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Imediaticidade na Prática Profissional do Assistente Social

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO 
 CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS 
 ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL 
 
 
 
 
 
MARILENE APARECIDA COELHO 
 
 
 
 
 IMEDIATICIDADE NA PRÁTICA PROFISSIONAL 
DO 
ASSISTENTE SOCIAL 
 
 
 
 
 
 
 
 
Rio de Janeiro 
2008 
 
 
 
 
 
Livros Grátis 
 
http://www.livrosgratis.com.br 
 
Milhares de livros grátis para download. 
 
 
 
1 
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO 
 CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS 
 ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL 
 PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL 
 
 
 
 
MARILENE APARECIDA COELHO 
 
 
 IMEDIATICIDADE NA PRÁTICA PROFISSIONAL 
DO 
ASSISTENTE SOCIAL 
 
Tese apresentada ao Programa de 
Pós-Graduação em Serviço Social da 
ESS/UFRJ, como requisito parcial para 
obtenção do título de Doutor em Serviço 
Social. 
 
Orientador: Prof. Dr. Carlos Eduardo 
Montaño. 
 
 
 
 
Rio de Janeiro 
2008 
 
 
 
2 
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO 
 CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS 
 ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL 
 PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL 
 
 
 
MARILENE APARECIDA COELHO 
 
 IMEDIATICIDADE NA PRÁTICA PROFISSIONAL 
DO 
ASSISTENTE SOCIAL 
 
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação 
em Serviço Social da ESS/UFRJ, como requisito 
parcial para obtenção do título de Doutor em 
Serviço Social. Aprovada pela banca abaixo 
indicada: 
 
______________________________________ 
Prof. Dr. Carlos Eduardo Montaño. 
 
 _____________________________________ 
Prof. Dr. José Paulo Netto 
 
______________________________________ 
 Profa. Dra Maria Inês Souza Bravo 
 
______________________________________ 
Profa. Dra Yolanda Guerra 
 
_____________________________________ 
Profa. Dra Maria Lucia Duriguetto 
 
 
 
 
 
3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Ficha Catalográfica 
 
 Coelho, Marilene Aparecida 
 
 
 Imediaticidade na prática profissional do assistente social/ 
 Marilene Aparecida Coelho; orientador: Carlos Eduardo Montaño − 
 Rio de Janeiro: UFRJ, Escola de Serviço Social, 2008. 
 
 319 f.; 
 
 Tese (doutorado) − Universidade Federal do Rio de Janeiro, 
 Escola de Serviço Social. 
 
 Inclui referências Bibliográficas 
 
 1. Serviço Social. 2. Prática profissional. 3. Razão histórico- crítica. 4. 
Imediaticidade. I Montaño, Carlos. II. Universidade Federal do Rio de 
Janeiro, Escola de Serviço Social. III. Título. 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 À Joana Maria, 
minha filha querida, que ilumina o 
futuro. 
 
À Isabel Cristina, irmã amiga, 
que recompõe o nosso passado. 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 O momento de externar os agradecimentos àqueles que 
contribuíram diretamente para o cumprimento de uma jornada tão rica em 
aprendizagem é necessário e oportuno. 
 Os primeiros agradecimentos dirigem-se à Universidade Católica de Goiás, por 
meio da Pró-Reitoria de Pós-graduação e Pesquisa, que oportunizou as 
condições e o apoio para a realização deste doutorado, particularmente, o 
Departamento de Serviço Social da Universidade Católica de Goiás. Em 
especial, à professora Carmen Paro, diretora do Departamento de Serviço 
Social, sempre atenta às nossas necessidades e partilhando cada momento, 
cada batalha. Agradeço, também, todas as colegas professoras do 
Departamento, indistintamente. 
 Agradeço e compartilho com alegria, respeito e admiração todas 
as conquistas com a nossa querida amiga professora Walderez, que nos inspira 
em sua coerente trajetória profissional de luta e atitude crítica. 
 O percurso iniciado com o processo de seleção e que culmina com 
a apresentação da tese não foi realizado solitariamente, pois alguns ombros 
amigos foram fundamentais para o cumprimento dessa tarefa. Dentre eles, 
agradeço a minha irmã, Isabel Cristina, e a sua família, pelo apoio logístico 
durante a minha estada na cidade do Rio de Janeiro, sempre amiga, 
companheira, preocupada com cada detalhe e com o bem-estar de minha filha. 
Agradeço às colegas do curso de doutorado, especialmente Eleusa e Omari 
pelos momentos compartilhados, pelas discussões teóricas e troca de saberes, 
e, ainda, à amiga e colega da comissão de ensino, Terezinha e a Leile pelo apoio. 
 Contei, nessa trajetória, com uma companheirinha destemida: 
Joana Maria, minha filha, que mudou de cidade, de escola, conheceu novos 
 
 
6 
horizontes, fez amigos, cresceu, amadureceu e aprendeu a exercitar a 
paciência, acompanhando-me para verificar in loco como eram interessantes as 
aulas ministradas por meus professores, ouvindo as dúvidas, as angústias, as 
euforias pelas descobertas e as reclamações pelo cansaço. 
 Estudar em um programa da Escola de Serviço Social da 
Universidade Federal do Rio de Janeiro é um grande privilégio, e procurei 
valorizar cada momento, da forma mais intensa possível. Nesse caminho, 
encontrei mestres que me instigaram e que, apaixonados por seus ofícios, 
profundamente comprometidos com o conhecimento e com o Serviço Social 
brasileiro e latino-americano, me estimularam a redescobrir as dimensões 
teórico-metodológicas, ético-políticas e técnico-operativas da profissão. 
Dentre esses mestres, destaco os professores José Paulo Netto, Yolanda 
Guerra e, especialmente, Carlos Montaño, meu querido orientador. Produzir 
uma tese não é uma tarefa fácil, o processo é árduo, doloroso, exaustivo 
intelectual e fisicamente. O professor Carlos assumiu um comportamento 
pedagógico ímpar, conjugando rigor, exigência e respeitando meus limites para 
a produção intelectual na dose certa. Aprendi, ao longo desse processo, a 
admirá-lo como pessoa e como intelectual, a valorizar as suas produções, a 
compreender a importância da ação política e profissional desse jovem 
professor na América Latina. 
 Por último, gostaria de agradecer aos professores doutores que 
gentilmente aceitaram participar da banca de qualificação dos papers, do 
projeto de tese, da pré-defesa e da defesa da tese − Yolanda Guerra, José 
Paulo Netto, Maria Inês Souza Bravo, Elaine Berhing e Maria Lúcia Duriguetto. 
 
 
 
 
 
 
 
7 
 SUMÁRIO 
 
 
 
RESUMO............................................................................................................................. 9 
ABSTRACT........................................................................................................................10 
APRESENTAÇÃO............................................................................................................. 11 
 
CAPÍTULO I – FENOMENOLOGIA DA PRÁTICA PROFISSIONAL 
DO ASSISTENTE SOCIAL: O APARECER NA TOTALIDADE ...........................18 
1.1 Emergência do Serviço Social e as bases teóricas e ideo-políticas 
da prática profissional.......................................................................................... 25 
1.2 Concepção de Serviço Social e a prática profissional................................... 43 
1.3 A fenomenologia em Hegel: o aparecer da prática profissional ................. 58 
1.4 A fenomenologia da prática profissional do assistente social: 
a preponderância da certeza sensível............................................................... 65 
 1.4.1 A prática profissional assistencialista................................................ 72 
 1.4.2 A prática profissional imediatista ....................................................... 77 
1.5 A percepção e a prática profissional do assistente social............................91 
 
CAPÍTULO II – O REINO DO ENTENDIMENTO E A PRÁTICA 
PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL ...................................................... 107 
2.1 A força do entendimento.................................................................................... 112 
2.2 A força do entendimento, o pensamento burguês e o Serviço Social ...... 131 
2.3 Descrição da práticaprofissional do assistente social orientada 
 pelo entendimento ................................................................................................155 
2.4 A prática profissional burocratizada e repetitiva..........................................173 
 
 
 
 
8 
CAPÍTULO III – RAZÃO DIALÉTICA IDEALISTA E A RAZÃO 
HISTÓRICO-CRÍTICA: COTIDIANO E IMEDIATICIDADE...........................190 
3.1 Razão dialética idealista hegeliana................................................................... 191 
3.2 A perspectiva ontológica da concepção materialista: a razão 
 histórico-crítica...................................................................................................204 
3.3 A unidade teoria e prática..................................................................................216 
3.4 Cotidiano e Imediaticidade ...............................................................................223 
3.5 Alienação, valores e vida cotidiana..................................................................230 
3.6 Reconstrução do trajeto: imediaticidade uma categoria 
 reflexiva ................................................................................................................238 
3.7 O sentido da prática ...........................................................................................246 
 
CAPÍTULO IV – RAZÃO HISTÓRICO-CRÍTICA, SERVIÇO SOCIAL 
E IMEDIATICIDADE..................................................................................................252 
4.1 O processo de renovação do Serviço Social brasileiro e a razão 
 histórico-crítica...................................................................................................258 
4.2 O processo de desenvolvimento da perspectiva marxista no 
 Serviço Social brasileiro....................................................................................265 
4.3 A prática profissional orientada pela razão histórico-crítica ..................276 
4.4 Descrição da pratica profissional histórico-crítica: 
 determinações, mediações e legalidades .......................................................284 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Imediaticidade na prática 
profissional do assistente social................................................................................314 
Referências Bibliográficas .........................................................................................330 
 
ANEXO 
Pesquisa documental ....................................................................................................345 
 
 
9 
 
 
 
 
 RESUMO 
 
 
O presente estudo propõe investigar a imediaticidade na prática 
profissional cotidiana do assistente social. A superficialidade extensiva da 
vida cotidiana, a forma fragmentada de apreensão da realidade hegemônica na 
sociedade capitalista e sua tendência à naturalização dos fenômenos sociais, 
conduzem ao obscurecimento da essência, ao considerar o aparente como a 
substância. O conhecimento da realidade implica o desvelamento da aparência, 
e a consciência assume um papel fundamental nesse processo. Para apreender a 
essência, a consciência movimenta-se dialeticamente, a fim de capturar as 
mediações que conectam os complexos sociais constitutivos e constituintes da 
totalidade do ser social, e supera, no plano do pensamento, a imediaticidade. 
A descrição desse movimento, pautado no discurso dos 
assistentes sociais relativo à prática profissional possibilitou submeter à 
crítica como a imediaticidade ou a imediatez do fazer profissional condiciona a 
concepção que os assistentes sociais têm da elaboração teórica e, portanto, ao 
empobrecê-la, perpetuam a prática reiterativa. Possibilitou, também, analisar a 
relação teoria e prática no âmbito da certeza sensível, da percepção, do 
entendimento e da razão histórico-crítica. A base filosófica e teórico-
metodológica para o desenvolvimento da presente tese fundamenta-se na 
tradição marxista e foram realizadas pesquisas bibliográfica e documental. 
 
Palavras-chave: prática profissional − imediaticidade − razão histórico-crítica. 
 
 
 
 
 
10 
 
 
 
 
ABSTRACT 
 
 
 
This study investigates the immediacy in professional practice of 
everyday social worker. The extensive superficiality of daily life, the 
fragmented way of apprehending reality hegemonic in capitalist society and 
its tendency to naturalization of social phenomena, leads to the obscurity of 
the essence, when considering the apparent as the substance. Knowledge of 
reality involves the unveiling of appearance, and awareness is a key role in this 
process. To grasp the essence, the conscience moves up dialectically, in order 
to capture the mediations that connect the complex social constituent and 
and the constituents of social being's totality, and exceeds, in terms of 
thinking, the immediacy. 
The description of this movement, based on the discourse of 
social workers on professional practice, allowed to submit the criticism of how 
the immediacy of professional practice stipulates the view that social workers 
have about the theoretical development and therefore as they impoverish it, 
perpetuate the reiterative practice. Also enabled exam the relationship 
theory and practice within the sensitive sure, the perception, understanding 
and historical-critical reason. The philosophical and theoretical – 
methodological base for the development of this thesis is based on Marxist’s 
tradition and literature and bibliography and documentary searches were 
made. 
 
Key Words : profissional practice − immediacy − historical-critical reason 
 
 
 
11 
 
 
 
 
APRESENTAÇÃO 
 
 
O presente estudo propõe investigar a imediaticidade na prática 
profissional cotidiana do assistente social. A superficialidade extensiva da 
vida cotidiana, a forma fragmentada como o pensamento hegemônico apreende 
a realidade na sociedade capitalista e sua tendência à naturalização dos 
fenômenos sociais, conduzem ao obscurecimento da essência, ao considerar o 
aparente como a substância. O conhecimento da realidade implica o 
desvelamento da aparência, e a consciência assume um papel fundamental 
nesse processo. Para apreender a essência, a consciência movimenta-se 
dialeticamente, a fim de capturar as mediações que conectam os complexos 
sociais constitutivos e constituintes da totalidade do ser social, e supera, no 
plano do pensamento, a imediaticidade. 
Entende-se imediaticidade como uma categoria reflexiva que 
designa um certo nível de recepção do mundo exterior pela consciência. Para 
estudar a imediaticidade na prática profissional do assistente social, buscou-
se discernir as formas como a consciência conhece a realidade, movimentando-
se dialeticamente tanto sobre o seu saber quanto sobre o seu objeto. A 
descrição desse movimento tem como referência os discursos dos assistentes 
sociais relativos à prática profissional, problematizado no âmbito da certeza 
sensível, da percepção, do entendimento e da razão histórico-crítica. 
 Essa perspectiva de investigação possibilitou a discussão e a 
análise da imediaticidade na prática do assistente social por meio de dois eixos 
que se conectam. Primeiro, abriram-se caminhos para submeter à crítica como 
 
 
12 
a imediaticidade ou a imediatez do fazer profissional condiciona a concepção 
que os assistentes sociais têm da elaboração teórica e, que, ao empobrecê-la, 
restringem-se à prática reiterativa. A reiteração, segundo Vasquez (1977), é 
um componente da práxis e constitui um nível da prática ineliminável, mas não 
pode ser toda a prática. Segundo, adentra-se o debate acerca da relação 
teoria e prática, enfatizando os estágios da consciência a caminho do 
conhecimento e buscando elucidar o debate filosófico entre o entendimento e 
a razão. 
A tese apresentada neste estudo é que a prática profissional 
assume diferentes orientações e característicasem decorrência do nível de 
receptividade do mundo exterior pela consciência. Como na cotidianidade 
tende a prevalecer a conexão imediata entre pensamento e ação, a 
imediaticidade é a categoria reflexiva que orienta a prática profissional 
quando o nível de consciência do assistente social atém-se à certeza sensível, 
ou à percepção ou ao entendimento. 
Verifica-se que a prática profissional do assistente social 
caracteriza-se pela rotina, repetição de tarefas e pela espontaneidade 
necessárias para a reprodução do indivíduo e da profissão, a fim de responder 
às múltiplas exigências estabelecidas no âmbito da reprodução social. Para 
responder às heterogêneas e imediatas demandas sócio-institucionais no 
cotidiano da prática profissional, os assistentes sociais − como muitas outros 
profissionais −, por meio do movimento da consciência que se atém à certeza 
sensível, ou à percepção ou ao entendimento, apreendem apenas as expressões 
fenomênicas da realidade, conectando imediatamente teoria e prática. 
A base filosófica e teórico-metodológica para o desenvolvimento 
da presente tese sustenta-se na dialética materialista marxiana. Para analisar 
o caminho que a consciência percorre em busca do conhecimento recorreu-se à 
obra de Hegel (2001), Fenomenologia do espírito. Conforme o autor, nesse 
 
 
13 
caminho, a consciência movimenta-se da certeza sensível para a percepção, da 
percepção para o entendimento, e do entendimento, para a razão dialética. 
Esse movimento realiza-se por meio da supra-sunção, isto é, a consciência, ao 
exercitar-se em si mesma, tanto em seu saber quanto em seu objeto, eleva-se 
de um estágio a outro. 
O caminho para o conhecimento inicia-se no estágio da certeza 
sensível, no qual a consciência, ao indagar sobre si mesma e sobre o seu objeto, 
torna-se cônscia de que o conhecimento, que, de início, provém da certeza do 
indivíduo como ser singular, em relação ao objeto singular, que simplesmente é, 
se relaciona com o universal. Nesse momento, ocorre a supra-sunção para a 
percepção. 
Quando atinge esse estágio, a consciência, para conhecer o 
objeto singular, quer apreender as propriedades desse objeto, no entanto, tais 
propriedades relacionam-se entre si, e apenas podem ser firmadas na relação 
com as propriedades do próprio objeto. Abalada na verdade da percepção, a 
consciência movimenta-se para o reino do entendimento. Essa dimensão é 
constitutiva, segundo Hegel (2001), de dois momentos: o momento da força e o 
momento da formulação de leis. 
O momento da força implica um retorno à percepção, relacionando 
as propriedades, agora de diferentes objetos, em um movimento complexo, no 
qual a consciência passa de um extremo a outro. De um lado, desse extremo 
está o solicitante e, de outro, o solicitado. De um lado está o objeto e, de 
outro, o sujeito e o seu conhecimento sobre as propriedades de diferentes 
objetos. No momento seguinte, cônscia desse movimento, a consciência 
formula leis relacionando as características singulares e universais desses 
objetos. No entanto, esses objetos relacionam-se entre si apenas para 
firmarem o que eles são. Quando a consciência busca estabelecer as mediações 
 
 
14 
entre os objetos e a existência desses objetos, ocorre a supra-sunção para a 
razão dialética. 
 
 Trata-se de um movimento que, ao mesmo tempo, aniquila, 
recupera e supera os conhecimentos do sujeito em relação ao objeto, 
conduzindo a consciência à supra-sunção de um estágio a outro até chegar à 
verdade que, para o pensamento hegeliano, resulta da idéia. 
Como a realidade, para Hegel (2001), é posta pelo pensamento, 
buscou-se no materialismo histórico-dialético fundado por Karl Marx (2004; 
2005; 2007), os fundamentos ontológicos para compreender a caráter 
concreto do ser social, com base nas dinâmicas de suas contradições 
dialéticas, suas conexões e legalidades, a fim de estabelecer a relação entre 
imediaticidade e mediação e demonstrar que a vida cotidiana freqüentemente 
oculta a essência do próprio ser. 
Para investigar a imediaticidade na prática profissional do 
assistente social no cotidiano, foram realizadas pesquisas bibliográfica e 
documental. A pesquisa bibliográfica objetivou a apreensão da categoria 
imediaticidade como categoria reflexiva, problematizada com base na relação 
sujeito e objeto conforme a dialética idealista de Hegel (2001), e na ontologia 
do ser social, segundo a dialética materialista de Karl Marx (1988; 2004; 
2005; 2007). Lançou-se mão, ainda, da ontologia do ser social, de Georg Lukács 
(1966; 1979a; 1979b; 1997), e se buscaram trabalhos de outros autores 
contemporâneos, como Eric Hobsbawm (1994), David Harvey (1989), Agnes 
Heller (2000; 2002) e István Mészáros (2002) 
A pesquisa bibliográfica para apreender as particularidades do 
Serviço Social subdivide-se em fontes de referências teóricas e referências 
 
 
15 
empíricas1. As fontes de pesquisa das referências teóricas foram embasadas, 
especialmente, nas obras de Marilda Iamamoto (1982; 1998, 2002; 2007) e 
José Paulo Netto (1994; 1996; 2000; 2004). Foram pesquisadas, ainda, obras 
de Ana Elizabete Mota (1998, 2000), de Maria do Carmo Falcão (2000), Maria 
Inês Souza Bravo (1996), Maria Lúcia Martinelli (2003), Maria Lúcia Silva 
Barroco (2005), Yolanda Guerra (1999; 2004), Carlos Eduardo Montaño (1998; 
2007), Ana Maria Vasconcelos (2003), Reinaldo Pontes (1997), Consuelo 
Quiroga (1991), dentre outros. Para a investigação das referências empíricas, 
foram buscadas, especialmente, as seguintes fontes bibliográficas: 
Vasconcelos (2003), Silva et al. (1980), Silva e Hackbart (1998), Freire (2003) 
e Torres (2006). 
A pesquisa documental foi realizada com o objetivo de apreender, 
por meio dos discursos dos assistentes sociais, como a imediaticidade 
comparece na prática profissional na cotidianidade. Para a sua realização, 
recorreu-se às comunicações orais2 apresentadas no XI Congresso Brasileiro 
de Assistentes Sociais3 e III Encontro Nacional de Serviço Social e 
Seguridade, realizado na cidade de Fortaleza, em 2004, organizados pelas 
entidades da categoria − o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e 
Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS), a Associação Brasileira de 
Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) e a Executiva Nacional de 
Estudantes de Serviço Social (ENESSO). Nesse congresso, as comunicações 
 
1 Tais referências são de absoluta importância, uma vez que o presente estudo utilizou pesquisas realizadas 
por diferentes autores em momentos históricos diferenciados. 
2 Segundo a comissão organizadora do evento, foram apreciados 1.367 trabalhos e selecionados 1.169, 
apresentados em sessões temáticas e painéis, na forma de comunicações orais e pôsters. 
3 O Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS) constitui o maior evento da categoria no Brasil, e 
reúne, trienalmente, profissionais de todo o território brasileiro para debater as relações sociais e o Serviço 
Social. A pesquisa documental foi realizada durante o período de junho de 2006 a maio de 2007, e buscou-
se, naquele momento, acesso às comunicações do último congresso realizado, o XI CBAS. 
 
 
16 
orais foram organizadas em dezessete eixos, apresentadas em sessões 
temáticas4 simultâneas. 
Foram pesquisadas as comunicações orais cujos títulos continham 
referência direta à prática profissional (análise e sistematização da prática e 
narrativas de experiências). Com base nesse critério, foram selecionadas 65 
comunicações orais, analisadas conforme os seguintes aspectos: área de 
atuação, tema, concepção de Serviço Social, problematização da realidade, 
referência bibliográfica, proposições, atividades/ações desenvolvidas, dados 
empíricos e objetivos da prática. Recorreu-se, ainda, às comunicações 
apresentadas no VI Seminário de Teorização de Serviço Social5, realizado na 
cidadedo Rio de Janeiro, de 26 a 29 de agosto de 1997, organizado pelo 
Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais (CBCISS) 
e aos artigos publicados na última década que analisam a prática profissional 
do assistente social. 
Os conteúdos da tese são abordados em quatro capítulos. A 
estrutura dos capítulos segue o movimento da consciência a caminho do 
conhecimento e explicita as características da prática profissional em cada 
estágio que conduz ao processo de conhecimento. Buscou-se, por meio desse 
movimento, apreender as dimensões teórico-metodológicas, ético-políticas e 
técnico-operativas da profissão, contextualizado-as no movimento das 
relações de reprodução social. 
 
4 As comunicações orais e os pôsters foram apresentados conforme as seguintes sessões temáticas: Estado, 
direitos e democracia; Seguridade social (concepção, controle social, financiamento, gestão); Direitos 
geracionais (infância e juventude, velhice); Questões de gênero, raça, etnia e sexualidade; Direitos e garantias 
das pessoas com deficiência; Famílias e sistemas de proteção social; Questão urbana e direito à cidade; 
Questão agrária e o acesso à terra; Desenvolvimento regional, meio ambiente e direito à vida; Direitos 
humanos e segurança pública; Políticas alternativas de geração de trabalho e renda; Sociedade civil e a 
construção da esfera pública; O projeto ético-político, trabalho e formação profissional; Etica e Serviço 
Social; Serviço Social, educação e expressões artísticas; Serviço Social e sistema sócio-jurídico, Serviço 
Social e as relações de trabalho. 
5 Recorreu-se às comunicações do seminário em referência com o objetivo de apreender a pluralidade 
teórico-metodológica, técnico-operativa e ideo-política presente no Serviço Social brasileiro. 
 
 
17 
No primeiro capítulo, descrevem-se as características da prática 
profissional orientada pela certeza sensível e pela percepção. O segundo 
capítulo trata da prática profissional orientada pelo entendimento, suas 
características sócio-históricas, sua direção social e os fundamentos teórico-
metodológicos que a alicerçam. Contrapõem-se, ainda, nesse capítulo, a 
concepção de entendimento para o pensamento hegeliano e o entendimento 
para o pensamento kantiano. 
No terceiro capítulo, procura-se apreender o movimento da 
consciência no estágio da razão dialética e evidenciar a crítica às antinomias 
contidas na dialética hegeliana, aproximando-se da razão histórico-crítica que 
capta as contradições, determinações, mediações e legalidade da realidade 
com base no movimento do real em sua totalidade. Busca-se, ainda, analisar a 
relação entre teoria e prática com base nos fundamentos filosóficos 
vinculados à ontologia do ser social, problematizando-a com base na esfera do 
cotidiano. No quarto capítulo, apreendem-se, no contexto do processo de 
renovação do Serviço Social brasileiro, os elementos sócio-históricos que 
possibilitaram a aproximação de segmentos da profissão com a teoria social de 
Karl Marx, nas décadas de 1970 e 1980. Procura-se evidenciar a concepção 
marxiana de prática com base nas Teses sobre Feuerbach, e descreve-se a 
prática profissional do assistente social orientada pela razão histórico-crítica. 
A categoria imediaticidade perpassa todos os capítulos, constituindo, assim, a 
categoria central do presente estudo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
18 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO I −−−− A FENOMENOLOGIA DA PRÁTICA PROFISSIONAL DO 
ASSISTENTE SOCIAL: O APARECER NA TOTALIDADE 
 
A consciência na vida cotidiana tem, em geral, 
por seu conteúdo, conhecimentos, experiências, 
sensações de coisas concretas, e também, pensamento, 
princípios − o que vale para ela como um dado ou então 
como ser ou essência fixos e estáveis. A consciência, em 
parte, discorre por esse conteúdo; em parte, 
interrompe seu [dis]curso, comportando-se como um 
manipular do mesmo conteúdo, desde fora. Reconduz o 
conteúdo a algo que parece certo, embora seja só a 
impressão do momento; e a convicção fica satisfeita 
quando atinge um ponto de repouso já conhecido 
(HEGEL, 2002, p. 47). 
 
O processo de formação profissional do assistente social, 
materializado nas diretrizes curriculares do curso de Serviço Social provoca 
mal-estar em um segmento dos assistentes sociais que não encontram 
aplicabilidade para os conteúdos históricos, teórico-metodológicos, ético-
políticos e técnico-operativos que conformam tais diretrizes. 
Esse mal-estar, entre outras ocasiões, evidenciou-se no processo 
de construção das novas diretrizes curriculares do Curso de Serviço Social, 
permeado por um amplo e sistemático debate desencadeado pela Associação 
 
 
19 
Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), a partir de 1994. 
Conforme as deliberações da XXVIII Convenção Nacional da ABEPSS (então 
denominada como Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social − ABESS) 
dentre os encaminhamentos para a revisão do currículo mínimo, desde 19826, 
dever-se-ia proceder a uma profunda avaliação do processo de formação 
profissional, tendo em vista as exigências decorrentes das transformações 
societárias do último quartel do século XX. Foram promovidas e organizadas 
pela ABEPSS, aproximadamente 200 oficinas locais nas 67 unidades de ensino 
filiadas à entidade, 25 oficinas regionais e duas nacionais que, na primeira 
etapa, avaliaram os impasses e as tensões presentes no processo de formação 
profissional, dentre os quais se destacava a relação entre a teoria e a prática. 
A problematização dessa inquietação dá-se em duas direções. A 
primeira nega qualquer possibilidade de mediação entre a realidade, a prática 
profissional e o conhecimento, sustentando que os fundamentos teórico-
metodológicos e ético-políticos que alicerçam o processo de formação 
profissional não têm utilidade prática para o cotidiano do exercício 
profissional. A explicitação dessa negação evidencia-se, prioritariamente, no 
discurso dos profissionais que conectam de forma imediata a teoria e a ação. 
Observa-se que o recurso utilizado por esse segmento é o discurso que unifica 
pensamento, linguagem e realidade, conferindo uma suposta veracidade àquilo 
que está sendo afirmado. Trata-se de um discurso que se propagou 
rapidamente e teve forte apelo porque uma parte do meio profissional nele 
reconhece o escape para as dificuldades encontradas na prática profissional, 
cujo horizonte é a cotidiano. Trata-se, também, de um discurso generalista 
que universaliza as particularidades e dilui as diferenças histórico-sociais, 
institucionais e a própria competência profissional. Esse discurso é uma peça 
 
6 Resolução nº 6 de 23 de setembro de 1982 (BRASIL, CFE, 1982a) e parecer do Conselho Federal de 
Educação nº 412, de 4 de outubro de 1982 (BRASIL, CFE, 1982b). 
 
 
20 
de retórica utilizada para descrever a realidade no cotidiano da prática 
profissional institucionalizada tal qual como ela aparece em sua 
fenomenalidade. 
Esse discurso encontra receptividade também no meio acadêmico, 
entre docentes e discentes nas escolas de Serviço Social porque ele, ao mesmo 
tempo em que reprime o conhecimento científico tem a sua base em um 
determinado pensamento e justifica um determinado modo de ser da 
sociedade. 
 A segunda perspectiva de problematização dessa inquietação é 
aquela que se contrapõe aos fundamentos históricos, teórico-metodológicos, 
ético-políticos e técnico-operativos expressos nas diretrizes curriculares, 
argumentando que os conteúdos transmitidos nas escolas não instrumentalizam 
os profissionais para exercício da prática no cotidiano das instituições que 
compõem o mercado de trabalho dos assistentes sociais e propõe outros 
referenciais teórico-metodológicas. 
Tais direções, na atualidade, são expressões de determinadas 
formas de objetivação do ServiçoSocial e podem ser identificadas no 
discurso de um segmento profissional, em sistematizações da prática 
profissional e em reflexões teóricas relativas à profissão, que criticam a 
perspectiva que se fundamenta na teoria social marxista no interior do 
Serviço Social brasileiro. 
Os discursos que explicitam esse mal-estar imputam essa fissura 
ao processo de formação e o seu suposto distanciamento com o exercício 
profissional cotidiano nas instituições, dando a impressão que se trata de um 
problema do tempo presente e com a pertinência restrita ao Serviço Social. 
No afã em evidenciar esse mal-estar, denunciam o descompasso e 
o distanciamento entre o processo de formação e o exercício profissional que, 
de uma forma reduzida, é identificado como prática, sinônimo de ação 
 
 
21 
interventiva. O tratamento dessa questão como um descompasso permite 
suscitar a hipótese de que seria uma questão de tempo para que ocorresse o 
encontro entre os fundamentos que alicerçam o processo de formação e o 
exercício profissional. No entanto, não se trata de um descompasso. A questão 
exige a reflexão para ultrapassar o maniqueísmo e o mecanicismo presentes na 
reprodução desse pensamento, e apreender essa problemática para além do 
Serviço Social, isto é, para além da coisa em-si7. 
Na direção da análise do Serviço Social no âmbito das relações de 
produção e reprodução da sociedade capitalista, os esforços e os avanços 
obtidos pelo Serviço Social brasileiro são consideráveis e reconhecidos 
nacional e internacionalmente, dos quais emerge a crítica e a possibilidade de 
superação a um modo específico pelo qual a prática profissional se objetiva − 
aquela que se atém ao imediatismo/espontaneísmo e ao imediato, que se retém 
à fenomenalidade dos processos sociais. 
Aparentemente, a questão seria meramente teórica e, para 
tanto, se faz necessária uma adequação: substituir a teoria que não responde 
ao discurso do profissional que vivencia o exercício profissional ou 
desqualificar esse discurso. A questão, todavia, é de cunho prático-social e 
político-ideológico, pois envolve a razão, a consciência dos assistentes sociais, 
o significado que atribuem à prática profissional e a direção social que 
reforçam com a sua intervenção. 
Na literatura referente ao Serviço Social brasileiro, identifica-
se um crescente esforço em apreender o significado da profissão e suas bases 
de objetivação no âmbito das relações sociais. Observa-se uma crescente 
produção acadêmica dos assistentes sociais − fomentada pelos cursos de pós-
 
7 Segundo Japiassú e Marcondes (2006, p. 48), coisa significa, no âmbito do pensamento filosófico, “tudo 
aquilo que possui uma existência individual e concreta.Sinônimo de objeto, portanto realidade objetiva, isto 
é, independente da representação. Nesse sentido, a coisa de apõe à idéia. Em Descartes, a coisa é sinônimo de 
substância, de algo que existe em si mesmo (...). Em Kant, a coisa em si designa aquilo que existe 
independentemente do espírito e do conhecimento que este tem dela, sendo em si mesma incognoscível”. 
 
 
22 
graduação − e apresentação de comunicações em encontros da categoria 
resultantes de pesquisas ou de sistematizações do exercício profissional. Tais 
produções e sistematizações do exercício profissional explicitam as principais 
preocupações dos assistentes sociais e, dentre elas, se destacam as tensões 
vivenciadas no cotidiano. 
Constata-se, ao mensurar quantitativamente o acervo de 
comunicações8 enviadas pelos assistentes sociais para o XI Congresso 
Brasileiro de Assistentes Sociais e II Encontro Nacional de Serviço Social e 
Seguridade, realizado em 2004, na cidade de Fortaleza, dentre aquelas que 
foram aprovadas pela comissão técnica organizadora, que 7,5% se referem 
diretamente ao trabalho, ou atuação, ou exercício, ou prática profissional. 
Verifica-se, na análise da produção literária do Serviço Social brasileiro 
resultantes de pesquisas apresentadas em trabalhos acadêmicos dos cursos de 
pós-graduação e em artigos publicados em revistas da área nas últimas duas 
décadas, a recorrência da temática que reflete a relação entre a teoria e a 
prática na agenda profissional. 
A prática começa a ser problematizada e se conforma em objeto 
de preocupação vinculado aos fundamentos históricos e teórico-metodológicos 
da profissão a partir da década de 1960, quando se instaurou o pluralismo 
teórico, ideológico e político no Serviço Social brasileiro. Segundo Netto 
(1996, p. 128), 
 
é inconteste que o Serviço Social no Brasil, até a primeira 
metade da década de sessenta, não apresentava polêmicas 
de relevo, mostrava uma relativa homogeneidade nas suas 
projeções interventivas, sugeria uma grande unidade nas 
suas propostas profissionais, sinalizava uma formal 
 
8 As comunicações orais fundamentam-se em diferentes matrizes teórico-metodológicas. 
 
 
23 
assepsia de participação político-partidária, carecia de 
uma elaboração teórica significativa e plasmava-se numa 
categoria profissional onde parecia imperar, sem disputas 
de vulto uma consensual direção interventiva e cívica. 
 
Netto (1996) não nega a existência de conflitos e tensões no 
Serviço Social brasileiro até a década de 1960, mas eles não provocavam 
perturbações no âmbito profissional, ao passo que o processo desencadeado, a 
partir de então, configura-se em ruptura, cujas bases se vinculam à laicização 
do Serviço Social e suas incidências no mercado nacional de trabalho e nas 
agências de formação profissional. Para Netto (1996), esse é um dos 
elementos caracterizadores do processo de renovação do Serviço Social sob a 
autocracia burguesa, conduzindo à diferenciação da categoria profissional e à 
disputa pela hegemonia em todas as suas instâncias − projetos de formação, 
órgãos de representação, valores e princípios e paradigmas de intervenção. 
A refuncionalização da prática profissional e o redimensionamento 
das condições de formação são apreendidos pelo autor com base no movimento 
sócio-histórico das relações sociais na sociedade brasileira, do qual o Serviço 
Social é constitutivo e constituinte. Assinala Netto (1996, p. 129): 
Ao refuncionalizar a contextualidade da prática 
profissional e redimensionar as condições da formação 
dos quadros por ela responsáveis, o regime autocrático 
burguês deflagrou tendências que continham forças 
capazes de apontar para o cancelamento de sua 
legitimação. 
 
O regime autocrático burguês, ao implementar o modelo de 
modernização conservadora de desenvolvimento das relações capitalista criou 
 
 
24 
suas demandas específicas mas, também, as condições e as possibilidades de 
“se gestarem alternativas às práticas e às concepções profissionais que ela 
demandava”, afirma Netto (1996, p. 129, grifos do autor9). Nesse cenário 
deflagrou-se, em meados da década de 1960, o processo de renovação do 
Serviço Social no Brasil, entendido por Netto (1996, p. 131) como 
 
o conjunto de características novas que, no marco das 
constrições da autocracia burguesa, o Serviço Social 
articulou, à base do rearranjo de suas tradições e da 
assunção do contributo de tendência do pensamento social 
contemporâneo, procurando investir-se como instituição 
dotada de legitimação prática, através de respostas a 
demandas sociais e da sua sistematização, e de validação 
teórica, mediante a remissão às teorias e disciplinas 
sociais. 
 
O processo de renovação do Serviço Social brasileiro não liquidou 
o Serviço Social tradicional, mas a instauração do pluralismo possibilitou aos 
assistentes sociais acessarem e construírem procedimentos diferenciados 
para embasar a sua prática profissional. Trata-se de um processo repleto de 
tensão, pois a homogeneidade nas projeções interventivas no Serviço Social 
brasileiro foi posta em questão,a assepsia de participação política-partidária 
foi desbloqueada e se iniciou um processo no qual o significado sócio-histórico 
da profissão passou a referenciar-se em matrizes teóricas antagônicas, 
explicitando a disputa por projetos societários. O consenso relativo à direção 
interventiva e cívica no interior da categoria profissional deixou de existir e 
 
9 Quando não houver indicação expressa, os grifos são do texto original. 
 
 
25 
uma parcela da categoria passou a ter a compreensão da relação entre a 
prática e a teoria que se constituir em objeto de permanente indagação. 
As bases teóricas e ideo-políticas que sustentavam o modelo de 
intervenção do Serviço Social tradicional foram discutidas, avaliadas, 
criticadas, renovadas, mas ainda permanecem no ideário de um segmento da 
profissão. Essas bases constituem e são constituídas pelo padrão hegemônico 
de objetivação da sociedade burguesa que “confere aos fenômenos e 
processos sociais uma positividade que privilegia o seu tratamento ao nível da 
sua imediaticidade” (NETTO, 1988, p. 142). Trata-se de um modelo de 
intervenção cujas bases teóricas e ideo-políticas sustentam que os fenômenos 
sociais estão postos, estabelecidos. 
Na trajetória do Serviço Social brasileiro, esse modelo de 
intervenção prescritiva sustentou a prática profissional do assistente social 
em sua emergência e permanece presente na atualidade, referendado em 
diferentes matrizes teóricas, mas que expressam uma forma de conhecer e 
agir circunscrita ao imediato e contribui para conservar a sociedade vigente. A 
caracterização e a lógica que permeiam a sua forma de aparecer foram 
desveladas no processo de renovação do Serviço Social brasileiro. Para 
compreender a reprodução desse modelo prescritivo de intervenção 
profissional na atualidade, faz-se necessário retomar o seu processo de 
constituição, enfatizando os parâmetros teórico-metodológicos que o 
sustentam. 
 
1.1 Emergência do Serviço Social e as bases teóricas e ideo-políticas da 
prática profissional 
 
A constituição do Serviço Social como profissão reveste-se de 
ambigüidades, decorrentes de sua necessidade de legitimar-se perante a 
 
 
26 
classe burguesa e a classe trabalhadora. As transformações sócio-históricas 
são impulsionadas pela permanente luta que essas classes travam entre si no 
âmbito das relações de produção e de reprodução social. Para manter-se 
desfrutando do poder econômico-político e ideológico, a classe hegemônica 
deve manter a classe subalterna sob controle. O desenvolvimento das forças 
produtivas complexifica as relações sociais, colocando e recolocando a 
exigência de reordenamento das estratégias dos instrumentos de coerção e 
persuasão que a classe burguesa utiliza para garantir a valorização, a 
acumulação e a ampliação do capital. 
Na fase do capitalismo monopolista, o Estado, como instância 
política e econômica da burguesia, ampliou as suas funções. Segundo Netto 
(2001), no capitalismo concorrencial, a intervenção estatal no enfrentamento 
às seqüelas da questão social circunscrevia-se básica e coercitivamente às 
lutas da classe trabalhadora e à necessidade de preservar o conjunto de 
relações pertinentes à propriedade privada burguesa. No capitalismo 
monopolista, o Estado assumiu, além daquelas, a função de preservar e 
controlar a força de trabalho, ocupada e excedente, assinala Netto (2001). 
Essa assunção é compulsória e suas determinações vinculam-se às contradições 
da economia capitalista que aumenta a capacidade de produção social da 
riqueza mas gera, simultaneamente e na mesma proporção, a pobreza. Na idade 
do capitalismo monopolista, para garantir o aumento das taxas de 
lucratividade, o Estado assegura a manutenção e a reprodução da força de 
trabalho, ocupada e excedente, mas também 
 
é compelido (e o faz mediante os sistemas de previdência 
e segurança social) a regular a sua pertinência a níveis 
determinados de consumo e a sua disponibilidade para a 
ocupação sazonal, bem como a instrumentalizar 
 
 
27 
mecanismos gerais que garantam a sua mobilização e 
alocação em função das necessidades e projetos do 
monopólio (NETTO, 2001, p. 27). 
 
O sistema de poder da burguesia tem como objetivo central 
garantir a lucratividade do capital monopolista, mas para exercer as suas 
funções econômicas necessita legitimar-se ideo-politicamente perante a classe 
trabalhadora que, para o atendimento as suas necessidades sociais, se 
organiza, luta e reivindica direitos econômico-sociais e políticos. Para 
responder às demandas do capital na fase dos monopólios, o Estado amplia a 
sua base de sustentação e legitimação sócio-político, absorvendo demandas da 
classe trabalhadora, institucionalizando o acesso aos direitos de cidadania. 
Trata-se de um processo permeado por confrontos e conflitos entre as classes 
sociais e, para atenuá-los e refuncionalizá-los conforme a lógica e os 
interesses do capital, o Estado burguês intervém, como pseudo-agente neutro, 
regulando as relações sociais por meio da força e da persuasão. 
Na ordem do capitalismo monopolista, uma das respostas dada 
pelo Estado é a intervenção contínua e sistemática nas expressões da questão 
social, implementando políticas sociais como estratégias de preservação e de 
controle da força de trabalho, ocupada e excedente, e regulando o patamar 
mínimo de aquisição para o consumo. Ao implementar a política social, o Estado 
burguês no capitalismo monopolista 
 
procura administrar as expressões da questão social de 
forma a atender às demandas da ordem monopólica 
conformando, pela adesão que recebe de categorias e 
setores cujas demandas incorpora, sistemas de consenso 
variáveis, mas operantes (NETTO, 2001, p. 30). 
 
 
28 
 A racionalidade burguesa é a fonte inspiradora para a 
organização da política social que se fragmenta em políticas sociais, 
respondendo de forma fracionada à questão social, cujas manifestações são 
recortadas e enfrentadas como problemáticas particulares. Como problemas 
sociais, as expressões da questão social são individualizadas e psicologizadas e 
se tornam problemas pessoais, de ordem moral. 
Ao tomar para si as respostas às expressões da questão social 
como agente regulador das relações sociais, o Estado cria as condições 
histórico-sociais para que se constitua o espaço sócio-ocupacional na divisão 
social e técnica do trabalho de práticas profissionais como do assistente 
social, assinalam Iamamoto (1982, 2002) e Netto (2001). 
O Serviço Social, no contexto do capitalismo monopolista, surgiu 
como profissão, e o modelo de intervenção profissional adotado centrava-se 
em valores ético-morais cultuados pela burguesia e necessários para o 
estabelecimento e a manutenção da ordem social baseados na resignação 
humana, na concepção fatalista da vida e na naturalização dos fenômenos e 
processos sociais. 
No período que antecedeu a Primeira Grande Guerra (1914-1918), 
a assistência social, na Europa, organizava-se com o objetivo de controlar, 
policiar e contrapor-se ao movimento da classe trabalhadora, com o intuito de 
frear as utopias revolucionárias e dotar os operários dos condicionamentos 
básicos para a obediência e a vivência dos bons costumes, afirma Verdès-
Leroux (1986). 
A concepção que os assistentes sociais tinham do modo de vida 
dos operários era aquela transmitida e captada pela classe burguesa, com 
todas as suas implicações morais e culturais. Para elas, os operários eram 
homens simples, mas perniciosos, noviços, decadentes, grosseiros; nada havia 
neles de artificial, mas eram muitas vezes alcoólatras, viciados, decadentes; 
 
 
29 
eram fracos porque se deixavam levar pelos agitadores profissionais − os 
dirigentes sindicais. O projeto de assistência social nascente era o de educar 
a classe operária, isto é, “fornecer-lhe regras de bom senso e razõespráticas 
de moralidade, corrigir seus preconceitos, ensinar-lhe a racionalidade; 
discipliná-la em seus trajes, nos lares, nos orçamentos domésticos, na maneira 
de pensar”, declara Verdès-Leroux (1986, p. 15). O trabalhador social era 
parte de uma engrenagem que controlava coercitivamente os operários, 
interferindo em seu modus vivendi, impondo e reproduzindo a moralidade e as 
regras adequadas aos interesses da burguesia. 
Este discurso é substituído após a Primeira Guerra Mundial, pois a 
correlação de forças entre as classes sociais alterou-se e, com ela, o eixo 
orientador da assistência social. O governo, representante da classe burguesa, 
propunha o pacto de colaboração sincera entre o patronato e os operários10. 
Para a viabilização desse pacto, a assistência social tornou-se um instrumento 
legítimo e ganhou novos impulsos. Ao final da Primeira Grande Guerra o mundo 
acordou profundamente transformado, pela experiência da própria guerra que, 
segundo Hobsbawm (1995), evidenciou o colapso da sociedade ocidental do 
século XIX e o impacto da Revolução Russa de 1917. A sociedade ocidental do 
século XIX que entrou em colapso era 
 
uma civilização capitalista na economia; liberal na 
estrutura legal e constitucional; burguesa na imagem de 
sua classe hegemônica característica; exultante com o 
avanço da ciência, do conhecimento e da educação e 
 
10 Verdès-Leroux (1986) destaca que as autoridades do governo francês buscam, para a grandeza da França 
e o futuro de sua civilidade a paz e a colaboração entre as classes sociais, destacando a atitude patriótica dos 
operários que pagaram fisicamente um tributo esmagador. As conquistas sociais da classe trabalhadora 
anterior a 1914 fora questionadas, as leis sociais foram suspensas, a jornada de trabalho foi prolongada. Os 
salários rebaixados e congelados. Após 1920, o discurso social modifica-se, rondava a Europa e o mundo a 
revolução bolchevique na Rússia, trazendo conseqüências na forma como as assistentes sociais passaram a 
ver a classe operária. 
 
 
30 
também com o progresso material e moral; e 
profundamente convencida da centralidade da Europa, 
berço das revoluções da ciência, das artes, da política e 
da indústria e cuja economia prevalecera na maior parte 
do mundo, que seus soldados haviam conquistado e 
subjugado; uma Europa cujas populações (incluindo-se o 
vasto e crescente fluxo de emigrantes europeus e seus 
descendentes) haviam crescido até somar um terço da 
raça humana; e cujos maiores Estados constituíam o 
sistema da política mundial (HOBSBAWM, 1995, p. 16). 
 
