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1 Capítulo 5.3 QUIMIORREFLEXO Benedito H. Machado, Daniela Accorsi-Mendonça e Daniel B. Zoccal Departamento de Fisiologia, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 14049-900, Ribeirão Preto, SP, Brasil e-mail: bhmachad@fmrp.usp.br 2 1. INTRODUÇÃO Viver é correr riscos e vencer desafios e tanto melhor para a sobrevivência quanto menor forem os riscos. Nesse cenário, um dos maiores riscos para a vida é a falta de oxigênio, situação caracterizada como hipóxia. A melhor alternativa encontrada pelos mamíferos durante sua evolução para se opor a esse problema foi o desenvolvimento do sistema neural que constitui o quimiorreflexo. Esse sofisticado sistema sensorial ao ser ativado promove, por meio de respostas respiratórias, autonômicas e comportamentais, os ajustes neurovegetativos indispensáveis à sobrevivência em condições de hipóxia. Portanto, podemos denominar o quimiorreflexo como sendo o “reflexo da sobrevivência”, o que naturalmente implica na importância de se estudar as suas características e a complexidade de todos os seus constituintes. Nesse capítulo abordaremos os mecanismos periféricos e centrais envolvidos em todas as etapas desse importante reflexo, desde a quimiorrecepção do oxigênio no sangue arterial, até a geração, modulação e integração das respostas que acontecem ao nível do sistema nervoso central (SNC). Nas circunstâncias de baixa na pressão parcial de oxigênio no sangue arterial (PaO2), a ativação desse importante mecanismo sensorial permite que os mamíferos apresentem respostas de aumento da ventilação acompanhada da ativação do sistema nervoso autonômico simpático, as quais, conjuntamente, são determinantes para garantir a perfusão tecidual de níveis adequados de oxigênio. Dessa forma, os sensores periféricos ao detectarem eventual redução na PaO2 enviarão informações ao SNC para que este elabore estratégias respiratórias, cardiovasculares e comportamentais que permitirão a preservação da vida diante de um sinal de morte iminente. Ainda que o quimiorreflexo não seja ativado em condições de pressão parcial de oxigênio normal, ele pode, na situação emergencial de hipoxemia, se tornar o mais importante reflexo fisiológico, uma vez que cabe a ele gerar as respostas vitais à preservação da vida. Para 3 7" NA" nRT$ RVLM$ cVRG$rVRG$ BötC$ LRt" AP" OS" A5" Aferências$dos$ Quimiorreceptores$ Periféricos$ pré>BötC$ CVLM$ Ponte" Outras$regiões$$ Suprabulbares$ NPB" KF" Neurônios$motores$e$ pré>ganglionares$da$ medula$espinhal$ $ $ $ $ $ $ $ $ $ NTS" V" V" V " Gânglio$$ petroso$ TS" Encéfalo$ Cerebelo$ Medula$Espinhal$ Bulbo" que essas complexas respostas neurais sejam elaboradas, diferentes mecanismos neuroquímicos são recrutados nas células quimiossensíveis dos corpúsculos carotídeos e nas diferentes sinapses ao nível do bulbo e na medula espinhal, como ilustrado na Figura 1. No presente capítulo exploramos esses mecanismos neuroquímicos, os quais são bastante estudados, mas ainda relativamente pouco compreendidos, tanto em condições fisiológicas como em situações fisiopatológicas. Figura 1: Vias neurais ativadas após a estimulação dos quimiorreceptores periféricos. Diminuição na pressão parcial de oxigênio do sangue arterial (PaO2) ativa os quimiorreceptores periféricos localizados no corpúsculo carotídeo, os quais promovem a despolarização de fibras neurais aferentes. Essas fibras aferentes, cujos corpos celulares estão localizados no gânglio petroso, fazem contato sináptico com neurônios localizados no NTS na superfície dorsal do tronco cerebral, via TS. Os neurônios do NTS enviam projeções para diferentes áreas cerebrais que também estão envolvidas com o processamento do quimiorreflexo, como por exemplo, áreas suprabulbares (PVN), núcleos pontinos (PBN, área A5, KF), além de subregiões dentro do próprio bulbo localizadas na superfície ventral (nRT, RVLM, rVRG, cVRG, RVLM, CVLM, pre- BötC, BötC). Os circuitos neuronais presentes nessas regiões da superfície ventral do bulbo são responsáveis pela geração do ritmo respiratório e da atividade simpática e por meio de projeções 4 neurais diretas para a medula espinhal modulam a atividade dos neurônios pré-ganglionares simpáticos e motores relacionados com a atividade respiratória. NTS: núcleo do trato solitário; TS: trato solitário; PVN: núcleo paraventricular do hipotálamo; PBN: núcleo parabraquial; KF: Kölliker-Fuse; nRT: núcleo retrotrapezóide; rVRG: grupo respiratório ventral porção rostral; cVRG: grupo respiratório ventral porção caudal; RVLM: região rostral ventrolateral do bulbo; CVLM: região caudal ventrolateral do bulbo; pre-BötC: núcleo pre-Bötzinger; BötC: núcleo Bötzinger. 2. CÉLULAS GLOMUS: SENSORES DE O2 NO SANGUE ARTERIAL Ativação do quimiorreflexo periférico: a participação determinante das células glomus do corpúsculo carotídeo na detecção dos níveis de oxigênio do sangue arterial. A detecção de alterações da PaO2 ocorre por meio da ativação dos quimiorreceptores periféricos, cuja localização pode variar de acordo com a espécie estudada, podendo ser encontrados, principalmente, nos seguintes pontos: 1) nas bifurcações das artérias carótida comuns (quimiorreceptores carotídeos); 2) no arco da artéria aorta (quimiorreceptores torácicos ou aórticos); 3) próximos às artérias pulmonar ou subclávia (quimiorreceptores torácicos) ou 4) próximos a artéria celíaca (quimiorreceptores abdominais) (de Burgh Daly, 1997). Os quimiorreceptores centrais, células especializadas localizadas no tronco cerebral, detectam principalmente a pressão parcial de dióxido de carbono no sangue arterial (PaCO2), desempenhando pouca função durante situações de hipóxia. Estudos demonstram que os quimiorreceptores carotídeos são os responsáveis pelas respostas reflexas à diminuição da PaO2 em humanos e ratos, sendo predominante em relação a ativação dos outros quimiorreceptores (Sapru & Krieger, 1977; Easton e Howe, 5 1983; Gonzales e cols., 1992). Consequentemente nesse capítulo abordaremos a função dos quimiorreceptores carotídeos nas respostas adaptativas frente a situações de hipóxia. O corpúsculo carotídeo foi descrito inicialmente por Albrecht Von Haller (1762) e estudado em detalhes anatômicos e histológicos por de Castro no início do século passado (De Castro 1928; De Castro, 2009). A primeira evidência funcional da participação do corpúsculo durante situações de hipóxia ocorreu em 1930, quando Heymans e Bouckaert demonstraram que redução na PaO2 na bifurcação carotídea promovia respostas ventilatórias mediadas pelos nervos aferentes dos quimiorreceptores arteriais (Heymans & Bouckaert, 1930). Esse estudo funcional, extremamente elegante do ponto de vista de técnicas cirúrgicas utilizadas e novos conceitos desenvolvidos, foi determinante para estabelecer a importância dos quimiorreceptores arteriais no controle neural da respiração e renderam o prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina ao fisiologista Corneille Heymans no ano de 1938. Além da resposta hiperventilatória atualmente sabe-se que a estimulação dos quimiorreceptores carotídeos promove também ajustes cardiovasculares mediados pela ativação dos sistemas nervosos simpático e parassímpático, promovendo respostas de aumento na pressão arterial e redução na frequência cardíaca (Gonzales e cols., 1992; Machado, 2001). Várias abordagens experimentais foram desenvolvidas por Heymans (1955) para estimular o quimiorreflexo, entre elas a administração intravenosa de baixas doses de cianeto de potássio ou de sódio (KCN e NaCN, respectivamente) – metodologia que continua sendo utilizada até os dias de hoje e que promove respostas ventilatórias (taquipnéia) e autonômicas (bradicardia e aumento de pressão arterial) semelhantesa ativação do quimiorreflexo. Diferentes autores demonstraram que as respostas cardio- respiratórias promovidas pelas baixas doses de cianeto dependem da integridade do corpúsculo carotídeo, pois a inibição da atividade das células presentes no corpúsculo por 6 congelamento local (Verna e cols., 1975), desnervação dos nervos do corpúsculo carotídeo (Heymans e cols. 1931) ou ainda a ligadura bilateral das artérias que irrigam o corpúsculo carotídeo (Barros e cols., 2002) eliminaram as resposta reflexas a injeção intravenosa de NaCN ou KCN. A utilização do KCN para ativar o quimiorreflexo em ratos não anestesiados foi feita de forma pioneira por Franchini & Krieger (1992, 1993) e esses estudos também demonstraram a influência dos diferentes anestésicos na atenuação das respostas cardiovasculares e respiratórias à ativação do quimiorreflexo. Os estudos de Franchini & Krieger (1992, 1993) indicaram que os experimentos realizados com vistas ao entendimento dos complexos mecanismos envolvidos nas respostas autonômicas e respiratórias do quimiorreflexo deveriam ser realizados, preferencialmente, em animais acordados ou em preparações experimentais que não envolvessem o uso de anestésicos. Nesse contexto, fundamentados nos trabalhos de Franchini & Krieger (1992, 1993), vários laboratórios passaram a realizar estudos sobre a neurotransmissão do quimiorreflexo em ratos não-anestesiados, permitindo a obtenção de importantes informações sobre esse reflexo em condições fisiológicas. O corpúsculo carotídeo é uma estrutura pequena, de aproximadamente 5 mm de diâmetro e com formato esférico irregular, sendo formado por células, pequenos vasos sanguíneos, fibras nervosas e tecido conectivo, sendo revestido externamente por uma cápsula fibrosa (de Burgh Daly, 1997). A grande maioria (95%) dos axônios aferentes presentes no corpúsculo carotídeo constituem o nervo do seio carotídeo ou nervo de “Hering”, o qual é parte do nervo glossofaríngeo, sendo que os seus respectivos corpos celulares encontram-se no gânglio petroso (Fidone e cols., 1977; Stensaas & Fidone, 1977). Os demais são axônios eferentes pós-ganglionares de fibras simpáticas originadas no gânglio cervical superior (McDonald, 1983). Esses axônios aferentes formam um 7 plexo de fibras mielinizadas (tipo C) e não mielinizadas (tipo A), sendo a presença de fibras não mielinizadas 2 a 5 vezes mais frequentes do que as mielinizadas (De Castro, 2009). Estudos de Fidone e Sato (1969), utilizando a técnica de registro de nervos em animais anestesiados, demonstraram que após a estimulação do quimiorreflexo com KCN, 2/3 das fibras não-mielinizadas e 1/3 das fibras mielinizadas são ativadas. Além dos axônios do nervo do seio carotídeo, também foram descritos no corpúsculo carotídeo as células do tipo I e as células do tipo II (Gomez, 1908; Biscoe, 1971). As células do tipo I são as mais frequentes e também recebem as seguintes denominações: células glomus, células específicas, células epitelióides, células principais ou células quimiorreceptoras. Essas células são derivadas do neuroectoderma, com formas ovais ou poligonais, possuem somente um núcleo e em geral formam aglomerados de 2 a 3 células em íntimo contato com capilares adjacentes (de Burgh Daly, 1997). As células do tipo II do corpúsculo carotídeo, são semelhantes às células gliais presentes no SNC e recebem as seguintes denominações: células de suporte, células capsulares ou células de sustentação. Dentro do corpúsculo carotídeo, essas células são encontradas ao redor das células do tipo I, sendo que a sua principal função tem sido descrita como sendo de sustentação das células do tipo I (de Burgh Daly, 1997). Recentemente, foi evidenciado que durante situações de hipóxia prolongada as células do tipo II podem originar novas células dentro do corpúsculo carotídeo, as quais contribuiriam para a super-estimulação desse sistema sensorial durante situações de diminuição mantida da PaO2 (Pardal e cols., 2007). As células do corpúsculo carotídeo são capazes de detectar a diminuição na PaO2 circulante em pequenos vasos, os quais recebem o sangue arterial das artérias carótidas interna e externa, embora em algumas espécies o suprimento de sangue também possa ser mantido pelas artérias occipital ou faríngea ascendente (de Burgh Daly, 1997). Esses 8 vasos formam uma complexa rede de capilares, com poros nas paredes das células endoteliais (capilares do tipo fenestrado ou visceral) e possuem inervação simpática. Após a passagem pelas células do corpúsculo carotídeo o sangue venoso é drenado por um plexo de veias, vênulas e pequenas veias para as veias jugulares interna e externa (Pallot, 1987; de Burgh Daly, 1997). O complexo vascular ocupa aproximadamente 25% do volume total do corpúsculo carotídeo, promovendo uma vascularização de 5 a 6 vezes maior do que a do cérebro, o que corresponde a um fluxo de aproximadamente 2 litros de sangue por minuto para cada 100g de tecido. Esse elevado fluxo sanguíneo para o corpúsculo carotídeo combinado com o fato de que as células quimiorreceptoras estão intimamente associadas aos capilares sanguíneos nos permite entender como esse sistema sensorial é capaz de detectar rapidamente discretas reduções na PaO2 do sangue arterial (de Burgh Daly e cols., 1954; Pallot, 1987, Marshall, 1994). Situações de hipóxia promovem no corpúsculo carotídeo efeitos a curto prazo, evidenciados principalmente no metabolismo celular, e a longo prazo efeitos que envolvem mudanças na expressão gênica. Os mecanismos pelo quais as células do tipo I detectam as reduções na PaO2 não estão completamente esclarecidos, pois ainda não foi identificado o elemento molecular que poderia ser o “sensor” de oxigênio nas células do corpúsculo carotídeo e a hipótese apontando para a existência de vários “sensores” também deve ser considerada, como ilustrado na figura 2. Resultados de diferentes estudos existentes na literatura constituem os fundamentos da “hipótese metabólica” para identificar o sensor de oxigênio, onde o estado metabólico da célula poderia estar relacionado com detecção dos níveis de O2 (Donnelly & Carrol, 2005). Nesse sentido, a enzima citocromo oxidase nas mitocôndrias das células do tipo I tem sido apontada como a molécula envolvida na detecção da redução de PaO2, embora ainda não se saiba como a mitocôndria iniciaria a transdução de uma alteração química 9 Corpúsculo*caro,deo* Célula* *0po*I* Ca2+% Capilar* Mitocôndria% ?* Proteínas%com% grupamento%HEME% 9%(AMPK?)% CO% 4* +* +* 4* Canais%K+% sensíveis%a%O2% PaO2* +* Transmissor* Receptor* Terminação* neural* +* Potencial*de*ação* (↓PaO2) para uma resposta neural (Cross e cols., 1990). Há evidências experimentais de que após episódios de hipóxia ocorre a produção de espécies reativas de oxigênio bem como a liberação de cálcio dos estoques intracelulares nas células do tipo I (Peng e cols., 2003; Guoxiang e cols., 2008; Ward, 2008; Poyton e cols., 2009). Outra evidência favorável à participação da citocromo oxidase nas respostas à ativação do quimiorreflexo está relacionada ao uso de inibidores dessa enzima (KCN ou NaCN) para ativar o quimiorreflexo (Donnelly & Carrol, 2005). Figura 2: Possíveis mecanismos envolvidos na detecção da diminuição da PaO2 pelo corpúsculo carotídeo. A transdução de um sinal químico (diminuição de PaO2) para um sinal eletrofisiológico (ativação das terminações neurais aferentes que envolvem as células do tipo I) envolve a liberação de neurotransmissor(es) por um mecanismo dependente de cálcio (exocitose). O aumento na concentração de Ca2+ intracelular após a hipóxia pode ser estimulada pelas mitocôndrias, por meio da enzima citocromo oxidase (“hipótese metabólica”). Em situação de hipóxia, pode ocorrer também diminuição da produção de COpela enzima heme-oxidase, fechamento dos canais de K+ (canais de K+ do tipo BK, TASK, HERG), despolarização das 10 células do tipo I e aumento na concentração de cálcio intracelular. Além disso, a proteína quinase ativada por AMP (AMPK) também promove o fechamento de canais BK e canais de K+ sensíveis a O2 do tipo TASK com conseqüente aumento nos níveis de Ca2+ e liberação de transmissores pelas vesículas. Várias proteínas, localizadas fora da mitocôndria, contendo o grupamento heme, como a nicotinamina-adenina-dinucleotídeo-fosfato na sua forma oxidada (NADPH) e a heme-oxigenase-2 (HO-2), também têm sido sugeridas como prováveis sensores de oxigênio nas células do tipo I (Prabhakar, 1999). Em situações de normóxia a heme- oxidase produz monóxido de carbono (CO), o qual estimula os canais de potássio de alta condutância ativados por cálcio (canais BK - do inglês Big K+ ou Maxi K+ - Cui e cols., 2009) tornando a membrana celular hiperpolarizada. Em situação de hipóxia, ocorre uma diminuição da produção de CO pela enzima heme-oxidase, fechamento dos canais BK e as células do tipo I se despolarizam (Willians e cols., 2004). Devido a despolarização da membrana há a entrada de cálcio (Ca2+) no citosol, via canais de Ca2+ voltagem dependente, e consequente liberação de transmissores (Tse e cols., 2012). Estudos utilizando várias técnicas experimentais demonstraram que células do tipo I podem liberar diferentes neurotransmissores em resposta à hipóxia, sendo descritas vesículas contendo: acetilcolina (ACh), catecolaminas, serotonina, adenosina tri-fosfato (ATP), adenosina, neuropeptídios (SP, encefalinas, polipeptídeo intestinal vasoativo), dopamina, opióides, endotelina (ET) e histamina (Iturriga & Alcayaga, 2004; Rey e cols., 2008; Iturriaga e cols., 2009; Rio e cols., 2009; Tse e cols., 2012). Além disso, já foi evidenciada a participação do óxido nítrico (NO) e do CO nessa transmissão (Benot & López-Barneo, 1990; Iturriaga e cols., 2000; Iturriaga & Alcayaga, 2004; Prabhakar & Semenza, 2012). No entanto, o(s) transmissor (es) específico(s) liberado(s) pelas células do tipo I em resposta a redução da PaO2 ainda não estão completamente identificados. 11 Outra hipótese para explicar o mecanismo ativado pelo quimiorreflexo periférico no corpúsculo carotídeo sugere que a hipóxia inibe a abertura de canais de potássio dependente de voltagem e sensíveis a O2, e entre eles se destacariam os canais de K+ do tipo BK, do tipo hERG (do inglês “Human Ether-à-go-go Related Gene”, Nanduri e cols., 2009) e do tipo TASK (do inglês “Twik-related acid sensitive K+ channel”, Prabhakar & Jacono, 2005) e conseqüentemente as células do tipo I se despolarizariam liberando o transmissor. A proteína quinase ativada por adenosina mono-fosfato (AMPK) também poderia ser o sensor de oxigênio, pois durante episódios de hipóxia essa enzima é ativada várias vezes levando ao fechamento de canais de potássio do tipo BK e do tipo TASK (Wyatt e cols., 2007). Todos esses possíveis mecanismos, sugeridos anteriormente, envolvidos na detecção da diminuição da PaO2 no sangue arterial pelo corpúsculo carotídeo promovem a abertura de canais de cálcio voltagem dependente e consequente aumento do Ca2+ intracelular. A liberação de transmissores, dependente de Ca2+, pelas células do tipo I ativa os axônios dos neurônios do nervo do seio carotídeo, os quais vão formar as fibras aferentes do tractus solitarius (TS), cujas terminações centraisestabelecem contatos sinápticos dentro do SNC, especificamente com neurônios do nucleus tractus solitarius (NTS), localizado na superfície dorsal do bulbo (Berger, 1979; Seiders & Stuesse; 1984; Claps & Torrealba, 1988; Finley & Katz, 1992; Mifflin e cols., 1993; Donoghue e cols., 1984; Donnelly & Carrol, 2005). Alterações mantidas e discretas na PaO2, como por exemplo reduções de 100 para 80 mmHg, são suficiente para alterar, em poucos segundos, os mecanismos bioquímicos nas células do tipo I com consequente estimulação dos axônios do nervo do seio carotídeo. Entretanto, em condições de hipóxia acentuada e mantida ocorre sofrimento celular apesar dos mecanismos desencadeados pelos sistemas cardiovascular e 12 respiratório para restabelecer a condição de normoxia.. Após alguns minutos ou horas de hipóxia severa ou anóxia (ausência de oxigênio nos tecidos) ocorrem alterações na expressão gênica, com a indução na expressão dos chamados “genes hipóxicos” e a diminuição da expressão dos “genes aeróbicos”, constituindo desse modo um mecanismo de defesa celular conhecido como “sinalização hipóxica” (Bunn & Poyton, 1996; Prabhakar, 2006; Poyton e cols., 2009). Esse fenômeno desencadeado nas células sob hipóxia acentuada está relacionado a um aumento nas concentrações de cálcio intracelular e ativação da proteína quinase C (PKC) (Raymond & Millhorn, 1997). Um exemplo de ativação gênica induzido pela hipóxia é o aumento do fator transcricional denominado fator-1 induzido por hipóxia (do inglês “Hypoxic inducible factor-1”, HIF-1), cuja principal função é promover, por meio de modulações na expressão gênica, proteção celular em situações de diminuição ou falta prolongada de oxigênio (Wang e cols., 1995; Bunn & Poyton, 1996; Poyton e cols., 2009; Semenza, 2009). Durante situações de normoxia a expressão do HIF-1 está associada ao controle da expressão gênica de várias proteínas, como: (1) a eritropoitina (glicoproteína liberada pelo fígado que atua sobre as células eritroblásticas da medula óssea, estimulando a proliferação de hemácias), (2) as proteínas que controlam a concentração de ferro na medula óssea; (3) a indução da enzima tirosina hidroxilase (TH) no corpúsculo carotídeo e (4) a estimulação do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), promovendo a angiogênese (Semenza, 2009). Entretanto, durante episódios de acentuada hipóxia (abaixo de 5% de O2 no ar inspirado) ocorre uma redução na degradação da subunidade α do HIF com conseqüente aumento na produção do HIF-1, o qual se liga ao DNA no núcleo da célula, associando-se a ativadores transcricionais (Dunwoodie, 2009; Semenza, 2009). Além disso, a expressão do HIF também está relacionada com a morfogênese embrionária. Em mamíferos o desenvolvimento fetal ocorre em situações de hipóxia, uma 13 vez que na vida intra-uterina a concentração de oxigênio proporcionada pela irrigação placentária é baixa (1-5%), fenômeno denominado de “hipóxia fisiológica” (Okazaki & Maltepe, 2006). Nessas condições, o HIF está constantemente ativado, estimulando diferentes mecanismos que tornam o feto capaz de sobrevier e se desenvolver em condições de baixa PaO2, entre esses mecanismos merecem destaque a modulação da produção de células-tronco, a regulação da angiogênese, a regulação do desenvolvimento placentário e o desenvolvimento do coração e das células produtoras de cartilagem nos ossos (Dunwoodie, 2009). 3. NEUROTRANSMISSÃO E NEUROMODULAÇÃO DAS AFERÊNCIAS DOS QUIMIORRECEPTORES PERIFÉRICOS NO NÚCLEO DO TRATO SOLITÁRIO (NTS) Neurônios localizados no núcleo do trato solitário (NTS) são responsáveis pelo processamento das informações neurais aferentes geradas pelas células glomus no corpúsculo carotídeo. As aferências do nervo do seio carotídeo presentes no nervo glossofaríngeo se juntam aquelas provenientes dos nervos trigêmio, facial e vago, formando o conjunto de fibras neurais do TS, por meio do qual as informações provenientes do sistema nervoso periférico têm acesso ao SNC (Contreras e cols., 1982; Barraco e cols., 1992). As terminações aferentes do TS fazem sinapses com células localizadas no NTS, região dorsal do bulbo que detecta e integra os sinais oriundos de vários sistemas sensoriais periféricos, incluindo as informações dos quimiorreceptores periféricos (Barraco e cols., 1992). As conexões neurais entre o corpúsculocarotídeo e o NTS foram evidenciadas experimentalmente por meio de traçadores neurais (Seiders & Stuesse; 1984; Claps & 14 Torrealba, 1988; Finley & Katz, 1992) e técnicas eletrofisiológicas (Mifflin e cols., 1993; Donoghue e cols., 1984). O NTS é uma estrutura com forma anatômica de Y, localizada na porção dorsal do tronco cerebral, a qual se estende no sentido rostro-caudal (Figura 3), podendo ser classificado em subdivisões de acordo com a sua citoarquitetura (Torvik, 1956) ou de acordo com a forma, tipo, orientação e tamanho das células (Barraco e cols., 1992). O NTS contém neurônios com axônios, ramificados ou não, que se projetam para outras áreas do SNC, como por exemplo, para os núcleos parabraquial (NPB), Kölliker-Fuse (KF), área A5, núcleo retrotrapezóide (nRT) e núcleo paraventricular do hipotálamo (PVN). Além disso, existem neurônios cujas ramificações se estendem dentro do próprio NTS, sendo provavelmente interneurônios (Kawai e Senba, 1996). Também foi descrita a presença de astrócitos em toda extensão rostro-caudal do NTS, cujas ramificações se localizam próximos aos corpos celulares dos neurônios (Kawai e Senba, 1996; Pecchi e cols., 2007) e que provavelmente influenciam a transmissão sináptica (Perea e cols., 2009). Em resposta a ativação dos quimiorreceptores periféricos ocorre a ativação de neurônios localizados no NTS e estudo utilizando a expressão da proteína c-Fos mostrou a distribuição topográfica das células quimiossensíveis em resposta a estimulação dos quimiorreceptores periféricos com KCN na porção lateral do NTS intermediário e caudal (Cruz e cols., 2010). Recentemente foi demonstrado que neurônios do NTS que recebem aferências diretas do corpúsculo carotídeo, via TS (neurônios de segunda ordem do quimiorreflexo), apresentam um padrão temporal de transmissão sináptica diferente de neurônios relacionados ao barorreflexo. Após estímulos repetitivos do TS os neurônios de segunda ordem do quimiorreflexo apresentam corrente sináptica com alta variabilidade no tempo entre o estímulo e o início da resposta (latência da resposta), em contraste a 15 AP# TS## NTS$rostral$ NTS$ intermediário$ NTS$caudal$ Pedúnculo# cerebelar# superior# Colículo# superior# Colículo# inferior# Medula# #Espinhal# B$ Rostral# Caudal# IV#ventrículo# baixa variabilidade da latência observada em neurônios do barorreflexo (Accorsi- Mendonça e cols., 2011). Esses resultados mostram que o processamento das informações de neurônios do NTS que recebem aferências do corpúsculo carotídeo no NTS possui características de transmissão sináptica diferentes das aferências do barorreflexo, sugerindo uma especificidade para a transmissão desencadeada pela ativação do quimiorreflexo. Figura 3: Localização e subdivisões do NTS no tronco cerebral. Painel A: Esquema da região dorsal do tronco cerebral destacando o NTS em forma de Y; Painel B: Esquema das três grandes subdivisões do NTS [NTS rostral (ao nível do IV ventrículo), NTS intermediário (ao nível da área postrema) e NTS caudal (ao nível do calamus scriptorium)]. O completo entendimento dos mecanismos neurais envolvidos nas respostas neurovegetativas à ativação do quimiorreflexo passa necessariamente pelo entendimento dos neurotransmissores envolvidos no processamento dessas informações nas diferentes sinapses desse reflexo. Nesse sentido, diversos estudos têm tentado identificar quais seriam os neurotransmissores e seus respectivos receptores presentes nas diferentes 16 sinapses no NTS, as quais constituem as vias neurais das respostas autonômicas e respiratórias à ativação do quimiorreflexo. Em relação aos componentes autonômicos duas vias neurais distintas são estimuladas dentro do NTS após ativação dos quimiorreceptores periféricos: a via parassimpato-excitatória e o componente simpato-excitatório. A via neuronal parassimpática envolve projeções diretas do NTS para o núcleo ambíguo (NA), onde estão localizados neurônios pré-ganglionares parassimpáticos, desencadeando a resposta de bradicardia. A resposta parassimpática envolve a ativação de receptores glutamatérgicos do subtipo NMDA no NTS (Haibara e cols., 1995). A via simpato- excitatória, responsável pela resposta pressora, envolve projeções diretas das células do NTS para a região rostral ventrolateral do bulbo (RVLM), onde estão localizados neurônios geradores da atividade simpática (Ross e cols., 1985; Urbanski e Sapru, 1988; Granata,1994; Aicher e cols., 1996). Estudos realizados em animais anestesiados sugerem que o L-glutamato é o principal neurotransmissor excitatório liberado entre as fibras do TS e os neurônios de segunda ordem no NTS (Granata e cols., 1984; Talman e cols., 1984; Andresen & Yang, 1990; Bonham & Chen, 2002; Kline e cols., 2002). No entanto, esses estudos não excluem a possibilidade da existência de outros neurotransmissores ou neuromoduladores presentes nas sinapses das vias neurais do NTS pertencentes ao quimiorreflexo, especialmente em preparações experimentais que não envolvem o uso de anestésicos. Com o objetivo de identificar os neurotransmissores envolvidos no processamento sináptico das aferências do quimiorreflexo no NTS, estudos do nosso laboratório analisaram as respostas autonômicas produzidas pela ativação do quimiorreflexo com KCN em animais acordados antes e após a microinjeções de antagonistas farmacológicos no NTS. Inicialmente foi avaliada a participação dos diferentes subtipos de receptores de 17 L-glutamato no NTS sobre as respostas cardiovasculares do quimiorreflexo. O conjunto dos resultados mostrou que o antagonismo dos receptores ionotrópicos e metabotrópicos do glutamato no NTS não foi efetivo em bloquear a resposta pressora à ativação do quimiorreflexo (Haibara e cols., 1995; Haibara e cols., 1999; Machado e Bonagamba, 2005), sugerindo que a transmissão desse componente simpático no NTS não é mediada exclusivamente pelo L-glutamato. A seguir, vários estudos foram feitos com o objetivo de identificar quais seriam os transmissores, além do L-glutamato, que poderiam estar envolvido com a neurotransmissão do componente simpático do quimiorreflexo. Estudo prévio mostrou que sob condições de estimulação dos quimiorreceptores centrais, ocorre a liberação de ATP na região ventral do tronco cerebral (Thomas e cols., 1999). Outras evidências da participação do sistema purinérgico na neurotransmissão do quimiorreflexo vieram dos estudos mostrando que a microinjeção de ATP nas regiões intermediária e caudal do NTS promove respostas cardiovasculares semelhantes àquelas desencadeadas pelo quimiorreflexo (de Paula e cols., 2004; Antunes e cols., 2005). Em função dessas evidências, foi sugerido que o ATP poderia ser um dos neurotransmissores liberados no NTS após a ativação dos quimiorreceptores periféricos. Nessa direção, foram realizados estudos utilizando um modelo experimental in situ (preparação coração- tronco cerebral isolados), no qual os autores (Paton e cols., 2002) mostraram que os receptores purinérgicos presentes no NTS estão envolvidos com o processamento da resposta de bradicardia (componente parasimpato-excitatório) do quimiorreflexo. Outra evidência da participação do ATP no processamento das respostas do quimiorreflexo no NTS veio de um estudo do nosso laboratório, no qual foi observado que o bloqueio combinado dos receptores ionotrópicos de glutamato e dos receptores purinérgicos no NTS foi efetivo em atenuar significativamente a resposta pressora e o aumento da 18 atividade simpática promovida pela ativação do quimiorreflexo em animais acordados ou na preparação coração-tronco cerebral isolados (Braga e cols., 2007). A complexa interação do sistema glutamatérgico e purinérgico também foi evidenciada em outro estudo do nosso laboratório utilizando experimentosin vitro que permitem o registro da neurotransmissão (“patch-clamp”) em neurônios do NTS. Esses resultados mostraram que a estimulação de receptores purinérgicos modula de maneira diferente as liberações espontâneas e evocadas de L-glutamato em neurônios do NTS que enviam projeções para o RVLM, ou seja, em neurônios que possivelmente estão envolvidos com o componente simpato-excitatório do quimiorreflexo. Nesse estudo verificamos que o ATP aumenta a liberação espontânea de glutamato e de maneira oposta promove a diminuição da liberação de glutamato estimulada pelo TS (Accorsi-Mendonça e cols., 2009), indicando, portanto, que esses sistemas interagem entre si, ao nível do NTS, e que, eles podem contribuir, de forma sinérgica, para o processamento da resposta simpato-excitatória do quimiorreflexo. Além disso, estudos do nosso laboratório também avaliaram a neurotransmissão no NTS envolvida no componente ventilatório do quimiorreflexo. A resposta de taquipnéia induzida após a administração de KCN em animais acordados foi parcialmente reduzida após a inibição da formação de NO no NTS (Granjeiro e cols., 2009), sugerindo que em relação ao componente ventilatório o NO seria um dos mediadores envolvidos na resposta de taquipnéia após o quimiorreflexo. Dessa forma, as evidências experimentais obtidas em preparações in vivo, in vitro e in situ sobre a neurotransmissão dos componentes autonômicos e respiratório desencadeados pela ativação dos quimiorreceptores periféricos no NTS mostram que: a) o componente parassimpático (bradicardia) é mediado por receptores NMDA ativados por L-glutamato, b) que o componente simpático (resposta pressora) é mediado por uma interação entre os mecanismos glutamatérgicos e purinérgicos e c) o componente 19 ventilatório envolve a formação de NO. No entanto, novos estudos envolvendo diferentes abordagens experimentais ainda precisam ser realizados para elucidar as complexas interações entre diferentes neurotransmissores que ocorrem no NTS após a estimulação dos quimiorreceptores periféricos. 