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Brasília-DF. Fitoterapia nas DesorDens orgânicas Elaboração Juliana Lopez de Oliveira Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APrESEntAção ................................................................................................................................. 4 orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 5 introdução.................................................................................................................................... 7 unidAdE i FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL ...................................................................... 9 CAPítulo 1 DESORDENS DA MucOSA ORAL ............................................................................................... 9 CAPítulo 2 DESORDENS GáSTRIcAS......................................................................................................... 11 CAPítulo 3 DESORDENS INTESTINAIS ......................................................................................................... 16 CAPítulo 4 DESORDENS hEPáTIcAS E bILIARES ......................................................................................... 23 CAPítulo 5 DISPEPSIA ............................................................................................................................... 34 unidAdE ii FITOTERAPIA EM DESORDENS cARDIOVAScuLARES .............................................................................. 36 CAPítulo 1 DOENçAS cARDIOVAScuLARES DEGENERATIVAS ................................................................... 37 CAPítulo 2 DOENçAS VAScuLARES cEREbRAIS E PERIFéRIcAS ................................................................. 40 CAPítulo 3 DISTúRbIOS cIRcuLATóRIOS ................................................................................................... 44 CAPítulo 4 DISLIPIDEMIA .......................................................................................................................... 47 unidAdE iii FITOTERAPIA EM DESORDENS RESPIRATóRIAS ........................................................................................ 52 CAPítulo 1 INFLAMAçõES AGuDAS E cRôNIcAS DAS VIAS RESPIRATóRIAS .............................................. 53 CAPítulo 2 GRIPES E RESFRIADOS ............................................................................................................ 57 unidAdE iv FITOTERAPIA EM DESORDENS RENAIS, DAS VIAS uRINáRIAS E PRóSTATA ................................................. 59 CAPítulo 1 INFEcçõES DAS VIAS uRINáRIAS ............................................................................................ 60 CAPítulo 2 hIPERPLASIA bENIGNA DE PRóSTATA ....................................................................................... 62 unidAdE v FITOTERAPIA EM DESORDENS REuMáTIcAS E GOTA ............................................................................. 65 CAPítulo 1 ARTRITE REuMATOIDE E GOTA ................................................................................................. 65 unidAdE vi FITOTERAPIA EM DESORDENS DO SISTEMA NERVOSO E PSIQuE ............................................................. 73 CAPítulo 1 DESORDENS DO SISTEMA NERVOSO E PSIQuE ........................................................................ 73 unidAdE vii FITOTERAPIA EM DESORDENS ENDócRINAS E METAbóLIcAS ................................................................ 83 CAPítulo 1 ObESIDADE E DIAbETES ........................................................................................................... 83 CAPítulo 2 DISTúRbIOS TIREOIDIANOS ...................................................................................................... 92 PArA (não) finAlizAr ..................................................................................................................... 98 rEfErênCiAS .................................................................................................................................. 99 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para refl exão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao fi nal, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fi m de que o aluno faça uma pausa e refl ita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifi que seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As refl exões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, fi lmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de � xação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fi xação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verifi car a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certifi cação. Para (não) � nalizar Texto integrador, ao fi nal do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 introdução A fitoterapia constitui uma forma deterapia medicinal que vem crescendo notadamente neste começo do século XXI. Segundo a Portaria no 971, de 3 de maio 2006, do Ministério da Saúde, a fitoterapia é uma terapêutica caracterizada pelo uso de plantas medicinais em suas diferentes formas farmacêuticas, sem a utilização de substâncias ativas isoladas, ainda que de origem vegetal. De acordo com a Resolução RDC no 14, de 31 de março de 2010, emitida pela ANVISA, são considerados medicamentos fitoterápicos os obtidos com emprego exclusivo de matérias-primas ativas vegetais, cuja eficácia e segurança são validadas por meio de levantamentos etnofarmacológicos, de utilização, documentações tecnocientíficas ou evidências clínicas. Os medicamentos fitoterápicos são caracterizados pelo conhecimento da eficácia e dos riscos de seu uso, assim como pela reprodutibilidade e constância de sua qualidade. O Brasil, com seu amplo patrimônio genético e sua diversidade cultural, têm em mãos a oportunidade para estabelecer um modelo de desenvolvimento próprio e soberano no Sistema Único de Saúde (SUS) com o uso de plantas medicinais e fitoterápicos. Esse modelo deve buscar a sustentabilidade econômica e ecológica, respeitando princípios éticos e compromissos internacionais assumidos e promovendo a geração de riquezas com inclusão social. A aplicação da fitoterapia é amplamente discutida atualmente por diversos profissionais da área da saúde, pois, apesar do seu uso tradicional na medicina popular, a regulamentação do uso de fitoterápicos no Brasil ainda está sendo desenvolvida e o conhecimento científico é fundamental para a correta utilização dessa forma terapêutica. As plantas contêm diversos princípios ativos, que podem ou não trazer benefícios ao ser humano, portanto existe uma grande necessidade de capacitação profissional na área para prescrição segura de plantas medicinais e fitoterápicos por meio de cursos de especialização, congressos, leitura de artigos científicos e filiação a instituições de classe que estabeleçam regulamentações, reciclem e fortaleçam o conhecimento nessa área. objetivos » Analisar, refletir e formar sólido conhecimento a respeito da utilização de plantas medicinais e fitoterápicos em diferentes desordens orgânicas. » Apresentar os principais fitoterápicos utilizados tradicionalmente nas mais variadas desordens orgânicas. » Analisar os mecanismos, posologia, indicações e contraindicações do uso de fitoterapia nas mais variadas desordens orgânicas. 9 unidAdE i fitotErAPiA EM dESordEnS do trAto gAStrintEStinAl A fitoterapia e os seus fitomedicamentos apresentam um amplo espectro de indicações para as doenças gastroenterológicas e vem se firmando como uma estratégia terapêutica de prevenção e tratamento de diversas desordens. As vantagens do uso da fitoterapia nessas desordens são inúmeras. Dentre elas o alto custo dos medicamentos alopáticos, além de apresentarem maiores efeitos adversos. CAPítulo 1 desordens da mucosa oral desordens bucais Uma das doenças orais mais comuns, a cárie é de etiologia multifatorial e pode desencadear a uma destruição localizada nas estruturas dentais. A fermentação dos carboidratos na boca por micro-organismos provoca uma queda acentuada no pH de 7.0 para menos de 5.5, ocorrendo dismineralização da superfície do esmalte. A produção e liberação de endotoxinas e ativação de monócitos e macrófagos, resultantes da destruição do tecido periodontal, provoca a liberação de fatores inflamatórios que levam a reabsorção do osso alveolar e destrói o tecido conectivo (GATI; VIEIRA, 2011). Diversos fitoterápicos possuem efeitos terapêuticos sobre a atividade antimicrobiana documentadas. A indústria odontológica passou a utilizá-los em cremes dentais com bons resultados no controle das doenças orais, principalmente a cárie. Diversos cremes dentais no mercado compostos por fitoterápicos como aloe vera, gengibre, chá verde, própolis, mirra, alecrim, entre outros, uma vez que podem atuar na redução da inflamação de gengiva e apresentar efeitos antimicrobianos, antifúngicos e antiulcerogênicos na mucosa oral, bem como ser estimulante de cicatrização da mucosa (LEE; ZHANG; LI, 2004). 10 unidAdE i │fitotErAPiA EM dESordEnS do trAto gAStrintEStinAl Tabela 1. Fitoterápicos benéficos na prevenção de cáries e periodontite Nome popular/botânico Família/ parte utilizada Efeitos Cranberry/Vaccinium oxycoccus ou Vaccinium macrocarpon Ericaceae/ Frutos Efeito benéfico na inibição de patógenos orais após contato com a mucosa oral. Interfere na redução da hidrofobicidade (importante aspecto na capacidade de adesão da bactéria) no S. mutans, formação de biofilme e produção de ácido pelo S. mutans. Cacau/Teobroma cacao Malvaceae/ Semente Solução de enxágue oral à base de cacau em pó trouxe efeitos positivos na prevenção das cáries, reduzindo a formação de biofilme e a produção de ácido pelo S. mutans e S. sanguinis. Café/Coffea arabica Rubiaceae/ Semente Os compostos fenólicos presentes em Solução aquosa fervida e não fervida de café, apresentam efeito anticariogênico. O componente responsável pela sua ação antiaderente é a trigonelina (alcalóide presente no café que dá o aroma e o sabor característicos a partir da torrefação dos grãos). Chá verde/Camelia sinensis Theaceae/ Folhas Possui efeito bactericida em bactérias orais, previne a aderência de bactérias na superfície dos dentes e provoca inibição da produção de glucanas. Os efeitos são atribuídos a epicatequina, epicatequinagalato e epigalocatequina3galato. Zedoária/Curcuma zedoaria Zingiberaceae/ Rizoma Curcuma zedoaria tem atividade antimicrobiana semelhante a produtos a base de clorexidina, triclosan. As doses recomendadas variam de 250mg/dia a 1.000mg/dia (extrato seco) via oral ou 5 mL (tintura, divididos em 2 doses diárias) ou 1 colher de chá do rizoma seco para um xícara de chá de água, até três vezes ao dia (decocto). Erva doce/ Foeniculum vulgare ou Pimpinella anisum Umbelliferae/ Folhas » Ambos apresentam atividade antimicrobiana quando usados sob a forma de óleo essencial, de maneira isolada ou combinada com óleo essencial de Thymus vulgaris (tomilho), exercendo efeitos antibacterianos sobre Staphylococus aureus, Bacillus cereus, Pseudomonas aeruginosa e Proteus vulgaris. Um estudo testou o efeito antibacteriano contra 176 bactérias de 12 gêneros diferentes que foram isoladas da cavidade oral de 200 indivíduos, utilizando a decocção de erva doce (Pimpinella anisum), pimenta preta (Piper nigrum), cominho (Cuminum cyminum) e louro (Laurus nobilis). A maior inibição de toxina bacteriana exibida foi com a pimenta preta (75%), seguida pelo louro (53,4%) e erva doce (18,1%), enquanto que o cominho não mostrou nenhum efeito antibacteriano sobre as cepas testadas, mostrando, nessas situações, a superioridade de se utilizar a pimenta e o louro, do que a erva doce. Por outro lado o cominho apresenta em testes in vitro atividade antifúngica oral. O óleo essencial do cominho possui atividade antifúngica testada em dermatófilos, fitopatógenos, fungos, leveduras e alguns novos aspergillos. Outras associações que podem ser feitas para o tratamento de inibição aos fungos é com óleo de tea tree e de hortelã. Cominho/Cuminum cyminum L Apiaceae/ sementes Pimenta preta/Piper nigrum Piperacenae/ fruto Fontes: Koo et al., 2010; bodet et al., 2008; Ferrazzano et al., 2009; bugno et al., 2007; Al-bayatti, 2008; chaudhry; Tarig, 2006; Pai et al., 2010; Wanner et al., 2010; Romagnoli et al., 2010. Adicionalmente, o própolis, apesar de não ser um fitoterápico e sim um subproduto produzido por abelhas a partir da extração feita pelas mesmas de diversas plantas, existem estudos documentando a ação antibacteriana do extratode própolis. Segundo o perfil químico, mais de 12 tipos químicos diferentes de própolis brasileira já foram identificados, sendo que os mais efetivos nas desordens orais são o tipo 3, proveniente do sul do país, e tipo 12, proveniente do sudeste do Brasil. Dualibe et al. (2007), observou que o uso da solução do extrato alcoólico de própolis utilizada em bochechos, consegue reduzir em 81% a quantidade de S. mutans, sendo que esse efeito está relacionado à redução da atividade da glicosiltransferase e consequentemente menor adesão bacteriana aos dentes (DUARTE et al., 2003). 11 CAPítulo 2 desordens gástricas gastrite e úlcera Gastrite é uma inflamação da mucosa gástrica que pode ser desencadeada pelo uso de medicamentos, ingestão de bebidas alcoólicas, fumo, situações de estresse. Geralmente tem curta duração e desaparece, na maioria das vezes, sem deixar sequelas. Porém a gastrite também pode se apresentar de forma crônica sendo caracterizada por atrofia crônica progressiva da mucosa gástrica (HUDSON et al., 2000; KRAUSE et al., 2010). A úlcera péptica é uma doença de evolução crônica, com surtos de ativação e períodos de remissão, caracterizada por perda de tecido nas áreas do tubo digestório, que entram em contato com a secreção de ácido péptico do estômago. O desenvolvimento de úlcera gastrointestinal está associado com alta ingestão de álcool, avanço da idade, uso de tabaco ou relacionada com a presença de outras patologias (SILVA, 2010; HUDSON et al., 2000). Na gastrite e na úlcera ocorre um desequilíbrio entre fatores que agridem a mucosa e outros que protegem, gerando uma lesão da mucosa. Outro fator importante é a presença de Helicobacter pylori, uma bactéria gram-negativa que apresenta ação mucolítica, presente em grande parte das úlceras gástricas. A colonização da mucosa gástrica com Helicobacter pylori resulta em no desenvolvimento de gastrite crônica evoluindo para complicações como úlcera, neoplasia gástrica e algumas enfermidades extra-gástricas (ZULLO et al., 2009). Estudos sugerem que o risco de desenvolver câncer está associado ao alto consumo de alimentos preservados em sal e baixo consumo de vegetais e frutas em especial, supostamente devido ao seu conteúdo de Vitamina C, que agiriam como agentes protetores (TSUGANE et al., 2007). Estudo em ratos e humanos mostra que a H.pylori estimula a proliferação de células epiteliais gástricas e sua apoptose (YANG et al., 2008). O adequado fluxo de sangue e secreção de bicarbonato com tamponamento da superfície epitelial são fatores fisiológicos protetores da mucosa gástrica. Uma vez lesionado, há uma secreção fisiológica de prostaglandinas juntamente com a secreção de alguns hormônios e fatores de crescimento como gastrina, colecistoquinina, secreção de células parietais, TNF-alfa e fator de crescimento epidérmico (EGF), que promovem a recuperação da úlcera (NAYEB et al., 2009). Diversos fitoterápicos atuam na prevenção e no tratamento da gastrite e úlceras por possuir efeito gastroprotetor, antibacteriano, anti-inflamatório, analgésico e antioxidante, isolados ou em combinação, garantindo a proteção da mucosa (AL MOFLEH et al., 2007). 12 UNIDADE I │FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL Espinheira Santa (Maytenus ilicifolia e Maytenus aquifolia Mart.) Originária da mata atlântica brasileira, da família Celastracea, a espinheira santa (folhas) é usada tradicionalmente como analgésica, anti-inflamatória e antiulcerogênica. Estudos em ratos relatam efeito protetor contra lesões gástricas e ação reparadora quando ratos eram submetidos ao estresse (JORGE et al., 2004). As substâncias mais relacionadas a esses efeitos da planta são: os triterpenos, flavonoides – catequinas, epicatequinas, e taninos condensados e polissacarídeos (metabólitos primários). Acredita-se que sua atividade antiulcerosa e anti-inflamatória está relacionada ao conteúdo de polissacarídeos (arabinogalactanos), liberados durante a infusão e à presença de compostos fenólicos, como os taninos, flavonoides e triterpenos (LVTOSSI et al., 2009). Estudos mostraram que o uso oral da espinheira santa exerce atividade citoprotetora por ter capacidade de se ligar a superfície da mucosa funcionando como uma camada de proteção por aumentar a síntese de muco e combater radicais livres (LEITE et al., 2001). A presença de taninos e sua ação antioxidante protegem as células contra a oxidação celular, incluindo a peroxidação lipídica e conferem à Espinheira Santa seus efeitos anticarcinogênicos e mutagênicos. Os tipos de câncer em eu melhor se conhecem os benefícios preventivos são o melanoma, carcinoma, adenocarcinoma, linfoma e leucemia (CIPRIANI et al., 2007; HATSUKO et al., 2007; THALES et al., 2006; ). Os principais responsáveis pelo efeito gastroprotetor das folhas de espinheira santa são os flavonoides tri e tetra glicosídeos 1 e 3 (LEITE et al., 2010). Estes constituintes fenólicos são os responsáveis pela interrupção da secreção ácida por inibir a bomba NA-K-ATPase e modulação da produção de óxido nítrico (NO) pelos seus constituintes. A presença de flavonoides confere, também, à espinheira santa efeitos na redução do esvaziamento gástrico e tempo de trânsito intestinal, que podem ser mediados por antagonismo muscarínico (CIPRIANI et al., 2007). Doses recomendadas: para adultos na forma de tintura são 10ml, três vezes ao dia diluído em meio copo de água ou na forma de infusão utilizar 2 g da erva em infusão até três vezes ao dia. Contraindicações: pacientes com câncer estrogênio dependentes e mulheres fazendo tratamento para engravidar ou que desejam engravidar, pois podem ter ação estrogênio-símile. Contraindicado também para gestantes e lactantes, pois reduz a produção láctea. (MONTANARI; BELVILACQUA, 2002). 13 fitotErAPiA EM dESordEnS do trAto gAStrintEStinAl│ unidAdE i Camomila (Matricaria chamomilla l.) A Matricaria chamomilla L. pertence à família Compositae. Seus capítulos florais são muito utilizados para tratar desordens gastrintestinais como flatulência, diarreia nervosa, espasmos, colite, gastrite e hemorroidas. Acredita-se que a camomila deva suas propriedades terapêuticas a três grupos de princípios ativos: óleos voláteis terpenoides (0,25% a 1%) especialmente bisabolol e chamazuleno, que mostram ambos uma atividade anti-inflamatória; os flavonoides (2,4%) com a apigeina mostrando uma atividade particular como agente antiespasmódico; as flores de camomila contêm mucilagens semelhantes à pectina (5% a 10%). Essas substâncias são liberadas preferencialmente durante o processo de infusão e estudos revelam que agem amenizando a irritação da mucosa gástrica (FRAGOSO et al., 2008; SCHULTZ et al., 2002). Mc Kay e Blumberg (2006), em estudo clínico realizado com 98 pacientes recebendo radioterapia e quimioterapia o uso oral de solução de camomila, mostrou prevenir a mucosite secundária ao uso de radioterapia e algumas medicações quimioterápicas como asparaginase, cisplatina, ciclofosfamida, metotrexato e vincristina. Em estudo realizado em ratos com ulcerações gástricas foi utilizado um extrato aquoso de camomila em diferentes concentrações e os resultados revelaram que houve redução do índice ulcerogênico proporcional à dose de camomila utilizada e houve aumento dos níveis de glutationa após a administração das doses mais altas de extrato aquoso de camomila (HASHEM, 2010). Outro estudo concluiu que o extrato hidroalcoólico de camomila pode ter efeitos nas lesões mucosas pelo menos em parte devido ao seu efeito na redução da peroxidação lipídica e aumento da atividade antioxidante (CEMEK et al., 2010). » Dose recomendada: infusão de flores de camomila, 1 xícara três ou quatro vezes ao dia; extratos líquidos, 30 gotas em uma xícara de água morna(SCHULTZ et al., 2002). » Reações adversas e contraindicações: reações alérgicas incluindo reações severas de hipersensibilidade e anafilaxia em indivíduos sensíveis já foram relatadas com o uso de infusão de camomila (FRAGOSO et al., 2008). Por conter coumarinas é sugerida uma interação entre a camomila e a varfarina, potencializando processos hemorrágicos. A superdosagem está relacionada com excitação nervosa e insônia (FERRO, 2006). Além disso, os óleos essenciais contidos na camomila podem inibir as enzimas do citocromo p450, especialmente CYP1A2, por isso a interação negativa com medicamentos que utilizam essa via de eliminação são possíveis (FRAGOSO et al., 2008; GANZERA et al., 2006). Alcaçuz (glycyrrhiza glabra) Pertencente à família Fabaceae, a raiz e rizoma do alcaçuz contêm dois principais tipos de princípios ativos: a glicirrizina (5% a 15%) e os flavonoides liquiritina e isoliquiritina (SCHULTZ et al., 2002). As principais propriedades das raízes de alcaçuz são: anti-inflamatórias, antiúlcera, expectorante, 14 UNIDADE I │FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL atimicrobiana e ansiolítica, além de ser utilizada como ativador de memória, possivelmente pela melhoria da transmissão colinérgica no cérebro (PARLE et al., 2004). O Alcaçuz, na forma de extrato aquoso, é muito utilizado no tratamento de úceras, pois reduz a adesão da H.pylori no tecido estomacal, P. gengivalis no tecido oral e seu efeito anti-inflamatório também favorece o tratamento. (WITTSCHER et al., 2009). A fração anti-inflamatória é a 12-keto triterpenosaponinas. Alguns estudos relatam ainda que a Glycyrrhiza glabra apresenta atividade inibitória sobre a bactéria em função da presença dos flavonoides glabridina e glabreno (FUKAI et al., 2002). As frações de ácido cafeico (eisosanil cafeato e docosil cafeato), presentes no alcaçuz, pode ser responsável por sua atividade antiúlcera, pois inibem a atividade da elastase e apresentam ação antioxidante. Além disso, esse efeito pode ser potencializado quando em associação a outros fitoterápicos. Khayyal et al. (2001) utilizaram em estudo realizado em ratos uma associação da Glycyrrhiza glabra com Iberis amara, Melissa officinalis, Matricaria recutita, Carum carvi, Mentha piperita, Angelica archangelica, Silybum marianum e Chelidonium majus. Os resultados indicam que os efeitos são ainda melhores do que quando os fitoterápicos foram testados isoladamente. Os ratos apresentaram uma redução da produção de ácido, aumento da produção de mucina, um aumento da liberação de prostaglandinas E2 e uma redução dos leucotrientos. Os autores associam os efeitos citoprotetores observados nos animais ao seu conteúdo de flavonoides e as suas propriedades antioxidantes (KHAYYAL et al.,2001). Chá verde (Camellia sinensis) Uma das bebidas mais populares do mundo, o chá verde pertence à família Thaeceae e suas folhas são utilizadas para preparação de uma infusão utilizada em grande parte do mundo. Seus efeitos antiulcerogênicos estão associados à presença de catequinas, que são capazes de inibir o crescimento in vitro de uma série de micro-organismos como Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis, Vibrio cholerae O1, V.cholerae non-O1, Vibro parahaemolyticus, Vibrio mimicus, Campylobacter jejuni e Plesiomonas shigelloides e apresenta atividade antibacteriana contra o S. aureus. Dentre as bactérias que ele possui espectro de ação, está a H.pylori. Estudos sugerem que o consumo do chá previamente à infecção pela bactéria pode prevenir a inflamação da mucosa gástrica e quando o chá é ingerido após a infecção pode reduzir a magnitude da gastrite (STOICOV et al., 2009). Parte desses efeitos se dá à presença de polifenóis que apresentam atividade antitumoral e propriedades bactericidas. Cominho (Cumunum cyminum l.) O Cumunum cyminum L. pertence à família Apiaceae e o óleo essencial extraído das suas folhas já mostrou, em estudos realizados em humanos, que é capaz de inibir o crescimento de diversas bactérias patogênicas responsáveis por infecções. A sua eficácia é comparável ou superior a de antibióticos, com uso de doses bem pequenas (SINGH et al., 2002). 15 fitotErAPiA EM dESordEnS CArdiovASCulArES│ unidAdE ii Aloe vera (Aloe barbadensi BC) Aloe Vera pertence à família Liliaceae, e a seiva das suas folhas têm sido testada por diversos pesquisadores no combate à bactéria H.pylori, com resultados positivos. Prabjone et al. (2006) mostraram que ratos tratados com uma solução de Aloe Vera apresentaram uma redução na adesão leucicitária bem como menores níveis de NKκ-B, mostrando efeito positivo na redução do processo inflamatório presente nas infecções pela bactéria H.pylori. Adicionalmente, outro grupo de pesquisadores mostram que o Aloe Vera possui também efeito antiaderente sobre a H.pylori in vitro (XU et al., 2010). gengibre (zingiber officinale) Pertencente a família Zingibiraceae, o Zingiber officinale é uma das plantas mais estudas no mundo. Trata-se de um rizoma que produz um estimulo ao trato gastrintestinal, aumentando o peristaltismo e tônus do músculo intestinal. Uma revisão da literatura científica conclui que o Gengibre apresenta também atividade antiemética no tratamento de enjôos, além de atividade estimulante sobre enzimas digestivas como, lípase pancreática, lípase intestinal, dissacaridases e mantases (CHRUBASIK et al., 2005). O gengibre também é um potente inibidor da bomba de prótons ATPase, ajudando no combate a úlcera e problemas gástricos (MASUDA et al., 2004). Shukla e Sing (2006) em uma revisão da literatura concluíram que diversos estudos apontam que o uso de gengibre está relacionado à morte da bactéria H.pylori. Outros efeitos relacionados ao uso do rizoma são: antipirético, analgésico, hipotensor, antioxidante, anti-inflamatorio devido à supressão da ciclooxigenase (COX2), lipoxigenase (LOX5) e ácido araquidônico (AA) e, também, antitumoral (MASUDA et al., 2004; SHUKLA e SING, 2006). Os gingeróis são os compostos ativos mais conhecidos sendo que o principal é o 6 gingerol (WHITE, 2007; REIS et al., 2009; ALAM et al., 2009). 16 CAPítulo 3 desordens intestinais inchaço e flatulência As plantas carminativas (úteis para expelir gases com o objetivo de aliviar a flatulência) aceleram o processo digestivo e de neutralizam os gases provenientes do trato digestivo, reduzindo cólicas e desconforto abdominal (HAWRELAK et al., 2009). Os compostos químicos responsáveis por esses efeitos são os óleos essenciais e flavonoides, estes últimos relaxam a musculatura lisa do trato gastrintestinal e as vias biliares, conferindo uma ação espasmolítica. Devem ser administrados no início das refeições ou logo após as mesmas (SCHULTZ et al., 2002). Tabela 3. Fitoterápicos com ação carminativa e espasmolítica Planta (nome popular/ científico) Família/parte utilizada Efeitos/contraindicações Cominho/Xuminum cyminum L. Apiaceae/Folhas - atividade protetora sobre o cólon reduzindo a atividades da beta glicuronidase e da mucinase e, consequentemente, reduzindo a liberação de toxinas. - antioxidante Erva doce/ Pimpinella anisum L. Umbelliferae/ Folhas e sementes - ação carminativa e expectorante é utilizada para redução da produção de gases, especialmente em pacientes pediátricos. - utilizada como antiespasmódica e antiséptica quando usada em doses maiores. Esses efeitos se devem a presença do óleo de anis, cujo principal constituinte, o trans anetol (75% a 90%), apresenta atividade espasmolítica. - o uso via oral do óleo essencial deve ser evitado em: gestantes e crianças menores de 6 anos (apresenta efeito estrogênico); pacientes com ulceras gastroduodenais e gastrites, síndrome do intestino irritável, colites em geral, hepatopatias crônicas, epilepsia e parkinson.Hortelã/ Mentha piperita Lamiaceae/ Folhas e sumidade florida - redução das contrações musculares lisas por um efeito no bloqueio aos canais de cálcio e reduzindo o influxo de cálcio celular (efeito antiespasmódico na musculatura lisa do trato gastrintestinal). - ação antibacteriana, estimula o fluxo biliar, facilita a eructação e age como carminativo graças à presença do mentol, seu principal princípio ativo. Alertas e contraindicações: - pode ser hepatotóxico com doses altas; - o chá obtido das folhas de hortelã pode reduzir os níveis de testosterona e reduzir a espermatogênese em animais machos, assim como aumentar os níveis e FSH e LH. - pode interagir com CYP1A2. CYP2C19, CYP2C9 e CYP3A4 e, dessa forma, pode modificar o nível de drogas metabolizadas por essas vias. - pode agravar os sintomas de refluxo gastroesofágico, pois relaxam o esfíncter esofágico inferior; - contraindicado nas obstruções de vias biliares, colecistite e dano grave ao fígado, pois o mentol é quase que totalmente excretado pela bile. - podem reduzir a produção de leite, por isso não usar na gravidez e no aleitamento. Em crianças com menos de 1 ano de idade o mentol ingerido em doses mais elevadas pode provocar depressão respiratória e apnéia ou espasmos laríngeos, sendo esse risco grande para recém-nascidos. 17 fitotErAPiA EM dESordEnS do trAto gAStrintEStinAl│ unidAdE i Camomila/ Matricaria chamomilla L. Asteraceae/Capítulos florais - os óleos voláteis terpenoides (0,25% a 1%), especialmente bisabolol e chamazuleno, mostrou apresentar atividade anti-inflamatória em estudos realizados em laboratório. Os flavonoides (2,4%) como a apigeina têm mostrando uma atividade particular como agente antiespasmódico. Alcaravia/ Caruru carvi Apiaceae/ Frutos - atividade antiácida, antiflatulenta, digestiva, emanagoga, estimulante e laxante. - antioxidante (óleo) - inibição do crescimento de microorganismos patógenos no intestino em potencial. Funcho/Foeniculum vulgare Umbelliferae/ Folha, fruto e raiz - laxativo - atividade estimulatória sobre a motilidade - antiespasmódico composição: óleos essenciais (2% a 6%), dos quais 50% a 70% são constituídos de trans anetol e mais de 20% de funchona. Os frutos e folhas do funcho contêm uma quantidade grande de flavonoides (quercetina, isoquercetina, kaempferol), proteínas e ácidos orgânicos. Alecrim/Rosmarinus officinalis Labiatae/Folhas e sumidades floridas - favorece a expulsão de gases do aparelho digestor e a digestão especialmente de lipídios, diminuindo a distensão abdominal, a flatulência e as dores. - efeitos antioxidantes (ácido rosmarínico) verificado pelos efeitos sobre a peroxidação lipídica (carnosol, rosmanol e epirosmano) e atua na detoxificação (saponinas são ligantes de toxinas, colesterol e taninos) contraindicação: na gravidez e lactação, visto que é abortivo em altas doses. Fontes: Nalini et al., 1996; Sultana et al., 2010; Der Marderosaian e beuter, 2002; Picon et al., 2010; Oravy et al., 2008; baliga & Rao, 2010; Rodriguez et al., 1999; Alun et al., 1984; burkhard et al., 1999; Ferro, 2006; Teske et al., 2001; Iacobellis et al., 2005; Samoujuk et al., 2010; hawrelak et al., 2009, Klein et al., 1998; Shang et al., 2005; Zeng et al., 2001. obstipação intestinal A constipação do intestino é um sintoma frequente que afeta entre 2% a 27% da população de países ocidentais, dependendo do grupo estudado sendo mais frequente em mulheres e idosos (COFRE et al., 2008). O critério mais utilizado para definição de constipação crônica são os critérios de Roma II, com a presença de dois ou mais dos seguintes sintomas, por pelo menos 12 semanas (não necessariamente consecutivas) nos últimos 12 meses (LOCKE et al., 2000): » esforço excessivo em mais de 25% das evacuações intestinais; » fezes duras ou muito volumosas em mais de 25% das evacuações; » sensação de evacuação incompleta em mais de 25% das vezes; » sensação de bloqueio ano-retal em mais de 25% das evacuações; » necessidade de manobras manuais para facilitar a evacuação em mais de 25% das vezes; » menos de 3 evacuações semanais; » critérios insuficientes para diagnosticar a síndrome do intestino irritável. 18 unidAdE i │fitotErAPiA EM dESordEnS do trAto gAStrintEStinAl Para tratamento da constipação a ingestão de água, uso de pré e probióticos para restauração da microbiota intestinal e o consumo adequado de fibras é fundamental. A fitoterapia pode ser bastante útil visto que diversas matérias primas vegetais possuem ação laxativa e prebiótica. Laxantes fazem parte da lista de medicamentos mais utilizados pelos pacientes sem prescrição médica e, portanto, frequentemente são utilizados maneira inadequada e de forma abusiva. O abuso no uso de laxante, sendo eles compostos por plantas medicinais ou não, pode causar efeitos indesejáveis como desequilíbrio eletrolítico e da composição bacteriana intestinal, desordens da motilidade e pseudomelanosi coli, uma alteração colônica benigna (CASASNOVAS et al., 2011). Os laxantes podem estimular o peristaltismo intestinal, como as espécies vegetais que contém derivados antraquinônicos que alteram a motilidade colônica, acelerando o trânsito intestinal; e alteram a absorção colônica e secreção resultando no acúmulo de fluidos. É importante ressaltar que os antranóides provocam a destruição das células epiteliais por meio de perdas celulares, reduzem as criptas mucosas e aumentam a proliferação celular, levando a mudanças na absorção, secreção e motilidade. Portanto, não devem ser utilizados com freqüência ou de forma crônica. Tabela 2. Plantas medicinais utilizadas no tratamento da obstipação por efeito estimulante do peristaltismo intestinal Planta (nome popular/científico) Família/parte utilizada Efeitos/contraindicações aloe vera/ aloe barbadensi liliaceae/ seiva das folhas Efeito laxativo: - os componentes responsáveis por esse efeito são aloinas a e b, emodina e antraquinonas livres como aloe emodina. - melhor efeito terapêutico é obtido a partir do uso do gel fresco da planta, mas o uso do gel estabilizado processado a frio consegue manter as mesmas propriedades benéficas. contraindicações: - o aloe vera pode reduzir os níveis glicêmicos e isso pode ser especialmente perigoso em pacientes que tomam medicações hipoglicemiantes. - em pacientes com uso de medicamentos glicosídicos para o coração devido à depleção de potássio. - o aloe vera inibe o tromboxano a2 e prostaglandinas, e pode reduzir a agregação plaquetária e prolongar o tempo de sangramento, por isso deve ser suspenso antes de procedimentos cirúrgicos. - alguns trabalhos ainda apontam seu efeito na indução de abortos e estimulo à menstruação. Sene/Cassia angustifólia Fabaceae/ Folhas O conteúdo de antraquinonas do sene é de 2% a 5% destacando-se os senosídeos a e b, também possuindo antraquinonas livres e, portanto, apresenta efeito estimulante do peristaltismo intestinal. Contraindicações: - não há evidências de risco de câncer de cólon ou efeito tóxico para pacientes que usam laxantes a base de extratos de sene ou senosídeos. Porém, o uso contínuo pode até causar constipação paradoxal. - o efeito colateral do uso do sene é diarreia com perda de potássio. - é contraindicado nas obstruções intestinais, enterites e colites, hipocalemia. - não deve ser usado na gravidez, lactação e em crianças com menos de 7 anos. Os constituintes do sene passam para o leite materno e também podem aumentar o fluxo menstrual. 19 FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL│ UNIDADE I Ruibarbo/ Rheum palmatum Polygonaceae/raiz - Efeitos antidiarreico ou laxante, dependendo da dose. As doses mais altas, devido à quantidade de compostos antraquinonicose de antraquinonas livres, é responsável pelo seu efeito laxativo, no entanto, em doses pequenas (0,3g/dia) exerce efeito antidiarréico e digestivo (por ação predominante dos taninos). Contraindicação: o alto conteúdo de oxalato de cálcio não o torna recomendável em casos de litíase renal. Frângula/Fran gula alnus Mill Rhamnaceae/Casca A casca da frângula contém de 6% a 9% de glicosídeos de antraquinona, entre os quais os mais importantes são a glucofragulina A e B. Dos laxantes antraquinônicos é o que possui efeito mais suave. Contraindicações: - na gestação e lactação e não deve, assim como outros laxantes da mesma classe, ser utilizada por mais de 2 semanas contínuas - devido à perda de potássio que pode ocorrer com uso de doses altas por tempo prolongado, pode potencializar os efeitos das drogas antiarrítmicas. Cáscara sagrada/Rhamnus purshiana Rhamnacea/ Casca dos caules e dos ramos A cáscara sagrada contém pelo menos 8% de antranoides. Preparações na forma de extratos e extratos líquidos são usadas, mas não é adequado seu uso como chá devido ao seu odor desagradável. Recomenda-se utilizá-la à noite para que as bactérias intestinais possam converter os glicosídeos neste período e proporcionar um efeito cerca de 8 horas depois. Contraindicações/Efeitos adversos: - doses acima de 8g/dia pode provocar hipovolemia por desidratação. - evitar seu uso na gestação e lactação, pois pode provocar efeito oxitóxico, cólicas e diarréia no lactente. - nunca usar em processos de obstrução intestinal. - pode causar cólicas e diarréias dependendo da dose e da sensibilidade de cada indivíduo. - outros efeitos colaterais descritos são deficiência de vitaminas e minerais, esteatorréia, melanose do cólon e pigmentação da urina. - seu uso também está contraindicado em esofagite por refluxo, abdômen agudo, íleo paralítico, cólon irritável, doença inflamatória intestinal, apendicite, diverticulite ou doença diverticular do cólon. Funcho/Foeniculum vulgare Umbelliferae/ Folha, fruto e raiz O funcho contém óleos essenciais (2% a 6%), dos quais 50% a 70% são constituídos de trans anetol e mais de 20% de funchona. - Efeito laxativo por ter atividade estimulatória sobre a motilidade. Efeitos adversos: Não foram vistas diferenças significativas em relação a efeitos adversos, apenas uma discreta redução de potássio sérico durante o tratamento Fontes: casasnovas et al., 2011; Thompson et al., 1999; Morales et al., 2009; Lemli, 1988; benedicte, et al., 2005; Alonso et al., 2004; Picon et al., 2010; Outros laxantes podem agir como formadores de massa. São constituídos pelas fibras naturais ou, mais recentemente, as sintéticas e são a base para o tratamento inicial da constipação. Os agentes formadores de massa e volume possuem efeitos laxativos suaves de baixo risco que estimulam os efeitos fisiológicos de uma dieta rica em fibra (CARVALHO, 2005). Os laxantes formadores de massa apresentam também capacidade de retenção de água, o que os torna úteis para tratamento sintomático de diarréia em alguns pacientes. São amplamente reconhecidos por seu valor no controle em longo prazo do cólon irritável e diverticulite crônical (CARVALHO, 2005). É importante ressaltar que é necessário ingerir os agentes formadores de massa com uma quantidade suficiente de líquidos, para que não haja obstrução intestinal. Seu efeito não é imediato e pode demorar de 12 a 24 horas para ocorrer. Os principais constituintes desse grupo são as gomas e mucilagens. 20 UNIDADE I │FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL Tabela 4. Plantas medicinais com efeito laxante por aumentar o volume da massa fecal Planta medicinal Dose diária recomendada Sementes de linho 30g-50g (sementes inteiras esmagadas) Plantago 5g-lOg (Quando utilizar a casca reduzir a dose diária para 3g) Agar 5g-lOg Fonte: Adaptado de Schultz et al. (2011) diarreias Diarreia é caracterizada pela evacuação de fezes líquidas ou semilíquidas mais de três vezes ao dia. Para o tratamento das diarreias recomenda-se a administração de fitoterápicos contendo boa quantidade de taninos (PALOMBO, 2006). Os taninos têm ação de precipitação de proteína e, portanto, quando aplicados a membranas mucosas, fazem as proteínas serem depositadas na superfície epitelial revestindo o lúmen do intestino como uma película protetora que normaliza a hiperperistaltia (SAAD et al., 2009). A infusão das folhas do chá preto e o chá verde (Camellia sinensis) são fontes de taninos (5% a 20%). No chá verde o teor de tanino bem alto, conferindo sabor extremamente amargo (137). A dose diária recomendada é de 3 a 10g da droga vegetal. Outras fontes de taninos, que podem ser utilizadas em casos de diarreia são: » Folha e casca de hamamelis (5% a 15% de taninos). Dose recomendada é de 0,1g a lg de droga vegetal (SCHULTZ et al., 2011). » Casca de carvalho (10% a 20% de taninos). Dose recomendada é de 2g a 6g de droga vegetal (SCHULTZ et al., 2011). Síndrome do intestino irritável A síndrome do cólon irritável ou do intestino irritável (SII) é uma doença funcional intestinal muito comum. Os sintomas podem ser: dor abdominal, distensão, alternância entre diarreia e constipação. A SII provoca muito desconforto, porém não está relacionada com alterações significativas intestinais desenvolvimento de câncer (SIEGEL et al., 2005). Os critérios de Roma III são utilizados para o diagnóstico. De acordo com esses critérios é considerado SII quando há presença em 12 semanas (não necessariamente consecutivas), durante os últimos 12 meses, de desconforto ou dor abdominal acompanhado de duas das três características seguintes (COFRE et al., 2008): » alívio com a defecação; 21 FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL│ UNIDADE I » início associado à alteração na frequência das evacuações (mais de três vezes/dia ou menos de três vezes/semana); » início associado à alteração na forma (aparência) das fezes. Outros sintomas podem ajudar a reforçar o diagnóstico da SII, tais como (COFRE et al., 2008): » esforço excessivo durante a defecação; » urgência para defecar; » sensação de evacuação incompleta; » eliminação de muco durante a evacuação; » sensação de plenitude ou distensão abdominal. Diversos pesquisadores sugerem que os pacientes com SII possuem alteração na composição da microbiota. A microbiota intestinal de pacientes com SII parece ser diferente do que indivíduos saudáveis, apresentando menor quantidade de bactérias coliformes, lactobacillus e bifidobacterias e também de que produzem menos quantidade de ácidos graxos de cadeira curta (RODRIGUEZ; RUIGOMEZ, 1999; ALUN et al., 1984; HAWRELAK; CATTLEY, 2009). Além disso, há evidências de que há na SII uma inflamação de baixo grau, ativação imune no intestino grosso e prejuízos na comunicação neural no eixo cérebro-intestino (OHMAN; SIMRÉN, 2010). Alterações na microbiota intestinal como a disbiose e aumento da permeabilidade intestinal, por sua vez, podem ser as causadoras dos mesmos (OHMAN; SIMRÉN, 2010). De acordo com estudos recentes, os óleos essenciais mais promissores para o tratamento da disbiose intestinal são: cominho, lavanda, semente de orégano e de laranja amarga. Hortelã (Mentha piperita) O óleo de hortelã é obtido por destilação com vapor d’água a partir da planta seca. O constituinte principal químico da planta (aproximadamente 50% a 60% no óleo) é o mentol e uma pequena quantidade de cineol e outros terpenos. O óleo essencial da hortelã é formado especialmente pelo mentol, mentona, metil esters, limoneno, mentanol entre outros. O mentol e mentil acetato são responsáveis pelo odor refrescante, característico da hortelã. De acordo com algumas meta-análises realizadas (LUI et al., 1997; KLINEet al., 2001) o uso diário de 3 a 6 cápsulas revestidas de óleo de hortelã contendo de 0,2ml a 0,4ml pode melhorar os sintomas de SII. Em um estudo duplo-cego, randomizado, controlado, 42 crianças com SII receberam cápsulas de óleo hortelã-pimenta ou placebo. Após 2 semanas, 75% dos que receberam óleo de hortelã haviam reduzido gravidade da dor associada com SII. Óleo de hortelã-pimenta pode ser utilizado como um agente terapêutico, durante a fase sintomática da IBS (KLINE et al., 2001). Cappello et al. (2007) em estudo onde 110 pacientes com SII receberam 4 cápsulas diárias por 4 22 UNIDADE I │FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL semanas, mostram que os pacientes que receberam óleo de hortelã apresentaram 75% de melhora quando comparados aos que tomaram placebo, com apenas 38% de melhora. O efeito antiespasmódico das folhas e óleo de hortelã se deve à redução das contrações musculares lisas por um efeito no bloqueio aos canais de cálcio e reduzindo o influxo de cálcio celular. O mentol, cujo mais importante princípio ativo é antibacteriano, estimula o fluxo biliar, reduz o tônus do esfíncter esofagiano, facilita a eructação e age como carminativo (BALIGA; RAO, 2010). É importante ressaltar que os pacientes devem ser orientados a não mastigar a cápsula, que é de revestimento entérico para prevenir refluxo gastroesofágico. São efeitos adversos já registrados: queimação perianal e náuseas. Em pessoas sensíveis, podem ocorrer irritabilidade e insônia paradoxal. É contraindicado durante a gestação, pois seu uso nesse período não foi testado para avaliar possíveis riscos e há relatos de que pode reduzir a produção de leite (TESKE; TRENTINI, 2001). Além disso, o mentol ingerido em doses mais elevadas pode provocar, em crianças com menos de um ano de idade, depressão respiratória e apneia ou espasmos laríngeos, sendo este risco grande para recém- nascidos. Contraindicado nas obstruções de vias biliares, colecistite e dano grave ao fígado, pois o mentol é quase que totalmente excretado pela bile. Erva-de-são-joão (Hypericum perforatum) O hipérico pertence à família Hyperaceae e suas sumidades floridas são utilizadas principalmente no tratamento de depressão leve a moderada e antidepressivos são frequentemente utilizados no tratamento da SII. Brenner e Chey (2010) relatam que os pacientes com SII apresentam os maiores níveis na escala de depressão e ansiedade se comparada a indivíduos sem a síndrome. Após 8 semanas de tratamento antidepressivo com Hyperricum perforatum houve uma redução da resposta a agentes estressores e os sintomas da SII reduziram significativamente. Alcachofra (Cynara scolymus) Bundy et al. (2004) em estudo realizado com 208 adultos com SII, mostrou que o uso do extrato de alcachofra está relacionado à redução da incidência de SII em 26,4%; alteração do padrão evacuatório, que antes alternava entre diarreia e constipação, para um padrão normal; houve redução de 41% dos sintomas apresentados e aumento em 20% na qualidade de vida nos pacientes tratados. 23 CAPítulo 4 desordens hepáticas e biliares Principais desordens hepáticas crônicas As principais doenças hepáticas crônicas (DHC) são: » cirrose hepática; » doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA); » hepatite viral, alcoólica ou autoimune; » carcinoma hepatocelular. A cirrose, doença caracterizada pela presença de fibrose e formações nodulares difusas, é considerada estágio próprio da evolução de diversas doenças hepáticas crônicas e pode evoluir, como produto de uma agressão crônica do fígado. A cirrose resulta da inter-relação entre diversos fatores etiológicos, como (MÜLLER et al., 1999): » metabólicos: erros congênitos do metabolismo; » virais: Hepatite C e B; » alcoólica: após uso contínuo de álcool por um período longo (5 a 10 anos); » induzida por fármacos: metotrexato, por exemplo; » autoimune; » biliares: processo final de patologias crônicas biliares com colangites de repetição. As principais complicações clínicas decorrentes da Cirrose Hepática são a Hipertensão Portal, Encefalopatia Hepática e Ascite (PARISE et al., 2007; CAMPILO et al., 2003). » Hipertensão portal: Aumento crônico da pressão venosa na região portal, caracterizada por hepatoesplenomegalia, ascite e rede venosa visível na parede abdominal. Episódios hemorrágicos são comuns nesses casos, sendo a principal causa de morte. » Encefalopatia Hepática: São alterações neuropsíquicas que têm origem metabólica e que ocorrem quando há um agravamento das funções hepáticas, caracterizado por uma lentidão na atividade neuronal. A absorção de compostos nitrogenados está diretamente relacionada com o agravamento do quadro, portanto, o controle na ingestão protéica, além de modulação da microbiota intestinal. » Ascite: A retenção renal de sódio consequente da hipertensão portal gera um acúmulo de líquidos na cavidade peritoneal, predispondo o paciente a diversas complicações. A restrição hídrica nesses casos deverá ser implementada em casos mais avançados da doença. 24 UNIDADE I │FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL detoxificação hepática O conceito de detoxificação tem sido muito estudado devido ao problema de toxicidade nos alimentos, no ar, na água. As toxinas causam danos ao organismo de maneira cumulativa e podem alterar o processo metabólico normal. As fontes comuns de metais tóxicos, além das fontes industriais, incluem chumbo das soldas das latas, canos de cobre, utensílios de cozinha, mercúrio das amálgamas, peixes contaminados, tintas a óleo e cosméticos, materiais de limpeza (formaldeído, tolueno, benzeno), medicamentos, álcool, pesticidas, herbicidas, aditivos alimentares, microrganismos, contaminantes/poluentes, inseticidas, drogas. O corpo humano tem um potencial enorme para desintoxicar compostos estranhos pelos vários mecanismos fisiológicos. A detoxificação ocorre em todas as células de todos os tecidos, principalmente: pulmões, epitélio, rins, trato digestivo (20%), fígado (60-65%), cérebro, células imunológicas, adrenais e placenta. As principais vias de eliminação das toxinas são: urina, fezes, suor. O fígado exerce papel fundamental neste processo, neutralizando as toxinas produzidas internamente e aquelas provenientes do meio ambiente. Esse processo ocorre em duas fases, chamadas fase I e fase II. As vias de detoxificação hepática As células hepáticas evoluíram ao longo de milhões de anos para possuirem mecanismos para decompor substâncias tóxicas. Drogas, produtos químicos artificiais, pesticidas e hormônios são metabolizados por vias enzimáticas dentro das células do fígado. Muitos dos produtos químicos tóxicos que entram no corpo são solúveis em lipídeos, o que significa que eles se dissolvem apenas em soluções oleosas, e não em água, o que dificulta a excreção pelo organismo. Produtos químicos solúveis em lipídeos possuem uma elevada afinidade pelo tecido adiposo e membranas celulares. As toxinas podem ser armazenadas por anos, sendo liberadas durante períodos de estresse, exercício ou jejum. Durante o lançamento destas toxinas, sintomas como dores de cabeça, memória fraca, dores de estômago, náuseas, fadiga, tontura e palpitações podem ocorrer. A defesa primária do organismo contra a intoxicação metabólica é realizada pelo fígado. O fígado possui dois mecanismos destinados a converter os produtos químicos solúveis em lipídeos em produtos químicos solúveis em água, de modo que eles possam, então, ser facilmente excretados do organismo através de fluidos aquosos, tais como a bile e a urina. Basicamente, existem duas vias importantes para a desintoxicação dentro das células do fígado, que são chamados a Fase I (oxidação/redução) e Fase II (conjugação/hidrólise)vias de desintoxicação. Resumidamente, as reações de oxidação transformam o fármaco em metabólitos mais hidrofílicos pela adição ou exposição de grupos funcionais polares, como grupos hidroxila (-OH), tiol (-SH) ou amina (-NH2). As reações de conjugação (fase II) modificam os compostos através da ligação de grupos hidrofílicos, como o ácido glicurônico, criando conjugados mais polares. As reações de conjugação ocorrem independentemente das reações de oxidação/redução e as enzimas envolvidas nas reações de oxidação/redução e de conjugação/hidrólise freqüentemente competem pelos substratos. 25 fitotErAPiA EM dESordEnS do trAto gAStrintEStinAl│ unidAdE i fase i de desintoxicação As reações de oxidação envolvem enzimas associadas às membranas, que são expressas no retículo endoplasmático dos hepatócitos. As enzimas que catalisam essas reações de fase I são tipicamente oxidases. Essas enzimas são, em sua maioria, hemoproteínas mono-oxigenases da classe do citocromo P450. As enzimas P450 são também conhecidas como oxidases de função mista microssômicas. Em seu conjunto, as reações mediadas pelo P450 respondem por mais de 95% das biotransformações oxidativas. Outras vias também podem oxidar moléculas lipofílicas. Um exemplo pertinente de uma via oxidativa não P450 é a via da álcool desidrogenase, que oxida os álcoois a seus derivados aldeído como parte do processo global de excreção. Outra enzima não-P450 importante é a monoamina oxidase (MAO). Essa enzima é responsável pela oxidação de compostos endógenos que contêm amina, como as catecolaminas e a tiramina, e de alguns xenobióticos, incluindo fitofármacos. De maneira simplificada, esta via converte um produto químico tóxico em um produto químico menos nocivo. Isto é conseguido pelas diferentes reações químicas (por exemplo, oxidação, redução e hidrólise), e, durante este processo ocorre a produção de radicais livres que, em excesso, podem danificar as células do fígado. Antioxidantes (tais como vitamina C e E e carotenoides naturais) reduzem os danos causados por esses radicais livres. Se os antioxidantes estão escassos e a exposição a uma toxina é elevada, os produtos químicos tóxicos tornam-se muito mais perigosos. Alguns podem ser convertidos em substâncias potencialmente cancerígenas. Quantidades excessivas de produtos químicos tóxicos, tais como pesticidas, podem prejudicar o sistema enzimático P-450, sobrecarregando esta via, o que resulta em produção de elevados níveis de radicais livres. Substâncias que podem causar hiperatividade das enzimas P-450: cafeína, dioxina, álcool, ácido sgraxos saturadas, pesticidas organofosforados, pintura fumaça, sulfonamidas, gazes de escapador, barbitúricos. Substratos do sistema enzimático P-450: teofilina, cafeína, fenacetina, lidocaína, eritromicina, ciclosporina, cetoconazol, testosterona, estradiol, cortisona, alprenolol, bopindolol, carvedilol, metoprolol, propranolol, amitriptilina, desipramina, nortriptilina, codeína, etilmorfina, ibuprofeno, naproxeno, S-varfarina, diazepam, imipramina, omeprazol, álcool. fase ii de desintoxicação As reações de conjugação e de hidrólise proporcionam um segundo conjunto de mecanismos destinados a modificar os compostos para sua excreção. Os substratos dessas reações são acoplados a metabólitos endógenos (por exemplo, ácido glicurônico e seus derivados, ácido sulfúrico, ácido acético, aminoácidos e o tripeptídio glutationa) por enzimas de transferência, em reações que freqüentemente envolvem intermediários de alta energia. Isto faz com que a toxina ou o fármaco torne-se solúvel em água, e possa ser excretado do organismo através de fluidos aquosos, tais como a bile ou a urina. Xenobióticos individuais e metabólitos geralmente seguem uma ou duas vias distintas. Para que a fase II ocorra de maneira eficiente, as células do fígado requerem aminoácidos que contém enxofre como a taurina e a cisteína. Glicina, glutamina, colina e inositol são também necessários para a fase II de desintoxicação. Ovos, vegetais crucíferos (por exemplo, brócolis, repolho, couve de 26 UNIDADE I │FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL Bruxelas, couve-flor), alho cru, cebola, alho-poró são boas fontes naturais de compostos de enxofre. Assim, estes alimentos podem ser considerados como agentes de limpeza. 1. Conjugação com ácido glicurônico. Substratos de glucuronidação: hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, hormônios esteroides, algumas nitrosaminas, aminas heterocíclicas, algumas toxinas fúngicas, e aminas aromáticas. Ele também remove o estrogênio e o T4 (hormônios da tireoide), que são produzidos naturalmente pelo organismo. O acúmulo de toxinas no organismo pode resultar em sintomas de disfunção cerebral e desequilíbrios hormonais, como infertilidade, dores nas mamas, distúrbios menstruais, exaustão da glândula adrenal e menopausa precoce. Muitos destes produtos químicos (ex. pesticidas, produtos petroquímicos) são cancerígenos e têm sido implicados no aumento da incidência de muitos cânceres. 2. Conjugação com sulfato. Os produtos da conjugação com sulfatos são sais de sulfatos ácidos (SO3) ou de sulfamatos (NHSO3). Substratos das vias de sulfatação: neurotransmissores, hormônios esteroides, certos medicamentos como o paracetamol, e muitos xenobióticos e compostos fenólicos. 3. Conjugação com aminoácidos. A reação consiste na formação de uma ligação peptídica entre o grupo amino de um aminoácido, geralmente, a glicina, e o grupo carbonila do xenobiótico. Substratos da via glicina: salicilatos e benzoato são desintoxicados principalmente via reação de glicinação. O benzoato está presente em muitas substâncias alimentares e é largamente utilizado como um conservante de alimentos. 4. Conjugação com glutationa. A reação é catalisada pela enzima glutationa-S- transferase. A glutationa é o antioxidante e protetor hepático mais poderoso do organismo. As reservas de glutationa podem se esgotar quando grandes quantidades de toxinas e/ ou drogas passam pelo fígado, bem como pela fome ou jejum. Tabela 5. Principais enzimas envolvidas nas fases I e II de desintoxicação hepática. Fase I Fase II Oxidação » Cytochrome P450 monooxygenase system » Flavin-containing monooxygenase system » Alcohol dehydrogenase e aldehyde dehydrogenase » Monoamine oxidase » Co-oxidação por peroxidases » UDP-glucuronosyltransferases » N-acetyltransferases » Amino acid N-acyltransferases » Sulfotransferases Redução » NADPH-cytochrome P450 reductase » Reduced (ferrous) cytochrome P450 Hidrólise » Esterases e amidases » Epoxide hydrolase 27 FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL│ UNIDADE I A abordagem clínica da eliminação de compostos acumulados geralmente envolve três etapas: (1) prevenção, (2) eficácia dos mecanismos endógenos de detoxificação, (3) intervenções para facilitar a remoção de substâncias tóxicas acumuladas. A desintoxicação endógena de produtos metabólicos, bem como de substâncias tóxicas exógenas é uma função fisiológica primária, que requer energia considerável. Quando substâncias tóxicas são identificadas por processos fisiológicos, as vias de excreção são mobilizadas para diminuir a toxicidade e para eliminar os compostos xenobióticos. As vias específicas utilizadas para excretar substâncias específicas dependerão das propriedades químicas do agente específico em questão. A capacidade de eliminação de compostos indesejáveis depende completamente do estado fisiológico e bioquímico do indivíduo. Qualquer fator que prejudique o pleno funcionamento bioquímico de desintoxicação, tais como deficiências nutricionais, vão impedir a eliminação adequada de substâncias tóxicas. Assim, é imperativo que os profissionaisde saúde compreendam os fundamentos da fisiologia e bioquímica de desintoxicação para garantir funcionamento dos órgãos de eliminação. A remediação de uma desordem nutricional bioquímica é um componente fundamental no tratamento do paciente. Por exemplo, a glutationa é um componente de prerrequisito para a desintoxicação celular, bem como um componente essencial na bioquímica de conjugação hepática. Indivíduos sob exposição a xenobióticos muitas vezes apresentam diminuição das reservas de glutationa, e, portanto, necessitam de reposição contínua. Também tem sido observado que apesar da competência bioquímica, o organismo humano não é capaz de excretar alguns agentes tóxicos químicos de forma eficaz. Uma das principais razões para a falha na eliminação de alguns compostos é a reabsorção via circulação entero-hepática ou reabsorção nos túbulos renais. Consequentemente, alguns agentes tóxicos são conjugados e levados dos tecidos para a corrente sanguínea para que haja excreção, mas são então reabsorvidos pelo organismo. Além disso, alguns compostos retidos são depositados em tecidos específicos, tais como ósseo, adiposo e muscular, no qual irão se acumular e alterar o funcionamento destes tecidos. Alguns compostos também permanecem no sangue, frequentemente ligados às proteínas plasmáticas. Intervenções para aumentar a excreção de compostos retidos podem ser inestimáveis para diminuir a morbidade associada ao acúmulo de substâncias tóxicas. Por exemplo, a vitamina D (essencial na regulação da expressão genética, e facilita a absorção de cálcio a partir do intestino) pode potencializar a absorção de elementos tóxicos tais como o chumbo, o cádmio, o alumínio, que por sua vez podem afetar o metabolismo da vitamina D. A contaminação com mercúrio pode alterar a absorção gastrointestinal de nutrientes resultando em deficiências e, assim, impedir a fisiologia normal. Alguns poluentes orgânicos liberados do tecido adiposo durante a perda de peso, a restrição calórica ou o exercício podem suprimir a função da tireóide. Os efeitos adversos da bioacumulação de agente tóxicos pode, por exemplo, alterar a função imune, que pode por sua vez leva a doenças autoimunes. Segundo pesquisas empíricas, várias estratégias podem ser utilizadas para auxiliar a remoção eficaz de algumas substâncias tóxicas acumuladas. A investigação científica sobre essas estratégias, no entanto, permanece em um estágio inicial uma vez que o problema da bioacumulação tóxica é um fenômeno recentemente reconhecido pela medicina clínica. Assim, pesquisa baseada em evidências suficientes para confirmar ou refutar objetivamente a eficácia das variadas “estratégias 28 UNIDADE I │FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL de desintoxicação” é muitas vezes inexistente. Dentre as possíveis estratégias de desintoxicação clínica destacamos a alimentação e a fitoterapia. As questões científicas são frequentemente muito mais passíveis de investigação em animais e cultura de células, e este corpo de evidências confirmou que alguns alimentos e nutrientes são extremamente valiosos para facilitar a excreção e reduzir a toxicidade das substâncias tóxicas. Embora não seja uma lista exaustiva, alguns suplementos incluem a curcumina (DANIEL et al., 2004), alliums (OLA-MUDATHIR et al., 2008), flavonoides de plantas como a quercetina (MILTON et al., 2010), selênio (MESSAOUDI et al., 2009), produtos de algas Parachlorella (UCHIKAWA et al., 2011; 2010) e Chlorella (MORITA et al., 2001; TAKEKOSHI et al., 2005), ácidos orgânicos naturais (DOMINGO et al., 1988) e fibras dietéticas (LIM et al., 2005), bem como antioxidantes (EYBL et al., 2006). Os mecanismos de ação incluem a prevenção da absorção de substâncias tóxicas, facilitando a eliminação de compostos tóxicos acumulados, o que dificulta a reabsorção entero-hepática de alguns compostos, e diminui a toxicidade através de mecanismos de proteção. As fibras e outros carboidratos insolúveis consumidos na dieta, por exemplo, parece atuar como uma esponja e aumenta a remoção de agentes adversos, tais como as micotoxinas, diminui a reabsorção entero-hepática e, portanto, aumenta a eliminação. Um exemplo é a Chlorella, uma alga do mar, que recentemente chamou a atenção de muitas pesquisas por suas propriedades únicas, facilitando a desintoxicação e impedindo a absorção de compostos adverso, tais como o mercúrio e o chumbo (UCHIKAWA et al., 2011; 2010; MORITA et al., 2001; TAKEKOSHI et al., 2005). fitoterápicos destoxificantes e hepatoprotetores A atividade das enzimas envolvidas no processo de detoxificação hepática é influenciada por alguns fatores, como: genética, gênero, idade, estado de saúde e nutricional, ingestão de xenobióticos. Desequilíbrios e disfunções hepáticas ocorrem podem ser causadas ou agravadas pelo excesso de xenobióticos, paralelamente à falta de substrato para metabolização. Existem diversos ativos de plantas que agem como destoxificantes e como hepatoprotetores. Muitas plantas são utilizadas popularmente para tais fins, mesmo sem comprovação científica que embase essa conduta. A seguir serão destacadas algumas plantas medicinais que apresentam ação detoxificante e/ou hepatoprotetora. Cardo mariano (Silybum marianum l.) O Silibium marianum L. pertence à família Asteraceae e suas folhas, flores, raízes e frutos são utilizadas em fitoterapia. Seu principal efeito é o hepatoprotetor e antioxidante, que está associado à presença de flavonoides, como a Silimarina (TIEN et al., 2011; GALHARDI, 2009). O cardo mariano tem sido utilizado como medicamento desde o século IV a.C para tratar náuseas, mordidas de serpentes, problemas menstruais e indutores da lactação. Relatos encontrados na 29 FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL│ UNIDADE I literatura indicam que no século XVI o cardo mariano passou a ser utilizada no tratamento de doenças hepatobiliares, sendo hoje indicada para esse fim em todo o mundo (FERREIRA, 2011). Estudos científicos revelaram que o Silibium marianum apresenta ação antioxidante, antiperoxidação lipídica, antifibrótica, anti-inflamatória da membrana, além de estabilizar mecanismos imunomoduladores de regeneração do fígado. Atualmente suas principais aplicações referem-se ao tratamento da hepatite, cirrose e proteção hepática contra substâncias tóxicas (LOGUERCIO; FESTI, 2011). Dentre os isômeros da silimarina estão a silibina, que é o composto mais ativo e o que apresenta maior quantidade (60% - 70%), seguida da silicristina (20%), silidianina (10%) e a isosilibidina (5%) (PRADHAN; GIRISH, 2006). Os mecanismos de ação da silimarina envolvem diferentes rotas bioquímicas, tais como (WELUNGTON; ARVIS, 2001): » estimulação da taxa sintética de RNA ribossomal (rRNA) através da estimulação da transcrição da polimerase 1 e do rRNA, protegendo as membranas celulares de danos induzidos por radicais e bloqueando a recaptação de toxinas, como a alfa amantina; » aumento dos níveis séricos de glutationa e de glutationa S-transferase; » a silimarina pode facilitar a conjugação da bilirrubina com o ácido glicurônico (reação de fase II) ou ainda inibir a enzima gama-glucuronidase frente a toxinas patogênicas de bactérias intestinais. Além disso, a silibina também é um potente inibidor da beta-glucuronidase intestinal humana, bloqueando a liberação e reabsorção de xenobióticos livres e seus metabólitos conjugados de glicuronídeo (LOGUERCIO; FESTI, 2011). É importante destacar que a silibina interage com algumas enzimas do grupo enzimático P450, o que pode interferir no metabolismo de determinados fármacos, dependendo da enzima necessária para a metabolização deste. Portanto, é fundamental que o profissional prescritor verifique se o fitoterápico e osoutros fármacos utilizados concomitantemente pelo paciente fazem uso da mesma via. A administração de silimarina em diferentes concentrações já foi testada em diversos estudos científicos. Wu et al. (2008) administrou silimarina em doses diferentes em ratos. A silimarina exerceu efeitos benéficos em estágios iniciais de danos hepáticos e alterações gordurosas, além de reduzir a histopalotogia das células desse órgão, impedindo a formação de carcinoma hepatocelular durante o estado pré-carcinogênico. A silimarina também foi capaz de bloquear a progressão do câncer após a formação de nódulos, recuperou a estrutura de hepatócitos e, de maneira dose-dependente, reduziu a formação de radicais livres. Em outro estudo, Bonifaz (2009) analisou o efeito da silimarina sobre o vírus da hepatite C e a expressão gênica de células de hepatoma humano. Os resultados sugerem que a silimarina 30 UNIDADE I │FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL exerceu um efeito benéfico, porém enfatizaram que ainda é necessário mais estudos prospectivos, randomizados e controlados para se comprovar esse benefício. Além disso, outros pesquisadores mostraram os benefícios da silimarina como protetor contra a lesão hepática grave após envenenamento pelo cogumelo Amanita phalloides e como agente protetor contra a medicação utilizada no tratamento da tuberculose (SALHANICK et al., 2008; BEDI et al., 2009). Usualmente o Silubum marianum L é prescrito na forma de extrato seco padronizado (70%-80%) em cápsula, com uma dosagem de 100mg-300mg, 3 vezes ao dia (dosagem para adulto). A prescrição da silimarina de forma isolada é restrita aos médicos. Efeitos adversos são raros, porém doses acima de 1.500 mg por dia podem exercer efeito laxativo e aumentar a secreção de bile. Alcachofra (Cynara scolymus) Oriunda do mediterrâneo, a Cynara scolymus pertence à família Compositae e suas folhas, brácteas e raiz são utilizadas mundialmente para fins medicinais. Em suas folhas as principais substâncias químicas encontradas são os ácidos fenólicos, flavonoides e sesquiterpenos, sendo a cinarina (ácido monocafeioilquínico) o princípio ativo da planta (NOLDIN; CECHINEL, 2003). Diversos estudos utilizando o extrato de alcachofra em diversas concentrações indicam que a infusão das folhas secas dessa planta apresenta ação hepatoprotetora, antioxidante, colerética, colagoga, antidespéptica, diurética, antibacteriana, redutora de colesterol e estimulante do sistema hepatobiliar (PITTLER et al., 2003). Além disso, a Alcachofra é indicada contra náuseas, indigestão e aterosclerose (HOLTMANN et al., 2003). Küçukgergin et al. (2010), em estudo utilizando extrato de folha de alcachofra em ratos alimentados com uma dieta rica em gordura e colesterol, durante um mês, demonstrou que Após o tratamento observou-se que houve diminuição dos níveis séricos de colesterol e triglicérides, porém não no fígado, mas ocorreu redução significativa da disfunção hepática e níveis de malondialdeído cardíaco, além de aumentar a vitamina E no fígado e a atividade da glutationa peroxidase. Mehmetçik et al. (2008), em um modelo de estresse oxidativo induzido em ratos por tetracloreto de carbono (CCI4), avaliou a capacidade hepatoprotetora do extrato de folha de alcachofra. Os ratos tratados com o extrato de Alcachofra apresentaram reduções significantes nas atividades das transaminases plasmáticas, melhoria das alterações histopatológicas no fígado, diminuição dos níveis de malondialdeído e dieno conjugado e aumento na atividade da glutationa peroxidase e glutationa redutase. Os resultados sugerem que a administração in vivo de extrato de alcachofra pode ser útil para a prevenção de hepatotoxicidade induzida pelo estresse oxidativo. Outro grupo de pesquisadores estudou os efeitos de um extrato feito da parte comestível da alcachofra. O extrato foi capaz de proteger os hepatócitos do estresse oxidativo, além de evitar a diminuição de glutationa e o aumento de malondialdeído e ainda induzir a apoptose de células cancerígenas (MICCADEI et al., 2008). 31 FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL│ UNIDADE I É importante ressaltar que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) adverte que o uso da Cynara scolymus deve ser feito com cautela em pacientes com doenças da vesícula biliar, hepatite grave, falência hepática e câncer no fígado. Alho (Allium sativum) O Allium sativum é um fitoterápico pertencente à família Liliaceae e seus bulbos são utilizados com finalidades medicinais e culinárias desde a antiguidade. A alicina é o principal composto bioativo encontrado no alho e exerce ação antiviral, antifúngica e antibiótica, seguido da aliina que exerce efeito hipotensor e hipoglicemiante. O alho também contém selênio agindo como antioxidante. Iciek et al. (2011), em modelo de ratos, mostraram que os componentes ativos do alho reduzem as espécies reativas de oxigênio e malonialdeído, com aumento na glutationa S-transferase, sugerindo uma ação hepatoprotetora, pela indução de enzimas de fase II. O extrato de alho pode alterar as enzimas citocromo P450 no fígado, sendo essas responsáveis pela metabolização de compostos químicos exógenos, como medicamentos. Estudos mostraram que a ingestão de um suplemento de alho em pó reduziu as concentrações sanguíneas de Saquinavir e Ritonavir (medicamentos utilizados no tratamento antirretroviral de pacientes portadores do vírus HIV) e esse efeito foi atribuído à estimulação das isoenzimas P450 e toxicidade gastrointestinal grave. Por outro lado, estudos realizados com os compostos ativos dialui sulfeto e dialil disulfeto, derivados do alho, não apresentaram estímulo das isoenzimas P450 e nem toxicidade gastrointestinal grave (GALLICANO et al., 2003). Cox et al. (2006), em estudo que avaliou a influência da suplementação de alho sobre a farmacocinética do docetaxel, fármaco utilizado no tratamento de câncer, revelou que, apesar de alguns estudos terem mostrado que a alicina pode interferir na atividade da enzima CYP3A4, o alho não afetou significativamente a disposição de docetaxel. A ANVISA adverte que o alho na forma de fitoterápico não deve ser utilizado por indivíduos menores de três anos e pessoas com gastrite e úlcera gástrica, hipotensão, hipoglicemia, hemorragia e em pessoas que fazem uso de anticoagulantes. dente-de-leão (taraxactun officinale) O Taraxacum officinale pertence à família Asteraceae e seu rizoma, flores, inflorescência, sementes são muito utilizadas na medicina popular. Os principais efeitos relatados são para o tratamento da dispepsia, azia, distúrbios no baço e fígado (hepatite), anorexia, inflamações, câncer de mama e útero. O dente-de-leão é rico em terpenóides e princípios amargos (principal-mente taraxacin e taraxacerin), além de conter: compostos esteroides, incluindo beta-amirina, taraxasterol e etaraxero que estão relacionados com a bile; um terpeno antialérgico (desacetylmatricarina); polissacarídeos 32 UNIDADE I │FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL (principalmente fructosanos e inulina) e pequenas quantidades de pectina, resina, mucilagem e flavonoides. São encontrados em toda a planta os ácidos hidroxicinâmicos, chicórico, monocafeil- tartárico e clorogênico e a cumarina nas folhas. Além disso, o Taraxactun officinale também é fonte de clorofila e uma variedade de vitaminas e minerais, tais como: β-caroteno, vitaminas C e D, vitaminas do complexo B, colina, silício, ferro, sódio, magnésio, potássio, zinco, cobre, manganês e fósforo. Choi et al. (2010), em estudo realizado com coelhos alimentados com uma dieta hipercolesterolêmica, demonstraram que o uso da folha e raiz de Taraxacum officinale aumenta atividade da glutationa, da glutationa peroxidase e a superóxidodismutase. Por outro lado, a atividade da enzima glutationa S-transferase diminuiu com o uso da raiz, bem como da catalase. No que diz respeito à peroxidação lipídica no fígado, o tratamento com a raiz do dente de leão resultou em redução significativa no nível de TBARS (um produto da peroxidação lipídica), mas o mesmo não ocorreu com a folha. Outros estudos confirmam o efeito do dente-de-leão sobre o aumento da atividade da glutationa, com consequente diminuição da peroxidação lipídica hepática (PARK et al., 2010). O efeito protetor do extrato de raiz de dente-de-leão foi testado em lesões hepáticas induzidas por álcool in vivo e in vitro. Em células hepáticas tratadas com etanol 39% na presença do extrato aquoso de raiz de dente-de-leão (TOH) nenhum dano foi observado, enquanto que o extrato alcoólico de dente-de-leão (TOE) não apresentou atividade hepatoprotetora potente. No mesmo estudo, os camundongos que receberam TOH (lg/kg de peso corporal/dia) apresentaram uma redução significativa de transaminases hepáticas e aumento das atividades antioxidantes das enzimas catalase, glutationa S-transferase, glutationa, glutationa peroxidase e glutationa redutase, além de apresentarem melhora nos níveis de malondialdeído. Os autores concluíram a administração de TOH protegeu contra a hepatotoxicidade induzida pelo etanol. Esses resultados sugerem que o extrato aquoso de dente-de-leão tem ação hepatoprotetora contra a toxicidade induzida pelo álcool, elevando o potencial antioxidante e diminuindo a peroxidação lipídica (YOU et al., 2010). Por outro lado, outros estudos em linhagem de hepatoma humano Hep G2, relatam evidências de citotoxicidade e produção de citocinas (fator de necrose tumoral (TNF)-alfa e interleucina (IL)- 1 alfa) em comparação aos controles. Além disso, a apoptose de células Hep G2 foi fortemente induzida, pelo aumento da quantidade de TNF-α e IL-lα (KOO et al., 2004). » Contraindicações: De acordo com a ANVISA o uso desse fitoterápico deve ser evitado na presença de obstrução dos ductos biliares e do trato intestinal. Boldo (Peumus boldus) O Peumus boldus pertence à família Moniiniaceae e tem sua origem nas regiões montanhosas do Chile, por isso é conhecido no Brasil como boldo ou boldo-do-Chile. Em suas folhas encontramos alcalóides pertencentes à classe dos benzoquinolínicos (0,4%-0,5%), sendo a boldina o principal deles (cerca de 12%-19%), além de taninos, óleo essencial, flavonoides e glicolipídicos (SCHWANZ et al., 2008). 33 FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL│ UNIDADE I Os principais efeitos relacionados ao boldo são: estimulante de secreções gástricas, antidispéptico, colerético, colagogo, antiespasmódico, tratamento de cálculos biliares, cistite e colelitíase acompanhada de dor e diurético (SCHWANZ et al., 2008). Estudos revelam que a boldina apresenta baixa toxicidade, não exerce efeito sobre a atividade do citocromo P450, mas sim promove forte inibição da peroxidação dos microssomas de fígado humano, a boldina por ser considerada um valioso antioxidante, agente hepatoprotetor (KRINGSTEIN et al., 1995), e anti-inflamatório agudo (LANHERS et al., 1991). Apesar dos efeitos benéficos em alguns casos, mediante outros resultados obtidos na literatura a respeito da toxicidade do extrato hidroalcoólico de folha seca de boldo, sugere-se moderação e cuidado na administração de boldo, principalmente quanto ao uso prolongado e também durante o primeiro trimestre da gravidez, principalmente pela falta de conhecimento de mecanismos (ALMEIDA et al., 2000). Em acordo com esses estudos a ANVISA orienta que uso desse fitoterápico deve ser cauteloso e monitorado, principalmente em pessoas com doença hepática aguda ou severa, colecistite séptica, espasmos do intestino e íleo e câncer no fígado. E contraindicada para indivíduos que apresentem obstrução das vias biliares, doenças severas no fígado e gestantes. 34 CAPítulo 5 dispepsia Condição clínica caracterizada por náusea, pressão gástrica, inchaço, flatulência e dor abdominal espasmódica, que ocorre devido à deficiência na secreção de ácido gástrico, na produção biliar com prejuízo no enchimento e esvaziamento da vesícula biliar ou deficiência na secreção pancreática exócrina. O tratamento farmacológico da dispepsia frequentemente é feito com antagonistas dos receptores H2 e inibidores de bomba de prótons, com resultados limitados (HOLTIVIANN et al., 2003). Diversos fitoterápicos têm sido utilizados no tratamento da dispepsia, através de efeitos antiespasmódicos, aumento da contração da vesícula biliar com aumento da secreção biliar e estimula às secreções gástricas e salivares (THOMPSON; ERNST, 2002). São exemplos: » erva doce (pimpinella anisum); » cavalinha (equisetum arvense); » alcachofra (cynara scolymus); » laranja amarga (citrus aurantium); » gengibre (zingiber officinale); » angélica (angelica archangelica); » melissa (melissa officinalis); » pessegueiro (prunus pérsica); » hortelã (mentha piperita); » cardo santo (cnicus benedictus); » boldo (peumus boldus); » cominho (carum carvi); » cardamomo (elettaria cardamomum); » cardo mariano (silybum marianum); » alecrim (rosmarinus officinalis); » anis estrelado (allicium verum); » tomilho (thymus vulgaris). 35 FITOTERAPIA EM DESORDENS DO TRATO GASTRINTESTINAL│ UNIDADE I De acordo com uma revisão da literatura produzida por Thompson e Ernst (2002), 9 estudos randomizados usaram a hortelã (Mentha piperita) e o cominho (Carum carvi) em combinações fitoterápicas que foram capazes de reduzir os sintomas em 60% a 95% dos pacientes, especialmente quando esses fitoterápicos foram associados a outros (efeitos sinérgico). A hortelã promove inibição das contrações do músculo liso devido à interação direta entre o óleo de hortelã e os canais de cálcio do músculo liso de humanos. O mesmo trabalho de revisão apontou que a cúrcuma (Curcuma longa), em estudos realizados com humanos, promove aumento na produção e secreção da bile, promoção da contração da vesícula biliar, efeito carminativo e antiespasmódico. Algumas substâncias amargas também são muito empregadas no tratamento da dispepsia, agindo por estímulos originados na boca, induzindo um reflexo no aumento da secreção gástrica e biliar, especialmente quando consumidas antes de uma refeição. São exemplos de plantas ricas em amargas: a genciana (Gentiana lútea L.), losna (Artemisia absinthium L.), cardo santo (Cynara cardunculus L.), casca de quina (Cinchora calisaya Wedd), lúpulo (Humulus lupulus L.) e ruibarbo (Rheum palmatum L.) (SCHULTZ et al., 2002). São efeitos adversos comuns ao uso de plantas amargas: dores de cabeça, náuseas ou vômitos em indivíduos susceptíveis, devido ao aumento na produção de enzimas digestivas. O seu uso não é recomendado em pacientes com úlcera gástrica ou duodenal (SCHULTZ et al., 2002). A alcachofra (Cynara scolymus) é outra opção com grande potencial terapêutico. Sannia (2010) em estudo realizado em pacientes com diagnóstico de dispepsia funcional que receberam por dois meses um produto contendo extrato de folhas de alcachofra (15% de ácido clorogênico – 150mg/ cápsula), extrato de dente-de-leão (2% de inulina), rizoma de Curcuma longa (95% de curcumina) e óleo essencial de alecrim microencapsulado, verificou que 38% deles apresentaram redução de 50% de todos os sintomas em 30 dias de tratamento. Após 60 dias de tratamento a redução dos sintomas foi de 79 %. Além disso, os indivíduos apresentaram redução do colesterol total, LDL, triacilgliceróis em 6% a 8%. Esses resultados foram confirmados por outro estudo realizado em 244 pacientes com dispepsia funcional (HOLTIVIANN et al., 2003) O uso do extrato da alcachofra é contraindicadona gestação e lactação por reduzir a produção de leite. Além disso, foram também descritos casos de urticária e dermatite de contato em pessoa que tiveram contato freqüente com alcachofra (FERRO, 2006). 36 unidAdE ii fitotErAPiA EM dESordEnS CArdiovASCulArES Atualmente as doenças cardiovasculares representam uma das causas mais frequente de morte no mundo industrializado. Apesar dos avanços da medicina moderna, ainda há reflexos sobra a melhora na morbidade. Isto se deve, sobretudo, no fato de a prevenção não merecer a devida atenção durante décadas e, apenas recentemente, vir sendo discutida de maneira mais frequente. Estimular medidas e estilos de vida que previnam o desenvolvimento de doenças cardiovasculares é a melhor e mais eficiente conduta. Segundo Fintelmann (2010): [...] Há um enorme equívoco da medicina moderna em confundir o coração e o sistema circulatório com um sistema mecânico de bombeamento. Por exemplo, não se pode mais subestimar ou negar a dependência do coração e do sistema circulatório do estado emocional do indivíduo. Tal visão global certamente justificaria, no futuro, também o valor dos fitomedicamentos para o tratamento de doenças cardíacas e mostraria principalmente o seu papel único na prevenção. Esta maneira de pensar também conduz à ideia de que o coração, a circulação e os vasos sanguíneos não podem ser considerados isoladamente, mas que eles formam uma unidade funcional. Caso haja um distúrbio nesses órgãos, em apenas um determinado ponto, isto poderá causar um efeito na organização de todo o sistema. Esta abordagem é considerada por muitos medicamentos fitoterápicos para o tratamento de distúrbios do sistema cardiovascular, os quais normalmente apresentam um efeito terapêutico mais abrangente do que os medicamentos sintéticos, frequentemente de efeito seletivo [...] 37 CAPítulo 1 doenças cardiovasculares degenerativas Doenças cardiovasculares degenerativas são distúrbios cardiovasculares não inflamatórios, relacionados com o desenvolvimento de doenças crônicas prevalentes na idade avançada. A degeneração do miocárdio, por exemplo, tem como consequência tardia a insuficiência cardíaca, e a degeneração arteriosclerótica das artérias coronárias com sintomatologia da angina pectoris e do infarto do miocárdio é considerada doença cardíaca coronariana. A degeneração das artérias, a arteriosclerose, manifesta-se perifericamente na doença arterial obstrutiva, enquanto, no âmbito do sistema nervoso central, ela afeta os vasos que suprem o cérebro, tendo como consequência a insuficiência vascular cerebral e a apoplexia (FINTELMANN, 2010). Atualmente, a doença coronariana é a forma mais frequente dentre todas as doenças cardíacas. Principalmente no mundo ocidental civilizado, ela tem um significado de destaque e é quase uma expressão da vida moderna. A insuficiência cardíaca é normalmente consequência de doenças cardíacas degenerativas, em especial da doença cardíaca coronariana. As miocardiopatias ocupam as causas principais de insuficiência cardíaca, as quais podem ser decorrentes de inflamações ou cardiotoxicidade. A dedaleira (Digitalis purpurea L.) é uma planta medicinal de elevada atividade; porém não é mais utilizada como fitoterápico. Atualmente é utilizada a substância ativa isolada, em sua maior parte obtida por semissíntese, como a digitoxina ou a digoxina e raramente as substâncias ativas da dedaleira são obtidas a partir da própria planta. Espinheiro-branco (Crataegus laevigata - Crataegus monogyna) Crataegus pertence à família das rosáceas e é um dos fitoterápicos mais pesquisados pela comunidade científica e sua eficácia, sob o ponto de vista farmacológico, é comprovada por diversos estudos científicos. Entre os principais constituintes estão as procianidinas oligoméricas (tatinos), flavonoides monoméricos, como, por exemplo, o hiperosídeo, a quercetina e a ramnovitexina. Além de conter aminas biogênicas, ácidos triterpênicos, esteroides, purinas e taninos catéquicos. Os flavonoides e as procianidinas oligoméricas são os constituintes mais importantes para a atividade do espinheiro-branco. Os flavonoides exercem influência maior sobre o metabolismo do miocárdio, enquanto as procianidinas oligoméricas são responsáveis, principalmente, pelo grau de irrigação nas artérias coronárias. Diversos estudos relatam os seguintes efeitos relacionados ao Crataegus: » aumento do fluxo sanguíneo coronariano e da irrigação do miocárdio; 38 » melhora da contratilidade do músculo cardíaco (leve efeito inotrópico positivo); » regulação do ritmo cardíaco em determinadas formas de instabilidade elétrica cardíaca; » aumento da tolerância do miocárdio em relação à hipóxia; » elevação do débito cardíaco, redução da resistência vascular periférica (como uma grandeza de medida da pressão diastólica), aumento do desempenho do músculo cardíaco. A monografia da Comissão E, do ano de 1983, descreve a ampla eficácia do espinheiro-branco. As indicações formuladas na ocasião são as seguintes: 1. redução da capacidade de trabalho cardíaco com relação aos estágios I e II, segundo a NYHA (New York Heart Association); 2. sensação de opressão no precórdio; 3. coração senil, sem indicação imediata para a prescrição de digitálicos; 4. formas leves de arritmias bradicárdicas. Diversos estudos foram focalizados no uso do Crataegus no tratamento da insuficiência cardíaca, em parte também sobre a melhora da perfusão sanguínea coronariana. A partir destes dados a Comissão E, que já havia emitido em 1983 seu primeiro parecer sobre o espinheiro-branco, o qual foi revisado em 1988, reformulou e limitou suas indicações para os casos de insuficiência cardíaca do tipo II, de acordo com a NYHA. Muitas pesquisas in vitro e in vivo comprovaram uma atividade do extrato de crataego no aumento do fluxo sanguíneo coronariano estimulante da irrigação coronariana, redução da pressão sanguínea, aumento do fluxo sanguíneo periférico (cabeça, músculo esquelético e rins) e resistência periférica (RÁCZ-KTILLA et al., 1980; AMMON et al., 1981; PETKOV, 1979). Ao contrário dos glicosídeos digitálicos, as pesquisas demonstram que o espinheiro-branco não afeta o sistema contrátil do miocárdio, mas influencia seu metabolismo energético. Foram observadas ações cronotrópicas negativas e inotrópicas positivas (in vivo) atribuídas às frações flavonoídicas e proantocianidínicas (LEUKEL, 1986). Ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo avaliaram efeito de um extrato seco etanólico 45% de folhas com flores de Crataegus (WS-1442; proporção de droga-extrato 4 a 6:1; contendo 18,8% de procianidinas oligoméricas) ou outro extrato semelhante (LI-132; padronizado para 2,2% de flavonoides) comparando com placebos ou com inibidor da enzima conversora de angiotensina (ECA). Quatro estudos concluíram que a carga máxima no trabalho foi superior no grupo tratado com Crataegus quando comparado ao grupo placebo e outros seis ensaios observaram redução da pressão arterial sistólica e frequência cardíaca associada ao uso do fitoterápico (PITTLER et al., 2003). 39 fitotErAPiA EM dESordEnS CArdiovASCulArES│ unidAdE ii Revisões sistemáticas na literatura concluem que os extratos de Crataegus são benéficos como tratamento adjuvante em pacientes com insuficiência cardíaca, mas não existem dados suficientes para justificar seu uso isolado para o tratamento da doença. Doses citadas na literatura de referência (BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » fruto seco de 0,3 a 1,0g na forma de infuso, três vezes ao dia; » extrato líquido 0,5 a 1,0ml (1:1 em álcool a 25%), 3 vezes ao dia; » tintura de 1 a 2 ml (1:5 em álcool a 45%), 3 vezes ao dia. A folhacom flor pode ser utilizada para o tratamento de insuficiência cardíaca correspondendo ao estágio funcional II da New York Heart Association (nyha), 160 a 900 mg de extrato hidroalcólico (etanol 45% v/v ou mentol 70% v/v; proporção droga-extrato 4 a 7:1, com teor definido de flavonoides, calculados como hiperosídeo, e 30 a 168,7mg de procianidins , calculadas como epicatequinas), diariamente, em 2 a 3 doses divididas ao dia (BLUMENTHAL et al, 1998). » Contraindicações e advertências: na gestação e lactação por apresentar atividade sobre o tecido uterino, reduzindo tônus e motilidade em estudos in vitro e in vivo. 40 CAPítulo 2 doenças vasculares cerebrais e periféricas Além das doenças cardíacas degenerativas, as doenças vasculares cerebrais e periféricas constituem outro grande grupo de doenças do mundo moderno. Alho (Allium sativum) O alho pertence à família liliaceae e ao gênero allium. Há relatos da utilização do alho como planta medicinal já no ano 3000 a.C., uma receita à base de alho foi encontrada em inscrições rupestres (escrita cunciforme) (FINTELMANN, 2010). O uso do alho é justificado pela literatura científica atual que o relaciona com efeitos anti-hipertensivos, antiaterogênicos, antitrombóticos, antimicrobianos, fibrinolítico, prevenção de câncer e redutor de lipídeos (barners, livro). O bulbo do alho é composto por folhas espessadas e carnudas na parte inferior do caule, denominadas gomos do bulbo. O que o diferencia em relação à cebola consiste no fato de o alho ser constituído por 6-15 bulbos parciais, chamados de “dentes” que, juntos, formam a cabeça do alho, apoiados sobre uma base axial de brotamento (FINTELMANN, 2010). A cebola é o representante mais conhecido do gênero Allium, muito utilizada em culinária (Allium cepa). Assim como a cebolinha (Allium schoenoprasum) e o alho-poró (Allium porrum) também pertencem a esse gênero. Diversos efeitos benéficos sobre a saúde também estão relacionados ao uso da cebola, os quais, no entanto, diferem parcialmente daqueles do alho, de modo que ambos se complementam (FINTELMANN, 2010). A sua utilização é indicada principalmente nos estágios iniciais da arteriosclerose agindo tanto na prevenção quanto em estágios finais da arteriosclerose. Em monografia elaborada pela Comissão E especifica relaciona o uso do alho como auxiliar nos casos de hiperlipidemias e para prevenção de alterações vasculares causadas pelo envelhecimento. Estudos científicos in vitro e in vivo atribuem ao alho e suas bases de enxofre efeitos sobre a biossíntese de colesterol (QURESHI et al., 1983; GEBHAR; BECK, 1996). O mecanismo dessa ação ainda não foi totalmente esclarecido, porém algumas etapas dessa rota já foram propostas, como, por exemplo: inibição da atividade das enzimas envolvidas na síntese de colesterol hidroximetilglutaril- CoA (HMG-CoA) redutase e lanosterol-14-demetilase; redução na biossíntese de triacilglicerol através da redução da concentração de NADPH nos tecidos; Aumento da atividade da enzima lípase resultando em aumento da lipólise (KOCH , 1996; LAU et al., 1983; ADOGA, 1987). 41 FITOTERAPIA EM DESORDENS CARDIOVASCULARES│ UNIDADE II Gupta e Porter (2001 – REF 32), demonstraram que o extrato de alho fresco e os compostos S-alilcisteína, dialil trissulfeto e adialil dissulfeto inibem a esqualeno monoxigenase humana, enzima que está envolvida na síntese de colesterol. Além disso, a atividade antitrombótica do alho já está bem documentada. É conhecido que um aumento na concentração sérica de fibrinogênio, juntamente com uma redução no tempo de coagulação do sangue está relacionado aoefeito trombótico. O alho exerce efeito benéfico em todos esses parâmetros e inibe a agregação plaquetária (BOULLIN et al., 1981; GAFFEN et al., 1984) pela inibição da síntese de tramboxana pela inibição das enzimas ciclo-oxigenases e lipoxigenases, inibição da enzima fosfolipase de membrana e incorporação do ácido araquidônico nos fosfolipídios da membrana da plaqueta (WAGNER et al., 1987), além de inibir a absorção de cálcio nas plaquetas (SRIVASTA et al., 1986). A alicina e o ajoeno (produto secundário da degradação da aliina) são os componentes químicos do alho relacionados à inibição da agregação plaquetária (MOHMMAD, 1986). Além disso, as propriedades antioxidantes do alho são amplamente reconhecidas em diversos estudos científicos . O alho é capaz de inibir a formação de radicais livres e potencializa enzimas antioxidantes celulares, tais como superóxido dismutase, catalase e glutationa peroxidase, protegendo lipoproteínas de baixa densidade (LDL) da oxidação. Outro efeito relacionado ao alho é a inibição da ativação do fator de transcrição nuclear kappa B (NF-κB), responsável pela indução da transcrição e tradução de citocinas inflamatórias (BOREK, 2001). Diversos estudos clínicos realizados em pacientes com doenças cardíacas coronarianas, hiperlipidemia e hipercolesterolemia, além de indivíduos saudáveis, documentam o efeito fibrinolítico das formulações contendo alho. Grande parte dos estudos placebo-controlados utilizou 20 mg de óleo de alho extraído com éter, diariamente por até 90 dias, ou 600 a 1.500mg de alho em pó por até 28 dias. Os resultados da maior parte desses estudos, mas não todos, foi um aumento significativo da atividade fibrinolítica entre os indivíduos que receberam alho. As doses mais comuns para adultos indicadas pela literatura científica são: » Bulbo seco de 2 a 4g, 3 vezes ao dia (Bradley, 1992) ou alho fresco, 4g ao dia (BLUMENTHAL et al., 1998); » Tintura de 2 a 4 mL (1:5 em álcool 45%), 3 vezes ao dia (BRADLEY, 1992); » Óleo de 0,03 0,12 mL, 3 vezes ao dia; Os ensaios clínicos que investigaram o efeito do alho sob diversos parâmetros relacionados ao desenvolvimento de doenças vasculares cerebrais e cardiovasculares degenerativas, utilizaram doses de 600-900mg ao dia por um período de 4 a 24 semanas (SCHULZ et al., 2000). 42 unidAdE ii │fitotErAPiA EM dESordEnS CArdiovASCulArES Efeitos adversos e contraindicações Efeitos colaterais sobre o trato gastrointestinal, incluindo sensação de queimação na boca e trato gastrintestinal, náuseas, vômitos e diarreia, assim como reações alérgicas, são raros mas já foram documentados (NAKAGAWA et al., 1984). Todavia, o odor desagradável incomoda alguns pacientes, motivo pelo qual doses suficientes de um preparado eficaz à base de alho ou o próprio alho fresco raramente são ingeridos regularmente por um período de tempo prolongado. O alho é considerado abortivo, além de afetar o ciclo menstrual e exercer efeito na contração uterina. Portanto, preparações fitoterápicas que contenham alho são contraindicadas durante a gestação e lactação (FARNSWORTH, 1975, JOSHI et al., 1987). ginkgo (ginkgo biloba) O Ginkgo pertence à família das Ginkgoáceas e suas folhas, Ginkgo biloba folium, são usadas como droga vegetal. De modo similar ao espinheiro-branco e ao alho, o interesse científico sobre os efeitos dos extratos de Ginkgo biloba tem crescido nas últimas décadas. Existem relatos do seu uso antes de 2800 a.C. pela medicina tradicional chinesa. Atualmente sua principal aplicação terapêutica é para deficiência cognitiva, claudicação intermitente (em geral resultante de doença arterial oclusiva periférica), vertigem e zumbido de origem vascular (BARNES, 2012). Os principais constituintes do Ginkgo biloba são: flavonoides, procianidinas, diterpenoides, ginkgolídeos e bilobalida. Devido aos flavonoides, a eficácia do EGB como capturador de radicais livres é muito reconhecida. Em casos de isquemias, hipóxias e outros distúrbios metabólicos, a produção de radicais livres encontra-se aumentada. Pesquisas in vitro e in vivo indicam que, a capacidade de fluidez do sangue é melhoradaatravés do uso de EGB, além de proteger a membrana dos eritrócitos contra a hemólise (FINTELMANN, 2010). Muitos estudos de revisão da literatura confirmam seus efeitos neuroprotetores (CHRISTEN, 2001) e tem se mostrado como uma importante planta medicinal para o tratamento de distúrbios circulatórios, especialmente do cérebro. Um estudo duplo-cego randomizado em 60 pacientes com demência degenerativa primária de grau leve a moderadamente grave realizado por Weitbrecht e Jansen em um estudo, revelou que o tratamento com EGB produzia melhora significativa nas condições clínicas e nos resultados de testes psicométricos, após um tratamento com duração de 4 a 12 semanas, em comparação ao placebo. Outro grupo de pesquisadores, Halama e cols, em estudo realizado com 40 pacientes ambulatoriais com diagnóstico de insuficiência vascular cerebral, de grau leve a moderado, com base em um estudo duplo-cego randomizado e controlado por placebo, a eficácia do EGB sobre os sintomas dessa doença, demonstrado um efeito superior em distúrbios de memória de curta duração e de vigília mental, além do efeito observado em vertigens. 43 FITOTERAPIA EM DESORDENS CARDIOVASCULARES│ UNIDADE II Além disso, o extrato padrozinado de Ginkgo (EGb-761 – veja Posologia), exerce efeito de vasorregulação (vasodilatação e vasoconstrição) (DEFEUDIS, 1998; PAPADOPOULOS et al., 1997); cardioprotetor (23), inibição competitiva a ligação do fator de ativação de plaqueta (PAF) ao seu receptor de membrana (DEFEUDIS, 1998; HOSFORD et al., 1988). As principais referências científicas sobre plantas medicinais sugerem as seguintes doses: » As doses mais utilizadas para deficiência cognitiva são de 120 a 240 mg de extrato seco da folha, via oral, dividido em 2 ou 3 doses (BLUMENTHAL et al., 1998). » Em casos de doença arterial oclusiva periférica e vertigem/zumbido a dosagem mais utilizada fica 120 a 160 mg de extrato seco, via oral, dividido em 2 ou 3 doses diárias (BLUMENTHAL et al., 1998). Geralmente, os ensaios clínicos utilizam o extrato padronizado de folhas de Ginkgo biloba EGb-761 (glicosídeos flavonoídicos de 22 a 27% determinados como quercetina, campferol e isorramnetina; lactonas terpênicas de 5 a 7%, incluindo de 2,8 a 3,4% de ginkoglídeos A, B e C; 2,6 a 3,2% de bilobadina, emenos de 5 ppm de ácidos ginkgólicos) (BLUMENTHAL et al., 1998; SCHULZ et al., 2000). De acordo com a farmacopéia britânica e européia, o ginkgo consiste de folhas secas da planta, contendo não menos que 0,5% de flavonoides expressos como glicosídeos da flavona. 44 CAPítulo 3 distúrbios circulatórios Hipertensão arterial visco-branco (viscum album l.) O visco-branco é um arbusto de forma esférica pertencente à família das Loranthaceae cresce como parasita sobre árvores de folhas caducas e coníferas. Seus caules se ramificam de forma dicotômica, como frequentemente é encontrado em plantas inferiores (por exemplo, algas). Do visco utilizam-se as partes aéreas, folhas, frutos e galho. A partir do visco foram identificadas numerosas substâncias, principalmente polipeptídeos tóxicos (viscotoxina), além de lectinas, flavonoides, aminas biogênicas, terpenoides, viscotoxinas, fenilpropanoides, polissacarídeos e lignanas. De acordo com várias monografias o visco-branco apresenta propriedades hipotensoras, depressoras cardíacas e sedativas. É usado tradicionalmente na hipertensão, arteriosclerose, taquicardia nervosa, cefaleia hipertensiva e histeria (BISSET, 1994; BLUMENTHAL et al., 1998; WILLIAMSON, 2003). Além disso, o uso de formulações viso-branco atualmente está voltado para o tratamento adjuvante do câncer. Weiss classificou o visco como um típico fitoterápico, o qual apresenta um leve efeito hipotensor, porém não imediato. Entretanto, devido aos efeitos benéficos sobre os sintomas subjetivos, tais como dores de cabeça, sensação de tontura, diminuição da capacidade produtiva, irritabilidade e outros sintomas, os quais se desencadeiam em associação à hipertensão, ele foi aprovado na prática médica, especialmente por não ocasionar efeitos colaterais indesejáveis. O mecanismo de seu efeito hipotensor ainda é incerto, no entanto, evidências apontam para um caráter principalmente de reflexo, exercendo efeito normalizador sobre os estados tanto de hipertensão quanto de hipotensão (PETKOV, 1979). As principais referências científicas sobre plantas medicinais sugerem as seguintes doses (BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » Folhas secas de 2 a 6g, na forma de infusão, 3 vezes ao dia; » Extrato líquido de 13 ml (1:1 em 25% de álcool), 3 vezes ao dia; » Tintura 0,5 ml (1:5 em 45% de álcool), 3 vezes ao dia; Contraindicações e advertências (SCHULZ, 2000): » Casos de alergia conhecida a formulação, condições inflamatórias agudas e febre alta; » Devido a seus constituintes tóxicos e é contraindicado na gestação e lactação. 45 FITOTERAPIA EM DESORDENS CARDIOVASCULARES│ UNIDADE II oliveira (olea europaea) A oliveira é uma das principais plantas dos países mediterrâneos. Como droga vegetal, utilizam-se as folhas, oleae folium. Segundo Weiss, estas são recomendadas como fitoterápico hipotensor. A substância ativa responsável pelo efeito é um glicosídeo de estrutura secoiridoide, a oleuropeína. Segundo pesquisas de Petkov e Manolov (1972), a oleuropeína, em estudos pré-clínicos, atua como hipotensor, antiarrítmico e vasodilatador coronariano. Também foi observado leve efeito antagonista do cálcio. Weiss considerou o efeito hipotensor das folhas da oliveira mais leve do que o do visco e fez referência aos sintomas gástricos ocasionados, devido a uma ação irritante local, como um efeito colateral indesejável. As folhas de oliveira devem ser utilizadas exclusivamente na forma de extratos. Apesar de algumas evidências científicas, o efeito hipotensor da oliveira ainda não foi comprovado. distúrbios do sistema venoso Os distúrbios venosos são caracterizados principalmente por processos inflamatórios e trombóticos (tromboflebites e varizes), causados por enfraquecimento do tecido conectivo. A principal indicação da fitoterapia é na insuficiência venosa crônica. A principal planta empregada nesses casos é a castanha-da-índia (Aesculus hippocastanum). Castanha-da-índia (Aesculus hippocastanum) A castanha-da-índia pertence a família Hippocastanaceae e suas sementes apresentam principalmente os seguintes constituintes: cumarinas, flavonoides (canferol, quercetina, isoquercetina e rutina são os principais), saponinas (escina 3 a 10%), taninos, além de alantoína, aminoácidos adenina, adenosina e guanina, ácido cítrico, colina e fitoesterol (BARNES, 2012). Seu uso tradicional está relacionado ao tratamento de varizes, hemorróidas, flebite, diarréia, febre e aumento da próstata. A German Commission E aprovou o seu uso para o tratamento da insuficiência venosa crônica nas pernas (BLUMENTHAL et al., 1998). Estudos in vitro e in vivo documentaram efeitos anti-inflamatórios e aumento do tônus venoso induzido por escina associado aoaumento da síntese de PGF2α (prostaglandina relacionada à contração neste tecido) no tecido venoso (FARNSWORTH e CORDELL, 1976; VOGEL et al., 1970; LONGIAVE et al., 1978). Diversos ensaios clínicos validaram o efeito do extrato da semente de Aesculus hippocastanum em pacientes com insuficiência venosa crônica. Uma análise sistemática de reuniu 17 ensaios duplo- -cegos randomizados e controlados que aplicaram o extrato para insuficiência venosa e compararam com grupos placebo e com o medicamento de referência (O-β-hidroxietilrutosídeos, picnogenol). Os ensaios utilizaram o extrato equivalente a 50 a 150 mg de escina ao dia, durante 2 a 16 semanas e mostraram redução quanto à dor nas pernas, edema e prurido resultantes deinsuficiência venosa crônica. Quando comparado com o medicamento de referência o extrato da semente de aesculus hippocastanum teve a mesma eficácia no alívio dos sintomas (PITTLER et al., 2006). 46 unidAdE ii │fitotErAPiA EM dESordEnS CArdiovASCulArES Posologia: extratos equivalentes a 50 a 150 mg de triterpenos, calculados como escina, em doses divididas (MONOGRAPHS ON THE MEDICINAL USES OF PLANTS DRUGS, 1996). Contraindicações e advertências (BARNES, 2012): » pacientes com disfunção renal ou hepática preexistentes; » evitar durante a gestação e lactação, pois a segurança do uso da castanha-da-índia nesse período ainda não foi estabelecido; » pode ocorrer irritação do trato gastrointestinal devido aos constituintes saponosídicos. 47 CAPítulo 4 dislipidemia Desordens do metabolismo das lipoproteínas em conjunto com dietas ricas em gordura, obesidade e sedentarismo têm resultado em crescente incidência e prevalência de doença aterosclerótica em adultos moradores de países desenvolvidos ou em desenvolvimento, em especial a doença coronariana aterosclerótica. Há sólida evidência de que altas concentrações séricas de colesterol predispõem a doença arterial coronariana, bem como que a sua redução diminui a incidência. O termo dislipidemia, ao invés de hiperlipemia, é atualmente empregado em função de que a redução e não o aumento da fração HDL-colesterol (colesterol ligado à lipoproteína de alta intensidade) é o que determina ou facilita o estabelecimento de aterosclerose. A dislipidemia define várias situações, como elevação isolada de LDL-colesterol (colesterol ligado à lipoproteína de baixa densidade), elevação elevada de triglicerídeos séricos, redução isolada de HDL – colesterol ou combinações entre estes. A hipercolesterolemia e caracteriza pelo aumento do colesterol total circulante no sangue e pode ser associada a obesidade, alta ingestão de alimentos ricos em colesterol, baixa ingestão de fibras devido a alimentação inadequada ou ainda ser um problema de ordem genética, manifestado por maior produção endógena de colesterol. Evidências indicam que a oxidação da lipoproteína de baixa densidade (LDL) exerce papel fundamental no desenvolvimento da arteriosclerose são apoiadas por um numero crescente de indicadores epidemiológicos e estudos experimentais (PARTHSARATHY et al., 1992). O papel da fitoterapia nas dislipidemias é justificada pela ação antioxidante, evitando a oxidação de lipoproteínas, e ações coleréticas e colagogas. Nas tabelas abaixo estão descritas as principais plantas medicinais que apresentam essas ações. Tabela 6. Fitoterápicos de ação colerética e colagoga Nome popular/botânico Efeitos/advertências Posologia Boldo do Chile/ Peumus boldus Estudos de Santanam et al (2003) testaram a atividade do boldo do Chile (especificamente seu acaloide, a boldina) frente a oxidação do LDL in vitro e o aparecimento de arteriosclerose in vivo. Os resultados mostraram um decréscimo das lesões nas artérias no grupo que consumiu o fitoquímico do boldo (aproximadamente 40% menos que o controle). Advertências: Pessoas com obstrução das vias biliares, doenças severas do fígado e gravidez. Usar cuidadosamente em pessoas com doença hepática aguda ou severa, colecistite séptica, espasmos do intestino e íleo e câncer hepático. Infusão: 1 a 2 g (1 a 2 col. de chá) em 150 ml de água. Utilizar 1 xícara de chá, 2x ao dia oral. Tintura: -Tomar 25 a 50 gotas em água, 2x ao dia. Extrato seco: - Tomar 1 cápsula de 250 a 500 mg 2x ao dia. OU - Verificar a padronização (2 a 5 mg de alcaloides totais expressos em boldina). 48 UNIDADE II │FITOTERAPIA EM DESORDENS CARDIOVASCULARES Alcachofra/Cynara scolymus A alcachofra e comumente utilizada na Alemanha e Suíça como um medicamento para indigestão e na Inglaterra e vendida como suplemento (um dos mais vendidos no mercado); Constituintes chaves: Ácidos cafeioilquinicos (incluindo cinarina e ácidos clorogênicos), flavonoides (incluindo luteolina e derivados) e outros compostos amargos. A farmacologia e estudos pré-clinicos indicam que o extrato de alcachofra possui atividade hipocolesterolemica e antioxidante (MILLS e BONE, 1999). Mecanismo de ação proposto: Redução da síntese de colesterol via inibição da enzima HMG coA redutase, aumento da eliminação do colesterol e Inibição da oxidação do Colesterol (GEBHARDT R., 1998). Não deve ser utilizado por pessoas com doenças da vesícula biliar. Usar cuidadosamente em pessoas com hepatite grave, falência hepática e câncer hepático. Supõe-se que a cinarina seja a principal responsável pelas atividades colagogas e coleréticas da planta, provocando o aumento da secreção biliar (TESKE e TRENTINI, 1997) Jimenez-Escrig et al (2003) determinaram a atividade antioxidante do extrato aquoso e orgânico de alcachofra. O extrato de alcachofra apresentou bons resultados na inibição da oxidação de LDL diminui a concentração de enzimas que são biomarcadoras da oxidação protéica. Infusão: 2g (1 col. de sobremesa) em 150 ml de água. Tomar 1 xícara 3x ao dia. - Tintura: Tomar 50 gotas em água, 3 vezes ao dia. - Extrato seco: Tomar 1 cápsula de 500mg 3 x ao dia. (Total de 1500 mg ao dia). - Extrato seco padronizado: Verificar a padronização (7,5 mg a 12,5 mg de derivados do acido cafeoilquinico expressos em acido clorogênico). Disponível no mercado: Padronizado em 1,35 – 1,65mg (0,45 – 0,55%) de cinarina. Tomar 1 cápsula de 300 mg 3 x ao dia (Total de 1800 mg ao dia). Curcuma zedoaria - Zedoária - A zedoaria atua principalmente no sistema digestivo, inibindo secreção de acido gástrico e aumentando a secreção biliar. - E indicada para doenças do fígado como, por exemplo, o alto índice de colesterol plasmático. Poucos estudos científicos com esta planta. Contraindicações: Não deve ser utilizada nos 3 primeiros meses de gravidez e durante a lactação. Efeitos colaterais: Podem ocorrer diarréias, inchaço e dores abdominais nos primeiros dias de ingestão. 1) Decocção: - 1,5 g (3 col. de café) em 150 ml de água (1 xícara de chá). - Tomar 1 xícara de chá de 1 a 2x ao dia. (RDC no 10/2010- ANVISA) 2) Extrato seco: - Tomar 1 cápsula de 375 mg, 1 a 2 x ao dia (Tabela de equivalência) 3) Tintura 20%: - Tomar 40 gotas 1 a 2x ao dia. (Tabela de equivalência) 49 fitotErAPiA EM dESordEnS CArdiovASCulArES│ unidAdE ii Berinjela/Solanum melongena Sudheesh et al (1997) mostrou que a administração oral de extratos de flavonoides de berinjela apresentou uma significantes ação hiperlipidêmica em ratos. Um aumento significante na concentração de bile hepática e fecal foi observada, mostrando também uma ação positiva no aumento da degradação do colesterol. Um projeto piloto realizado nos primeiros meses de 2010 pelo Departamento de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é divulgado em maio/2010 constatou que a farinha de berinjela e um importante suplemento para a redução de alguns fatores de risco cardiovasculares como a dislipidemia, gordura corporal e visceral, pressão arterial sistêmica e altas concentrações de acido úrico, e para o emagrecimento. Um estudo avaliou as atividades hiperlipidêmicas e hipocolesterolemiante da Berinjela com a medição dos níveis plasmáticos de triglicerídeos, HDL, LDL, VLDL e colesterol total em cobaias apos 16 dias de tratamento. Os benefícios foram observados tanto em indivíduos com dieta hiperlipídica como normolipídica com diminuição considerável dos níveis plasmáticos de colesterol total e triglicerídeos (CHEREM, et al., 2007). Por outro lado, estudos de Botelho et al (2004) não mostraram resultados positivos no estresse oxidativo e na arteriosclerose de ratos tratadoscom extrato seco de berinjela, compara ao placebo. Mais estudos devem ser feitos 14g da farinha por dia. Fontes: bARNES, 2012; FERRO, 2006; MARQuES, 2011; FINTELMANN, 2012. 50 UNIDADE II │FITOTERAPIA EM DESORDENS CARDIOVASCULARES Tabela 7. Fitoterápicos que apresentam efeitos antioxidantes Nome popular/ botânico Efeitos/advertências Posologia Uva/ Vitis vinífera As uvas contêm uma grande variedade de compostos fenólicos em seus frutos; Principais fitoquímicos: antocianinas, proantocianinas (catequinas), taninos condensados. Um grande número de estudos mostram os efeitos desta fruta e de suas formas de consumo no que diz respeito a bloquear eventos celulares que predispõe a arteriosclerose e doenças do coração. Suas principais atividades são: - cardioproteção; - atividade antioxidante; - inibição da agregação plaquetária; - atividade anti-inflamatória. Desempenha ação antioxidante, prevenindo a oxidação do LDL. Kamiyama M et al (2009) estudou o efeito da administração de uvas (Nagano purple grape) apos 1 hora do consumo em humanos e observou uma maior inibição da oxidação de LDL- colesterol comparadas a amostras controles. Exemplo de produto disponível no mercado: - Cápsulas de 142mg (135mg de proantocianidinas), extrato seco. Tomar 1 cápsula 3x ao dia. Guaraná/Paullinia cupana A semente do guaraná contem concentrações expressivas de compostos fenólicos (HERMAN, 1982; HERMAN, 1986; SEIDEMANN, 1998). O perfil de polifenólicos do guaraná se assemelha ao de alimentos como o cacau e o chá verde, no que diz respeito às catequinas, epicatequinas e proantocianidinas (HERMAN, 1982; HERMAN, 1986; SEIDEMANN, 1998). Martins (2010) avaliou o efeito do consumo de guaraná em pó em humanos. Aumento na concentração de enzimas antioxidantes (Catalase e GPx); Efeito agudo antioxidante in vitro; Efeito antioxidante no plasma foi aumentado de forma aguda. Conclusão: Sugere-se o fracionamento da posologia. Costa et al (2009) avaliou o teor de cafeína dos pós de guaranás disponíveis no mercado. As amostras avaliadas continham em media 2,6% de cafeína, sendo que o preconizado pela farmacopeia dos Estados Unidos do Brasil e de 4%. Posologia seria de: 1 a 3 cápsulas ao dia: Cápsulas de 500mg 20mg de cafeína (4% de cafeína) 51 FITOTERAPIA EM DESORDENS CARDIOVASCULARES│ UNIDADE II Cranberry/ Vaccinium macrocarpon Além da atividade positiva no que diz respeito as doenças cardiovasculares, tem mostrado potencial efeito (GOTTELAND et al., 2008; KONTIOKARI et al., 2001; KRESTRY et al., 2008): 1) Na prevenção de infecções do trato urinário; 2) Inibição de ulcera péptica por Helicabacter pylori; 3) Na indução da apoptose em células cancerígenas. Lee et al (2008) concluiu que a suplementação com cranberry foi efetiva na redução do perfil do colesterol incluindo o LDL e o colesterol total, assim como a razão colesterol total : HDL. Chu et al (2005) cita que o extrato de cranberry induz significativamente a expressão dos receptores hepáticos de LDL-colesterol e aumenta a absorção de colesterol em células HepG2 in vitro, o que sugere que ele pode aumentar a remoção do excesso de colesterol no sangue. Alem disso, Chu et al (2008) também comprova que os fitoquímicos do cranberry são responsáveis pela inibição da oxidação do LDL –colesterol. Posologia recomendada: – 400mg do extrato seco, 2x ao dia. Não existem outras formas farmacêuticas no mercado Fontes: bARNES, 2012; FERRO, 2006; MARQuES, 2011; FINTELMANN, 2012. 52 unidAdE iii fitotErAPiA EM dESordEnS rESPirAtÓriAS As doenças respiratórias são muito frequentes. Podem caracterizadas por inflamações agudas e crônicas de origem bacteriana, viral e tóxica ou doenças crônicas, como a asma brônquica. Basicamente, são distinguidas as doenças das vias respiratórias “superiores” e “inferiores”, das quais a laringe forma o limite anatômico (RIECHELMANN; KLIMEK, 1997). A utilização de fitoterápicos nesses casos é orientada principalmente pelos sintomas e, de acordo com estes, são classificados e empregados de forma diferenciada sob o ponto de vista terapêutico. Em doenças respiratórias, os medicamentos à base de plantas há muito desempenham um papel importante. Atualmente, por exemplo, chás, gotas e xaropes antitussígenos encontram-se entre os agentes terapêuticos mais utilizados de modo geral. CAPítulo 1 inflamações agudas e crônicas das vias respiratórias O uso de antibióticos são indicações primárias em casos de infecções bacterianas das vias respiratórias. Sabe-se que a prescrição de antibióticos de forma excessiva conduz a uma progressiva resistência microbiana. Por isso, o crescente interesse em considerar um tratamento de suporte do processo de autocura, por exemplo, com fitoterápicos. A prevenção nos casos de suscetibilidade a infecções é uma área na qual os fitomedicamentos também são particularmente adequados. Drogas vegetais podem agir como mucilaginosos mucolíticos, expectorantes, os quais promovem a expulsão das secreções, e os antitussígenos, inibidores do estímulo da tosse. Mucilaginosas São adequadas, principalmente, para o tratamento de doenças inflamatórias agudas das vias respiratórias. Elas amenizam as mucosas irritadas e suavizam a sintomatologia. 53 FITOTERAPIA EM DESORDENS CARDIOVASCULARES│ UNIDADE II Alteia ou Malvaísco (Althaea officinalis) Althaea officinalis pertence à família das malváceas. São utilizadas as raízes, Althaeae radix, e as folhas, Althaeae foliam; no entanto, estas são menos ativas do que a droga vegetal obtida a partir das raízes. A droga vegetal contém, no mínimo, 35% de mucilagem, 38% de amido, 10% de pectina e de sacarose. Tradicionalmente utilizada no tratamento de catarro respiratório e tosse, ulceração péptica, estomatite, faringite, enterite, cistite, uretrite, cálculo renal, bem como, seu uso tópico para abcessos, furúnculos e úlceras varicosas e trombóticas. Diversos estudos apontam para propriedades demulcentes, expectorantes, emolientes, diuréticas e antilíticas (BISSET, 1994; BRADLEY, 1992; MARTINDALE, 1999; ROBBERS; TYLER, 1999; WREN, 1988). A raiz e folhas da alteia foram aprovadas pela German Commission E para irritação da mucosa oral e faríngea com tosse seca associada, e da raiz para inflamação leve de mucosa gástrica (BLUMENTHAL et al., 1998). As principais referências científicas sobre plantas medicinais sugerem as seguintes doses (BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » Folha seca de 2 a 5g na forma de infusão, 3 vezes ao dia; » Folha, extrato líquido de 2 a 5ml (1:1 em 25% de álcool), 3 vezes ao dia.; » Pomada 5% de folha de alteia em pó na base-padrão para pomadas, 3 vezes ao dia; » Raiz seca de 2 a 5 g por meio de extração a frio, 3 vezes ao dia; » Raiz, extrato líquido de 2 a 5 ml (1:1 em 25% de álcool), 3 vezes ao dia; » Xarope de 2 a 10 ml, 3 vezes ao dia. Não há relatos de que seu uso da gestação e lactação ocasione problemas à mãe e ao bebê, porém o uso deve ser moderado. tussilagem ou unha-de-cavalo (tussilago farfara l.) A tussilagem pertence à família Compositae e suas flores e folhas apresentam propriedades expectorantes, antitussígenas, demulcentes e anticatarro. Indicada em casos de asma, bronquite, laringite e coqueluche (BISSET, 1994; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983, MILLS, 1985; WREN, 1988). Seus principais constituintes são ácidos (cafeico, ferúlico, gálico), alcaloides do tipo pirrolizidínico, carboidratos (mucilagem e inulina), flavonoides (flavonois como a quercetina e canferol), taninos (Até 17%) (BARNES, 2012). Estudos in vitro e em animais revelaram sua atividade antibacterina contra várias bactérias Gram- negativas, como a Staphylococcus aureus, Proteushauseri, Bordetella pertussis, Pseudomonas aeruginosa e Proteus vulgaris (DIDRY et al., 1982; DIDRY; PINKAS, 1982; LEVEN et al., 1979). 54 unidAdE iii │fitotErAPiA EM dESordEnS rESPirAtÓriAS Porém, não existem estudos clínicos randomizados controlados que avaliem os efeitos da tussilagem em humanos. A German Comission E menciona sua indicação em afecções catarrais agudas das vias respiratórias com tosse e rouquidão. A tussilagem não deve ser utilizada Durant a gestação e lactação devido a seu conteúdo de alcaloides pirrolizidínicos. É possível que seja abortiva (FARNSWORTH, 1975). As principais referências científicas sobre plantas medicinais sugerem as seguintes doses (BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » Planta seca de 0,6 a 2,0 g, na forma de decocto, 3 vezes ao dia; » Extrato líquido de 0,6 a 2,0 ml (1:1 em álcool a 25 %), e vezes ao dia; » Tintura de 2 a 8 ml (1:5 em álcool a 45%), 3 vezes ao dia; » Xarope de 2 a 8 ml (extrato líquido 1:4 em xarope), 3 vezes ao dia. Expectorantes Liquefazem a secreção brônquica viscosa e espessada, de modo a promover o aumento da secreção e, desse modo, facilitam a eliminação do catarro, ou seja, a expectoração. A dissolução do muco e a lise das secreções são estimuladas principalmente pelo conteúdo de saponinas e por alguns óleos essenciais. A redução da viscosidade do muco e o aumento do conteúdo de água da secreção brônquica são requisitos importantes para uma expectoração satisfatória (FINTELMANN, 2010). Prímula ou Primavera-dos-campos Prímula elatior, ou Primavera-das-florestas (Primula vens) A raiz da prímula é utilizada como droga vegetal, primulae radix. Ela contém 5-10% de saponinas triterpênicas, além dos glicosídeos de ácido salicílico primulaverina e primaverina, e flavonoides. A Comissão E menciona como área de utilização afecções catarrais das vias respiratórias (BLUMENTHAL et al., 1998). Pimpinela ou Saxifraga (Pimpinella saxifraga) A pimpinela pertence à família das umbelíferas a raiz, Pimpinellae radix, contém saponinas e, no mínimo, 0,4% de óleo essencial. Ela ainda é pouco conhecida como expectorante. O efeito não é muito intenso, porém já é comprovado que a pimpinela pode ser indicada para o tratamento de resfriados (FINTELMANN, 2010). A monografia da Comissão E menciona para afecções que apresentam secreções nas vias respiratórias. 55 fitotErAPiA EM dESordEnS rESPirAtÓriAS│ unidAdE iii Erva-doce ou Anis (Pimpinella anisum) A erva-doce pertence à família Apiaceae e seu fruto é utilizado para uso alimentício e fitoterápico. Entre seus componentes estão cumarinas, flavonoides, óleos voláteis (2 a 6%). Suas propriedades são expectorantes, antiespasmódica, carminativa e parasiticida. Tradicionalmente tem sido utilizada para catarros brônquicos, coqueluche, tosse espasmódica, cólica com flatos (BISSET, 1994; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983). Além disso, também tem sido empregada como agente com efeito estrogênico, parece aumentar a secreção de leite, favorecer a menstruação, facilitar o parto, aumentar a libido e minimizar sintomas relacionados ao climatério (ROSBERGER et al., 1981). As principais referências científicas sobre plantas medicinais sugerem as seguintes doses (MONGRAPHS ON THE MEDICINAL USES OF PLANTS DRUGS, 1997; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » fruto seco para adultos e crianças acima de 4 anos, utilizar 1,0 a 5,0g de frutos triturados em 150 ml de água, na forma de infusão, várias vezes ao dia; » fruto seco para crianças de 0 a 1 ano, utilizar 1g do fruto triturado, na forma de infuso; » fruto seco para crianças de 1 a 4 anos, utilizar 2g; » óleo de 0,05 a 0,2 ml, 3 vezes ao dia. Contraindicações (BARNES, 2012): » Pode provocar reação alérgica. » Deve ser evitado em dermatites e condições inflamatórias de pele. » A erva-doce é considerada abortiva e promotora da lactação. A sua segurança ainda não foi estabelecida, entretanto não há relatos de problemas quando as doses usadas não excedam muito a quantidade usada nos alimentos. Antitussígenos São utilizados principalmente nas tosses convulsivas (“tosse irritativa”), que ocorrem frequentemente em adultos, em associação com infecções virais, nas quais as mucosas aparentam estar ressecadas. tomilho (thymus vulgaris) O tomilho pertence à família Labiatae e suas sumidades floridas e folhas apresentam propriedades diversas, entre elas carminativas, antiespasmódicas, antitussígenas, expectorantes, secretomotoras, bactericidas, anti-helmínticas e adstringentes. O tomilho pode auxiliar nas tosses agudas convulsivas ou nas tosses crônicas. Mesmo no enfisema, e até na asma, suas propriedades espasmolíticas foram 56 UNIDADE III │FITOTERAPIA EM DESORDENS RESPIRATÓRIAS comprovadas (FINTELMANN, 2010). Entre os principais componentes, encontra-se um teor mínimo de 1,2% em óleo essencial, dos quais os fenóis são os principais (20 a 80%) com predominância do timol. Além destes, flavonoides, taninos, saponinas e substâncias amargas (BARNES, 2012). As principais referências científicas sobre plantas medicinais sugerem as seguintes doses (BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » Erva seca de 1 a 4g, na forma de infusão, 3 vezes ao dia; » Extrato líquido de 0,6 a 4,0mL. » Tintura de 2 a 6 mL (1:5 em álcool 45%), 3 vezes ao dia. 57 CAPítulo 2 gripes e resfriados Infecções gripais são predominantemente causadas por vírus. Uma vez que a maioria dos vírus patogênicos à espécie humana não é capaz de proliferar-se com o aumento da temperatura corporal, a febre alta é a terapia causal das infecções virais. Atualmente, as infecções gripais ou resfriados geralmente são tratados apenas sob o ponto de vista sintomático. A superação real da doença é deixada por conta das defesas do organismo, em que as defesas naturais inespecíficas são de grande importância. A planta indicada por excelência, neste caso, é a equinácea (Echinacea) (FINTELMANN, 2010). Plantas imunomoduladoras Equinácea (Echinacea purpúrea, Echinacea pallida, Echinacea purpurea) A Equinácea é uma das plantas mais estudadas pela comunidade científica. Pertencente à família das Asteraceae seu rizoma, raízes e parte aéreas são utilizadas tradicionalmente como imunomodulara, antiviral, antifúngica e antibacteriana e anti-inflamatória. A Equinácea é reconhecida por sua ação imunomoduladora. Diversos estudos clínicos exploram formulações de equinácea na prevenção ou tratamento do resfriado comum e outras infecções do trato respiratório superior. Vários, mas não todos os estudos, relatam efeitos superiores ao placebo. Entretanto, as evidências de sua eficácia não são conclusivas, visto que os estudos incluíram grupos diferentes de pacientes e testaram diversas formulações e regime de doses diferentes (BARNES, 2012). As principais referências científicas sobre plantas medicinais sugerem as seguintes doses (BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » raiz e rizoma sexo de 1g, na forma de infuso ou decocto, 3 vezes ao dia; » extrato líquido de 0,5 a 1,0ml (1:5 em álcool a 45%), 3 vezes ao dia ou 0,25 a 1,0 ml (1:1 em álcool a 45%), 3 vezes ao dia. » tintura de 2 a 5 ml (1:5 em álcool a 45%), 3 vezes ao dia, ou 1 a 2ml (1:5 em álcool a 45%), 3 vezes ao dia O uso excessivo da equinácea durante a gestação e lactação deve ser evitado, visto que seu uso nesse período ainda não foi claramente estabelecido. 58 UNIDADE III │FITOTERAPIA EM DESORDENS RESPIRATÓRIAS A equinácea é contraindicada em pacientes com doenças sistêmicas progressivas, como tuberculose, leucemia, esclarose múltipla e outras doenças autoimunes. (SCHULZ et al., 2000) Sabugueiro (Sambucus nigra l.) Pertencente à família Caprifoliaceae, a flor do sabugueiro apresentapropriedades diaforéticas e anticatarro. Tradicionalmente tem sido usado para a influeza, resfriados e catarro nasal crônico com surdez e sinusite. Seus principais constituintes são flavonoides, triterpenos, óleos voláteis, além de ácido clorogênico, taninos, mucilagem plastocinina, pectina e açúcar. Os frutos não podem ser utilizados para este propósito, pois apresentam um efeito laxativo suave e, em grandes quantidades, provocam náuseas e vômitos. Por isso, a monografia da German Comission E é válida apenas para as flores, indicando seu efeito benéfico para resfriados (BLUMENTHAL et al., 1998). As principais referências científicas sobre plantas medicinais sugerem as seguintes doses (BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » flor dessecada de 2 a 4g, como infusão, 3 vezes ao dia; » extrato líquido de 2 a 4 ml (1:1 em álcool 25%), 3 vezes ao dia. A segurança do uso do sabugueiro durante a gestação e lactação ainda não foi completamente esclarecido, portanto, o uso durante este período deve ser evitado. 59 unidAdE iv fitotErAPiA EM dESordEnS rEnAiS, dAS viAS urinÁriAS E PrÓStAtA Os fitoterápicos utilizados em doenças do parênquima renal, nefrites, apresentam diversos efeitos, tais como espasmolíticos, anti-inflamatórios e antisépticos das vias urinárias, além de diuréticos. Apesar disso, nesse caso, os fitomedicamentos não alcançam efeito comparável ou aproximado dos modernos diuréticos sintéticos. Porém, os fitoterápicos podem ser utilizados na profilaxia de recidiva de litíase urinária. Já no tratamento dos estágios iniciais da hiperplasia benigna de próstata, a utilização de fitoterápicos é eficaz e influencia de modo positivo nos diferentes sintomas relacionados à micção. CAPítulo 1 infecções das vias urinárias Infecções das vias urinárias são frequentemente assintomáticas ou com sintomas leves. O índice de recidiva é alto e a progressiva resistência aos germes pode ocorrer. A cistite aguda e não complicada, a bacteriúria assintomática e a terapia adjuvante durante uma cateterização transuretral, particularmente de longa duração, são as principais indicações para a utilização de fitoterápicos (STAMMWITZ, 1998). Neste caso, a uva-ursi (Arctostaphylos uvae ursi) destaca-se. uva-ursi (Arctostaphylos uvae ursi) A uva-ursi pertence à família Ericaceae e suas folhas apresentam propriedades diuréticas, antissépticas urinárias e adstringentes. Usada tradicionalmente em casos de cistite, uretrite, disúria, litúria e, especificamente, cistite catarral com disúria e urina com alto teor de acidez (BISSET, 1994; BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983; WREN, 1988). Contêm no mínimo 8% de derivados da hidroquinona, calculados como arbutina anidra, além de flavonoides, taninos, ácidos orgânicos e triterpenos. A arbutina é o principal constituinte ativo antisséptico urinário presente na uva-ursi. Trata-se de um glicosídeo da hidroquinona genuinamente encontrado na droga vegetal não tem efeito direto. 60 unidAdE iv │ fitotErAPiA EM dESordEnS rEnAiS, dAS viAS urinÁriAS E PrÓStAtA No intestino grosso, a arbutina entra em contato com B-glicosidases e é hidrolisada originando a aglicona (hidro-quinona) e glicose. Após a absorção, ocorre sua ligação com os ácidos glicurônico e sulfúrico, sendo excretada em seguida na urina, a qual deve ter reação alcalina para melhor eficácia. Neste caso, a hidroquinona novamente liberada é a substância ativa, de efeito antisséptico (BARNES, 2012, WRUM et al., 1998). A German Comission E definiu como área de indicação as doenças inflamatórias das vias urinárias. Sua atividade antimicrobiana em relação a vários microorganismos, tais como Staphylococcus aureus, Bacillus subtilis, Escherichia coli, Mycobacterium smegmatis, foi apontada por alguns pesquisadores. Doses citadas na literatura de referência (BRADLEY, 1992): » folhas secas de 1,5 a 4,0g na forma de infusão, 3 vezes ao dia; » extrato líquido de 1,5 a 4,0 ml (1:1 em álcool a 25%), 3 vezes ao dia. » Contraindicações e advertências: › O tratamento deve ser acompanhado de aumento na ingestão de líquidos. A urina deverá ser alcalina (pH 8) ou ser alcalinizada através da administração adicional de bicarbonato de sódio. Devido seu considerável conteúdo de taninos, a infusão de folhas de uva-ursi em alguns casos produz uma forte irritação da mucosa gástrica. Seu uso durante a gestação e lactação deve ser evitado devido à toxicidade da hidroquinona. raiz-forte (Armoracia rusticana) A raiz-forte pertence à família das crucíferas. A sua raiz é utilizada como droga vegetal, Armoraciae rusticartae radix, apresentando propriedades antissépticas, estimulantes da circulação e da digestão, diurética, além de ser tradicionalmente utilizada em casos de infecção pulmonar e urinária, cálculos renais e condições edematosas (MILLS, 1985; WREN, 1988). Entre seus constituintes destaca-se os isotiocianatos e glicosinolatos, sendo estes últimos caracterizados pelo seu odor e sabor picantes. São os isotiocianatos, também conhecidos como óleos de mostarda, responsáveis pela atividade. Formados através da fermentação dos glicosinolatos, sendo rapidamente absorvidos no intestino delgado e, após ligação com a glutationa, excretados pelos rins como ácido mercaptúrico. A atividade antibacteriana pode ser observada em bactérias Gram-positivas e Gram-negativas e também em fungos leveduriformes. Estudos clínicos controlados precisam ser realizados para avaliar os efeitos da raiz-forte em humanos. Doses citadas na literatura de referência (MILLS, 1985): » Raiz fresca de 2 a 4 gramas, antes das refeições. » Contraindicações e advertências: › Pode deprimir o funcionamento da tireóide e, portanto, seu uso deve ser evitado por indivíduos co-hipotireoidismo ou medicados com tiroxina. › O uso na gestação e lactação deve ser evitado visto que o alil isotiocianato é extremamente tóxico. 61 CAPítulo 2 Hiperplasia benigna de próstata É importante destacar que não existem fitoterápicos que possam atuar sobre as causas da adenomatose benigna da próstata, mas sim sobre os sintomas que acompanham a hiperplasia da próstata. Alken (1982) classifica a sintomatologia da hiperplasia da próstata nos seguintes estágios: » O primeiro estágio (estágio de irritação) é caracterizado pelo aumento da frequência de micção, polaciúria, nictúria e retardo do início da micção. » No segundo estágio (estágio da urina residual) é vista como sinal da descompensação inicial uma quantidade maior ou menor de urina residual; a frequência de micção e a polaciúria aumentam. » No terceiro estágio (estágio de refluxo) ocorre completa descompensação da bexiga, com constante gotejamento de urina como manifestação da transposição da capacidade de armazenamento da bexiga e lesões renais por refluxo (hidronefrose). O estágio mais favorável ao uso de fitoterapia é o primeiro, porém, também podem ser utilizados nos casos mais leves do segundo estágio. Os fitoterápicos utilizados em HBP apresentam atividade farmacológica é descrita sob diferentes formas, por exemplo, com a inibição da síntese de prostaglandinas, redução dos níveis de colesterol, diminuição da globulina ligada aos hormônios sexuais, além das atividades anti-inflamatória, antiedematogênica e antiandrogênica, e, finalmente, a inibição dos complexos enzimáticos da 5-α-redutase ou da aromatase. Todos esses relatos baseiam- se normalmente em pesquisas in vitro (SÕKELAND e cols., 1992; ENGELMANN, 1997). Saw palmetto (Serenoa repens) O saw palmetto pertence à família Arecaceae/Palmae e seus frutos apresentam propriedades diuréticas, antissépticas urinárias, endocrinológicas e anabólicas. Seus principais constituintes são carboidratos, óleo fixos (ácidos graxos livres e glicerídeos),esteróides (β-sitosterol, campesterol, estigmasterol, além de flavonoides, tanino e óleo volátil (1,5%) (Barnes, 2012). É muito utilizado para cistite crônica ou subaguda, catarro do trato urogenital, atrofia testicular, transtornos dos hormônios sexuais e, principalmente para o aumento prostático benigno (HBP). Estudos in vitro e in vivo apontam que o saw palmetto atua inibindo a atividade da enzima 5-α-redutase, que catalisa a conversão de testosterona em 5-α-di-hidrotestosterona (DHT) em tecidos alvo de andrógenos, incluindo a próstata. A DHT é mais potente que a testosterona e acredita-se que está envolvida no desenvolvimento da HBP. 62 UNIDADE IV │ FITOTERAPIA EM DESORDENS RENAIS, DAS VIAS URINÁRIAS E PRÓSTATA Diversos estudos randomizados. Controlados, duplos cegos foram realizados com o objetivo de investigar os efeitos do extrato de saw palmetto em HBP. Uma revisão sistemática realizada incluindo 21 ensaios clínicos randomizados e controlados, sendo 18 estudos duplos-cegos, utilizando extrato de saw palmetto com um total de 3.139 homens. Os resultados apontam que, em comparação com o grupo controle, o extrato de saw palmento foram associados a uma diminuição na pontuação dos sintomas urinários, noctúria e volume residual, mehora no pico de fluxo urinário e sintomas urinários avaliados por médicos e autoavaliados (WILT, 2002). Porém, os extratos não apresentaram efeito sobre o tamanho da próstata. Doses citadas na literatura de referência (BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » fruto seco de 0,5 a 1,0g na forma de decocção, 3 vezes ao dia; » extrato com 320mg de constituintes lipofílicos extraídos com solventes apolares (hexano ou etanol 90% v/v) Os ensaios clínicos avaliaram o efeito de extratos lipofílicos de saw palmetto habitualmente usados em doses de 160mg, 2 vezes ao dia. Contraindicações e advertências (BARNES, 2012): » O saw palmetto não é adequado para autotratamento; » Efeitos adversos costumam ser leves e geralmente distúrbios gastrintestinais; » Não há informações de segurança sobre o uso de saw palmetto por mulheres, por exemplo, em tratamento de acne. » Gestantes e lactantes devem evitar o uso de saw palmetto, pois não existem dados fitoquímicos, farmacológicos e toxicológicos nesses casos. urtiga (urtica dioica) A urtiga pertence à família Urticacea e um dos seus constituintes é a lignana. Várias lignanas e seus metabólitos reduzem a atividade ligante de globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG), in vitro. As lignanas da urtiga são inibidores competitivos da interação entre SHBG e 5-α-dihidrotestosterona (MILLS; BONE, 2000). Um estudo que utilizou o extrato aquoso de raiz de urtiga (0,6 a 1,0 mg/ mL) levou a uma inibição dose-dependente Da interação de SHBG com seu receptor em membranas prostáticas humanas (MILLS; BONE, 2000). A proliferação celular em tecido com HBP também foi inibida pelo uso do extrato. Doses citadas na literatura de referência (BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » Planta seca de 2 a 4g, na forma de infusão, 3 vezes ao dia ou 8 a 12g ao dia segundo Blumenthal et al. 63 fitotErAPiA EM dESordEnS rEnAiS, dAS viAS urinÁriAS E PrÓStAtA │ unidAdE iv » Suco fresco, 10 a 15 mL, 3 vezes ao dia; » Extrato líquido de 3 a 4 mL (1:1 e 25% de álcool), 3 vezes ao dia; » Tintura de 2 a 6 mL (1:5 em álcool 45%), 3 vezes ao dia; » Contraindicações e advertências: › Há relatos de irritação gástrica após ingestão da infusão. › Seu uso não é indicado na gestação visto que pode ser abortiva. unidAdE v fitotErAPiA EM dESordEnS rEuMÁtiCAS E gotA CAPítulo 1 Artrite reumatoide e gota Artrite reumatoide Doença inflamatória crônica sistêmica, que afeta cerca de 6% das mulheres e 2% dos homens, e os sintomas surgem geralmente após a quarta década de vida. Por ser uma doença sistêmica, além das articulações, pode acometer outros órgãos como pulmão, medula óssea e olhos. Sua causa ainda é desconhecida, e se caracteriza pela presença de imunocomplexos nas articulações, com a presença de autoanticorpos direcionados a proteínas do tecido conjuntivo articular. O autoanticorpo, denominado fator reumatoide (FRe), pode ser identificado na circulação, sendo o título diretamente relacionado ao prognóstico da doença. Esses anticorpos atraem os leucócitos para o espaço articular, que por sua vez desencadeiam respostas inflamatórias, pela liberação de mediadores químicos da inflamação, como leucotrienos, prostaglandinas e tramboxanos, além da formação de radicais livres oxidativos. Trata-se de uma doença com significativo impacto social devido a sua elevada morbimortalidade. Boa parte dos pacientes terá sua independência afetada em graus variáveis, incluindo limitações nas atividades sociais, de lazer e profissionais. Além disso, a mortalidade também é alta, sendo proporcional à gravidade do quadro - pacientes com formas poliarticulares podem ter sobrevida de apenas 40% em 5 anos (CHEHATA et al., 2001). Nas últimas décadas, houve notável evolução nos conhecimentos da fisiopatogenia da doença, o que acarretou mudanças na forma de abordagem e na terapêutica. Considera-se a possibilidade de que um agente exógeno, como um antígeno alimentar, seja capaz de iniciar um processo imunopatolígico em indivíduos geneticamente predispostos (PANUSH, 1990). São diversos os relatos de casos de agudização de diversas doenças reumatológicas associadas a alimentos específicos, sugerindo alguns autores o envolvimento da alergia alimentar em até 30% dos casos de artrite reumatoide (DARLINGTON, 1991). Um dos mecanismos envolvidos poderia ser o efeito que certos alimentos, 65 fitotErAPiA EM dESordEnS rEuMÁtiCAS E gotA │ unidAdE v como chocolate, álcool e morango, têm em estimular a secreção de aminas vasoativas, como histamina e serotonina. Alguns alimentos que tem altas concentrações de histamina, como carne de porco, tomate, salsicha e espinafre estão descritos como agravantes do quadro de artrite. O café poderia desencadear crises pela liberação de adrenalina e noradrenalina, bem como frutas cítricas, especialmente a casca que contém consideráveis concentrações de derivados de fenilefrina (MIKULS et al., 2000). Um estudo prospectivo finlandês, com aproximadamente 7.000 indivíduos, demonstrou um maior risco de soro positividade para o fator reumatóide, bem como de desenvolvimento de DRe em indivíduos com maior consumo de café, principalmente, quando o consumo se excedia em 4 xícara ao dia (MIKULS et al., 2000). Na avaliação laboratorial o fator reumatoide pode ser encontrado em cerca de 75% dos casos já no início da doença. Anticorpos contra filagrina/profilagrina e anticorpos contra peptídio citrulinado cíclico (PCC) são encontrados nas fases mais precoces da doença, mas apresentam um custo maior. As provas de atividade inflamatória como o VHS e a proteína C reativa correlacionam-se com a atividade da doença. O resultado patológico desta agressão crônica autoimune é o espessamento da membrana sinovial, o acúmulo de líquido articular, inflamação dos tecidos periarticulares, assim como a erosão da cartilagem e do tecido ósseo que compõe a estrutura articular. O diagnóstico precoce e a imediata instituição da terapêutica são essenciais para retardar a progressão da doença e prolongar a viabilidade funcional articular (ALBERS et al., 2001). Segundo o Colégio Americano de Reumatologia o diagnóstico de artrite reumatoide é feito quando pelo menos quatro dos critérios a seguir, estão presentes por pelo menos seis semanas: 1. Rigidez articular matinal durando pelo menos 1 hora. 2. Artrite em pelo menos três áreas articulares. 3. Artrite de articulações das mãos: punhos, interfalangeanas proximais (articulação domeio dos dedos) e metacarpofalangeanas (entre os dedos e mão). 4. Artrite simétrica (por exemplo, no punho esquerdo e no direito). 5. Presença de nódulos reumatoides. 6. Presença de Fator Reumatoide no sangue. 7. Alterações radiográficas: erosões articulares ou descalcificações localizadas em radiografias de mãos e punhos. Os principais objetivos do tratamento de um paciente com artrite reumatoide são: reduzir a dor, o edema articular e os sintomas constitucionais, como a fadiga, melhorar a função articular, interromper a progressão do dano ósseo-cartilaginoso, prevenir incapacidades e reduzir a morbimortalidade (ALBERS et al., 2001). 66 unidAdE v │ fitotErAPiA EM dESordEnS rEuMÁtiCAS E gotA Quanto ao tratamento medicamentoso, varia de acordo com o estágio da doença, sua atividade e gravidade, devendo ser mais agressivo quanto for a doença. De uma forma geral os anti-inflamatórios são a base do tratamento seguidos de corticoides para as fases agudas e drogas modificadoras do curso da doença, a maior parte delas imunossupressoras. Em alguns pacientes há indicação de tratamento cirúrgico, dentre eles cita-se a sinovectomia para sinovite persistente e resistente ao tratamento conservador, artrodese, artroplastias totais etc. O uso de medicamentos imunossupressores ou anti-inflamatórios alivia o sintoma doloroso, porém, reforça os eventos patológicos intrínsecos à doença. Segundo Fintelmann: [...] Os principais conceitos terapêuticos válidos no caso das doenças reumático-inflamatórias são, primariamente, direcionados para o tratamento da sintomatologia aguda, entretanto, têm sido considerados pouco satisfatórios quando observados os resultados do tratamento por longo tempo. Sob esses aspectos, futuramente deve ser investigado que papel a terapia natural, neste caso especificamente a fitoterapia, pode desempenhar no conceito terapêutico geral das doenças reumáticas [...] gota A gota representa uma forma especial de doença reumática, pelo fato de ser uma doença típica de depósito e ao mesmo tempo uma doença metabólica. Produto final do metabolismo das purinas, cerca de um terço do ácido úrico provém da alimentação e o restante da própria síntese endógena hepática. A hiperuricemia pode ser consequente à redução da capacidade de excreção urinária ou à hiperprodução endógena. Quadro inflamatório agudo da articulação, de caráter recorrente e desencadeado por depósitos de cristais de urato no espaço intrassinoval. Está associada a um distúrbio do metabolismo das purinas, resultando em hiperuricemia crônica (EMMERSON, 1996). Acomete preferencialmente as articulações de extremidades, como o hálux em 75% das ocasiões, além de ocorrer em outros sítios, como o calcâneo e as demais falanges de pés e mãos. Apresenta- se de início súbito, acompanhada de dor local intensa, além de rubor, aumento da temperatura e edema importante. O depósito crônico destes cristais pode destruir as estruturas articulares e formar os chamados tofos gotosos, localizados no tecido subcutâneo. A cristalização dos sais de urato excretados pelo rim pode levar à formação de cálculos nas vias urinárias e comprometimento futuro da função renal. A gota é mais prevalente no sexo masculino e ocorre com mais frequência após a terceira década da vida, sendo marcante a história familiar. Dietas ou doenças, com restrição calórica excessiva e reduções ponderais aceleradas, podem acarretar crises de gota, pelo hipercatabolismo proteico. 67 FITOTERAPIA EM DESORDENS REUMÁTICAS E GOTA │ UNIDADE V A gota é intimamente influenciada por aspectos ligados à dieta, que incluem a obesidade, a síndrome de resistência à insulina, a dislipidemia e o abuso de álcool (VUORIENE-MARKKOLA, 1994). A obesidade está associada tanto à hiperprodução como à hipoexcreção do ácido úrico. Apesar disso, uma dieta rica em purinas promove um incremento ao redor de 1 a 2 mg/dL nos níveis séricos de ácido úrico, enquanto dietas livres de purina promovem quedas de apenas 1 a 2 mg/dL. (EMMERSON, 1996). É importante destacar que o consumo de bebidas alcoólicas guarda forte relação com a hiperuricemia e as crises de gota (EASTMOND, 1995). Entre os mecanismos descritos, destacam-se: estímulo à produção hepática de purina pelo metabolismo do etanol, inibição da conversão da droga hipouricemiante alopurinol em seu metabólito ativo, o oxipurinol, pelo etanol; a baixa adesão de etilistas crônicos às dietas e tratamento de longo prazo; e a redução da excreção renal induzida pela acidose láctica, secundária à intoxicação alcoólica aguda. A cerveja merece destaque entre as bebidas alcoólicas, pois é a que parece ter maior efeito negativo sobre a hiperuricemia, em parte pelo seu grande conteúdo purínico (YU et al., 2008). Uma vez diagnosticada a hiperuricemia, é importante investigar outros distúrbios que acompanham a síndrome metabólica, já que a hiperuricemia apresenta nítida relação com a síndrome metabólica. A insulina promove a reabsorção renal do urato, o que em parte explicaria esta associação com a hiperinsulinêmica. (FACCHINI et al., 1991) fitoterapia em artrite reumatóide e gota urtiga (urtica dioica) A German Commission E aprova o uso interno da sua folha na terapia de apoio para doenças reumáticas e na terapia de irrigação para doenças inflamatórias do trato urinário inferior e prevenção de cálculos renais; uso interno e externo para doenças reumáticas (G3). Seus principais constituintes são ácidos (cafeico, cafeoilmálico, clorogênico, silícico, entre outros), aminas (betaína, colina, histamina, entre outros), flavonoides, lignanas, β-sitosterol e tanino (BARNES, 2012). O efeito anti-inflamatório da urtica é comprovado por estudos científicos in vitro e in vivo. O extrato hidroetanólico e o ácido cafeoilmálico inibem parcialmente a biossíntese de ácido araquidônico (MONOGRAPHS ON THE MEDICINAL USES OF PLANTS DRUGS, 1996). O extrato de urtiga (0,1 mg/ml) e ácido cafeoilmálico isolado (1mg/ml) inibiram a biossíntese de leucotrieno B4 derivado de 5-lipoxigenase em 20,8% e 68,2%, respectivamente, e inibiram a síntese de prostaglandinas derivadas de cicloogixenase. Além disso, o mesmo extrato reduziu significativamente a concentração do fator de necrose tumoral-α (TNF- α) e de interleucina 1β, estimulado por LPS (lipopolissacarídeos) em sangue humano (MONOGRAPHS ON THE MEDICINAL USES OF PLANTS DRUGS, 1996). Outro estudo utilizando um extrato de urtiga (IDS 23) inibiu de forma potente o fator de transcrição NFκB, responsável pela expressão de determinados genes pró-inflamatórios (RIEHEMANN et al., 1999). Um estudo aberto e randomizado com 37 pacientes com atrite aguda divididos em dois grupos, um recebeu 50mg de diclofenaco mais 50g da planta urtiga cozida e o outro grupo recebeu 200mg de 68 UNIDADE V │ FITOTERAPIA EM DESORDENS REUMÁTICAS E GOTA diclofenaco. Os pesquisadores observaram melhora clínica semelhante nos dois grupos, sugerindo que a administração de urtiga pode intensificar a eficáca do diclofenaco em estados reumáticos (CHRUBASIK et al., 1997). Doses citadas na literatura de referência (BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » planta seca de 2 a 4g, na forma de infusão, 3 vezes ao dia ou 8 a 12g ao dia segundo blumenthal et al. (1998). » suco fresco, 10 a 15 ml, 3 vezes ao dia. » extrato líquido de 3 a 4 ml (1:1 e 25% de álcool), 3 vezes ao dia. » tintura de 2 a 6 ml (1:5 em álcool 45%), 3 vezes ao dia. Contraindicações e advertências: » há relatos de irritação gástrica, após ingestão da infusão. » seu uso não é indicado na gestação visto que pode ser abortiva. Bardana (Arctium lappa l.) O seu rizoma é o órgão vegetal mais importante sob o ponto de vista medicinal, o qual assume a denominaçãode Bardanae radix. Seus principais constituintes são ácidos, aldeídos, carboidratos (45 a 50%) como a inulina, mucilagem, pectina e açúcares, policetilenos, terpenoides, tiofenos, além de princípois amargos, óleos fixos e voláteis (0,07 a 0,18%). Suas principais propriedades são diuréticas, orexígenas, porém, tem sido utilizado também para o tratamento de erupções cutâneas, reumatismo, cistite, gota, eczema e psoríase (BISSET, 1994; BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1990; TYLER, 1993). Doses citadas na literatura de referência (BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » raiz seca de 2 a 6g, na forma de infuso, 3 vezes ao dia; » extrato líquido de 2 a 8ml (1:1 em álcool a 25%); » tintura de 8 a 12 ml (1:1 em álcool a 45%), 3 vezes ao dia; » decocto de 500 ml (1:20) por dia. » Contraindicações e advertências: › Devido à falta de dados sobre a toxicidade e por ter sido relatada in vivo ação estimulante do útero, o uso da bardana durante a gestação e lactação não é recomendado (G30). 69 FITOTERAPIA EM DESORDENS REUMÁTICAS E GOTA │ UNIDADE V garra do diabo (Harpagophytum procumbens) Pertencente à família Pedialiaceae o Harpagophytum procumbens apresenta principalmente os seguintes constituintes: carboidratos (frutose, galactose, glicose, rafinose, estaquiose e sacarose), diterpenos, iridoides (harpagosídeo – 1 a 3%), fenilpropanoides, aminoácidos, flavonoides, triterpenoides e esteróis. Seus frutos são lenhosos e formam longos prolongamentos ramificados, que são munidos de farpas, sendo daí a origem do nome “garra do diabo” para a planta (do grego harpagos = arpão). Os estudos científicos indicam que a garra-do-diabo apresenta propriedades anti-inflamatórias, antirreumáticas, analgésicas, sedativas e diuréticas. É usado tradicionalmente para artrite, gota, mialgia, fibrosite, lumbago e doenças reumáticas (BISSET, 1994; BLUMENTHAL, 1998; FOSTER; TYLER, 1999). Estudos in vitro e in vivo têm relatado resultados conflitantes, porém, parece que a atividade difere dependendo da rota de administração e do modelo de inflamação, se agudo ou subagudo. A German commission E formulou, como áreas de indicação, “perda de apetite, sintomas dispépticos, adjuvante em doenças degenerativas do aparelho locomotor”. Cerca de 20 estudos clínicos com pacientes com doenças reumáticas e atríticas, avaliaram a efetividade e eficácia da garra do diabo. Não é possível chegar a uma conclusão a respeito da sua eficácia geral, pois as formulações testadas em ensaios clínicos, geralmente, foram padronizadas por seu teor de harpagosídeo e, embora seja provável que esse componente contribua para a atividade, não ficou claro em que extensão e quais outros componentes podem interferir nesse efeito. Garnier et al. (2004), em uma revisão sistemática de 12 ensaios controlados, randomizados de formulações de Harpagophytum procumbens em pacientes co osteoartrite, lombalgia e condições de dor mista encontrou diferentes graus de evidência para as diferentes formulações avaliadas. Dois ensaios clínicos, com um total de 325 pacientes que receberam via oral dose equivalente a 50mg de harpagosídeo ao dia, por 4 semanas, e o efeito foi superior ao placebo em reduzir a dor em pacientes com episódios agudos de lombalgia crônica e inespecífica. Chrubasik (2002) realizou uma revisão sistemática da qualidade dos ensaios clínicos envolvendo a guarra do diabo descobriu que, embora os resultados de alguns estudos tenham fornecido evidências para a efetividade de certas formulações, a qualidade da evidência não foi suficiente para apoiar o uso de qualquer um dos produtos disponíveis. Os resultados encontrados até o momento são promissores, porém são necessários mais ensaios controlados, randomizados e bem caracterizados para avaliar formulações de Harpagophytum procumbens. Doses citadas na literatura de referência (BLUMENTHAL et al., 1998; ESCOP, 2003): Raiz tuberosa seca de 1,5 a 3g, na forma de decocto, 3 vezes ao dia; 1 a 3g da droga ou o equivalente como extratos aquoso ou hidroalcoolico; extrato líquido (1:1 etanol a 25%) 1 a 3 mL, 3 vezes ao dia. » Contraindicações e advertências (Blumenthal et al., 1998; ESCOP, 2003): 70 UNIDADE V │ FITOTERAPIA EM DESORDENS REUMÁTICAS E GOTA » Na presença de úlcera péptica gástrica e duodenal; em cálculo de vesícula, deve ser usada somente após liberação médica. » Devido à falta de dados sobre o efeito da guarra do diabo durante a gravidez e a lactação, seu uso deve ser evitado por gestantes e lactantes. Salgueiro-púrpura (Salix purpúrea) Os principais constituintes do salgueiro são glicosídeos (fenólicos), salicilatos (1% de salicina total, calculados como salicina), flavonoides, taninos e catequinas. Pertence à família Salicaceae e sua casca apresenta atividades anti-inflamatórias, antirreumáticas, antipiréticas, anti-hidróticas, analgésicas, antissépticas e adstringentes. É usado tradicionalmente para reumatismo muscular e artrodial com inflamação e dor, artrite gotosa e artrite reumatoide. A German Commission E, assim como a monografia da ESCOP, mencionam as doenças febris, sintomas reumáticos e dores de cabeça como as áreas de indicação. A salicina é um pró-fármaco típico e, como tal, é inativo, não causando, portanto, alterações na mucosa gástrica. Ela é hidrolisada enzimaticamente apenas no intestino delgado e absorvida na forma de saligenina. Esta é oxidada no fígado pelo citocromo P-450 e dá origem ao ácido salicílico como a principal substância ativa. Ele impede o surgimento da dor nos nociceptores através da inibição da cicloxigenase (MEIE; LIEBI, 1990). Schmid et al. (2001) em estudo randomizado, placebo controlado e duplo-cego, utilizou o extrato da casca de salgueiro (equivalente a 240mg de salicina/dia) com 78 pacientes com osteoartrite durante 2 semanas. Os autores observaram diferenças na dimensão de dor no grupo tratado. Outros estudos clínicos revelaram que o efeito analgésico foi significativamente maior do que no grupo placebo e, em um dos estudos, este efeito foi correspondente ao efeito de um inibidor recentemente descoberto da COX-2 (CHRU-BASIK, 2000). Lardos et al. (2004), em estudo randomizado, duplo-cego, controlado por placebo observou um efeito analgésico equivalente ao do diclofenaco em pacientes com artrose/osteoartrite nas articulações do quadril e do joelho. Doses citadas na literatura de referência (BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » Casca seca de 1 a 3g na forma de decocção (equivale a 60 a 120mg de salicilina total ao dia), 3 vezes ao dia. » Extrato líquido de 1 a 3ml (1:1 em álcool 25%), 3 vezes ao dia. » Contraindicações e advertências (BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1990; MARTINDALE, 1999): » Indivíduos com hipersensibilidade ao ácido acetilsalicílico, asmáticos, presença de ulceração péptica ativa, diabetes, gota, hemofilia, doenças renais ou hepáticas. 71 fitotErAPiA EM dESordEnS rEuMÁtiCAS E gotA │ unidAdE v » Existem relatos de que o salicilatos são excretados no leite materno, promovendo erupções maculares nos bebês. » Devido a falta de segurança para o uso dessa planta na gestação e lactação, deve ser evitado nesse período. unha de gato (uncaria tomentosa) A unha de gato pertence à família Rubiaceae e suas folhas, raízes, casca da raiz e do tronco, são utilizadas como droga vegetal. Os principais constituintes da Uncaria tomentosa são os alcalóides, porém são encontrados também glicosídeos do ácido quinóvico, triterpenos poli-hidroxilados e esteroides (β-sitosterol, estigmasterol, campesterol) (CERRI et al., 1988; YEPEZ et al., 1991). Suas principais propriedades são anti-infl amatória, antivirais, antioxidantes, imunoestimulantes, antirreumática e anticarcinogênicas (FOSTR, 1999). Seu uso tradicionalestá voltado para tratar gonorréia, artrite, reumatismo, úlceras gástricas e vários tumores (KEPLINGER, 1999). Em estudos realizados em ratos o extrato aquoso da unha de gato demonstrou atividade anti- infl amatória e o princípio ativo relacionado ao efeito parece ser o ácido quinóvico (AQUINO et al., 1991). Em outro estudo em ratos com infl amação induzida por endometacida, o extrato aquoso da casca da Uncaria tomentosa protegeu contra o estresse oxidativo in vitro e atenuou a infl amação crônica intestinal (SANDOVAL-CHACÓN et al., 1998). Além disso, os autores relataram que o extrato evita a ativação do fator de transcrição NFκB. Faltam ensaios clínicos randomizados e controlados para avaliar os efeitos da unha de gato. Doses citadas na literatura de referência: » Extrato padronizado de 25 a 300mg ou 400mg a 5g da droga vegetal. Contraindicações e advertências (BARNES, 2012): » Seu uso não é aconselhável durante a gestação e lactação, pois não existem dados sufi cientes de segurança para esse período, assim como para crianças menores de 3 anos. Amplie seus conhecimentos! Após o término do presente capítulo leia esta revisão descreve os papéis da leptina e da adiponectina no sistema imune e suas atuações no LES e na AR. BARBOSA, Vitalina de Souza; REGO, Jozelia and SILVA, Nílzio Antônio da. Possível papel das adipocinas no lúpus eritematoso sistêmico e na artrite reumatoide. Rev. Bras. Reumatol. [on-line]. 2012, vol.52, n.2, pp. 278-287. ISSN 0482-5004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbr/v52n2/v52n2a11.pdf> unidAdE vi fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE CAPítulo 1 desordens do sistema nervoso e psique As desordens do sistema nervoso e doenças emocionais ocupam cada vez mais espaço nas pesquisas médicas, devido, principalmente, ao aumento de sua incidência na população adulta. Os principais sintomas físicos, mentais e problemas sociais que acometem os indivíduos que apresenta doenças psicossomáticas são: taquicardia, insônia, irritação, ansiedade, intolerância, isolamento social e fobias. A tensão nervosa extrema está associada ao aumento da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial, distúrbios gastrointestinais e tônus muscular em excesso. A palpitação também é um distúrbio psicossomático muito, causada por excitação, ansiedade ou outros estados emocionais. Além disso, os efeitos psicossomáticos também podem desencadear anormalidades no funcionamento de um órgão de forma isolada como, por exemplo, a estimulação simpática pode deprimir a atividade gastrointestinal, que resulta na obstipação. Em contraste, uma estimulação parassimpática excessiva pode aumentar a atividade gastrointestinal, levando à diarreia grave (GOODWIN et al., 2007). Transtornos do humor são classificados como unipolar ou bipolar. Indivíduos com transtorno unipolar apresentam episódios de depressão, enquanto aqueles com transtorno bipolar apresentam episódios alternados de mania e depressão (NIVOLLI et al., 2011). Estas doenças geralmente surgem na segunda década de vida, embora possam começar mais cedo. A depressão unipolar é mais comum na meia-idade e entre os idosos (NIVOLLI et al., 2011). Os medicamentos mais prescritos em casos de depressão grave são os inibidores da monoamina oxidase (MAO), que são capazes de aliviar os sintomas. Por outro lado, episódios maníacos são tratados com lítio e medicações antipsicóticas. Porém, o lítio altera a tolerância à glicose e pode aumentar a sensibilidade à insulina, consequentemente, a maioria dos pacientes que recebe esse tratamento ganha peso (NIVOLLI et al., 2011). Outra condição psiquiátrica que vem chamando a atenção de especialistas ultimamente é o transtorno de déficit de atenção-hiperatividade. Esse distúrbio afeta de 3% a 9% das crianças, 73 fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE│ unidAdE vi sendo responsável por um terço dos encaminhamentos de crianças americanas a unidades de saúde mental. Este transtorno é caracterizado por níveis de atividade evolutivamente inadequados, baixa tolerância à frustração, impulsividade, organização do comportamento insatisfatória, distração e incapacidade de manter a atenção e concentração. Outro distúrbio muito conhecido é a Síndrome do Pânico, que é nitidamente diferente de outros tipos de ansiedade, caracterizando-se por crises súbitas, sem fatores desencadeantes aparentes e, frequentemente, incapacitantes. A síndrome ocorre como uma manifestação orgânica contra um gatilho externo que gera sinais de medo, sendo ele evidente ou não. Os mecanismos de fuga são acionados, com aumento no fluxo sanguíneo cerebral e liberação de adrenalina, provocando elevação da frequência cardíaca e respiratória e o aumento da frequência respiratória (hiperventilação). O tratamento do transtorno tradicional do pânico inclui medicamentos antidepressivos, ansiolíticos e estimulação magnética transcraniana repetitiva, além de psicoterapia (MCCUTCHEON et al., 2010; GURGEL et al., 2007). As classes de antidepressivos comumente utilizados são inibidores seletivos da recaptação de serotonina e inibidores da MAO. Atualmente, há uma grande busca de novos agentes terapêuticos para doenças psiquiátricas, sobretudo devido aos efeitos colaterais provocados por medicamentos tradicional-mente utilizados. Diversas plantas medicinais têm historicidade de emprego para transtornos de ansiedade, fobia e depressão na medicina popular. Porém, como ocorre em outras áreas, os trabalhos com humanos ainda são escassos, nesse caso por dificuldades em manter alguns pacientes sem medicação de uso tradicional. No Brasil diversas plantas têm sido usadas tradicionalmente por seus efeitos sedativos e calmantes, por exemplo, Passiflora incarnata, Valeriana officinalis, Humulus lupulus, Matricaria chamomilla, entre outras, que serão abordadas a seguir. valeriana (valeriana officinalis l.) A Valeriana, da família Valerianaceae, tem seu rizoma e raízes conhecidos por seus efeitos ansiolíticos, sedativos, hipnóticos, antiespasmódicos, carminativos e hipotensores. Seu uso tradicional se aplica a estados histéricos, excitabilidade, insônia, enxaqueca, cólica intestinal, dores reumáticas, dismenorreia (BISSET, 1994; BRADLEY, 1992; FOSTER; TYLER, 1999; WREN, 1988). Seus principais constituintes são alcaloides, iridoides (valepotriatos), esteroides, óleos voláteis (0,5 a 2%), além de aminoácidos (arginina, ácido γ-aminobutirico, glutamina, entre outros), ácido cafeico e clorogênico, colina, taninos, entre outros (UPTON, 1999; LAPKE et al., 1997). São mais de 150 constituintes identificados, porém nenhum deles apresenta os efeitos da Valeriana isoladamente, sugerindo que seus compostos atuam sinergicamente (HOUGHTON, 1999; HENRDRIKS, 1981). Estudos indicam que a Valeriana officinalis interage com neurotransmissores como o Ácido Gama Aminobutírico (GABA), o principal neurotransmissor inibitório no nosso organismo, e inibe a degradação da enzima que degrada o GABA no cérebro, aumentando sua disponibilidade (NEUHAUS, 2008; CAVADAS, 1995). 74 unidAdE vi │ fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE Um estudo duplo-cego realizado com 48 adultos colocados em uma situação social de estresse, a valeriana reduziu as sensações subjetivas de ansiedade e não causou sedação. (CROPLEY et al., 2002). Outro estudo transversal, duplo-cego, randomizado e placebo controlado foi realizado com 16 indivíduos que apresentavam insônia psicofisiológica estabelecida de acordo com critérios de Classificação Internacional de Transtornos de Sono (ICSD) e confirmada por polissonografia. Os pacientes receberam 600mg de extrato etanólico a 70% de raiz de valeriana, ou placebo, 1 hora antes de dormir por 14 dias. Os resultados revelaram uma diferençaestatisticamente significativa no parâmetro de sono de ondas lentas, em comparação com valores basais, o que não ocorreu com o grupo placebo. Porém, não houve efeitos estatisticamente significativos sobre os parâmetros objetivos nem subjetivos do sono após a administração única de vaeriana. Por outro lado, outro ensaio duplo-cego e randomizado, realizado com 75 indivíduos com insônia não orgânica ou psiquiátrica, utilizando 600mg de do extrato de raiz de valeriana (razão droga vegetal e extrato 5:1) ou oxazepam 10mg, administrados 30 minutos antes de dormir durante 28 dias. Ao final do tratamento a qualidade do sono havia melhorado significativamente em ambos os grupos, em comparação com valores basais. Outro estudo que comparou Diazepam® (2,5mg três vezes ao dia) e uma preparação de Valeriana (50 mg três vezes ao dia, padronizado a 80%) mostrou uma significante redução nos sintomas de ansiedade após 4 semanas (ANDREANTINI et al., 2002). As evidências permitem considerar a Valeriana officinalis como alternativa potencial para ansiolíticos tradicionais (MURPHY et al., 2009). Doses citadas na literatura de referência (MILLS; BONE, 2000; BLUMENTHAL et al., 1998) » Rizoma/raiz secos de 1 a 3g na forma de infusão ou decocção, até 3 vezes ao dia. » Tintura de 3 a 5 ml (1:5; etanol 70%), até 3 vezes ao dia (g6, g50); ou 1 a 3 ml de uma a várias vezes ao dia. » Extratos equivalentes a 2 a 3g de droga vegetal, de uma a várias vezes ao dia (G3); ou 2 a 6 ml de extrato líquido, diariamente. A dose usualmente utilizada em estudos clínicos que avaliam o efeito dos extratos de raiz de valeriana sobre os parâmetros do sono é de 400mg/dia (razão 3:1) e 1215 mg/dia (razão 5 a 6:1). Maracujá (Passiflora incamata l.) O maracujá pertence à família Passifloraceae e suas folhas, flores, frutos e sementes são utilizados como droga vegetal empregadas na fitoterapia. Suas principais propriedades são sedativas, hipnóticas, antiespasmódicas e anódinas (WILLIAMSON, 2003). Seu uso tradicional é voltado para o tratamento da ansiedade, nervosismo, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), sintomas de abstinência de opiáceos, insônia, nevralgias, convulsões, asma espasmódica, ADHD, palpitações, 75 fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE│ unidAdE vi anomalias do ritmo cardíaco, hipertensão, disfunção sexual e menopausa (BRITISH HERBAL PHAMACOPEIA, 1983). A German Commission E aprovou seu uso interno para inquietação nervosa (BLUMENTHAL et al., 1998). Estudo realizado com ratos avaliando os efeitos in vitro de um extrato seco de Passiflora incarnata (Pascoflair® 425 mg) sobre o sistema gabaérgico, concluiu que o extrato inibia a recaptação do GABA, aumentando a sua disponibilidade na fenda sináptica, mas alterou sua liberação. Em um experimento, durante quatro semanas, 36 pacientes (18 em cada grupo) com transtorno de ansiedade geral foram designados para receber 45 gotas/dia de Passiflora mais um comprimido de placebo ou 30mg/dia de Oxazepam® mais gotas de placebo. Ao final do estudo os participantes dos dois grupos apresentaram redução significativa na pontuação de ansiedade (Escala de Ansiedade Hamilton) em comparação com os valores basais. Contudo, talvez o referido estudo não tenha amplitude suficiente para detectar diferenças entre os dois grupos de tratamento. Outros estudos clínicos realizados com semelhantes estruturas metodológicas revelaram resultados parecidos, porém muitos não realizaram cálculo formal do tamanho da amostra, fragilizando os dados obtidos (BARNES, 2012). Portanto, há a necessidade de novos estudos com extrato de P incarnata com um melhor delineamento metodológico, mas já podemos considerar que esse fitoterápico é capaz de modular o sistema gabaérgico. Doses citadas na literatura de referência para inquietação, irritação e insônia: » 0,5 a 1g do equivalente ao vegetal seco, 3 vezes ao dia (MILLS, 1985) ou 4 a 8g da planta ao dia (BLUMENTHAL et al., 1998); » 0,5 a 2g da droga vegetal, 3 a 4 vezes ao dia ou 1 a 4 ml da tintura (1:8), 3 a 4 vezes ao dia (ESCOP, 2003). » Contraindicações e advertências: › Alguns relatos de efeitos adversos ao uso da Valeriana officinalis foram documentados, principalmente em distúrbios do sistema gastrintestinal como náuseas, agitação, transtorno do sono e distúrbios hepáticos. Mulungu (Erythrina velutinal) A Erythrina velutina pertence à família Fabaceae e suas cascas e folhas apresentam propriedades calmantes, contra insônia e outras desordens de sistema nervoso central. Os principais constituintes são flavonoides (homohesperetina), faseolidina e alcaloides. Em estudos revisão que utilizou o extrato hidroalcoólico em modelo de ratos verificou bons resultados ansiolíticos (SOUSA et al.,2004). Porém, existem evidências de efeito amnésico quando seu uso se dá de modo crônico e em altas doses pode apresentar efeito sedativo e ações bloqueadoras musculares quando em altas doses (DANTAS et al., 2004; VASCONCELOS et al., 2004). Na prática clínica, apesar de não haver trabalhos bem conduzidos em humanos, seu uso é bastante adequado para casos de ansiedade generalizada, porém sem uso crônico (MARQUES, 2011). 76 unidAdE vi │ fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE Doses citadas na literatura de referência: » Decocção de 4 a 6g em 150ml de água, 3 vezes ao dia. » Contraindicações e advertências: › Não utilizar durante a gestação e lactação. Camomila (Matricaria chamomilla) A camomila pertence à família Asteraceae e a parte utilizando como droga vegetal são os capítulos secos. As espécies de camomila geralmente utilizadas em fitoterapia tradicional são: Matricaria chamomilla (camomila recutita; camomila alemã, camomila húngara) e Chamaemelum nobile (camomila romana), sendo a camomila alemã mais utilizada. Suas propriedades fitoterápicas são: como sedativo leve (inclusive para crianças) atividade carminativa e anti-inflamatória (para distúrbios gastrointestinais) (CHANDRASHEKHAR et al., 2011). Seus principais constituintes são cumarinas, flavonoides (apigenina, luteolina, quercetina, rutina e outros), óleos voláteis ((-)-α bisabolol – até 50% - e chamazuleno de 1 a 15%). Em estudo que examinou seu efeito sedativo (Matricaria chamomilla) a apigenina foi capaz de inibir competitivamente a ligação de flunitrazepam ao receptor benzodiazepínico, resultando em efeitos ansiolíticos e levemente sedativos. Em outro estudo uma infusão liofilizada de camomila, administrada intraperitonealmente em camundongos promoveu efeitos depressores no SNC (LOGGIA et al., 1982). São necessários ensaios clínicos randomizados e controlados para avaliar os efeitos da camomila, pois atualmente estudos em humanos são limitados, assim como ensaios clínicos analisando suas propriedades sedativas. Apesar disso, seu uso tradicional tem demonstrado ser uma planta segura, indicada na primeira infância e idosos (MARQUES, 2011). Doses citadas na literatura de referência (BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » Capítulos secos de 2 a 8g na forma de infuso, 3 vezes ao dia; » Extrato líquido de 1 a 4ml (1:1 em álcool a 45%), 3 vezes ao dia. » Contraindicações e advertências: › Pode ser fotossensibilizante e causar dermatite de contato. › Cautela ao associar com sedativos, etanol, ansiolíticos e anticoagulantes. › Seu uso excessivo deve ser evitado na gestação e lactação (BARNES, 2012). 77 fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE│ unidAdE vi Erva-cidreira/Melissa (Melissa officinalis l.) Pertencente à família Lamiaceae, suas partes aéreas de óleo essencial são utilizados, tradicionalmente, devido suas propriedades sedativas, espasmolíticas e sedativas (G54). A Commission German E afirma que a Melissa pode ser usada para transtornosdo sono e problemas gastrintestinais funcionais (BLUMENTHAL et al., 2000). Um estudo utilizando a Melissa officinalis in vitro demonstrou inibição de GABA-transaminase, enzima responsável pela degradação do GABA (AWAD et al., 2009). Outras pesquisas identificaram o ácido rosmarínico como principal constituinte responsável por essa inibição. Um estudo clínico realizado com 24 voluntários saudáveis, examinou o efeito de uma dose única (600 mg, 1200 mg ou 1800 mg) de uma combinação de Melissa/Valeriana (80 mg Melissa/120 mg de Valeriana por comprimido) ou placebo em dias separados por um período de sete dias sem a administração. Os resultados indicam efeitos sobre o humor e a ansiedade, avaliados antes de receberem a droga, e após uma, três e seis horas da administração. Além disso, foi constatado que enquanto a dose de 600mg melhorou o estresse, a dose de 1.800mg parecia aumentar a ansiedade (KENNEDY et al., 2006). Um estudo realizado em crianças com inquietação e problemas de sono examinou a ação da Valeriana e Melissa. No início do estudo, 61,7% das crianças relataram sintomas. Após quatro semanas de administração da combinação de plantas, os sintomas estavam ausentes ou classificados como leves na maioria das crianças. Doses citadas na literatura de referência: » Erva seca de 1,5 a 4,5g na forma de infusão, com 150ml de água, várias vezes ao dia (BLUMENTHAL et al., 2000). » Contraindicações e advertências: › Nenhuma documentada. › O uso tópico da melissa durante a gravidez e lactação tem pouca probabilidade de apresentar problemas, porém devido a falta de estudos clínicos durante a gestação e lactação abordando o uso oral da planta nesse período, o uso por gestantes e lactantes deve ser evitado (BARNES, 2012). Erva-de-são-joão (Hypericum perforatum) O Hypericum pertence à família Guttiferae. Seu uso tradicional é voltado para neurose menopáusica, depressão, neuralgia, ansiedade e excitabilidade (BLUMENTHAL et al., 1998, BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983; FOSTER; TYLER, 1999). Seus principais constituintes são derivados de antraquinona (naftodiantronas) como a hipericina (0,1 a 0,15%), flavonoides, floroglucinóis prenilados, taninos, ácidos cafeico, clorogênico, p-cumárico, óleos voláteis (0,05 a 09%), entre 78 unidAdE vi │ fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE outros (BARNES, 2012). Entre esses, os constituintes ativos responsáveis por seus efeitos são hiperforina (floroglucinol) e a hipericina (naftodiantrona). Estudos in vitro e in vivo comprovaram que a hipericina é um inibidor da captação de 5-HT, dopamina, noradrenalina, GABA e L-glutamato. Estudos realizados em modelos experimentais de depressão, incluindo formas aguda e crônica de déficit de fuga induzido por estressores, demonstrou-se que o extrato de hipérico protege os ratos das consequências do estresse inevitável. Há mais de 40 ensaios clínicos sobre formulações de Hypericum perforatum com a participação de pacientes com vários tipos de depressão, porém uma rigorosa revisão sistemática e uma metanálise revelam que, de um modo geral, as evidências são inconsistentes e complexas. Fármacos antidepressivos convencionais e o Hypericum perforatum parecem apresentar efeitos semelhantes, porém em casos de depressão grave o Hypericum apresenta apenas pequenos benefícios. Uma outra metanálise foi realizada com apenas 6 ensaios randomizados, cegos e controlados com a Erva-de-São-João envolvendo 651 pacientes com transtornos depressivos. A duração dos estudos foi de 4 a 6 semanas e as doses utilizadas do extrato da Erva-de-São-João foram de 200 a 900mg ao dia. Os autores da metanálise concluíram que a resposta ao tratamento foi significativamente maior no grupo tratado com a erva e semelhantes aos resultados encontrados com antidepressivos tricíclico, porém mais estudos devem ser realizados para resolver problemas metodológicos antes de concluir que a Erva-de-São-João é um eficaz antidepressivo. Doses citadas na literatura de referência (BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » erva seca de 2 a 4g na forma de infusão, 3 vezes ao dia; » extrato líquido de 2 a 4ml (1:1 em álcool 25%), 3 vezes ao dia; » tintura de 2 a 4ml (1:1 em álcool 45%), 3 vezes ao dia; » nos ensaios clínicos a dose do extrato de Erva-de-São-João em depressão leve a moderada varia de 240mg a 1800mg ao dia, habitualmente por um período de 5 a 6 semanas. » Contraindicações e advertências: › Seu uso não é aconselhado em casos de fotossensibilidade devido ao potencial fotossensibilizados da hipericina. › Não é considerado necessário evitar alimentos que contenham tiramina e medicamentos que contenham agentes simpatomiméticos. › Alguns estudos já foram realizados com o uso do Hypericum perforatum antes e durante a gestação, porém os dados não são conclusivos e, por isso, deve seu uso deve ser evitado durante a gestação e lactação. 79 fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE│ unidAdE vi Kava kava (Piper methysticum) A planta Kava Kava (Piper methysticum) pertence á família Piperacea e suas raízes são utilizadas por seus efeitos psicotrópicas e ansiolíticos. Seus principais constituintes são cavalactonas, alcaloides, chalconas, flavonoides, esteroides, ésteres e alcoóis alifáticos. Este efeito é obtido pela modulação da atividade de GABA por meio da alteração da estrutura da membrana plasmática e da função dos canais de sódio, inibição da monoamina oxidase, e inibição da recaptação de noradrenalina e dopamina. Seu uso tradicional se destina ao tratamento de infecções do trato urinário, asma, reumatismo, cefaleia, febre, tensão nervosa, inquietação, depressão leve e sintomas de menopausa (MILLS; BONES, 2000; SCHULZ et al., 2000, MARTINDALE, 2002). Um ensaio clínico, duplo-cego, placebo controlado, foi realizado em 29 pacientes tratados durante quatro semanas com 100 mg de extrato de Kava Kava padronizado (70% de lactonas), três vezes ao dia. O grupo que recebeu o extrato experimentou significativo decréscimo nos sintomas de ansiedade (KINZLER et al., 1991). Outro estudo duplo-cego realizado com dois grupos de 20 mulheres que receberam o extrato em mesma dosagem do estudo anterior, revelou um efeito do Kava kava em diminuir a ansiedade associada à menopausa (WARNECKE, 1991). Além desses estudos, muitos outros analisaram o extrato de Piper methysticum comparando-os favoravelmente aos medicamentos como benzodiazepínicos e antidepressivos tricíclicos (KINZLER et al., 1991). Diversos estudos apontam sua possível toxicidade (TESCHKE; SCHULZE, 2010; TESCHKE et al., 2009; TESCHKE; WOLFF, 2009). Embora as evidências atuais considerem o uso de kava para a ansiedade, são necessários mais ensaios clínicos controlados para avaliar a eficácia e a segurança (no fígado, a cognição, dirigindo, e os efeitos sexuais) comparadas aos fármacos que apresentam seus efeitos adversos e benéficos bem estabelecidos (MARQUES, 2011). Doses citadas na literatura de referência (MILLS; BONES, 2000): » Rizoma seco de 1,5 a 3g ao dia, equivalente a 60 a 120mg de cavalactonas ao dia; » Extrato líquido de 3 a 6 mL ao dia (1:2 extrato líquido); » Formulações padronizadas de 100 a 200mg de calvalactonas ao dia; 60 a 120mg de calvalactonas, 2 a 4 vezes ao dia na forma de comprimidos. Contraindicações e advertências (BLUMENTHAL et al., 2000): » Piper methysticum é uma planta de prescrição exclusiva médica no Brasil. » Não existem evidências de que o uso Piper methysticum cause dependência, porém os estudos realizados tiveram curta duração (máximo 24 semanas). » Pode afetar de modo adverso os reflexos motores, prejudicando a capacidade de operar máquinas. » Devido a ausência de estudos o uso de Piper methysticum é contraindicado na gestaçãoe lactação. 80 unidAdE vi │ fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE ginseng (Panax ginseng) O ginseng pertence à família Araliaceae. É utilizado tradicionalmente para estados depressivos associados com problemas sexuais, neurastenia, neuralgia, insônia e hipotonia (BISSET; BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPOEIA, 1990). Na medicina chinesa é utilizado há muitos anos como estimulante, tônico e diurético. Seus principais constituintes são os terpenoides (ginsenosídeos ou panaxosídeos), óleo volátil (principalmente sesquiterpenos), alcoóis sesquiterpênicos, esteróis e polissacarídeos. Estudos realizados em ratos observaram que o pré-tratamento com Panax ginseng preveniu o aumento nos receptores dopaminérgicos no cérebro decorrente do estresse. Um ensaio clínico duplo-cego, placebo controlado, realizado com 30 pessoas saudáveis que receberam extrato de Panax ginseng de 200 ou 400mg em dose única antes de serem submetidos a uma bateria de testes projetados para avaliar o desempenho cognitivo. Os pesquisadores concluíram que houve uma melhora significativa com ambas as doses nos escores de fadiga mental. Não somente o uso isolado de Panax ginseng foi testado, mas também o uso combinado ao Ginkgo biloba apresentam resultados positivos. Outro ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlados por placebo foi realizado com 64 indivíduos saudáveis com queixas neurostênicas que receberam uma combinação contendo extrato de raiz de Panax ginseng e extrato de folhas de Ginkgo biloba. As doses utilizadas foram de 50 e 30mg, respectivamente, 100 e 60mg, respectivamente, e 200 e 120mg, respectivamente, ou placebo, duas vezes ao dia por 12 semanas. Os autores concluíram que o grupo que recebeu as doses mais altas alcançaram scores significativamente maiores em testes delineados para avaliar a função cognitiva. Doses citadas na literatura de referência (BARNES, 2012): » Terapia de curto prazo (15 a 20 dias) para jovens e pessoas saudáveis – 0,5 a 1,0g de raiz ao dia, dividida em duas doses. O horário ideal para utilização da droga vegetal é pela manhã 2 horas antes da refeição, e à noite duas horas após a refeição. » Terapia de longo prazo para idosos e pessoas com saúde comprometida – 0,4 a 0,8g da raiz diariamente. » Raiz em pó de 3 a 9g ao dia administradas como um decocto. » Extrato padronizado (G115) – foi utilizado em diversos estudos em doses de 100 a 400mg ao dia, por 4 a 12 semanas. » Contraindicações e advertências: › Seu uso é contraindicado em pessoas muito ativas, nervosas, tensas, histéricas, maníacas ou esquizofrênicas e que não seja usado como estimulantes, incluindo café, medicamentos antipsicóticos ou durante o tratamento com hormônios (MILLS e BONES, 1985). › Alguns estudos realizados em ratos e coelhos durante a gestação e lactação não mostram efeitos teratogênicos ou outros prejuízos, porém a segurança para seu uso em humanos durante esse período ainda não foi estabelecido e, portanto, deve ser evitado. 81 fitotErAPiA EM dESordEnS do SiStEMA nErvoSo E PSiquE│ unidAdE vi Chá verde e preto (Camellia sinenis) O verde e preto (Camellia sinensis) contém em suas folhas o aminoácido L-theanina, que apresentam uma estrutura química similar ao glutamato, neurotransmissor relacionado à memória. Um copo de chá preto contém aproximadamente 20mg de theanina e seu efeito no cérebro é o aumento a dopamina a serotonina, e o neurotransmissor inibitório glicina. A Camellia sinenis apresenta mais cafeína do que o café, porém a L-theanina aparentemente contrabalança esse efeito estimulante. Estudos realizados em ratos com a administração intravenosa de L-theanina após a administração de cafeína, na mesma dose, diminuiu o efeito estimulante da cafeína. Porém ao administrarem a theanina em dose menor (20-40% da dose original) obtiveram efeitos excitatórios, sugerindo um efeito duplo, dose-dependente. Em um estudo clínico realizado com idosos que apresentavam disfunção cognitiva leve, foi administrado o chá verde em pó contendo uma concentração alta de theanina (equivalente a 47,5mg/dia). Os resultados apontaram um declínio significativamente menor na função cognitiva em comparação ao grupo placebo, sugerindo que a theanina pode ter melhorado a disfunção cognitiva leve em pessoas idosas. Outros estudos realizados em animais indicam que a administração de theanina facilita a neurogênese no hipocampo em desenvolvimento e aumento da memória de reconhecimento, sugerindo que sua ingestão possa ser benéfica para o desenvolvimento da função do hipocampo pós-nata, uma região considerada a principal sede da memória e importante componente do sistema límbico. Mais estudos clínicos devem ser realizados a fim de esclarecer os mecanismos de ação e as doses mais adequadas. unidAdE vii fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS CAPítulo 1 obesidade e diabetes obesidade Patologia multifatorial considerada um dos maiores problemas de saúde pública, além de ser uma das doenças crônicas não transmissíveis que mais cresce epidemiologicamente no mundo. A obesidade é um fator predisponente à diminuição da longevidade (em média, 13 anos) e aumento da mortalidade. A associação com o Índice de Massa Corporal (IMC) revela que o risco de mortalidade e comorbidade, associados a doenças como Diabetes mellitus tipo II, hipertensão, neoplasias, dislipidemia, doenças cardiovasculares, aumenta proporcionalmente ao aumento dessa medida. Estas comorbidades relacionam-se com o estado de inflamação crônica sistêmica de baixo grau observada na obesidade, resultado do aumento das concentrações plasmáticas de proteínas de fase aguda e de várias citocinas. (RAMALHO et al., 2008) Quanto à reversão do estado inflamatório observado na obesidade, parece que a redução do IMC e consequente perda de tecido adiposo conduzem a uma redução da produção de citocinas e quimiocinas pró-inflamatórias e ao aumento de mediadores anti-inflamatórios, com redução concomitante do risco de patologias associadas. (RAMALHO et al., 2008) diabetes Diabetes mellitus é a mais frequente doença do metabolismo dos açúcares. Trata-se de uma síndrome de etiologia múltipla, decorrente da falta de insulina e/ou da incapacidade de ela exercer adequadamente seus efeitos, resultando em resistência insulínica. Caracteriza-se pela presença de hiperglicemia crônica, frequentemente, acompanhada de dislipidemia, hipertensão arterial e disfunção endotelial - Sociedade Brasileira de Diabetes. 83 fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS│ unidAdE vii O tipo 1 (insulinodependente) e o tipo 2 (não insulinodependente) apresentam diferenças etiológicas e patogenéticas claras. Enquanto o diabetes tipo 1 é uma doença autoimune, a resistência insulínica é considerada um fator chave no desenvolvimento do Diabetes tipo 2. A diminuição da ação da insulina nos seus tecidos-alvos, particularmente, músculos e tecido adiposo é chamada de resistência a insulina. Em consequência dessa resistência, ocorre uma hiperinsulininemia compensatória e com a evolução da doença o individuo pode passar apresentar deficiência na secreção de insulina, causada pela exaustão da capacidade secretora das células β (McLELLAN et al, 2007). Tanto a obesidade quanto o Diabetes (tipo 2) estão associados ao quadro de resistência insulínica. Nos estágios que precedem a manifestação da doença, designados de pré-diabetes, o uso de fitoterápicos tradicionais, em conjunto com uma dieta correspondente e mudança dos hábitos de vida, podem levar a um adiamento da manifestação do diabetes, ou, até mesmo, evitar que se manifeste. o papel do tecido adiposo Recentemente, o tecido adiposo deixou de ser considerado um simples depósito de gordura, sendo reconhecido como um órgão secretóriodistribuído ao longo do corpo e altamente ativo, capaz de influenciar inúmeros processos metabólicos e fisiológicos. Algumas adipocitocinas, como a leptina e a adiponectina, exercem efeitos benéficos sobre o balanço energético, a ação insulínica e a proteção vascular. Contrariamente, a produção excessiva de outras adipocitocinas pode tornar-se deletéria ao organismo. TNF-alfa, IL-6 e resistina podem deteriorar a ação da insulina, enquanto PAI-I e angiotensinogênio envolvem-se em complicações vasculares associadas à obesidade. A inflamação crônica do tecido adiposo A inflamação induzida pela obesidade, também denominada “metainflamação”, é considerada um mecanismo potencial envolvido em patologias metabólicas como resistência à insulina, diabetes tipo 2, esteatose hepática, aterosclerose, doenças imunológicas e diversos tipos de câncer. A obesidade ocorre como resultado de um aumento do tecido adiposo branco, causado por uma hiperplasia e/ou hipertrofia dos adipócitos O tecido adiposo é um órgão secretório ativo que produz fatores conhecidos como adipocinas, que são polímeros produzidos pelos adipócitos que agem de maneira autócrina, parácrina e endócrina para controlar várias funções metabólicas. As adipocinas influenciam a resistência à insulina sistêmica e têm papel na fisiopatologia da síndrome metabólica e de doenças cardiovasculares, além de contribuírem para o estado inflamatório local e sistêmico característico da obesidade. (INADERA, 2008) 84 unidAdE vii │fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS Figura 1. Perfil de citosinas do tecido adiposo magro e obeso Fonte: FORSYThE et al., 2008. Durante o ganho de peso, as células do tecido adiposo aumentam de tamanho devido ao armazenamento de lipídios excessivos (hipertrofia do adipócito), que altera a função celular normal. Consequentemente, níveis anormais de moléculas inflamatórias circulantes tornam-se evidentes na obesidade o que caracteriza a inflamação sistêmica crônica de baixo grau, caracterizada especificamente por um aumento dos marcadores inflamatórios relacionados à obesidade, como leptina, TNF-α e IL-6, seguida de uma redução de marcadores anti-inflamatórios, como a adiponectina. Evidências científicas indicam que a redução de peso pode melhorar esse estado inflamatório. Programação metabólica da obesidade Na pesquisa denominada Dutch Famine Study, foi pela primeira vez identificado que a desnutrição materna, gerada na Segunda Guerra Mundial, elevou a incidência de sobrepeso nos filhos (sexo masculino) na idade de serviço militar. (RAVELLI et al., 1976) Respostas adaptativas às condições nutricionais, no período fetal, podem modificar a programação metabólica devido à susceptibilidade genética e à rápida divisão celular neste período, resultando em efeitos persistentes e duradouros na vida adulta. O grau de modificação na programação metabólica depende da carga genética, do período e intensidade da exposição aos fatores que influenciam essa programação, podendo a resposta ser diferenciada entre os indivíduos. (WATERLAND et al., 1999) O termo “programação metabólica” descreve o processo por meio do qual um estímulo ou um estresse, durante o período de desenvolvimento fetal, pode desencadear respostas permanentes que promovem mudanças na estrutura ou função de tecidos, capazes de gerar alterações orgânicas, metabólicas e fisiológicas. (PATEL et al., 2002) Atualmente, várias são as evidências indicando a influência do ambiente nutricional e hormonal durante a vida intrauterina e sua repercussão na vida adulta. A partir destes achados, criou-se a hipótese da “origem fetal” de várias doenças na vida adulta. 85 fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS│ unidAdE vii Durante a vida fetal, a nutrição inadequada pode alterar um ou mais aspectos do desenvolvimento morfológico e fisiológico, aumentando a predisposição do indivíduo para desenvolvimento de doenças metabólicas, como a Diabetes mellitus e problemas cardiovasculares na vida adulta. (GODFREY et al, 2001) A partir dessas informações da literatura, pode-se concluir que, durante o período de gestação e lactação, a redução na ingestão energética e modificação na composição dos macronutrientes da dieta podem alterar a programação metabólica da prole, causando maior predisposição para o aumento de adiposidade e desenvolvimento de resistência à insulina. Papel do intestino no desenvolvimento da obesidade O intestino é o maior órgão endócrino do nosso organismo. Sinais derivados do trato gastrintestinal (TGI) podem ter funções fundamentais no controle metabólico. Figura 2 - Principais sítios de síntese de peptídeos intestinais implicados na regulação da saciedade Fonte: NAVES, 2009 A saciedade resulta da liberação de sinais neurais e humorais que emanam do intestino em resposta à propriedade mecânica e química dos alimentos ingeridos. Esses sinais de saciedade produzidos no trato gastrintestinal precisam ser integrados com o sistema nervoso central, sobretudo com o hipotálamo, para garantir uma eficiente homeostasia energética. O núcleo arqueado no hipotálamo é um componente vital da regulação da saciedade, por ser o sítio de integração de uma série de sinais neurológicos e periféricos. Essa área é acessível aos sinais periféricos de controle da saciedade devido à sua localização, próxima à eminência média, região que possui a barreira hematoencefálica incompleta. Além da interação direta com o núcleo arqueado hipotalâmico, já foram identificadas outras diferentes maneiras pelas quais esses sinais de curto prazo de saciedade atuam sobre o Sistema Nervoso Central (SNC). Podem agir diretamente no cérebro posterior, no núcleo do trato solitário, região cuja barreira hematoencefálica é insuficiente e, por isso, é uma posição perfeita para responder a sinais periféricos. (STANLEY et al., 2005) 86 unidAdE vii │fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS Microbiota intestinal na obesidade Os lipopolissacarídeos (LPS) são gatilhos originários da parede celular das bactérias intestinais Gram-negativas, que atravessam a barreira intestinal (aumento da permeabilidade intestinal) e geram o aumento da produção de citosinas pró-inflamatórias. Esse mecanismo de resposta inflamatória é mediado por macrófagos. Creely et al. (2007) demonstraram aumento nas concentrações circulantes de endotoxina em mulheres portadoras de Diabetes mellitus do tipo 2. No mesmo trabalho, os autores verificaram que lipopolisacarídeos (LPS) elevaram a expressão proteica de TLR2 e a secreção de IL-6 e TNF-α por adipócitos isolados do tecido adiposo subcutâneo. Camundongos tratados com dieta hiperlipídica desenvolveram resistência à insulina acompanhada de aumento de endotoxina circulante e da expressão gênica de IL-6, TNF-α, IL-1β e PAI-1 em vários depósitos de tecido adiposo. (CANI et al., 2007) O LPS age sobre receptores da família Toll Like Receptor (TLR), em particular o TLR4, ativando a via do NF-κB, favorecendo a expressão gênica das adipocinas pró-inflamatórias (TAKEUCHI; AKIRA, 2001; LEE et al., 2001). A transmissão do sinal mediado pela ligação do LPS com o TLR4 constitui um fenômeno altamente complexo e variado, mediado por meio de reações envolvendo fosforilação e ubiquitinação de proteínas-alvo. Em resumo, ocorre ativação da proteína MyD88 que, por sua vez, ativa o complexo IRAK (Kinase associated IL-1 receptor)-TRAF 6 (TNF receptor-associated factor). Esta última pertence à classe das ubiquitina ligases (E3 ligases) e parece ser essencial para o desacoplamento do NF-κB da sua proteína inibidora (Iκ-B). O NF-κB, uma vez liberado, migra para o núcleo, ligando-se ao DNA e iniciando a amplificação gênica das proteínas relacionadas à inflamação. (TAKEDA;AKIRA, 2004) Nas últimas três décadas, vêm sendo estudada a relação entre o estado pró-inflamatório na obesidade e a microbiota intestinal. O intestino dos mamíferos possui uma comunidade microbiana, conhecida como microbiota intestinal, composta por trilhões de micro-organismos e sua composição pode variar de acordo com alguns fatores como: nutrientes da dieta, doenças e uso de antibióticos. (LEY et al., 2008) O intestino dos mamíferos tem uma microbiota pertencente a três filos de bactérias: Bacteroidetes gram-negativa, Actinobacteria gram-positiva e Firmicutes (que compreende 200 gêneros, incluindo Lactobacillus, Clostridium, Bacillus e Mycoplasma). (DENG et al., 2008) Segundo Ley (2005), ratos geneticamente obesos ob/ob (leptina deficiente), após tratamento com dieta rica em polissacarídeos, apresentaram mais Firmicutes e 50% menos Bacteroidetes no intestino distal quando comparados com o tipo selvagem. Nesse sentido, ratos tratados com dieta hiperlipídica e hiperglicídica apresentaram aumento da razão Firmicutes/Bacteroidetes comparado com ratos tratados com dieta pobre em gordura/rica em polissacarídeos, com baixo índice glicêmico. (TURNBAUGH, 2008) O uso de alimentos e fitoterápicos prebióticos é uma maneira de modificar favoravelmente a composição e/ou atividade da microbiota intestinal. 87 fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS│ unidAdE vii fitoterapia em obesidade e diabetes Considerando os complexos mecanismos relacionados ao desenvolvimento da obesidade e diabetes, o uso de fitoterápicos e compostos bioativos como complemento para o tratamento deve ser cuidadosamente planejado. Alguns fitoterápicos são capazes, por exemplo, de modular da expressão de genes que codificam proteínas envolvidas em mecanismos intracelulares de defesa contra processos oxidativos degenerativos de estruturas celulares como DNA e membranas, além de impedir a síntese de mediadores inflamatórios. Na tabela a seguir serão descritos os principais fitoterápicos que apresentam função benéfica no tratamento dessas desordens. Tabela 8. Fitoterápicos utilizados em casos de obesidade e diabetes Nome popular/botânico Efeitos Posologia Açafrão /Curcuma longa O Açafrão (Curcuma longa) possui várias atividades farmacológicas documentadas, sendo a hipoglicemiante um delas. Em coelhos diabéticos, a incorporação de 0,5% de curcumina em um período de 8 semanas produziu redução não apenas da glicemia, mas também do colesterol, triglicerídeos e fosfolipídios do sangue (BABU et al., 1995). Em um modelo similar de diabetes induzida em ratos, a administração oral e tópica da curcumina demonstrou melhorar de forma significativa lesões renais associadas a diabetes e a cicatrização de feridas na pele (BABU e SRINIVASAN, 1998; SIDHU et al., 1999). A curcumina modula alvos moleculares como o NF-kB e consequentemente a indução dos genes induzidos por este fator de transcrição como mediadores inflamatórios. Decocção: - 1,5 g (3 col de café) em 150 ml de água (1 xícara de chá). - Tomar 1 xícara de chá de 1 a 2 x ao dia RDC no 10/ 2010 (ANVISA) 2) Extrato seco (3:1): - Tomar 1 cápsula de 375 mg, 2x ao dia 3) Tintura 20%: - Tomar 40 gotas 2x ao dia Gengibre – Zingiber officinale Al-Amin et al (2006) comprovou a ação anti- diabética e hipolipidêmica em ratos e os resultados mostraram um impacto positivo na reversão da proteinúria diabética. Akhani et al (2004) mostraram uma potencial atividade anti-diabética do suco de gengibre (gengibre fresco) em ratos diabéticos tipo I, produzindo o aumento dos níveis de insulina e o decréscimo dos níveis de glicose rápida plasmática. Os efeitos estão ligados aos receptores do tipo 5-HT (envolvido no controle da glicemia). Saraswat et al (2010) obtiveram resultados que comprovam que o gengibre possui efeito efetivo contra o desenvolvimento da catarata em ratos diabéticos por meio de seu potencial antiglicante. O 6-gingerol bloqueia a translocação da subunidade do NF-kB do citoplasma para o núcleo e consequentemente a indução dos genes induzidos por este fator de transcrição como mediadores inflamatórios. Decocção: - 0,5 - 1 g (1 a 2 col de café) em 150 ml de água - Tomar 1 xícara de chá de 2 a 4x ao dia RDC no 10/2010 (ANVISA) 2) Extrato seco (3:1): - Tomar 1 cápsula de 125 a 250 mg, 2 a 4x ao dia. (Tabela de equivalência) 3) Tintura 20%: - Tomar 15 a 25 gotas 2 a 4x ao dia, em água. (Tabela de equivalência) 88 unidAdE vii │fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS Chá verde/ Cammelia sinensis Serisier et al. (2008) comprovou em seus estudos que o consumo de chá verde pode melhorar a sensibilidade à insulina e o perfil lipídico de animais e alterar a expressão de genes envolvidos a homeostase de glicose e lipídios. Tsuneki et al. (2004) apresentou provas da eficiência do chá verde em relação a sua atividade anti-diabética. As catequinas diminuem a atividade da proteína IKK, envolvida na fosforilação do IKB-α induzida pela ativação mediada pelo TNF- α. Como consequência, temos novamente a inibição do fator de transcrição NF-kB. As catequinas também reduzem a expressão gênica da proteína JNK e do fator de transcrição AP-1, ativados pelo TNF- α . 1) Infusão: - 1,5 g (3 col de café) em 150 ml de água. - Tomar 1 xícara de chá de 2 a 3x ao dia. (Adaptada) 2) Extrato seco (3:1): - Tomar 1 cápsula de 375 mg, 2 a 3x ao dia. (Tabela de equivalência) 3) Tintura 20%: - Tomar 40 gotas 2 a 3x ao dia, em água. (Tabela de equivalência) Pata de vaca/ Bauhinia forficata Sem duvida, a atividade da pata de vaca como hipoglicemiante tem sido documentada em alguns estudos, tanto em animais como em pacientes com diabetes tipo II (Alonso, 2007). Outras propriedades: diurética e antiinflamatória e, por esta razão, pode ser recomendada como auxiliar no controle da hipertensão e em casos inflamatórios leves. A redução na glicemia foi observada tanto em indivíduos normoglicêmicos como hiperglicêmicos em estudos com camundongos. O mesmo estudo atribuiu essa atividade aos flavonoides presentes nessa espécie (Menezes, FS et al., 2007). Principais flavonoides são rutina e quercetina. 1) Infusão: - 3 g (1 col de sopa) em 150 ml (1 xícara de chá). - Utilizar 1 xícara de chá 3x ao dia. (Adaptada) 2) Extrato seco (3:1): - Tomar 1 cápsula de 750 mg, 3x ao dia. (Tabela de equivalência) 3) Tintura 20%: - Tomar 75 gotas 3x ao dia, em água (Tabela de equivalência) A dose pode ser menor se o paciente fizer utilização de hipoglicemiantes orais. RECOMENDAÇÕES: - Sempre solicitar que o paciente faça a medição da glicemia de jejum para o controle das dosagens do fitoterápico; - Não administrar fitoterápicos hipoglicemiantes em horários próximos a Administração de hipoglicemiantes orais ou insulina; - Não interromper a dieta especifica para diabetes. 89 fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS│ unidAdE vii Cajueiro /Anacardium occidentale A decocção da casca do caju demonstrou efeitos hipoglicemiantes em ratas e cachorros. Em humanos, o extrato desta planta administrado por via oral exibiu ação hipoglicemiante nos 15 a 20 minutos apos a ingestão, observando efeito máximo, após 60 a 90 minutos (HANDA S. et al., 1989, ZAKARIA M. e MOHD M., 1994). Outro estudo evidenciou o efeito hipoglicemiante do extrato aquoso e metanólico da casca de caju em ratas diabéticas. Atividade atribuída aos compostos terpenoides ou cumarinicos; Se especula que estes compostos estimulem as células beta do pâncreas (OJEWOLE J, 2003). Tintura: Tomar 100 gotas 3 a 4x ao dia, em meio copo de água (adaptada). Extrato seco (3:1): Muito difícil de encontrar no mercado! Pó: tomar 2 cápsulas de500 mg 4 x ao dia (adaptada). Não utilizar junto a Anticoagulantes, corticoides e anti-inflamatórios. Carqueja – Baccharis trimera Após 7 dias de administração de Carqueja em camundongos observou-se significante redução na glicemia e perda de peso, porém, não ha correlação entre essas duas atividades observadas nessa planta (OLIVEIRA, A.C.P., et al., 2005). Administrados a pessoas normoglicêmicas, provoca um decréscimo nos níveis de glicose no sangue (XAVIER et al., 1967; ALONSO PAZ E. et al., 1992). Tintura: Tomar 60 gotas, 2 a 3x ao dia, em meio copo de água. Extrato seco (3:1): Tomar 1 cápsula de 600 mg, 2 a 3x ao dia. Infusão: 2,5 g (2,5 col. de chá) em 150 ml de água.Não utilizar em grávidas, pois pode promover contrações uterinas. Evitar o uso concomitante com medicamentos para hipertensão e diabetes. Estevia – Stevia rebaudiana Poder adoçante, aproximadamente 250 vezes maior que a sacarose (ALONSO, 1998; GEUNS, 2003). Em um grupo de ratas submetidas a um regime hiperhidrocarbonado, a adição de 0,5% de esteviosídeo (principio ativo da estevia) provocou um decréscimo na glicemia e nos níveis de glicogênio hepático (SUZUKI et al., 1977). Em humanos demonstraram que as curvas de tolerância a sobrecarga de glicose pós-prandial resultaram ser melhores nos pacientes diabéticos obesos que tinham sido tratados previamente com 130-140mg de extrato de estévia (CURI et al., 1986). 1) Infusão: - 0,5 g (1 col de café) em 150 ml (1 xícara de chá). - Utilizar 1 xícara de chá ao dia. 2) Extrato seco (3:1): - Tomar 1 cápsula de 150 mg ao dia. (CURI et al., 1980) 3) Tintura 20%: - Tomar 15 gotas ao dia, em água. (Tabela de equivalência) A dose pode ser menor se o paciente fizer utilização de hipoglicemiantes orais. Alho – Allium sativum Em provas de sobrecarga de glicose em roedores, o extrato de alho envelhecido (AGE) demonstrou diminuir os níveis iniciais de glicemia elevada (NAGAI K. et al., 1975). A partir destes ensaios preliminares, investigadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos puderam demonstrar em animais que a administração de AGE determinava aumento nos níveis de insulina no sangue, comparadas com o grupo controle (CHANG e JOHNSON, 1980). 90 unidAdE vii │fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS Chá verde – Cammelia sinensis Borchardt e Huber (1975) mostraram evidências de que as catequinas do chá verde inibem a enzima que degrada a norepinefrina, prolongando sua ação no SNS. Além disso, a cafeína, também presente no chá verde, influencia a atividade do SNS inibindo a fosfodiesterase, enzima que rapidamente degrada o cAMP intracelular, e que e sinal para degradação de norepinefrina. O aumento da oxidação lipídica tem sido relacionado também a capacidade de “upregulation” de genes que envolvem a beta-oxidação hepática (estudo feito com ratos) Decréscimo da expressão da síntese de ácidos graxos pelo fígado. Estes resultados apareceram 24 horas depois da ingestão das catequinas de chá verde (MURASE et al., 2002). Autores mostram que os resultados positivos da suplementação com catequinas de chá verde em relação a perda de peso e maior sobre condição de elevadas concentrações de norepinefrina, assim como durante o exercício (RAINS et al., 2011). Kao et al (2004) mostrou que ratos tratados com epigalocatequinas de chá verde por injeção intraperitoneal tiveram decréscimo na ingestão voluntaria de alimentos. Belza et al (2007) conduziu um estudo de curto tempo com homens estróficos e demonstrou que os pacientes que consumiram extrato de chá verde consumiram 8% menos energia, 4 horas apos a suplementação. Hibiscus (Hibiscus sabdariffa) O Hibiscus possui atividade diurética e favorece a digestão lenta e difícil. Alem disso, devido a presença de ácidos orgânicos possui ação levemente laxante. Kim et al., 2007 investigou mecanismos que o extrato de hibiscus possuía na diferenciação dos adipócitos, afetando de certa forma a adipogênese. • Os resultados deste estudo, feito em cultura de células estimulada por uma mistura de hormônios, mostram que o hibiscus inibiu significativamente a acumulação de partículas de gordura. Chá – INFUSAO: Posologia indicada: Utilizar 3g (1 colher de sopa) da planta seca em 150 ml de água (1 xic de chá). Utilizar 3 vezes ao dia. Contraindicação: Dificilmente provoca efeitos colaterais. Tintura - Manipulação: Posologia indicada: Tomar 75 gotas, 3x ao dia, em meio copo de água. Resultados com posologias menores são verificados clinicamente. 91 CAPítulo 2 distúrbios tireoidianos tireoide Mais de 200 milhões de pessoas em todo mundo apresentam algum distúrbio da tireóide. Cerca de 50% das mulheres com mais de 50 anos, de acordo com recentes pesquisas científicas, apresentam nódulos tireoidianos e aproximadamente 10% das mulheres em idade adulta apresenta algum distúrbio no metabolismo tireoidiano. A alimentação é um fator determinante para o surgimento e agravamento de distúrbios da tireoide. De acordo com as últimas descobertas científicas, os principais componentes da dieta que influenciam o funcionamento tireoidiano, quando na sua deficiência ou em excesso, são: » iodo; » selênio; » zinco; » glúten; » soja; » tiocianatos; » flavonoides. A tireoide é responsável pela produção de quatro hormônios: » Tiroxina (T4). » Tri-iodotironina (T3). » T3 reverso. » Calcitonina. Produzidos nos folículos tireoidianos, os hormônios T3 e T4, estimulam praticamente todos os tecidos corporais, provocando diversas respostas nos órgãos e tecidos do organismo (Tabela 9). O T3 reverso é fisiologicamente inativo, sendo produzido em pequenas quantidades pela glândula e em alguns tecidos a partir da conversão do T4. Já a calcitonina é produzida pelas células tireoidianas parafoliculares. Este é um hormônio que regula as concentrações sanguíneas de cálcio, estimulando sua deposição nos ossos. O paratormônio tem ação oposta à calcitonina, pois estimula o aumento da calcemia. 92 unidAdE vii │fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS Tabela 9. Efeitos dos hormônios tireoidianos Efeito Mecanismo de ação Transcrição de grande número de genes. número de enzimas e proteínas transportadoras, acelerando reações químicas. Atividade metabólica celular número e atividade das mitocôndrias. transporte de íons pelas membranas celulares. atividade da sódio/potássio ATPase. Crescimento Crescimento e amadurecimento dos ossos e cérebro. Induzem a síntese de GH. Metabolismo de carboidratos e gorduras absorção de carboidratos. Estimula a gliconeogênese. Estimula a secreção de insulina. mobilização de ácidos graxos. Diminui a colesterolemia, por aumentar a captação hepática de LDL e a excreção biliar de colesterol. Gasto energético produção de calor e gasto energético, pelo aumento do número de atividade das proteínas desacopladoras na mitocôndria. Sistema cardiorrespiratório frequência cardíaca e respiratória. sensibilidade dos receptores adrenérgicos. Sistema nervoso Efeitos excitatórios Fonte: SILVA e MuRA, 2010. O TSH (thyroid-stimulating hormone) é o hormônio estimulador da tireoide, que, por sua vez, é estimulado pelo hormônio liberador de tireotropina (THR, thyrotropin-releasing hormone). Graças ao mecanismo feedback negativo, a síntese e liberação de hormônios tireoidianos é controlada. Assim quando os níveis de T4 e T3 estão baixos há um aumento de TSH e vice-versa. distúrbios da tireoide Hipotireoidismo Caracterizada pela baixa produção de hormônios tireoidianos, o hipotireoidismo tem como principais sintomas: pele seca, letargia, fala lenta, edema palpebral, sensação de frio, pele fria, língua grossa, edemafacial, perda de memória, constipação e ganho de peso. » Causas do hipotireoidismo: › autoimune; › tireoidectomia; 93 fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS│ unidAdE vii › radioterapia de cabeça e pescoço ou radioiodoterapia; › malformação; › carência ou excesso de iodo; › disfunção hipofi sária com baixa produção de TSH; › idade avançada; › infecção bacteriana; › outros fatores alimentares (selênio, zinco, glúten, soja, tiocianatos, fl avonoides). » Doença autoimune da tireoide: Síntese de anticorpos anti-TPO, presente em 80 a 100% dos casos de tireoidite de Hashimoto e antirreceptor de TSH (TRAb), que pode estimular ou inibir esse receptor, causando hiper ou hipotireoidismo. Existe a hipótese de que os surgimentos desses anticorpos estejam relacionados com reações cruzadas com alimentos. Glúten x Doença autoimune da tireóide A doença autoimune da tireoide está associada a uma variedade de doenças desencadeadas por mecanismos autoimunes ou ligadas a antígenos do sistema HLA (Antígeno Leucocitário Humano). Dentre essas afecções, destacam-se o diabetes melito tipo I e Doença Celíaca. Para aprofundar seus conhecimentos, leia artigo disponível no link a seguir: <http://www.scielo.br/pdf/rpp/v28n4/a18v28n4.pdf> Hipertireoidismo Síndrome resultante do excesso de T4 e/ou T3. Sua sintomatologia é oposta ao do hipotireoidismo: » perda de peso; » tremor; » nervosismo; » diarreia; » taquicardia; » insônia. 94 UNIDADE VII │FITOTERAPIA EM DESORDENS ENDÓCRINAS E METABÓLICAS Causas do hipertireoidismo » Autoimune. » Tumor hipofisário. » Nódulos tireoidianos. » Uso de medicamentos contendo hormônio tireoidiano e seus derivados. » Uso de medicamentos ricos em iodo. » Infecção bacteriana. fitoterapia fucus (fucus vesiculosus l.) O fucus pertence à família Fucaceae e seus principais constituintes são carboidratos, iodo (0,07 a 0,76% do peso seco), vitaminas (principalmente ácido ascórbico) e minerais. As algas marinhas marrons se referem às espécies de fucus em geral. O talo do fucus é utilizado como fitoterápico por suas propriedades anti-hipotireoidismo, antiobesidade e antirreumática. Seu uso tradicional está voltado para o tratamento de bócio linfoadenoide, mixedema, obesidade, artrite e reumatismo. Doses citadas na literatura de referência (BRADLEY, 1992; BRITISH HERBAL PHARMACOPEIA, 1983): » Talos secos de 5 a 10g na forma de infuso, 3 vezes ao dia. » Extrato líquido de 4 a 8ml (1:1 em álcool a 25%), 3 vezes ao dia. » Contraindicações e advertências: › Pode haver a manifestação de um quadro de intoxicação pelo iodo presente, devido a uma hiperatividade da tireoide, caracterizada por um quadro de ansiedade, insônia, taquicardia e palpitações. › Não se deve prescrever para pessoas que estejam fazendo tratamento com hormônios toreoidianos. › Evitar utilizar durante a gestação e lactação. 95 fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS│ unidAdE vii Outras plantas medicinais que já foram citadas como moduladoras da função tireoidiana em estudos científi cos, porém as evidências clínicas ainda são insufi cientes para sua aplicação terapêutica: » Rhodiola rósea » Commiphora mukul » Annona squamosa » Piper nigrum » Butea monosperma Mais estudos devem ser conduzidos, em especial aqueles randomizados, controlados e cegos, para desvendar os seus mecanismos de ação e efeitos. Amplie seus conhecimentos lendo os artigos que relatam os efeitos dessas plantas. Rhodiola rósea Zubeldia JM, Nabi HA, Jiménez del Río M, Genovese J. Exploring new applications for Rhodiola rosea: can we improve the quality of life of patients with short-term hypothyroidism induced by hormone withdrawal? J Med Food. 2010 Dec;13(6):1287- 92. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=20946017> Commiphora mukul Panda S, Kar A. Guggulu (Commiphora mukul) potentially ameliorates hypothyroidism in female mice. Phytother Res. 2005 Jan;19(1):78-80. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=15798994> Annona squamosa Panda S, Kar A. Annona squamosa seed extract in the regulation of hyperthyroidism and lipid-peroxidation in mice: possible involvement of quercetin. Phytomedicine. 2007 Dec;14(12):799-805. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=17291737> Piper nigrum Panda S, Kar A. Piperine lowers the serum concentrations of thyroid hormones, glucose and hepatic 5’D activity in adult male mice. Horm Metab Res. 2003 Sep;35(9):523-6. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=14517767> 96 unidAdE vii │fitotErAPiA EM dESordEnS EndÓCrinAS E MEtABÓliCAS Butea monosperma Panda S, Jafri M, Kar A, Meheta BK. Thyroid inhibitory, antiperoxidative and hypoglycemic effects of stigmasterol isolated from Butea monosperma. Fitoterapia, 2009 Mar;80(2):123-6. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=19105977> 97 Para (não) finalizar Ao fi nal da década de 1970, a OMS criou o Programa de Medicina Tradicional, que recomenda aos Estados-membros o desenvolvimento de políticas públicas para facilitar a integração da medicina tradicional e da medicina complementar alternativa nos sistemas nacionais e atenção à saúde, assim como promover o uso racional dessa integração. A Portaria Ministerial MS/GM no 971, de 3 de maio de 2006, aprovando a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde (SUS), que prevê a incorporação de terapias como a homeopatia, o termalismo, a acupuntura e a fi toterapia nesse sistema. Além disso, em 22 de junho de 2006, o Decreto no 5.813, aprova a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF) e dá outras providências. Essa Política estabelece diretrizes e linhas prioritárias para o desenvolvimento de ações pelos diversos parceiros em torno de objetivos comuns voltados à garantia do acesso seguro e do uso racional de plantas medicinais e fi toterápicos em nosso país. Também traça diretrizes para o desenvolvimento de tecnologias e inovações, assim como o fortalecimento das cadeias e dos arranjos produtivos. A política orienta também para o uso sustentável da biodiversidade brasileira e o desenvolvimento do complexo produtivo da saúde (MS, 2007). Tendo em vista esses fatos, considerando a rica biodiversidade brasileira e sua enorme potencialidade no que diz respeito às plantas medicinais, o alto custo dos medicamentos alopáticos e alta tendência mundial para a substituição de medicamentos sintéticos por fi toterápicos, o curso de pós-graduação em fi toterapia torna-se um requisito fundamental para formação de profi ssionais especializados e capacitados para atender a essa nova necessidade do mercado. Diariamente, novas pesquisas se iniciam e novas descobertas surgem a respeito da ação de diversas plantas medicinais. A leitura de artigos científi cos, o desenvolvimento de pesquisas e a observação clínica fazem parte do dia a dia desse profi ssional. 98 referências AGUIAR, A.; EUBIG, P.A.; SCHANTZ, S.L. Attention Deficit/Hyperactivity Disorder: A Focused Overview for Children’s Environmental Health Researchers. Environ Health Perspect; 118(12):1646-53, 2010. AL MOFLEH, I.A.; ALHAIDER, A.A.; MOSSA, J.S.; et al. 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