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2 
 
2 
 
1 SUMÁRIO 
1 A CHEGADA DOS EUROPEUS AO CONTINENTE QUE HOJE CHAMAMOS DE 
AMÉRICA 3 
2 ETNOCENTRISMO E O ABANDONO SALUTAR DO BRASIL ENTRE 1500 E 
1530 7 
2.1 O “Achamento” .............................................................................................. 7 
2.2 Etnocentrismo ................................................................................................ 8 
2.3 Os Tupiniquins ..............................................................................................10 
3 O "ABANDONO SALUTAR" DE 1500 A 1530 COM POUCAS VIAGENS 
EXPLORATÓRIAS ..............................................................................................................11 
3.1 Primeiras Expedições ...................................................................................11 
4 O BRASIL NOS QUADROS DO SISTEMA COLONIAL MERCANTILISTA ........12 
5 REFORMAS POMBALINAS ................................................................................18 
6 CONTESTAÇÕES AO SISTEMA COLONIAL .....................................................20 
7 A EXPANSÃO COLONIZADORA E A FIXAÇÃO DOS LIMITES ........................25 
8 A FIXAÇÃO DAS FRONTEIRAS .........................................................................29 
9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICO ......................................................................31 
10 LEITURA COMPLEMENTAR ...........................................................................34 
11 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICOS ................................................................39 
12 LEITURA COMPLEMENTAR ...........................................................................40 
13 A dinâmica da escravidão no Brasil .................................................................40 
13.1 Resistência, tráfico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX ......................40 
13.2 RESUMO ...................................................................................................40 
14 ESCRAVISMO DE PLANTATION ....................................................................44 
14.1 IDEOLOGIA E ESTADO NACIONAL ........................................................56 
14.2 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICOS ............. Erro! Indicador não definido. 
3 
 
3 
 
2 A CHEGADA DOS EUROPEUS AO CONTINENTE QUE HOJE CHAMAMOS DE 
AMÉRICA 
 A região da cidade de Jerusalém, na Palestina, onde atualmente fica o Estado 
de Israel é sagrada para os fiéis das três mais importantes religiões (ditas) monoteístas do 
mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Desde épocas muito remotas, judeus, 
cristãos e muçulmanos fazem peregrinações a Jerusalém para venerar os Lugares Santos 
de suas respectivas fés. 
 Na Idade Média – e ainda hoje, em certa medida – os cristãos em geral 
acreditavam que os lugares onde os santos viveram, os objetos por eles usados e o que 
restava de seus corpos (as chamadas “Relíquias”) possuíam poderes milagrosos, como a 
cura de enfermos e a salvação para os pecadores. Havia vários lugares de veneração 
espalhadas por todo o mundo cristão, mas a Terra Santa, onde Jesus viveu, pregou e foi 
supliciado, era considerado o mais sagrado de todos. 
 Para os judeus, Jerusalém é a principal cidade de sua antiga pátria e ali se 
encontram vários locais sagrados, principalmente o “Muro das Lamentações”, ruínas do 
Templo de Salomão destruído pelos romanos no primeiro século de nossa era. Para os 
cristãos, é reverenciada por ter sido o local no qual Jesus de Nazaré viveu durante os três 
últimos anos de sua vida, pregou, fez discípulos e foi crucificado. Para os muçulmanos, 
Jerusalém é uma Cidade Santa porque foi dali, da “Cúpula do Rochedo”, situada no coração 
de Jerusalém – reza a Tradição que ainda é possível ver a marca do casco do cavalo alado 
que o levou – que Maomé subiu ao céu. 
 Apesar da grande distância da Europa Ocidental, muitos peregrinos faziam uma 
longa e arriscada jornada para chegar a Jerusalém. Alguns iam primeiro para Roma e, em 
seguida, partiam de algum porto italiano para Constantinopla, capital do Império Romano do 
Oriente ou Império Bizantino e, de lá, para a Palestina. As pessoas mais pobres percorriam 
todo o trajeto a pé. 
 Os Europeus dependiam visceralmente das especiarias encontradas nas 
Índias (nome dado vagamente a toda a região sudeste do continente asiático). Em particular 
nos períodos mais quentes do ano as especiarias ou temperos (cravo, canela, noz moscada, 
pimenta...) eram fundamentais para a conservação e aprimoramento do sabor dos alimentos. 
A mesma rota usada pelos Peregrinos era também a rota dos mercadores (hoje 
4 
 
4 
 
eufemisticamente conhecidos como comerciantes) que iam da Palestina às Índias por terra 
e lá, trocavam produtos europeus pelas especiarias. Não raro, simplesmente saqueavam 
vilarejos hindus de suas riquezas e as vendiam na Europa com lucro de 100%, independente 
da desgraça causada no local do saqueio. 
 
 
Fonte:encrypted-tbn0.gstatic.com 
 Após longo período de cerco, em 1453 as poderosas muralhas de 
Constantinopla caíram sob o poder dos canhões de Maomé III. A “Queda de Constantinopla” 
e sua ocupação pelos turcos otomanos (muçulmanos) marca o fim do Império Romano do 
Oriente. Muitos sábios migraram de Constantinopla para Roma, Veneza e Gênova, na 
península Itálica e ajudaram, com seus aportes, a incrementar o Renascimento Europeu. 
Com as rotas terrestres para as Índias completamente bloqueadas pois os inimigos 
mortais dos Europeus Ocidentais ocupavam toda a Palestina e até Constantinopla (hoje 
Istambul, na atual Turquia), além disso as disputas entre Católicos e Protestantes no 
Segundo Cisma do Cristianismo tornava a Europa Central uma área consideravelmente 
perigosa para os mercadores católicos da Península Ibérica. Era necessário encontrar um 
"Caminho Marítimo" para "as Índias". 
5 
 
5 
 
 As viagens navais daqueles tempos podem ser comparadas – grosso modo – 
às viagens espaciais da era moderna. Inicialmente, somente Portugueses e Espanhóis 
dispunham dos conhecimentos técnicos necessários à construção de grandes embarcações 
e, com o auxílio de instrumentos aprendidos com os muçulmanos (como o astrolábio, por 
exemplo, instrumento fundamental ao fiel muçulmano para localizar a direção da cidade de 
Meca para suas preces diárias mesmo em dias nublados ou durante a noite) podiam navegar 
e orientar-se pelas estrelas, mesmo à noite. 
 
 
Fonte: www.amorlegal.com 
 Após a Unificação do Reino de Espanha com o casamento de Fernando de 
Aragão com Isabel de Castela que possibilitou a união de forças necessárias à retomada de 
Granada, ao sul da Espanha (os muçulmanos ocuparam toda a Península Ibérica por cerca 
de 700 anos, daí muito de sua influência aparece na cultura daqueles povos e dos latino-
americanos, nós, que descendemos deles) um navegador genovês (nascido em Gênova, na 
Península Itálica) chamado Cristóvão Colombo conseguiu os recursos necessários a 
subvencionar sua ambiciosa viagem de circunavegação – dar uma volta à Terra, que, já se 
sabia, era redonda – e chegar “ao Levante, viajando na direção do Sol Poente”. Só não 
contava mesmo encontrar um continente inteiro no meio do caminho - sorte dele, aliás, que 
não contava com suprimentos, equipamentos e tripulação suficientemente motivada e 
6 
 
6 
 
crédula para chegar tão longe quanto a China, na hipótese de o Continente que hoje 
chamamos de América não existisse... 
 
Fonte: www.rededecursos.com 
No entretempo os Portugueses chegavam às Índias circunavegando o Continente 
Africano em viagens, para a época, cheias de perigos e aventuras. 
 Após muitos contratemposColombo chega às ilhas do Caribe e imagina haver 
chegado às ilhas de “Cipango” – nome pelo qual o Japão era conhecido – e, como Marco 
Polo 300 anos antes, embora viajando na direção contrária, chegar até o “Império Katai” – 
como era conhecida a China. Índios do Caribe faziam referência a um "Grande Reino" no 
Continente (referiam-se à Confederação Azteca) que Colombo interpretou como sendo o 
famoso "Império Catai" encontrado por Marco Polo 250 anos antes. Toma posse de todas 
as terras encontradas em nome dos reis Cristãos de Aragão e Castela – independentemente 
de serem terras habitadas por outros seres humanos, que receberam o nome de “índios” 
pois que se imaginava estar chegando às Índias. Colombo morreu acreditando haver 
descoberto uma rota marítima para as Índias, navegando em linha reta na direção do Sol 
Poente. Naquela época, era totalmente desconhecida a existência de um Continente inteiro 
e habitado por milhares de Nações de Seres Humanos diferentes no caminho entre a Europa 
e a Ásia. Este continente recebeu o nome de “América” pois foi o florentino (nascido em 
Florença, na Península Itálica) Américo Vespúcio, que navegou, estudando todo o litoral 
7 
 
7 
 
destas terras recém encontradas, o descobridor de que se tratava de um “Mundo Novo” – 
Mundus Novus é o título do Trabalho em que registra oficialmente, pela primeira vez na 
história do Ocidente, que havia um continente inteiro entre a Europa e a Ásia, continente 
que, como se disse, em sua homenagem leva o nome de “América”. 
3 ETNOCENTRISMO E O ABANDONO SALUTAR DO BRASIL ENTRE 1500 E 1530 
O interesse pelo Oriente – a armada de Pedro Álvares Cabral, em verdade, dirigia-se 
às “Índias” mas, seja acaso, tormentas, calmarias ou por propósito (o mais provável) chegou 
ao Brasil em 1500. Apesar de ter tomado posse da terra em nome do rei de Portugal, o 
principal interesse da monarquia, enfatize-se estava voltado para o Oriente, onde estavam 
as tão cobiçadas especiarias. 
3.1 O “Achamento” 
A Carta de Pero Vaz de Caminha fala em “achamento” destas terras, não fala em 
“descobrimento” ou “casualidade”. Tudo indica que, realmente, procuravam alguma terra, e 
a acabaram “achando”... O relato abaixo permite-nos uma ideia de como aconteceu este 
“achamento” segundo relatos de marujos da esquadra cabralina. 
Na terça-feira à tarde, foram os grandes emaranhados de “ervas compridas a que os 
mareantes dão o nome de rabo-de-asno”. Surgiram flutuando ao lado das naus e sumiram 
no horizonte. Na quarta-feira pela manhã, o vôo dos fura-buchos – uma espécie de gaivota 
– rompeu o silêncio dos mares e dos céus, reafirmando a certeza de que a terra se 
encontrava próxima. Ao entardecer, silhuetados contra o fulgor do crepúsculo, delinearam-
se os contornos arredondados de “um grande monte”, cercado por terras planas, vestidas 
de um arvoredo denso e majestoso. 
Era 22 de abril ale 1500. Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro Álvares Cabral 
vislumbrava terra – mais com alívio e prazer do que com surpresa ou espanto. Nos nove 
dias seguintes, nas enseadas generosas rio sul da Bahia, os 13 navios da maior amada já 
enviada às índias pela rota descoberta por Vasco da Gama permaneceriam reconhecendo 
a nova terra e seus habitantes. 
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O primeiro contato, amistoso como os demais, deu-se já no dia seguinte, quinta-feira, 
23 de abril. O capitão Nicolau Coelho, veterano das Índias e companheiro de Gama, foi a 
terra, em um batel, e deparou com 18 homens “pardos, nus, com arcos e setas nas mãos”. 
Coelho deu-lhes um gorro vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto. Em troca, 
recebeu um cocar de plumas e um colar de contas brancas. O Brasil, batizado Ilha de Vera 
Cruz, entrava, naquele instante, no curso da História. 
O descobrimento oficial do país está registrado com minúcia. Poucas são as nações 
que possuem uma “certidão de nascimento” tão precisa e fluente quanto a carta que Pero 
Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, dom Manuel, relatando o “achamento” da nova 
terra. Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de rota que conduziu a armada 
de Cabral muito mais para oeste do que o necessário para chegar à Índia. Teria sido o 
descobrimento do Brasil um mero acaso? 
É provável que a questão jamais venha a ser esclarecida. No entanto, a assinaturas 
do Tratado de Tordesilhas, que, seis anos antes, dera si Portugal a posse das terras que 
ficassem a 370 léguas (em torno de 2.000 quilômetros) a oeste de Cabo Verde explique a 
naturalidade com que a nova terra foi avistada, o conhecimento preciso das correntes e das 
rotas, as condições climáticas durante a viagem e a alta probabilidade de que o país já 
tivesse sido avistado anteriormente parecem ser a garantia de que o desembarque, naquela 
manhã de abril de 1500, foi mera formalidade: Cabral poderia estar apenas tomando posse 
de uma terra que os portugueses já conheciam, embora superficialmente. Uma terra pela 
qual ainda demorariam cerca de meio século para se interessarem de fato. 
3.2 Etnocentrismo 
Todas as culturas e civilizações humanas partilham algumas coisas em comum; por 
exemplo, tanto Esquimós, quanto Bosquímanos, Tupinambás, Astecas, Zulus, Mongóis, 
Japoneses e Europeus consideram a própria cultura ou civilização superior a todas as 
demais. Para os Ibéricos (Portugueses e Espanhóis) cristãos, com seu elã vital de "propagar 
o cristianismo católico" iam além e consideravam sua cultura ou civilização "a única válida" 
a exemplo dos estadunidenses hoje em dia, no século XXI. 
Aquela visão tacanha não permitiu ver a tremenda diversidade cultural entre as mais 
distintas civilizações e povos diferentes que aqui viviam: Tupinambás, Carijós, Tupiniquins, 
Ianomamis, Guaranis... Todos eram "índios sem cultura, sem rei nem lei" e tinham de receber 
9 
 
9 
 
a cultura e a religião ibéricas - a alternativa era a morte ("Ficar entre a cruz e a espada" tem 
precisamente este significado, por sinal). 
 
 
Fonte: www.historiaviva.com 
Apenas a título de ilustração ou curiosidade, todas as civilizações humanas têm a sua 
própria forma fazer sacrifícios humanos. Hoje em dia, nos EUA, a moda é julgar formalmente 
e, o considerado "culpado" de algo como "crime hediondo" é sacrificado através do uso da 
Cadeira Elétrica, da Forca ou da Injeção Letal. Na Península Ibérica ao tempo da conquista 
colonial do Brasil eram também muito comuns os sacrifícios humanos. A Sagrada 
Congregação para a Doutrina da Fé, nome eufemístico da Santa Inquisição, julgava - 
aplicando violentos métodos de tortura física e psicológica, extraindo confissões as mais 
diversas - e, ao término dos trabalhos, "abandonava ao braço secular" o corpo da vítima a 
ser sacrificada indicando como deveria ser. Um método muito popular de Sacrifício Humano 
na Península Ibérica ao tempo da conquista colonial era a fogueira. A vítima era queimada 
numa fogueira, em geral ainda em vida (como ocorreu com Giordano Bruno, por exemplo); 
em alguns casos eram garroteados - mortos por enforcamento através de um garrote em 
torno da garganta - e, a seguir, incinerados para delírio da plateia. Também no continente 
que hoje chamamos América, nos tempos da conquista colonial, se praticava o sacrifício 
humano: inimigos derrotados eram mortos e sua carne, devorada pelos vencedores - um 
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10 
 
ritual nem tão raro nem tão comum quanto os Sacrifícios Humanos perpetrados na Europa 
cristã, naturalmente. Mas uns não consideravam aos outros como praticando esse tipo de 
coisa... 
Agora, imagine que você desse de presente para um grupo de índios da Amazônia 
(onde não há eletricidade, água encanada, saneamento básico ou mesmo respeito por parte 
da FUNAI - FuneráriaNacional de Índios) um computador de último tipo, capaz de pegar o 
sinal da Internet por satélite e funcionar a bateria. Diante de tal peça, os Ianomami, 
respeitosos, o enfeitariam com penas, colocariam outros adereços comuns e deixariam o 
computador em exibição, todo enfeitado, a quem desejasse olhar. Estranho? E nós que 
pegamos seus instrumentos de trabalho - como arco-e-flexa, por exemplo - e penduramos 
como enfeite em nossas paredes? Qual a grande diferença? 
Enfim, em última instância, no mundo humano e sendo o ser humano como é, vence 
sempre quem dispõe de maior poderio bélico, não aquele povo que manifesta um tipo 
superior de moralidade. Assim, hoje já não há quase nada de cultura nativa neste país. Os 
"índios" foram convertidos ou assassinados. 
3.3 Os Tupiniquins 
 Ao longo dos dez dias que passou no Brasil, a armada de Cabral tomou contato 
com cerca de 500 nativos. 
Eram, se saberia depois, tupiniquins – uma das tribos do grupo tupi-guarani que, no 
início do século 16, ocupava quase todo o litoral do Brasil. Os tupis-guaranis tinham chegado 
à região numa série de migrações de fundo religioso (em busca da “Terra sem Males”, no 
começo da Era Cristã). Os tupiniquins viriam no sul da Bahia e nas cercanias de Santos e 
Bertioga, em São Paulo. Eram uns 85 mil. Por volta de 1530, uniram-se aos portugueses na 
guerra contra os tupinambás-tamoios, aliados dos franceses. Foi uma aliança inútil: em 1570 
já estavam praticamente extintos, massacrados por Mem de Sá, terceiro governador-geral 
do Brasil. 
11 
 
