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Hermenêutica I prof. Fábio M. Mendes Bacharel em Teologia e em Ciências Sociais Mestre e Doutorando em Letras/Teoria da Literatura PRINCÍPIOS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO 1. a Bíblia tem autoridade Em questão de religião, o cristão se submete às seguintes autoridades: (a) Tradição (b) Razão (c) Escrituras 2. a Bíblia é seu intérprete – A Escritura explica melhor a Escritura Um dos primeiros intérpretes da Palavra de Deus foi o diabo, Gn 3.1-5. O que foi que Deus havia dito?, Gn 2.16-17. satanás não negou que Ele tinha dito aquelas palavras. Em vez disso, as distorceu dando-lhes um sentido que não tinham. Como se dá esse tipo de erro? Ao procurar submeter-se ao que a Escritura diz, é importante entender que na Bíblia a autoridade é expressa de algumas maneiras: 1) por omissão: citar só o que convém e deixar de lado o restante. Quando Satanás diz “é certo que não morrerreis”, estava omitindo a consequência profunda da mote espiritual. 2) por acréscimo: dizer mais do que a Bíblia diz. Eva acrescentou: “nem tocareis nele”, Gn 3.3. Da mesma forma pode-se fazer com que a Escritura diga mais do que de fato diz. Quando estudarmos a Bíblia, deixemos que ela fale por si mesma. Compare Escritura com Escritura. Exemplo. Is 7.14, o hebraico “virgem” (‘almâh) pode ser traduzido como “moça”. Mt 1.23 cita esses versos com referência à concepção virginal de Cristo. Contudo, em grego a palavra tem um só sentido: “virgem”. 3. A fé salvadora e o Espírito Santo são necessários para interpretarmos bem as Escrituras - 1 Co 2,14-15, o homem natural e o espiritual. - 2 Co 4.4. - 1 Co 2.12 - Jo 16.13, o Espírito da verdade, que guia a toda a verdade. Embora ser cristão não garanta que você interpretará adequadamente todas as passagens bíblicas, é fundamental entender adequadamente a verdade espiritual. 4. Interprete a experiência pessoal à luz da Escritura e não a Escritura à luz da experiência pessoal Ilustração - Vamos supor que você tenha ficado em dificuldade por causa do seu déficit orçamentário. O Senhor lhe fala sobre isso, e você acha que Ele quer que você elimine todas as formas de compra a crédito. Você, então, trabalha arduamente, economiza e paga todos os seus credores. Agora está livre da dívida e convencido de que nunca mais deve voltar a comprar a prazo. Até aqui, tudo bem. Mas, depois você dá mais um passo e opina que todos os que têm cartões de crédito ou compram a prestações violam um mandamento, e para provar o seu ponto você cita Rm 13.8. Assim, interpreta a Bíblia de acordo com a sua experiência pessoal e exige que outros sigam esta interpretação. As experiências pessoais, sejas quais forem, devem ser conduzidas à Bíblia e interpretadas. Nunca o caminho inverso. Isto não sugere que não há valor na experiência pessoal. Pelo contrário, a experiência atesta a validade da doutrina. Você sabe que sua salvação é um fato devido àquilo que você experimentou. Assim, você não dá forma à doutrina da salvação com base em sua experiência; você leva a sua experiência às Escrituras para averiguar o que aconteceu em sua vida. 5. Os exemplos bíblicos só tem autoridade quando amparados por uma ordem Ao ler a Bíblia não devemos seguir o exemplo de cada pessoa que ali se encontra. Não é preciso seguir o exemplo de Moisés desafiando os líderes do Egito, nem o de Pedro ao negar Jesus. É bom lembrar que a Bíblia está permeada de bons exemplos. Somos obrigados a segui-los? Sim, se o exemplo ilustra uma ordem bíblica. Não, se o exemplo não tem apoio de uma ordem bíblica. Alguns exemplos, NÃO apoiados por ordens, mas que têm seus valores: A) um exemplo bíblico pode confirmar o que você pensa que o Senhor o está induzindo a fazer. Ex: quanto ao celibato, você pode se apoiar no exemplo do próprio Jesus. B) um exemplo bíblico pode ser rica fonte de aplicações à sua vida. Ex.: depois de ler Mc 1.35, pensar e orar a respeito, você acha que Deus quer que você passe algum tempo com Ele todas as manhãs, de madrugada. Seria uma aplicação apropriada e, sem dúvida, beneficiaria sua vida espiritual. Porém, você não poderá tomar esse exemplo bíblico e aplicá-lo a outros, visto não estar amparado por uma ordem. - a Escritura manda orar (1 Ts 5.17) e dedicar tempo à Palavra (Cl 3.16), mas não diz expressamente em que horário isso deve acontecer nem a forma. 