momento, Bento decidiu viajar para a 
costa do Quissico. Chegou às casas abandonadas da 
praia e instalou-se numa delas. Finalmente, numa noite 
acordou e saiu de casa completamente nu, entrando 
na água. Pensava que tinha ouvido a baleia chamar 
por ele. Mas era só um sonho.
 De como o velho Jossias foi salvo das águas
Estória mítica sobre os ciclos de seca e enchen-
tes e o destino do intitulado Jossias atrelado a eles. O 
Agosto e o velho Jossias estavam à espera da chuva. 
Recordavam a grande fome que ocorrera há vinte anos, 
bem como das cerimônias para pedir a chuva. Porém, 
nenhuma gota de chuva caiu e os velhos insistiram a 
tal ponto que conversaram com os mortos no cemité-
rio. Jossias queria levar as panelas do ngovo – aguar-
dente de milho para os mortos.
No caminho, começou a beber e perdeu a ra-
zão sem restar quase nada. Para esconder o que tinha 
feito, encheu as panelas com a água estagnada de um 
poço abandonado. No momento em que descia pelas 
paredes do velho poço, as mesmas caíram sobre ele. 
Imaginou, então, que ninguém o iria encontrar. Mas, 
de repente, Deus mandou chuva. A água crescia e toda 
a terra foi inundada. No instante em que apareceu um 
barco com dois pretos e um branco. Jossias hesitava 
porque esse barco não podia salvá-lo da desgraça na 
vida, só na morte. Preferia morrer ali, perto da sua casa 
e terra. Finalmente, os homens salvaram-no e ele agar-
rou-se com a velha manta bebendo chá quente.
 A história dos aparecidos
O aparecimento de desaparecidos tira do eixo 
toda uma aldeia, que entra em debate para decidir se 
os recém-chegados estariam vivos ou mortos, estopim 
em que se desvelam escusas administrações governa-
mentais. Crítica indireta aos governantes corruptos. O 
debate decidiria se Luís Fernando e Aníbal Mucavel 
estavam mortos ou vivos. As águas levaram a aldeia 
inteira e não ficou nada no lugar. Salvaram-se muitos 
e alguns desapareceram, entre os quais estavam Luís e 
Aníbal. Eles morreram dentro da água, até que numa 
uma tarde apareceram outra vez.
Os vivos estavam muito assustados com a che-
gada deles e chamaram a polícia. Não havia lugar 
para os mortos de regresso imprevisto. Luís e Aníbal 
tornaram-se o assunto e tinham de ir às autoridades 
para explicarem a sua situação. Um homem disse-lhes 
que eram apenas almas, e não a realidade materialista 
como os outros habitantes. Nesse caso, eles decidiram 
queixar-se a uma comissão que trabalhou durante dois 
dias. Em seguida, convocaram uma assembleia geral 
dos aldeões em que o chefe da comissão anunciou que 
os aparecidos devessem ser considerados vivos. Mas 
não deveriam repetir essa saída da aldeia ou da vida.
É uma verdade: os mortos não devem aparecer, sal-
tar a fronteira do mundo deles. Só vêm desorgani-
zar a nossa tristeza. Já sabemos com certeza: o tal 
desapareceu. Consolamos as viúvas, as lágrimas já 
deitamos, completas.
 A menina de futuro torcido
Misto de ingenuidade e obsessão do Joseldo 
Bastante, que acaba por encaminhar sua filha, a Fi-
lomeninha para um fim trágico. Joseldo Bastante era 
um mecânico da pequena vila. Viajava e procurava ma-
neiras para solucionar a sua vida e ganhar dinheiro. 
Chegaram à cidade notícias de um jovem que conse-
guia revirar o corpo como se fosse uma cobra. Todos 
queriam vê-lo e tornou-se muito rico, foi até contrata-
do por um empresário. Em função disso, Joseldo, que 
tinha doze filhos, resolveu que Filomeninha deveria ser 
contorcionista.
A partir desse momento, o pai treinava a sua 
filha a curvar, e ela iniciou as ginásticas, apesar de evo-
luir lentamente. Pela manhã, regava-a com água quen-
te para os ossos dela ficarem adaptáveis. A menina 
estava toda torcida para trás e queixava-se de dores, 
todavia o pai não parava. Desejava todos os dias que 
o empresário passasse pela vila. Enquanto isso, Filo-
meninha piorava, já quase não andava e começou a 
vomitar. Numa tarde, chegou o empresário à cidade e 
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a menina queixava-se do frio e nem o vestido largo po-
dia esconder as estremeções dela. O empresário disse-
-lhes que não lhe interessava o contorcionismo porque 
já o tinha visto e não provocava sensação.