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4 O "ABANDONO SALUTAR" DE 1500 A 1530 COM POUCAS VIAGENS 
EXPLORATÓRIAS 
 
Fonte: http://www.colegioweb.com. 
4.1 Primeiras Expedições 
O Brasil, ao contrário do Oriente, não possuía, em princípio, nenhum atrativo do ponto 
de vista comercial. Ao longo do período pré-colonial foram, entretanto, enviadas várias 
expedições a nosso pais. 
Primeiras expedições – Entre 1501 e 1502, Portugal enviou a primeira expedição com 
a finalidade de explorar e reconhecer o litoral brasileiro. Essa expedição, da qual se 
desconhece o nome do comandante, foi responsável pelo batismo de inúmeros lugares: 
cabo de S. Tomé, cabo Frio, São Vicente, etc. Com certeza, nessa expedição viajou o 
florentino Américo Vespúcio, que, posteriormente, em carta ao governante de Florença, 
Lourenço de Médici, irá declarar que não encontrou aqui nada de aproveitável. Apesar disso, 
constata a existência do pau-brasil, madeira tintorial conhecida dos europeus desde a Idade 
Média, que até então era importada do Oriente. 
O pau-brasil – As primeiras atividades econômicas concentraram-se, pois, na 
extração daquela madeira, segundo o regime de estanco, isto é, sua exploração estava sob-
regime de monopólio régio. Como era costume, o rei colocou em concorrência o contrato de 
12 
 
12 
 
sua exploração, que foi arrematada por um consórcio de mercadores de Lisboa chefiado 
pelo cristão novo Fernão de Noronha, em 1502. 
No ano seguinte (1503) Fernão de Noronha montou uma expedição pata a extração 
do pau-brasil e fez o primeiro carregamento do produto. 
No Brasil, foram estabelecidas então as feitorias, que eram lugares fortificados e 
funcionavam, ao mesmo tempo, como depósito de madeira. O pau-brasil era explorado 
através do escambo, no qual os indígenas forneciam a mão de obra para corte e transporte 
da madeira em troca de objetos de pouco valor para os portugueses. 
Brasil 1570. Padres solicitam às Autoridades portuguesas - a Metrópole do Brasil na 
época - que enviem órfãs para se casar com os rudes trabalhadores que aqui moravam pois 
estavam obcecados - como usualmente os padres sempre são - com a sexualidade dos 
trabalhadores que, além de os afastar da missa, produzia uma indesejável quantidade de 
mestiços e a prioridade então era o "branqueamento da pele". 
 O filme DESMUNDO revela de maneira realista o choque cultural entre meninas 
profundamente religiosas e seus maridos, brutais, acostumados com a dureza do trabalho e 
a lidar com o trabalho escravo. A maioria "amolece" a esposa como um domador de cavalos. 
Algumas se suicidam tentando voltar - a nado - a Portugal, algumas enlouquecem. A maioria, 
como desde sempre em terra brasilis, "se acomoda" à situação. Alain Fresnot explorou este 
tema brilhantemente no filme "Desmundo". 
5 O BRASIL NOS QUADROS DO SISTEMA COLONIAL MERCANTILISTA 
O sistema colonial é o conjunto de relações entre as metrópoles e suas respectivas 
colônias em uma determinada época histórica. O sistema colonial que nos interessa 
abrangeu o período entre o século XVI e o século XVII, ou seja, faz parte do Antigo Regime 
da época moderna e é conhecido como antigo sistema colonial. 
Segundo o seu modelo teórico típico, a colônia deveria ser um local de consumo 
(mercado) para os produtos metropolitanos, de fornecimento de artigos para a metrópole e 
de ocupação para os trabalhadores da metrópole. Em outras palavras, dentro da lógica do 
“Sistema Colonial Mercantilista” tradicional, a colônia existia para desenvolver a metrópole, 
principalmente através do acúmulo de riquezas, seja através do extrativismo ou de práticas 
agrícolas mais ou menos sofisticadas. Uma Colônia de Exploração, como foi o caso do Brasil 
13 
 
13 
 
para Portugal, tem basicamente três características, conhecidas pelo termo técnico de 
“plantation”: 
 Latifúndio: as terras são distribuídas em grandes propriedades rurais 
 Monocultura voltada ao mercado exterior: há um “produto-rei” em torno do qual 
toda a produção da colônia se concentra (no caso brasileiro, ora é o açúcar, 
ora a borracha, ora o café...) para a exportação e enriquecimento da 
metrópole, em detrimento da produção para o consumo ou o mercado interno. 
 Mão de obra escrava: o negro africano era trazido sobre o mar entre cadeias 
e, além de ser mercadoria cara, era uma mercadoria que gerava riqueza com 
o seu trabalho. 
 
 
Fonte: www.estudokids.com 
 
O sentido da colonização – A atividade colonizadora europeia aparece como 
desdobramento da expansão puramente comercial. Passou-se da circulação 
(comércio) para a produção, No caso português, esse movimento realizou-se através 
da agricultura tropical. Os dois tipos de atividade, circulação e produção, coexistiram. 
Isso significa que a economia colonial ficou atrelada ao comércio europeu. Segundo 
Caio Prado Jr., o sentido da colonização era explícito: "fornecer produtos tropicais e 
minerais para o mercado externo". 
14 
 
14 
 
Assim, o antigo sistema colonial apareceu como elemento da expansão mercantil da 
Europa, regulado pelos Interesses da burguesia comercial. A consequência lógica, segundo 
Fernando A. Novais, foi à colônia transformar-se em instrumento de poder da metrópole, o 
fio condutor, a prática mercantilista, visara essencialmente o poder do próprio Estado. 
 As razões da colonização – A centralização do poder foi condição para os países 
saírem em busca de novos mercados, organizando-se, assim, as bases do 
absolutismo e do capitalismo comercial. Com isso, surgiram rivalidades entre os 
países. Portugal e Espanha ficaram ameaçados pelo crescimento de outras 
potências. Acordos anteriores, como o Tratado de Tordesilhas (1494) entre Portugal 
e a Espanha, começaram a ser questionados pelos países em expansão. 
A descoberta de ouro e prata no México e no Peru funcionou como estímulo ao início 
da colonização portuguesa. Outro fator que obrigou Portugal a investir na América foi a crise 
do comércio indiano. A frágil burguesia lusitana dependia cada vez mais da distribuição dos 
produtos orientais feita pelos comerciantes flamengos (Flandres), que impunham os preços 
e acumulavam os lucros. Capitanias hereditárias – Em 1532, quando se encontrava em São Vicente, Martim 
Afonso recebeu uma carta do rei anunciando o povoamento do Brasil através da 
criação das capitanias hereditárias. Esse sistema já havia sido utilizado com êxito nas 
possessões portuguesas das ilhas do Atlântico (Madeira, Cabo Verde, São Tomé e 
Açores). 
O Brasil foi dividido em 14 capitanias hereditárias, 15 lotes (São Vicente estava 
dividida em 2 lotes) e 12 donatários (Pero Lopes de Sousa era donatário de 3 capitanias: 
Itamaracá, Santo Amaro e Santana). Porém, a primeira doação ocorreu apenas em 1534. 
Entre os donatários não figurava nenhum nome da alta nobreza ou do grande 
comércio de Portugal, o que mostrava que a empresa não tinha suficiente atrativo 
econômico. Somente a pequena nobreza, cuja fortuna se devia ao Oriente, aqui aportou, 
arriscando seus recursos. Traziam nas mãos dois documentos reais: a carta de doação e os 
forais. No primeiro o rei declarava a doação e tudo o que ela implicava. O segundo era uma 
espécie de código tributário que estabelecia os impostos. 
Nesses dois documentos o rei praticamente abria mão de sua soberania e conferia 
aos donatários poderes amplíssimos. E tinha de ser assim, pois aos donatários cabia a 
responsabilidade de povoar e desenvolver a terra à própria custa. O regime de capitanias 
15 
 
15 
 
hereditárias desse modo, transferia para a iniciativa privada a tarefa de colonizar o Brasil. 
Entretanto, devido ao tamanho da obrigação e à falta de recursos, a maioria fracassou. Sem 
contar aqueles que preferiram não arriscar a sua fortuna e jamais chegaram a tomar posse 
de sua capitania. No final, das catorze capitanias, apenas Pernambuco teve êxito, além do 
sucesso temporário de São Vicente. Quanto às demais capitanias, malograram e alguns dos 
donatários não só perderam seus bens como também a própria vida. 
Estava claro que o povoamento e colonização através da iniciativa particular era 
inviável. Não só devido à hostilidade dos índios, mas também pela distância em relação à 
metrópole, e sobretudo, pelo elevado investimento requerido. 
 Governo geral (1549) – Em 1548, diante do fracasso das capitanias, a Coroa 
portuguesa decidiu tomar medidas concretas para viabilizar a colonização. Naquele 
ano foi criado o governo-geral com base num instrumento jurídico denominado 
Regimento de 1548 ou Regimento de Tomé de Sousa. O objetivo da criação do 
governo-geral era o de centralizar política e administrativamente a colônia, mas sem 
abolir o regime das capitanias. 
No regimento o rei declarava que o governo-geral tinha como função coordenar a 
colonização fortalecendo as capitanias contra as ações adversas, destacando-se particular-
mente a luta contra os tupinambás. 
A compra da capitania da Bahia pelo rei, transformando-a numa capitania real é sede 
do governo-geral foi o primeiro passo para a transformação sucessiva das demais capitanias 
hereditárias em capitanias reais, Por fim, no século XVIII, durante o reinado de D. José I 
(1750 - 1777) é do seu ministro marquês de Pombal, as capitanias hereditárias foram extintas 
Com a criação do governo-geral, estabeleceram-se também cargos de assessoria: 
ouvidor-mor (justiça), provedor-mor (fazenda) e capitão-mor (defesa). Cada um desses 
cargos possuía, ademais, um regimento próprio e, no campo restrito de sua competência 
era a autoridade máxima da colônia. Assim, com a criação do governo-geral, desfazia-se 
juridicamente a supremacia do donatário. 
 Tomé de Sousa (1549-1553) – O primeiro governador-geral foi Tomé de Sousa. Com 
ele vieram todos os funcionários necessários à administração e também os primeiros 
jesuítas chefiados por Manuel da Nóbrega. Começava, então, a obra evangelizadora 
dos indígenas e, em 1551, criava-se em Salvador o primeiro bispado no Brasil, sendo 
16 
 
16 
 
o primeiro bispo D. Pero Fernandes Sardinha. Com o segundo governador viria ainda 
outro contingente de jesuítas, entre eles, José de Anchieta. 
Apesar de representar diretamente a Coroa, algumas capitanias relutaram em acatar 
a autoridade do governador-geral tais como as de Porto Seguro, Espírito Santo, Ilhéus, São 
Vicente e Pernambuco. Esta última, de Duarte Coelho, foi a que mais se ressentiu da 
intromissão do governo-geral. Recusando a autoridade do governador-geral o donatário de 
Pernambuco apelou para o rei, que o favoreceu reafirmando a sua autonomia. 
Consolidação do governo-geral – Duarte da Costa (1553 – 1558), que viera em 
substituição a Tomé de Sousa, enfrentou várias crises e sua estada no Brasil foi bastante 
conturbada. Desentendeu-se com o bispo D. Pero Fernandes Sardinha e teve de enfrentar 
os primeiros conflitos entre colonos e jesuítas acerca da escravidão indígena. Além disso, 
foi durante o seu governo que a França começou a tentativa de implantação da França 
Antártica no Rio de Janeiro. 
Esses problemas foram solucionados pelo terceiro governador-geral, Mem de Sá 
(1558-1572). Com ele, finalmente, se consolidou o governo-geral e os franceses foram 
expulsos. 
 Predomínio dos poderes locais – Todavia, apesar da tendência centralizadora do 
governo-geral, a centralização jamais foi completa na colônia. Vários obstáculos 
podem ser mencionados. O primeiro deles estava na própria característica 
econômica da colônia. A sua economia era de exportação, voltada para o mercado 
externo. O comércio entre as capitanias era praticamente nulo. Além disso, as vias 
de comunicação inter-regionais eram inexistentes ou muito precárias. 
Daí a predominância dos poderes locais representados pelos grandes proprietários. 
Até meados do século XVII, as câmaras municipais eram ocupadas e dominadas por esses 
grandes proprietários, que se autodenominavam "homens bons". 
Evolução administrativa até 1580 – D. Luís Fernandes de Vasconcelos, nomeado 
sucessor de Mem de Sá foi atacado por piratas franceses que impediram a sua chegada ao 
Brasil. 
Nessa época, a preocupação com a conquista do Norte fez com que o rei de Portugal, 
D. Sebastião (1557 - 1578), dividisse, em 1572, o Brasil em dois governos. O norte ficou com 
D. Luís de Brito e Almeida e o sul com Antônio Salema tendo como capitais, 
respectivamente, a Bahia e o Rio de Janeiro 
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Em virtude do tamanho do Brasil, almejava-se com essa divisão maior eficiência 
administrativa. Entretanto, como esse objetivo não fora alcançado, a administração foi 
reunificada em 1578. O novo governador nomeado, Lourenço da Veiga, governou de 1578 
a 1580. Nesta última data, Portugal foi anexado pela Espanha, dando origem à União Ibérica, 
que perdurou de 1580 a 1640. 
 A crise do Antigo Regime – O declínio da mineração no Brasil coincide, no plano 
internacional, com a crise do Antigo Regime. Fazendo um balanço de toda a 
exploração colonial do Brasil, chegamos à melancólica conclusão de que Portugal 
não foi o principal beneficiário da exploração colonial. 
 Os benefícios da colonização haviam se transferido para outros centros europeus 
em ascensão: França e, em especial, Inglaterra. De fato, o século XVIII teve a Inglaterra 
como centro da política internacional e pivô das mudanças estruturais que começavam a 
afetar profundamente o Antigo Regime. Como nação vitoriosa na esfera econômica, a 
Inglaterra estava prestes a desencadear a Revolução Industrial, convertendo-se na mais 
avançada nação burguesa do planeta. 
A visível transformação econômica foi acompanhada, na segunda metade do século 
XVIII, por uma ebulição no nível das ideias. Surgiu o Iluminismo e, com essa filosofia, uma 
nova visão do homem e do mundo. Por trás de todo esse movimento, encontrava-se a 
burguesia, comandando a crítica ao Antigo Regime e, portanto, à nobrezae ao absolutismo. 
Mas os filósofos iluministas, como Voltaire e Diderot, seduziram os monarcas 
absolutistas da Prússia, Áustria, Rússia, Portugal e Espanha. Sem abrir mão do absolutismo, 
esses monarcas realizaram algumas das reformas recomendadas pelos iluministas, que 
vieram reforçar o seu poder, uma vez que a modernização empreendida aliviou as tensões 
sociais. Por se manterem absolutistas e optarem por reformas modernizadoras, aqueles 
monarcas ficaram conhecidos como déspotas esclarecidos. Esse foi um fenômeno típico da 
segunda metade do século XVIII. 
D. José I (1750-1777) e seu ministro, o marquês de Pombal, foram os representantes 
do despotismo esclarecido em Portugal. 
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6 REFORMAS POMBALINAS 
 
Fonte: www.google.com 
As reformas pombalinas – No reinado de D. José I, o ministro Sebastião José de 
Carvalho, marquês de Pombal, com sua forte personalidade, caracterizou o período, 
denominado em virtude disso "pombalino”. 
O período pombalino coincidiu com a época da decadência da mineração, e todo o 
esforço político do ministro de D. José I concentrou-se na tentativa de modernização do 
reino. Mas essa modernização, como era típico dos déspotas esclarecidos, foi imposta de 
cima para baixo. 
Considerando as suas realizações em conjunto, conclui-se que a política de Pombal 
tinha em vista, de um lado, o fortalecimento do Estado e, de outro, a autonomia econômica 
de Portugal. 
No primeiro caso, Pombal tratou de diminuir a influência da nobreza e sobretudo dos 
jesuítas, os quais expulsou de Portugal e de todos os seus domínios em 1759. 
Quanto à autonomia econômica, o seu objetivo era o de tirar o país da órbita inglesa, 
na qual ingressara a partir de meados do século XVII. 
Desde o fim da União Ibérica em 1640, o Brasil era a mais valiosa possessão 
portuguesa. Com a descoberta e a exploração do ouro em Minas, o Brasil ocupou o lugar 
indiscutível de retaguarda econômica da metrópole. Porém, no tempo de Pombal, a 
mineração encontrava-se em franca decadência. A sua preocupação foi então a de 
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reorganizar a administração colonial, fortalecer os laços do exclusivo metropolitano, a fim de 
garantir o máximo de transferência da riqueza brasileira para Portugal. 
Em sua política colonial, Pombal tratou de centralizar a administração para maior 
controle metropolitano. Nesse terreno, o ministro tomou duas medidas importantes. A 
primeira foi a extinção do regime de capitanias hereditárias e, portanto, o fim do poder dos 
donatários. A segunda foi a reunificação administrativa. 
Com essa reunificação ficava abolida a antiga divisão administrativa estabelecida em 
1621, quando então o Brasil ficou dividido em dois Estados: o Estado do Maranhão e o do 
Brasil, cada qual com um governador próprio. O primeiro abrangia Pará, Maranhão e Ceará 
e o segundo, os demais territórios ao sul. A capital do Estado do Maranhão era São Luís e 
a do Estado do Brasil era a Bahia. 
Pombal reunificou a administração, transferindo, ao mesmo tempo, a capital para o 
Rio de Janeiro, em 1763, o que mostrou a sua preocupação em manter a cabeça 
administrativa bem próxima da economia mineira. 
Mas a sua política não estava concentrada apenas em Minas. Ela abrangia também 
a economia açucareis do nordeste e a exploração das "drogas do sertão" da região 
amazônica. 
Em relação a Minas, com a finalidade de assegurar os rendimentos da Coroa, Pombal 
tomou a iniciativa de converter a exploração diamantífera em monopólio real, com o Regi-
mento da Real Extração e, em relação ao ouro, ele estabeleceu um regime de taxação que 
combinava a Casa de Fundição e o sistema de fintas com cotas de 100 arrobas, 
complementado pela derrama. 
Para atuar no nordeste e na região amazônica, Pombal criou a Companhia Geral do 
Comércio do Grão Pará e Maranhão (1755) e a Companhia Geral do Comércio de 
Pernambuco e Paraíba (1759). 
Assim, o quadro geral da administração colonial caracterizou-se, no final do século 
XVIII, pela crescente racionalização da atividade econômica, tendo por objetivo a 
transferência do máximo de riqueza do Brasil para Portugal. Paralelamente a essa 
racionalização, aumentava também o grau de opressão colonial. Essa tendência continuou 
com D. Maria I, que sucedeu a D. José I. No seu reinado, através do Alvará de 1785, proibiu-
se a atividade manufatureira no Brasil. 
 
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7 CONTESTAÇÕES AO SISTEMA COLONIAL 
 
Fonte: www.youtube.com 
Contradições do sistema colonial – O sistema colonial possuía dois eixos 
contraditórios. De um lado, senhores e escravos; de outro, colônia e metrópole. 
No Brasil, esse sistema ganhou a forma típica de escravismo colonial, e esse caráter 
simultaneamente escravista e colonial não foi desfeito ao mesmo tempo. Primeiro, rompe-
ram-se os laços coloniais e, muito mais tarde, aboliu-se a escravidão. 
Alguns historiadores, em data mais recente, afirmaram que o escravismo, e não o 
caráter colonial, vem a ser o traço definidor mais importante da sociedade. Por isso não dão 
muita importância à independência do Brasil. Para eles, o fato decisivo é a abolição da 
escravidão, em 1888. E um exagero: a superação da ordem colonial (o processo de 
independência) foi um fenômeno de grande importância e não tem sentido minimizá-lo em 
favor de outro, que foi a abolição da escravatura. 
De fato, nas inúmeras rebeliões ocorridas antes da independência, raras foram as 
que colocaram em xeque o escravismo. A maioria contestava diretamente o regime colonial 
a que o Brasil estava submetido, e muitas pessoas arriscaram a própria vida para aboli-lo. E 
isso tem a sua importância histórica. Ninguém estava lutando contra uma ficção, mas contra 
algo muito real: a opressão e exploração coloniais. 
No entanto, aqueles historiadores não deixam de ter razão. Se prestarmos atenção 
apenas à luta pela emancipação, deixamos de lado as camadas populares e os escravos, 
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pois a obra emancipadora foi, no Brasil, produto das elites. Não se deve esquecer que os de 
baixo estavam tão insatisfeitos com o regime colonial quanto com a dominação dos senhores 
de escravos. 
Tendo em vista, portanto, essa dupla contradição do sistema colonial, examinemos o 
processo emancipacionista. 
A primeira constatação importante é a de que o rompimento dos laços coloniais 
decorreu do próprio funcionamento do sistema: para explorar a colônia é preciso, antes de 
tudo, desenvolvê-la. Porém, à medida que a colônia se desenvolve, engendra interesses 
próprios que passam a divergir dos da metrópole. Esse é o momento em que os próprios 
colonos tomam consciência da exploração e de si próprios como colonos. Por isso mesmo, 
serão os integrantes da camada dominante os primeiros a alcançarem de forma aguda essa 
consciência e, em regra, serão eles os dirigentes desse movimento de emancipação. 
Isso não impediu, todavia, que as contradições sociais internas da colônia se 
aguçassem paralelamente à luta contra a metrópole, de modo que a ruptura dos laços 
coloniais poderia ser acompanhada, ao menos como possibilidade, de uma convulsão social. 
Examinando em conjunto o processo emancipacionista da América, verifica-se que, 
em geral, a independência não se fez acompanhar de uma revolução social. A única exceção 
foi o Haiti, colônia francesa que, em 1792, libertou-se da metrópole através de uma vasta 
rebelião escrava, extinguindo, ao mesmo tempo, a escravidão. Nos demais países, a 
independência não alterou em nada a estrutura social, que, no caso brasileiro, era 
escravista. Porém, isso não significa que a possibilidade de uma revolução social não esteve 
presente, de modo quase permanente, nas revoltas anticolonialistas. O sentido das rebeliões coloniais – As primeiras rebeliões anticolonialistas surgiram 
nos fins do século XVII e início do seguinte e foram resultado direto da nova política 
colonial adotada por Portugal depois da Restauração (1640). Nesse contexto, as 
contradições entre metrópole e colônia se manifestaram de diversas maneiras: de um 
lado, como protesto ao regime comercial monopolista, como na Revolta de Beckman 
(1684), no Maranhão; de outro, como uma guerra entre senhores e escravos fugitivos, 
como em Palmares (1694), em Alagoas; mas também como conflito entre senhores 
de engenho e mercadores, como na Guerra dos Mascates (1709-1711), em 
Pernambuco; e, enfim, como reação à opressão fiscal, exemplificada pela Revolta de 
Vila Rica (1720), em Minas. 
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Todas essas rebeliões tiveram por base a contradição metrópole-colônia e, no caso 
de Palmares, senhores escravos. Entretanto, cada rebelião possuía o seu caráter específico 
e apresentou grande complexidade. 
Porém, as rebeliões coloniais até o início do século XVIII não chegaram a propor 
claramente a emancipação política como solução. Elas só terão esse caráter com a 
Inconfidência Mineira (1789) e a Conjuração Baiana ou dos Alfaiates (1798). 
As primeiras manifestações anticolonialistas. Nos primeiros tempos da colonização, 
a contradição entre metrópole e colônia era latente e existia apenas em potencial. Na 
realidade, a colônia era vista como um prolongamento da metrópole, e os interesses não 
eram, de início, conflitantes. Na fase da montagem da economia colonial inexistia, na prática, 
divergências entre colonos e o Estado metropolitano. Porém, à medida que o processo 
colonizador avançou e se consolidou, os interesses tornaram-se conflitantes. 
Ora, isso é perfeitamente compreensível, pois a metrópole não tem o que explorar se 
a riqueza não for produzida. Uma vez produzida, a luta pela sua posse é desencadeada. 
Na segunda metade do século XVII, com a Restauração (1640) e a expulsão dos 
holandeses (1654), a divergência de interesses entre colônia e metrópole tornou-se 
evidente. A opressão colonial começou a ser sentida com a criação das Companhias de 
Comércio, às quais a metrópole concedeu monopólio do comércio colonial. A própria 
administração portuguesa ganhou um novo contorno com a criação do Conselho 
Ultramarino. 
Assim, à medida que o Estado português torna-se clara e conscientemente 
colonialista, no Brasil desenvolve-se uma consciência anticolonialista. 
 Revolta de Beckman (1684) – Em meados do século XVII, o Maranhão estava com 
problemas devido à dificuldade de escoar a sua produção e de obter gêneros 
metropolitanos e, sobretudo, escravos. 
A criação da Companhia do Comércio do Estado do Maranhão em 1682, que tinha 
por objetivo precisamente resolver tais problemas, veio agravar ainda mais a situação. Em 
princípio, essa companhia deveria não apenas adquirir a produção açucareis como também 
fornecer gêneros metropolitanos e escravos. Porém, visto que a ela fora concedido o 
monopólio tanto da venda de escravos e produtos metropolitanos, como da compra do 
açúcar, os colonos ficaram sujeitos aos preços arbitrariamente estabelecidos pela 
companhia, o que já era motivo de insatisfação. Essa insatisfação converteu-se em aberta 
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rebelião porque, além disso, a companhia não cumpriu o seu compromisso de abastecer 
adequadamente o Maranhão com bens metropolitanos e escravos. 
A revolta eclodiu em 1684 liderada por Manuel Beckman, um abastado senhor de 
engenho. Os revoltosos propunham a abolição do monopólio da companhia e uma relação 
comercial mais justa. Em sinal de protesto, o governo local foi deposto, os armazéns da 
companhia saqueados e os jesuítas, velhos inimigos dos colonos por impedirem a 
escravização do índio, foram expulsos. 
Sob a direção de Manuel Beckman foi composto um governo provisório, e seu irmão, 
Tomás Beckman, foi enviado a Lisboa para apresentar as reivindicações dos revoltosos. 
Estas não foram atendidas e Tomás Beckman foi preso e recambiado para o Brasil, na frota 
em que veio o novo governador, Gomes Freire de Andrade. Este desembarcou no 
Maranhão, onde foi recebido com obediência, e, em seguida, reconduziu as autoridades 
depostas. Manuel Beckman fugiu e quando planejava libertar o irmão do cárcere foi traído 
por um afilhado. Beckman foi preso e executado. 
Apesar do fracasso, esse foi o primeiro movimento anticolonial organizado, embora 
não tivesse ocorrido aos dirigentes do movimento a independência da colônia em relação a 
Portugal, ou seja, a condição colonial não foi questionada. 
 Quilombo dos Palmares (1630-1694) – No Brasil, a exploração colonial resumia-se, 
em última análise, na exploração do trabalho escravo pelo senhor. Devido ao caráter 
colonial dessa exploração, é verdade que o próprio senhor não ficava com todo o 
produto do trabalho escravo. Boa parte da riqueza ia para o Estado na forma de 
impostos e, também, para os cofres dos comerciantes portugueses. Daí a razão da 
revolta dos senhores contra o sistema colonial e as autoridades que o representavam. 
Mas não apenas a camada dominante que se rebelava. Também os escravos 
elaboraram meios de resistir contra o seu opressor imediato, isto é, o senhor. 
A resistência dos escravos assumiu formas muito variadas: fuga, suicídio, 
assassinato, passividade no trabalho, etc. Em qualquer uma dessas formas, o escravo 
negava a sua condição e se contrapunha ao funcionamento do sistema como um todo. 
A fuga, entretanto, foi a mais significativa forma de resistência e rebeldia. Não pela 
fuga em si, mas pelas suas consequências: os fugitivos se reuniam e se organizavam em 
núcleos fortificados no sertão, desafiando as autoridades coloniais. Observemos que, no 
combate à rebeldia escrava, aliavam-se senhores e autoridades coloniais. 
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Esses núcleos eram formados por pequenas unidades, os mocambos (reunião de 
casas), que, no conjunto, formavam os quilombos. Cada mocambo possuía um chefe, que, 
por sua vez, obedecia ao chefe do quilombo, denominado zumbi. Os moradores dos 
quilombos eram conhecidos como quilombolas. Eles se dedicavam ao trabalho agrícola e 
chegavam a estabelecer relações comerciais com os povoados vizinhos. 
Palmares foi o maior quilombo formado no Brasil. Localizava-se no estado atual de 
Alagoas e deve o seu nome à grande quantidade de palmeiras existentes na região. 
Sua origem situa-se no início do século XVII, mas foi a partir de 1630, quando a 
conquista holandesa desorganizou os engenhos, que a fuga maciça de escravos tornou 
Palmares um quilombo de grandes proporções. Em 1675, a sua população foi avaliada em 
20 ou 30 mil habitantes. 
Com a expulsão dos holandeses em 1654 e a escassez de mão de obra aliada ao 
fato de Palmares funcionar como polo de atração para outros escravos, estimulando a sua 
fuga, as autoridades coloniais, apoiadas pelos senhores, decidiram pela sua destruição. 
Várias expedições foram feitas contra ele, mas nenhuma delas teve sucesso. Foram 
contratados então os serviços de um veterano bandeirante, Domingos Jorge Velho. Apoiado 
por abundante material bélico e homens, o bandeirante contratado conseguiu finalmente 
destruir Palmares em 1694. Todavia, o chefe do quilombo, Zumbi, não foi capturado na 
ocasião. Somente um ano depois foi encontrado e executado. 
 Guerra dos Mascates (1709-1711) – A Guerra dos Mascates ocorreu em Pernambuco 
e, aparentemente, foi um conflito entre senhores de engenho de Olinda e 
comerciantes do Recife. Estes últimos, denominados "mascates", eram, em sua 
maioria, portugueses. 
Antes da ocupação holandesa, Recife era um povoado sem maior expressão. O 
principal núcleo urbanoera Olinda, ao qual Recife encontrava-se subordinado. 
Porém, depois da expulsão dos holandeses, Recife tornou-se um centro comercial, 
graças ao seu porto excelente, e recebeu um grande afluxo de comerciantes portugueses. 
Olinda era uma cidade tradicionalmente dominada pelos senhores de engenho. O 
desenvolvimento de Recife, cidade controlada pelos comerciantes, testemunhava o 
crescimento do comércio, cuja importância sobrepujou a atividade produtiva agroindustrial 
açucareis, à qual se dedicavam os senhores de engenho olindenses. 
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O orgulho desses senhores havia sido abalado seriamente desde que a concorrência 
antilhana havia colocado em crise a produção açucareis do nordeste. Mas ainda eram 
poderosos, visto que controlavam a Câmara Municipal de Olinda. 
À medida que Recife cresceu em importância, os mercadores começaram a 
reivindicar a sua autonomia político-administrativa, procurando libertar-se de Olinda e da 
autoridade de sua Câmara Municipal. A reivindicação dos recifenses foi parcialmente 
atendida em 1703, com a conquista do direito de representação na Câmara de Olinda. 
Entretanto, o forte controle exercido pelos senhores sobre a Câmara tornou esse direito, na 
prática, letra morta. 
A grande vitória dos recifenses ocorreu com a criação de sua Câmara Municipal em 
1709, que libertava, definitivamente, os comerciantes da autoridade política olindense. 
Inconformados, os senhores de engenho de Olinda, utilizando vários pretextos (a 
demarcação dos limites entre os dois municípios, por exemplo), resolveram fazer uso da 
força para sabotar as pretensões dos recifenses. Depois de muita luta, que contou com a 
intervenção das autoridades coloniais, finalmente em 1711 o fato se consumou: Recife foi 
equiparada a Olinda. Assim terminou a Guerra dos Mascates. 
Com a vitória dos comerciantes, essa guerra apenas reafirmava o predomínio do 
capital mercantil (comércio) sobre a produção colonial. E isso já era fato, uma vez que os 
senhores de engenho eram frequentemente devedores dos mascates. Portanto, a 
equiparação política das duas cidades tinha fortes razões econômicas e obedecia à lógica 
do sistema colonial. 
8 A EXPANSÃO COLONIZADORA E A FIXAÇÃO DOS LIMITES 
Tratados luso-espanhóis – Portugal e a Espanha, os pioneiros da expansão 
ultramarina, a fim de garantir a possessão dos territórios descobertos recorreram à 
autoridade do papa para legitimá-los. Assim, no Ocidente foi estabelecido inicialmente a Bula 
Inter-Coetera (1493), um meridiano que passava a 100 léguas a oeste de Cabo Verde 
dividindo domínios portugueses e espanhóis. O meridiano da Bula Inter-Coetera não permitia 
a inclusão do Brasil como domínio português. No ano seguinte, uma nova divisão foi 
negociada, dando origem ao Tratado de Tordesilhas (1494), que estipulou um meridiano a 
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370 léguas a oeste de Cabo Verde, ampliando o domínio português, incluindo desta vez 
parte do que seria mais tarde o Brasil. 
Não tardou que a emergência de novas potências europeias (Holanda, França, 
Inglaterra) viesse a contestar a partilha do mundo pelas nações ibéricas. Assim, a alteração 
do quadro internacional no início do século XVI forçou Portugal e a Espanha a adotarem 
uma atitude mais efetiva em relação à América. A colonização, como vimos, viabilizou a 
posse efetiva. 
 
 
Fonte: rafatrotamundos.wordpress.com 
A ocupação do litoral: a expansão oficial – Mesmo depois de decidida a ocupação 
efetiva do Brasil pela colonização, o litoral não deixou de ser constantemente ameaçado, 
principalmente pelos franceses. A dificuldade em desalojá-los foi devida, em grande parte, 
à sua aliança com os tupinambás, inimigos mortais dos tupiniquins, aliados dos portugueses. 
Por isso, a conquista do litoral deveu-se à conjugação de ações militares e religiosas. Através 
das primeiras repelia-se o rival e, em seguida, fundava-se um forte para guarnecer a região. 
Depois eram enviadas missões religiosas a fim de pacificar os indígenas. Porém, quando 
estes se mostravam excessivamente rebeldes, utilizava-se a força pura e simples para 
reduzi-los à submissão. 
À medida que a colonização avançava, os franceses foram sendo repelidos para o 
norte, onde procuravam ainda extrair o pau-brasil. Assim, sucessivamente foram sendo 
conquistados Sergipe Del Rei, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e, 
finalmente, o Grão Pará, cuja conquista completa dar-se-ia somente em meados do século 
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XVII. Antes, porém, de serem repelidos para o Pará, os franceses tentaram ainda fundar no 
Maranhão a França Equinocial, em 1612, erguendo o forte de São Luís, num derradeiro 
esforço para preservar uma colônia no Brasil. Depois da conquista do Pará, os franceses 
finalmente iriam se estabelecer nas Guianas, onde não foram mais molestados. 
No sul, Portugal fundou em 1680 a Colônia do Sacramento, na margem esquerda do 
rio da Prata, para se contrapor a Buenos Aires do outro lado do estuário do rio. Nessa área, 
aliás, iria se desenrolar um intenso conflito entre portugueses e espanhóis, além da 
intervenção de outras potências, como França e Inglaterra, em virtude da posição estratégica 
do rio dá Prata, cuja livre navegação era defendida por várias nações. 
 Povoamento do Brasil até meados do século XVII – A colonização do Brasil, que teve 
como fundamento a agroindústria açucareira, possibilitou a ocupação efetiva do 
litoral. Durante muito tempo, segundo a expressão famosa de frei Vicente do 
Salvador, que viveu no século XVII, os colonos limitavam-se a "andar arranhando as 
terras ao longo do mar como caranguejos". 
A interiorização da colonização, entretanto, iniciou-se com o desenvolvimento da 
pecuária nordestina, que foi gradualmente se afastando do litoral açucareiro que lhe dera 
origem. Seus focos de irradiação foram Bahia e Pernambuco. Seguindo as margens dos 
rios, o gado iria possibilitar o povoamento do sertão de Pernambuco, Bahia, Alagoas, 
Sergipe, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Maranhão. 
Outro importante fator de ocupação do interior foi o bandeirismo, o responsável pela 
incorporação da maior parcela territorial pertencente à Espanha ao domínio português. O 
bandeirismo foi um fenômeno tipicamente paulista. 
A capitania de São Vicente, apesar do relativo sucesso no começo da colonização, 
terminou por mergulhar num estado de profunda pobreza por causa de sua posição 
excêntrica em relação ao polo dinâmico do nordeste. A falta de contato com a metrópole 
estimulou os vicentinos a entrarem para o interior depois de subir a serra do Mar e atingir o 
planalto de Piratininga. A princípio, tratava-se de encontrar o ouro ou a prata. É a fase do 
bandeirismo do ouro de lavagem. No início do século XVII, os holandeses ocuparam o 
nordeste e estenderam o seu domínio sobre a África portuguesa, desencadeando uma crise 
de mão de obra na parte portuguesa do Brasil. Os engenhos da Bahia passaram a ter 
dificuldades de reposição de seu estoque de escravos. Para atender a essa procura, os 
bandeirantes voltaram-se para a captura de índios, dando origem ao bandeirismo de 
preação. Essa fase culminou com os ataques às missões jesuíticas espanholas do Tape, 
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Itatim e Guairá. Nessas missões (aldeamento de índios para a catequese), havia um número 
considerável de índios guaranis. Esses aldeamentos foram estabelecidos com o 
consentimento do rei espanhol, que via neles uma forma de preservar o domínio territorial 
sulino que lhe pertencia por força do Tratado de Tordesilhas. Contudo, a reunião dos índios 
nessas reduções atraiu os bandeirantes, que, num único ataque, conseguiam mão de obra 
abundante e já disciplinada pelos jesuítas. 
O bandeirismode preação entrou em declínio tão logo os holandeses foram expulsos 
e as posições portuguesas na África recuperadas, regularizando o abastecimento de 
escravos. A partir disso, o bandeirismo tornou a se redefinir. 
De fato, na segunda metade do século XVII, ao mesmo tempo em que aumentavam 
a exploração e a opressão coloniais, ficava evidente a divergência de interesses entre 
metrópole e colônia. Na colônia aumentou a tensão entre escravos e grandes proprietários. 
Na época da conquista holandesa, ocorreram fugas em massa de escravos, que formaram 
o mais famoso quilombo, o de Palmares, em Alagoas. Da mesma forma, os indígenas 
oprimidos organizaram no Rio Grande do Norte a Confederação dos Cariris. Para destruir 
esses focos de rebelião, os grandes proprietários do nordeste recorreram a esses rústicos 
bandeirantes que agora passaram a ser utilizados como força repressora. Teve início aí o 
sertanismo de contrato, a última forma e fase do bandeirismo. Para destruir a resistência do 
Quilombo dos Palmares e da Confederação dos Cariris foram contratados os serviços de 
Domingos Jorge Velho. 
 A mineração e o povoamento do Brasil central – Com a mineração deu-se o passo 
decisivo na ocupação do interior. Com a descoberta de ouro nas Gerais, o centro dinâmico 
da economia deslocou-se do litoral nordestino para. o centro-sul do Brasil. Além de propiciar 
a formação de um mercado interno, o polo minerador serviu de elemento articulador da 
economia colonial, através da pecuária nordestina e sulina. Esta última, ao se desenvolver 
e se articular com os centros mineiros, criou condições para a efetiva ocupação do Rio 
Grande do Sul. 
 A colonização do extremo norte; o vale amazônico – A colonização da Amazônia - 
que hoje corresponde aos estados do Amazonas e do Pará - foi estimulada pelas 
preocupações de garantir a posse e o acesso ao rio Amazonas e impedir a presença 
de rivais de outros países. A base de ocupação se deu através do extrativismo vegetal 
e do apresamento indígena. 
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O extrativismo vegetal consistiu na exploração das chamadas "drogas do sertão”: 
cacau, guaraná, borracha, urucu, salsaparrilha, castanha-do-pará, gergelim, noz de pixurim, 
baunilha, coco, etc. Por isso, a escravidão tinha ali um terreno desfavorável, pois a 
exploração da Amazônia dependia do bom conhecimento da região. Daí a importância dos 
índios locais que serviam de guias. A forma predominante que caracterizou a integração da 
Amazônia ao conjunto da economia colonial foi o estabelecimento das missões jesuíticas, 
que chegaram a aldear perto de 50 mil índios. 
9 A FIXAÇÃO DAS FRONTEIRAS 
 
Fonte: www.google.com. 
Os tratados de limites – Nos fins do século XVIII, o atual território brasileiro estava 
praticamente formado. Para isso contribuíram a pecuária, o bandeirismo, a mineração e as 
missões jesuíticas no vale amazônico. 
Os limites no extremo norte foram discutidos com os franceses, que haviam se fixado 
nas Guianas, e no extremo sul, com os espanhóis. A essa altura, estava claro que o 
meridiano de Tordesilhas já não podia ser tomado como referência para delimitar os 
domínios portugueses e espanhóis. 
No século XVIII e no princípio do XIX, vários tratados foram assinados pelos 
portugueses para definir os limites. 
30 
 
30 
 
O primeiro tratado de limites ocorre com o Primeiro Tratado de Utrecht (1713). Por 
esse tratado a França reconheceu o direito exclusivo de Portugal navegar no rio Amazonas, 
em troca do reconhecimento português da posse da Guiana pelos franceses. Pelo Segundo 
Tratado de Utrecht (1715), a Espanha reconheceu a possessão da Colônia do Sacramento 
(fundada em 1680) por Portugal, mas não de forma definitiva. Outros tratados foram 
assinados entre Portugal e Espanha para a fixação dos limites no extremo sul. 
Em 1750, a questão começou a ser rediscutida, resultando no Tratado de Madri 
(1750). Segundo esse novo tratado, ficou estabelecido o princípio do uti possidetis, isto é, 
Portugal e a Espanha estabeleceram como critério a ocupação efetiva. Assim, territórios 
ocupa dos por portugueses foram reconhecidos pela. Espanha como portugueses, e 
reciprocamente. Com esse tratado foram formalmente invalidados os limites estabelecidos 
pelo Tratado de Tordesilhas. A Espanha, a fim m de assegurar a navegação exclusiva no rio 
da Prata, trocou a Colônia do Sacramento pelos Sete Povos das Missões (referência às sete 
missões jesuíticas espanholas que correspondiam, grosso modo, ao atual está do Rio 
Grande do Sul). 
Entretanto, o acordo estabelecido pelo Trata do de Madri não foi cumprido, devido à 
recusa dos jesuítas espanhóis em entregarem os Sete Povos das Missões aos portugueses. 
Instigados pelos jesuítas, os indígenas moveram uma guerra contra os novos ocupantes, as 
Guerras Guaraníticas, que se prolongaram até 1767. 
Por essa razão, o ministro português, marquês de Pombal, decidiu anular essa 
cláusula do Tratado de Madri e se negou a entregar a Colônia do Sacramento, levando os 
países ibéricos a anularem o tratado anterior, o que se deu com o Tratado do Pardo (1761). 
As negociações continuaram com o Tratado de Santo Ildefonso (1777), com Portugal 
renunciando à região dos Sete Povos e ao Sacramento, em troca da ilha de Santa Catarina, 
então pertencente à Espanha. A situação só iria se definir, finalmente, em 1801, com o 
Tratado de Badajós, depois da destruição dos Sete Povos pelos gaúchos. Retornando aos 
termos do Tratado de Madri, Portugal reconheceu a posse do Sacramento e ficou com os 
Sete Povos. 
 
31 
 
31 
 
10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICO 
ABREU, Capistrano de. Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil. Belo 
Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Universidade de São Paulo, 1988. – (Coleção Reconquista do 
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condicionamento feminino nos conventos e recolhimentos do Sudeste do Brasil (1750-1822). 
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ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; 
São 
 
Paulo: Universidade de São Paulo, 1982, 3º ed. – (Coleção Reconquista do Brasil, v. 
70). 
 
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Paulo: DIFEL, 1980. – (Coleção Corpo e Alma do Brasil). 
 
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1994. – (Coleção Tudo é História; vol. 47). 
 
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Paulo: Scipione, 1997. 
 
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colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. – (Coleção Histórias do Brasil). 
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séculos XIII a XX. Trad. Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 
 
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de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. 
 
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Paulo: Ática, 1991. – (Séries Princípios). 
 
GANDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da terra do Brasil: história da Província 
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meridional: com enfoque nas capitais do Sul, 1530-1680. São Paulo: Pioneira; Brasília: INL, 
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Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. – (Coleção Histórias do Brasil). 
 
VOLPATO, Luiza Rios Ricci. Entradas e bandeiras. 5. ed. São Paulo: Global, 1997. 
– (Série História Popular). 
 
34 
 
34 
 
11 LEITURA COMPLEMENTAR 
Nome autor: Margarida Maria de Carvalho I; Pedro Paulo A. Funari II 
Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
90742007000100002 
Data: 06/05/2016 
 
As pesquisas de História Antiga, no Brasil, remontam aos inícios da disciplina, no 
âmbito universitário. Eurípides Simões de Paula, um dos primeiros historiadores 
universitários – grande propugnador da disciplina histórica, na recém-criada Universidade 
de São Paulo –, fundou a cadeira de História Antiga, tendo sido o primeiro catedrático. Sua 
tese de doutoramento já se destacava pela ambição de inserir-se no âmbito internacional e, 
ao mesmo tempo, por estudar a periferia, algo particularmente inovador. 
Contudo, por muitas décadas, a História Antiga manteve-se como especialidade 
pouco difundida nos cursos de História, que se multiplicaram exponencialmente a partir da 
década de 1940. Seria apenas nas últimas décadas do século XX que a História Antiga 
começaria a expandir-se, primeiro nas universidades mais antigas e centrais, para, aos 
poucos, atingir as instituições mais novas e mais distantes. Tal fato será verificado quando 
apresentarmos os autores dos artigos e resenhas desse dossiê. 
Dessa forma, revela-se na década de 1970, quanto à expansão da disciplina no 
território nacional, uma produção marcada pela repressão da ditadura militar. A História 
Antiga será vista, no setor universitário, como controle ideológico e, assim, será identificada 
com a chamada Direita política do país. Nos currículos de História das grandes 
universidades brasileiras haverá o predomínio da História Antiga adotada de maneira factual, 
bastante positivista, fator esse que irá ao encontro dos objetivos da censura. 
Os espaços das reflexões sociopolíticas, tão características e inerentes aos cursos 
de História, serão preenchidos por uma Antiguidade maniqueísta, olhada como algo curioso 
e não como um convite à análise dos processos históricos. Essa mácula, quase indelével, 
ficará durante muito tempo nos registros dos historiadores brasileiros especialistas em 
História do Brasil, da América, História Moderna e Contemporânea, os quais não medirão 
esforços para combater tais estudos sobre História Antiga, apesar do empenho, após a 
abertura política ocorrida na década de 1980, da maioria dos antiquistas brasileiros em 
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desconfigurar essa imagem distorcida ao acompanhar o novo resplendor da historiografia 
marxista. 
A partir de então, a produção de pesquisadores em Antiguidade não cessará em 
acompanhar os avanços da historiografia. Detentores do conhecimento das denominadas 
línguas mortas: aramaico, sânscrito, grego e latim e, fundamentalmente, de línguas 
estrangeiras como espanhol, inglês, francês, italiano e alemão, os estudiosos na área da 
Antiguidade terão acesso a tais avanços, como, por exemplo, à imprescindível contribuição 
analítica do historiador americano Moses Finley, atuante na Grã-Bretanha, que revolucionou 
a estrutura da análise da História Antiga ao criticar o modelo marxista com suas sínteses 
totalizadoras transplantadas pelas revoluções, elucidando a eficácia do conceito 
de ordem e status de inspiração weberiana em detrimento do emprego do conceito 
de classe social no que se refere à interpretação do que seriam os grupos sociais na 
antiguidade clássica. 
Os historiadores antiquistas nacionais acompanharão, muito atentos, os 
desdobramentos dessa interpretação, concordando ou não com essa premissa, mas não 
deixando de respeitar a obra de Finley, cujo aparato bibliográfico nos inspira até os dias 
atuais. As críticas às abordagens normativas inspiradas em Weber, a partir da década de 
1990, só podem ser compreendidas pela absorção das propostas da Escola de Cambridge 
no país3. 
Os conflitos sociais ocorridos na Antiguidade serão analisados sob prismas mais 
arrojados, e com o conhecimento da Nouvelle Histoire novos temas serão pesquisados em 
nossa área. A partir de meados da década de 1990, com o advento da História 
Cultural expandindo-se em nível nacional, houve uma multiplicação de Dissertações e Teses 
influenciadas pelo conceito de representação, o qual, mais tarde, no clarão do século XXI, 
será articulado à análise do discurso. 
O respeito pelo trato documental, sua datação e autoria, críticas internas e externas 
dos discursos, sua linguagem metafórica, enfim, a desconstrução do discurso serão 
albergados à luz das tropas de reconhecimento da pós-modernidade. Sempre aliados ao 
conhecimento documental e historiográfico, os investigadores antiquistas escolherão seus 
métodos, técnicas e teorias de abordagem, associando tais interpretações à análise 
iconográfica e à cultura material. 
Essa expansão no Brasil deu-se, portanto, em um contexto de renovação da 
historiografia em geral, e, conseqüentemente, sobre a Antigüidade, em particular. A 
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Historiografia passou a interagir cada vez mais intensamente com as outras Ciências 
Humanas e Sociais, em busca de interpretações que superassem as aporias teóricas e 
práticas do estudo das sociedades no presente e no passado. A multiplicação dos 
movimentos sociais e a explosão de conflitos e de identidades, com mais força desde a 
década de 1960, levaria a crítica aos modelos normativos. A historiografia sobre o mundo 
antigo não deixaria de inserir-se nessa renovação, com a multiplicação de estudos e 
abordagens contextuais e antinormativas. As leituras modernas da Antigüidade foram 
incorporadas à lide quotidiana da disciplina. A pesquisa de História Antiga no Brasil insere-
se neste contexto. Cada vez mais atenta à sua inserção nas discussões internacionais, não 
hesita, também, em mostrar como as especificidades brasileiras podem ser usadas, de 
maneira produtiva e fertilizadora, para contribuir com os debates nos ambientes 
hegemônicos. Deve-se também destacar a interação da História Antiga com o estudo da 
História de outros períodos e épocas. Foi com o sentido de esclarecer tais considerações 
que organizamosesse dossiê. 
Este volume, entretanto, não pretendeu abranger a imensa variedade da produção 
nacional: isso superaria, em muito, o espaço disponível. Preferimos apresentar uma amostra 
dessa mesma variedade, sabedores de que outras tantas iniciativas têm contribuído e 
continuarão a contribuir para a complexa tarefa de difundir a História Antiga produzida no 
Brasil. Assim, nesse empreendimento, destacam-se somente nove autores de artigos e três 
autores de resenhas de livros recentemente publicados em nosso país. 
Abrindo o leque de discursos investigativos aqui apresentado, em sua totalidade por 
professores de História Antiga, temos o trabalho de Ana Teresa Marques Gonçalves – do 
Departamento de História da Universidade Federal de Goiás (UFG) – intitulado Septímio 
Severo e a Consecratio de Pertinax: Rituais de Morte e Poder, no qual a autora analisa a 
cerimônia de deificação do Imperador Pertinax ocorrida após a sua morte (século III d.C.). O 
texto de Andréa L.D.C. Rossi – do Departamento de História da Unesp/Assis e partícipe do 
Núcleo de Estudos Antigos e Medievais das Unesp – Assis/Franca – leva-nos ao 
conhecimento de Mitologia: Abordagem Metodológica para o Historiador da Antiguidade 
Clássica, onde a historiadora propõe uma aplicação da análise da semiótica na interpretação 
da obra de Dion Chrisóstomo, mais conhecido como Dion de Prusa, filósofo bitiniano que 
viveu entre 40 e 115 d.C. Com Fábio Faversani – do Departamento de História da 
Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) –, percorremos o caminho para a compreensão 
de O Estado Imperial e os Pequenos Impérios, onde o autor focaliza o tema na obra de 
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Sêneca, filósofo estóico do período neroniano. Ao nos debruçarmos sobre o texto de Fábio 
Vergara Cerqueira – do Departamento de História da Universidade Federal de Pelotas 
(UFPEL) –, passamos a conhecer melhor A Imagem Pública do Músico e da Música na 
Antiguidade Clássica: Desprezo ou Admiração?, no qual o autor analisa as representações 
que definem o músico no imaginário social das sociedades grega e romana antigas. Já 
Gilvan Ventura da Silva – do Departamento de História da Universidade Federal do Espírito 
Santo (UFES), uma das poucas referências do Brasil em estudos específicos sobre os 
séculos IV e V d.C., disserta a respeito de Ascetismo, Gênero e Poder no Baixo Império 
Romano: Paládio de Helenópolis e o Status das devotas cristãs. Através da obra História 
Lausíaca de Paládio, o investigador interpreta o papel das ascetas no movimento monástico 
dominado pelos homens. O historiador Glaydson José da Silva – pesquisador do Núcleo de 
Estudos Estratégicos da Unicamp – apresenta um trabalho que trata da interface História 
Contemporânea/História Antiga quando, em O Mundo Antigo visto por Lentes 
Contemporâneas: as extremas direitas na França nas décadas de 80 e 90, ou da 
instrumentalidade da antiguidade, o autor interpreta os usos do passado pelas extremas 
direitas francesas como formas de se compreender a contemporaneidade; linha de pesquisa 
que vem tomando vulto desde meados da década de 1990 e se fortalecendo cada vez mais 
atualmente. 
Dando seqüência ao dossiê, temos o artigo de Ivan Esperança Rocha – do 
Departamento de História da Unesp/Assis e Coordenador do Núcleo de Estudos Antigos e 
Medievais das Unesp Assis/Franca –, cujo título,Imagem do Judaísmo: Aspecto 
do Aniconismo Identitário, refuta que as formas visuais vêm ganhando um espaço 
significativo nos estudos da Antiguidade, pois a historiografia tem considerado sua 
capacidade de representar os imaginários sociais e de evidenciar as mentalidades coletivas. 
Com Norberto Luiz Guarinello – do Departamento de História da USP – adquirimos 
conhecimento com Violência como Espetáculo: o pão, o sangue e o circo. Nesse trabalho, 
de uma forma bastante dinâmica, Guarinello constrói um diálogo constante entre a violência 
da contemporaneidade e a noção da mesma na Antiguidade. Finalmente, o último artigo, de 
Renata Senna Garrafoni – do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná 
(UFPR) –, Os Bandidos entre os romanos: Leituras Eruditas e Percepções 
Populares, esclarece como a elite romana visualizava os bandidos antigos na literatura 
satírica e que, por meio de estudos epigrafemos, pode-se analisar a imagem do roubo na 
cultura popular. 
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Na seção final do volume, encontram-se as resenhas de livros de autores do país, 
publicados nos últimos dois anos. Cláudio Umpierre Carlan– Doutorando do Programa de 
Pós-Graduação em História da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos 
– resenha o livro da historiadora Lourdes M. G. Conde Feitosa,Amor e Sexualidade: o 
masculino e o feminino em grafites de Pompéia. Fábio Duarte Joly – professor do 
Departamento de História da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) – tece 
comentários críticos sobre o livro da autora Marilena Vizentin, Imagens do Poder em Sêneca: 
estudos sobre o De Clementia, e Maria Aparecida de Oliveira Silva – Doutoranda do 
Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da USP – 
redigiu a súmula crítica do livro de Renata Senna Garrafoni, Gladiadores na Roma Antiga: 
dos Combates às Paixões Cotidianas. Todas essas resenhas são um convite instigante aos 
leitores do mundo acadêmico ou para todos aqueles que gostam e valorizam a História 
Antiga. 
Enfim, a riqueza dos artigos e das obras resenhadas confirmam nossas alusões 
anteriormente expostas acerca dos avanços historiográficos realizados pela produção 
nacional, demonstrando que a História Antiga está mais viva do que nunca. Nesse sentido, 
a residual obtusidade daqueles que insistem em não valorizar as pesquisas dessa área, 
certamente, será questionada, uma vez mais, com o trabalho profícuo aqui desenvolvido. 
Agradecimentos 
Agradecemos aos editores da História/Unesp, Prof. Dr. Carlos Alberto Sampaio 
Barbosa e Profa. Dra. Tânia da Costa Garcia, e à sua comissão editorial pelo espaço 
concedido à publicação desse dossiê. A todos os autores do volume, assim como 
mencionamos o apoio institucional do CNPq, do Núcleo de Estudos Estratégicos 
(NEE/Unicamp), Departamento de História da Unicamp e Departamento de História da 
Unesp/Franca, assim como ao Núcleo de Estudos Antigos e Medievais das Unesp 
Assis/Franca. À Helena Amália Papa – mestranda em História Antiga do Programa de Pós-
graduação em História da Unesp/Franca, pelo apoio à organização desse dossiê. A 
responsabilidade das idéias aqui apresentadas é da ordem exclusiva dos autores desta 
apresentação. 
 
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39 
 
12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICOS 
 Marrocos e suas relações com a Ibéria na Antiguidade, 1946. 
 Exige-se, de qualquer historiador que pretenda ser um antiquista, o conhecimento 
de, pelo menos, uma língua morta e duas línguas estrangeiras. 
Cf. FUNARI, P. P. A. Júlio César, poder, instituições e jurisdições na construção 
biográfica de Plutarco. In: GUIMARÃES, Marcella Lopes; FRIGHETTO, Renan 
(Org.). Instituições, poderes e jurisdições. Curitiba: Juruá, 2007. , p.175-180. 
 Cf. MUNSLOW, Alun. Deconstructing history. Londres: Routledge, 1997. 
 
Cf. FUNARI, Pedro Paulo A. A renovação no ensino de História Antiga. In: KARNAL, Leandro 
(Org.). História na Sala de Aula. São Paulo: Contexto, 2003. p.95-108, com referências. 
 
E.g. CARVALHO, Margarida Maria de. Interpretações Críticas sobre algumas Biografias do 
Imperador Juliano dos séculos XIX e XX. In: ANDRADE FILHO, Ruy de Oliveira 
(Org.). Relações de poder, cultura e educação na Antiguidade e Idade Média. 1. ed. São 
Paulo: Solis, 2005. p.217-226. 
 
 E.g. CARVALHO, Margarida Maria de; LOPEZ, M. A. S.; FRANÇA, S. S. L. (Orgs.). As 
cidades no tempo.1. ed. São Paulo: Olho d'Água, 2005. v. 1. 323 p. 
 
 Doutorando do Prof. Dr. Pedro Paulo Funari. 
 
 Doutoranda do Prof. Dr. Norberto Luiz Guarinello. 
 
 
 
 
 
 
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13 LEITURA COMPLEMENTAR 
Nome do autor: Rafael de Bivar Marquese 
Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-
33002006000100007&script=sci_arttext 
Data do acesso: 06/05/2016 
 
14 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL 
14.1 Resistência, tráfico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX 
14.2 RESUMO 
O artigo examina as relações entre o tráfico negreiro transatlântico para o Brasil, os 
padrões de alforria e a criação de oportunidades para a resistência escrava coletiva 
(formação de quilombos e revoltas em larga escala), do final do século XVII à primeira 
metade do século XIX. Valendo-se das proposições teóricas de Patterson e Kopytoff, sugere 
uma interpretação para o sentido sistêmico do escravismo brasileiro na longa duração, sem 
dissociar a condição escrava da condição liberta, nem o tráfico das manumissões. 
Palavras-chave: escravidão; história do Brasil; tráfico negreiro; alforrias; resistência 
escrava. 
 
SUMMARY 
The article examines the relationships between the transatlantic slave trade for Brazil, 
manumissions patterns and the creation of opportunities for collective slave resistance 
(formation of maroons communities and large revolts), from the end of the XVIIth century to 
the first half of the XIXth century. Based on the theoretical propositions of Patterson and 
Kopytoff, it suggests an interpretation for the Brazilian slave system in the long duration 
without dissociating the slave condition from the freedman one and the slave trade from the 
manumissions. 
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Keywords: slavery; Brazilian history; transatlantic slave trade; manumissions; slave 
resistance. 
 
 O ENIGMA DE PALMARES 
A Guerra dos Palmares foi um dos episódios de resistência escrava mais notáveis na 
história da escravidão do Novo Mundo. Ainda que as estimativas das fontes coevas e dos 
historiadores sobre o número total de habitantes divirjam bastante — de um mínimo de 6 mil 
a um máximo de 30 mil pessoas , não há como negar que as comunidades palmarinas, dada 
a extensão territorial e a quantidade de escravos fugitivos que acolheram, tornaram-se o 
maior quilombo na história da América portuguesa. Suas origens datam do início do século 
XVII, mas sua formação como grande núcleo quilombola se deu apenas no contexto da 
invasão holandesa de Pernambuco, quando diversos escravos se aproveitaram das 
desordens militares e fugiram para o sul da capitania. As comunidades rebeldes que então 
se organizaram resistiram a diversas incursões da Companhia das Índias Ocidentais e, após 
a expulsão dos holandeses, a ataques das tropas luso-brasileiras. 
Nas décadas de 1670 e 1680, os africanos, crioulos e descendentes alojados em 
Palmares eram vistos pelas autoridades metropolitanas como "holandeses de outra cor", por 
conta da ameaça que representavam à ordem colonial portuguesa na América. Sua derrota 
pela força das armas só ocorreu em meados da década seguinte, após um conflito secular 
com dois dos maiores poderes coloniais europeus do mundo moderno. Antes da revolução 
escrava de São Domingos (1791-1804) e das grandes revoltas abolicionistas do Caribe 
inglês no primeiro terço do século XIX, o episódio de Palmares só teve equivalente na I 
Guerra Maroon da Jamaica (1655-1739) e na Guerra dos Saramaca no Suriname (1685-
1762). Nesses dois casos, entretanto, os quilombolas conseguiram vencer as tropas 
repressoras, forçando autoridades e senhores a reconhecerem a liberdade dos grupos 
revoltosos2. 
A história da derrota do grande quilombo palmarino deu origem a um enigma que há 
certo tempo chama a atenção dos especialistas em escravidão brasileira: por que não houve 
outros Palmares na história do Brasil? O ponto é importante, pois a atividade quilombola se 
ampliou no século XVIII, com o aumento do volume do tráfico negreiro transatlântico e a 
formação dos núcleos mineratórios no interior do território, assumindo diferentes 
42 
 
42 
 
modalidades de norte a sul da América portuguesa. Afora as numerosas comunidades 
quilombolas, de dimensões e duração variáveis, o Brasil viu aparecer no início do século XIX 
outra forma de resistência escrava coletiva, presente no Caribe inglês havia bom tempo: o 
ciclo de revoltas africanas que agitou o Recôncavo Baiano entre 1807 e 1835. 
A resposta que os historiadores forneceram ao enigma aponta para a mudança na 
legislação escravista portuguesa. Após Palmares, dizem eles, houve uma progressiva 
especificação das funções do capitão-do-mato — responsável legal nas diferentes 
localidades da América portuguesa pela captura de escravos fugitivos — e delimitação, nas 
letras da lei, do que seria uma comunidade quilombola. A institucionalização da figura do 
capitão-do-mato e a definição de quilombo como qualquer ajuntamento composto de alguns 
poucos escravos fugitivos teriam tolhido, já no nascedouro, a formação de comunidades 
rebeldes com as proporções de Palmares. Creio, no entanto, ser possível avançar outra 
explicação, que — sem negar a fornecida pelos historiadores que trataram do assunto — 
recorre à configuração que o escravismo brasileiro adquiriu a partir do final do século XVII. 
O objetivo deste ensaio é justamente entender por que não houve outros Palmares 
na história do Brasil. Para tanto, concentrarei minha atenção nas relações entre tráfico 
negreiro transatlântico, alforrias e criação de oportunidades para a resistência escrava 
coletiva (como a formação de quilombos e as revoltas em larga escala), do final do século 
XVII à primeira metade do século XIX. A idéia é de que eventos como Palmares, a Guerra 
Maroon jamaicana ou a campanha dos Saramaca estiveram diretamente ligados à 
configuração de determinado tipo de sistema escravista, que denominarei "escravismo de 
plantation". Nesse sistema, a produção econômica se concentrava em um único produto e o 
quadro social era marcado por desbalanço demográfico entre brancos livres e escravos 
negros, amplo predomínio de africanos nas escravarias, poucas oportunidades para a 
obtenção de alforria e altas taxas de absenteísmo senhorial. 
Um sistema escravista dessa natureza, típico das colônias caribenhas inglesas e 
francesas do século XVIII, e cujas características básicas tiveram desenvolvimento apenas 
parcial na América portuguesa da primeira metade do século XVII, não mais encontrou 
espaço nos dois séculos subseqüentes da história do Brasil. Com a mineração, essa 
mudança de fundo no caráter do escravismo brasileiro apenas se acentuou. A instituição se 
difundiu social e espacialmente, com a disseminação da posse de escravos pelo tecido 
social e a criação de hierarquias étnicas e culturais bastante complexas. Antigas áreas de 
43 
 
43 
 
plantation, como a Zona da Mata pernambucana e o Recôncavo Baiano, mesmo mantendo 
a produção escravista açucareira, verificaram igualmente essas transformações. 
A partir de fim do século XVII, o sistema escravista brasileiro passou a escorar-se em 
uma estreita articulação entre tráfico transatlântico de escravos bastante volumoso e número 
constante de alforrias. Nessa equação, era possível aumentar a intensidade do tráfico, com 
a introdução de grandes quantidades de africanos escravizados, sem colocar em risco a 
ordem social escravista. Logo após a derrota de Palmares, reduziram-se substancialmente 
as oportunidades de sucesso para as revoltas escravas e os grandes quilombos no Brasil. 
Não por acaso, com exceção de uma breve ocasião na década de 1670, ainda no curso da 
Guerra dos Palmares, as autoridades coloniaisportuguesas e os representantes imperiais 
brasileiros sempre se recusaram a negociar com revoltosos e quilombolas. Essa posição 
política, que traduzia o quadro das relações de força entre senhores e escravos no Brasil, 
teve como contraponto a atitude de ingleses e holandeses, forçados a reconhecer em 
tratados de paz as conquistas que Maroon e Saramaca obtiveram em campo de batalha. 
É importante salientar que faz pelo menos três décadas os historiadores têm anotado 
a relação estreita que houve na história do Brasil entre o volume do tráfico negreiro 
transatlântico e as altas taxas de alforrias. O que falta, acredito, é fornecer um 
enquadramento teórico mais substantivo para essa articulação, relacionando-a ao limitado 
campo de possibilidades de sucesso para a resistência escrava coletiva no Brasil. 
Valendo-me dos estudos disponíveis, procurarei ler os resultados à luz das 
proposições teóricas de Orlando Patterson e Igor Kopytoff, que não secionam a experiência 
do escravo da experiência do forro; ambos encaram a escravização, a situação de 
escravidão e a manumissão como partes de um mesmo processo institucional. De acordo 
com a sugestiva formulação de Kopytoff, 
a escravidão não deve ser definida como um status, mas sim como um processo de 
transformação de status que pode prolongar-se uma vida inteira e inclusive estender-se para 
as gerações seguintes. O escravo começa como um estrangeiro [outsider] social e passa 
por um processo para se tornar um membro [insider]. Um indivíduo, despido de sua 
identidade social prévia, é colocado à margem de um novo grupo social que lhe dá uma nova 
identidade social. A estraneidade[outsidedness], então, é sociológica e não étnica7. 
Com base nessa proposição, tentarei sugerir um esquema interpretativo para o 
sentido sistêmico do escravismo brasileiro na longa duração, sem dissociar a condição 
escrava da condição liberta e o tráfico negreiro das alforrias. Como em todo ensaio, há 
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sempre o risco derivado do alto grau de generalização, afora o fato de esse sentido sistêmico 
não ter sido de todo claro aos contemporâneos. A tomada de consciência do processo 
institucional do escravismo brasileiro ocorreu apenas no início do século XIX, mais 
especificamente no contexto da independência, tanto pelos viajantes estrangeiros que então 
percorriam o território brasileiro como, sobretudo, pelos construtores do Império do Brasil. 
Tal é meu ponto de chegada. Noutros termos, pretendo demonstrar que a percepção da 
experiência histórica colonial, que combinava tráfico negreiro e alforrias, teve papel 
importante para definir o porvir da escravidão nos quadros do Estado nacional brasileiro. 
 
15 ESCRAVISMO DE PLANTATION 
Nos séculos que se seguiram ao colapso do Império romano, a escravidão não 
desapareceu por completo na Europa ocidental e mediterrânea. No entanto, no decorrer da 
Baixa Idade Média, a escravidão como sistema de trabalho deixou de existir no Ocidente 
europeu, excetuando-se os países do Mediterrâneo, isto é, das penínsulas Ibérica e Itálica. 
Mesmo aí, ela foi, nos séculos XIV e XV, tão-somente uma instituição urbana, com 
importância limitada no conjunto da economia; o emprego em larga escala de cativos na 
produção agrícola havia se tornado residual nestas últimas regiões. A recriação do 
escravismo, com o emprego massivo de escravos nas tarefas agrícolas, seria realizada por 
portugueses e espanhóis só após a segunda metade do século XV, com a introdução da 
produção açucareira nas ilhas atlânticas orientais (Canárias, Madeira, São Tomé), e, no 
século XVI, com a colonização da América. 
Baseada na experiência acumulada com o fabrico do produto nas ilhas da Madeira e 
de São Tomé, a Coroa portuguesa procurou estimular a construção de unidades açucareiras 
no Brasil desde a década de 1530. Mas, até os anos 1570, os colonos encontraram grandes 
dificuldades para fundar em bases sólidas uma rede de engenhos no litoral, como problemas 
com o recrutamento da mão-de-obra e falta de capitais para financiar a montagem dos 
engenhos. Ao serem superadas tais dificuldades, com atrelamento da produção brasileira 
aos centros mercantis do Norte da Europa e articulação do tráfico de escravos entre África 
e Brasil, tornou-se viável o arranque definitivo da indústria de açúcar escravista da América 
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portuguesa, o que ocorreu entre 1580 e 1620, quando o crescimento acelerado da produção 
brasileira ultrapassou todas as outras regiões abastecedoras do mercado europeu. 
Cabem aqui algumas palavras sobre o papel que o tráfico transatlântico de africanos 
desempenhou no deslanche da produção açucareira brasileira. A mão-de-obra empregada 
na montagem dos engenhos de açúcar no Brasil foi predominantemente indígena. Uma parte 
dos índios (recrutados em aldeamentos jesuíticos no litoral) trabalhava sob regime de 
assalariamento, mas a maioria era submetida à escravidão. Os primeiros escravos africanos 
começaram a ser importados em meados do século XVI; seu emprego nos engenhos 
brasileiros, contudo, ocorria basicamente nas atividades especializadas. Por esse motivo, 
eram bem mais caros que os indígenas: um escravo africano custava, na segunda metade 
do século XVI, cerca de três vezes mais que um escravo índio. Após 1560, com a ocorrência 
de várias epidemias no litoral brasileiro (como sarampo e varíola), os escravos índios 
passaram a morrer em proporções alarmantes, o que exigia reposição constante da força de 
trabalho nos engenhos. Na década seguinte, em resposta à pressão dos jesuítas, a Coroa 
portuguesa promulgou leis que coibiam de forma parcial a escravização de índios. Ao 
mesmo tempo, os portugueses aprimoravam o funcionamento do tráfico negreiro 
transatlântico, sobretudo após a conquista definitiva de Angola em fins do século XVI. Os 
números do tráfico bem o demonstram: entre 1576 e 1600, desembarcaram em portos 
brasileiros cerca de 40 mil africanos escravizados; no quarto de século seguinte (1601-
1625), esse volume mais que triplicou, passando para cerca de 150 mil os africanos 
aportados como escravos na América portuguesa, a maior parte deles destinada a trabalhos 
em canaviais e engenhos de açúcar. 
O sucesso da produção escravista de açúcar da América portuguesa logo atraiu a 
atenção dos demais poderes coloniais europeus. Já em fim do século XVI, era crescente o 
envolvimento de negociantes ingleses e holandeses no comércio açucareiro entre Brasil e 
Europa. As invasões holandesas da Bahia (1624) e Pernambuco (1630) foram em grande 
parte motivadas pelo dinamismo da economia açucareira dessas capitanias. Os membros e 
acionistas da Companhia das Índias Ocidentais holandesa (WIC), contudo, na época em que 
comandaram a invasão das regiões produtoras de açúcar no Brasil, desconheciam por 
completo os segredos da produção do artigo, que se resumiam basicamente a três aspectos: 
as técnicas de processamento da cana-de-açúcar, as técnicas de administração dos 
escravos e a organização do tráfico negreiro transatlântico. Cedo os invasores perceberam 
a estreita relação geoeconômica que havia entre a África e as regiões de plantation 
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escravista na América. De nada valeriam as possessões brasileiras se não se 
conquistassem os pontos que forneciam escravos do outro lado do Atlântico. Por esse 
motivo, sob o comando de Maurício de Nassau, a WIC promoveu em 1638 a conquista do 
entreposto português de São Jorge da Mina e em 1641 a invasão de Angola. 
O domínio holandês em Pernambuco durou pouco. Em 1645, eclodiu a revolta dos 
colonos luso-brasileiros, que levaria à expulsão definitiva dos holandeses da América 
portuguesa em 1654; antes disso, em 1648, os colonos luso-brasileiros do Rio de Janeirose 
responsabilizaram diretamente pela expulsão dos holandeses de Angola. Com o fracasso 
da experiência brasileira e angolana, a WIC deixou de priorizar a produção de açúcar e 
passou a direcionar-se para a compra do produto obtido em regiões que não estavam sob 
seu comando direto. Nesse sentido, os comerciantes holandeses procuraram estimular os 
colonos ingleses e franceses do Caribe a produzir açúcar. Ainda durante a ocupação do 
Brasil, na segunda metade da década de 1640, os mercadores holandeses transmitiram as 
técnicas dos engenhos brasileiros aos colonos ingleses de Barbados e aos franceses da 
Martinica e Guadalupe, além de abastecê-los com escravos trazidos dos entrepostos da WIC 
no golfo da Guiné. A partir da década de 1660, a produção de açúcar com mão-de-obra 
escrava nas ilhas inglesas e francesas verificou crescimento notável, além de os mercadores 
desses dois países passarem a envolver-se diretamente no tráfico negreiro transatlântico. 
No começo do século XVIII, a paisagem física e humana do Caribe havia se modificado 
completamente: as ilhas converteram-se em imensos canaviais e a população tornou-se 
esmagadoramente negra, quase toda ela escravizada. 
No curso das guerras contra os holandeses no Atlântico Sul, o abastecimento de 
escravos aos engenhos brasileiros diminuiu de forma sensível. Se, entre 1601 e 1625, 
haviam sido introduzidos cerca de 150 mil africanos escravizados na América portuguesa, 
no quarto de século seguinte esse volume se reduziu para apenas 50 mil. De todo modo, a 
invasão holandesa de Pernambuco e os conflitos que se seguiram contra os colonos luso-
brasileiros abriram boas oportunidades de resistência aos escravos que haviam 
desembarcado em grande número no primeiro quarto do século XVII. Não por acaso, o 
aporte cultural decisivo para a configuração política do reino "neoafricano" de Palmares foi 
fornecido pelos grupos humanos originários do Centro-Sul da África, exatamente a zona em 
que os traficantes portugueses mais operaram a partir de fim do século XVI. 
A dimensão e a força do quilombo de Palmares se explicam não apenas pela 
conjuntura do conflito imperial entre portugueses e holandeses, mas pela própria demografia 
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da região das plantations açucareiras pernambucanas. Qualquer assertiva categórica sobre 
a composição da população colonial antes do século XVIII é perigosa, mas creio que não há 
riscos em afirmar que quando os holandeses invadiram a capitania de Pernambuco, os 
escravos negros predominavam em termos numéricos sobre a população branca — e 
mesmo sobre os indígenas "domesticados". Pode-se afirmar também, com base nos poucos 
dados disponíveis, que a população negra livre era relativamente diminuta. Tratava-se, 
enfim, de um quadro demográfico bastante propício à eclosão de movimentos coletivos de 
resistência escrava, como a experiência posterior do Caribe inglês bem o demonstraria. 
Após a expulsão dos holandeses, as tropas luso-brasileiras se encarregaram do 
combate sem trégua aos palmarinos. O grande problema a ser enfrentado pelos colonos, no 
entanto, encontrava-se na esfera econômica. A rápida montagem do complexo açucareiro 
escravista nas Antilhas a partir da década de 1650 logo trouxe forte impacto negativo para 
a economia açucareira na América portuguesa. O crescimento das produções inglesa e 
francesa no Caribe derrubou o preço do açúcar nos mercados europeus, ao mesmo tempo 
que a demanda por trabalhadores negros nas plantations antilhanas aumentou os preços 
dos escravos no litoral africano. Além disso, os senhores de engenho luso-brasileiros tiveram 
que enfrentar outros dois problemas. Em primeiro lugar, devido às políticas mercantilistas 
adotadas pela Inglaterra e pela França na segunda metade do século XVII, que procuravam 
estimular a produção antilhana garantindo-lhe proteções monopolistas, o açúcar brasileiro 
foi praticamente excluído desses dois mercados europeus. Em segundo lugar, entre 1640 e 
1668, Portugal travou uma dura guerra contra a Espanha em prol da independência, no exato 
momento em que o "Império da Pimenta" oriental entrava em colapso. Na segunda metade 
do século XVII, as possessões do Novo Mundo se tornaram o sustentáculo econômico de 
Portugal. Uma tributação pesada sobre o açúcar brasileiro foi criada então para dar conta 
dos gastos com a diplomacia e a defesa do Reino. 
Tais atribulações não impediram a sobrevivência da economia açucareira na América 
portuguesa. Em que pesem a desorganização trazida pelas guerras do Atlântico Sul entre 
as décadas de 1620 e 1650, a elevada taxação pós-1650, a concorrência antilhana e a 
restrição do acesso a certos mercados europeus, os senhores de engenho luso-brasileiros 
conseguiram manter a produção de açúcar em patamares estáveis. Para tanto, foi vital a 
consolidação do sistema atlântico bipolar unindo a África aos portos brasileiros, assegurada 
pela reconquista de Angola em 1648. Na segunda metade do século XVII, foram introduzidos 
cerca de 360 mil africanos escravizados no Brasil. Tal sistema, ao garantir um fluxo contínuo 
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de escravos a baixo custo para os engenhos brasileiros, viabilizou a atividade econômica 
açucareira da Colônia em uma conjuntura internacional bastante adversa. 
Algumas evidências sugerem que, naquele período conturbado da economia 
açucareira, as alforrias ganharam impulso. É certo que a manumissão de escravos se fez 
presente na Colônia desde os primeiros anos. No entanto, a existência de documentação 
seriada da prática apenas na segunda metade do século XVII talvez indique que ela tenha 
se disseminado só após essa época. Na historiografia da escravidão brasileira, um dos 
primeiros estudos feitos sobre o tema tratou exatamente da Bahia — ao lado de 
Pernambuco, o centro da economia açucareira colonial — entre 1684 e 1745. O pesquisador 
Stuart Schwartz registrou e analisou uma série de práticas relacionadas à manumissão, as 
quais depois se repetiriam em diferentes tempos e espaços na América portuguesa e no 
Império do Brasil. Dentre as mais de mil cartas de alforrias examinadas pelo autor, houve 
uma proporção constante de duas mulheres libertadas para cada homem. Dado o amplo 
predomínio numérico de homens no tráfico transatlântico e na própria composição das 
escravarias, escreve Schwartz, "as mulheres obtinham liberdade numa proporção muito 
maior do que as expectativas estatísticas". Igualmente privilegiados do ponto de vista 
estatístico foram os escravos nascidos no Brasil, isto é, os crioulos e, sobretudo, os pardos: 
este grupo constituiu 69% do universo das alforrias, contra apenas 31% de africanos 
libertados. Houve, por fim, grande proporção de crianças e adolescentes menores de 14 
anos entre os alforriados. A tendência predominante de alforriar mulheres escravas em idade 
fértil, conclui Schwartz, comprometeu as possibilidades de reprodução demográfica auto-
sustentável da escravidão brasileira, o que acabou por acentuar o papel estrutural do tráfico 
negreiro transatlântico para repor a força de trabalho escrava 
 
 MINERAÇÃO 
 
Esse padrão demográfico se consolidou com as descobertas auríferas na virada do 
século XVII para o XVIII, ampliando-se geograficamente. A atração que a possibilidade de 
enriquecimento rápido exerceu sobre a população metropolitana e colonial foi imensa, 
levando grandes contingentes humanos a se transferirem para a nova região das minas. 
Esse afluxo constituiu, nos termos de uma especialista, "a primeira grande migração maciça 
na história demográfica brasileira" Afora o deslocamento interno na Colônia, as minas 
atraíram para o Brasil um quantidade ainda maior de imigrantes portugueses, calculada em 
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cerca de 400 milindivíduos durante todo o século XVIII. A grande onda migratória para a 
região, contudo, foi compulsória. O volume do tráfico transatlântico de escravos para a 
América portuguesa, que já era o maior do Novo Mundo, duplicou na primeira metade do 
Setecentos. Entre 1701 e 1720, desembarcaram nos portos brasileiros cerca de 292 mil 
africanos escravizados, em sua maioria destinados às minas de ouro. Entre 1720 e 1741, 
novo aumento: 312,4 mil indivíduos. Nas duas décadas seguintes, o tráfico atingiu seu pico 
máximo: 354 mil africanos escravizados foram introduzidos na América portuguesa entre 
1741 e 1760. 
O enorme avanço territorial e demográfico da colonização portuguesa na América 
ocorrido no século XVIII se fez acompanhar por um aumento correspondente das tensões 
econômicas, sociais e políticas. No caso específico de Minas Gerais, capitania criada em 
1720, o processo tumultuário de ocupação de seu território se traduziu no aguçamento dos 
conflitos: carência alimentar, que provocou fomes terríveis nos primeiros anos e a que se 
sucederam ações especulativas no abastecimento de gêneros de primeira necessidade para 
a região; embates entre os primeiros descobridores-povoadores (paulistas) e os adventícios, 
tanto da Colônia como do Reino, que explodiram na Guerra dos Emboabas; esforços da 
Coroa para impor seu poder na região, com a criação de vilas e a instalação de um aparato 
burocrático, acompanhados em contrapartida por resistência aguda dos colonos a tal política 
de normatização. Para nossos fins, no entanto, interessa ressaltar outro tipo de conflito 
social, expresso nas fugas, na formação de quilombos e em planos mais amplos de levante 
escravo. 
Com efeito, diversos autores apontam que, dadas as condições particulares da 
atividade mineratória, os escravos tiveram aí maiores oportunidades para exercer sua 
autonomia e resistir ao controle senhorial. A dispersão espacial das lavras auríferas, a 
possibilidade de os trabalhadores se apropriarem de parte dos resultados da extração ou o 
próprio controle que detinham sobre o processo de trabalho (como no caso notório dos 
pretos-minas, reputados como grande mineradores no período) ampliaram sobremaneira a 
autonomia escrava. Por essas razões, os senhores recorreram com freqüência a meios não 
coercitivos para garantir a regularidade da extração, o que, por sua vez, facilitou o acúmulo 
de numerário e a compra da alforria pelos cativos. 
A existência de canais para o exercício da autonomia escrava não significou tão 
somente acomodação com os poderes senhoriais, mas também maiores possibilidades para 
a resistência. Quanto ao último ponto, os historiadores registram a presença de um grande 
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número de quilombos em Minas Gerais, os quais, repetidas vezes, mantiveram intensas 
trocas econômicas com a sociedade que os circundava. João José Reis indica que essa 
multiplicação da atividade quilombola pode ter sido decorrência da própria sanha repressora 
da metrópole, pois a "definição mesquinha" de quilombo 
Como o ajuntamento de cinco ou mais negros fugidos arranchados em sítios 
despovoados [...], concebida para melhor controlar as fugas, terminou por agigantar o 
fenômeno aos olhos de seus contemporâneos e de estudiosos posteriores. 
Correta ou não a avaliação, o certo é que, dentre a miríade de pequenos ajuntamentos 
de fugitivos, houve pelo menos dois grandes quilombos em Minas Gerais, cuja população 
atingiu a casa do milhar: o Quilombo do Ambrósio, derrotado em 1746, e o Quilombo Grande, 
vencido em 1759. Afora esses dois exemplos, os pesquisadores identificaram ainda três 
planos de levante escravos (1711, 1719 e 1756), todos desbaratados antes que eclodissem. 
A questão formulada no início do ensaio volta aqui: diante desse quadro social 
explosivo, com amplo predomínio numérico da população negra sobre a população branca, 
por que não houve nada similar a Palmares em Minas Gerais? A pergunta é ainda mais 
intrigante se lembrarmos que o exemplo dos palmarinos rondou a cabeça das autoridades 
públicas mineiras por toda a primeira metade do século XVIII. As advertências feitas em 
1718 pelo conde de Assumar ao rei d. João V são famosas: segundo o governador da então 
capitania de São Paulo e Minas do Ouro, o combate aos quilombolas era assunto de 
fundamental relevância, pois dele poderia "depender a conservação ou ruína deste país [...] 
porque vejo mui inclinada a negraria deste governo a termos aqui algo semelhante aos 
Palmares de Pernambuco". 
Como já vimos, a resposta corrente é de que uma dura legislação repressiva, somada 
à institucionalização da figura do capitão-do-mato, impediu a eclosão de novos Palmares na 
América portuguesa. Alguns historiadores, no entanto, apresentam explicação alternativa. 
Donald Ramos, por exemplo, sugere que a própria proliferação de pequenas comunidades 
fugitivas em Minas Gerais serviu para esvaziar o poder de contestação ao sistema 
escravista. O comércio ativo que muitos desses pequenos quilombos estabeleceram com a 
sociedade mineratória indicaria que eles representaram antes uma "válvula de escape" do 
que uma oposição frontal ao sistema escravista. O que mais nos interessa na argumentação 
de Ramos, contudo, é sua lembrança de que as alforrias desempenharam papel análogo 
como esteio da ordem social escravista. 
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De fato, a prática da manumissão encontrou enorme difusão na América portuguesa 
a partir do século XVIII. Não por acaso, uma parcela substantiva dos estudos sobre o assunto 
tratam de Minas Gerais nesse período. Diante da impossibilidade de passar em revista todos 
os trabalhos disponíveis ou mesmo os mais relevantes, o sumário dos resultados 
apresentado recentemente por John Russell-Wood é bastante útil. Dois pontos 
particularizaram a experiência mineira no conjunto da América portuguesa: em primeiro 
lugar, a tendência a libertar-se mais no período de apogeu (primeira metade do século XVIII) 
do que no período de retração da atividade aurífera; em segundo lugar, a presença mais 
freqüente da coartação como mecanismo de libertação dos escravos, isto é, do pagamento 
da carta de alforria pelo escravo em parcelas periódicas. Em tudo o mais que diz respeito à 
prática da manumissão, resume Russell-Wood, os estudos sobre as minas setecentistas 
Concordam que as mulheres eram preferidas aos homens, os mulatos aos negros, os 
nascidos no Brasil aos nascidos na África, os escravos urbanos aos das regiões rurais e que 
muitos senhores preferiam alforriar bebês em vez de adultos. 
As alforrias em Minas Gerais, enfim, em linhas gerais reiteraram o modelo que Stuart 
Schwartz encontrou para a Bahia já em fim do século XVII. Esse padrão obedeceu a uma 
norma básica: quanto mais afastados da experiência do tráfico negreiro transatlântico, 
maiores seriam as possibilidades de os escravos e as escravas ganharem alforria; o homem 
africano, predominante nos tumbeiros, dificilmente a obteria, mas seus descendentes, em 
uma ou mais gerações, sim. 
 
O SISTEMA BRASILEIRO 
 
No fim do século XVIII e início do XIX, a América portuguesa contava com uma 
configuração demográfica ímpar no quadro das sociedades coloniais do Novo Mundo. Para 
compreendê-la devidamente, vale dar uma olhada a vôo de pássaro nas demais colônias 
européias de então. 
As diversas ilhas açucareiras do Caribe inglês e francês, em que pesem as variações, 
apresentaram durante todo o século XVIII desbalanço enorme entre a quantidade de brancos 
e escravos negros. O predomínio numérico dos últimos foi esmagador, mesmo em colônias 
com maior número relativo de colonos de origem européia. Esse foi o caso de Barbados, 
que, durante o Setecentos, teve sempre cerca de quatro escravos negros para cadabranco. 
Já em colônias como São Domingos, às vésperas da revolução a proporção era de quinze 
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escravos para cada branco. Tampouco o número de negros e mulatos livres chegou a 
equipar-se com o de escravos. Em São Domingos, esses grupos — que seriam decisivos 
para o início da revolução que acabou por levar ao término da escravidão e do domínio 
francês — não somavam mais do que 30 mil indivíduos, número equivalente ao da população 
branca. Na Jamaica, a proporção era ainda menor. 
As colônias do Sul da América inglesa continental e, posteriomente, os estados do 
Sul da República norte-americana, constituíram a outra sociedade escravista do Novo 
Mundo que teve caráter birracial. Se lá a quantidade de negros e mulatos livres era tão 
reduzida em termos relativos como no Caribe inglês e francês, havia porém equilíbrio 
demográfico entre a comunidade branca e a comunidade negra escravizada. 
Por fim, a América espanhola exibia a maior variedade demográfica entre as colônias 
européias, contando no entanto com o aporte decisivo, nas colônias continentais, do 
elemento indígena. A concentração da escravidão negra em cidades ou enclaves (como a 
região de Caracas, a região de Chocó, a costa de Lima) não permite caracterizar a sociedade 
colonial espanhola como genuinamente escravista. 
A América portuguesa, pelo contrário, constituía uma sociedade desse tipo, mas algo 
distinta do que se observava no Caribe inglês e francês e no Sul dos Estados Unidos. O que 
a diferenciava era justamente uma considerável população livre negra ou mestiça 
descendente de africanos, a qual vivia lado a lado com uma quantidade substantiva de 
brancos, e uma maioria escravizada, composta em sua maioria de africanos e um número 
menor de crioulos e pardos nascidos na América. Em que pesem as variações de capitania 
a capitania (no extremo norte e no extremo sul, por exemplo, havia predomínio indígena) e 
as imprecisões dos dados demográficos disponíveis, a população colonial brasileira no início 
do século XIX guardava as seguintes proporções: 28% de brancos, 27,8% de negros e 
mulatos livres, 38,5% de negros e mulatos escravizados, 5,7% de índios. 
A gênese dessa grande população livre negra e mulata se deu, fundamentalmente, 
pela dinâmica do tráfico transatlântico de escravos acoplada à dinâmica da alforria. A 
escravização dos africanos, seu transporte para o Brasil, as atividades que aqui 
desempenharam como escravos (em geral, nas tarefas rurais e urbanas que não exigiam 
qualificação), a recomposição dos laços familiares e culturais, a produção de descendentes, 
que, em uma ou mais geração, certamente obteriam a liberdade via manumissão: todos 
esses movimentos e outros mais podem ser tidos como parte de um processo institucional 
em larga escala de transformação de status, tal como propuseram Patterson e Kopytoff. 
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Luiz Felipe de Alencastro percebeu com rara felicidade esse movimento na conclusão 
de seu O trato dos viventes, ao examinar o que denomina de a "invenção do mulato". 
Segundo ele, as práticas de favorecimento dos mulatos na América portuguesa podem ser 
observadas em medidas como: emprego mais freqüente desse grupo em trabalhos 
qualificados, uso militar em tropas auxiliares, e sobretudo, privilegiamento no ato da 
manumissão. A esse quadro, Alencastro contrapõe a situação na África portuguesa, onde 
os mulatos foram desde cedo equiparados aos negros. Em seus termos, 
Houve no Brasil um processo específico que transformou a miscigenação — simples 
resultado demográfico de uma relação de dominação e de exploração — na mestiçagem, 
processo social complexo dando lugar a uma sociedade plurirracial. O fato de esse processo 
ter se estratificado e, eventualmente, ter sido ideologizado, e até sensualizado, não se 
resolve na ocultação de sua violência intrínseca, parte consubstancial da sociedade 
brasileira: em última instância, há mulatos no Brasil e não há mulatos em Angola porque aqui 
havia a opressão sistêmica do escravismo colonial, e lá não. 
Resumindo: para garantir a reprodução da sociedade escravista brasileira no tempo, 
fundada na introdução incessante de estrangeiros, era fundamental criar mecanismos de 
segurança que pudessem evitar um quadro social tenso como o do Caribe inglês e francês 
ou mesmo o de Pernambuco no século XVII. A libertação gradativa dos descendentes dos 
africanos escravizados — não mais estrangeiros, mas sim brasileiros — constituiu o principal 
desses meios. A prova definitiva da validade dessa equação é a associação de negros e 
mulatos libertos e livres com o sistema escravista: o grande anseio econômico e social 
desses grupos era exatamente a aquisição de escravos, ou seja, tornar-se senhor. 
Diversos trabalhos recentes documentam a prática bastante comum de negros e 
mulatos livres, libertos e mesmos escravos serem donos de escravos. Por conta da dinâmica 
do tráfico para o Brasil, o mais volumoso na história do comércio negreiro transatlântico, o 
africano escravizado era uma mercadoria socialmente barata. Foi isso que permitiu 
odisseminar da escravidão pelo tecido social brasileiro, marcando a particularidade desse 
sistema escravista. Essa mecânica, por sua vez, teve peso decisivo para a configuração 
econômica igualmente ímpar da América portuguesa. 
Como há muito é consenso na historiografia brasileira, a partir do século XVIII, com o 
impacto da mineração, houve grande diversificação na economia colonial. Antes de mais 
nada, pelo aparecimento de uma produção ativa voltada ao abastecimento do mercado 
interno, como a pecuária no Rio Grande do Sul e no vale do São Francisco, ou a produção 
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de mantimentos na própria capitania de Minas, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O 
surgimento de vários núcleos urbanos em Minas Gerais, e mesmo o crescimento de antigas 
cidades como Rio de Janeiro e Salvador, também ativaram a economia interna. A produção 
de tabaco, no Recôncavo Baiano, foi outra atividade que recebeu impulso, pois se tratava 
de uma mercadoria central para a aquisição de cativos na Costa da Mina, especialmente 
valorizados nas zonas mineradoras. E, por último, não se pode esquecer que os enclaves 
de plantations açucareiras no Recôncavo Baiano, na Zona da Mata pernambucana e em 
Campos dos Goitacazes mantiveram sua vitalidade ao longo do século, a despeito da 
competição antilhana, que havia excluído seus produtores dos mercados inglês e francês. 
O que importa para esta análise é o fato de todas essas atividades — rurais e urbanas 
— terem se baseado na escravidão, com uma estrutura de posse dos escravos que os 
distribuía por diferentes faixas de riqueza, sem concentrá-los apenas nas mãos dos 
senhores mais capitalizados ou mesmo dos proprietários brancos. A América portuguesa, 
portanto, combinava com essas diferentes operações econômicas o leque das formas de 
exploração do trabalho escravo presentes no Novo Mundo: a mineração e a escravidão 
urbana da América espanhola, as plantations escravistas do Caribe, a produção de 
mantimentos da região de Chesapeake. 
Poder-se-ia argumentar que era igualmente essa a configuração econômica da 
América espanhola, que tinha na região de Caracas, por exemplo, um escravismo de 
plantation. Há que se lembrar, contudo, três diferenças básicas entre uma e outra. Em 
primeiro lugar, o peso econômico decisivo da população indígena nas áreas centrais da 
América espanhola, contraposto à generalização do trabalho escravo na América 
portuguesa. Em segundo lugar, a ausência de integração econômica entre as colônias da 
América espanhola: a despeito da profunda cisão entre o vale Amazônico e o restante da 
Colônia, a mineração permitiu, na América portuguesa, uma integração econômicanada 
desprezível — ante os meios de transporte do período , do Rio Grande do Sul a Pernambuco. 
Terceiro, e mais importante, para a reprodução ampliada da economia, o tráfico negreiro 
transatlântico teve papel crucial na América portuguesa. Há, neste ponto, uma distinção 
substantiva em relação às colônias inglesas e francesas: lá, o tráfico negreiro sempre foi 
controlado a partir das respectivas metrópoles; na América portuguesa, pelo contrário, desde 
o século XVII, o tráfico foi gerido diretamente a partir dos portos brasileiros, isto é, os grandes 
traficantes que garantiam a reprodução do sistema escravista estavam sediados em Recife, 
Salvador e Rio de Janeiro, e não em Lisboa. 
55 
 
55 
 
A crise da mineração e a expansão da agro exportação escravista na passagem do 
século XVIII para o XIX — com o surgimento de novas áreas produtoras, como Maranhão 
(com o algodão) e o oeste de São Paulo (com o açúcar) — e a recuperação de antigas áreas 
produtoras, como Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, não romperam com o sentido 
sistêmico que o escravismo brasileiro adquirira no século precedente. Muito pelo contrário, 
pois foi exatamente aquela configuração social e econômica que forneceu as bases para a 
pronta resposta dos produtores escravistas da América portuguesa às novas condições 
favoráveis do mercado mundial. 
Para os fins deste ensaio, interessa examinar o caso da resposta dos baianos, de 
grande relevo para a linha central de sua argumentação. A revolução escrava de São 
Domingos na década de 1790 trouxe modificações profundas nos quadros da produção de 
açúcar nas Américas. Antes dessa data, a colônia francesa respondia por cerca de 30% da 
produção mundial total de açúcar e era a maior produtora mundial de café. Com o levante 
dos escravos, a partir de 1791, a produção açucareira e cafeeira de São Domingos entrou 
em colapso, abrindo enormes possibilidades para a produção desses gêneros em outras 
colônias nas Américas, a que se deve somar o aumento da demanda por gêneros tropicais 
nos países em processo de industrialização. Em vista dessa nova conjuntura, o tráfico 
negreiro transatlântico para a Bahia se acelerou para atender à demanda do setor açucareiro 
por novos trabalhadores. A reativação da agroexportação no Recôncavo Baiano se fez 
acompanhar pela ampliação do cultivo de mantimentos nas paróquias que não eram 
adequadas ao plantio da cana e que também empregavam em larga escala a mão-de-obra 
escrava. A própria cidade de Salvador viu sua população ampliar, com o consequente 
aumento no número de cativos. 
Desde fim do século XVII, a zona de eleição do tráfico transatlântico de escravos para 
Bahia era a Costa da Mina, ainda que parte dos traficantes operasse também em Angola. 
Na virada do século XVIII para o XIX, aumentou muito a oferta de cativos na Costa da Mina 
aos comerciantes baianos, por duas razões: primeiro, os traficantes ingleses e franceses 
deixaram de operar na área, devido ao fim do tráfico para suas colônias; segundo, as guerras 
intestinas na região, derivadas da jihad promovida por Usman dan Fodio, produziram grande 
quantidade de cativos, dos quais parte substancial foi direcionada à Bahia. 
Esses grupos egressos da Costa da Mina, sob diferentes identidades (Nagô, Hauçá, 
Jeje, Tapa), promoveram o maior ciclo de revoltas escravas africanas de que se tem notícia 
na história do Brasil. O caráter de resistência sistêmica à escravidão só teve equivalente, 
56 
 