4. SUPERFÍCIE VENTRAL DO BULBO – NEURÔNIOS SIMPÁTICOS E RESPIRATÓRIOS E O ACOPLAMENTO DE SUAS ATIVIDADES A integração das respostas ventilatórias e simpáticas do quimiorreflexo ocorre principalmente ao nível dos grupamentos de neurônios respiratórios e autonômicos da região ventral do bulbo. Estudos mostram que as respostas respiratórias e simpáticas, promovidas pela estimulação dos quimiorreceptores periféricos, ocorrem de forma sincronizada, como uma tentativa de otimizar os processos de aumento da ventilação pulmonar e aumento da perfusão tecidual. Dessa forma, as respostas respiratórias e simpáticas à hipóxia devem ocorrer de forma coordenada, para que o animal possa, nessas condições, superar de forma mais eficiente o desafio da redução da PaO2 (Zoccal e cols., 2009b). Tal interação simpato-respiratória observada durante o quimiorreflexo envolve a ativação de uma complexa rede de neurônios envolvidos com a geração da atividade simpática e respiratória, cujos principais núcleos estão localizados na superfície ventral do bulbo (Dampney, 1994; Bianchi e cols., 1995, Molkov e cols., 2011). Dessa forma, em condições de hipóxia, a ativação dos quimiorreceptores periféricos induz a estimulação dos diferentes grupamentos neuronais da superfície ventral do bulbo, os quais geram, de forma integrada, os estímulos excitatórios para os neurônios da medula espinhal que 20 inervam os vasos sanguíneos, o coração e os músculos respiratórios. Esse acoplamento das respostas cardiovasculares e respiratória é decorrente da interação entre os neurônios geradores das atividades respiratória e simpática, conforme descrito a seguir. O ritmo respiratório basal é governado pela atividade coordenada de uma rede de neurônios respiratórios localizados no bulbo (Richter, 1982; Smith e cols., 2007; Subramanian e cols., 2007). Parte desses neurônios é encontrada na superfície ventral do bulbo, formando o chamado grupo respiratório ventral (ventral respiratory group, VRG). Embora receba projeções de outros núcleos bulbares e pontinos, como, por exemplo, do NTS, do núcleo retrotrapezóide, do núcleo parabraquial e do núcleo Kölliker-Fuse, o VRG parece desempenhar um papel dominante na geração da atividade respiratória (Smith e cols., 1991; Bianchi e cols., 1995; Smith e cols., 2007). Este grupamento neuronal é dividido em quatro sub-populações de neurônios funcionalmente distintas e orientadas no sentido rostro-caudal: i) complexo Bötzinger, o qual contém principalmente interneurônios expiratórios; ii) complexo pré-Bötzinger, o qual contém principalmente interneurônios inspiratórios considerados essenciais para a geração do ritmo respiratório basal; iii) porção rostral do VRG (rVRG), o qual contém neurônios bulbo-espinhais inspiratórios que enviam projeções para núcleos motores inspiratórios da medula espinhal, como, por exemplo, para o núcleo motor do frênico; e iv) porção caudal do VRG (cVRG), que contém neurônios bulbo-espinhais expiratórios que enviam projeções para núcleos motores expiratórios abdominais (Ezure, 1990; Smith e cols., 1991; Bianchi e cols., 1995; Ezure e cols., 2003; Smith e cols., 2007). Esses diferentes neurônios do VRG estão conectados reciprocamente por vias inibitórias, principalmente glicinérgicas, as quais parecem ser essenciais para a geração do ritmo respiratório basal (Richter & Spyer, 2001; Smith e cols., 2007). 21 Na porção da superfície ventral do bulbo, também conhecida como região rostral ventrolateral do bulbo (rostral ventrolateral medulla, RVLM), também está localizado um grupamento de neurônios glutamatérgicos, os quais são considerados como a principal fonte de excitação para os neurônios pré-ganglionares simpáticos localizados na medula espinhal (Ross e cols., 1984a; Ross e cols., 1984b; Stornetta e cols., 2002). Esses neurônios pré-motores simpáticos do RVLM são considerados como essenciais para a geração da atividade eferente simpática, uma vez que estes podem apresentar, sob determinadas condições experimentais, um padrão de atividade espontânea (Sun e cols., 1988). A frequência de despolarização dos neurônios do RVLM é modulada principalmente por projeções excitatórias e inibitórias provenientes de outros grupamentos neuronais localizados no tronco cerebral. Dentre essas projeções, destacam- se aquelas da região caudal ventrolateral do bulbo (caudal ventrolateral medulla, CVLM), a qual contém neurônios gabaérgicos, cujos axônios exercem uma modulação inibitória tônica sobre a atividade dos neurônios do RVLM, principalmente por meio de informações provenientes da ativação da via simpato-inibitória dos barorreceptores arteriais (Schreihofer & Guyenet, 2003; Bailey e cols., 2006). Do ponto de vista topográfico, os neurônios autonômicos do RVLM e do CVLM se encontram sobrepostos aos neurônios respiratórios do VRG (Figura 1). Dessa forma, não é difícil imaginar que esses diferentes grupamentos neuronais possam estabelecer múltiplas conexões sinápticas e que a atividade respiratória representa um dos principais fatores que geram oscilações rítmicas na atividade simpática (Malpas, 1998; Molkov e cols., 2011). Como pode ser visualizado na Figura 4, em condições de repouso, a cada ciclo respiratório ocorre um aumento fásico correspondente na atividade simpática visceral. Essa modulação respiratória sobre a atividade simpática é decorrente da interação entre os neurônios autonômicos e respiratórios da superfície ventral do bulbo 22 (Sun e cols., 1994). Por meio de registros eletrofisiológicos, foi evidenciado que diferentes neurônios pré-motores simpáticos do RVLM apresentam padrões de atividade correlacionados tanto com a fase inspiratória como com a fase expiratória, implicando que determinados grupos de neurônios apresentam um aumentode sua atividade durante a inspiração e outros grupos de neurônios apresentam um aumento de sua atividade durante a expiração (Haselton & Guyenet, 1989). Essas oscilações na atividade dos neurônios do RVLM associadas à respiração foram abolidas após a inibição da atividade dos neurônios do complexo pré-Bötzinger e do rVRG por meio de agonistas GABAérgicos (Koshiya & Guyenet, 1996b), sugerindo que a modulação respiratória da atividade eferente simpática ocorra ao nível do RVLM, por meio de conexões desses neurônios com os neurônios respiratórios do VRG (Figura 4). Entretanto, os neurônios respiratórios parecem também modular a atividade dos neurônios do CVLM, uma vez que estes também apresentam padrões de despolarizações acoplados à fase inspiratória e expiratória (Mandel & Schreihofer, 2006), indicando a existência de uma via indireta pela qual os neurônios respiratórios modulam a atividade dos neurônios pré-motores simpáticos (Figura 4). Portanto, essas evidências experimentais indicam que o acoplamento entre as atividades simpática e respiratória ocorre efetivamente ao nível da superfície ventral do bulbo, como consequência da interação sináptica entre os neurônios do VRG com os neurônios simpáticos do RVLM e gabaérgicos do CVLM. Em situações de hipóxia, a ativação dos quimiorreceptores periféricos promove, via conexões neurais no NTS, a estimulação dos neurônios simpáticos do RVLM e dos neurônios respiratórios do VRG. Essas projeções podem ser diretas do NTS para o RVLM (Aicher e cols., 1996; Koshiya & Guyenet, 1996a) ou também via conexões tanto com núcleos pontinos, tais como os núcleos parabraquial e Kölliker-Fuse e a área A5, quanto com núcleos hipotalâmicos, como, por exemplo, o núcleo paraventricular do 23 B" Superfície ventral do bulbo Nervos cranianos (vias aéreas superiores) Medula Espinhal Neurônios pré-ganglionares simpáticos IML Núcleos Motores Músculos respiratórios Rede respiratória ponte-bulbo Outras áreas cerebrais Quimorreceptores periféricos Coração Vasos Sanguíneos 0.75 0.50 0.25 mVSym p 4a 2 0 -2 mVSym p 4 1.5 1.0 