 Nesse cenário de colapso da sociedade do século XIX, na Europa, 
as práticas do Serviço Social modificaram-se em busca da interação entre as 
classes sociais. O assistente social foi chamado a intervir nas demandas 
sociais, constituídas com base nas relações de produção nas fábricas e nos 
conjuntos habitacionais operários e se criou o serviço social das empresas, das 
caixas de compensação, da habitação, das caixas de seguro social, da infância, 
e outros, afirma Verdès-Leroux (1986). O Serviço Social, adequando-se à 
concepção fragmentária do homem e da sociedade, e nela, das políticas sociais, 
enfatizava a fragmentação de seu saber e de seu fazer. 
O significado da prática, contudo permaneceu o mesmo. Tratava-
se de mudanças na forma e de continuidade, de permanência e de sofisticação 
do conteúdo11. Resultou dessa fragmentação a diversificação das funções e das 
atividades no âmbito da assistência social segundo os espaços de atuação: 
enfermeira-visitadora, superintendente de fábrica, visitadora-controladora do 
seguro social e assistente familiar. Estrategicamente, os trabalhadores sociais 
 
11 Nesse momento, a assistência social reconhecia a importância do Estado e, ao mesmo tempo, era por ele 
reconhecida e encontra guarida no governo e nos meios políticos. Segundo VerdèsLeroux (1986), as 
assistentes sociais faziam elogios sem reservas às autoridades governamentais. 
 
 
31 
participavam dos mecanismos de controle sócio-econômico e ideo-político da 
classe dominada, inserindo-se de forma parcializada e fragmentada nas 
esferas constitutivas do ser social e contribuindo para aumentar o domínio 
sobre a vida cotidiana dos operários. O processo de formação era permeado 
por essa lógica, pois eram habilitadas visitadoras sociais, superintendentes de 
fábrica, assistentes familiares, assistentes sociais, entre outros. 
 Para Verdès-Leroux12 (1986), o trabalho social impôs-se, 
arbitrariamente, pela violência simbólica por meio de práticas produzidas pelo 
habitus, isto é, pela interiorização de normas e valores e por sistemas de 
classificação vinculados às representações sociais dominantes. As modalidades 
de intervenção constituem o meio pelo qual ocorre a inculcação de normas e 
valores e, conforme o campo de forças entre as classes sociais, tais valores e 
modalidades de intervenção são adaptados ideologicamente aos interesses da 
classe dominante, a eles se adequando também os espaços e as formas de 
celebração da profissão. Segundo a autora, o habitus que conforma a prática 
dos trabalhadores sociais, isto é, o conjunto de valores, costumes, formas de 
percepção dominantes, os modelos de pensamento incorporados pelos 
profissionais que orientam e regulam o fazer profissional são ideologicamente 
 
12 O tangenciamento analítico de Verdès-Leroux (1986) é aquele que concebe o Serviço Social 
como evolução, racionalização, organização e profissionalização das formas anteriores de 
ajuda, a caridade e a filantropia. Contudo, o seu arcabouço teórico-analítico apreende − no 
jogo da correlação de força entre as classes sociais, no campo das forças simbólicas que 
atuam na lógica da dominação − o significado e as modalidades de ação do trabalho do 
assistente social como agente a serviço do controle social, denominado como o habitus dos 
assistentes sociais. O conceito de habitus que permeia a análise do trabalho do assistente 
social de Verdès-Leroux (1986) inspira-se no pensamento do sociólogo contemporâneo Pierre 
Bourdieu (1930-2002), e propõe desnudar o modo de engendramento da prática desses 
agentes profissionais. Para Bourdieu, segundo Canesin (2001, p.114), o “Habitus produz a 
prática, porque ela é produto da relação dialética entre uma situação (condições objetivas da 
estrutura) e um Habitus. Autônoma em relação à situação, a prática nasce da relação dialética 
de uma estrutura − por intermédio do Habitus como princípio mediador − e uma conjuntura 
entendida como as condições de atualização desse Habitus. Há pois, entre as estruturas e as 
práticas, a mediação operada pelo Habitus como estruturas interiorizadas social e 
individualmente”. 
 
 
 
32 
inculcados mediante suas modalidades de intervenção e impõem aos 
trabalhadores assistidos a violência simbólica por meio do controle, do 
constrangimento, da tutela, da imposição da moralidade burguesa, da invasão e 
da vigilância da vida privada das classes dominadas. 
O significado do Serviço Social vincula-se à reprodução ideológica 
da ordem burguesa por meio do poder conferido aos profissionais que 
objetivam a assistência social. São profissionais subalternos, cujas práticas se 
caracterizam pelos baixos níveis de teorização e objetivam impregnar a 
população de princípios simples, moldando-a conforme as necessidades da 
classe dominante, assinala Verdès-Leroux (1986). O estudo em tela evidencia a 
fragmentação do trabalho social em relação aos espaços sócio-ocupacionais e a 
divisão de funções para garantir o controle social da vida cotidiana dos 
trabalhadores. 
As primeiras assistentes sociais no Brasil buscavam a sua 
formação acadêmica na Bélgica, cujo padrão desde o término da Primeira 
Guerra Mundial até 1936, segundo Verdès-Leroux(1986), fundava-se no 
discurso da paz social e na proximidade com o operariado, alterando a marca 
do período precedente de violência moral e juízo negativo e depreciativo 
explícito em relação aos hábitos de vida dos trabalhadores. Tratava-se de uma 
aproximação cujo objetivo era, sobretudo, o controle ideológico. 
 Os traços ideológicos e doutrinários que permearam o Serviço 
Social latino-americano em sua gênese foram sugados, acriticamente, do 
modelo belga-francês e, a partir do início da década de 1940, do funcionalismo 
norte-americano. Derivam-se daí, modalidades de práticas que se reproduzem 
na atualidade e habitam o imaginário dos profissionais e estudantes, 
conformando a representação da profissão como vocação. A formação 
 
 
33 
profissional nas primeiras escolas de Serviço Social13 na América Latina 
objetivava dotar essa vocação de referências doutrinárias para diferenciar a 
atividade profissional da ação de caridade, com o intuito de salvaguardar os 
interesses da igreja, assinalam Castro (1989) e Carvalho (1982). 
No entanto, encontrava-se em jogo, sobretudo, a necessidade de 
alterações o padrão de dominação burguesa no momento sócio-histórico de 
trânsito do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista. A 
formação profissional ocultava essas reais necessidades e se constituía de 
estudos teóricos fundamentados na doutrina social da Igreja Católica, na 
filosofia neotomista e de atividades práticas de cunho adestrador, consistindo 
na transmissão/assimilação de modelos prescritos14. 
A profissão era exercida majoritariamente por mulheres, que 
eram preparadas para atuar na área da saúde e higiene, tal qual como se 
organizava o trabalho social na França e na Bélgica. Assim como o modelo 
europeu, o processo de seleção das futuras profissionais era rigoroso e elas 
deveriam enquadrar-se nos seguintes critérios: serem moças de boas famílias, 
educadas no berço da tradição cristã-católica, com boa saúde, devidamente 
atestada, e antecedentes probatórios de honorabilidade. A prática 
profissional desenvolvia-se em instituições assistências, públicas e 
filantrópicas, cujas características era marcadamente permeadas, segundo 
Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982), pelo autoritarismo, paternalismo, 
 
13 Segundo Castro ( 1989) a primeira escola de Serviço Social na América Latina foi fundada por Alejandro 
Del Rio, médico, sanitarista, em 1925, no Chile, em um contexto de crise institucional e contínuos 
protestos, no qual a “classe operária experimentou significativo crescimento em sua organização e 
consciência política” (p. 64). Em 1929, foi criada a primeira escola católica de Serviço Social que pretendia, 
afirma Castro (1989), no contexto dos interesses globais da igreja, recuperar o seu papel de condutora da 
moralidade. 
14 Os estudos teóricos no processo de formação profissional, segundo Carvalho (In Iamamoto e Carvalho, 
1982), abordavam os fundamentos gerais de sociologia, pedagogia, economia social, legislação social, 
instrução cívica, anatomia e fisiologia, higiene privada, ética profissional e religião. No ensino prático, 
destacavam-se: tratamentos de caso individual, encaminhamentos jurídicos, técnicas de escritório e 
estatísticas, contabilidade, primeiro socorros, cuidados domiciliares a doentes, puericultura, nutricionismo, 
trabalhos manuais e exercícios de oratória. 
 
 
34 
doutrinarismo e ausência de base técnica. Tais características refletiam a 
ideologia da classe dominante e assumiam determinadas particularidades em 
decorrência das condições sócio-históricas de cada país latino-americano. 
 No exame dessas condições, destacam-se a dinâmica das relações 
econômicas, sócio-culturais e políticas entre os países centrais e os países 
periféricos de economia capitalista dependente e subdesenvolvidos e a 
formação dos sujeitos sócio-históricos e o padrão de dominação burguesa em 
cada país, levando-se em consideração a sua inserção na lógica de acumulação 
do capital. Elucidar esse complexo emaranhado constitui o grande desafio para 
compreender a emergência do Serviço Social no Brasil, na década de 1930, o 
seu significado e à sua funcionalidade em um país com baixíssimo grau de 
escolaridade, com o acesso restrito à educação, com mão-de-obra 
desqualificada, com ausência de políticas de saúde e estrutura de saneamento 
e atendimento médico-hospitalar e com o espectro do comunismo rondando a 
classe trabalhadora. Nesse momento, a economia brasileira encontra-se 
premida, pelas condições externas e internas, a substituir o esgotado modelo 
de desenvolvimento agro-exportador para o modelo urbano-industrial no 
contexto do capitalismo monopolista. 
 Segundo Fernandes (2006, p. 346), as conexões da dominação 
burguesa com a transformação capitalista “se alteram de maneira mais ou 
menos rápida, na medida em que se consolida, se diferencia e se irradia o 
capitalismo competitivo no Brasil e, em especial, em que se aprofunda e se 
acelera a transição para o capitalismo monopolista”. 
O comando da máquina propulsora de tais alterações guiava-se 
pelos interesses econômicos do capitalismo central das nações hegemônicas e 
o elemento principal era a emergência da industrialização “como um processo 
econômico, social e cultural básico, que modifica a organização, os dinamismos 
e a posição da economia urbana dentro do sistema econômico brasileiro”, 
 
 
35 
assinala Fernandes (2006, p. 346). Subproduto da hegemonia do complexo 
industrial-financeiro, a hegemonia urbano e industrial intensificava a 
concentração de recursos materiais, técnicos e humanos nas grandes cidades, 
“dando origem a fenômenos típicos de metropolização e de satelitização sob o 
capitalismo dependente” (FERNANDES, 2006, p. 346). 
 No momento específico de trânsito à fase do monopólio, pode-se 
apreender a particularidade da gênese histórico-social do Serviço Social, 
afirma Netto (2001, p. 18). Essa apreensão busca as raízes das conexões 
sócio-históricas entre a forma, a natureza e as funções da dominação 
burguesa e a emergência do Serviço Social, permitindo, por sua vez, 
compreender a forma, a natureza e as funções do Serviço Social. No momento 
de emergência do Serviço Social, as conexões entre os interesses econômicos 
da burguesia local, o padrão de dominação burguesa e a profissão eram 
viscerais, decorrendo a assimilação de uma compreensão que naturaliza os 
processos sociais, fragmenta os fenômenos relativos à questão social e 
enfatiza o aspecto moralizador para salvaguardar a ordem e o progresso. 
As condições sócio-históricas da emergência do Serviço Social, 
até então, foram encobertas por descrições fincadas em um sentimento de 
mundo, no qual a profissão teria surgido da institucionalização de suas 
protoformas. As pesquisas realizadas por Iamamoto e Carvalho (1982) ilustram 
a relação visceral entre os interesses da burguesia e a profissão, ao 
analisarem a constituição do grupo pioneiro, a criação das primeiras escolas de 
Serviço Social no Brasil, o papel da Igreja15 e do Estado. 
 
15 Para contrapor o perigo do movimento socialista dos trabalhadores, a Igreja 
intensificou a sua presença nas vilas operárias e incentivava a participação do 
laicado em obras assistências surgindo, no princípio da década de 1920, a 
Associação das Senhoras Brasileiras, no Rio de Janeiro, e a Liga das Senhoras 
Católicas em São Paulo. Tais associações, tuteladas e imbuídas pelo 
pensamento social da Igreja, foram instituídas tendo como perspectiva a 
 
 
36 
As intervenções desenvolvidas pelas obras sociais vinculadas à 
Igreja eram caracterizadas como ajuda, caridade, filantropia e denominadas, 
como as anteriores formas de ajuda. Segunda a tese endogenista, essas ações 
criaram as bases para a emergência do Serviço Social. Os objetivos dessas 
ações vinculavam-seao atendimento e à atenuação de determinadas seqüelas 
produzidas e reproduzidas pelo desenvolvimento capitalista admitindo-se os 
problemas estruturais advindos do modo ser da sociedade do capital, mas a 
intervenção centrava-se no indivíduo, considerado o responsável por todos os 
seus infortúnios. 
Os preceitos que embasavam o projeto de formação profissional 
das primeiras escolas de Serviço Social16 no Brasil, ignoravam as condições 
sócio-históricas que engendraram a emergência da profissão. Dentre elas, há 
que se pontuar que o mercado de trabalho para o assistente social constituiu-
se, de fato, quando o Estado assumiu para si as respostas às expressões da 
questão social17. As primeiras assistentes sociais foram contratadas para 
atuarem em institutos e caixas de pecúlios, na Legião Brasileira de Assistência 
(LBA), no Serviço Social da Indústria (Sesi), no Serviço Nacional de 
 
formação das bases organizacionais e doutrinários do apostolado laico, objetivando “a assistência preventiva, 
de apostolado social, atender e atenuar determinadas seqüelas do desenvolvimento capitalista, principalmente 
no que se refere a mulheres e crianças”, assinala Carvalho (1983, p. 170). Para efetivar tais objetivos foi 
criado o Centro de Estudo e Ação Social de São Paulo (Ceas), em 1932, com o objetivo de promover as 
obras de filantropia vinculadas às classes dominantes, e as moças, representantes de frações da classe 
dominante, foram convidadas para participar de um curso intensivo de formação social, com uma 
representante da escola de Serviço Social de Bruxelas, para orientá-las, esclarecer as idéias e formar um 
julgamento acertado acerca dos problemas da atualidade. Por problemas da atualidade, entendem-se os 
movimentos sociais − fundamentalmente a organização sindical da classe trabalhadora − considerados 
altamente subversivos, desafetos da Igreja e do Estado. 
16 Em 1936, o Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo, vinculado a Igreja católica criou a primeira 
Escola de Serviço Social. Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 180) assinala que “esta não pode ser 
considerada como fruto de uma iniciativa exclusiva do Movimento Católico Laico, pois já existe presente 
uma demanda − real ou potencial − a partir do Estado, que assimilará a formação doutrinária própria do 
apostolado social”. 
17 Na década de 1930, o Estado brasileiro organizou-se para garantir as bases de sustentação econômica e 
social para garantir o desenvolvimento urbano-industrial. No Estado de São Paulo o governo criou o 
Departamento de Assistência Social, em 1935, com as seguintes finalidades: “a) superintender todo o serviço 
de assistência e proteção social; b) celebrar, para realizar o seu programa, acordos com as instituições 
particulares de caridade, assistência e ensino profissional; c) harmonizar a ação social do Estado, 
articulando-a com a dos particulares; d) distribuir subvenções e matricular as instituições particulares 
realizando o seu cadastramento” , assinala Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 178). 
 
 
37 
Aprendizagem Industrial (Senai), nas prefeituras municipais, e, sobretudo, em 
órgãos governamentais federais e dos estados federativos que começavam a 
estruturar as políticas socais. 
No âmbito desses espaços sócio-ocupacionais, a intervenção 
profissional do assistente social deveria transpor o caráter intuitivo e os 
sentimentos de compaixão balizadores das ações caritativas, que do ponto de 
vista do capital apenas mantinha o círculo vicioso da pobreza, para tornar-se 
racionalmente eficaz na utilização dos recursos técnicos e competente na 
inculcação de valores morais adequados aos interesses do capital. Além do 
caráter assistencial em si-mesmo, a intervenção profissional imbuía-se da 
dimensão educativa para moldar o comportamento, os costumes e hábitos da 
população alvo, os operários. 
O sentido da educação na perspectiva da burguesia era a 
preparação técnica para o trabalho e para a vida cotidiana (hábitos e 
costumes), por meio do adestramento, cujos conteúdos moralizadores se 
revestiam do necessário para a reprodução da subalternidade. O caráter 
pragmático da intervenção sócio-assistencial moldada para essas finalidades 
vinculava-se ao desenvolvimento urbano-industrial em curso na década de 
1930, isto é, a necessidade de mão-de-obra para a nascente indústria de base 
e a retenção dos movimentos dos trabalhadores por meio da persuasão 
ideológica. 
Nessa direção, os problemas sociais com as quais os assistentes 
sociais deparavam-se eram a infância abandonada, as condições de habitação, o 
carecimento econômico, a ausência de saúde e a falta dos hábitos de higiene, o 
despreparo técnico para o mercado de trabalho, a fraqueza moral dos 
operários que se deixavam influenciar por agitadores comunistas. A 
identificação das necessidades sociais ocorria por meio da abordagem 
 
 
38 
individual, o Serviço Social de caso, com o atendimento estendido aos 
familiares. 
A sustentação da ação profissional erguia-se em um tênue fio 
condutor de princípios pincelados da doutrina neotomisto e do pragmatismo. 
Dessa tríade provinha a visão transcendental idealista do mundo no qual a 
razão humana é a expressão imperfeita da razão divina e a ela se encontra 
subordinada, a democracia balizada na liberdade do mercado e o princípio da 
utilidade guiando e justificando a intervenção. Esse arranjo pretende eliminar 
as desigualdades sociais estruturais per-si, atribuindo ao homem a 
responsabilidade por suas imperfeições e resulta na prática voltada apenas por 
sua utilidade imediata. Pode-se afirmar que os pressupostos contidos nesse 
arranjo têm sua proveniência das práticas produtivas capitalistas, ao mesmo 
tempo que se constituem em mecanismos ideológicos estratégicos para a 
garantia de sua reprodução. 
 Ao reproduzir as normas e os valores morais18 da burguesia, a 
prática profissional do assistente social reorientava os costumes e os valores 
da classe trabalhadora. A ação educativa consistia na impregnação de normas e 
valores que projetavam um dever-ser pautado no senso moral, adequado às 
necessidades do capital que se incorporavam à vida cotidiana dos 
trabalhadores. 
A formação profissional para a efetivação de tais funções 
requeria a assimilação acrítica das doutrinas moralizadoras e o domínio de 
técnicas adequadas ao adestramento de comportamentos sociais para a vida 
cotidiana. Tratava-se de reproduzir modelos ideais para legitimar o Serviço 
Social diante das necessidades vinculadas à reprodução do capital e solidificar 
o padrão de dominação da burguesia. 
 
18 Os parâmetros ideais para mensurar o que é moralmente adequado − bom ou ruim, certo ou errado, bonito 
ou feio, virtuoso ou vergonhoso − são estabelecidos por determinações sócio-históricas e, ainda que devam 
ser aceitos individualmente, expressam e objetivam interesses de classes. 
 
 
39 
Tendo em vista tais atribuições e responsabilidades, a prática 
profissional iniciava-se com a identificação dos problemas bio-psíquicos e 
sócio-comportamentais dos operários19 e seus familiares que buscavam as 
instituições e os órgãos governamentais20. Esta identificação ocorria por meio 
da abordagem individual, utilizando como instrumental técnico-operativo o 
diagnóstico. A execução desse procedimento técnico-operativo iniciava-se com 
a ausculta do indivíduo queixoso que demandava o auxílio assistencial, a fim de 
instituir o caso, procedendo-se ao estudo para efetuar o diagnóstico, 
averiguar a pertinência das solicitações e estabelecer os encaminhamentos 
subseqüentes − o tratamento. 
No estudo do caso, o profissional recorria a instrumentos 
técnico-operativos de apoio, dentre os quais se destacavama entrevista e a 
visita domiciliar, que possibilitavam a coleta de dados, o acesso aos costumes e 
hábitos higiênicos da família e a averiguação da veracidade das informações 
fornecidas pelo assistido. A entrevista apoiava-se nas fichas sócio-econômicas 
e/ou anamnese, instrumento de coleta de dados sócio-econômicos das famílias 
dos operários pertinentes e relevantes para justificar a intervenção 
profissional na instituição/programa e possibilitar o registro para fins 
estatísticos. Com base nesse estudo concluía-se o diagnóstico estabelecendo 
as medidas a serem aplicadas no tratamento do caso. Tais medidas 
comportavam respostas às necessidades de cunho social, econômico, 
educacional, saúde, jurídico e moral. Assim, um caso, em sua face de 
tratamento, demandava encaminhamentos diversos, constituindo-se na forma 
preponderante de ação, ou seja, 
 
 
19 O público alvo atendido pelo Serviço Social de caso eram os operários e suas famílias, os artesãos, viúvas 
e aposentados . 
20 Departamento de Serviço Social do Estado de São Paulo que, segundo Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 
1982) absorvia 17 entre as 27 profissionais em exercício, em 1940, Departamento Estadual do Trabalho e 
Juízo de Menores. 
 
 
40 
o tratamento dos casos [era] basicamente feito através 
de encaminhamentos, colocação em empregos, abrigo 
provisório para necessitados, regularização da situação 
legal da família (casamento), etc., e fichário dos 
assistidos (CARVALHO, in Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 
194). 
 
Como os problemas de ordem estruturais existentes, em 
decorrência da relação que os homens estabelecem entre si eram 
desconsiderados, o indivíduo situava-se no centro da atividade porque ele era o 
responsável por suas condições de vida e de sua família, considerada como a 
célula básica da sociedade. Segundo Iamamoto (2002), a individualização dos 
casos sociais, em detrimento do reconhecimento da situação comum vivida 
pelos seguimentos da classe trabalhadora que demandam serviços sociais, é 
uma característica do movimento reformista-conservador presente na prática 
profissional. Nessa perspectiva, a ação profissional orientava-se por princípios 
e postulados centrados no indivíduo Iamamoto (2002, p. 19-20): 
 
os indivíduos são encarados como seres únicos e 
particulares, com potencialidades a serem desenvolvidas, 
desde que estimuladas, cuja dignidade de seres humanos e 
cuja liberdade merecem o respeito do profissional. Porém, 
tais características tendem a ser apreendidas sem 
vinculação com suas bases materiais, isto é, 
subjetivamente e apartadas da situação social de vida dos 
clientes, transformando-se em princípios e postulados 
universalizantes orientadores da ação profissional. 
 
 
 
41 
Os princípios e os critérios de validade da verdade eram tomados 
como conhecimentos constitutivos e derivados da sensibilidade, da cultura 
cristã e da experiência profissional. Conforme essa percepção, quanto mais 
sensível, portadora de uma cultura geral adquirida no seio da convivência 
familiar e dos círculos sociais freqüentados e experiente a profissional, mais 
eficaz e parcimonioso era o seu trabalho. Essas qualidades ressaltadas nas 
assistentes sociais pioneiras são constantemente destacadas na atualidade 
quando se discutem as dificuldades relacionadas ao processo de ensino e 
aprendizagem na formação profissional. 
Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982) transcreve o relato de 
um caso no qual se apreendem os objetivos, as atividades e os procedimentos 
realizados pelo profissional no atendimento do caso. Verifica-se que, ao 
prestar a assistência, por meio de auxílios monetários, encaminhamentos a 
órgãos assistencias, educacionais, hospitalares e jurídicos, o profissional 
intervinha no cotidiano da família com um poder que implicava até mesmo 
encaminhamentos que separavam pais e filhos. Recaía sobre o indivíduo o 
julgamento moral sobre a sua (in)capacidade de prover a si mesmo e à sua 
família. Tratava-se de uma prática fincada na tutela, permeada pelo sentido do 
dever e baseada na força da opressão. 
Independentemente do espaço sócio-ocupacional, os balizamentos 
das ações profissionais eram mensurados pelos benefícios que poderiam ser 
obtidos para consolidar os interesses da classe burguesa, reafirmando sempre 
as normas e os padrões da racionalidade que espelham o seu mundo e de suas 
práticas produtivas21. A ação do assistente social objetivava remediar as 
 
21 Assim, por exemplo, nas creches, uma vez que as operárias continuavam a amamentar seus filhos além 
dos dias regulamentados pela legislação trabalhista, a profissional as encaminhava ao serviço médico para 
obter orientações de dietas alimentares para as crianças e encaminhava os nomes das operárias que cometiam 
a infração à gerência das fábricas para que suas saídas fossem impedidas com o objetivo de salvaguardar “os 
interesses legítimos da empresa, que perdia muitas horas de trabalho” (CARVALHO. In Iamamoto e 
Carvalho, 1982, p. 198). 
 
 
42 
deficiências dos indivíduos e da coletividade tendo em vista o ajustamento à 
ordem burguesa. O atendimento ocorria por meio de uma ação individualizada, 
e a ação nas coletividades não devia atingir as estruturas dos grupos sociais. 
Os estudos disponíveis referentes a prática profissional no 
período da emergência do Serviço Social até o final da década de 1950 
revelam a explícita sintonia e defesa dos interesses da classe burguesa. Sem 
uma contraposição interna, o discurso, os registros da prática profissional não 
escamoteiam o significado da profissão, os interesses defendidos, os 
parâmetros normatizadores das atividades e dos procedimentos. 
Segundo Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982), nesse 
contexto, as atividades desenvolvidas pelos assistentes sociais eram restritas 
em virtude dos limites de atuação dos órgãos públicos e da incapacidade de as 
instituições viabilizarem os encaminhamentos requeridos no atendimento de 
casos individuais. 
Com o recurso heurístico fundado na teoria social marxiana, a 
partir da década de 1970, o significado da emergência do Serviço Social deixa 
de ser narrado na perspectiva da evolução, organização e profissionalização 
das formas de ajuda para o enfrentamento de desvios sócio-comportamentais 
cujas causas relacionavam-se à inadaptabilidade do indivíduo. No entanto, essa 
marca indelével permanece, guiando um determinado modo de ser do Serviço 
Social, deixando um rastro que se identifica a um sulco fechado, isto é, um 
rego que se abriu de um arranjo, forjou uma técnica que se repete 
indefinidamente no interior da profissão e prende o fazer profissional às 
expressões fenomênicas do ser social, circunscrito ao espontâneo e ao 
imediato. 
Trata de um arranjo cuja sustentação se encontra em seu escopo 
− a reprodução de um padrão de dominação que objetiva o ajustamento do ser 
que vive do próprio trabalho à ordem do capital. A finalidade vinculada à 
 
 
43 
utilidade do Serviço Social é o elemento que permanece como norteador e 
justificador da prática forjada por esse arranjo, ignorando o significado, a 
concepção, os princípios, a funcionalidade da profissão que aparecem apenas 
como gomas que mudam de cor dependendo das circunstâncias e, por isso 
mesmo, carecem de sentido ou se constituem no verniz que encobre o real. Em 
decorrência, há constantes tentativas de burilar uma concepção de Serviço 
Social sustentado em si-mesmo, a permanente busca por uma identidade 
profissional, o contínuo mal-estar atribuído à dicotomia entre a teoria e a 
prática. São os falsos dilemas encobrindo as contradições que engendram a 
constituição e o significado da profissão e, se de um lado, contribuem para 
explicitar os vínculos e os compromissos com direções sociais contrapostas, de 
outro, embaraçam, amarrame justificam a intervenção profissional 
circunscrita e limitada às expressões fenomênicas do ser social. 
 
1.2 Concepção de Serviço Social e a prática profissional 
 
A compreensão que apreende pela raiz o modo contraditório de 
ser da profissão permite desvendar as ambigüidades e os dilemas presentes no 
debate profissional, dentre os quais se destaca a busca por uma definição do 
Serviço social e por uma identidade profissional. 
A narrativa historiográfica de Vieira (1980) explicita o jogo 
escorregadio que caracterizou a procura do reconhecimento e a busca do 
status teórico do Serviço Social, desde a sua origem até a década de 1970. 
Essa teoria, para a autora, é formada por meio do exame das experiências 
diversificadas, comparando-as e unificando-as; do aparecimento e da definição 
de uma terminologia consciente e ordenada logicamente, e do embasamento 
científico e orientação filosófica. Pelas definições do Serviço Social 
cronologicamente elencadas pela autora, visualiza-se por onde se movem essas 
 
 
44 
tentativas e de onde provém o embasamento científico e filosófico. Precursora 
da compreensão do Serviço Social como evolução das formas anteriores de 
ajuda no Brasil, as duas primeiras definições apresentadas por Vieira (1980, p. 
92) são aquelas atribuídas à assistência social: “o auxilio dado às famílias e aos 
indivíduos para alcançarem uma vida normal em relação à saúde, à educação, ao 
trabalho, à recreação e ao desenvolvimento espiritual”, formulada em 1918, e a 
“ajuda material, intelectual e moral ao indivíduo que, tendo-se tornado 
dependente, não pode assegurar por si mesmo a luta pela existência”, 
elaborada em 1922. 
O Serviço Social foi definido na Primeira Conferência 
Internacional de Serviço Social, segundo Vieira (1980, p. 92), como 
 
o conjunto de esforços visando minorar sofrimentos 
oriundos da miséria (assistência paliativa), recolocar os 
indivíduos e as famílias em condições normais de 
existência (assistência curativa), prevenir os flagelos 
sociais (assistência preventiva), melhorar as condições 
sociais e elevar o nível de existência (assistência 
construtiva), 
Em 1931, essas definições foram sintetizadas por René Sand, 
conforme Vieira (1980, p. 93) no esforço em elevar o status das atividades 
meramente assistências para o âmbito do pensamento científico: 
 
O Serviço Social incorpora a caridade, a assistência e a 
filantropia, mas os ultrapassa e se distingue deles por seu 
caráter científico, por sua preocupação de pesquisa das 
causas e pela extensão de seu campo de estudo e 
atividades. Poderemos dizer simplesmente que é o 
 
 
45 
funcionamento do sentido social esclarecido pelas ciências 
sociais. 
 
A partir de então, as definições de Serviço Social procuraram 
sempre destacar o seu caráter técnico-científico, mas perdura a sua 
finalidade última que remete ao ajustamento social do indivíduo. 
Em 1935, de acordo com a União Católica Internacional de 
Serviço Social (UCISS), 
 
Serviço Social é o conjunto de trabalhos sociais 
coordenados e metódicos, feitos por agentes 
competentes, tecnicamente preparados, e que tem por fim 
auxiliar, educar, reeducar o indivíduo e sua família para 
condições de existência, prevenir o retorno a essas 
falhas, agindo diretamente sobre as causas, de maneira a 
organizar melhor os diversos quadros sociais22 ( apud 
VIEIRA, 1980, p. 93). 
 
Em 1955, a definição muda23 e, em 1956, a Organização das 
Nações Unidas, no 3º Inquérito Internacional sobre a formação de assistentes 
sociais, define o Serviço Social, segundo Vieira (1980, p. 94) como 
 
uma técnica que, diante das rápidas transformações que 
sofre o nosso mundo, trata de reconhecer as 
conseqüências sociais das mesmas e adotar medidas 
necessárias a aliviar as tensões a que estão submetidas a 
 
22 Definição proposta em 1935 pela UCISS, por ocasião da realização de seu congresso, realizado em 
Bruxelas (VIEIRA, 1980) 
23 Harleigh Trecker propõe a seguinte definição: “O Serviço Social opera dentro de uma cultura, onde se 
manifestam interesses e necessidades individuais e coletivas, atendidos por uma diversidade de entidades que 
empregam métodos de intervenção, administração e pesquisa” (apud VIEIRA, 1980, p. 93). 
 
 
46 
sociedade e sua unidade básica – a família tratando de 
estabelecer programas de desenvolvimento social, 
destinados a impedir a inadaptação individual, a 
desagregação social, assim como alcançar um 
desenvolvimento econômico que contribua para o bem-
estar da população. 
 
A pontuação dessas definições dimensiona o caráter evolutivo 
desse quadro conceitual, que busca, ao mesmo tempo, reforçar e adequar-se à 
racionalidade hegemônica no âmbito das ciências sociais como estratégia de 
validação prática e teórica do Serviço Social em si-mesmo e que jamais perde 
a sua finalidade integrativa. Os novos elementos que surgem na definição24 
elaborada de um autor para o outro carecem de sustentação teórico-filosófica 
e, por isso mesmo, vão sendo substituídos. 
Em 1959, o Serviço Social era apontado como uma arte, 
“fundamentada em conhecimentos e valores, cuja função é a solução de 
problemas, correspondendo às necessidades humanas reconhecidas pela 
sociedade” (VIEIRA, 1980, p, 95). Na década de 1960, outras definições 
surgiram, considerando o Serviço Social um método, uma instituição, uma 
disciplina, um grupo profissional; uma tecnologia, aplicação de valores 
profissionais e conhecimentos que orientam a conduta profissional, descrições 
de sistemas que pautam o processo de intervenção e interação com o público 
alvo. 
 
24 Em 1957, Philip H. Van Praag, subdiretor da Escola de Serviço Social de o Serviço Social de 
Amsterdan, conceitua o Serviço Social como “uma metodologia que serve de elo entre a visão que emerge 
de um conjunto de conhecimentos especializados – cada dia mais unificados – e certos fins que têm suas 
raízes em princípios filosóficos...: a metodologia proporciona os instrumentos de que necessitam os 
assistentes sociais, ensinam como podem ajudar os indivíduos, grupos e comunidades que procuram ou 
carecem de ajuda (apud VIEIRA, 1980, p. 94). 
 
 
47 
Na América Latina, em meados da década de 1960, algumas 
tendências no interior do movimento de reconceituação, fundamentando-se em 
diferentes concepções e matrizes teórico-metodológicas, buscavam a 
construção de uma teoria para o Serviço Social com base na identificação de 
seus elementos básicos: a definição do objeto e dos objetivos, a metodologia e 
a operacionalização. No Brasil, a busca por uma teoria para o Serviço Social, 
concebido como uma disciplina cuja perspectiva era torná-lo uma ciência 
explicita-se no I Seminário de Teorização do Serviço Social realizado em 
Araxá, Minas Gerais, em 1967, e no II Seminário de Teorização do Serviço 
Social, realizado em Teresópolis, Rio de Janeiro, em 1970. No entanto, 
diferentemente do período anterior, o debate instalado nesse momento sócio-
histórico evidencia o pluralismo teórico-metodológico e, ainda que se 
encontrem presentes tendências evolucionistas e (re)afirmadoras da ordem 
societal do capital, pela primeira vez na América Latina, elas se confrontaram 
com outra concepção de mundo: aquela que propõe a transformação da 
sociedade capitalista para o socialismo. 
A história do Serviço Social começou a ser analisada com base nas 
relações sociais engendradas pelo modo de ser da sociedade capitalista e as 
particularidades de seu desenvolvimento no Brasil. Trata-se de um esforço 
coletivo de segmentos do meio profissional que, desde o final da década de 
1950, passaram a questionar a concepção harmônica da sociedade capitalista, a 
disfunção dos indivíduos e a funcionalidade do Serviço Social e ganharem 
visibilidade após o encontro de assistentes sociais realizadoem Porto Alegre, 
em 1965. 
As produções de Iamamoto (1982; 2002) e Netto (2001; 1996) 
analisam e apreendem o processo de emergência da profissão na dinâmica do 
processo de desenvolvimento das relações de produção e reprodução social, 
por meio de uma abordagem histórico-crítica, e foram fundamentais para o 
 
 
48 
rompimento com a concepção romântica e endogenista da profissão porque 
revelam e problematizam as contradições que permeiam o exercício 
profissional. 
Sobressaem, no âmbito dessa análise, o papel e os interesses das 
classes sociais na totalidade do desenvolvimento econômico, social, ideo-
político e cultural da sociedade capitalista. No processo de renovação do 
Serviço Social brasileiro, Netto (1996) identifica essa direção vinculada à 
concepção histórico-crítica do Serviço Social como perspectiva de intenção de 
ruptura. Destaca-se, nesse cenário, segundo Netto (1996), o período militar-
facista que obstaculizava o projeto de ruptura e a refuncionalização da 
universidade com a inserção de profissionais na docência. Para esse autor, a 
perspectiva de intenção de ruptura tem sua base sócio-política no processo de 
laicização da profissão, em sua diferenciação das tendências e forças que 
percorrem a estrutura da sociedade brasileira e, sobretudo, no movimento das 
classes exploradas e subalternas, derrotadas em abril de 1964. 
Netto (1996) identifica três momentos diferenciados no processo 
de constituição da perspectiva de ruptura: “o da sua emersão, o da sua 
consolidação acadêmica e o do seu espraiamento sobre a categoria 
profissional” (p. 261). Esse processo, demarcado por continuidades e 
mudanças, coloca e recoloca em debate os eixos teórico-metodológicos, os 
núcleos temáticos e os indicativos profissionais25. O elemento de continuidade 
nesse processo é a referência à tradição marxista26. Sob a inspiração e o 
fundamento teórico-metodológico e ético-político da teoria social marxiana, o 
Serviço Social é apreendido como parte constitutiva e constituinte de um 
todo, inscrito na divisão social e técnica do trabalho na sociedade capitalista. 
 
25 A análise do processo de constituição e desenvolvimento da perspectiva de intenção de ruptura será 
tratada no quarto capítulo da presente tese. 
26 Entende-se por tradição marxista o acúmulo de interpretações, pesquisas e ampliações da teoria social 
marxiana, que tratam das determinações políticas, econômicas, sociais e culturais do ser social. 
 
 
49 
A perspectiva de intenção de ruptura, no momento de sua emersão, transpõs 
inúmeros percalços relacionados às condições sócio-históricas objetivas nas 
quais o país se encontrava submerso, sobretudo de ordem política no marco da 
ditadura instaurada com o golpe de 1964. Tais dificuldades não impediram a 
formação de uma massa crítica que busca o rompimento teórico-prático com o 
Serviço Social tradicional. 
As marcas desse percurso podem ser sinalizadas entre o período 
de 1972, quando se iniciou a formulação do método de Belo Horizonte (método 
BH), a 1982 quando, pela análise de Iamamoto (1982), conecta-se à 
institucionalização do Serviço Social como epifenômeno da ordem burguesa, 
apreendendo o significado da profissão no âmbito das relações de produção e 
de reprodução das relações sociais na sociedade brasileira. 
Iamamoto (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 77) afirmam que o 
“Serviço Social se gesta e se desenvolve como profissão reconhecida na 
divisão social do trabalho”. A concepção de Serviço Social como profissão 
emerge da contextualização das condições sócio-históricas, qual seja, 
 
o desenvolvimento capitalista industrial e a expansão 
urbana, processos esses aqui apreendidos sob o ângulo das 
novas classes sociais emergentes − a constituição e 
expansão do proletariado e da burguesia industrial − e das 
modificações verificadas na composição dos grupos e 
frações de classes que compartilham o poder de Estado 
em conjunturas históricas específicas. É nesse contexto, 
em que se afirma a hegemonia do capital industrial e 
financeiro em que emerge sob novas formas a chamada 
questão social , a qual se torna a base de justificação 
desse tipo de profissional especializado (IAMAMOTO. In: 
Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 77). 
 
 
50 
 A concepção do Serviço Social como profissão, cuja emergência 
conecta-se com as particularidades da formação sócio-histórica da sociedade 
capitalista, torna-se hegemônica, a partir da década de 1980, fundamenta os 
pressupostos que norteiam o atual código de ética da profissão e subsidia o 
posicionamento das entidades representativas da categoria na atualidade. O 
processo de revisão curricular, desencadeado na década de 1990 pela 
Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), após 
amplo debate envolvendo as unidades acadêmicas de todo o país, reafirma a 
seguinte concepção: “o Serviço Social particulariza-se nas relações sociais de 
produção e reprodução da vida social como uma profissão interventiva no 
âmbito da questão social, expressa pelas contradições do desenvolvimento do 
capitalismo monopolista” (ABESS/CEDEPSS, 1997, p. 60). 
Essa concepção estabelece a conexão entre a emergência e 
desenvolvimento da profissão à totalidade das relações sociais, e, 
conseqüentemente, revela o seu caráter contraditório e as mediações com o 
processo de produção e reprodução da força de trabalho e do capital. Essa 
mudança iniciou-se com a crítica ao Serviço Social tradicional, em um contexto 
sócio-histórico demarcado por mobilizações sociais da classe trabalhadora que 
reivindicava reformas de base, tendo em vista o aprofundamento das 
desigualdades sociais na América Latina. Netto (2005. p. 9) explicita as 
determinações sócio-históricos da década de 1960 que possibilitam esse giro: 
 
A inserção de nossos países na nova divisão internacional 
do trabalho que então emergia; o colapso, em nossos 
países, dos pactos políticos que vinham do pós-guerra; o 
surgimento de novos sujeitos políticos; o impacto da 
Revolução Cubana; o anêmico reformismo do tipo Aliança 
para o Progresso. 
 
 
51 
No contexto de polarização entre as classes sociais, 
apresentavam-se as condições para a crítica e a busca do rompimento com o 
Serviço Social tradicional. Os questionamentos e as inquietações de um 
segmento de assistentes sociais direcionavam-se às condições de existência 
de homens e mulheres vivendo em condições desumanas em todo o continente 
latino-americano e constituem a força objetiva que move as transformações 
operadas no interior do Serviço Social brasileiro. Nesse marco, o movimento 
de reconceituação tornou-se a expressão dos projetos societários que se 
confrontavam27, e dos quais derivam diferentes proposições para o Serviço 
Social. 
A quebra do compromisso com um fazer profissional voltado para 
uma única direção − o ajustamento do indivíduo à estrutura societal −, faz 
emergir entre os assistentes sociais indagações relativas ao significado da 
própria profissão, instaura-se o pluralismo teórico-metodológico e aflora o 
caráter ambíguo que cerca a profissão. Sobressaem, no âmbito destas 
indagações e inquietações, na agenda do debate profissional, proposições que 
buscam compreender os questões vinculadas aos fundamentos teórico-
metodológicos e ético-políticos: a questão da identidade profissional e da 
metodologia do Serviço Social. 
No debate sobre a identidade profissional destaca-se a 
proposição de Martinelli (2003, p. 17), segundo a qual a ausência de uma 
identidade fragiliza ”a consciência social da categoria profissional, 
 
27 Faleiros (1986) identifica nove tendências no interior do movimento de reconceituação no Brasil, 
apreendidos por meio de quatro referências: a tendência político-ideológica geral em que pode ser situado o 
autor ou a proposta; a teoria deconhecimento explícita ou implícita na proposta; a operacionalização ou 
projeto de prática e a definição do objeto e objetivos do Serviço Social. Tais referências são problematizadas 
conforme a relação entre a questão geral do sujeito e a estrutura. Dentre essas tendências, polarizaram –se 
aquelas que propunham a modernização do Serviço Social com o objetivo de refuncionalizá-lo para atender 
às exigências do capital e à nova divisão internacional do trabalho que então emergia na década de 1960, 
sobretudo pelo macro planejamento tecnocrático, e aquelas que propunham a ruptura e, por conseguinte, a 
superação da sociedade capitalista. Importa destacar que todas elas têm em comum a preocupação em forjar 
um novo modelo de prática e explicitam posicionamentos ideo-políticos cujo leque de proposições aponta 
diferentes direções sociais. 
 
 
52 
determinando um percurso alienado, alienante e alienador da prática 
profissional”. A autora considera a identidade da profissão como elemento 
definidor de sua participação na divisão social do trabalho e na totalidade do 
processo social. Conforme Martinelli (2003), a prática profissional, em sua 
emergência, articula-se à busca da racionalização da prática social desejada 
pela burguesia para a efetivação da hegemonia de seu projeto do poder. Para 
tanto, a burguesia aproxima-se das ações filantrópicas, na metade do século 
XIX, e as transforma em instrumento auxiliar do processo de consolidação do 
modo de produção capitalista. “Ao se aproximar dos agentes que vinham 
desenvolvendo ações filantrópicas naquele momento, tendo em vista a 
racionalização da assistência e sua normatização, a burguesia queria apropriar-
se da prática social para submete-la aos seus desígnios”, assinala Martinelli 
(2003, p. 63). 
Martinelli (2003), em sua análise, distingue a burguesia dos 
filantropos, transformados pela burguesia em agentes ideológicos28. Fazendo 
uso da prática social dos filantropos e, por meio desses agentes, a burguesia 
tinha acesso à família operária para sujeitá-la às suas exigências. A burguesia 
uniu-se à igreja e ao Estado para redirecionar as manifestações coletivas da 
classe trabalhadora por meio de estratégias ideo-políticas diferenciadas, 
entre as quais, a criação de instituições sociais para a prestação de serviços 
assistenciais. Para executar esses serviços, surgiram as primeiros assistentes 
sociais, “com uma identidade atribuída, que expressava uma síntese das 
práticas pré-capitalistas − repressoras e controlistas (...)”, afirma Martinelli 
(2003, p. 67). Para a autora, a prática dos agentes executores da assistência 
social surgiu ungida pelo fetiche místico de servir a classe trabalhadora, 
 
28 Martinelli (2003, p. 64) afirma: “assim como havia cooptado o Estado burguês para promover, ao longo do 
tempo, medidas políticas de proteção ao capital, a burguesia tratou de fortalecer sua aliança com os 
filantropos, transformando-os em importantes agentes ideológicos, responsáveis pela socialização do modo 
capitalista de pensar”. 
 
 
53 
quando, na verdade, constituía-se em instrumento da burguesia para abafar as 
contradições sociais e a luta de classes. 
Essa discussão exige descortinar a relação entre teoria e prática, 
que se encontrava no centro do debate profissional e inquietava segmentos da 
categoria profissional, na década de 1980, tomando forma na problematização 
da metodologia no Serviço Social. 
As escolas de Serviço Social, em todo território brasileiro, foram 
o calidoscópio que refletia os impasses teórico-metodológicos que cercavam a 
profissão e a emergência de diversas propostas de prática. Segundo a 
Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social − ABESS29(1989), a 
ausência de um referencial teórico-metodológico e prático consensual conduzia 
o trabalho docente ou à nostalgia do passado ou à confusão que repercutia no 
ensino da metodologia em Serviço Social. Esse debate projetou-se fortemente 
nos espaços acadêmicos, mas refletia as dificuldades da categoria em relação 
à sistematização de seu saber, à ausência da capacitação contínua, à 
fragmentação dos fundamentos históricos, teóricos e da prática profissional. 
Para conhecer como ocorria o ensino da metodologia nos cursos de 
Serviço Social, a Abess (1989) realizou uma pesquisa30, de caráter 
exploratório, envolvendo as escolas públicas e privadas em todo o território 
brasileiro. Essa pesquisa apontou, no currículo de 1982, a tendência de a 
disciplina de metodologia “dar o cunho de preparo para a intervenção 
profissional” (ABESS, 1989, p. 18). A discussão relativa aos resultados da 
pesquisa evidenciou os impasses e as dificuldades do exercício profissional 
naquele momento, dentre os quais se destacava a relação teoria e prática. 
Metodologismo, especificidade e cientificidade misturam-se na emblemática 
busca pelo objeto do Serviço Social. 
 
29 Atualmente: Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS). 
30 Caderno n. 3 da Abess, intitulado A metodologia no Serviço Social, publicado em 1989. 
 
 
54 
Para a Abess (1989), tais impasses e dificuldades vinculavam-se à 
trajetória intelectual dos assistentes sociais na sociedade brasileira. O modo 
de conceber a profissão cresceu 
 
num caldo cultural do pensamento humanista cristão, que 
mais tarde vai se secularizar, vai se modernizar nos 
quadros do pensamento conservador, do anticapitalismo 
romântico que lê a sociedade como uma grande 
comunidade: no trabalho comunitário parece que as 
classes deixam de existir, historicamente, privilegiando-
se a ótica da solidariedade, da harmonia das relações 
sociais. Mais tarde incorpora a herança das ciências 
humanas e sociais, especialmente, na sua vertente 
empiricista norte-americana. A essas fontes de inspiração 
intelectual alia-se, na década de 1970, no auge do 
movimento de reconceitualização, o estruturalismo 
haurido, entre outros, em Althusser, e também o 
marxismo vulgar. (ABESS, 1989, p. 72). 
 
