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Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Identifi car e diferenciar direitos civis, políticos e sociais. • Contextualizar o processo de exclusão social e Educação desde a colonização portuguesa até os dias de hoje, enfatizando os períodos colonial e imperial brasileiros. • Identifi car a realidade da escola brasileira na Colônia e no Império. • Analisar as permanências e mudanças educacionais no contexto educacional brasileiro colonial e imperial. Exclusão social e Educação no Brasil colonial e imperial ob jet ivo s 1AULA Aula_01.indd 7 20/7/2004, 15:25:09 C E D E R J8 Fundamentos da Educação 3 | Exclusão social e Educação no Brasil colonial e imperial Cazuza, George Israel e Nilo Romero Não me convidaram para esta festa pobre Que os homens armaram pra me convencer A pagar sem ver Toda essa droga Que já vem malhada Antes d’eu nascer (...) Brasil, Mostra a tua cara Quero ver quem paga Pra gente fi car assim O nosso trem continua sua viagem, e estamos chegando a uma outra estação. Vamos saltar numa plataforma muito importante, que é a da Exclusão social e Educação no Brasil colonial e imperial. O Brasil é o país de menor escolaridade média em toda a América do Sul. Somos o povo que passa menos tempo na escola. Mesmo após 500 anos de “desco- brimento”, ainda temos índices alarmantes como: o défi cit de 14,8 milhões de vagas em creches e pré-escolas, segundo pesquisa feita pelo Unicef em 1999; apenas 32% dos adolescentes entre 15 e 17 anos estão matriculados no Ensino Médio (segundo dados do MEC); ainda temos um grande número de adultos analfabetos; metade dos que começam qualquer curso, inclusive universitário, não o completam; além de sermos campeões da evasão e repetência escolar, são estes os problemas mais graves do Ensino Fundamental, segundo o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, órgão do MEC). INTRODUÇÃO A Educação Infantil, embora não seja obri- gatória, proporciona melhor rendimento nos primeiros anos do Ensino Funda- mental. Relatório do Banco Mundial, de 1999, demonstra que as crianças que têm acesso à Educação Infantil têm índice de repetência cinco vezes menor. No Brasil, a Educação Infantil se tornou parte da Educação Básica, com a LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) de 1996, que atribui a responsabilidade desse nível de ensino exclusivamente aos municípios. "BRASIL" Aula_01.indd 8 20/7/2004, 15:25:18 C E D E R J 9 A U LA 1 M Ó D U LO 1 Pessoas brasileiras, buscamos febrilmente nossa realização com a ansiedade de quem suporta cinco séculos de escravidão, patriar- calismo, mandonismo oligárquico e exclusão. Procuramos em rezas, passes, mandingas, gingas e gritos de gol (tantas vezes mal anulados) a consciência, a justiça, a solidariedade e a Repú- blica. Dentro das salas de aula e dos currículos, ontem e hoje? Antes fosse, assim seja. ALENCAR, 2000, p. 442. DIREITO À ESCOLA, DIREITO À CIDADANIA. MAS QUE CIDADANIA? Compreender-se a si mesmo como ser social é poder entender-se como parte de um grupo, ao mesmo tempo único e diverso, regulado por direitos e deveres que constituem o tecido da cidadania. Do ponto de vista teórico, chamamos de cidadão aquele que exerce seus plenos direitos civis e políticos, baseados na lei e no princípio de igualdade. Do ponto de vista histórico, entretanto, os direitos de cidadania atravessaram e ainda atravessam longas lutas pela sua conquista. Com efeito, se os direitos civis se consolidaram a partir do século XVII, os políticos só foram conquistados no século XIX e os sociais, no século XX. Entendemos por direitos civis aqueles relativos à liberdade individual: liberdade de ir e vir, de imprensa, de fé, o direito à propriedade, a estabelecer contratos e o direito à justiça. Os direitos políticos, por sua vez, se referem ao direito a participar do exercício do poder político, como membro de um organismo investido de poder político ou como eleitor. Os direitos sociais se referem a tudo que constitui um mínimo de bem-estar econômico e de segurança, chegando até ao direito de participar, por completo, da herança social e de levar a vida de um ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade (apud, BAÍA HORTA, 1985, p. 211). No Brasil, o exercício desses direitos é ainda precário e apenas recen- temente “estamos descobrindo que cidadania não implica apenas a obrigação de votar e o direito de reclamar dos políticos, mas também o sentido de co- responsabilidade pela vida em sociedade” (FERNANDES, 1995). Aula_01.indd 9 20/7/2004, 15:25:18 C E D E R J10 Fundamentos da Educação 3 | Exclusão social e Educação no Brasil colonial e imperial Os primeiros jesuítas chegaram à América portuguesa com o primeiro governa- dor–geral, Tomé de Souza, sendo chefi a- dos por Manoel da Nóbrega. Estes vão catequizar os índios e estabelecer aqui as primeiras experiências pedagógicas. HISTÓRICO SOBRE A ESCOLA BRASILEIRA E EXCLUSÃO SOCIAL NA COLÔNIA E NO IMPÉRIO O Brasil colonial era um espaço montado no latifúndio, na monocul- tura, na escravidão e na dependência externa, em que a escola era para muito poucos. Freqüentavam a escola os fi lhos da aristocracia rural, ou seja, os fi lhos homens dos donos de terras, já que mulher era objeto de “cama e mesa” dos senhores. As aulas eram de ler, escrever e contar, segundo Chico Alencar (2000); eram as chamadas esco- las de curumins. Nessa época havia a pedagogia jesuítica muito rígida dos frades-mestres. O restante da população, a maioria composta de escravos, não freqüentava a escola. Manoel da Nóbrega, Anchieta e outros jesuítas instalam no Brasil-Colônia duas frentes pedagógicas: a primeira refere-se às “escolas de ler e escrever”, já citadas anteriormente, com fi na- lidade catequética e que com o tempo passam a abrigar fi lhos de colonos e mestiços nascidos no nosso território a segunda frente educacional jesuítica refere-se aos colégios secundários, a partir do século XVI, que eram voltados para a formação das elites existentes. Nas escolas de ler e escrever, os jesuítas desenvolveram uma pedagogia inovadora, pois vão se utilizar do teatro, da poesia e da música. Rapidamente perceberam que era mais fácil catequizar as crianças. O marquês de Pombal, no entanto, expulsou os jesuítas de Portugal e logo de suas colônias, como o Brasil, em meados do século XVIII. A Reforma Pombalina trouxe consigo a marca de secularização, ou seja, a marca do iluminismo europeu. Com a secularização, as escolas deviam ser laicas, isto é, leigas, não-religiosas. Embora os jesuítas tenham sido expulsos daqui, as novas ordens religiosas que aqui se instalaram seguiram seu modelo educacional. Implantaram-se as Aulas Régias, que foram a primeira experiência de instituição pública. Essas escolas eram fi nanciadas por um imposto sobre a carne e a cachaça. Outra estratégia era de que as crianças se educavam entre si. Os jesuítas chegaram a importar órfãos portugueses – que vinham estudar nessas escolas de ler e escrever para ajudar no processo de cristianização e imposição da cultura ocidental. Aula_01.indd 10 20/7/2004, 15:25:19 C E D E R J 11 A U LA 1 M Ó D U LO 1 Com a vinda de D. João VI em 1808, o Brasil transforma-se em Reino Unido a Portugal e Algarves; portanto, passa a ser a capital da monarquia portuguesa. Há uma reformulação urbana do Rio de Janeiro devido a essa função de capital do reino português. Daqui se administrava a África, a Ásia, a América e inclusive Portugal. D. João VI estabelece diversas mudanças no Rio de Janeiro, como: a criação da Biblioteca Nacional, do Jardim Botânico, da Imprensa Régia etc. Nessa época, na área educacional, criaram-se as primeiras escolas de ensino superior no Brasil, no âmbito militar. Com relação ao ensino secundário, deu-se uma expansão das Aulas Régias. Continuou-se sem nenhumapreocupação com a educação popular. O Ensino Secundário se expandiu bastante devido a iniciativas privadas. Várias congregações religiosas se instalaram no país voltadas especifi camente para as atividades de ensino. Chegaram aqui as primeiras congregações femininas, que assumiram a educação das meninas de elite. Na REGÊNCIA houve duas iniciativas importantes: a criação do Ato Adicional de 1834 e a criação do Colégio Pedro II, em 1836. Um dos efeitos do Ato Adicional de 1834 foi que, através dele, delegou-se às províncias a constituição do sistema de educação elementar brasileiro. Deram-se as primeiras iniciativas concretas no campo do ensino normal. Houve, então, um adestramento da elite brasileira para a reprodução da injusta ordem social. Exemplo disso vemos no Império, como nos mostra ainda Chico Alencar, no seguinte trecho: Dos primeiros cursos jurídicos superiores, no início do século XIX, que preparavam bacharéis para garantir, no parlamento imperial, o mando dos coronéis oligarcas, ao Imperial Colégio D. Pedro II, escola estatal (enfi m!) – mas para poucos (id, p. 442). Infelizmente, na escola brasileira não houve essa busca pela justiça e solidariedade, nem na REPÚBLICA. A República brasileira não se caracterizou como uma conquista popular, pois não passou de um golpe militar, apesar da efervescência que caracterizou a virada do século XIX para o século XX. REGÊNCIA Período que vai da abdicação de D. Pedro I, em 1831, ao Golpe da Maioridade, em 1840, quando D. Pedro II assume o Império brasileiro com quinze anos incompletos. A Proclamação da REPÚBLICA brasileira deu-se em 1889. A Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel em 1888, libertando os escravos. Mesmo assim, percebemos, durante a República, que continuamos a ser um país de analfabetos durante várias décadas. Aula_01.indd 11 20/7/2004, 15:25:24 C E D E R J12 Fundamentos da Educação 3 | Exclusão social e Educação no Brasil colonial e imperial EXERCÍCIOS 1. Diferencie direitos civis, políticos e sociais. Dê exemplos de cada um deles. 2. Caracterize a Educação brasileira na Colônia e no Império. 3. Analise a importância da Educação jesuítica para a sociedade colonial e imperial brasileira. 4. Caracterize o quadro de exclusão social na Educação brasileira até a Proclamação da República. AUTO-AVALIAÇÃO Você deve ter conseguido entender a diferença entre os direitos sociais, políticos e civis. O mais importante desta aula é que você tenha entendido as raízes da exclusão social na escola brasileira. É fundamental que tenha percebido como se deu a manutenção do analfabetismo e dos altos índices de evasão escolar pelas elites dominantes brasileiras durante o Brasil-Colônia e Império. É importante também que você tenha relacionado a situação da escola a esses períodos históricos da sociedade brasileira. Caso tenha conseguido entender e relacionar essas questões aos seus contextos históricos, parabéns! Você pode seguir viagem. Caso contrário, fi que um pouco mais de tempo nesta estação, releia os textos, refl ita um pouco mais sobre isso e, então, boa viagem! R E S U M O Nesta aula você pôde entender como se deu a conquista dos direitos políticos, civis e sociais no Brasil e como ainda falta, na prática, a conquista de diversos direitos sociais. Você pôde analisar o contexto histórico da Educação brasileira no período colonial e imperial. Você pôde também perceber problemas sociais de longa duração na sociedade brasileira, como o analfabetismo e a exclusão social na escola. Aula_01.indd 12 20/7/2004, 15:25:24 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Contextualizar o processo de exclusão social e Educação desde a Proclamação da República até os dias de hoje. • Identifi car a realidade da escola brasileira republicana. • Analisar a importância do Manifesto dos Pioneiros para a Educação brasileira. • Relacionar a Pedagogia de Paulo Freire à preocupação com a exclusão social. • Analisar as permanências e mudanças no contexto educacional brasileiro nos dias de hoje. • Identifi car os desafi os educacionais da sociedade brasileira atualmente. Exclusão social e Educação no Brasil republicano 2AULA Aula_02.indd 13 20/7/2004, 15:27:26 C E D E R J14 Fundamentos da Educação 3 | Exclusão social e Educação no Brasil republicano Nosso trem continua sua viagem, e estamos chegando a uma outra estação, a da Exclusão social e Educação no Brasil republicano. Nesta aula, vamos dar continuidade à análise do processo histórico de exclusão social na escola brasileira. Só que agora estaremos analisando o período que vai desde a Proclamação da República até os dias atuais. Na aula anterior já vimos que há índices alarmantes de repetência e evasão escolar; assim, superar essa situação é o desafi o da Educação brasileira hoje. Como já foi na dito na Aula 1, a Proclamação da República não se caracteri- zou como um movimento popular. Foi um golpe militar que ocorreu em 15 de novembro de 1889. Após a Proclamação, pouco mudou a condição de escolaridade do povo brasileiro. A Constituição republicana de 1891 é bastante omissa em relação aos direitos sociais, especialmente, à Educação. Não faz qualquer referência ao direito à Educação. Essa mesma Constituição exigia que o cidadão pleno fosse aquele que tivesse a capacidade de ler e escrever, e não se referia à Educação como um dever do Estado. Com a vinda dos imigrantes, ingressaram no país as idéias socialistas, par- ticularmente os anarquistas, que se tornaram dominantes no pensamento do movimento operário. Este foi responsável por algumas das experiên- cias pedagógicas mais signifi cativas que ocorreram no início da República. Constituíram um sistema educacional completo, paralelo, de escolas elemen- tares, além de centros culturais, tendo havido, inclusive, a tentativa de criação de uma universidade do povo. Na República foi se horizontalizando o ensino, devido ao clamor do crescimento urbano-capitalista, principalmente em função da demanda desse operariado (citado anteriormente), particulamente na região Sudeste. Mesmo assim, a maioria da população em idade escolar ainda fi cava fora da escola, havendo enorme exclusão social. INTRODUÇÃO Aula_02.indd 14 20/7/2004, 15:27:34 C E D E R J 15 A U LA 2 M Ó D U LO 1 A classe dominante branca ou branca-por-autodefi nição desta população majoritariamente mestiça, tendo como preocupação maior, no plano racial, salientar sua branquitude, no plano cul- tural sua europeidade, só aspirava a ser lusitana, depois inglesa e francesa, como agora só quer ser norte-americana. (...) A imitação do estrangeiro que era inevitável não seria um mal em si, (...) O mal residia e ainda reside na rejeição de tudo o que era nacional e principalmente popular, como sendo ruim, porque impregnado de subalternidade da terra e da inferioridade dos povos de cor. RIBEIRO, 1983, p. 144 O contexto da Primeira Guerra Mundial condicionou mudan- ças na sociedade brasileira; deu-se um movimento de republicaniza- ção da República. O mesmo surto de nacionalismo criou ligas contra o analfabetismo, onde se impunha a bandeira de regenerar a socieda- de brasileira pela via da Educação. À frente desse movimento vinham intelectuais que passaram à História como os intelectuais da Educação. Os anos 20 vão tentar recuperar as nossas raízes: o Movimento de 22, a Semana de Arte Moderna – em que os modernistas procuraram expressar a nossa brasilidade –, a organização dos partidos de esquerda (particularmente do comunista, sob a liderança de Luiz Carlos Prestes) etc. São marcas da década de 1920, no campo educacional: a construção da Universidade do Rio de Janeiro e a criação da Associação Brasileira de Educação (em 1924). Os intelectuais modernistas se articulam com educadores, como Mário de Andrade, que colaborou com Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira. Nesse momento,educação e cultura estavam profundamente articuladas, porém continuamos com a chaga do anal- fabetismo em nosso país. A Revolução de 30 foi um marco importante de mudanças no Brasil. Nela culminaram vários fatores: insatisfação com o regime oli- gárquico, a crise econômica agravada pela Crise da Bolsa de 29 etc. No plano educacional, o governo provisório criou o Ministério da Educação e Saúde. Assim, visava-se, pela primeira vez no país, ter uma política educacional nacional. Inaugurou-se uma era de industrialização e de uma cultura mais técnica no país. Os liberais queriam que o Estado assumisse a Educação, pois eles defendiam a bandeira da escola pública, estatal e de qualidade. Assinaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação: Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Cecília Meireles e Lourenço Filho, dentre outros. Anísio Teixeira Fernando de Azevedo Luiz Carlos Prestes Aula_02.indd 15 20/7/2004, 15:27:34 C E D E R J16 Fundamentos da Educação 3 | Exclusão social e Educação no Brasil republicano Em 1934, foi promulgada a Constituição mais liberal das nossas Constituições até então. Ela incorporou grande parte da demanda dos liberais sobre Educação. Porém, sua vida foi curta e seus efeitos concretos não foram sentidos devido à implantação do regime autoritário: o Estado Novo. Colocar uma foto de Getúlio no Estado Novo. De preferência em relação a situação escolar, ou parada militar com alunos desfi lando. Paradoxalmente, o Estado Novo constituiu um momento em que houve maior dinâmica de modernização. Com relação à Educação e às formas de desenvolvimento da cultura consolidaram-se determinadas referências de memória e de tradição folclóri- ca, com Câmara Cascudo e Mário de Andrade. O Estado Novo acabou incorporando heranças da Semana de 22. Gustavo Capanema assumiu o Ministério da Educação em 1934 e fi cou durante todo o Estado Novo. Com o fi m da Segunda Guerra Mundial e a derrota das potências do Eixo, mais uma vez os liberais retornaram às bandeiras educacionais dos anos 30, em torno da Associação Brasileira de Educação. Acirraram-se as discussões entre liberais e católicos no clima de redemocratização do país. Dutra foi eleito e havia restrições ao período de redemocratização. Forte oposição foi capitaneada por Gustavo Capanema, e só em 1958 o debate sobre a LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) foi retomado. Em 1959, os liberais assinaram um manifesto ao povo e ao governo em defesa da escola pública: foi a Campanha de Defesa da Escola Pública. Ainda faltava escola para a maioria dos brasileiros. Os anos 50 modifi caram os padrões de comportamento, com a incorporação da cultura de massa dos jornais, do rádio e da televisão. Modifi caram-se a forma de pensar a Educação, a forma de ver o mundo, as artes. Outros aspectos fi zeram com que a Educação fosse pensada em outros níveis: a Revolução Cubana, a Revolução Chinesa, as manifestações camponesas na América Latina, os Centros Populares de Cultura (CPC), o teatro e a literatura engajados. No Brasil, no início dos anos 60, havia uma conjuntura de mudança do grupo que assume o poder, havia um clima mais democrático para discussão dos temas educacionais. Surgiram os movimentos de educação popular. No Nordeste, era o “tempo dos excluídos”, tempo em que os homens começaram a se organizar, com as Ligas Camponesas de Chico Julião, com os movimentos de alfabetização popular de Paulo Freire. Havia uma preocupação em diminuir a exclusão social. Getúlio Vargas Che Guevara Paulo Freire Chico Julião Aula_02.indd 16 20/7/2004, 15:27:37 C E D E R J 17 A U LA 2 M Ó D U LO 1 O Golpe Militar de 1964 gerou os acordos MEC-USAID e a milita- rização do Ministério da Educação. Havia uma articulação da política educacional brasileira com a política norte-americana. Com relação ao movimento de alfabetização, houve um redirecionamento que terminou fundando o Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Em 1968, ano de maior ímpeto contestador, o sistema de repressão passou a ser ampliado, com a decretação do AI-5 (Ato Institucional nº 5). Deu-se a reformulação do Ensino Superior pelos militares, acabando com o último reduto de oposição ao regime militar. Antes de 1964, o problema dos excedentes no Ensino Superior era muito sério. Depois de 1964, deu-se a vulgarização do Ensino Superior, o alargamento do número de vagas e houve descontrole no incentivo à criação das universidades privadas. Essa desorgani- zação perdura até hoje. É só olharmos para perceber a quantidade de universidades privadas que foram criadas em tempo recorde. De 1960 para cá, surgiram muitas universidades sem a qualidade que deveriam ter. Nos anos 80, destacaram-se a luta pela anistia e a democratização do país, com o fi m dos governos militares. Na luta pela constituinte, vimos um debate educacional acirrado; o capítulo da Educação e Cultura recebeu muitas propostas e emendas populares e pensava o ensino numa perspectiva mais democratizante. Inaugurou-se no Rio de Janeiro o primeiro CIEP (Centro Inte- grado de Educação Pública) em 1984. Darcy Ribeiro foi extremamente infl uenciado por Anísio Teixeira e pela escola-parque que ele desenvolveu na Bahia. Os CIEPs passaram a ser vistos como um direito à Educação, como todos os países desenvolvidos já ofereciam. Neles se concentram três políticas sociais básicas integradas: Educação, Saúde e Cultura, para que a população venha a ser bem educada. Desde os anos 80, as funções sociais da escola mudaram muito. A escola deve também formar para a cidadania, a saúde, facilitar a expressão da sexualidade, a preparação profi ssional, a conscientização política etc. De acordo com a PNAD (Pesquisa Nacional por Amos- tras de Domicílio), realizada pelo IBGE em 1999, estavam matriculadas em escolas do Ensino Fundamental 95,7% das crianças entre 7 e 14 anos. Essa marca é considerada exce- lente pela Unesco, porém há defasagens regionais. Segundo o Almanaque Abril de 2001, apenas 3% das crianças não fre- qüentam a escola nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste; porém, esse índice chega a 10% no Norte e Nordeste. Aula_02.indd 17 20/7/2004, 15:27:45 C E D E R J18 Fundamentos da Educação 3 | Exclusão social e Educação no Brasil republicano Somente nos anos 90, no governo Fernando Henrique, conseguiu-se alcançar um grande índice de crianças em idade escolar com acesso quase universal à escola. O problema passou a ser então manter as crianças na escola, ou seja, diminuir a repetência e a evasão escolar. A maioria das crianças brasileiras ainda não consegue terminar o 1º segmento do Ensino Fundamental. Nos cento e poucos anos de República, o Brasil ainda não conseguiu alcançar que a maioria das crianças brasileiras aprendam a ler, escrever e contar. Ainda segundo o Almanaque Abril de 2001, 46% dos alunos estudam em séries que não correspondem à sua idade, o que impede o progresso nos estudos e colabora para o abandono escolar. Em pleno terceiro milênio, a sociedade brasileira tem duplo desafi o. Primeiro, as demandas básicas ainda não foram atendidas, sequer conseguimos universalizar o Ensino Fundamental, o que demonstra o caráter excludente de nosso país. Além do outro desafio, que são as demandas da sociedade da tecnologia e da informática, que implicam rever currículos e métodos, repensar a própria escola enquanto instituição. Num mundo neoliberal, a Educação desejada é a da “quali- dade total”, retrato da ideologia dominante do mercado. Prepara-se o aluno para o mercado, não mais “para a vida”; para ingressar no mundo dos consumidores, clientes ou fregueses. Vivemos uma concentração de bens, conhecimento e renda, dependência externa, exploração, violência. Segundo Chico Alencar, se nos rebatizás- semos seríamos “Terra de Tanta Cruz. Ou da falta de educação” (id. p. 444). A Educação tempapel a cumprir na construção de uma sociedade mais justa e democrática. Enfim, nas últimas décadas do século XX e início do século XXI, a sociedade civil e o Esta- do brasileiro sofreram modificações nas suas relações devido a pressões também exercidas pelos movimentos sociais – como o movimento negro nacional, o movimento das mulheres, o movimento sin- dical e outros. Eles pressionam o Estado a implementar políticas públicas que atendam às demandas e aos interesses específi cos de segmentos sociais diferenciados e eliminem os elevados índices de desigualdades raciais e sociais. Por isso, na próxima aula estudaremos as políticas afi rmativas, quando daremos maior atenção à política de cotas. Aula_02.indd 18 20/7/2004, 15:27:49 C E D E R J 19 A U LA 2 M Ó D U LO 1 R E S U M O Nesta aula você pôde analisar o contexto histórico da Educação brasileira, da Proclamação da República até os dias de hoje. Você também pode perceber problemas sociais de longa duração na sociedade brasileira, como o analfabetismo e a exclusão social na escola. Além disso, analisamos a importância do Movimento dos Pioneiros da Educação na luta pela escola pública, laica e de qualidade. Percebemos como os anos 80 foram importantes na redemocratização do país e no debate dos temas educacionais na Constituinte. Analisamos as conquistas dos anos 90, como a quase universalização do acesso à escola no Brasil, mas a permanência dos altos índices de repetência e de evasão escolar na sociedade brasileira dura até hoje. Discutimos os desafi os da escola brasileira atualmente, ou seja, garantir a universalização do Ensino Fundamental, rever currículos e métodos e a própria instituição escola frente à sociedade da tecnologia e informática em que vivemos. EXERCÍCIOS 1. Caracterize o que permaneceu na Educação brasileira após a Proclamação da República. 2. Analise a importância do Movimento dos Pioneiros da Educação. 3. Explique a importância da Pedagogia de Paulo Freire para o contexto social brasileiro. 4. Analise a importância dos anos 80 e 90 no âmbito da Educação brasileira. 5. Caracterize as permanências e mudanças educacionais na sociedade brasileira hoje em dia. 6. Identifique os desafios da sociedade brasileira em relação à Educação atualmente. Aula_02.indd 19 20/7/2004, 15:27:49 C E D E R J20 Fundamentos da Educação 3 | Exclusão social e Educação no Brasil republicano AUTO-AVALIAÇÃO O mais importante desta aula é que você tenha entendido as raízes da exclusão social na escola brasileira. É fundamental que você tenha percebido como se deu a manutenção do analfabetismo e dos altos índices de evasão escolar pelas elites dominantes brasileiras durante o período republicano. Também é importante que você tenha relacionado a situação da escola brasileira aos momentos históricos importantes daquele período. Dê atenção aos anos mais recentes, como os anos 80, de redemocratização do país e de acirrados debates educacionais em torno da Constituinte. Além disso, você deve ter percebido a importância dos anos 90 na universalização do acesso à Educação no Brasil e na permanência de graves problemas, como a repetência e a evasão escolar nas escolas brasileiras até os dias de hoje. Também cabe entender os desafi os colocados para a nossa escola e a sociedade hoje. Caso você tenha conseguido entender e relacionar essas questões aos seus contextos históricos, parabéns! Você pode seguir viagem. Caso contrário, fi que um pouco mais de tempo nesta estação, releia os textos e, então, siga em frente! Aula_02.indd 20 20/7/2004, 15:27:49 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Identifi car as principais características do multiculturalismo. • Contextualizar o surgimento do multiculturalismo. • Associar multiculturalismo e políticas afi rmativas. • Relacionar multiculturalismo e crise da modernidade. Multiculturalismo e políticas afi rmativas ob jet ivo s 3AULA Aula_03.indd 21 20/7/2004, 15:28:31 C E D E R J22 Fundamentos da Educação 3 | Multiculturalismo e políticas afi rmativas O nosso trem continua sua viagem e estamos chegando a uma outra estação. Deixamos a estação da Exclusão social e Educação no Brasil e estamos nos encaminhando para uma outra plataforma, prestes a descer na estação Multiculturalismo e política afi rmativa. MULTICULTURALISMO E POLÍTICAS AFIRMATIVAS O surgimento de ações identifi cadas como políticas afi rmativas ganhou projeção na crescente preocupação com a pluralidade cultural. Fenômenos recentes, o multiculturalismo e as políticas afi rmativas – que vêm se tornando cada vez mais intensos com o processo de globalização – estão na ordem do dia. Uma simples folheada nos jornais pode comprovar como esse debate está na crista da onda! Sabemos que no senso comum utilizam-se indiscriminada- mente as palavras multiculturalismo, pluralidade cultural e estudos culturais como se fossem a mesma coisa. Contudo, alguns autores fazem diferenciações conceituais sobre esses termos. Segundo Silva (2000), multiculturalismo é um movimento que propõe um currículo inclusivo, que incorpora as tradições culturais dos diferentes grupos sociais. Nesse sentido, está intimamente relacionado com as reivindicações de mulheres, homossexuais e negros. Já os Estudos Culturais se referem ao campo de teorização e investigação que tem origem na Inglaterra em 1964, preocupado com a revisão do conceito de cultura, adotando uma concepção antropológica do termo. Inicialmente, o campo foi infl uenciado por marxistas e, posteriormente, pelo pós-estruturalismo. Assim, os Estudos Culturais afi rmam que a cultura é um campo de luta e de intervenção política, concepção esta que irá influenciar a produção de diversas áreas do conhecimento. Se hoje essa preocupação, por causa da globalização, tomou dimensão mundial, no início, sua problematização política, fi losófi ca e acadêmica tem uma história intimamente ligada aos Estados Unidos. A ORIGEM MILITANTE DO MULTICULTURALISMO: A CRISE SOCIAL DOS ANOS 60, NOS EUA O pensar sobre a diversidade teve sua principal raiz em problemas que afl igiam a sociedade norte-americana a partir da década de 1960. Podemos relacionar cinco grandes eixos de confl itos de identidade que vieram à tona nessa época nos Estados Unidos. As políticas afi rma- tivas, também cha- madas de políticas de discriminação positiva ou políticas sociais compensatórias, são leis ou intervenções políticas que com- preendem ações do Estado em favor de grupos específi cos, historicamente discri- minados. São, por- tanto, “instrumento político corretivo do abismo que separa o princípio constitucio- nal da igualdade e um complexo conjunto de relações sociais profundamente hie- rarquizados” (SISS, 2003. p. 111). Aula_03.indd 22 20/7/2004, 15:28:40 C E D E R J 23 A U LA 3 M Ó D U LO 1 Estima-se que no século XVII existissem de 3 a 4 milhões de nativos no território que hoje é os EUA. Após dois séculos de colonização, sobreviviam, confi nados em reservas, menos de 200 mil indígenas! No recenseamento de 1990, contudo, cerca de 2 milhões de norte-americanos se declararam native Americans, evidenciando um crescimento signifi cativo do reencontro dos indivíduos, e da própria sociedade, com sua descendência indígena (SEMPRINI, 1999, pp. 12-14). 1. A questão indígena – após séculos de extermínio físico e da imple- mentação de uma política de assimilação e de desenraizamento cultural dos nativos, a década de 1930 trouxe alterações. Uma geração de antro- pólogos (Lowie, Krober, Herskovits) defendeu o abandono da atuação de eliminação de identidade, contribuindo para que, nos anos 60, a luta pelo reconhecimento das nações indígenas, sensibilizando a opinião pública e a classe política, ganhasse impulso. 2. A questão do racismo – a escravidão foi a relação de trabalho predominante por 250 anos nos EUA. Deixou marcas muito signifi cativasna sociedade, especialmente nos estados do Sul, onde existia um verdadei- ro sistema de APARTHEID em pleno século XX, sustentado pela lei, por uma ideologia racista e antiassimilacionista. 3. A questão religiosa – no processo de ocupação e formação dos EUA, destacou-se o papel desempenhado por comunidades religio- sas, principalmente as protestantes, fugidas de perseguições na Europa. Essas comunidades tenderam a se organizar de forma mais ou menos fechada e a exercer autonomia política. Essas experiências históricas de comunitaris- mo, de espiritualidade e de proteção à liberdade de expressão contribuíram, na segunda metade do século XX, para o debate da pluralidade cultural, sem se opor a uma perspectiva de unidade nacional. APARTHEID: A palavra signifi ca separação, estado de segregação. Surgiu na África do Sul em 1948 para designar a política segregacionista implemen- tada pelo governo daquele país, que garantia o domínio de uma minoria branca sobre uma maioria negra. “Em 1790, a população dos Estados Unidos era de quatro milhões, sendo setecen- tos mil escravos. Às vésperas da Guerra de Secessão (1860-1865), os escravos eram 3.500.000, ou seja, 11% da população total, e quase 40% da população dos 11 estados secessionistas” (SEMPRINI, 1999, p. 15). Os estados secessionistas eram os estados rebelados predominantemente do Sul dos Estados Unidos, que devido à estrutura agrária escravista colonial apresentavam forte ideologia racista. Aula_03.indd 23 20/7/2004, 15:28:40 C E D E R J24 Fundamentos da Educação 3 | Multiculturalismo e políticas afi rmativas 4. A questão da base anglo-saxônica das elites econômicas e políticas – a formação dos EUA caracterizou-se, como já ressaltamos, por uma diver- sidade cultural signifi cativa. Aos nativos, ao longo dos séculos, se somaram os anglo-saxões puritanos, os africanos e ondas de imigração européia ao longo dos séculos XIX e XX, como, por exemplo, a de irlandeses, italianos, poloneses (muitos católicos e judeus). Apesar dessa composição diversifi cada, havia um amplo e sólido domínio institucional e cultural da parcela branca, anglo-saxônica e protestante da sociedade, que sofreu questionamentos nas décadas fi nais do século XX. 5. A questão do imigrante – a formação da sociedade norte-america- na se confunde com a história da imigração. Originariamente, o imigrante é branco e europeu, mas após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) sua feição se altera, com a entrada em massa de asiáticos e latinos. O declínio do percentual de americanos brancos é visto com temor pelo segmento anglo- saxão e protestante dominante, estimulando, inclusive, políticas de restrição imigratória e alimentando posicionamentos discriminatórios, assim como a organização desses novos grupos exigindo demandas sociais e políticas. O movimento pelos direitos civis, surgido nos anos 60, foi, portanto, o marco histórico desse debate, reunindo forças para a renovação da sociedade norte-americana, visando à reelaboração do pacto social existente. Aquele movimento destruiu, com resistência, por exemplo, as bases legais da segre- gação racial, mas não foi capaz, de imediato, de garantir o acesso dos negros à educação (especialmente a universitária) e ao voto. A crise dos anos 70, a política liberal e a desintegração do bloco comunista nos anos 80 vieram interferir, fortemente, na dis- cussão multicultural nos Estados Unidos. Esses processos históricos contribuíram para ampliar a desigualdade econômica, fragilizar a crença na igualdade de oportunidades e no mito da mobilidade social, além de ter privado o país de um importante elemento de constituição de sua unidade e identidade – a luta contra o comunismo. Houve, portanto, como conseqüência do agravamento das desigual- dades, o aumento do embate de diferentes grupos formadores da sociedade americana. Foi nesse contexto que se desenvolveram as reivindicações étnicas e de identidades no espaço público norte-americano, traduzidas, em alguns casos, em políticas afi rmativas. Em 1960, 94% dos estudantes universi- tários dos EUA eram brancos (SEMPRINI, 1999, p. 22). A política de imi- gração para os EUA só apresentou leis restritivas no século XX. Entre 1860 e 1920, cerca de 25 milhões de imigrantes chegaram aos EUA, sendo que perto de 8 milhões imigraram na primeira década do século XX (SEMPRINI, 1999, p. 27). Em 1993, nos EUA, os 20% mais ricos fi cavam com 48,2% da renda total, 4,6% a mais do que em 1973. Os 20% mais pobres fi cavam com apenas 3,6% das rendas totais, 0,6% a menos que em 1973 (SEMPRINI, 1999, pp. 34-35). Aula_03.indd 24 20/7/2004, 15:28:42 C E D E R J 25 A U LA 3 M Ó D U LO 1 AS BASES FILOSÓFICAS DO MULTICULTURALISMO: A CRISE DA MODERNIDADE O movimento multicultural não teve sua origem restrita a sua vertente militante, notadamente norte-americana. Stuart Hall identifi ca cinco grandes avanços na teoria social e nas ciências humanas no século XX; tais avanços contribuíram para o avanço de uma outra percepção do sujeito e da identidade, à qual o multiculturalismo se associou: as novas correntes marxistas, a psicanálise, a Lingüística de Saussure, o pensamento de Foucault e o movimento feminista. Nesse sentido, pode-se identifi car, segundo Semprini, quatro aspectos principais do pensamento multicultural: a realidade é uma construção; as interpretações são subjetivas; os valores são relativos; o conhecimento é um fato político. Segundo o autor, a posição multicultural apóia-se sobre uma mudança de para- digma, ela invoca a instabilidade, a mistura, a relatividade como fundamentos de seu pensamento. A análise monocultural aparece assim como infi nitamente mais simples e tranqüilizado- ra. Ela garante que a verdade existe, que é possível conhecê-la, que existe uma solução para cada problema e que é a ciência que dará tal solução (id., p. 89). É inegável, portanto, que a discussão da pluralidade cultural se insere no contexto polêmico da contemporaneidade, no qual se vivencia uma crise do paradigma moderno. Como afi rma Hall, a identidade plenamente unifi cada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Em vez disso, à medida que os sistemas de signifi ca- ção e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identida- des possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identifi car – ao menos temporariamente (id., p. 13). Aula_03.indd 25 20/7/2004, 15:28:46 C E D E R J26 Fundamentos da Educação 3 | Multiculturalismo e políticas afi rmativas R E S U M O Por outro lado, é inquestionável também, que a globalização e a política neoliberal hegemônicas são o combustível que alimenta a proble- matização da diferença, ao incendiar o contexto social com a ampliação da desigualdade e da discriminação. A questão multicultural, portanto – embora tenha se construído teoricamente em outros espaços –, apresenta em seu debate refl exões inti- mamente relacionadas à realidade e às necessidades brasileiras e de outras partes do mundo. O multiculturalismo trouxe à tona a discussão dos direitos das mino- rias, da identidade e de seu reconhecimento, promovendo, numa perspectiva cultural, o debate em três zonas de confl ito preferenciais: a educação; a iden- tidade sexual e as relações interpessoais; e as reivindicações de identidade. Na nossa viagem, nos interessa visitar melhor os caminhos que envolvem a Educação e as políticas afi rmativas; por isso, na nossa próxima parada vamos dar a elas uma atenção especial! Procure assistir ao documentário da GNT, Olhos azuis, para aprofundar a temática em questão. Nesta aula você pôde entender como se originou o multiculturalismo. Analisamos sua origem histórica nos Estados Unidos e percebemos a relação entre os movimentos sociais das chamadas minorias e a implementação de políticas afi rmativas. Identifi camos e analisamos as principaiscaracterísticas do pensamento multicultural. Também contextualizamos o multiculturalismo e estabelecemos relações com a crise da pós-modernidade. Aula_03.indd 26 20/7/2004, 15:28:47 C E D E R J 27 A U LA 3 M Ó D U LO 1 EXERCÍCIOS 1. Identifi que as principais características do multiculturalismo. 2. Relacione o contexto dos anos 60, nos EUA, com o crescimento dos estudos multiculturais. 3. Explique como a crise da pós-modernidade contribui para o avanço das reivindicações de identidades. 4. Conceitue política afi rmativa. 5. Relacione a implementação das políticas afirmativas com o movimento multicultural. AUTO-AVALIAÇÃO Nesta aula você deve ter entendido a importância da política multicultural na afirmação e expansão das reivindicações dos movimentos étnicos e culturais. Além disso, você deve conseguir contextualizar a expansão dos estudos multiculturais e a relação com os movimentos de identidades, como o movimento negro, feminista e de homossexuais norte-americanos. Além disso, você deve ser capaz, ao fi nal desta aula, de identifi car as principais características do pensamento multicultural. Caso você não tenha clareza sobre esses assuntos ou não tenha conseguido responder às perguntas com facilidade, releia a aula. Aula_03.indd 27 20/7/2004, 15:28:47 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Retomar o conceito de política afi rmativa. • Relacionar a ocorrência das políticas sociais compensatórias ao contexto da Educação. • Exemplifi car, no âmbito da Educação, as ações de discriminação positiva. • Analisar a importância das políticas afi rmativas no contexto da Educação. Ações afi rmativas na Educação ob jet ivo s 4AULA Aula_04.indd 29 20/7/2004, 15:29:33 C E D E R J30 Fundamentos da Educação 3 | Ações afi rmativas na Educação Nosso trem retoma sua viagem, e estamos prestes a fazer outra parada. Deixamos a estação Multiculturalismo e políticas afirmativas e estamos nos encaminhando para a plataforma das ações afi rmativas na Educação. Como vimos na última estação, as políticas afi rmativas, políticas de discrimina- ção positiva ou políticas sociais compensatórias são ações do Estado voltadas para grupos específi cos, historicamente discriminados. Lembrou? Vamos recordar também sua função? O objetivo dessas ações é ser "um programa de políticas públicas ordenado pelo Executivo ou pelo Legislativo, ou implementado por empresas privadas para garantir a ascensão de minorias étnicas, raciais e sexuais" (GUIMARÃES, 1999, p. 154). A DISCRIMINAÇÃO POSITIVA NOS EUA E NO MUNDO: ALGUMAS REFERÊNCIAS HISTÓRICAS INICIAIS Exemplos de ações de tal natureza nos Estados Unidos podem ser encontrados antes mesmo da década de 1960, quando essas iniciativas se pro- pagaram, como vimos na última parada, de forma signifi cativa, no contexto da luta pelos direitos civis. Em 1935, a legislação trabalhista norte-americana (The 1935 National Labor Relations Act), por exemplo, proibiu a discriminação de sindicalistas e de operários sindicalizados e determinou que as vítimas de discriminação fossem reconduzidas pelos empregadores às posições que ocupariam caso não tivessem sido perseguidas. De forma geral, as ações afi rmativas cresceram continuamente de importância desde os governos Kennedy e Johnson até a década de 1980, quando se restringiram, com o governo de Reagan. Voltaram a fortalecer-se com o governo de Clinton. É interessante notar que a agenda do Partido Democrata norte-americano interage de forma mais tranqüila com as ações de discriminação positiva, havendo maior resistência no âmbito do Partido Republicano, notadamente mais conservador. É importante perceber que o refl uxo sofrido na década de 1980 está intimamente relacionado com a implementação de uma política neoliberal pelo governo Reagan, que se caracteriza pelo Estado mínimo, ou seja, restrito somente a algumas questões sociais. Deixa de haver o Estado-empresário, planifi cador, investidor e que garantia determinadas produções consideradas estratégicas, O Estado do Bem-Estar Social. Aula_04.indd 30 20/7/2004, 15:29:41 C E D E R J 31 A U LA 4 M Ó D U LO 1 As ações afi rmativas, entretanto, não foram unicamente desen- volvidas nos Estados Unidos. No contexto pós-independências, em 1947, o governo indiano – visando corrigir as desigualdades geradas pelo SISTEMA DE CASTAS – adotou um sistema de cotas que destinava 22,5% das vagas na administração e no ensino público aos chamados “intocáveis” (d’ADESKY, 1998, mimeo). Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), entre 1982 e 1996, cerca de 25 países adotaram ações de intervenção política visando eliminar discriminação sexual e racial nas relações de trabalho. Podemos dizer, portanto, que, nas últimas décadas do século XX, por motivações diversas, diferentes mecanismos de discriminação positiva vêm sendo implantados em diversos países do mundo – como Canadá, Austrália, Índia etc. –, embora o caso norte-americano seja, ainda hoje, um exemplo histórico da maior importância para o estudo das políticas sociais compensatórias. SISTEMA DE CASTAS Forma de organização social encontrada na Índia, baseada em crenças religiosas que sustentam a superioridade dos brâmanes sobre os demais grupos. Estabelece uma ordem social rígida, hierarquizada, sem mobilidade. A condição social dada pelo nascimento é determinante, defi nindo possibilidades de ocupação e casamento (cf. CASTA. Dicionário de ciências sociais. 2ª ed. Rio de Janeiro: FGV, 1987). ! A OIT foi criada pela Conferência de Paz após a Primeira Guerra Mundial (...). A idéia de uma legislação trabalhista internacional surgiu como resultado das refl exões éticas e econômicas sobre o custo humano da Revolução Industrial. As raízes da OIT estão no início do século XIX, quando os líderes industriais Robert Owen e Daniel le Grand apoiaram o desenvolvimento e a harmonização da legis- lação trabalhista e melhorias nas relações de trabalho. Em 1944, à luz dos efeitos da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, a OIT adotou a Declaração da Filadélfi a, [que] antecipou e serviu de modelo para a Carta das Nações Unidas e para a Declaração Universal dos Direitos Humanos (...). Desde 1999, a OIT trabalha pela manutenção de seus valores e objetivos em prol de uma agenda social que viabilize a continuidade do processo de globalização através de um equilíbrio entre objetivos de efi ciência econômica e de eqüidade social, (Texto adaptado de http://www.oit.org/public/portugue/region/ampro/brasilia/inst/hist/ index.htm.) Aula_04.indd 31 20/7/2004, 15:29:42 C E D E R J32 Fundamentos da Educação 3 | Ações afi rmativas na Educação A PREOCUPAÇÃO ESPECIAL COM A EDUCAÇÃO Como ressaltamos na nossa última parada, o multiculturalismo promoveu, numa perspectiva cultural, o debate em zonas de confl ito prefe- renciais, entre os quais nos interessa a Educação. Essa relevância dada à Educação não é difícil de ser compreendida. Na verdade, os movimentos questionadores da discriminação reconheceram no processo educativo – especialmente aquele realizado pela escola – um espaço privilegiado para a formação cultural das sociedades e, portanto, de combate aos valores que sustentam o tratamento diferenciado dado a certos membros da sociedade e de espaço de construção de identidades. Por outro lado, é inegável que o domínio de saberes socialmente prestigiados constitui um importante fator de perpetuação da desigualdade e de sustentação do domínio de certos grupos sobre outros. Embora nas sociedades modernas possam ser identifi cadas diferentes instituições educacionais, como os meios de comunicação e a família, a escola é uma instituição de ensino de extrema relevância por seu caráter generalizado e sistemático. Como ressalta José Artur Rios, a escola é "a instituição que, dentro de um sistema educacional, desempenha a função de transmitir de modo formal e pragmáticoo patrimônio cultural de uma sociedade" (Escola. In: Dicionário de Ciências Sociais. 