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Tungíase: Aspectos gerais, topográficos, epidemiológiocos e formas de tratamento. Priscilla Epprecht Machado França A Tunga penetrans é um inseto, comumente chamado de bicho-de-pé ou pulga da areia, que faz parte da família Siphonaptera, sendo esta a mesma família das pulgas. É o menor de sua família, chegando a medir 1mm de comprimento quando adulto. Não possui asas e tem seu corpo achatado nos lados. Em sua cabeça possui uma ponta, característica da espécie, que facilita a penetração dela em seu hospedeiro. Este parasita se encontra principalmente em solos arenosos, quentes e úmidos, se concentrando em chiqueiros e locais ao redor de domicílios. Geograficamente falando, há uma grande incidência desses insetos em regiões tropicais e subtropicais, em países como o Brasil, Peru, Uganda, Madagascar, Guiné-Bissau e Quênia. Acredita-se que as viagens marítimas colaboraram para que o parasita se espalhasse para os continentes diferentes, já que, aparentemente, sua origem é da América do Sul. A doença causada pela T. Penetrans, chamada de tungíase, tem taxas de prevalência que variam de 16% até 55% no Brasil, porém continua sendo uma doença negligenciada. Existe um doce chamado conhecido como “Bicho de Pé” ou brigadeiro rosa, que tem morango em sua composição. Ele recebeu esse nome graças ao uso de morangos in natura, antigamente, pois quando o doce ficava pronto, apareciam pontos pretos nele que lembravam o bicho de pé, ou seja, a tungíase. Além de curioso, isso pode ser um indicativo de que no Brasil, onde o doce foi criado, realmente existiam vários casos da doença, a ponto de um doce com tal similaridade visual receber o nome do parasita da doença. A infecção ocorre quando a fêmea penetra a pele do hospedeiro quando está grávida para sugar seu sangue, mantendo a parte posterior do seu corpo para fora a fim de respirar e soltar seus ovos. São liberados cerca de 100 ovos nos solo, estes se tornam larva, em seguida pupa e finalmente adultos. Depois de cerca de 15 dias, a fêmea é expulsa da pele do hospedeiro por reações inflamatórias ou sai espontaneamente. A Tungíase é uma doença endêmica no Brasil, sendo relatada, principalmente, em regiões mais pobres, em que muitos animais são reservatórios ou estes espalham os ovos do inseto e o trazem mais perto. A pulga se dissemina de duas formas: com adubos que são comprados para hortas e jardins, feitos com esterco de fazendas e sítios infestados, e com o espalhamento dos ovos, através de animais de rua como gatos, cachorros e outros que circulem livremente no ambiente e simplesmente precisam pisar nos ovos, que se prenderão nas patas e serão carregados até se soltarem novamente no solo, que pode ser um local frequentado por humanos. A primeira etapa da infecção é caracterizada pelo início do processo inflamatório, com uma mancha diminuta (por volta de 1mm), no segundo passo, ocorre a hipertrofia do parasita, ficando este mais aparente por aparecer um ponto preto na pele. No terceiro estágio, há o pico de crescimento da T. infestans, com ela atingindo 7mm de comprimento corporal e seu abdômen medindo até 1cm. Este é o período, que dura algumas semanas, em que ocorre a liberação dos ovos. Nele ainda há um aumento da camada córnea epidermal e descamação, com as lesões causadas pela pulga muito dolorosas. O penúltimo estágio se define pela morte do parasita e eliminação de sua carapaça. E por fim, a epiderme se reconstitui, reparando ao longo do tempo resíduos remanescentes. Depois de aproximadamente 3 semanas, os ovos já viraram adultos e podem recomeçar o ciclo. A topografia da infecção mostra que ela quase sempre se dá nos pés, principalmente nas regiões periungueais (majoritariamente no primeiro dedo do pé) ou então na sola dos pés. As áreas afetadas parecem ter grande relação com o contato delas com o solo (mesmo havendo excesções), por isso crianças entre 0-4 anos têm uma chance maior de serem infectadas pelo parasita nas