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que divergem das metas inicialmente colocadas. No entanto, essa distinção é um 
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equívoco, segundo a autora, pois as “circunstâncias” são, na verdade, parte da 
proposta em ação: elas não são externas, não são objetos mortos. São, na 
verdade, o contexto e o campo de ação da vida dos sujeitos, a estrutura social e 
formas de pensamento nas quais eles se movem. Quando as pessoas tem 
determinadas metas, diz Heller, o campo de determinação causal não é apenas o 
da orientação rumo a seu escopo, mas o conjunto das demais objetivações que, a 
partir da ação, desencadeiam novas séries causais. 
Recuperando a expressão de Marx, segundo quem “a história é a substância da 
sociedade”, Heller lembra que a sociedade não tem substância alguma, a não ser 
os seres humanos em relações: são eles os realizadores que se objetivam em 
instituições e estrutura sociais. A essência humana é histórica e a substância 
humana é sua própria história: “o decurso da história é o processo de construção 
dos valores ou da degenerescência desse ou daquele valor”, diz Heller (2000: 4). 
E o que se entende por valor? Valor é tudo aquilo que faz parte do ser humano 
genérico e contribui, direta ou indiretamente, para a explicação deste ser genérico. 
Mas os homens e as mulheres jamais escolhem valores, assim como jamais 
escolhem o bem ou a felicidade. Escolhem, sim, idéias concretas, finalidades 
concretas, alternativas concretas. Seus atos concretos de escolhas estão, 
naturalmente, relacionados com sua atitude valorativa geral, assim como seus 
juízos estão relacionados à sua imagem de mundo (Heller, 2000). 
Heller diz que os componentes essenciais dos seres humanos em relação são: 
trabalho enquanto objetivação; sociabilidade, universalidade, consciência e 
liberdade. Considera-se valor aquilo que, em qualquer das esferas de produção, 
de relação de propriedade, da estrutura política, da vida cotidiana, da moral, da 
ciência e da arte e em relação com a situação de cada momento, contribua para o 
enriquecimento dessas esferas essenciais da existência. Desvalor seria tudo o 
que direta ou indiretamente rebaixe ou inverta o nível alcançado do 
desenvolvimento de um determinado componente essencial. “O valor é, portanto, 
uma categoria ontológico-social e algo objetivo: mas sua objetividade é social. Por 
outro lado, ele é independente da avaliação dos indivíduos, pois seu lócus de 
expressão são as relações e as situações sociais” (Heller, 2000; 7). 
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Desta forma, não há atividade moral autônoma: a moral é uma relação entre 
atividades humanas. Ao exercê-las, as pessoas fazem uma articulação entre a 
peculiaridade do valor vivenciado por elas e a universalidade humana. Basta 
pensar nos valores mais antigos e persistentes como honradez, justiça e coragem 
para se ter certeza de que eles foram sempre, como normas, usos ou idéias, 
meios da elevação da particularidade ao mais genericamente humano. 
Os valores morais têm um caráter extremamente complexo. Por exemplo, a 
liberdade é uma categoria central da ética moderna. No entanto, nem sempre foi 
assim: houve um tempo em que o valor central foi a felicidade. A liberdade atingiu 
este status quando tornou-se importante na própria realidade histórica, 
significando um crescimento da consciência social sobre o valor do indivíduo 
responsável por si e capaz de dispor de si mesmo e de sua vida. 
Esse crescimento tornou-se real e objetivo, embora, para muitos continue como 
valor abstrato ou mera potencialidade. Heller diz também “que a história é história 
de valores de esferas heterogêneas” (2000: 7), pois uma esfera pode explicitar a 
essência em um sentido, ao passo que outra a impede ou influencie sua 
desvalorização. Ela exemplifica sua reflexão, evidenciando que o desenvolvimento 
da sociedade atual orienta-se, ao mesmo tempo, para a construção de 
personalidades mais autoconscientes e, contraditoriamente, cria pessoas mais 
solitárias, sem base comunitária, e submissas à manipulação de grandes 
mecanismos sociais. Estas contradições evidenciam desvalorizações objetivas 
que ocorrem no curso do mesmo processo histórico. 
Mas, diz Heller, não se pode resumir a explicitação de valores ao campo moral, 
pois alguém poderia objetar que atualmente as pessoas não são nem melhores e 
nem mais felizes que no passado. “Por isso não podemos reduzir o conceito de 
valor ao de valor moral, nem esse aos conceitos de bondade e de felicidade; e 
nem podemos identificar o desenvolvimento dos valores com a totalidade dos 
valores que efetivamente funcionam numa época determinada” (Heller, 2000: 8). 
Uma das idéias mais fortes do pensamento de Heller é a que reafirma ser 
impossível a anulação de um valor, uma vez que ele tenha se tornado real na 
sociedade, em qualquer das esferas de construção humana. Isso quer dizer que, 
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quando a humanidade consegue dar um passo importante na sua sociabilidade, 
na sua objetivação, rumo à liberdade ou à universalização de direitos, ela poderá 
até retroceder, mas vai anular suas conquistas. Se um valor alcançado passa a 
ser fraco, ele perde altura, mas continua a existir pelo menos como possibilidade. 
Portanto, a realização de valores é uma conquista absoluta e a perda de valores 
construídos será sempre relativa. 
A formação de valores no espaço social e institucional não pode ser tratada 
somente como uma estratégia pedagógica de imposição, nem tampouco pode ser 
trabalhada de modo esfacelado e separado dos demais conteúdos, relações e 
ações (Bertussi, 1998). O processo de intervenção social deve integrar o conjunto 
de experiências vividas pelos indivíduos em todos os âmbitos de sua experiência 
existencial. Por isso, atuar em projetos sociais significa potencializar mudanças 
nas esferas essenciais em direção dos valores universais de desenvolvimento 
humano. 
 