0.5 0.0 mVAb d3a 5.0 2.5 0.0 -2.5 -5.0 mVAb d3 1000 500 0 Hz Me mo ry m2 2.5 0.0 -2.5 mVMe mo ry m1 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 s ANS ∫ ANS Abd ∫ Abd ANF ∫ ANF 2 seg NTS Inspiratório Expiratório Simpático hipotálamo (Dampney, 1994; Olivan e cols., 2001; Haibara e cols., 2002). Estudos indicam que o L-glutamato parece ser um importante neurotransmissor envolvido no processamento dessas respostas ao nível da superfície ventral do bulbo (Sun & Reis, 1996; Richter e cols., 1999). No entanto, há evidências da liberação de outros neurotransmissores em resposta à hipóxia, tais como o ATP, adenosina e serotonina (Richter e cols., 1999; Gourine e cols., 2005), os quais, ao nível da superfície ventral do bulbo, podem também estar envolvidos no processamento, na modulação e no acoplamento das respostas simpática e respiratória à ativação do quimiorreflexo. Figura 4: Painel A: Modelo de acoplamento entre os neurônios expiratórios e inspiratórios do grupo respiratório ventral [composto pelos neurônios dos complexos Bötzinger (BötC) e pré- Bötzinger (pré-BötC) e dos aspectos rostral (rVRG) e caudal do VRG] e os neurônios pré- motores simpáticos na superfície ventral do bulbo. Note que apesar destes neurônios serem responsáveis pela geração de estímulos excitatórios para os neurônios motores respiratórios e neurônios pré-ganglionares simpáticos [localizados na coluna intermediolateral (IML) da medula espinhal], as suas atividades são tonicamente moduladas por outros grupamentos neuronais localizados no NTS ou em outras áreas cerebrais (núcleos parabraquial, Kölliker-Fuse, área A5, núcleo retrotrapezóide e núcleo paraventricular do hipotálamo). Painel B: Alterações nos registros 24 originais e integrados (∫) da atividade dos nervos simpático (ANS), abdominal (Abd) e frênico (ANF) em resposta à ativação dos quimiorreceptores periféricos (momento indicado pela seta). Note o acoplamento entre o aumento das atividades simpática e abdominal durante a ativação do quimiorreflexo, como destacado nas áreas sombreadas em cinza. As respostas simpática e respiratória do quimiorreflexo ocorrem de forma sincronizada, embora o RVLM e o VRG sejam simultaneamente estimulados em resposta à ativação dos quimiorreceptores periféricos, como ilustra os traçados contidos na Figura 4. Podemos verificar que o aumento da atividade simpática visceral ocorre em salvas, isto é, uma série de potenciais de ação sucessivos, cujos aumentos máximos são observados principalmente durante a fase expiratória. Esse padrão de resposta simpato-excitatória está diretamente correlacionado à resposta respiratória. Como podemos verificar na Figura 4, a resposta respiratória do quimiorreflexo é constituída não somente de um aumento na atividade inspiratória, evidenciada por um aumento da frequência de despolarização do nervo frênico, mas também por um aumento expressivo da atividade expiratória, observada pelo aumento da atividade motora abdominal, cuja atividade passa a constituir um processo de expiração ativa para permitir o aumento do volume corrente. Dessa forma, podemos verificar a existência de um acoplamento entre o aumento da atividade respiratória, especificamente da atividade expiratória, e o aumento da atividade simpática (Costa-Silva e cols., 2010; Moraes e cols., 2012). É importante ressaltar que esse padrão de resposta simpática e respiratória é observado mesmo em animais descerebrados e vagotomizados, nos quais as informações aferentes provenientes de receptores periféricos, tais como os receptores de estiramento pulmonar, não são transmitidas ao sistema nervoso central (Mandel & Schreihofer, 2006; Costa-Silva e cols., 2010). Portanto, essas evidências experimentais indicam que o acoplamento simpático e respiratório é decorrente da interação entre os neurônios simpáticos e respiratórios localizados na superfície ventral do bulbo. 25 A existência de uma proximidade neuro-anatômica entre os neurônios do RVLM e os neurônios expiratórios do VRG, especialmente daqueles localizados no complexo BötC, já foi evidenciada por meio de estudos imuno-histoquímicos e eletrofisiológicos (Sun e cols., 1997). Conexões entre os neurônios do BötC e do RVLM poderiam explicar, pelo menos em parte, o acoplamento entre o aumento da atividade expiratória e o aumento da atividade simpática em resposta à ativação do quimiorreflexo (Moraes e cols., 2011; 2012b). Além disso, é provável que os neurônios respiratórios da ponte possam contribuir, de forma significativa, para o acoplamento simpático-expiratório observado durante a ativação do quimiorreflexo (Costa-Silva e cols., 2010; Moraes e cols., 2012a). No entanto, devido à grande diversidade e a complexidade das interações entre os neurônios autonômicos e respiratórios na superfície ventral do bulbo e da ponte, é possível que as conexões sinápticas não sejam restritas a esses grupamentos neuronais e que outras populações neuronais também contribuam para o acoplamento das respostas simpática e respiratória do quimiorreflexo. Os neurônios simpáticos e respiratórios da superfície ventral do bulbo são importantes para o processamento das respostas simpática e respiratória do quimiorreflexo e, principalmente, para a integração das mesmas. Esse fato é relevante para a coordenação dos aumentos da pressão arterial e da ventilação em resposta à hipóxia, cujo sincronismo é importante para tornar mais eficiente as respostas de ventilação pulmonar, captação de O2 do ar alveolar e o aumento da perfusão para os diferentes territórios vasculares do organismo, especialmente para o sistema nervoso central.Vários laboratórios em todo o mundo estão dedicando os seus esforços para o melhor entendimento das características eletrofisiológicas das diferentes subpopulações neuronais e dos mediadores neuroquímicos envolvidos no acoplamento simpático- 26 respiratório ao nível da superfície ventral do bulbo, tanto em situações fisiológicas quanto em diferentes processos fisiopatológicos. 5. VIAS EFERENTES DOS COMPONENTES AUTONÔMICO SIMPÁTICO E RESPIRATÓRIO DO QUIMIORREFLEXO NA MEDULA ESPINHAL Os neurônios motores respiratórios e os neurônios pré-ganglionares simpáticos, responsáveis pelas respostas ventilatória e simpática do quimiorreflexo estão localizados na medula espinhal. Em resposta a ativação do quimiorreflexo, músculos respiratórios, como o diafragma e os músculos abdominais, são estimulados para, ao se contraírem, promover o aumento da frequência e da amplitude ventilatória. Da mesma forma, neurônios pós- ganglionares simpáticos são ativados promovendo o aumento da resistência vascular e da contratilidade cardíaca, importantes para a resposta de aumento da pressão arterial e da força de contração cardíaca. Para tanto, após o processamento ao nível do tronco cerebral, as informações provenientes dos quimiorreceptores periféricos são transmitidas tanto para os neurônios motores respiratórios quanto para os neurônios pré-ganglionares simpáticos da medula espinhal, os quais são responsáveis pela inervação dos órgãos alvo, seja diretamente, no caso dos neurônios motores, ou indiretamente, no caso dos neurônios pré- ganglionares simpáticos (Figura 5). Contudo, ainda são poucos os estudos explorando as vias neurais e os neurotransmissores envolvidos na ativação dos neurônios espinhais em resposta à ativação do quimiorreflexo. Na porção cervical da medula espinhal, entre os níveis C3 e C6 (podendo haver pequenas variações entre as espécies animais), são encontrados os neurônios inspiratórios que constituem o núcleo motor de frênico (NMF). Os axônios desses neurônios formam o 27 nervo frênico, o qual inerva o diafragma (Figura 5), o principal músculo inspiratório (Bianchi e cols., 1995). As projeções excitatórias para o NMF partem, principalmente, dos neurônios inspiratórios do VRG, especialmente daqueles localizados no rVRG (Goshgarian e cols., 1991). Contudo, evidências mostram que o NMF também recebe projeções diretas do NTS, do BötC e dos núcleos parabraquial/Kölliker-Fuse (de Castro e cols., 1994; Dobbins & Feldman, 1994; Yokota e cols., 2001; Ezure e cols., 2003). Em resposta à ativação do quimiorreflexo, os neurônios do NMF são excitados, levando