Os vícios de análise de um segmento dos assistentes sociais 
decorrem, segundo a Abess (1989), da herança cultural que produz e reproduz 
o formalismo e o empirismo. A pesquisa indicou as dificuldades enfrentadas 
pelas escolas para superar o modelo dualista presente na formação 
profissional dos assistentes sociais, no qual, de um lado, há disciplinas 
relacionadas aos fundamentos históricos e teóricos e, de outro, as disciplinas 
vinculadas à intervenção. A persistência de abordagens teóricas e didáticas 
que fragmentam o saber e o fazer reforçam a tradição pragmática do Serviço 
Social e gera o seu contraponto − o formalismo, denuncia a Abess (1989). 
 
 
 
55 
Nas duas posições, pragmática e formalista, o Serviço 
Social mantém um ponto em comum − a ênfase no como 
fazer, chamado de metodologismo. E parece ser aqui onde 
se processaram quase todas as questões acadêmicas 
envolvendo as demandas colocadas para o ensino e o 
exercício da profissão (ABESS, 1989, p. 73). 
 
Observa-se que os avanços da reflexão crítica, fundamentada na 
teoria marxista, referente a fragmentação entre o saber e o fazer não 
produzem o rompimento com a lógica do pensamento positivista. Em outras 
palavras, a teoria marxista seria um instrumento que serviria à critica, mas 
não possibilitaria a destruição teórica e prática do pensamento criticado. As 
dificuldades em transpor o plano da crítica foram debitadas, por um segmento 
profissional, ao projeto de formação, à sua estrutura e à sua lógica, e à própria 
teoria marxista que serviria à crítica mas não responderia às exigências do 
mercado e às demandas cotidianas com as quais os profissionais se 
confrontam. Essa crítica, reducionista e generalista, alimenta o 
conservadorismo presente no Serviço Social brasileiro, contribui para o 
atrofiamento do debate teórico relativoao significado da profissão, à sua 
funcionalidade na reprodução das relações sociais e escamoteia as 
dificuldades e os vícios teóricos e práticos da categoria, justificando o 
exercício profissional que se reduz à apreensão do imediato. 
 A pesquisa realizada pela Abess (1989) evidenciou os equívocos 
decorrentes de uma aproximação tortuosa com a teoria social de Marx e dos 
próprios limites intelectuais dos assistentes sociais, incluindo aqueles que 
atuavam na docência naquele momento. Dentre esses equívocos, podem-se 
destacar a transposição mecânica que conduziu à negação da abordagem 
individual na prática profissional (convencionou-se arbitrariamente que 
 
 
56 
atendimento de caso é funcionalista/fenomenológico e trabalho com a 
comunidade vincula-se à dialética), a identificação da sistematização da 
prática com a formulação de teoria e a tendência tecnicista no tratamento dos 
instrumentais técnico-operativos. 
A crítica ao metodologismo presente nas discussões relativas ao 
fazer profissional aprofundou o debate, no interior da categoria, acerca da 
relação teoria e prática, nas décadas de 1980 e 1990. Ao revisitar o processo 
de emergência, constituição da profissão e as polêmicas que cercaram o seu 
desenvolvimento averiguam-se as dificuldades teórico-práticas para a 
ultrapassagem das determinações que a sociedade burguesa, na fase dos 
monopólios, instituiu para o assistente social: executor terminal das políticas 
sociais que, ao atender às demandas imediatas de segmentos da classe 
trabalhadora contribui para a objetivação dos interesses do capital em relação 
à preservação e ao controle da força de trabalho ocupada e excedente. 
As adequações semânticas na definição de Serviço Social ao longo 
da trajetória da profissão no Brasil, no campo do posicionamento teórico-
metodológico e ideo-político alinhado ao projeto da sociedade burguesa, 
vinculam-se às tentativas de modernizar o discurso profissional, mantendo a 
sua funcionalidade. A adesão dos assistentes sociais a esse projeto pode ser 
consciente ou inconsciente e, pode ainda, redundar em equívocos teórico-
metodológicos. 
O movimento contraditório da realidade que acentua e explicita a 
lógica do desenvolvimento desigual do modo de ser da sociedade capitalista 
que se evidencia nas seqüelas da questão social, com as quais os assistentes 
sociais confrontam-se diariamente e o amadurecimento do projeto ético-
político profissional fundamentado em uma concepção que apreende a 
totalidade do ser social e expressa o compromisso da categoria com os valores 
 
 
57 
do trabalho e a emancipação humana, não impedem a reprodução de um modelo 
de prática profissional conservadora, que se atém à fenomenalidade. 
Há, ainda, uma parcela significativa de assistentes sociais que 
orientam a sua prática balizada no Serviço Social tradicional e, outros que 
conectam, de forma imediata, o pensamento e a ação dispensando até mesmo o 
modelo prescritivo de estudo, diagnóstico e tratamento. Trata-se de formas 
de ser do Serviço Social que expressam posicionamentos teórico-práticos e 
ideo-políticos presos às expressões fenomênicas do ser social, no qual o fazer 
profissional limita-se às aparências, tanto no âmbito do conhecimento quanto 
da intervenção, pois o movimento da consciência para conhecer a realidade não 
chega à essência. Os vetores que contribuem para esse aprisionamento são 
múltiplos, mas o determinante é que a prática profissional desses assistentes 
sociais alinha-se acriticamente à pratica hegemônica na sociedade capitalista e 
sua correspondente racionalidade e a reproduz. Apenas aparentemente essa 
prática encontra-se destituída de intencionalidade se apresenta como 
inevitável e dada pela realidade sócio-institucional. 
Mesmo circunscrita à aparência, às expressões fenomênicas da 
realidade, essa prática resulta de largos e complexos processos de mediações. 
No entanto, o sujeito cognoscente − o profissional que demanda única e 
exclusivamente os instrumentais técnico-operativos para objetivar seu 
exercício profissional e conecta de forma imediata o pensamento e a ação − 
não apreende as mediações, e a sua prática encontra-se presa à 
fenomenalidade, à imediaticidade. Independentemente da consciência, as 
mediações permeiam a realidade e o processo de apreensão, pelo pensamento, 
da realidade ainda que seja em sua aparência. O profissional pode colocar-se 
nesse processo de forma passiva ou de forma ativa, como protagonista de seu 
exercício profissional. 
 
 
58 
No modelo prescritivo da prática profissional, a imediaticidade 
aparece em contraposição à mediação, na recusa à dimensão teórico-
metodológica e ético-política da profissão. As requisições dessa prática 
direcionam-se aos instrumentos que respondam de forma imediata, às 
necessidades confrontadas cotidianamente pelos profissionais. O imediato, a 
imediaticidade aparecem de forma oposta e distinta da mediação, mas as 
determinações reflexivas são indissociáveis. No entanto, ao passo que a 
“mediação é uma categoria objetiva, ontológica, que tem de estar presente em 
qualquer realidade, independentemente do sujeito”, a imediaticidade31 é uma 
categoria da consciência, afirma Lukács (1979a, p. 90). 
Sendo, pois, uma prática presa ao movimento da consciência que 
se atém à imediaticidade, procurar-se-á descrevê-la conforme ela aparece em 
sua fenomenalidade. A descrição da fenomenologia dessa prática profissional, 
isto é, como ela aparece em sua totalidade, sustenta-se no sistema hegeliano 
no qual, segundo Netto (1994, p. 28), a “razão moderna encontra a sua 
codificação mais conclusa”, discernindo com clareza as formas pelas quais a 
consciência conhece a realidade. 
 
1.3 A fenomenologia em Hegel: o aparecer da prática profissional 
 
 Fenomenologia significa, no sentido atribuído por Hegel (2001), o 
“caminho para a ciência [que] já é ciência ele mesmo, e portanto, segundo o seu 
conteúdo é a ciência da experiência da consciência” (p. 72). Fenomenologia do 
conhecimento diferencia-se de teoria do conhecimento, pois ao passo que a 
primeira é a descrição do caminho que a consciência percorre para chegar ao 
 
31 Apenas na natureza orgânica “o imediato possui também uma eficácia real que não deve obrigatoriamente 
passar através da consciência”, declara Lukács (1979a, p. 90). 
 
 
59 
conhecimento, à essência absoluta ou à verdade da coisa mesma, a segunda é a 
interpretação do conhecimento. 
 Experiência, para Hegel (2001), é o “movimento dialético que a 
consciência exercita em si mesma, tanto em seu saber como em seu objeto, 
enquanto dele surge o novo objeto verdadeiro para a consciência” (p. 71). Ao 
percorrer o caminho em direção a verdade, segundo a fenomenologia hegeliana, 
a consciência despoja-se da aparência que a prende a algo estranho para 
apreender a sua verdadeira essência, o saber absoluto. 
O caminho, ou o movimento dialético que a consciência exercita, 
consubstancia-se em um sistema que implica a passagem de uma estação a 
outra, ou de um nível a outro, buscando o desvelamento total do caminho ou os 
mais altos níveis de compreensão. Essa passagem não pode ser confundida com 
o etapismo estanque. Já no prefácio de a Fenomenologia do espírito, escrito 
em 1806, em Jena, Hegel (2001) adverte que a passagem “contém um tornar-
se Outro que deve ser retomado, e é uma mediação; mesmo que seja apenas 
passagem a outra proposição” (p. 31). O passar a outra proposição consiste no 
movimento dialético da consciência que busca captar a verdade. O verdadeiro, 
para Hegel (2001, p. 31), é o todo, “mas o todo é somente a essência que se 
implementa através de seu desenvolvimento” . 
 Desse caminho que a consciência percorre da aparência para a 
essência, em sua processualidade dialética, surgem as determinações 
reflexivas. Nesse processo, há a passagem superadorade um nível de 
conhecimento para outro, iniciando com a certeza sensível, e dela à percepção, 
da percepção ao entendimento, e do entendimento à verdade da razão. A 
passagem de um estágio para o outro ocorre por meio da supra-sunção que 
conduz à superação do entendimento anterior por meio da negação; a negação 
emerge da contradição que o próprio objeto contém em si-mesmo, daí, o 
 
 
60 
sentido da superação, ele se torna Outro. Trata-se, pois, do movimento 
dialético que embasa a filosofia da negação. 
 Para Hegel (2001), é da experiência que surge o novo objeto 
verdadeiro para a consciência. A experiência em referência não é a 
experiência do senso comum. Trata-se de “uma experiência abalada na sua 
segurança, imbuída do sentimento de não possuir a verdade toda; é uma 
experiência já no caminho do conhecimento real” (MARCUSE, 2004, p. 91). 
Essa experiência vincula-se ao sujeito que procura a verdade no filosofar, é, 
pois, a experiência da consciência que, no início, destrói a experiência 
cotidiana, na qual se aloja a certeza sensível. A experiência guiada pelos 
sentidos, da qual resulta a certeza sensível, aparece sempre como a 
experiência do próprio sujeito, o sujeito como indivíduo e, por extensão, o 
próprio objeto aparece como ser singular. Como a certeza sensível provém da 
experiência do indivíduo, “o sujeito aparece a si mesmo como instaurador e 
portador da verdade do objeto”, afirma Lima Vaz (2001, p. 12) . Trata-se do 
sujeito que toma como referência o aqui e o agora. Para o autor, “o lugar da 
verdade do objeto passa a ser o discurso do sujeito que é também o lugar do 
automanifestar-se ou do auto-reconhecer-se − da experiência, em suma − do 
próprio sujeito” (2001, p. 12). 
 Hegel (2001), quando se refere à experiência da consciência, 
reporta-se à experiência universal, cuja morada inicial se encontra na certeza 
sensível que, ao ser analisada, demonstra a realidade universal. A certeza 
sensível é o ponto de partida do método dialético apresentado por Hegel 
(2001) e intitula o primeiro capítulo de Fenomenologia do espírito como A 
certeza sensível ou: o Isto ou o visar. Nesse capítulo, Hegel (2001) explicita 
que o caminho que a consciência percorre para chegar à verdade, parte de um 
estado em que ela supõe possuir a verdade, que, ainda, não é a verdade. A 
certeza sensível tem essa forte dimensão afirmativa no qual reina de forma 
 
 
61 
absoluta o saber imediato. “O saber que, de início ou imediatamente, é nosso 
objeto, não pode ser nenhum outro senão o saber que é também imediato: − 
saber do imediato ou do essente”, diz Hegel (2001, p. 74). 
As características presentes no conteúdo concreto da certeza 
sensível aparecem quando ela anuncia o saber imediato como o mais rico 
conhecimento, um conhecimento de riqueza infinida, no qual não há limite pois 
ela tem o objeto diante de si em sua plenitude, portanto, um conhecimento 
verdadeiro. No entanto, Hegel (2001, p. 75) explica: 
 
essa certeza se faz passar a si mesma pela verdade mais 
pobre. Do que ela sabe, só exprime isto: ele é. Sua 
verdade apenas contém o ser da Coisa; a consciência, por 
seu lado, só está nessa certeza como puro Eu, ou seja: Eu 
só estou ali como puro este, e o objeto, igualmente apenas 
como puro isto, Eu, este, estou certo desta Coisa; não 
porque Eu, enquanto consciência, me tenha desenvolvido, e 
movimentado de muitas maneiras o pensamento. Nem 
tampouco porque a Coisa de que estou certo, conforme 
uma multidão de características diversas, seja um rico 
relacionamento em si mesma, ou uma multiforme relação 
para com outros. 
 
Para o saber sensível, a Coisa é, simplesmente, ao passo que a 
consciência é puro Eu, como este.“ O singular sabe o puro este, ou seja, sabe o 
singular” (HEGEL, 2001, p. 75). Mas, quando a certeza sensível anuncia a sua 
verdade como essência, ela já não é apenas a pura imediatez, diz Hegel (2001, 
p. 75) pois, nessa certeza ressaltam os dois estes: “ um este, como Eu, e um 
este como objeto” . Decorre então um encontro entre dois estes, e tanto um 
 
 
62 
como o outro não estão na certeza sensível apenas de modo imediato, mas 
estão, ao mesmo tempo, mediatizados. 
A certeza sensível apresenta o objeto, ou a Coisa, ou o este 
como um saber porque o objeto é, encontra-se ali, perceptível aos sentidos, 
mas esse saber pode não ser, posto que o verdadeiro conteúdo da certeza 
sensível se refere ao aqui e ao agora. O aqui e o agora são os elementos que 
permanecem como características da certeza sensível. Trata-se de um sujeito 
que para fazer permanecer a sua certeza como o seu ser se relaciona com o 
não-ser, com o universal. A verdade na certeza sensível está no objeto: “o 
objeto é porque Eu sei dele”, explica Hegel (2001, p. 77). Eu sei dele aqui e 
agora − saber imediato. Porém, como o objeto é porque Eu sei dele, a força 
dessa verdade passou do objeto para o Eu: “Assim, a certeza sensível foi 
desalojada do objeto, sem dúvida, mas nem por isso foi ainda suprassumida, se 
não apenas recambiada ao Eu” (HEGEL, 2001, p. 77). 
A força da verdade está no Eu, na imediatez dos sentidos de 
quem vê, sente, ouve, cheira, pega, etc. O Eu experimenta uma verdade 
sustentada no aqui e no agora singulares. O aqui e o agora singulares não 
desvanecem porque o Eu os mantém. Contudo, um outro Eu vê e sente nesse 
aqui e agora um outro objeto. Acerca dessa aparente dubiedade, Hegel (2001, 
p. 77) diz que as “duas verdades têm a mesma credibilidade, isto é, a 
imediatez do ver, e a segurança e afirmação de ambos quanto o seu saber; uma 
porém desvanece na outra”. Aquilo que permanece nessa experiência é o Eu 
como universal, pois, “o Eu é só universal, como agora, aqui, ou isto, em geral” 
(HEGEL, 2001, p. 78). 
Para demonstrar o sensível como universal, Hegel (2001) afirma 
que a certeza do Eu provém do aqui e do agora. O Eu vira-se e vê aqui e agora 
uma árvore e, quando se vira novamente, vê uma casa. O aqui e o agora não se 
desvanecem, mas trata-se de algo que fica no desvanecer da árvore, da casa; a 
 
 
63 
certeza mantém-se em si mesma como imediatez, que não faz distinção entre o 
Eu e o objeto. A permanência do agora no tempo, como o momento do aqui, 
implica negação de todos os outros momentos do tempo. A sua conservação 
implica que o seu ser é um não-ser. Por isso, a análise da certeza sensível 
demonstra “a realidade do universal e desenvolve, ao mesmo tempo, o conceito 
filosófico da universalidade. A realidade do universal é aprovada pelo próprio 
conteúdo dos fatos observáveis (...)”, declara Marcuse (2004, p. 99). Resulta 
desse movimento da consciência que a verdade da certeza sensível não está no 
caráter particular, individual do objeto, mas no todo universal que constitui o 
conteúdo da experiência sensível. 
A certeza sensível quer captar o objeto que, para ela, é o 
essencial, e o sujeito aparece como o inessencial. No momento no qual 
predomina o aqui e agora − o imediato −, este objeto aparece como um ser 
singular. O conhecimento do sujeito depende do objeto. No entanto, quando o 
sujeito, para afirmar a propriedade do objeto nega um Outro, ele se torna 
essencial, e o universal revela-se como o verdadeiro conteúdo da experiência. 
A verdade não está no objeto, e a “certeza sensível não se apossa do 
verdadeiro”, assinala Hegel (2001, p. 83), uma vez que a verdade da certeza 
sensível é o universal. “E a sede do universal é o sujeito, e não o objeto; o 
universal existe no conhecimento, que, de início era o fator inessencial”, 
interpreta Marcuse (2004, p. 18). O mesmo movimento ocorre em relação ao 
objeto: 
A experiência-sensível revela, pois, que a verdade nem 
está com seu objeto singular, nem com o eu individual. A 
verdade é o resultado de um duplo processo de negação: 
1) a negação da existência per se do objeto, e 2) a 
negação do eu individual, com a transferência da verdade 
para o eu universal.A objetividade é, pois, duplamente 
 
 
64 
mediada, ou construída, pela consciência, e, por 
conseguinte, continua ligada à consciência. O 
desenvolvimento do mundo objetivo está totalmente 
interligado com o desenvolvimento da consciência 
(MARCUSE, 2004, p. 18). 
 
A experiência da consciência tem início na certeza sensível, com 
o saber imediato, nesse momento, começa o conhecimento em busca da 
verdade, e tanto o sujeito quanto o objeto aparecem como isto individual, 
cujas propriedades determinantes são o aqui e o agora. Na certeza sensível 
alojada na experiência do senso comum do cotidiano assenta-se a verdade do 
sujeito e do objeto singulares, que ainda não é a verdade porque se desvanece 
na verdade de um outro aqui e agora, “os únicos elementos que permanecem 
constantes no meio da mudança contínua dos dados objetivos” (MARCUSE, 
2004, p. 99). O que acontece, contudo, quando este aqui e agora apresentado 
como a verdade de um sujeito e objeto singulares transparece como a verdade 
universal? Trata-se de uma verdade ou de uma miragem? 
A experiência profissional do assistente social quando alojada 
somente na certeza sensível, anuncia uma verdade referente ao fazer ou ao 
exercício profissional sustentada no aqui e no agora singulares que aparecem 
como universais. Essa verdade somente toma força à medida que se relaciona 
com o Outro, ou seja, com a negação de uma outra verdade e, por isso, ela se 
desvanece no Outro. O que anuncia a auto-manifestação de assistentes sociais 
cuja verdade se aloja na certeza sensível? 
 
 
 
 
 
65 
1.4 A fenomenologia da prática profissional do assistente social: a 
preponderância da certeza sensível 
 
 Quando o profissional do Serviço Social afirma categoricamente 
que os conhecimentos históricos, teórico-metodológicos e ético-políticos 
transmitidos/apreendidos no processo de formação profissional não encontram 
aplicabilidade no cotidiano do seu exercício profissional, ele manifesta a sua 
verdade que, de início, é a sua verdade como indivíduo. Trata-se da verdade 
que advém do saber imediato, portanto, da certeza sensível de um profissional 
que, embasado em sua experiência cotidiana, instaura a verdade do objeto em 
referência: o Serviço Social, ou mais especificamente, o Serviço Social 
identificado como prática profissional. 
Tal experiência é guiada/desencadeada pelos sentidos e aparece 
sempre como a experiência do próprio sujeito, o sujeito como indivíduo que 
toma o objeto em sua singularidade e, nesta relação, o objeto aparece como 
essencial. Para o indivíduo que experimenta tal experiência o lugar da verdade 
está no objeto, e ele confere o status de verdade ao objeto. Esta verdade é 
anunciada na forma do discurso do sujeito como o automanifestar-se e auto-
reconhecer-se na experiência do aqui e do agora, do imediato. O que são, pois, 
esse aqui e esse agora automanifestado e auto-reconhecido pelo assistente 
social no discurso pautado na certeza sensível? Como o profissional 
automanifesta esse aqui e esse agora? Ele sabe, conhece por meio da certeza 
sensível alojada em sua experiência cotidiana a verdade do objeto, do fazer 
profissional, e essa verdade é por ele instaurada, daí a forma categórica e 
incisiva como é manifestado o fazer porque é ao mesmo tempo um auto-
reconhecimento. 
Quando o profissional anuncia a verdade de seu fazer profissional 
guiado pela certeza sensível, ele sabe do aqui e do agora no qual se encontra. 
 
 
66 
Ele considera, que justamente por estar naquele momento, naquele lugar, a sua 
experiência alojada na certeza sensível é o mais rico saber, e o saber 
científico, ou seja, os fundamentos históricos e teórico-metodológicos da 
profissão transmitidos durante o seu processo de formação não têm validade e 
aplicabilidade para esse aqui e esse agora no qual ele se encontra. 
 Para esses profissionais − que antes de externarem a sua 
experiência não ultrapassam (no sentido de supra-sumir) esse aqui e esse 
agora − o saber sobre o seu fazer profissional simplesmente é. O saber 
relativo ao fazer profissional é o que esse sujeito, como ser singular, percebe 
por meio dos sentidos, ou seja, o saber profissional é o que ele percebe porque 
vê, sente, apalpa, ouve, cheira. Esse saber é o saber imediato referente ao 
fazer profissional anunciado como o mais rico conhecimento, a mais pura 
verdade, a essência. 
Provavelmente, a fala do assistente social que desenvolve o seu 
fazer profissional guiado pela certeza sensível − pela experiência que se atém 
ao aqui e ao agora −, que mais denote a verdade instaurada exclusivamente 
pela experiência do próprio sujeito como o mais rico e pleno conhecimento seja 
a propalada frase na prática a teoria é outra. A teoria é outra não no sentido 
de que uma outra lógica ou racionalidade esteja presente no espaço sócio-
ocupacional, mas porque o conhecimento válido é aquele que advém de sua 
experiência como sujeito singular que anuncia a verdade de um objeto singular. 
É ele, o profissional que sabe o seu fazer, conhece o aqui e o agora desse 
fazer, as dificuldades que encontra para responder às exigências cotidianas. 
Para esse profissional, a verdade passa a ser o seu discurso assentado na 
certeza sensível, a automanifestação do próprio sujeito. 
 No entanto, diz Hegel (2001, p. 75), esta verdade “só está nessa 
certeza como puro Eu”, não há o movimento de muitas manifestações do 
pensamento e, tampouco, o saber fazer profissional que se anuncia como 
 
 
67 
verdadeiro seja possuidor de características diversas e seja rico porque se 
relaciona com outros saberes. O sujeito aparece nessa verdade como puro Eu 
ou este e o objeto, o fazer profissional, como puro isto. Isto é porque eu sei 
dele, ele é, simplesmente. 
 Quem mais pode saber desse fazer a não ser o próprio 
profissional que, no dia-a-dia, − no aqui e no agora do cotidiano institucional − 
enfrenta as tensões sociais, lida com elas, com elas convive, e é chamado a 
dar-lhes respostas, encontrar soluções para as demandas sociais? Tais 
soluções são exigidas e, permanentemente, cobradas pela instituição, pelos 
usuários e pelo próprio assistente social como resultado e efetividade do 
trabalho profissional, constituindo-se em fator preponderante para a 
legitimidade da profissão perante a sociedade e do próprio assistente social no 
espaço sócio-ocupacional. 
 Em outras palavras, a experiência cotidiana do profissional ou a 
vivência do dia-a-dia instaura a verdade desse sujeito como indivíduo, que está 
no objeto − a sua prática profissional, isto é, o que ele faz para responder às 
demandas sociais com as quais se confronta no cotidiano. A valoração do 
trabalho que desenvolve assenta-se na verdade instaurada no aqui e no agora, 
no momento presente que implica a negação de todos os outros momentos. A 
ênfase do discurso coloca-se no objeto, pois é o profissional que vivencia o 
cotidiano institucional, que sabe do objeto. Contudo, este saber alojado na 
certeza sensível referente ao abjeto singular ao ser evidenciado na 
automanifenstação ou no auto-reconhecimento do sujeito já é universal. 
Ao automanifestar-se e auto-reconhecer-se no saber imediato 
que advém da experiência direta com o objeto − o fazer profissional −, o 
sujeito estabelece relação com o Outro, com outra verdade. Esta mediação 
encontra-se evidenciada no conteúdo e na forma como o sujeito se 
automanifesta, se auto-reconhece, ou seja, em sua fala. Quando o assistente 
 
 
68 
social afirma que a verdade, a essência, estão em sua experiência prática 
cotidiana porque dela advém o saber imediato relativos ao seu fazer 
profissional, essa verdade já não é pura imediatez, pois ocorreu o encontro de 
dois estes − o este sujeito, o profissional, e o este objeto, o fazer 
profissional. O encontro do profissional e do fazer profissional implica 
mediações, pois “tanto um como outro não estãona certeza sensível apenas de 
modo imediato, mas estão, ao mesmo tempo, mediatizados” (HEGEL, 2001, p. 
75). 
Por outro lado, ao afirmar o que é o seu fazer profissional 
embasado na certeza sensível, o assistente social já está se relacionando com 
o não-ser, com o que não é o seu fazer profissional: na prática, o fazer 
profissional não é o fazer profissional que é transmitido durante o processo de 
formação, para o qual se requer o acionamento de recursos teórico-
metodológicos, ético-políticos e técnico-operativos. Quando alguém diz − eu 
me basto, eu sou auto-suficiente como profissional e necessito somente da 
certeza sensível para instaurar a verdade sobre o meu fazer profissional −, 
estou dizendo − não preciso do outro, estou me relacionando com o outro como 
um não-ser. 
O que é esse fazer profissional que surge da experiência do 
próprio sujeito e se fundamenta na certeza sensível? O profissional é aqui o 
sujeito como indivíduo. O fazer profissional é, em decorrência da experiência 
do próprio profissional que instaura a verdade desse fazer, portanto, um 
objeto singular. O sujeito é o profissional que para auto-reconhecer-se como 
tal desenvolve um fazer profissional. Antes, porém, de o profissional auto-
reconhecer-se como tal é preciso que Outros o reconheçam, e três condições 
determinantes se apresentam na realidade brasileira: ser graduado no curso 
de Serviço Social, de nível superior, estar regularmente inscrito no Conselho 
Regional de Serviço Social e vender a sua força de trabalho. 
 
 
69 
O Serviço Social, apesar de ser “regulamentado como uma 
profissão liberal não tem uma tradição de prática peculiar às profissões 
liberais na acepção corrente do termo”, afirma Iamamoto (Iamamoto e 
Carvalho 1982, p. 80). Para desenvolver o seu fazer profissional, o assistente 
social, não dispondo das condições materiais, necessita que alguma instituição, 
pública ou privada, compre a sua força de trabalho. Essas determinações não 
se apresentam para este aqui e este agora. No entanto, aqui é o lugar onde se 
desenvolve agora este fazer profissional, é a instituição que contrata o 
assistente social para desenvolver o fazer profissional, determinando as 
condições matérias, físicas e técnicas para tal. E o que existe agora? 
 Agora, esse profissional responde ao que aparece. Para ele, surge 
a instituição com as suas próprias solicitações, requerendo informações sobre 
esse fazer profissional e contra-informando como esse fazer deve ser 
realizado. Para esse profissional, podem aparecer pessoas que solicitam 
auxílios, ajuda; que buscam bens e serviços para satisfazerem suas 
necessidades imediatas, quando na verdade são cidadãos demandando direitos 
sociais. Como se processam as respostas referendadas apenas pela certeza 
sensível? Se há o recurso institucional, a ajuda é repassada por meio de 
procedimentos estabelecidos na rotina institucional e realizadas naturalmente 
pelo assistente social. Quando não há o recurso para o atendimento, o 
profissional encaminha a pessoa para outra instância ou outra instituição de 
maneira informal ou formal. Os bens e serviços de que esse profissional dispõe 
para desenvolver o seu fazer profissional são definidos pela instituição, 
determinados por esse aqui e esse agora. 
O profissional depara-se com tais bens e serviços como se eles 
estivessem dados, pois, como partes constitutivas deste momento, estão 
dados. A forma como o profissional desenvolve o seu fazer profissional, isto é, 
como ele procede para repassar a ajuda, pode ocorrer com níveis de exigências 
 
 
70 
diferenciadas em relação ao controle. Tais exigências são determinadas pelo 
conjunto de rotinas organizacionais exigidas pela instituição com graus de 
formalização diferenciados e se vinculam aos condicionamentos políticos, 
econômicos, sociais e jurídico-legais. 
Portanto, aqui, tais exigências não são instituídas com base no 
fazer profissional, mas são impostos, determinados ao assistente social. Para 
repassar o auxílio, o assistente social deve averiguar se a pessoa realmente 
tem necessidade dele, e, para tal, a instituição estipula os parâmetros de 
atendimento na forma de critérios, focalizando o que deve ser atendido. Se a 
pessoa se enquadra no critério, recebe a ajuda. Caso constitua uma exigência 
institucional a formalização de tal averiguação, o assistente social preenche 
uma ficha sócio-econômica que já está elaborada e, geralmente, devidamente 
padronizada ostentando o logotipo da instituição. Essa ficha é preenchida pelo 
assistente social e, para tanto, ele faz uma entrevista para obter as 
informações da pessoa32. Ao repassar o auxílio, o assistente social informa as 
condições estabelecidas pela instituição para a sua utilização. Quando o auxílio 
solicitado relaciona-se ao acesso a serviços (consulta médica, odontológica, 
serviços jurídicos, etc.) este procedimento pode fazer-se desnecessário, 
basta que o assistente social entre em contato, direta ou indiretamente, com 
os profissionais ou setores da instituição e, nesse caso, o atendimento ocorre 
até nos corredores da instituição. 
O cotidiano desse profissional segue essa rotina, na qual, tanto os 
conteúdos dos instrumentais técnico-operativos quanto a forma dos 
procedimentos são deliberados e elaborados por profissionais do Serviço 
Social que atuam no mesmo espaço sócio-ocupacional e desenvolvem o fazer 
profissional em outra perspectiva, ou por profissionais de outras instâncias da 
 
32 O termo pessoa para identificar aquele que procura os serviços sociais está sendo aqui empregado porque 
para o assistente social que se guia pela certeza sensível, trata-se de uma pessoa e não de um cidadão, um 
trabalhador, um cliente ou um usuário. 
 
 
71 
instituição − geralmente o setor de administração e planejamento − ou por 
órgãos de apoio e empresas de consultoria e assessoria. 
Note-se que o profissional cumpre uma rotina que implica a 
execução de procedimentos com a utilização de instrumentos técnico-
operativos para a objetivação de seu trabalho. No entanto, ele não considera a 
intencionalidade que se põe em movimento por meio da objetivação de seu 
trabalho. Ele considera que o fazer profissional é por ele instituído, é o seu 
objeto singular. Ele tem um suposto controle desse fazer profissional porque a 
certeza sensível que guia a sua consciência faz parecer que ele é quem sabe do 
objeto. 
Estes profissionais encontram-se inseridos no mercado de 
trabalho e desenvolvem esse fazer profissional em instituições públicas e 
privadas que executam políticas sociais, sobretudo da assistência social e da 
saúde. Vasconcelos (2003), em recente investigação (1997-1998) que realizou 
acerca do trabalho profissional dos assistentes sociais, na Secretaria 
Municipal de Saúde da cidade do Rio de Janeiro, identifica que, dentre os 
profissionais pesquisados 32,4% não adotam referência teórica33 para 
desenvolver a sua prática profissional. Em sua análise Vasconcelos (2003, p. 
344) afirma: 
Surpreende o percentual de assistentes sociais − 32,4% − 
que declararam formalmente não assumir autor como 
referência, bem como não adotar teoria, ou seja, afirmam 
que realizam um trabalho profissional que não é pensado, 
previsto, projetado e, conseqüentemente, avaliado. 
 
 
33 Conforme Vasconcelos (2003, p. 343-344 ), 60,8% dos assistentes sociais indicaram suas referências 
teórica, dentre esses, “ indicam autores clássicos − 17,6% − e os que expõem seu ecletismo − 4,1%, num 
total de 21,7%”. 
 
 
72 
O modo do fazer profissional que se guia por ele mesmo não pode 
ser confundido com o Serviço Social tradicional, como se verificará adiante. 
Quando o profissional justifica esse modo de fazer, aparecem motivações 
diferenciadas. O assistencialismo e o imediatismo balizandoo cotidiano 
profissional destacam-se dentre essas motivações. 
 
1.4.1 A prática profissional assistencialista 
No fazer profissional assistencialista, o profissional encontra-se 
convicto que o mais importante é ajudar as pessoas. Esta prática não está 
esvaziada de valor. O valor que move o assistente social é fazer o bem no 
sentido cristão, porque ele gosta de ajudar ao próximo e esse deve ser o 
fundamento necessário da sua prática. O fazer profissional é assim 
automanifestado: 
 
Paternalista e assistencialista, isso é que é necessário. 
Aquela filosofia da Universidade não adianta neste 
momento, para depois chegar na filosofia é uma escala. O 
assistente social é um dos maiores sociólogos, mas em 
primeiro lugar deve ser a assistência34 (apud 
VASCONCELOS. 2003, p. 278). 
 
Vejo muito o Serviço Social na visão assistencialista, 
aquela moça boazinha que está ali para fazer tudo pelo 
Outro (apud VASCONCELOS, 2003, p. 278). 
 
 
34 Em pesquisa realizada na cidade do Rio de Janeiro, na rede pública de saúde, Vasconcelos 
(2003, p. 276), em entrevista, indaga aos assistentes sociais acerca do papel do Serviço 
Social na sociedade brasileira e depara-se com dois posicionamentos: para 69% dos 
assistentes sociais há perspectivas para o Serviço Social, e 24% dos assistentes sociais não 
vêem espaço na sociedade brasileira para a profissão. 
 
 
73 
As pessoas nos procuram por carências materiais, as 
instituições nos cobram produtividade, esperam ações 
assistencialistas, respostas materiais (apud Barros – Com 
001) . 
 
Gosto do Serviço Social pela ajuda e é uma oportunidade; 
é a única profissão que permite ajuda; o assistente social 
é nato, tem que nascer assistente social. (apud 
VASCONCELOS, 2003, p. 334). 
 
Para ajudar ao próximo, são necessárias e suficientes a vocação e 
a índole cristã. Dentre os motivos que conduzem à procura pela profissão, 
destacam-se aqueles relacionados ao desejo de servir ao próximo, da ajuda 
guiada por valores cristãos. O assistencialismo é caracterizado pelos próprios 
assistentes sociais como o dar sem reflexão e, no jargão liberal significa dar 
sem ensinar a pescar. 
O sufixo ismo é utilizado para designar e qualificar sistemas 
sociais (feudalismo, capitalismo, comunismo), períodos sócio-históricos 
(monopolismo, mercantilismo), manifestações de expressões culturais e 
artística (modernismo, expressionismo, cubismo, primitivismo), correntes de 
pensamentos e teorias sociais (positivismo, marxismo, pragmatismo) e 
doutrinas e tendências políticas de toda ordem, até mesmo no interior das 
profissões. Mas, também, recorrentemente, o mesmo sufixo é utilizado de 
forma pejorativa, como uma alusão a tudo que excede, que extrapola o bom 
senso . O ismo de assistencialismo refere-se a qualidade (ou falta de), uma 
forma de linguagem que qualifica uma prática, um modo de fazer. 
 
 
74 
O assistencialismo é designado como uma ação de caridade, ação 
filantrópica motivada por valores cristãos35. A ajuda é para fazer o bem ao 
próximo, é uma passagem para o reino do céu e, nesse sentido, o profissional 
assume o seu fazer como um apostolado, fundado, segundo Yazbek (2000, p. 
22), em uma “abordagem da questão social como problema moral e religioso e 
numa intervenção que prioriza a formação da família e do indivíduo para a 
solução dos problemas e atendimento de suas necessidades materiais, morais e 
sociais”. 
A concepção que apreende a constituição da profissão como a 
institucionalização da caridade, da ajuda, encontra-se vinculada ao Serviço 
Social tradicional e, ainda repercute no meio profissional e na representação 
que grande parte da sociedade tem acerca da profissão. Da análise histórico-
cultural da imbricação entre a assistência social de caráter filantrópico − cuja 
motivação para a ajuda dá-se por meio de valores cristãos − e o Serviço Social 
emergiu a tese36 endogenista sustentando que a origem da profissão está “na 
evolução, organização, profissionalização das anteriores formas ajuda, da 
caridade e da filantropia, vinculada agora a intervenção na questão social” 
(MONTAÑO, 1998, p. 10). Segundo Montaño (1998), aparecem como autores37 
desta tese: Herman Kruse, Ezequiel Ander-Egg, Natálio Kisnerman, Boris 
Aléxis Lima, Ana Augusta de Almeida, Balbina Ottoni Vieira, José Lucena 
Dantas, dentre outros. 
 
35 Em A divina comédia, Dante Alighieri, depois de ter passado pelos círculos do inferno e do purgatório, 
encontra-se com São Tomás de Aquino no reino dos céus, que lhe ensina as virtudes do bem. 
36 A segunda tese, segundo Montaño (1998, p. 20), é aquela formulada pela perspectiva histórico-crítica que 
“entende o surgimento da profissão do assistente social como um subproduto da sínteses dos projetos 
político-econômicos que operam no desenvolvimento histórico, onde se reproduz material e ideologicamente 
a fração da classe hegemônica, quando, no contexto do capitalismo em sua idade monopolista, o Estado 
toma para si as respostas da questão social”. A análise da imediaticidade na prática profissional do assistente 
social com base nessa perspectiva será abordada no quarto capítulo. 
37 Entre esses autores há diferenças quanto aos fundamentos teórico-metodológicos, aos modelos 
operacionais, ao significado da prática profissional, aos valores e às direções sócio-políticas que 
materializam. 
 
 
75 
No estudo que realizou para apreender a interlocução construída 
pelos assistentes sociais com as tendências teórico-metodológicas do Serviço 
Social, Torres (2006) detecta a presença dos valores cristãos impulsionando a 
prática profissional: “porque além dessa visão já do Serviço Social, tem a 
minha visão espiritual [...] eu acho que a gente tem que dar chance para as 
pessoas” (fala do sujeito 15, p. 55). 
 A incidência dos valores cristãos sobre o fazer profissional 
torna-se o eixo norteador da relação que o profissional estabelece com a 
pessoa, na forma de abordagem do problema (individual e debitado ao 
comportamento moral da pessoa), nos procedimentos desencadeados para se 
informar a respeito do problema e as respostas necessárias. A abordagem 
individual com o objetivo da ajuda e da acolhida aparece, nessas 
circunstâncias, como uma atividade central. 
Na atualidade, tal prática, como expressão de um fazer 
profissional, está sendo colocada em questão. Conforme analisam Iamamoto 
(Iamamoto; Carvalho, 1982, p. 84), a demanda da atuação profissional “não 
deriva daqueles que são o alvo de seus serviços profissionais − os 
trabalhadores − mas do patronato que é quem diretamente o remunera, para 
atuar, segundo metas estabelecidas por estes, junto aos setores dominados”. 
Para obter os serviços de que necessita na instituição, o usuário 
deve passar pelo crivo do assistente social, e essa imposição, segundo 
Iamamoto (Iamamoto; Carvalho, 1982, p. 84), “marca grande parte da atuação 
do profissional [e] não aparece limpidamente no discurso da instituição Serviço 
Social”. Expressa-se, ao contrário, na representação dos profissionais, 
aflorando o seu dom de servir: 
 
A vocação do servir é concebida, nessa perspectiva, como 
uma escolha, oriunda de um chamado, justificado por 
 
 
76 
motivações de ordens éticas, religiosas ou políticas, a que 
só podem aderir indivíduos dotados de certas aptidões 
particulares e dispostos a engajar a totalidade de suas 
vidas em um projeto que, antes de ser trabalho, é uma 
missão (IAMAMOTO. In Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 
85). 
 
Para o profissional que projeta o seu fazer como uma missão, o 
significado de sua prática profissional é mensurado somente pela relação 
entre um sujeito singular e um objeto singular, ou seja, ele simplesmente 
ignora o que de fato o prende a esse fazer − a relação de compra e venda da 
força de trabalho. Segundo Iamamoto (Iamamoto;Carvalho, 1982, p. 85), 
 
aí se estabelece uma das linhas divisórias entre a 
atividade assistencial voluntária, desencadeada por 
motivações puramente pessoais e idealistas, e a atividade 
profissional que se estabelece mediante uma relação 
contratual que regulamenta as condições de obtenção dos 
meios de vida necessários à reprodução desse trabalhador 
especializado. 
 
Na atual conjuntura, verifica-se um movimento ambíguo em 
relação ao modo de fazer profissional assistencialista. Como a assistência 
social, em decorrência do processo de luta da classe trabalhadora e das forças 
progressistas da sociedade, alçou ao estatuto de política social, desde a 
promulgação da Constituição de 1988 (BRASIL, 1988), os serviços sociais 
passaram a constituírem-se um direito a quem deles necessita e não uma 
dádiva ou benesse. Ao mesmo tempo, do movimento de minimização do Estado 
surgiram leis vinculadas ao controle fiscal, dentre as quais, aquelas que 
 
 
77 
regulamentam e estabelecem o controle das instituições filantrópicas 
desobrigadas de recolherem a contrapartida patronal dos impostos sociais e 
fiscais. Esse controle impõe às instituições a inserção em redes de 
atendimento − seja na assistência social, na educação ou na saúde − e define os 
critérios de atendimento e os mecanismos de prestação de contas. A prática 
dos profissionais que atuam nessas instituições tende a alterações, tornado-se 
mais burocratizada e enfeixada pelos objetivos e metas predeterminadas em 
leis e contratos pontuais com os órgãos governamentais. 
 Por outro lado, como prática política, o assistencialismo aliado ao 
clientelismo persistem em campo aberto, em decorrência do aprofundamento 
das desigualdades sociais que propiciam mecanismos de reprodução da 
pobreza. O assistente social pode participar da reprodução dessa prática como 
profissional, mas as lideranças populares são os alvos principais no movimento 
de cooptação pelos líderes políticos e religiosos. 
Outra expressão do fazer profissional guiado pela certeza 
sensível é o imediatismo ou a prática imediatista. 
 
1.4.2 A prática profissional imediatista 
 
Imediatismo ou imediatista diferencia-se de imediato, de 
imediaticidade. Imediatismo, no presente estudo, é utilizado para qualificar e 
acentuar as características de uma prática que fica aquém do imediato ou da 
imediaticidade, que produz uma consciência que deturpa a dimensão do 
imediato, da imediaticidade. O imediatismo é a intensificação do imediato, o 
que extrapola aquilo que é possível no aqui e no agora, é o frenesi da vida 
cotidiana que não comporta mais o presente como algo que é, em decorrência 
de um movimento, de um processo e que não se projeta para o futuro, o vir-a- 
 
 
78 
ser. O imediatismo é o tempo no qual ocorre o estilhaçamento do homem 
inteiro (LUKÁCS, 1967; NETTO, 2000). 
Na literatura referente ao Serviço Social brasileiro, os termos 
imediato e imediatista/imediatismo são utilizados como sinônimos. Neste 
estudo, o imediato refere-se à forma como a consciência, por meio da intuição, 
apreende o fenômeno como o aparecer na totalidade da coisa-em-si. No 
imediato, inicia-se o movimento da experiência da consciência para o 
conhecimento e, ao mesmo tempo, é uma característica da vida cotidiana e se 
vincula às necessidades inelimináveis do dia-a-dia e a organização das relações 
de produção e reprodução social, operando, conforme Netto (2000, p. 67), a 
“relação direta entre pensamento e ação; a conduta específica da 
cotidianidade é a conduta imediata, sem a qual os automatismos e o 
espontaneísmo necessários à reprodução do indivíduo enquanto tal seriam 
inviáveis”. A espontaneidade, como característica da vida cotidiana, responde 
às múltiplas exigências postas e repostas para a necessária reprodução da vida 
de cada indivíduo. Nesse sentido, o imediatismo diferencia-se tanto do 
imediato quanto do espontâneo. 
A forma de expressão que revela o imediatismo como a saturação 
do presente por ele mesmo é aquela na qual o assistente social sente que atua 
sempre como se estivesse apagando fogo, como evidenciam alguns 
depoimentos: 
A gente tá meio que atuando como bombeiros, no momento 
em que tu começa o serviço a demanda vem, parece que 
descamba; 
 A gente se questiona muito, porque é muita coisa. Então 
depois tu só fica apagando fogo. Sabe, tu faz de tudo ao 
mesmo tempo, parece que tu não faz nada. Então a gente 
até tem uma proposta da gente sentar e começar a 
 
 
79 
organizar (apud SANTOS; LAGUNA; ANDRADE, 1998, 
p.31); 
 
O Serviço Social atua na linha do quebra galho (apud 
SILVA, et. al., 1980, p. 57). 
 
Então, enquanto a gente não consegue estabelecer as 
questões de prioridade e coisa parecida, a gente está 
fazendo o que está vindo, para não deixar também a 
população desamparada ou sem suporte (apud: SILVA; 
HACKBART, 1998, p. 24). 
 
O fazer profissional não está sendo anunciado como uma verdade, 
mas como a impossibilidade de haver um outro fazer. Coloca-se, nessa relação, 
a possibilidade de despojar-se da aparência que vincula a consciência a algo 
estranho. 
O imediatismo é a emergência de um tempo e de um lugar que 
aprisionam o indivíduo, no qual sobressaem as demandas que tornam o cotidiano 
incontrolável. Na prática imediatista, o cotidiano encontra-se saturado de 
atividades que, aparentemente, não se conectam ao antes e não se desdobram 
no depois. Esta prática simplesmente é o que a emergência determina e requer 
a pronta resolutividade dos problemas, das demandas que aparecem, mesmo 
que signifique passá-las adiante, por meio de encaminhamentos. 
A abordagem no desenvolvimento dessa prática é sempre 
individual, requerendo instrumentais técnico-operativos exigidos pela 
institucão: o preenchimento de uma ficha sócio-econômica que não terá 
nenhuma utilidade posteriormente; o encaminhamento, formalizado ou não, que 
não será acompanhado; a solicitação de um serviço ou de um bem material 
 
 
80 
como cadeira de rodas; a inserção em um programa social (leite, renda mínima, 
bolsa escola). Trata-se de uma prática profissional que se atém às respostas 
às demandas sociais cotidianas requeridas pelos usuários e pela instituição, 
destacando-se a forma em detrimento do conteúdo, no qual prevalece o 
emergencial38. Por sua vez, o emergencial é determinado por parâmetros 
organizacionais que advêm da lógica do mercado: o que se produz − no caso, o 
que se atende e a quem? Quais demandas? Quais as necessidades? Dentre elas 
quais são emergenciais? O quanto se deve produzir − capacidade de 
atendimento físico e material? Como se produz − quais são os procedimentos, 
que materiais devem ser utilizados? E, ainda, deve-se determinar a 
quantidade, o tempo do atendimento, a forma de registro, etc. 
Em decorrência da determinação imperativa do tempo presente 
saturado em si-mesmo − o presente presentificado − o cotidiano torna-se, 
aparentemente, incontrolável, decorrendo uma relação de mal-estar do 
profissional em relação à profissão. Ele a vê e a sente com profundo 
desencanto e passa a nega-la. Em sua pesquisa Vasconcelos (2003, p. 335), 
constata que 21,6% dos assistentes sociais afirmam a insatisfação com a 
profissão e cita algumas declarações: 
 
muita decepção com a diferença entre a teoria e a prática 
e depois percebi que não era a profissão que queria para 
mim; 
 
devido às intervenções genéricas é que o Serviço Social 
se perde; as pessoas ficam apostando que tudo é para o 
 
38 Moraes (2004), ao problematizar o trabalho dos assistentes sociais nos hospitais públicos de Maceió, em 
comunicação no XI CBAS, diz que, com base em sua inserção profissional e de sua participação na referida 
pesquisa e como membro da comissão de fiscalização do CRESS, observou as particularidade dos diversos 
campos de atuação em instituições ou órgãos governamentaisvinculados à prestação de serviços assistenciais 
na área da saúde e chamam a atenção o imediatismo da prática profissional. 
 
 
 
81 
assistente social resolver, fazendo determinadas 
pressões; por ex: comunicar falecimento, telefonar, etc. 
 
A prática profissional descrita é desencadeada pela demanda 
apresentada pelo usuário ou pela instituição ao Serviço Social, restringindo-se 
a esse atendimento. Nas grandes instituições, sobretudo entre aquelas que 
implementam a política de saúde, as situações emergenciais que exigem o 
pronto atendimento tendem a intensificar o ritmo de trabalho do assistente 
social. Como a demanda pelos serviços sócio-assistenciais é maior que a 
capacidade de atendimento, o profissional vê-se premido pela pressão tanto de 
usuários quanto da instituição e de sua jornada de trabalho. 
Nessas condições, o Serviço Social tende a ser encarado pela 
instituição e pelos profissionais de outras áreas como o ponto de refugo do 
atendimento, a saída para a busca de soluções de problemas diversos que os 
outros profissionais não querem ou não têm tempo para atendimentos e 
encaminhamentos devidos. Por sua vez, os usuários, após percorrerem aos 
vários setores da instituição para o atendimento de suas necessidades, e, 
tendo em vista as dificuldades encontradas, dirigem-se ao Serviço Social como 
o último recurso. Assim, é uma característica da prática imediatista a busca 
de respostas para as demandas que outros setores/instâncias da instituição 
refugaram. Essas demandas não estão previstas no fluxo de atendimento 
estabelecido pelas atribuições, procedimentos e rotinas. Dessa forma, o 
assistente social pode ser requerido para facilitar o atendimento em outros 
setores da instituição, estabelecer contatos e proceder a encaminhamentos 
não-sistemáticos para o acesso a bens sociais na instituição na qual se 
encontra alocado ou em outros órgãos da rede de atendimento. 
 
 
82 
Essa prática é de extrema importância para a instituição, pois 
contribui para aliviar as tensões relacionadas à insuficiência e à precariedade 
do atendimento. 
Na relação que o profissional estabelece com o usuário, na prática 
imediatista, a abordagem é sempre individual, podendo abarcar o 
atendimento/orientação do grupo familiar e a ênfase dá-se com a compreensão 
de que cada caso é um caso. Como as demandas são sempre individualizadas, 
subsumem-se os problemas relacionados aos limites da instituição, da própria 
operacionalização da política social e se encobrem as possibilidades de 
politização das expressões da questão social. As ocorrências tornam-se 
problemas de fórum privado de cada indivíduo, e o assistente social é chamado 
a dar apoio ao usuário, apaziguar e solucionar conflitos, repassar 
mecanicamente os benefícios de que a instituição dispõe, elaborar declarações 
e pareceres sociais, agilizar o atendimento e preencher cadastros e 
formulários para cumprir as determinações burocráticas da instituição. 
 É recorrente no discurso dos profissionais a referência à 
precariedade dos espaços de atendimento destinados ao Serviço Social nas 
instituições. Esse limite reforça o atendimento individual informal, e, em 
decorrência, entre os demais trabalhadores da instituição, os trabalhadores 
que buscam o Serviço Social e os próprios assistentes sociais constrói-se a 
imagem de um profissional quebra-galho. 
 Do atendimento informal, voltado meramente ao emergencial, 
resulta a utilização inadequada dos instrumentais técnico-operativos39 para o 
conhecimento da realidade sócio-econômica e cultural dos usuários, suas 
 
39 Aparentemente tal afirmativa constitui um paradoxo, pois como profissão, que emerge da divisão social e 
técnica do trabalho para executar ações terminais no âmbito das políticas sociais, a instrumentalidade 
apresenta-se como a dimensão mais desenvolvida da profissão, conforme afirma Guerra (1999). A 
instrumentalidade para Guerra (1999, p. 37) não se reduz ao “acervo técnico-instrumental, tampouco aos 
conhecimentos técnicos e habilidades específicas dos sujeitos, mas incorporam padrões de racionalidade 
subjacentes às teorias e métodos pelos quais os agentes apreendem os fenômenos postos na realidade”. 
 
 
83 
condições de vida e as expressões da questão social que os levam a recorrer 
aos serviços sociais, enfim, para desvelar e problematizar a dinâmica, as 
demandas, os limites e as possibilidades de atendimento da instituição e do 
próprio Serviço Social e para subsidiar, fundamentar as propostas e 
estratégias de ação, isto é, o planejamento das atividades de intervenção 
profissional. 
Nessa prática, cada instrumental técnico-operativo tem uma 
finalidade em si-mesmo. As informações obtidas no cadastramento do usuário 
por meio da ficha sócio-econômica ou anamnese e entrevistas ficam esquecidas 
e mais tarde, são encaminhadas para o arquivo morto. O registro das 
atividades dá-se de acordo às exigências normativas da instituição, seguindo a 
burocracia institucional mecanicamente. Os assistentes sociais que se 
organizam em trabalho de plantão comunicam, por meio do registro em livro de 
ocorrência, as atividades desenvolvidas no período para que um outro 
profissional possa lhes dar prosseguimento, não havendo a preocupação em 
acompanhar o processo de atendimento dos trabalhadores que recorreram à 
instituição. A realidade sócio-econômica-política e cultural dos trabalhadores 
fica submersa. 
No atendimento às necessidades sociais da classe trabalhadora, a 
prática imediatista cessa no repasse dos bens assistenciais pontuais, isto é, 
somente aqueles explícitos no ato da demanda. O assistente social assume 
como sua única atribuição o atendimento espontâneo e emergencial. 
Institucionalmente, não há desdobramentos, e os trabalhadores que 
necessitam de um acompanhamento ou atendimento sistemático deixam a 
instituição sem perspectivas de retorno ou de encaminhamento para programas 
que possam dar continuidade ao atendimento. O profissional, no 
desenvolvimento cotidiano dessa prática, isola-se, estabelecendo contatos 
 
 
84 
pontuais com outros assistentes sociais e demais profissionais, e com outras 
instituições. 
Os nexos que essa prática estabelece com as determinações 
sócio-históricas e jurídico-legais são tênues, frágeis, pois a sua valoração 
vincula-se à capacidade de dirimir as tensões sociais. O conteúdo contido 
nessa prática restringe-se ao que é suficiente para o desencadeamento de 
prontas respostas prático-utilitárias. Trata-se de uma prática cuja 
significação aparentemente se encontra nela mesma, em-si. E, quando o 
assistente social, premido pela urgência das coisas e pelo ritmo acelerado do 
cotidiano, estilhaça-se, ele questiona a escolha que fez pela profissão e não a 
coisa em-si. Verifica-se que a forma de objetivação do trabalho dos 
assistentes sociais esvaziou-se de conteúdo e se afastou das atribuições da 
profissão, é um não-ser profissional, mas, certamente, é uma outra coisa. 
Para esses profissionais, prevalece a percepção de que a prática 
desenvolvida no cotidiano profissional se encontra distante dos conteúdos 
filosóficos, econômicos, políticos, sociais e culturais abordados no processo de 
formação ou discutidos em congressos, seminários, debates da categoria pois, 
não encontram aplicação no dia-a-dia. O conhecimento acionado por esse 
profissional é de domínio comum, é o senso comum, mas ele sente que é o único 
instaurador da verdade que anuncia. Sua atitude é dúbia. Descontenta-se com 
a profissão em decorrência do limite ao imediatismo no qual prendeu o seu 
fazer profissional e aceita passivamente as atribuições que a instituição e 
outros profissionais lhe delegam. 
Esse não é um fenômeno recente no interior da profissão. Em 
pesquisa relativa a prática profissional nas instituições campos de estágio, 
realizada em 1980 , Silva, et al.(1980, p. 51) constatam que, em relação à 
instituição, a atitude do assistente social é passiva e acomodatícia: “Os 
depoimentos denotam uma concepção de instituição como algo pronto, acabado, 
 
 
85 
monolítico, unilinear, frente à qual nada ou pouco se pode fazer”. Quanto às 
características da prática que os assistentes sociais desenvolvem, Silva, et al. 
(1980, p. 57) identificam a ausência de um referencial teórico e de uma 
proposta metodológica clara, sobressaindo “uma prática administrativa e 
tarefeira (...), freqüentemente adesista aos objetivos institucionais”. A 
pesquisa detecta que a abordagem da população efetuada pelos assistentes 
sociais é “predominantemente individual, em caráter de plantão para 
atendimento de problemas imediatos” (SILVA et al. 1980, p. 59). Para os 
autores, da predominância da abordagem individual para o atendimento dos 
problemas imediatos resulta o imediatismo vinculado não só ao referencial 
teórico insubsistente, como também à ausência de planejamento de trabalho, 
ou, até mesmo, de linhas gerais orientadoras. 
 Naquele momento particular da história do Serviço Social 
brasileiro − o marco inicial do processo de mudança de orientação das 
diretrizes curriculares na formação profissional − a pesquisa realizada por 
Silva et al. (1980) com os profissionais40 revela a nebulosidade em relação à 
teoria. Os fundamentos a que se referem esses profissionais são aqueles 
orientados pelo currículo do Serviço Social tradicional: 
 
meu referencial teórico é estudo, diagnóstico e 
tratamento; 
 
sabe fazemos um pequeno estudo, com impressão 
diagnóstica; não dá para fazer aquelas coisas direitinhas 
do Serviço Social − estudo, diagnóstico e tratamento 
(apud SILVA et. al., 1980, p. 57) 
 
 
40 Participaram desta pesquisa 36 profissionais , 24 estagiários e 21 professores. 
 
 
86 
Verifica-se, naquele momento, a nebulosidade do referencial 
teórico vinculado ao Serviço Social tradicional, da qual decorre a 
necessidade em considerar a denúncia da não-aplicabilidade dos fundamentos 
teórico-metodológico transmitidos/apreendidos no processo de formação no 
fazer profissional do assistente social, não como um problema vinculado 
exclusivamente à formação profissional atual ou um problema contemporâneo 
da profissão. O imediatismo compreendido como a prática profissional que se 
restringe ao atendimento emergencial, aparentemente descolada de uma 
concepção de mundo e a ausência de planejamento no trabalho são, antes de 
tudo a forma de ser do ser social na esfera da vida cotidiana, no qual, 
aparentemente, prevalece o caos. 
Se a prática imediatista, presa no aqui e no agora da experiência 
cotidiana do profissional, auto-representada e automanifestada como o lugar 
da verdade, que aparentemente surge da experiência do sujeito singular não é 
apenas imediatez, mas se relaciona com o universal, seu significado, sua forma 
e seu conteúdo não podem ser apreendidos em si-mesmos. Em outras palavras, 
a prática profissional do assistente social na imediatez do cotidiano relaciona-
se com o todo, pois se trata de uma prática que mesmo presa no imediato se 
encontra mediatizada (sujeito-objeto) e nela permanece o universal, o todo 
universal que constitui o conteúdo da experiência sensível. 
Iamamoto (2002, p.88) descortinou o caminho que explicita esta 
relação há mais de duas décadas, De acordo com a autora, 
 
para apreender o significado social da prática profissional 
supõe inseri-la no conjunto das condições e relações 
sociais que lhe atribuem um sentido histórico e nas quais 
se torna possível e necessária. O Serviço Social afirma-se 
como um tipo de especialização do trabalho coletivo, ao se 
 
 
87 
constituir em expressão de necessidades sociais 
derivadas da prática histórica das classes sociais no ato 
de produzir e reproduzir seus meios de vida e de trabalho 
de forma socialmente determinada. 
 
O Serviço Social, apreendido em-si mesmo, de forma endógena, 
não explica o assistencialismo e o imediatismo. Tais facetas, quando presentes 
no fazer profissional, aparecem sobrepondo-se ao significado real da profissão 
e enfatizam a forma, em detrimento do conteúdo. O significado e o sentido 
histórico das práticas sociais que assumem essas características somente 
podem ser apreendidos no todo, no modo de ser da sociedade. 
Assistencialismo e imediatismo são formas de manifestações da 
prática profissional que qualificam um modo de fazer que se encontra preso à 
certeza sensível, no qual o saber imediato, para um segmento profissional, é 
simples e exclusivo. Esse modo de fazer é uma propriedade do modo de ser do 
ser social que se propaga por meio de práticas sociais que não apreendem a 
negação constitutiva do aqui e do agora, porque se circunscrevem à certeza 
sensível. As condições econômico-sociais e político-culturais para a propagação 
dessas práticas tanto são produzidas pelo modo de ser da sociedade 
capitalista como são necessárias. A consciência alojada na aparência prende o 
conhecimento no reino da experiência diária, na imediatez dos sentidos, 
significando que não há o supra-sumir para outro nível de compreensão. 
Prevalece o sentimento em relação ao mundo e não uma concepção de mundo. 
No entanto, o imediato do saber decorrente da análise da 
experiência cotidiana não pode ser descartado, porque é a imediatez que é o 
ser. Hegel (2001, p. 29) esclarece: 
 
 
 
88 
Segundo minha concepção − que só deve ser justificado 
pela apresentação do próprio sistema −, tudo decorre de 
entender e exprimir o verdadeiro não como substância, 
mas também, precisamente, como sujeito. Ao mesmo 
tempo, deve-se observar que a substancialidade inclui em 
si não só o universal ou a imediatez do saber mesmo, mas 
também aquela imediatez que é o ser, ou a imediatez para 
o saber. 
 
As antinomias do pensamento de Hegel (2001) e de sua ontologia 
idealista serão discutidas no terceiro capítulo − o ser e a essência derivados 
do conceito para o qual o verdadeiro é a substância e o sujeito de forma 
identidária. Por enquanto, importa destacar que o fim não está na imediatez do 
ser, na forma imediata como esse ser aparece e, ao mesmo tempo, esse 
imediato não pode ser abandonado. Para Hegel (2001), essa premissa é válida 
para o pensamento, porque a atividade reconhecida por ele é a atividade da 
consciência. Nesse pensamento, a idéia coloca a realidade, e para o autor, essa 
é uma premissa da atividade prático-social, pressupondo-se o movimento, a 
dialética. 
O sistema hegeliano revela a experiência da consciência no 
caminho que percorre para a ciência, cuja razão de existir, para Hegel (2001, 
p. 61) está situada “no automovimento do conceito”. Segundo Lukács (1979, p. 
76-77) Hegel quer demonstrar 
 
como as diversas fases, categorias, etc., do pensamento 
humano surgem na consciência dos homens, ao mesmo 
tempo como produtores e instrumentos da dominação 
ideal e prática da realidade, paralelamente ao 
desenvolvimento peculiar dessa mesma realidade; como o 
 
 
89 
fracasso parcial ou total da consciência em cada fase 
conduz à explicitação de um modo cognoscitivo melhor 
adequando à verdadeira essência da realidade, até que se 
verifique uma verdadeira apropriação da realidade pelo 
sujeito. 
 
De acordo com Hegel (2001), a consciência dos homens surge e 
se desenvolve paralelamente ao desenvolvimento do mundo objetivo. A 
experiência advinda da certeza sensível demonstra que a verdade não está 
no objeto singular e nem no indivíduo particular, pois, nessa relação, o aqui e 
o agora imediatos apontados são desalojados do senso comum, negam-se 
mutuamente na mediação que estabelecem com o universal. A certeza 
sensível exclui de si toda oposição e, por isso, ela não suporta nenhuma 
diferença. 
No entanto, quando se apontam esse aqui e esse agora, eles jádeixaram de ser, não são “um simples imediato, e sim um movimento que 
contém momentos diversos. Põe-se este, mas é um Outro que é posto, ou seja, 
o este é suprassumido” (HEGEL, 2001, p. 79). Trata-se de um movimento no 
qual a verdade resulta de um duplo processo de negação, como se viu 
anteriormente. Hegel (2001) indica nesse movimento o supra-sumir de uma 
verdade na outra. Ele diz que, ao indicar o agora como verdadeiro, ele já foi 
supra-sumido. Ao afirmor, como segunda verdade, o que esse agora foi, ela já 
está supra-sumida. Porém, diz Hegel (2001, p. 80), o que foi não é, e retorna à 
primeira afirmação: 
 
No entanto, esse primeiro refletido em si mesmo não é 
exatamente o mesmo que era de início, a saber, um 
imediato; ao contrário, é propriamente algo em si 
 
 
90 
refletido ou um simples, que permanece no ser-Outro o 
que ele é: um agora que é absolutamente muitos 
agoras. 
 
Faz-se necessário despender esforços para apreender esse 
movimento na experiência da consciência sensível que não descarta o imediato 
mas o supra-sume, negando-o e o conservando ao mesmo tempo. Nas palavras 
de Hegel (2001, p. 84), 
 
suprassumir apresenta sua dupla significação verdadeira 
que vimos no negativo: é ao mesmo tempo um negar e um 
conservar. O nada, como nada disto, conserva a imediatez 
e é, ele próprio sensível; porém é uma imediatez universal. 
 
A certeza sensível, ao dar-se conta de que a sua verdade é o 
universal e que, sem essa mediação, ela não pode captar o aqui e o agora, 
ela caminha para uma outra dimensão, negando e, ao mesmo tempo, 
conservando o imediato. Verifica-se na processualidade do pensamento 
que busca captar a verdade que o imediato é constitutivo e constituinte 
do movimento dialético. Como o desenvolvimento desse movimento da 
consciência está interligado ao desenvolvimento do mundo objetivo, o 
imediato tampouco pode ser descartado da substância, do ser. O modo de 
aparição imediato do mundo objetivo constitui um elemento da esfera da 
vida cotidiana. No entanto, é dessa dimensão do imediato que pode 
ocorrer a supra-sunção para outros níveis de consciência e de práticas 
sociais. 
 
 
 
 
91 
1.5 A percepção e a prática profissional do assistente social 
 
 A verdade, o conteúdo real da certeza sensível, é o universal. 
Como o que ela quer captar é o aqui e o agora, cujo conhecimento é revelado 
naquilo que permanece, algo que é universal, a experiência da consciência, no 
caminho para conhecer a verdade, remete-se à percepção sensível. Assinala 
Hegel (2001, p. 83): 
 
A certeza sensível não se apossa do verdadeiro, já que a 
verdade dela é o universal, mas a certeza sensível quer 
captar o isto. A percepção, ao contrário, toma como 
universal o que para ela [a certeza sensível] é o essente [o 
saber do imediato]. Como a universalidade é seu princípio 
em geral, assim também são universais seus momentos, 
que nela se distinguem imediatamente: o Eu é um 
universal, e o objeto é um universal. 
 
O princípio da percepção, diferentemente da certeza sensível, é o 
universal. “Os objetos da percepção são coisas (Dinge), e as coisas não se 
alteram com as mudanças do Aqui e Agora”, afirma Marcuse (2004, p. 101). O 
princípio da universalidade emerge da indagação da certeza sensível, resulta 
da destruição do senso comum, da experiência universal, da simplicidade 
mediatizada. Por isso, Hegel (2002, p. 83) diz que o apreender da percepção 
“não é mais um apreender aparente [fenomenal], como o da certeza sensível, 
mas um apreender necessário”. 
 A essência da percepção é a universalidade tanto do objeto 
quanto do sujeito. O objeto necessita de exprimir a sua simplicidade 
mediatizada como a sua natureza e, para tanto, mostra-se como uma coisa de 
 
 
92 
muitas propriedades, apreendidas pela percepção que contém, segundo Hegel 
(2001, p. 84), “a negação, a diferença ou a múltipla variedade em sua essência”, 
isto é, a coisa, o objeto, é aprendido segundo as propriedades que contém ao 
relacionar-se consigo mesma. 
Quando o aqui e o agora são captados pela percepção, ele já se 
encontra supra-sumido, é um determinado, tem um conteúdo que é universal. 
Ao apreender o movimento da experiência da consciência em busca da verdade, 
Hegel (2001) demarca as aproximações e as diferenças entre a percepção e a 
certeza sensível41, demonstrando a presença da mediação e da negação no ser 
que capta e exprime na imediatez da simplicidade do universal as 
determinidades, as propriedades da coisa que “relacionam-se consigo mesmo, 
são indiferentes umas às outras: cada uma é para si, livre da outra” (p. 84). 
Elas interpenetram-se sem se tocarem porque tais determinidades são 
indiferentes para si, apesar de participarem da universalidade de uma unidade 
simples, são coisas − “um conjunto simples de muitos” (p. 85). Para explicitar 
como as determinidades expressam-se na simplicidade do universal, Hegel 
(2001, p. 85) exemplifica: 
 
Este sal é um aqui simples, e ao mesmo tempo múltiplo; é 
branco e também picante, também é cubiforme, também 
tem peso determinado etc. Todas essas propriedades 
múltiplas estão num aqui simples no qual assim se 
interpenetram: nenhuma tem um aqui diverso do da outra, 
pois cada uma está sempre onde a outra está. Igualmente, 
 
41 “Pertence à percepção a riqueza do saber sensível, e não à certeza imediata, na qual só estava presente 
como algo em-jogo-ao-lado”(...). Assim, o isto é posto como não isto, ou como suprassumido; e portanto, não 
como nada, e sim como um nada determinado, ou um nada de um conteúdo, isto é, um nada disto. Em 
conseqüência ainda está presente o sensível mesmo, mas não como devia estar na certeza imediata − como 
um singular visado −, e sim como universal, ou como o que será determinado como propriedade”, declara 
Hegel (2001, p. 84). 
 
 
93 
sem que estejam separadas por aquis diversos, não se 
afetam mutuamente por essa interpenetração. 
 
As propriedades da coisa − branco, picante, cubiforme − são 
universais, o meio geral pelo qual o objeto aparece. Trata-se do puro 
universal que engloba todas essas propriedades que, inicialmente, parecem 
emergir somente do caráter positivo da universalidade. Mas, essas 
propriedades do objeto somente são determinadas porque se relacionam e se 
diferenciam com outras como opostos, excluindo outras propriedades que 
contradizem o ser do objeto. O sal não é doce e nem vermelho ou preto. As 
propriedades determinantes do objeto excluem e negam outras 
propriedades, diferenciando esse objeto dos demais, por isso, ele é Uno, uma 
unidade excludente. Afirma Hegel (2001, p. 85): 
 
O Uno é o momento da negação tal como ele mesmo, de 
uma maneira simples, se relaciona consigo e exclui o 
Outro; e mediante isso, a coisidade é determinada como 
coisa. Na propriedade, a negação está como 
determinidade, que é imediatamente um só com a 
imediatez do ser − o qual, por essa unidade com a negação, 
é a universalidade. A negação, porém, é como Uno, quando 
se liberta dessa unidade com seu contrário, e é em si e 
para si mesma. 
 
Na percepção, a verdade de início é apreendida por meio do 
objeto, assim como na certeza sensível. Mas, a experiência da consciência é 
movimento. Quando a consciência precisa captar o que o objeto realmente é, 
nos momentos no qual a coisa está completa, como o verdadeiro da percepção, 
 
 
94 
surgem as contradições, as possibilidades de incorreções no perceber do 
objeto. Hegel (2001, p. 86) explica: 
 
A consciência percebente é cônscia da possibilidade da 
ilusão, pois na universalidade, que é [seu] princípio, o ser-
Outro é para ela, imediatamente: mas enquanto nada, 
[como] suprassumido. Portanto seu critério de verdade é a 
igualdade consigo-mesmo, e seu procedimento é apreender 
o que é igual a si mesmo. 
 
As contradições desenvolvem valendo-se domovimento da 
consciência para apreender o objeto que se apresenta como Uno, mas suas 
propriedades são universais. As propriedades do objeto são universais, mas o 
primeiro ser da essência objetiva-se como Uno. Surge, nas palavras de Hegel 
(2001, p. 87), a desigualdade, a inverdade: “Devido à universalidade da 
propriedade, devo tomar a essência objetiva antes como uma comunidade em 
geral”. A implicação desse movimento é que a consciência percebe que a 
verdade não está no objeto, mas na oposição da propriedade determinada em 
relação ao Outro excluído. Esta oposição é estabelecida pelo sujeito − o que o 
ser percebe não é um meio universal, mas a propriedade singular em-si. Mas, as 
contradições novamente vêm à tona, uma vez que “a propriedade singular para 
si nem é propriedade nem um ser determinado, pois não está nem em um Uno, 
nem em relação com outras”, afirma Hegel (2001, p. 87). 
Adentra-se um círculo no qual a consciência é remetida ao ponto 
inicial, na certeza sensível, e o essencial passa novamente para o objeto. Hegel 
(2001) diz que esse retorno não ocorre do mesmo modo, uma vez que a 
consciência se torna cônscia de sua reflexão sobre-si, separando-se da simples 
apreensão. O autor esclarece: 
 
 
95 
Assim primeiro me dou conta da coisa como Uno e tenho 
de mantê-la nessa determinação verdadeira; se algo lhe 
ocorrer de contraditório no movimento do perceber, isso 
deve ser reconhecido como reflexão minha. Agora surgem 
na percepção também diversas propriedades − 
propriedades essas que parecem ser da coisa. Só que a 
coisa é Uno, e estamos conscientes que recai em nós essa 
diversidade pela qual a coisa deixa de ser Uno (HEGEL, 
2001, p. 88). 
 
A diversidade das propriedades contidas na coisa é atribuída pelo 
sujeito, sobre o qual incidem diversos Outros que são estabelecidos por 
comparação, por associação. Hegel (2001, p. 88) expõe: “somos assim o meio 
universal onde esses momentos se separam e são para si”. Para o sujeito, a 
verdade da coisa é ser Uno, mas ela somente é para si porque se opõe às 
outras, em decorrência de suas determinidades. No movimento da consciência 
de apreender a coisa em si e para si, Hegel (2001) demonstra que a coisa, 
também, é o meio universal no qual as propriedades subsistem, fora uma da 
outra, sem se tocarem, sem se supra-sumirem. A verdade recai novamente no 
objeto. Nesse perceber a consciência reflete sobre si mesma e eleva a coisa a 
matérias independentes. E, nas tentativas de a percepção estabelecer a 
verdade do objeto, emergem novas contradições, pois o ser é unidade e 
multiplicidade ao mesmo tempo. Verifica-se, assim, que o princípio da 
percepção é a universalidade, mas o seu conteúdo verdadeiro é a contradição. 
A coisa é um ser diverso mas é também Uno. O ser Uno contradiz 
a sua diversidade. A coisa é constituída por múltipla variedade, e dela não pode 
separar-se, mas isso não é o essencial, uma vez que ela é em oposição a outras 
coisas, e em oposição a outras, ela somente é em decorrência de suas 
 
 
96 
determinidades. Hegel (2001) apreende esse duplo aspecto da percepção em 
seu caminho para determinar o que o objeto realmente é, e como as 
contradições são inevitáveis. “A coisa é em si mesma unidade e diferença, 
unidade na diferença”, observa Marcuse (2004, p. 102). 
Nesse desenho circular no qual se movimenta a consciência42, 
Hegel (2001) deixa transparecer que a percepção cai em uma armadilha. No 
entanto, a dialética − este jogo de supra-sunção − retira a percepção da 
sofistaria no qual ela se coloca em decorrência, segundo Hegel (2001), de sua 
universalidade originar-se do ser sensível e se encontrar por ele condicionada, 
estabelecendo a unidade com o seu oposto. Trata-se agora de uma 
“universalidade afetada de um oposto; a qual se separa, por esse motivo, nos 
extremos da singularidade e da universalidade, do Uno das propriedades e do 
também das matérias livres”, afirma Hegel (2001, p. 92). Para a consciência 
iludida, essas determinidades, “parecem exprimir a essencialidade mesma, mas 
são apenas um ser-para-si que está onerado de um ser para Outro” (HEGEL, 
2001, p. 92). 
Ao buscar apreender o conteúdo real do objeto, a percepção dá-
se conta de que a unidade se constitui da diversidade de relações com seus 
opostos, desvanecendo a singularidade sensível, pois não se trata somente de 
um ser para-si. A essência do ser está na relação que ele auto-estabelece com 
as outras coisas. Essa essência encontra-se presente na unidade absoluta 
incondicionada, ou unidade na diferença, mas como se demonstrou, a percepção 
não apreende a relação que o objeto estabelece com outras coisas e, segundo 
 
42 Hegel (2001, p. 94) assinala que esse percurso é “uma alternância perpétua entre o 
determinar do verdadeiro e o suprassumir desse determinar, constitui a rigor a vida e a 
labuta, cotidianas e permanentes, da consciência que percebe e acredita mover-se dentro da 
verdade. Ela procede sem descanso para o resultado do mesmo suprassumir de todas essas 
essencialidades ou determinações essenciais. Porém, em cada momento singular, só está 
consciente desta única determinidade como sendo o verdadeiro, logo faz o mesmo com a 
oposta”. 
 
 
 
97 
Hegel (2001, p. 92), “a consciência entra de verdade no reino do 
entendimento”. 
Nesse movimento da consciência, verifica-se, por meio da 
percepção, que o ser em-si é em oposição ao ser-outro, mas ela não apreende o 
conteúdo verdadeiro dessa relação, porque as contradições não se 
desenvolvem para além da coisa em si. Na história da filosofia, encontram-se 
presentes pensamentos que decorrem da percepção e a tomam como se fosse a 
razão. Na percepção, a relação entre sujeito e objeto é marcadamente 
determinada pelo alcance da experiência intuitiva do sujeito, posto que ele é o 
meio universal que atribui propriedades à coisa e, em conseqüência, o 
conhecimento pode ser tomado como decorrente da vivência do sujeito. 
A experiência da consciência, ao atingir a percepção, apreende o 
objeto em-si, pela sua simplicidade mediatizada, de suas diferentes 
propriedades que se relacionam consigo mesmos. Qual a forma e o conteúdo da 
prática profissional do assistente social guiada pela percepção? Essa análise, 
faz-se necessário advertir, inicialmente, somente é possível porque a prática 
profissional é tomada em sua singularidade, em si-mesma, de forma endógena. 
Ainda que o seu princípio seja o universal, a consciência mantida na percepção 
busca um repouso na apreensão das diferentes propriedades da coisa em-si, 
apreende a negação com base nas propriedades que guardam a autonomia entre 
si, não se relaciona com as outras coisas. Ela está retida na aparência, mas 
contém a negação, a diferença e a múltipla variedade em sua essência, e o que 
dali emerge para a consciência é considerado verdadeiro. Porém, o seu critério 
de verdade é a igualdade consigo mesmo. A consciência, além de perceber, é 
cônscia de sua reflexão sobre-si, e este é o passo adiante construído em 
relação à certeza sensível. 
 Como se verificou na análise do processo histórico de 
constituição da profissão, o seu foco é a intervenção. Em sua emergência, a 
 
 
98 
formação profissional objetivava dotar o fazer profissional de princípios 
doutrinários, o alicerce dos valores éticos e morais adequados e necessários à 
convivência social no âmbito da sociedade capitalista. Cada situação com a qual 
o profissional se deparava era captada pela sua simplicidade mediatizada, em 
sua imediatez. O fazer profissional pressupunha a identificação de problemas 
sociais e morais vivenciados por um indivíduo e o seu núcleo familiar, sempre 
apreendido como Uno. 
 O profissional possui o conhecimento para discernir as 
problemáticas vividas pelo indivíduo e sua família, isto é, identificar as 
carências. Tal identificação, ou o diagnóstico, dá-semediante a negação da 
situação considerada adequada: carência alimentar em negação à alimentação 
satisfatória, falta de moradia em contraposição à moradia, etc. Essa negação 
remete à universalidade, ao mesmo tempo em que é Uno. Entretanto, todo o 
cuidado é necessário para que o agente profissional não apareça simplesmente 
como um fantoche manipulado por um ser invisível que estabelece o adequado, 
ou que não apareça como instituidor da verdade, aquele que manipula. 
Segundo Netto (2001, p. 89), a afirmação e o estatuto 
profissional ocorrem por meio de um duplo dinamismo: 
 
de uma parte aquele que é deflagrado pelas demandas que 
lhe são socialmente colocadas; de outra, aquele que é 
viabilizado pelas suas reservas próprias de forças 
(teóricas e prático-sociais), aptas ou não para responder 
às requisições extrínsecas − e este é, enfim, o campo em 
que incide o seu sistema de saber. 
 
O obscurecimento desse duplo dinamismo conduziu à percepção da 
auto-imagem da profissão construída pela distinção entre o estatuto teórico e 
 
 
99 
o prático-profissional, afirma Netto (2001). O eixo de demandas histórico-
sociais que se apresentavam como universo problemático original para o 
Serviço Social foram as seqüelas da questão social. Ao tornar-se objeto de 
intervenção contínua e sistemática do Estado, tendo em vista o novo 
reordenamento econômico e político para assegurar a expansão e a acumulação 
do capital monopolista, a questão social foi fragmentada, e suas expressões 
tomadas como problemáticas particulares. Netto (2001) analisa os nexos 
causais entre essa dinâmica no processo de constituição do monopólio e das 
transformações que ela implicou no papel e na funcionalidade do Estado 
burguês e o desenvolvimento do Serviço Social como profissão, seu núcleo 
organizativo e sua norma de atuação. 
 As seqüelas da questão social foram recortadas e apreendidas 
como problemáticas particulares pelo pensamento e pela ideologia burguesa, 
aparecendo como problemas sociais e as respostas a elas também foram 
fragmentadas. Com essa conversão, os problemas sociais transfiguram-se em 
problemas pessoais. A dinâmica e a lógica operada remete à relação entre o 
publico e o privado, e se conecta, segundo Netto (2001), ao giro43 que a 
organização monopólica da sociedade burguesa conferiu ao enfrentamento das 
refrações da questão social e deriva da contínua, sistemática e estratégica 
intervenção estatal sobre elas. 
Neste contexto, a refuncionalização do Estado não abandona o 
individualismo da tradição liberal. A estratégia de implementação de políticas 
sociais públicas na fase dos monopólios para o enfrentamento das seqüelas da 
questão social, visando criar condições sociais para o desenvolvimento do 
indivíduo, não retira a sua responsabilidade sobre o seu destino. Ao contrário, 
 
43 Conforme Netto (2001, p. 34-35), no movimento que determinou este giro, “confluíram quer as exigências 
econômico-sociais próprias da idade do monopólio, quer o pratagonismo político-social das camadas 
trabalhadoras, especialmente o processo de lutas e de auto-organização da classe operária; mas intercorreu 
também, com significativa ponderação, o novo dinamismo político e cultural que passou a permear a 
sociedade burguesa com as crescentes diferenciações no interior da estrutura de classes”. 
 
 
100 
o princípio da oportunidade dada a todos, cabendo a cada um o aproveitamento 
das possibilidades que podem ser acessadas, tanto se acentua e se legitima na 
organização monopólica, pelo viés da psicologização da vida social, como 
estabelece um relacionamento personalizado entre o indivíduo e as 
instituições. Conforme Netto (2001, p. 42), tais estratégias não solucionam as 
refrações da questão social que afetam o indivíduo, mas 
 
são suficientemente lábeis para entrelaçar, nos serviços 
que oferecem e executam, desde a indução 
comportamental até os conteúdos econômico-sociais mais 
salientes da ordem monopólica − num exercício que se 
constitui em verdadeira pedagogia psicossocial, voltada 
para sincronizar as impulsões individuais e os papéis 
sociais propiciados aos protagonistas. 
 
O exercício profissional do assistente social, movendo-se de 
acordo com essa lógica, sem o suporte de um referencial teórico-crítico-
dialético, fragmenta-se, parcializa-se, prende-se às expressões fenomênicas 
do ser social e uma de suas formas de manifestação é aquela cuja consciência 
atém-se à percepção. Quando o movimento da consciência freia-se nessa 
dimensão, o assistente social vincula o seu fazer profissional sempre a um 
objeto em-si. Ele detecta a problemática com a qual trabalha como Uno. Tal 
problemática é apresentada por um indivíduo que a vivencia, e, como a suas 
reservas próprias de força (teóricas e prático-sociais) não se encontram aptas 
para responder às requisições extrínsecas, a sua consciência interrompe o seu 
curso e passa a manipular a problemática sempre com o mesmo conteúdo. A 
satisfação buscada pela consciência encontra repouso quando atinge o já 
 
 
101 
conhecido, ou o aceitável, considerado socialmente necessário pelo pensamento 
e ideologia hegemônica que norteiam esse fazer. E essa é a questão. 
 Para o assistente social, cuja prática se guia pela percepção, o seu 
fazer profissional ou aparece como algo estabelecido de fora, ou aparece como 
resultado de sua experiência e capacidade de manipular as informações 
transmitidas pelo indivíduo que recorre ao Serviço Social. Na primeira 
situação, ele se sente manipulado, mas a sua consciência encontra um ponto de 
repouso que justifica o seu fazer. Na segunda, ele manipula, por meio de sua 
experiência, a situação e, ao sentir-se como o instituidor da verdade, porque 
ele é um meio universal, procura remeter o indivíduo que busca o Serviço 
Social para o mesmo jogo de satisfação, e o usuário é levado a reconhecer a 
sua problemática e, por meio de suas forças, revertê-la com o reconhecimento 
das oportunidades que estão dadas. 
O problema social sempre é apreendido em sua simplicidade 
mediatizada, como uma coisa de muitas propriedades e se relaciona consigo 
mesmo. Trata-se da singularidade que contém a universalidade de uma unidade 
simples. No Serviço Social tradicional, a utilização do método de caso explicita 
como uma determinada situação vivenciada por um indivíduo é problematizada 
pelo assistente social. O indivíduo torna-se o problema, pois nele se encontram 
evidenciadas as múltiplas propriedades que caracterizam a carência: o 
desemprego, a analfabetismo, a doença, a ignorância, a fraqueza, etc. O 
indivíduo vivencia os problemas sociais, mas eles, não são tomados em sua 
totalidade. Apesar de um mesmo indivíduo viver as diversas problemáticas 
sociais ou carências , uma não afeta a outra, elas não se entrecruzam. O 
tratamento dado aos problemas sociais vivenciados pelo indivíduo segue esta 
premissa, e, em decorrência, o encaminhamento torna-se a principal estratégia 
de ação, o procedimento mais utilizado. 
 
 
102 
A realidade vivida pelo indivíduo é problematizada segundo a sua 
personalidade. Richmond (apud SILVA, 2004, p. 84) assinala: 
 
Sociabilidade e individualidade, constituem os dois 
aspectos de uma realidade, que é a personalidade − um 
valor final − única coisa no mundo, que vale a pena ter por 
si mesma. Naturalmente, não queremos dizer que qualquer 
personalidade seja boa em si, mas sim que afora a 
personalidade, nada é bom em si mesmo. A sociedade é 
melhor ordenada, quando melhor desenvolve a 
personalidade de seus membros”. 
 
Silva (2004) afirma que o campo específico do serviço social de 
caso é o desenvolvimento da personalidade, o que a leva a indagar se haveria 
um rompimento entre a proposição de Mary Richmond e a ciência positiva. 
Estaria Richmond aproximando-se do terceiro caminho44 da filosofia44 Para Lukács (1979), o terceiro caminho é a filosofia do imperialismo, que se afasta cada vez mais dos 
problemas econômicos, sociais e políticos da sociedade capitalista. Esta vertente teórica do pensamento da 
burguesia estabelece a crítica à idéia do progresso com base na cultura e na moral individual, ocorrendo uma 
luta contra o formalismo na teoria do conhecimento. A intuição torna-se o instrumento novo de 
conhecimento ( Lukács, 1972). Nesse período, que tem como marco a ascensão do fascismo, a filosofia 
burguesa, revestida de uma pretensa pseudo-objetividade, propõe salvar a integridade do ser humano 
preconizando “a existência voltada para si mesma, isolada de toda vida pública e cujo equilíbrio repousa 
precisamente num pessimismo total a respeito do mundo exterior” ( LUKÁCS, 1972, p. 44). A pseudo-
objetividade da teoria do conhecimento reconhece a existência independente da consciência e nega a 
inteligibilidade da realidade objetiva. Para a ideologia do terceiro caminho nem o capitalismo e nem o 
socialismo correspondiam às aspirações da humanidade. Segundo Lukács (1972), a missão social da filosofia 
imperialista consistia em impedir a possibilidade de uma saída socialista para a profunda crise econômica, 
política e social da sociedade capitalista naquele período, o método fenomenológico ganhou evidência no 
pensamento burguês com influência sobre o existencialismo, no qual a intuição é a fonte de todo 
conhecimento verdadeiro, “capaz de apreender a essência da realidade objetiva, sem no entanto ultrapassar a 
consciência humana, mesmo a individual” (LUKÁCS, 1972, p. 70). A intuição que deriva do saber imediato 
é tomada como o novo instrumento que conduz ao conhecimento. Lukács (1972) indaga se esse método é 
capaz de apreender a realidade objetiva? Ele não é em si mesmo subjetivo e arbitrário por sua natureza? Em 
resposta a essas indagações, Lukács (1972, p. 70) afirma que a “aplicação rigorosa desse método mostra-nos 
que o conhecimento da realidade é simplesmente inaccessível à fenomenologia”. Na fenomenologia, a 
introspecção intuitiva tem como ponto de partida os dados imediatos da experiência vivida e considera as 
condições sociais como dados secundários que quase não afetam a “essência da realidade humana”, 
determinada pela consciência individual. A realidade objetiva que existe fora da consciência é colocada entre 
parênteses. 
 
 
103 
imperialista, no qual a intuição, derivada da percepção sensível, tornou-se a 
fonte de todo o conhecimento? 
As evidências dos princípios e procedimentos que conformam o 
método de caso conduzem a uma resposta afirmativa. Conforme Silva (2004), a 
preocupação de Mary Richmond, em 1922, além da organização do estudo de 
caso, voltava-se para a preocupação com a classe de fenômenos que são 
apreendidos no interior de seu processo e ela os agrupou em dois títulos: 
insights e ações. Os insights esclarecem, segundo Silva (2004, p. 91), “de 
maneira singular a relação entre a qualidade do objeto específico − relações 
sociais do indivíduo e sua readaptação − e sua estrutura como conhecimento 
científico ou objeto da ciência”. A ações subdividem-se em operações diretas 
(mente a mente) e indireta (meio social), Conforme Silva (2004, p. 91-92), 
 
as ações diretas compreendem diferentes aspectos de 
tratamento, indo desde a prestação de serviços, às vezes 
muitos humildes, acompanhando os clientes em situações 
de vida difíceis, mantendo uma franqueza mútua de 
relações, a palavra dada, a paciência nascida da 
compreensão, até a política do apoio, advertências e 
estabelecimento de uma disciplina real, flexibilidade e 
perseverança . 
 
As ações indiretas referem-se à utilização dos recursos do meio 
que o assistente social acessa, pessoas e instituições, para atender aos 
objetivos propostos. A análise de Silva (2004) sintetiza o método e o qualifica 
como um método rigoroso de compreensão, no qual se conhece agindo e age 
conhecendo. 
 
 
104 
 Pode-se afirmar que os insigths derivam da intuição que se aloja 
na percepção. Uma das correntes filosóficas que apreende a realidade por 
meio da intuição é a fenomenologia de Edmund Husserl45(1859-1838). O 
Serviço Social brasileiro aproximou-se dessa corrente de pensamento em 
meados da década de 1970, e o seu marco de expressão de suas proposições 
são os documentos sínteses do Seminário de Sumaré e de Alto da Boa Vista, 
realizados respectivamente nos anos de 1978 e 1984, e organizados pelo 
Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviço Social (CBCISS). 
Netto (1996) identifica essa tendência no interior do Serviço 
Social brasileiro como reatualização do conservadorismo. Os assistentes 
sociais vinculados a essa tendência estabelecem a critica a herança positivista 
e marxista e concebem o Serviço Social como uma intervenção que se inscreve 
rigorosamente nas fronteiras da ajuda psicossocial. A intervenção centraliza-
se nas dinâmicas individuais, as determinações de classe nos processos sociais 
são dissolvidas e ela se sustenta em uma tríade conceitual: diálogo, pessoa e 
transformação. Resume-se a uma interação ativamente compartilhada por dois 
atores, o profissional e o cliente que 
 
se debruçam sobre uma situação qualquer (os problemas 
percebidos pelo cliente) para, tomando como pondo 
arquimédicos os sujeitos em presença e mobilizando 
conhecimentos de várias ordens, ampliar e inovar a visão 
da situação e identificar e escolher uma forma de 
posicionar-se (NETTO, 1996, p. 244). 
 
 
45 “Segundo Husserl, os objetos se definem precisamente como correlatos dos estados mentais , não havendo 
distinção possível entre aquilo que é percebido e nossa percepção. A experiência inclui, entretanto, não só a 
percepção sensorial, mas todo o objeto do pensamento”, afirmam Japiassú e Marcondes, 2006, p. 137). 
 
 
105 
O assistente social é um sujeito que percebe, um sujeito no 
mundo, que, por meio da percepção, busca deixar transparecer a situação 
existência problematizada. As ações profissionais são desencadeadas para 
solucionar problemas suscitados pelo indivíduo cliente, segundo os seus traços 
típicos, isto é, como ele vivencia determinada situação − como uma 
enfermidade (Aids, neoplasia maligna) ou um fenômeno em si-mesmo 
(internação hospitalar, luto, etc). O assistente social, por meio do diálogo, 
estimula a participação do indivíduo cliente para transformar a situação 
problematizada. O instrumento de ação privilegiado é o diálogo, o instrumental 
técnico utilizado é a entrevista, e o registro do diálogo estabelecido. O 
registro detalha as reações do indivíduo cliente em relação à situação 
existência problematizada (aspereza, indignação, violência física, resignação, 
ect) a cada encontro com o profissional, isto é, registra-se como o indivíduo 
com a situação existencial problematizada se comporta e transforma a sua 
personalidade. 
À medida que o diálogo se desenvolve, o assistente social 
desencadeia as ações necessárias para a resolução de problemáticas vinculadas 
ao meio social que afeta o indivíduo em sua situação existencial 
problematizada, como por exemplo, uma entrevista com o médico para elucidar 
as fases do tratamento, o apoio financeiro e material quando necessário 
(transporte, alimentação dos acompanhantes de paciente, aquisição de 
medicamentos), a orientação familiar, alterações no horário de visitação nas 
instituições, autorização para a permanência contínua de acompanhante, etc... 
O assistente social, por meio de sua prática profissional, é 
convidado a retornar às coisas mesmas, ao mundo anterior à reflexão e as 
ações emergem do diálogo estabelecido com o indivíduo a fim de deixar 
transparecer a situação existencial problematizada. Dentre as comunicações 
orais apresentadas no XI CBAS (2004), aquelas que apreendem o fazer 
 
 
106 
profissional conforme a problemática existencialdo indivíduo, as discussões 
são remetidas para a questão da subjetividade dos sujeitos sociais (o indivíduo 
atendido nas instituições), como a humanização dos serviços prestados pelas 
instituições à população, os instrumentais técnicos ou as novas tecnologias 
procedimentais que aperfeiçoam as condições para o diálogo entre o assistente 
social e o indivíduo cliente e a acolhida46. Nas abordagens que privilegiam e 
valorizam unicamente a melhoria das relações pessoais e interpessoais por 
meio de técnicas psicosociais, o problema tende a tornar-se procedimental, 
pois os antagonismos de ordem estrutural ficam obscurecidos. 
A percepção não apreende a relação que o objeto estabelece com 
as outras coisas. Quando a consciência busca aprender a relação entre as 
coisas em-si, ela entra no reino do entendimento, ou na intelecção, ou na razão 
formal-abstrata. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
46 Características da prática profissional identificas nas comunicações orais apresentadas por Debastiani e 
Lopes (2004); Lima (2004), Terra (2004) e Valente (2004). 
 