Naquele momento, lhe interessavam os ti-
pos com dentes de aço, que podiam roer madeira e 
mastigar pregos. Quando voltaram no comboio, o pai 
abanou o braço da filha e foi então que o corpo de 
Filomeninha caiu torcido no colo do pai.
 Patanhoca, o cobreiro apaixonado
Uma narrativa hermética em que se misturam 
os mais diversos temas: da eutanásia à xenofobia. A 
história é de Mississe, uma viúva chinesa misteriosa e 
muito triste. Ela bebia álcool e, durante as noites, gri-
tava e chorava. Patanhoca foi chamado, o mecânico 
de serpentes, porque agarrava as cobras e, como era 
feio, sempre escondia a sua cara. Apaixonou-se pela 
dona Mississe, porém tinha vergonha de mostrar o seu 
corpo. Também, Patanhoca usava as cobras para a fe-
char. Tinha medo de que ela fugisse com outro homem. 
Só Patanhoca podia afastar as serpentes e permitir a 
entrada e saída das pessoas de casa.
Na noite do dia seguinte, Mississe pediu-lhe 
que entrasse e ficasse com ela. Assim, eles passaram 
a morar juntos e tiveram dois filhos. Infelizmente, uma 
vez Patanhoca estava bêbado e perdeu o controle das 
cobras, que picaram os seus filhos. A perda dos filhos 
era demais para Mississe e ela decidiu abandoná-lo 
mudando-se para o subúrbio da cidade. Mississe re-
jeitava todos os novos pretendentese nunca superou 
esta perda. Na última noite, Mississe convidou o João 
(esta era a maneira que ela o chamava) para beber 
vinho com ela. Intentava seduzir e embeber o Pata-
nhoca e conseguiu mais uma vez, o cobreiro perdeu o 
controle das cobras e Mississe morreu.
110
APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS
 5. O que a personagem do empresário, no con-
to “A menina de futuro torcido”, justificou 
para não contratar o show da menina contor-
cida?
a) Procurava mais um homem, e não uma mu-
lher para a função.
b) Não trabalhava mais no ramo do circo.
c) Não gostou da maneira com que a garota se 
contorcia.
d) Procurava tipos com dentes de aço que po-
diam roer madeira e mastigar pregos.
e) Alegou não ter dinheiro suficiente para ter o 
serviço daquele colosso do contorcionismo.
GABARITO
1. B 2. C 3. E 4 E 5. D
 1. Leia o trecho de Vozes anoitecidas, de Mia 
Couto.
É uma verdade: os mortos não devem apa-
recer, saltar a fronteira do mundo deles. Só 
vêm desorganizar a nossa tristeza. Já sabe-
mos com certeza: o tal desapareceu. Conso-
lamos as viúvas, as lágrimas já deitamos, 
completas.
(A história dos aparecidos)
Este trecho refere-se à(ao):
a) surgimento de uma nova vida na aldeia.
b) aparecimento de Luís e Aníbal.
c) retorno de Jossias.
d) morte de Mississe.
e) reinício da guerra civil.
 2. Sobre a obra Vozes anoitecidas, responda o 
motivo pelo qual o conto ”Saíde, o Lata de 
Água” é uma metáfora da violência contra a 
mulher.
a) Saíde cavou uma cova para Júlia.
b) Saíde engravidou forçosamente Júlia.
c) Saíde batia em Júlia.
d) Saíde afogou cruelmente Júlia.
e) Saíde maldizia Júlia para os vizinhos.
 3. O destino de Azarias no conto “O dia em que 
explodiu Mabata-bata”, de Vozes anoiteci-
das, revela o que sobre o contexto de Mo-
çambique?
a) A relação entre a população carente e os po-
líticos corruptos.
b) A falta de recursos hídricos que levaram 
Azarias à morte.
c) Ser deputado foi honra de seu trabalho duro 
pelo povo de Moçambique.
d) A mina detonada levou Azarias e seu animal 
à morte.
e) A reforma política levou Azarias para longe 
da família.
 4. Qual o motivo pelo qual as pessoas acredita-
vam que a personagem de Zuzé, do conto “O 
último aviso do corvo falador”, era detentor 
de poderes mágicos?
a) Tinha o poder de conversar com animais.
b) Conseguia ver o passado das pessoas.
c) Sobreviveu a uma terrível praga.
d) Voava como um corvo.
e) Vomitou um corvo vivo.

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