a um aumento da frequência e da amplitude contrátil do diafragma. Há evidências de que o aumento da atividade do nervo frênico em resposta à ativação dos quimiorreceptores periféricos é significativamente menor após o antagonismo dos receptores ionotrópicos glutamatérgicos no NMF, indicando uma importante participação do L-glutamato na neurotransmissão no NMF em resposta à ativação do quimiorreflexo (Chitravanshi & Sapru, 1997). Ao longo da porção tóraco-lombar da medula espinhal, como mostra a figura 5, estão localizados os neurônios motores que inervam os músculos abdominais, os quais são importantes para o controle da atividade motora expiratória (Iscoe, 1998). Em condições de repouso, os nervos motores abdominais apresentam uma atividade de baixa amplitude, uma vez que a expiração é um processo passivo, decorrente das forças de retração elástica dos pulmões e da caixa torácica. Por outro lado, em situações de hipóxia, a expiração passa a ser um processo ativo, recrutando, principalmente, a musculatura retro-abdominal (Figura 5, Painel B), com o objetivo de encurtar o período expiratório e aumentar o volume de ar expirado, acarretando, consequentemente, no aumento da frequência respiratória e do volume corrente. Há evidências de que a principal via excitatória para os neurônios motores abdominais parte dos neurônios expiratórios do cVRG (Iscoe, 1998; Ezure e cols., 2003), mas ainda não são conhecidos os 28 PósG PósG Medula Espinhal IML NMF NMAb Torácica (T1 – T12) Lombar (L1 – L5) Cervical (C1 – C8) Motor PréG Músculos Abdominais Diafragma Coração Vasos Sangüíneos Motor Quimiorreceptores Periféricos Encéfalo Tronco Cerebral PréG neurotransmissores utilizados por esses neurônios motores abdominais em resposta à ativação do quimiorreflexo. Figura 5: Localização e conexões dos neurônios da medula espinhal envolvidos com as vias eferentes dos componentes simpático e respiratório do quimiorreflexo. Os neurônios motores (motor) do núcleo motor do frênico (NMF) estão localizados na porção cervical da medula espinhal e os seus axônios formam o nervo frênico, o qual é responsável por transmitir os estímulos excitatórios para o diafragma, promovendo a resposta de aumento da atividade inspiratória em resposta à hipóxia. Por outro lado, os neurônios motores que inervam a musculatura abdominal estão localizados nas porções torácica e lombar da medula espinhal, em grupamentos denominados em núcleos motores abdominais (NMAb). Durante a ativação dos quimiorreceptores periféricos, esses neurônios motores abdominais são ativados, promovendo o aumento da atividade expiratória. Os neurônios do NMF e do NMAb recebem projeções excitatórias do VRG, principalmente do rVRG e cVRG, respectivamente. Os neurônios pré- ganglionares simpáticos (PréG) estão localizados principalmente na coluna intermediolateral (IML) e recebem projeções excitatórias principalmente dos neurônios pré-motores simpáticos do RVLM, embora outras vias, como aquelas provenientes do PVN (linha pontilhada) possam também contribuir para a excitação desses neurônios. Os neurônios PréG, por sua vez, estabelecem conexões com os neurônios pós-ganglionares (PósG) nos gânglios simpáticos 29 localizados na cadeia paravertebral. Em resposta à ativação do quimiorreflexo, os neurônios PósG promovem a vasoconstrição e o aumento da contratilidade cardíaca, fatores que contribuem para a elevação da pressão arterial. Os neurônios pré-ganglionares simpáticos constituem uma população neuronal heterogênea localizada principalmente no corno lateral da medula espinhal, ao longo de uma região classicamente denominada de coluna intermédio-lateral da medula espinhal (IML) (Cabot, 1990). As eferências dos neurônios pré-ganglionares simpáticos deixam a medula espinhal entre os níveis C8-L3 e estabelecem contato sináptico com os neurônios pós-ganglionares, os quais, por sua vez, inervam, entre outros territórios, as arteríolas dos diferentes leitos vasculares, os quais são importantes órgãos-alvo para as respostas cardiovasculares do quimiorreflexo (Dampney, 1994), como ilustra a Figura 5. Além disso, os neurônios pré-ganglionares simpáticos também fazem conexões com as células cromafins da medula adrenal, as quais são as responsáveis pela síntese de catecolaminas (Cabot, 1990; Dampney, 1994). Há também evidências de que os axônios dos neurônios pré-ganglionares simpáticos apresentam uma organização topográfica ao longo da coluna IML da medula espinhal. Por exemplo, territórios da região da cabeça e do pescoço são influenciados por inervações simpáticas provenientes dos segmentos superiores da medula espinhal, enquanto que territórios dos membros posteriores e da glândula adrenal são influenciados pela inervação simpática das porções inferiores da medula espinhal (Burke, 1984). Em resposta à ativação dos quimiorreceptores periféricos, os neurônios pré- ganglionares simpáticos parecem ser estimulados principalmente pelo L-glutamato (Sun & Reis, 1994). Os principais terminais glutamatérgicos que estabelecem contato sináptico com os neurônios pré-ganglionares simpáticos e que fazem parte desta via excitatória do quimiorreflexosão provenientes dos neurônios pré-motores simpáticos do RVLM 30 (Dampney, 1994). Entretanto, os neurônios do núcleo paraventricular do hipotálamo e da área A5 da ponte também enviam projeções para os neurônios pré-ganglionares simpáticos (Guyenet, 2006), os quais podem também contribuir para a excitação dos neurônios pré-ganglionares em resposta à ativação do quimiorreflexo (Olivan e cols., 2001). As sinapses dos neurônios pré-ganglionares com os neurônios pós-ganglionares simpáticos ocorrem nos gânglios simpáticos localizados na cadeia paravertebral simpática (Dampney, 1994), como ilustra a Figura 5. O principal neurotransmissor liberado ao nível dos gânglios simpáticos é a acetilcolina, a qual atua principalmente, sobre os receptores nicotínicos pós-sinápticos (Cabot, 1990). Há também evidências da presença de outros neurotransmissores ao nível dos gânglios simpáticos, tais como a encefalina, a neurotensina e a substância P (Cabot, 1990), cujas importâncias relativas na transmissão simpática ganglionar ainda são pouco conhecidas. Os neurônios pós-ganglionares simpáticos, por sua vez, inervam as arteríolas e o coração e, quando estimulados em resposta à estimulação dos quimiorreceptores periféricos, são responsáveis por promover o aumento da resistência periférica e da contratilidade cardíaca (Haibara e cols., 1995; Braga e cols., 2007), acarretando no aumento da pressão arterial e da força de contração cardíaca. Dessa forma, os neurônios motores respiratórios e os neurônios pré/pós- ganglionares simpáticos fazem parte das vias finais dos componentes respiratório e autonômico do quimiorreflexo. Os mecanismos envolvidos na neurotransmissão ao nível da medula espinhal e dos gânglios simpáticos é um assunto ainda pouco estudado e representa um amplo campo de investigação, tendo em vista a complexidade das interações desses neurônios espinhais com as vias neurais descendentes do tronco cerebral, bem como a grande diversidade de neurotransmissores já identificados nesses 31 níveis e que, provavelmente, participam da neurotransmissão e neuromodulação dessas sinapses do quimiorreflexo. 6. DISFUNÇÕES NO PROCESSAMENTO DO QUIMIORREFLEXO E SUAS IMPLICAÇÕES FISIOPATOLÓGICAS Alterações no funcionamento dos diferentes componentes centrais e periféricos das vias neurais do quimiorreflexo em situações fisiopatológicas podem contribuir para o aumento mantido da atividade eferente simpática basal. O quimiorreflexo é um importante mecanismo pelo qual as atividades simpática e respiratória são moduladas em resposta a reduções na PaO2. Porém, em algumas situações fisiopatológicas, esse importante mecanismo reflexo pode funcionar anormalmente nos seus diferentes níveis de processamento, e, assim, promover significativas alterações no sistema cardiovascular. A principal repercussão da exacerbação do funcionamento do quimiorreflexo sobre o sistema cardiovascular é o aumento da atividade simpática basal, o qual, a longo prazo, pode acarretar em efeitos deletérios significativos sobre os diferentes órgãos-alvo. Nesse contexto, podemos citar os exemplos da insuficiência cardíaca (IC) e a apnéia obstrutiva do sono. A IC é uma síndrome caracterizada pela diminuição da capacidade de ejeção da bomba cardíaca decorrente de uma disfunção ventricular. Consequentemente, pacientes com IC apresentam uma significativa redução no débito cardíaco (Triposkiadis e cols., 2009). De forma reflexa, importantes mecanismos de controle da função cardiovascular são ativados com o objetivo de promover ajustes compensatórios na função cardíaca e na pressão arterial, tais como o sistema renina-angiotensina-aldosterona e o sistema nervoso 32 simpático (Patel, 2000; Zucker e cols., 2004) . Contudo, a hiperativação prolongada desses mecanismos neuro-humorais promove efeitos deletérios em diferentes órgãos-alvo no sistema cardiovascular (Triposkiadis e cols., 2009) especialmente em situações nas quais o sistema cardiovascular está estruturalmente comprometido, com é o caso da IC. A excitação do quimiorreflexo parece ser responsável pelo significativo aumento da atividade simpática basal observado tanto em pacientes quanto em modelos experimentais da IC. Ainda que esta alteração autonômica tenha a contribuição dos mecanismos relacionados à diminuição da sensibilidade do barorreflexo, a hiperatividade simpática observada na IC é, em grande parte, decorrente de um aumento da sensibilidade do quimiorreflexo (Brandle e cols., 1996; Kara e cols., 2003; Zucker e cols., 2004). Nesse sentido, estudos conduzidos em modelos experimentais mostram que as respostas ventilatória e simpato-excitatória à hipóxia estão exacerbadas na IC (Sun e cols., 1999; Reddy e cols., 2007). Além disso, há evidências de que a inibição dos quimiorreceptores periféricos atenua o aumento da atividade simpática induzida pela IC (Schultz & Sun, 2000), corroborando a hipótese de que o aumento da atividade simpática após a IC é determinado pela ativação dos quimiorreceptores periféricos. O aumento da sensibilidade do quimiorreflexo na IC está associado a alterações na neurotransmissão e neuromodulação nas células que constituem os quimiorreceptores periféricos bem como nas regiões do SNC envolvidas com o processamento do quimiorreflexo. Há evidências de que as respostas simpáticas à microinjeção de angiotensina II, como também a expressão de receptores do subtipo AT1 da angiotensina II, estão aumentadas nos quimiorreceptores periféricos (Li e cols., 2006), no PVN (Zheng e cols., 2009) e no RVLM (Zucker e cols., 2009) de ratos com IC, sugerindo um aumento da sinalização angiotensinérgica após a IC. Além disso, há estudos documentando uma redução dos mecanismos inibitórios sobre os neurônios parvocelulares (simpato- 33 excitatórios) do PVN de ratos com IC, os quais incluem o óxido nítrico e o GABA (Patel, 2000; Reddy e cols., 2007). Portanto, essas alterações neuroquímicas em regiões do SNC envolvidas com o processamento das informações do quimiorreflexo parecem contribuir de forma significativa para o aumento da atividade simpática basal na IC. Outra condição fisiopatológica na qual o quimiorreflexo parece contribuir de forma significativa é a apnéia obstrutiva do sono (AOS). A AOS é uma condição na qual os pacientes são expostos a curtos períodos de hipóxia em consequência dos sucessivos episódios de obstrução recorrentes das vias aéreas superiores durante o período do sono (Caples e cols., 2005; Dempsey e cols., 2010). Essa condição de episódios de hipóxia intercalados por períodos de normóxia é denominada de hipóxia intermitente (HI). Estudos epidemiológicos demonstram que pacientes com AOS apresentam uma maior predisposição a desenvolverem distúrbios cardiovasculares, tais como a hipertensão pulmonar, disfunção vascular, arritmias e insuficiência cardíaca (Caples e cols., 2005). A principal disfunção cardiovascular observada na AOS é o desenvolvimento da hipertensão arterial (Hla e cols., 1994; Somers, 1995). Ainda que a AOS, geralmente, esteja associada a outros fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como a obesidade e disfunções metabólicas (Kiely & McNicholas, 2000; Ortega & Mion, 2009), é proposto uma relação causa-efeito entre a exposição à HI e a gênese da hipertensão arterial na AOS (Fletcher, 1995; Somers, 1995; Narkiewicz e cols., 2005). Tal relação entre a HI e o aumento da pressão arterial foi também evidenciada em ratos submetidos à HI (Fletcher e cols., 1992b; Zoccal e cols., 2007a; Zoccal e cols., 2007b), nos quais foram demonstrados que a hipertensão parece ser dependente de um aumento da atividade simpática basal (Zoccal e cols., 2008; Zoccal e cols., 2009a). 34 Estudos realizados em modelos experimentais demonstram que a hipertensão promovida pela exposição à HI é prevenidaquando os corpúsculos carotídeos são removidos, evidenciando um importante papel das vias do quimiorreflexo no aumento da atividade simpática basal promovido pela HI (Fletcher e cols., 1992a). Além disso, as respostas simpática e respiratória a estimulação do quimiorreflexo estão exacerbadas em ratos previamente expostos à hipóxia crônica intermitente por 10 dias (Braga e cols., 2006), indicando que a HI promove uma facilitação do processamento das respostas simpáticas e respiratórias desse reflexo. Há estudos documentando que a HI promove um aumento da resposta sensorial dos quimiorreceptores periféricos, a qual parece ser decorrente da ativação de mecanismos associados ao aumento da formação de espécies reativas ao oxigênio nas células do tipo I do corpúsculo carotídeo (Peng e cols., 2003; Peng e cols., 2009), tais como a sinalização de Ca2+ intracelular (Guoxiang e cols., 2008) e ativação do fator de transcrição HIF-1 (Nanduri e cols., 2008; Nanduri e cols., 2009). Por outro lado, a HI parece também interferir com mecanismos relacionados à neurotransmissão em regiões do bulbo envolvidas com o controle das funções cardiovascular e respiratória, tais como modificações na neurotransmissão glutamatérgica no NTS (Costa-Silva e cols, 2012) ou a transmissão purinérgica na superfície ventral do bulbo (Zoccal e cols., 2011) bem como o aumento do acoplamento entre as atividades simpática e expiratória, decorrente de alterações nos mecanismos de acoplamento entre os neurônios simpáticos e respiratórios ao nível da superfície ventral do bulbo (Zoccal e cols., 2008; Zoccal e cols., 2009a). Todos esses mecanismos descritos anteriormente parecem contribuir para o aumento da sensibilidade do quimiorreflexo a uma nova situação de hipóxia e, consequentemente, dos níveis da atividade simpática e pressão arterial basais após a HI. 35 Além da IC e da AOS, outros processos fisiopatológicos podem também estar associados com anormalidades no processamento neural do quimiorreflexo. Estudos de Barreto-Filho e cols. (2001) mostraram que em pacientes portadores da Doença de Chagas que não apresentam insuficiência cardíaca, a resposta simpato-excitatória à ativação do quimiorreflexo está aumentada, o que poderia contribuir para o desenvolvimento da disfunção cardíaca observada nesses pacientes. No entanto, os mecanismos responsáveis por esse aumento na sensibilidade do quimiorreflexo em pacientes chagásicos ainda não estão foram esclarecidos. Os desafios experimentais que temos pela frente com vistas a uma melhor compreensão dos neurotransmissores e neuromoduladores ativados em regiões do bulbo envolvidas com o processamento do quimiorreflexo em condições fisiológicas ou fisiopatológicas são gigantescos. No entanto, o arsenal metodológico que dispomos atualmente, combinado com a motivação genuína para o entendimento desse fascinante mundo dependente do oxigênio, nos permitirá obter novos conhecimentos determinantes para se entender as bases neurais envolvidas com o desenvolvimento da hiperatividade simpática em diferentes condições fisiopatológicas. 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Accorsi-Mendonça D, Bonagamba LG, Leão RM & Machado BH. (2009) Are L- glutamate and ATP cotransmitters of the peripheral chemoreflex in the rat nucleus tractus solitarius? Exp Physiol. 94(1), 38-45. Accorsi-Mendonça D, Castania JA, Bonagamba LG, Machado BH, Leão RM. (2011). 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