2ª ed. Rio de Janeiro: FGV, 1987). Aula_04.indd 32 20/7/2004, 15:29:42 C E D E R J 33 A U LA 4 M Ó D U LO 1 Essa percepção da escola como instituição difusora de um conjunto de valores universais ou dominantes foi uma importante contribuição das obras de DURKHEIM, ALTHUSSER e Bourdieu, que outros estudiosos aprofun- daram e reformularam. Durkheim viu na Educação uma das formas mais características do fato social, isto é, tudo que numa sociedade é anterior e exterior ao indivíduo, mas que o impulsiona a agir e ser, de certa forma, fruto da coletividade. Uma coletividade tem suas formas específi cas de pensar e sentir, às quais os seus membros se sujeitam, mas que diferem daquelas que eles praticariam se fossem abandonados a si mesmos (DURKHEIM apud QUINTANEIRO, 1995, p. 18). Ele, Durkheim, ressaltou, portanto, que os modos de agir e ser são fruto de uma socialização metódica. A escola é uma das instituições que desempenham esse papel de socialização. Como sistema organizativo, a escola tende, para esse sociólogo, à perpetuação, à conservação dos valores. Althusser identifi cou a escola como um aparelho ideológico do Estado. Nesse sentido, entendia que essa instituição tinha a função de criar condições para a perpetuação da ideologia dominante, ao universalizar os valores e as práticas da elite. O papel principal da escola e, portanto, da Educação nela realizada, era naturalizar o status quo, perpetuá-lo pelo convencimento através da coerção ideológica. Émile DURKHEIM (1858-1917) foi um dos pensadores que mais contribuíram para a consolidação da Sociologia como ciência e sua transformação em disciplina acadêmica. Sua obra foi infl uenciada pela perspectiva de progresso contínuo do homem e de racionalismo, herdadas da Ilustração e intensifi cadas pela industrialização crescente no século XIX. Aparelhos ideológicos do Estado são meca- nismos e instituições encarregados de garantir que o status quo não seja contestado. Você já estudou este assunto em Fundamentos 1 e 2. Louis ALTHUSSER, comunista e fi lósofo francês, nascido em 1918 na Argélia, propôs, na década de 1960, uma leitura da obra de Marx na qual evidenciou as diferenças profundas entre suas obras iniciais e as da fase madura, salientando a presença, nesse segundo momento, da concepção materialista da História. Sua produção infl uenciou fortemente os marxistas de sua época, deixando impor- tantes contribuições na discussão do conceito de ideologia e dos aparelhos ideológicos. Aula_04.indd 33 20/7/2004, 15:29:43 C E D E R J34 Fundamentos da Educação 3 | Ações afi rmativas na Educação Bourdieu desenvolveu, junto com Passeron, o conceito de reprodução, evidenciando que sua ocorrência no âmbito socioeconômico se concretiza através do processo de reprodução cultural. Nesse sentido, foi de fundamen- tal relevância sua concepção de capital cultural, que aprofundou a compre- ensão do papel da escola no processo de perpetuação das relações sociais. Bourdieu destacou que o acesso aos recursos culturais, que os indivíduos possuem, por herança, repercute no processo de escolarização, favorecen- do os membros da classe dominante que detêm os saberes socialmente referendados pela instituição. Existe quase uma superposição da cultu- ra da elite e da cultura escolar; o que é “herdado” naturalmente pelos fi lhos dessa elite precisa ser absorvido, embora com extrema difi culdade, pelos descendentes das outras classes. Assim, segundo Bourdieu, para que sejam favorecidos os mais favorecidos e desfavorecidos os mais desfavorecidos, é necessário e sufi ciente que a escola ignore, no âmbito dos conteúdos do ensino que transmite, dos métodos e técnicas de transmissão e dos critérios de avaliação, as desigualdades culturais entre as crianças das diferentes classes sociais. Em outras palavras, tratando os educandos, por mais desiguais que sejam eles de fato, como iguais em direitos e deveres, o sistema escolar é levado a dar sua sanção às desigualdades iniciais diante da cultura (BOURDIEU apud NOGUEIRA, CATANI, 2001, p. 53). A contribuição desses autores para a percepção do papel da escola é fundamental, embora, hoje, muitos outros estudiosos tenham redi- mensionado o caráter “reprodutor do status quo” da escola, inserindo nos seus estudos a percepção do confl ito contínuo que se processa nessa instituição. Sem negar o papel de socialização direcionada da escola, os estudos atuais contemplam o confl ito, o confronto, o embate que ocorre continuamente entre as diferentes vozes presentes na escola, incluso o das minorias. Entre esses estudiosos, por exemplo, estão Apple, Young e Tomaz Tadeu da Silva. Aula_04.indd 34 20/7/2004, 15:29:43 C E D E R J 35 A U LA 4 M Ó D U LO 1 Com a crítica crescente ao sistema educativo – especialmente o escolar – e o desenvolvimento das correntes críticas e pós-críticas da Teoria do Currículo e dos Estudos Culturais, os movimentos sociais de afi rmação tiveram subsídios para reivindicar a inclusão de suas temáticas nos currículos escolares, o direito de organizar sistemas escolares especiais e o acesso aos níveis mais elevados da escolarização institucionalizada. Exemplos dessas demandas são fáceis de recordar! De muitos deles, inclusive, você teve conhecimento através da mídia. Vamos nos lembrar de alguns casos clássicos de reivindicação no contexto da Educação? O movimento negro pressionou fortemente para que os currículos escolares incorporassem sua história e suas heranças culturais. No Brasil, recentemente, a História da África, caracterizando-se como uma ação afi rmativa, passou a ser conteúdo obrigatório no ensino de História na Educação Básica. Não é menos signifi cativa a pressão que os movimentos de feministas e de homossexuais fazem, buscando eliminar das escolas as práticas que reforçam a visão deturpada do lugar do homem e da mulher na sociedade, assim como do exercício da sexualidade. No fi nal do século XX, parte dessas demandas refl etiu, por exemplo, as necessidades geradas pela própria reor- ganização da concepção de família; isso gerou um confronto com a escola, divulgadora de uma visão clássica, incompatível com a multiplicidade de vivências familiares do mundo contemporâneo. As comunidades indígenas também deram sua contribuição para o debate das políticas sociais compensatórias, reivindicando o direito a uma educação indígena que não afastasse as comunidades do conjunto da sociedade mas que garantisse a consolidação de sua identidade num contexto multifacetado. Nessa demanda, especial relevância teve a luta pelo ensino de suas línguas, ensino esse entendido como mecanismo essencial de afi rmação de identidade. Outros exemplos, ainda, podem ser lembrados, como a luta dos portadores de defi ciências por uma educação inclusiva, que não os separasse da coletividade, permitindo a freqüência em escolas regulares, Aula_04.indd 35 20/7/2004, 15:29:44 C E D E R J36 Fundamentos da Educação 3 | Ações afi rmativas na Educação não-especializadas. Atualmente, no Brasil, as escolas públicas e particulares estão impedidas de negar matrícula aos portadores de defi ciências, de modo a ampliar a convivência entre diferentes realidades. Contudo, a iniciativa mais genericamente considerada como exemplo de política de discriminação positiva é a da demanda por cotas, especialmen- te no Ensino Superior. Recentemente, a questão ganhou espaço na mídia com um decreto do Governo do Estado do Rio de Janeiro que impunha um sistema de cotas à Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O debate intenso ganhou espaço na Justiça, estando para ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal a questão da constitucionalidade da medida. CONCLUSÃO Vera Maria Candau, numa perspectiva dos Estudos Culturais, indica o desafi o que a escola tempela frente: ser um espaço de diálogo entre diferentes saberes e linguagens, questionando o seu caráter monocultural. Nesse sentido, afi rma que devem "ser enfatizadas a dinamicidade, a fl exibilidade, a diversifi cação, as diferentes leituras de um mesmo fenômeno, as diferentes formas de expressão, o debate e a construção de uma perspectiva crítica plural" (CANDAU, 2000 p. 14). É nessa perspectiva que as demandas por ações afi rmativas na Educação, notadamente na escola, atuam e pressionam. Na próxima parada, vamos aprofundar nosso estudo sobre as políticas afi rmativas no cenário brasileiro, principalmente através da Educação inclusiva, da Educação indígena e da política de cotas. Até lá! Aula_04.indd 36 20/7/2004, 15:29:44 C E D E R J 37 A U LA 4 M Ó D U LO 1 R E S U M O Nesta aula, retomamos o conceito de política afi rmativa e sua função para explicar a ocorrência das políticas sociais compensatórias no contexto da Educação. Exemplificamos, no âmbito da Educação, algumas ações de discriminação positiva, ressaltando sua relação com as contribuições de alguns estudiosos para a compreensão do papel da escola e sua ação no processo de reprodução social, sem esquecer de mencionar a revisão por que passam esses estudos. A partir da percepção do papel da Educação e, em especial, da escola na formação social do cidadão, fomos capazes de analisar a importância das políticas afi rmativas nesse contexto e compreender por que a Educação foi e é um espaço privilegiado de embate dos movimentos questionadores das diferentes formas de discriminação. EXERCÍCIOS 1. Defi na política afi rmativa, justifi cando sua função. 2. Analise a função da Educação e especialmente da escola no processo de formação social do cidadão. 3. Justifi que o papel de destaque dado à Educação no contexto das lutas pela implantação de ações afi rmativas. 4. Apresente quatro exemplos de políticas de discriminação positiva apresentados na nossa viagem. Aula_04.indd 37 20/7/2004, 15:29:44 C E D E R J38 Fundamentos da Educação 3 | Ações afi rmativas na Educação AUTO-AVALIAÇÃO Depois desta nossa nova parada, você deve ser capaz de conceituar as chamadas ações afi rmativas e de relacioná-las com a Educação. O texto e os exercícios devem ter propiciado o reconhecimento de alguns exemplos de ações de discriminação positiva. A compreensão do papel da escola e de sua ação no processo de reprodução social foi outra importante contribuição desta aula, que você deve seguramente dominar. A partir da percepção do papel da Educação e, em especial, da escola, na formação social do cidadão, você deve analisar a importância das políticas afi rmativas no âmbito educacional e entender a importância que os movimentos questionadores das diferentes formas de discriminação dão às suas demandas no campo educativo. Aula_04.indd 38 20/7/2004, 15:29:45 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Conceituar espaços educativos não-formais. • Relacionar o uso desses espaços não-formais e o processo de escolarização regular. • Exemplifi car espaços educativos não-formais. • Analisar a importância de usar os espaços educativos não-formais como campos de estágio na formação de professores. • Explicar o que é a pedagogia de museus. Espaços educativos não-formais ob jet ivo s 5AULA Aula_05.indd 39 20/7/2004, 15:30:37 C E D E R J40 Fundamentos da Educação 3 | Espaços educativos não-formais Continuamos nossa viagem de trem. Saímos da plataforma Ações afi rmativas na Educação e prosseguimos viagem para outro caminho que se caracteriza por analisar a importância dos “espaços educativos não-formais”, ou seja, os lugares alternativos de aprendizagem. Prepare-se, pois, para enveredar por outro atalho do conhecimento... Sabemos que o processo de escolarização privilegia, como o próprio nome sugere, a escola. Porém, não é só na escola que se aprende, pois a família, os vizinhos, os amigos, o clube etc. também educam. Note a diferença: esses outros espaços educam, mas não escolarizam, por nem sempre terem a preocupação de educar, pois não estão voltados para sistematizar o conhecimento, como o ensino/aprendizagem na escola. Portanto, torna-se importante estudarmos esses outros espaços, que embora não sejam escolarizados também educam os indivíduos. Entendemos que a função básica da Educação não é inserir o aluno no mercado de trabalho e sim formar cidadãos capazes de participar, com independência, do mundo em que vivem. Sendo assim, acreditamos que a Educação visa formar cidadãos autônomos, capazes de atuar como leitores, consumidores e agentes críticos no mundo. É nessa plataforma que vamos estudar a importância de estreitar laços entre as práticas curriculares nas escolas e os espaços educativos não-formais como lugares alternativos de aprendizagem, sem abdicar da escola como locus privilegiado de construção e de socialização de saberes. Dentre esses espaços educativos não-formais vamos privilegiar os lugares de preservação da memória – como museus, arquivos, exposições etc.–, tendo em vista sua importância na formação da identidade cultural de um povo. ESCOLA, MEMÓRIA E ESPAÇOS EDUCATIVOS NÃO-FORMAIS Na perspectiva dos Estudos Culturais, segundo Tomaz Tadeu da Silva (1999), "a cultura é pedagógica e a pedagogia é cultural". Diversos programas de televisão, mesmo que não tenham o objetivo explícito de ensinar, educam. Por outro lado, toda a Pedagogia está inserida num contexto histórico e cultural. Todo conhecimento se constrói, portanto, num sistema de signifi cados. Aula_05.indd 40 20/7/2004, 15:30:44 C E D E R J 41 A U LA 5 M Ó D U LO 1 Tal como a Educação, as outras instâncias culturais também são pedagógicas, também têm uma “pedagogia”, também ensinam alguma coisa. Tanto a Educação quanto a cultura em geral estão envolvidas em processos de transformação da identidade e da subjetividade (SILVA, 1999, p. 139). A escola não é o único “lugar de conhecimento” e, portanto, de trans- formação de subjetividades, como nos afi rma o autor. Existem outros espaços de saber que também educam, conforme já abordamos, como os museus, os arquivos, os programas de televisão e/ou rádio (educativos ou apenas de lazer), os fi lmes, as peças de teatro, as músicas, os espaços de exposições etc. Quer queiramos ou não, muitas vezes eles educam. As escolas apresen- tam universos particulares com lógica própria. Por outro lado, os museus, os arquivos, os locais de exposições e outros lugares de memória (LE GOFF, 1990) também possuem cultura própria, ritos e códigos específi cos. Daí ser necessária a busca de caminhos para a construção de uma pedagogia de museus, como nos afi rma Marandino (2000). Vários motivos levam os professores a buscar os espaços educati- vos não-formais como lugares alternativos de aprendizagem. Dentre tais objetivos, estariam a apresentação interdisciplinar dos temas, a interação com o cotidiano dos estudantes e, por fi m, a possibilidade de ampliação cultural proporcionada pela visita. Assim, as visitas teriam o objetivo de uma alfabetização científi ca do cidadão. Para isso trabalha-se com ele- mentos de relevância social que informam os indivíduos e os conscientizam de problemas político-sociais. Nas últimas décadas, a questão educacional passou a ser um dos alicerces dessa nova museologia. Cresceram as pesquisas que analisam o processo de ensino ou divulgam o conhecimento nesses espaços, na perspectiva de estudos sobre transposição didática ou museográfi ca. A participatividade e a interatividade dos museus de ciência e técnica estenderam seus tentáculos a outros como os de História, Arqueologia, Etnografi a e Ciências Naturais, através sobretudo do advento de novas tecnologias. A base fi losófi ca dessas mudanças reside na democratização do acesso ao saber que se encontra "depositado" nos museus. Aula_05.indd 41 20/7/2004, 15:30:44C E D E R J42 Fundamentos da Educação 3 | Espaços educativos não-formais Em contrapartida, a escola deve permitir a infl uência desses espa- ços educativos alternativos através das visitas pedagógicas e das ações de parcerias. Ela deveria ser um lugar de análises críticas, de atribuição de signifi cado às informações e reconstrução do conhecimento, funcionando como formadora de sujeitos sociais. Para os gregos, memória signifi cava vidência e êxtase. É com tal alegria e êxtase que esperamos de nossos alunos a percepção e a aprendizagem de nossa memória através de vivências extramuros escolares. A preservação da memória, como por exemplo nas exposições e visitas guiadas aos museus, torna-se fundamental na ampliação de vivências pedagógicas diferenciadas para nossos estudantes. A aula reprodutiva reduz o aluno, não permite a formação de sua autonomia, já que apresenta modelos prontos, repetitivos e descolados de sua vivência real. Aprender é construir e reconstruir o conhecimento, ela- borando e exercendo a autonomia de sujeito histórico. Crianças e jovens devem ser partícipes ativos de sua sociedade, gerando a transformação social e política dela. Logo, urge a necessidade da reinvenção da escola comprometida com uma cidadania participativa e democrática, ampliando e vencendo os seus próprios “muros”... Contudo, a busca da cidadania nos países da periferia esbarra na falta de cumprimento de direitos universais básicos, embora mui- tas vezes suas populações tenham esses direitos consagrados em lei. Além disso, num mundo em constante transformação podem surgir novos direitos, frutos de novas lutas e reivindicações. E é exatamente esse movimento que caracteriza a cidadania (CANDAU, 2002, p. 37). Aula_05.indd 42 20/7/2004, 15:30:45 C E D E R J 43 A U LA 5 M Ó D U LO 1 ESPAÇOS EDUCATIVOS NÃO-FORMAIS Como já foi dito, faz-se necessário desvelar o horizonte universitário e pedagógico para a utilização dos espaços educativos não-formais na educação de nossos alunos. Assim sendo, é necessária uma atenção especial à formação inicial dos professores. É nesse sentido que entendemos que se deva aproveitar o preconi- zado pelas novas Diretrizes Curriculares para Formação de Professores, particularmente a ampliação da carga horária das práticas de ensino e de estágio; também deve-se levar em consideração a diversifi cação dos campos de estágio curricular para a necessidade de utilizar tais espaços educativos não-formais como locais de estágio. É claro que a escola continua sendo o cerne do estágio, unindo teoria e prática na formação docente; porém, o aprendizado de como utilizar outros espaços educativos – além da escola – é fundamental na formação desse futuro professor (como você) na socie- dade contemporânea. No caso específi co dos museus, Marandino (2000) alerta para a neces- sidade da construção de uma pedagogia de museus, levando em consideração sua especifi cidade pedagógica para otimizar as visitas escolares. Não se trata, segundo a autora, de opor o museu à escola, mas de defi nir as especifi cidades relacionadas ao lugar, ao tempo e aos objetos no espaço do museu; estabelecer o que é essencial e deve ser incluído na formação de educadores numa didática de museu. Nesse sentido, poderíamos ampliar esse entendimento para museus e para outros espaços educativos como exposições, arquivos públicos, centros culturais, sindicatos etc. Dessa forma, em tais visitas pedagógicas seriam oferecidas a nossos alunos diferentes leituras da ciência e do mundo. Como exemplo de um espaço educativo não-formal, temos o Espaço da Ciência de Olinda, em Pernam- buco, criado em 1994, que desenvolve capa- citação de professores através de centros de referência criados em 21 escolas da rede pública. Também há o MAST/CNP, que em 1997 estabeleceu um projeto denominado Formação continua- da de professores de ciências e os espaços não-formais de Edu- cação para produzir material didático junto às escolas públi- cas municipais. É essencial, cada vez mais, a parceria dos museus com as universidades, secretarias municipais e estaduais para a realização de cursos de formação de professores em todos os níveis. Além disso, é muito importante a implantação de pesquisas nos museus e investigações sobre a relação museus/espaços culturais e escola. Esses estudos dariam subsídios maiores aos programas educativos e culturais desenvolvidos nessas instituições. Aula_05.indd 43 20/7/2004, 15:30:45 C E D E R J44 Fundamentos da Educação 3 | Espaços educativos não-formais Os profi ssionais que enfatizam o papel da escola na sociedade enquanto transmissora de conhecimentos científi cos historicamente produzidos apresentam uma postura que Candau (1994) classifi ca como transcul- tural. Tais conhecimentos, de caráter considerado universal, perpassam as particularidades de cada contexto social, e devem ser privilegiados em qualquer escola. O papel da escola deve estar referido aos aspec- tos culturais universais, dos quais todos e todas devem se apropriar. A escola é o lugar da igualdade e da universalidade, e não da diferença e das particularidades (id, p. 37). CONCLUSÃO Nas últimas décadas, cresceram as pesquisas que analisam os processos de ensino em espaços não-formais, na perspectiva dos estudos sobre transposição didática. Cabe à universidade, locus privilegiado na formação de docentes, buscar implantar currículos multiculturais de formação de professores mais articulados entre teoria e prática, que corroborem para essa transformação social. Vera Candau, na perspectiva dos Estudos Culturais, indica o desafi o que a escola tem pela frente: "ser um espaço de diálogo entre diferentes saberes e linguagens", questionando o seu caráter monocultural. Cabe então, a nós, educadores, a utilização cada vez mais freqüente desses espaços alternativos de aprendizagem que, em geral, tanto encantam os alunos, trazendo- lhes prazer e uma aprendizagem signifi cativa. Aula_05.indd 44 20/7/2004, 15:30:46 C E D E R J 45 A U LA 5 M Ó D U LO 1 R E S U M O Nesta aula, tentamos mostrar a importância dos espaços educativos não-formais nos processos de Educação. Você deve ter percebido o quão signifi cativo é levar os alunos a museus, exposições, arquivos etc. tendo em vista que esses lugares também educam, já que se confi guram como espaços alternativos de aprendizagem. Além disso, Marandino nos chamou atenção para a importância de construir uma pedagogia de museus, por eles possuírem códigos e rituais específi cos. Paralelamente a isso, fazem-se urgentes mudanças nos currículos de formação de professores para que eles valorizem tais espaços educativos não-formais nos processos de ensino- aprendizagem com seus alunos. Por fi m, você pôde perceber a diferença e a relação entre a cultura que é pedagógica e a pedagogia que é cultural. EXERCÍCIOS 1. Defi na espaços educativos não-formais. 2. Analise a importância da criação de uma pedagogia dos museus. 3. Justifi que a frase: “A cultura é pedagógica, e a pedagogia é cultural." 4. Apresente três exemplos de espaços educativos não-formais. 5. Identifi que três fatores que levam os professores a querer utilizar os espaços educativos não-formais. 6. Explique a importância do uso dos espaços educativos não-formais como campos de estágio curricular durante a formação inicial dos professores. Aula_05.indd 45 20/7/2004, 15:30:46 C E D E R J46 Fundamentos da Educação 3 | Espaços educativos não-formais AUTO-AVALIAÇÃO Depois desta nossa parada, você deve ser capaz de analisar a importância do uso dos espaços educativos não-formais nos processos educacionais. Além disso, você deve ter conseguido entender por que a pedagogia é cultural e a cultura é pedagógica. Além disso, é importante conceituar pedagogia de museus e identifi car os fatores que levam os professores a querer utilizaros espaços alternativos de aprendizagem. Por fi m, você deve ter percebido a importância desses espaços educativos alternativos como campos de estágio curricular na formação de professores. Então, se você entendeu tudo isso e conseguiu responder a todas essas questões, parabéns e boa viagem! Caso contrário, releia a aula ou consulte seu tutor no pólo. Aula_05.indd 46 20/7/2004, 15:30:46 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Analisar o papel do livro didático na escola. • Identifi car as principais críticas feitas aos livros didáticos. • Reconhecer alguns critérios de avaliação do livro didático. • Analisar o Programa Nacional do Livro Didático. O livro didático na Educação brasileira ob je ti vo s 6AULA Aula_06.indd 47 21/7/2004, 09:57:16 C E D E R J48 Fundamentos da Educação 3 | Livro didático na Educação brasileira Estamos chegando a mais uma estação! Vamos agora parar para discutir a importância e as transformações sofridas pelo livro didático; vamos analisar também a ação governamental de avaliação e distribuição desse recurso didático. Estamos, portanto, nos encaminhando para a plataforma do Livro didático na Educação brasileira. Os estudos sobre o livro didático se fazem, em geral, no contexto de uma disciplina. A bibliografi a sobre o tema, fora do âmbito das especialidades, é, portanto, reduzida. Contudo, há nesse debate sempre interseções. Nesse senti- do, é necessário buscar o aprofundamento da questão na produção específi ca de uma disciplina, na qual se percebem preocupações, críticas e proposições possíveis de serem generalizadas. BREVE HISTÓRICO A história do livro didático no Brasil está intimamente relacionada com a estruturação do ensino público após a Independência, notadamente após a criação do Colégio Pedro II, que se tornou espaço de divulgação e produção de compêndios de ensino secundário. Inicialmente, os manuais sofriam forte influência da produção francesa, sendo, em alguns casos, traduções. Foi necessário esperar a República e, especialmente, a década de 1930, com a consolidação de um regime com viés nacio- nalista, para que a produção dos livros didáticos fosse incrementada em território brasileiro. É relevante perceber que essa mudança nos anos 30 do século XX ocorreu em um contexto de implementação de uma política de Estado vol- tada para a Educação pública, com Francisco Campos e, posteriormente, Gustavo Capanema. As reformas educacionais implementadas durante o governo Var- gas tiveram sempre um denominador comum: o centralismo e a busca da consolidação da nacionalidade brasileira institucionalmente idealizada. Nesse intuito, o Estado desenvolveu a estrutura administrativa da Educa- ção, ampliou o número de estabelecimentos de ensino – especialmente nas grandes cidades do Centro-Sul –, fi xou programas e estabeleceu diretrizes metodológicas. Todas essas medidas deviam contribuir para reforçar o projeto de unidade da nação brasileira. Esse contexto explica a ênfase na produção de material didático. Outro fator que contribuiu para essa guinada na produção do livro didático foi a Crise de 1929, que encareceu os gêneros importados, inclusive o livro. Francisco Campos Gustavo Capanema Aula_06.indd 48 21/7/2004, 09:57:32 C E D E R J 49 A U LA 6 M Ó D U LO 1 Em 1937, o Ministério da Educação e Cultura, chefi ado por Gustavo Capanema, criou o Instituto Nacional do Livro (INL), com a função de divulgar e distribuir obras de interesse educacional e cultural. É interessante perceber que a primeira defi nição de livro didático de que se tem conhecimento no Brasil é do período do Estado Novo. O decreto de 1938 – que criou a Comissão Nacional do Livro Didático (CNLD), responsável pela política do livro didático – defi nia os compêndios como "livros que exponham total ou parcialmente a matéria das disciplinas constantes dos programas escolares". Podendo ser chamados também de "texto, livro texto, livro escolar, livro de classe, manual, livro didático". (Freitag, Bárbara, Costa, Wanderley da e Motta, Valéria Rodrigues. O livro didático em questão. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1993, pp. 12-13). Um novo período de controle intenso sobre a produção do livro didático veio acontecer em outra ditadura: a militar, iniciada em 1964. A infl uência européia, notadamente a francesa, de educação humanística foi sendo substituída, nesse período, pelo modelo de ensino tecnicista norte- americano. Vários acordos foram assinados entre 1964 e 1969, entre Brasil e Estados Unidos, consolidando essa aproximação no campo da Educação. Um novo órgão de gerenciamento do livro didático foi criado: Comissão do Livro Técnico e do Livro Didático (Colted). A partir da Lei 5.692/71, houve uma regionalização dos currí- culos; contudo, cabia ao Conselho Federal de Educação (CFE) fi xar o núcleo comum de cada disciplina para cada nível e série. Na prática, esse núcleo comum passou a constituir um roteiro, que foi seguido pelas editoras para a produção de seus livros didáticos, o que gerou uma extrema padronização das obras. A partir de 1985, instituiu-se o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), através do qual, a partir de uma listagem fornecida pela Fun- dação de Assistência ao Educando (FAE), o docente, a cada dois ou três anos, escolhe os livros a serem fornecidos pelo governo para seus alunos. É importante, entretanto, destacarmos que só em 1993 foi instituída uma comissão de avaliação dessas obras, a fi m de fornecer subsídios para a construção do Guia de Livros Didáticos. O CNLD, na verdade, atuou como órgão central de controle político-ideológico da produção e dis- tribuição dos livros didáticos no contexto da ditadura do Estado Novo, exercendo, inclusive, o controle sobre as Comissões Estaduais do Livro Didático (CELD). O Guia de Livros Didáticos é enviado pelo MEC às escolas públicas para que os docentes processem as escolhas dos livros didáticos; também é possível consultar acessando a página do MEC (www.mec.gov.br). Aula_06.indd 49 21/7/2004, 09:57:40 C E D E R J50 Fundamentos da Educação 3 | Livro didático na Educação brasileira O Estado – além de ser, estruturalmente, o grande defi nidor e imple- mentador da política nacional para o livro didático – tornou-se, também nesse contexto, o maior cliente das editoras, o maior comprador. Em 1986, adquiriu, por exemplo, 45 milhões de exemplares (idem, ibidem, pp. 54-55). Na década de 1990, a compra de livros didáticos pelo Estado ultrapassou 100 milhões de exemplares. Em 1995, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL), cerca de 58% das obras didáticas vendidas no país eram adquiridas pelo Estado, conforme informa Luiz Carlos Villalta (CERRI, 1999, p. 141). Essa participação do Estado no mercado editorial de livros didáticos aumenta, continuamente, com a ampliação da inserção das crianças e adolescentes na escola pública, especialmente nos últimos dez anos, conforme exigência dos acordos celebrados com diferentes instituições internacionais, como o Banco Mundial, por exemplo, conforme foi visto em outras aulas de Fundamentos. CARACTERIZANDO E REFLETINDO SOBRE O LIVRO DIDÁTICO Circe Bittencourt, no artigo “Livros didáticos entre textos e imagens” (BITTENCOURT, 2001, pp. 71-72), apresenta quatro importantes carac- terísticas do livro didático: 1°) É uma mercadoria, portanto, está inserido no contexto de pro- dução capitalista, sujeito às transformações tecnológicas, à propaganda e aos interesses comerciais. Seu processo de produção está além do controle do autor, sendo infl uenciado por editores, diagramadores, ilustradores etc. 2°) É um depositário dos conteúdos escolares, sendo o veículo prefe- rencial de transposição do saber acadêmico para o escolar, além de registrar os conteúdos privilegiados em determinada proposta curricular. 3°) É um instrumento pedagógico, pois a ele está associadauma metodologia de ensino, já que não se apresentam na obra apenas os saberes essenciais, mas também as formas de ensiná-los. Essa faceta do livro didático fi ca explicitada nos livros do professor que são produzidos, bem como na dinâmica interna de sua organização, que ultrapassa os limites do registro das informações. Aula_06.indd 50 21/7/2004, 09:57:40 C E D E R J 51 A U LA 6 M Ó D U LO 1 4°) É um importante veículo portador de um sistema de valores, de uma ideologia, de uma cultura; como não podia deixar de ser, o livro didá- tico é, por si, uma produção cultural; logo, sua elaboração é historicamente determinada. A neutralidade da obra didática, assim como de qualquer produção de conhecimento, é uma falácia. Flávia Eloísa Caime destaca três pressupostos básicos que devem estar em nossa mente quando falamos em livro didático e que interagem e reforçam a caracterização de Circe Bittencourt. Para a autora, o livro didático corporifi ca um projeto pedagógico específi co, sendo seu autor um selecionador de conteúdos, que é histórica e ideologicamente situada, não havendo neutralidade (CAIME, MACHADO e DIEHL, 1999, p. 78). Nesse sentido, torna-se decisivo ter consciência de que o livro didático traz com ele, para além da informação, uma abordagem dos saberes que comu- nica uma metodologia de ensino desses saberes e uma inserção desses saberes numa visão de mundo específi ca. Por isso, como produção cultural, o livro didático tem seu tempo histórico próprio. Não é nem pode ser estático. Podemos dizer que essas constatações, explicitadas pelos estudiosos do tema em diversas áreas, justifi cam, em parte, o abandono de certas deno- minações – como compêndio e manual – para designar o produto editorial voltado para o ensino, e que lhe davam ênfase, numa visão de obra síntese, pronta e defi nitiva. O USO E O ABUSO DO LIVRO DIDÁTICO A importância do livro didático na escola brasileira não pode ser negada. Para a maioria dos estudantes, os livros didáticos são os únicos que eles manuseiam e com que têm contato. Por outro lado, em função da complexidade e da heterogeneidade da formação docente em nosso país, o livro didático assume, ainda, papel fundamental no trabalho do profes- sor, tornando-se o meio de suporte técnico, quase único, do processo de ensino-aprendizagem. Aula_06.indd 51 21/7/2004, 09:57:41 C E D E R J52 Fundamentos da Educação 3 | Livro didático na Educação brasileira Nesse contexto é que a crítica elaborada pelos estudiosos do tema se concentra. Ubiratan Rocha, por exemplo, afi rma que o livro didático é um dos objetos da rotina escolar. Ele, por si mesmo, não tem o poder de estabelecer ou direcionar as práticas escolares: ao contrário, ele é um dos alvos delas. Os professores, ao contrário, invertendo as direções, é que, muitas vezes, o transfor- mam numa camisa-de-força, num guia, numa muleta, num fardo a ser carregado... Em outras palavras, o equívoco não está na existência do livro didático – apesar de todas as considerações críticas feitas sobre sua constituição – mas no uso que se faz dele, no excessivo destaque dado a esse material didático. Principalmente, o problema se assenta na difi culdade de o docente ir além do livro, instaurando um leque diversifi cado de práticas escolares, de métodos de ensino. Em suma, é criticável que o livro didático seja o mais importante instrumento de trabalho do professor. Não podemos esquecer, entretanto, que o acesso ao livro didático em nosso país é um relevante fator de difusão do saber, pois é extremamente reduzido o número de pessoas com condição de comprar livros ou qualquer outro instrumento de informação. Podemos dizer, então, que a principal questão é encontrar um meio de criar instrumentos de controle que garantam a melhoria constante da qualidade da produção didática; é promover políticas públicas que aperfei- çoem, signifi cativamente, a formação docente. CONCLUSÃO É indiscutível que o livro didático precisa possuir rigor teórico, clareza metodológica e ideológica. Precisa, acima de tudo, divulgar um saber escolar que esteja em constante interação com o saber científi co academicamente produzido. A constituição de sistemas de avaliação da produção didática precisa ser desenvolvida e aperfeiçoada, levando em conta que o centralismo, quer dizer, o dirigismo estatal, é perigoso nesse caso. Esses sistemas não podem se furtar a criar barreiras para a pressão, para o lobby, das grandes editoras/empresas. Aula_06.indd 52 21/7/2004, 09:57:41 C E D E R J 53 A U LA 6 M Ó D U LO 1 R E S U M O Nesta parada você teve a oportunidade de se deparar com algumas considerações sobre a história do livro didático no Brasil, em que se ressaltou o papel desempenhado pelo Estado nessa trajetória. Defi niu-se esse instrumento didático, como mercadoria, depositário dos conteúdos escolares, instrumento pedagógico e veículo portador de um sistema de valores, de uma ideologia, de uma cultura. Conseqüentemente, identifi camos que para analisar um livro didático é preciso ter consciência de que ele corporifi ca um projeto pedagógico específi co, de que o autor de livros didáticos é um selecionador de conteúdos e que essa seleção é histórica e ideologicamente situada, inexistindo neutralidade. Por fi m, discutimos que a principal problemática é criar instrumentos de controle que garantam a melhoria constante da qualidade da produção didática; evidenciamos a necessidade de promover políticas públicas que aperfeiçoem, signifi cativamente, a formação docente. Ressaltamos a importância do livro didático no contexto brasileiro, refl etimos a respeito dos usos e abusos do livro didático. É indiscutível, também, que um professor valorizado profissionalmente e capacitado teoricamente será capaz de ser sujeito de seu fazer pedagógico, tornando o livro um instrumento de apoio didático, como muitos outros. Assim como qualquer outro instrumento pedagógico – como, por exemplo, o cinema –, um dos maiores problemas no uso do livro didático vem da difi culdade de o docente ter autonomia em produzir o processo pedagógico, isto é, de ele ser capaz de ir além, de transformar, de criticar, de recriar. Por fi m, é importante destacar que, mesmo não adotando o livro didático, o docente não fi ca isento dos vícios do mau uso dele, pois a questão está para além do objeto, do instrumento. Será que as apostilas e os materiais escritos selecionados pelos professores não podem estar contaminados com os mesmos problemas? Trata-se, antes de tudo, de investir na formação acadêmica e pedagógica do professor, pois o bom uso de qualquer instrumento didático está condicionado à consistência do profi ssional que o utiliza. Se o livro didático não é um monstro que impede o processo de ensino- aprendizagem autônomo, tampouco é o instrumento didático que promoverá a sua salvação. Aula_06.indd 53 21/7/2004, 09:57:41 C E D E R J54 Fundamentos da Educação 3 | Livro didático na Educação brasileira AUTO-AVALIAÇÃO Ao fi nal desta aula, você deve ser capaz de sintetizar a trajetória histórica do livro didático no Brasil, ressaltando o papel desempenhado pelo Estado. Deve ter elaborado uma definição de livro didático que permita entendê- lo como mercadoria, depositário dos conteúdos escolares, instrumento pedagógico e veículo portador de um sistema de valores, de uma ideologia, de uma cultura. Conseqüentemente, para analisar um livro didático, você deve ter consciência de que esse instrumento pedagógico corporifi ca um projeto pedagógico específi co, que seu autor é um selecionador de conteúdos e que essa seleção é histórica e ideologicamente situada, inexistindo neutralidade. Por fi m, deve identifi car os problemas no uso do livro didático, assim como os caminhos a seguir para o desenvolvimento qualitativo desse uso. EXERCÍCIOS 1. Analise o papel do livro didático na escola brasileira.2. Identifi que as principais críticas feitas aos livros didáticos. 3. Aponte alguns importantes pressupostos para a avaliação do livro didático. 4. Explique o que é o Programa Nacional do Livro Didático. 5. Analise o papel do Estado na história do livro didático. Aula_06.indd 54 21/7/2004, 09:57:42 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Conhecer a história da profi ssão docente no Brasil. • Caracterizar o tipo de professor atuante no Brasil-Colônia e no século XIX. • Identifi car os principais momentos da profi ssio- nalização docente da Proclamação da República até os dias de hoje. • Analisar a importância do ideário escolanovista na profi ssionalização docente. • Analisar o processo de feminização do magistério. • Identifi car os principais aspectos da formação do professor na LDB de 1961 e na Lei 5.692/71. • Relacionar os anos 80 ao desenrolar da profi ssionalização docente no Brasil. • Analisar os principais aspectos da LDBEN/96 no que diz respeito à formação dos professores. História da profi ssionalização docente no Brasil ob je ti vo s 7AULA Aula_07.indd 55 21/7/2004, 09:59:47 C E D E R J56 Fundamentos da Educação 3 | História da profi ssionalização docente no Brasil Vamos continuar nossa viagem de trem. Partimos para outra estação; portanto, deixamos a estação do Livro didático na Educação brasileira, para visitarmos a História da profi ssionalização docente no Brasil. Não é possível fazer-se profi ssional da aprendizagem nas condições atuais, marcadas tão insistentemente pela lógica do instrucionis- mo. Há que mudar radicalmente o processo de formação, estudar como parte integrante do exercício profi ssional, ser capaz do projeto pedagógico próprio, saber pesquisar e elaborar. Ao mesmo tempo, é essencial imprimir à profi ssão o horizonte de atualização imprescin- dível para quem, pela reconstrução do conhecimento com qualidade formal e política, direciona os tempos (DEMO, 2000). No Brasil, até hoje a profi ssão docente é majoritariamente exercida por mulheres e vista ainda por muitos como uma extensão das atividades maternais. O processo de profi ssionalização dos professores é cheio de lutas e confl itos, hesitações e recuos, divergências internas e tensões. Como afi rma Nóvoa (1995), a ocupação docente é uma profi ssão em construção pelo próprio professor. Há um agravamento da crise de identidade dos docentes hoje em dia. Os professores carecem de códigos éticos e de mecanismos próprios para julgar seus membros e resolver confl itos internos. BREVE HISTÓRICO DA PROFISSÃO DOCENTE NO BRASIL A partir do século XVI, dá-se a gênese da profi ssão de professor. Porém, nessa época a maioria dos professores era religiosa, havendo um grande domínio da Igreja Católica sobre as escolas no Brasil e em diversos lugares da Europa Ocidental. O papel do professor, conforme o entendemos hoje, começou a se defi nir com o movimento de secularização e de estatização do ensino, em meados do século XVIII, na Europa Ocidental. Foi nessa época que os docentes começaram a se profi ssionalizar, ao mesmo tempo que se tornavam funcionários públicos (NÓVOA, 1991). Ser professor e funcionário público implicava a manutenção de ideologia para a reprodução do Estado. A profi ssão de professor no Brasil é profundamente marcada pela Igreja Católica, especialmente pela Companhia de Jesus (como já visto na Aula 1). Os jesuítas desenvolveram intensa ação educativa nos tempos coloniais sobre os colonos e os indígenas. Aula_07.indd 56 21/7/2004, 10:00:03 C E D E R J 57 A U LA 7 M Ó D U LO 1 Embora o corpo docente tenha mudado, os modelos escolares foram mantidos. Com o tempo, principalmente os jesuítas e oratorianos confi - guraram um corpo de saberes e técnicas específi cos da profi ssão docente. O trabalho docente torna-se atribuição de especialistas. Tivemos então, no século XVIII, grupos nos quais o ensino era uma ocupação principal. Os professores aderiram à funcionarização, já que esta lhes garantia autonomia em relação aos párocos, autori- dades locais e às populações, cuja vontade era partilhada pelo Estado e corpo docente. Ao fi nal do século XVIII, não se pode mais lecionar sem uma licença ou autorização do Estado. A licença é instrumento fundamental na profi ssionalização docente. Como a escola se transforma em instrumento privilegiado de ascensão social, os professores tornam-se agentes culturais além de agentes políticos. Os professores foram os grandes agentes históricos do processo de escolarização assumindo a tarefa de promover o valor da educação. Ao fazê-lo, valorizavam suas funções e melhoravam seu estatuto socioprofi ssional (MONTEIRO, 1997, p. 3). O próximo passo foi a criação da institucionalização da formação – específi ca, especializada e longa. As instituições de formação ocupam um lugar central na produção e reprodução do corpo de saberes e do sistema de normas da profi ssão docente, desempenhando um papel crucial na elaboração dos conhecimentos pedagógicos e de uma ideologia comum. Mais do que formar professores (a título individual), as escolas normais produzem a profi ssão docente (em nível coletivo), con- tribuindo para a socialização dos seus membros e para gênese de uma cultura profi ssional (NÓVOA, 1995, p. 18). Aula_07.indd 57 21/7/2004, 10:00:04 C E D E R J58 Fundamentos da Educação 3 | História da profi ssionalização docente no Brasil Perrenoud (1993) chama atenção para o termo normais em Escolas Normais. A formação vai normatizar as representações e as práticas. No século XIX, no Brasil, faltavam professores qualifi cados para as escolas das primeiras letras. Pelo Ato Adicional de 1834, transferiu-se às Assembléias Provinciais a tarefa de administrar a instrução primária e a formação de seus professores. Havia uma forte ambigüidade no contexto da profi ssão de professor — funcionário ou profi ssional liberal. Essa ambigüidade foi acentuada na virada do século XX com a crescente feminização do professorado. O início do século XX foi considerado a época de ouro da Educação escolar, no qual esta era vista como o caminho para o progresso e em que os professores eram considerados os arautos e agentes desse devir. Com a Proclamação da República, houve a vitória das idéias positivis- tas, a separação da Igreja do Estado e o fi m do ensino religioso nas escolas. A Escola Normal na 1ª República estava preocupada em ampliar a cultura geral. Ela se transformou numa escola secundária “profi ssional” de segunda categoria. Havia, a partir de 1915, uma crítica à República, acusando-a de ser omissa na resolução dos grandes problemas, uma crítica que via na Educação um dos meios de progresso e de sua resolução. No meio dessa dimensão romântica de Educação é que surgiram os “educado- res profi ssionais”, as revistas especializadas, os congressos, conferências e inquéritos. Surgiu o “otimismo pedagógico” da Escola Nova. Foi então, com o ideário escolanovista, que se deu uma nova feição à Escola Normal. Segundo Weber (2000), foi nos anos 20 e depois nos anos 30, especial- mente com o Manifesto dos Pioneiros da Educação (1930), que se iniciaram as discussões sobre a formação docente. Esta já era relacionada, naquela época, à meta de exigir a titulação de nível superior aos professores, o que se acentuou a partir da SBPC de 1974 e se consolidou, na I Conferência Brasileira de Educação, em 1980. O ideário escolanovista teve como escola exemplar para forma- ção dos professores o Instituto de Educação, criado por Anísio Teixeira, diretor de Instrução Pública do Distrito Federal. Isso mostra a importância dada à profi ssionalização do educador. Em 1835, criou-se a primeira Escola Normal em Niterói. Foi a primeira Escola Normal pública das Américas. As primeiras escolas públicas normais passaram a infl uir em pequenas melhorias nas escolas e ser veículos de liberaçãoda mulher brasileira, no início com resistências. Somente com o positivismo é que se passa a reconhecer o lugar da mulher no ensino primário. Em 1901, a matrícula na Escola Normal do Distrito Federal era restrita às mulheres, reforçando a femini- zação do magistério primário. Aula_07.indd 58 21/7/2004, 10:00:05 C E D E R J 59 A U LA 7 M Ó D U LO 1 O exemplo do Instituto de Educação é fundamental para se entender o processo de profi ssionalização do magistério no Brasil. Período em que a formação do professor foi rigorosa e extremamente cuidada, já que os professores primários eram considerados, por Anísio Teixeira e Lourenço Filho, instrumentos de transformação social. Segundo Nóvoa, profi ssionalização passa a ter relação com funciona- rização, pois as professoras ali formadas eram automaticamente investidas no cargo de professoras primárias da rede pública ofi cial. A Educação Nova, segundo Monteiro, (...) contribuiu com o processo ao identifi car e valorizar os aspectos científi cos presentes na ação docente, destacando as contribuições das ciências da educação, notadamente da psicologia, e os aspec- tos relacionados com o aprender. Contraditoriamente, “esvazia” o papel docente, ao valorizar o aprender em detrimento do ensinar, criando novas facetas para tornar mais complexa a questão da ambigüidade da profi ssão docente (MONTEIRO, 1997, p. 4 ). Pouco a pouco foram se constituindo espaços de socialização profi ssional para os professores, mas esta profi ssionalização ainda era muito vaga. Ao final da República Velha, a Educação brasileira ainda era muito precária, com ausência de um projeto amplo e sistemático para a Educação nacional; sofria a inexistência de órgãos administrativos superiores (ministérios e secretarias só foram criados nos anos 30); faltava um plano nacional de Educação; havia uma pequena difusão da escola primária e um esforço para profi ssionalizar a Escola Normal. Com a Revolução de 30, começam a ser enfrentados os problemas da Educação pública popular. Criou-se nos anos 30, como já foi dito ante- riormente, o Ministério da Educação e da Saúde. As Leis Orgânicas do ensino, um conjunto de reformas, foram promulgadas entre 1942 e 1946. Dentre elas estava o Decreto-Lei 8.530, de 2/1/46, referente ao Ensino Normal. Esse decreto-lei incentivava a criação de Institutos de Educação em todo o país. Buscava-se, assim, normatizar a formação dos professores em nível nacional no modelo do Instituto de Educação. Em 1920, foi criada a primeira universidade ofi cial brasileira, a Universidade do Rio de Janeiro, como já foi abordado na Aula 2 deste volume. Aula_07.indd 59 21/7/2004, 10:00:05 C E D E R J60 Fundamentos da Educação 3 | História da profi ssionalização docente no Brasil Após 13 anos de intensa discussão entre os defensores do ensino laico e os representantes das escolas religiosas, foi criada a Lei 4.024/61, de Diretrizes e Bases da Educação. Segundo essa lei, a formação de professores para o Ensino Médio deveria ser feita nas Faculdades de Filosofi a, Ciências e Letras, e a de pro- fessores de disciplinas específi cas fi cou a cargo do Ensino Médio Técnico, em cursos especiais de Educação técnica. A formação de professores para o Ensino Normal poderia ser feita nos Institutos de Educação, desde que dentro das normas estabelecidas para os cursos pedagógicos das Faculdades de Filosofi a, Ciências e Letras. Porém, o provimento em cargo de professor nos estabelecimentos oficiais de Ensino Médio seria feito por meio de títulos e provas, abrindo a oportunidade para aqueles que não tinham cursado as Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras; já o legislador considerava prematura tal exigência, considerando-se a inexistência dessas faculdades no interior do país. Em linhas gerais, essa lei mantém a estrutura do Estado Novo e permanece muito tímida em medidas efetivas para superar as carências da sociedade brasileira. Com a crise do pós-guerra, principalmente com as manifestações de maio de 1968, a escola é denunciada como mecanismo central de manu- tenção e reprodução de uma sociedade desigual. Tal crítica à escola chegou a propor a desescolarização da sociedade. Segundo Bourdieu e Passeron (1970), o professor passa a ser visto como agente controlador simbólico e reprodutor do social desempenhado pela escola. Ou, segundo Althusser (s.d.), como agente da principal rede de reprodução da ideologia dominante. Com as reformas educacionais, que tinham o objetivo de matricular mais alunos devido à intensa urbanização da época, houve a necessidade do aumento do número de professores. Estes, que eram em maior número, tinham de competir com os meios de comunicação na divulgação das infor- mações, e começaram a perder prestígio e a ser simplesmente considerados trabalhadores assalariados. Dentro dessa fi losofi a de desescolarização da sociedade, produziu- se o livro Sociedades sem escolas, de Ivan Illich. Aula_07.indd 60 21/7/2004, 10:00:06 C E D E R J 61 A U LA 7 M Ó D U LO 1 Assim sendo, houve o crescimento dos sistemas escolares estatais, estruturas mais complexas, com grande concentração de escolas. Isso gerou o surgimento das funções especializadas na Educação. Já a atividade docente foi simplifi cada e controlada por um modelo técnico-burocrático com procedimentos padronizados e que eram ensinados e divulgados na formação inicial e continuada. Os docentes atuavam entre a profi ssionalização e a proletarização. Ainda possuíam bastante autonomia no seu processo de trabalho. Para sua proletarização contribuem seu crescimento numérico, a expansão de concentração das empresas privadas do setor, a tendência ao corte dos gastos sociais, a lógica controladora da Administração pública e a repercussão de seus salários sobre os custos da força de trabalho adulta (ENGUITA, 1991, pp. 41-61). A favor de sua profi ssionalização contribui a natureza de seu tra- balho, que não se presta à padronização, à fragmentação de tempo e à substituição por máquinas. Além da igualdade de nível de formação entre os docentes e demais profi ssionais liberais, crescente atenção social foi dada à Educação e à enorme importância do setor público em face do privado. Essa LDB de 1961 vigorou até a LDBEN de 1996. Sofreu modifi ca- ções nos dispositivos referentes ao Ensino Superior, com a Lei 5.540/68, e às normas correspondentes ao Ensino Primário e Médio, que, através da Lei 5.692/71, passaram a se chamar 1º e 2º Graus. A Lei 5.692/71 instituiu a terminalidade legal ao fi m do 2º Grau, com a obrigatoriedade de todos os alunos receberem formação profi ssional. Os colégios não tinham condições de oferecer essa gama de cursos profi ssio- nalizantes, daí gerou-se uma formação extremamente precária. O Ensino Normal, agora formação de professores, passou a ser mais uma opção de ensino profi ssionalizante, igual a todas as demais. Isso mostrou que chega- va ao fi m legalmente a fase de valorizar a formação de professores como prioridade para a melhoria da Educação nacional. Aula_07.indd 61 21/7/2004, 10:00:06 C E D E R J62 Fundamentos da Educação 3 | História da profi ssionalização docente no Brasil Segundo a Lei 5.692/71, passou-se a exigir, para o exercício do magistério, a formação mínima de: • habilitação específi ca de 2º Grau para o ensino de 1ª a 4ª séries do 1º Grau; • habilitação específi ca de grau superior, ao nível de graduação, representada pela licenciatura de 1º Grau, em curso de curta duração, para o ensino de 1ª a 8ª séries do 1º Grau; • habilitação específi ca obtida em curso superior de graduação correspondente à licenciatura plena para o ensino de 1º e 2º Graus. Essa lei procurou, nesses artigos, atender à demanda explosiva por novos professores, que a própria lei criara ao estender a escolaridade para 8 anos. Além disso, a Lei 5.692/71 referiu-se aosespecialistas – administra- dores, planejadores, orientadores, inspetores, supervisores – cuja formação deveria ser em curso de graduação com duração plena ou curta ou em pós-graduação. Estimulou os especialistas de Educação a exercer funções de controle e assumir uma série de funções antes de responsabilidade dos professores, que passara a ter seu estatuto profi ssional enfraquecido. Essa lei e as formas de sua implantação foram acompanha- das por um movimento de organização e resistência dos educadores. Daí surgiram a ANPEd (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação), criada em 1977; o CEDES (Centro de Estudos de Educação & Sociedade) criado em 1978, e a ANDE (Associação Nacional de Educação), criada em 1979, além da criação da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) e da ANDES (Associação Nacional de Docentes do Ensino Superior). Como já vimos, a profi ssionalização docente vem sendo discutida desde a vigência da Lei 5.692/71, mas ganhou relevo, no fi nal dos anos 70 e início dos anos 80, com a luta pela democratização do país. Os cursos de Licencia- tura curta formavam professores de 1º Grau de forma rápida em dois anos. Esses cursos eram dados em faculdades particula- res, centros isolados. As universidades públicas mantiveram os cursos de licenciatura plena. Aula_07.indd 62 21/7/2004, 10:00:06 C E D E R J 63 A U LA 7 M Ó D U LO 1 O reconhecimento do professorado como profi ssional pela Cons- tituição Federal de 1988 constitui um marco no debate sobre a educação básica de qualidade, representando o princípio constitu- cional – valorização dos profi ssionais do ensino (art. 206, item v), uma conquista dos professores, no âmbito da luta em favor da democracia (WEBER, 2000). Nos anos 80 e 90 houve um aviltamento das condições de remunera- ção e de trabalho dos professores. Vários estudos foram feitos sobre isso. Tais estudos tiveram repercussão direta nas lutas sindicais, que abandonaram o termo professor em favor do termo trabalhadores, ou profi ssionais da Educação, numa perspectiva de juntar forças com os outros trabalhadores das escolas (serventes, merendeiras, técnicos). Durante a década de 1990 e início do novo milênio, o Governo Federal apresentou inúmeras propostas e uma nova legislação a respei- to da Educação e da formação docente; dentre as principais leis estão: a Lei nº 9.394, de 20/12/96 – LDBEN, Lei de Diretrizes e Bases da Edu- cação Nacional –, a Resolução CNE/CP 1, de 18/2/02, e a Resolução CNE/CP 2, de 19/2/02. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9.394/96) criou nos artigos 62 e 63 os Institutos Superiores de Educação. O artigo 62 diz que (...) a formação dos docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitindo como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. A Resolução CNE/CP 1, de 18 de fevereiro de 2002, instituiu Diretrizes Curriculares Nacionais para a For- mação de professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. Por outro lado, a Resolução CNE/CP 2, de 19 de fevereiro de 2002, instituiu a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de pro- fessores da Educação Básica em nível superior. Aula_07.indd 63 21/7/2004, 10:00:07 C E D E R J64 Fundamentos da Educação 3 | História da profi ssionalização docente no Brasil CONCLUSÃO Com certeza, a LDBEN de 1996 representou um avanço na profi ssionalização dos professores. A tendência contemporânea da discussão sobre formação de professores delineia diversos aspectos relacionados aos alunos, à escola e ao fracasso escolar. Aborda-se, também, o ensino dissociado das necessidades do aluno, a distância entre a escola e os problemas da comunidade, formas de gestão não–participativas etc. Essa discussão remete também à profi ssionalização docente e à perspectiva da Educação permanente. É um equívoco pensar que investindo exclusivamente na formação de professores serão garantidas mudanças “salvacionistas” na qualidade da ação escolar. Porém, também entendemos que uma política de melhora na qualidade dos cursos de formação docente é essencial para ser formulada e materializada como uma política do Estado. Dessa forma, será possível avançar em direção a uma Educação mais democrática, garantindo o acesso à escola como um direito de todos e a qualidade da Educação escolar como uma dimensão da cidadania. Sabemos, contudo, que essas questões envolvem complexas relações sociais de natureza acadêmica e política. Atualmente, porém, vivenciamos um momento histórico particularmente rico e estratégico – assim como perigoso, já que os rumos e a qualidade dos cursos de Licenciatura estão sendo redesenhados frente às novas resoluções ditadas pelo MEC (algumas das mais importantes já foram citadas anteriormente). Essas resoluções estão gerando mudanças e/ou ajustes nas matrizes curriculares de todos os cursos de formação docente do país. Nesse contexto, instalaram-se dentro de nós a esperança e o alerta sobre a necessidade de investir, como docentes; é preciso que cada universidade brasileira reavalie seus cursos e opte por uma transformação real e signifi cativa na qualidade de suas Licenciaturas, aproveitando todas as brechas possíveis para fazer frente a esse projeto neoliberal que está posto na sociedade brasileira em geral e, particularmente, na Educação. Temos consciência de que as universidades públicas e diversas outras instituições educacionais e/ou sociais (sindicatos, ONGs e sociedade civil organizada) têm- se empenhado em elaborar propostas alternativas para a área de formação de professores. Aula_07.indd 64 21/7/2004, 10:00:07 C E D E R J 65 A U LA 7 M Ó D U LO 1 Para Demo (2000), é fundamental o resgate do professor, pois é impossível ampliar a cidadania com professores excluídos. Muito antes de utilizar ou se preocupar com a parabólica, o computador, os livros didáticos, os parâmetros curriculares nacionais e outros fatores, é necessário resgatar o professor. O professor é peça-chave para contribuir na construção da autonomia do aluno. R E S U M O Nesta aula, nós percorremos a história da profi ssionalização docente no Brasil. Inicialmente, durante o Brasil-Colônia, o magistério era exercido pelos padres. Percebemos a enorme influência dos jesuítas nessa função e nos modelos de Educação herdados mesmo depois de sua expulsão. Vimos como no século XIX a profi ssionalização docente ainda era muito precária. Em seguida, percebemos que, apesar da Proclamação da República, esta situação permanece até os anos 20 e 30, em que o ideário escolanovista valorizou a formação docente, já que a Educação era vista como o motor para a transformação social. Vimos, também, a ambigüidade professor x profi ssional liberal. Pudemos observar no Estado Novo, a importância da criação do Ministério da Educação e Saúde e secretarias de Educação, assim como a tentativa de se normatizar a formação docente através do modelo do Instituto de Educação para todo o Brasil. Posteriormente, examinamos o contexto e as características da formação de professores colocadas na LDBEN de 1961, assim como na Lei 5.692/71. Os anos 80 e 90 mostraram-nos o aviltamento das condições de remuneração e de trabalho dos professores. Por fi m, analisamos a LDBEN de 1996, no que diz respeito à formação de professores. Terminamos refl etindo sobre as questões atuais pelas quais estamos envolvidos na formação docente. (...) E é neste sentido que o professor se tornou o profi ssional mais estratégico dos tempos atuais: em primeiro lugar, monitora decisi- vamente a entrada nomercado de trabalho, porque este depende cada vez mais da qualidade educativa; em segundo lugar, gesta a cidadania mediante o saber pensar, no sentido reconstrutivo político. Entretanto, só abandonando a posição ultrapassada de profi ssional de ensino, irá assegurar o posto de profi ssional da aprendizagem (...) (DEMO, 2000, p. 91). Aula_07.indd 65 21/7/2004, 10:00:08 C E D E R J66 Fundamentos da Educação 3 | História da profi ssionalização docente no Brasil EXERCÍCIOS 1. Caracterize a profi ssão docente durante o Brasil-Colônia e o Império. 2. Analise a importância do ideário escolanovista na formação docente. 3. Identifi que o momento histórico em que a formação docente passou a ser valorizada. 4. Caracterize a atuação do Estado Novo em relação à formação dos professores. 5. Explique a ambigüidade professor x profi ssional liberal. 6. Identifi que a época histórica em que os professores começaram a perder prestígio signifi cativamente. 7. Caracterize a LDBEN de 1961 no aspecto referente à formação docente. 8. Analise os principais pontos da Lei 5.692/71 no que tange à formação dos professores. 9. Explique os principais aspectos da LDBEN de 1996 em relação à formação docente. 10. Caracterize os anos 80 e 90 em relação à profi ssionalização docente. Aula_07.indd 66 21/7/2004, 10:00:08 C E D E R J 67 A U LA 7 M Ó D U LO 1 AUTO-AVALIAÇÃO Depois dessa nossa nova parada, você deve ser capaz de entender o processo de profi ssionalização docente no Brasil. É importante que, após a leitura do texto e de responder os exercícios acima, você consiga identifi car que só a partir dos anos 20 e 30 deu-se de fato uma preocupação com a formação de professores no Brasil. Nesse contexto, você deve identifi car a importância do Manifesto dos Pioneiros ao valorizar a formação docente, tendo em vista que tinham uma visão salvacionista da Educação. Em seguida, deve compreender como o Estado Novo vai tentar normatizar a formação docente. Além disso, é importante que você caracterize a LDBEN de 1961, a Lei 5.692/71 e a atual LDBEN, de 1996, no que tange à formação de professores. Também é fundamental caracterizar os anos 80 e 90 como décadas de desvalorização profi ssional e salarial dos professores, num contexto de recessão e desemprego vivido pela sociedade brasileira e mesmo mundial até os dias de hoje. Por fi m, é importante entender que é preciso aproveitar as brechas nas Resoluções CNE/CP 1 e CNE/CP 2 de 2002 para melhorar a formação docente atualmente. Caso você tenha conseguido entender todas essas questões e articulá-las, parabéns! Siga viagem! Em caso de dúvida, volte e releia os textos, refaça os exercícios e procure articular esta aula com as anteriores, principalmente com as Aulas 1 e 2; isto tornará mais fácil o seu entendimento. Aula_07.indd 67 21/7/2004, 10:00:09 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Rever concepções, conceitos e noções estuda- dos nas aulas anteriores, relacionados à exclusão social e Educação no Brasil colonial e imperial e no Brasil republicano; o multiculturalismo, a política e as ações afi rmativas na Educação; os espaços educativos não-formais; o livro didático na Educação brasileira e a profi ssionalização docente no Brasil, como temas fundamentais para a formação do educador. O espelho da Educação brasileira: um estudo côncavo e convexo Pré-requisito • Esta aula contém uma síntese das sete aulas anteriores deste módulo. Retê-las é, pois, pré-requisito para que você compre- enda o que vai ser revisto a seguir. ob je ti vo s 8AULA Aula_08.indd 69 21/7/2004, 10:01:54 C E D E R J70 Fundamentos da Educação 3 | O espelho da Educação brasileira: um estudo côncavo e convexo O que refl ete o espelho? A verdade, a sinceridade, o conteúdo do coração e da consciência; como o sol, como a lua, como a água, como o ouro, lê-se em um espelho do museu chinês de Hanói, seja claro e brilhante e refl ita aquilo que existe dentro do seu coração. (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1993, p. 393). Prezado aluno, convidamo-lo a observar aquele homem que neste momento conversa amistosamente com o maquinista, enquanto a locomoti- va é abastecida com água a ser transformada em vapor, a força-motriz para a movimentação das engrenagens da velha locomotiva que puxa nosso trem nesta viagem imaginária pela Terra dos Fundamentos da Educação. Observe-o bem. Cabelos já totalmente brancos emolduram o rosto magro, de pele clara, no qual um sorriso parece estar sempre presente; o nariz aquilino equilibra uns óculos de arma- ção totalmente fora de moda que, no entanto, parecem perfeitos para sua fi sionomia simpática; corpo também magro, um tanto curvado, metido num uniforme azul bem usado, mas impecavelmente conservado; na cabeça, um boné bem assentado, com frisos dourados, completando o traje que representa sua autoridade. Este é Sr. Waldomiro, o chefe do trem. No fi nal do trem fi ca o lugar do Sr. Waldomiro: o vagão em que são transportadas as malas do correio, encomendas frágeis e onde, a um canto, o chefe do trem tem seu escritório de trabalho. Vemos aí uma escrivaninha antiga, fi xada no chão do vagão; uma cadeira forrada de couro verde-escuro; uma luminária que parece ter saído de um daqueles fi lmes antigos, decorada em metal dourado. Nesse cenário, podemos encontrar sempre Sr. Waldomiro, pouco antes de o trem chegar às estações e depois que sai delas. Convidados, com a maior simpatia, pelo Sr. Waldomiro, fomos, com outros colegas professores, visitar seu escritório no vagão. E lá pudemos observar umas folhas sobre a escrivaninha, com o timbre da companhia ferroviária e cobertas de desenhos quadriculados. Aula_08.indd 70 21/7/2004, 10:02:16 C E D E R J 71 A U LA 8 M Ó D U LO 1 CATEQUESE [Do lat. catequese, gr. Katéchesis.] S. f. 1. Instrução metódica e oral sobre coisas religiosas. 2. P. ext. Doutrinação. A nosso pedido, Sr. Waldomiro falou com entusiasmo sobre seu trabalho, o orgulho que tem dele, e explicou que aqueles impressos con- têm uma síntese de tudo que acontece na viagem: quantidade de lenha apanhada e consumida; as centenas de litros de água utilizadas; carga recebida e entregue etc. Esses formulários fazem uma síntese – frisou Sr. Waldomiro. Encaminhados à sede da companhia, os papéis permitirão uma análise e um registro perfeito de tudo o que acontecer durante nossa viagem, determinando todas as providências necessárias. Pois bem, caro aluno, assim também são nossas aulas-síntese, como esta que se inicia agora. Nela você tem registradas, sinteticamente, as principais informações relativas ao conteúdo das aulas estudadas até aqui no presente módulo. A exemplo do pessoal da companhia ferroviária, aproveite tudo o que vai ler agora sintetizado, reunido, condensado, e reveja tudo o que aprendeu e aquilo sobre o que ainda tem dúvidas. A primeira das aulas foi intitulada Exclusão social e Educação no Brasil colonial e imperial. Começou-se por assinalar, e ilustrar com estatísticas, o fato de que o Brasil é o país com menor índice de escolaridade em toda a América do Sul. Em seguida, associando-os à noção de cidadania, a aula discorreu sobre os direitos: • civis – relativos à liberdade individual, como o direito de ir e vir; • políticos – relativos à participação política, como a condição de eleitor; • sociais – que garantem a participação na vida e nos benefícios sociais possibilitados por uma dada sociedade. No Brasil Colônia, esses direitos eram reservados a uns poucos, caracterizando uma tremenda exclusão social. A Educação, um direito básico, constituía-se no privilégio de uns poucos, integrantes da aristocra- cia, da classe dirigente. A massa da população, de maioria escrava, não tinha acesso à escola. As poucas escolas existentes eram as “escolas de ler e escrever, dos jesuítas”, juntando CATEQUESE com escolarização. Aula_08.indd 71 21/7/2004, 10:02:25C E D E R J72 Fundamentos da Educação 3 | O espelho da Educação brasileira: um estudo côncavo e convexo A aula seguiu descrevendo o processo civilizatório brasileiro, em sua relação com a Educação, a contribuição dos jesuítas e sua expulsão, a vinda da família real para o Brasil, o período em que foram oferecidas as denominadas “aulas-régias”, a implantação dos primeiros cursos supe- riores no país e a criação dos cursos secundários. Tudo isso foi feito sem preocupação com a universalização do ensino, de sorte não necessária, tendo em vista as condições econômico-sociais brasileiras e a situação de dependência externa e de elitismo, criadas pelos modelos político e produtivo adotados, nos diversos períodos de nossa história. Em seguida, a aula destacou iniciativas signifi cativas para a Educação brasileira, como o Ato Adicional de 1834, que concedeu às províncias a responsabilidade do estabelecimento do sistema de educação elementar, sem que, no entanto, houvesse condições concretas para sua efetiva implantação. Como você pôde ver, caro aluno, relendo a aula, com o advento do Império a situação não sofreu mudanças signifi cativas que garantissem o acesso da massa da população à Educação. Seguindo com o estudo, você teve a aula seguinte, denominada Exclusão social e Educação no Brasil republicano, que prosseguiu com a análise desse problema ao longo da História do Brasil. A aula sublinhou que a Proclamação da República não foi um movimento popular, mas um golpe de Estado. Por isso, sabemos que essa mudança, ocorrida no interior das classes dirigentes, não afetou as condições de escolaridade da população. A nova Constituição, promulgada em 1891, não se refere à Educação como um direito social nem a considera um dever do Estado. Nessa época, as manifestações mais signifi cativas em prol do fortalecimento da Educação básica ocorrem em instituições paralelas ao sistema ofi cial de ensino, criadas e mantidas por imigrantes, notadamente pelos socialistas e anarquistas. Com a urbanização e o paulatino desenvolvimento industrial, a base escolar foi-se expandindo, especialmente nos grandes centros da região Sudeste. Não obstante, a grande maioria da população foi mantida fora do sistema de ensino. Aula_08.indd 72 21/7/2004, 10:02:25 C E D E R J 73 A U LA 8 M Ó D U LO 1 Após a Primeira Guerra Mundial, durante os anos 20, crescem as idéias nacionalistas, traduzidas inclusive pela tentativa de resgatar a nacionalidade e salvar o Brasil por intermédio da Educação. Surgem os denominados “intelectuais da Educação”, educadores comprometidos com essas novas idéias, que constituíram primeiro grupo de pensadores genuinamente comprometidos com a renovação do ensino no Brasil. A aula sublinhou a importância de movimentos que representa- ram um novo olhar sobre nosso país, como a Semana de Arte Moderna. Deu-se, também, uma articulação entre partidos de esquerda e pensadores modernistas, o que resultou em novas abordagens do signifi cado e da importância da Educação. Essa fase resultou na criação de instituições importantes, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Associação Brasileira de Educação; esta última que tanta importância teria para o debate e as articulações em favor da Educação brasileira, sobretudo com a promoção de congressos nacionais, possibilitando visões e ações conjuntas sobre os problemas educacionais de todo o país. Em seguida, a aula mencionou um movimento muito importante a respeito do qual você já pôde estudar em várias aulas neste nosso curso: a Revolução de 30. Nessa época é criado o Ministério da Educação e Saúde, represen- tando a primeira expressão de uma política educativa nacional. O avanço da industrialização requer, entre outras necessidades, a da implantação de um ensino técnico e profi ssional, levando também os inte- lectuais à defesa de que o Estado assuma integralmente a responsabilidade pelo ensino e garanta uma Educação pública, laica e de qualidade. Um marco importante, já mencionado em outras aulas, foi o lançamento, em 1932, por esses intelectuais e educadores, do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. A aula prosseguiu registrando o caráter liberal da nova Constituição, promulgada em 1934, mas de vida curta, em virtude do advento do golpe que resultou na criação do denominado Estado Novo. Leia o Manifesto dos pioneiros da Educação Nova na página da internet http://infoutil.org/ novaescola/pages/ manifesto.htm Aula_08.indd 73 21/7/2004, 10:02:26 C E D E R J74 Fundamentos da Educação 3 | O espelho da Educação brasileira: um estudo côncavo e convexo Ressaltou-se na aula o desempenho de Gustavo Capanema, no poder ao assumir o controle da Educação, em 1934, e permanecer durante todo o Estado Novo. Sua atuação resultou em mudanças signifi cativas na Edu- cação brasileira, tendo esse período fi cado conhecido como a “Era Capanema”. Isso também já foi abordado em outras aulas de nosso curso. Confi ra. Com o término da Segunda Guerra Mundial, e a conseqüente reordenação de forças políticas e econômicas internacionais, bem como o fim do Estado Novo e o advento da redemocratização no Brasil, as idéias liberais impõem-se novamente, desta feita dividindo espaço com idéias nacionalistas renovadas. Surge, também, a famosa disputa entre libe- rais e católicos, que tanta importância teve na formulação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o que você pode rever estudando novamente a aula de nosso curso dedicada especifi camente a esse tema. Como muitas décadas atrás, nessa época continua faltando esco- la para a maioria da população brasileira. Haja vista, por exemplo, como assinala a aula, o lançamento, pelos liberais, em 1959, da Campanha em Defesa da Escola Pública. Em seguida, a aula destacou transformações de natureza política, econômica e cultural que tiveram grande repercussão sobre a forma de ver o mundo e, igualmente, a Educação: o advento da cultura de massa, no Brasil, especialmente apoiada pela disseminação da rádio-difusão; a Revolução Chinesa, a Revolução Cubana; os movimentos políticos e sociais em prol de transformações, surgidos em toda a América Latina; no Brasil, a implantação dos Centros de Cultura Popular e os movimentos de teatro, literatura e cinema engajados. Surgem também no Brasil, no começo dos anos 60, movimentos em favor da Educação popular, articulados com lutas políticas, como as Ligas Camponesas, no Nordeste, lideradas por Francisco Julião, e o importantíssimo movimento em favor da alfabetização popular, conduzido por Paulo Freire. Como você já viu em outras aulas dedicadas a essa questão, prezado aluno, sobrevém o Golpe de 64 e, com ele, a internacionalização cada vez maior da economia brasileira, o fechamento do regime político, enfi m, todo o desmantelamento de um Estado que se poderia construir em favor das classes desfavorecidas, incluindo ações em favor da universalização do ensino, do fortalecimento da escola e da universidade públicas. Aula_08.indd 74 21/7/2004, 10:02:26 C E D E R J 75 A U LA 8 M Ó D U LO 1 A aula relembrou a questão do famoso Acordo MEC-Usaid, que resultou no atrelamento da Educação brasileira a diretrizes emanadas pelos Estados Unidos. Mencionou-se, ainda, o movimento de alfabetização de adultos promovido pelos integrantes do poder, intitulado Movimento Brasileiro de Alfabetização, o Mobral. Em seguida, a aula relembrou a escalada de transformações decorrentes do Golpe Militar. No âmbito político, surgiu o AI-5, com o recrudescimento da linha-dura, as cassações de mandatos, a tortura etc. na Educação, destacou-se a reforma do ensino universitário. Todos esses eventos você pôde rever nessa aula, bem como numa aula anterior dedicada à análise pormenorizada do regime militar. Outra conseqüência destacada pela aula foi a vulgarização do ensino superior, ocorridaapós 1964, conduzindo a uma imensa expansão dos estabelecimentos de ensino particulares, com aumento da quantidade e redução da qualidade. A democratização e a anistia, nos anos 80, trazem novos tempos e, com eles, fi ca possibilitada a ampliação do debate sobre a Educação, com a apresen- tação de propostas no sentido de uma maior democratização do ensino. Nos anos 90, alcançado um índice bem maior de crianças na escola, a questão central passa a ser como mantê-las aí oferecendo melhor qualidade na Educação e combatendo a repetência e a evasão. A aula se encerrou constatando que ainda há muito por fazer em nosso país, em termos educacionais, tendo em conta que a maioria das crianças brasileiras ainda não adquiriu as competências básicas para aprender a ler, escrever e contar. A aula seguinte recebeu o título Multiculturalismo e políticas afi rmativas. Você viu nessa aula, logo de saída, o signifi cado de dois termos muito utilizados atualmente e que não se deve confundir. São eles: • Multiculturalismo – movimento que propõe um currículo inclu- sivo, incorporando as tradições culturais dos diferentes grupos sociais. • Estudos Culturais – campo de teorização e investigação preocupado com a revisão do conceito de cultura, considerada um campo de luta em prol da igualdade social. Aula_08.indd 75 21/7/2004, 10:02:26 C E D E R J76 Fundamentos da Educação 3 | O espelho da Educação brasileira: um estudo côncavo e convexo O multiculturalismo teve sua origem nos EUA, nos anos 60, em torno dos seguintes confl itos de identidade: a) a questão indígena, com o desenraizamento e a assimilação cultural dos povos nativos; b) o problema do racismo e da segregação racial; c) a questão religiosa, em torno de grupos segregados e de seu comunitarismo; d) o problema da base cultural anglo-saxônica das elites políticas e econômicas; e) a questão do imigrante e de seu papel na constituição da sociedade norte-americana. A luta pelos direitos civis desses agrupamentos culturais provocou a reelaboração do pacto social naquele país e ofereceu as bases que fi rmaram os estudos de multiculturalismo. A seguir, a aula destacou o fato de que, após os anos 70, a política liberal e a desintegração do bloco comunista interferiram decisivamente nessas discussões sobre as questões multiculturais surgidas e aprofundadas nos EUA. Do embate entre esses diferentes grupos, empenhados em resgatar sua identidade cultural e seus direitos civis, surgiram, inclusive, as reivindicações em favor de políticas afi rmativas. Você viu ainda nessa aula, prezado aluno, que “políticas afi rmativas, ou “políticas de discriminação positiva”, ou ainda “políticas sociais compensatórias” são leis ou intervenções políticas em que o Estado oferece condições especiais a grupos específi cos da sociedade, historicamente discriminados. Em seguida, a aula discutiu as bases fi losófi cas do multiculturalismo, as quais, segundo Stuart Hall, apóiam-se em cinco grandes avanços na teoria social e nas Ciências Humanas, no século XX: as novas correntes marxistas, a psicanálise, a Lingüística de Saussure, o pensamento de Foucault e o movimento feminista. Depois, citando Semprini, foram apresentados os quatro principais aspectos do pensamento multicultural: • a realidade é uma construção; • as interpretações são subjetivas; • os valores são relativos; • o conhecimento é um fato político. Aula_08.indd 76 21/7/2004, 10:02:27 C E D E R J 77 A U LA 8 M Ó D U LO 1 A aula sublinhou que o multiculturalismo se insere no contexto das polêmicas discussões sobre a contemporaneidade e da denominada crise do paradigma da Modernidade. A globalização e o neoliberalismo alimentam essa problematização da diferença, observada num panorama de desigualdade e de discriminação. Em seu término, a aula lembrou que os problemas discutidos pelo multiculturalismo têm tudo a ver com o que enfrentamos na sociedade brasileira e apontou as três principais zonas de confl itos na discussão da questão multicultural: a Educação, a identidade sexual e as relações interpessoais com as reivindicações de identidade. Prosseguindo, caro aluno, nesta nossa viagem imaginária pela Terra dos Fundamentos da Educação, cá estamos nós em mais uma parada do trem, numa estação que corresponde a uma aula-síntese. Aproveite-a para reestudar os conteúdos das aulas anteriores, aqui resumidos. A aula seguinte recebeu o título Ações afi rmativas na Educação. Essa aula começou retomando uma análise histórica do surgimento das ações afi rmativas. Além de voltar à descrição do que aconteceu nos Estados Unidos, lembrando que, desde 1937, com a legislação trabalhista exemplifi cada pelo The 1935 National Labor Relations Act, numa ação que proibiu a discriminação de sindicalistas e de operários sindicalizados e obrigou à recondução vítimas de discriminação aos seus postos de trabalho, citou-se o caso da Índia, que, em 1947, implementou ações visando, com um sistema de cotas, a reduzir as desigualdades impostas pelo sistema de castas. Nesse universo do trabalho, aliás, a aula sublinhou que, entre 1982 e 1996, 25 países adotaram políticas objetivando eliminar a discriminação sexual e racial nas relações de trabalho. Em seguida, a aula tratou da Educação como um espaço privilegia- do para o combate à discriminação social e cultural e para a construção das identidades. Os pensamentos de Durkheim, de Althusser e de Bourdieu foram utilizados para demonstrar um outro aspecto da escola: seu papel de difusora de valores universais ou dominantes. Para Durkheim, a escola apresenta-se como um fato social, impon- do-se aos indivíduos por meio da socialização metódica. Aula_08.indd 77 21/7/2004, 10:02:27 C E D E R J78 Fundamentos da Educação 3 | O espelho da Educação brasileira: um estudo côncavo e convexo Na visão de Althusser, a escola é um dos aparelhos ideológicos do Estado e atua para consolidar e expressar a ideologia dominante. De acordo com Bourdieu, que utilizou o conceito de reprodução, a escola tem papel decisivo no processo de perpetuação da estrutura e das relações sociais, em favor das classes dominantes. A aula recorreu a outros autores para apresentar uma visão crítica dessas e de outras concepções, como aquelas que representam as correntes críticas da Teoria do Currículo e dos Estudos Culturais. A partir delas, as políticas afi rmativas tiveram base para reivindicar, sobretudo: a) a inclusão de suas temáticas nos currículos escolares; b) o direito de organizar sistemas escolares especiais; c) o acesso aos níveis mais elevados da escolarização institucionalizada. Para fi nalizar, a aula relacionou algumas reivindicações dos movimentos que defendem uma política afi rmativa: • o movimento negro, lutando para a inclusão, nos currículos, de sua herança cultural; • os movimentos representativos de mulheres e de homossexuais, combatendo visões deturpadas, na escola, sobre a sexualidade e sua prática na sociedade; • os grupos indígenas, reivindicando uma Educação indígena que preserve sua identidade cultural; • os portadores de necessidades especiais, exigindo uma política de Educação inclusiva; • uma demanda por cotas, sobretudo no ensino superior. Continuando nossa revisão das aulas, não poderíamos deixar de revisitar a aula intitulada Espaços educativos não-formais. Nessa aula você teve a oportunidade de observar que a escola é uma espaço educativo formal, uma vez que é organizado tendo em vista as normas e as leis, ou seja, é um espaço instituído, tema que você já estudou nos primeiros dias de nossa viagem imaginária pela Terra dos Fundamentos da Educação. Quando falamos em espaços não-formais, estamos nos referindo a todo um processo de formação do homem que independe dos órgãos instituídos. Portanto, devemos dar ao processo educativo uma atenção constante. Se fi zermos uma releitura da Constituição Federalem vigor, nos depararemos com a seguinte frase: “Educação é direito de todos e dever do Estado e deve ser dada na escola, na família e na comunidade." Aula_08.indd 78 21/7/2004, 10:02:27 C E D E R J 79 A U LA 8 M Ó D U LO 1 Para estudar os espaços educativos não-formais, a aula procurou: a) relacionar o uso dos espaços educativos não-formais com o processo de escolarização regular; b) exemplifi car espaços educativos não-formais; c) analisar a importância de usar os espaços educativos não- formais como campos de estágio na formação de professores; d) explicar o que seria a Pedagogia de Museus. Em função da amplitude do tema, observe que um exemplo foi utilizado – os museus – para que você pudesse compreender a riqueza que existe à nossa volta quando o tema é a Educação não-formal. Importa, também, relembrar que, na medida em que voltamos o nosso olhar para esse tipo de processo educacional, estamos abrindo um leque capaz de envolver tanto as questões mais gerais quanto as mais específi cas do mundo que rodeia nossos alunos. Estamos dando vez e voz à cultura do grupo, à diversidade cultural, a tudo aquilo que se encontra no entorno da vida do nosso aluno mas que, com a rigidez da Educação formal, acaba por fi car de fora, fora do contexto do processo. Não podemos fechar as portas e deixar de ouvir e de ensinar a música e a poesia da vida, constituindo-se os espaços educativos não- formais num LOCUS para que tudo isso aconteça. Estamos indo de um pólo ao outro, isto é, da temática educação não-formal retornamos a um tema próprio da educação formal: o livro didático na Educação brasileira. Esse é o tema da aula que você estudou e que merece retomada de alguns pontos fundamentais sobre o assunto. É bom lembrar que essa aula apresentou os seguintes objetivos: • analisar o papel do livro didático na escola; • identifi car as principais críticas feitas aos livros didáticos; • reconhecer alguns critérios de avaliação do livro didático; • analisar o Programa Nacional do Livro Didático. Observe que é uma aula que apresenta uma gama de informações que não podem passar despercebidas por todo aquele que faz do magistério a sua profi ssão. LOCUS É um termo em latim que signifi ca “lugar”. Aula_08.indd 79 21/7/2004, 10:02:28 C E D E R J80 Fundamentos da Educação 3 | O espelho da Educação brasileira: um estudo côncavo e convexo Vejamos alguns pontos da referida aula. Numa preocupação com a história do uso do livro didático, a aula apresenta este material no Brasil, intimamente relacionado com a criação do Colégio Pedro II, que se tornou espaço de divulgação e produção de compêndios de ensino secundário. Anteriormente, os manuais sofriam forte infl uência da produção francesa, sendo, em alguns casos, traduções. Só com o advento da Repú- blica e, especialmente, mais tarde, na década de 1930, com a consolidação de um regime com viés nacionalista, é que houve uma preocupação maior com a produção dos livros didáticos. Foi em 1937 que o Ministério da Educação e Cultura, chefi ado por Gustavo Capanema, criou o Instituto Nacional do Livro (INL), com a função de divulgar e distribuir obras de interesse educacional e cultural. Em 1938, foi criada a Comissão Nacional do Livro Didático (CNLD). Nesse momento, livros didáticos foram defi nidos como “livros que exponham total ou parcialmente a matéria das disciplinas constantes dos programas escolares”. Mais tarde, durante o período militarista, que você já teve opor- tunidade de estudar em outras aulas, uma nova política do livro didático foi empreendida com a criação da Comissão do Livro Técnico e do Livro Didático (Colted). A partir de 1985, foi instituído o Programa Nacional do Livro Didá- tico (PNLD), pelo qual, a partir de uma listagem fornecida pela Fundação de Assistência ao Educando (FAE), o docente, a cada dois ou três anos, escolheria os livros a serem fornecidos pelo governo para seus alunos. Após essa revisão histórica, a aula apresentou discussões, críticas e pontos de vista de alguns educadores brasileiros sobre esse tema tão cheio de controvérsias. Entre tais discussões, vale retomar a leitura sobre as quatro impor- tantes características do livro didático apresentadas. O livro didático é: • uma mercadoria? • um depositário dos conteúdos escolares? • um instrumento pedagógico? • um importante veículo portador de um sistema de valores, de uma ideologia, de uma cultura? Aula_08.indd 80 21/7/2004, 10:02:28 C E D E R J 81 A U LA 8 M Ó D U LO 1 Depois de se debruçar sobre essas discussões, caro aluno, é importante que você faça uma releitura sobre o uso e o abuso do livro didático. Afi nal, você será um educador, e deve estar informado e preparado para fazer uso dos livros didáticos que estarão ao seu dispor, oferecidos pelo governo brasileiro. Como você deve ter observado, essa parte do mapa de viagem levou aos mais diferentes lugares: alguns amplos, abertos – a educação não-formal; outros mais fechados – o livro didático no Brasil; e agora a um tema voltado especifi camente para a história da formação docente no Brasil. Veja que é um leque que se abre e se fecha, no intuito de trazer para você os “ares” necessários para fazê-lo “respirar” como professor. Portanto, tenha um pouquinho mais de paciência e continue conosco nesta viagem. A nossa sala de revisão é, como você observou no início da aula, semelhante à do Sr. Waldomiro. Finalizando, portanto, esta parte da viagem, ou alcançando as cidades estabelecidas no mapa de viagem, a aula sobre a profi ssionali- zação docente no Brasil apresentou os seguintes objetivos: a) historicizar a profi ssão docente no Brasil; b) caracterizar o tipo de professor atuante desde o Brasil Colônia até o século XIX; c) identificar os principais momentos da profissionalização docente, da Proclamação da República até os dias de hoje; d) analisar a importância do ideário escolanovista na profi ssionalização; e) analisar o processo de feminização do magistério; f) identifi car os principais aspectos da formação do professor na LDB de 1961 e na Lei 5.692/71; g) relacionar os anos 80 ao desenrolar da profi ssionalização docente no Brasil; h) analisar os principais aspectos da LDBEN/96 no que diz respeito à formação dos professores. Temos que convir que não é pouca coisa. Mas como você pode ser um profi ssional desconhecendo a própria história da sua atividade? Vamos à revisão! Essa é uma aula rica em fatos históricos, cuja transcrição acredita- mos não ser necessária neste momento. Aula_08.indd 81 21/7/2004, 10:02:29 C E D E R J82 Fundamentos da Educação 3 | O espelho da Educação brasileira: um estudo côncavo e convexo Importa, porém, que algumas idéias sejam retomadas. Eis algumas delas: • durante o Brasil Colônia, o magistério era exercido pelos padres jesuítas, que deixaram grande legado educacional; • no século XIX, a profi ssionalização docente ainda é muito precária; • no período republicano, não houve nenhum incentivo à formação dos educadores; • nos anos 30, com o advento da Escola Nova, houve valorização da formação docente e a Educação passou a ser concebida como fator necessário à reconstrução da sociedade; • durante o Estado Novo, em 1937, e com a criação do Ministério da Educação e Saúde, houve uma tentativa de normatização da profi ssão docente, tomando como modelo, para todo o Brasil, o Instituto de Educação, situado no Rio de Janeiro; • com o advento da Lei 4.024/61, foi instituído o Curso Normal, com duração de três séries, cujo objetivo era preparar o profi ssional para atuar nas quatro primeiras séries do Ensino Primário; • em 1971, durante o período militarista, uma nova lei surge, trazendo no seu bojo a preocupação com a formação dos profi ssionais da Educação. O curso Normal se tornou uma habilitação específi ca de 2º Grau, para o ensino da 1ª à 4ª séries do 1º Grau; • comrelação às demais séries e graus, a Lei 5.692/71 estabeleceu: habilitação específi ca de grau superior, em nível de graduação, representada pela licenciatura de 1º Grau, em curso de curta duração, para o ensino de 1ª série à 8ª série do 1º Grau; habilitação específi ca obtida em curso superior de graduação correspondente à licenciatura plena para o ensino de 1º e 2º Graus; • a partir de 1996, com a promulgação da Lei 9.394/96, a nova LDBEN – que você já conhece porque foi tema de uma das aulas anteriores – com relação à profi ssionalização do magistério, nos artigos 62 e 63, estabelece os Institutos Superiores de Educação. O artigo 62 diz: A formação dos docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitindo como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas primeiras séries do ensi- no fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. Aula_08.indd 82 21/7/2004, 10:02:29 C E D E R J 83 A U LA 8 M Ó D U LO 1 Essa aula, tratando da profi ssionalização docente no Brasil, lem- brou ainda o aviltamento das condições de remuneração e de trabalho dos professores. Esperamos que tenha gostado desta síntese que oferecemos a você. Assim como no trabalho que desenvolve o Sr. Waldomiro, lá naquele seu escritoriozinho no vagão do fi nal do nosso trem, esta revisão preten- deu efetuar uma análise e um registro dos principais tópicos que foram desenvolvidos durante este trajeto da viagem. Aproveite bem o que foi revisado e resumido! Caso algo não tenha fi cado claro, retome as aulas e faça uma releitura, visitando cada uma das cidades que compõem este nosso mapa que nos conduz pela Terra dos Fundamentos da Educação, revendo as atividades propostas. Nossa viagem vai continuar. Lá está o Sr. Waldomiro, pronto para fazer soar seu apito autorizando a partida do trem. Aula_08.indd 83 21/7/2004, 10:02:29 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Compreender os conceitos de inclusão e exclusão sociais e escolares, e perceber a importância dessas noções na vida social e na prática educativa. • Esclarecer os processos de exclusão e segregação sociais e escolares. • Entender a função das escolas integradora e inclusiva, na atualidade. • Refl etir sobre o papel do docente diante dos processos de exclusão, integração e inclusão sociais e escolares, nos dias de hoje. Escola: inclusão e exclusão Pré-requisito Para a melhor compreensão desta aula, sugerimos que você reveja a Aula 8, Pensando o homem, em Fundamentos da Educação 1. ob jet ivo s 9AULA Aula_09.indd 85 20/7/2004, 16:51:39 C E D E R J86 Fundamentos da Educação 3 | Escola: inclusão e exclusão O princípio fundamental desta Linha de Ação é de que as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente de suas condi- ções físicas, intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas ou outras. Devem acolher crianças defi cientes e bem-dotadas; crianças que vivem nas ruas e que trabalham; crianças de populações distantes ou nômades, crianças de minorias lingüísticas, étnicas ou culturais e crianças de outros grupos ou zonas desfavorecidos ou margi- nalizados. Todas essas condições levantam uma série de desafi os para os sistemas escolares. No contexto desta Linha de Ação, a expressão “necessidades especiais” refere-se a todas as crianças e jovens cujas necessidades decorrem de sua capacidade ou de suas difi culdades de aprendizagem. Muitas crianças apresentam difi cul- dades de aprendizagem e têm, portanto, necessidades educacionais especiais em algum momento de sua escolarização. As escolas têm que encontrar a maneira de educar com êxito todas as crianças, inclusive as com defi ciências graves (Declaração de Salamanca, 3º parágrafo, 1994). Caro companheiro de viagem, agora vamos nos deter em uma estação muito signifi cativa, de muita importância coletiva, profundamente vinculada ao nosso papel social de educadores. Nesta passagem do nosso percurso, vamos analisar uma questão de grande relevância: a inclusão e a exclusão sociais e na escola, suas repercussões comunitárias e seu impacto na nossa tarefa em sala de aula. Começamos o trajeto com a leitura de um parágrafo da Declaração de Salaman- ca que manifesta o direito de todas as crianças poderem estudar e freqüentar a escola. Dizer que todas as crianças devem estudar parece algo óbvio, justo, necessário; trata-se de um direito irrevogável de todo ser humano. Porém, não ocorre assim na nossa realidade social: algumas crianças estudam e outras não têm acesso à escola; muitas devem trabalhar sem poder freqüentar a sala de aula; outras são impedidas, ou por terem difi culdades de aprendizagem ou por necessidades especiais, decorrentes de diversas circunstâncias: físicas, emocionais, sociais etc. Então, que fazer? Caro professor, eis um problema fundamental. É preciso refl etir sobre essas circunstâncias: como é possível integrar e incluir todas as crianças na sociedade e na escola? Eis uma questão relevante na nossa sociedade e no nosso ensino. Para entender essa questão, teremos de esclarecer o que signifi ca inclusão e exclusão, integração e necessidades especiais. INTRODUÇÃO Aula_09.indd 86 20/7/2004, 16:51:48 C E D E R J 87 A U LA 9 M Ó D U LO 1 Antes