6. O propósito primário da Bíblia é mudar as nossas vidas, não aumentar nosso conhecimento A Bíblia não nos foi dada para que pudéssemos ficar espertos como o diabo (Mt 4.1-11), mas nos foi dada para que pudéssemos nos tornar santos como Deus (2 Pe 1.4). Paulo esclarece a finalidade com que a Escritura foi dada (2 Tm 3.16- 17). Todas as palavras nas Escrituras são inteiramente verdadeiras e não contém erro em lugar algum. - Sl 12.6: “As palavras do SENHOR são palavras puras, prarta refinada em cadinho de barro, depurada sete vezes” - Pv 30.5: “(...) toda palavra de Deus é pura; ele é escudo para os que nele confiam!” - Sl 119.89: “Para sempre, ò Senhor, está firmada a tua palavra no céu” - Mt 24.35: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” - a Bíblia é necessária para conhecer o evangelho: - 1 Tm 2.5-6: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos”. - Jo 14.6: “ Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” - a Bíblia é necessária para sustentar a fé espiritual: - Mt 4.4 (cit. Dt 8.3): “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” - Dt 32.47: “Porque esta palavra não é para vós outros coisa vã; antes, é a vossa vida; e, por esta mesma palavra, prolongareis os dias na terra à qual, passando o Jordão, ides para a possuir” - 1 Pe 2.2: “(...) desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento apra salvação”. O “genuíno leite espiritual”, nesse contexto, é a Palavra de Deus a qual Pedro falava ( Pe 1,23-25) A Bíblia é necessária para o conhecimento seguro da vontade de Deus: - Dt 29.29: “As coisas encobertas pertencem a YHWH, nosso Deus, porém, as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” - ser “irrepreensíveis” aos olhos de Deus é andar “na lei do YHWH” (Sl 119.1) - o homem “bem-aventurado” é aquele que não segue a vontade dos ímpios (Sl 1.1), mas acha prazer “na lei de YHWH” e medita na lei de Deus “de dia e de noite” (Sl 1.2) - amar a Deus é guardar “os seus mandamentos” (1 Jo 5.3) A Bíblia NÃO é necessária para saber que Deus existe: - Sl 19.1: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos” - At 14.16-17: “o qual, nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos; contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria” - Rm 1.19-21 A Bíblia NÃO é necessária para conhecer algo sobre o caráter e sobre as leis morais de Deus: - Rm 1.32 - Rm 2.14-15 7. Cada cristão tem o direito e a responsabilidade de interpretar pessoalmente a Palavra de Deus - At 17.11: “ Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” - princípio da Reforma: o livre-exame das Escrituras - A presença do Espírito Santo e a capacidade que a linguagem tem de comunicar a verdade combinam-se para nos dar tudo o que precisamos para estudar e interpretar pessoalmente a Bíblia. - o princípio de caridade: diante do conflito de interpretações,é preferível seguir a máxima de Agostinho (apud Vanhoozer, 2005, p. 42), a saber, “escolher a interpretação que melhor promove o amor a Deus e ao próximo”. - “[...] o conflito de interpretações com muita frequência disfarça um conflito de interesses e de poderes” (Vanhoozer, 2005, p. 42). 