 
107 
CAPÍTULO II - O REINO DO ENTENDIMENTO E A PRÁTICA 
 PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL 
 
Ora, um dos traços específicos do ser social é 
precisamente o fato de que a consciência não é 
simplesmente consciência de algo que, no plano 
ontológico, resta inteiramente indiferente ao fato de 
ser conhecido; ao contrário, a presença ou a ausência de 
consciência, sua justeza ou falsidade, são partes 
integrante do próprio ser, ou seja, a consciência não é 
aqui − em sentido ontológico − um mero epifenômeno, 
mesmo deixando de lado o fato de seu papel concreto 
em cada caso singular ser relevante ou irrelevante 
(LUKÁCS, 1979, p. 73-74). 
 
A década de 1960 é marcada pela crise do Serviço Social 
“tradicional” no continente latino-americano e, nesse contexto histórico e 
sócio-político-geográfico, inicia-se processo de renovação do Serviço Social 
brasileiro. Na base desse processo, encontrava-se a crítica aos fundamentos 
teórico-metodológicos e ideológicos que alicerçavam o Serviço Social 
tradicional e as condições de vida objetivas e subjetivas da classe 
trabalhadora no continente latino-americano, sua organização política e lutas 
reivindicatórias. 
Apesar de todas as dificuldades advindas de um longo período 
marcado pela ditadura militar, instaurado com o golpe de abril de 1964, 
segmentos do Serviço Social brasileiro, nas décadas seguintes, buscaram a 
superação do assistencialismo, do filantropismo e do endogenismo com ao quais 
desenvolvia sua prática. Ainda que tais concepções e características possam 
ser encontradas no modus de operar do Serviço Social no atual contexto, 
obviamente a presença de um posicionamento crítico pôs o debate em outro 
 
 
108 
patamar e balizou o significado das mudanças ocorridas na forma de conceber 
a profissão e o seu processo de objetivação. 
 Ao reconstituir o processo histórico das relações entre a 
autocracia burguesa e o Serviço Social, Netto (1996) identifica as direções 
intrínsecas ao processo de renovação: a perspectiva modernizadora, a 
reatualização do conservadorismo e a intenção de ruptura. Tais direções são 
expressões das racionalidades que orientaram o processo de renovação do 
Serviço Social brasileiro e retratam o embate permanente em torno de 
posicionamentos teórico-metododológico e ético-políticos no interior da 
profissão, que se vinculam aos projetos societários em confronto na 
modernidade. Harvey (1993, p. 23) compreende a modernidade como um 
projeto que entrou em foco no século XVII e traduz o esforço intelectual dos 
pensadores iluministas “para desenvolver a ciência objetiva, a moralidade, as 
leis universais e a arte autônoma nos termos da própria lógica interna delas”. 
O projeto da modernidade prometia a liberdade da escassez, da necessidade e 
da arbitrariedade das calamidades naturais por meio do domínio científico, 
isto é, da razão. 
A razão moderna, forjada no processo de ruptura do modo de 
produção feudal para a sociedade do capital, ergueu-se após um longo processo 
que, para Coutinho (1972), pode ser discernido em duas etapas. A primeira vai 
dos pensadores renascentistas a Hegel e a segunda compreende o período de 
1830 à 1848, caracterizada por uma profunda decadência, na qual as 
conquistas anteriores são abandonadas. 
 Na primeira etapa desse processo, “a burguesia representava 
objetivamente os interesses da totalidade do povo, no combate a reação 
absolutista feudal” (COUTINHO, 1972, p. 8), e a realidade era considerada um 
todo racional, abrindo a possibilidade de a razão humana conhecer e dominar a 
 
 
109 
realidade. A primeira etapa culminou com a elaboração da racionalidade 
humanista e dialética, cujas categoriais essenciais, sintetizadas por Hegel, são 
o humanismo, o historicismo e a razão dialética, como aponta Coutinho (1972, 
p. 14-15): 
O humanismo, a teoria de que o homem é o produto de sua 
própria atividade, de sua história coletiva; o historicismo 
concreto, ou seja, a afirmação do caráter 
ontologicamente histórico da realidade, com a 
conseqüente defesa do progresso e do melhoramento da 
espécie humana; e finalmente a razão dialética, em seu 
duplo aspecto, isto é, o de uma racionalidade objetiva 
imanente ao desenvolvimento da realidade (que se 
apresenta sob a forma de unidade dos contrários), e 
aquele das categorias capazes de apreender 
subjetivamente essa racionalidade objetiva e que 
englobam, superando, as provenientes do “saber imediato” 
(intuição) e do “entendimento” (intelecto analítico). 
 
A razão começou a ser renegada e/ou limitada pela burguesia47, 
como instrumento do conhecimento e da práxis, a partir do momento que essa 
classe social ascendeu ao poder sócio-econômico, político e cultural, e o modo 
de produção capitalista revelou os seus antagonismos. 
Na segunda etapa do processo de constituição da razão, a 
burguesia rompeu com a tradição progressista sintetizada por Hegel, 
substituindo o humanismo por um individualismo exacerbado. Segundo Coutinho 
(1972, p. 17), o individualismo 
 
47 Ao tornar-se uma classe conservadora, interessada na perpetuação e na justificação teórica do existente, a 
burguesia estreitou cada vez mais a margem para uma apreensão objetiva e global da realidade, a razão é 
encarada como um ceticismo cada vez maior, renegada como instrumento de conhecimento ou limitada a 
esferas progressivamente menores ou menos significativas da realidade (COUTINHO, 1972, p. 8). 
 
 
110 
nega a sociabilidade do homem, ou a afirmação de que o 
homem é a “coisa”, ambas as posições levando a uma 
negação do momento (relativamente) criador da práxis; 
em lugar o historicismo, surge uma pseudo-historicidade 
subjetivista e abstrata ou uma apologia da positividade, 
que transformam a história real (o processo de 
surgimento do novo) em algo “superficial” ou irracional; 
em lugar da razão dialética, que afirma a cognoscibilidade 
da essência contraditória do real, vemos o nascimento de 
um irracionalismo fundado na intuição arbitrária, ou um 
profundo agnosticismo decorrente da limitação da 
racionalidade às suas formas puramente intelectivas. 
 
Ocorreu, no segundo período, uma crescente ideologização das 
categoriais essenciais que fundam a ética e a ontologia. A burguesia rompeu 
com a tradição progressista quando o caráter essencialmente contraditório da 
realidade social revelou os antagonismos de um modo de produção que, em sua 
base, se sustenta na socialização do trabalho e na apropriação individual dos 
seus produtos. No plano da teoria do conhecimento, essa tendência tornou-se 
agnóstica, afirmando que nada se pode saber sobre a essência verdadeira do 
mundo e da realidade. No plano ontológico, o pensamento da burguesia48 
renunciou à possibilidadede apreender o modo de ser da sociedade em sua 
totalidade, e, ainda, à razão dialética precisamente como uma racionalidade 
objetiva imanente ao desenvolvimento da realidade. A expressão do 
pensamento burguês que se tornou hegemônica é o positivismo, que nega o 
 
48 O pensamento da burguesia encarrega-se de construir diferentes matrizes teóricas para justificar a ordem 
do capital conforme as constantes turbulências postas e repostas no modo de produção capitalista, 
constituído por uma seqüência de períodos de prosperidade e de crise. As diferentes orientações do 
pensamento da burguesia, racionalista e irracionalista, possuem em comum o “limite do pensamento 
imediatista às formas fenomênicas assumidas pelo ser social do capitalismo” (COUTINHO, 1972, p. 48). 
Esse limite circunscreve-se ao saber imediato que advém da intuição e ao conhecimento formal-abstrato ou 
razão analítica proveniente do entendimento, da intelecção. 
 
 
111 
caráter contraditório da realidade social e limita a racionalidade às suas 
formas intelectivas. 
 O movimento da consciência, restrito à dimensão do 
entendimento, interrompeu o seu percurso no momento em que a coisa em-si 
foi apreendida como conceito e leis gerais que sintetizam as diversas 
propriedades de unidades independentes. O pensamento ainda não 
descortinara, no movimento do real, a essência que se esconde por trás da 
aparência. A síntese das categorias reflexivas elaboradas por Hegel49 (2001) 
representa e denota o cume, o ponto mais elevado atingido pela razão e guarda 
congruência com o período de ascensão político-econômica da classe burguesa 
em seu combate contra o antigo regime. Quando ascendeu como classe 
hegemônica, o pensamento vinculado à classe burguesa passou a limitar a razão 
à dimensão do entendimento. 
Na sociedade capitalista, o pensamento hegemônico encontra-se 
condicionado para apreender a realidade por meio da intelecção, restringindo-
se à captura do fenômeno em-si. No entanto, o pensamento da burguesia 
encarrega-se, também, de construir diferentes matrizes teóricas para 
justificar a ordem do capital e suas constantes turbulências. Os períodos de 
estabilidade ou de crise determinam à ascendência de diferentes orientações 
do pensamento da burguesia, dentre elas o próprio irracionalismo. As 
diferentes orientações do pensamento da burguesia limitam-se “às formas 
fenomênicas assumidas pelo ser social do capitalismo”, assinala Coutinho 
(1972, p. 48). 
A compreensão do movimento da consciência na estação do 
entendimento permite capturar a forma e o conteúdo intrínseco à prática 
 
49 As antinomias contidas no pensamento hegeliano serão resumidamente explicitadas no próximo capítulo 
da presente tese. No momento é preciso sinalizar que, em parte, tais antinomias decorrem do posicionamento 
político de Hegel em defesa do regime absolutista de Guilherme III. Hegel (2001) formula o seu pensamento 
com base nos grandes acontecimentos que abalavam o mundo ao seu redor – a revolução industrial e a 
revolução francesa fundamentalmente − mas busca a conciliação com a sociedade do antigo regime. 
 
 
112 
profissional retida nessa dimensão, circunscrita à razão formal-abstrata. Todo 
o esforço a ser desprendido na elaboração do presente capítulo tem em vista, 
de um lado, compreender o movimento dialético da consciência na dimensão do 
entendimento, evidenciando minimamente, no campo da construção da razão, a 
interlocução entre o pensamento hegeliano e o pensamento kantiano, de outro 
lado, destacar os principais estudos na literatura do Serviço Social brasileiro 
que apreendem criticamente a forma e o conteúdo da prática profissional 
pautada pela intelecção, além de descrever e analisar como essa prática 
profissional se reproduz. 
 
2.1 A força do entendimento 
 
A consciência apreende a realidade dialeticamente, em um 
movimento no qual o saber é, inicialmente, imediato e não pode ser abandonado 
e nem deixado de lado para se chegar ao saber verdadeiro, a essência. No 
pensamento hegeliano, o saber imediato, inicialmente, tem a sua sustentação 
na certeza sensível: o sujeito possui a verdade do objeto e instaura a verdade 
do objeto. Em seu percurso, pela incorporação de novas experiências − sempre 
no sentido hegeliano −, a consciência dissolve a certeza proveniente do saber 
imediato. Neste momento, a verdade sai do sujeito e transfere-se para o 
objeto cujo movimento da consciência apreendido por meio da percepção 
depara-se com a diversidade das propriedades contidas na coisa, o ser Uno. 
Quando a consciência percebe que as propriedades da coisa são universais e se 
determinam em relação a outra coisa excluída, toma conhecimento de sua 
reflexão sobre si mesma, mas não se reconhece no objeto refletido. 
 Há um retorno à percepção que, ao se elevar, constitui no 
movimento da força o primeiro momento do entendimento. O movimento da 
consciência de supra-sunção de um estágio a outro é conduzido pelas 
 
 
113 
determinações reflexivas essência-fenômeno-aparência que, segundo Lukács50 
(1979, p. 76), constituem a “mais importante descoberta metodológica de 
Hegel” e nelas reside o centro de sua dialética, “tanto da dialética da dinâmica 
e estrutura da própria realidade independente da consciência, quando da 
dialética de seus diversos reflexos na consciência subjetiva”. Ao analisar a 
ontologia idealista, Lukács (1979, p. 76) realiza a crítica ao pensamento 
hegeliano e suas antinomias indissolúveis que transformam a substância em 
sujeito e retiram do esterco das contradições contidas nesse pensamento o 
seu aspecto metodológico fundamental: “mostrar como as diversas fases, 
categorias, etc., do pensamento humano surgem na consciência dos homens, ao 
mesmo tempo como produtos e instrumentos da dominação ideal e prática da 
realidade, paralelamente ao desenvolvimento peculiar dessa mesma realidade”. 
Hegel (2001) inicia a Fenomenologia do espírito expondo o 
movimento dialético que a consciência exercita para captar a verdade, a 
essência em seu desenvolvimento imanente, passando de um nível a outro, ou 
de uma estação a outra. O primeiro capítulo intitula-se Consciência, 
subdividindo-se em três seções: A certeza sensível ou O Isto ou o Visar; A 
percepção ou: a coisa e a ilusão e, Força e entendimento: fenômeno e mundo 
supra-sensível. O filósofo basea-se na imagem do mundo, nas palavras de 
Lukács (1979, p. 77), “ao nível da percepção sensível e investiga a maneira pela 
qual − em função da inter-relação entre a realidade e as tentativas subjetivas 
de dominá-la − a percepção sensível se eleva ao intelecto”. 
Quando a consciência, pelo desenvolvimento das contradições, 
apreende o objeto como Uno, mas percebe que suas propriedades são 
 
50 O presente estudo recorreu ao capitulo III – A falsa e a verdadeira ontologia de Hegel, e ao capítulo IV – 
Os princípios ontológicos fundamentais de Marx, que compõem a “ Ontologia do ser social” de Georg 
Lukács (1979ª, 1979b), constitutivos da primeira versão dessa produção do filósofo húngaro, conhecida 
como a grande Ontologia. Posteriormente Lukács lançou a obra Prolegômenos à ontologia do ser social, 
que, segundo Lessa (2002, p.19) destinavam-se a “desenvolver uma teoria geral das categorias e dos nexos 
categoriais explorados na obra anterior”. 
 
 
 
114 
universais, dá-se conta que surge dessa constatação a inverdade e se conduz, 
suprassumindo a universalidade incondicionada, para o entendimento. 
O princípio da percepção é a universalidade, mas o seu real 
conteúdo é a contradição, chegando a pensamentos que se reúnem no universal 
incondicionado, que passa a ser o objeto verdadeiro da consciência, mas ainda 
não apreendido como conceito. Hegel (2001, p. 95) estabelece a distinção 
entre o objeto verdadeiroda percepção, o universal incondicionado e a 
apreensão do conceito como conceito: 
 
para a consciência, o objeto retornou a si mesmo a partir 
da relação para com um outro, e com isso tornou em-si 
conceito. Porém a consciência não é ainda, para si mesma, 
o conceito; e por causa disso não se reconhece naquele 
objeto refletido. Para nós, esse objeto, mediante o 
movimento da consciência, passou por um vir-a-ser em que 
a consciência está de tal modo implicada que a reflexão é 
a mesma dos dois lados, ou seja, é uma reflexão só. 
 
Hegel (2001) também alerta que a consciência nesse movimento 
tem por conteúdo apenas a essência objetiva, e não a consciência como tal e o 
resultado para ela deve ter uma significação objetiva e retirar-se do resultado 
como algo objetivo. 
O entendimento suprassume-se com a sua própria inverdade e 
com a inverdade do objeto, resultando o conceito do verdadeiro: como o 
verdadeiro contudo é em-si essente, está privado do ser para si da 
consciência. Hegel (2001, p. 96) afirma: 
 
 
 
115 
É um verdadeiro que o entendimento, sem saber que está 
ali dentro, deixa mover-se à vontade. Esse verdadeiro dá 
um impulso à sua essência por si mesma, de modo que a 
consciência não tem participação alguma em sua livre 
realização; mas ao contrário, simplesmente o contempla e 
puramente o apreende. 
 
Encontra-se em curso na experiência da consciência a sua 
elevação, que implica o suprassumir para diferenciar a consciência essente, 
vinculada ao sensível, da consciência concebente. Essa elevação conecta-se 
dialeticamente com o movimento anterior, não há abandono, há superação. 
Para a percepção, o conteúdo tido como verdadeiro vincula-se à 
forma e se dissolve em sua unidade. Trata-se de um conteúdo universal, 
determinado de ser para si e de relacionar-se com outro, cuja verdade é ser 
universal incondicionado. Mas, ao mesmo tempo, é um conteúdo que reflete o 
uno em si. “A diferença entre a forma e o conteúdo emerge no universal 
incondicionado, por ser ele objeto para a consciência”, declara Hegel (2001, p. 
96). Em relação à figura do conteúdo, os momentos têm o aspecto de ser um 
meio universal de muitas matérias subsistentes, e o uno em si, refletido, no 
qual a sua independência se aniquila, afirma Hegel (2001). O primeiro momento 
é a dissolução da independência da coisa, e o segundo é o ser-para-si. A 
essência desses momentos é a universalidade incondicionada. Como esses 
momentos não podem ficar separados um do outro, mas são lados que neles 
mesmos suprassumem, transitam de um lado para o outro. Esse universal “é 
exatamente a multiplicidade desses diferentes universais”, assinala Hegel 
(2001, p. 97). E, ainda, como cada uma dessas matérias está onde a outra está, 
interpenetram-se sem se tocarem, são apresentadas como independentes, e 
ocorre a redução da diversidade contida na matéria como puro ser para si. Nas 
 
 
116 
palavras do autor: “as diferenças postas como independentes, passam 
imediatamente à sua unidade e sua unidade imediatamente ao seu 
desdobramento; e esse novamente, de volta à redução” (HEGEL, 2001, p. 97). 
Esse é o movimento que se chama força. 
Em um de seus momentos, a força recalcada em-si-mesma tem de 
exteriorizar-se, e, nesse processo, ela é força em-si-mesma essente e 
exteriorização nesse ser-em-si-mesmo. 
 
Quando nós mantemos os dois momentos em sua unidade 
imediata, então o entendimento − ao qual o conceito de 
força pertence − é o conceito propriamente dito, que 
sustém os momentos distintos como distintos, pois na 
força mesma não devem ser distintos; a diferença, 
portanto, está no pensamento (HEGEL, 2001, p. 97). 
 
Em outras palavras, a força é o movimento da consciência que 
pertence ao entendimento e capta o conceito da coisa tanto em sua 
multiplicidade, contida no universal incondicionado, quanto em sua 
determinação de ser para si. O conceito da força contém todos os elementos 
que até então a análise filosófica descobriu serem características do objeto 
real do conhecimento, mas até esse momento, segundo Marcuse (2004), foi 
estabelecido apenas o conceito de força e não a sua realidade. 
A força, afirma Hegel (2001, p. 98), “é o universal incondicionado 
que é para si-mesmo o que é para um Outro; ou que tem nele a diferença, pois 
essa não é outra coisa que o ser-para-um-Outro”. No jogo no qual a força é 
para si-mesmo o que é para um outro e é para um outro o que é para si-mesmo 
sobressaem justamente as diferenças e, nesse sentido, ela é substância das 
coisas. Nas palavras de Hegel (2001, p. 98), 
 
 
117 
para que a força seja em sua verdade, deve ser deixada 
totalmente livre no pensamento e posta como substância 
dessas diferenças; vale dizer: primeiro, ela, como esta 
força total, que permanece essencialmente em si e para 
si; depois, suas diferenças, como momentos substanciais, 
ou como momentos para si subsistentes. 
 
A força é em si Uno, recalcada em si, e, nesta condição o 
desdobramento das matérias é uma outra essência subsistente, diferente e 
independente. A força é, também, o todo, pois permanece tal como é segundo o 
seu conceito, como indica Hegel (2001). Como todo, as diferenças vinculam-se 
as formas e são superficiais momentos evanescentes. A força existe nesses 
modos contrários, e Hegel (2001) distingue-os em dois momentos que se fazem 
independentes para novamente se suprassumirem. 
 O movimento da percepção é aquele no qual o percebente e o 
percebido são ao mesmo tempo, de uma parte, um só e indistinto, como o 
apreender do verdadeiro, mas igualmente de outra parte, cada lado reflete 
sobre si, ou é para si. Esses dois lados são momentos da força, “formam 
também uma unidade, unidade essa que se manifesta como meio termo em 
relação a extremos para si essentes, e se divide sempre de novo justamente 
nesses extremos, que são somente isso” (HEGEL, 2001, p. 98). 
Na força, esse movimento tem a forma objetiva e produz como 
resultado o universal incondicionado como interior das coisas. Ela é um dos 
lados do seu conceito, mas foi estabelecida como a determinidade do Uno. O 
subsistir das matérias desdobradas fica excluído dessa força, e é um outro 
distinto dela. 
Hegel (2001) afirma que se deve abandonar o modo de ver em que 
a força é estabelecida como Uno, e sua essência, como algo que, de fora, a 
 
 
118 
aborda para que se exteriorize. A força, diz Hegel (2001, p. 99), “é antes, ela 
mesma, esse meio universal do subsistir dos momentos como matérias. Dito de 
outro modo: a força [já] se exteriorizou: o que devia ser o outro Solicitante é, 
antes , ela mesma”. A força então existe como meio das matérias desdobradas. 
Ela é esse ser refletido-em-si, ou esse ser suprassumido de exteriorização. 
Aquilo que surge como Outro e solicita à força tanto à 
exteriorização quanto o retorno a si mesma, é ele mesmo força, como 
imediatamente resulta. O Outro mostra-se tanto como meio universal, como 
Uno e, ao mesmo tempo, só aparece em cada uma dessas figuras como 
momento evanescente. Enquanto permanece como momento evanescente, a 
força ainda não saiu em geral do seu conceito, pois um Outro é para ela, e, ela 
para um Outro. Ao mesmo tempo, afirma Hegel (2001), duas forças estão 
presentes, e embora ambas tenham o mesmo conceito, passaram de sua 
unidade à dualidade. A oposição parece ter escapado ao domínio da unidade por 
meio do desdobramento em forças totalmente independentes. 
Hegel (2001) examina essa situação de independência e explicita 
as trocas de posições, recíprocas de determinações entre as duas forças, no 
qual uma transmuda-se na outra, e ora é solicitante, ora é solicitada. Hegel 
(2001) quer demonstrar, no jogo permeado pela troca imediata das 
determinações entre as duas forças que parecem independentes na forma de 
suas apresentações, que uma só tem determinidade mediante a outra, “só é 
solicitante enquanto pela outra é solicitadaa tornar-se solicitante e perde 
também imediatamente essa determinidade que lhe foi dada, pois passa para a 
outra; ou melhor, já passou para lá” (p. 100). 
Há, portanto, o mesmo conceito, mas como duas forças 
encontram-se presentes, ele passa da unidade para a dualidade, no qual a 
solicitante se torna solicitada e a solicitada, solicitante. Ao cabo desse 
movimento, as diferenças já não mais se prendem somente à forma, mas se 
 
 
119 
mostram com dupla diferença: de conteúdo e de forma. Em relação às 
diferenças de conteúdo, um dos extremos é a força refletida sobre si mesma, 
e o outro, o meio das matérias − são diferentes em geral. Como diferença de 
forma, uma é ativa − solicitante e, a outra, passiva − solicitada, separam-se 
uma da outra e são opostas. O objeto cinde-se em conteúdo e forma, que são 
mutuamente indiferentes, mas não são independentes. 
Aquilo que vem-a-ser para a consciência, nesse movimento da 
força, desaparece na passagem imediata de cada lado para o seu oposto, no 
qual as diferenças de conteúdo e de forma desvanecem-se51. Mas a 
efetividade do conceito de força resulta desta duplicação em duas forças, que, 
segundo Hegel (2001, p. 101), existem como “essências para si essentes; mas 
sua existência é um movimento tal, de uma em relação a outra, que seu ser é 
antes um puro Ser-oposto mediante um outro, isto é: seu ser tem, antes, a 
pura significação do desvanecer”. 
Diante dessa existência, que somente o é na relação que 
estabelece com o seu oposto e imediatamente desvanece-se Hegel (2001, p. 
101) afirma que as “forças não têm, pois nenhuma substância própria que as 
sustenha e conserve”. A efetividade da força está em sua exteriorização e, 
como tal, ela é o suprassumir-se-a-si-mesma dos momentos que se desvanecem. 
Hegel (2001, p. 101-102) afirma: 
 
a verdade da força permanece, pois, só como pensamento 
da mesma, e os momentos dessa efetividade, suas 
substâncias e seu movimento desmoronam sem parar numa 
unidade indiferenciada − que não é a força recalcada 
 
51 Em relação ao desvanecimento das diferenças de forma e conteúdo, Hegel (2001, p. 101) diz: do “lado da 
forma, segundo a essência, o ativo, o solicitante, ou o para-si-essente eram o mesmo que se apresentava como 
força recalcada em si, do lado do conteúdo. E o passivo, o solicitado, ou o essente para um outro, do lado da 
forma, é o mesmo que se apresentava como meio universal de múltiplas −matérias− do lado do conteúdo” . 
 
 
120 
sobre si (pois ela mesma é só um momento desses) senão 
que essa unidade é seu conceito, como conceito. 
 
Esse conceito é o primeiro universal do entendimento, no qual a 
força não é ainda para si. O segundo universal é a sua essência tal como se 
apresenta em si e para si, “o interior das coisas como interior − idêntico ao 
conceito como conceito”, afirma Hegel (2001, p. 102). Aquilo que o 
entendimento conhece imediatamente como sua essência é a força52, que se 
realiza no jogo no qual ela se apresenta recalcada em si mesma de um lado, e 
exteriorizada, de outro. O jogo de vir-a-ser e desaparecer nada mais é do que 
a aparência, e se chama fenômeno. Nas palavras de Hegel (2001, p. 102), 
 
o meio termo que encerra juntos os dois extremos − o 
entendimento e o interior − é o ser da força desenvolvido, 
que doravante é para o entendimento mesmo, um 
evanescente. Por isso se chama fenômeno; pois a 
aparência é o nome dado ao ser que imediatamente é em si 
mesmo um não ser. Porém, não é apenas um aparecer, mas 
sim fenômeno, uma totalidade do aparecer. Essa 
totalidade como totalidade ou universal é o que constitui o 
interior: o jogo de forças como sua reflexão sobre si 
mesmo. 
 
A aparência, para Hegel (2001), possui duplo sentido. Primeiro, a 
aparência é o nome dado ao ser que imediatamente é um não ser, segundo, não 
é apenas um aparecer, mas uma totalidade do aparecer. No primeiro sentido, 
 
52 Segundo Hegel (2001, p. 102), a “realização da força é assim, ao mesmo tempo, a perda da realidade. A 
força se tornou, pois, algo totalmente distinto, a saber, essa universalidade que o entendimento conhece 
primeiro ou imediatamente como sua essência; e que também se mostra como sua essência em sua realidade 
que-deve-ser, nas substâncias efetivas”. 
 
 
121 
significa que uma coisa existe de tal maneira que sua existência é diferente de 
sua essência e, no segundo sentido, significa que aquilo que se revela não é 
mera aparência, mas é a expressão de uma essência que só existe como 
aparência, afirma Marcuse (2004). 
Conforme Hegel (2001), em seu caminho para o conhecimento da 
essência, a consciência sobre o mundo sensível, nessa estação, adentra o 
supra-sensível. O mundo sensível é o mundo da aparência e, por detrás dele 
descerra-se a primeira, e portanto inacabada, manifestação da razão. No 
entanto, como a consciência ainda não conhece a natureza do conceito, o 
interior é um puro Além, “é vazio por ser apenas o nada do fenômeno, e 
positivamente [ser] o Universal simples” (HEGEL, 2001, p. 103). Refutando a 
tese da incognoscibilidade do interior, Hegel (2001) afirma que não pode haver 
nenhum conhecimento desse interior tal como ele é imediatamente pela 
simples natureza da coisa mesma, pois este interior é determinado como o 
além da consciência. 
Esse vazio é preenchido com o Além supra-sensível que surgiu e, 
se não é o fenômeno, provém de sua mediação, é o fenômeno como fenômeno, é 
a essência do fenômeno. O supra-sensível não é o mundo do sensível posto que 
“o fenômeno não é de fato o mundo do saber sensível e do perceber como 
essente, mas esse mundo como suprassumido ou posto em verdade como 
interior”, assinala Hegel (2001, p. 104). 
O jogo das forças mostra a diferença entre solicitante e 
solicitada, entre a força recalcada sobre si mesma e a exteriorizada que se 
suprassumiam imediatamente. As mudanças de um extremo ao outro 
encontram-se fora do interior e penetram o supra-sensível, que, para o 
entendimento vem a ser a lei do interior. Dessa lei, na qual a diferença 
permanece constantemente igual a si mesma, surge uma segunda lei, que 
exprime a diferença. O primeiro supra-sensível, o reino tranqüilo das leis − a 
 
 
122 
cópia imediata do mundo percebido − transmuda-se em seu contrário. O 
segundo supra-sensível é o mundo invertido. 
No caminho percorrido pela experiência da consciência, Hegel 
(2001) demonstra que o universal é mais do que o particular e que as 
potencialidades dos homens e das coisas não se limitam às formas e relações 
dadas em que os fatos aparecem. Por meio desse movimento dialético, Hegel 
(2001) quer provar que, além da aparência das coisas, se encontra a própria a 
essência, a autoconsciência do homem. A primeira e, portanto, inacabada 
manifestação da essência é a aparência da essência, o fenômeno que se revela 
por meio da força, a substância das coisas. Nesse momento, a consciência 
encontra sua “verdade” sob a forma de objeto, opondo-se ao sujeito. Ao 
adentrar o interior das coisas, por meio do movimento da força, a consciência 
apreende o conceito, domina as leis − que determinam a forma do mundo da 
percepção − e caminha para além do reino móvel e evanescente da aparência, o 
reino do supra-sensível. 
O propósito de Hegel (2001) é colaborar para que a filosofia se 
aproxime da ciência, a fim de que o saber seja saber efetivo. O seu 
pressuposto é que a necessidade exterior é idêntica à necessidade interior − 
desde que concebida de modo universal e prescindindo da contingência da 
pessoa e das motivações individuais. Essa perspectiva filosófica é construída 
por Hegel (2001), particularmente, com base em sua interlocução com os 
filósofos da escola clássica alemã, dentre eles, com o pensamento de Kant 
(1724-1808). Segundo Lima Vaz (2001, p. 12) Hegel, com a Fenomenologia do 
espírito,quer responder à seguinte pergunta: “o que significa para a 
consciência experimentar-se a si mesma através de sucessivas formas de 
saber que são assumidas e julgadas por essa forma suprema que chamamos 
ciência ou filosofia?”. 
 
 
123 
A preocupação central do pensamento filosófico de Kant e de 
Hegel vincula-se à construção da Razão, buscando determinar o seu alcance e 
os seus limites53. No pensamento kantiano, o alcance da razão encontra-se em 
sua capacidade de examinar os elementos que a constituem e os vínculos entre 
eles existentes. Para fundamentar esse pressuposto, a filosofia kantiana 
reconhece e valoriza o preceito básico do empirismo − segundo o qual, todo 
conhecimento deriva da experiência e dela depende − e do racionalismo − para 
o qual todo o sentido depende da razão. Com base nessas premissas, o 
pensamento kantiano propõe fundar um modo de pensar a filosofia como 
ciência e cujo instrumento é a crítica54. A questão filosófica objeto de 
preocupação do pensamento kantiano é o conhecimento da metafísica, que não 
havia atingido o mesmo nível da matemática e da física como ciência, na 
passagem do século XVII para o século XVIII. Para Kant (1983, p. 11), a razão 
 
só compreende o que ela mesma produz segundo seu 
projeto, que ela teria que ir à frente com princípios dos 
seus juízos segundo leis constantes e obrigar a natureza a 
responder às suas perguntas, mas sem se deixar conduzir 
por ela como se estivesse presa a um laço (...). 
 
O alcance da razão em Kant (1983) encontra-se em sua 
capacidade de produzir os seus próprios princípios que expressam o 
conhecimento das leis da natureza e o saber científico que determina o 
 
53 Conforme Lukács (1979, p. 9) verifica-se na filosofia clássica alemã “um movimento que leva a negação 
teórica da ontologia em Kant a uma ontologia universalmente explicitada em Hegel”. Entre a negação 
teórica da ontologia kantiana e a ontologia hegeliana, há a delimitação de um mundo formado pela revolução 
francesa. 
54 Para estabelecer o alcance e os limites da razão, Immanuel Kant (1724-1808) elabora, entre as suas 
principais obras, três críticas: Crítica da razão pura, Crítica da razão prática e a Crítica do juízo, em um 
período, no qual a revolução no pensamento constituía o epicentro do iluminismo, que “propunha criticar 
todas as tutelas que inibem o uso da razão e julgava possível fazê-lo a partir da própria razão. Ela tinha dois 
vetores: a crítica e a razão”, assinala Rouanet (1987, p. 31). 
 
 
124 
pensamento segundo leis constantes. Aquilo que a razão produz, segundo os 
seus próprios planos, de um lado, advém da experiência e, de outro, é 
anterior à experiência. Essa proposição responde a indagação sobre o que é o 
objeto de conhecimento da metafísica, se é possível conhecer objetos que 
não se restringem à experiência. Segundo Keinert (2007), não há dúvida de 
que, para Kant, todo conhecimento começa pela experiência, mas há também 
conhecimentos que não derivam da experiência, que se conectam com a 
universalidade e a necessidade da ciência moderna. 
O conhecimento que independe da experiência é qualificado por 
Kant (1983) como o conhecimento a priori, e o conhecimento dela derivado é 
o conhecimento a posteriori. Os conceitos que fundamentam o conhecimento 
a priori têm origem na razão pura, a faculdade teórica da razão. A razão é, 
para Kant (1983), o fundamento da experiência e a condição do 
conhecimento, que provém de duas fontes: a intuição e o entendimento. A 
primeira, a intuição, tem a função de receber as representações sensíveis 
necessárias para o conhecer e trabalha com duas formas a priori, o espaço e 
o tempo, condições necessárias para que o sujeito racional seja afetado pelos 
objetos percebidos pelos sentidos. Esses objetos são denominados 
fenômenos. A segunda fonte, o entendimento, tem a função de produzir 
representações por meio do pensamento, de produzir conceitos para se 
conhecer os objetos. O entendimento aciona as regras lógicas a priori 
ligando-se com o conteúdo informado pela intuição. Segundo Kant (1983, p. 
74), “o entendimento nada pode intuir e os sentidos nada podem pensar”. 
As possibilidades do conhecimento encontram-se condicionadas 
pelos próprios princípios que determinam os juízos da razão. Os princípios 
reunidos são denominados por Kant (1983) categorias do entendimento e 
apresentam a condição de possibilidade da experiência possível. A 
preocupação de Kant (2002) volta-se, então, à crítica do “uso teórico da 
 
 
125 
razão [que] ocupava-se com objetos da simples faculdade de conhecer” (p. 
25), e ao uso prático da razão que “ocupa-se com fundamentos determinantes 
da vontade, a qual é uma faculdade ou de produzir objetos correspondentes 
às representações , ou de então determinar a si própria para a efetuação dos 
mesmos” (p. 25). Para Kant (2002), a razão, nesse sentido, pode servir para a 
determinação da vontade. Como a vontade refere-se ao querer, a razão 
possui sempre realidade objetiva. 
Verifica-se no pensamento kantiano a distinção entre a razão 
teórica e a razão prática. Kant (2002) define as proposições fundamentais 
da razão prática como proposições “que contêm uma determinação universal 
da vontade, [determinação] que tem sob si diversas regras práticas”. Ao 
mesmo tempo em que define as proposições fundamentais da razão prática, o 
filosofo alemão as qualifica em subjetivas ou máximas e objetivas ou leis 
práticas. Elas são subjetivas ou máximas se forem consideradas pelo sujeito 
válidas somente para a sua vontade e são objetivas ou leis práticas se forem 
válidas para a vontade de todo o ente racional. 
Portanto, preocupado em delimitar as possibilidades e os limites 
da razão, Kant (2002) qualifica-as em razão pura e razão prática. Essa 
qualificação hierarquiza e classifica as dimensões da razão pura (teórica) em 
conhecimento a priori e conhecimento a posteriori, e separa o fenômeno − 
cognoscível por meio da experiência − da coisa em-si, incognoscível. Neste 
sentido, Kant (2002) elabora a crítica à metafísica mas não supera o seu 
caráter transcendental. Por meio das categorias reflexivas da intuição e do 
entendimento, o filósofo alemão elabora um sistema gnosiológico sustentando 
que a razão é a condição de possibilidade da experiência, de um lado, e de 
outro, que a coisa em-si − a essência − encontra-se fora do alcance da razão, 
na “jurisdição do supra-sensível”. Aquilo que se pode conhecer por meio da 
razão é o mundo dos fenômenos. 
 
 
126 
Para melhor compreender o pensamento de Hegel e de Kant faz-
se necessário contextualizar minimamente o solo sócio-histórico no qual 
emergem. No advento do século das luzes, a defesa da ciência e da 
racionalidade crítica não se restringiu a sofistaria, e tanto o pensamento 
kantiano quanto o pensamento hegeliano, como todo idealismo alemão55, 
buscavam esclarecer e produzir as leis e os conceitos gerais que pudessem 
constituir os padrões universais da racionalidade fundada na autonomia do 
indivíduo56. Trata-se, para Kant (2002), de uma autonomia orientada por uma 
lei universal dada ao homem pela razão e chamada de lei moral. Essa lei 
universal constitui o princípio formal da vontade e se conforma por meio de 
regras práticas que são produtos da razão. Mas, se Kant (2002, p. 34) afirma 
que a regra prática é sempre produto da razão, existem, para este filósofo, 
entes que não são portadores da razão total . Kant (2002, p. 34) diz: 
 
para um ente, cuja razão não é total e exclusivamente o 
fundamento determinante da vontade, essa regra 
constitui um imperativo, isto é, uma regra que é 
caracterizada por um dever-ser, o qual expressa a 
necessitação objetiva da ação e significa que, se a razão 
determinasse totalmente a vontade, a ação ocorreria 
inevitavelmente segundo essa regra.55 O idealismo alemão, no cenário filosófico do século XVIII, contrapôs-se ao empirismo inglês, uma das 
correntes formadora da filosofia moderna, que buscava explicar o conhecimento com base na experiência e 
demonstrar que nenhum conceito ou lei da razão poderia aspirar a universalidade, pois a unidade da razão 
era apenas uma unidade conferida pelo hábito e pelo costume que aderiam aos fatos, sem jamais os governar. 
Destacam-se dentre os filósofos empiristas clássicos, Francis Bacon (1561-1626), Thomas Hobbes (1588- 
1679), John Locke (1632- 1704), George Berkely (1685- 1753) e David Hume (1711-1776). 
56 De acordo com Marcuse (2004, p. 30), “Kant pretende provar que o espírito humano é dono das formas 
universais que servem para organizar a multiplicidade de dados a ele fornecidos pelos sentidos. As formas da 
‘intuição’ (espaço e tempo), e as formas do ‘entendimento’ (categorias) são os universais mediante os quais 
o espírito ordena, na continuidade da experiência, a multiplicidade sensível. (...) Tais formas são 
universalmente válidas e aplicáveis, pois constituem a própria estrutura do espírito humano. O mundo de 
objetos, como uma ordem universal e necessária, é produzido pelo sujeito − não pelo indivíduo, mas por 
aqueles atos de intuição e conhecimento que são comuns a todos os indivíduos, já que constituem as 
condições mesmas da experiência” (grifos do autor). 
 
 
127 
Kant (2002) afirma que os imperativos são hipotéticos quando 
contêm simples preceitos de habilidade e são categóricos quando se vinculam 
ao dever determinado pela razão. A condição de imperativo categórico 
encontra-se dado pela razão e pressupõe um sujeito reflexivo, ao passo que o 
imperativo hipotético depende de um objeto. 
Segundo Lukács (1979a), uma das controvérsias entre o 
pensamento filosófico kantiano e hegeliano relaciona-se à concepção do ser 
precisamente-assim, o presente, e o dever-ser, o futuro. A realidade, para 
Kant, é transcendente e a relação ontológica do homem com a realidade, surge 
com o dever-ser moral, assinala Lukács (1979a). O dever-ser é um imperativo 
categórico, incondicional e abstrato, e a sua realização significa a elevação 
acima do mundo dos fenômenos − a coisa em-si. Para Hegel, afirma Lukács 
(1979a, p. 18), “a inteira moralidade é tão somente uma parte, que se traduz na 
autêntica eticidade da práxis humana; e o dever ser tem um significado real 
apenas enquanto expressa a defasagem entre a vontade humana e o que é em 
si”. Para Kant, segundo Lukács (1979a), a coisa em si encontra-se apartada do 
mundo dos fenômenos; o mundo dos objetos da experiência sensorial possível é 
distinto da coisa em-si, que se encontra além do alcance das experiências, logo, 
incognoscível. 
O modo processual como o sujeito se apropria da realidade no 
sistema hegeliano diferencia-se do apriorismo categórico do pensamento 
kantiano. Faz-se necessário, contudo, sinalizar os aspectos que aproximam os 
dois pesadores da escola clássica da filosofia alemã idealista: ambos são 
legatários do movimento iluminista; ambos foram profundamente 
influenciados pelos levantes sócio-políticos da Revolução Francesa e ambos 
são referências para o desenvolvimento do pensamento da burguesia e a 
sustentação de princípios valorativos sócio-políticos e ideológicos da então 
emergente sociedade capitalista. O movimento iluminista caracterizou-se 
 
 
128 
pela defesa da ciência e da racionalidade crítica em contraposição ao dogma 
religioso. Esse movimento não se circunscreveu somente ao âmbito filosófico 
mas, também, artístico, político e literário, e construiu, absorveu e defendeu 
princípios que conformam uma concepção de mundo fincada nos direitos e nas 
liberdades individuais, próprios da sociedade burguesa, contra o 
autoritarismo do antigo regime. 
Verifica-se que, ao longo do processo de construção da razão, a 
dimensão gnosiológica sobrepôs-se a dimensão ontológica, isto é, a 
preocupação em relação à origem, a natureza, o valor e os limites da 
faculdade de conhecer ganhou relevância e preferência entre os pensadores 
da razão moderna vinculados a ordem hegemônica em detrimento do estudo 
da questão mais geral do ser como ser, do modo de ser do ser social. 
 Ao ascender ao poder como classe hegemônica, a burguesia 
perdeu o seu lugar no progresso social e passa a uma atitude defensiva em 
relação ao proletariado, assinala Lukács57 (1972). O período de 1848 até o 
início do século XX caracterizou-se como a “era dos compromissos 
asfixiantes”, quando as unidades nacionais já estavam realizadas, e o 
liberalismo tornou-se o liberalismo nacional de caráter conservador. Nesse 
período, no qual a capacidade de desenvolvimento ascendente do capitalismo 
parecia ilimitada, surgiram as ciências especializadas, e a filosofia da 
burguesia passou a ser a guardiã dos interesses históricos da burguesia para 
conter, no plano do conhecimento, as forças de reação (LUKÁCS, 1972). 
 
57 Lukács (1979a) reconstitui, sumariamente, o quadro histórico caracterizando os principais períodos de 
evolução do pensamento burguês. O primeiro período é o da filosofia burguesa clássica, é aquele que vai do 
Renascimento até 1848. Este período refletiu a expressão mais elevada da concepção de mundo da burguesia, 
que se colocava como classe emergente revolucionária. Nesse período, a filosofia que tinha por objeto as 
questões últimas da existência e do conhecimento, a concepção do próprio mundo, sob as suas formas 
abstratas concebeu a ideologia sob o signo do conhecimento, e sua ideologia é a ideologia da ciência. A 
filosofia clássica, no ímpeto de conhecer a razão da existência, de apreender a concepção do próprio mundo 
refletiu os grandes problemas das ciências naturais e sociais, revolucionando-as. Como a realidade era 
tomada em sua totalidade, havia a independência entre os pensadores e os interesses da burguesia ascendente. 
A filosofia, como o seu caráter de universalidade, deparava-se com a possibilidade da crítica e, por isso, as 
abstrações tornavam-se cada vez mais elevadas até o marco da revolução burguesa. 
 
 
129 
A teoria do conhecimento vinculada aos interesses da burguesia 
renunciou a possibilidade de apreender a essência da realidade e ascendeu ao 
agnosticismo, que se preocupa somente com conhecimentos indispensáveis do 
ponto de vista da vida prática, conforme os valores necessários à reprodução 
da sociedade capitalista, negando a essência. Refletindo e acompanhando as 
necessidades imanentes às relações de produção da sociedade capitalista 
fincada na divisão social e técnica do trabalho, a ciência fragmentou-se em 
especializações, e dentre elas, a sociologia, fundada à luz do pensamento 
positivo de August Comte58. 
Portanto, com base na emergência da razão moderna e, 
concomitantemente, a ascensão da sociedade capitalista, predominou a 
perspectiva gnosiológica, segundo a qual o homem somente pode conhecer 
aquilo que deriva das experiências sensoriais, como postula o pensamento 
kantiano. Os pensadores do movimento iluminista afirmavam que todos os 
fenômenos poderiam ser explicados por meio da razão. No entanto, quando o 
real, em sua processualidade contraditória, explicitou quão mais rico e 
complexo era em face ao pensamento e, sobretudo, quando a classe burguesa 
tornou-se hegemônica e submetia a ciência aos seus interesses, 
instrumentalizando-a e ideologizando-a dava-se vazão ao agnosticismo e ao 
ceticismo. Repousa nessas orientações a percepção de que a prática deve 
desenvolver-se na perspectiva do resultado e não do processo, uma vez que o 
conhecimento da realidade, em sua essência, é inacessível. 
 Na sociedade capitalista, o resultado é valorado pela utilidade, 
pelo retorno do capital valorizado ou agregado de valor. Para garantir a 
reprodução da ordem do capital, é necessária a difusão de seus princípios e de58 Comte é considerado um dos criadores da sociologia e, segundo Japiassú e Marcondes (2006, p. 49) 
procurava conciliar em sua proposta política de reforma social elementos da política conservadora, como a 
defesa da ordem, e da corrente liberal ou progressista, como a necessidade de progresso. Daí o famoso lema 
do positivismo comtiano, o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim. 
 
 
130 
seus valores, e é preciso que no modo de ser das relações de produção e 
reprodução social capitalista tais valores estejam devidamente 
homogenizados, determinando e direcionando todas as esferas da sociedade, é 
necessária a hegemonia de uma racionalidade própria desse modo de ser da 
sociedade, a racionalidade instrumental. O movimento da consciência no 
pensamento burguês atém-se ao entendimento que conhece e apreende a 
aparência, o fenômeno. 
 Como se verificou anteriormente, quando a consciência 
suprassume a dimensão da percepção e atinge o entendimento, as propriedades 
do objeto são apreendidas em sua universalidade incondicionada, elas não se 
tocam, e se relacionam com outros objetos somente para reafirmar a sua 
própria forma e o seu próprio conteúdo. Essa forma e esse conteúdo, no 
estágio do entendimento, são organizados por meio de leis gerais e por regras 
práticas. Tais características conformam os fundamentos metodológicos da 
racionalidade formal-abstrata, defendida e propagada pelo pensamento 
burguês em suas diversas correntes, como o positivismo, o pragmatismo, o 
empirismo lógico, o estruturalismo e o próprio irracionalismo. 
 Advém dessa condição de racionalidade hegemônica, portadora de 
princípios e valores homogeneizados no âmbito das relações de produção e 
reprodução da sociedade burguesa, a generalização de comportamentos, 
hábitos, costumes que conduzem ao automatismo, ao espontaneísmo e à 
mecanização das ações desencadeadas na esfera do cotidiano que absorvem o 
homem inteiro. 
A relação entre a racionalidade burguesa e o Serviço Social 
constitui objeto de análise de importantes estudos na literatura relativos à 
profissão, dentre os quais se destacam as produções de Iamamoto (1982; 
1998; 2002) e Netto (1996; 2001), Mota (1998; 2000), Guerra (1999), Barroco 
(2005), entre outros. A seguir, buscar-se-á apreender, com base nesses 
 
 
131 
estudos, as determinações, as mediações e as contradições que permeiam essa 
relação a fim de caracterizar descritivamente o conteúdo e as formas da 
prática profissional balizada pelo entendimento. 
 
2.2 A força do entendimento, o pensamento burguês e o Serviço Social 
 
A literatura recente do Serviço Social brasileiro expressa a 
crescente preocupação de um segmento da categoria59 em busca da elucidação 
das tramas que conectam o modo de ser da sociedade capitalista, sua 
racionalidade hegemônica e a profissão, o seu significado, a sua funcionalidade 
e as suas atribuições nos diferentes espaços sócio-ocupacionais. Dentre as 
produções de conhecimento que analisam essa relação destacam-se aquelas que 
contribuem para a compreensão crítica da prática profissional orientada pela 
racionalidade formal-abstrata. 
A obra de Iamomoto (1998; 2002; 2007) analisa a profissão 
inserida no processo de reprodução das relações sociais, desvelando o 
significado do Serviço Social e das práticas desenvolvidas em seu âmbito, 
por agentes especialmente qualificados: os assistentes sociais. O Serviço 
Social é apreendido como profissão inscrita na divisão social do trabalho, 
situando-se “no processo de reprodução das relações sociais, 
fundamentalmente como uma atividade auxiliar e subsidiária no exercício do 
controle social e na difusão da ideologia da classe dominante junto à classe 
trabalhadora”. (IAMAMOTO, In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 15). 
 
59 Refere-se ao segmento da categoria que se vincula aos cursos de pós-graduação e da produção do 
conhecimento na área do Serviço Social. Conforme sinaliza Netto (1999, p. 102), o Serviço Social. Como 
profissão, “não dispõe de uma teoria própria, nem é uma ciência; isto não impede, entretanto, que seus 
profissionais realizem pesquisas, investigações etc. e produzam conhecimentos de natureza teórica, inseridos 
no âmbito das ciências sociais e humanas. Assim, enquanto profissão, o Serviço Social pode se constituir, e 
tem se constituído nos últimos anos, como uma área de produção de conhecimentos (inclusive com o aval de 
agências oficiais de fomento à investigação, como é o caso do Conselho Nacional de Desenvolvimento 
Científico e Tecnológico – CNPQ)”. 
 
 
132 
A profissão, engendrada no processo de reprodução das relações 
sociais no contexto de aprofundamento do capitalismo monopolista na 
sociedade brasileira, defronta-se com o processo de reprodução das 
contradições criadas e expressas na totalidade das manifestações da vida 
social na esfera do cotidiano. No confronto com as contradições econômicas, 
sociais, políticas e culturais entre as classes sociais, o Serviço Social, afirma 
Iamamoto (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 94, 95), participa também 
 
do processo social, reproduzindo e reforçando as contradições 
básicas que conformam a sociedade do capital, ao mesmo tempo e 
pelas mesmas atividades em que é mobilizada para reforçar as 
condições de dominação, como dois pólos inseparáveis de uma 
mesma unidade . 
 
Com a chave heurística histórico e crítico-dialética Iamamoto 
(1998; 2002; 2007), no início da década de 1980, descortina as 
determinações, a legalidade da realidade sócio-econômico e político-cultural 
que incidem na prática profissional do assistente social na sociedade 
capitalista. 
As determinações sócio-históricas que permeiam as relações de 
produção na sociedade capitalista alicerçam e configuram os parâmetros da 
legalidade da profissão no âmbito da reprodução das relações entre as classes 
sociais: o Serviço Social gesta-se e se desenvolve como profissão, no contexto 
do capitalismo monopolista, quando o Estado, em face da “questão social”60, 
passa a intervir diretamente nas relações entre a classe burguesa e a classe 
trabalhadora, “estabelecendo não só uma regulamentação jurídica do mercado 
 
60 Para Iamamoto (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 77) “a questão social não é senão as expressões do 
processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da 
sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado” (grifos da 
autora). 
 
 
133 
de trabalho, através de legislação social e trabalhista específicas, como um 
novo tipo de enfrentamento da questão social”, assinala Iamamoto (In: 
Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 77). O novo tipo de enfrentamento da questão 
social encontra-se vinculado ao desenvolvimento das forças produtivas, ao grau 
de exploração da força de trabalho e da pressão da classe trabalhadora 
organizada na luta em defesa de melhores salários e melhores condições de 
vida. 
A prática profissional do assistente social insere-se e se 
desenvolve, portanto, em um complexo jogo de relações sociais entre o capital 
e o trabalho, no qual o Estado desempenha importante papel no controle e na 
regulação destas relações. Nesse jogo, o Estado quer parecer um ente neutro, 
acima dos interesses das classes sociais, mas se trata de uma pseudo-
neutralidade . 
Nesse contexto, o Estado cria e organiza instituições para a 
execução das políticas sociais e dos serviços sociais, requisitando 
trabalhadores de diferentes profissões. O assistente social insere-se nessas 
instituições como trabalhador, vendedor de sua força de trabalho em troca de 
um salário, e essa determinação é fundamental para compreender o significado 
social da profissão, sua legalidade e os limites e possibilidades da prática 
profissional. 
As instituições criadas pelo Estadoou pela sociedade civil, 
organizam as atividades assistenciais e de prestação de serviços sociais com 
base na racionalidade imanente à sociedade do capital, com objetivos claros 
para garantir e reforçar os interesses da classe social detentora do poder −a 
burguesia, ainda que tenha, também, de absorver as necessidades da classe 
trabalhadora. 
 A prática profissional não se realiza em qualquer espaço sócio-
ocupacional, ou em espaços institucionais destituídos de objetivos, de 
 
 
134 
princípios, de metas, de prioridades, de proposições, de estruturas 
organizativas, de conflitos e de ambivalências decorrentes das contradições e 
das relações entre as classes sociais. Na condição de assalariado e, sobretudo, 
em decorrência do espaço sócio-ocupacional atribuído ao assistente social na 
implementação das políticas sociais, a prática profissional tende a assimilar, de 
forma imediata, os princípios, os valores e os objetivos institucionais, a 
restringir-se às demandas constituídas e priorizadas pela instituição e aos 
limites estabelecidos pela de eleição de prioridades. 
O Serviço Social emerge e se afirma como uma profissão voltada 
para a intervenção na realidade. Essa condição peculiar apresenta o assistente 
social como um intelectual subalterno e uma das características de sua 
intervenção na realidade é constituir-se, predominantemente, como uma 
atividade auxiliar e subsidiária no exercício do controle social e na difusão da 
ideologia da classe dominante perante a classe trabalhadora, como se destacou 
anteriormente. 
Para os assistentes sociais que aderem e reforçam essa 
prerrogativa , consciente ou inconscientemente61, a intervenção na realidade 
encontra-se orientada pelo projeto da classe burguesa e, em seu processo de 
objetivação, propaga e reforça as premissas, os princípios e os valores da 
sociedade e do pensamento burguês. Iamamoto (1982, 2002) insere esse modo 
de intervir na realidade na discussão do papel da ideologia para a obtenção e 
fortalecimento do consenso social que objetiva o controle social. A autora 
destaca: 
 
61 Iamamoto (1982; 2002) problematiza igualmente e com o rigor advindo da matriz teórico-metodológica 
que fundamenta a sua análise, a teoria social de Karl Marx, a relação entre ideologia e consciência, afirmando 
que a “produção da consciência tem seu fundamento na prática da vida social tal como ela se configura, 
historicamente. Expressa a maneira como a dinâmica social vem sendo apreendida pelos diversos agentes 
sociais, em dados momentos históricos. Não se trata, pois de uma representação única e homogênea para 
todas as personagens sociais, enquanto portadoras de diversos interesses de classe” (IAMAMOTO. In 
Iamamoto e Carvalho, 1982, p.110). 
 
 
135 
Porém, o controle social não se reduz ao controle 
governamental e institucional. É exercido, também, 
através de relações diretas, expressando o poder de 
influência de determinados agentes sociais sobre o 
cotidiano de vida dos indivíduos, reforçando a 
internalização de normas e comportamentos legitimados 
socialmente. Entre esses agentes institucionais encontra-
se o profissional de Serviço Social (IAMAMOTO. In 
Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 108-109). 
 
O poder de influência desses agentes sociais advém das relações 
institucionais estabelecidas entre as classes sociais nos quais,, de um lado, se 
encontram alocados os recursos materiais, humanos e de infra-estrutura para 
a implementação das políticas sociais e dos serviços sociais e, de outro, os 
demandantes de tais políticas e serviços em busca da satisfação de suas 
necessidades humanas. Quando o assistente social adere acriticamente ao 
processo de reprodução dessas relações, reforçando e legitimando os 
interesses da classe burguesa, controladora do aparato estatal e as 
instituições empresariais que implementam serviços sociais, a sua intervenção 
na realidade visa a internalização de normas, de condutas e de 
comportamentos adequados à reprodução do capital, e a sua prática 
profissional é mensurada e valorada pelos parâmetros da racionalidade 
burguesa. 
De acordo com essa estratégia de dominação, vinculada a lógica 
de exploração por meio da extração da mais-valia, como analisa Iamamoto (In 
Iamamoto e Carvalho, 1982), o assistente social, no exercício de suas 
atividades em organismos institucionais estatais, para-estatais ou privadas, 
dedica-se ao planejamento, operacionalização e viabilização de serviços sociais 
 
 
136 
por eles programados para a população. A autora esclarece que o assistente 
social exerce funções relacionadas ao suporte à racionalização do 
funcionamento dessas entidades, além de funções de técnicas propriamente 
ditas. 
A função do assistente social conectada ao suporte à 
racionalização do funcionamento dessas entidades segue padrões 
estabelecidos oficialmente pelas instituições, segundo a lógica de dominação e 
de controle de conflitos e tensões sociais. As funções técnicas vinculam-se, 
segundo Iamamoto (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 113-114) a realização de 
atividades como: 
 
Seleção sócio-econômica para fins de “elegibilidade” do 
usuário, de acordo com as normas que regulam os serviços 
prestados, preparações dos “clientes” para seu 
“desligamento” da instituição ao término dos programas 
efetuados; interpretação das normas de funcionamento da 
entidade à população, explicitando seus direitos e 
deveres, cuja aceitação é pré-condição para o acesso à 
programação da entidade; encaminhamento dos 
solicitantes à rede de equipamentos sociais existentes, 
articulando uma retaguarda de recursos para a 
instituição; atendimentos individuais e grupais para 
orientação dos usuários face à necessidade por eles 
apresentada e/ou derivada de exigências do trabalho do 
próprio órgão; trabalhos comunitários; visitas 
domiciliares, treinamentos, organização de cursos, 
campanhas sócio-educativas; orientação e concessão de 
“benefícios” sociais previstos na legislação 
previdenciária/trabalhista, etc.; distribuição de auxílios 
materiais (grifos dos autores). 
 
 
 
137 
O conteúdo e a forma das atividades relacionadas à execução das 
funções técnicas do assistente social conformam-se aos parâmetros da 
racionalidade que objetiva a concretização das finalidades e dos interesses da 
classe burguesa, detentora do poder no aparato estatal e das instituições 
privadas. Entretanto, as demandas da classe trabalhadora, criadas e recriadas 
pelas contradições e antagonismos derivados das relações de produção e 
reprodução social e por ela reivindicadas, devem ser reconhecidas e 
minimamente atendidas. 
O próprio enunciado da atividade e a descrição do objetivo denota 
a racionalidade subjacente, como, por exemplo, seleção sócio-econômica para 
fins de elegibilidade do usuário, de acordo com as normas que regulam os 
serviços prestados. Está claro que a atividade serve a racionalização que 
permeia a implementação da política social e seus programas ou dos serviços 
sociais e à chamada eficácia dos recursos determinados para tal programa ou 
serviços sociais que são alocados para atender somente a uma parcela da 
população e não a todos os cidadãos que necessitam desses serviços. Trata-se 
da lógica que permeia a implementação de políticas sociais para a satisfação 
das necessidades da classe trabalhadora que participa da produção da riqueza, 
mas que se vê espoliada, com baixos salários e sem acesso a bens e serviços. 
O assistente social, que não detém os recursos ou os meios de 
trabalho e se insere nessa relação como vendedor de sua força de trabalho e 
participa do processo de trabalho coletivo, tende a aderir acriticamente a 
essa racionalidade, aos seus princípios, aos seus valores e à forma do como 
fazer. Os fundamentos históricos e teórico-metodológicos apreendidos no 
processo de formação, que estabelece a criticaà ordem do capital com base no 
pensamento marxista são descartados e considerados desnecessários, como 
teoria que não se aplica. A teoria que rompe com a imediaticidade é combatida 
e descartada. A racionalidade do pensamento burguês, presa ao cotidiano das 
 
 
138 
instituições, sobrepujou-se, e a prática profissional do assistente social 
impregna-se diariamente dos valores necessários para a reprodução da 
sociedade burguesa e suas contradições e antagonismos, para a reprodução 
das seqüelas da “questão social” que aparentemente o assistente social quer 
debelar com a sua ação. Nessas condições, segundo Iamamoto ( 1982, 2002), o 
assistente social é solicitado a intervir como fiscalizador da pobreza. 
Diz ainda, a autora que, em face da proximidade com a situação de 
vida da classe trabalhadora em seu cotidiano, aliada a uma bagagem científica 
que possibilite superar o caráter pragmático e empirista que caracteriza a 
intervenção profissional descrita, o assistente social “poderá obter uma visão 
totalizadora da realidade desse cotidiano e da maneira como é vivenciada pelos 
agentes sociais” (IAMAMOTO. In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 116). 
A crítica elaborada por Netto (2001) à prática profissional presa 
ao pensamento burguês é tão contundente e radical, com o objetivo de ir à raiz 
da questão quanto a de Iamamoto (1982; 2002, 2007). 
Netto (2001), com seu rigor teórico-metodológico e sua erudição, 
analisa e revela o complexo movimento da realidade econômica, sócio-política e 
cultural que cria a recria as determinações, as mediações e as contradições 
advindas do modo de produção e reprodução social. Nelas se inserem as 
relações entre as classes sociais e os seus embates permanentes como 
protagonistas de projetos histórico-sociais, a relação entre as classes sociais 
e o Estado, entre o público e o privado, no contexto do capitalismo monopolista 
em sua fase tardia e condiciona a emergência do Serviço Social como 
profissão. 
A tese de Netto (2001) relativa à estrutura sincrética do Serviço 
Social e a sua prática indiferenciada62 é uma referência para este estudo que 
 
62 Em torno dessa tese gira a polêmica relativa às possibilidades de rompimento com o sincretismo presente 
na prática profissional. A tese em pauta é objeto de crítica de Iamamoto (2007, p. 264 -283). 
 
 
139 
trata da imediaticidade da prática profissional do assistente social, pois 
permite vislumbrar a abertura de caminhos para problematizar a profissão à 
luz dessa categoria reflexiva própria da esfera do cotidiano. Em decorrência 
dessa angulação, retomar-se-ão, resumidamente, os fundamentos e os 
aspectos analíticos sobre as condições histórico-sociais de emergência do 
Serviço Social e sua estrutura sincrética elaborados por Netto (2001), que, 
certamente, contribuirão para desenvolvimento da linha argumentativa do 
presente estudo 
O primeiro aspecto que chama a atenção na análise de Netto 
(2001) referente às condições histórico-sociais de emergência do Serviço 
Social vincula-se exatamente às configurações do capitalismo na idade do 
monopólio que altera a dinâmica inteira da sociedade burguesa. Netto (2001, p. 
18-19) diz: 
ao mesmo tempo em que potencia as contradições 
fundamentais do capitalismo já explicitadas no estágio 
concorrencial e as combina com novas contradições e 
antagonismos, deflagra complexos processos que jogam no 
sentido de contrarrestar a ponderação dos vetores 
negativos e críticos que detona. 
 
Em busca do acréscimo dos lucros capitalista mediante o controle 
dos mercados, objetivo primário da organização monopólica63, dentre outras 
implicações, ocorre o aumento do quantitativo dos trabalhadores que se 
inserem no exército industrial de reserva, isto é, a elevação dos índices de 
 
63 Netto (2001, p. 20-21) sumaria os fenômenos que a organização monopólica, em busca de sua finalidade 
central, introduz na dinâmica da economia capitalista: “a) os preços das mercadorias (e serviços) produzidas 
pelo monopólio tendem a crescer progressivamente; b) as taxas de lucro tendem a ser mais altas nos setores 
monopolizados; c) a taxa de acumulação se eleva, acentuando a tendência descendente da taxa média de 
lucros e a tendência ao subconsumo; d) os investimentos se concentra nos setores de maior concorrência (...); 
e) cresce a tendência de economizar trabalho “vivo”, com a introdução de novas tecnologias; f) os custos de 
venda sobem , com um sistema de distribuição e apoio hipertrofiado (...)” (grifos do autor). 
 
 
140 
desemprego. A segunda implicação destacada por Netto (2001, p. 22) “é o 
parasitismo que se instaura na vida social em razão do desenvolvimento do 
monopólio” (grifo do autor). Esse parasitismo deve ser considerado, conforme 
o autor, por dois ângulos: o engendramento da oligarquia financeira e o divórcio 
da propriedade com a gestão dos grupos dos monopólios que traz à tona a 
natureza parasitária da burguesia e a generalizada burocratização da vida 
social relacionada, parcialmente, à queima do excedente, em razão da 
supercapitalização, em atividades que não criam valor. A monopolização, 
assinala Netto (2001, p. 23), 
 
dá corpo a uma generalizada burocratização da vida social, 
multiplicando ao extremo não só as atividades 
improdutivas stricto sensu, mas todo um largo espectro 
de operações que, no “setor terciário”, tão somente 
vinculam-se a formas de conservação e/ou de legitimação 
do próprio monopólio. 
 
O capitalismo monopolista repõe as contradições e os 
antagonismos do capitalismo concorrencial, cria e recria novas contradições, 
reorganiza a divisão internacional capitalista do trabalho e deflagra novos 
mecanismos de intervenção extra-econômicos. Tais mecanismos de intervenção 
extra-econômicos constituem os complexos processos que garantem a 
reprodução da ordem do capital, são obstáculos às forças políticas e culturais 
da classe trabalhadora que, como sujeitos para si, ponderam, denunciam, 
desvelam e lutam contra os vetores negativos e críticos que o modo de 
produção capitalista desencadeia e quer encobrir. 
Netto (2001) analisa a função do Estado e o seu 
redimensionamento para garantir as condições necessárias à acumulação e à 
 
 
141 
valorização do capital monopolista. Dentre essas funções, o Estado atém-se ao 
seu papel de comitê executivo da burguesia monopolista que deve se legitimar 
perante outras forças sociais e organizar um consenso. Uma das formas de 
legitimação e de organização desse consenso são as respostas dadas às 
seqüelas da questão social, por meio da implementação de políticas sociais. 
Faz-se desnecessário retomar a rica e complexa análise elaborada por Netto 
(2001) que apreende as mediações e particularidades que conectam, na 
totalidade da vida social, as relações entre as classes sociais, a questão social, 
o Estado e as políticas sociais que configuram o conjunto de processos 
econômico e sócio-políticos e condicionam a emergência do Serviço Social como 
profissão. Por outro lado, é preciso chamar a atenção para o conteúdo que 
trata dos vetores culturais impregnados no pensamento burguês fetichizado 
que despolitiza as relações sociais e apreende a questão social como um 
problema do indivíduo, psicologizando, moralizando, deseconomizando as 
relações entre as classes sociais. 
Esse caminho abre possibilidades para a compreensão do jogo de 
relações que permeiam a prática profissional do assistente social orientada 
por uma racionalidade atida a imediaticidade. Exposto resumidamente, sob 
pena de deixar para trás fios importantes tecidos por Netto (2001), o Serviço 
Social emerge como profissão quando a dinâmica da ordem monopólica cria o 
espaço sócio-ocupacional na divisão social e técnica do trabalho que estabelece 
as condições para a sua constituição. 
A instauração desseespaço sócio-ocupacional tem “sua base nas 
modalidades através das quais o Estado burguês se enfrenta com a questão 
social, tipificadas nas políticas sociais” (NETTO, 2001). As políticas sociais, 
além de suas dimensões políticas, constituem-se também como conjuntos de 
procedimentos técnico-operativos e requerem agentes técnicos em dois 
 
 
142 
planos, assinala Netto (2001): o da a sua formulação e o da sua 
implementação. 
No âmbito da implementação das políticas sociais, a natureza da 
prática técnica é essencialmente executiva, e os agentes profissionais 
alocados neste plano recebem a incumbência de executar as ações planejadas 
e deliberadas por atores cuja prática técnica se circunscreve ao plano da 
formulação das políticas sociais. O mercado de trabalho que se constitui para 
o Serviço Social aloca-se prioritariamente no plano da implementação, “ele é 
investido como um dos agentes executores das políticas sociais”, afirma Netto 
(2001). 
Ao assistente social são designadas funções executivas para o 
enfrentamento das seqüelas da questão social, transfiguradas em problemas 
sociais, cuja objetivação traduz-se, nas palavras de Netto (2001, p. 81), “numa 
operação em que se combinam dimensões prático-empíricas e simbólicas, 
determinadas por uma perspectiva macroscópica que ultrapassa e subordina a 
intencionalidade das agências a que se vinculam os atores64”. 
 Até a década de 1970, predominava, entre os assistentes sociais, 
a concepção que atribuía um seu suposto fundamento científico à 
institucionalização da profissão. As determinações, as mediações e as 
contradições que condicionam a emergência da profissão e a conectam à 
totalidade das relações sociais eram ignoradas. Netto (2001) desvela em sua 
crítica a conexão que essa concepção estabeleceu entre o estatuto teórico do 
Serviço Social e o seu estatuto profissional. Em breves palavras: até esse 
período predominavam concepções que hipotecam a institucionalização da 
profissão a uma maturidade científica , da qual o estatuto profissional é 
 
64 O desempenho das funções executivas dos assistentes sociais, profissionais assalariados independem da 
representação que delas façam. No entanto, mesmo conectados originalmente ao projeto sócio-político 
conservador vinculado à burguesia monopolista, “à medida que sua profissionalização se afirma os 
assistentes sociais tornam-se permeáveis a outros projetos sócio-políticos”, assinala Netto (2001). 
 
 
143 
estabelecido basicamente como dependente de seu fundamento científico65. 
Colada a essa concepção e dela derivada, a condição subalterna da profissão 
estaria relacionada ao fato de o Serviço Social apresentar-se como “profissão 
feminina”. Para os adeptos dessa concepção, ancorando a institucionalização da 
profissão à sua ascensão como ciência romper-se-ia com a sua subalternidade 
técnica. 
 A busca do chamado fundamento “científico” dá-se com base em 
duas proposições: a construção da teoria resulta da sistematização da prática 
ou pela translação e incorporação de bases teóricas de outras áreas de 
conhecimento (psicologia e sociologia). 
Netto (2001, p. 89) estabelece a crítica e aprofunda a análise 
alicerçando-se no conduto segundo o qual o esclarecimento do estatuto 
profissional do Serviço Social deve remeter-se ao “dinamismo histórico-social, 
que recoloca, a cada uma de suas inflexões, a urgência de renovar (e, nalguns 
casos, de refundar) os estatutos das profissões particulares”. O espaço de 
cada profissão na divisão social e técnica do trabalho opera-se de acordo com 
Netto (2001) mediante a intercorrência de um duplo dinamismo, sem a eles se 
restringir ou deles ser exclusivo: as demandas são socialmente dirigidas e as 
suas reservas próprias de forças teóricas e prático-sociais. 
Esse procedimento analítico, apoiado na crítica histórico-
dialética, conduz ao desmonte da concepção que coloca o estatuto profissional 
dependente do seu fundamento “científico”. Para Netto (2001, p. 92) essa 
percepção é uma ilusão, pois o problema está na “própria natureza sócio-
profissional do Serviço Social”. Quando ausente de um referencial teórico, 
 
65 Segundo Netto (2001), essa concepção vincula-se à necessidade de os assistentes sociais construírem uma 
auto-imagem da profissão que possa romper com suas protoformas. 
 
 
144 
crítico-dialético, trata-se de um exercício prático-profissional medularmente 
sincrético. Segundo Netto (2001, p. 92), o sincretismo66 parece ser 
 
O fio condutor da afirmação e do desenvolvimento do 
Serviço Social como profissão, seu núcleo organizativo e 
sua norma de atuação. Expressa-se em todas as 
manifestações da prática profissional e revela-se em 
todas as intervenções do agente profissional como tal. O 
sincretismo foi um princípio constitutivo do Serviço 
Social. 
 
Os fundamentos objetivos da estrutura sincrética do Serviço 
Social são: “o universo problemático original que se lhe apresentou como eixo 
de demandas histórico-sociais, o horizonte do seu exercício profissional e a 
sua modalidade específica de intervenção”, esclarece Netto (2001, p. 92). 
O universo problemático que se apresentou como eixo de 
demandas histórico-sociais para o Serviço Social foi a questão social. Para 
Netto (2001) a questão social por sua natureza difusa, pelo seu caráter 
polifacético e polimórfico, implica uma enorme variedade de intervenções 
profissionais, e deve ser apreendida no marco da intervenção operativa do 
assistente social no aparecer de sua totalidade, isto é, em sua 
fenomenalidade. 
O horizonte do exercício profissional do assistente social é o 
cotidiano, que se caracteriza por sua heterogeneidade, superficialidade 
extensiva e imediaticidade. A funcionalidade histórico-social do Serviço Social 
 
66 “Na história da filosofia, o sincretismo designa a tendência dos filósofos neoplatônicos a uma certa 
unificação arbitrária das mais variadas doutrinas que os precederam. Contrariamente ao ecletismo, o 
sincretismo constitui uma tendência para fundir todas as doutrinas anteriores. Hoje em dia, o termo adquire 
um sentido pejorativo, pois designa uma miscelânea das mais disparatadas idéias”, assinalam Japiassú e 
Marcondes, 2006, p. 254). 
 
 
145 
vincula-se à organização “dos componentes heterogêneos da cotidianidade de 
grupos sociais determinados para ressituá-los no âmbito desta mesma 
estrutura do cotidiano” (NETTO, 2001, p. 96). A organização dos componentes 
heterogêneos do cotidiano ocorre por meio da manipulação planejada , com o 
objetivo de inculcar valores morais e comportamentais para a ressocialização 
dirigida de segmentos da classe trabalhadora mais afetados pelas seqüelas da 
questão social. Os assistentes sociais inserem-se na divisão social e técnica do 
trabalho, prioritariamente, em funções executivas, isto é, não planejam ou 
decidem as bases valorativas do conjunto de ações a serem implementadas 
tendo em vista o enfrentamento das seqüelas da questão social, donde advém 
um dos aspectos constitutivo do traço subalterno da profissão. 
Netto (2001, p. 97) assinala que, dentre todos os profissionais 
alocados à organização do cotidiano de determinados grupos sociais, 
 
o assistente social é aquele que se vê posicionado de modo 
tal que o aparente sincretismo da matéria sobre a qual 
opera (a “problemática”) conjuga-se à perfeição com as 
condições da sua operação (a intervenção profissional 
como reordenadora de práticas e condutas cotidianas). 
 
O exercício profissional do assistente social situa-se no horizonte 
do cotidiano e, conjugado com a variedade de intervenções em face da matéria 
sobre a qual opera, refere-se a uma modalidade de intervenção profissional 
que contribui, de forma decisiva, para “inscrever o Serviço Social no círculode 
giz do sincretismo”, assinala Netto (2001, p. 97). 
A manipulação de variáveis empíricas de um contexto determinado 
encontra-se, segundo o autor, no centro dessa modalidade de intervenção. O 
exercício profissional do assistente social desencadeia ações cuja intenção é a 
 
 
146 
alteração de variáveis empíricas vinculadas às expressões da questão social, 
que, psicologizadas, são tomadas como problemas sociais de ordem moral e 
individual. Portanto, não se pretende alterar a estrutura social, mas o 
comportamento de indivíduos e grupos sociais para serem inseridos na 
realidade social vigente, considerada como dada. 
Netto (2001) destaca duas implicações relacionadas a esse fazer 
profissional. Trata-se de uma modalidade de exercício profissional que 
demanda um conhecimento social capaz de mostrar-se diretamente 
instrumentalizável e, segundo, repõe o sincretismo em sua dimensão 
intelectual. Essas duas implicações encontram sustentação em paradigmas 
explicativos que segmentam a realidade, vinculados à matriz positivista, à 
racionalidade formal-abstrata. Para Netto (2001), destacam-se dois aspectos 
que marcam a relação do Serviço Social com os produtos das ciências sociais: a 
sua condição de receptor, passiva, a-crítica e a sua necessidade de unir as 
contribuições das ciências sociais “num quadro de referência minimamente 
articulado e estável − uma espécie de sistema de saber de segundo grau“67, 
que implica uma atitude ativa. Uma das decorrências dessa relação é a 
assimetria nos procedimentos teóricos, nos tratamentos técnicos e nas 
operações analíticas. O saber de segundo grau é eminentemente sincrético e 
sua fase visível é o ecletismo e deve ter pertinência direta com a prática 
profissional, afirma Netto (2001). 
A estrutura sincrética do Serviço Social, cujos fundamentos se 
encontram mutuamente imbricados e indissociáveis, tem no pensamento 
positivista fetichizado o sustentáculo para a sua reprodução. O exercício 
 
67 O saber de segundo grau é “obtido pela acumulação seletiva dos subsídios das ciências sociais conforme as 
necessidades da própria profissão. A história profissional do Serviço Social, a partir da vertente norte-
americana e, depois, da sua afirmação hegemônica, em escala mundial, é uma sucessão de sistemas de saber 
des quilate”, assinala Netto (2001, p. 146). 
 
 
147 
profissional moldurado por estas referências, sem o suporte da teoria social 
crítico-dialética, limita o seu marco operacional como prática. 
A heterogeneidade do seu universo problemático constitui o eixo 
de suas demandas histórico-sociais e de sua complexidade em um contexto de 
reversão dos direitos sociais e de avanço das medidas neoliberais que 
apregoam a seletividade como estratégia para a implementação das políticas 
sociais; o seu horizonte profissional circunscreve-se à cotidianidade, 
intensificada pelo ritmo e regularidade da sociedade do consumo e a 
intervenção condicionada pela manipulação de variáveis empíricas, relativa ao 
entendimento que apreende a realidade somente em sua fenomenalidade e que 
conduzem à prevalência da imediaticidade que norteia a prática profissional. 
Em outras palavras: o movimento da consciência não captura o movimento da 
realidade em sua totalidade contraditória e, em decorrência, não suprassume a 
dimensão do entendimento para a razão dialética, o objeto é apreendido pelo 
assistente social apenas no aparecer de sua totalidade, que nada mais é do que 
o fenômeno, sua aparência. 
Destaca-se como característica da prática profissional guiada 
pela imediaticidade a conexão imediata entre pensamento e ação, que 
redundam, no limite, em reações espontâneas, mecânicas, imediatistas, 
repetitivas, como fim em si mesmas. Nessas condições, o conhecimento que o 
profissional tem da realidade circunscreve a aparência do fenômeno, no qual as 
demandas sócio-institucionais, conforme expõe Pontes (1997, p. 168), 
aparecem 
 
ao intelecto do profissional despida de mediações, 
parametrada por objetivos técnico-operativos, metas e 
uma dada forma de inserção espacial (bairro, município 
 
 
148 
etc), programática (divisão por projetos ou áreas de ação) 
ou populacional (crianças, idosos, migrantes, etc). 
 
O estudo realizado por Netto (2001) refere-se ao período 
histórico que data da emergência do Serviço Social até a década de 1980, e as 
suas bases e premissas explicam e desvelam os fundamentos que alicerçam o 
Serviço Social, abrindo pistas importantes para a reflexão e o 
descortinamento do movimento da totalidade do ser social, do qual o Serviço 
Social é parte constitutiva e constituinte. 
A indagação que se apresenta com base nessa perspectiva de 
análise é a possibilidade da prática profissional do assistente social superar a 
imediaticidade, cujo horizonte é a cotidianidade, na qual há prevalência de 
ritmos, regularidades e comportamentos fincados essencialmente no 
pensamento formal-abstrato. Netto (2001, p. 149) afirma que, 
independentemente da superação do seu lastro no pensamento conservador e 
no pensamento formal-abstrato, não se erradica o sincretismo do exercício 
profissional do assistente social, uma vez que o estatuto fundamental do 
Serviço social é de constituir-se “uma atividade que responde, no quadro da 
divisão social (e técnica) do trabalho da sociedade burguesa consolidada e 
madura, as demandas sociais prático-empíricas” 
Essa premissa impõe a necessidade de compreender o solo, em 
que se desenvolve o exercício profissional − o cotidiano, as bases racionais do 
pensamento hegemônico que permeiam as instituições sociais nas quais os 
assistentes sociais exercem a profissão e as elaborações teórico-práticas do 
Serviço Social. Outra referência importante para compreender a racionalidade 
do pensamento burguês é a apontada por Guerra68 (1999). A autora 
 
68 As bases filosóficas e sociológicas do pensamento formal-abstrato foram analisadas criticamente por 
Yolanda Guerra, A instrumentalidade do serviço social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1999. 
 
 
149 
compreende criticamente a relação entre o pensamento formal-abstrato e o 
Serviço Social, ao longo do processo de constituição sócio-histórica das 
políticas sociais e da profissão. 
 Guerra (1999) apreende as dinâmicas, as determinações, as 
mediações e as contradições presentes no processo de desenvolvimento das 
forças produtivas na sociedade capitalista que conduz e potencializa o 
processo de racionalização dos meios e instrumentos de trabalho. A autora 
apropria-se dessa dinâmica com base na perspectiva ontológica marxiana, na 
qual toda forma de objetivação humana carece de meios, instrumentos e 
modos específicos para sua concretização. Na sociedade capitalista, a 
dimensão instrumental generaliza-se, transformando-se no paradigma de 
relação entre os homens, reduzindo a razão substantiva (a razão dialética). A 
racionalidade instrumental tem vínculos intrínsecos com a divisão social e 
técnica do trabalho e o desenvolvimento das forças produtivas na sociedade 
capitalista e visa o aumento da produção e da acumulação do capital. 
Por configurar-se como a racionalidade própria da sociedade 
capitalista, a racionalidade instrumental − formal abstrata − espraia-se por 
todos os quadrantes, invade os espaços do trabalho, da cultura, da economia, 
da política, da vida cotidiana, impregnando os seus valores, os seus ritmos, as 
suas regularidades e os comportamentos a ela adequados. As atividades são 
fragmentadas, parcializadas e valoradas por seus resultados, mensuradas 
quantitativamente, determinadas pelos instrumentos de trabalho. Respeitados 
esses parâmetros, ao analisar o exercício profissional do assistente social, 
Guerra (1999, p. 157) afirma: 
 
se o produto final do trabalho do assistente social 
consiste em provocar alterações no cotidianodos 
segmentos que o procuram, os instrumentos e técnicas a 
 
 
150 
serem utilizados podem variar, porém devem estar 
adequados para proporcionar os resultados concretos 
esperados. Para tanto, as ações instrumentais − 
mobilização de meios para o alcance de objetivos 
imediatos − são, não apenas suficientes como necessárias. 
Contudo não pode prescindir de um conjunto de 
informações, conhecimentos e habilidades que o 
instrumentalize. 
 
As alterações no cotidiano dos segmentos que procuram o Serviço 
Social apresentam-se, primeiramente, como posições teleológicas, são 
planejadas previamente com objetivos a serem atingidos, e como tais, não são 
estabelecidos pelo profissional. Na objetivação dos princípios e dos valores 
contidos nas atividades, cujas formas e conteúdos se encontram dados quando 
executadas a-criticamente, os assistentes sociais comparecem na divisão 
social e técnica do trabalho como profissionais dotados de experiência para a 
execução da atividade, capazes de manipular as variáveis empíricas e com 
habilidade para atenuar os conflitos. As variáveis empíricas são manipuladas 
em sua fenomenalidade por meio de rotinas que se concretizam com base nas 
“estruturas técnicas, legais, burocráticas, formais e, portanto, da lógica em 
que se inscrevem as políticas sociais”, assinala Guerra (1999, p. 158). 
Se tais estruturas são aceitas passivamente como se 
encontrassem aprioristicamente dadas, a prática do assistente social 
orientada pela lógica formal-abstrata, circunscreve-se à fenomenalidade dos 
processos sociais. Consciente ou inconscientemente, o assistente social 
conhece a realidade apenas no aparecer de sua totalidade, que culmina no 
movimento da consciência na dimensão do entendimento. 
 
 
151 
Na esfera do cotidiano, a tendência do pensamento burguês que 
orienta esse comportamento é a busca do fim, sem questionar o significado 
das objetivações, da prática profissional. Tal fim, como afirmado 
anteriormente, não é projetado, antevisto pelo assistente social, mas por 
outros profissionais que, na divisão social e técnica do trabalha, planejam as 
políticas sociais e os serviços sociais. O saber que o assistente social deve 
dominar são aqueles necessários para a manipulação de variáveis empíricas, 
tendo em vista os resultados concretos esperados, os objetivos imediatos. O 
saber determinante nesse processo guia-se pelo caráter da utilidade, como 
valor de troca e, nesse sentido, não há necessidade de questionar a gênese dos 
fenômenos sociais, ou a função da prática profissional. 
Redunda dessa atitude acrítica, a fixação da prática profissional 
no âmbito do cotidiano, que estabelece a relação imediata entre pensamento e 
ação. Essa prática não abandona o cotidiano para retornar a essa esfera do ser 
social enriquecida pelo desvelamento da essência, oculta na imediatez dos 
fenômenos e processos sociais. 
Na ausência de instrumento teórico-metodológico para desocultar 
a realidade para além de suas expressões fenomênicas, os conhecimentos, as 
habilidades que instrumentalizam a prática profissional, ou a subjetividade 
presente na vida cotidiana, oscilam constantemente entre os motivos 
imediatos e instantâneos e as decisões baseadas em fundamentos rígidos como 
as tradições, os costumes, as rotinas legais e burocráticas. Guiado pelas 
motivações instantâneas e os processos rígidos estabelecidos por meio de 
estruturas técnicas, legais, burocráticas, o profissional estabelece os seus 
interesses, e que é útil para ele, para a instituição, para o usuário, depende da 
retórica. A teoria dissolve-se em decorrência da utilidade, uma vez que não há 
nenhuma verdade superior à realidade cotidiana, àquilo que resulta da prática 
do dia-a-dia que é preciso manipular em seu favor. O pensamento que conecta 
 
 
152 
imediatamente teoria e prática e guia-se pelo critério da utilidade é o 
pragmatismo, que defende o empirismo e o utilitarismo. 
O pragmatismo, segundo Vazquez (1977, p. 211), “ depura o 
aspecto rudimentar do senso comum, alçando-o ao nível da doutrina filosófica”. 
A retórica desse pensamento busca atingir os interesses do homem da rua, e 
se encontra próximo ao senso comum, espraiando-se na esfera da vida 
cotidiana. Na sociedade capitalista, os interesses econômicos demarcam os 
critérios para aferir a validade do conhecimento. A prática, conforme esse 
pensamento, é concebida como “a ação subjetiva do indivíduo destinada a 
satisfazer os seus interesses” (VASQUEZ, 1977, p. 211). 
A atitude pragmática em face dos processos sociais conduz ao 
questionamento das teorias, a sua utilidade, pois a função e a gênese dos 
fenômenos sociais não são colocadas em questão. Como esse pensamento é mais 
próximo do senso comum, sua reprodução no âmbito do cotidiano dá-se pela 
naturalização dos fenômenos sociais e da própria sociedade capitalista. Esse 
tipo de pensamento tem norteado a prática profissional dos assistentes sociais 
em seus diferentes espaços sócio-ocupacionais, públicos e privados. 
No entanto, quando o Serviço Social é requisitado diretamente 
pelas empresas69 para atuar com os trabalhadores, a racionalidade histórico-
crítica tende a ser questionada pelo assistente social com maior veemência, em 
razão de sua adesão à lógica formal-abstrata, defendida ideologicamente pela 
instituição, cujos conteúdos se encontram transmutados na forma de 
estruturas técnicas, legais e burocráticas do espaço sócio-ocupacional. 
Nesse espaço, o Serviço Social intervém nas “situações que 
interferem na produtividade da força de trabalho”, afirma Mota (1998, p. 
 
69 Mota (1998, p. 39) conceitua a empresa como “uma instituição cujo objetivo é gerenciar capital e trabalho 
na produção de bens e serviços que se transformam em mercadorias. Através desse gerenciamento, ela 
assegura a valorização do capital, acumulando-o e reproduzindo-o e tendo na produção da mais-valia um 
instrumento para a obtenção de lucros” . 
 
 
153 
130). Os valores absorvidos pelo assistente social alocado nesse espaço sócio-
ocupacional e transmitidos aos trabalhadores visam a produtividade 
(mensurada pela quantidade de força de trabalho despendida e materializada 
em mercadorias no menor tempo de trabalho), a eficácia (valorada pela 
equação resultante do aproveitamento relacionado à utilização da matéria 
prima, dos meios de produção disponíveis e o produto final), a qualidade 
(propriedade do produto), a disciplina (cumprimento de horários e de rotinas 
dentro e fora do espaço de trabalho) e a hierarquia (reconhecimento e 
respeito aos diversos níveis de autoridade que se legitimam pelo poder de 
mando ou pelo conhecimento). 
A partir da década de 1970, com a reestruturação produtiva, 
outros valores foram alçados à condição de essências na relação capital e 
trabalho. Em face do desemprego estrutural, da constante ameaça de expulsão 
do mercado de trabalho e da utilização de tecnologia de ponta no processo 
produtivo, os trabalhadores, além dos valores já mencionados, devem 
exercitar cotidianamente a criatividade (descobrindo mecanismos relacionados 
à tecnologia e à organização do trabalho para intensificar a produção), a 
colaboração (para garantir o seu posto de trabalho é necessário colaborar para 
que a empresa aumente sua produtividade e lucratividade, empresários e 
trabalhadores, portanto, devem jogar do mesmo lado) e a polivalência 
(encontrar-se apto para desenvolver múltiplas funções). 
Esse quadro de referências prevalecente na lógica produtiva do 
mercado translada-se para os espaços públicos. O balizamento para aferir a 
eficácia e a qualidade dos serviços públicos é mensurado segundo a lógica do 
mercado, aumentando a pressão sobre o alcance de resultados com base na 
quantidade de atendimento e da resolução imediata das demandas sociais, 
intensificando os processos de trabalho e conduzindo à agilizaçãodo 
atendimento. 
 
 
154 
A classe burguesa dispõe de complexos sociais70 e mecanismos 
diferenciados para inculcar os valores e objetivos próprios e necessários ao 
modo de produção capitalista. A organização produtiva e o consenso acerca 
dela são fundamentais e transcendem a si mesmos. Os trabalhadores assimilam 
os comportamentos, as normas, as técnicas, as habilidades necessárias para 
tornarem-se funcionais à ordem do capital, como vendedores da única 
mercadoria de que dispõem, a força de trabalho. Esses valores passam da 
produção para outras esferas da vida social. Como vendedor de sua força de 
trabalho, o assistente social não se situa fora dessa lógica, na qual se insere e 
participa de sua reprodução. 
Quando o profissional apreende a dinâmica dessa sociedade 
apenas pelo viés do pensamento burguês, a sua consciência acerca do 
movimento do real e a sua prática baliza-se pela imediaticidade alojada na 
certeza sensível, na intuição e no entendimento, participando mecanicamente 
da reprodução das relações sociais. 
Como essa prática, que se atém à consciência e à apreensão da 
realidade na dimensão do entendimento, é descrita pelos profissionais do 
Serviço Social? Quais são as características que sobressaem na prática 
profissional permeada pela racionalidade formal-abstrata? Com base em 
pesquisas recentes relativas ao exercício profissional do assistente social, 
pela análise das comunicações apresentadas por assistentes sociais no XI 
Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, realizado em 2004, e em artigos 
 
70 Dentre esses complexos, encontram-se o Estado e a cultura. O Estado, na implementação de políticas 
sociais, reforça a cultura que é própria da estrutura organizativa do modo de produção capitalista. Dentre as 
políticas sociais, a educação formal cumpre um papel essencial tanto na assimilação dos valores funcionais á 
ordem do capital quanto na formação da força de trabalho. O aprendizado não se atém somente aos 
conteúdos, mas aos aspectos não-cognitivos. Segundo Costa (1978, p. xii ), as práticas pedagógicas 
contribuem para a formação de traços não-cognitivos, isto é, “os valores e normas internalizados pelo 
indivíduo, e que, se traduzem em atitudes, enquanto opiniões verbalmente manifestadas, e em forma de 
comportamentos possíveis de serem observados”. 
 
 
155 
de relatos de experiências profissionais publicados em revistas, buscar-se-á 
apreender as características que conformam essa prática. 
 
2.3 Descrição da prática profissional do assistente social orientada pelo 
entendimento 
 
A prática profissional do assistente social, cujo movimento da 
consciência repousa no entendimento, encontra a aparência dos fenômenos e a 
toma como se fosse a essência. Nessa dimensão do movimento da consciência 
em busca do conhecimento do real, o conceito emerge da reflexão referente 
ao interior do próprio fenômeno como uma totalidade do aparecer. Os 
fenômenos não revelam o que é a realidade, a essência está escondida sob a 
aparência das coisas, e o conteúdo encontra-se envolto pela forma, pelo 
formalismo. 
Os aspectos que sobressaem na análise e na descrição dos 
assistentes sociais acerca da prática profissional orientada pelo entendimento 
são a naturalização e a fragmentação dos processos e fenômenos sociais e a 
questão do método de conhecimento/intervenção na realidade. 
O primeiro aspecto a ser ressaltado na forma de conceber a 
realidade apreendida em sua fenomenalidade é a naturalização dos processos 
sociais. Os assistentes sociais que orientam a sua prática ou têm a sua prática 
orientada pela racionalidade formal-abstrata tomam os processos sociais em 
sua fenomenalidade, e eles, se apresentam como se estivessem dados. 
Na descrição da prática profissional, a naturalização dos 
fenômenos sociais tem expressão na forma como as seqüelas da questão social 
são enfrentadas no cotidiano: como problema do indivíduo, pela negação do 
caráter classista da questão social, pela adequação do exercício profissional às 
estruturas técnicas, legais e burocráticas das instituições e como demandas 
 
 
156 
que se apresentam e são reconhecidas e respondidas de forma imediata pelo 
assistente social. Tais características acham-se organicamente imbricadas, 
mas, tomadas como indiferentes e independentes entre si mesmas, e a forma, 
portanto, cinde-se do conteúdo, porque ele já está dado. A forma, considerada 
em si mesma, conduz a consciência a apreender o fenômeno como evanescente, 
e, por isso, a própria forma se desmorona e, tratada como independente do 
conteúdo, ela se torna o próprio conteúdo. 
Nessas condições, quando o assistente social é chamado a indicar 
as demandas atendidas pelo Serviço Social, ora elas aparecem como o 
procedimento técnico (apoio, triagem71, laudo, estudo de critério de 
elegibilidade, visita domiciliar, cadastramento, reunião, orientações), ora 
aparecem como instrumental técnico (entrevista, estudo ou ficha sócio-
econômico, questionário), ora como problema social (relacionamento, conflito 
familiar, doenças, etc.); ora como estratégias de ação (agilização de vagas, 
entrega de cesta de alimentos, Benefícios de prestação continuada, contatos 
com escola, encontros com famílias, etc.). 
A naturalização72 dos processos sociais invoca a concepção 
dualista de sociedade. De um lado, há a coisa em-si, os fenômenos que já estão 
dados, não podem ser conhecidos e nem modificados, devem ser aceitos pois 
não pertencem ao reino dos homens, não resultam das relações entre os 
homens, e, de outro, os fenômenos que podem ser conhecidos por meio da 
intuição e do entendimento. 
 Outro aspecto a ser ressaltado é a fragmentação dos processos 
sociais. A realidade, segundo Lukács (1979a, p. 79), é constituída por 
 
71 Verifica-se a utilização de terminologias diferenciadas para caracterizar procedimentos técnicos que visam 
a qualificação da demanda ou do serviço prestado, como a triagem e o estudo para fins de elegibilidade para 
atendimento. 
72 A naturalização dos processos sociais tem vinculação com a reificação. Os fenômenos sociais reificados 
adquirem existência autônoma, fora do movimento histórico que cria e recria as relações sociais. 
 
 
 
157 
“complexos dinâmicos multifacéticos e por suas múltiplas relações dinâmicas, 
enquanto o intelecto é capaz de captar apenas o fenômeno imediato e suas 
reproduções abstratas”. Os fenômenos captados em sua imediatez aparecem 
como uma universalidade incondicionada, como uno, como um fragmento que se 
relaciona com o outro apenas para firmar as suas propriedades e, delas, 
derivar o conceito em si. O entendimento não estabelece a conexão dialética e 
contraditória entre as coisas, os processos sociais, mas sim a razão dialética. 
Em decorrência, na dimensão do entendimento, os objetos parecem ter uma 
existência autônoma, e esse é o princípio da fragmentação. Acerca da relação 
entre o entendimento e a razão, Lukács (1979a, p. 79) esclarece: 
 
a razão se desenvolve sempre a partir do intelecto, mas 
ambos – na medida em que são orientados para a mesma 
realidade – usam as mesmas categorias enquanto 
princípios ordenadores da realidade (embora essa seja 
captada diferentemente); ou seja, usam as determinações 
reflexivas, “só” que o intelecto realiza essa operação na 
falsa separação imediata e a razão o faz na verdadeira 
coordenação dialeticamente contraditória. 
 
 O objeto destituído das conexões dialéticas e contraditórias com 
os demais objetos relaciona-se com a universalidade apenas para firmar o que 
ele é em si, como uno incondicionado. 
 Para o Serviço Social, essa fragmentação resulta em 
conseqüências que se relacionam com a própria natureza difusa e polimórfica 
da questão social, como afirmam Netto (2001) e Guerra (1999). A 
fragmentação dos complexossociais é a forma ideo-política como a sociedade 
capitalista responde às contradições sócio-econômicas e político-culturais 
 
 
158 
geradas pelas relações de produção e a reprodução social para garantir o 
controle social, tendo em vista os antagonismos entre as classes fundamentais. 
Como os processos sociais são fragmentados, as respostas às contradições e 
aos antagonismos que emergem das relações entre as classes sociais também o 
são. 
As respostas às seqüelas da questão social são pulverizadas em 
políticas sociais tipificadas: trabalho, saúde, educação, assistência social, lazer 
e cultura, previdência, habitação, segurança e saneamento. No interior de cada 
política social a realidade é novamente fracionada em programas e projetos 
que se organizam segundo o enfrentamento de cada conjunto de problemas 
reconhecidos pelas classes sociais e pelo Estado. A política de saúde, por 
exemplo, é recortada conforme essa lógica: serviço primário ou rede de 
atendimento básico, serviço secundário ou rede de atendimento hospitalar, 
serviço terciário ou rede hospitalar de atendimento complexo. No interior de 
cada um desses serviços, os programas e projetos visam o atendimento de 
problemáticas específicas. Essa estruturação técnica, legal e burocrática, 
quando absorvida a-criticamente pelos profissionais do Serviço Social, tende 
ser reproduzida, e, em decorrência, surge o serviço social da saúde, serviço 
social de empresas, serviço social da habitação, serviço social psiquiátrico, 
serviço social hospitalar, etc. 
A compreensão do Serviço Social determinada pela forma 
fragmentada de inserção e apreensão da realidade com base em políticas 
sociais tipificadas ou em problemas sociais singulares tem a sua raiz no 
pensamento positivista e se encontra presente desde a emergência da 
profissão. Na atualidade, a tendência à fragmentação do Serviço Social em 
especialidades ganha força e visibilidade pelo grau de competitividade no 
mercado de trabalho, decorrente da corrida das profissões pelos espaços 
sócio-ocupacionais, pela quebra das fronteiras entre os saberes e a exigência 
 
 
159 
de uma mão-de-obra que domine, ao mesmo tempo, conhecimentos gerais para 
o exercício de múltiplas tarefas e conhecimentos específicos para responder à 
segmentação interna. 
A fragmentação desdobra-se, ainda, conforme o perfil sócio-
econômico e cultural dos trabalhadores que procuram acessar as políticas e os 
serviços sociais. O segmento para o qual se destina o atendimento é 
denominado de população alvo: criança e adolescente, idoso, mulher, portador 
de necessidades especiais, diabéticos, adolescente infrator, família, etc. 
A fragmentação vincula-se diretamente à complexidade da 
realidade mas também à crescente necessidade de a burguesia manter o 
controle social utilizando, dentre outras armas, o pensamento burguês 
fetichizado que oculta a dinâmica dos complexos sociais e apreende a 
realidade somente em sua imediatez, em fragmentos que, em relação ao todo, 
guardam independência e têm uma função específica. 
Para esse tipo de pensamento, a naturalização e a fragmentação 
dos processos sociais são princípios determinantes que forjam o que Coutinho 
(1972) denomina sentimento de mundo. Em congruência com esses princípios, 
há o próprio método, ou, na acepção positivista, o conjunto de procedimentos 
racionais, baseados em regras racionais que visam atingir um objetivo 
determinado, o conhecimento do objeto, dos fatos sociais. 
No âmbito do Serviço Social brasileiro, do ponto de vista da 
perspectiva positivista, doutrina e expressão do ideário do pensamento 
burguês, a questão do método deve ser averiguada sob dois ângulos: como 
método de conhecimento e como método de ação ou metodologia da 
intervenção. Entre o primeiro e o segundo há uma cisão. Nessa perspectiva 
analítica, o método de conhecimento vincula-se ao processo de abstração, da 
formulação da teoria que, por princípio, deve ter uma utilização prática. O 
método de intervenção ou a metodologia de intervenção circunscreve-se às 
 
 
160 
fases que compreendem o estudo da realidade ou diagnóstico − levantamento e 
interpretação dos dados com o objetivo de identificar a situação-problema; a 
intervenção − o desenvolvimento do plano, da ação das atividades; e a avaliação 
− mensuração do resultado da intervenção. Nessas fases que comportam a 
metodologia de intervenção, identificam-se e se definem o objeto e os 
objetivos da intervenção profissional, os procedimentos de ação e os 
instrumentais técnicos a serem utilizados. 
O exercício profissional do assistente social, permeado e 
fundamentado no pensamento burguês, não contempla a unidade entre teoria e 
prática. Embaralhadas e comumente utilizadas de forma dicotômica, há a 
teoria, de um lado, como instrumento explicativo e justificador da realidade e, 
de outro, a prática, que se refere à intervenção na realidade, à efetivação de 
ações. O questionamento acerca dessa disjunção, no âmbito do Serviço Social 
latino-americano, surge com o movimento de reconceituação73, no período de 
1965 a 1975. Esse movimento estabeleceu a crítica ao Serviço Social 
tradicional e aos seus métodos de intervenção: caso, grupo e comunidade. No 
Brasil, essa crítica resultou na experiência de Belo Horizonte74 e nas 
proposições modernizadoras, de caráter desenvolvimentista, vinculadas às 
necessidades do projeto burguês-ditatorial, de Araxá e Teresópolis. 
Nesse contexto, para essa perspectiva modernizadora do Serviço 
Social brasileiro, de viés estrutural-funcionalista, a junção entre teoria e 
prática ocorreria pela elevação do Serviço Social a condição de ciência75, da 
qual adviria uma concepção científica da prática profissional e uma 
metodologia do Serviço Social. Essa concepção separa os procedimentos 
 
73 O movimento de reconceituação, que emergiu na América Latina como uma reação crítica ao Serviço 
Social tradicional e sua prática funcionalista, propõe um Serviço Social crítico, comprometido com os 
interesses da classe trabalhador, com interlocução crítica com as ciências sociais e o reconhecimento da 
dimensão política da profissão entre outros. Para Netto (2005), o movimento de reconceituação permaneceu 
como um capítulo inconcluso, asfixiado pelas ditaduras latino-americanas em meados da década de 1970. 
74 Dessa experiência resulta o método BH, analisado no quarto capítulo. 
75 Os documentos de Araxá (1967) e de Teresópolis (1970) explicitam claramente essa proposição. 
 
 
161 
destinados à manipulação das variáveis e dados empíricos e a seqüência dos 
procedimentos de ação, aplicáveis ao planejamento, à administração e à 
prestação de serviços diretos. O primeiro passo é o diagnóstico, o segundo, a 
intervenção. 
Montaño (1998, p. 156) analisa e demonstra como as principais 
formulações76 teórico-metodológicas desse período, e mesmo aquelas que se 
fundamentavam na perspectiva dialética mantêm a “segmentação positivista 
ciência e técnica, a naturalização da realidade e o apriorismo metodológico”. 
Em decorrência da prevalência da dualidade entre o conhecer e o 
fazer que persiste na contemporaneidade, é pertinente indagar o significado 
da expressão conhecimento da realidade para o assistente social que 
desenvolve a sua prática tendo como horizonte a esfera do cotidiano. 
O pressuposto que conduz à compreensão dessa expressão 
encontra-se na divisão social e técnica do trabalho, donde, de um lado, há 
aqueles que conhecem a realidade, constroem conhecimentos, organizam 
sistemas produtivos e administrativos, planejam ações e estabelecem 
parâmetros de avaliações e, de outro, aqueles que executam. O pensamento 
burguês sustenta-se em pressupostos que prevalecem no sistema de produção 
capitalista e que dicotomiza teoria e prática. Essa primeira questão remete a 
uma segunda, de igual relevância para compreendero significado da expressão 
conhecimento da realidade para o assistente social que desenvolve a sua 
prática profissional tendo o cotidiano como horizonte: o processo de 
intervenção inicia-se com a ação, a atividade propriamente dita? 
Na perspectiva do pensamento burguês, o método de 
conhecimento e a metodologia de ação encontram-se apartados. O método de 
 
76 Montaño (1998) analisa comparativamente os fundamentos e as proposições contidas no método básico, 
formulado pela Escuela de Trabajo Social da Universidad Católica de Santiago de Chile, o método BH e o 
método de Boris Lima. 
 
 
 
162 
conhecimento para ter valor científico, deve possibilitar a construção de uma 
teoria, com base na formulação de hipóteses, na utilização de recursos da 
lógica formal, na realização de experimentos e na adoção de rigorosos 
procedimentos de observação dos fenômenos, decompondo-os, averiguando a 
repetição de regularidades, quantificando-as e unificando-as em diversas leis 
e regras práticas. Nessa direção, para um segmento profissional, a expressão 
conhecimento da realidade vincula-se ao método de conhecimento, tendo em 
vista a construção de uma teoria. Com base na premissa desse vínculo direto 
entre conhecimento da realidade, sistematização da prática e produção do 
conhecimento se alçaria o Serviço Social à condição de ciência. 
A expressão conhecimento da realidade, no entanto, não pode se 
referir à sistematização da prática profissional. Netto (2001) e Montaño 
(1998) problematizam essa questão, e, para esses autores, é claro e inequívoco 
que a sistematização da prática profissional do assistente social não produz 
conhecimento teórico, não conduz ao conhecimento da realidade em sua 
essência, e o Serviço Social não é uma ciência. Da crítica elaborada por Netto 
(1996) à perspectiva modernizadora e por Montaño (1998) ao praticismo 
profissional, é possível afirmar que o conhecimento da realidade se refere, 
segundo a tradição positivista, à manipulação de variáveis e dados empíricos, 
ao conhecimento superficial da realidade, ao diagnóstico77 da realidade − 
concebido como a primeira sistematização elaborada com base na prática. 
Dessa compreensão de conhecimento da realidade redunda a 
compreensão de prática profissional como o procedimento interventivo de 
campo, a ação que modifica superficialmente as variáveis empíricas 
 
77 Montaño (1998) estabelece a crítica à compreensão que concebe a teoria como sistematização da prática. 
Segundo o autor, a sistematização “resulta do processo de seleção, ordenamento, priorização e categorização 
dos dados extraídos de uma prática localizada e singular”. Assim concebida a sistematização coincide com o 
“diagnóstico”. 
 
 
163 
apreendidas em sua imediatez pela prática profissional cotidiana, conectando 
de forma direta o pensamento e a ação. 
O assistente social que tem como horizonte da prática 
profissional o cotidiano conhece a realidade, em sua fenomenalidade, em sua 
imediaticidade, para fazer escolhas e desencadear um conjunto de ações em 
resposta a determinadas seqüelas da questão social, demandadas por 
segmentos da classe trabalhadora, ou pela instituição, e reconhecidas pelo 
profissional. Nesse horizonte, a expressão conhecimento da realidade se 
refere à obtenção de informações objetivas e subjetivas relacionadas às 
condições de vida de um indivíduo, considerado como tal e não como ser 
genérico que é, ou do grupo familiar, compreendido como uma célula. 
Conhecimento da realidade refere-se, também, ao domínio da estrutura formal 
e burocrática da instituição em que o assistente social se encontra alocado. 
Para obter e dominar esse conhecimento, não se faz necessária a investigação 
sistemática, com rigor científico, fundada segundo os parâmetros da 
cientificidade, com base na fundamentação histórica e teórico-metodológica 
para desvelar o movimento da realidade. 
Para a intervenção restrita ao imediato, à dimensão do cotidiano, 
o estudo das condições de vida sócio-econômicos e culturais do segmento da 
classe trabalhadora que busca acessar as políticas sociais ou serviços sociais 
seria um procedimento suficiente. No entanto, há um segmento significativo 
de assistentes sociais que não utiliza desse procedimento para a 
caracterização das demandas e o atendimento em-si. 
 Ao descrever a prática profissional, há discurso de assistentes 
sociais denotando que os atendimentos são realizados sem o estudo sócio-
econômico. Os dados acerca da realidade são fornecidos pelos usuários, que 
 
 
164 
comunicam suas necessidades, suas carências, em uma entrevista78, que tem 
um fim em-si mesmo. Os atendimentos são realizados orientados, também, pela 
instituição que delibera o tipo de serviços a ser prestado e como deve sê-lo, 
derivando da aplicação desse instrumental técnico a averiguação da demanda 
requerida e o seu pronto atendimento, quando possível. Como foi sinalizado no 
capítulo anterior, se a entrevista configurar-se como formal, o registro das 
informações efetua-se em fichas sócio-econômicas e são arquivadas. Se a 
entrevista é realizada informalmente, o registro circunscreve-se à 
quantificação do atendimento e do recurso material e financeiro repassado. 
A prática profissional circunscreve-se ao atendimento da 
demanda explicitada, como revela a pesquisa realizada por Vasconcelos (2003) 
referente a realidade do trabalho profissional dos assistentes sociais da 
Secretaria Municipal da cidade do Rio de Janeiro. As demandas dirigidas ao 
Serviço Social são aquelas apresentadas imediatamente pelo usuário ou pela 
instituição e reconhecidas pelo profissional. Referindo-se à demanda implícita 
a que atendem os profissionais, a investigação79 de Vasconcelos (2003) aponta 
a dificuldade em apreenderem as necessidades sociais de segmentos da classe 
trabalhadora para além daquilo que é manifestado no momento do atendimento. 
Vasconcelos (2003, p. 180) relaciona algumas expressões proferidas por 
assistentes sociais para responderem o que consideram demanda implícita: 
 
As demandas implícitas são demandas por serviços que 
não existem, alternativas aos asilos, centro dia, cuidados 
 
78 Em seu estudo, Vasconcelos (2003) afirma que “são 47% os assistentes sociais que só realizam suas ações 
através de entrevistas e 64% os que realizam mais entrevistas que reuniões” (p. 209). Dentre os assistentes 
sociais que responderam a forma como realizam a entrevista – 76% do universo, 72% a utilizam para 
responder a uma demanda específica e imediata e qualificam a entrevista como ajuda, apoio, informação, 
aconselhamento e coleta de dados. 
79 Segundo Vasconcelos (2003, p. 180), indagados acerca das demandas implícitas a que atendem, os 
assistentes sociais dividiram-se em quatro grupos: “61% apontam demandas consideradas implícitas; um 
grupo de 31% simplesmente não respondeu a esta questão; 4% afirmaram que não existem demandas 
implícitas para o Serviço Social (...); 8% dos profissionais declararam que não sabem quais e/ou o que são 
demandas implícitas ou fizeram afirmações incompatíveis com a questão”. 
 
 
165 
dos familiares, como lidar com idoso dependente, que são 
demandas fruto das más condições de vida e falha das 
políticas sociais que os usuários colocam como questões 
suas; 
É a busca de levar vantagem na prioridade do atendimento 
médico; 
É a garantia do tratamento e do medicamento 
Falta de vida mais digna, desemprego, fome; 
Interpretar os discursos do médico (apud 
VASCONCELOS, 2003, 180). 
 
O balizamento das competências e das atividades desenvolvidas 
pelo assistente social no cotidiano é dado pelas demandas, que explicitadas são 
reconhecidas como tais pelas instituições e serviços sociais que atendem 
segmentos da classe trabalhadora queacessam as políticas sociais. Verifica-
se, nas pesquisas que estudam a prática do assistente social no cotidiano, que o 
registro das atividades ocorre segundo as exigências e demandas apontadas 
pelas instituições, em face de sua estrutura e organização formal e 
burocrática. A pesquisa desenvolvida por Santos, Laguna e Andrade (1998), 
relativa à ação profissional na política de assistência social indica que, mesmo 
quando o assistente social procura organizar e sistematizar as demandas 
dirigidas ao Serviço Social, o atendimento circunscreve-se àquelas 
explicitadas pelos segmentos da classe trabalhadora no momento da procura 
da instituição. O discurso do assistente social, na entrevista que se segue, 
evidencia a relação direta entre demanda explicitada e o entendimento a 
respeito: 
 
Não, em cima da demanda que vem eu levo pro secretário 
e o prefeito: olha isso aqui são listagens em cima disso, 
 
 
166 
disso e disso. Eu sempre procuro fazer também um 
trabalho, um percentual também do que eu atendo aqui, é 
importante. Eu tenho isso em casa, no computador. Eu 
chego lá e digo: olha isso é importante, tá acontecendo 
muitos casos de drogas, muitos casos de abuso sexual, 
vamos fazer alguma coisa nesse sentido. Em cima da 
demanda que vem eu faço um levantamento (SANTOS; 
LAGUNA; ANDRADE, 1998, p.31-32) 
 
Nessas condições, o conhecimento a que se referem os 
assistentes sociais é o conjunto de informações relacionadas às necessidades 
dos usuários e à estrutura formal, legal e burocrática das instituições e o 
modelo de operacionalização das políticas e dos programas sociais. Em 
determinadas situações, a estrutura formal e burocrática institucional pode 
exigir registros diferenciados, mas sempre voltados à quantificação do 
atendimento tendo em vista, sobretudo, o aporte de recursos financeiros. 
A racionalidade formal-abstrata restringe-se à quantificação dos 
atendimentos realizados, dos tipos de procedimentos adotados e dos recursos 
humanos e materiais utilizados, tendo em vista o cálculo tanto dos serviços 
prestados quanto dos recursos despendidos. O cálculo tem vínculo direto com 
a contrapartida dos recursos financeiros que cada instituição ou unidade deve 
receber e está, portanto, diretamente relacionado à lógica de custos e 
benefícios, mensurados segundo o valor de troca. Registra-se sempre a 
demanda atendida, e todos os aspectos da realidade que não servem 
diretamente ao cômputo do serviço prestado são descartados, não-valorados, 
não-utilizáveis, como a demanda não-atendida, refugada ou a demanda 
implícita. 
 
 
167 
Permeada por essa condicionalidade, a realidade apresenta-se de 
forma fragmentada, dividida em diferentes variáveis. De um lado, há a 
caracterização dos usuários que procuram a instituição e nela, o Serviço 
Social, e suas condições de vida, e de outro, a caracterização de demandas 
seletivas, reconhecidas pelas instituições, isto é, o conjunto de problemas 
sociais que podem ser incorporados pela lógica dos serviços e dos direitos 
sociais. 
A caracterização dos usuários ou o perfil sócio-econômico implica 
a obtenção de dados referentes a nome, idade, sexo, cor, estado civil, 
escolaridade, endereço, profissão e outras informações pertinentes. A 
caracterização das condições sócio-econômica e cultural da vida dos usuários 
busca aferir: condições de trabalho e renda, de moradia, de saúde, de 
saneamento básico, constituição do núcleo familiar, dentre outros, e, conforme 
o espaço sócio-ocupacional: infrações e delitos, opção político-partidária, 
participação popular, religião, etc. A caracterização das demandas visa a 
precisão da problemática específica que conduz o usuário à busca do 
atendimento. 
O trato metodológico dado a esse conjunto de informações a 
posteriori, segundo a razão formal-abstrata, tem em vista a quantificação de 
todos os usuários atendidos em um período de tempo (quinzenal, mensal, 
semestral, anual), traçando o perfil desses usuários, identificando os 
problemas sociais mais recorrentes80, caracterizando e quantificando o 
atendimento realizado. A sistematização dos dados e das atividades 
executadas redunda em relatórios concisos, objetivos. 
 
80 Se as instituições definem os serviços a serem prestados, os programas, as metas e os recursos disponíveis, 
as reais necessidades dos trabalhadores não se evidenciam na imediatez do cotidiano. As necessidades 
humanas dos trabalhadores são respondidas ou parcialmente respondidas pela burguesia e pelo Estado 
quando se instaura o conflito, quando a classe trabalhadora problematiza e politiza as suas necessidades. 
 
 
168 
A forma como são dispostos os dados na exposição segue a 
seqüência lógica da coleta dos dados. Assim, os relatórios apresentam o perfil 
dos usuários por meio de análises estatísticas, segundo a tipificação das 
informações selecionadas e definidas previamente e contidas na ficha sócio-
econômica ou em formulários próprios que visam a quantificação do 
atendimento realizado. Assim, as propriedades caracterizam um extremo que 
conforma o conhecimento da realidade: a quantidade de atendimento, e seu 
percentual correspondente, conforme sexo, idade, estado civil, local de 
moradia, profissão, escolaridade, etc. Apresentam-se na análise expositiva, em 
seguida, as tendências simples, comparando cada variável em relação a si-
mesmo. 
O outro extremo é o levantamento quantitativo de acordo com as 
variáveis que denotam as condições de vida dos usuários, circunscrito àquelas 
demandas reconhecidas pela lógica dos serviços. Resulta desse procedimento o 
grupo de deduções simples, caracterizando as condições de vida dos usuários. 
Mantém-se a interdependência entre as varáveis, na qual a significação 
objetiva da realidade se apresenta como multiplicidade de diferentes 
universais, tomados como singularidade, originando algo objetivo, calculável. 
Este é o movimento da percepção. A supra-sunção que conduz o movimento da 
consciência para o estágio do entendimento implica a construção do conceito, a 
forma geral de unificação de diversas leis e de regras. 
 Do ponto de vista do pensamento burguês, distinguem-se os 
conceitos dados a priori e os conceitos a posteriori ou empíricos. Os conceitos 
empíricos vinculam-se às noções gerais que servem para a classificação dos 
objetos. Com a prevalência da manipulação de variáveis empíricas, das 
classificações dos objetos derivam os conceitos empíricos e, como tais, podem 
relacionar-se somente com uma variável ou o cruzamento de duas, três ou mais 
variáveis, permanecendo sempre a coisa em-si, objetiva, em sua factualidade, 
 
 
169 
do que decorre o desdobramento do objeto, apreendido em sua evanescência, 
ausente de determinações, de contradições, de mediações, apenas em sua 
positividade. 
Por tratar-se da realidade apreendida somente em sua 
evanescência, ora o objeto é o próprio usuário, destituído, por aquele que 
conhece, da capacidade para enfrentar os seus problemas, com suas 
debilidades físicas e culturais; ora o objeto é o problema em-si, permanecendo 
nesse jogo a prevalência do objeto preso a forma. Redunda dessa dinâmica 
intelectiva a busca por novos objetos para o Serviço Social, ou por novas 
dimensões para a atuação do assistente social e, tanto pode ser 
caracterizado/justificado pela problemática quanto pelo procedimento ou 
estratégia de ação. 
A natureza difusa da questão social, as formas como a própria 
burguesia a compreende e a qualifica, a fragmentação e a necessidade da 
tradição positivista em precisar o objeto tendem a condicionar a abordagem 
profissional para delimitar o seu campo de atuação, e, em decorrência há a 
necessidade de destacar o objeto, o que é, e como se age em resposta a ele. 
Com base nessas referências, o exercício profissional justifica-se por meio da 
apreensão da realidade em sua singularidade,em face de uma problemática 
específica, singular, com a qual o assistente social, inserido em uma instituição 
determinada se confronta. Trata-se de um jogo escorregadio e sempre 
aparentará que os fundamentos histórico e teórico-metodológico são 
insuficientes. 
Essa dificuldade explicita-se, por exemplo, nas sistematizações 
da prática profissional dos assistentes sociais apresentadas em congressos e 
encontros da categoria. As entidades organizadoras de tais eventos 
estruturam a apresentação das experiências profissionais em várias temáticas 
e subtemáticas recortadas por políticas sociais setoriais, por segmento ou 
 
 
170 
faixa-etária populacional. Os eixos que contemplam a análise de complexos 
sociais como o Estado, a ideologia, e aqueles que tratam dos fundamentos 
teórico-metodológico, ético-políticos da profissão ou a discussão acerca dos 
grandes dilemas da sociedade brasileira e da humanidade, como a cidadania, a 
questão urbana e os direitos humanos, são tratados em conferências e em 
temáticas específicas. A reflexão que apreende as mediações, as 
determinações e as contradições entre o exercício profissional cotidiano e a 
dinâmica dos processos de produção e reprodução social restringem-se a um 
segmento do meio profissional. 
Parte das comunicações e artigos que abordam as experiências 
profissionais estruturam-se conforme o padrão constitutivo da cultura da 
racionalidade formal-abstrato. Nessa direção, as análises das experiências são 
sistematizações da prática profissional, segundo os elementos básicos de 
ordenação e organização formal das atividades: o objeto, os objetivos, a 
justificativa e problematização, a metodologia de ação − com destaque para o 
publico alvo, as metas, os recursos técnico-operativos, as atividades e os 
mecanismos de avaliação −, e a conclusão. 
Nessa perspectiva, o que se considera objeto de análise, o ponto 
de partida da narrativa da experiência, tanto pode ser uma das seqüelas da 
questão social, apreendida como uma problemática social dada a priori; ou uma 
estratégia de intervenção profissional, ou um procedimento técnico-operativo, 
ou a ênfase a um instrumento técnico-operativo, ou, ainda as regras 
normativas e legais das práticas sociais. Após a problematização da realidade, 
sempre com base em um objeto singular, em-si, um recorte da realidade, 
apresentam-se as proposições derivadas das experiências vivenciadas em 
diferentes espaços sócio-ocupacionais. 
A análise das comunicações apresentadas no XI Congresso 
Brasileiro de Assistentes Sociais e III Encontro Nacional de Serviço Social e 
 
 
171 
Seguridade81, cujos títulos ou sub-títulos referem-se diretamente à prática ou 
atuação profissional82, evidencia a tendência de algumas abordagens reflexivas 
que enfatizam o procedimento. Nessas comunicações83 buscam-se novos 
modelos tecno-assistenciais, consideram-se a gestão como paradigma de 
intervenção, propõe-se a padronização de atribuições, normas e rotinas para a 
intervenção profissional, a expansão das funções e dos espaços sócio-
ocupacionais, respaldando-se no marco jurídico-legal das políticas sociais, 
expõem-se experiências vinculadas à construção de estratégias de ação 
comprometidas com a politização no campo dos direitos sociais, relacionam-se 
o projeto ético-político e o trabalho profissional, sistematizam-se a atuação 
profissional no cotidiano, dentre outros. 
O ponto de convergência dessas análises é o reconhecimento de 
algumas demandas da classe trabalhadora que justificam o fazer profissional, 
que por sua vez, referenda-se no marco legal da profissão: o código de ética, a 
lei de regulamentação da profissão e as leis que regulam as políticas sociais. 
Averigua-se a intensa manipulação do marco legal para balizar a sistematização 
da prática profissional em diferentes e antagônicas visões de mundo, 
conduzindo à aparente indiferenciação da prática. Terminologias como 
construção da cidadania, inserção social, universalidade, justiça social, são 
utilizadas em proposições analíticas de campos teórico diferenciados e 
apreendidas parcialmente, enfatizando determinadas atribuições ou 
 
81 O XI Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS), foi realizado na cidade de Fortaleza-CE, de 17 
a 22 de outubro de 2004, organizado pelas entidades representativas da categoria – conjunto CFESS/CRESS, 
ABEPSS e ENESSO. Foram organizadas dezessete sessões temáticas. A definição das comunicações 
apresentadas no Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais como fonte de pesquisa decorre do significado, 
da importância e da legitimidade desse evento para a categoria. 
82 Foram estudadas 65 comunicações apresentadas no XI CBAS, que analisam ou sistematizam a prática 
profissional (ação, atuação, processo de trabalho, intervenção, exercício), selecionadas conforme os títulos 
ou subtítulos e extraídas de todas as seções temáticas. Buscou-se averiguar os seguintes elementos: área de 
atuação, tema, concepção de Serviço Social, problematização, fundamentação teórica e principais autores de 
referência, proposições, prática profissional/ações, conceitos e dados empíricos, objetivos da prática. 
83 Características da prática profissional identificadas nas comunicações orais apresentadas por Oliveira 
(2004); Ramos e Neves (2004) e França (2004). 
 
 
172 
determinados valores/princípios do código de ética da profissão ou das leis 
que regulam as políticas sociais. Manipuladas indistintamente, essas categorias 
justificam a prática profissional em qualquer direção sócio-histórica, servem a 
qualquer posição político-ideológica, a qualquer perspectiva teórico-
metodológica. 
No interior da profissão, verifica-se a reprodução do fenômeno 
ideológico recorrente na sociedade: a utilização abundante dos mesmos 
termos nos discursos político-partidários, de direita ou de esquerda, de 
religiosos, empresários ou de líderes sindicais. A manipulação indiscriminada 
de termos categoriais evidencia-se mais claramente no campo das 
proposições, no qual se projeta a sociedade ideal sem a problematização do 
modo de ser da sociedade capitalista, suas contradições, seus antagonismos. 
A chave para averiguar o que está por detrás do discurso profissional é, 
pois, a apreensão do significado da profissão: a quem serve, como serve e 
qual projeto societário reforça. 
Semelhante ponderação deve, também, crivar a reflexão acerca 
do papel e do lugar dos instrumentais técnico-operativos no exercício 
profissional. Eles não têm um sentido em-si, mas ganham significado conforme 
a finalidade que direciona o processo de objetivação. Como se verificou 
anteriormente, o exercício de apreender criticamente o significado da 
profissão no movimento da totalidade das relações de produção e reprodução 
da sociedade capitalista, nas dinâmicas sócio-econômicas, políticas e culturais 
das relações entre as classes sociais tem precursores no âmbito do Serviço 
Social brasileiro. 
 Nas sistematizações da prática profissional cujo discurso 
permeia-se pelo entendimento, é possível destacar a permanente busca por 
modelos prescritivos que homogeneízam as objetivações mediante a 
aplicação de esquemas, modelos de comportamento e de conhecimentos 
 
 
173 
aplicados ao cotidiano da prática profissional. Nesses esquemas, prevalecem 
a prática burocratizada e a repetitiva, as formas privilegiadas de 
reprodução da racionalidade formal-abstrata, cuja consciência atém-se ao 
entendimento. 
 
2.4 A prática profissional burocratizada e repetitiva 
 
Entende-se que a burocratização e a repetição84 se 
complementam, ou que a repetição é característica da burocratização da 
prática e se dá a repetição, dentre outras determinações, pelas as exigências 
burocráticas. A repetição é uma característica das objetivações genéricas em-
si e, enquanto tal, constitui um nível insuprimível da prática, masnão pode ser 
toda a prática. 
A burocratização ocorre quando determinados procedimentos 
práticos são solidificados, formalizados e repetidos mecanicamente. Segundo 
Coutinho (1972), com a burocratização ocorre o empobrecimento da ação 
humana, pois ela se desliga da realidade e de suas finalidades, reduzindo-se a 
simples objeto de manipulação e a posicionamentos acríticos. O caráter 
repetitivo da ação burocratizada “bloqueia o contato criador do homem com a 
realidade, substituindo a apropriação humana do objeto por uma manipulação 
vazia dos dados, segundo esquemas formais pré-estabelecidos”, esclarece 
Coutinho (1972, p. 27). 
A prática burocratizada abstém-se do questionamento acerca de 
suas finalidades, do conteúdo que ela apresenta, do conhecimento acerca da 
 
84 Segundo Heller |(1991, p. 251) as atividades genéricas em-si são atividades reiteradas. “Una acción llevada 
a cabo una sola vez no es una acción perteneciente a la costumbre; un objeto manejado con éxito una sola 
vez, por casualidad, no adquiere por ello un significado concreto, una palabra pronunciada una sola vez no es 
una palabra. Por tanto, no se trata sólo de que, al igual que todo acción social, toda actividad, a través de un 
número mayor o menor de mediaciones, deba al final desembocar en la práxis social, sino también del hecho 
de que ésta debe ser repetible em su ser-así sea cual fuere y debe realmente ser repetida”. 
 
 
 
174 
racionalidade ou irracionalidade nela impregnada. Quando se busca descortinar 
a racionalidade subjacente a prática profissional pretende-se justamente 
descobrir o conteúdo e as finalidades a que servem essas práticas. Essa não é 
uma questão menor. A história da sociedade capitalista é simultaneamente a 
história do processo de racionalização das relações sociais, afirma Ianni 
(1995). Decorre, então, a necessidade permanente de compreender 
criticamente os caminhos da razão na modernidade. No próprio pensamento 
burguês, podem ser encontrados os argumentos para essa atitude crítica. 
Weber (1992), por exemplo, assinala a importância da legitimidade da 
dominação para a manutenção do espírito capitalista. 
Segundo Weber (1992, p. 349), a legitimação dá-se perante a 
dominação, definida como 
 
a probabilidade de encontrar obediência a uma determinada 
ordem, [que] pode ter o seu fundamento em diversos 
motivos de submissão; pode ser determinada diretamente 
de uma constelação de interesses, ou seja, de considerações 
racionais de vantagens e desvantagens (referentes a meios 
e fim) por parte daquele que obedece, mas também pode 
depender de um mero costume , ou seja, do hábito cego de 
um comportamento inveterado; ou pode, finalmente, ter o 
seu fundamento no puro afeto, ou seja na mera inclinação 
pessoal do dominado. 
 
Para Weber (1992), a dominação fundamenta-se em três bases de 
legitimação: legal85, tradicional e carismática. No marco da dominação legal, o 
 
85 Ianni (1995) utiliza as expressões dominação racional ou dominação racional legal. Conforme o autor, 
com freqüência, a dominação racional está convivendo com a dominação tradicional e a dominação 
carismática. 
 
 
175 
tipo mais puro é a dominação burocrática. A obediência advém da regra 
estabelecida, decretada. Nesse jogo de dominação, na concepção weberiana, 
cada um tem o seu papel, mas todos eles são estabelecidos pelas regras, pelos 
estatutos sancionados. De acordo com as regras, alguns mandam, outros 
obedecem, movidos pela disciplina, pela competência conforme a utilidade 
objetiva e as exigências profissionais estipuladas. A dominação legal convive 
com a dominação tradicional (baseada nos usos e costumes) e a carismática 
(que se conforma às prescrições estabelecidas pelo líder). 
 Nesses termos, a burocracia influencia e é influenciada por um 
padrão de racionalidade e se encontra no mercado, no Estado, nos sindicatos, 
nos partidos políticos, enfim, em todas as instituições. Para que esse padrão de 
racionalidade se legitime, a fim de manter-se a dominação, o direito 
desempenha papel fundamental, codificando as normas, estabelecendo as 
responsabilidades e os procedimentos, estipulando os parâmetros das ações e 
as relações das profissões, das instituições e organizações. 
Os fundamentos econômicos que imperam no mercado, na empresa 
capitalista impõem, por meio da vigência do contrato, “um tipo eminente da 
relação de dominação legal”, assinala Weber (1992, p. 351). Nesse 
entrecruzamento, a perspectiva weberiana encontra o parentesco sociológico 
da dominação legal com o moderno domínio estatal, manifestado claramente, 
segundo o autor, ao se examinarem os seus fundamentos econômicos. 
Dessa forma, o sentido da dominação legal que se efetiva 
mediante a burocratização das relações sociais encontra-se no processo de 
racionalização, o elemento inerente à ordem do capital e que constitui a 
própria cultura do capitalismo. A premissa mais geral para a existência do 
capitalismo, conforme a perspectiva weberiana, é a contabilidade racional do 
capital como norma para todas as grandes empresas lucrativas, que devem se 
 
 
176 
apropriar não somente dos bens materiais de produção, mas de técnicas 
racionais contabilizáveis e do direito calculável. 
Para esse padrão de racionalidade, o princípio da quantidade é 
preponderante e encobre as mediações e as contradições que permeiam as 
relações de produção, como, por exemplo, a quantificação do valor do salário 
que regula as bases legais de compra e venda da força de trabalho valendo-se 
da falsa premissa de que existe nessa relação a igualdade e a liberdade. 
A prevalência do princípio da quantidade, em detrimento da 
qualidade, generalizado na esfera do cotidiano conduz à dinamização das 
práticas sociais visando os fins e os valores determinados pela produtividade, 
eficácia e calculabilidade, pela contabilidade sistemática, rigorosa e mecânica. 
Antecede essa prática a mensuração das probabilidades dos ganhos e perdas, 
erros e acertos, vantagens e desvantagens de forma automática. 
A burocratização é um instrumento fundamental que engendra o 
padrão de racionalidade necessário para a legitimação e manutenção da 
dominação, sendo decisiva para a naturalização dos fenômenos e dos processos 
sociais. A assimilação de normas, regras, procedimentos, ações, 
responsabilidades e valores da economia capitalista86, por meio da 
 
86 A perspectiva weberiana concebe a interdependência entre a ética econômica das religiões e as formações 
econômico-sociais, afirmando a prioridade do fator cultural. No contexto do capitalismo imperialista, no 
período anterior a primeira guerra mundial, quando “a sociologia já havia abandonado a pretensão de ser 
herdeira da filosofia da história ou da filosofia enquanto ciência universal (...) e se converte cada vez mais 
em uma disciplina especial e limitada”, afirma Lukács (1976, p. 485). A refutação em relação ao marxismo 
ocorre de forma mais sutil, dentre outras razões, em decorrência da força do movimento operário. Na 
Alemanha, a ideologia burguesa toma do marxismo alguns elementos aceitáveis para fortalecer o 
movimento reformista no seio da social-democracia e do revisionismo teórico e prático, que objetivava a 
liquidação da luta de classes. O campo da sociologia, assinala Lukács (1979, p. 487), segue mantendo com 
a mesma energia a luta contra o materialismo, contra a prioridade do ser social, contra o papel determinante 
do desenvolvimento das forças produtivas. O metodologismo relativista a que conduz o neokantismo, 
porém, “introduz na sociologia burguesa certas formas abstratas de interdependência entre a base e a 
superestrutura”. Segundo Lukács (1979 a), o problema central da sociologia alemã no período do 
imperialismo de entreguerras consisteem encontrar uma teoria para explicar o nascimento e a natureza do 
capitalismo mediante uma concepção teórica própria. Para os sociólogos alemães, a teoria marxiana da 
acumulação originária, que separa os trabalhadores dos meios de produção era um escândalo. A concepção 
de Marx Weber (1864-1920) propõe explicar porque o capitalismo surgem somente na Europa e busca 
captar a essência específica do capitalismo moderno e relacionar o seu nascimento na Europa com as 
 
 
177 
burocratização das práticas sociais, garante o controle e a manutenção do 
sistema. Levado, ao extremo, a racionalidade formal-abstrada, designada por 
Weber (1992) como racionalidade ocidental ou racionalidade instrumental, 
combinada com o capitalismo protestante, torna-se, na concepção desse autor, 
uma força irresistível conduzindo ao desencantamento do mundo, no qual, tudo 
se sujeita ao cálculo racional. A força irresistível que submete a vida social ao 
cálculo racional, para Weber (1992), não se encontra no desenvolvimento das 
forças produtivas, a prioridade não está nas determinações econômicas, mas 
na força espiritual da racionalidade instrumental. 
Mesmo se sustendo em uma inversão de valores, essa matriz 
teórico-metodológica vinculada ao pensamento da burguesia expõe a 
funcionalidade da burocratização à ordem do capital. No entanto, a prática 
burocratizada serve também para que a consciência imediata do profissional 
que a reproduz acriticamente experimente uma sensação de segurança em 
relação ao seu exercício profissional, que é apenas uma falsa sensação. 
Em meio às permanentes crises inerentes ao movimento cíclico da 
economia capitalista a consciência imediata elabora, conforme Coutinho (1972), 
um diverso sentimento do mundo, sobre o qual constrói expressões ideológicas 
sistemáticas. De acordo com o período histórico, de crise ou de estabilidade 
relativa, o sentimento do mundo, elaborado pela consciência imediata, pode 
experimentar, diante do real, a sensação de angústia ou de segurança, 
preponderando diante delas as posições filosóficas irracionalistas ou 
agnóstico-formalistas. 
O conceito de segurança, assinala Coutinho (1972, p. 50), tal como 
é formulado pela cultura da burguesia, 
 
 
diferenças existentes entre o desenvolvimento ético-religioso do oriente e do ocidente, deseconomizando e 
espiritualizando a essência do capitalismo, assinala Lukács (1979 a). 
 
 
178 
liga-se estreitamente à limitação imposta pela economia 
capitalista à plena expansão da personalidade humana. 
Somente submetendo-se às “normas” e regras socialmente 
impostas, tornando-se um conformista, pode o indivíduo 
experimentar uma sensação de segurança e de 
estabilidade num mundo objetivamente assolado por 
contradições. 
 
Em um mundo permeado pela incerteza, a sensação de segurança 
vincula-se diretamente à burocracia, ou seja, ao “modo pelo qual uma vida segura 
submete-se aos princípios do formalismo pseudo-racional e aos valores 
burocráticos da eficácia profissional” , afirma Coutinho (1972, p. 50, grifos do 
autor). A prática burocrática obedece às normas, às regras, aos procedimentos, 
às ações formalmente estabelecidas. O conteúdo apresenta-se escamoteado pela 
forma. Segundo Vázquez (1968), o traço mais característico da prática 
burocratizada é a formalização, isto é, a forma pré-existe ao conteúdo e se 
repete infinitamente, convertendo-se em lei a priori, naturaliza-se. 
Ao cumprir as leis, as normas, as regras estabelecidas para a 
implementação de políticas sociais, efetivadas por meio de programas e de 
projetos, o assistente social, conduzido pela sensação de segurança, pretende 
atingir a eficácia balizada pelos parâmetros da racionalidade formal-abstrata. 
A consciência imediata que elabora o sentimento do mundo não permite 
desocultar as contradições existentes na realidade, ela é determinada pela 
racionalidade formal que impregna a prática profissional. 
Por outro lado, as leis e as normas podem refletir também os 
avanços e as conquistas da classe trabalhadora, das forças democráticas. A 
Constituição brasileira de 1988 (BRASIL, 1988), contém em suas proposições 
avanços importantes relacionados aos direitos sociais conquistados por meio 
 
 
179 
da organização dos movimentos sociais. Paradoxalmente, nesse mesmo período, 
em decorrência da crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, o 
mundo capitalista caiu em uma longa e profunda recessão, “combinando, pela 
primeira vez, baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação”, como 
assinala Anderson (1995, p. 10). Nesse contexto de crise, a doutrina e a 
ideologia neoliberal87 apresentaram-se como alternativa ao Estado do bem-
estar social. Conforme as premissas neoliberais, o combate à inflação, a 
retomada do crescimento econômico e das taxas de lucros seriam garantidos 
por meio da estabilidade monetária. Para isso, afirma Anderson (1995, p. 11), 
seriam necessárias, segundo os preceitos neoliberais, as reformas fiscais e 
“uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com bem-estar, e a 
restauração da taxa ‘natural’ de desemprego, ou seja, a criação de um exército 
de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos”. 
Nesse contexto, o marco legal88 das políticas sociais passou a 
constituir uma importante ferramenta para garantir e viabilizar os direitos 
sociais em uma conjuntura regressiva. Na década de 1990, conjuntura de 
avanços da implementação de medidas neoliberais, segundo o receituário do 
Consenso de Washington e controladas pelas agências financeiras multilaterais 
(Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial), implementou-se no Brasil o 
projeto liberal-social da contra-reforma do Estado, como afirma Behring 
(2003). Tais medidas implicaram a desregulamentação das políticas sociais, as 
 
87 O neoliberalismo “nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte 
onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e 
de bem-estar. Seu texto de origem é O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek, escrito já em 1944. Trata-
se de um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado, 
denunciadas como uma ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política” 
(ANDERSON, 1995, p. 9). 
88 Vasconcelos (2003) identificou, em sua pesquisa com assistente sociais vinculados às instituições que 
prestam serviços sócio-assistenciais na área da saúde, que 21,6% dos profissionais entrevistados 
desconhecem a texto da Constituição e, portanto, não fazem a relação entre os direitos e deveres dos 
cidadãos e do Estado e a prática profissional. Para 8% dos profissionais entrevistados, constata 
Vasconcelos (2003), “a Constituição não tem valor para a prática dos assistentes sociais88” (p. 249). Para 
desenvolver a prática profissional, esse segmento julga não ser importante o conhecimento relativo aos 
condicionamentos e às determinações que incidem e na prática profissional e as instrumentalizam. 
 