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antes, na Guerra dos Palmares e, depois, no movimento abolicionista da década de 1880. 
Com efeito, entre 1807 e 1835, a Bahia viveu um período de rebeliões contínuas dos 
escravos africanos, cujo ápice foi a Revolta dos Malês, "levante de escravos urbanos mais 
sério ocorrido nas Américas". 
No que resultou todo esse movimento de resistência? O ciclo de revoltas africanas 
que a Bahia vivenciou entre 1807 e 1835 não teve nenhum efeito cumulativo para colocar 
em xeque a ordem escravista brasileira; ao contrário, portanto, do ciclo de levantes escravos 
ocorrido no mesmo período no Caribe inglês. O contexto atlântico mais amplo ajuda a 
compreender a dimensão real dos levantes baianos. As revoltas de 1816 (Barbados), 1823 
(Demerara) e 1831 (Jamaica) foram decisivas para impulsionar a campanha contra a 
escravidão negra no Império inglês. Por sua vez, a resistência escrava na década de 1880, 
fundamental para o processo de abolição do cativeiro no Império do Brasil, não se valeu da 
experiência histórica da onda de levantes africanos que a Bahia vivenciou entre 1807 e 1835. 
Em uma frase: essas revoltas, apesar de sérias e violentas, não abalaram a ordem escravista 
brasileira. 
A chave para compreender esse fracasso reside exatamente nas clivagens que 
separavam de forma radical os africanos escravizados de seus descendentes — negros e 
mulatos — nascidos no Brasil. Não houve participação destes últimos grupos nos levantes 
comandados pelos africanos escravizados na Bahia. Muito pelo contrário, como esclarece 
João José Reis: 
mulatos, cabras e crioulos forneciam o grosso dos homens empregados no controle 
e repressão aos africanos. Eram eles que faziam o trabalho sujo dos brancos de manter a 
ordem nas fontes, praças e ruas de Salvador, invadir e destruir terreiros religiosos nos 
subúrbios, perseguir escravos fugitivos através da província e debelar rebeliões escravas 
onde quer que aparecessem. 
O comprometimento social dos crioulos e mulatos — sobretudo quando livres e 
libertos — com a instituição da escravidão, e não apenas o comprometimento dos senhores 
brancos, foi o elemento decisivo que garantiu a segurança do sistema escravista brasileiro. 
15.1 IDEOLOGIA E ESTADO NACIONAL 
A blindagem criada por tal configuração sistêmica impediu não só a repetição de 
Palmares, mas, acima de tudo, qualquer chance de uma revolução escrava como a de São 
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Domingos vir a ocorrer no Brasil. No século XIX, já no período do Estado nacional, esse 
quadro social escravista interno altamente estável permitiu a expansão inaudita do tráfico 
negreiro transatlântico — nas letras da lei, proibido desde 1831 — e do próprio escravismo 
brasileiro. No período de quarenta anos compreendido entre a vinda da família real para o 
Brasil (1808) e o fim definitivo do tráfico, em 1850, foi introduzido mais de 1,4 milhão de 
cativos no Império, ou seja, cerca de 40% de todos os africanos desembarcados como 
escravos em três séculos da história do Brasil. Nesse sentido, as mudanças que se operaram 
no escravismo brasileiro oitocentista, em especial o incrível arranque da cafeicultura no vale 
do Paraíba, que rapidamente converteu o Brasil no maior produtor mundial do artigo, contou 
com práticas arraigadas de longa duração, que possibilitavam introduzir enormes massas 
de estrangeiros escravizados sem colocar em risco a segurança interna dessa sociedade. 
No século XIX, a maior ameaça ao escravismo brasileiro veio de fora, ou seja, da 
pressão antiescravista inglesa. Não por acaso, a resposta ideológica que os senhores e 
políticos brasileiros deram à ação diplomática e militar inglesa recorreu, entre outros pontos, 
à própria lógica de funcionamento sistêmico da escravidão brasileira. Ao fazê-lo, inverteram 
a visão ideológica que foi predominante na Colônia. Com efeito, salvo um ou outro caso, as 
autoridades metropolitanas sediadas na América portuguesa sempre entenderam que o 
setor de homens negros e mulatos livres representava mais risco do que segurança à ordem 
colonial. Em outras palavras, a maioria dos dirigentes metropolitanos não tinha consciência 
do processo institucional do escravismo brasileiro. 
Essa visão começou a modificar-se no início do século XIX, de início pela pena dosviajantes europeus que então passaram a percorrer ou morar no Brasil. O inglês Henry 
Koster, por exemplo, senhor de escravos em Pernambuco na segunda década do 
Oitocentos, não deixou de observar a facilidade com que escravos crioulos e mulatos 
obtinham a alforria no Brasil, contrastando-a com as dificuldades encontradas pelos 
escravos do Caribe inglês. Reside aí, nos relatos de viajantes europeus, a origem da imagem 
da escravidão brasileira — e mesmo ibérica — como mais "benigna" do que a escravidão 
anglo-saxônica. 
Rapidamente o tema foi instrumentalizado pelos construtores do Estado nacional 
brasileiro. A visão de que os libertos e seus descendentes eram aliados, e não inimigos dos 
senhores de escravos brasileiros, apareceu em 1822, nos debates das Cortes de Lisboa, 
quando se definiu o caminho da independência do Brasil. Naquela ocasião, ao discutir com 
parlamentares portugueses os critérios de cidadania e participação política a serem 
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adotados pela futura Constituição, o deputado pelo Rio de Janeiro Custódio Gonçalves Ledo 
afirmou: 
Não há razão alguma para privar os libertos deste direito [de voto]. Há muitos libertos 
no Brasil, que hoje interessam muito à sociedade, e têm grandes ramos de indústria; muitos 
têm famílias; por isso seria a maior injustiça privar estes cidadãos de poderem votar, e até 
poderia dizer que é agravar muito o mal da escravidão. 
A definição de cidadania defendida por Custódio Ledo em Portugal cristalizou-se na 
Constituição Política do Império do Brasil. Conforme o artigo 6, parágrafo 1 da Constituição 
de 1824, os libertos, desde que nascidos no Brasil, eram considerados cidadãos brasileiros. 
Portanto, apenas os libertos africanos eram excluídos do corpo social da nação. Essa norma 
constitucional, por sua vez, franqueava aos libertos brasileiros a participação no processo 
eleitoral: de acordo com os artigos 90 a 95, desde que possuíssem renda líquida anual de 
cem mil-réis, esses ex-escravos poderiam votar nas eleições primárias, que escolhiam os 
membros dos colégios eleitorais provinciais, mas não poderiam participar destes últimos; já 
os ingênuos, isto é, os filhos dos libertos (tanto dos africanos como dos brasileiros), 
poderiam igualmente votar e ser votados nos colégios eleitorais provinciais, desde que 
cumprissem os critérios censitários. 
Tratava-se, enfim, de uma definição de cidadania bastante inclusiva. O parágrafo 
constitucional acabou virando peça da propaganda de defesa do tráfico negreiro 
transatlântico para o Brasil, no contexto do acirramento das pressões inglesas. Em 1838, 
José Carneiro da Silva, futuro visconde de Araruama, destacado político conservador, 
defendeu a anulação da lei de 1831 e a legalização do tráfico negreiro com base justamente 
na experiência histórica do escravismo brasileiro: 
Tenho visto escravos senhores de escravos, com plantações, criações de gado 
vacum e cavalar, e finalmente com um pecúlio vasto e rendoso. Tenho visto muitos escravos 
libertarem-se, tornarem-se grandes proprietários, serem soldados, chegarem a oficiais de 
patente, e servirem outros empregos públicos que são tão úteis ao Estado. 
Quantos e quantos oficiais de ofícios e mesmo de outras ordens mais superiores que, 
noutro tempo, foram escravos e hoje vivem com suas famílias, cooperando para o bem do 
Estado nas obras e empregos em que são ocupados, aumentando a população e o 
esplendor da nação, que os tem naturalizado! 
No século XX, essa experiência se tornou tema caro à historiografia. Basta lembrar 
as teses de Gilberto Freyre e Frank Tannenbaum sobre o caráter supostamente benigno da 
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escravidão brasileira, que logo se converteram em ideologia da democracia racial. Não cabe 
aqui jogar mais terra sobre esse caixão. O que não se pode nunca esquecer, entretanto, é 
que toda essa equação deitou raízes na maior migração compulsória do mundo moderno — 
um verdadeiro crime contra a humanidade, apesar das reticências atuais de países como 
Portugal, Inglaterra e Holanda em classificá-la como tal. 
 
60 
 
60 
 
16 BIBLIOGRAFIA 
Texto originalmente apresentado ao I Encontro entre Historiadores Colombianos e 
Brasileiros, promovido pelo Ibraco em Bogotá, Colômbia, em agosto de 2005. 
 Sobre Palmares, ver, de Décio Freitas: Palmares, a guerra dos escravos. Rio de Janeiro: 
Graal, 1990 (1a ed. 1971) e República de Palmares. Pesquisa e comentários em 
documentos históricos do século XVII. Maceió: Editora da Ufal, 2004. 
 Sobre a resistência escrava no Caribe inglês e francês e no Suriname, ver Patterson, 
Orlando. "Slavery and slave revolts: a socio-historical analysis of the First Maroon War, 1655-
1740".Social and Economic Studies, vol. 19, no 3, set. 1970; 
Craton, Michael. Testing the chains. Resistance to slavery in the British West Indies. Ithaca: 
Cornell University Press, 1982; 
Price, Richard. First-Time. The historical vision of an Afro-American people. Baltimore: The 
Johns Hopkins University Press, 1983; 
Dubois, Laurent. Avengers of the New World. The story of the Haitian revolution. Cambridge, 
MA: Belknap Press, 2004. 
Sobre a atividade quilombola em Minas Gerais, ver Guimarães, Carlos Magno. Uma 
negação da ordem escravista. Quilombos em Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: 
Ícone, 1988. 
Sobre o ciclo de revoltas na Bahia, ver Reis, João José. Rebelião escrava no brasil. A história 
do levante dos malês em 1835. Ed. revista. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 
 Essa é a explicação proposta por Stuart Schwartz, que encontrou largo desenvolvimento no 
trabalho de Silvia Lara. Ver, respectivamente desses dois historiadores, os ensaios 
"Repensando Palmares: resistência escrava na Colônia". In: Escravos, roceiros e rebeldes. 
Bauru: Edusc, 2001, e "Do singular ao plural: Palmares, capitães-do-mato e o governo dos 
escravos". In: Reis, João José & Gomes, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio. 
História dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 
 
61 
 
61 
 
 
A idéia que subjaz a essa diferenciação deriva em parte da proposta de Robin Blackburn 
para a contraposição entre "escravidão barroca" e "escravidão moderna". Ver The making of 
New World slavery. From the Baroque to the Modern, 1492-1800. Londres: Verso, 1997. 
Blackburn, no entanto, não levou em devida conta a inserção das regiões de "escravismo 
barroco" na modernidade, dentro da lógica do mercado mundial. Ver, a respeito, as críticas 
pertinentes de Stuart Schwartz em "Review of the Making of New World Slavery: From the 
Baroque to the Modern, 1492-1800, by Robin Blackburn". In: William and Mary Quarterly, 
série 3, vol. LV, no 3, jul. 1998. 
 
Ver, a respeito, os seguintes trabalhos: Schwartz, Stuart. "Alforria na Bahia, 1684-1745". 
In: Escravos, roceiros e rebeldes, pp. 165-212; Slenes, Robert. The demography and 
economics of Brazilian slavery: 1850-1888. Tese de doutorado em História. Stanford: 
Stanford University, 1976; Alencastro, Luiz Felipe de. "La traite négrière et l'unité nationale 
brésilienne". Revue Française d'Histoire d'Outre-Mer, nos 244-245, 1979; Eisenberg, Peter. 
"Ficando livre: as alforrias em Campinas no século XIX". In: Homens esquecidos. Escravos 
e trabalhadores livres no Brasil, séculos XVIII e XIX. Campinas: Editora da Unicamp, 1989; 
Karash, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850. São Paulo: Companhia 
das Letras, 2000; Mattos, Hebe Maria. "A escravidão moderna nos quadros do Império 
português: o Antigo Regime em perspectiva atlântica". In: Bicalho, M. F.; Gouvêa, M. de F. 
& Fragoso, João (orgs.) Antigo Regime nos Trópicos. A dinâmica imperial portuguesa 
(séculos XVI-XVIII).Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001; Florentino, Manolo. "De 
escravos, forros e fujões no Rio de Janeiro Imperial". Revista USP. Dossiê Brasil Imperial, 
no 58, jul.-ago. 2003. 
 
Kopytoff, Igor. "Slavery". Annual Review of Anthropology, vol.11, 1982, pp. 221-22. Ver 
também Patterson, Orlando. Slavery and social death. A comparative study. Cambridge, 
Mass.: Harvard University Press, 1982. 
 
 Cf. Miller, Joseph C. "O Atlântico escravista: açúcar, escravos e engenhos". Afro-Ásia, nos 
19-20, 1997. 
62 
 
62 
 
 
Cf. Schwartz, Stuart. Segredos internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-
1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, pp. 22-73; Alencastro, Luiz Felipe de. O trato 
dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo: 
Companhia das Letras, 2000, p. 69. Todos os dados sobre o tráfico transatlântico de 
africanos para o Brasil doravante citados foram retirados dessa fonte. 
 Cf. Alencastro, O trato dos viventes, pp.188-246; Marquese, Rafael de Bivar. Administração 
& escravidão. Idéias sobre a gestão da agricultura escravista brasileira. São Paulo: Hucitec, 
1999, pp. 42-49; Puntoni, Pedro. A mísera sorte. A escravidão africana no Brasil holandês 
e as guerras do tráfico no Atlântico Sul, 1621-1648. São Paulo: Hucitec, 1999 
Cf. Emmer, P. C. "The Dutch and the making of the second atlantic system". In: Solow, B. 
(org.). Slavery and the rise of the Atlantic System. Cambridge: Cambridge University Press, 
1991. 
Cf. Schwartz, "Repensando Palmares", pp. 244-55. 
Cf. Schwartz, "Alforria na Bahia, 1684-1745", pp. 165-212. 
Marcílio, Maria Luiza. "A população do Brasil colonial". In: Bethell, Leslie (org.). História da 
América Latina. Vol. 2: América Latina Colonial. São Paulo: Edusp/Funag, 1999, p. 321. 
 Para uma visão de conjunto, ver o trabalho de síntese de Souza, Laura de Mello & 
Bicalho, Maria Fernanda. 1680-1720. O império deste mundo. São Paulo: Companhia das 
Letras, 2000. 
 Dentre esses estudos, veja-se com proveito Vallejos, Julio Pinto. "Slave control and 
slave resistance in colonial Minas Gerais, 1700-1750". Journal of Latin American Studies, 
vol.17, no 1, maio 1985. 
 
 Reis, João José. "Quilombos e revoltas escravas no Brasil". Revista USP. Dossiê Povo 
Negro — 300 anos. no 28, dez. 1995-fev. 1996, p.18. 
 
Apud Lara, Silvia. "Do singular ao plural: Palmares, capitães-do-mato e o governo dos 
escravos", p. 90. 
63 
 
63 
 
 
Cf. Ramos, Donald. "O quilombo e o sistema escravista em Minas Gerais do século XVIII". 
In: Reis, João José & Gomes, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio. História dos 
quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 
 
Russell-Wood, A. J. R. Escravos e libertos no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Civilização 
Brasileira, 2005, p. 315. 
 Cf. Watts, David. Las Indias Occidentales. Modalidades de desarrollo, cultura y cambio 
medioambiental desde 1492. Madri: Alianza Editoral, 1992, pp. 355-70. 
 
Sobre a escravidão na América inglesa continental e na América espanhola, ver 
Blackburn, The making of New World slavery, pp. 457-508. 
Cf. Marcílio, "A população do Brasil colonial". 
 
Alencastro, O trato dos viventes, p. 353. 
 
Cf. Florentino, Manolo. Em costas negras. Uma história do tráfico atlântico de escravos entre 
a África e o Rio de Janeiro (séculos XVII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995. 
 
Cf. Barickman, B. J. Um contraponto baiano. Açúcar, fumo, mandioca e escravidão no 
Recôncavo, 1780-1860. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 
Reis, João José. Rebelião escrava no Brasil, p. 9. 
 
Reis, op cit., p. 322. 
 
Cf. Needell, Jeffrey. "The abolition of the Brazilian slave trade in 1850: historiography, slave 
agency and statesmanship". Journal of Latin American Studies, vol. 33, no 4, nov. 2001. 
64 
 
64 
 
Para esta visão ideológica, ver os trabalhos de Sousa, Laura de Mello. Desclassificados do 
ouro. A pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1983, e Lara, Silvia 
H. Fragmentos setecentistas. Escravidão, cultura e poder na América portuguesa. Tese de 
livre-docência. Campinas: IFCH/ Unicamp, 2004. 
 
Cf. Koster, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Recife: Fundação Joaquim 
Nabuco/Editora Massangana, 2002, capítulos XVIII e XIX, 2 vols. (1a ed. 1816). 
 
Apud Berbel, Márcia Regina & Marquese, Rafael de Bivar. "A escravidão nas experiências 
constitucionais ibéricas, 1810-1824". Texto apresentado ao Seminário Internacional Brasil, 
de um Império a Outro (1750-1850) Departamento de História, USP, set. 2005). Disponível 
em www.estadonacional.usp.br. 
 
Cf. Marquese, Rafael de Bivar & Parron, Tâmis Peixoto. "Azeredo Coutinho, Visconde de 
Araruama e aMemória sobre o comércio dos escravos de 1838". Revista de História, vol.152, 
1o semestre 2005, p. 122.

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