mãos. Os sintomas mais comuns da tungíase são o prurido e a dor, em decorrência da penetração da pele e ao crescimento do parasita, respectivamente. São frequentes infecções por bactérias como Staphylococcus aureus, Streptococcus sp e Clostridium tetani, assim como alguns fungos, como por exemplo o Paracoccidiodes brasiliensis. Em casos mais graves, pode ocorrer a amputação dos dedos afetados. O diagnóstico é feito de acordo com a história epidemiológica e dos achados clínicos, que juntos com o exame direto, sendo que estes acontecem com a abertura do ferimento com ferramenta esterilizada e posterior visualização dos parasitas, podem confirmar a doença. Como tratamento mais eficaz e mais utilizado se tem a retirada da Tunga penetrans da pele, esta já estaria desinfectada antes mesmo da retirada do parasita. A infestação pode ser tratada de diversas maneiras diretamente, por exemplo, com unguento de mecúrio, pomadas à base de isômero de gama hezaclorociclohexano ou outros inseticidas, indiretamente, o uso de tiabendazol, uma medicação sistêmica, pode ser utilizado. Caso haja uma infecção secundária por bactérias, antibióticos podem ser usados, da mesma forma antifúngicos são a melhor opção quando fungos também estão presentes na ferida. Por conta da possibilidade de Clostridium tetani infectar secundariamente a lesão, é recomendada a profilaxia antitetânica também. A profilaxia da doença é ainda a melhor forma de se controlar a infestação pelo parasita. Como o local mais propício para o desenvolvimento do parasita é o solo arenoso, seco e pouco iluminado, uma das formas profiláticas é a pavimentação das via públicas, cimentação e implementação de pisos no interior de casas. Ademais, o saneamento básico e a coleta de lixo são uma peça chave para o controle da incidência e gravidade da tungíase. O uso de inseticidas também faz parte das ações de profilaxia e é a ação mais simples de ser executada, já que as outras dependem de um investimento maior do governo e da população. Outras formas extremamente indispensável em áreas endêmicas é o estímulo pelo uso de sapatos, por exemplo, que é considerado uma prevenção primária. Assim como a prevenção secundária, que é a questão de autoexames periódicos. No Quênia existe uma instituição chamada “Rise Up Society” (RUS) que funciona como uma ONG, sem nenhum apoio do governo, que dentre vários projetos, trata pessoas de comunidades rurais carentes e posta vídeos no YouTube com a finalidade de denunciar a situação do país e também de aumentar a visibilidade desse problema, como uma tentativa de receber mais doções para que o trabalho possa continuar sendo feito. Essa ação recebeu o nome de “Kill the Jigger” (Mate o Bicho de Pé) e ela está presente em pelo menos cinco condados do Kenya: Vihiga, Kakamega, Busia, Bungoma e Trans Nzoia. Todos esses se localizam na região Oeste do país. Das vinte equipes que eles possuem, cinco são treinadas para a remoção do parasita, tratamento das feridas, educação sobre higiene, conscientização do planejamento familiar, entre outros aspectos que são pouco discutidos em comunidades rurais. Referências Bibliográficas Buckendahl J, Heukelbach J, Witt L, Schwalfenberg S, Calheiros CML, Feldmeier H. TOPOGRAPHIC DISTRIBUTION OF THE SAND FLEA TUNGA PENETRANS IN WISTAR RATS AND HUMANS IN TWO ENDEMIC AREAS IN BRAZIL. 2012. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3391036/>. Acesso em: 02 Dez. 2017 TUNGA PENETRANS. UFRGS. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/para-site/siteantigo/Imagensatlas/Athropoda/Tunga%20penetrans.htm> . Acesso em: 02 Dez. 2017 TUNGÍASE, ATUALIDADES CLÍNICAS. JBM. 2014. Disponível em: <http://files.bvs.br/upload/S/0047-2077/2015/v102n6/a4554.pdf>. Acesso em: 02 Dez. 2017 BRIGADEIRO ROSA OU BICHO DE PÉ. 2011. Disponível em: <http://www.danibrigadeiro.com/2011/05/brigadeiro-rosa-ou-bicho-de-pe.html>. Acesso em: 02 Dez. 2017 WHAT WE DO. 2014. Disponível em: <https://www.killthejigger.org/work.html>. Acesso em: 02 Dez. 2017