1.4.Conclusões 
Qualquer intervenção ou avaliação social precisa ser entendida dentro do seu 
nível de especificidade quanto às mudanças a que se propõe, mas também deve 
levar em conta os contextos ampliados de organização do sistema social, cultural 
e do universo de valores, de determinado momento histórico. No momento 
presente, há que se considerar: 
• os aspectos macrossociais, que se referem à crise do paradigma da 
modernidade e do Iluminismo, dando lugar a uma nova concepção de 
mundo, de sociedade, de sociabilidade e, conseqüentemente, de educação 
e de ação social; 
• a dinâmica microssocial específica da missão de cada instituição que tem, 
ao mesmo tempo, sua finalidade específica e sua cumplicidade com todo o 
sistema social vigente; 
• o nível axiológico das propostas, voltado para orientar o desenvolvimento 
de uma cidadania contemporânea e atuante, fortalecendo os elementos 
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essenciais do humanismo: trabalho, liberdade, sociabilidade, universalidade 
de direitos e consciência da responsabilidade individual e social. 
A reflexão aqui iniciada tenta ressaltar as possibilidades de intervenção social 
como uma práxis que une a crença na eficácia das idéias e sua efetivação nas 
relações sociais de produção e de reprodução no cotidiano e a conjuga com as 
transformações em nível da consciência individual e com as mudanças dos 
processos coletivos. 
 
Referências Bibliográficas 
 
ATLAN, H. Entre o Cristal e a Fumaça: ensaio sobre a organização do ser vivo. 
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. 
BERTUSSI, G. T. Los valores y la moral en la escuela. Educación y Sociedad, 19 
(62): 35-63, 1998. 
COHEN, E & FRANCO, R. Avaliação de Projetos Sociais. Petrópolis: Vozes, 1993. 
CROZIER, M. & FRIEDBERG, E. L’Acteur et le Système. Paris: Éditions du Seuil, 
1977. 
DAHRENDORF, R. Classes et Conflict de Classes dans la Société Industrielle. 
Paris: Editions Mouton, 1972. 
HARVEY, F. A Condição Pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1998. 
HELLER, A. O Cotidiano e a História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000. 
KUMAR, K. New theories of industrial society. In: