Prévia do material em texto
ANA CLARA GUIMARÃES VENTURI – MED UFR – T4 Traumatologia Forense ▪ TRAUMATOLOGIA OU LESONOLOGIA MÉDICO- LEGAL: estuda as lesões e estados patológicos, imediatos ou tardios, produzidos por violência sobre o corpo humano, nos seus aspectos do diagnóstico, do prognóstico e das suas implicações legais e socioeconômicas. ▪ Trata-se também das diversas modalidades de energias causadoras desses danos, que são: 1. Mecânica 2. Física 3. Química 4. Físico-química 5. Bioquímica 6. Biodinâmica 7. Mista MECÂNICA ▪ Dano causado por meios mecânicos. ▪ Armas mais comuns: punhais, revólveres, facas, navalhas, foices, machados, punhos, dentes, máquinas, veículos, quedas, etc. ▪ Agentes mecânicos externos: 1. Instrumentos cortantes: agem em uma linha, com lesão cortante. 2. Instrumento perfurante: perfura um ponto. 3. Instrumento contundente: age em uma superfície corporal. 4. Instrumento perfuro-cortante 5. Instrumento corto contundentes 6. Instrumento perfuro contundente Ação Perfurante ▪ Instrumentos perfurantes ocasionam o aparecimento de lesões PUNTIFORMES ou PUNCTÓRIAS. ▪ Principais instrumentos: prego, agulha e furador de gelo. ▪ Atuam quase sempre por pressão, afastando as fibras do tecido e, muito raramente, seccionando- as. ▪ Age sobre um ponto perfurando e afastando os tecidos à medida que vai penetrando. Características das lesões: ▪ Abertura estreita (forma puntiforme) ▪ Raro sangramento ▪ Ausência de ângulo ▪ Maior profundidade e menor diâmetro do que o instrumento causador (elasticidade e retratilidade dos tecidos). *LEI DE FILHOS E LANGER ▪ Linhas de clivagem de Langer são linhas de tensão determinadas pela direção das fibras da pele. ▪ As feridas perfurantes sobrem ação das linhas de tração da pele, podendo tomar a forma de botoeira, em ponta de seta e pode ter forma bizarra de acordo com a confluência de linhas de tração. Ação Cortante ▪ Agem sobre uma linha por meio de um gume afiado, por deslizamento sob os tecidos. ▪ Lesões incisas são associadas à incisão cirúrgica (bisturi). ▪ Instrumentos mais comuns: navalha, lâmina de barbear, bisturi, faca, pedaço de vidro, etc. ✓ DEGOLAMENTO: ferida incisa na região posterior do pescoço ✓ ESGORJAMENTO: ferida incisa na região anterior do pescoço ✓ DECAPTAÇÃO: separação da cabeça do tronco ANA CLARA GUIMARÃES VENTURI – MED UFR – T4 Características das lesões: ▪ Forma linear ▪ Regularidade das bordas e do fundo da lesão ▪ Presença de ângulos ▪ Ausência de vestígios traumáticos em torno da ferida ▪ Hemorragia abundante (feridas cortantes não permitem homeostasia dos vasos) ▪ Maior comprimento e menor profundidade ▪ Centro da ferida mais profundo do que as extremidades ▪ Afastamento das bordas ▪ Paredes lisas e regulares *Sinal de Romanese: Cauda de escoriação voltada para o lado onde terminou a ação do instrumento. *Lesão em acordeon (sinal de Lacassagne): Quando a profundidade de penetração é maior do que o próprio comprimento da arma, quando atinge uma região onde haja depressibilidade dos tecidos superficiais. *Sinal de Chavigny: ▪ Lesões incisas que se cruzam ✓ 1ª lesão: consegue suturar em linha reta ✓ 2ª lesão: há descontinuidade Ação Pérfuro-Cortante ▪ Provocadas por instrumentos de ponta e gume. ▪ Atuam por um mecanismo misto: penetram perfurando com a ponta e cortam com a borda afiada os planos superficiais e profundos do corpo da vítima. ▪ Instrumentos mais comuns: faca, canivete, espada (1 gume), punhal (2 gumes), lima (3 gumes). ▪ A lesão pode indicar a forma da lâmina ▪ Lesões podem ser: ✓ Perfurantes ✓ Penetrantes (perfura uma CAVIDADE) ✓ Transfixantes Características das lesões ▪ Forma de botoeira ou casa de botão ▪ Profundidade maior do que a distância entre suas bordas ▪ Retração da pele (ferida menor do que o tamanho da lâmina) ▪ Lesão em acordeon/Lacassagne/”em sanfona”: profundidade de penetração é maior do que o próprio comprimento da lâmina, geralmente em abdomen (retração). ▪ Sangramento abundante (lesões internas). Lesões de defesa: ▪ Ocorrem na tentativa da vítima defender-se da agressão ▪ Encontram-se habitualmente em: ✓ Palma da mão (ao “pegar” a lâmina) ✓ Dorso de mão e antebraço ✓ Borda e face anterior da perna ✓ Dorso de pé Ação Contundente ▪ Age sob uma ÁREA, plano contundente ou superfície, por pressão, percussão ou compressão. ▪ Para causar lesão tem que bater/chocar. ▪ A contusão pode ser com ou sem ferida (trauma fechado). ▪ Quando traumática: Bordas irregulares, vestígios traumáticos em torno da ferida. ▪ Grande variedade de lesões: ANA CLARA GUIMARÃES VENTURI – MED UFR – T4 1. RUBEFAÇÃO OU ERITEMA: ▪ Congestão repentina e momentânea de uma região do corpo atingida pelo traumatismo, evidenciada por uma mancha vermelha, efêmera e fugaz (professor não considera lesão) *Lesão com assinatura: toda lesão que infere o instrumento que a produziu (ex: eritema com marca de mão) 2. ESCORIAÇÃO: ▪ Lesão da epiderme, expondo a derme (“arranhado”). Resultado da ação tangencial do meio contundente. ▪ A regeneração da área ocorre por reepitelização (formação de crosta hemática). ▪ Ex: chicote, cinto de segurança, atropelamento, auto- lesão, etc. *Estigmas ungueais: Escoriação por unha (esganamento). *Escorição em arrastão: Queda de moto 3. EQUIMOSE: ▪ Lesão que se traduz por infiltração hemorrágica nas malhas dos tecidos. ▪ Geralmente são superficiais, mas podem surgir nas massas musculares, vísceras e no periósteo. *Encravamento: Ação de instrumento contundente que penetra cavidade *Escalpelamento: couro cabeludo arrancado Tipos de equimose: ✓ Sugilação: Apresenta-se em forma de pequenos grãos. ✓ Víbice: em forma de estrias (ex: cinto, cacetete) ✓ Petéquias: pequenas, quase sempre agrupadas e caracterizadas por pontilhado hemorrágico. ✓ Equimona: Equimose de grande proporção (equimose + edema). ✓ Falanga: equimose na planta do pé. ESPECTRO EQUIMÓTICO DE LEGRAND DU SAULLE: ✓ Vermelha (1º dia) ✓ Violácea (2º a 3º dia) ✓ Azul (4º a 6º dia) ✓ Esverdeada (7º a 10º dia) ✓ Amarelada (12º dia) ✓ Desaparecendo (15º a 20º dia) *Espectro equimótico varia conforme idade da vítima, força do trauma, tipo de arma utilizada, etc. 4. LUXAÇÃO ▪ Deslocamento de dois ossos cujas superfícies de articulação deixam de manter suas relações de contato que lhes são comuns. 5. ENTORSE ▪ Lesões articulares provocadas por movimentos exagerados dos ossos que compõem uma articulação, incidindo apenas sobre os ligamentos. 6. RUPTURA DE VÍSCERA ▪ Impacto violento sobre o corpo pode resultar em lesões mais profundas, determinando roturas de órgãos internos. 7. HEMATOMA ▪ Acúmulo de sangue - edema (síndrome do bebê sacudido, hematoma subgaleal, etc) 8. BLAST INJURY ▪ Contusão advinda de explosões Ação Corto-Contundente ▪ Ação em uma linha e em uma área de forma simultânea, que se faz pelo deslizamento (corte), pela percussão, como também pela pressão. ▪ Instrumentos que tem peso e que, mesmo sendo portadores de gume, são influenciados pela ação contundente, seja pelo seu próprio peso ou pela força ativa de quem os maneja (ex: foice, machado, facão, enxada, etc). ▪ Lesões mais graves, com forma muito variável (depende da região atingida, inclinação, peso, gume, força, etc). Características das lesões: ▪ Equimoses em torno da lesão ▪ Trabéculas ▪ Bordas irregulares ANA CLARA GUIMARÃES VENTURI – MED UFR – T4 ▪ Fundo anfractuoso Ação Pérfuro-Contundente ▪ Age sobre um ponto e um plano simultaneamente. ▪ Por terem ponta romba para perfurar, tem que bater e contundir. ▪ Na maioria das vezes os instrumentos são mais perfurantes do que contundentes – projéteis de arma de fogo (PAF).▪ Instrumentos mais comuns: vergalhão de ferro (construção civil), PAF Características de ferimentos por PAF ✓ Ferimento de entrada ✓ Ferimento de saída (pode ou não estar presente) ✓ Trajeto Calibre de armas de fogo ▪ Calibre real: medido na boca do cano e corresponde ao diâmetro interno da alma do cano. ▪ Calibre nominal: Designativo de um tipo particular de munição e também da arma na qual este tipo de munição deve ser usada. *Para um mesmo calibre real podem existir vários calibres nominais. * Na pistola, a cápsula é ejetada. No revólver a cápsula fica dentro do tambor do revólver. ▪ Ao levar um tiro, são formadas a cavidade PERMANENTE (causada pela perfuração/contusão do projetil com o corpo do indivíduo) e a cavidade TEMPORAL (causada pelo deslocamento de energia no interior do corpo). ▪ Projétil de alta energia: velocidade > 600m/s (alcance de até 3km) Classificação da PAF quanto à distância da arma 1. Tiro encostado ou “queima-roupa” ▪ Diâmetro da lesão maior do que o do projétil em face de explosão dos tecidos. ▪ Efeito “de mina” (boca de mina de Hofmann) ▪ Bordas algumas vezes voltadas para fora *Sinal de Puppe-Werkgartner ✓ Imagem arroxeada circular com orifício de entrada no centro. ✓ Aparece nos tiros disparados com cano da arma pressionado contra a pele (armas mais caras nas quais os gases explodem antes). 2. Curta-distância = <70cm ▪ Orla de escoriação ▪ Bordas invertidas ▪ Halo de enxugo ▪ Halo de tatuagem ▪ Orla de esfumaçamento ▪ Zona de queimadura ▪ Auréola equimótica ▪ Zona de compressão de gases ▪ Se tiro próximo à superfície óssea, pode apresentar Sinal de Benassi *Sinal de Benassi: Impregnação de grânulos de pólvora no periósteo da tábua óssea do crânio nos tiros muito próximos. ANA CLARA GUIMARÃES VENTURI – MED UFR – T4 3. Longa-distância = >70cm ▪ Pode ter o diâmetro menor do que o do projétil ▪ Forma arredondada ou ovalar ▪ Orla de escoriação ▪ Bordas invertidas ▪ Halo de enxugo ▪ Auréola equimótica ▪ Lesão livre dos efeitos 2ºs da combustão da pólvora FERIMENTOS DE ENTRADA ▪ Regular ▪ Invertido ▪ Normalmente proporcional ao diâmetro do projétil (exceção aos projéteis de ponta oca, principalmente os expansivos) ▪ Com orlas e zonas (lesões 1ªs ou 2ªs) *Ação tangencial do PAF = Tiro de raspão Lesões 1ªs ✓ Presença do orifício propriamente dito ✓ Halo de enxugamento ✓ Halo de contusão Lesões 2ªs ✓ Zona de esfumaçamento (pólvora que não pegou fogo, se lavar sai) ✓ Zona de tatuagem (grânulos de pólvora que ficam encrustados na pele) FERIMENTOS DE SAÍDA ▪ Forma irregular ▪ Bordas reviradas para fora ▪ Maior sangramento ▪ Diâmetro maior que o ferimento de entrada. ▪ Sem orlas e zonas *Sinal de Bonnet (ou sinal do funil): Permite precisar o orifício de entrada e de saída na tábua óssea do crânio. ✓ Entrada: Fratura da díploe externa < díploe interna ✓ Saída: Fratura da díploe externa > díploe interna TRAJETO ▪ É o caminho percorrido pelo projétil no interior do corpo ▪ Sempre apresenta sangue coagulado (sinal de reação vital) ▪ Pode ser TRANSFIXANTE ou NÃO-TRANSFIXANTE (projétil retido) *Sinal de Schusskanol / Ferida em sedenho ✓ Delimita o caminho percorrido pelo projétil. ✓ Trajetória oblíqua. TRAJETÓRIA ▪ É o caminho percorrido pelo projétil FORA do corpo (da arma até a superfície atingida). ANA CLARA GUIMARÃES VENTURI – MED UFR – T4 ▪ Pode ser: ✓ Trajetória simples: resultante de projétil único (revólver) ✓ Trajetória múltipla: resultante de projéteis múltiplos (arma de caça)