de aprofundar esses conceitos, companheiro de viagem, refl ita sobre esse trecho da Declaração de Salamanca e também observe as imagens a seguir, nas quais aparecem situações da vida cotidiana: a primeira imagem mostra uma moça com síndrome de Down, dançando e sorrindo. Essa imagem apareceu numa campanha publicitária desenvolvida pela agência Giovanni, FCB para o Instituto MetaSocial (www.metasocial.org.br. ), em que essa jovem ouvia música, dançava e brincava, como qualquer outra jovem. A publicidade fi nalizava com a frase: SER DIFERENTE É NORMAL Uma jovem com síndrome de Down é diferente. Isto é, ela é dife- rente da mesma forma que todos os jovens são diversos uns dos outros. Por isso, ela pode ser modelo televisiva. Essa campanha publicitária visa ultrapassar os velhos critérios de exclusão na nossa sociedade. Pois os "modelos" devem responder, geralmente, a um estereótipo, já cristalizado na mídia: mulheres e jovens devem ser exuberantes, atléticos, esportivos; no possível, louros e de olhos azuis. Uma modelo com Down causa perplexidade, foge ao padrão de beleza. Contudo, a imagem publicitária foi muito efi caz. Colocou a jovem dançando, pulando, fazendo o que qualquer adolescente faz correntemente. Trata-se de incluir um segmento importante da nossa sociedade na atividade televisiva. Aula_09.indd 87 20/7/2004, 16:51:48 C E D E R J88 Fundamentos da Educação 3 | Escola: inclusão e exclusão Após observar essa imagem, leia a frase que fi nalizava a propaganda — “Ser diferente é normal” — e comece a pensar no sentido da frase inclusão social. Observe, depois, outras imagens da nossa reali- dade cotidiana, em que as crianças fi cam nas ruas, sem qualquer possibilidade de ir à escola, num esta- do de completo abandono. Comece a refl etir sobre o signifi cado da frase exclusão social e escolar. INCLUSÃO E EXCLUSÃO SOCIAL E ESCOLAR, UMA CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA Da exclusão à segregação As diversas sociedades, ao longo dos tempos, agem com meca- nismos de inclusão e exclusão social. O que signifi ca isso? Signifi ca que os homens, desde os primórdios da História, consideram um grupo de indivíduos incluídos na estrutura comunitária: eles fazem parte desse grupo, possuem direitos e deveres comuns, participam das decisões e atividades gerais. Tais indivíduos são considerados normais: eles têm condições para se encaixar nos parâmetros coletivos. Normal é, assim, aquele que segue e se enquadra nas normas gerais que orientam a cole- tividade. Mas há algunsque fogem a esse padrão; esses não seriam considerados normais, não se encaixariam nas normas sociais. Esse grupo é excluído, destituído dos direitos e/ou deveres de que gozam os primeiros. Isso fi ca patente, nos primórdios da História, nas sociedades que eram eminentemente nômades, de caçadores e pescadores. Aqueles que não tinham condições de se locomover constantemente, de caçar e pescar como a maioria eram considerados um fardo, uma carga que deveria ser jogada fora, literalmente. Assim, vemos que nesses grupos arcaicos a exclusão é uma prática freqüente: os que destoam são abandonados, esquecidos. Aula_09.indd 88 20/7/2004, 16:51:52 C E D E R J 89 A U LA 9 M Ó D U LO 1 Em sociedades mais avançadas da Antigüidade, na Grécia por exemplo, vemos que existia ainda mecanismos de exclusão. Particularmente em Esparta, sociedade que valorizou nitidamente as virtudes guerreiras e os atributos físicos para o combate, aqueles que tinham defi ciências físicas de nascença não só eram EXCLUÍDOS, mas tam- bém literalmente ELIMINADOS: eram jogados do alto de uma montanha, tão logo nascidos, para que não chegassem a se tornar peso morto para essa sociedade. Em Atenas, por sua vez, que cultuava tanto as virtudes físicas quanto as espirituais, os mecanis- mos de exclusão não eram tão categóricos e terríveis. Contudo, a exclusão social era muito acentuada. A concepção ateniense discri- minava claramente os cidadãos e os não- cidadãos. Os que não eram considerados cidadãos, como os escravos, as mulheres e os estrangeiros, não tinham direitos, não tinham aces- so à educação, apenas fi cavam reduzidos à reali- zação de tarefas corporais, julgadas “inferiores”. Nesse ponto, como assinala Gadotti, há uma nítida distinção entre corpo e alma, entre tarefas “nobres” e “baixas”. Só mereciam participar das decisões democráticas da cidade os cidadãos; só eles podiam, portanto, ser educados. Como decorrência da exclusão social, surge a exclusão na escola: os segmentos “baixos” não tinham acesso à educação. Na Grécia, havia dezessete escravos para cada homem livre. E ser livre signifi cava não ter preocupações materiais ou com o comércio e a guerra — atividades reservadas às classes inferiores. O caráter de classe da educação grega aparecia na exigência de que o ensino estimulasse a competição, as virtudes guerreiras, para assegurar a superioridade militar sobre as classes submetidas e as regiões conquistadas. O homem bem-educado tinha de ser capaz de mandar e fazer-se obedecer. A educação ensinava uns poucos a governar. Se ensinasse todos a governar, talvez apontasse um caminho para a democracia, como entendemos hoje. Entre iguais pode existir o diálogo e a liberdade de ensino; e isso acontecia apenas entre os gregos livres (GADOTTI, 1998, pp. 29-30). A sociedade esparta- na, na Antigüidade, EXCLUÍA e ELIMINAVA aqueles considerados “anormais”; as crian- ças com defi ciências eram jogadas do alto de um morro, numa forma brutal de segregação. Aula_09.indd 89 20/7/2004, 16:52:11 C E D E R J90 Fundamentos da Educação 3 | Escola: inclusão e exclusão Na Idade Média, continuou vigente uma concepção hierárquica e elitista de Educação. Só alguns grupos tinham direitos políticos e sociais, assim como o acesso à Educação. Na sociedade feudal, só os integrantes da monarquia, da aristocracia e do clero eram incluídos no processo educativo: Ao lado do clero, a nobreza também realizava sua própria edu- cação: seu ideal era o perfeito cavaleiro com formação musical e guerreira, experiente nas setes artes liberais. (...) As classes traba- lhadoras nascentes não tinham senão educação oral, transmitida de pai para fi lho: só herdavam a cultura da luta pela sobrevivência (GADOTTI, 1998, p. 55). Além disso, a concepção bíblica é interpretada de tal forma que corrobora os mecanismos de exclusão. Assim, diversas passagens bíblicas são decodifi cadas para legitimar variadas formas de segregação social. Nessa ótica, por um lado, encontramos os normais, aqueles que podiam ser acolhidos por Deus, e, por outro, existiam os anormais. Estes têm estigmas: por alguma marca diabólica tinham no seu corpo ou na sua alma deformidades, anomalias. O termo ESTIGMA, desde a Antigüidade, alude aos que levam no corpo marcas infamantes. Era comum, entre os antigos, marcar a fogo o corpo de delinqüentes ou de pessoas conside- radas indignas e degradadas. Na ótica medieval, todos que padeciam transtornos físicos ou psíquicos eram considerados seres estigmatizados, separados da Graça divina. Estigma, aqui, alude à marca física ou psíquica que denuncia o pecado, a desgraça de alguém afastado de Deus. Alguns relatos bíblicos, particularmente os que aludem a milagres atribuídos a Jesus Cristo, realizando a cura de surdos, mudos, paralíticos etc., consideram que esses estigmas permitem a manifestação da Graça divina, no ato da cura, da supressão da defi ciência ou da tara. Resulta evidente que essa consideração dos diferentes, daqueles que, conforme se diz na atualidade, são portadores de necessidades especiais, caracterizando-os como estigmas, resulta numa total exclusão e segregação. Os “anormais” são considerados indivíduos “diabólicos”, o que “provaria” sua procedência pecaminosa, o seu afastamento da senda divina. Isso aparece de forma mais radical naqueles que são considerados “bruxos”, “feiticeiros”, “heréticos”. Trata-se de indivíduos não só afastados de Deus, mas ESTIGMA É uma noção empregada, desde a Antigüidade, para aludir a indivíduos indesejáveis: marginais e delinqüentes, cujo corpo era marcado a fogo para que toda a sociedade soubesse que essa pessoa estava estigmatizada. Na Idade Média, esse termo continuou sendo utilizado, aludindo àqueles sujeitos marcados com uma tara ou defi ciência física ou mental, decorrente do vínculo com o Diabo, que deveria ser exorcizado. Aula_09.indd 90 20/7/2004, 16:52:18 C E D E R J 91 A U LA 9 M Ó D U LO 1 também contrários a Deus; portanto, devem ser punidos, purifi cados e, na maioria das vezes, eliminados. Como vimos, nessa fase, que se estende desde a Antigüidade até a Idade Média, existem processos de exclusão social. A partir do século XVI, particularmente nos séculos XVII e XVIII, há uma mudança na consideração dos diferentes. Aparece uma outra ótica para lidar com os diferentes, que é a de SEGREGAÇÃO SOCIAL. Os que se afastam do padrão dito normal, com problemas físicos ou psíquicos, são considerados doentes. Há uma patologização ou medicalização dos chamados “anormais”. Aqueles que não podem se integrar não são eliminados, porém fi cam confi nados a instituições de “cura” e “guarda”, de “tratamento” das defi ciências. Assim, surgem os manicômios, os leprosários, os asilos de defi cientes e velhos. A sociedade cria lugares, segregados e afastados do convívio “nor- mal”, onde são depositados e “tratados” os “doentes” e “defi cientes”. A reclusão social pretende a “cura” do indivíduo julgado fora dos padrões “normais” da sociedade. Eles devem ser internados, para que o processo terapêutico seja intensivo. Na realidade, essas instituições são, geralmente, “depósitos” de indesejáveis. Erguem-se muros para conter os diferentes; a cura, na grande maioria dos casos, nunca acontece. A internação torna-se uma reclusão para toda a vida. Evidentemente, nesse modelo hospitalar e asilar, os diferentes nunca chegam à sala de aula. Aliás, a intenção é que fi quem longe dela para não perturbar os “normais”. No século XX, existem tendências para superar o modelo de segregação baseado na internação, na reclusão em espaços fechados, asilares ou hospitala- res, calcados numa matriz carcerá- ria, de detenção dos diferentes. Os avanços psicológicos levam à aparição de novos paradig- mas sociais e educativos. SEGREGAÇÃO SOCIAL Trata-se de uma nova forma de lidar com os diferentes,surgida após o século. XVI. Os ditos “anormais” são considerados “doentes” que devem receber atenção espe- cial, em instituições fechadas: manicô- mios, asilos etc. Eles fi cam segregados do convívio social, em prol da “cura”. Aula_09.indd 91 20/7/2004, 16:52:19 C E D E R J92 Fundamentos da Educação 3 | Escola: inclusão e exclusão Integração e inclusão Na década de 1960, a patologização do problema da aprendizagem se fez com base em uma nova abordagem cuja ênfase era posta em distúrbios neuropsicológicos tais como a defi ciência intelectual supostamente associada à desnutrição e a hiperatividade causada pelas disfunções cerebrais mínimas (...) (LISITA e SOUSA (org.), 2003, p. 200). Conforme manifestam Lisita e Sousa, depois de 1960 há uma mudança para lidar com aqueles que apresentam difi culdades físicas ou psíquicas no aprendizado. Criam-se categorias psicológicas para interpretar esses indivíduos diferentes. Aparecem termos como “anormal, retardado, defi ciente mental, irregular, inadaptado, difícil, desajustado” para explicar o insucesso escolar. Há uma “medicalização do processo de aprendizagem” (idem). Decorrente dessa nova ótica, surge a tentativa de integrar esses sujeitos com problemas de aprendizagem. Cria-se o “ensino especial”, nova modalidade com a missão de acompanhar, com tratamento médico, com atendimento individualizado, os que têm difi culdades no aprendizado: “O ensino especial, uma modalidade de educação destinada ao atendimento escolar de crianças que apresentavam difi culdades na aprendizagem, ou seja, aquelas que fracassavam na escola, ganhou ampla divulgação no período” (p. 201). O ensino especial está baseado na tentativa de preparar o aluno com difi culdades para ajudá-lo a atingir, após um processo gradual, o ensino dito "normal": O aluno, nesta fase, passa a ser preparado para ser integrado ao processo dito normal. O aluno é trabalhado, lapidado para acompanhar o ensino das escolas regulares e, quando não consegue se adaptar, é enviado de volta às escolas ou salas especiais (RABELO e AMARAL, 2003, p. 212). O princípio que fundamenta uma primeira versão da concepção de integração escolar — veremos que atualmente a integração é pensada como um processo complementar ao da inclusão — consiste na ótica médica que visa à melhora gradual daquele que tem difi culdade no aprendizado. Essa concepção, de base eminentemente biológica ou ESCOLA INTEGRADORA A partir da década de 1960 surge uma nova forma de lidar com aqueles que têm difi - culdades físicas e/ou psíquicas; trata-se da tendência que visa a integrar os diferentes à escola, realizando um processo de prepa- ração prévia, antes de recebê-los no ensino convencional. Surge a educação especial, direcionada aos porta- dores de necessidades especiais. Há profes- sores com especiali- zação no tratamento desses alunos espe- ciais. Num momento posterior, uma vez que esses alunos recebe- ram tratamento dife- renciado, poderiam integrar-se na sala de aula com a turma dita “normal”. Aula_09.indd 92 20/7/2004, 16:52:28 C E D E R J 93 A U LA 9 M Ó D U LO 1 médica, deixa em segundo plano os problemas sociais que determinam as difi culdades de aprendizado. A imagem que sintetiza o processo integrador é a de cascata: o aluno vai pulando diversos patamares — como galgando diversos degraus de uma cascata — até chegar a estar “apto” para assistir às aulas ditas “normais”. Qual o principal pressuposto dessa concepção integradora? O aluno deve ser treinado, iniciado, para chegar ao âmbito da escola “normal”. O ensino especial seria um passo prévio, preliminar, até atingir a escola convencional. Esse modelo integrador foi questionado por deixar em segundo plano a origem social da maior parte das difi culdades dos alunos julgados “especiais”. Também foi questionado o lugar da escola integradora. Os críticos da escola integradora se perguntam: não seria necessário que a escola, ela mesma como instituição, se preparasse para receber todos os alunos, com suas diversas difi culdades físicas, psíquicas, econômicas, étnicas, sociais? Não deveriam ser transformados os professores, os dire- tores, os funcionários, as instalações escolares e todo o âmbito docente para acolher todos os alunos na escola? Surge o paradigma da ESCOLA INCLUSIVA: “Nesta, não é o aluno que deve se adaptar à escola, mas o processo inverso: as instituições educacionais é que têm de se modifi car para atender à demanda da diversidade humana” (idem). Esta nova escola deve ser pensada não com a imagem da cascata — em que o aluno “defi ciente” galga degraus rumo à “normalidade”–, mas sim com a do caleidoscópio, em que o âmbito escolar acolhe a riqueza das diferenças. Trata-se de um espaço multiforme, em que todos são diferentes — todos têm “necessidades especiais”, conforme suas peculiaridades, sua singularidade, sua história pessoal — e a fi gura desse encontro escolar é imprevisível e riquíssima, mutável, como mutáveis são todos os seres humanos. Daí que a sala de aula inclusiva desenhe uma bela imagem multifacética: caleidoscópio humano em permanente mudança. ESCOLA INCLUSIVA Deve acolher todos os alunos com suas diferenças e difi culdades, sejam psíquicas, físicas, sociais, étnicas etc. Todos os alunos têm “necessidades especiais”, já que todos são sujeitos únicos e singulares. Aula_09.indd 93 20/7/2004, 16:52:28 C E D E R J94 Fundamentos da Educação 3 | Escola: inclusão e exclusão Exclusão, integração e inclusão hoje Caro companheiro de viagem, você deve ter percebido que o processo para chegar a uma escola que acolha todas as crianças – como reza a Declaração de Salamanca – não tem sido fácil, ao longo da História. Ao contrário, a exclusão e a segregação predominaram durante muitos séculos. E que acontece hoje? Nos primórdios do século XXI, na era da infor- mática, das comunicações instantâneas, da “sociedade da informação”, será que a escola, de fato, integra e inclui todas as crianças? Numa socieda- de como a brasileira, com um enorme território, com grupos diversos, com cidadãos de diferentes etnias e religiões, será que todos estão integrados na comunidade, na escola? Candau responde negativamente: Na sociedade brasileira, exclusão, preconceito e discriminação caminham juntos. As diferenças se transformam em desigualdade, através de processos sutis e complexos, presentes em nosso coti- diano, nos âmbitos privado e público, assim como nos diferentes espaços sociais (CANDAU, 2003, p. 15). A tradição, na nossa sociedade, foi marginalizar grandes parcelas da população. Na escola, são banidos, excluídos, não só aqueles que têm “necessidades educacionais especiais”, mas também diversos grupos: negros, mestiços, pobres, nordestinos, homossexuais, gordos, mulheres, suburbanos etc. A exclusão social se perpetua na sala de aula: A instituição escolar representa um microuniverso social que se caracteriza pela diversidade social e cultural e por, muitas vezes, reproduzir padrões de conduta que permeiam as relações sociais fora da escola (CANDAU, 2003, p. 24). A sala de aula é um “microcosmo” que espelha o “macrocosmo” da sociedade: os que são excluídos na sociedade também são preteridos ou rejeitados na escola. Porém, as concepções mais progressistas pre- tendem mudar tanto a sala de aula como a sociedade. Trata-se de um processo de ida e volta: mudar na Educação para mudar a sociedade, mudar a sociedade para mudar a escola. Essa tendência à democratiza- ção do ensino, a integrar e incluir todas as crianças, encontra múltiplas Aula_09.indd 94 20/7/2004, 16:52:29 C E D E R J 95 A U LA 9 M Ó D U LO 1 difi culdades. A mais marcante é a nova relação de forças existente no mundo globalizado, guiado fundamentalmente pelas necessidades do mercado, em que o lucro é colocado no primeiro lugar. Nesse sentido, Gentili assinalaque “podemos dizer que esse conjunto de discursos, idéias e propostas sintetiza o que poderia ser defi nido como a forma neoliberal de pensar e delinear a reforma educacional na América Latina dos anos 1990” (1998, p. 16). O interesse público de oferecer educação para todas as crianças é postergado pelo ensejo de criar um universo de clientes, de consumidores educacionais. Não importa, portanto, incluir os educandos, mas ampliar a clientela: “Trata-se, enfi m, de transferir a educação da esfera da política para a esfera do mercado, negando sua condição de direito social e transformando-a em uma possibilidade de consumo individual” (idem). Caro colega de viagem, você percebe que, na Educação atual, neste momento neoliberal por que passam nosso país e o mundo, criar uma escola inclusiva para todos é um sonho difícil de se realizar. Não é através desta aula que poderemos equacionar essas sérias difi culdades sociais e educacionais. Porém, algo menor — contudo muito importante — podemos fazer: tomar consciência da situação. Esclarecer o panorama de exclusão, inserção e inclusão escolar na atualidade. Tentamos refl etir com você sobre esses mecanismos. Por um lado, há um fenômeno mundial econômico — a globalização e a glorifi cação dos mercados e do consumo individual — que acentua a exclusão; por outro, existem tendências à inclusão e à inserção social e escolar. Talvez você possa participar e trabalhar em prol desta segunda alternativa. Na atualidade, existe uma grande refl exão sobre a inserção e a inclusão. Inclusive, há alguns autores que as consideram processos opostos, contraditórios. Outros pensam que a inclusão não pode eliminar a integração, já que, mesmo numa escola para todos e com todos, é necessário atender às necessidades dos que têm defi ciências específi cas. Assim, será necessário, por exemplo, que os surdos e mudos sejam contemplados no processo de inclusão. O professor deve conhecer as técnicas específi cas para integrar esses portadores de necessidades especiais. Em tal panorama, para incluir é preciso integrar. Neste trajeto da nossa viagem, colocamos apenas os alicerces dessa problemática teórico-prática da nossa sociedade e da nossa escola. Nas paradas seguintes, 10, 11 e 12, você continuará aprofundando a questão da inclusão e da exclusão na escola. Aula_09.indd 95 20/7/2004, 16:52:29 C E D E R J96 Fundamentos da Educação 3 | Escola: inclusão e exclusão R E S U M O Esta aula mostrou diferentes modalidades de inserção e exclusão social e escolar, em momentos históricos diversos. Analisamos a exclusão social dos considerados “anormais” em épocas pré-históricas, assim como na Grécia Antiga. Abordamos os procedimentos da Idade Média, quando os que padeciam de doenças físicas ou psíquicas eram considerados estigmas: detentores de marcas diabólicas que deviam ser exorcizadas ou eliminadas. Focalizamos a segregação imposta, nos séculos XVI, XVII e XVIII, aos considerados doentes, com o confi namento em hospícios, asilos e outros lugares de atendimento clínico, sendo, na maioria das vezes, separados da educação formal. Analisamos o surgimento da teoria da integração, na segunda metade do século XX, em que os que tinham necessidades educativas especiais eram preparados para chegar ao ensino dito normal. Abordamos a inclusão escolar atual, que tende a incorporar todas as crianças, sem exceção, preparando a escola para acolher a todos com suas diferenças e difi culdades. Finalmente, refl etimos sobre a exclusão, a inclusão e a inserção escolar, nos dias de hoje, diante de uma realidade neoliberal que parece intensifi car os mecanismos de exclusão. Aula_09.indd 96 20/7/2004, 16:52:29 C E D E R J 97 A U LA 9 M Ó D U LO 1 EXERCÍCIOS 1. Refl ita sobre o papel dos considerados “anormais” nos primórdios da História e na Grécia Antiga. Qual a sua opinião sobre a segregação e, até, a eliminação dos considerados incapazes? 2. Discuta o conceito de “estigma” atribuído aos considerados enfeitiçados, bruxos, anormais, heréticos etc. durante a Idade Média. 3. Analise o papel do ensino especial na escola integradora. Comente o processo de “preparação” do aluno com necessidades educacionais especiais. 4. Analise o papel da escola inclusiva nos nossos dias. Discuta com seus colegas o papel do professor, dos diretores, funcionários e alunos nessa escola. AUTO–AVALIAÇÃO Você conseguiu entender os motivos que levaram a excluir e eliminar os diferentes, na pré-história e na Antigüidade? Você entendeu por que eram segregados ou eliminados os “estigmatizados” na Idade Média? Você conseguiu perceber as ditas "razões terapêuticas" que levavam a segregar, em instituições fechadas, os julgados defi cientes físicos nos séculos XVI, XVII e XVIII? Você entendeu as diferenças entre escola integradora e inclusiva? Conseguiu perceber que a escola integradora tenta preparar o aluno para o ensino e, ao contrário, a inclusiva é aquela em que a própria instituição se prepara para receber todos os alunos, sem exceção? Você compreende que, na atualidade, além das propostas inclusivas e integradoras, a tendência econômica neoliberal acaba criando uma situação contrária, de exclusão e segregação? Caso tenha conseguido entender essas questões, vá em frente! Você está prestes a chegar às próximas paradas da nossa viagem e aprofundar a discussão sobre inclusão e exclusão social e escolar. Caso não tenha conseguido, volte e leia novamente, com calma, esta aula sem dúvida, você não será um excluído neste aprendizado! Aula_09.indd 97 20/7/2004, 16:52:30 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Compreender os processos educacionais no âmbito das relações entre cultura, Educação, aprendizagem e desenvolvimento. • Conhecer as características fundamentais da or- ganização social da Educação e dispor de alguns critérios que permitam analisar as peculiaridades das relações entre professor e aluno. Mecanismos e dispositivos de exclusão / inclusão – em uma perspectiva da Psicologia da Educação ob jet ivo s 10AULA Aula_10.indd 99 20/7/2004, 16:53:13 C E D E R J100 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão / inclusão – em uma perspectiva da Psicologia da Educação Ao começar mais uma viagem pelo território da Psicologia da Educação, vamos visitar uma pequena exposição histórica que mostra a relação entre professor e aluno na escola brasileira. Afi nal, falar de mecanismos e dispositivos é trazer à tona um conjunto de invenções culturais destinadas a ser usadas em espaços e organizações sociais, como é o caso da escola. Como a palavra invenção tem sentido muito amplo e sempre nos remete a algum objeto concreto, prefi ro limitar seu uso a algo abstrato que foi criado para ser usado no nosso cotidiano para facilitar nossas vidas, algo que diz respeito aos nossos relacionamentos sociais como, por exemplo, o bom-dia que damos aos nossos vizinhos, o por favor, quando pedimos para alguém nos servir ou nos ajudar; são pequenas regras de civilidade que garantem o bem-estar social. Mas nem todas as pequenas regras são cordiais e amáveis; muitas são amargas e antipáticas e, lamentavelmente, agem como mecanismos excludentes, afastando pessoas consideradas indesejáveis ao convívio social. Pois é... agimos assim, muitas vezes, sem perceber o que estamos fazendo e por que nos comportamos dessa maneira. Assim acontece nesse lugar social chamado escola; por isso, visitaremos a relação entre professor e aluno e, com ajuda da Psicologia focaremos nossa atenção nos mecanismos e dispositivos presentes na escola. A maternidade é um encargo vitalício para as mulheres, porque há laços afetivos, interesses político-econômicos relacionados à descendência e à necessidade de integrar o imaturo (crianças e adolescentes) à sociedade pelo disciplinamento dastendências naturais, denominado socialização. Com isso, a maternidade se transforma em uma tarefa monumental: a mãe precisa do apoio de várias pessoas e instituições. Em muitas sociedades tribais, por exemplo, todos os adultos sentem-se responsáveis por todas as crianças, cuidando de sua segurança, transmitindo-lhes suas interpretações sobre o mundo e ensinando as técnicas que garantem a subsistência em seu ecossistema. As sociedades ocidentais, no entanto, não dão tanta importância nem à maternidade nem à socialização, mas as reconhecem como atribuições exclusivamente femininas. Por sofrerem com esse descaso, cansaço e bloqueio na participação efetiva na esfera social, muitas mulheres vêm delegando, desde a Antigüidade, algumas tarefas próprias da maternagem a escravas e servas. Por exemplo, as egípcias e romanas ricas recorriam a amas-de-leite que, além de amamentarem, cuidavam diuturnamente dos bebês. Aula_10.indd 100 20/7/2004, 16:53:21 C E D E R J 101 A U LA 10 M Ó D U LO 1 Nos séculos XVII e XVIII, as francesas enviavam os recém-nascidos para o campo, onde eram criados por negligentes amas mercenárias até os quatro anos de idade. As mães não se preocupavam com o alto índice de mortalidade dos bebês enquanto eles estavam sob a guarda dessas mulheres, desde que fossem aliviadas do peso da maternagem (BADINTER, 1985). Durante o período colonial e o Império, as sinhás brasileiras usa- vam os serviços de leais mucamas e mães-pretas, que realizavam diligente- mente todos os desejos dos sinhozinhos e sinhazinhas. As crianças fi cavam confortavelmente instaladas na casa-grande, benefi ciando-se do trabalho escravo, principalmente em relação aos seus problemas pessoais. Essa ascendência dos brancos manteve-se ainda após a Lei Áurea, de 1888, através de diversos artifícios. Como as mulheres das elites rejeitam as tarefas domésticas, elas contratam uma estranha para cuidar, especialmente, das crianças e da alimentação da família, pagando salá- rio abaixo do custo de subsistência. Mães de classe média são também dependentes dessa mão-de-obra, porque não conseguem conciliar suas atribuições profi ssionais com os encargos da maternagem, por causa da pequena participação dos maridos em atividades classifi cadas como femininas e da precariedade da rede de apoio familiar ou social para suprir efi cientemente a ausência materna. Conseqüentemente, as babás criam os fi lhos dos que pertencem às classes privilegiadas e se transformam em importante referência para o comportamento dessas crianças, visto que convivem com elas por muito mais tempo que os próprios pais. Não podem, entretanto, exercer infl uência plena, nem pela autoridade nem pelo exemplo, porque tais intervenções lhes são subalternas na relação de trabalho e não integram o universo simbólico de seus patrões. Isso signifi ca que há um impasse estrutural, porque o agente socializador é submisso ao imaturo, não lhe cabendo negar qualquer desejo ao (à) patrãozinho (patroazinha). Dessa forma, a criança brasileira não aprende que existem deveres em oposição a seus direitos e, de maneira arrogante, impõe normas, métodos, conteúdo e cronograma de sua conduta ao responsável pela sua integridade física e mental durante a maior parte do dia. Isso fomenta seu egocentrismo, tornando-se avessa àquela autoridade e, em conseqüência, à realização de qualquer esforço físico ou mental para solução de seus problemas cotidianos. Esses procedimentos caracterizariam a ter- ceirização da mater- nidade. Ver Castro (1996). Vale lembrar que empregada doméstica, nos moldes de subordinação próprios do Brasil, não existe em países desenvolvidos. Aula_10.indd 101 20/7/2004, 16:53:22 C E D E R J102 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão / inclusão – em uma perspectiva da Psicologia da Educação Esse comportamento fi ca diametralmente oposto ao modelo adequa- do de socialização, pois implica repressão de desejos, aceitação de normas sociais, formação de atitudes solidárias e assimilação de conhecimentos, para que o cidadão supere suas difi culdades enquanto circula em ambientes públicos respeitando o outro. Os pais, muitas vezes, reforçam aquela dis- torção ao tratar a empregada, diante do fi lho, como uma pessoa inferior, pois ela não toma refeições com a família, dorme em quarto acanhado e precisa obedecer a todas as ordens sem contestá-las. Além disso, é raro alguém coibir os maus-tratos das crianças praticados contra elas. Jovens socializados segundo esse modelo sentem-se onipotentes e inatingíveis levam o preconceito para a escola, que no século XX, foi defi nida pelo mundo ocidental como a instituição social adequada para educar os imaturos pelos parâmetros estabelecidos pela sociedade demo- crática, pela realização de exercícios que visam a permitir a assimilação de técnicas, atitudes e ideais sistematizados por inúmeros fi lólogos, mate- máticos, historiadores ou geógrafos. Mas a rotina da criança das classes privilegiadas não era essa; ela sente, pela primeira vez, a limitação de seus direitos, quando percebe a imposição de deveres e, conseqüentemente, a frustração de seus desejos. Ao supor que a professora compõe, com sua babá, o grupo de empregados que existe para servi-la, ela desafi a as ordens daquela, principalmente quando lhe é cobrada uma produ- ção considerada maçante, sem lhe ser oferecida atenção especial, entre dezenas de colegas. Agora, analisemos uma outra realidade social; pensemos nas babás e empregadas domésticas (as que servem às camadas privilegiadas da população brasileira) que precisam deixar seus fi lhos pequenos em creches públicas (quando conseguem vaga), ou em casa, aos cuidados dos mais velhos que, além de terem de executar as tarefas domésticas, também têm de freqüentar as escolas públicas. Sabemos quanto essas instituições ainda se conservam burguesas e como é sofrido para as crianças prove- nientes das camadas populares se integrarem nesse modelo social imposto. Por não conseguirem se adaptar prontamente, despertam a rejeição dos pro- fessores, o que torna ainda mais difícil para elas responderem às exigências escolares. A escola é um universo que ainda não se ajustou ao cotidiano desses excluídos que assumem compromissos com a família precocemente, não dispõem de infra-estrutura doméstica que lhes permita realizar os exer- cícios escolares e não contam com orientação efetiva dos pais para decifrar esse universo simbólico-ideológico alheio ao seu cotidiano. Aula_10.indd 102 20/7/2004, 16:53:23 C E D E R J 103 A U LA 10 M Ó D U LO 1 Assim, os mecanismos e dispositivos de inclusão nas escolas particulares, criadas para atender as camadas privilegiadas, acentuam seus privilégios sociais historicamente adquiridos, mas pagam o preço de terem de suportar constantes confl itos, que decorrem de três causas básicas: os alunos chegam imbuídos de valores absurdos, existência de graves distorções teóricas para a educação e o fato de a elite brasileira avilta sistematicamente o professor. Esses três problemas comprometem ainda mais a principal instituição das sociedades urbanas – a escola –, porque essa organização, com alta concentração de imaturos, não confere autoridade ao profi ssional responsável pelo processo de socialização. Em conseqüência, a escola torna-se permissiva demais para quem não admite os limites indispensáveis à convivência com muitas pessoas, para escamotear sua inefi ciência e agradar seus usuários insatisfeitos, em sua ambígua condição de alunos-consumidores. Antigamente, os alunos pertencentes às elites não agiam dessa maneira, porque o professor tinha status correspondente ao de seus pais; isto é, pertencia também às classes privilegiadas. Era tratado com muito respeito por toda a sociedade e pelos colégiosonde trabalhava. Apresentava-se para o trabalho usando os signos próprios de sua condição social e não tinha participado da contestação à autoridade para repelir o governo militar que reprimiu severamente os brasileiros entre 1964 e 1985. Nessa época, as transformações socioeconômicas permitiram que uma parcela considerável da força de trabalho com alta qualifi cação buscasse novas profi ssões. Ao mesmo tempo, as proposições perversas para subjugar a rede pública de ensino encaminharam, ao abandono do magistério, os professores oriundos das classes privilegiadas. O exercício do magistério tornou-se, pois, uma ocupação mal remunerada e avilta- da por considerações desabonadoras das elites, das autoridades e dos empresários da Educação. Essa situação adversa – ou seja, esse conjunto de mecanismos e dispositivos histórico-sociais de exclusão de uma profi ssão digna – permitiu, então, que aqueles alunos enquadrassem os docentes na categoria de empregados; eles acreditaram que poderiam manifestar desprezo, porque um professor já não pode ostentar, atualmente, signos de riqueza, como roupas elegantes, carros de luxo e endereços nobres. O reprodutivismo e a educação transformadora são maneiras distintas de apresentar as conseqüências da Educação para a população menos privilegiada. Aula_10.indd 103 20/7/2004, 16:53:23 C E D E R J104 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão / inclusão – em uma perspectiva da Psicologia da Educação O professor está também vulnerável a mecanismos de intimidação dentro e fora da escola, porquanto pais poderosos recorrem constan- temente àquele comportamento para obter privilégios para sua prole sem, entretanto, inquietar-se com a qualidade das aulas oferecidas e o desempenho escolar de seus fi lhos. Durante as crises econômicas e as constrições do mercado de trabalho, esse risco torna-se bem maior, pois muitos professores temem pelo próprio destino profi ssional, se não aceitarem as exigências de seus alunos. Sinhazinhas e sinhozinhos do mundo contemporâneo não se preocupam com a qualidade da Educação; possuem muita confi ança em seu futuro e não precisam inquietar-se com sua inserção no mercado de trabalho, pois sua subsistência está assegurada pelo patrimônio que herdarão da família. Esses estudantes visam apenas a um diploma que lhes dê legitimidade para pleitear absorção profi ssional por organizações públicas ou privadas, independentemente do conhecimento adquirido. Reconhecem, portanto, que terão acesso garantido aos melhores postos de trabalho, se usarem efi cientemente sua rede de relações com os con- troladores do sistema produtivo; sabem que apadrinhamento e nepotismo predominam, ainda, sobre capacitação técnica e postura profi ssional nos processos de seleção realizados pelas organizações brasileiras. Con- seqüentemente, não precisam empenhar-se nos estudos para ter uma educação esmerada. Cabe lembrar ainda que no sistema educacional brasileiro, o Estado ignora esses problemas que foram decisivos para a deterioração da imagem do principal responsável pela escola, ao admitir a submissão do agente socializador às determinações do imaturo. Quando, no cenário educacional moderno, surgiram recursos tecnológicos para a informação, administradores e supervisores inexperientes em sala de aula decidiram suavizar as experiên- cias escolares, classifi cadas como traumáticas para os alunos, em detrimento do saber e da formação sistematizada, por meio da fórmula: aprender brin- cando. Não levaram em consideração que a interação entre professores e alunos só pode ser profícua quando a estrutura escolar está sedimentada no compromisso com as atividades indispensáveis aos processos de ensino e de aprendizagem, além do respeito mútuo entre adultos habilitados para trans- mitir conhecimentos que envolvam, também, a formação de uma mentalidade crítica e crianças /jovens receptivos a essa prática. Desconsideraram inclusive o quanto de esforço esse trabalho docente demanda. Aula_10.indd 104 20/7/2004, 16:53:23 C E D E R J 105 A U LA 10 M Ó D U LO 1 Talvez tenha sido proposital a erosão do prestígio dos professores, pois empresários da Educação e governantes têm-se benefi ciado bastan- te com esse processo de demolição do trabalho docente. Os primeiros conseguem administrar bem seus negócios: vender ensino com satisfação plena de sua freguesia, enquanto atemorizam os professores com ameaça de demissão, caso não satisfaçam às exigências do alunado, independen- temente da aprendizagem. Enquanto isso, as autoridades educacionais do governo anterior (Fernando Henrique Cardoso) gestaram em território brasileiro políticas sociais defi nidas pelos credores internacionais, que almejam mão-de-obra qualifi cada que atenda às exigências do mercado de trabalho, mas não desejam produção de conhecimento no país, para que não haja criação de tecnologia e, como conseqüência, continuarmos dependentes das nações soberanas no contexto mundial. Os professores não têm recebido orientação adequada para cativar os alunos (tanto os mais ricos quanto os mais pobres), pois isso implicaria despesas extras e, sobretudo, formação de líderes efi cientes e temidos pela classe dominante. Além do mais, profi ssionais competentes estariam aptos a receber salários elevados e rejeitariam apadrinhamento político, ao se darem conta de sua nova sintonia com a modernidade. Autoridades e empresários da Educação preferem, dessa forma, que os docentes se mantenham como fi guras inexpressivas, ou até mesmo grotescas, por transgredir princípios elementares de apresentação diante de seu público. Tudo isso junto justifi ca a fórmula: remuneração insigni- fi cante para quem tem formação universitária mais tratamento inferior conferido à corporação com o estereótipo: os professores antigos sabiam ensinar; os atuais não têm berço e assumiram o magistério porque não têm competência sufi ciente para seguir outras profi ssões. Vimos como os mecanismos e dispositivos de exclusão social agiram de fora para dentro da escola e de fora para dentro das pessoas, em seus eus. Pois é... apesar das contestações das teorias educacionais que criticam certo psicologismo que molda as teorias e as práticas da Pedagogia moderna e contemporânea, na verdade as pedagogias de todos os matizes políticos não conseguem existir sem a Psicologia. A condição de possibilidade de cada versão do sujeito contemporâ- neo é a pessoa como eu psicológico, um ser dotado de afetividade e de emoções a serem satisfeitas, um espaço de objetividade que pode ser dominado por um conhecimento positivo e técnicas racionais (ROSE, 1996, p. 165). Tais problemas são encontrados também no Ensino Superior e, sem querer des- merecer os outros segmentos, mostram- se ainda mais graves, pois adultos relapsos querem determinar as normas e o professor sente-se mais amea- çado, principalmente quando se trata de uma professora em relação a um aluno. Aliás, não é raro que surjam agressões físi- cas e/ou morais nesse segmento do sistema educacional, incluin- do as universidades públicas. Aula_10.indd 105 20/7/2004, 16:53:24 C E D E R J106 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão / inclusão – em uma perspectiva da Psicologia da Educação A Psicologia é uma disciplina que normaliza o processo de desenvol- vimento humano, possibilitando que a conduta do indivíduo seja objeto de cálculo, através de um conjunto de tecnologias intelectuais e humanas. É a Psicologia que fornece os exercícios e os modos de operar sobre os indivíduos e suas almas. O largo uso de dispositivos como biografi as, memórias, narra- tivas sobre si mesmo, que incluem nos currículos críticos aspectos da história passada ou presentedo sujeito, constitui um exemplo do forte impacto da Psicologia na Pedagogia e nos currículos escolares progressistas. Contemporaneamente, a subjetividade e a individualidade não podem ser objeto de discurso sem que se faça referência aos saberes da Psicologia. Os experts em comportamento humano tomam por objeto o governo do eu e da conduta, aconselhando, sugerindo, colocando em debate, incitando certos comportamentos e valores que constituem a normalidade da conduta em diversas idades e em diversas áreas: sexual, afetiva, profi ssional etc. (ROSE, 1996). A Psicologia, como aponta Rose (1996), tem imensa capacidade para espalhar-se facilmente por outros saberes e práticas que lidam com as pessoas e suas relações; foi ela responsável (e ainda o é) por uma certa unificação dos regimes de subjetivação em torno da idéia das pessoas como eus de autonomia, de escolha e de auto-responsabilidade, desejosas de auto-realização e levando suas vidas como um tipo de empresa deles mesmos. Os diferentes regimes do eu que supõem o pluralismo ético con- temporâneo operam, segundo alguns, a priori, como a autonomia e a responsabilização pelo eu, incitando os indivíduos a uma hermenêutica refl exiva que estimula o autoconhecimento e o autodomínio. Sei, como psicóloga, que a Psicologia pode ser um valioso ins- trumento de saber para a prática docente, mas também sei o quanto pode ser perigosa, pois seu passado já provou que ela é capaz de ser usada para excluir, rotular e desqualifi car os alunos. Ainda está por ser construída uma pedagogia inclusiva. Creio que cada sala de aula desse imenso Brasil deve inventar uma maneira de praticar a autonomia, a escolha, a auto-responsabilidade, o autoconhecimento e o autodomínio. A sorte está lançada, e é esse o desafi o para o século XXI. Termino esta deliciosa viagem com um poema, pois nosso cansaço intelectual precisa de um bálsamo. O construtivismo pedagógico da década de 1990 é um exem- plo do impacto recen- te da Psicologia nos currículos escolares brasileiros. Aula_10.indd 106 20/7/2004, 16:53:25 C E D E R J 107 A U LA 10 M Ó D U LO 1 Eu quero uma escola Moaci Carneiro Eu quero Uma escola-relicário Com jóias do Imaginário Eu quero Uma escola-alegria Com sentido de harmonia Eu quero Uma escola com enredo Cheia de sonho e aconchego. Eu quero Uma escola-expressão Da vida, sem restrição. Aula_10.indd 107 20/7/2004, 16:53:25 C E D E R J108 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão / inclusão – em uma perspectiva da Psicologia da Educação R E S U M O A aula tratou dos mecanismos e dispositivos de exclusão/inclusão presentes na relação professor/aluno. Ao passear pela história da maternagem no mundo até o Brasil colonial e do império, foi fi cando claro quanto o autoritarismo das classes privilegiadas brasileiras tem prejudicado nossas escolas. Vimos, também, a presença da Psicologia indicando novos caminhos para alunos e professores, através da criação de novos dispositivos de inclusão que contemplem a auto-responsabilidade, o auto- conhecimento, a autonomia e a escolha dos sujeitos ensinantes e aprendentes. AUTO-AVALIAÇÃO Que mecanismos e dispositivos você usa em sua sala de aula para administrar problemas disciplinares? Na sua sala, você presencia episódios de exclusão entre os alunos no que se refere às tarefas escolares e/ou às brincadeiras na hora do recreio? Como você lida com esses episódios? Você tem facilitado a inclusão de alunos rejeitados pela turma em trabalhos de grupo? Você tem se sentido menos profi ssional por ser professor(a)? O que você pode fazer para mudar essa situação de desprestígio profi ssional? Aula_10.indd 108 20/7/2004, 16:53:25 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Identifi car a questão da exclusão social através de mecanismos econômicos e étnico-culturais. • Analisar a função da escola brasileira como um fator relevante de exclusão das minorias sociais. Mecanismos e dispositivos de exclusão social Pré-requisitos Aulas 1 e 2, sobre o Banco Mundial. ob jet ivo s 11AULA Aula_11.indd 109 20/7/2004, 16:54:11 C E D E R J110 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão social Oh! mundo tão desigual Tudo é tão desigual... De um lado esse carnaval De outro a fome total (Gilberto Gil) O SIGNIFICADO DE EXCLUSÃO SOCIAL Na nossa viagem de trem, vemos que há vagões de diferentes categorias para os passageiros. Os mais abastados fi cam em vagões de luxo, com serviço de bordo requintado, ar-condicionado e calefação, aparelhos de vídeo e som muito sofi sticados, cabinas bem-acabadas e altamente confortáveis. Outros passageiros têm acomodações menos luxuosas, mas também gozam de um relativo conforto, com boas refeições, poltronas-leito e aparelhos de vídeo e som. Um terceiro grupo, porém, tem de viajar em vagões de poltronas comuns, onde não há serviço de bordo nem som ambiente; comem ou o que trazem de casa ou o lanche barato que compram no vagão-lanchonete; suas roupas e acessórios são bem mais modestos que os dos outros tipos de passageiro. Não há mistura entre os três grupos nas alas e nos portões de embarque da estação. Durante a viagem e o desembarque há pouquíssimo contato entre eles, a não ser alguns esbarrões nos corredores do trem e na plataforma da estação. Entretanto, não podemos esquecer do grupo formado por aqueles indivíduos que sequer podem tomar parte nessa viagem. A eles não foi permitido embarcar por falta de recursos para comprar o bilhete. Sua vida se divide em comer, vestir, morar de qualquer jeito, contando com a sorte para não morrer. Os três grupos distintos anunciados representam as classes sociais tradicionalmente estabelecidas numa sociedade capitalista: alta, média e baixa. O quarto grupo é representado pelos despossuídos de vez e de voz. Eles são os miseráveis, famintos, sem-teto etc., conhecidos, genericamente, pelo nome de excluídos, por não possuírem importância econômica, cultural e política na nossa sociedade. Não podemos também esquecer o fato de que, não por acaso, muitos deles não são brancos, nem do sexo masculino, nem adultos. Isso signifi ca dizer que a exclusão social, em países como o Brasil, é maior para os negros (pretos e pardos), indígenas, crianças, jovens e mulheres. As três classes sociais tradicionais na estratifi cação social capitalista são orga- nizadas por critérios econômicos, culturais e políticos (STAVENHAGEN, 1977). Aula_11.indd 110 20/7/2004, 16:54:21 C E D E R J 111 A U LA 11 M Ó D U LO 1 Ao longo das últimas décadas, os mecanismos de proteção do bem-estar social, propiciados pelo Estado de Bem-Estar Social, começaram a ser desmantelados por causa dos programas econômicos neoliberais implementados em vários países do mundo, inclusive nos subdesenvolvidos. Isso pôs as classes média e baixa em posição de maior vulnerabilidade, porque não puderam mais contar com a qualidade dos serviços públicos de alcance social: educação, saúde, transporte etc. Se esse fenômeno provocou uma tragédia na vida de milhões de pessoas nos países desenvolvidos, pode-se dizer que o estrago foi muito maior para aqueles que vivem em países subdesenvolvidos. Com o declínio de tais condições, não somente ocorreu uma perda do padrão de vida das classes média e baixa, como também aumentou muitíssimo o número de pessoas que sequer poderiam sonhar com algum tipo de sobrevivência material razoavelmente digna. Desse modo, elevou-se bastante o percentual de excluídos no Terceiro Mundo, afetando a região da América Latina e, obviamente, o Brasil. Então, conforme dissemos, é muito comum vermos pessoas que estão do lado de fora do trem ou da estação; não participam da viagem como os demais. Temos aqui uma metáfora, simbolizando que elas são excluídas do sistemasocial. No entanto, isso pode e deve ser relativizado. Justamente porque entre a inclusão e a exclusão total há várias nuanças, com zonas intermediárias e tonalidades diferentes. E, ainda, as pessoas podem contar com a ajuda de algumas entidades que trabalham para amenizar a sua situação. Por exemplo: dizemos que um catador de lixo está excluído da vida social porque ele não tem emprego, acesso à educação, saúde etc. Não podemos, todavia, esquecer que existe a possibilidade de ele pertencer a uma cooperativa de catadores de latinhas de alumínio. Se ele arrecadar pelo menos um salário mínimo por mês, certamente poderá comprar alimentos básicos, participando, ainda que minimamente, da vida social como consumidor. Porém, não podemos dizer que tal pessoa participe satisfatoriamente da sociedade. Por essa razão, diz-se que ela está excluída dos benefícios e das responsabilidades, expressos nos direitos e deveres supostamente estabelecidos para todos (CASTEL, 2000). Aula_11.indd 111 20/7/2004, 16:54:21 C E D E R J112 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão social MECANISMOS DE EXCLUSÃO SOCIAL E EDUCAÇÃO Em nossa sociedade, a Educação é um dos meios mais importantes para que tenhamos acesso às ocupações disponíveis no mercado de trabalho e de consumo. Por isso, a maior parte das pessoas sabe que precisa enfrentar as várias séries e graus do sistema de ensino. Nisso está implícito o objetivo de “ser alguém na vida”, que só pode ser conseguido através da Educação formal. O sistema educacional poderia ser visto, assim, como uma grande máquina de produção de pessoas com qualifi cação sufi ciente para fazer as engrenagens funcionarem. Mecanismos econômicos de exclusão Sabemos que as oportunidades não estão disponíveis nem são apro- veitadas por todos de maneira equilibrada. A própria imagem, bastante difundida, de que a estrutura social é uma pirâmide com cerca de 5% no topo (classe alta), 25% no meio (classe média) e 70% na base (classe baixa) já revela o desequilíbrio e a desigualdade perversa existente no país em que vivemos. O problema se agrava quando aumenta a quantidade de miseráveis que se encontram na classe baixa. No Brasil, eles são cerca de 30 milhões, que mais apropriadamente podemos chamar de excluídos; portanto, sem acesso à Educação. Em outras palavras, o sistema de ensino já é estruturalmente excludente, porque é refl exo de uma forma desigual de ordenamento social. Isso ocorre, por exemplo, na sociedade brasileira atual, mesmo se considerarmos que a maioria das crianças e os jovens em geral estão matriculados na escola desde o momento em que aumentaram as vagas nos estabelecimentos de ensino ao longo das últimas duas décadas do século XX. As “distinções” existentes no sistema educacional permanecem para atender aos privilégios de alguns em detrimento de muitos. É o que vemos quando constatamos o fato da separação do sistema em público e privado. De uma maneira geral, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio públicos possuem a maioria dos alunos matriculados, enquanto o ensino privado possui a minoria. Não é nenhuma novidade que há conseqüências dessa estruturação no prosseguimento dos estudos para o Ensino Superior. As análises socioló- gicas das mudanças na estruturação da educação brasileira podem ser vistas nas políticas atuais, ado- tadas para o Ensino Médio e Superior, expandindo as suas vagas (NEVES, 2002). Aula_11.indd 112 20/7/2004, 16:54:22 C E D E R J 113 A U LA 11 M Ó D U LO 1 Sabemos que a maioria das vagas nos cursos de maior prestígio das melhores universidades, principalmente as públicas, vai para aqueles alunos que são oriundos do setor de ensino privado. Esta é uma maneira de excluir a maioria da população que cursa a escola pública, cujo destino, quando muito, são as vagas das instituições superiores privadas, geralmente de baixa qualidade educacional. Em resumo, o próprio funcionamento do sistema de ensino é um mecanismo de exclusão por causa da lógica que o organiza e pelos resultados apresentados. Isso quer dizer o seguinte: ainda que todos os alunos pudessem ter acesso razoavelmente igualitário às mesmas condições de ensino nas escolas, isso não eliminaria totalmente a exclusão, por causa da desigualdade entre as classes sociais. Ou seja, um aluno de classe baixa que estuda no mesmo sistema de ensino que um de classe média tem poucas possibilidades de receber e utilizar a carga de conhecimentos de maneira igual à do outro. Se quisermos aprofundar esse exemplo, podemos dizer que isso pode ocorrer até mesmo no caso de pertencerem à mesma escola e turma. O chamado “capital cultural” é distinto um do outro, por causa das diferentes posições que eles ocupam dentro do sistema social. Eles possuem diferentes condições sociais de aprender e processar as informações, os saberes e as práticas do conhecimento escolar (BOURDIEU,1974). Esse argumento, fundamentado na concepção educacional reprodutivista, opõe-se às idéias que afi rmam poder haver uma unifi cação real dos princípios, meios e fi ns do sistema de ensino (normas, currículos, instalações, material didático, qualifi cação de pessoal etc.). Isso ocorre para tentar resolver o problema da desigualdade social e seus refl exos na Educação, conforme afi rmam os defensores da chamada concepção crítico-transformadora da Educação. Assim, a suposta unidade do sistema de ensino é apenas uma ilusão, ainda que todos possam contar com as mesmas condições oferecidas por ele. Então, quando se fala em “educação para todos” ou “democratização do ensino”, vê-se que é algo impossível de acontecer efetivamente, apesar das boas intenções de muitos analistas, planejadores, políticos e professores. O reprodutivismo e a educação transformadora são maneiras distintas de apresentar as conseqüências da Educação para a população menos privilegiada. Aula_11.indd 113 20/7/2004, 16:54:22 C E D E R J114 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão social Como se sabe, as últimas crises econômicas na América Latina e no Brasil aprofundaram as desigualdades e a exclusão de quem pretende alcançar um lugar no mercado de trabalho e de consumo. Para tentar ame- nizar esse tipo de situação, alguns governos buscam meios de compensar o grau de precariedade da situação da camada popular mais pobre adotando programas de inclusão social e expandindo as condições mínimas de acesso e permanência na escola (bolsa-alimentação familiar, distribuída desde que os fi lhos estejam matriculados e mantidos na escola). Mecanismos culturais de exclusão Até bem pouco tempo, no Brasil, o debate sobre exclusão social e Educação só priorizava a questão econômica, mas os aspectos culturais também devem ser levados em consideração, pois a sociedade possui grupos que têm valores, hábitos, etnias, gêneros e práticas distintos. Nem sempre o sistema de ensino se importou com tais diferenças, man- tendo os seus privilégios para os grupos tradicionalmente representativos da elite. Além de mais abastada e escolarizada, essa classe é composta, majoritariamente, de pessoas brancas, infl uenciadas por valores machistas. O problema da discriminação étnico-racial e de gênero é muito sério nas sociedades contemporâneas, em particular na brasileira. Temos ainda uma maneira bastante precária de enfrentar o preconceito contra os negros, os indígenas, as mulheres, os homossexuais etc., conhecidos também como “minorias sociais”. Os conteúdos e as práticas pedagógicas difundidos há muito na escola expressam uma representação equivocada da sociedade, deixando de lado a sua real diversidade. Por esta razão, os integrantes dessas minorias são também vistos como “excluídos”, pois são discriminados de privilégios e benefícios sociais; o estilo de vida, as aspirações e os interesses são postos em segundo plano, nãosendo devidamente estabelecidos pelas normas que regem a sociedade. A escola refl ete tal discriminação na transmissão do conhecimento, estabelecido nos currículos, no material didático e nos critérios de mérito. Assim, difi cilmente os chamados vencedores, que alcançam o sucesso escolar e social, são os indivíduos que representam essas minorias. Há uma canção de Elza Soares que diz: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Baby do Brasil canta “todo dia era dia de índio, mas agora ele só tem o dia 19 de abril...” Aula_11.indd 114 20/7/2004, 16:54:22 C E D E R J 115 A U LA 11 M Ó D U LO 1 A escola impõe determinado tipo de padronização cultural a todos, com o saber que o Estado estabelece ser adequado à população. Desse modo, esse saber nem sempre considera a pluralidade da sociedade, não atentando, portanto, para a realidade das pessoas que formam a escola. Conforme já foi dito, a escola, algumas vezes, parece uma nave espacial pousada em um planeta desconhecido (SILVA, 1996). Como resultado, ela elege, seleciona e promove um determinado grupo de pessoas, que vai gal- gando os degraus do sucesso, deixando de lado um outro que evade/repete de modo continuado e permanente. Essa realidade vale não somente para quem é mais pobre, como também para algumas etnias (por exemplo, negros e indígenas). No caso do Brasil, por exemplo, tal situação até que não é tão desconhecida porque a maioria dos pobres brasileiros pertence a essas etnias; portanto, quem obtém as melhores oportunidades no mercado de trabalho são os menos pobres que, não por coincidência, são considerados brancos. Sabemos que é bastante comum afi rmar-se que não há racismo no Brasil, que vivemos em um país simpático e harmonioso, sem confl itos, numa situação conhecida pelo nome de “democracia racial”. Porém, há várias contestações a esse respeito, se de fato não temos enfrentamento racial aberto como em outros países, a “democracia racial” esconde o pernicioso preconceito que existe entre nós. As minorias étnico-raciais ainda são freqüentemente retratadas de modo estereotipado nos materiais didáticos e nos meios de comunicação, infl uenciando aquela mentalidade que tenta justificar a superioridade dos brancos. A contribuição de negros e indígenas fi ca quase sempre registrada em aspectos folclóricos (como o samba, o Carnaval, o futebol e a culinária) e históricos (como o Descobrimento, a Abolição da Escravatura etc.) sem falar na representação da negra como objeto sexual – caso das mulatas, ou como serviçais – a empregada doméstica. Podemos entender a situação da discriminação racial através do funcionamento do sistema de ensino. Por exemplo: se temos uma quantidade de aproximadamente 45% de negros no Brasil, apenas 2,5% deles chegam ao nível superior completo, público ou privado. Em contraposição, os brancos concluintes são 12%. No Ensino Médio, os concluintes brancos são 26%, os negros são 15%. O número de negros analfabetos é quase três vezes maior que os brancos em igual condição (GONÇALVES, 1999). A LDB e os PCNs estabelecem os obje- tivos da Educação no Brasil; deve buscar a integração dos alunos ao mundo da cidada- nia e do trabalho. Aula_11.indd 115 20/7/2004, 16:54:23 C E D E R J116 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão social Não é sem razão que há um intenso debate em torno da indecisão gover- namental de implantar ou não cotas e outras formas de incentivo ao ingresso e à permanência das minorias no sistema de ensino, sejam elas de não–brancos ou de membros das camadas populares. Daí ser neces- sário saber que a exclusão social traz de fato uma enorme e pesada carga de conseqüências para boa parte das pessoas em nossa sociedade. A escola é um grande fator contribuinte para que essa situação se mantenha intocada. Por outro lado, ela pode ser utilizada para democratizar a educação de qualidade, atingindo quem mais precisa dela. A escola tem a importantíssima função de manter essa realidade perversa ou de modifi cá-la. A decisão, para um lado ou outro, depende de vontade política, de capacidade de pressão e reivindicação da sociedade, em especial dos movimentos sociais, que lutam por melhores condições de vida para as minorias e pela extensão efetiva dos direitos sociais até elas. R E S U M O Em resumo, nesta aula apresentamos os seguintes aspectos dos mecanismos de exclusão social: • Na organização e funcionamento da sociedade capitalista, há a desigualdade estrutural. A partir dessa situação, surgem maneiras de incluir alguns grupos e de excluir outros. • A exclusão social é fenômeno que impede a integração satisfatória dos indivíduos e dos grupos aos direitos e privilégios estabelecidos socialmente. • A exclusão social pode ser econômica, quando atinge os mais pobres, e étnico- cultural, quando atinge as minorias. • A escola é um grande fator de exclusão social, por causa da maneira como funciona o sistema de ensino para a maioria da população. • No Brasil, além dos mais pobres, os negros e os indígenas são os mais atingidos pelo estabelecimento da exclusão através da Educação. • Para diminuir o impacto da exclusão, o Estado e a sociedade buscam construir mecanismos que alterem a realidade, contribuindo para incluir um número maior de indivíduos, através de mudanças na política educacional. Aula_11.indd 116 20/7/2004, 16:54:23 C E D E R J 117 A U LA 11 M Ó D U LO 1 EXERCÍCIOS 1.·Procure em material impresso e/ou eletrônico informações que demonstrem casos em que haja relato da situação do ensino no Brasil, em especial da comparação entre o ensino público e o privado. 2. Comente a frase “No Brasil não há racismo, pois todos somos fi lhos de Deus”. 3. Relate a situação das minorias em termos econômicos e raciais, atentando para as conseqüências de fracasso/sucesso escolar. 4. Analise e discuta a questão da adoção de cotas e das políticas de ação afi rmativa em Educação voltadas para as minorias. Leve essas respostas ao seu tutor, no pólo. Aula_11.indd 117 20/7/2004, 16:54:23 Caro companheiro de viagem, para este trajeto de nosso percurso traçamos os seguintes objetivos que você deverá alcançar: • Analisar os mecanismos e dispositivos de exclusão social e escolar presentes na sociedade atual. • Estudar os mecanismos e dispositivos de inclusão escolar para que todas as crianças possam se integrar à sociedade e tenham acesso à escola. • Refl etir sobre as atitudes que podem ser adotadas pelos docentes para eliminar situações de exclusão, favorecendo a inclusão de todas as crianças na escola. Mecanismos e dispositivos de exclusão/inclusão Pré-requisito Caro colega de viagem pela Terra dos Fundamentos da Educação, para um melhor entendimento desta aula, sugeri- mos que você releia as Aulas: 9 (Escola: inclusão e exclusão); 10 (Mecanismos e dispositivos de exclusão/inclusão — em uma perspectiva da Psicologia da Educação) e 11. (Mecanismos e dispositivos de exclusão social). ob jet ivo s 12AULA Aula_12.indd 119 20/7/2004, 16:54:59 C E D E R J120 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão/inclusão Situamo-nos na perspectiva da promoção de uma cultura e de uma educação que promova os direitos humanos nos diferentes âmbitos sociais. Consideramos que a escola é um espaço especialmente signifi cativo para o desenvolvimento de mentalidades, saberes, valores e práticas orientadas para a superação das diferentes formas de preconceito e discriminação presentes em nosso tecido social, assim como para a afi rmação de uma cidadania intercultural (CANDAU, 2003, p. 14). Caro colega de caminhada, após a leitura da frase de Vera Maria Candau, queremos convidá-lo a refl etir sobre os diversos mecanismos de exclusão e inclusão que existem na sociedade. Após essa refl exão, podemos tentar adotar, na nossa tarefa docente, atitudes e práticasque permitam superar as situações de exclusão, favorecendo a inclusão de todas as crianças na escola. Como afi rma a autora, a escola deve tornar-se um espaço fundamental para desenvolver mentalidades, saberes, valores e práticas que eliminem o pre- conceito e a discriminação. Ou seja, o docente pode estimular pensamentos — mentalidades e saberes — e posturas éticas — valores e práticas — para que no âmbito escolar surja um clima de integração entre as crianças de diversos grupos sociais que assistem às aulas. É importante que todos os estudantes mostrem suas peculiaridades, suas diferenças; que cada um deles possa mani- festar seus valores, convicções e sentimentos, sem distinção de raças, gênero, religião, condição social etc. Porém, essas propostas inclusivas se deparam com nossa realidade social que é excludente, isto é, que marginaliza grandes parcelas da população. É necessário que o docente tenha consciência dos mecanismos que impõem preconceitos e discriminação, tão comuns na nossa sociedade. Então, é importante indagar quais são os principais mecanismos de exclusão presentes na sociedade? São: • Os provocados pelos novos processos econômicos mundiais de internacio- nalização dos capitais, a conhecida globalização, que marginalizam países e populações inteiras das sociedades emergentes. Esse modelo, que privilegia exclusivamente o aumento de ganhos, a multiplicação de lucros, condena grandes populações a fi car de fora do mercado e também da escola. • Os específi cos da sociedade brasileira. Nela, há diversos grupos discriminados: os negros, as mulheres, os nordestinos etc. INTRODUÇÃO Aula_12.indd 120 20/7/2004, 16:55:08 C E D E R J 121 A U LA 12 M Ó D U LO 1 Os processos de exclusão que provêm da globalização, de um mundo capitalista que procura quase que exclusivamente a multiplicação dos lucros, motivam a refl exão e ação dos diversos representantes da sociedade organizada. Desde as instâncias do governo até os diversos grupos de pressão: sindicatos, corpora- ções, ONG etc. Trata-se do âmbito de políticas públicas que exigem ações mais amplas das instituições e dos setores socialmente organizados diante de entidades internacionais que impõem orientações socioeconômicas excludentes, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, grandes empresas multinacionais etc. Nesse plano, o professor pode manifestar-se como cidadão, agindo em diversas instâncias coletivas: sindicatos, faculdades e outros espaços públicos (jornais, diversos meios de comunicação etc.) Com relação aos processos de discriminação próprios da sociedade brasileira, o professor pode adotar diversas atitudes: desde fomentar a tomada de consciência até escolher diversas práticas integradoras a serem empre- gadas em sala de aula. Aos efeitos de implementar essas atitudes surge uma pergunta fundamental: Quais são os grupos tradicionalmente discriminados na sociedade brasileira? Em primeiro lugar, é importante conhecer quais são os grupos tradicionalmente discriminados na sociedade brasileira e também na escola. Vera Candau assinala que os negros e as mulheres são os que mais sofrem a exclusão social (2003, p. 19), mas há outros segmentos da nossa sociedade que são discriminados e excluídos. Numa pesquisa realizada pela autora, foram entrevistados professores de cinco municípios do Estado do Rio de Janeiro. Nos seus depoimentos, fi ca claro quais os grupos geralmente marginalizados: Outras situações retratadas pelas professoras referiram-se a discri- minações pelo fato de ser mulher, ter nascido na zona oeste do Rio de Janeiro, moradora de bairro da zona suburbana, ter determinada idade, pertencer a certa religião, apresentar diferentes características físicas (careca, gorda, magra, ser branca azeda etc.) e, algumas vezes, evidenciar vários desses aspectos conjuntamente (p. 64). O professor se depara, na sua prática cotidiana, com situações que excluem os negros, as mulheres, os suburbanos, os mais velhos, os que praticam deter- minadas religiões, os que são diferentes fi sicamente, ou seja, desde os que Negros e mulheres: são as vítimas mais comuns de discriminação e exclusão na sociedade brasileira. Aula_12.indd 121 20/7/2004, 16:55:09 C E D E R J122 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão/inclusão apresentam defi ciências corporais até os que fogem ao padrão considerado modelo de excelência física. Muitas dessas pessoas são vítimas de violência verbal e até física. Há numerosas denominações pejorativas para os negros — “escurinho”, “criolo”, “neguinho” —; os moradores de favela são estig- matizados: torna-se sinônimo de trafi cante, marginal, delinqüente; os que são diferentes — muito gordos, muito magros, muito baixos, muito altos etc. — são vítimas de piadas e gozações; os preconceitos sexuais levam muitas vezes à violência: os homossexuais não são apenas discriminados e ofendidos, mas também agredidos. Candau registra o depoimento de um aluno que denuncia essa situação: “Eu vi um grupo de rapazes batendo em um rapaz só porque ele era homossexual. Na minha opinião foi uma covardia, pois cada um escolhe o que quer para sua vida” (2003, p. 84). OS MECANISMOS DE EXCLUSÃO E A QUESTÃO DA DIFERENÇA Caro colega de viagem, você que vive no Brasil, que leciona numa escola no Rio de Janeiro, deve conhecer histórias parecidas: negros que são desvalorizados; nordestinos que são humilhados e chamados com um rótulo geral depreciativo de “paraíbas”. Paraíba é o habitante de Paraíba do Norte, mas esse termo é aplicado a todo nordestino, ignorando as diferenças locais — há cearenses, pernambucanos, sergipanos, maranhenses etc. —; nessa ótica pejorativa contra todos os nordestinos, “paraíba” não só alude ao habitante do Nordeste, mas signifi ca também ignorante, grosso, pobre etc. Você deve ter percebido que, numa sociedade preconceituosa, os que fogem ao padrão dito “normal” são excluídos. Os que moram na zona oeste da cidade do Rio de Janei- ro são depreciados, os mais velhos são denegridos com o apeli- do “coroa”, os que têm defi ciências físicas são ridicularizados, os homos- sexuais são agredidos, considerados “tarados”. A religião é outra questão que gera práticas de exclusão: os que acreditam em religiões diferentes são preteridos. Um preconceito recente está ligado aos que praticam religiões vinculadas ao Islã. Os muçulmanos, particularmente após os confl itos que envolvem o Oriente Médio, têm sido caracterizados como fanáticos, irra- cionais etc. Mas, será que as religiões diferentes daquelas praticadas pela maioria dos brasileiros não merecem o nosso respeito? É claro que sim. Sociedades diferentes Oriente e Ocidente têm costumes e valo- res muito diversos. Aula_12.indd 122 20/7/2004, 16:55:15 C E D E R J 123 A U LA 12 M Ó D U LO 1 Ao contrário da tendência que condena e simplifi ca as culturas diversas da nossa, é importante entender e respeitar as diferenças. Que signifi ca DIFERENÇA? Signifi ca que há diversas formas de ver o mundo, a vida, os costumes, os valores; há múltiplas formas de estar no mundo. A nossa forma de viver e pensar não é a única, não invalida as outras. Há diferentes culturas, cada uma com seus valores, com seus parâmetros e convicções. A nossa cultura não é única nem privilegiada e as outras são as exceções. Assim, por exemplo, para nós, brasileiros, pertencentes ao mundo ocidental, é comum comer carne, matar bois para nos alimentarmos. Já os indianos não comem carne porque as vacas são consideradas entidades sagradas. Mas, ao mesmo tempo, muitos deles morrem de fome, não obstante nunca seriam capazes de ousar sacrifi car essas vacas para alimentar-se. Para nós, isso pode parecer absurdo. Por que os indianos preferem morrer a comer vacas? Devemos entender as diferenças culturais. Para eles, as vacas não são animais, mas divindades. Estão equivocados?Não, são diferentes. A vaca, para eles, possui um signifi cado totalmente diverso do que tem para nós. DIFERENÇA Aquilo que determina a condição de alteri- dade ou de ser outro; aquilo que se afasta do que nos caracteri- za: o dia é diferente da noite, o feminino do masculino, o pequeno do grande. Assim, os jovens são diferentes dos velhos; se somos homens percebemos a alteridade da mulher; ela é um outro sujeito que se diferencia de nossa condição masculina. Caro companheiro de viagem, para entender melhor a questão da diferença, e da aceitação da diferença que deve ser praticada na sociedade e na escola, podemos lembrar uma novela que foi muito famosa, muito comentada há pouco tempo atrás: O clone. Lembre que a história se desenrolava, simultaneamente, em dois lugares: Brasil e Marrocos. Os personagens transitavam continuamente entre duas culturas: uma ocidental e outra oriental. Havia um choque de valores entre sociedades diferentes. Por exemplo, fi cava claro, no comportamento da protagonista, que o lugar da mulher é muito diferente no Oriente e no Ocidente. O Marrocos é um país com a sociedade patriarcal, em que o domínio do homem é decisivo, e o lugar da mulher depende totalmente do marido. Ele pode ter mais de uma esposa, sem que essa conduta seja considerada infi delidade. Já a mulher deve total obediência ao esposo e a traição é uma transgressão gravíssima. Então, a mulher deve ter um comportamento monogâmico (deve ter um único parceiro) defendido à risca com pesados castigos, e o homem está liberado para ser poligâmico (pode ter mais de uma par- ceira). Dois pesos e duas medidas? Sim, mais isso provém dos valores da religião oriental que diferencia os lugares dos dois sexos. No Ocidente, embora a tradição patriarcal aqui também seja forte, homem e mulher devem ter um comportamento monogâmico. A protagonista de O clone vive o drama dessa diversidade cultural. Ela se apaixona por um brasileiro, mas está casada no Marrocos, onde o divórcio é impossível. Entre a sua paixão e o seu dever ela vive um drama peculiar. Terá direito a se separar e começar outra vida? Conforme os padrões orientais, isso não é possível, já desde nosso olhar ocidental, ela deveria ter a possibilidade de escolher conforme seus sentimentos. Há um comportamento verdadeiro? Não. Há valores e sociedades diferentes. Aula_12.indd 123 20/7/2004, 16:55:21 C E D E R J124 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão/inclusão MECANISMOS E DISPOSITIVOS DE INCLUSÃO (...) tenho a convicção de que toda pessoa capaz de interagir de algum modo com outra pessoa é também capaz de aprender. Esta premissa defi ne minha perspectiva de compreensão e análise do movimento pela Escola Inclusiva (...) A proposição de um novo paradigma explicativo da exclusão que coloca o respeito às diferenças como condição para a inclusão dos social- mente excluídos, de modo a garantir a integração social dos excluídos, seja pelo gênero, pela raça, pela religião, pela cultura, seja pela defi ciência física ou mental (TIBALLI, apud CANDAU, 2003, p. 195). Somos todos diferentes! Caro estudante, anteriormente mostramos que, na sociedade brasilei- ra atual, há diversos mecanismos de exclusão, que marginalizam os alunos, que os limitam na sua vida social e acabam por prejudicá-los profundamente no seu percurso escolar. Muitos dos chamados diferentes são excluídos no convívio escolar. O professor deve adotar algumas atitudes para superar essas situações de exclusão e para conseguir que a escola seja o lugar de todos, para além de raça, religião, situação econômica, condições físicas ou mentais. Lembremos que a escola integradora tentava facilitar a adaptação daqueles que tinham NECESSIDADES ESPECIAIS, particularmente os portadores de defi ciências físicas ou mentais. A escola inclusiva atual considera que todos os alunos são especiais, todos eles têm necessidades especiais: cada um deles é um universo singular que deve ser cuidado, acolhido, esti- mulado a crescer. Rabelo e Amaral (apud CANDAU, 2003) assinalam: “Crê-se que a educação orientada pela inclusão é uma arma efi caz na construção de uma sociedade que respeite as pessoas e suas diferenças, dando condições de uma educação capaz de atender às especifi cidades de cada indivíduo”. Assim, na compreensão atual da escola inclusiva, todo sujeito é diferente. A escola e o professor devem preparar-se para atender às necessidades de todos os alunos: a instituição e o docente devem estar capacitados para educar aqueles que precisam de um ensino específi co, por exemplo, os surdo-mudos; aqueles que têm difi culdades por uma questão regional ou étnica — os que pertencem a um grupo que Todos os alunos têm NECESSIDADES ESPE- CIAIS: ninguém é igual ao outro, cada um tem sua singula- ridade que deve ser respeitada. Assim, a escola é como se fosse um caleidos- cópio de múltiplas cores: os alunos e suas peculiaridades marcam os diversos “tons”. ! Aula_12.indd 124 20/7/2004, 16:55:22 C E D E R J 125 A U LA 12 M Ó D U LO 1 tem um dialeto ou língua diferente do português — ou outros valores e costumes — as comunidades indígenas, por exemplo. A escola torna-se, assim, um “caleidoscópio” onde brilham as diferenças, onde é possível comungar diferentes visões de mundo: O cotidiano da escola é palco de diferentes relações sociais e refl ete a diversidade cultural presente na sociedade. Assim, diferentes visões de mundo, estilos de vida, crenças, costumes, cores, etnia e todos os aspectos que compõem a cultura freqüentam, diariamente, as salas de aula (CANDAU, 2003, p. 24). Imagine, caro aluno, que vivência rica é lidar com os mais abas- tados e os mais pobres, os mais inteligentes e os menos capacitados, os esportistas e os que gostam de ler muito, os magros e os gordos, os altos e os baixos, os negros, os brancos, os amarelos e todas as cores humanas possíveis. Uma escola inclusiva, que acolhe todas as diferenças, é como um quadro de inúmeras cores, foge da monotonia (monotonia: aquilo feito de uma única cor), traz uma experiência muito ampla, já que é produto de mundos diferentes. Há diversos princípios que guiam as práticas inclusivas: “respeito às diferenças e igualdade de direitos; cooperação, tolerância e solidariedade; participação social e integração afetiva de todos, especialmente dos portadores de necessidades especiais; inclusão em oposição à exclusão no contexto escolar (...) promoção da inclusão pela via da escola” (TIBALLI, apud CANDAU, 2003, p. 196). Essas diretrizes devem ser adotadas pela escola inclusiva. Mas, é um desafi o para a instituição e para o professor colocar em prática essas orientações. É preciso capacidade técnica para atender os portadores de necessidades especiais: deve-se conhecer os procedimentos apropriados, por exemplo, é necessário conhecer métodos específi cos para comunicar-se e educar os surdos-mudos. Também são imprescindíveis condições éticas e preparo afetivo: o educador deve ter sufi ciente maturidade para acolher até aqueles que pensam diferente dele — de outras religiões ou convicções políticas — e, assim, desenvolver o espírito de cooperação, tolerância e solidariedade entre indivíduos muito diversos entre si. O educador deve propiciar um clima afetivo favorável entre os diferentes, mas também deve encaminhar os con- fl itos que naturalmente surgem do convívio entre sujeitos que pensam MÚLTIPLAS CULTURAS O espaço escolar deve deixar que apareçam as diferenças, as sin- gularidades. Numa sociedade plural, como a brasileira, não há espaço para a monotonia, mas para a policromia; a escola será um refl exo dessa diversidade onde convivem negros, brancos, índios, amarelos e as múltiplas cores imagináveis. Aula_12.indd 125 20/7/2004, 16:55:23 C E D E R J126 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão/inclusão e sentem de maneirasdivergentes. Não é possível neutralizar as diferenças, ignorando que elas existem. Um professor afi rmou que a escola, muitas vezes, pretende colocar-se como um âmbito neutro: Há um respeito, quase uma neutralização da escola diante da diversidade social, cultural. Há um culto a isso, os professores não podem ser muito políticos, não podem ser muito religiosos, muito qualquer coisa. (...) Como se a escola pairasse fora de tudo isso, como se não fosse um lugar de representação da religião, da política (...) (CANDAU, 2003, p. 41). O encontro e a aceitação das diferenças, justamente por lidar com sujeitos que sentem e pensam diferente, não deve anular os confl itos, ao contrário, é preciso encará-los de frente e tentar resolvê-los. O professor não deve ocultar as contradições que surgem em sala de aula, deve dialogar sobre essas divergências. A escola inclusiva não deve negar a existência de confl itos que surgem das diferenças culturais entre os alunos. Alunos e pro- fessores devem falar sobre os confl itos para equacioná-los. É importante destacar que os currículos atuais de Pedagogia não têm defi nido claramente como serão qualifi cados os professores para atender às necessidades de uma escola inclusiva: Os currículos de Pedagogia atuais estão estruturados para atender a uma parcela da população, a considerada ‘normal’, ignorando a presença de uma parcela importante de estudantes, aqueles que necessitam de uma atenção diferenciada (RABELO e AMARAL, apud CANDAU, 2003, p. 208). O MEC (Ministério da Educação e do Desporto), diante da perspectiva atual que pretende que o docente possa educar todos os alunos, apresentou uma proposta, em 1993, para que os currículos dos cursos de 2º e 3º graus incluam itens ou disciplinas que contemplem os portadores de necessidades especiais. Para além dessa proposta progressista, nota-se que a maioria dos cursos de pedagogia não propõe “uma educação voltada para a diversidade, que contemple também as pessoas com necessidades especiais, [isso] se explica pela inexistência de uma consciência social inclusiva (...)” (ibidem, p. 220). Aula_12.indd 126 20/7/2004, 16:55:24 C E D E R J 127 A U LA 12 M Ó D U LO 1 Portanto, o modelo de escola inclusiva ainda está sendo concretizado, a for- mação dos professores que possam acolher as diferenças ainda não está ple- namente consagrada nos currículos. Trata-se de iniciativas que, aos poucos, serão incorporadas na mentalidade, no planejamento e na ação das escolas e dos professores. É uma tarefa a ser construída. É uma proposta digna de ser adotada pelos docentes: construir uma educação para todos. Os currículos de Pedagogia devem ser atualizados para atender, na escola, não só os portadores de necessidades especiais, mas também incluir todos os alunos, sem exceção. O novo educador deve ter consci- ência de que todos os estudantes têm “necessidades especiais”. R E S U M O Esta aula analisou diversas formas de exclusão presentes na sociedade e na escola. Estudamos de que forma muitos indivíduos e grupos considerados “diferentes” são desvalorizados no convívio social e alijados de sua participação escolar. No mundo atual, o processo de globalização acaba excluindo, pelo seu interesse quase obsessivo pelo lucro, países emergentes e numerosos grupos desses países. No Brasil, especifi camente, sofremos a exclusão de diversos segmentos: negros, mulheres, nordestinos, pobres, portadores de necessidades especiais etc. Após analisar a situação dos excluídos, abordamos a noção de diferença, que orienta as possibilidades de uma escola inclusiva. Nela, todos os segmentos, todas as crianças, sem distinção de idade, raça, cor, credo, situação física ou psíquica devem ser respeitados e acolhidos. Estudamos os diversos mecanismos e dispositivos que devem ser implementados para a inclusão social e escolar. A escola e o docente inclusivo devem respeitar todas as diferenças, devem capacitar- se intelectual, técnica e afetivamente para educar os diversos indivíduos, gerando um clima de cooperação, equacionando os confl itos que surgem nesses grupos tão diversifi cados. Apontamos a necessidade de que os currículos dos diversos cursos de Pedagogia incorporem a proposta de educar os diferentes. Mostramos que a escola inclusiva ainda está sendo construída – é uma proposta em vias de realização. Aula_12.indd 127 20/7/2004, 16:55:24 C E D E R J128 Fundamentos da Educação 3 | Mecanismos e dispositivos de exclusão/inclusão EXERCÍCIOS 1. Tente lembrar os adjetivos, termos e apelidos que são dados aos seus colegas considerados diferentes: negros, nordestinos, pobres, gordos, de outras religiões, com defi ciências físicas e psíquicas. Refl ita sobre o sentido excludente e pejorativo dessas palavras. 2. Comente com seus colegas a novela O clone. Tente lembrar as diferenças culturais entre Brasil e Marrocos. Analise especifi camente o papel da mulher nessas duas sociedades. 3. Analise as formas e estratégias que poderiam ser seguidas numa escola inclusiva. Comente com seus colegas aquelas que foram apresentadas nesta aula. Sugira outras possibilidades de inclusão. Entregue as respostas ao tutor, no pólo! AUTO–AVALIAÇÃO Você conseguiu entender o que signifi ca exclusão social e escolar? Você pode detectar, na sua vivência escolar, práticas de exclusão? Você pode comentar quais são essas práticas? Você entendeu o que signifi cam diferenças culturais? Você compreendeu por que há sociedades que têm costumes e valores muito diversos, até contrários? Se conseguiu entender que as sociedades diferentes não estão certas nem erradas, você assimilou um princípio básico das sociedades e escolas inclusivas: não há valores nem crenças verdadeiras ou certas, mas uma diversidade de visões de mundo. Você entendeu as atitudes, os pensamentos e as práticas da escola e do professor que visam à inclusão de todos os alunos? Se você entendeu essas noções e distinções, pode ir em frente, rumo à próxima parada, na viagem pela Terra dos Fundamentos da Educação, marcada na Aula 13, que também aborda questões de exclusão e inclusão escolar: mecanismos e dispositivos de inclusão/exclusão. Mas se você sentir difi culdades na compreensão desta aula, sugerimos que realize uma nova leitura mais minuciosa. Aula_12.indd 128 20/7/2004, 16:55:24 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Aprofundar a análise da ocorrência das políticas sociais compensatórias no contexto da Educação. • Analisar alguns casos de ações de discriminação positiva no âmbito da Educação brasileira. • Compreender a importância das políticas afi rma- tivas no contexto da Educação. • Identifi car os questionamentos dessas práticas no contexto da Educação. Implementando ações afi rmativas na Educação brasileira Pré-requisito Vale a pena reler as Aulas 3 e 4 para melhor compreensão desta. ob jet ivo s 13AULA Aula_13.indd 129 20/7/2004, 16:56:12 C E D E R J130 Fundamentos da Educação 3 | Implementando ações afi rmativas na Educação brasileira Estamos chegando a mais uma estação que nos encaminha para a plataforma Implementando ações afi rmativas na Educação brasileira. IMPLEMENTANDO AÇÕES AFIRMATIVAS NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA Como vimos nas Aulas 3 e 4, as políticas afi rmativas – também chamadas de políticas de discriminação positiva ou políticas sociais compensatórias – são ações do Estado ou estimuladas por ele, voltadas para grupos específi cos, historicamente discriminados. Lembrou? Analisamos que a relevância dada à Educação justifi ca-se pelo reconhecimento dos movimentos questionadores da discriminação, de que o processo educativo – especialmente o escolar – é um espaço privilegiado para a formação cultural das sociedades. A Educação é, portanto, ao mesmo tempo, um espaço de combate à discriminação e de construção de identidades; além disso, ela propicia o domínio de saberes socialmenteprestigiados, podendo contribuir para a diminuição das diferenças sociais. Nesta nossa parada vamos visitar alguns exemplos dessas políticas aqui no Brasil: a Educação Especial, a Educação Indígena e a política das cotas. A EDUCAÇÃO ESPECIAL No Art. 58 da LDBEN, a Educação Especial é defi nida como aquela “oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais”, reconhecendo no §3º que sua oferta é um “dever constitucional do Estado”. Observe o esquema que repre- senta a relação da Educação Espe- cial com as demais modalidades do ensino. Note que a Educação Especial atravessa as diferentes modalidades de ensino, não sendo tratada de forma desvinculada das demais. Fonte: http://www.mec.gov.br/ seesp/oquee.shtm. Aula_13.indd 130 20/7/2004, 16:56:20 C E D E R J 131 A U LA 13 M Ó D U LO 1 Essa defi nição foi reforçada pela Resolução CNE/CEB nº 2, de 11 de setembro de 2001, que instituiu as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica: Art. 3º Por Educação Especial, modalidade da educação escolar, entende-se um processo educacional defi nido por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos educandos que apresentam necessidades educacionais especiais, em todas as etapas e modalidades da Educação Básica. Destaca-se, portanto, que a Educação Especial se destina tanto aos portadores de defi ciências quanto aos superdotados. Aquela Resolução, no Art. 5º, especifi ca o que se considera educando com necessidades especiais, incluindo, nessa designação, aqueles que apresentam difi culdades de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento; aqueles com difi culdades de comunicação por demandarem linguagens e códigos especiais; aqueles com altas habilidades/superdotação. Nota-se, portanto, que o signifi cado efetivo dessa modalidade é propiciar um trabalho educativo especializado no que diz respeito aos “currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específi cos” para aqueles que possuem especifi cidades. Ressalta-se que os princípios éticos, políticos e estéticos que as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica legalizam interagem fortemente com as características do multiculturalismo já analisados por nós. Assim, as Diretrizes fi xam, no Art. 4º, que esses princípios devem assegurar: I – a dignidade humana e a observância do direito de cada aluno de realizar seus projetos de estudo, de trabalho e de inserção na vida social; II – a busca da identidade própria de cada educando, o reconheci- mento e a valorização das suas diferenças e potencialidades, bem como de suas necessidades educacionais especiais no processo de ensino e aprendizagem, como base para a constituição e ampliação de valores, atitudes, conhecimentos, habilidades e competências; Esse tratamento espe- cializado é previsto, também, na Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e do Ado- lescente –, que no seu Art. 54 afi rma: “É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente: (...) III – atendimento educacional especializado aos portadores de defi ciência, preferencialmente na rede regular de ensino.” Aula_13.indd 131 20/7/2004, 16:56:25 C E D E R J132 Fundamentos da Educação 3 | Implementando ações afi rmativas na Educação brasileira III – o desenvolvimento para o exercício da cidadania, da capacidade de participação social, política e econômica e sua ampliação, mediante o cumprimento de seus deveres e o usufruto de seus direitos. Os dados fornecidos pelo MEC permitem evidenciar o crescimento dessa modalidade no contexto do ensino brasileiro entre 1996 e 1999. Observe a Tabela 13.1, a seguir: É indiscutível o avanço quantitativo dessa inserção dos estudantes portadores de necessidades especiais nas redes de Ensino Regular do país. Entretanto, chama a atenção que justamente a rede federal apresentou declínio das matrículas. Não é menos importante observar que esses dados não permitem uma análise qualitativa. Essa evolução, contudo, não foi internamente uniforme. Algumas necessidades especiais foram atendidas mais que outras, evidenciando, possivelmente, níveis de difi culdades diversos para o desempenho efetivo da ação de inclusão nesse caso. A Tabela 13.2 demonstra que houve crescimento expressivo no atendimento daqueles que possuem defi ciência visual e defi ciência física, assim como dos superdotados. Tabela 13.1: Distribuição da matrícula por rede de ensino dos alunos com necessidades especiais – Censo Escolar 1996 Rede de Ensino Total Brasil Rede Municipal Rede Estadual Rede Federal Rede Particular Quant. Alunos Distr. % 1997 Quant. Distr. %Alunos Quant. Distr. %Alunos Quant. Distr. %Alunos 1998 1999 (*) 96-99 % de Evol. 201.142 29.591 90.688 938 79.925 100% 14,7% 45,1% 0,5% 39,7% 334.507 48.164 123.461 1.157 161.725 100% 14,4% 36,9% 0,3% 48,3% 337.326 62.962 115.424 898 158.042 100% 18,7% 34,2% 0,3% 46,9% 374.129 75.505 119.946 840 117.838 100% 20,2% 32,1% 0,2% 47,5% 86,0% 115,2% 32,3% -10,4% 122,5% (*) dados preliminares Fonte: MEC/INEP/SEEC. Fonte: http://www.mec.gov.br/seesp/plan1.shtm Aula_13.indd 132 20/7/2004, 16:56:25 C E D E R J 133 A U LA 13 M Ó D U LO 1 Esses quantitativos evidenciam as difi culdades de efetivar na Edu- cação Especial uma política de inclusão que exija, paralelamente, um grande investimento na capacitação docente, já que a formação de pro- fessores não contempla, generalizadamente, essa demanda crescente. EDUCAÇÃO INDÍGENA A Constituição Federal de 1988 assegura, entre diversos direitos das comunidades indígenas, “a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem” (Art. 210), além de registrar como função do Estado a proteção “às manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” (Art. 215). A LDBEN, entretanto, reforça, com maior detalhamento, esse comprometimento do Estado com a afi rmação da identidade indígena. Assim, no Art. 78 tem-se: O Art. 210 da Cons- tituição foi retomado, com a mesma redação, na LDBEN; nessa legis- lação, porém, trata-se do Art. 32 § 3º. (*) dados preliminares Fonte: MEC/INEP/SEEC. Fonte: http://www.mec.gov.br/seesp/plan2.shtm Tabela 13.2: Evolução da matrícula de alunos com necessidades especiais por tipo de defi ciência 1996 Tipo de necessidade Total Brasil Defi ciência Visual Quant. Alunos Distr. % 1997 Quant. Distr. %Alunos Quant. Distr. %Alunos Quant. Distr. %Alunos 1998 1999 (*) 96-98 % de Evol. 201.142 8.081 30.578 7.921 121.021 100% 4,0% 15,2% 3,9% 60,2% 334.507 13.875 43.241 13.135 189.370 100% 4,1% 12,9% 3,9% 56,6% 337.326 15.473 42.584 16.463 181.377 100% 4,6% 12,6% 4,9% 53,8% 374.129 18.629 47.810 17.333 197.996 100% 5,0% 12,8% 4,6% 52,9% 89,0% 130,5% 56,4% 118,8% 63,6% Defi ciência Auditiva Defi ciência Física Defi ciência Mental Defi ciência Múltipla Problemas de conduta Superdotação Outras 23.522 11,7% 47.481 14,2% 45.582 12,6% 46.745 12,5% 98% 9.529 4,7% 26.681 7,7% 8.994 2,7% 9.223 2,5% -3,2% 490 0,2% 1.724 0,5% 1.187 0,4% 1.228 0,3% 150,6% 28.666 8,5% 35.165 9,4% 22,7% Aula_13.indd 133 20/7/2004, 16:56:26 C E D E R J134 Fundamentos da Educação 3 | Implementando ações afi rmativas na Educação brasileira Leia também o Art. 26 e o Art. 78, que tratam da questão. O Plano Nacional da Educação (PNE), no seu item 9, analisa a Educação Indígena, sendo importante sua leitura para aprofundamentoda análise. O Sistema de Ensino da União, com a colaboração das agências federais de fomento à cultura e de assistência aos índios, desenvolverá programas integrados de ensino e pesquisas, para oferta de Educação escolar bilíngüe e intercultural aos povos indígenas, com os seguintes objetivos: I – proporcionar aos índios, suas comunidades e povos, a recupera- ção de suas memórias históricas; a reafi rmação de suas identidades étnicas; a valorização de suas línguas e ciências; II – garantir aos índios, suas comunidades e povos o acesso às informações, conhecimentos técnicos e científi cos da sociedade nacional e demais sociedades indígenas e não-índias. É inegável, portanto, a preocupação do Estado em propiciar a divulgação da cultura das comunidades indígenas, no sentido de garantir- lhes a afi rmação de suas identidades, sem descuidar de uma perspectiva cultural nacional no contexto educacional. O MEC informa em sua página na internet que o Censo da Educação Indígena começou a ser realizado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) em parceria com a Secretaria de Educação Fundamental, em 1999. Naquele ano teve início a coleta de dados. O levantamento revelou que, naquele período, o Brasil possuía 93.037 alunos matriculados na Educação Indígena no País, a maior parte concentrada no Ensino Fundamen- tal. Havia também 74.931 estudantes índios. Nas 1.392 escolas indígenas então existentes no País trabalhavam 3.998 professores e, desse total, 76,5% eram de origem indígena. (texto extraído de http://www.mec.gov.br/sef/indigena/censo.shtm) Aula_13.indd 134 20/7/2004, 16:56:27 C E D E R J 135 A U LA 13 M Ó D U LO 1 Assim, apesar do avanço legislativo, podemos dizer que ainda não se possuem dados estatísticos sufi cientes para fazer uma análise do impacto das ações afi rmativas do Estado, embora se possa visualizar a concentração, previsível, das matrículas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com grande predominância da atuação estadual e municipal na manutenção dessa modalidade de ensino. É necessário ressaltar que essa atuação do Estado é decorrente das reivindicações indígenas de décadas, infl uenciadas, como já vimos, pelos estudos culturais a partir da década de 1960, que ressaltavam o efeito pernicioso de uma Educação que desconsiderava as especifi cidades históricas e culturais das comunidades indígenas, além de constatar que o controle da Educação pelos colonizadores europeus foi um efi caz instrumento de dominação e de perda de identidade dos diversos povos nativos da América. Vale a pena ler o artigo de Márcio Fer- reira da Silva e Marta Maria Azevedo, intitulado "Pensando as escolas dos povos indígenas no Brasil: o movimento do Amazonas, Roraima e Acre” (SILVA, 1995). Fonte: MEC/INEP/SEEC. Tabela 13.3: Número de matrículas por dependência administrativa, segundo a região geográfi ca Matrículas por Dependência Administrativa Região Geográfi ca Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Total Federal Estadual Municipal Privada 93.037 47.232 20.141 2.755 6.336 1.432 1.432 37.090 18.614 7.453 1.674 4.378 53.697 28.190 11.049 1.081 1.938 818 428 207 20 Centro-Oeste 16.573 4.971 11.439 163 O MEC disponibili- za alguns materiais interessantes sobre Educação Indígena no endereço http: //www.mec.gov.br/ sef/indigena/ materiais.shtm Aula_13.indd 135 20/7/2004, 16:56:27 C E D E R J136 Fundamentos da Educação 3 | Implementando ações afi rmativas na Educação brasileira A POLÍTICA DE COTAS Em dezembro de 2000, o governador do Estado do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, outorgou a Lei n° 3.524, que reservava 50% das vagas das universidades estaduais para os estudantes oriundos da rede pública dessa unidade da Federação. • Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro Quase um ano depois, em novembro de 2001, a ALERJ aprovava, por unanimidade, a Lei n° 3.708, que reservava 40% das vagas das mesmas universidades para estudantes autodeclarados negros e pardos. Estava aberta a temporada de acirrados debates, que tomaram conta da mídia! As iniciativas – claramente infl uenciadas pela experiência norte- americana e pelas reivindicações do movimento negro – trouxeram a público o debate sobre o acesso à Educação, mexendo com valores entranhados na nossa sociedade, tais como: a seleção por mérito, a igualdade de concorrência, a igualdade de todos perante a lei, a ausência de racismo no Brasil etc. Da defesa veemente à condenação explícita, diferentes opiniões confrontaram-se no debate! Em relação à segunda lei, a polêmica foi mais acirrada, pois se baseava no critério racial. A oposição à legislação bradou que sua perspectiva ignorava o mérito, comprometia a qualidade do ensino, gerava fi ssuras na sociedade, era inconstitucional, pois não tratava os cidadãos como iguais. Em contrapartida, os defensores chamaram a atenção de que as desigualdades sociais, de longa duração, impediam uma disputa equilibrada, além de ressaltarem que a reação contra a lei era prova do caráter racista da sociedade brasileira, já que ninguém se mobilizava tão veementemente contra os outros exemplos de cotas. De fato, no geral, as medidas não geraram, por exemplo, grandes distorções no resultado da admissão na UERJ. A maioria dos cursos manteve um percentual semelhante de estudantes advindos da rede pública, assim como autodeclarados negros e pardos. Contudo, houve um impacto violento nos cursos de maior prestígio social – notadamente Desenho Industrial, Direito, Engenharia, Jornalismo, Medicina e Odontologia –, que se encontravam praticamente fechados aos estudantes com esse perfi l. Aula_13.indd 136 20/7/2004, 16:56:28 C E D E R J 137 A U LA 13 M Ó D U LO 1 CONCLUSÃO Embora de forma genérica, pudemos analisar nesta parada o efetivo desenvol- vimento, no Brasil, de políticas sociais compensatórias. Foi possível notar que o estabelecimento da legislação não garante a solução imediata da questão social que se procura resolver; contudo, mesmo se levantarmos os problemas gerados, é inegável que a política de ação afi rmativa promove resultados positivos. Seria possível dizer, talvez, que o maior mérito das políticas de discriminação positiva é desmascarar a discriminação surda, tocar nas feridas da nossa sociedade, gerar polêmicas que nos fazem repensar o passado, o presente e o futuro. O resultado da polêmica acabou na Justiça. Diversos candidatos impetraram mandato de segurança, garantindo seu direito de matrícula, e abriram processos contra sua não-classificação. A questão da constitucionalidade da legislação está para ser julgada no Supremo Tribunal Federal. Cabe ressaltar, entretanto, que a polêmica foi importante para o enfrentamento desse grave problema social: o do acesso das camadas mais pobres da população e dos afrodescendentes à Universidade Pública, Assim como forçou a revisão das primeiras leis, limitando o percentual da reserva de vagas a 45% em cada curso das universidades estaduais. Ciências Biológicas, Desenho Industrial, Direito, Enfermagem, Engenharia Elétrica, Engenharia Química, Informática, Jornalismo, Medicina, Nutrição e Odontologia foram os cursos que mais receberam alunos benefi ciados pelas cotas, sendo, portanto, as carreiras nas quais houve maior discrepância entre as notas dos classifi cados com e sem reserva. Conseqüentemente, foi nesses cursos que um maior número de candida- tos não ligados a nenhum sistema de reserva legal foi eliminado. Aula_13.indd 137 20/7/2004, 16:56:28 C E D E R J138 Fundamentos da Educação 3 | Implementando ações afi rmativas na Educação brasileira R E S U M O Nesta aula fi zemos um breve e genérico estudo de casos das ações afi rmativas na Educação brasileira. Selecionamos três exemplos fundamentais: o da Educação Especial, o da Educação Indígena e o da política de cotas. Identifi camosavanços, problemas e difi culdades nos três exemplos, mas ressaltamos a importância do debate gerado em torno da implementação dessas políticas afi rmativas pelo Estado. Se as ações afi rmativas não são um fi m em si mesmas, podemos dizer que são um começo... EXERCÍCIOS 1. Justifi que a ocorrência de políticas afi rmativas no contexto da Educação no Brasil. 2. Dê exemplos de políticas sociais compensatórias no contexto educacional brasileiro. 3. Identifi que refl exos positivos e negativos dessas ações afi rmativas. 4. Analise criticamente os questionamentos elaborados contra essas práticas no contexto da Educação. AUTO-AVALIAÇÃO Ao fi nal desta aula, você deve ser capaz de fazer uma breve e genérica análise das ações afi rmativas na Educação brasileira. Notadamente, deve ter interiorizado aspectos legais e fi losófi cos que envolvem a Educação Especial, a Educação Indígena e o a política de cotas; assim como deve ter dimensão dos resultados preliminares dessas ações e das polêmicas que geraram. A identifi cação de avanços, problemas e difi culdades nos três casos exemplares estudados deve contribuir para ressaltar a importância do debate gerado em torno da implementação dessas políticas afi rmativas pelo Estado. Aula_13.indd 138 20/7/2004, 16:56:29 Diário da vida escolar brasileira: na busca do ideal democrático Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Rever concepções, conceitos e noções estudados nas aulas anteriores, relacionados a exclusão, inclusão e às políticas públicas empreendidas no dia-a-dia da escola, de modo a minimizar o quadro sombrio que se apresenta na realidade brasileira. Pré-requisito • Esta aula contém uma síntese das cinco aulas que a antecedem. Você necessita reestudá-las para compreender o que vai ser revisto a seguir. ob jet ivo 14AULA Aula_14.indd 139 20/7/2004, 17:49:38 C E D E R J140 Fundamentos da Educação 3 | Diário da vida escolar brasileira: na busca do ideal democrático A democracia não é, absolutamente, a ditadura da maioria. Pelo contrário, ela pressupõe a proteção das minorias e a não-repressão de idéias que possam parecer afastar-se de padrões estabelecidos, que possam parecer absurdas (...). (MORIN, 2001, p. 32). Aqui estamos nós, prezado aluno, sentindo trepidar sobre os trilhos as rodas do trem imaginário em que fazemos esta viagem pela Terra dos Fundamentos da Educação. Nosso olhar, observando com curiosidade e interesse a paisagem que se desenha nos campos do saber, sempre encontra objetos interessantes nos quais se possa fi xar e criar situações que sirvam ao nosso aprendizado. Em nosso vagão há duas adolescentes viajando com uma tia apenas um pouco mais velha que elas. Nossa atenção curiosa não pode ignorar as interessantes conversas entre tia e sobrinhas, permeadas por uma deliciosa cumplicidade. Elas falam de tudo, inclusive fazendo comentários e muitas vezes soltando sonoras gargalhadas quando vêem, transitando por nosso vagão ou nas estações onde paramos, rapazes que lhes chamam a atenção. Mas hoje a conversa vai servir como introdução à nossa aula. É que as moças estão lendo, com a tia, trechos dos respectivos diários que cada uma das jovens mantém. Enquanto folheiam os diários, encadernados em couro e recheados de desenhos, com muitas páginas marcadas por clipes coloridos, as três comentam como é interessante manter registros regulares de coisas inte- ressantes que acontecem em suas vidas, desde as paqueras mais recentes – com “fi car” ou não – até o desabafo por escrito no diário quando acontecem insucessos nas provas do colégio. – Que engraçado – diz uma delas, rindo muito –, eu já nem me lembrava mais disso! – Isso sempre acontece comigo – diz a outra, rindo também. – Então, meninas, vejam como é importante fazer esses registros – acrescenta a tia. – Desse modo, vocês podem facilmente lembrar e rever o que se passou. É isso que acontece também quando, nos seus livros do colégio, existe um registro, no fi nal das lições ou dos capítulos, resumindo tudo em tópicos e permitindo que vocês reestudem as coisas mais importantes antes de fazerem uma avaliação. Aula_14.indd 140 20/7/2004, 17:49:49 C E D E R J 141 A U LA 14 M Ó D U LO 1 Esse é exatamente o nosso caso, caro aluno, quando construí- mos estas aulas-síntese. Ao estudá-las, lembrem-se das mocinhas e de seus diários. Vamos, então, a mais uma aula-síntese. A primeira das aulas aqui sintetizadas foi intitulada Escola: inclusão e exclusão. Que significam as palavras, “inclusão”, “exclusão”, “integração” e “necessidades especiais” em relação à escola e à educação das crianças? A aula, depois de citar um trecho da Declaração de Salamanca, nos convidou à refl exão. Faça isso novamente agora, prezado aluno, e procure lembrar-se das situações reais de exclusão envolvendo crianças e jovens que você conheça. Por que isso acontece? E o que fazer para evitar essa situação? Em seguida, acompanhando a aula, procure rever o comercial de TV ali indicado, estrelado por uma menina portadora da síndrome de Down. E medite sobre a frase “Ser diferente é normal”. Você já tinha pensado nisso? A aula prosseguiu fazendo um apanhado histórico da trajetória que vai da exclusão à segregação. Vimos aí que as sociedades têm clas- sifi cado os indivíduos, do ponto de vista da inclusão e da exclusão, nas seguintes categorias: • normais: aqueles que têm condições para se encaixar nos parâmetros coletivos; • excluídos: os destituídos dos direitos ou deveres atribuídos aos normais; • eliminados: os que são excluídos literalmente pela sociedade através da morte; • discriminados: por exemplo, os que são considerados cidadãos e os classifi cados como não-cidadãos. A aula citou exemplos na Grécia Antiga e na Idade Média, subli- nhando a questão da exclusão pela falta de acesso à Educação. Retome a aula, caro aluno, e reveja o terrível signifi cado de “estig- ma”, palavra que originariamente queria dizer “marcado a fogo”. A aula lembrou também a odiosa discriminação, perseguição e por vezes a pura eliminação dos portadores de necessidades especiais. Os então chamados “anormais” com freqüência eram considerados diabólicos, justifi cando-se, assim, sua eliminação. Aula_14.indd 141 20/7/2004, 17:49:49 C E D E R J142 Fundamentos da Educação 3 | Diário da vida escolar brasileira: na busca do ideal democrático Em seguida, a aula discorreu sobre as atitudes adotadas, sobretudo a partir do século XVII, quando se passou a promover a segregação social de indivíduos como, por exemplo, os considerados “loucos”, que eram simplesmente confi nados em manicômios ou hospitais, para que fossem mantidos afastados da sociedade dos “normais” ou “sadios”. Essa é a denominada “medicalização” ou “patologização” dos diferentes, situação que foi bastante atenuada no século XX. No campo da Educação, a aula sublinhou a mudança de atitude que ocorreu a partir dos anos 60 do século passado, com a “patologização” dos que apresentam difi culdades de aprendizagem, considerados “anormais”, “retardados”, “defi cientes mentais”, “irregulares”, “inadaptados”, “desa- justados” ou “difíceis”. Em contrapartida, surge também, nessa mesma época, a preocu- pação com a integração desse alunos. A aula assinalou a criação, no mesmo período, do que se denomi- nou “ensino especial”, sendo feita, logo depois, uma comparação como a situação de hoje, em que se pensa a integração como um processo que complementa a inclusão. Volte ao texto da aula, caro aluno, e dedique especial atenção à releitura dessa passagem, pois se trata de ponto relevante. Vale a pena rever na aula também a interessante concepção denominada “cascata”. A aula tratou, em seguida, da mudança que se observa quando, a partir de críticas à escola integradora, surge uma nova concepção: a da “escola inclusiva”, em que as escolas é que têm de se adaptar para que sejam oferecidasas melhores condições para atender à grande diversidade humana, à riqueza das diferenças. Como está a situação hoje? A aula demonstra, recorrendo sobre- tudo a Candau, que, no Brasil, continuam a prevalecer a exclusão, o preconceito e a discriminação, com a escola simplesmente refl etindo o que é válido para a sociedade como um todo. A aula terminou apontando as grandes difi culdades que se neces- sita ainda enfrentar para que se resolvam os problemas da inclusão e da integração, havendo, inclusive, os que consideram esses processos contraditórios, bem como os que acham que se trata de processos neces- sariamente complementares. Aula_14.indd 142 20/7/2004, 17:49:52 C E D E R J 143 A U LA 14 M Ó D U LO 1 A aula seguinte recebeu o título de “Mecanismos de inclusão/ exclusão – numa perspectiva da Psicologia da Educação”. Essa aula teve como objetivo principal examinar a relação professor/aluno, observando-a a partir do que acontece na escola. Inicialmente, foi analisada a relação das mulheres com a socialização de seus fi lhos, relatando-se a entrega dessa tarefa, por muitas mulheres, a pessoas e entidades a esse fi m destinadas, como, por exemplo, às escravas, na Antigüidade, e a mercenárias, nos séculos XVII e XVIII. No Brasil, isso foi praticado pelas sinhás, as mulheres da classe dominante, que entregavam o cuidado dos fi lhos – desde a amamentação, com as famosas amas-de-leite, e durante toda a criação – às escravas. Os refl exos dessa situação, como mostrou a aula, vêem-se ainda hoje, com as mães de classe média confi ando os fi lhos às babás e às empregadas domésticas. Mandonismo, egocentrismo e desrespeito por regras e nor- mas acabam por caracterizar muitas das crianças educadas desse modo. Como a escola é defi nida pela sociedade como uma instituição destinada à aprendizagem, seja de habilidades, técnicas, conhecimentos ou atitudes, isso acaba por criar, mesmo nas crianças das classes privilegiadas, limitações das vontades e direitos e o estabelecimento de obrigações. Porém, o que ilustra de forma perfeita os mecanismos de exclusão é a situação dos fi lhos das próprias babás e empregadas domésticas em geral: freqüentam uma escola pública que foi instituída e se mantém seguindo um modelo burguês, ou simplesmente fi cam fora da instituição escolar. Quando conseguem escola, acabam inadaptados e quase sempre reprovados devido à inadaptação e à falta de estímulo. De um modo ou de outro, terminam fora da escola, engrossando as estatísticas de um sistema educativo excludente. Relativamente à escola particular, a aula apontou três causas para a existência de confl itos: • alunos imbuídos de valores absurdos; • existência de graves distorções teóricas para a educação; • aviltamento sistemático do professor. Aula_14.indd 143 20/7/2004, 17:49:53 C E D E R J144 Fundamentos da Educação 3 | Diário da vida escolar brasileira: na busca do ideal democrático Tudo isso contribui para comprometer a instituição escola, enquanto os professores desses estabelecimentos, que já não são oriundos, como no passado, das camadas privilegiadas da população, sofrem com a falta de respeito, por parte dos alunos, e de prestígio e condição de autoridade, por parte do próprio sistema. A aula discorreu ainda sobre o fato de que, por circunstâncias históricas e sociais, sobretudo após o período de exceção dos governos militares, a profi ssão docente foi esvaziada, sendo rebaixado seu status, material e simbólico, o que acabou por fazer dos professores reféns dos alunos da classe média, que apostam menos na boa formação escolar e cultural do que em seus privilégios e suas relações com os controladores do sistema produtivo. Vale a pena observar o trecho em que a aula assinala que os meca- nismos de exclusão tanto agem de dentro da escola quanto de fora para dentro dos “eus” dos professores, relativamente à sua própria representa- ção como profi ssional e como pessoa. E nesse ponto demonstrou o papel indispensável da Psicologia junto à Pedagogia, ao oferecer possibilidades de estudar as condutas e de fornecer os exercícios e modos mediante os quais se pode operar sobre a dimensão psíquica dos alunos. Pare e se pergunte, prezado aluno: em que a Psicologia da Edu- cação pode ser transformada num auxílio efi caz para seu trabalho coti- diano na sala de aula? E considere como tal ajuda pode contribuir para enfraquecer os mecanismos de exclusão existentes na escola. Citando Rose, a aula assinalou o papel da Psicologia como “unifi cadora dos regimes de eus”, relativos à autonomia individual, à capacidade de escolha, de auto-responsabilidade e aos desejos de auto- realização. A aula foi encerrada apontando-se, em contrapartida, o perigo de que a Psicologia possa também ser usada como o foi no passado, ou seja, contribuindo para rotular, desqualifi car e excluir os alunos. A aula seguinte recebeu a denominação “Mecanismos e disposi- tivos de exclusão social”. Aula_14.indd 144 20/7/2004, 17:49:57 C E D E R J 145 A U LA 14 M Ó D U LO 1 Releia a interessante passagem, logo no início desta aula, em que se fez uma comparação entre as classes sociais – alta, média e baixa –, com seus respectivos direitos econômicos e sociais, e três tipos de pas- sageiros em nossa viagem de trem. Além disso, destaca-se a situação daqueles que sequer podem embarcar em viagens como a nossa: estes últimos são os excluídos, agravando-se a situação no caso de negros, indígenas, crianças, jovens e mulheres. A seguir, a aula tratou da relação entre a desmontagem dos programas de bem-estar social implementados pelos Estados e a ascensão do neoliberalismo. Tal situação levou ao declínio da classe média e à maior miséria das classes já desfavorecidas, aprofundando o fenômeno da exclusão social. A relação entre a exclusão social e a Educação foi examinada tendo em conta o papel desempenhado pela escola como instância neces- sária para a inclusão socioeconômica dos indivíduos. Seguindo com o estudo da aula, caro aluno, você recebeu informações sobre a denominada “pirâmide social”, tal como se apresenta em nosso país. Releia, na parte intitulada “Mecanismos econômicos de exclusão”, essas informações, que demonstram como se apresenta o quadro, que favorece e aprofunda, no Brasil e em países subdesenvolvidos como o nosso, a exclusão. Veja, inclusive, a análise que se faz do papel do sistema de ensino nesse processo excludente. Você teve, nesse ponto da aula, novas referências à concepção denominada “reprodutivista”, que já foi objeto de estudo em aulas anteriores de nosso curso. Volte a essas aulas para relembrar o que aprendeu sobre essa visão do papel da escola e da Educação. Em seguida, a aula examinou os denominados “mecanismos culturais de exclusão”, que agem na discriminação étnico-racial e de gênero, bem como na existência e permanência do preconceito contra as minorias sociais, como negros, indígenas, mulheres, homossexuais etc. A escola, acentuou-se nessa aula, acaba por não contemplar a diversidade cultural e refl ete a discriminação em relação às oportunida- des, que deixam de ser propiciadas às minorias sociais. Outro problema apontado na aula é o da padronização cultural imposta pela escola, homogeneizando e erradicando manifestações cul- turais das diversas etnias e dos grupos minoritários. Aula_14.indd 145 20/7/2004, 17:49:57 C E D E R J146 Fundamentos da Educação 3 | Diário da vida escolar brasileira: na busca do ideal democrático A escola privilegia um determinado grupo de pessoas, deixando de lado outros grupos que compõem o grande contingente de alunos que aumentam os índices de repetência e a evasão. Em seu encerramento, a aula reafi rmou a existência da exclusão em relação às minorias étnico-raciais, ainda retratadas de modo estereotipado nos materiais didáticos e na mídia. Ao fi nal, uma esperança: a de que a escola, se podemanter essa perversa realidade da exclusão, também pode ser posta a serviço da sua eliminação. Nesta terra de excluídos que é o Brasil, o tema da exclusão não poderia ser discutido sem todo este aprofundamento. Afi nal, como educadores, temos o dever de mudar esse quadro sombrio que assola a realidade educacional brasileira. Desse modo, revendo os seus apontamentos, próximo da idéia de um diário, como das duas meninas que fazem parte da nossa história, convidamos você para uma releitura das demais aulas, que faremos a seguir. A aula intitulada “Mecanismos e dispositivos de exclusão/inclusão” apresentou como objetivos a serem atingidos a análise dos mecanismos e dos dispositivos de exclusão social e escolar presentes na sociedade atual. Procurou, também, enfatizar os mecanismos e dispositivos de inclusão escolar a serem utilizados para que todas as crianças possam se integrar à sociedade e tenham acesso à escola. Além disso, a aula propôs uma refl exão sobre as atitudes que podem ser adotadas pelos docentes para eliminar situações de exclusão e favorecer a inclusão escolar. Observe que o tema exclusão/inclusão tem grande complexidade. Somente se for compreendido por nós, educadores, é que poderemos contri- buir para minimizar esse lado sombrio de nossa realidade educacional. É importante lembrar, como assinalou o texto da aula, que exis- te uma dimensão macroestrutural, macropolítica, que se encontra fora do âmbito da ação docente. Trata-se da dimensão político-econômica, permeada pelo processo de globalização. Com relação a esse tema, você já teve a oportunidade de estudá- lo nas aulas anteriores preocupadas com as ações, as estratégias e as políticas do Banco Mundial. Aula_14.indd 146 20/7/2004, 17:49:58 C E D E R J 147 A U LA 14 M Ó D U LO 1 Atrelando o macroestrutural ao microestrutural, pode-se perce- ber que, além de uma política de exclusão mais ampla, existem, dentro do sistema educacional brasileiro, signifi cativas ações que favorecem o processo de exclusão. Nessa aula, o que foi apresentado denota um olhar científi co sobre uma realidade que pode ser vista a olho nu: a exclusão do negro, do pobre, da mulher, do índio, do homossexual, do nordestino, dos seguidores de diferentes seitas, religiões, doutrinas, em síntese, de todos aqueles que não representam os modelos instituídos pelos donos do poder, pela burguesia. Relendo-a agora, você poderá refl etir sobre um ponto fundamental dessa aula: a questão da diferença, que, segundo o texto, signifi ca as diversas formas de ver o mundo, a vida, os costumes, os valores, uma vez que há múltiplas formas de se estar no mundo. É preciso lembrar que não existe apenas uma cultura brasileira; existem várias culturas dentro deste imenso Brasil. Cultura, defi nida em aula anterior, que signifi ca a teia de signifi cados construída pelo homem. Se desejamos banir a exclusão e favorecer a inclusão, é importante compreender as diferentes culturas, respeitá-las, sem impor nossa visão de mundo como a ideal. Cada grupo social, cada comunidade, cada escola tem suas histó- rias, suas lembranças afetivas, seu modo de pensar, de sentir e de agir, e adentrar esse mundo sem compreendê-lo seria como tentar ler os diários das nossas duas meninas. Certamente não compreenderíamos nada, ou então faríamos uma leitura distorcida e até preconceituosa, podendo chegar até rotular a personalidade de cada uma. Aprofundando-se um pouco mais no tema, a aula tratou de outro ponto importante: a inclusão dos alunos portadores de necessidades especiais, exigida pela Lei 9.394/96, que você já estudou. A aula ressaltou ainda a preocupação com o cotidiano escolar, fazendo uso da imagem de um “caleidoscópio” onde brilham as dife- renças, onde é possível comungar diferentes visões de mundo. Aula_14.indd 147 20/7/2004, 17:49:58 C E D E R J148 Fundamentos da Educação 3 | Diário da vida escolar brasileira: na busca do ideal democrático Com base no pensamento de Candau, o cotidiano foi retratado como o palco em que aparecem diferentes relações sociais, refl etindo a diversidade cultural presente na sociedade. Assim, diferentes visões de mundo, estilos de vida, crenças, costumes, cores, etnia e todos os aspectos que compõem a cultura freqüentam, diariamente, as salas de aula. Ser educador é estar preparado para tentar alterar os mecanismos de exclusão e favorecer a inclusão no espaço democrático que deve ser o da escola. A aula seguinte, e fi nal deste bloco, tratou de um tema muito amplo, contido em seu título: “Implementando Ações Afi rmativas na Educação Brasileira”. Para tanto, foram traçados os seguintes objetivos, relacionados com a inclusão, no contexto da Educação: • aprofundar a análise da ocorrência das políticas sociais compensatórias; • analisar alguns casos de ações de discriminação positiva; • compreender a importância das políticas afi rmativas; • identifi car os questionamentos surgidos acerca dessas práticas. Tendo em vista a amplitude do tema, a aula optou por destacar três importantes aspectos, os relativos à Educação Especial, à Educação Indígena e à Política de Cotas, no que se refere aos aspectos legais e fi losófi cos, assim como os resultados preliminares dessas ações e das polêmicas que geraram. A aula, fazendo uso de dados estatísticos divulgados por orga- nismos governamentais, apresentou o quadro educacional no que se refere ao tema. A Educação Especial, considerada um ramo que atravessa as dife- rentes modalidades de ensino, não sendo tratada de forma desvinculada das demais, atendendo, assim, à Lei 9.394/96, que estabelece: Art. 3º Por educação especial, modalidade da educação escolar, entende-se um processo educacional defi nido por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais espe- ciais, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos educandos que apre- sentam necessidades educacionais especiais, em todas as etapas e modalidades da educação básica. Aula_14.indd 148 20/7/2004, 17:50:07 C E D E R J 149 A U LA 14 M Ó D U LO 1 Indo além da fundamentação legal, o texto da aula apresentou a distribuição da matrícula dos alunos com necessidades especiais por rede de ensino, tendo por base o censo escolar. Os dados apresentados demonstram o avanço quantitativo dessa inserção dos estudantes portadores de necessidades especiais nas redes de ensino regular do país, embora na rede federal se registre um decrés- cimo das matrículas. A aula apresentou, também, dados estatísticos relativos à evolução da matrícula de alunos com necessidades especiais por tipo de defi ciência, demonstrando que há difi culdades de efetivar uma política de inclusão na educação especial, que exige, paralelamente, um grande investimento na capacitação docente, já que a formação de professores não contempla, generalizadamente, essa demanda crescente. Com relação à Educação Indígena, a aula abordou tanto os aspectos legais contidos na Constituição Federal quanto na LDBEN. Esta dispõe, em seu artigo 79: O Sistema de Ensino da União, com a colaboração das agências federais de fomento à cultura e de assistência aos índios, desenvol- verá programas integrados de ensino e pesquisas, para oferta de Educação escolar bilíngüe e intercultural aos povos indígenas, com os seguintes objetivos: I – proporcionar aos índios, suas comunidades e povos, a recupera- ção de suas memórias históricas; a reafi rmação de suas identidades étnicas; a valorização de suas línguas e ciências; II – garantir aos índios, suas comunidades e povos, o acesso às informações, conhecimentos técnicos e científi cos da sociedade nacional e demais sociedades indígenas e não-índias. Como no item relativoà Educação Especial, a aula apresentou o censo escolar indígena, tecendo comentários importantes sobre como vem sendo tratado. Aula_14.indd 149 20/7/2004, 17:50:07 C E D E R J150 Fundamentos da Educação 3 | Diário da vida escolar brasileira: na busca do ideal democrático Por último, a aula apresentou esclarecimentos sobre a política de cotas proposta pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da Lei n° 3.524, que reserva 50% das vagas das universidades estaduais para os estudantes oriundos da rede pública dessa unidade da Federação. Este é um assunto confl itante e polêmico que merece um questionamento aprofundado. Aproveite e discuta-o em sua sala de aula. Esperamos que, com o auxílio desta aula, você tenha compreendido a ocorrência de políticas afi rmativas no contexto da Educação brasileira, sendo agora capaz de analisar essas políticas e de observar os refl exos posi- tivos e negativos de cada uma dessas ações, tornando-se, portanto, apto a fazer uma análise criteriosa de todas essas práticas. Vamos, então, embarcar em nosso trem para prosseguir nesta viagem imaginária pela Terra dos Fundamentos da Educação. Aula_14.indd 150 20/7/2004, 17:50:08 Espaço-tempo de avaliar os saberes 15AULA Aula_15.indd 151 20/7/2004, 16:58:20 C E D E R J152 Fundamentos da Educação 3 | Espaço-tempo de avaliar os saberes Sabeis o temperamento de Querofonte, quão tenaz nos seus empre- endimentos. Ora, certa vez, indo a Delfos, arriscou esta consulta ao oráculo – repito, senhores; não vos amotineis – ele perguntou se havia alguém mais sábio do que eu; respondeu a sacerdotisa que não havia ninguém mais sábio (...) Ao retirar-me, ia concluindo de mim para comigo: Mais sábio do que esse homem eu sou; é bem provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, também suponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio que ele exatamente em não supor que saiba o que não sei (PLATÃO. Defesa de Sócrates. In: Os pensadores – Sócrates. São Paulo: Abril, 1980, p. 9). Como você sabe, prezado aluno, nos últimos dois dias não temos podido contemplar a beleza da paisagem nesta nossa viagem imaginária pela Terra dos Fundamentos da Educação. Os campos verdejantes e o céu azul têm dado lugar ao cinzento da chuva inclemente, que transforma os pequenos riachos num curso volumoso de água e os grandes rios numa impressionante quantidade de água barrenta. Quando nosso trem foi entrando na cidade, pudemos ver os estragos causados pela chuva intensa: ruas alagadas, muros derrubados e até construções existentes nas encostas ameaçadas e interditadas. Ao chegarmos a esta grande estação, onde faremos nova para- da mais demorada, nossa atenção foi despertada pelo estado da gare. Grande parte do imenso galpão foi destelhada e, num dos cantos, oposto à sala de avaliação, a água invadiu o depósito, estragan- do quase toda a grande quantidade de mercadorias ali armaze- nadas, constituída de sacos e mais sacos de cereais. Vamos ouvir um pouco o diálogo travado entre o chefe da estação, um outro homem com o uniforme da companhia e um senhor de terno e gravata: – Mas nós já fi zemos várias reclamações com relação ao estado da estação – diz o chefe da estação. Depois que insistimos muito, vieram aqui fazer a avaliação das condições e nos disseram que haveria necessidade apenas de pequenos reparos. Você já aprendeu em outra aula que gare é outro nome para estação de estrada de ferro. Aula_15.indd 152 20/7/2004, 16:58:24 C E D E R J 153 A U LA 15 M Ó D U LO 1 – Acontece que essas avaliações foram feitas por uma comissão da qual participaram seus próprios funcionários – falou o outro homem uni- formizado, que tudo indicava ser um funcionário da administração central da companhia ferroviária. – Se a avaliação foi malfeita, é outra história... – Malfeita nada – respondeu o chefe da estação. O pessoal da comissão fez um relatório completo, indicando tudo o que necessitava ser consertado e substituído, como as vigas de sustentação da cobertu- ra, por exemplo. Só que, com toda aquela burocracia, as obras nunca foram começadas... – ...porque a coisa fi cou enrolada lá na Prefeitura, com a tal autorização para as obras – interrompeu o funcionário da administração central. – Não foi bem assim – disse o homem de terno, funcionário da Secretaria de Obras da cidade. – Nós despachamos logo o processo. Acontece que, quando avaliamos o que precisava ser feito, vimos uma porção de falhas do projeto de reforma, inclusive aquele problema da parte elétri- ca. Mandamos o processo de volta para a compa- nhia e até hoje ele não voltou para que a gente possa fazer nova avaliação e providenciar a autorização. – Não concordo – disse o chefe da estação. – O relatório de avaliação foi muito bem-feito. Quem não soube avaliar foram os funcionários da Divisão de Obras da Prefeitura... Bem, pelo visto essa discussão vai demo- rar muito. Ainda mais agora, que chegou outro homem dizendo ser o representante da companhia de seguros. Mas a conversa já nos auxiliou bastante, ajudando a nos aproximar, mais uma vez, do tema desta nova aula. Você reparou que, no diálogo acima, foi mencionada várias vezes a palavra “avaliação”. Tudo indica que esse processo de avaliação foi malfeito, da parte de todos os setores envolvidos na discussão: a adminis- tração da estação, a companhia e a Prefeitura. E o que é pior: a avaliação também não levou a efetivas providências, isto é, acabou não servindo para nada, não ajudou, somente atrapalhou, fazendo com que a chuva chegasse antes e fi zesse todo esse estrago. Aula_15.indd 153 20/7/2004, 16:58:35 C E D E R J154 Fundamentos da Educação 3 | Espaço-tempo de avaliar os saberes Nessa estação, você irá mais uma vez até a sala de avaliação. Lembre-se de que a avaliação é não somente parte integrante, mas uma das fases mais importantes do processo de ensino-aprendizagem. Com ela, você pode saber o que de fato aprendeu e em que momentos não assimilou muito bem os conhecimentos; os professores podem verifi car o porquê desses problemas de aprendizagem e, se for o caso, mudar o método de ensino ou alterar passagens do conteúdo, introduzir infor- mações mais esclarecedoras ou adotar novas formas de abordagem dos temas. Em suma, a partir da avaliação haverá melhores condições de seguir, com mais efi ciência, segurança e proveito, esta nossa viagem pela Terra dos Fundamentos da Educação. Vamos agora apresentar as questões preparadas para esta ava- liação. I. Questão: Explique a) A importância das políticas afi rmativas nos contextos sociais de exclusão. b) Os espaços educativos não-formais. c) A Educação Especial entendida como uma ação afi rmativa. d) A importância da Constituição de 1988 para a profi ssionalização docente. e) Os conceitos de exclusão e segregação social e escolar. f) As principais razões do processo de exclusão social na realidade brasileira. g) Como a escola ajuda na manutenção da condição de exclusão em nossa sociedade. II. Questão: Responda a) Na sua opinião, a escola vem realizando os ajustes necessários à inclusão de alunos provenientes das camadas economicamente mais desfavorecidas da população? b) A demolição do trabalho docente, com a erosão do prestígio social do professor, benefi cia a quem ou a que grupos sociais? c) Quais as características da escola integradora e da escola inclusiva e quais as principais diferenças entre elas? d) Como a escola vem realizando os ajustes necessários à inclusão de alunos provenientes das camadas mais economicamente desfavorecidas da população? Aula_15.indd 154 20/7/2004, 16:58:42 C E D E R J 155 A U LA 15 M Ó D U LO 1 e) Por que, numa concepção inclusiva, afi rmamos que “todos os alunos têm necessidades especiais”? Comente o que tem a ver essa afi rmação com a questão das diferençasculturais. f) Qual a relação entre a Pedagogia de Paulo Freire e a exclusão social? III. Questão: Justifi que as afi rmativas a) “Tanto a educação quanto a cultura em geral estão envolvidas em processos de transformação da identidade e da subjetividade”. (SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade; uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999, p.139). b) A história das ações afi rmativas está relacionada aos movimen- tos sociais da década de 1960 nos Estados Unidos. c) A proposta de ações afi rmativas, além de estar associada aos movimentos sociais da década de 1960, está, teoricamente, vinculada aos estudos culturais. d) A proposta de uma Educação Indígena pode ser entendida como uma política de afi rmação de identidade. IV. Questão: Caracterize a) A escola na Colônia e Império brasileiros, relacionando-a ao processo de exclusão social. b) Os anos 90 no que diz respeito a mudanças e permanências na Educação brasileira. c) O livro didático em três aspectos básicos. d) A importância dos anos 20 e 30 para a formação de professores no Brasil. V. Questão: Cite a) DOIS elementos de permanência em nossa Educação atual oriundos da educação jesuítica. b) Diferentes ações, governamentais ou não, que podem ser reco- nhecidas como política afi rmativa. c) DOIS argumentos favoráveis e DOIS desfavoráveis à política de cotas, posicionando-se criticamente em relação a eles. d) Um dos principais problemas do uso do livro didático em sala de aula pelo professor. Aula_15.indd 155 20/7/2004, 16:58:43 C E D E R J156 Fundamentos da Educação 3 | Espaço-tempo de avaliar os saberes VI. Comente quais os grupos tradicionalmente excluídos na sociedade brasileira. Analise situações de exclusão que você tenha vivido e/ou presenciado. Esperamos, caro aluno, que, mais uma vez, a parada nesta estação especial onde você pôde participar de uma avaliação o tenha benefi cia- do, permitindo o exame de suas dúvidas e o dimensionamento de suas incertezas. Para isso serve, exatamente, o processo de avaliação. Enquanto o trem vai deixando a plataforma, conduzindo-nos na seqüência de nossa viagem imaginária pela Terra dos Fundamentos da Educação, torçamos para que esta bela cidade se recupere dos estragos causados pela chuva. E tomara que, daqui para a frente, só encontremos belas paisagens e um sol radioso em nosso caminho! Aula_15.indd 156 20/7/2004, 16:58:43 Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Analisar a formação e a ação do educador na sociedade atual. • Esclarecer a atitude do educador diante das novas possibilidades educativas surgidas com os avanços tecnológicos. • Estudar a relação essencial entre teoria e prática, na formação e na ação do educador. • Analisar o papel político-social do educador diante da atual conjuntura socioeconômica. • Esclarecer o papel do educador no estabelecimento de uma refl exão sobre os valores éticos. O educador: formação e ação ob jet ivo s 16AULA Aula_16.indd 7 10/29/2004, 1:53:57 PM C E D E R J8 Fundamentos da Educação 3 | O educador: formação e ação A formação de educadores está passando por um momento de revisão substantiva e de crise em nosso país. Muitos são os motivos que provocaram esta situação. (...) o questionamento do próprio papel exercido pela educação na sociedade, a falta de clareza sobre a função do educador e a problemática relativa à redefi nição do Curso de Pedagogia nas licenciaturas em geral (CANDAU, 2002, p. 49). Têm sido freqüentes afi rmações de que a profi ssão de professor está fora de moda, de que ela perdeu seu lugar numa sociedade repleta de meios de comunicação e informação. Muitos pais já admitem que melhor escola é a que ensina por meio de computadores. (...) Desse modo, não haveria mais lugar para a escola e para os professores. (...) Será assim? (...) Ao contrário, pois, do que alguns pensam, existe lugar para a escola na sociedade tecnológica e da informação, porque ela tem um papel que nenhuma outra instância cumpre. É verdade que essa escola precisa ser repensada (LIBÂNEO, 2002, pp. 25-6). Caro companheiro de viagem pela “Terra dos Fundamentos da Educação”, chegamos a uma estação de grande importância para o seu futuro profi ssional. A partir de agora, vamos analisar o papel do professor: sua importância social, seu processo de formação e as características de sua prática na sala de aula. Em resumo, tentaremos analisar como deve desenvolver-se sua tarefa profi ssional. Você terá a oportunidade de refl etir sobre sua própria formação e prática profi ssional. É importante que você analise como foi sua preparação para tornar-se docente. Você está satisfeito com o que aprendeu? Acha que a formação deveria ser diferente, na atualidade? Também esta é uma oportunidade para refletir de que forma está se desenvolvendo seu trabalho profi ssional, como você está agindo em sala de aula e fora dela; enfi m, em tudo que compete à vida de um professor. Aliás, você pode perguntar-se: que tipo de professor eu sou? Como está sendo meu desempenho? Estou acompanhando as mudanças atuais da sociedade e as novas necessidades que surgem na escola ou me mantenho aferrado a um comportamento tradicional? Caro aluno, para tentar esclarecer essas diversas questões que surgem em relação à da profi ssão docente, iniciamos nossa análise aludindo a dois autores que estão pensando a situação do professor na atualidade: Candau e Libâneo. INTRODUÇÃO Como está sendo a formação do professor nos nossos dias? O educador acompanha as mudanças da sociedade e o avanço do conhecimento e das tecnologias? Qual a prática do docente atual? Qual sua atitude na sala de aula, diante dos novos desafi os da vida contemporânea? Aula_16.indd 8 10/29/2004, 1:54:00 PM C E D E R J 9 A U LA 16 Nos dois primeiros parágrafos desta introdução, ambos os autores assinalam a existência de uma crise da profi ssão docente. Candau afi rma que está sendo repensado o lugar do professor e o “próprio papel exercido pela educação na sociedade”; assinala que vivemos uma época em que está sendo profundamente discutida a função desempenhada pelo educador e pela educação na sociedade. Já Libâneo alude à infl uência que têm os grandes avanços tecnológicos na sociedade atual. Esses avanços que revolucionam a transmissão da informação, com especial destaque para o uso de computadores, já se tornaram fundamentais para os alunos. Cabe perguntar se essas tecnologias poderiam colocar em xeque uma função tão tradicional como a do professor. O autor levanta diversas questões: discute se numa sociedade de informação haveria ainda lugar para o docente. O ensino em sala de aula não seria uma modalidade antiquada, ultrapassada? Libâneo responde que a função docente ainda é primordial para o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade, porém precisa se adaptar aos novos tempos, precisa ser reformulada. As primeiras considerações que podemos tecer a partir dos comentários de Candau e Libâneo são que a profi ssão docente, assim como a sociedade em geral, está vivendo uma profunda crise e precisa de mudanças urgentes. A docência é uma atividade milenar; gerações após gerações transmitiram, com bastante estabilidade, técnicas de ensino-aprendizagem, visões de mundo, valores, atitudes e práticas. Essa estabilidade hoje não é mais possível, já que a maioria dos conceitos, atitudes e valores está sendo revista. Então, é importante esclarecer: quais seriam as principais causas dessas transformações? 1. A revolução tecnológica, principalmente as formas de comunicação virtual, que mudam totalmente o modo de lidar com o conhecimento. 2. A globalização, a internacionalização dos mercados, o domínio universal dos capitais, que submete, cada vez mais, os denominados países subdesenvolvidos. A revolução tecnológica e o domínio universal dos mercados, na época da globalização,têm profundos impactos em toda a sociedade e infl uenciam marcadamente a escola. Isso traz a exigência de reciclar a educação, transformar as atividades docentes e a instituição escolar como um todo. Em outras palavras, será necessário formar um novo docente e uma nova escola, adequados à realidade atual. As novas tecnologias e a globalizacão, entre outros fatores, mudaram a sociedade e também a criação e transmissão do conhecimento. A formação do educador e a instituição escolar estão acompanhando essas mudanças? Aula_16.indd 9 10/29/2004, 1:54:00 PM C E D E R J10 Fundamentos da Educação 3 | O educador: formação e ação Caro docente, neste novo milênio, cheio de mudanças sociais, políticas, econômicas etc., o educador deve se perguntar: como devo agir? Diante desse quadro social e educacional inédito, o educador e os que formam os educadores devem esclarecer as coisas que devem ser repensadas e reformuladas na prática de ensino. Para tentar achar uma resposta, indicamos alguns pontos fundamentais: 1. A relação do docente com as novas técnicas. 2. A importância de o docente dominar, cada vez mais, bases teórico-científi cas, articulando-as com as práticas concretas do ensino. 3. A tomada de consciência por parte do docente, de sua importância como profi ssional crítico, ciente do seu papel político-social, diante do quadro neoliberal atual. 4. A capacidade de o docente conviver com as diversidades, com os múltiplos segmentos sociais que freqüentam a escola, numa prática de tolerância, fomentando práticas democráticas de inclusão social e escolar e de recolocar em destaque valores fundamentais como justiça, solidariedade e respeito aos direitos humanos. Caro colega de viagem, a seguir vamos tentar aprofundar quatro pontos para esclarecer qual seria o novo status do professor na atualidade. É importante que você refl ita sobre qual tem sido a sua atitude diante dessas questões, em sua prática na sala de aula. Você tem acompanhado as mudanças na sociedade e no ensino ou tem mantido uma conduta tradicional apegada a antigas formas de educar? DOCÊNCIA E NOVAS TÉCNICAS Pensar que as novas tecnologias que facilitam o conhecimento se opõem à prática da docência é uma postura muito simplista, bastante superficial, até se poderia dizer preconceituosa. Algumas pessoas, principalmente as vinculadas a práticas de ensino mais tradicional, parecem acreditar que haveria uma contradição: Ensino tecnológico vs. Ensino tradicional. Nesse sentido, Libâneo levanta questões instigantes: Aula_16.indd 10 10/29/2004, 1:54:00 PM C E D E R J 11 A U LA 16 As questões de aprendizagem seriam resolvidas com a tecnologização do ensino. (...) Numa sociedade sem escolas, os jovens aprenderiam em Centros de Informação por meio das novas tecnologias como televisão, vídeo, computadores. Será assim? Terá chegado o tempo em que não serão mais necessários os professores? (2002, p. 13). O autor vai ser enfático na sua resposta: as tecnologias chegaram, estão aí, fazem parte do nosso dia-a-dia, são fundamentais para a pesquisa e o ensino, não é possível prescindir desses recursos. Porém, estamos longe de assistir ao “ocaso” dos professores e da escola. Ao contrário, a escola e os docentes devem preparar-se para usufruir desses novos meios, num papel mais crítico e refl exivo: A escola precisa deixar de ser meramente uma agência transmissora de informação e transformar-se num lugar de análises críticas e produção de informação, onde o conhecimento possibilita a atribuição de signifi cado à informação. Nessa escola, os alunos aprendem a buscar a informação (nas aulas, no livro didático, na TV, no rádio, no jornal, nos vídeos, no computador etc.), e os elementos cognitivos para analisá-la criticamente e darem a ela um signifi cado pessoal. (...) Trata-se, assim, de capacitar os alunos a selecionar informações mas, principalmente, a internalizar instrumentos cognitivos (saber pensar de modo refl exivo) para aceder ao conhecimento. A escola fará, assim, uma síntese entre a cultura formal (dos conhecimentos sistematizados) e a cultura experienciada (LIBÂNEO, 2002, pp. 26-27). Conforme aponta Libâneo, o uso de meios tecnológicos (vídeo, computador) e tradicionais (livro didático, aulas) permitirá ao docente estimular a capacidade crítica dos discentes. Não se trata de uma oposição, mas de uma complementação. As técnicas não cercearão, mas ajudarão o conhecimento. O novo educador, por sua vez, longe de estar acuado diante da tecnologia, fará dela um instrumento fundamental de pesquisa e ensino: suas aulas serão mais ricas e instigantes! O fato de contar com instrumentos que não existiam na escola tradicional permitirá facilitar a transmissão do conhecimento, abrindo espaço maior para a tarefa criativa. Ao não despender tanta energia na captação dos saberes, professores e alunos terão mais tempo para refl etir sobre esses saberes, gerando, assim, novos conhecimentos. ! Os novos recursos tecno- lógicos (vídeo, compu- tador etc.) se torna- ram um auxílio precioso para o educador atual. A utilização desse instru- mental, longe de tor- nar supérfl ua a tarefa do docente, colabora decisivamente para o ensino. Esses meios fa- cilitam a transmissão do conhecimento, possibi- litando a criação de no- vos saberes? Aula_16.indd 11 10/29/2004, 1:54:00 PM C E D E R J12 Fundamentos da Educação 3 | O educador: formação e ação DOCÊNCIA: TEORIA E PRÁTICA A teoria e a prática educativa, neste enfoque, são consideradas o núcleo articulador da formação do educador, na medida em que os dois pólos devem ser trabalhados simultaneamente, constituindo uma unidade indissolúvel (CANDAU e LELIS, apud CANDAU 2002, p. 67). No item anterior, caro companheiro de viagem, mostramos que o docente não deve sentir seu trabalho “ameaçado” pela tecnologia; ao contrário, ela se torna um instrumento para aprimorar sua tarefa docente. Seguindo as refl exões de Libâneo, constatamos que o professor deve estimular a criação de conhecimento, deve ajudar na refl exão. Assim, chegamos a uma das questões mais polêmicas que envolvem a profi ssão docente. Em alguns posicionamentos, o docente é considerado basicamente um profi ssional da prática, um trabalhador que se limita a divulgar ou difundir conhecimentos já pré-formados. Por isso, ele não deveria se envolver em tarefas de pesquisa ou em teorizações abstratas. Destinado a agir na sala de aula, ele deveria, nesse espaço concreto, transmitir conceitos, atitudes e condutas, previamente elaboradas. Ele não poderia dar-se ao luxo de especulações nem de divagações conceituais. Candau e Lelis denunciam que esse posicionamento surge de um velho preconceito que separa a teoria da prática, no exercício da docência. Para elas, há uma unidade indissolúvel entre a produção do conhecimento e a prática educativa. Quais são os motivos da existência dessa dicotomia? As causas são diversas. Uma delas é a vinculação da docência a tarefas “femininas”, maternais, uma espécie de prolongamento das atividades domésticas, que principalmente no ensino das primeiras séries seria exclusiva das mulheres. “De longa data, o magistério, sobretudo o primário, vem fazendo apelo ao contingente feminino. Bastante compatível com a natureza das funções femininas, tais como valorizadas em nossa sociedade ocidental” (LUDKE, apud CANDAU, 2002, p. 81). Assim, o magistério das primeiras séries foi atribuído às mulheres, invocando condições femininas e maternais, que prescindiam de uma sólida formação, mas da “natureza feminil”, com o intuito de desvalorizar a profi ssão e, portanto, pagar pouco: FEMINILIZAÇÃO DO ENSINO Postura que considera o ensino, particularmente dos anos iniciais, próprio das mulheres devido às suas condições ou dons maternais. Ver Aula 17 de Fundamentos 3. Aula_16.indd 12 10/29/2004, 1:54:05 PM C E D ER J 13 A U LA 16 não se podia exortar as professoras a serem ignorantes, mas se podia dizer que o saber não era tudo nem o principal. Exaltar qualidades como abnegação, dedicação, altruísmo e espírito de sacrifício e pagar pouco: não foi por coincidência que este discurso foi dirigido às mulheres (CATANI, 1997, pp. 28-29). De longa data, a desvalorização da docência, identifi cando-a a atividades maternais, domésticas, espontâneas, “naturais” na mulher, levou a aprofundar esse suposto abismo que haveria entre a prática docente – principalmente das primeiras séries – e a teoria. Para ensinar não era necessário formação, pesquisa, apenas deveriam possuir “dons” femininos. Porém, a redução da atividade docente a uma simples prática sem elaboração teórica também atinge os homens, num processo mais amplo de desvalorização da profi ssão. No Brasil, particularmente, na sua situação dependente não só na economia, mas também na produção científi ca, é negado o papel de criar o conhecimento. Os educadores não poderiam ser cientistas nem pesquisadores, apenas divulgadores de um conhecimento já construído pelos grandes centros, como Estados Unidos e Europa. Como deveria agir o professor? Divulgando, transmitindo saberes já cristalizados; nunca poderia ousar criar. Por isso, a docência seria apenas uma tarefa pragmática, repetitiva do já conhecido. Linhares denuncia essa situação: No Brasil, os movimentos de professores estão em estado de alerta com as profundas alterações que estão sendo impostas, tendendo a reduzir a formação de professores a um tipo de processo pragmático, distanciado das pesquisas e da produção teórica (LINHARES e LEAL, 2002, p. 114). Tanto a feminilização do ensino, que reduz a docência a um “dom” feminino sem muita elaboração teórica, como a sua redução a uma função pragmática, negam que a docência deve articular a teoria com a prática. Ensinar é um fazer, mas que implica um conhecer criativo. O professor(a) não pode limitar-se à reprodução do já sabido, do já consolidado. ! Teoria e prática são duas condições indispensáveis, e inseparáveis, para o exercício da pro- fi ssão docente. Aula_16.indd 13 10/29/2004, 1:54:06 PM C E D E R J14 Fundamentos da Educação 3 | O educador: formação e ação O docente tem a missão de transmitir e de criar o conhecimento: (...) dependemos de nossa capacidade de interlocução com os mais variados tipos de conhecimento para projetar os processos de aprendizagem e ensino escolares e, particularmente, de formação de professores à altura dos desafi os atuais (ibidem, p. 118). O PAPEL SOCIAL E POLÍTICO DO DOCENTE DIANTE DA GLOBALIZAÇÃO E DAS POLÍTICAS DE MERCADO (...) o novo educador é aquele que reconhece o seu papel político, a dimensão política da educação, e a interioriza como profi ssional e como sujeito, refl etindo-a através da sua práxis (PAULO apud CANDAU, p. 103). O educador atual, além do seu conhecimento e utilização das novas tecnologias, além de reconhecer que a docência implica a união indissociável de teoria e prática, deve ter consciência de seu papel social nas novas relações institucionais, nas novas estruturas de poder vigentes. O fenômeno mundial de globalização impõe exclusão, marginalização de povos e grupos. No Brasil, particularmente, a dependência das políticas impostas pelos centros hegemônicos levam ao sucateamento, à desvalorização da docência: (...) o sucateamento das escolas tem componentes pouco mencionados que passam pelo engessamento do educativo, no espaço escolar, que acabaram trancando a pedagogia num quartinho dos fundos, onde pouco se cogita a construção de conhecimentos (LINHARES, 2002, p. 118). Nossas escolas são afetadas pelas políticas internacionais: há um sucateamento das escolas, uma precarização do seu funcionamento, um aviltamento das condições dos professores; resultam gritantes os baixíssimos salários, as péssimas condições de trabalho, a falta de todo tipo de materiais, até os indispensáveis, como giz, apagadores etc. INCLUSÃO SOCIAL E ESCOLAR O novo educador deve fomentar a inclusão social e escolar de todos os alunos, com suas diversidades e necessidades peculiares. Para esclarecer este ponto, sugerimos rever as Aulas 9 a 14 de Fundamentos 3. ! O educador deve ser crítico e ter clara consciência do seu papel social e político, ao lidar com as novas gerações. Aula_16.indd 14 10/29/2004, 1:54:12 PM C E D E R J 15 A U LA 16 O novo educador deve, então, ter consciência crítica dessa situação, analisá-la, comentá-la e tentar fomentar as novas práticas democráticas, mesmo em condições precárias. Ele é responsável em formar uma consciência crítica, nas novas gerações, permitindo que esse panorama econômico-social possa ser alterado. O novo professor deve estar comprometido com idéias de liberdade e emancipação, não com a manutenção do estado atual, em que alunos e professores vivem, estudam, trabalham em condições muito desfavoráveis: O professor tem que estar em condições de poder sempre se atualizar e, ao mesmo tempo, saber acompanhar a trama dinâmica da vida social (...) para formar estudantes e professores comprometidos com ideais emancipadores (LEAL apud LINHARES e LEAL, p. 153). DOCÊNCIA, DIVERSIDADE E PRÁTICAS DEMOCRÁTICAS Finalmente, o novo docente, que emprega adequadamente as novas tecnologias, que conjuga teoria e prática e tem consciência do seu papel social, também deve procurar acolher todos os alunos, com suas singularidades, com suas peculiaridades, assim como fomentar, na escola, todas as práticas democráticas. Em outras palavras, o novo educador terá competências teórico-práticas, consciência social, assim como deverá cultuar valores que favoreçam a inclusão social e o espírito democrático. Nessa época crítica, a humanidade parece ter perdido o rumo, parece carecer de valores e parâmetros. O educador, justamente, tem uma função ética fundamental: (...) diante da crise de princípios e valores, resultante da deifi cação do mercado e da tecnologia, do pragmatismo moral ou relativismo ético, é preciso que a escola contribua para uma nova postura ético-valorativa de recolocar valores fundamentais como a justiça, a solidariedade, a honestidade, o reconhecimento da diversidade e da diferença, o respeito à vida e aos direitos humanos básicos, como suportes de convivência democrática (LIBÂNEO, 2002, pp. 8-9). Aula_16.indd 15 10/29/2004, 1:54:13 PM C E D E R J16 Fundamentos da Educação 3 | O educador: formação e ação Libâneo assinala que vivemos no PRAGMATISMO MORAL ou RELATIVISMO ÉTICO. O que isso signifi ca? Signifi ca que, numa época modelada pelo mercado, pela deifi cação do lucro, o que interessa é o prático. Pragmático é aquele que só visa a sua utilidade, em geral está motivado pelo ganho material. E o relativismo ético significa que, além desse desejo de vantagens e ganhos individuais, todos os valores e convicções parecem ser relativos, determinados pelas diversas circunstâncias e/ou conveniências. Assim, o valor da sinceridade ou honestidade subordina-se, para quem quer ter sempre o maior lucro, a poder ser sacrifi cado, dependendo da ocasião, e do negócio a ser concretizado. Por isso, a sinceridade é um valor relativo. Que quer dizer isso? Que nossos valores estão muito confusos, que são muito fracos, que podem ser trocados de um momento para outro. Mas o novo docente não se pode render a essa lógica egoísta, individualista, anti-social, que provém da distorção que coloca o mercado e o lucro como os “totens da tribo” (isto é, como falsas divindades). Como assinala Libâneo, há outros valores: solidariedade, honestidade, respeito à vida. Ele também frisa o respeito que se deve ter à diversidade e à diferença. O novo educador deverá, numa sociedade cujos valores fraquejam, refl etir sobre a ética social e sobre os comportamentos na escola.Para além do individualismo do mercado global, o professor pode refl etir com seus alunos sobre a importância de estabelecer relações solidárias e cooperativas. O educador pode assinalar a possibilidade de construir coletivamente o conhecimento, assim como pensar numa sociedade com práticas democráticas. O papel ético do educador é fundamental. Ele pode destacar a importância de uma sociedade plural e inclusiva, que convoque ao diálogo aberto com todos os alunos. Numa sociedade múltipla, como a brasileira, convivem negros, brancos, favelados e ricos, gordos e magros, saudáveis e portadores de necessidades especiais etc. É preciso, como assinalamos acima, incluir todos. Como destaca Linhares: Importa destacar que esse movimento de enlaçar escola e vida tem sido realizado como um esforço pela includência de todas e todos no espaço escolar, implicando uma maior abertura para os portadores de direitos especiais, como o são os surdos, os mudos, os defi cientes mentais, motores, visuais etc. (LINHARES, 2002, pp. 120-121). PRÁTICAS ÉTICAS, DEMOCRÁTICAS E INCLUSIVAS O novo professor deve refl etir sobre valores como solidariedade, cooperação etc., sobre ações democráticas e inclusivas, que convoquem todos os alunos. Sobre práticas e mecanismos de inclusão, como já assinalamos, veja Aulas 9 a 14 de Fundamentos 3. PRAGMATISMO MORAL Postura que reconhece como moral ou valioso apenas aquilo que traz alguma utilidade ou benefício prático. RELATIVISMO ÉTICO Postura que considera que não há valores universais, não há uma ética geral. Os critérios éticos mudam nas diversas sociedades, grupos e indivíduos; às vezes, um mesmo indivíduo muda de valores conforme suas necessidades e sua conveniência; assim, a sua ética é relativa à sua situação e interesse pontual. Aula_16.indd 16 10/29/2004, 1:54:13 PM C E D E R J 17 A U LA 16 A tarefa de incluir os diferentes consiste na capacidade de tolerar até os que pensam e sentem diferentemente de nós, até aqueles que não concordam com nossos valores. O novo docente deverá equacionar, através do diálogo, da discussão aberta e criteriosa, esses confl itos. Caro colega de viagem, acabamos de realizar um importante percurso no fascinante mundo da formação do novo profi ssional. Diante do panorama atual da nossa sociedade, em que a tecnologia transforma todo o campo de conhecimento, em que o domínio global dos mercados é categórico, em que os valores tradicionais estão em crise, é preciso pensar na formação de um novo profi ssional. Nesta aula, apresentamos alguns traços, alguns esboços desse profi ssional que está sendo redesenhado. Você, como educador, é um dos protagonistas dessa nova fi gura, desse novo papel, dessa nova função. R E S U M O A formação do educador no panorama da sociedade atual, em que os avanços tecnológicos revolucionam o conhecimento e os processos econômicos globais infl uenciam todas as atividades sociais, incluindo a escola. Refl etimos sobre o papel do novo docente: como deve lidar com as tecnologias, assim como pode articular a teoria com a prática. Esclarecemos a função social e política do professor e sua importância para refl etir sobre os valores da sociedade. Analisamos seu papel relevante para estimular o diálogo entre os diversos alunos, fomentando práticas inclusivas e a troca democrática. Destacamos que o professor deve estimular valores como solidariedade, cooperação, gerando um clima de integração na sala de aula. Assinalamos, fi nalmente, que os currículos atuais de Pedagogia ainda não se atualizaram totalmente para permitir o surgimento do novo educador, sendo esse uma tarefa que se encontra em construção. Aula_16.indd 17 10/29/2004, 1:54:14 PM C E D E R J18 Fundamentos da Educação 3 | O educador: formação e ação AUTO–AVALIAÇÃO Você entendeu as características do novo educador, sugeridas nesta aula? Você compreendeu a importância da tecnologia para a atividade escolar? Você enxerga a relação essencial entre teoria e prática na formação do docente? Conseguiu assimilar a importância que o professor tem para refl etir sobre os valores da sociedade e para estimular práticas inclusivas e democráticas? Você percebe a importância que tem o docente para formar uma consciência de cidadania dos alunos, para o entendimento do papel social e político da escola? Caro aluno, se você respondeu positivamente a estas questões, vá em frente. Caso contrário, releia novamente esta aula, ou consulte seu tutor no pólo. EXERCÍCIOS 1. Refl ita sobre o uso de novas tecnologias na sua escola (vídeo, computador etc.). Você acha importante o emprego desses instrumentos? Pensa que contribuíram para melhorar a compreensão dos temas estudados? 2. Você acha que o professor deve dominar tanto a teoria quanto a prática? Que tipo de profi ssional é você: pesquisa em livros, internet etc. ou acha mais importante refl etir e aprimorar sua técnica para dar corretamente suas aulas? 3. Na sua escola, você discute valores, analisa a situação social, debate as práticas democráticas? Você entende o signifi cado da noção de inclusão escolar? Você adota práticas inclusivas nas suas aulas? Encaminhe suas respostas a seu tutor, no pólo. Aula_16.indd 18 10/29/2004, 1:54:14 PM Para esta caminhada, você deverá ser capaz de: • Compreender a importância da profi ssão docente, como atividade de relevância social. • Analisar o surgimento histórico da profi ssão, refl etindo sobre a peculiaridade do docente, quando se torna um profi ssional especializado no ensino. • Refl etir sobre algumas das características que levaram à deturpação e à desvalorização da profi ssão docente. • Analisar as características das atividades docentes, no seu surgimento no Oriente. A origem da profi ssão docente – Parte 1 Pré-requisito Caro companheiro de viagem, para o melhor entendimento desta aula você deve rever a Aula 16. ob jet ivo s 17AULA Aula_17.indd 19 10/29/2004, 1:54:48 PM C E D E R J20 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 1 Há alguns anos, tenho me colocado o mesmo conjunto de questões: Como é que se é professor? Por que tornar-se professor? Por que ser professor? Como é que se dá essa escolha, essa decisão? Como se operacionaliza isso no sujeito? Minha prática tem sido investir na problematização: a professoralidade. Já não tenho mais ponto de partida, mas sigo postulando a idéia de que não é pelo simples fato de passar por um curso de formação (seja uma licenciatura, seja magistério) que alguém vem a ser professor. Não é, igualmente, pelo fato de ser contratado por uma escola ou universidade e, com o aval da instituição, vir a exercer a carreira docente, que alguém se torna professor. Volto a perguntar: como é ser professor? (PEREIRA, 2002, p. 23). Caros colegas de viagem, nesta parada, já à primeira vista, observamos que nos temas levantados por Pereira, no texto que abre o nosso percurso, aparecem muitas questões que nos vão levar a pensar e refl etir, ao longo da nossa carreira: Por que tornar-se professor? Como é ser professor? Para responder a essas e a outras questões, é importante pensar, inicialmente, sobre a origem da profi ssão docente. Neste ponto de nossa viagem, percorrendo as estradas dos "Fundamentos da Educação", chegou a vez de adentrarmos nos caminhos da profi ssão docente. Lembremos que, nesta viagem teórica, educativa e vital, nosso percurso está orientado por três grandes focos: Homem, Sociedade e Transformação. Ao abordarmos a origem da profi ssão docente, analisamos principalmente o homem que educa, o educador; mas esse educador, necessariamente, age num contexto social; por isso, a sociedade também estará em foco nesse trajeto. Aliás, a transformação será focalizada, pois o docente está vinculado a ela, já que ele pode, na sua prática, colaborar nas mudanças intelectuais, afetivas,cidadãs e em todo o espectro vital do discente. É preciso assinalar que essa transformação é um caminho de mão dupla, já que o próprio docente é transformado pelos discentes, nesse encontro que é a Educação. A questão da origem da profi ssão docente, como já dissemos, tem importantes desdobramentos para nossa caminhada nos trilhos da Educação. Por isso, para estudá-la com maior profundidade, ela será percorrida nas Aulas 17 e 18. Nesta primeira aula, vamos abordar principalmente os seguintes temas: 1. Origem da profi ssão docente: esclarecimentos terminológicos e conceituais. 2. A profi ssão docente: seu surgimento histórico. INTRODUÇÃO Aula_17.indd 20 10/29/2004, 1:54:51 PM C E D E R J 21 A U LA 17 ORIGEM DA PROFISSÃO DOCENTE: ESCLARECIMENTOS TERMINOLÓGICOS E CONCEITUAIS Caro companheiro de viagem, logo no início da nossa caminhada, vimos que este capítulo trata da origem da profi ssão docente. Neste primeiro trajeto, surgem três perguntas básicas: 1. O que signifi ca origem? 2. O que é profi ssão? 3. O que é docente? Muitas vezes, sem perceber, em nosso percurso por entre as trilhas do conhecimento, embarcamos em questões das quais não temos uma clara defi nição. Discutimos sem dominar os termos discutidos. Assim, a primeira questão que aparece, logo no ponto 1, é que a profi ssão docente teve uma origem. Mas o que é isso? Vagamente, sabemos que origem pode ser “começo”, “princípio”, “início no tempo”. Mas é isso mesmo? Origem tem a ver com princípio, começo? Quer dizer que a profi ssão docente teve início. Mas poderia não ter começado, poderia ter sido uma atividade humana que acontece desde sempre, não é? Logo depois, temos de analisar o que é “profissão” docente. Vemos que o docente é um “profi ssional”, mas poderia ser um “amador”, alguém que transmite seus conhecimentos por amor. Depois veremos, por exemplo, que SÓCRATES fazia questão de frisar que não era um profi ssional da Educação. Então, temos de entender o que é esse profissional. O que é ser profi ssional? E isso se liga, diretamente, ao termo “docente”? O que é “ser docente”? Há uma “profi ssão docente”? Neste ponto da viagem, aparece uma questão fundamental para a Educação, que é refl etir sobre o docente como profi ssional, já que, muitas vezes, nosso trabalho foi desvalorizado, considerado continuidade das tarefas maternas – especialmente o trabalho daqueles que lidavam com crianças menores –, que não exigiam muito preparo técnico, mas apenas condições “femininas” para cuidar das crianças. Após esclarecer alguns termos, vamos retomar essa questão. Filósofo grego do século V a.C., que morreu em 399 a.C., condenado a beber cicuta por, supostamente, “corromper os jovens”, “negar os deuses da cidade” e “introduzir novos deuses”. Ele fi cou célebre por sua atitude inquebrantável: não rejeitou as próprias idéias, mesmo sendo condenado à morte. Foi considerado modelo de ética e sabedoria. Aula_17.indd 21 10/29/2004, 1:54:54 PM C E D E R J22 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 1 Uma ajuda fundamental a nosso percurso consiste em consultar o dicionário para saber qual a procedência da palavra usada. Imediatamente, nos deparamos com um termo muito usado no nosso dia-a-dia, mas pouco conhecido. Devemos procurar, então, o dicionário. Às vezes, quando tratamos de questões muito técnicas – por exemplo, percebemos que o termo “origem” tem a ver com a Filosofi a –, devemos recorrer a um dicionário da área específi ca: Sociologia, Psicologia, Filosofi a etc. Como dissemos, no nosso dia-a-dia usamos “origem” signifi cando “princípio”, “nascimento”, “começo” de alguma coisa. Mas, o que queremos dizer com essa palavra? Para um primeiro esclarecimento, procuremos o dicionário. ORIGEM: 1. Ponto inicial de uma ação ou coisa que tem continuidade no tempo e/ou no espaço, ponto de partida 2. local de nascimento (...) 3. a seqüência das gerações anteriores de um indivíduo ou de uma família; proveniência de um grupo social ou de um povo; ascendência, genealogia, progênie (os olhos comprovam sua o. oriental) 4. p. ext. a nascente de um rio, fonte (...) 5. p. ext. qualidade de; procedência; proveniência (...) 6. Fig. Aquilo que provoca, ocasiona ou determina uma atitude, um acontecimento, a existência de algo; causa, razão (...) (HOUAISS, 2001, p. 2.081). O dicionário nos ajuda a conhecer o sentido do termo usado. “Origem” pode signifi car ponto inicial de uma ação ou coisa, um ponto de partida, um local de nascimento, a proveniência de um grupo ou de um povo, ascendência, genealogia etc. Veja também a defi nição do termo ORIGEM, ligada, sem dúvida, à acepção corriqueira. Assim, ao perguntar pela origem de uma atividade ou de um grupo – neste momento perguntamos pela origem da profi ssão docente –, estamos tentando detectar seu ponto inicial, como nasceu, qual foi sua proveniência, como foi gerada ou o que causou a criação dessa profi ssão, dessa atividade humana. ! Como em nosso percurso encontraremos algumas questões fi losófi cas, sugiro consultar, quando aparecerem termos técnicos, o trabalho de Abbagnano, Dicionário de fi losofi a. E para esclarecer termos mais comuns da nossa língua, sugiro o Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Afi nal, o que é origem? ORIGEM Na linguagem fi losófi ca, este termo é essencial. Inclusive a palavra fundamento tem a ver com origem. O termo surgiu na Filosofi a, no século VI. a.C., com um grupo de pensadores peculiares, que procuravam o arché da realidade. Isto é, o princípio, entendido como 1) início no tempo e 2) fundamento da realidade. Aquilo que dá suporte, que está em todas as partes e que é essencial em todo o real. Aula_17.indd 22 10/29/2004, 1:54:56 PM C E D E R J 23 A U LA 17 Isso nos leva a pensar, a partir de uma análise histórica, que houve causas que levaram o homem a criar uma atividade específi ca, denominada profi ssão docente. Em certo momento nasceu uma tarefa delimitada no seio da sociedade. Essa tarefa, numa primeira aproximação, consiste em ensinar. Mas aqui nos defrontamos com o segundo termo da nossa questão: Por que ensinar se torna profi ssão? O que é ser um profi ssional do ensino? Pois a docência pode ser pensada, também, como uma atividade “não-profi ssional”, realizada, por exemplo, pela mãe, pelos tios, pelos amigos, por toda a família. A questão é esclarecer como a função docente se torna uma tarefa social específi ca, remunerada, de um grupo determinado. Aqui aparece claramente o problema que levantamos no início. Durante muito tempo, o educar era uma atribuição familiar, peculiarmente realizada pela mãe, pela tia, sobretudo pelas mulheres da família, embora alguns homens participassem da transmissão de conhecimentos, habilidades e aptidões. Por esse motivo, a partir de uma ótica que privilegiava as tarefas de produção fora do lar, denominadas “masculinas”, a docência foi ligada ao feminino, ao doméstico, mas em um sentido pejorativo. Por tratar-se de algo doméstico e familiar, ela não era considerada profi ssional, surgindo, assim, uma desvalorização da profi ssão. É importante que você refl ita, caro companheiro de viagem, que a tarefa de ensinar, que você está iniciando ao estudar com carinho, dedicação e esforço, em muitos momentos foi desvalorizada, relegada social e economicamente, até não ser considerada uma profi ssão. Vamos, então, defi nir o que é “profi ssão”, para que você possa tomar uma posição diante desse problema. (VI a.C.), da ilha de Jônia, Grécia, afi rmou que o princípio de Aula_17.indd 23 10/29/2004, 1:54:57 PM C E D E R J24 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 1 PROFISSÃO: 1. ação ou resultado de professar (‘reconhecer publi- camente’, ‘jurar’) 2. declaração ou confissão pública de uma crença, uma religião, uma tendência políticaou um modo de ser 3. atividade para a qual um indivíduo se preparou e que exerce ou não (...) 4. trabalho que uma pessoa faz para obter os recursos necessários à sua subsistência e à de seus descendentes (...) 5. LITUR. Cerimônia da tomada do hábito por um religioso, ao fi nal do noviciado; voto (...) (p. 2.306). A defi nição da palavra “profi ssão” nos apresenta diversas acepções; todas elas contribuem para a compreensão da nossa “profi ssão docente”. No uso mais habitual, o profi ssional é aquele que se preparou para desempenhar uma função específi ca; geralmente, ele a exerce e obtém dela os recursos necessários para sua subsistência. Quer dizer, profi ssional é o trabalhador de uma área defi nida: advogado, porteiro, padeiro, escrivão, engenheiro etc. Pode até haver um profi ssional que não exerça a função para a qual se preparou, como, por exemplo, um médico que teve de abrir uma loja para sobreviver. Neste ponto, cabe refl etir, colega de viagem, sobre o status da nossa profi ssão, na atualidade. Numa sociedade patriarcal, em que se privilegiavam as tarefas ditas “masculinas”, vemos que a ligação da docência com o feminino levou à descaracterização profunda dessa atividade profi ssional. Em primeira instância, o professor é profi ssional, por seu preparo técnico, e isso exige o reconhecimento social e a valorização da sua atuação. Ainda mais, a dedicação a essa tarefa implica obter uma remuneração digna, já que seu desempenho não é amador, ad honorem ou apenas familiar/doméstico. Para tomar uma posição mais clara sobre este ponto, vamos refl etir sobre outros sentidos da palavra “profi ssão”. Além dessas acepções, a palavra “profi ssão” alude a um ato de professar ou jurar exercer uma função. Por exemplo, ao se diplomar, o médico jura exercer a Medicina visando ao bem-estar de seus pacientes. Nesse caso, há uma alusão ao juramento hipocrático de HIPÓCRATES. O docente é um PROFISSIONAL que realiza uma atividade específi ca, para a qual está capacitado teórica e praticamente, e da qual obtém a própria subsistência. O docente é um TRABALHADOR do ensino; não é um “amador”, que realiza suas tarefas apenas por “vocação” ou “inclinação natural” ou como uma “tendência maternal”, no caso das docentes mulheres. Frisar o aspecto profi ssional da docência implica questionar as posturas que minimizam o seu valor. HIPÓCRATES (460-377 A.C.) Natural da ilha de Cós, fundador da Medicina como ciência. O juramento hipocrático destaca o compromisso de exercer a Medicina zelando de forma incondicional e atenta pela saúde dos pacientes. Aula_17.indd 24 10/29/2004, 1:54:59 PM C E D E R J 25 A U LA 17 No caso específi co do professor, sua profi ssão, além de exigir um preparo técnico e a obrigação de desempenhar convenientemente a função social esperada, supõe ainda atividades que exigem dele um “modo de ser”, um “compromisso”, tal uma “profi ssão de fé pública”. O professor é um profi ssional, porque se preparou tecnicamente para ensinar, porque ganha sua subsistência através dessa atividade, porque declarou publicamente, ao formar-se, que exerceria adequadamente essa atividade. E ainda, para aprofundar a especifi cidade da profi ssão docente, vamos estabelecer o signifi cado dos termos professor e docente: PROFESSOR: 1. aquele que professa uma crença, uma religião 2. aquele cuja profissão é dar aulas em escola, colégio ou universidade; docente, mestre (...) 2.1 p. ext. aquele que dá aulas sobre algum assunto (...) 2.2 aquele que transmite algum ensinamento a outra pessoa (...) 3. aquele que tem diploma de algum curso que forma professores (...), que exerce a profi ssão de ensinar ou tem diploma ou título de professor (...) 5. que professa (...) (p. 2.306). Finalmente, docente aparece como sinônimo de professor. Conforme Houaiss: DOCÊNCIA: (...) 1. ação de ensinar; exercício do magistério 2. qualidade de docência ETIM rad. do v. lat. docere ‘ensinar, instruir, mostrar, indicar, dar a entender’ (...) (p. 1.068). Retomemos agora nossos passos para entender o sentido de “profi ssão docente”. Concordamos que profi ssional é aquele que exerce uma função específi ca e remunerada. Professor é aquele trabalhador que ensina em escola, colégio ou universidade, que exerce essa função ou tem diploma ou título de professor. Essa atividade profi ssional se caracteriza por ensinar, instruir, transmitir conhecimentos, atitudes, valores, fomentar capacidades de diversos tipos. Agora, voltemos às questões levantadas inicialmente. Por que, durante muito tempo, a docência não foi valorizada ou não foi considerada uma profi ssão? Aula_17.indd 25 10/29/2004, 1:55:01 PM C E D E R J26 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 1 Numa concepção basicamente masculina, com resquícios de uma visão paternalista, a profi ssão docente foi essencialmente vinculada à mulher, ao feminino. Principalmente o Ensino Fundamental, que anteriormente se denominava ensino primário, era exercido por mulheres. Considerava-se a docência uma tarefa de pouca relevância teórica e técnica; mais do que uma “profi ssão”, seria uma prolongação do papel materno de cuidar das crianças. Assim, surgiu a FEMINILIZAÇÃO do magistério (TAMBARA, 1998, p. 49): a docência seria predominantemente feminina, estaria muito próxima das tarefas domésticas de cuidar das crianças: dar banho, dar de comer e, conjuntamente, ensinar as primeiras letras e outras habilidades. A partir desse enfoque, de claras ressonâncias machistas, a profi ssão docente, particularmente a dedicada às crianças, foi desvalorizada como tal. A professora prolongava os cuidados da mãe. Para exercer tal “profi ssão”, não era preciso muito preparo: a mulher teria apenas de seguir a sua “tendência” materna ou doméstica para “tomar conta” das crianças. De longa data, o magistério, sobretudo o primário, vem fazendo apelo ao contingente feminino. Bastante compatível com a natureza das funções femininas, tais como valorizadas em nossa sociedade ocidental. (...) essa assimilação fácil acarretou graves conseqüências para o ‘status’ da ocupação (LÜDKE, apud CANDAU, 2002, pp. 80-81). Um outro resquício dessa deturpação da docência aparece no apelido, inicialmente carinhoso, outorgado às professoras durante muito tempo: tia. Nessa caracterização carinhosa, está embutida a desvalorização da docência, pois a professora ocupa um lugar semelhante ao da mãe; a mãe realiza os cuidados na casa, já a tia os realiza na escola. Ambas – caracterizadas por vínculos familiares – não seriam profi ssionais, mas pessoas que agem essencialmente por afetividade. Assim, essa professora – a tia – é muito querida, porém muito mal paga, já que deve agir “por amor” ou por vocação. Não seria uma profi ssional, mas uma pseudoprofi ssional. Daí, o baixo status da carreira docente; daí, os pagamentos inadequados; daí, as exigências exageradas, sem compensações profi ssionais nem econômicas. FEMINILIZAÇÃO Tendência que considera as atividades docentes do ensino primário essencialmente vinculadas à “natureza feminil”. Assim, as mulheres seriam as professoras dos pequenos, por “natureza”, devido às suas condições maternais. ! Sugiro, para esclare- cer ainda mais essa desvalorização e feminilização da docência, a leitura do livro de Paulo Freire: Professora sim, tia não. Aula_17.indd 26 10/29/2004, 1:55:01 PM C E D E R J 27 A U LA 17 Como assinalamos antes, a profi ssão docente surge num contexto social por uma necessidade específi ca de transmitir conhecimentos e desenvolver outras aptidões. Aparece alguém com uma formação técnica: um trabalhador específi co que ensina, que cultua a arte de ensinar. Frisamos este aspecto de trabalhador para questionar aqueles que reduzem a nossa profi ssão a tarefas “domésticas” ou apenas amadoras. Concordamos com Lüdke, quandodiz: “A visão do educador como trabalhador e de sua inserção no sistema de produção pode ajudá-lo a caminhar no sentido de uma mais clara defi nição profi ssional” (LÜDKE, apud CANDAU, 2002, pp. 83-84). R E S U M O Nesta primeira parte da aula, estudamos a origem da profi ssão docente, recorrendo, inicialmente, ao esclarecimento dessas noções. Frisamos que o docente é um trabalhador específi co, um profi ssional que cultua o ensino, cujas atividades devem ser remuneradas adequadamente, já que é responsável pela formação das gerações futuras. ATIVIDADES 1. Explique o signifi cado da palavra origem. 2. O que signifi ca a palavra profi ssão. 3. Comente o que é ser docente ou professor. 4. Explique o que você entende por “feminilização” da profi ssão docente. 5. Comente por que foi desvalorizada a profi ssão docente. Aula_17.indd 27 10/29/2004, 1:55:02 PM C E D E R J28 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 1 PROFISSÃO DOCENTE: SEU SURGIMENTO HISTÓRICO Nossos primeiros passos nos levaram à defi nição dos termos deste ponto da nossa viagem. Agora, é importante analisar como se deu a aparição histórica da profi ssão docente. Devemos buscar subsídios na História da Educação para esclarecer como nasceu essa profi ssão. É importante sublinhar esse conhecimento da história e da origem da profi ssão para a própria prática do docente no seu dia-a-dia, assim como reconhecer o passado dessa atividade para dar conta dos desafi os do presente. • A História da Educação fornece aos educadores conhecimento do passado coletivo da profi ssão, que serve para formar sua cultura profi ssional. Possuir conhecimento histórico não implica ter ação mais efi caz, mas estimula uma atitude mais crítica e refl exiva. • A História da Educação amplia a memória e a experiência, criando um leque de escolhas e de possibilidades pedagógicas, o que permite um alargamento do repertório dos educadores e lhes fornece uma visão da extrema diversidade das instituições no passado. Para além disso, revela que a educação não é um “destino”, mas uma construção social, o eu renova o sentido da ação quotidiana de cada educador (CAMBI, 1999, p. 13). O conhecimento desse passado, dessas origens da nossa função docente, nos permite uma refl exão radical – que reconhece os aspectos essenciais do seu surgimento – e nos leva a aperfeiçoar a nossa prática como também a elaborar um conhecimento teórico que, com certeza, iluminará nossa própria prática, trazendo soluções para os problemas educacionais. Como assinala Gadotti: Mais do que possibilitar um conhecimento teórico sobre a educação, tal estudo forma em nós, educadores, uma postura que permeia toda a prática pedagógica. E essa postura nos induz a uma atitude de refl exão radical diante dos problemas educacionais, levando-nos a tratá-los de maneira séria e atenta (1998, p. 15). Essa refl exão sobre o ato educativo, sobre sua origem e seu desenvolvimento, é fundamental para termos noção de como o homem transmite e recria seus conhecimentos, seus valores, suas aptidões. Aula_17.indd 28 10/29/2004, 1:55:03 PM C E D E R J 29 A U LA 17 O homem é o único ser educado e educável, pois os animais só transmitem, de geração em geração, um arsenal instintivo e genético, que prescinde do ensino; eles se desenvolvem conforme esse padrão de condicionamentos inalteráveis. O homem, ao contrário, é aquele que transmite as suas experiências às novas gerações. Essa transmissão não se limita à reprodução do saber adquirido por cada povo ou grupo, mas está ligada à inovação, à recriação, à transformação do saber, dos indivíduos e da própria sociedade. Lembremos, aqui, caro companheiro de viagem, um dos focos que orientam o nosso percurso: a transformação, como um dos objetivos essenciais da Educação; educar para transformar o indivíduo e a sociedade. A mudança apresenta-se como elemento diferencial do ensino humano. Reproduzimos os saberes; mas recriamos os saberes, e nós mesmos nos recriamos, tanto docentes quanto discentes. Como aponta o grande helenista e educador JAEGER: Todo povo que atinge um certo grau de desenvolvimento sente-se naturalmente inclinado à prática da educação. Ela é o princípio por meio do qual a comunidade humana conserva e transmite a sua peculiaridade física e espiritual. Com a mudança das coisas, mudam os indivíduos; o tipo permanece o mesmo. Homens e animais, na sua qualidade de seres físicos, consolidam a sua espécie pela procriação natural. Só o Homem, porém, consegue conservar e propagar a sua forma de existência social e espiritual por meio das forças pelas quais a criou, quer dizer, por meio da vontade consciente e da razão. O seu desenvolvimento ganha por elas um certo jogo livre de que carece o resto dos seres vivos (...) Uma educação consciente pode até mudar a natureza física do Homem e suas qualidades, elevando-lhe a capacidade a um nível superior. Mas o espírito humano conduz progressivamente à descoberta de si próprio e cria, pelo conhecimento do mundo exterior e interior, formas melhores de existência humana (2001, p. 4). WERNER WILHELM JAEGER (1888-1961) Eminente estudioso da cultura grega antiga. Entre seus numerosos trabalhos se destaca Paidéia, em que esclarece, com rigor e erudição, a história da Educação na Grécia. O termo grego paidéia, essencial na Pedagogia, signifi ca “formação integral do homem grego”. Aula_17.indd 29 10/29/2004, 1:55:03 PM C E D E R J30 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 1 Jaeger conclui tais considerações sobre o percurso educativo do homem com esta afi rmação que queremos frisar, já que é fundamental neste momento da nossa viagem: A natureza do Homem, na sua dupla estrutura corpórea e espiritual, cria condições especiais para a manutenção e transmissão da sua forma particular e exige organizações físicas e espirituais, ao conjunto das quais damos o nome de educação. Na educação, como o Homem a pratica, atua a mesma força vital, criadora e plástica, que espontaneamente impele todas as espécies vivas à conservação e propagação do seu tipo. É nela, porém, que essa força atinge o mais alto grau de intensidade, através do esforço consciente do conhecimento e da vontade, dirigida para a consecução de um fi m (2001, pp. 3-4). O homem, através da Educação, não só mantém e transmite o já vivido, não só recicla o conhecimento, as práticas sociais e os valores, mas também induz a uma renovação permanente. No ato educativo se concretiza uma “força vital, criadora e plástica”, comum a todas as espécies, mas no homem atinge a sua máxima expressão, já que o leva a novas criações, a renovar a sua forma de viver. Assim, educar é, essencialmente, criar, transformar. O Oriente e os primórdios da Educação Agora, vamos caminhar pelas trilhas das primeiras práticas educativas, isto é, pelas origens históricas do ato de educar. No Oriente, a religião teve grande influência na transmissão do conhecimento. O taoísmo, o budismo, o hinduísmo e o judaísmo foram responsáveis pela formação desses povos, em moldes eminentemente práticos, “(...) marcada pelos rituais de iniciação (...). Espontânea, natural, não intencional, a educação baseava-se na imitação e na oralidade, limitada ao presente imediato” (GADOTTI, 1998, p. 21). Essa Educação primitiva dos povos orientais não era sistemática, mas de caráter espontâneo, repetitiva e oral, baseada fundamentalmente na tradição religiosa; era realizada por toda a comunidade. Não existia um profi ssional determinado para exercê-la. Aula_17.indd 30 10/29/2004, 1:55:06 PM C E D E R J 31 A U LA 17 É possível afi rmar que, no Oriente antigo, não havia professores, não havia uma profi ssão docente específi ca. Gadotti assinala: “Na comunidade primitiva a educação era confi ada a toda a comunidade, em função davida e para a vida: para aprender a usar o arco, a criança caçava; para aprender a nadar, nadava. A escola era a aldeia” (1998, p. 22). Se a escola era a aldeia, ligada às vivências comunitárias, não havia especialistas de ensino, não havia escolas como instituições específi cas para educar. A vida, em geral, era apreendida nas tradições comunitárias. Porém, aos poucos, surge a divisão social do trabalho, “aparecem as especialidades: funcionários, sacerdotes, médicos, magos etc.; a escola não é mais a aldeia e a vida, funciona num lugar especializado onde uns aprendem e outros ensinam” (p. 23). Gadotti destaca os fatores de poder que condicionam o ordenamento dessa nova forma de ensinar, de transmitir as experiências comunitárias. Aparecem as diferenças, as hierarquias e as desigualdades, que também infl uenciam nessa transmissão do conhecimento: A educação sistemática surgiu no momento em que a educação primitiva foi perdendo pouco a pouco seu caráter unitário e integral entre a formação e a vida, o ensino e a comunidade. O saber da comunidade é expropriado e apresentado novamente aos excluídos do poder, sob a forma de dogmas, interdições e ordens que era preciso decorar. Cada indivíduo deveria seguir à risca os ditames supostamente vindos de um ser superior, extraterreno, imortal, onipresente e onipotente. A educação primitiva, solidária e espontânea, vai sendo substituída pelo temor e o terror (idem). No Oriente, encontramos os primórdios de uma atividade pedagógica, ora realizada por toda a comunidade, ora imposta por grupos sacerdotais, que tentam transmitir à risca uma concepção religiosa e dogmática que mantém as estruturas sociais em que se diferenciam claramente classes dominantes e dominadas. Ora, essa forma de Educação, mais especializada, ainda carece da fi gura específi ca do professor como profi ssional. O ensino ainda era realizado religiosamente, transmitido por sacerdotes e familiares, estando essencialmente vinculado aos textos de fé, considerados revelados. Aula_17.indd 31 10/29/2004, 1:55:09 PM C E D E R J32 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 1 Por esse motivo, assinalamos que ainda não existia o docente como profi ssional da Educação. Podemos perguntar: onde surge essa fi gura, que está na origem de todas as nossas atividades educativas? Esse profi ssional do ensino surgirá na Grécia, numa sociedade que “serviu de berço da cultura, da civilização e da educação ocidental” (p. 29). Nossa próxima parada consistirá em estudar como surgiu essa profi ssão, na Grécia. R E S U M O Nesta aula, vimos o surgimento da profi ssão docente. Inicialmente, esclarecemos alguns termos como “origem”, “profi ssão”, “docente” e “professor”, para compreendermos melhor como nasce essa profi ssão de professor. Mostramos que no Oriente não existia a profi ssão específi ca do educador; a formação das crianças era realizada por diversos integrantes de cada comunidade. Essa formação estava profundamente ligada ao ensino e às práticas religiosas. Assinalamos, fi nalmente, que a docência, como atividade estritamente profi ssional só viria a se desenvolver na Grécia Antiga. ATIVIDADES Agora, caro companheiro de viagem, sugerimos exercitar, os seus conhecimentos sobre esta parte do trajeto: 1. Comente a importância da Educação para a teoria e a prática docente. 2. Explique a forma de Educação no antigo Oriente: era individual ou realizada por toda a aldeia? 3. Faça um comentário a respeito da existência no Oriente da profi ssão docente, como prática especializada. Aula_17.indd 32 10/29/2004, 1:55:10 PM C E D E R J 33 A U LA 17 AUTO-AVALIAÇÃO Você conseguiu responder sem difi culdades aos três exercícios acima? Se a resposta foi positiva, parabéns! Você pode imediatamente passar para a aula seguinte. Se teve algumas difi culdades, você precisa realizar mais uma leitura atenta antes de prosseguir a viagem para a próxima estação. Aula_17.indd 33 10/29/2004, 1:55:10 PM Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Analisar a importância da poesia na formação dos gregos arcaicos. • Esclarecer o surgimento e as peculiaridades da profi ssão docente como atividade remunerada, no ensino dos sofi stas gregos. • Analisar a nova ótica fi losófi co-educativa de Sócrates, baseada no diálogo e na interação com os discípulos. A origem da profi ssão docente – Parte 2 Pré-requisito Caro companheiro de viagem, para melhor entendimento desta aula você deve rever as Aulas 16 e 17. ob jet ivo s 18AULA Aula_18.indd 35 10/29/2004, 1:55:42 PM C E D E R J36 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 2 (...) os historiadores da Grécia e da fi losofi a consideram os sofi stas fundadores da pedagogia democrática, mestres da arte da educação do cidadão. Arte e não ciência, pois os sofi stas se apresentavam como técnicos e professores de técnicas e não como fi lósofos. A sofística, escreve Brehier, não designa uma doutrina e sim um modo de ensinar (CHAUÍ, 2002, pp. 159-160). Chegamos a outra estação da nossa caminhada. Os pontos desta viagem serão: 1. Retomada do trajeto anterior: considerações sobre o caminho percorrido na última aula. 2. A Educação na Grécia homérica: os poetas e a formação do cidadão ateniense. 3. A Educação no século V: os sofi stas e o surgimento da profi ssão docente. 