8. Faça uma leitura ativa e interativa da Escritura - o ato de ler e interpretar as Escrituras não como um ato de recepção passiva e individualista, mas como uma maneira de comunicação e identificação comunal (cf. Mt 18.29) - segundo a tradicional compreensão rabínica, o estudo e a compreensão das Escrituras levam à redenção do mundo porque levam para dentro dele a presença de Deus (Schüssler Fiorenza, 2009, p. 26) - O Talmud ordena: “formais grupos para estudar a torá, pois o conhecimento da Torá pode ser adquirido somente em associação com outros (Berekot 63b)” (apud Schüssler Fiorenza, 2009, p. 26) - mesmo assim, a “exegese contemplativa” (Eugene Peterson) tem seu lugar 9. A história da igreja é importante, mas não decisiva na interpretação da Escritura - a igreja não determina o que a Bíblioa ensina; mas, a Bíblia determina o que a igreja ensina. 10. As promessas de Deus na Bíblia toda estão disponíveis ao Espírito Santo a favor dos crentes de todas as gerações. Promessa: é compromisso com Deus, de fazer algo, e requer sua resposta de fé em obediência. Às vezes essa obediência significa esperar pacientemente que o Senhor faça o que Ele promete. Outras vezes pode significar lançar-se ao desconhecido ou enfrentar grandes riscos. As promessas de Deus constituem o fundamento da expressão da fé. Sem suas promessas não temos base para pedir. Com a promessa respondemos pela fé. - é permissível apoiar-se numa promessa fora do seu contexto histórico, contanto que seja fiel ao que a passagem diz e significa. Exemplo: digamos que você está cercado por circunstâncias adversas e sofre acusação falsa. Você ora pedindo a Deus que o oriente e Ele o induz a se apoiar em Ex 14.14. Esta promessa foi feita originalmente a Moisés quando Israel estava rodeado por circunstâncias adversas. É preciso assumir atitude apropriada ao abordar as promessas. O Senhor nos deu para nos ajudar a realizar sua vontade. No entanto, as pessoas as usam para tentar levar Deus a fazer as vontades delas! Da mesma forma como é importante interpretarmos apropriadamente a passagem antes de aplicá-la, também é necessário interpretar apropriadamente a promessa antes de reivindicá-la. Supondo que respondamos à promessa e ela não se cumpra em nossas vidas. Há 3 conclusões, geralmente usadas: 1) Deus nos deixou na mão: hipótese descartada por 2 Tm 2.13. 2) Nós erramos ao nos apoiar na promessa: será que a promessa foi requerida com o sincero desejo de fazer a vontade de Deus e nada mais ou nós queríamos uma intervenção em algum ponto do seu percurso? Se chegarmos à conclusão de que tencionávamos fazer a vontade de Deus, então devemos suspender o julgamento sobre o que aconteceu ou não caconteceu. Deus conhece nosso coração e algum dia nos mostrará o que houve. 3) A promessa se cumprirá numa ocasião posterior e/ou de um modo que não esperamos. 2 tipo de promessas que se acham na Bíblia: Promessas gerais: são feitas pelo Espírito Santo a todos os crentes. São aquelas que quando foram escritas pelo autor bíblico não visavam a nenhuma pessoa ou época em particular: Jo 1.9. Promessas específicas: são feitas pelo Espírito Santo a indivíduos específicos em ocasiões específicas. Estas precisam ser feitas pelo Espírito Santo especificamente a nós como foram aos beneficiários originais. Estas promessas estão disponíveis a você, contudo não lhe pertencerão a não ser que lhe sejam dadas por Deus. As promessas específicas são dadas mais frequentemente para orientação e benção. - veja o uso que Paulo faz de Is 42.6,7 em At 13.47 – ele cita esse versículo messiânico que o Senhor lhe dera para orientação. Um breve resumo, quanto às promessas específicas: - o Espírito de Deus faz essas promessas aos cristãos, individualmente, em ocasiões particulares de suas vidas, conforme lhe apraz. - muitas vezes as promessas são condicionais, e a condição é a obediência. Você pode captar a condição pela presença da partícula “se” no versículo bíblico ou no contexto. - o Espírito de Deus é soberano (Sl 33.11), podendo falar de qualquer passagem, a qualquer pessoa, em qualquer ocasião. - Deus faz as suas promessas para tornar você mais dependente dele, e não independente. Busque-as com humildade e dependência dEle. - o propósito de Deus é glorificar-se mediante as promessas. Nunca deixe de glorificá-lo no processo ou no cumprimento da mesma. PRINCÍPIOS GRAMATICAIS DE INTERPRETAÇÃO 11. A Escritura tem somente um sentido, e deve ser tomada literalmente - a interpretação literal no contexto é a única interpretação válida. Se não tomarmos literalmente a passagem, todos os tipos de interpretação fantasiosa podem resultar disso. - aquilo de que tratam os textos não é algo que está por trás dos textos, ou acima deles, mas, sim, algo no texto; - é preciso penetrar naquilo de que relamente trata o texto. 12. Interprete as palavras no sentido que tinham na época do autor - Quando estudar uma passagem, é importante não pular palavras que você não compreende, pois uma ideia errônea quanto ao significado de uma única palavra pode facilmente obscurecer o sentido da sentença e possivelmente do parágrafo inteiro. - Em 1 Co 14.5a o que ao apóstolo Paulo quer dizer com “quisera”? Será que está afirmando categoricamente que todo crente deve falar em línguas? Observando o v. 18 não dá pra apoiar essa idéia? Quando você estudar uma palavra em particular, deverá abordar 4 pontos: 1) O uso que dela faz o escritor: por exemplo, o que significa para Paulo, em Romanos, “o velho homem”, a “velha natureza”, a “velha vida”? 2) Sua relação com seu contexto imediato: quase sempre o contexto lhe dirá muita coisa sobre a palavra. Ex.: o que Jesus quis dizer com a expressão “nascer de novo” em Jo 3.1-4? Seria a mesma coisa que Nicodemos entendeu? Devemos recorrer ao contexto, ou seja, lermos os vs. 5-14. 3) Seu uso corrente na época em que foi escrita: exige um estudo mais técnico. Geralmente uma tradução merecedora de confiança lhe dá o melhor sentido da palavra. 4) Seu sentido etimológico: aqui recorra às obras de consulta. 13. Interprete a palavra em relação à sua sentença e ao contexto - Exemplo: o que significa a palavra “fé”? em Gl 1.23 = doutrina do evangelho em Rm 14.23 = uma convicção do que Deus quer que façamos em 1 Tm 2.15 = penhor ou promessa feita ao Senhor 14. Interprete a passagem em harmonia com seu contexto - Cada escritor tem uma razão lógica para escrever. Ao desenvolver seu argumeto, existe uma conexão lógica entre uma seção e a seguinte. Por isso, é preciso encontrar qual é o propósito global do livro a fim de determinar o sentido de palalvras ou passagens particulares no livro. - Algumas perguntas que devemos ter em mente ao realizar esse trabalho: - como a passagem se relaciona com o material circunvizinho? - como se relaciona com o restante do livro? - como se relaciona com a Bíblia como um todo? - como se relaciona com a cultura e o pano de fundo na qual foi escrita? Exemplo: 1 Jo 3.6-10. O que podemos concluir? Que o crente não peca? Ou se peca, não pode ser crente, pois “aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu”, v. 6. Se for essa a interpretação correta, então só Jesus pode entrar no céu, pois ele é a única pessoa sem pecado que andou pela terra. 15. Quando um objeto é usado para descrever um ser vivo, a proposição pode ser considerada figurada. - Jo 6.35: “Eu sou o pão da vida” - Jo 8.2: “Eu sou a luz do mundo” - Jo 10.7: “Eu sou a porta das ovelhas” - Mq 6.2: “Ouvi, montes, a controvérsia doSENHOR, e vós, duráveis fundamentos da terra [...]” 16. Quando uma expressão não caracteriza a coisa descrita, a proposição pode ser considerada figurada. - Filipenses 3.2: “Acautelai-vos dos cães! Acautelai-vos dos maus obreiros! Acautelai-vos da falsa circuncisão!” (ARA) Quando Paulo fala aos seus leitores será que ele pretende que eles conluam que está falando daquele bicho de 4 patas, etc. Que é usado como animal de estimação no mundo ocidental? Não! Aqui ele está se referindo àqueles que insistiam em impor aos cristãos gentios todas as ordenaças do AT. Assim sendo, a palavra “cães” deve ser interpetada figuradamente. - normalmente o contexto lhe dirá se a proposição é figurada ou literal: Lc 9.58 e 13.32 (“raposa”) Jo 1.36 (“Cordeiro”) Is 53.7 (“cordeiro”). - às vezes, uma mesma palavra pode ser usada figuradamente, mas com sentidos diferentes em diversos lugares da Bíblia: 1 Pe 5.8: “leão” aquie se refere a Satanás Ap 5.5: “leão” aqui se refere a Cristo - Outros exemplos de linguagem figurada: 2 Cr 16.9; Ex 33.23. Deus usa figuras e imagens huanas a fim de comunicar sua verdade. A grande evidência está no tabernáculo e nas parábolas. Nas duas há um veículo (o terreno, o humano) que leva a compreensão da verdade espiritual. A nossa compreensão da realidade espiritual é analógica, simbólica. 17. Somente as partes principais e figuras de uma parábola representam certas realidades - determine o propósito da parábola (algo que nem sempre está contido na parábola, mas no contexto) - use somente as partes principais da parábola para explicar a lição. Não faça a parábola falar demais! Quanto à parábola do bom samaritano, Lc 10.30ss, não tente interpretar o óleo como sendo o Espírito Santo e o vinho como sendo o sangue de Cristo. 18. Interprete as palavras dos profetas no sentido comum, literal e histórico, a não ser que o contexto ou a maneira como se cumpriram indique claramente que têm sentido simbólico. O cumprimento delas pode ser por etapas – cada cumprimento sendo uma garantia daquilo que há de acontecer - A profecia deve ser intepretada literalmente, a menos que o contexto ou alguma referência posterior na Escritura indique outra coisa. Ex.: Ml 4.5,6 – Deus enviou o profeta Elias? Não! Esta é uma referência a João Batista. Quando este apareceu, gerou grande confusão, o que mostra que as pessoas daquele tempo esperavam que a profecia de Malaquias se cumprisse literalmente. Contudo, Jesus disse que essa profecia deveria se cumprir de modo figurado, Mt 11.13-14. - Pode ser que haja ocasiões em que você derive 2 sentidos aparentes de uma profecia. Dê preferência àquele que teria sido mais óbvio para a compreensão dos leitores originais. - Também haverá ocasiões em que um autor do NT dará uma interpretação profética quando a passagem do AT não parece ser profética. Ex.: Os 11.1. – os ouvintes originais poderiam concluir, com acerto, que esto se referia à libertação do Egito sob Moisés. Porém, Mt 2.15 cita essa passagem e a associa à Cristo. Assim, essa passagem é profética pois Mateus diz que é. Nós não temos essa liberdade no estudo da bíblia. - Há casos em que uma profecia se cumpre parcialmente numa geração, com o restante se cumprindo noutra época. Quando os profetas olhavam para a vinda do Messias, viam os 2 eventos como um só. A isso chamamos de perspectiva profética. Foi isso que aconteceu com Joel 2.28-32. Pedro cita essas palavras no dia de pentecostes, At 2.15-21. Ele disse que, de fato, o Espírito Santo foi derramado sobre os cristãos. Mas, quando foi que o sol se converteu em trevas? Esta segunda porção da profecia de Joel faz referência ao segundo advento de Cristo e tem cumprimento futuro. PRINCÍPIOS HISTÓRICOS DE INTERPRETAÇÃO 19. Já que a Escritura foi originada em um contexto histórico, só pode ser compreendida à luz da história bíblica Ao envolver-se no estudo histórico de uma passagem bíblica, você deverá se imaginar como um repórter em busca dos fatos. Bombardeie o texto com questões como estas: - a quem foi escrito o livro? - qual o pano de fundo do escritor? - qual foi a experiência ou ocasião que deu origem à passagem? - que são os principais personagens do livro e/ou da apssagem? Exemplo - análise do livro de Gálatas: - a igreja neotestamentária era de formação judaica, a partir da escolha que Jesus fez dos seus discípulos/apóstolos; - no dia de Pentecostes, Atos 2, os gentios