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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL MARILENE APARECIDA COELHO IMEDIATICIDADE NA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL Rio de Janeiro 2008 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL MARILENE APARECIDA COELHO IMEDIATICIDADE NA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da ESS/UFRJ, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Serviço Social. Orientador: Prof. Dr. Carlos Eduardo Montaño. Rio de Janeiro 2008 2 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL MARILENE APARECIDA COELHO IMEDIATICIDADE NA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da ESS/UFRJ, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Serviço Social. Aprovada pela banca abaixo indicada: ______________________________________ Prof. Dr. Carlos Eduardo Montaño. _____________________________________ Prof. Dr. José Paulo Netto ______________________________________ Profa. Dra Maria Inês Souza Bravo ______________________________________ Profa. Dra Yolanda Guerra _____________________________________ Profa. Dra Maria Lucia Duriguetto 3 Ficha Catalográfica Coelho, Marilene Aparecida Imediaticidade na prática profissional do assistente social/ Marilene Aparecida Coelho; orientador: Carlos Eduardo Montaño − Rio de Janeiro: UFRJ, Escola de Serviço Social, 2008. 319 f.; Tese (doutorado) − Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Serviço Social. Inclui referências Bibliográficas 1. Serviço Social. 2. Prática profissional. 3. Razão histórico- crítica. 4. Imediaticidade. I Montaño, Carlos. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Serviço Social. III. Título. 4 À Joana Maria, minha filha querida, que ilumina o futuro. À Isabel Cristina, irmã amiga, que recompõe o nosso passado. 5 AGRADECIMENTOS O momento de externar os agradecimentos àqueles que contribuíram diretamente para o cumprimento de uma jornada tão rica em aprendizagem é necessário e oportuno. Os primeiros agradecimentos dirigem-se à Universidade Católica de Goiás, por meio da Pró-Reitoria de Pós-graduação e Pesquisa, que oportunizou as condições e o apoio para a realização deste doutorado, particularmente, o Departamento de Serviço Social da Universidade Católica de Goiás. Em especial, à professora Carmen Paro, diretora do Departamento de Serviço Social, sempre atenta às nossas necessidades e partilhando cada momento, cada batalha. Agradeço, também, todas as colegas professoras do Departamento, indistintamente. Agradeço e compartilho com alegria, respeito e admiração todas as conquistas com a nossa querida amiga professora Walderez, que nos inspira em sua coerente trajetória profissional de luta e atitude crítica. O percurso iniciado com o processo de seleção e que culmina com a apresentação da tese não foi realizado solitariamente, pois alguns ombros amigos foram fundamentais para o cumprimento dessa tarefa. Dentre eles, agradeço a minha irmã, Isabel Cristina, e a sua família, pelo apoio logístico durante a minha estada na cidade do Rio de Janeiro, sempre amiga, companheira, preocupada com cada detalhe e com o bem-estar de minha filha. Agradeço às colegas do curso de doutorado, especialmente Eleusa e Omari pelos momentos compartilhados, pelas discussões teóricas e troca de saberes, e, ainda, à amiga e colega da comissão de ensino, Terezinha e a Leile pelo apoio. Contei, nessa trajetória, com uma companheirinha destemida: Joana Maria, minha filha, que mudou de cidade, de escola, conheceu novos 6 horizontes, fez amigos, cresceu, amadureceu e aprendeu a exercitar a paciência, acompanhando-me para verificar in loco como eram interessantes as aulas ministradas por meus professores, ouvindo as dúvidas, as angústias, as euforias pelas descobertas e as reclamações pelo cansaço. Estudar em um programa da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro é um grande privilégio, e procurei valorizar cada momento, da forma mais intensa possível. Nesse caminho, encontrei mestres que me instigaram e que, apaixonados por seus ofícios, profundamente comprometidos com o conhecimento e com o Serviço Social brasileiro e latino-americano, me estimularam a redescobrir as dimensões teórico-metodológicas, ético-políticas e técnico-operativas da profissão. Dentre esses mestres, destaco os professores José Paulo Netto, Yolanda Guerra e, especialmente, Carlos Montaño, meu querido orientador. Produzir uma tese não é uma tarefa fácil, o processo é árduo, doloroso, exaustivo intelectual e fisicamente. O professor Carlos assumiu um comportamento pedagógico ímpar, conjugando rigor, exigência e respeitando meus limites para a produção intelectual na dose certa. Aprendi, ao longo desse processo, a admirá-lo como pessoa e como intelectual, a valorizar as suas produções, a compreender a importância da ação política e profissional desse jovem professor na América Latina. Por último, gostaria de agradecer aos professores doutores que gentilmente aceitaram participar da banca de qualificação dos papers, do projeto de tese, da pré-defesa e da defesa da tese − Yolanda Guerra, José Paulo Netto, Maria Inês Souza Bravo, Elaine Berhing e Maria Lúcia Duriguetto. 7 SUMÁRIO RESUMO............................................................................................................................. 9 ABSTRACT........................................................................................................................10 APRESENTAÇÃO............................................................................................................. 11 CAPÍTULO I – FENOMENOLOGIA DA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL: O APARECER NA TOTALIDADE ...........................18 1.1 Emergência do Serviço Social e as bases teóricas e ideo-políticas da prática profissional.......................................................................................... 25 1.2 Concepção de Serviço Social e a prática profissional................................... 43 1.3 A fenomenologia em Hegel: o aparecer da prática profissional ................. 58 1.4 A fenomenologia da prática profissional do assistente social: a preponderância da certeza sensível............................................................... 65 1.4.1 A prática profissional assistencialista................................................ 72 1.4.2 A prática profissional imediatista ....................................................... 77 1.5 A percepção e a prática profissional do assistente social............................91 CAPÍTULO II – O REINO DO ENTENDIMENTO E A PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL ...................................................... 107 2.1 A força do entendimento.................................................................................... 112 2.2 A força do entendimento, o pensamento burguês e o Serviço Social ...... 131 2.3 Descrição da práticaprofissional do assistente social orientada pelo entendimento ................................................................................................155 2.4 A prática profissional burocratizada e repetitiva..........................................173 8 CAPÍTULO III – RAZÃO DIALÉTICA IDEALISTA E A RAZÃO HISTÓRICO-CRÍTICA: COTIDIANO E IMEDIATICIDADE...........................190 3.1 Razão dialética idealista hegeliana................................................................... 191 3.2 A perspectiva ontológica da concepção materialista: a razão histórico-crítica...................................................................................................204 3.3 A unidade teoria e prática..................................................................................216 3.4 Cotidiano e Imediaticidade ...............................................................................223 3.5 Alienação, valores e vida cotidiana..................................................................230 3.6 Reconstrução do trajeto: imediaticidade uma categoria reflexiva ................................................................................................................238 3.7 O sentido da prática ...........................................................................................246 CAPÍTULO IV – RAZÃO HISTÓRICO-CRÍTICA, SERVIÇO SOCIAL E IMEDIATICIDADE..................................................................................................252 4.1 O processo de renovação do Serviço Social brasileiro e a razão histórico-crítica...................................................................................................258 4.2 O processo de desenvolvimento da perspectiva marxista no Serviço Social brasileiro....................................................................................265 4.3 A prática profissional orientada pela razão histórico-crítica ..................276 4.4 Descrição da pratica profissional histórico-crítica: determinações, mediações e legalidades .......................................................284 CONSIDERAÇÕES FINAIS: Imediaticidade na prática profissional do assistente social................................................................................314 Referências Bibliográficas .........................................................................................330 ANEXO Pesquisa documental ....................................................................................................345 9 RESUMO O presente estudo propõe investigar a imediaticidade na prática profissional cotidiana do assistente social. A superficialidade extensiva da vida cotidiana, a forma fragmentada de apreensão da realidade hegemônica na sociedade capitalista e sua tendência à naturalização dos fenômenos sociais, conduzem ao obscurecimento da essência, ao considerar o aparente como a substância. O conhecimento da realidade implica o desvelamento da aparência, e a consciência assume um papel fundamental nesse processo. Para apreender a essência, a consciência movimenta-se dialeticamente, a fim de capturar as mediações que conectam os complexos sociais constitutivos e constituintes da totalidade do ser social, e supera, no plano do pensamento, a imediaticidade. A descrição desse movimento, pautado no discurso dos assistentes sociais relativo à prática profissional possibilitou submeter à crítica como a imediaticidade ou a imediatez do fazer profissional condiciona a concepção que os assistentes sociais têm da elaboração teórica e, portanto, ao empobrecê-la, perpetuam a prática reiterativa. Possibilitou, também, analisar a relação teoria e prática no âmbito da certeza sensível, da percepção, do entendimento e da razão histórico-crítica. A base filosófica e teórico- metodológica para o desenvolvimento da presente tese fundamenta-se na tradição marxista e foram realizadas pesquisas bibliográfica e documental. Palavras-chave: prática profissional − imediaticidade − razão histórico-crítica. 10 ABSTRACT This study investigates the immediacy in professional practice of everyday social worker. The extensive superficiality of daily life, the fragmented way of apprehending reality hegemonic in capitalist society and its tendency to naturalization of social phenomena, leads to the obscurity of the essence, when considering the apparent as the substance. Knowledge of reality involves the unveiling of appearance, and awareness is a key role in this process. To grasp the essence, the conscience moves up dialectically, in order to capture the mediations that connect the complex social constituent and and the constituents of social being's totality, and exceeds, in terms of thinking, the immediacy. The description of this movement, based on the discourse of social workers on professional practice, allowed to submit the criticism of how the immediacy of professional practice stipulates the view that social workers have about the theoretical development and therefore as they impoverish it, perpetuate the reiterative practice. Also enabled exam the relationship theory and practice within the sensitive sure, the perception, understanding and historical-critical reason. The philosophical and theoretical – methodological base for the development of this thesis is based on Marxist’s tradition and literature and bibliography and documentary searches were made. Key Words : profissional practice − immediacy − historical-critical reason 11 APRESENTAÇÃO O presente estudo propõe investigar a imediaticidade na prática profissional cotidiana do assistente social. A superficialidade extensiva da vida cotidiana, a forma fragmentada como o pensamento hegemônico apreende a realidade na sociedade capitalista e sua tendência à naturalização dos fenômenos sociais, conduzem ao obscurecimento da essência, ao considerar o aparente como a substância. O conhecimento da realidade implica o desvelamento da aparência, e a consciência assume um papel fundamental nesse processo. Para apreender a essência, a consciência movimenta-se dialeticamente, a fim de capturar as mediações que conectam os complexos sociais constitutivos e constituintes da totalidade do ser social, e supera, no plano do pensamento, a imediaticidade. Entende-se imediaticidade como uma categoria reflexiva que designa um certo nível de recepção do mundo exterior pela consciência. Para estudar a imediaticidade na prática profissional do assistente social, buscou- se discernir as formas como a consciência conhece a realidade, movimentando- se dialeticamente tanto sobre o seu saber quanto sobre o seu objeto. A descrição desse movimento tem como referência os discursos dos assistentes sociais relativos à prática profissional, problematizado no âmbito da certeza sensível, da percepção, do entendimento e da razão histórico-crítica. Essa perspectiva de investigação possibilitou a discussão e a análise da imediaticidade na prática do assistente social por meio de dois eixos que se conectam. Primeiro, abriram-se caminhos para submeter à crítica como 12 a imediaticidade ou a imediatez do fazer profissional condiciona a concepção que os assistentes sociais têm da elaboração teórica e, que, ao empobrecê-la, restringem-se à prática reiterativa. A reiteração, segundo Vasquez (1977), é um componente da práxis e constitui um nível da prática ineliminável, mas não pode ser toda a prática. Segundo, adentra-se o debate acerca da relação teoria e prática, enfatizando os estágios da consciência a caminho do conhecimento e buscando elucidar o debate filosófico entre o entendimento e a razão. A tese apresentada neste estudo é que a prática profissional assume diferentes orientações e característicasem decorrência do nível de receptividade do mundo exterior pela consciência. Como na cotidianidade tende a prevalecer a conexão imediata entre pensamento e ação, a imediaticidade é a categoria reflexiva que orienta a prática profissional quando o nível de consciência do assistente social atém-se à certeza sensível, ou à percepção ou ao entendimento. Verifica-se que a prática profissional do assistente social caracteriza-se pela rotina, repetição de tarefas e pela espontaneidade necessárias para a reprodução do indivíduo e da profissão, a fim de responder às múltiplas exigências estabelecidas no âmbito da reprodução social. Para responder às heterogêneas e imediatas demandas sócio-institucionais no cotidiano da prática profissional, os assistentes sociais − como muitas outros profissionais −, por meio do movimento da consciência que se atém à certeza sensível, ou à percepção ou ao entendimento, apreendem apenas as expressões fenomênicas da realidade, conectando imediatamente teoria e prática. A base filosófica e teórico-metodológica para o desenvolvimento da presente tese sustenta-se na dialética materialista marxiana. Para analisar o caminho que a consciência percorre em busca do conhecimento recorreu-se à obra de Hegel (2001), Fenomenologia do espírito. Conforme o autor, nesse 13 caminho, a consciência movimenta-se da certeza sensível para a percepção, da percepção para o entendimento, e do entendimento, para a razão dialética. Esse movimento realiza-se por meio da supra-sunção, isto é, a consciência, ao exercitar-se em si mesma, tanto em seu saber quanto em seu objeto, eleva-se de um estágio a outro. O caminho para o conhecimento inicia-se no estágio da certeza sensível, no qual a consciência, ao indagar sobre si mesma e sobre o seu objeto, torna-se cônscia de que o conhecimento, que, de início, provém da certeza do indivíduo como ser singular, em relação ao objeto singular, que simplesmente é, se relaciona com o universal. Nesse momento, ocorre a supra-sunção para a percepção. Quando atinge esse estágio, a consciência, para conhecer o objeto singular, quer apreender as propriedades desse objeto, no entanto, tais propriedades relacionam-se entre si, e apenas podem ser firmadas na relação com as propriedades do próprio objeto. Abalada na verdade da percepção, a consciência movimenta-se para o reino do entendimento. Essa dimensão é constitutiva, segundo Hegel (2001), de dois momentos: o momento da força e o momento da formulação de leis. O momento da força implica um retorno à percepção, relacionando as propriedades, agora de diferentes objetos, em um movimento complexo, no qual a consciência passa de um extremo a outro. De um lado, desse extremo está o solicitante e, de outro, o solicitado. De um lado está o objeto e, de outro, o sujeito e o seu conhecimento sobre as propriedades de diferentes objetos. No momento seguinte, cônscia desse movimento, a consciência formula leis relacionando as características singulares e universais desses objetos. No entanto, esses objetos relacionam-se entre si apenas para firmarem o que eles são. Quando a consciência busca estabelecer as mediações 14 entre os objetos e a existência desses objetos, ocorre a supra-sunção para a razão dialética. Trata-se de um movimento que, ao mesmo tempo, aniquila, recupera e supera os conhecimentos do sujeito em relação ao objeto, conduzindo a consciência à supra-sunção de um estágio a outro até chegar à verdade que, para o pensamento hegeliano, resulta da idéia. Como a realidade, para Hegel (2001), é posta pelo pensamento, buscou-se no materialismo histórico-dialético fundado por Karl Marx (2004; 2005; 2007), os fundamentos ontológicos para compreender a caráter concreto do ser social, com base nas dinâmicas de suas contradições dialéticas, suas conexões e legalidades, a fim de estabelecer a relação entre imediaticidade e mediação e demonstrar que a vida cotidiana freqüentemente oculta a essência do próprio ser. Para investigar a imediaticidade na prática profissional do assistente social no cotidiano, foram realizadas pesquisas bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica objetivou a apreensão da categoria imediaticidade como categoria reflexiva, problematizada com base na relação sujeito e objeto conforme a dialética idealista de Hegel (2001), e na ontologia do ser social, segundo a dialética materialista de Karl Marx (1988; 2004; 2005; 2007). Lançou-se mão, ainda, da ontologia do ser social, de Georg Lukács (1966; 1979a; 1979b; 1997), e se buscaram trabalhos de outros autores contemporâneos, como Eric Hobsbawm (1994), David Harvey (1989), Agnes Heller (2000; 2002) e István Mészáros (2002) A pesquisa bibliográfica para apreender as particularidades do Serviço Social subdivide-se em fontes de referências teóricas e referências 15 empíricas1. As fontes de pesquisa das referências teóricas foram embasadas, especialmente, nas obras de Marilda Iamamoto (1982; 1998, 2002; 2007) e José Paulo Netto (1994; 1996; 2000; 2004). Foram pesquisadas, ainda, obras de Ana Elizabete Mota (1998, 2000), de Maria do Carmo Falcão (2000), Maria Inês Souza Bravo (1996), Maria Lúcia Martinelli (2003), Maria Lúcia Silva Barroco (2005), Yolanda Guerra (1999; 2004), Carlos Eduardo Montaño (1998; 2007), Ana Maria Vasconcelos (2003), Reinaldo Pontes (1997), Consuelo Quiroga (1991), dentre outros. Para a investigação das referências empíricas, foram buscadas, especialmente, as seguintes fontes bibliográficas: Vasconcelos (2003), Silva et al. (1980), Silva e Hackbart (1998), Freire (2003) e Torres (2006). A pesquisa documental foi realizada com o objetivo de apreender, por meio dos discursos dos assistentes sociais, como a imediaticidade comparece na prática profissional na cotidianidade. Para a sua realização, recorreu-se às comunicações orais2 apresentadas no XI Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais3 e III Encontro Nacional de Serviço Social e Seguridade, realizado na cidade de Fortaleza, em 2004, organizados pelas entidades da categoria − o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS), a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) e a Executiva Nacional de Estudantes de Serviço Social (ENESSO). Nesse congresso, as comunicações 1 Tais referências são de absoluta importância, uma vez que o presente estudo utilizou pesquisas realizadas por diferentes autores em momentos históricos diferenciados. 2 Segundo a comissão organizadora do evento, foram apreciados 1.367 trabalhos e selecionados 1.169, apresentados em sessões temáticas e painéis, na forma de comunicações orais e pôsters. 3 O Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS) constitui o maior evento da categoria no Brasil, e reúne, trienalmente, profissionais de todo o território brasileiro para debater as relações sociais e o Serviço Social. A pesquisa documental foi realizada durante o período de junho de 2006 a maio de 2007, e buscou- se, naquele momento, acesso às comunicações do último congresso realizado, o XI CBAS. 16 orais foram organizadas em dezessete eixos, apresentadas em sessões temáticas4 simultâneas. Foram pesquisadas as comunicações orais cujos títulos continham referência direta à prática profissional (análise e sistematização da prática e narrativas de experiências). Com base nesse critério, foram selecionadas 65 comunicações orais, analisadas conforme os seguintes aspectos: área de atuação, tema, concepção de Serviço Social, problematização da realidade, referência bibliográfica, proposições, atividades/ações desenvolvidas, dados empíricos e objetivos da prática. Recorreu-se, ainda, às comunicações apresentadas no VI Seminário de Teorização de Serviço Social5, realizado na cidadedo Rio de Janeiro, de 26 a 29 de agosto de 1997, organizado pelo Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais (CBCISS) e aos artigos publicados na última década que analisam a prática profissional do assistente social. Os conteúdos da tese são abordados em quatro capítulos. A estrutura dos capítulos segue o movimento da consciência a caminho do conhecimento e explicita as características da prática profissional em cada estágio que conduz ao processo de conhecimento. Buscou-se, por meio desse movimento, apreender as dimensões teórico-metodológicas, ético-políticas e técnico-operativas da profissão, contextualizado-as no movimento das relações de reprodução social. 4 As comunicações orais e os pôsters foram apresentados conforme as seguintes sessões temáticas: Estado, direitos e democracia; Seguridade social (concepção, controle social, financiamento, gestão); Direitos geracionais (infância e juventude, velhice); Questões de gênero, raça, etnia e sexualidade; Direitos e garantias das pessoas com deficiência; Famílias e sistemas de proteção social; Questão urbana e direito à cidade; Questão agrária e o acesso à terra; Desenvolvimento regional, meio ambiente e direito à vida; Direitos humanos e segurança pública; Políticas alternativas de geração de trabalho e renda; Sociedade civil e a construção da esfera pública; O projeto ético-político, trabalho e formação profissional; Etica e Serviço Social; Serviço Social, educação e expressões artísticas; Serviço Social e sistema sócio-jurídico, Serviço Social e as relações de trabalho. 5 Recorreu-se às comunicações do seminário em referência com o objetivo de apreender a pluralidade teórico-metodológica, técnico-operativa e ideo-política presente no Serviço Social brasileiro. 17 No primeiro capítulo, descrevem-se as características da prática profissional orientada pela certeza sensível e pela percepção. O segundo capítulo trata da prática profissional orientada pelo entendimento, suas características sócio-históricas, sua direção social e os fundamentos teórico- metodológicos que a alicerçam. Contrapõem-se, ainda, nesse capítulo, a concepção de entendimento para o pensamento hegeliano e o entendimento para o pensamento kantiano. No terceiro capítulo, procura-se apreender o movimento da consciência no estágio da razão dialética e evidenciar a crítica às antinomias contidas na dialética hegeliana, aproximando-se da razão histórico-crítica que capta as contradições, determinações, mediações e legalidade da realidade com base no movimento do real em sua totalidade. Busca-se, ainda, analisar a relação entre teoria e prática com base nos fundamentos filosóficos vinculados à ontologia do ser social, problematizando-a com base na esfera do cotidiano. No quarto capítulo, apreendem-se, no contexto do processo de renovação do Serviço Social brasileiro, os elementos sócio-históricos que possibilitaram a aproximação de segmentos da profissão com a teoria social de Karl Marx, nas décadas de 1970 e 1980. Procura-se evidenciar a concepção marxiana de prática com base nas Teses sobre Feuerbach, e descreve-se a prática profissional do assistente social orientada pela razão histórico-crítica. A categoria imediaticidade perpassa todos os capítulos, constituindo, assim, a categoria central do presente estudo. 18 CAPÍTULO I −−−− A FENOMENOLOGIA DA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL: O APARECER NA TOTALIDADE A consciência na vida cotidiana tem, em geral, por seu conteúdo, conhecimentos, experiências, sensações de coisas concretas, e também, pensamento, princípios − o que vale para ela como um dado ou então como ser ou essência fixos e estáveis. A consciência, em parte, discorre por esse conteúdo; em parte, interrompe seu [dis]curso, comportando-se como um manipular do mesmo conteúdo, desde fora. Reconduz o conteúdo a algo que parece certo, embora seja só a impressão do momento; e a convicção fica satisfeita quando atinge um ponto de repouso já conhecido (HEGEL, 2002, p. 47). O processo de formação profissional do assistente social, materializado nas diretrizes curriculares do curso de Serviço Social provoca mal-estar em um segmento dos assistentes sociais que não encontram aplicabilidade para os conteúdos históricos, teórico-metodológicos, ético- políticos e técnico-operativos que conformam tais diretrizes. Esse mal-estar, entre outras ocasiões, evidenciou-se no processo de construção das novas diretrizes curriculares do Curso de Serviço Social, permeado por um amplo e sistemático debate desencadeado pela Associação 19 Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), a partir de 1994. Conforme as deliberações da XXVIII Convenção Nacional da ABEPSS (então denominada como Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social − ABESS) dentre os encaminhamentos para a revisão do currículo mínimo, desde 19826, dever-se-ia proceder a uma profunda avaliação do processo de formação profissional, tendo em vista as exigências decorrentes das transformações societárias do último quartel do século XX. Foram promovidas e organizadas pela ABEPSS, aproximadamente 200 oficinas locais nas 67 unidades de ensino filiadas à entidade, 25 oficinas regionais e duas nacionais que, na primeira etapa, avaliaram os impasses e as tensões presentes no processo de formação profissional, dentre os quais se destacava a relação entre a teoria e a prática. A problematização dessa inquietação dá-se em duas direções. A primeira nega qualquer possibilidade de mediação entre a realidade, a prática profissional e o conhecimento, sustentando que os fundamentos teórico- metodológicos e ético-políticos que alicerçam o processo de formação profissional não têm utilidade prática para o cotidiano do exercício profissional. A explicitação dessa negação evidencia-se, prioritariamente, no discurso dos profissionais que conectam de forma imediata a teoria e a ação. Observa-se que o recurso utilizado por esse segmento é o discurso que unifica pensamento, linguagem e realidade, conferindo uma suposta veracidade àquilo que está sendo afirmado. Trata-se de um discurso que se propagou rapidamente e teve forte apelo porque uma parte do meio profissional nele reconhece o escape para as dificuldades encontradas na prática profissional, cujo horizonte é a cotidiano. Trata-se, também, de um discurso generalista que universaliza as particularidades e dilui as diferenças histórico-sociais, institucionais e a própria competência profissional. Esse discurso é uma peça 6 Resolução nº 6 de 23 de setembro de 1982 (BRASIL, CFE, 1982a) e parecer do Conselho Federal de Educação nº 412, de 4 de outubro de 1982 (BRASIL, CFE, 1982b). 20 de retórica utilizada para descrever a realidade no cotidiano da prática profissional institucionalizada tal qual como ela aparece em sua fenomenalidade. Esse discurso encontra receptividade também no meio acadêmico, entre docentes e discentes nas escolas de Serviço Social porque ele, ao mesmo tempo em que reprime o conhecimento científico tem a sua base em um determinado pensamento e justifica um determinado modo de ser da sociedade. A segunda perspectiva de problematização dessa inquietação é aquela que se contrapõe aos fundamentos históricos, teórico-metodológicos, ético-políticos e técnico-operativos expressos nas diretrizes curriculares, argumentando que os conteúdos transmitidos nas escolas não instrumentalizam os profissionais para exercício da prática no cotidiano das instituições que compõem o mercado de trabalho dos assistentes sociais e propõe outros referenciais teórico-metodológicas. Tais direções, na atualidade, são expressões de determinadas formas de objetivação do ServiçoSocial e podem ser identificadas no discurso de um segmento profissional, em sistematizações da prática profissional e em reflexões teóricas relativas à profissão, que criticam a perspectiva que se fundamenta na teoria social marxista no interior do Serviço Social brasileiro. Os discursos que explicitam esse mal-estar imputam essa fissura ao processo de formação e o seu suposto distanciamento com o exercício profissional cotidiano nas instituições, dando a impressão que se trata de um problema do tempo presente e com a pertinência restrita ao Serviço Social. No afã em evidenciar esse mal-estar, denunciam o descompasso e o distanciamento entre o processo de formação e o exercício profissional que, de uma forma reduzida, é identificado como prática, sinônimo de ação 21 interventiva. O tratamento dessa questão como um descompasso permite suscitar a hipótese de que seria uma questão de tempo para que ocorresse o encontro entre os fundamentos que alicerçam o processo de formação e o exercício profissional. No entanto, não se trata de um descompasso. A questão exige a reflexão para ultrapassar o maniqueísmo e o mecanicismo presentes na reprodução desse pensamento, e apreender essa problemática para além do Serviço Social, isto é, para além da coisa em-si7. Na direção da análise do Serviço Social no âmbito das relações de produção e reprodução da sociedade capitalista, os esforços e os avanços obtidos pelo Serviço Social brasileiro são consideráveis e reconhecidos nacional e internacionalmente, dos quais emerge a crítica e a possibilidade de superação a um modo específico pelo qual a prática profissional se objetiva − aquela que se atém ao imediatismo/espontaneísmo e ao imediato, que se retém à fenomenalidade dos processos sociais. Aparentemente, a questão seria meramente teórica e, para tanto, se faz necessária uma adequação: substituir a teoria que não responde ao discurso do profissional que vivencia o exercício profissional ou desqualificar esse discurso. A questão, todavia, é de cunho prático-social e político-ideológico, pois envolve a razão, a consciência dos assistentes sociais, o significado que atribuem à prática profissional e a direção social que reforçam com a sua intervenção. Na literatura referente ao Serviço Social brasileiro, identifica- se um crescente esforço em apreender o significado da profissão e suas bases de objetivação no âmbito das relações sociais. Observa-se uma crescente produção acadêmica dos assistentes sociais − fomentada pelos cursos de pós- 7 Segundo Japiassú e Marcondes (2006, p. 48), coisa significa, no âmbito do pensamento filosófico, “tudo aquilo que possui uma existência individual e concreta.Sinônimo de objeto, portanto realidade objetiva, isto é, independente da representação. Nesse sentido, a coisa de apõe à idéia. Em Descartes, a coisa é sinônimo de substância, de algo que existe em si mesmo (...). Em Kant, a coisa em si designa aquilo que existe independentemente do espírito e do conhecimento que este tem dela, sendo em si mesma incognoscível”. 22 graduação − e apresentação de comunicações em encontros da categoria resultantes de pesquisas ou de sistematizações do exercício profissional. Tais produções e sistematizações do exercício profissional explicitam as principais preocupações dos assistentes sociais e, dentre elas, se destacam as tensões vivenciadas no cotidiano. Constata-se, ao mensurar quantitativamente o acervo de comunicações8 enviadas pelos assistentes sociais para o XI Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais e II Encontro Nacional de Serviço Social e Seguridade, realizado em 2004, na cidade de Fortaleza, dentre aquelas que foram aprovadas pela comissão técnica organizadora, que 7,5% se referem diretamente ao trabalho, ou atuação, ou exercício, ou prática profissional. Verifica-se, na análise da produção literária do Serviço Social brasileiro resultantes de pesquisas apresentadas em trabalhos acadêmicos dos cursos de pós-graduação e em artigos publicados em revistas da área nas últimas duas décadas, a recorrência da temática que reflete a relação entre a teoria e a prática na agenda profissional. A prática começa a ser problematizada e se conforma em objeto de preocupação vinculado aos fundamentos históricos e teórico-metodológicos da profissão a partir da década de 1960, quando se instaurou o pluralismo teórico, ideológico e político no Serviço Social brasileiro. Segundo Netto (1996, p. 128), é inconteste que o Serviço Social no Brasil, até a primeira metade da década de sessenta, não apresentava polêmicas de relevo, mostrava uma relativa homogeneidade nas suas projeções interventivas, sugeria uma grande unidade nas suas propostas profissionais, sinalizava uma formal 8 As comunicações orais fundamentam-se em diferentes matrizes teórico-metodológicas. 23 assepsia de participação político-partidária, carecia de uma elaboração teórica significativa e plasmava-se numa categoria profissional onde parecia imperar, sem disputas de vulto uma consensual direção interventiva e cívica. Netto (1996) não nega a existência de conflitos e tensões no Serviço Social brasileiro até a década de 1960, mas eles não provocavam perturbações no âmbito profissional, ao passo que o processo desencadeado, a partir de então, configura-se em ruptura, cujas bases se vinculam à laicização do Serviço Social e suas incidências no mercado nacional de trabalho e nas agências de formação profissional. Para Netto (1996), esse é um dos elementos caracterizadores do processo de renovação do Serviço Social sob a autocracia burguesa, conduzindo à diferenciação da categoria profissional e à disputa pela hegemonia em todas as suas instâncias − projetos de formação, órgãos de representação, valores e princípios e paradigmas de intervenção. A refuncionalização da prática profissional e o redimensionamento das condições de formação são apreendidos pelo autor com base no movimento sócio-histórico das relações sociais na sociedade brasileira, do qual o Serviço Social é constitutivo e constituinte. Assinala Netto (1996, p. 129): Ao refuncionalizar a contextualidade da prática profissional e redimensionar as condições da formação dos quadros por ela responsáveis, o regime autocrático burguês deflagrou tendências que continham forças capazes de apontar para o cancelamento de sua legitimação. O regime autocrático burguês, ao implementar o modelo de modernização conservadora de desenvolvimento das relações capitalista criou 24 suas demandas específicas mas, também, as condições e as possibilidades de “se gestarem alternativas às práticas e às concepções profissionais que ela demandava”, afirma Netto (1996, p. 129, grifos do autor9). Nesse cenário deflagrou-se, em meados da década de 1960, o processo de renovação do Serviço Social no Brasil, entendido por Netto (1996, p. 131) como o conjunto de características novas que, no marco das constrições da autocracia burguesa, o Serviço Social articulou, à base do rearranjo de suas tradições e da assunção do contributo de tendência do pensamento social contemporâneo, procurando investir-se como instituição dotada de legitimação prática, através de respostas a demandas sociais e da sua sistematização, e de validação teórica, mediante a remissão às teorias e disciplinas sociais. O processo de renovação do Serviço Social brasileiro não liquidou o Serviço Social tradicional, mas a instauração do pluralismo possibilitou aos assistentes sociais acessarem e construírem procedimentos diferenciados para embasar a sua prática profissional. Trata-se de um processo repleto de tensão, pois a homogeneidade nas projeções interventivas no Serviço Social brasileiro foi posta em questão,a assepsia de participação política-partidária foi desbloqueada e se iniciou um processo no qual o significado sócio-histórico da profissão passou a referenciar-se em matrizes teóricas antagônicas, explicitando a disputa por projetos societários. O consenso relativo à direção interventiva e cívica no interior da categoria profissional deixou de existir e 9 Quando não houver indicação expressa, os grifos são do texto original. 25 uma parcela da categoria passou a ter a compreensão da relação entre a prática e a teoria que se constituir em objeto de permanente indagação. As bases teóricas e ideo-políticas que sustentavam o modelo de intervenção do Serviço Social tradicional foram discutidas, avaliadas, criticadas, renovadas, mas ainda permanecem no ideário de um segmento da profissão. Essas bases constituem e são constituídas pelo padrão hegemônico de objetivação da sociedade burguesa que “confere aos fenômenos e processos sociais uma positividade que privilegia o seu tratamento ao nível da sua imediaticidade” (NETTO, 1988, p. 142). Trata-se de um modelo de intervenção cujas bases teóricas e ideo-políticas sustentam que os fenômenos sociais estão postos, estabelecidos. Na trajetória do Serviço Social brasileiro, esse modelo de intervenção prescritiva sustentou a prática profissional do assistente social em sua emergência e permanece presente na atualidade, referendado em diferentes matrizes teóricas, mas que expressam uma forma de conhecer e agir circunscrita ao imediato e contribui para conservar a sociedade vigente. A caracterização e a lógica que permeiam a sua forma de aparecer foram desveladas no processo de renovação do Serviço Social brasileiro. Para compreender a reprodução desse modelo prescritivo de intervenção profissional na atualidade, faz-se necessário retomar o seu processo de constituição, enfatizando os parâmetros teórico-metodológicos que o sustentam. 1.1 Emergência do Serviço Social e as bases teóricas e ideo-políticas da prática profissional A constituição do Serviço Social como profissão reveste-se de ambigüidades, decorrentes de sua necessidade de legitimar-se perante a 26 classe burguesa e a classe trabalhadora. As transformações sócio-históricas são impulsionadas pela permanente luta que essas classes travam entre si no âmbito das relações de produção e de reprodução social. Para manter-se desfrutando do poder econômico-político e ideológico, a classe hegemônica deve manter a classe subalterna sob controle. O desenvolvimento das forças produtivas complexifica as relações sociais, colocando e recolocando a exigência de reordenamento das estratégias dos instrumentos de coerção e persuasão que a classe burguesa utiliza para garantir a valorização, a acumulação e a ampliação do capital. Na fase do capitalismo monopolista, o Estado, como instância política e econômica da burguesia, ampliou as suas funções. Segundo Netto (2001), no capitalismo concorrencial, a intervenção estatal no enfrentamento às seqüelas da questão social circunscrevia-se básica e coercitivamente às lutas da classe trabalhadora e à necessidade de preservar o conjunto de relações pertinentes à propriedade privada burguesa. No capitalismo monopolista, o Estado assumiu, além daquelas, a função de preservar e controlar a força de trabalho, ocupada e excedente, assinala Netto (2001). Essa assunção é compulsória e suas determinações vinculam-se às contradições da economia capitalista que aumenta a capacidade de produção social da riqueza mas gera, simultaneamente e na mesma proporção, a pobreza. Na idade do capitalismo monopolista, para garantir o aumento das taxas de lucratividade, o Estado assegura a manutenção e a reprodução da força de trabalho, ocupada e excedente, mas também é compelido (e o faz mediante os sistemas de previdência e segurança social) a regular a sua pertinência a níveis determinados de consumo e a sua disponibilidade para a ocupação sazonal, bem como a instrumentalizar 27 mecanismos gerais que garantam a sua mobilização e alocação em função das necessidades e projetos do monopólio (NETTO, 2001, p. 27). O sistema de poder da burguesia tem como objetivo central garantir a lucratividade do capital monopolista, mas para exercer as suas funções econômicas necessita legitimar-se ideo-politicamente perante a classe trabalhadora que, para o atendimento as suas necessidades sociais, se organiza, luta e reivindica direitos econômico-sociais e políticos. Para responder às demandas do capital na fase dos monopólios, o Estado amplia a sua base de sustentação e legitimação sócio-político, absorvendo demandas da classe trabalhadora, institucionalizando o acesso aos direitos de cidadania. Trata-se de um processo permeado por confrontos e conflitos entre as classes sociais e, para atenuá-los e refuncionalizá-los conforme a lógica e os interesses do capital, o Estado burguês intervém, como pseudo-agente neutro, regulando as relações sociais por meio da força e da persuasão. Na ordem do capitalismo monopolista, uma das respostas dada pelo Estado é a intervenção contínua e sistemática nas expressões da questão social, implementando políticas sociais como estratégias de preservação e de controle da força de trabalho, ocupada e excedente, e regulando o patamar mínimo de aquisição para o consumo. Ao implementar a política social, o Estado burguês no capitalismo monopolista procura administrar as expressões da questão social de forma a atender às demandas da ordem monopólica conformando, pela adesão que recebe de categorias e setores cujas demandas incorpora, sistemas de consenso variáveis, mas operantes (NETTO, 2001, p. 30). 28 A racionalidade burguesa é a fonte inspiradora para a organização da política social que se fragmenta em políticas sociais, respondendo de forma fracionada à questão social, cujas manifestações são recortadas e enfrentadas como problemáticas particulares. Como problemas sociais, as expressões da questão social são individualizadas e psicologizadas e se tornam problemas pessoais, de ordem moral. Ao tomar para si as respostas às expressões da questão social como agente regulador das relações sociais, o Estado cria as condições histórico-sociais para que se constitua o espaço sócio-ocupacional na divisão social e técnica do trabalho de práticas profissionais como do assistente social, assinalam Iamamoto (1982, 2002) e Netto (2001). O Serviço Social, no contexto do capitalismo monopolista, surgiu como profissão, e o modelo de intervenção profissional adotado centrava-se em valores ético-morais cultuados pela burguesia e necessários para o estabelecimento e a manutenção da ordem social baseados na resignação humana, na concepção fatalista da vida e na naturalização dos fenômenos e processos sociais. No período que antecedeu a Primeira Grande Guerra (1914-1918), a assistência social, na Europa, organizava-se com o objetivo de controlar, policiar e contrapor-se ao movimento da classe trabalhadora, com o intuito de frear as utopias revolucionárias e dotar os operários dos condicionamentos básicos para a obediência e a vivência dos bons costumes, afirma Verdès- Leroux (1986). A concepção que os assistentes sociais tinham do modo de vida dos operários era aquela transmitida e captada pela classe burguesa, com todas as suas implicações morais e culturais. Para elas, os operários eram homens simples, mas perniciosos, noviços, decadentes, grosseiros; nada havia neles de artificial, mas eram muitas vezes alcoólatras, viciados, decadentes; 29 eram fracos porque se deixavam levar pelos agitadores profissionais − os dirigentes sindicais. O projeto de assistência social nascente era o de educar a classe operária, isto é, “fornecer-lhe regras de bom senso e razõespráticas de moralidade, corrigir seus preconceitos, ensinar-lhe a racionalidade; discipliná-la em seus trajes, nos lares, nos orçamentos domésticos, na maneira de pensar”, declara Verdès-Leroux (1986, p. 15). O trabalhador social era parte de uma engrenagem que controlava coercitivamente os operários, interferindo em seu modus vivendi, impondo e reproduzindo a moralidade e as regras adequadas aos interesses da burguesia. Este discurso é substituído após a Primeira Guerra Mundial, pois a correlação de forças entre as classes sociais alterou-se e, com ela, o eixo orientador da assistência social. O governo, representante da classe burguesa, propunha o pacto de colaboração sincera entre o patronato e os operários10. Para a viabilização desse pacto, a assistência social tornou-se um instrumento legítimo e ganhou novos impulsos. Ao final da Primeira Grande Guerra o mundo acordou profundamente transformado, pela experiência da própria guerra que, segundo Hobsbawm (1995), evidenciou o colapso da sociedade ocidental do século XIX e o impacto da Revolução Russa de 1917. A sociedade ocidental do século XIX que entrou em colapso era uma civilização capitalista na economia; liberal na estrutura legal e constitucional; burguesa na imagem de sua classe hegemônica característica; exultante com o avanço da ciência, do conhecimento e da educação e 10 Verdès-Leroux (1986) destaca que as autoridades do governo francês buscam, para a grandeza da França e o futuro de sua civilidade a paz e a colaboração entre as classes sociais, destacando a atitude patriótica dos operários que pagaram fisicamente um tributo esmagador. As conquistas sociais da classe trabalhadora anterior a 1914 fora questionadas, as leis sociais foram suspensas, a jornada de trabalho foi prolongada. Os salários rebaixados e congelados. Após 1920, o discurso social modifica-se, rondava a Europa e o mundo a revolução bolchevique na Rússia, trazendo conseqüências na forma como as assistentes sociais passaram a ver a classe operária. 30 também com o progresso material e moral; e profundamente convencida da centralidade da Europa, berço das revoluções da ciência, das artes, da política e da indústria e cuja economia prevalecera na maior parte do mundo, que seus soldados haviam conquistado e subjugado; uma Europa cujas populações (incluindo-se o vasto e crescente fluxo de emigrantes europeus e seus descendentes) haviam crescido até somar um terço da raça humana; e cujos maiores Estados constituíam o sistema da política mundial (HOBSBAWM, 1995, p. 16). Nesse cenário de colapso da sociedade do século XIX, na Europa, as práticas do Serviço Social modificaram-se em busca da interação entre as classes sociais. O assistente social foi chamado a intervir nas demandas sociais, constituídas com base nas relações de produção nas fábricas e nos conjuntos habitacionais operários e se criou o serviço social das empresas, das caixas de compensação, da habitação, das caixas de seguro social, da infância, e outros, afirma Verdès-Leroux (1986). O Serviço Social, adequando-se à concepção fragmentária do homem e da sociedade, e nela, das políticas sociais, enfatizava a fragmentação de seu saber e de seu fazer. O significado da prática, contudo permaneceu o mesmo. Tratava- se de mudanças na forma e de continuidade, de permanência e de sofisticação do conteúdo11. Resultou dessa fragmentação a diversificação das funções e das atividades no âmbito da assistência social segundo os espaços de atuação: enfermeira-visitadora, superintendente de fábrica, visitadora-controladora do seguro social e assistente familiar. Estrategicamente, os trabalhadores sociais 11 Nesse momento, a assistência social reconhecia a importância do Estado e, ao mesmo tempo, era por ele reconhecida e encontra guarida no governo e nos meios políticos. Segundo VerdèsLeroux (1986), as assistentes sociais faziam elogios sem reservas às autoridades governamentais. 31 participavam dos mecanismos de controle sócio-econômico e ideo-político da classe dominada, inserindo-se de forma parcializada e fragmentada nas esferas constitutivas do ser social e contribuindo para aumentar o domínio sobre a vida cotidiana dos operários. O processo de formação era permeado por essa lógica, pois eram habilitadas visitadoras sociais, superintendentes de fábrica, assistentes familiares, assistentes sociais, entre outros. Para Verdès-Leroux12 (1986), o trabalho social impôs-se, arbitrariamente, pela violência simbólica por meio de práticas produzidas pelo habitus, isto é, pela interiorização de normas e valores e por sistemas de classificação vinculados às representações sociais dominantes. As modalidades de intervenção constituem o meio pelo qual ocorre a inculcação de normas e valores e, conforme o campo de forças entre as classes sociais, tais valores e modalidades de intervenção são adaptados ideologicamente aos interesses da classe dominante, a eles se adequando também os espaços e as formas de celebração da profissão. Segundo a autora, o habitus que conforma a prática dos trabalhadores sociais, isto é, o conjunto de valores, costumes, formas de percepção dominantes, os modelos de pensamento incorporados pelos profissionais que orientam e regulam o fazer profissional são ideologicamente 12 O tangenciamento analítico de Verdès-Leroux (1986) é aquele que concebe o Serviço Social como evolução, racionalização, organização e profissionalização das formas anteriores de ajuda, a caridade e a filantropia. Contudo, o seu arcabouço teórico-analítico apreende − no jogo da correlação de força entre as classes sociais, no campo das forças simbólicas que atuam na lógica da dominação − o significado e as modalidades de ação do trabalho do assistente social como agente a serviço do controle social, denominado como o habitus dos assistentes sociais. O conceito de habitus que permeia a análise do trabalho do assistente social de Verdès-Leroux (1986) inspira-se no pensamento do sociólogo contemporâneo Pierre Bourdieu (1930-2002), e propõe desnudar o modo de engendramento da prática desses agentes profissionais. Para Bourdieu, segundo Canesin (2001, p.114), o “Habitus produz a prática, porque ela é produto da relação dialética entre uma situação (condições objetivas da estrutura) e um Habitus. Autônoma em relação à situação, a prática nasce da relação dialética de uma estrutura − por intermédio do Habitus como princípio mediador − e uma conjuntura entendida como as condições de atualização desse Habitus. Há pois, entre as estruturas e as práticas, a mediação operada pelo Habitus como estruturas interiorizadas social e individualmente”. 32 inculcados mediante suas modalidades de intervenção e impõem aos trabalhadores assistidos a violência simbólica por meio do controle, do constrangimento, da tutela, da imposição da moralidade burguesa, da invasão e da vigilância da vida privada das classes dominadas. O significado do Serviço Social vincula-se à reprodução ideológica da ordem burguesa por meio do poder conferido aos profissionais que objetivam a assistência social. São profissionais subalternos, cujas práticas se caracterizam pelos baixos níveis de teorização e objetivam impregnar a população de princípios simples, moldando-a conforme as necessidades da classe dominante, assinala Verdès-Leroux (1986). O estudo em tela evidencia a fragmentação do trabalho social em relação aos espaços sócio-ocupacionais e a divisão de funções para garantir o controle social da vida cotidiana dos trabalhadores. As primeiras assistentes sociais no Brasil buscavam a sua formação acadêmica na Bélgica, cujo padrão desde o término da Primeira Guerra Mundial até 1936, segundo Verdès-Leroux(1986), fundava-se no discurso da paz social e na proximidade com o operariado, alterando a marca do período precedente de violência moral e juízo negativo e depreciativo explícito em relação aos hábitos de vida dos trabalhadores. Tratava-se de uma aproximação cujo objetivo era, sobretudo, o controle ideológico. Os traços ideológicos e doutrinários que permearam o Serviço Social latino-americano em sua gênese foram sugados, acriticamente, do modelo belga-francês e, a partir do início da década de 1940, do funcionalismo norte-americano. Derivam-se daí, modalidades de práticas que se reproduzem na atualidade e habitam o imaginário dos profissionais e estudantes, conformando a representação da profissão como vocação. A formação 33 profissional nas primeiras escolas de Serviço Social13 na América Latina objetivava dotar essa vocação de referências doutrinárias para diferenciar a atividade profissional da ação de caridade, com o intuito de salvaguardar os interesses da igreja, assinalam Castro (1989) e Carvalho (1982). No entanto, encontrava-se em jogo, sobretudo, a necessidade de alterações o padrão de dominação burguesa no momento sócio-histórico de trânsito do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista. A formação profissional ocultava essas reais necessidades e se constituía de estudos teóricos fundamentados na doutrina social da Igreja Católica, na filosofia neotomista e de atividades práticas de cunho adestrador, consistindo na transmissão/assimilação de modelos prescritos14. A profissão era exercida majoritariamente por mulheres, que eram preparadas para atuar na área da saúde e higiene, tal qual como se organizava o trabalho social na França e na Bélgica. Assim como o modelo europeu, o processo de seleção das futuras profissionais era rigoroso e elas deveriam enquadrar-se nos seguintes critérios: serem moças de boas famílias, educadas no berço da tradição cristã-católica, com boa saúde, devidamente atestada, e antecedentes probatórios de honorabilidade. A prática profissional desenvolvia-se em instituições assistências, públicas e filantrópicas, cujas características era marcadamente permeadas, segundo Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982), pelo autoritarismo, paternalismo, 13 Segundo Castro ( 1989) a primeira escola de Serviço Social na América Latina foi fundada por Alejandro Del Rio, médico, sanitarista, em 1925, no Chile, em um contexto de crise institucional e contínuos protestos, no qual a “classe operária experimentou significativo crescimento em sua organização e consciência política” (p. 64). Em 1929, foi criada a primeira escola católica de Serviço Social que pretendia, afirma Castro (1989), no contexto dos interesses globais da igreja, recuperar o seu papel de condutora da moralidade. 14 Os estudos teóricos no processo de formação profissional, segundo Carvalho (In Iamamoto e Carvalho, 1982), abordavam os fundamentos gerais de sociologia, pedagogia, economia social, legislação social, instrução cívica, anatomia e fisiologia, higiene privada, ética profissional e religião. No ensino prático, destacavam-se: tratamentos de caso individual, encaminhamentos jurídicos, técnicas de escritório e estatísticas, contabilidade, primeiro socorros, cuidados domiciliares a doentes, puericultura, nutricionismo, trabalhos manuais e exercícios de oratória. 34 doutrinarismo e ausência de base técnica. Tais características refletiam a ideologia da classe dominante e assumiam determinadas particularidades em decorrência das condições sócio-históricas de cada país latino-americano. No exame dessas condições, destacam-se a dinâmica das relações econômicas, sócio-culturais e políticas entre os países centrais e os países periféricos de economia capitalista dependente e subdesenvolvidos e a formação dos sujeitos sócio-históricos e o padrão de dominação burguesa em cada país, levando-se em consideração a sua inserção na lógica de acumulação do capital. Elucidar esse complexo emaranhado constitui o grande desafio para compreender a emergência do Serviço Social no Brasil, na década de 1930, o seu significado e à sua funcionalidade em um país com baixíssimo grau de escolaridade, com o acesso restrito à educação, com mão-de-obra desqualificada, com ausência de políticas de saúde e estrutura de saneamento e atendimento médico-hospitalar e com o espectro do comunismo rondando a classe trabalhadora. Nesse momento, a economia brasileira encontra-se premida, pelas condições externas e internas, a substituir o esgotado modelo de desenvolvimento agro-exportador para o modelo urbano-industrial no contexto do capitalismo monopolista. Segundo Fernandes (2006, p. 346), as conexões da dominação burguesa com a transformação capitalista “se alteram de maneira mais ou menos rápida, na medida em que se consolida, se diferencia e se irradia o capitalismo competitivo no Brasil e, em especial, em que se aprofunda e se acelera a transição para o capitalismo monopolista”. O comando da máquina propulsora de tais alterações guiava-se pelos interesses econômicos do capitalismo central das nações hegemônicas e o elemento principal era a emergência da industrialização “como um processo econômico, social e cultural básico, que modifica a organização, os dinamismos e a posição da economia urbana dentro do sistema econômico brasileiro”, 35 assinala Fernandes (2006, p. 346). Subproduto da hegemonia do complexo industrial-financeiro, a hegemonia urbano e industrial intensificava a concentração de recursos materiais, técnicos e humanos nas grandes cidades, “dando origem a fenômenos típicos de metropolização e de satelitização sob o capitalismo dependente” (FERNANDES, 2006, p. 346). No momento específico de trânsito à fase do monopólio, pode-se apreender a particularidade da gênese histórico-social do Serviço Social, afirma Netto (2001, p. 18). Essa apreensão busca as raízes das conexões sócio-históricas entre a forma, a natureza e as funções da dominação burguesa e a emergência do Serviço Social, permitindo, por sua vez, compreender a forma, a natureza e as funções do Serviço Social. No momento de emergência do Serviço Social, as conexões entre os interesses econômicos da burguesia local, o padrão de dominação burguesa e a profissão eram viscerais, decorrendo a assimilação de uma compreensão que naturaliza os processos sociais, fragmenta os fenômenos relativos à questão social e enfatiza o aspecto moralizador para salvaguardar a ordem e o progresso. As condições sócio-históricas da emergência do Serviço Social, até então, foram encobertas por descrições fincadas em um sentimento de mundo, no qual a profissão teria surgido da institucionalização de suas protoformas. As pesquisas realizadas por Iamamoto e Carvalho (1982) ilustram a relação visceral entre os interesses da burguesia e a profissão, ao analisarem a constituição do grupo pioneiro, a criação das primeiras escolas de Serviço Social no Brasil, o papel da Igreja15 e do Estado. 15 Para contrapor o perigo do movimento socialista dos trabalhadores, a Igreja intensificou a sua presença nas vilas operárias e incentivava a participação do laicado em obras assistências surgindo, no princípio da década de 1920, a Associação das Senhoras Brasileiras, no Rio de Janeiro, e a Liga das Senhoras Católicas em São Paulo. Tais associações, tuteladas e imbuídas pelo pensamento social da Igreja, foram instituídas tendo como perspectiva a 36 As intervenções desenvolvidas pelas obras sociais vinculadas à Igreja eram caracterizadas como ajuda, caridade, filantropia e denominadas, como as anteriores formas de ajuda. Segunda a tese endogenista, essas ações criaram as bases para a emergência do Serviço Social. Os objetivos dessas ações vinculavam-seao atendimento e à atenuação de determinadas seqüelas produzidas e reproduzidas pelo desenvolvimento capitalista admitindo-se os problemas estruturais advindos do modo ser da sociedade do capital, mas a intervenção centrava-se no indivíduo, considerado o responsável por todos os seus infortúnios. Os preceitos que embasavam o projeto de formação profissional das primeiras escolas de Serviço Social16 no Brasil, ignoravam as condições sócio-históricas que engendraram a emergência da profissão. Dentre elas, há que se pontuar que o mercado de trabalho para o assistente social constituiu- se, de fato, quando o Estado assumiu para si as respostas às expressões da questão social17. As primeiras assistentes sociais foram contratadas para atuarem em institutos e caixas de pecúlios, na Legião Brasileira de Assistência (LBA), no Serviço Social da Indústria (Sesi), no Serviço Nacional de formação das bases organizacionais e doutrinários do apostolado laico, objetivando “a assistência preventiva, de apostolado social, atender e atenuar determinadas seqüelas do desenvolvimento capitalista, principalmente no que se refere a mulheres e crianças”, assinala Carvalho (1983, p. 170). Para efetivar tais objetivos foi criado o Centro de Estudo e Ação Social de São Paulo (Ceas), em 1932, com o objetivo de promover as obras de filantropia vinculadas às classes dominantes, e as moças, representantes de frações da classe dominante, foram convidadas para participar de um curso intensivo de formação social, com uma representante da escola de Serviço Social de Bruxelas, para orientá-las, esclarecer as idéias e formar um julgamento acertado acerca dos problemas da atualidade. Por problemas da atualidade, entendem-se os movimentos sociais − fundamentalmente a organização sindical da classe trabalhadora − considerados altamente subversivos, desafetos da Igreja e do Estado. 16 Em 1936, o Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo, vinculado a Igreja católica criou a primeira Escola de Serviço Social. Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 180) assinala que “esta não pode ser considerada como fruto de uma iniciativa exclusiva do Movimento Católico Laico, pois já existe presente uma demanda − real ou potencial − a partir do Estado, que assimilará a formação doutrinária própria do apostolado social”. 17 Na década de 1930, o Estado brasileiro organizou-se para garantir as bases de sustentação econômica e social para garantir o desenvolvimento urbano-industrial. No Estado de São Paulo o governo criou o Departamento de Assistência Social, em 1935, com as seguintes finalidades: “a) superintender todo o serviço de assistência e proteção social; b) celebrar, para realizar o seu programa, acordos com as instituições particulares de caridade, assistência e ensino profissional; c) harmonizar a ação social do Estado, articulando-a com a dos particulares; d) distribuir subvenções e matricular as instituições particulares realizando o seu cadastramento” , assinala Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 178). 37 Aprendizagem Industrial (Senai), nas prefeituras municipais, e, sobretudo, em órgãos governamentais federais e dos estados federativos que começavam a estruturar as políticas socais. No âmbito desses espaços sócio-ocupacionais, a intervenção profissional do assistente social deveria transpor o caráter intuitivo e os sentimentos de compaixão balizadores das ações caritativas, que do ponto de vista do capital apenas mantinha o círculo vicioso da pobreza, para tornar-se racionalmente eficaz na utilização dos recursos técnicos e competente na inculcação de valores morais adequados aos interesses do capital. Além do caráter assistencial em si-mesmo, a intervenção profissional imbuía-se da dimensão educativa para moldar o comportamento, os costumes e hábitos da população alvo, os operários. O sentido da educação na perspectiva da burguesia era a preparação técnica para o trabalho e para a vida cotidiana (hábitos e costumes), por meio do adestramento, cujos conteúdos moralizadores se revestiam do necessário para a reprodução da subalternidade. O caráter pragmático da intervenção sócio-assistencial moldada para essas finalidades vinculava-se ao desenvolvimento urbano-industrial em curso na década de 1930, isto é, a necessidade de mão-de-obra para a nascente indústria de base e a retenção dos movimentos dos trabalhadores por meio da persuasão ideológica. Nessa direção, os problemas sociais com as quais os assistentes sociais deparavam-se eram a infância abandonada, as condições de habitação, o carecimento econômico, a ausência de saúde e a falta dos hábitos de higiene, o despreparo técnico para o mercado de trabalho, a fraqueza moral dos operários que se deixavam influenciar por agitadores comunistas. A identificação das necessidades sociais ocorria por meio da abordagem 38 individual, o Serviço Social de caso, com o atendimento estendido aos familiares. A sustentação da ação profissional erguia-se em um tênue fio condutor de princípios pincelados da doutrina neotomisto e do pragmatismo. Dessa tríade provinha a visão transcendental idealista do mundo no qual a razão humana é a expressão imperfeita da razão divina e a ela se encontra subordinada, a democracia balizada na liberdade do mercado e o princípio da utilidade guiando e justificando a intervenção. Esse arranjo pretende eliminar as desigualdades sociais estruturais per-si, atribuindo ao homem a responsabilidade por suas imperfeições e resulta na prática voltada apenas por sua utilidade imediata. Pode-se afirmar que os pressupostos contidos nesse arranjo têm sua proveniência das práticas produtivas capitalistas, ao mesmo tempo que se constituem em mecanismos ideológicos estratégicos para a garantia de sua reprodução. Ao reproduzir as normas e os valores morais18 da burguesia, a prática profissional do assistente social reorientava os costumes e os valores da classe trabalhadora. A ação educativa consistia na impregnação de normas e valores que projetavam um dever-ser pautado no senso moral, adequado às necessidades do capital que se incorporavam à vida cotidiana dos trabalhadores. A formação profissional para a efetivação de tais funções requeria a assimilação acrítica das doutrinas moralizadoras e o domínio de técnicas adequadas ao adestramento de comportamentos sociais para a vida cotidiana. Tratava-se de reproduzir modelos ideais para legitimar o Serviço Social diante das necessidades vinculadas à reprodução do capital e solidificar o padrão de dominação da burguesia. 18 Os parâmetros ideais para mensurar o que é moralmente adequado − bom ou ruim, certo ou errado, bonito ou feio, virtuoso ou vergonhoso − são estabelecidos por determinações sócio-históricas e, ainda que devam ser aceitos individualmente, expressam e objetivam interesses de classes. 39 Tendo em vista tais atribuições e responsabilidades, a prática profissional iniciava-se com a identificação dos problemas bio-psíquicos e sócio-comportamentais dos operários19 e seus familiares que buscavam as instituições e os órgãos governamentais20. Esta identificação ocorria por meio da abordagem individual, utilizando como instrumental técnico-operativo o diagnóstico. A execução desse procedimento técnico-operativo iniciava-se com a ausculta do indivíduo queixoso que demandava o auxílio assistencial, a fim de instituir o caso, procedendo-se ao estudo para efetuar o diagnóstico, averiguar a pertinência das solicitações e estabelecer os encaminhamentos subseqüentes − o tratamento. No estudo do caso, o profissional recorria a instrumentos técnico-operativos de apoio, dentre os quais se destacavama entrevista e a visita domiciliar, que possibilitavam a coleta de dados, o acesso aos costumes e hábitos higiênicos da família e a averiguação da veracidade das informações fornecidas pelo assistido. A entrevista apoiava-se nas fichas sócio-econômicas e/ou anamnese, instrumento de coleta de dados sócio-econômicos das famílias dos operários pertinentes e relevantes para justificar a intervenção profissional na instituição/programa e possibilitar o registro para fins estatísticos. Com base nesse estudo concluía-se o diagnóstico estabelecendo as medidas a serem aplicadas no tratamento do caso. Tais medidas comportavam respostas às necessidades de cunho social, econômico, educacional, saúde, jurídico e moral. Assim, um caso, em sua face de tratamento, demandava encaminhamentos diversos, constituindo-se na forma preponderante de ação, ou seja, 19 O público alvo atendido pelo Serviço Social de caso eram os operários e suas famílias, os artesãos, viúvas e aposentados . 20 Departamento de Serviço Social do Estado de São Paulo que, segundo Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982) absorvia 17 entre as 27 profissionais em exercício, em 1940, Departamento Estadual do Trabalho e Juízo de Menores. 40 o tratamento dos casos [era] basicamente feito através de encaminhamentos, colocação em empregos, abrigo provisório para necessitados, regularização da situação legal da família (casamento), etc., e fichário dos assistidos (CARVALHO, in Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 194). Como os problemas de ordem estruturais existentes, em decorrência da relação que os homens estabelecem entre si eram desconsiderados, o indivíduo situava-se no centro da atividade porque ele era o responsável por suas condições de vida e de sua família, considerada como a célula básica da sociedade. Segundo Iamamoto (2002), a individualização dos casos sociais, em detrimento do reconhecimento da situação comum vivida pelos seguimentos da classe trabalhadora que demandam serviços sociais, é uma característica do movimento reformista-conservador presente na prática profissional. Nessa perspectiva, a ação profissional orientava-se por princípios e postulados centrados no indivíduo Iamamoto (2002, p. 19-20): os indivíduos são encarados como seres únicos e particulares, com potencialidades a serem desenvolvidas, desde que estimuladas, cuja dignidade de seres humanos e cuja liberdade merecem o respeito do profissional. Porém, tais características tendem a ser apreendidas sem vinculação com suas bases materiais, isto é, subjetivamente e apartadas da situação social de vida dos clientes, transformando-se em princípios e postulados universalizantes orientadores da ação profissional. 41 Os princípios e os critérios de validade da verdade eram tomados como conhecimentos constitutivos e derivados da sensibilidade, da cultura cristã e da experiência profissional. Conforme essa percepção, quanto mais sensível, portadora de uma cultura geral adquirida no seio da convivência familiar e dos círculos sociais freqüentados e experiente a profissional, mais eficaz e parcimonioso era o seu trabalho. Essas qualidades ressaltadas nas assistentes sociais pioneiras são constantemente destacadas na atualidade quando se discutem as dificuldades relacionadas ao processo de ensino e aprendizagem na formação profissional. Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982) transcreve o relato de um caso no qual se apreendem os objetivos, as atividades e os procedimentos realizados pelo profissional no atendimento do caso. Verifica-se que, ao prestar a assistência, por meio de auxílios monetários, encaminhamentos a órgãos assistencias, educacionais, hospitalares e jurídicos, o profissional intervinha no cotidiano da família com um poder que implicava até mesmo encaminhamentos que separavam pais e filhos. Recaía sobre o indivíduo o julgamento moral sobre a sua (in)capacidade de prover a si mesmo e à sua família. Tratava-se de uma prática fincada na tutela, permeada pelo sentido do dever e baseada na força da opressão. Independentemente do espaço sócio-ocupacional, os balizamentos das ações profissionais eram mensurados pelos benefícios que poderiam ser obtidos para consolidar os interesses da classe burguesa, reafirmando sempre as normas e os padrões da racionalidade que espelham o seu mundo e de suas práticas produtivas21. A ação do assistente social objetivava remediar as 21 Assim, por exemplo, nas creches, uma vez que as operárias continuavam a amamentar seus filhos além dos dias regulamentados pela legislação trabalhista, a profissional as encaminhava ao serviço médico para obter orientações de dietas alimentares para as crianças e encaminhava os nomes das operárias que cometiam a infração à gerência das fábricas para que suas saídas fossem impedidas com o objetivo de salvaguardar “os interesses legítimos da empresa, que perdia muitas horas de trabalho” (CARVALHO. In Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 198). 42 deficiências dos indivíduos e da coletividade tendo em vista o ajustamento à ordem burguesa. O atendimento ocorria por meio de uma ação individualizada, e a ação nas coletividades não devia atingir as estruturas dos grupos sociais. Os estudos disponíveis referentes a prática profissional no período da emergência do Serviço Social até o final da década de 1950 revelam a explícita sintonia e defesa dos interesses da classe burguesa. Sem uma contraposição interna, o discurso, os registros da prática profissional não escamoteiam o significado da profissão, os interesses defendidos, os parâmetros normatizadores das atividades e dos procedimentos. Segundo Carvalho (In: Iamamoto e Carvalho, 1982), nesse contexto, as atividades desenvolvidas pelos assistentes sociais eram restritas em virtude dos limites de atuação dos órgãos públicos e da incapacidade de as instituições viabilizarem os encaminhamentos requeridos no atendimento de casos individuais. Com o recurso heurístico fundado na teoria social marxiana, a partir da década de 1970, o significado da emergência do Serviço Social deixa de ser narrado na perspectiva da evolução, organização e profissionalização das formas de ajuda para o enfrentamento de desvios sócio-comportamentais cujas causas relacionavam-se à inadaptabilidade do indivíduo. No entanto, essa marca indelével permanece, guiando um determinado modo de ser do Serviço Social, deixando um rastro que se identifica a um sulco fechado, isto é, um rego que se abriu de um arranjo, forjou uma técnica que se repete indefinidamente no interior da profissão e prende o fazer profissional às expressões fenomênicas do ser social, circunscrito ao espontâneo e ao imediato. Trata de um arranjo cuja sustentação se encontra em seu escopo − a reprodução de um padrão de dominação que objetiva o ajustamento do ser que vive do próprio trabalho à ordem do capital. A finalidade vinculada à 43 utilidade do Serviço Social é o elemento que permanece como norteador e justificador da prática forjada por esse arranjo, ignorando o significado, a concepção, os princípios, a funcionalidade da profissão que aparecem apenas como gomas que mudam de cor dependendo das circunstâncias e, por isso mesmo, carecem de sentido ou se constituem no verniz que encobre o real. Em decorrência, há constantes tentativas de burilar uma concepção de Serviço Social sustentado em si-mesmo, a permanente busca por uma identidade profissional, o contínuo mal-estar atribuído à dicotomia entre a teoria e a prática. São os falsos dilemas encobrindo as contradições que engendram a constituição e o significado da profissão e, se de um lado, contribuem para explicitar os vínculos e os compromissos com direções sociais contrapostas, de outro, embaraçam, amarrame justificam a intervenção profissional circunscrita e limitada às expressões fenomênicas do ser social. 1.2 Concepção de Serviço Social e a prática profissional A compreensão que apreende pela raiz o modo contraditório de ser da profissão permite desvendar as ambigüidades e os dilemas presentes no debate profissional, dentre os quais se destaca a busca por uma definição do Serviço social e por uma identidade profissional. A narrativa historiográfica de Vieira (1980) explicita o jogo escorregadio que caracterizou a procura do reconhecimento e a busca do status teórico do Serviço Social, desde a sua origem até a década de 1970. Essa teoria, para a autora, é formada por meio do exame das experiências diversificadas, comparando-as e unificando-as; do aparecimento e da definição de uma terminologia consciente e ordenada logicamente, e do embasamento científico e orientação filosófica. Pelas definições do Serviço Social cronologicamente elencadas pela autora, visualiza-se por onde se movem essas 44 tentativas e de onde provém o embasamento científico e filosófico. Precursora da compreensão do Serviço Social como evolução das formas anteriores de ajuda no Brasil, as duas primeiras definições apresentadas por Vieira (1980, p. 92) são aquelas atribuídas à assistência social: “o auxilio dado às famílias e aos indivíduos para alcançarem uma vida normal em relação à saúde, à educação, ao trabalho, à recreação e ao desenvolvimento espiritual”, formulada em 1918, e a “ajuda material, intelectual e moral ao indivíduo que, tendo-se tornado dependente, não pode assegurar por si mesmo a luta pela existência”, elaborada em 1922. O Serviço Social foi definido na Primeira Conferência Internacional de Serviço Social, segundo Vieira (1980, p. 92), como o conjunto de esforços visando minorar sofrimentos oriundos da miséria (assistência paliativa), recolocar os indivíduos e as famílias em condições normais de existência (assistência curativa), prevenir os flagelos sociais (assistência preventiva), melhorar as condições sociais e elevar o nível de existência (assistência construtiva), Em 1931, essas definições foram sintetizadas por René Sand, conforme Vieira (1980, p. 93) no esforço em elevar o status das atividades meramente assistências para o âmbito do pensamento científico: O Serviço Social incorpora a caridade, a assistência e a filantropia, mas os ultrapassa e se distingue deles por seu caráter científico, por sua preocupação de pesquisa das causas e pela extensão de seu campo de estudo e atividades. Poderemos dizer simplesmente que é o 45 funcionamento do sentido social esclarecido pelas ciências sociais. A partir de então, as definições de Serviço Social procuraram sempre destacar o seu caráter técnico-científico, mas perdura a sua finalidade última que remete ao ajustamento social do indivíduo. Em 1935, de acordo com a União Católica Internacional de Serviço Social (UCISS), Serviço Social é o conjunto de trabalhos sociais coordenados e metódicos, feitos por agentes competentes, tecnicamente preparados, e que tem por fim auxiliar, educar, reeducar o indivíduo e sua família para condições de existência, prevenir o retorno a essas falhas, agindo diretamente sobre as causas, de maneira a organizar melhor os diversos quadros sociais22 ( apud VIEIRA, 1980, p. 93). Em 1955, a definição muda23 e, em 1956, a Organização das Nações Unidas, no 3º Inquérito Internacional sobre a formação de assistentes sociais, define o Serviço Social, segundo Vieira (1980, p. 94) como uma técnica que, diante das rápidas transformações que sofre o nosso mundo, trata de reconhecer as conseqüências sociais das mesmas e adotar medidas necessárias a aliviar as tensões a que estão submetidas a 22 Definição proposta em 1935 pela UCISS, por ocasião da realização de seu congresso, realizado em Bruxelas (VIEIRA, 1980) 23 Harleigh Trecker propõe a seguinte definição: “O Serviço Social opera dentro de uma cultura, onde se manifestam interesses e necessidades individuais e coletivas, atendidos por uma diversidade de entidades que empregam métodos de intervenção, administração e pesquisa” (apud VIEIRA, 1980, p. 93). 46 sociedade e sua unidade básica – a família tratando de estabelecer programas de desenvolvimento social, destinados a impedir a inadaptação individual, a desagregação social, assim como alcançar um desenvolvimento econômico que contribua para o bem- estar da população. A pontuação dessas definições dimensiona o caráter evolutivo desse quadro conceitual, que busca, ao mesmo tempo, reforçar e adequar-se à racionalidade hegemônica no âmbito das ciências sociais como estratégia de validação prática e teórica do Serviço Social em si-mesmo e que jamais perde a sua finalidade integrativa. Os novos elementos que surgem na definição24 elaborada de um autor para o outro carecem de sustentação teórico-filosófica e, por isso mesmo, vão sendo substituídos. Em 1959, o Serviço Social era apontado como uma arte, “fundamentada em conhecimentos e valores, cuja função é a solução de problemas, correspondendo às necessidades humanas reconhecidas pela sociedade” (VIEIRA, 1980, p, 95). Na década de 1960, outras definições surgiram, considerando o Serviço Social um método, uma instituição, uma disciplina, um grupo profissional; uma tecnologia, aplicação de valores profissionais e conhecimentos que orientam a conduta profissional, descrições de sistemas que pautam o processo de intervenção e interação com o público alvo. 24 Em 1957, Philip H. Van Praag, subdiretor da Escola de Serviço Social de o Serviço Social de Amsterdan, conceitua o Serviço Social como “uma metodologia que serve de elo entre a visão que emerge de um conjunto de conhecimentos especializados – cada dia mais unificados – e certos fins que têm suas raízes em princípios filosóficos...: a metodologia proporciona os instrumentos de que necessitam os assistentes sociais, ensinam como podem ajudar os indivíduos, grupos e comunidades que procuram ou carecem de ajuda (apud VIEIRA, 1980, p. 94). 47 Na América Latina, em meados da década de 1960, algumas tendências no interior do movimento de reconceituação, fundamentando-se em diferentes concepções e matrizes teórico-metodológicas, buscavam a construção de uma teoria para o Serviço Social com base na identificação de seus elementos básicos: a definição do objeto e dos objetivos, a metodologia e a operacionalização. No Brasil, a busca por uma teoria para o Serviço Social, concebido como uma disciplina cuja perspectiva era torná-lo uma ciência explicita-se no I Seminário de Teorização do Serviço Social realizado em Araxá, Minas Gerais, em 1967, e no II Seminário de Teorização do Serviço Social, realizado em Teresópolis, Rio de Janeiro, em 1970. No entanto, diferentemente do período anterior, o debate instalado nesse momento sócio- histórico evidencia o pluralismo teórico-metodológico e, ainda que se encontrem presentes tendências evolucionistas e (re)afirmadoras da ordem societal do capital, pela primeira vez na América Latina, elas se confrontaram com outra concepção de mundo: aquela que propõe a transformação da sociedade capitalista para o socialismo. A história do Serviço Social começou a ser analisada com base nas relações sociais engendradas pelo modo de ser da sociedade capitalista e as particularidades de seu desenvolvimento no Brasil. Trata-se de um esforço coletivo de segmentos do meio profissional que, desde o final da década de 1950, passaram a questionar a concepção harmônica da sociedade capitalista, a disfunção dos indivíduos e a funcionalidade do Serviço Social e ganharem visibilidade após o encontro de assistentes sociais realizadoem Porto Alegre, em 1965. As produções de Iamamoto (1982; 2002) e Netto (2001; 1996) analisam e apreendem o processo de emergência da profissão na dinâmica do processo de desenvolvimento das relações de produção e reprodução social, por meio de uma abordagem histórico-crítica, e foram fundamentais para o 48 rompimento com a concepção romântica e endogenista da profissão porque revelam e problematizam as contradições que permeiam o exercício profissional. Sobressaem, no âmbito dessa análise, o papel e os interesses das classes sociais na totalidade do desenvolvimento econômico, social, ideo- político e cultural da sociedade capitalista. No processo de renovação do Serviço Social brasileiro, Netto (1996) identifica essa direção vinculada à concepção histórico-crítica do Serviço Social como perspectiva de intenção de ruptura. Destaca-se, nesse cenário, segundo Netto (1996), o período militar- facista que obstaculizava o projeto de ruptura e a refuncionalização da universidade com a inserção de profissionais na docência. Para esse autor, a perspectiva de intenção de ruptura tem sua base sócio-política no processo de laicização da profissão, em sua diferenciação das tendências e forças que percorrem a estrutura da sociedade brasileira e, sobretudo, no movimento das classes exploradas e subalternas, derrotadas em abril de 1964. Netto (1996) identifica três momentos diferenciados no processo de constituição da perspectiva de ruptura: “o da sua emersão, o da sua consolidação acadêmica e o do seu espraiamento sobre a categoria profissional” (p. 261). Esse processo, demarcado por continuidades e mudanças, coloca e recoloca em debate os eixos teórico-metodológicos, os núcleos temáticos e os indicativos profissionais25. O elemento de continuidade nesse processo é a referência à tradição marxista26. Sob a inspiração e o fundamento teórico-metodológico e ético-político da teoria social marxiana, o Serviço Social é apreendido como parte constitutiva e constituinte de um todo, inscrito na divisão social e técnica do trabalho na sociedade capitalista. 25 A análise do processo de constituição e desenvolvimento da perspectiva de intenção de ruptura será tratada no quarto capítulo da presente tese. 26 Entende-se por tradição marxista o acúmulo de interpretações, pesquisas e ampliações da teoria social marxiana, que tratam das determinações políticas, econômicas, sociais e culturais do ser social. 49 A perspectiva de intenção de ruptura, no momento de sua emersão, transpõs inúmeros percalços relacionados às condições sócio-históricas objetivas nas quais o país se encontrava submerso, sobretudo de ordem política no marco da ditadura instaurada com o golpe de 1964. Tais dificuldades não impediram a formação de uma massa crítica que busca o rompimento teórico-prático com o Serviço Social tradicional. As marcas desse percurso podem ser sinalizadas entre o período de 1972, quando se iniciou a formulação do método de Belo Horizonte (método BH), a 1982 quando, pela análise de Iamamoto (1982), conecta-se à institucionalização do Serviço Social como epifenômeno da ordem burguesa, apreendendo o significado da profissão no âmbito das relações de produção e de reprodução das relações sociais na sociedade brasileira. Iamamoto (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 77) afirmam que o “Serviço Social se gesta e se desenvolve como profissão reconhecida na divisão social do trabalho”. A concepção de Serviço Social como profissão emerge da contextualização das condições sócio-históricas, qual seja, o desenvolvimento capitalista industrial e a expansão urbana, processos esses aqui apreendidos sob o ângulo das novas classes sociais emergentes − a constituição e expansão do proletariado e da burguesia industrial − e das modificações verificadas na composição dos grupos e frações de classes que compartilham o poder de Estado em conjunturas históricas específicas. É nesse contexto, em que se afirma a hegemonia do capital industrial e financeiro em que emerge sob novas formas a chamada questão social , a qual se torna a base de justificação desse tipo de profissional especializado (IAMAMOTO. In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 77). 50 A concepção do Serviço Social como profissão, cuja emergência conecta-se com as particularidades da formação sócio-histórica da sociedade capitalista, torna-se hegemônica, a partir da década de 1980, fundamenta os pressupostos que norteiam o atual código de ética da profissão e subsidia o posicionamento das entidades representativas da categoria na atualidade. O processo de revisão curricular, desencadeado na década de 1990 pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), após amplo debate envolvendo as unidades acadêmicas de todo o país, reafirma a seguinte concepção: “o Serviço Social particulariza-se nas relações sociais de produção e reprodução da vida social como uma profissão interventiva no âmbito da questão social, expressa pelas contradições do desenvolvimento do capitalismo monopolista” (ABESS/CEDEPSS, 1997, p. 60). Essa concepção estabelece a conexão entre a emergência e desenvolvimento da profissão à totalidade das relações sociais, e, conseqüentemente, revela o seu caráter contraditório e as mediações com o processo de produção e reprodução da força de trabalho e do capital. Essa mudança iniciou-se com a crítica ao Serviço Social tradicional, em um contexto sócio-histórico demarcado por mobilizações sociais da classe trabalhadora que reivindicava reformas de base, tendo em vista o aprofundamento das desigualdades sociais na América Latina. Netto (2005. p. 9) explicita as determinações sócio-históricos da década de 1960 que possibilitam esse giro: A inserção de nossos países na nova divisão internacional do trabalho que então emergia; o colapso, em nossos países, dos pactos políticos que vinham do pós-guerra; o surgimento de novos sujeitos políticos; o impacto da Revolução Cubana; o anêmico reformismo do tipo Aliança para o Progresso. 51 No contexto de polarização entre as classes sociais, apresentavam-se as condições para a crítica e a busca do rompimento com o Serviço Social tradicional. Os questionamentos e as inquietações de um segmento de assistentes sociais direcionavam-se às condições de existência de homens e mulheres vivendo em condições desumanas em todo o continente latino-americano e constituem a força objetiva que move as transformações operadas no interior do Serviço Social brasileiro. Nesse marco, o movimento de reconceituação tornou-se a expressão dos projetos societários que se confrontavam27, e dos quais derivam diferentes proposições para o Serviço Social. A quebra do compromisso com um fazer profissional voltado para uma única direção − o ajustamento do indivíduo à estrutura societal −, faz emergir entre os assistentes sociais indagações relativas ao significado da própria profissão, instaura-se o pluralismo teórico-metodológico e aflora o caráter ambíguo que cerca a profissão. Sobressaem, no âmbito destas indagações e inquietações, na agenda do debate profissional, proposições que buscam compreender os questões vinculadas aos fundamentos teórico- metodológicos e ético-políticos: a questão da identidade profissional e da metodologia do Serviço Social. No debate sobre a identidade profissional destaca-se a proposição de Martinelli (2003, p. 17), segundo a qual a ausência de uma identidade fragiliza ”a consciência social da categoria profissional, 27 Faleiros (1986) identifica nove tendências no interior do movimento de reconceituação no Brasil, apreendidos por meio de quatro referências: a tendência político-ideológica geral em que pode ser situado o autor ou a proposta; a teoria deconhecimento explícita ou implícita na proposta; a operacionalização ou projeto de prática e a definição do objeto e objetivos do Serviço Social. Tais referências são problematizadas conforme a relação entre a questão geral do sujeito e a estrutura. Dentre essas tendências, polarizaram –se aquelas que propunham a modernização do Serviço Social com o objetivo de refuncionalizá-lo para atender às exigências do capital e à nova divisão internacional do trabalho que então emergia na década de 1960, sobretudo pelo macro planejamento tecnocrático, e aquelas que propunham a ruptura e, por conseguinte, a superação da sociedade capitalista. Importa destacar que todas elas têm em comum a preocupação em forjar um novo modelo de prática e explicitam posicionamentos ideo-políticos cujo leque de proposições aponta diferentes direções sociais. 52 determinando um percurso alienado, alienante e alienador da prática profissional”. A autora considera a identidade da profissão como elemento definidor de sua participação na divisão social do trabalho e na totalidade do processo social. Conforme Martinelli (2003), a prática profissional, em sua emergência, articula-se à busca da racionalização da prática social desejada pela burguesia para a efetivação da hegemonia de seu projeto do poder. Para tanto, a burguesia aproxima-se das ações filantrópicas, na metade do século XIX, e as transforma em instrumento auxiliar do processo de consolidação do modo de produção capitalista. “Ao se aproximar dos agentes que vinham desenvolvendo ações filantrópicas naquele momento, tendo em vista a racionalização da assistência e sua normatização, a burguesia queria apropriar- se da prática social para submete-la aos seus desígnios”, assinala Martinelli (2003, p. 63). Martinelli (2003), em sua análise, distingue a burguesia dos filantropos, transformados pela burguesia em agentes ideológicos28. Fazendo uso da prática social dos filantropos e, por meio desses agentes, a burguesia tinha acesso à família operária para sujeitá-la às suas exigências. A burguesia uniu-se à igreja e ao Estado para redirecionar as manifestações coletivas da classe trabalhadora por meio de estratégias ideo-políticas diferenciadas, entre as quais, a criação de instituições sociais para a prestação de serviços assistenciais. Para executar esses serviços, surgiram as primeiros assistentes sociais, “com uma identidade atribuída, que expressava uma síntese das práticas pré-capitalistas − repressoras e controlistas (...)”, afirma Martinelli (2003, p. 67). Para a autora, a prática dos agentes executores da assistência social surgiu ungida pelo fetiche místico de servir a classe trabalhadora, 28 Martinelli (2003, p. 64) afirma: “assim como havia cooptado o Estado burguês para promover, ao longo do tempo, medidas políticas de proteção ao capital, a burguesia tratou de fortalecer sua aliança com os filantropos, transformando-os em importantes agentes ideológicos, responsáveis pela socialização do modo capitalista de pensar”. 53 quando, na verdade, constituía-se em instrumento da burguesia para abafar as contradições sociais e a luta de classes. Essa discussão exige descortinar a relação entre teoria e prática, que se encontrava no centro do debate profissional e inquietava segmentos da categoria profissional, na década de 1980, tomando forma na problematização da metodologia no Serviço Social. As escolas de Serviço Social, em todo território brasileiro, foram o calidoscópio que refletia os impasses teórico-metodológicos que cercavam a profissão e a emergência de diversas propostas de prática. Segundo a Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social − ABESS29(1989), a ausência de um referencial teórico-metodológico e prático consensual conduzia o trabalho docente ou à nostalgia do passado ou à confusão que repercutia no ensino da metodologia em Serviço Social. Esse debate projetou-se fortemente nos espaços acadêmicos, mas refletia as dificuldades da categoria em relação à sistematização de seu saber, à ausência da capacitação contínua, à fragmentação dos fundamentos históricos, teóricos e da prática profissional. Para conhecer como ocorria o ensino da metodologia nos cursos de Serviço Social, a Abess (1989) realizou uma pesquisa30, de caráter exploratório, envolvendo as escolas públicas e privadas em todo o território brasileiro. Essa pesquisa apontou, no currículo de 1982, a tendência de a disciplina de metodologia “dar o cunho de preparo para a intervenção profissional” (ABESS, 1989, p. 18). A discussão relativa aos resultados da pesquisa evidenciou os impasses e as dificuldades do exercício profissional naquele momento, dentre os quais se destacava a relação teoria e prática. Metodologismo, especificidade e cientificidade misturam-se na emblemática busca pelo objeto do Serviço Social. 29 Atualmente: Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS). 30 Caderno n. 3 da Abess, intitulado A metodologia no Serviço Social, publicado em 1989. 54 Para a Abess (1989), tais impasses e dificuldades vinculavam-se à trajetória intelectual dos assistentes sociais na sociedade brasileira. O modo de conceber a profissão cresceu num caldo cultural do pensamento humanista cristão, que mais tarde vai se secularizar, vai se modernizar nos quadros do pensamento conservador, do anticapitalismo romântico que lê a sociedade como uma grande comunidade: no trabalho comunitário parece que as classes deixam de existir, historicamente, privilegiando- se a ótica da solidariedade, da harmonia das relações sociais. Mais tarde incorpora a herança das ciências humanas e sociais, especialmente, na sua vertente empiricista norte-americana. A essas fontes de inspiração intelectual alia-se, na década de 1970, no auge do movimento de reconceitualização, o estruturalismo haurido, entre outros, em Althusser, e também o marxismo vulgar. (ABESS, 1989, p. 72). Os vícios de análise de um segmento dos assistentes sociais decorrem, segundo a Abess (1989), da herança cultural que produz e reproduz o formalismo e o empirismo. A pesquisa indicou as dificuldades enfrentadas pelas escolas para superar o modelo dualista presente na formação profissional dos assistentes sociais, no qual, de um lado, há disciplinas relacionadas aos fundamentos históricos e teóricos e, de outro, as disciplinas vinculadas à intervenção. A persistência de abordagens teóricas e didáticas que fragmentam o saber e o fazer reforçam a tradição pragmática do Serviço Social e gera o seu contraponto − o formalismo, denuncia a Abess (1989). 