 
180 
transferências das responsabilidades públicas estatais para as organizações 
sociais e a focalização do atendimento. 
Averigua-se, nas descrições da prática profissional dos 
assistentes socais brasileiros dois posicionamentos políticos em face dessa 
realidade. Enquanto um segmento aderiu de forma acrítica ao projeto liberal-
social, implementando mecanicamente as medidas de cunho neoliberal no 
âmbito das políticas sociais, restringindo o atendimento às demandas 
emergenciais e focalizadas, outro segmento estabeleceu a crítica teórico-
prática radical à essas diretrizes. Na direção da focalização do atendimento 
de demandas da classe trabalhadorareconhecidas pela burguesia e pelo 
Estado, os critérios e os mecanismos de controle norteadores dos programas 
sociais tornaram-se fontes de balizamento da prática profissional, 
demarcando os seus limites, determinando o quê e como fazer. A gestão e o 
controle das políticas e dos programas sociais emolduram-se em formas 
preestabelecidas e delimitam os critérios de elegibilidade, a utilização dos 
recursos, o tempo de inserção nos programas sociais, as responsabilidades das 
esferas governamentais, dentre outros. 
Os condicionamentos para o exercício profissional ganham agora o 
status jurídico-legal, dando à prática burocratizada, restrita ao estabelecidos 
pelas normas e rotinas, a sensação de segurança. Em outras palavras, para a 
prática burocratizada, as condições reais do segmento da classe trabalhadora 
que necessita acessar as políticas sociais são irrelevantes diante das leis, das 
normas instituídas. 
Em relação ao conteúdo, no discurso dos próprios profissionais 
cuja prática se desenvolve privilegiando a burocracia instituída e observa-se a 
ausência de referências às determinações e aos condicionamentos sócio-
históricos da prática e que delimitam as possibilidades para a intervenção 
profissional. 
 
 
181 
Assim, a prática burocratizada e repetitiva é descrita pelo 
segmento de assistentes sociais que restringe o exercício profissional a esse 
paradigma, como aquela que se atém ao cumprimento de rotinas e 
procedimentos, ao trâmite dos procedimentos e das regras estatuídas. A 
característica dessa prática é o cumprimento fiel das responsabilidades, 
atribuições, atividades, tarefas designadas ao assistente social na execução 
de programas no âmbito das políticas sociais. 
Na execução dos programas de renda mínima89, por exemplo, 
pode-se identificar a presença da prática profissional burocrática. Tais 
programas são instituídos por leis específicas e são previstos os critérios que 
constituem as exigências para a inserção dos trabalhadores, como a renda 
familiar e o tempo de inserção. Essas regras seguem os preceitos neoliberais, 
segundo os quais os investimentos sociais devem alcançar os segmentos da 
classe trabalhadora que vive em situação de pobreza absoluta sem, contudo, 
configurar um direito social permanente. 
Ao seguir fielmente as prescrições, o assistente social passa a 
ser, também, o agente fiscalizador da pobreza. Mesmo quando se constata 
haver trabalhadores que, pelas condições desumanas a que foram submetidos, 
necessitariam da proteção permanente e não temporária do Estado, cumprem-
se as regras preestabelecidas em detrimento das necessidades humanas reais. 
O aspecto formal prevalece sobre o conteúdo real. 
 
89 Pesquisa realizada em Goiânia, em 2001, para aferir o impacto do programa de renda mínima nas 
condições de vida das famílias inseridas nesse programa em 1998, constatou que os assistentes sociais 
cumpriam rigorosamente os critérios de inserção/desligamento (exclusão) instituídos pela Lei municipal n. 
7.691 de janeiro de 1997, bem como suas bases de funcionamento e a normatização de procedimentos 
(COELHO; et.al., 2002). Ao cumprirem rigorosamente os parâmetros estabelecidos, os assistentes sociais 
responsáveis pela execução do programa atuavam como agentes fiscalizadores e repressores. Essa pesquisa 
evidenciou , dentre outros aspectos, que a utilização do subsídio financeiro era rigorosamente controlada, 
mensalmente, com aplicação da punição do desligamento para aqueles que não comprovassem os gastos e o 
desligamento/exclusão das famílias em situação de pobreza absoluta que necessitavam permanecer no 
programa era automático. A prática imediata é reprodutora dos malefícios advindos das relações de produção 
e reprodução social na sociedade capitalista e a sua adesão mecanicista à essa lógica chama a atenção por 
sua perversidade diante de situações extremas de desumanidades. 
 
 
182 
No cumprimento das atribuições preestabelecidas conforme os 
programas e projetos, as atividades instituídas desdobram-se em rotinas e em 
procedimentos institucionais. Ao cumprir de forma acritica os procedimentos e 
as rotinas, a prática profissional guiada pelo imediaticidade nega ou 
desconhece as determinações, as contradições e as mediações sócio-históricas 
que emergem das relações de produção e reprodução social que os homens 
estabelecem entre si e com a natureza e as condições materiais de existência 
dos homens que conduzem ao próprio trabalho do assistente social. 
A acomodação e o conformismo advindos da prática burocratizada 
estão presentes no discurso do profissional que se guia pelo formalismo. As 
possibilidades para o desenvolvimento de uma prática criadora são 
relativizadas, argumentando-se que o exercício profissional não dispõe de 
espaço e nem de força para provocar alterações naquilo que se encontra 
instituído, passando a negar a própria profissão ou os fundamentos históricos, 
teórico-metodológicos, ético-políticos e técnico-operativos do Serviço Social. 
Percebe-se que, mais uma vez, a forma nega o conteúdo. Iamamoto ( 2002, p. 
115) caracteriza essa prática profissional como fatalista, pois se inspira em 
análises que naturalizam a vida social e traduzem “uma visão perversa da 
profissão”. 
Tal prática pode justificar-se, ainda, em decorrência da 
atrelagem ativa às exigências do mercado de trabalho, quando a prática 
profissional adere ao discurso e aos interesses do capital, à sua ideologia, aos 
seus valores e às suas estratégias de produção. 
Nessas circunstâncias, o mercado de trabalho, assim como o 
mercado de capitais, tende a ser tomado como um ser onipresente e 
onisciente, acima do bem e do mal, por um segmento do meio profissional. Os 
mercados são instituições centrais na economia capitalista, assim como o 
Estado e as empresas, nos quais se encontra o poder de competição. Essa 
 
 
183 
competição, como formulou Marx (1988), ocorre entre os capitais e, também, 
entre os trabalhadores na luta pelo emprego e pelos espaços sócio-
profissionais, e acirra-se pela tendência inerente ao movimento do capital: a 
economia do trabalho vivo. 
Os relatos de experiências da prática profissional vinculada 
ativamente às necessidades do mercado de trabalho têm dupla característica 
que se interligam. A primeira refere-se à funcionalidade do serviço social como 
profissão no processo produtivo no campo das estratégias de motivação dos 
trabalhadores para o aumento da produtividade, e a segunda, relaciona-se à 
adesão e à defesa das expressões ideológicas sistemáticas que consideram 
como imperativos categóricos as necessidades do mercado de trabalho, de 
forma independente. 
A prática profissional com tais características desenvolve-se em 
espaços sócio-ocupacionais empresariais, em instituições vinculadas à indústria 
e ao comércio e em empresas estatais. As transformações ocorridas na 
sociedade capitalista, fundamentalmente aquelas relacionadas ao mundo do 
trabalho na conjuntura posterior à crise de 1973, conformam o pano de fundo, 
e são apresentadas como novos paradigmas de pensar e de agir (SILVA, 2003), 
cabendo ao profissional o papel de empreendedor social, que capta as 
oportunidades do mercado e, com apurada visão de futuro, transforma-as em 
bons negócios, com a participação ativa na criação e consolidação de novos 
modelos tecno-assistenciais (FRANÇA, 2004) e capacidade para reposicionar o 
Serviço Social nas instituições, empreendendo mudanças tecnológicas e de 
gestão (SILVA, 2003). 
Nessa perspectiva, o fundamento metodológico da prática 
profissional assenta-se no planejamento estratégico de gestão, que segundo 
Silva (2003, p. 28), pressupõe “a análise do ambiente e do sistema 
organizacional, a elaboração de filosofias e políticas, definição de objetivos, 
 
 
184 
desenvolvimento de estratégias, implementação e controle”. Osargumentos 
justificadores para o reposicionamento do Serviço Social sinalizam a intenção 
de superar a representação histórica da profissão voltada para a resolução de 
problemas e atendimento a situações emergenciais individuais de caráter 
assistencialista. Porém, segundo essa perspectiva, os chamados clientes do 
Serviço Social permanecem as pessoas, agora nos diversos níveis da empresa, 
tornando o assistente social em consultor interno, como aponta Silva (2003, p. 
25): 
A atuação, como consultor interno, permitirá ao 
assistente social personalizar a sua prestação de serviços, 
a partir do conhecimento das especificidades de cada 
área; preparar os gestores para a atuação no âmbito do 
social e assessora-los no desenvolvimento das ações. Os 
clientes individuais, gestões, empregados e dependentes 
serão constantemente estimulados a usarem as suas 
potencialidades, a reverem a sua auto-estima e a 
exercitarem a sua autonomia. 
 
A prática burocratizada vinculada às necessidades do mercado 
referenda-se no discurso da busca de qualidade (das condições de produção, 
do desenvolvimento humano, da qualidade de vida no trabalho visando o 
aumento da produtividade) e da participação ou colaboração/cooperação (nas 
formas de gestão dos serviços e atividades). O objetivo final é o aumento da 
produtividade e, por conseguinte, do lucro. De acordo com essa lógica, o 
assistente social deve adquirir a habilidade para vender a sua força de 
trabalho como qualquer outra mercadoria, aproveitando todas a oportunidades, 
utilizando as estratégias de marketing para a comercialização da sua 
mercadoria. O mercado de trabalho contém os imperativos categóricos, o 
 
 
185 
dever-ser que determina a vontade e a ação do profissional. “O assistente 
social na empresa de qualidade total tem que ser eficiente e sua ação deve 
mostrar resultado”, sintonizado com as novas tendências, como afirmam 
Herrera e Mancini (2003, p. 115). 
A escolha que o profissional pode fazer, conforme a compreensão 
de Herrera e Mancini (2003, p. 115), é definir uma tendência para se agrupar 
no mercado de trabalho: 
Tradicional-conservador continua realizando o seu 
trabalho social/benefício. Moderno-conservador vai 
incorporar o discurso da qualidade total junto à empresa e 
buscar a modernização, estudando e mudando da área de 
benefício para área de Recursos Humanos como um todo; 
Moderno-progressista entende que a qualidade total é 
irreversível e a globalização inevitável. Logo, a mudança 
ocorrera, mas não abre mão de um projeto, um 
compromisso ético-político; defende os trabalhadores na 
conquista dos direitos; é crítico e inconformado. 
 
 A adesão ao sistema de gestão da força de trabalho da qualidade 
total, dos círculos de controle de qualidade, da pseudo gestão participativa que 
contribuem para intensificar a exploração do trabalho vivo no universo da 
produção não se apresenta, nesse posicionamento, como contraditória e 
antagônica aos direitos e aos interesses dos trabalhadores. Esse discurso 
remete a uma representação da profissão e a um posicionamento político 
segundo o qual poder-se-ia servir simultaneamente a dois senhores, a dois 
projetos societários que são em-si e para-si antagônicos. O objetivo da gestão 
da qualidade total é substituir, na dimensão ideo-política, a luta de classe pela 
colaboração entre as classes sociais. 
 
 
186 
 A prática burocratizada e repetitiva, portanto, não está 
destituída de valor, de pressupostos teórico-metodológicos, de 
posicionamentos ético-políticos, enfim de concepção de mundo. Nas 
instituições nas quais se inserem os assistentes sociais, a racionalidade 
formal-abstrata permeia os processos burocráticos, formalizados por meio de 
leis, regras, normas e procedimentos. Quando se adere acriticamente a esses 
processos, reproduzidos pela prática burocrática e repetitiva, reforçam-se as 
estruturas jurídico-legais e organizacionais da sociedade capitalista. Quando 
os processos burocráticos organizacionais são considerados fenômenos 
naturais e, portanto inevitáveis, reforça-se o projeto da sociedade 
hegemônica. 
Netto (1996, p. 154) identifica, no processo de renovação do 
Serviço Social brasileiro, a direção que busca adequar a profissão, como 
“instrumento de intervenção inserida no arsenal de técnicas sociais a ser 
operacionalizado no marco de estratégias de desenvolvimento capitalista” 
como perspectiva modernizadora. Essa perspectiva emergiu desde o encontro 
de Porto Alegre, em 1965, firmou-se no seminário de teorização do Serviço 
Social realizado no município de Araxá90, Minas Gerais, organizado pelo Centro 
Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais (CBCISS), em 
1967, que se desdobrou em um segundo seminário realizado em 1970, em 
Teresópolis, Rio de Janeiro. 
 Segundo Guerra (1999, p. 168), essa perspectiva orientada pela 
racionalidade formal-abstrata atribui aos instrumentos e técnicas de 
intervenção “um status superior àquele que é dado aos demais componentes da 
prática profissional, transformando o que é assessório em essencial”. Ao 
 
90 Convidados pelo CBCISS, reuniram-se em Araxá, 38 assistentes sociais, “com o objetivo de teorizar sobre 
o Serviço Social face à realidade brasileira” (CBCISS, 1970, p. 5). Entre 10 e 17 de janeiro de 1970 em 
Teresópolis, foi realizado o segundo seminário com o objetivo de estudar os fundamentos da metodologia do 
serviço social, a concepção científica da prática do Serviço Social e a aplicação da sua metodologia. 
 
 
187 
limitar o exercício profissional ao domínio de instrumentais e técnicas de 
intervenção, o profissional reproduz acriticamente a função operativa que 
cabe ao assistente social na divisão social e técnica do trabalho, respondendo 
de forma imediata às expressões da questão social. 
 No processo de renovação do Serviço Social brasileiro, a 
perspectiva modernizadora expressa o compromisso e o realinhamento da 
prática profissional às novas atribuições requeridas pelo capital. No contexto 
do período desenvolvimentista, no momento mais crítico do regime ditatorial, 
essa perspectiva propôs rever a funcionalidade da profissão. O foco dessa 
revisão é o Serviço Social tradicional que, circunscrito ao atendimento de 
problemáticas singulares e individuais, precisava adequar-se à modernização 
tecnocrática para ampliar as suas atribuições tradicionais, dotando-a de 
recursos técnicos para intervir na área da administração e planejamento dos 
serviços sociais. Netto (1996, p. 155) ressalta 
 
que se o desenvolvimento dessa perspectiva revela um 
feixe de profundas vinculações com a ordem sociopolítica 
oriunda do golpe de abril − muito visivelmente, com a 
abertura de espaços socioprofissionais nas instituições e 
organizações estatais e paraestatais, submetidas à 
racionalidade burocrática das reformas promovidas pelo 
Estado ditatorial −, sua emergência como que antecipa o 
padrão de profissional que o Estado “reformado” pela 
coalizão exigira nos anos seguintes. 
 
 No auge do processo de afirmação dessa perspectiva, ao final da 
década de 1960, o Serviço Social era concebido, conforme consta no documento 
de Araxá, como “disciplina de intervenção na realidade social, constituída por um 
 
 
188 
conjunto de conhecimento e técnicas” (CBCISS, 1986, p. 19). Tais conhecimento e 
técnicas, de acordo com essa tendência, vinculam-se aos objetivos, aos papéis, às 
funções e à metodologia de ação do Serviço Social. O conhecimento relativo à 
prática e à sua sistematização elevaria o Serviço Social ao status de ciência. 
 A legitimidade da profissão, segundo a perspectiva 
modernizadora, vincula-se ao desenvolvimento de um padrão de cientificidade 
caucionado pela experiência empírica dos assistentes sociais que, devidamente 
sistematizados, cria os modelos de intervenção e os conhecimentos 
necessáriospara a prática profissional. A descrição da prática profissional 
nessa perspectiva revela a preocupação em relação à forma, aos 
procedimentos de ação, ao domínio de recursos técnico-operacionais e 
mantém-se sempre aberta às diferentes concepções teóricas vinculadas ao 
pensamento da burguesia. A abertura para a assimilação de diferentes 
concepções teóricas no campo do pensamento da burguesia, mesmo que 
realizada de forma lateral, imprime aparentemente um caráter renovador a 
essa perspectiva: ora vincula-se ao estrutural-funcionalismo, ora ao 
neopragmatismo, ora às teorias sistêmico-organizacionais, sempre 
acompanhando o mundo da produção, a lógica do mercado, sempre restrita à 
apreensão da realidade com base em suas expressões fenomênicas, em sua 
imediaticidade. 
 O caráter renovador, modernizador, que se busca imprimir à 
profissão, de acordo com essa perspectiva, circunscreve-se ao domínio de 
modelos prescritivos e técnicas de manipulação de variáveis empíricas 
aplicáveis ao cotidiano da prática profissional. O desafio, pois, consiste em 
compreender os elementos que conformam o processo de objetivação na 
cotidianidade e resgatar o caráter social da imediaticidade, em que se ocultam 
as largas mediações absorvidas pela sociedade e se encontram as 
 
 
189 
possibilidades para que, objetiva e subjetivamente, ocorra o processo de 
superação do entendimento para a razão dialética. 
Outro desafio fundamental é o esclarecimento necessário acerca 
da dialética idealista hegeliana − que firma o progresso de abstração da 
realidade por meio da consciência − e da dialética materialista marxiana no 
qual há a unidade do diverso e as determinações abstratas correspondem à 
reprodução do concreto por meio do pensamento. 
 
 
 
 
 
 
 
190 
CAPÍTULO III – RAZÃO DIALÉTICA IDEALISTA E A RAZÃO 
HISTÓRICO-CRÍTICA: COTIDIANO E IMEDIATICIDADE 
 
Mas o homem não é apenas ser natural, mas ser 
natural humano, isto é, ser existente para si 
mesmo (für sich selbst seiendes Wesen), por 
isso, ser genérico, que enquanto tal, tem de 
atuar e confirmar-se tanto em seu ser quanto 
em seu saber” (MARX, 2004, p. 128). 
 
Neste estudo relativo à imediaticidade procurou-se, nos capítulos 
anteriores, descrever as formas e as características da prática profissional 
dos assistentes sociais quando o movimento da consciência se atém à aparência 
do fenômeno. Para tanto, percorrendo o movimento dialético que a consciência 
exercita sobre si mesma, tanto em seu saber como em seu objeto, buscou-se 
evidenciar o processo de supra-sunção da consciência do estágio da certeza 
sensível para a percepção e da percepção para o entendimento, ocorrido por 
meio da negação e da superação. A forma como a consciência conhece a 
realidade é sempre processual e aproximativa, e as determinações reflexivas 
hegeliana representam o caminho que o sujeito cognoscente percorre, partindo 
do imediato, para chegar ao saber absoluto. 
A exposição do caminho percorrido pela consciência em busca do 
saber, exercitando tanto o conhecimento sobre si mesma quanto sobre o seu 
objeto revela a imediaticidade como uma categoria reflexiva determinante 
para a consciência no estágio da certeza sensível, da percepção e do 
entendimento, quando ainda não ocorreu a supra-sunção para a razão e, na 
concepção hegeliana, desta para o saber absoluto. 
Tal qual como se explicitou o movimento da consciência em seu 
processo de supra-sunção nos estágios vinculados ao reino da aparência 
 
 
191 
buscar-se-á, a seguir, averiguar como a consciência em-si suprassume-se para 
o nível da consciência para-si, isto é, como ocorre o movimento de superação 
da consciência do estágio do entendimento para a razão no âmbito da dialética 
idealista hegeliana e como essa razão efetivada torna-se o espírito universal. 
A razão idealista concebida por Hegel (2001) apreende a substância universal 
como resultado do próprio movimento da consciência. Para a razão histórico-
crítica, a substância do mundo resulta das relações que os homens 
estabelecem com a natureza e entre si, tendo em vista a satisfação das 
necessidades humanas. Assim, para demarcar as diferenças entre essas duas 
concepções, buscar-se-á, também, abordar os fundamentos ontológicos do 
materialismo histórico-dialético, que apreende o movimento da realidade em 
sua totalidade contraditória e suas conexões com o cotidiano e a 
imediaticidade. 
 
3.1 Razão na dialética idealista hegeliana 
 
A consciência no estágio do entendimento apreende as 
propriedades do objeto em relação a forma e ao conteúdo explicitadas em leis 
que refletem o fenômeno como fenômeno − a cópia imediata do mundo 
percebido ou a aparência da essência. 
Ao final desse percurso, a consciência encontra a si mesma e, 
atrás da aparência aparece o sujeito que conhece, ocorre a superação91 do 
entendimento. A consciência descobre que a essência das coisas é a 
autoconsciência, o mundo é a realização da autoconsciência do homem, da 
consciência-de-si que encontrou o conceito das coisas. Hegel (2001) então 
explicita a sucessão de experiências da consciência-de-si, em situações 
 
91 Superação está sendo empregada no sentido da supra-sunção, que significa “a um só tempo, a eliminação, 
a conservação e a sustentação qualitativa do ser que supra-sume” (Ranieri, 2004, p.16). 
 
 
192 
históricas efetivas por ela forjadas, conduzindo-se processualmente para a 
supra-sunção do estágio do entendimento para a razão e adentrando ao mundo 
verdadeiro do saber absoluto − o reino da essência. No presente capítulo, 
busca-se descrever o movimento da consciência no estágio da razão e, como no 
pensamento hegeliano, o conhecimento apreende o objeto. 
A consciência-de-si, nesse caminho, é impulsionada pelo desejo 
dos objetos e descobre que o ponto de repouso de sua satisfação é uma outra 
consciência-de-si92, formando uma conexão de dependência e, ao mesmo 
tempo, independência entre si, explicitada por Hegel (2001) na relação de 
dominação/escravidão entre o senhor e o escravo e a luta pelo 
reconhecimento. 
Essa luta implica arriscar a vida para conquistar a liberdade mas, 
se uma consciência-de-si somente se reconhece perante outra consciência-de-
si há que se estabelecer o consenso por meio da razão. A atitude negativa ante 
o ser-outro converte-se em uma atitude positiva. A consciência-de-si, até 
agora, 
 
só se preocupava com sua independência e sua liberdade, a 
fim de salvar-se e conservar-se para si mesma, às custas 
do mundo ou de sua própria efetividade [já] que ambos lhe 
pareciam o negativo de sua essência. Mas como razão, 
segura de si mesma, a consciência-de-si encontrou a paz 
em relação a ambos; e pode suportá-los, pois está certa 
de si mesma como [sendo] a realidade, ou seja, está certa 
de que toda a efetividade não é outra coisa que ela 
(HEGEL, 2001, p. 153). 
 
92 Consciência-de-si é razão, porém, afirma Hegel (2001, p. 153) “a consciência-de-si não é toda a realidade 
somente para si. Segue-se, então, a problematização dos obstáculos que se interpõem para a consciência-de-si 
que é pura abstração do Eu, o ceticismo e a consciência infeliz imutável. 
 
 
193 
Hegel (2001) evidencia que esse pensamento é apreendido pela 
consciência singular, que retorna a si mesma e denomina esse movimento de 
certeza e verdade da razão. Para a consciência-de-si, “seu pensar é 
imediatamente, ele mesmo, a efetividade; assim comporta-se em relação a ela 
como idealismo” (HEGEL, 2001. p. 153). A consciência que afirma ser toda a 
verdade deixa para trás esse caminho e o esquece ao surgir imediatamente 
como razão, assinala o filósofo. O endereço dessa crítica é o idealismo alemão 
anterior ao seu pensamento que anuncia a unidade simples da consciência como 
sendo toda a realidade. Para superar essaunidade simples Hegel (2001) 
estabelece as mediações entre o Eu e o Nós, entre o singular e o universal. 
Tais mediações recuperam, no âmbito da razão, o movimento que se inicia com 
o visar e o perceber dos estágios da certeza sensível e da percepção, mas 
agora, em outro patamar, ou melhor, contendo já o elemento da superação 
impulsionada pela negação. 
Hegel (2001, p. 158) assim explicita esse caminho da consciência, 
então impregnada pelas propriedades da razão que conecta o singular e o 
universal, adentrando de novo o visar e o perceber 
 
que se suprassumiram só para nós, são agora 
suprassumidos da consciência para ela mesma. A razão, 
pois, parte para conhecer a verdade, para encontrar como 
conceito o que era uma coisa para o “visar” e o perceber, 
isto é, para ter na coisidade somente a consciência de si 
mesma. 
 
Nesse momento, o que impulsiona a razão é o interesse universal 
pelo mundo, qualificado por Hegel (2001) como razão observadora, na qual, a 
consciência retorna às coisas para tomá-las como coisas sensíveis opostas ao 
 
 
194 
Eu. No entanto, a razão conhece as coisas e as transforma em conceitos, 
afirma que elas só têm verdade como conceito. Para explicitar o movimento da 
razão observadora, Hegel (2001) apreende a dinamicidade contraditória da 
natureza, do espírito e a relação entre ambos em forma de ser sensível, 
evidenciando a mediação entre a singularidade e a universalidade, indivíduo e 
gênero. Segundo a concepção hegeliana, a natureza orgânica não tem história. 
O indivíduo universal da natureza orgânica é a terra, que age como 
negatividade universal contra o sistematizar do gênero, que se divide em 
espécies e se efetiva apenas como individualidade singular. Conforme Hegel 
(2001, p. 190), 
a natureza orgânica não tem história: de seu universal − a 
vida − precipita-se imediatamente na singularidade do 
ser-aí; e os momentos unificados nessa efetividade − a 
determinidade simples e a vitalidade singular − produzem 
o vir-a-ser apenas como o movimento contingente, no qual 
cada um desses momentos é ativo em sua parte, e no qual 
o todo é conservado. Porém essa mobilidade é para si 
mesma, limitada somente a seu [próprio] ponto, porque 
nele o todo não está presente; e não está presente porque 
aqui não está como todo para si. 
 
A universalidade da vida orgânica em sua efetividade precipita-se 
para o extremo da singularidade e, como a razão observadora não pode ir além 
desse imediato, limita-se às relações aparentes “das indicações adequadas, das 
relações interessantes, das deferências ao conceito” (HEGEL, 2001, p. 190). 
A consciência de-si é razão e só encontra o conceito livre, cuja 
universalidade contém em si mesma a singularidade desenvolvida, no próprio 
conceito existente como conceito, diz Hegel (2001). A observação da 
 
 
195 
consciência de-si verificará, por outro lado, que o conceito livre não se 
encontra nas leis psicológicas93, que são leis do puro pensar, mas ao procurá-lo 
nesse retorno a si mesma abre-se espaço para a efetivação da consciência de-
si racional por meio de si mesma, a razão ativa. 
Os entrelaçamentos entre os aspectos lógicos, gnosiológicos e 
ontológicos vão se evidenciando no sistema hegeliano. A explicitação do 
caminho que conduz ao conhecimento sustenta-se em argumentos ontológicos 
que relacionam o papel da consciência á dinâmica de interiorização e 
exteriorização, à particularidade e universalidade do agir e dos atos94 
humanos. Nesse processo, o trabalho e a linguagem são, para Hegel (2001, p. 
198), “exteriorizações nas quais o indivíduo não se conserva nem se possui mais 
em si mesmo; senão que nessas exteriorizações faz o interior sair totalmente 
de si, e o abandona a Outro”. A exteriorização é o ato pelo qual uma 
efetividade separa-se do indivíduo. Ao explicitar esse processo de 
exteriorização, Hegel (2001) diferencia o agir e o ato, concebendo que o 
homem é originariamente o seu próprio destino, manifestação e efetivação do 
em-si da individualidade. 
 Diferentemente da natureza, o indivíduo não fica mudo em seu 
agir exterior ou em relação a ele, pois, segundo Hegel (2001, p. 202), esse agir 
“é ao mesmo tempo refletido, sobre si, e exterioriza esse ser-refletido sobre 
si. É o agir teórico − ou a linguagem do indivíduo consigo mesmo sobre seu 
 
93 “A psicologia contém grande número de leis, segundo as quais o espírito se comporta diversamente para 
os diversos modos de sua efetividade − enquanto essa efetividade é um ser-outro encontrado. Tal 
comportamento consiste, por uma parte, em acolher em si mesmo esses modos diversos, em adaptar-se ao 
que é assim encontrado: hábitos, costumes, modos de pensar, enquanto o espírito é neles objeto para si 
mesmo como efetividade. Mas, por outra parte [esse comportamento consiste] em saber-se [atuando] 
espontaneamente frente a eles, a fim de retirar para si, dessa efetividade, só algo especial segundo a própria 
inclinação e paixão, e, portanto, em adaptar o objetivo a si mesmo. No primeiro caso, o espírito se comporta 
negativamente pra consigo mesmo, enquanto singularidade; no outro caso, negativamente para consigo, 
enquanto universal”, afirma Hegel ( 2001, p. 194), 
94 Para Hegel (2001), o agir tem duas significações opostas: ou é individualidade interior ou, como 
exteriorização, é uma efetividade livre do interior. O ato é a efetividade separada do indivíduo. 
 
 
196 
agir−, que é também inteligível para outros, pois a própria linguagem é 
exteriorização”. 
O processo de exteriorização do interior é explicitado por Hegel 
(2001) por meio da individualidade, donde, de um lado, há manifestações das 
expressões corporais, o ser refletido-em-si revelado nos traços, e, de outro, a 
essência da individualidade. Essa relação é perpassada por conflitos, pois a 
individualidade consciente-de-si procura o que deve ser nela o interior e o 
exterior. Hegel (2001) sinaliza que esse ponto de vista é o pensamento que 
está na base da ciência fisiognômica e que dessa observação chega-se à 
oposição, segundo a forma do prático e do teórico. 
 A superação dessa oposição dá-se por meio da razão ativa que 
apreende o conceito como conceito e reconhece o objeto como efetividade 
objetiva da consciência-de-si. Nessa estação, a “consciência-de-si encontra a 
coisa como a si, e a si como coisa, quer dizer: é para ela que essa consciência é 
em si efetividade objetiva”, afirma Hegel (2001, p. 221). 
Com essa ponderação, Hegel (2001) estabelece os pressupostos 
reflexivos para a superação da certeza imediata que já não pode mais ser 
considerada como toda realidade. A certeza que brota dessa dimensão da 
consciência-de-si tem o imediato suprassumido, no qual sua objetividade vale 
somente como aparência, pois o seu interior e sua essência revelam, a própria 
consciência-de-si que objetiva o objeto, que se efetiva. 
O objeto para a consciência-de-si já não é mais algo estranho, e, 
apesar de ser independente é reconhecido em si mesmo. Nesse momento, a 
consciência-de-si é espírito que, conforme Hegel (2001, p. 221), “tem a 
certeza de ter sua unidade consigo mesmo na duplicação de sua consciência-
de-si e na independência das duas consciências-de-si [daí resultantes]”. A 
verdade resulta da elevação dessa certeza para a consciência-de-si: “o que 
 
 
197 
para ela vale como sendo em si , em sua certeza interior, deve entrar na sua 
consciência e vir-a-ser para ela”, diz o filósofo alemão (2001, p. 221). 
Concebe-se que no caminho percorrido pela auto-consciência 
repete-se, no âmbito da razão observadora, o movimento da consciência, isto 
é, a passagem negadora/superadora da certeza sensível para a percepção, e 
dela, para o entendimento. Por sua vez, a razão ativa retoma o duplo 
movimento da consciência-de-si, passando da independência para a sua 
liberdade. Para Hegel (2001) essa superação ésempre processual. 
Inicialmente, a razão ativa está consciente de si mesma como indivíduo e, em 
outro momento, produz a sua efetividade. No duplo movimento da razão ativa, 
ocorre a elevação da consciência, e a razão torna-se universal. De acordo com 
Hegel (2001, p. 221), 
o indivíduo é consciente de si como razão, como algo já 
reconhecido em si e para si, que unifica em sua pura 
consciência toda a consciência-de-si. É a essência 
espiritual simples que, ao chegar à [luz da] consciência é, 
ao mesmo tempo, substância real; para dentro dela 
retornam, como a seu fundamento, todas as formas 
anteriores, que assim, em relação a ela, são momentos 
singulares simples de seu vir-a-ser. Os momentos se 
desprendem, sem dúvida, e aparentam formas próprias; 
mas de fato só têm ser-aí e efetividade sustidos pelo 
fundamento; e só têm verdade à medida que nele estão e 
permanecem. 
 
A verdade que nele está e ali permanece como fundamento é o 
conceito que surgiu para nós, a consciência-de-si reconhecida, que tem em 
outra consciência-de-si livre a certeza de si mesma, que Hegel (2001, p.222) 
 
 
198 
designa como o reino da eticidade, “a absoluta unidade espiritual dos indivíduos 
em sua efetividade independente”. 
Em relação à certeza sensível e à percepção, a verdade já não é 
mais produto apenas da consciência do indivíduo singular. Quanto ao estágio do 
entendimento, a consciência não se encontra presa à apreensão das leis 
advindas das propriedades do objeto. Nesse estágio da razão, a consciência 
singular torna-se cônscia da consciência universal como o seu próprio ser: 
“porque seu agir e seu ser aí são o ethos universal”, afirma Hegel (2001, 
p.222). No momento em que atinge a razão ativa, o movimento da consciência-
de-si, apreende o universal em si, no qual o que é efetivo para ela, o é também 
para uma outra consciência. Nas palavras do autor: 
 
Com efeito, esse reino não é outra coisa que a absoluta 
unidade espiritual dos indivíduos em sua efetividade 
independente. É uma consciência-de-si universal em si, que 
é tão efetiva em uma outra consciência, que essa tem 
perfeita independência – ou seja, é uma coisa para ela. 
[Tão efetiva] que justamente nessa independência está 
cônscia de sua unidade com a outra, e só nessa unidade 
com tal essência objetiva é consciência-de-si (HEGEL, 
2001, p. 222). 
 
A substância ética, que resulta dessa unidade, na abstração da 
universalidade, é a lei pensada, mas é, também, e não menos imediatamente, a 
consciência-de-si efetiva ou o ethos. A expressão do ethos universal, para 
Hegel (2001, p. 222) encontra-se na vida de um povo, porque é nela que o 
 
conceito tem, de fato, a efetivação da razão consciente-
de-si e sua realidade consumada: ao intuir, na 
 
 
199 
independência do Outro, a perfeita unidade com ele; ou 
seja, ao ter por objeto, como o meu ser-para-mim, 
substâncias singulares essa livre coisidade de um outro, 
por mim descoberta – que é o negativo de mim mesmo. 
 
A substância ética coincide, pois, com a substância universal, na 
qual se encontra presente a razão, “como imutável coisidade simples, que a 
igualmente se refrata em múltiplas essências completamente independentes”, 
afirma Hegel (2001, p.222). Tais essências em-si dissolvem-se na substância 
independente simples, porém, cônscias de serem substâncias simples, 
singulares, sacrificam a sua singularidade porque sua substância universal é a 
sua alma e essência. Hegel (2001) diz que é na vida do povo que o agir dessas 
singularidades efetiva a substância universal sem, contudo, anular as 
necessidades que os indivíduos possuem como ser-natural. 
O universal é, pois, o agir dessas essências como singulares, que 
se referem às necessidades que os indivíduos possuem como seres naturais. De 
um lado, ao buscar a satisfação de suas próprias necessidades, o indivíduo 
satisfaz também as necessidades de outros indivíduos, e de outro, o indivíduo, 
para satisfazer as suas necessidades, depende de outros indivíduos. A relação 
de mútua dependência cria, segundo Hegel (2001, p. 223), a unidade entre os 
indivíduos que redunda no espírito universal, no qual “cada um tem a certeza de 
si mesmo – cada um está tão certo dos outros quanto de si mesmo”. 
A substância universal é a razão efetivada. Aquilo que o indivíduo 
faz é o ethos de todos e, para Hegel (2001), o trabalho é a expressão dessa 
substância, pois, nele o indivíduo encontra a forma de subsistência de seu agir 
em geral, mas também o conteúdo de seu agir. Segundo o filósofo, o “trabalho 
do indivíduo para [prover a] suas necessidades, é tanto satisfação das 
 
 
200 
necessidades alheias quanto das próprias; e o indivíduo só obtém a satisfação 
de suas necessidades mediante o trabalho dos outros” (HEGEL, 2001, p. 223). 
Ao realizar o trabalho singular para satisfazer as suas próprias 
necessidades, o indivíduo realiza, tendo consciência ou não de seu objeto, o 
trabalho universal, o ethos de todos. Hegel (2001, p. 223) estabelece assim a 
reciprocidade entre o singular e o todo, a relação de unidade que expressa a 
identidade entre ambos, denominada de “unidade do ser para outro – ou do 
fazer-se coisa – com o ser-para-si”. Essa unidade é a substância universal e 
fala sua linguagem nos costumes e nas leis de seu povo. Essa essência, 
expressão da individualidade singular, aparenta ser-lhe oposta contudo, Hegel 
(2001, p.223) afirma que 
 
as leis exprimem o que cada indivíduo é e faz; o indivíduo 
não as conhece somente como sua coisidade objetiva 
universal, mas também nela se reconhece, ou: [conhece-a] 
como singularizada em sua própria individualidade, e na de 
cada um de seus concidadãos. Assim, no espírito universal, 
tem cada um a certeza de si mesmo – a certeza de não 
encontrar, na efetividade essente, outra coisa que a si 
mesmo. Cada um está tão certo dos outros quanto de si 
mesmo. 
 
Ao atingir esse estágio, a consciência de-si transforma-se 
também em consciência para-si, eliminam-se todas as barreiras e conflitos 
entre o indivíduo e a totalidade universal, entre o sujeito e o objeto, que 
guardam a unidade identitária. O autor esclarece: 
 
Vejo em todos eles que, para si mesmos, são apenas esta 
essência independente, como Eu sou. Neles vejo a livre 
 
 
201 
unidade com os outros, de modo que essa unidade é 
através dos outros como é através de mim. Vejo-os como 
me vejo, e me vejo como os vejo (HEGEL, 2001, p. 223) 
 
A razão efetivada suprassumida no âmbito da consciência torna-
se o espírito vivo presente. A consciência, nesse processo de superação, 
encontra o reino do saber absoluto e suprime toda a resistência em relação a 
uma efetividade oposta. 
Ao retomar o caminho gnosiológico percorrido por Hegel (2001) 
percebe-se a explicitação dos fundamentos acerca da ontologia da natureza e 
do ser social, da relação entre o indivíduo e o universal no sistema hegeliano. O 
caminho gnosiológico elaborado por Hegel (2001), que conduz o processo de 
supra-sunção do intelecto à razão, cria a base, segundo Lukács (1979 b, p. 79), 
“para o conhecimento de uma realidade complexa, fundada sobre a totalidade, 
dinamicamente contraditória, em face da qual havia fracassado a gnosiologia 
dos séculos XVIII e XIX”. O conhecimento não é cindido entre o cognoscível e 
o incognoscível (a coisa em si). Em outras palavras, a razão não se encontra 
mais apartada do intelecto, ela é superior ao intelecto, mas brota exatamente 
da contraditoriedade do entendimento, estabelece e conhece a conexão entre 
os objetos. 
 O sistema hegeliano não se limita ao conteúdo da Fenomenologia 
do espírito (2001), escrito em 1807, mas, nessa obra está contida uma das 
grandes linhas do pensamento filosófico de Hegel. Por sua vez, o sistema 
hegeliano representa o ponto culminante atingido pelo idealismo alemão 
construído por Kant, Fichte95, Schelling96 e Hegel, cujo significado somente95 Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), filósofo alemão, foi dos representantes do idealismo alemão pós-
kantinano. Segundo Japiassú e Marcondes (2006, p. 107), “sua ética humanista e seu idealismo prático 
anteciparam certas idéias do existencialismo como o fazer-se do homem por si mesmo”. 
 
 
202 
pode ser compreendido no contexto da Revolução Francesa97. O pensamento 
hegeliano ergue-se inspirado nos acontecimentos sociais, econômicos, políticos 
e culturais da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. A realidade 
sobrepujada pelas transformações das forças produtivas, da saturação de uma 
ordem societária que já não respondia as necessidades materiais e espirituais 
dos homens é, para Hegel (2001), resultado do pensamento, pois, é o 
pensamento que deve governar a realidade. A totalidade dos conceitos e 
princípios objetivos que devem governar a realidade, para Hegel (2001), 
chama-se razão, que é concebida pelo sujeito e jamais seria resultante de sua 
unidade imediata com a realidade. Marcuse (2004, p. 21) afirma que essa 
 
unidade só aparece depois de um longo processo que se 
inicia no mais baixo nível da natureza e chega à mais alta 
forma de existência à existência de um sujeito livre e 
racional, vivendo e agindo na autoconsciência de suas 
potencialidades. Na medida em que haja qualquer hiato 
entre o real e o potencial, o primeiro deve ser trabalhado 
e modificado até se ajustar à razão. Enquanto a realidade 
não estiver modelada pela razão, não será, ainda, no 
sentido forte da palavra, realidade. 
 
A razão, no sistema hegeliano é a afirmação do pensamento sobre 
a realidade, do indivíduo pensante sobre a ordem prática. Por isso, o 
 
96 Friedrich Schelling ( 1775-1854), contemporâneo de Fichte e de Hegel e, foi também, um representes do 
idealismo pós-kantiano. Para este filósofo o único conhecimento possível é o que a consciência tem de si 
mesma (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2007). 
97 O idealismo alemão foi considerado a teoria da Revolução Francesa, e suas idéias surgiram “no cerne dos 
sistemas idealistas, determinando, sob muitos aspectos, sua estrutura conceitual. A Revolução Francesa, aos 
olhos dos idealistas alemães, não só abolira o absolutismo feudal, substituindo-o pelo sistema econômico e 
político da classe média, mas, ao emancipar o indivíduo como senhor auto-confiante de sua vida, completara 
o que a Reforma Alemã havia começado. A situação do homem no mundo, seu trabalho e lazer, deveriam, 
doravante, depender de sua própria atividade racional livre e não de qualquer autoridade externa”, assinala 
Marcuse (2004, p. 15). 
 
 
203 
pensamento hegeliano98 expõe, por meio da lógica, da ética e da gnosiologia, o 
que deveria ser, para Hegel (2001), o modelo ideal para a sociedade que 
emergia com a queda do antigo regime, isto é, uma concepção ontológica do ser 
social. 
 Nos anos que se seguiram à morte de Hegel, ocorrida em 1831, o 
seu sistema filosófico foi posto em questão e se iniciou o processo de 
dissolução de seu pensamento em um contexto histórico de profundas 
transformações societárias, tendo como pano de fundo o desenvolvimento da 
sociedade capitalista com suas contradições e a luta de classe entre a 
burguesia e o proletariado, expressa sobretudo nas revoltas de l848. A crítica 
mais profícua a esse pensamento foi realizada por Karl Marx (1818-1883). Tal 
crítica conduziu à dialética materialista, que será tratada a seguir, a fim de 
resgatar os elementos para apreender o caráter social da imediaticidade e as 
condições necessárias para a superação do imediatismo na prática profissional 
cotidiana do assistente social. 
Retomar essa reflexão com base na crítica materialista implica 
discutir uma concepção de mundo e perspectiva de sociedade diferenciada e 
antagônica daquela apresentada por Hegel (2001), e, nesse sentido, duas 
observações são importantes. A primeira é a reafirmação da compreensão 
segundo a qual a explicitação do caminho gnosiológico percorrido pela ciência 
em busca do conhecimento revela, também, aspectos lógicos e ontológicos que 
 
98 Para Marcuse (2004, p. 35), a “filosofia de Hegel apresenta cinco diferentes estágios de desenvolvimento: 
1. O período de 1790 a 1800 marca a tentativa de formular uma fundamentação religiosa para a filosofia, 
como o atesta a coletânea daquele período, os Theologische Jugendschreften. 2. 1800 – 1801: formulação do 
ponto de partida e dos interesses filosóficos de Hegel, por meio da discussão crítica sistemas filosóficos 
contemporâneos, especialmente os de Kant, Fitche e Schelling. As obras principais de Hegel, nesse período, 
são: Differenz dês Fichteschen und Schellinsgschen Systems der Philosophie, Glauben und Wissen, e outros 
artigos no Kristische Journal der Philosophie. 3. Os anos de 1801 a 1806 viram nascer o sistema Jenense, 
primeira forma do sistema completo de Hegel. Este período foi documentado pela Jenenser Logik und 
Metaphysik, Jenenser Realphilosophie, e o System der Sittlichleit. 4. 1807: publicação da Phenomenologie 
dês Geites, 5. Período do sistema final que fora esboçado entre 1808-11 na Philosophische Propädeutik mas 
não se consumara até 1817. A este período pertencem as obras que constituem a parte mais volumosa dos 
escritos de Hegel: Wissenschft der Logik (1812-16), Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften 
(1817, 1827, 1830), Grundlinien der Philosophie dês Rechts (1821), e os vários cursos em Berlim sobre a 
filosofia da História, História da Filosofia, Estética e Religião”. 
 
 
204 
permeiam o sistema de saber. A segunda observação é a sinalização acerca da 
importância do retorno ao pensamento de Hegel e à teoria social de Karl Marx, 
em um contexto de aprofundamento da sensibilidade consumidora que a tudo 
torna instantâneo, de presentificação do presente e de cultura do 
imediatismo. 
Para discutir as categorias reflexivas na perspectiva materialista, 
que supera a perspectiva idealista, privilegiar-se-á na exposição, a seguir, o 
significado e os argumentos da crítica realizada por Marx (2004; 2005) e 
Lukács (1979a; 1979b) ao pensamento hegeliano, as questões que envolvem a 
relação entre teoria e prática, a fim de sedimentar alguns parâmetros 
analíticos para refletir acerca da imediaticidade como elemento da vida 
cotidiana. 
 
3.2 A perspectiva ontológica da concepção materialista: a razão histórico-
crítica 
 
O movimento crítico99 em relação à filosofia hegeliana que se 
instaurou na Alemanha, a partir de 1840, foi tão violento que desconsiderou a 
dialética de Hegel (2001). Em face ao movimento crítico que evidenciava as 
antinomias dessa filosofia, Marx (2004, p. 115) indaga “o que fazer com a 
dialética hegeliana?”. Nessa mesma direção, Lukács (1979a, p. 23), analisando 
esse movimento, diz que, no pensamento hegeliano, “os aspectos justos e os 
aspectos equivocados apresentam-se nele unidos e ligados de modo 
indissolúvel”. Para averiguar se a sua filosofia aponta o futuro, há que se tomar 
cada problema isoladamente, isto é, verificar, por exemplo, a convergência 
entre idéia e realidade ou como atribuir qualidades diferenciadas para a 
 
99 Conforme Marx (2004, p. 117), Feuerbach é o “único que tem para com a dialética hegeliana um 
comportamento sério, crítico, e [o único] que fez verdadeiras descobertas nesse domínio”. 
 
 
205 
sociedade em relação à natureza. Somente o estudo particularizado de 
determinado problema estabelecido no sistema filosófico hegeliano possibilita 
abrir caminhos para uma nova ontologia do ser social. 
A nova concepção ontológica, que começou a ser desenhada em 
Hegel, foi construída por Marx (2004), que buscou − em sua crítica à dialética 
de Hegel (2001), cujo resultado

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