convertidos eram todos prosélitos do judaísmo, o que os fez supor que o caminho para Jesus era através da religião judaica; - Cornélio veio a ser circuncidado para adesão ao judaísmo (At 10), e isto causou reboliço entre os crentes; - o assunto só reaparece ao entrar em curso o ministério de Paulo, pois durante sua 1ª viagem missionário começou a incluir os convertidos na igreja sem passar pelo judaísmo, o que era inaceitável para muitos cristãos da ala judaica; - os legalistas perseguiram Paulo através da província romana da Galácia, pregando que os novos convertidos provenientes do mundo gentílico deveriam ser circuncidados; - Paulo propôs a realização do concílio de Jerusalém (At 15.9 para discutir a questão: “é preciso o gentio tornar-se judeu primeiro, antes de tornar-se cristão? Como se justifica o homem diante de Deus? Pela fé em cristo, foi a resposta de Paulo; - a liderança do concílio de Jerusalém concordou com Paulo e, a partir daí, o cristianismo, que era visto como seita do judaísmo, assinalou uma importante mudança na direção da igreja; - e agora, como Paulo iria partilhar isto com os gálatas? Como ele iria desfazer o prejuízo causado pelos judaizantes? Ele retorna à lei a fim de provar que a lei não pode salvar – por isso é que encontramos inúmeras citações do Antigo Testamento na carta aos Gálatas. 20. A revelação de Deus nas Escrituras é progressiva e, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento são partes essenciais desta revelação e formam uma unidade - é o AT quem monta o cenário para a interpetação correta do NT e, com certeza teríamos dificuldades em entender o que o NT afirma, se não conhecêssemos relatos do AT como a criação e a queda do homem. 21. Fatos ou acontecimentos históricos se tornam símbolos de verdades espirituais somente se as Escrituras assim os designarem - o que é um símbolo? Algo que representa ou lembra alguma outra coisa por relação, associação, conversação ou semelhança acidental. - um exemplo de acontecimento histórico como símbolo de uma verdade espiritual é a declaração de Paulo em 1 Co 10.1-4; - a passagem dos israelitas no Mar Vermelho simboliza seu batismo. A pedra que Israel bebeu é um tipo de Cristo, Nm 20.11. - ver Gl 4.22-24 PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS DE INTERPRETAÇÃO 22. É preciso compreender gramaticalmente a Bíblia, antes de compreendê-la teologicamente - Em Rm 5.15-21 Cristo é comparado e contrastado com Adão. 23. Uma doutrina não pode ser considerada bíblica, a não ser que resuma e inclua tudo o que a Escritura diz sobre ela - Em o Novo Testamento há inúmeras passagens que afirmam que não estamos debaixo da lei (Rm 3.28; Gl 5.18). Ao ler essas declarações alguém pode concluir que a graça divina nos livra de qualquer obrigação de viver uma via disciplinada e santa. No entanto, essa conclusão pode ser contestada por afirmações como as que se encontram em Rm 6.1-4. 24. Contradições doutrinárias contidas nas Escrituras devem ser consideradas aparentes e, portanto, aceitas como escriturísticas, podendo ser explicadas dentro de uma unidade mais elevada - Temas bíblicos que apresentam aparentes contradições: Trindade, a dupla natureza de Cristo, a origem e a existência do mal, a soberania eleição de Deus e a responsabilidade humana. - Quando a Bíblia deixa duasdoutrinas “conflitantes” sem as conciliar, você deve fazer o mesmo. Porém, deve ter o cuidado de não perder o equilíbrio bíblico ao tentar aliviar a tensão. Não arranque palavras da Escritura na tentativa de forçar acordo entre duas doutrinas “conflitantes”.” - Onde a Bíblia ensina duas doutrinas “conflitantes”, devemos seguir o seu exemplo e sustentar ambas, de maneira paradoxal, mantendo cada uma em perfeito equilíbrio com a outra. 25. Um ensinamento implícito na Escritura pode ser considerado bíblico quando uma comparação de passagens correlatas a apoia