55 Nas duas posições, pragmática e formalista, o Serviço Social mantém um ponto em comum − a ênfase no como fazer, chamado de metodologismo. E parece ser aqui onde se processaram quase todas as questões acadêmicas envolvendo as demandas colocadas para o ensino e o exercício da profissão (ABESS, 1989, p. 73). Observa-se que os avanços da reflexão crítica, fundamentada na teoria marxista, referente a fragmentação entre o saber e o fazer não produzem o rompimento com a lógica do pensamento positivista. Em outras palavras, a teoria marxista seria um instrumento que serviria à critica, mas não possibilitaria a destruição teórica e prática do pensamento criticado. As dificuldades em transpor o plano da crítica foram debitadas, por um segmento profissional, ao projeto de formação, à sua estrutura e à sua lógica, e à própria teoria marxista que serviria à crítica mas não responderia às exigências do mercado e às demandas cotidianas com as quais os profissionais se confrontam. Essa crítica, reducionista e generalista, alimenta o conservadorismo presente no Serviço Social brasileiro, contribui para o atrofiamento do debate teórico relativoao significado da profissão, à sua funcionalidade na reprodução das relações sociais e escamoteia as dificuldades e os vícios teóricos e práticos da categoria, justificando o exercício profissional que se reduz à apreensão do imediato. A pesquisa realizada pela Abess (1989) evidenciou os equívocos decorrentes de uma aproximação tortuosa com a teoria social de Marx e dos próprios limites intelectuais dos assistentes sociais, incluindo aqueles que atuavam na docência naquele momento. Dentre esses equívocos, podem-se destacar a transposição mecânica que conduziu à negação da abordagem individual na prática profissional (convencionou-se arbitrariamente que 56 atendimento de caso é funcionalista/fenomenológico e trabalho com a comunidade vincula-se à dialética), a identificação da sistematização da prática com a formulação de teoria e a tendência tecnicista no tratamento dos instrumentais técnico-operativos. A crítica ao metodologismo presente nas discussões relativas ao fazer profissional aprofundou o debate, no interior da categoria, acerca da relação teoria e prática, nas décadas de 1980 e 1990. Ao revisitar o processo de emergência, constituição da profissão e as polêmicas que cercaram o seu desenvolvimento averiguam-se as dificuldades teórico-práticas para a ultrapassagem das determinações que a sociedade burguesa, na fase dos monopólios, instituiu para o assistente social: executor terminal das políticas sociais que, ao atender às demandas imediatas de segmentos da classe trabalhadora contribui para a objetivação dos interesses do capital em relação à preservação e ao controle da força de trabalho ocupada e excedente. As adequações semânticas na definição de Serviço Social ao longo da trajetória da profissão no Brasil, no campo do posicionamento teórico- metodológico e ideo-político alinhado ao projeto da sociedade burguesa, vinculam-se às tentativas de modernizar o discurso profissional, mantendo a sua funcionalidade. A adesão dos assistentes sociais a esse projeto pode ser consciente ou inconsciente e, pode ainda, redundar em equívocos teórico- metodológicos. O movimento contraditório da realidade que acentua e explicita a lógica do desenvolvimento desigual do modo de ser da sociedade capitalista que se evidencia nas seqüelas da questão social, com as quais os assistentes sociais confrontam-se diariamente e o amadurecimento do projeto ético- político profissional fundamentado em uma concepção que apreende a totalidade do ser social e expressa o compromisso da categoria com os valores 57 do trabalho e a emancipação humana, não impedem a reprodução de um modelo de prática profissional conservadora, que se atém à fenomenalidade. Há, ainda, uma parcela significativa de assistentes sociais que orientam a sua prática balizada no Serviço Social tradicional e, outros que conectam, de forma imediata, o pensamento e a ação dispensando até mesmo o modelo prescritivo de estudo, diagnóstico e tratamento. Trata-se de formas de ser do Serviço Social que expressam posicionamentos teórico-práticos e ideo-políticos presos às expressões fenomênicas do ser social, no qual o fazer profissional limita-se às aparências, tanto no âmbito do conhecimento quanto da intervenção, pois o movimento da consciência para conhecer a realidade não chega à essência. Os vetores que contribuem para esse aprisionamento são múltiplos, mas o determinante é que a prática profissional desses assistentes sociais alinha-se acriticamente à pratica hegemônica na sociedade capitalista e sua correspondente racionalidade e a reproduz. Apenas aparentemente essa prática encontra-se destituída de intencionalidade se apresenta como inevitável e dada pela realidade sócio-institucional. Mesmo circunscrita à aparência, às expressões fenomênicas da realidade, essa prática resulta de largos e complexos processos de mediações. No entanto, o sujeito cognoscente − o profissional que demanda única e exclusivamente os instrumentais técnico-operativos para objetivar seu exercício profissional e conecta de forma imediata o pensamento e a ação − não apreende as mediações, e a sua prática encontra-se presa à fenomenalidade, à imediaticidade. Independentemente da consciência, as mediações permeiam a realidade e o processo de apreensão, pelo pensamento, da realidade ainda que seja em sua aparência. O profissional pode colocar-se nesse processo de forma passiva ou de forma ativa, como protagonista de seu exercício profissional. 58 No modelo prescritivo da prática profissional, a imediaticidade aparece em contraposição à mediação, na recusa à dimensão teórico- metodológica e ético-política da profissão. As requisições dessa prática direcionam-se aos instrumentos que respondam de forma imediata, às necessidades confrontadas cotidianamente pelos profissionais. O imediato, a imediaticidade aparecem de forma oposta e distinta da mediação, mas as determinações reflexivas são indissociáveis. No entanto, ao passo que a “mediação é uma categoria objetiva, ontológica, que tem de estar presente em qualquer realidade, independentemente do sujeito”, a imediaticidade31 é uma categoria da consciência, afirma Lukács (1979a, p. 90). Sendo, pois, uma prática presa ao movimento da consciência que se atém à imediaticidade, procurar-se-á descrevê-la conforme ela aparece em sua fenomenalidade. A descrição da fenomenologia dessa prática profissional, isto é, como ela aparece em sua totalidade, sustenta-se no sistema hegeliano no qual, segundo Netto (1994, p. 28), a “razão moderna encontra a sua codificação mais conclusa”, discernindo com clareza as formas pelas quais a consciência conhece a realidade. 1.3 A fenomenologia em Hegel: o aparecer da prática profissional Fenomenologia significa, no sentido atribuído por Hegel (2001), o “caminho para a ciência [que] já é ciência ele mesmo, e portanto, segundo o seu conteúdo é a ciência da experiência da consciência” (p. 72). Fenomenologia do conhecimento diferencia-se de teoria do conhecimento, pois ao passo que a primeira é a descrição do caminho que a consciência percorre para chegar ao 31 Apenas na natureza orgânica “o imediato possui também uma eficácia real que não deve obrigatoriamente passar através da consciência”, declara Lukács (1979a, p. 90). 59 conhecimento, à essência absoluta ou à verdade da coisa mesma, a segunda é a interpretação do conhecimento. Experiência, para Hegel (2001), é o “movimento dialético que a consciência exercita em si mesma, tanto em seu saber como em seu objeto, enquanto dele surge o novo objeto verdadeiro para a consciência” (p. 71). Ao percorrer o caminho em direção a verdade, segundo a fenomenologia hegeliana, a consciência despoja-se da aparência que a prende a algo estranho para apreender a sua verdadeira essência, o saber absoluto. O caminho, ou o movimento dialético que a consciência exercita, consubstancia-se em um sistema que implica a passagem de uma estação a outra, ou de um nível a outro, buscando o desvelamento total do caminho ou os mais altos níveis de compreensão. Essa passagem não pode ser confundida com o etapismo estanque. Já no prefácio de a Fenomenologia do espírito, escrito em 1806, em Jena, Hegel (2001) adverte que a passagem “contém um tornar- se Outro que deve ser retomado, e é uma mediação; mesmo que seja apenas passagem a outra proposição” (p. 31). O passar a outra proposição consiste no movimento dialético da consciência que busca captar a verdade. O verdadeiro, para Hegel (2001, p. 31), é o todo, “mas o todo é somente a essência que se implementa através de seu desenvolvimento” . Desse caminho que a consciência percorre da aparência para a essência, em sua processualidade dialética, surgem as determinações reflexivas. Nesse processo, há a passagem superadorade um nível de conhecimento para outro, iniciando com a certeza sensível, e dela à percepção, da percepção ao entendimento, e do entendimento à verdade da razão. A passagem de um estágio para o outro ocorre por meio da supra-sunção que conduz à superação do entendimento anterior por meio da negação; a negação emerge da contradição que o próprio objeto contém em si-mesmo, daí, o 60 sentido da superação, ele se torna Outro. Trata-se, pois, do movimento dialético que embasa a filosofia da negação. Para Hegel (2001), é da experiência que surge o novo objeto verdadeiro para a consciência. A experiência em referência não é a experiência do senso comum. Trata-se de “uma experiência abalada na sua segurança, imbuída do sentimento de não possuir a verdade toda; é uma experiência já no caminho do conhecimento real” (MARCUSE, 2004, p. 91). Essa experiência vincula-se ao sujeito que procura a verdade no filosofar, é, pois, a experiência da consciência que, no início, destrói a experiência cotidiana, na qual se aloja a certeza sensível. A experiência guiada pelos sentidos, da qual resulta a certeza sensível, aparece sempre como a experiência do próprio sujeito, o sujeito como indivíduo e, por extensão, o próprio objeto aparece como ser singular. Como a certeza sensível provém da experiência do indivíduo, “o sujeito aparece a si mesmo como instaurador e portador da verdade do objeto”, afirma Lima Vaz (2001, p. 12) . Trata-se do sujeito que toma como referência o aqui e o agora. Para o autor, “o lugar da verdade do objeto passa a ser o discurso do sujeito que é também o lugar do automanifestar-se ou do auto-reconhecer-se − da experiência, em suma − do próprio sujeito” (2001, p. 12). Hegel (2001), quando se refere à experiência da consciência, reporta-se à experiência universal, cuja morada inicial se encontra na certeza sensível que, ao ser analisada, demonstra a realidade universal. A certeza sensível é o ponto de partida do método dialético apresentado por Hegel (2001) e intitula o primeiro capítulo de Fenomenologia do espírito como A certeza sensível ou: o Isto ou o visar. Nesse capítulo, Hegel (2001) explicita que o caminho que a consciência percorre para chegar à verdade, parte de um estado em que ela supõe possuir a verdade, que, ainda, não é a verdade. A certeza sensível tem essa forte dimensão afirmativa no qual reina de forma 61 absoluta o saber imediato. “O saber que, de início ou imediatamente, é nosso objeto, não pode ser nenhum outro senão o saber que é também imediato: − saber do imediato ou do essente”, diz Hegel (2001, p. 74). As características presentes no conteúdo concreto da certeza sensível aparecem quando ela anuncia o saber imediato como o mais rico conhecimento, um conhecimento de riqueza infinida, no qual não há limite pois ela tem o objeto diante de si em sua plenitude, portanto, um conhecimento verdadeiro. No entanto, Hegel (2001, p. 75) explica: essa certeza se faz passar a si mesma pela verdade mais pobre. Do que ela sabe, só exprime isto: ele é. Sua verdade apenas contém o ser da Coisa; a consciência, por seu lado, só está nessa certeza como puro Eu, ou seja: Eu só estou ali como puro este, e o objeto, igualmente apenas como puro isto, Eu, este, estou certo desta Coisa; não porque Eu, enquanto consciência, me tenha desenvolvido, e movimentado de muitas maneiras o pensamento. Nem tampouco porque a Coisa de que estou certo, conforme uma multidão de características diversas, seja um rico relacionamento em si mesma, ou uma multiforme relação para com outros. Para o saber sensível, a Coisa é, simplesmente, ao passo que a consciência é puro Eu, como este.“ O singular sabe o puro este, ou seja, sabe o singular” (HEGEL, 2001, p. 75). Mas, quando a certeza sensível anuncia a sua verdade como essência, ela já não é apenas a pura imediatez, diz Hegel (2001, p. 75) pois, nessa certeza ressaltam os dois estes: “ um este, como Eu, e um este como objeto” . Decorre então um encontro entre dois estes, e tanto um 62 como o outro não estão na certeza sensível apenas de modo imediato, mas estão, ao mesmo tempo, mediatizados. A certeza sensível apresenta o objeto, ou a Coisa, ou o este como um saber porque o objeto é, encontra-se ali, perceptível aos sentidos, mas esse saber pode não ser, posto que o verdadeiro conteúdo da certeza sensível se refere ao aqui e ao agora. O aqui e o agora são os elementos que permanecem como características da certeza sensível. Trata-se de um sujeito que para fazer permanecer a sua certeza como o seu ser se relaciona com o não-ser, com o universal. A verdade na certeza sensível está no objeto: “o objeto é porque Eu sei dele”, explica Hegel (2001, p. 77). Eu sei dele aqui e agora − saber imediato. Porém, como o objeto é porque Eu sei dele, a força dessa verdade passou do objeto para o Eu: “Assim, a certeza sensível foi desalojada do objeto, sem dúvida, mas nem por isso foi ainda suprassumida, se não apenas recambiada ao Eu” (HEGEL, 2001, p. 77). A força da verdade está no Eu, na imediatez dos sentidos de quem vê, sente, ouve, cheira, pega, etc. O Eu experimenta uma verdade sustentada no aqui e no agora singulares. O aqui e o agora singulares não desvanecem porque o Eu os mantém. Contudo, um outro Eu vê e sente nesse aqui e agora um outro objeto. Acerca dessa aparente dubiedade, Hegel (2001, p. 77) diz que as “duas verdades têm a mesma credibilidade, isto é, a imediatez do ver, e a segurança e afirmação de ambos quanto o seu saber; uma porém desvanece na outra”. Aquilo que permanece nessa experiência é o Eu como universal, pois, “o Eu é só universal, como agora, aqui, ou isto, em geral” (HEGEL, 2001, p. 78). Para demonstrar o sensível como universal, Hegel (2001) afirma que a certeza do Eu provém do aqui e do agora. O Eu vira-se e vê aqui e agora uma árvore e, quando se vira novamente, vê uma casa. O aqui e o agora não se desvanecem, mas trata-se de algo que fica no desvanecer da árvore, da casa; a 63 certeza mantém-se em si mesma como imediatez, que não faz distinção entre o Eu e o objeto. A permanência do agora no tempo, como o momento do aqui, implica negação de todos os outros momentos do tempo. A sua conservação implica que o seu ser é um não-ser. Por isso, a análise da certeza sensível demonstra “a realidade do universal e desenvolve, ao mesmo tempo, o conceito filosófico da universalidade. A realidade do universal é aprovada pelo próprio conteúdo dos fatos observáveis (...)”, declara Marcuse (2004, p. 99). Resulta desse movimento da consciência que a verdade da certeza sensível não está no caráter particular, individual do objeto, mas no todo universal que constitui o conteúdo da experiência sensível. A certeza sensível quer captar o objeto que, para ela, é o essencial, e o sujeito aparece como o inessencial. No momento no qual predomina o aqui e agora − o imediato −, este objeto aparece como um ser singular. O conhecimento do sujeito depende do objeto. No entanto, quando o sujeito, para afirmar a propriedade do objeto nega um Outro, ele se torna essencial, e o universal revela-se como o verdadeiro conteúdo da experiência. A verdade não está no objeto, e a “certeza sensível não se apossa do verdadeiro”, assinala Hegel (2001, p. 83), uma vez que a verdade da certeza sensível é o universal. “E a sede do universal é o sujeito, e não o objeto; o universal existe no conhecimento, que, de início era o fator inessencial”, interpreta Marcuse (2004, p. 18). O mesmo movimento ocorre em relação ao objeto: A experiência-sensível revela, pois, que a verdade nem está com seu objeto singular, nem com o eu individual. A verdade é o resultado de um duplo processo de negação: 1) a negação da existência per se do objeto, e 2) a negação do eu individual, com a transferência da verdade para o eu universal.A objetividade é, pois, duplamente 64 mediada, ou construída, pela consciência, e, por conseguinte, continua ligada à consciência. O desenvolvimento do mundo objetivo está totalmente interligado com o desenvolvimento da consciência (MARCUSE, 2004, p. 18). A experiência da consciência tem início na certeza sensível, com o saber imediato, nesse momento, começa o conhecimento em busca da verdade, e tanto o sujeito quanto o objeto aparecem como isto individual, cujas propriedades determinantes são o aqui e o agora. Na certeza sensível alojada na experiência do senso comum do cotidiano assenta-se a verdade do sujeito e do objeto singulares, que ainda não é a verdade porque se desvanece na verdade de um outro aqui e agora, “os únicos elementos que permanecem constantes no meio da mudança contínua dos dados objetivos” (MARCUSE, 2004, p. 99). O que acontece, contudo, quando este aqui e agora apresentado como a verdade de um sujeito e objeto singulares transparece como a verdade universal? Trata-se de uma verdade ou de uma miragem? A experiência profissional do assistente social quando alojada somente na certeza sensível, anuncia uma verdade referente ao fazer ou ao exercício profissional sustentada no aqui e no agora singulares que aparecem como universais. Essa verdade somente toma força à medida que se relaciona com o Outro, ou seja, com a negação de uma outra verdade e, por isso, ela se desvanece no Outro. O que anuncia a auto-manifestação de assistentes sociais cuja verdade se aloja na certeza sensível? 