A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
28 pág.
empreendedorismo aula 01

Pré-visualização | Página 6 de 10

ao ser o proprietário da empresa, não 
precisa pedir autorização a superiores hierárquicos para fazer as coisas. 
Assim, a empresa é vista como um meio de ampliar a liberdade de ação, 
enfrentar novos desafios e gerenciar o seu tempo7.
 Autorrealização: a empresa significa para alguns empreendedores a 
realização de um projeto de vida. Um exemplo pode ser o empresário 
Abraham Kasinski. Aos 80 anos de idade, milionário e reconhecido 
como referência no meio empresarial, ele vendeu sua empresa, a Cofap, 
e afirmou: “Deixar a companhia é como ter um filho muito bem criado 
e famoso que vai embora, sem dizer nada.”8 Dois anos depois, Kasinski 
fundou uma montadora de motocicletas em Manaus e declarou: “Não 
suportava mais ficar em casa. Minha vida são os negócios.”9
Percebe-se que as empresas podem significar para seus fundadores não 
apenas um meio de ganhar dinheiro e satisfazer as necessidades fisiológicas ou de 
segurança, as quais poderíamos denominar básicas, mas podem estar relacionadas 
à satisfação de necessidades mais complexas, como a autorrealização. Essa 
relação entre empresa (meio) e satisfação de uma necessidade (fim) abre espaço 
para tratarmos de dois outros teóricos da personalidade e de suas relações com o 
empreendedorismo: Henry Murray e David Clarence McClelland.
Henry Murray e a relação 
entre necessidade, motivo e comportamento
A contribuição mais importante de Murray para a teoria da personalidade 
foi a utilização do conceito de necessidade para explicar a motivação e o rumo do 
comportamento.
Segundo Schultz e Schultz (2002, p. 187), uma necessidade “envolve uma 
força psicoquímica no cérebro que organiza e direciona a capacidade intelectual 
e perceptiva”. As necessidades podem surgir de processos internos, como a fome 
ou a sede, ou de processos externos, como uma ameaça física.
A não satisfação de uma necessidade eleva o nível de tensão de um orga-
nismo, que irá agir para reduzir essa tensão ou satisfazer a necessidade. Essa ten-
são (ou energia) gera um motivo, o qual pode ser definido como uma “disposição 
geral ou tendência para um comportamento ou conjunto de comportamentos” 
(WINTER, 1973, p. 21).
6Birley e Westhead não usam a nomenclatura de 
Maslow, mas a descrição das 
necessidades/motivos permite 
traçar claramente uma relação 
com a teoria de Maslow.
7Segundo Maslow, pessoas realizadoras procuram 
liberdade de ação, entre ou-
tros comportamentos. 
8Declaração dada à revista IstoÉ em 16 de junho de 
1997.
9Declaração dada a O Estado de S.Paulo em 9 de 
maio de 1999.
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., 
mais informações www.iesde.com.br
A Psicologia e os empreendedores
40
Para explicar isso, tomemos um exemplo bem simples: você chega em casa 
e percebe que algumas coisas estão fora do lugar, o que de certa maneira o inco-
moda. Esse incômodo significa que sua necessidade de ordem não está satisfeita 
plenamente, gerando energia: você passa a estar motivado a arrumar a casa, mas 
ainda não faz nada. Dois dias depois, constata que sua casa está suja e desarru-
mada de tal maneira que fica muito incomodado: a energia aumenta, e sua moti-
vação por ordem faz com que pegue material de limpeza, limpe a casa e arrume 
as coisas. Ao constatar que a casa está limpa e arrumada de maneira que satisfaz 
sua necessidade de ordem, o incômodo (energia) cessa, e você dá a faxina por 
encerrada (fim do comportamento).
A “motivação por ordem” poderia ter desencadeado outros comportamentos, 
como, por exemplo, contratar alguém para fazer a faxina ou ordenar que outra 
pessoa o fizesse. Mas a necessidade, a origem do processo continuaria a ser a 
mesma: necessidade de ordem.
Murray formulou uma lista de 20 necessidades, que apresentamos em nosso 
quadro 6.
Quadro 6 – Lista de necessidades de Murray
Afiliação
Aproximar-se e colaborar com prazer e retribuir a um aliado que se pareça 
com a própria pessoa, ou seja, alguém que goste dela. Aderir e permanecer 
leal a um amigo.
(S
C
H
U
LT
Z;
 S
C
H
U
LT
Z,
 2
00
2,
 p
. 1
88
-1
89
)
Agressão
Superar a oposição à força. Lutar, atacar, ferir ou matar outra pessoa. 
Depreciar, censurar ou ridicularizar maliciosamente alguém.
Autonomia
Libertar-se, abolir as restrições ou sair do confinamento. Resistir à 
coerção e às restrições. Ser independente e livre para agir de acordo com 
os impulsos. Desafiar as convenções.
Compreensão
Estar inclinado a analisar eventos e generalizar. Discutir, argumentar e dar 
ênfase à razão e à lógica. Expôr as opiniões de maneira precisa. Mostrar 
interesse por formulações abstratas em ciências, matemática e filosofia.
Defesa Defender o self contra ataques, críticas e culpas. Omitir ou justificar uma 
má ação, falha ou humilhação.
Defesa 
psíquica
Evitar humilhação. Sair de situações embaraçosas ou evitar situações que 
possam levar a escárnio, menosprezo ou indiferença dos outros. Evitar 
agir por medo do fracasso.
Divertimento Agir simplesmente com o intuito de se divertir.
Domínio
Controlar o seu ambiente. Influenciar ou dirigir o comportamento de 
outros por sugestão, sedução, persuasão ou comando. Fazer os outros 
colaborarem. Convencê-los de que sua opinião é correta.
Evitar o mal, 
defesa física
Evitar dor, lesão física, doença e morte. Escapar de uma situação perigosa. 
Tomar medidas de precaução.
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., 
mais informações www.iesde.com.br
A Psicologia e os empreendedores
41
Exibição Impressionar. Ser visto e ouvido. Emocionar, surpreender, fascinar, 
entreter, chocar, intrigar, divertir ou atrair outras pessoas.
(S
C
H
U
LT
Z;
 S
C
H
U
LT
Z,
 2
00
2,
 p
. 1
88
-1
89
)
Humilhação
Submeter-se passivamente a forças externas. Aceitar insultos, culpa, 
críticas e punição. Resignar-se com a sua sina. Admitir inferioridade, erro, 
más ações ou derrota. Culpar, depreciar ou mutilar o self. Buscar e gostar 
de dor, punição, doença e infortúnio.
Neutralização
Dominar ou compensar uma falha reparando-a. Obliterar uma humilhação 
retomando uma ação. Superar fraquezas e reprimir o medo. Buscar 
obstáculos e dificuldades a serem superados. Manter o autorrespeito e o 
orgulho elevados.
Ordem Colocar as coisas em ordem. Obter limpeza, boa disposição, organização, 
equilíbrio, arrumação e precisão.
Realização
Conseguir realizar algo difícil. Dominar, manipular ou organizar objetos 
físicos, seres humanos ou ideias. Superar obstáculos e atingir um alto 
padrão. Rivalizar e superar os outros.
Rejeição Excluir, abandonar, expulsar ou ficar indiferente a alguém inferior. 
Esnobar ou se afastar de uma outra pessoa.
Respeito, 
deferência
Admirar e apoiar uma pessoa superior. Entregar-se ansiosamente à 
influência de um aliado. Agir de acordo com o habitual.
Segurança Ser cuidado, sustentado, cercado, protegido, amado, aconselhado, 
orientado, perdoado ou consolado. Ficar próximo de um protetor dedicado.
Sensualidade Buscar e apreciar impressões sensuais.
Sexo Cultivar e aprofundar uma relação erótica. Ter relações sexuais.
Solidariedade
Prestar solidariedade e satisfazer necessidades dos desamparados, de 
uma criança ou de uma pessoa fraca, deficiente, inexperiente, enferma, 
humilhada, solitária, abatida ou mentalmente confusa.
Murray desenvolveu, em conjunto com Christina Morgan, o Thematic Aper-
ception Test (TAT) em 1935. Basicamente, esse teste consiste no uso de imagens 
que representam cenas diversas, com diferentes graus de estruturação e realismo, 
a partir das quais solicita-se ao testado narrar uma história. A partir desse mate-
rial, é possível avaliar alguns aspectos da personalidade do testado.
David McClelland, David Winter e John William Atkinson, partindo das 
necessidades definidas por Murray, dedicaram-se a estudar a relação entre as ne-
cessidades de realização, poder e afiliação e o comportamento humano.
Usando o teste de percepção temática10 (MURRAY, 1943; ANGELINI, 
1955; ATKINSON, 1958, SMITH, 2004), MCCLELLAND11 (1962, 1967, 1970, 
2000),