4. Sócrates: a crítica da sofística e a vocação de ensinar. RETOMADA DO TRAJETO ANTERIOR No nosso trajeto anterior, percorremos as origens da profi ssão docente, tentando esclarecer, inicialmente, o aspecto terminológico dos conceitos referentes a essa profissão. Abordamos a noção de origem, de profi ssão e de docente e professor. Também analisamos algumas posturas que desvalorizam a docência, negando o seu caráter profissional, vinculando-a, muitas vezes, às tarefas femininas ou domésticas – entendendo esses termos de forma pejorativa. Uma vez esclarecido isso, tentamos responder à nossa questão: por que houve uma origem da profi ssão docente? Por que se trata de uma profi ssão, e não de um simples exercício ou atividade amadorística? Por que é necessário um trabalhador especializado para exercê-la? Depois desses esclarecimentos terminológicos e conceituais, procuraremos mostrar que o marco histórico da origem da atividade docente encontra-se no antigo Oriente. Porém, vimos que, inicialmente, não existia um profi ssional da Educação, pois era a comunidade, como um todo, que transmitia conhecimentos e formava crianças e jovens. Posteriormente, com as mudanças sociais, houve domínio signifi cativo de um grupo que oprimia as maiorias. Assim, apareceram as diferenças na transmissão de conhecimentos. As atividades se especializaram, contudo ainda não havia surgido um especialista denominado docente. INTRODUÇÃO Aula_18.indd 36 10/29/2004, 1:55:45 PM C E D E R J 37 A U LA 18 Os sacerdotes e outros grupos dominantes transmitiam formação reli- giosa geral. Não existiam professores, especialistas de ensino. Mas apesar disso, isto é, de não existir a profi ssão docente, havia práticas educativas comunitárias. Só na Grécia a Educação vai atingir um patamar bem diferente, ao surgir, então, a fi gura do docente. Aliás, na Grécia, a Educação adquiriu um sentido fundamental para a sociedade. Como aponta Jaeger: Não é possível descrever em poucas palavras a posição revolucionária e solidária da Grécia na história da educação humana. O objeto deste livro [Paidéia] é apresentar a formação do homem grego, a paidéia, no seu caráter particular e no seu desenvolvimento histórico. Não se trata de um conjunto de idéias abstratas, mas da própria história da Grécia na realidade concreta do seu destino vital. Contudo, essa história vivida já teria desaparecido há longo tempo se o homem grego não a tivesse criado na sua forma perene (2001, p. 7). A Educação ficou essencialmente ligada a tudo aquilo que os gregos transmitiram à Humanidade: sua poesia, sua fi losofi a, sua história, sua arte, seus costumes e toda uma forma de sentir e viver o mundo. Os helenos foram um povo singular na história da Humanidade. Eles criaram e revolucionaram diversas áreas: produziram grandes fi lósofos, artistas, cientistas, políticos e militares. Porém, seu legado para a Educação é extraordinário, fundamental, a ponto de a palavra que alude à Educação surgir do vocábulo grego PAIDÉIA, de difícil tradução, mas que, em síntese, signifi ca: a formação integral do homem grego. Na Educação, eles inovaram e deixaram seu sinal para todas as épocas, pois se diferenciaram do Oriente antigo na transmissão dogmática do saber e dos costumes. É possível afi rmar que, com os gregos, nasceu a Educação como atividade estruturada, orgânica e específi ca do homem. Podemos, também, assinalar que eles criaram a Educação sistemática. Aliás, com eles surgiu, de fato, a profi ssão docente. Veremos como foram os passos da Educação, na Grécia, e o surgimento do docente. PAIDÉIA Termo de origem grega que signifi ca “formação integral do homem grego”. Os gregos inovaram em diversos campos da cultura: fi losofi a, arte, ciências etc., e deixaram profundas marcas na Educação. Com eles, aparecem os primeiros profi ssionais da Educação: os sofi stas, mestres no ensino da retórica, da arte do bem–falar. Antes dos sofi stas, os poetas Homero e Hesíodo realizaram também uma tarefa educativa, embora não fosse sistemática. Eles, porém, passaram uma visão de mundo que levou os gregos a considerar Homero o “educador da Hélade”. Aula_18.indd 37 10/29/2004, 1:55:45 PM C E D E R J38 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 2 A EDUCAÇÃO NA GRÉCIA HOMÉRICA: OS POETAS E A FORMAÇÃO DO CIDADÃO ATENIENSE Conta Platão que era opinião geral no seu tempo ter sido Homero o educador de toda a Grécia. Desde então, a sua infl uência estendeu-se muito além das fronteiras da Hélade. Nem a apaixonada crítica fi losófi ca de Platão conseguiu abalar o seu domínio, quando buscou limitar o infl uxo e o valor pedagógico de toda a poesia. A concepção do poeta como educador do seu povo – no sentido mais amplo e mais profundo da palavra – foi familiar aos gregos desde a sua origem e manteve sempre a sua importância. Homero foi apenas o exemplo mais notável desta concepção geral e, por assim dizer, a sua manifestação clássica (JAEGER, 2001, p. 61). Os poetas, na Grécia, foram os promotores de uma forma de viver, de pensar, de sentir, enfi m, de ver o mundo. Eles praticamente instauraram uma nova cosmovisão. Essa visão foi transmitida oralmente, os poemas eram ditos e reditos, de geração em geração, contribuindo na consolidação dos valores tradicionais dos helenos. Há dois grandes poetas que marcaram a Grécia: HOMERO e HESÍODO. Embora ambos tenham sido muito importantes, quando há qualquer referência ao conjunto de conhecimentos, de saberes ilustrativos, adquiridos segundo uma perspectiva evolutiva, fala-se em cultura homérica, sem se reportar a Hesíodo. Uma visão comum manifesta-se nos escritos dos dois, ainda que em Homero ela seja mais evidente. Não se deve esquecer que Homero é o autor de A Ilíada, que narra a guerra entre gregos e troianos, e de A Odisséia, que conta as extra- ordinárias peripécias do herói Odisseu (ou Ulisses) quando de sua volta à terra natal. Hesíodo, por sua vez, descreveu em Teogonia – o próprio nome já indica: teo = Deus; gonia = geração, criação – como aconteceu a geração dos deuses e como se estabeleceu a hierarquia olímpica, depois do reinado de Zeus, o pai de toda a dinastia dos deuses do Olimpo. Era daí, da montanha do Olimpo, que os deuses comandavam a vida na Terra: a dos semideuses, a dos heróis e a dos homens comuns. Ambos os poetas mostram uma concepção heróica de homem, cujos valores guerreiros, como destreza física, capacidade de luta, coragem, lealdade, e também os valores intelectuais, como astúcia, capacidade de refl exão, são ressaltados. HESÍODO Poeta grego de meados do século VIII a.C., natural da Boécia. Escreveu Teogonia e Os trabalhos e os dias. HOMERO Autor de A Ilíada e A Odisséia; sua obra se localiza, aproximadamente, entre os séculos X e VIII a.C. Sua importância foi extraordinária na formação do homem grego. Aula_18.indd 38 10/29/2004, 1:55:46 PM C E D E R J 39 A U LA 18 PÉRICLES Grande estadista grego que, após a vitória de Atenas contra os persas, conduziu a democracia ateniense e logrou uma expansão imperial. A “era de Péricles” é sinônimo do auge de Atenas. Em que sentido a Educação se vincula a essa tradição poética? Em que sentido o poeta é considerado um educador? Os poetas e seus mais intensos divulgadores, os aedos – espécie de atores e recitadores itinerantes –, realizaram uma intensa atividade educativa na Grécia arcaica. Embora não fossem, de fato, profi ssionais da Educação, pois não havia neles a pretensão de desenvolver um ensino sistemático e estruturado, eles realizavam uma tarefa eminentemente docente: transmitiam à coletividade os valores, as idéias e as tradições da cultura helênica. Em outras palavras: eles educavam, mas não eram educadores profi ssionais. O essencial da tarefa dos aedos era o aspecto artístico e ético; não havia uma função deliberadamente didática, não existia o propósito de conhecer as formas ou as técnicas da Educação. Homero é o “educador da Hélade”, não por ter tido o propósito de ensinar uma doutrina, de transmitir determinados conteúdos, mas por contar histórias sobre a Grécia, por transmitir uma visão de mundo, comum e essencial para a sociedade da época. Ele é, inicialmente, um narrador, um artista que, ao mesmo tempo, recria uma visão de mundo. Podemos afi rmar que ainda não nasceu a profi ssão docente, sem tirar os méritos “docentes” que tiveram Homero e Hesíodo. A EDUCAÇÃO NO SÉCULO. V A.C.: OS SOFISTAS E O SURGIMENTO DA PROFISSÃO DOCENTE No século V a.C., a Grécia sofreu uma série substancial de mudanças históricas. Esse século foi caracterizado como a “era de Péricles”. Este estadista levou Atenas a uma posição de destaque até constituir-se num verdadeiro “império”; dominando as outras cidades da Hélade, após a vitória contra os persas, em 478 a.C., PÉRICLES consolidou um domínio sobre o mundo helênico. Houve, então, um fl orescimento econômico, cultural, fi losófi co, artístico, científi co e de todas as atividades. A democracia interna se fortifi cou e Atenas aprofundou seu domínio comercial e militar externo. As atividades democráticas exigiam, então, que os homens considerados livres (na Grécia existiam também numerosos escravos) participassem das deliberações da Assembléia; apareceram também outras exigências jurídicas e políticas da vida coletiva. Aula_18.indd 39 10/29/2004, 1:55:54 PM C E D E R J40 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 2 É bom lembrar que as narrações de Homero e Hesíodo, que eram passadas de pais para fi lhos, faziam parte da tradição grega. Com isso, justifi ca-se o fato de a Educação da época se fundamentar na crença nos deuses olímpicos e no seu culto, bem como no culto dos valores heróicos. Porém, com as mudanças políticas assinaladas – domínio sobre outros povos, contato com outras tradições, que entravam em confl ito com as crenças atenienses –, aos poucos essa paidéia inicial entrou em profunda crise. Os deuses olímpicos já não eram tão cultuados, os princípios homéricos podiam ser questionados. Aliás, houve outro fator fundamental que aprofundou as mudanças na cultura helênica: a intensifi cação da participação dos cidadãos em atividades políticas e jurídicas, notadamente na Assembléia, onde se elaboravam as leis, vitais para a cidade, levando à necessidadede um preparo técnico para falar, para disputar e convencer no cenário político. Os gregos deixavam de crer na tradição, nos valores transmitidos de geração em geração; era preciso outro instrumento para agir na vida da cidade: a retórica, a argumentação, a arte de vencer – e convencer – nas disputas verbais. Já não era possível, pois, recitar os versos de Homero e Hesíodo para mostrar os caminhos que deviam orientar a população da cidade. As histórias já não tinham força persuasiva, já não apresentavam argumentos convincentes. A cultura fundada na poesia era substituída por outra novíssima, baseada nas virtudes do orador, ou seja, daquele que podia infl uenciar nas decisões e nos julgamentos comunitários, interferir na elaboração das leis, infl uenciar o juiz e, enfi m, vencer uma disputa verbal, na praça do mercado. O orador passou a tomar o lugar do poeta. Houve, então, uma necessidade premente de encontrar mestres na arte da retórica e da persuasão. Desse modo, surgem os novíssimos e primeiros professores profi ssionais do Ocidente: os SOFISTAS. O que signifi ca sofi sta? Caro colega de viagem, é fundamental dar uma parada e refl etir com atenção sobre esses novos pensadores, já que serão os primeiros professores profi ssionais. Veja bem suas características, pois eles nos dão informações importantes para entender a origem da profi ssão docente. SOFISTAS Mestres de retórica, na Grécia do século. V a.C. Valorizavam a arte de argumentar, do bem-falar nas Assembléias e em outros lugares públicos de Atenas. Formavam principalmente políticos de uma elite que queriam se promover socialmente. Foram considerados os primeiros professores profi ssionais do Ocidente. Eles cobravam pelo ensino. Aula_18.indd 40 10/29/2004, 1:56:01 PM C E D E R J 41 A U LA 18 Sofi sta, inicialmente, é um termo que alude ao sábio – sophos – de um domínio específi co do conhecimento. Os sofi stas são os mestres do bem-falar, do bem argumentar; são os técnicos em retórica. O sofi sta é o primeiro professor profi ssional do Ocidente. Ele cobra por seus ensinamentos de retórica. Os sofi stas procuravam seus discípulos entre os cidadãos mais poderosos, que tinham poder aquisitivo para pagar suas onerosas aulas. Políticos, militares e artistas estão entre seus “clientes” principais, ou seja, aqueles que tinham interesse em infl uenciar os outros com sua palavra. Esse ensino pode ser considerado elitista, já que só uns poucos alunos abastados podiam ter acesso a ele: (...) sofi sta indica um grupo social particular, isto é, professores profi ssionais que, explica Guthrie, “forneciam instrução aos jovens e davam mostras de eloqüência em público, mediante pagamento." Os sofi stas foram os primeiros professores pagos na história da educação (CHAUÍ, 2002, p. 161). O que ensinavam os sofi stas? Como dissemos, eles transmitiam a técnica do bem-falar. Mas que conteúdos eles abordavam? • Os sofi stas ensinavam, principalmente, a dissertar sobre questões éticas, jurídicas e políticas. Os cidadãos infl uentes de Atenas queriam se posicionar sobre questões como: O que é virtude? O que é justo? O que é heróico? O que é coragem? O que é belo? O que é legítimo? O que é piedoso? etc. Tais questões eram as mais discutidas na Assembléia e as mais importantes para a elaboração das leis e para as decisões do Judiciário. • Refl etiam também sobre o que é conhecimento. É possível o conhecimento? Veremos, posteriormente, a postura dos sofi stas sobre o problema do saber e da verdade. Sofi sta é, pois, o mestre ou o professor de uma arte ou técnica ou ofício que exerce de forma admirável. (...) Ensina as ‘artes úteis aos homens’ e o faz usando uma arte especial, a retórica, que permite obter a atenção e a benevolência do interlocutor ou do ouvinte, persuadindo-o a aceitar o que lhe é dito (idem). Aula_18.indd 41 10/29/2004, 1:56:02 PM C E D E R J42 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 2 Quem são os sofi stas? Eles procediam de toda a Grécia e se concentravam em Atenas, onde existia um “público” ansioso por cultuar a técnica de bem-falar. Entre os mais destacados podemos citar: PROTÁGORAS e GÓRGIAS. Ambos são conhecidos por terem sustentado teses relativistas e céticas. O que é relativismo? É uma teoria que afi rma não haver verdades universais, mas opiniões individuais, sustentadas por alguns indivíduos ou grupos. Portanto, ninguém pode defender uma tese que possa ser aceita por todos. Essa tese é relativa a um momento, a uma condição, a uma situação, a um indivíduo. Protágoras sustentou uma tese relativista ao afi rmar que o "homem é a medida de todas as coisas". Com esta frase, ele quis dizer que cada homem tem uma medida para interpretar as coisas. Assim, um cidadão pode achar a guerra injusta e outro considerá-la justa. O que tem valor para um pode não ter valor para outro (por exemplo: eu acredito que mentir está errado, já um outro pode considerar a mentira útil para resolver problemas circunstanciais). Não há parâmetros únicos; tudo é relativo, tudo depende do ponto de vista de cada um. Górgias, por sua vez, expôs três teses céticas, concluindo que “se pudéssemos conhecer alguma coisa, não poderíamos transmiti-la”. O que é ceticismo? O ceticismo, como nos mostra Górgias, assinala que não há possibilidade de obter conhecimento, que todas as teses formuladas pelo Homem podem ser consideradas infundadas ou improváveis. Os sofi stas tiveram, assim, uma orientação relativista e cética. Para eles, não há valores universais, não há conhecimento verdadeiro, só existem opiniões individuais. Caro colega de viagem, lembre-se deste ponto fundamental da teoria sofística, pois ele terá grande infl uência na sua atuação docente: não há verdades, só opiniões. PROTÁGORAS DE ABDERA Nasceu por volta de 481 a.C. e morreu em 411 a.C. Adotou uma concepção relativista, afi rmando: “O homem é a medida de todas as coisas”; ou seja, todo conhecimento é relativo ao homem; não há saber absoluto. LEONTINI Nasceu por volta de 484-3 a.C. e morreu em 375 a.C. Famoso pelas suas três teses céticas, que negam a possibilidade de conhecer. Para os sofi stas não importa a procura de uma verdade de fato inacessível, mas aprimorar-se na arte da retórica, do bem- falar e argumentar; já que não há verdades, o importante é impor a própria opinião. Aula_18.indd 42 10/29/2004, 1:56:02 PM C E D E R J 43 A U LA 18 Essa postura foi duramente criticada, principalmente por Sócrates, já que ela deixa o homem sem parâmetros, seja em relação aos valores socialmente admitidos, seja em relação aos conhecimentos que o possam guiar com certeza. Os sofi stas se caracterizam por questionar a verdade, por abandonar a procura de um conhecimento objetivo, para se dedicar fundamentalmente a ensinar a técnica do bem-falar e persuadir: a retórica. Se nada é verdade, o importante é vencer nos confrontos verbais, impor a própria opinião. O ensino sofístico surge como Educação para as elites; visa ao ganho econômico e não procura a verdade, pretendendo preparar essas elites para o uso da retórica, geralmente com a fi nalidade de infl uenciar politicamente, nos espaços públicos – Assembléia, ÁGORA, juizado etc. – em questões éticas, jurídicas e políticas. SÓCRATES: A CRÍTICA DA SOFÍSTICA E A VOCAÇÃO DE ENSINAR Cidadãos atenienses, eu vos respeito e vos amo, mas obedecerei aos deuses em vez de obedecer a vós, e enquanto eu respirar e estiver na posse de minhas faculdades, não deixarei de fi losofar e de vos exortar ou de instruir cada um, quem quer que seja que vier à minha presença, dizendo-lhe como é meu costume: – Ótimo homem, tu que és cidadão de Atenas, da cidade maior e mais famosa pelo saber e pelo poder, não te envergonhas de fazer caso das riquezas, para guardares quanto mais puderes, e, depois,não fazer caso e nada te importares da sabedoria, da verdade e da alma, para tê-la cada vez melhor? (PLATÃO. Apologia de Sócrates, s/d, pp. 64-65). Companheiro de viagem, a passagem anterior foi escrita por Platão e mostra a apaixonada relação que Sócrates tinha com a docência, com a Filosofia, com a arte de ensinar e instigar os outros a pensar. Veremos que sua concepção de docência é bem diferente da dos sofistas e terá bastante prestígio, ao longo da filosofia ocidental, influenciando diversas correntes educacionais até nossos dias. Em resumo, quais seriam as características fundamentais do ensino sofístico? ÁGORA Praça principal das antigas cidades gregas, que muitas vezes servia para a realização das assembléias do povo. PLATÃO (427-347 A.C.) Filósofo ateniense, principal discípulo de Sócrates, que foi seu mestre e modelo, a quem dedicou Apologia de Sócrates. Nessa obra relata o julgamento e condenação do mestre, colocando-o em um lugar superlativo, como cidadão exemplar, paradigma de sábio e docente, que foi arbitrariamente condenado. Ele continuou a prédica ética de Sócrates, pretendendo estabelecer um estado ideal, guiado só pela razão e virtude, descrito em um dos seus principais livros: A República. Aula_18.indd 43 10/29/2004, 1:56:16 PM C E D E R J44 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 2 Contemporâneo dos sofi stas, Sócrates aparece como o mais radical crítico dessa orientação, questionando o ceticismo e o relativismo daqueles, a sua rejeição à procura da verdade e a valorização exclusiva da técnica do bem–falar. Sócrates foi um crítico radical da concepção sofística de docência. De origem humilde, fi lho de uma parteira, Fenareta, e de um escultor, Sofronisco, Sócrates conseguiu ter uma educação elevada, como a que era outorgada aos jovens aristocratas gregos. Destacou-se pela sua integridade moral, exaltada por Platão, que lhe dedicou um livro; nessa obra aparece o emocionado relato do seu julgamento e posterior condenação à morte, por ter sido acusado de negar os deuses da cidade, introduzindo outros deuses, e por corromper a juventude ateniense com os seus ensinamentos. Em Apologia de Sócrates é relatada a sobriedade, a tranqüilidade e a coragem com que SÓCRATES enfrentou o tribunal ateniense, sem deixar de lado suas convicções, mesmo à custa de sua vida. Quem era Sócrates? Era um mestre itinerante, que ia de praça em praça, de lugar em lugar, sempre entre pessoas simples, trabalhadores, escravos, dialogando principalmente com jovens ávidos pelo saber. Parecia uma fi gura curiosa; sendo pobre, vestia-se simplesmente, não cobrava pelo ensino, o que chocava os políticos, juristas e principalmente os sofi stas, que só queriam ensinar a pessoas da alta sociedade que pagassem por suas aulas. Essa fi gura curiosa realizou uma crítica profunda da sofística, da sua forma de ensinar, dos seus conceitos éticos e cognoscitivos relativistas e céticos. Ele pretendia uma reforma radical nos costumes e nos valores da sociedade daquela época relativista, em que todas as convicções estavam em crise. O relativismo e o ceticismo minaram todos os princípios dessa sociedade. Colega de caminhada, essa ausência de parâmetros parecia intolerável a Sócrates. Qual seria, para ele, o objetivo da docência, do conhecimento? Ora, seria atingir a verdade, mostrar os valores legítimos que devem gerir os indivíduos e a comunidade, estabelecer os parâmetros éticos. SÓCRATES De origem humilde, teve cultura elevada, mas sua prédica docente foi dirigida às camadas mais populares: trabalhadores, artesãos, escravos e jovens. Ele ensinava por amor e afi nidade, diferentemente dos sofi stas, que cobravam elevadas somas. O ensino socrático pode ser considerado “popular”. Contudo, não se recusava a discutir e refl etir com os aristocratas e poderosos. Aula_18.indd 44 10/29/2004, 1:56:27 PM C E D E R J 45 A U LA 18 CONHECE-TE A TI MESMO O ponto de partida para todo aprendizado, segundo Sócrates, é o autoconhecimento. É preciso conhecer as próprias limitações, virtudes e defeitos, antes de opinar sobre qualquer questão: é preciso o recolhimento, antes de falar de outras questões. Sócrates desejava que todo cidadão sofresse uma transformação ética na sua forma de agir e também de conhecer. Para tanto, era preciso transformar-se, cuidar da alma e do conhecimento, e não só do poder, do lucro e dos benefícios, como procurava a sofística. Qual seria o ponto de partida socrático para chegar à verdade? Era preciso partir do autoconhecimento. Diante de tanta retórica, de tantas discussões com frases bonitas e convincentes, o cidadão estava faminto de verdades; ele não sabia mais quem era quem naquela sociedade. Daí o primeiro passo socrático ser “CONHECE-TE A TI MESMO”. Diante da tagarelice sofística, era preciso a humildade de se recolher em si mesmo, que cada um se perguntasse quem era e quais eram os próprios valores e as próprias verdades. Isso chocava os poderosos, que pretendiam falar de tudo e dominar todos. Imagine os militares, políticos, juristas e outros poderosos de Atenas desafi ados por um “maltrapilho” a lhes mandar parar de falar de tudo e a se limitarem, inicialmente, a realizar um exame de consciência! Isso escandalizou muita gente, gerou inveja, ressentimentos contra Sócrates, o que o levou a julgamento e posterior condenação à morte. Ele usava a IRONIA, afi rmando “Só sei que nada sei”, instigando os outros a reconhecerem a própria ignorância. Também abalava os atenienses quando afi rmava ter a missão divina de ensinar e de instigar os cidadãos a pensar. Por isso, ainda agora procuro e investigo segundo a vontade do deus, se algum dos cidadãos e dos forasteiros me parece sábio; e, quando não, indo em auxílio do deus, demonstro-lhe que não é sábio (Apologia de Sócrates, pp. 47-48). Sócrates acreditava que, conforme uma profecia do oráculo de Delfos – que afi rmava ser ele o homem mais sábio de Atenas –, ele, por reconhecer a própria ignorância, era obrigado a questionar a ignorância e as vendas dos olhos dos outros. Tratava-se de uma missão. Veja, companheiro de viagem, que aqui surge um conceito diferente de docência: ser docente por VOCAÇÃO (este termo, aliás, está carregado IRONIA “Só sei que nada sei” é outra máxima socrática. Ele afi rma nada saber para ironizar aqueles que pretendem saber tudo e opinar sobre tudo – como os sofi stas–, para obrigá-los ao recolhimento, ao auto-exame e à eliminação dos preconceitos e das opiniões dogmáticas e já cristalizadas. VOCAÇÃO Signifi ca chamado de uma “voz” interior. Sócrates acreditava que o deus Apolo o instigava a provocar os cidadãos de Atenas a exercer sua atividade fi losófi ca e docente de forma incondicional. Ele lembra o Oráculo de Delfos (dedicado ao deus Apolo), que teria incentivado a sua “missão” fi losófi ca. Aula_18.indd 45 10/29/2004, 1:56:29 PM C E D E R J46 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 2 de uma forte conotação religiosa, no sentido de ser “chamado de Deus” para exercer um apostolado) ou por missão. Há uma voz – para Sócrates, seria a palavra do deus Apolo que o chamava a ensinar – que convoca o indivíduo a exercer a profi ssão, a cumprir uma missão. Essa conotação religiosa que o termo continha foi perdendo o vigor ao longo do tempo; hoje, quando se fala em vocação docente, não se está referindo necessariamente a um “chamado de Deus”, mas a algo muito íntimo relacionado à história do indivíduo, a seu percurso vital, que o convoca a ensinar. Como é a docência socrática? É aquela realizada por amor, por vocação, por convicção fi losófi ca. Não aceita dinheiro para ser realizada, considera os sofi stas “prostitutos”, por venderem o saber. O essencialé a dinâmica interativa do método didático socrático. Como se relaciona o mestre com o discípulo? Através de perguntas e respostas; não é um método dogmático. O mestre não é um detentor do saber, mas procura saber “junto com” o discente. Como se chama esse método didático? Dialética: o que signifi ca que a verdade e o conhecimento surgem no diálogo, na refl exão conjunta. O mestre não ensina; ele deve saber perguntar, para que o discente chegue à verdade. Caro companheiro de viagem, aqui chegamos ao ponto mais original da proposta didática de Sócrates, que ainda hoje infl uencia a Educação. A dialética terá, como corolário, a MAIÊUTICA. O que é maiêutica? Aqui, Sócrates brinca um pouco com a profi ssão da sua mãe, Fenareta, que era parteira. Ele afi rma não ser sábio, mas ajuda a parir as idéias dos outros. Ele seria “estéril” em sabedoria, mas ajudaria os outros a obter o próprio conhecimento, as próprias defi nições sobre o que é ético, justo ou injusto, verdadeiro ou falso. Estamos quase chegando ao fi nal da viagem nesta segunda caminhada pela “Origem da profi ssão docente”. A DOCÊNCIA SOCRÁTICA é essencialmente interativa, participativa. O seu método é a dialética: o diálogo entre docente e discente, que leva à produção conjunta do conhecimento. MAIÊUTICA Termo grego que alude à técnica do parto. Sócrates o utiliza para defi nir o seu método de ajudar a “dar à luz as idéias” de seus alunos. Ele só atuava como “parteiro”; não colocava as suas próprias doutrinas, mas através de perguntas estimulava os discentes a encontrar as próprias respostas, a “parir” seus próprios conceitos. Aula_18.indd 46 10/29/2004, 1:56:30 PM C E D E R J 47 A U LA 18 E em que consiste a maiêutica socrática? Consiste em ajudar o outro a obter seus próprios conhecimentos, por meio de perguntas. Assim, um escravo, protagonista do diálogo platônico Ménon, consegue resolver o teorema de Pitágoras sem ter nenhuma noção prévia de Matemática. O que fez Sócrates? Ajudou o escravo a construir o próprio conhecimento. O docente deve perguntar, indagar, conduzir o processo, e não impor verticalmente suas verdades. A maiêutica, arte do parteiro do conhecimento, estabelece um método ativo e participativo na Educação. O mestre não transmite saberes; ajuda a procurá-los, a construí-los. A relação dialógica socrática mostra que docente e discente aprendem juntos, na prática de ensino/aprendizagem. A Educação é um caminho de mão dupla: educando, nos educamos; somos docentes/dis- centes ou discentes/docentes. Esse método socrático teve ecos e ressonâncias em muitas correntes contemporâneas de ensino. Paulo Freire e sua concepção libertadora da Pedagogia, M. Lipman e sua “comunidade de investigação” têm algumas afi nidades com a dialética socrática. R E S U M O Os sofi stas foram os primeiros professores profi ssionais do Ocidente; neles está a origem da docência, entendida como trabalho específi co remunerado. Sócrates, por sua vez, apresentou outra concepção de docência, baseada no amor ao discípulo, na procura conjunta da verdade, no diálogo, na interação com o aluno. Aula_18.indd 47 10/29/2004, 1:56:30 PM C E D E R J48 Fundamentos da Educação 3 | A origem da profi ssão docente – Parte 2 EXERCÍCIOS Futuro docente, companheiro nestas caminhadas às origens da Educação, sugerimos, agora, que cheque seus conhecimentos sobre esse percurso. Para tanto, tente resolver estas questões: 1. Explique por que a poesia era o principal meio de Educação na Grécia de Homero e Hesíodo. 2. Comente as condições históricas do surgimento da sofística. 3. Analise as características do ensino sofístico. 4. Analise as características do ensino socrático. AUTO-AVALIAÇÃO Caro professor, se você conseguiu responder sem difi culdades às quatro questões acima, parabéns! Pode imediatamente passar para a aula seguinte. Se conseguiu responder com alguma difi culdade, você precisa realizar mais uma leitura atenta, antes de prosseguir a caminhada para a próxima estação. Aula_18.indd 48 10/29/2004, 1:56:30 PM A formação do educador no Brasil (1835-1932) Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: • Identifi car as condições sócio-político-culturais que possibilitaram o aparecimento das primeiras Escolas Normais brasileiras. • Compreender os princípios que embasavam a formação dos educadores nas primeiras Escolas Normais brasileiras. Pré-requisito Conhecer o conteúdo das Aulas 17 e 18, porque contêm informações que podem explicar a trajetória da profi ssão docente ao longo da história. ob jet ivo s Meta da aula Analisar as condições sócio-político- culturais que possibilitaram a criação das escolas normais, onde se deveria formar e profi ssionalizar o professor. 19AULA Aula_19.indd 49 10/29/2004, 1:57:12 PM C E D E R J50 Fundamentos da Educação 3 | A formação do educador no Brasil (1835-1932) Vamos continuar a nossa viagem de trem. Nas Aulas 17 e 18 você conheceu os princípios que estiveram presentes na constituição da profi ssão docente, qual era o papel atribuído ao professor e como este exercia a sua atividade. Agora vamos prosseguir a nossa viagem, admirar uma nova paisagem da janela de nosso trem. Chegamos ao Brasil e queremos saber como foi a formação do educador brasileiro, a partir da fundação da primeira Escola Normal brasileira, em 1835, no município de Niterói. Por que escolhemos esse marco histórico, a fundação da primeira Escola Normal, para explicar a formação do educador no Brasil? As Escolas Normais, desde o momento de sua criação, foram instituições importantes para a divulgação do saber, das normas e técnicas necessárias à formação dos professores; elas tornaram-se um ÉTHOS que elabora uma cultura pedagógica para a formação do professor. AS CONDIÇÕES SÓCIO-HISTÓRICAS QUE POSSIBILITARAM O APARECIMENTO DAS PRIMEIRAS ESCOLAS NORMAIS NO BRASIL A escola, nas nações fortes, é a ofi cina da nacionalidade. É nela que se forja a têmpera de aço dos povos que conduzem a civilização. (CARNEIRO LEÃO, 1918) No mundo contemporâneo, a escola tornou-se uma instituição importante, um local que tem como fi nalidade transmitir conhecimentos para reproduzir ou transformar normas sociais e políticas. Por meio de suas práticas e conteúdos pedagógicos, ela cria uma cultura pedagógica responsável pela construção da identidade daqueles que a freqüentam. Por isso, as Escolas Normais, desde o momento de sua criação, têm sido responsáveis pela elaboração de normas e práticas educativas para construir a identidade do professor. As Escolas Normais começaram a aparecer no Brasil a partir da terceira década do século XIX. Em 1835 em Niterói, em 1836 na Bahia, em 1845 no Ceará e em 1846 em São Paulo. Até então, um dos principais problemas da Educação Brasileira era a existência de professores improvisados, com péssima formação e mal remunerados. Não existiam projetos consistentes visando à ampliação da escolaridade elementar e, conseqüentemente, não havia uma proposta de qualifi cação do professor. ÉTHOS Ambiência sociocultural ou modo de ser. INTRODUÇÃO ANTONIO CARNEIRO LEÃO O Brazil e a educação popular. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1918. Aula_19.indd 50 10/29/2004, 1:57:15 PM C E D E R J 51 A U LA 19 Mas o quê, então, provocou a proliferação de Escolas Normais no Brasil, a partir da década de 1930 do século XIX? Nesse período, o país passava por uma forte efervescência no campo político-cultural. D. Pedro I tinha abdicado, o Brasil estava independente politicamente, mas precisava consolidar a soberania nacional por meio de um Império que mostrasse uma face mais brasileira do que portuguesa. É um momento de intensa movimentação de idéias, quando surge a luta entre o grupo da reação que pretendia uma espécie de recolonização do Brasil e o grupo que lutavapela consolidação da autonomia brasileira. Nesse momento, podíamos detectar três tendências político-sociais: os conservadores, os liberais exaltados e os liberais moderados (VIOTTI, 1985). Os conservadores representavam os interesses do primeiro Império brasileiro, cujo representante era D. Pedro I. Defendiam o despotismo português, mas com a abdicação de D. Pedro I, em 1831, e sua morte, em 1834, essa tendência entrou em decadência. Os liberais exaltados sonhavam com os ideais da Revolução Francesa, lutavam pela igualdade e pela liberdade, com efetiva aplicação desses ideais numa monarquia constitucional ou em uma assembléia popular. Essa facção começou a incomodar, tornando-se uma ameaça; temia-se uma revolta de caráter mais popular. Assim, ganharam expressão os liberais moderados, que propunham um liberalismo dentro da ordem para construir uma nação harmônica e equilibrada. O Ato Adicional de 1834 representava a vitória desse liberalismo com ordem, onde princípios liberais comungavam com princípios mais conservadores. EMÍLIA VIOTTI COSTA Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Brasiliense, 1985. ! Sugestão: Sugerimos que você assista ao fi lme Mauá, o rei do Brasil. Esse fi lme discute as condições econômicas, políticas e sociais no período do Império no Brasil, mostrando como os liberais conservadores acabaram prevalecendo na política do Império brasileiro. Observe como o Barão de Mauá tentou criar uma economia dentro dos princípios do capitalismo industrial e suas ações são derrotadas. O fi lme mostra como a política imperial preferiu o caminho mais conservador. Aula_19.indd 51 10/29/2004, 1:57:30 PM C E D E R J52 Fundamentos da Educação 3 | A formação do educador no Brasil (1835-1932) A partir do Ato Adicional de 1834, foi proposta a descentralização administrativa e a escolha dos presidentes das PROVÍNCIAS deveria ser feita pelo governo central. Gradativamente, foi se construindo o Império nacional de acordo com um liberalismo conservador. Com a proposta de descentralização do Ato Adicional de 1834, cada província tornou-se responsável pela organização dos seus sistemas de ensino primário e secundário. Assim, criou-se uma grande diversidade no INCREMENTO da instrução elementar e secundária, porque somente as províncias com recursos fi nanceiros e projetos voltados para a implantação da instrução primária e secundária dariam um passo à frente na efetivação desses graus de ensino. Nas províncias de poucos recursos, a instrução elementar e secundária permaneceu apenas como uma promessa. Mas, mesmo com limitações, o Império começou a demonstrar preocupação com a instrução. De acordo com VILLELA (1990, p. 120), mesmo de modo seletivo, a instrução era importante para: romper com as trevas que caracterizavam o passado colonial, superando a barbárie dos sertões e a desordem das ruas, estabelecendo assim o primado da razão. Coube à província do Rio de Janeiro a primazia na implementação da primeira Escola Normal das Américas. Em 1835, no município de Niterói, promulgou-se a Lei nº 10/1.835, que organizou o Ensino Normal e estabeleceu as normas para aqueles que pretendiam se candidatar à Escola Normal. Deveria ser cidadão brasileiro, maior de dezoito anos, com boa morigeração (art. 4º) e que soubesse ler e escrever. A boa MORIGERAÇÃO relacionava-se com a boa conduta, à moral e aos bons costumes. Chama-nos a atenção o destaque dado à moral e à boa conduta, que deveriam ser avalizadas por um juiz de paz, e as poucas exigências com relação à instrução: apenas ler e escrever. Havia uma preocupação explícita na formação de um professor que pudesse conduzir a mocidade segundo os princípios da ordem e da boa conduta. Nas discussões parlamentares do Império, alguns deputados defendiam a necessidade de formar professores que pudessem DISSEMINAR a ordem e a CIVILIDADE. A formação intelectual do professor não foi uma preocupação efetiva desse primeiro projeto de Escola Normal no município de Niterói. Na verdade, a intenção era a formação de professores que pudessem difundir nas camadas populares a civilidade e a ordem, impregnar a sociedade com uma espécie de moral universal. No século XIX, os estados recebiam a denominação PROVÍNCIA e seus dirigentes eram chamados presidentes. INCREMENTO Desenvolvimento, crescimento. HELOISA DE OLIVEIRA SANTOS VILLELA A primeira Escola Normal no Brasil: uma contribuição à história da formação de professores no Brasil. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1990. MORIGERAR Ensinar ou adquirir bons costumes. DISSEMINAR Difundir, propagar. CIVILIDADE Conjunto de normas e formalidades que regulam a vida dos cidadãos, de modo que eles convivam de acordo com princípios que levem ao respeito mútuo. Aula_19.indd 52 10/29/2004, 1:57:30 PM C E D E R J 53 A U LA 19 Trecho do relatório de Paulino José Soares de Souza. In: VILLELA, Heloísa de Oliveira Santos. A primeira Escola Normal no Brasil: uma contribuição à história da formação de professores no Brasil. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1990, p.155. A Escola Normal do município de Niterói deveria ser um centro formador de professores que teriam a missão de auxiliar na ordenação moral da sociedade. Essa preocupação parece ser uma constante, no século XIX, em outros projetos de Escolas Normais no Brasil. Por exemplo: a primeira Escola Normal de São Paulo, fundada em 1846, era conduzida por um único professor, Manuel José Chaves, professor de Filosofi a e Moral. A formação desse professor deve ter sido o fi o condutor do curso ministrado nessa instituição. Na reforma elaborada pelo Ministro do Império, Luiz Pedreira do Couto Ferraz, apareciam exigências rigorosas para o exercício do magistério público e particular. O professor devia apresentar provas de moralidade e capacidade para ocupar a cadeira de professor. Quanto à mulher que se dispunha a educar, as exigências morais atingiam a vida privada. No artigo 16 da Lei Couto Ferraz, de 1854, estão as condições exigidas para que uma professora pudesse lecionar: As professoras devem exibir, de mais, se casadas, a certidão do seu casamento; se viúvas, a do óbito de seus maridos; e se viverem separadas destes, a pública sentença que julgar a separação, para se avaliar o motivo que a originou. As solteiras só poderão exercer o magistério público tendo 25 anos completos de idade, salvo se ensinarem na casa dos pais e estes forem de reconhecida moralidade. Além de atestados, folhas corridas e certidões, o professor deveria apresentar um vestuário decente, porque sua aparência também atestava sua boa conduta e moralidade. Assim, até praticamente o fi nal do século XIX, a tarefa do professor deveria ser a condução moral, principalmente das camadas populares. Intenção que, desde a primeira metade do século XIX, estava explícita nos documentos de alguns dirigentes de província. No relatório de 1839, o presidente da província do Rio de Janeiro, Paulino José Soares de Souza, sugeria: é preciso, portanto, juntar à instrução primária a educação e educar o povo, inspirar-lhe sentimentos de religião e moral, melhorando-lhe assim, pouco a pouco, os costumes. BRASIL Lei Couto Ferraz. Decreto nº 133, de 16 de fevereiro de 1854. Aula_19.indd 53 10/29/2004, 1:57:30 PM C E D E R J54 Fundamentos da Educação 3 | A formação do educador no Brasil (1835-1932) A questão da ordem e da moralização cabia naquele momento histórico brasileiro porque o Brasil, de 1817 a 1888, estava sendo sacudido por vários levantes e insurreições de caráter social e político. O contexto sociocultural brasileiro passava por transformações signifi cativas: a disseminação de idéias liberais e republicanas; a eclosão de vários movimentos abolicionistas e adiscussão, nas academias, das idéias EVOLUCIONISTAS e POSITIVISTAS. Essa efervescência político-cultural possibilitou a ampliação da discussão sobre a escola pública elementar e a importância das Escolas Normais para a qualifi cação do professor. Nesse contexto, começaram a proliferar as Escolas Normais brasileiras, sendo a Escola Normal de Niterói um marco importante nesse processo de institucionalização e legitimação da Escola Normal, porque tornou-se um local fundamental para a formação do professor. A partir de 1870, notamos duas medidas que caracterizaram uma mudança cultural nos rumos da Educação: a exigência de prédios próprios para a instalação de escolas e a defi nição da Escola Normal como o local mais adequado para formar professores qualifi cados, porque não se podia mais admitir professores improvisados e desqualifi cados. De acordo com esse espírito, apareceram cinco Escolas Normais em Minas Gerais. A reforma da instrução primária de 1873, da província do Espírito Santo, sugeriu a criação de uma Escola Normal. Em 1874, foram criadas as Escolas Normais da província do Rio Grande do Norte e do Município Neutro do Rio de Janeiro e, no ano de 1882, a da província do Amazonas. A proliferação dessas escolas indicou uma mudança cultural quanto à formação do educador. EVOLUCIONISMO Doutrina fi losófi ca baseada no conceito de evolução como lei geral da vida e da sociedade, que se nega a admitir a explicação religiosa de uma criação inicial. POSITIVISMO Doutrina criada por Augusto Comte (1798-1857), que acreditava que uma verdadeira ciência analisa todos os fenômenos, mesmo os humanos, como fatos, e de modo neutro. Afi rmava que a sociedade era regida por leis naturais, em harmonia. De acordo com ele, a humanidade passou por três etapas: o Estado Teológico; o Estado Metafísico e o Estado Positivo. Comte criou a denominação sociologia para o estudo da sociedade. A sociologia, para Comte, seria uma espécie de física social. ATIVIDADES a) Procure saber se na sua cidade há Escolas Normais; caso haja, pesquise quando elas foram criadas e quais os princípios que norteavam a proposta pedagógica dessas escolas. b) Verifi que se a qualifi cação do professor, no que se refere à profundidade de seus conhecimentos e à sua prática pedagógica, melhorou ou não após a implantação dessas Escolas. De posse dessas informações, converse com seus colegas no Fórum de Discussão para conhecer não somente as diferentes propostas das Escolas Normais, nas diversas regiões de seu estado, como também para verifi car se houve ou não melhoria na qualifi cação do professor oriundo dessas escolas. Aula_19.indd 54 10/29/2004, 1:57:31 PM C E D E R J 55 A U LA 19 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO RIO DE JANEIRO (1874-1932) A Escola Normal é um estabelecimento de ensino profi ssional: tem por fi m dar aos candidatos a carreira do magistério primário, a educação intelectual, moral e prática necessária e sufi ciente para o bom desempenho dos deveres do professor, regenerando progressivamente a escola pública de instrução primária. (Artigo 1 do Decreto nº 407, de 17 de maio de 1890) A Escola Normal Livre foi a primeira experiência do MUNICÍPIO DA CORTE DO RIO DE JANEIRO para formar professores mais qualifi cados. Funcionou de março de 1874 a 20 de dezembro de 1875; era particular, mas recebia subsídios do governo; por isso seu ensino era gratuito. Em 1876, por meio do decreto nº 6.379, o ministro do Império José Bento da Cunha Figueiredo tentou instalar Escolas Normais públicas: uma, em regime de externato, para professores, e outra, em regime de internato, para professoras primárias. Mas a Escola Normal, pública e gratuita, do Município da Corte do Rio de Janeiro, concretizou-se somente em 1880. Por meio do decreto nº 8.025, de 16 de março de 1881, regula- mentou-se fi nalmente toda a estrutura da Escola Normal do Rio de Janeiro; é interessante observar que esse grau de ensino compreendia dois cursos: o de ciências e letras e o de artes. Esses cursos eram ministrados em quatro séries. Observamos uma tentativa de conceder ao professor uma formação de caráter científi co. Tal intenção fi cou explícita na proposta de seu diretor interino, Benjamin Constant: difundir por todas as classes da nossa sociedade uma larga e sólida instrução que inicie o cidadão nos grandes e úteis resultados nos domínios da atividade científi ca, industrial e social, dando-lhes noções claras, seguras e bem coordenadas sobre as coisas e sobre o homem para esclarecer-lhe a inteligência e dirigir a sua conduta (CONSTANT, apud SILVEIRA, 1954:10). Nesse discurso de Benjamin Constant, encontramos subsídios para compreender como se pretendia formar o professor: uma formação fundamentada na visão científi ca e que reforçasse a idoneidade moral. Tal intenção podia ser confi rmada por meio das exigências que deviam ser cumpridas para ingressar na Escola Normal: 1. apresentar certidão de idade, que comprovasse a idade de 16 anos para rapazes e 15 anos para moças; 2. a aprovação num exame de admissão que medisse a capacidade O município do Rio de Janeiro, no século XIX, era conhecido como MUNICÍPIO DA CORTE ou Município Neutro. Em 6 de março de 1880, o ministro do Império Antônio da Costa Pinto e Silva assinou o decreto nº 7.684, criando no Município da Corte a Escola Normal. A cerimônia de inauguração foi realizada em 5 de abril de 1880, no salão do Externato Pedro II. Trecho do discurso de Benjamin Constant na inauguração da Escola Normal do Município da Corte, em 5 de abril de 1880. In: SILVEIRA, Alfredo Baltazar. História do Instituto de Educação. Rio de Janeiro: Secretaria Geral de Educação e Cultura. Prefeitura do Distrito Federal, 1954. Aula_19.indd 55 10/29/2004, 1:57:32 PM C E D E R J56 Fundamentos da Educação 3 | A formação do educador no Brasil (1835-1932) de leitura, escrita, noções de gramática e de aritmética; 3. apresentar um atestado de moralidade referendado pelo pároco ou padre local ou por duas pessoas conceituadas da Corte. Assim, idoneidade moral e formação científi ca marcaram a primeira proposta de ensino público e gratuito da Escola Normal do Município da Corte do Rio de Janeiro. Em 1888, houve uma mudança curricular na Escola Normal do Rio de Janeiro: esta modalidade de ensino passou a ser ministrada em três séries, e em todas elas era obrigatório o estudo da disciplina Instrução Moral e Cívica. Na Reforma Benjamin Constant, em 1890, apareceu também uma disciplina para a formação cívica e moral: Sociologia e Moral. A partir do final do século XIX e no início do século XX, observamos uma dupla preocupação no processo de formação do professor: a profi ssionalização e uma nova formação moral e social daquele que pretendia ensinar. Nas discussões educacionais estava presente a preocupação com o despreparo, o desprestígio e a improvisação dos professores que deveriam atuar na escola elementar. Os debates realizados na década de 20 do século XX pela ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO (ABE), e as reformas educacionais realizadas por FERNANDO DE AZEVEDO e ANÍSIO TEIXEIRA têm como pano de fundo uma mudança profunda e signifi cativa da escola elementar e, conseqüentemente, na formação de seus educadores. A tarefa de educar não podia ser atribuída a qualquer pessoa. Precisava-se de educadores com visão intelectual e social, com efi ciência e técnica apurada. Nesse período, havia uma profunda crença no poder transformador da escola, e o educador seria um mediador dessa transformação. As Escolas Normais deveriam ser instituições que promoveriam uma cultura pedagógica para mudar a mentalidade com relação à escola elementar e, principalmente, a formação do educador. Era preciso criar procedimentos pedagógicos que mudassem o perfi l do professor. A busca de uma nova identidade para o professor