65 1.4 A fenomenologia da prática profissional do assistente social: a preponderância da certeza sensível Quando o profissional do Serviço Social afirma categoricamente que os conhecimentos históricos, teórico-metodológicos e ético-políticos transmitidos/apreendidos no processo de formação profissional não encontram aplicabilidade no cotidiano do seu exercício profissional, ele manifesta a sua verdade que, de início, é a sua verdade como indivíduo. Trata-se da verdade que advém do saber imediato, portanto, da certeza sensível de um profissional que, embasado em sua experiência cotidiana, instaura a verdade do objeto em referência: o Serviço Social, ou mais especificamente, o Serviço Social identificado como prática profissional. Tal experiência é guiada/desencadeada pelos sentidos e aparece sempre como a experiência do próprio sujeito, o sujeito como indivíduo que toma o objeto em sua singularidade e, nesta relação, o objeto aparece como essencial. Para o indivíduo que experimenta tal experiência o lugar da verdade está no objeto, e ele confere o status de verdade ao objeto. Esta verdade é anunciada na forma do discurso do sujeito como o automanifestar-se e auto- reconhecer-se na experiência do aqui e do agora, do imediato. O que são, pois, esse aqui e esse agora automanifestado e auto-reconhecido pelo assistente social no discurso pautado na certeza sensível? Como o profissional automanifesta esse aqui e esse agora? Ele sabe, conhece por meio da certeza sensível alojada em sua experiência cotidiana a verdade do objeto, do fazer profissional, e essa verdade é por ele instaurada, daí a forma categórica e incisiva como é manifestado o fazer porque é ao mesmo tempo um auto- reconhecimento. Quando o profissional anuncia a verdade de seu fazer profissional guiado pela certeza sensível, ele sabe do aqui e do agora no qual se encontra. 66 Ele considera, que justamente por estar naquele momento, naquele lugar, a sua experiência alojada na certeza sensível é o mais rico saber, e o saber científico, ou seja, os fundamentos históricos e teórico-metodológicos da profissão transmitidos durante o seu processo de formação não têm validade e aplicabilidade para esse aqui e esse agora no qual ele se encontra. Para esses profissionais − que antes de externarem a sua experiência não ultrapassam (no sentido de supra-sumir) esse aqui e esse agora − o saber sobre o seu fazer profissional simplesmente é. O saber relativo ao fazer profissional é o que esse sujeito, como ser singular, percebe por meio dos sentidos, ou seja, o saber profissional é o que ele percebe porque vê, sente, apalpa, ouve, cheira. Esse saber é o saber imediato referente ao fazer profissional anunciado como o mais rico conhecimento, a mais pura verdade, a essência. Provavelmente, a fala do assistente social que desenvolve o seu fazer profissional guiado pela certeza sensível − pela experiência que se atém ao aqui e ao agora −, que mais denote a verdade instaurada exclusivamente pela experiência do próprio sujeito como o mais rico e pleno conhecimento seja a propalada frase na prática a teoria é outra. A teoria é outra não no sentido de que uma outra lógica ou racionalidade esteja presente no espaço sócio- ocupacional, mas porque o conhecimento válido é aquele que advém de sua experiência como sujeito singular que anuncia a verdade de um objeto singular. É ele, o profissional que sabe o seu fazer, conhece o aqui e o agora desse fazer, as dificuldades que encontra para responder às exigências cotidianas. Para esse profissional, a verdade passa a ser o seu discurso assentado na certeza sensível, a automanifestação do próprio sujeito. No entanto, diz Hegel (2001, p. 75), esta verdade “só está nessa certeza como puro Eu”, não há o movimento de muitas manifestações do pensamento e, tampouco, o saber fazer profissional que se anuncia como 67 verdadeiro seja possuidor de características diversas e seja rico porque se relaciona com outros saberes. O sujeito aparece nessa verdade como puro Eu ou este e o objeto, o fazer profissional, como puro isto. Isto é porque eu sei dele, ele é, simplesmente. Quem mais pode saber desse fazer a não ser o próprio profissional que, no dia-a-dia, − no aqui e no agora do cotidiano institucional − enfrenta as tensões sociais, lida com elas, com elas convive, e é chamado a dar-lhes respostas, encontrar soluções para as demandas sociais? Tais soluções são exigidas e, permanentemente, cobradas pela instituição, pelos usuários e pelo próprio assistente social como resultado e efetividade do trabalho profissional, constituindo-se em fator preponderante para a legitimidade da profissão perante a sociedade e do próprio assistente social no espaço sócio-ocupacional. Em outras palavras, a experiência cotidiana do profissional ou a vivência do dia-a-dia instaura a verdade desse sujeito como indivíduo, que está no objeto − a sua prática profissional, isto é, o que ele faz para responder às demandas sociais com as quais se confronta no cotidiano. A valoração do trabalho que desenvolve assenta-se na verdade instaurada no aqui e no agora, no momento presente que implica a negação de todos os outros momentos. A ênfase do discurso coloca-se no objeto, pois é o profissional que vivencia o cotidiano institucional, que sabe do objeto. Contudo, este saber alojado na certeza sensível referente ao abjeto singular ao ser evidenciado na automanifenstação ou no auto-reconhecimento do sujeito já é universal. Ao automanifestar-se e auto-reconhecer-se no saber imediato que advém da experiência direta com o objeto − o fazer profissional −, o sujeito estabelece relação com o Outro, com outra verdade. Esta mediação encontra-se evidenciada no conteúdo e na forma como o sujeito se automanifesta, se auto-reconhece, ou seja, em sua fala. Quando o assistente 68 social afirma que a verdade, a essência, estão em sua experiência prática cotidiana porque dela advém o saber imediato relativos ao seu fazer profissional, essa verdade já não é pura imediatez, pois ocorreu o encontro de dois estes − o este sujeito, o profissional, e o este objeto, o fazer profissional. O encontro do profissional e do fazer profissional implica mediações, pois “tanto um como outro não estãona certeza sensível apenas de modo imediato, mas estão, ao mesmo tempo, mediatizados” (HEGEL, 2001, p. 75). Por outro lado, ao afirmar o que é o seu fazer profissional embasado na certeza sensível, o assistente social já está se relacionando com o não-ser, com o que não é o seu fazer profissional: na prática, o fazer profissional não é o fazer profissional que é transmitido durante o processo de formação, para o qual se requer o acionamento de recursos teórico- metodológicos, ético-políticos e técnico-operativos. Quando alguém diz − eu me basto, eu sou auto-suficiente como profissional e necessito somente da certeza sensível para instaurar a verdade sobre o meu fazer profissional −, estou dizendo − não preciso do outro, estou me relacionando com o outro como um não-ser. O que é esse fazer profissional que surge da experiência do próprio sujeito e se fundamenta na certeza sensível? O profissional é aqui o sujeito como indivíduo. O fazer profissional é, em decorrência da experiência do próprio profissional que instaura a verdade desse fazer, portanto, um objeto singular. O sujeito é o profissional que para auto-reconhecer-se como tal desenvolve um fazer profissional. Antes, porém, de o profissional auto- reconhecer-se como tal é preciso que Outros o reconheçam, e três condições determinantes se apresentam na realidade brasileira: ser graduado no curso de Serviço Social, de nível superior, estar regularmente inscrito no Conselho Regional de Serviço Social e vender a sua força de trabalho. 69 O Serviço Social, apesar de ser “regulamentado como uma profissão liberal não tem uma tradição de prática peculiar às profissões liberais na acepção corrente do termo”, afirma Iamamoto (Iamamoto e Carvalho 1982, p. 80). Para desenvolver o seu fazer profissional, o assistente social, não dispondo das condições materiais, necessita que alguma instituição, pública ou privada, compre a sua força de trabalho. Essas determinações não se apresentam para este aqui e este agora. No entanto, aqui é o lugar onde se desenvolve agora este fazer profissional, é a instituição que contrata o assistente social para desenvolver o fazer profissional, determinando as condições matérias, físicas e técnicas para tal. E o que existe agora? Agora, esse profissional responde ao que aparece. Para ele, surge a instituição com as suas próprias solicitações, requerendo informações sobre esse fazer profissional e contra-informando como esse fazer deve ser realizado. Para esse profissional, podem aparecer pessoas que solicitam auxílios, ajuda; que buscam bens e serviços para satisfazerem suas necessidades imediatas, quando na verdade são cidadãos demandando direitos sociais. Como se processam as respostas referendadas apenas pela certeza sensível? Se há o recurso institucional, a ajuda é repassada por meio de procedimentos estabelecidos na rotina institucional e realizadas naturalmente pelo assistente social. Quando não há o recurso para o atendimento, o profissional encaminha a pessoa para outra instância ou outra instituição de maneira informal ou formal. Os bens e serviços de que esse profissional dispõe para desenvolver o seu fazer profissional são definidos pela instituição, determinados por esse aqui e esse agora. O profissional depara-se com tais bens e serviços como se eles estivessem dados, pois, como partes constitutivas deste momento, estão dados. A forma como o profissional desenvolve o seu fazer profissional, isto é, como ele procede para repassar a ajuda, pode ocorrer com níveis de exigências 70 diferenciadas em relação ao controle. Tais exigências são determinadas pelo conjunto de rotinas organizacionais exigidas pela instituição com graus de formalização diferenciados e se vinculam aos condicionamentos políticos, econômicos, sociais e jurídico-legais. Portanto, aqui, tais exigências não são instituídas com base no fazer profissional, mas são impostos, determinados ao assistente social. Para repassar o auxílio, o assistente social deve averiguar se a pessoa realmente tem necessidade dele, e, para tal, a instituição estipula os parâmetros de atendimento na forma de critérios, focalizando o que deve ser atendido. Se a pessoa se enquadra no critério, recebe a ajuda. Caso constitua uma exigência institucional a formalização de tal averiguação, o assistente social preenche uma ficha sócio-econômica que já está elaborada e, geralmente, devidamente padronizada ostentando o logotipo da instituição. Essa ficha é preenchida pelo assistente social e, para tanto, ele faz uma entrevista para obter as informações da pessoa32. Ao repassar o auxílio, o assistente social informa as condições estabelecidas pela instituição para a sua utilização. Quando o auxílio solicitado relaciona-se ao acesso a serviços (consulta médica, odontológica, serviços jurídicos, etc.) este procedimento pode fazer-se desnecessário, basta que o assistente social entre em contato, direta ou indiretamente, com os profissionais ou setores da instituição e, nesse caso, o atendimento ocorre até nos corredores da instituição. O cotidiano desse profissional segue essa rotina, na qual, tanto os conteúdos dos instrumentais técnico-operativos quanto a forma dos procedimentos são deliberados e elaborados por profissionais do Serviço Social que atuam no mesmo espaço sócio-ocupacional e desenvolvem o fazer profissional em outra perspectiva, ou por profissionais de outras instâncias da 32 O termo pessoa para identificar aquele que procura os serviços sociais está sendo aqui empregado porque para o assistente social que se guia pela certeza sensível, trata-se de uma pessoa e não de um cidadão, um trabalhador, um cliente ou um usuário. 71 instituição − geralmente o setor de administração e planejamento − ou por órgãos de apoio e empresas de consultoria e assessoria. Note-se que o profissional cumpre uma rotina que implica a execução de procedimentos com a utilização de instrumentos técnico- operativos para a objetivação de seu trabalho. No entanto, ele não considera a intencionalidade que se põe em movimento por meio da objetivação de seu trabalho. Ele considera que o fazer profissional é por ele instituído, é o seu objeto singular. Ele tem um suposto controle desse fazer profissional porque a certeza sensível que guia a sua consciência faz parecer que ele é quem sabe do objeto. Estes profissionais encontram-se inseridos no mercado de trabalho e desenvolvem esse fazer profissional em instituições públicas e privadas que executam políticas sociais, sobretudo da assistência social e da saúde. Vasconcelos (2003), em recente investigação (1997-1998) que realizou acerca do trabalho profissional dos assistentes sociais, na Secretaria Municipal de Saúde da cidade do Rio de Janeiro, identifica que, dentre os profissionais pesquisados 32,4% não adotam referência teórica33 para desenvolver a sua prática profissional. Em sua análise Vasconcelos (2003, p. 344) afirma: Surpreende o percentual de assistentes sociais − 32,4% − que declararam formalmente não assumir autor como referência, bem como não adotar teoria, ou seja, afirmam que realizam um trabalho profissional que não é pensado, previsto, projetado e, conseqüentemente, avaliado. 33 Conforme Vasconcelos (2003, p. 343-344 ), 60,8% dos assistentes sociais indicaram suas referências teórica, dentre esses, “ indicam autores clássicos − 17,6% − e os que expõem seu ecletismo − 4,1%, num total de 21,7%”. 72 O modo do fazer profissional que se guia por ele mesmo não pode ser confundido com o Serviço Social tradicional, como se verificará adiante. Quando o profissional justifica esse modo de fazer, aparecem motivações diferenciadas. O assistencialismo e o imediatismo balizandoo cotidiano profissional destacam-se dentre essas motivações. 1.4.1 A prática profissional assistencialista No fazer profissional assistencialista, o profissional encontra-se convicto que o mais importante é ajudar as pessoas. Esta prática não está esvaziada de valor. O valor que move o assistente social é fazer o bem no sentido cristão, porque ele gosta de ajudar ao próximo e esse deve ser o fundamento necessário da sua prática. O fazer profissional é assim automanifestado: Paternalista e assistencialista, isso é que é necessário. Aquela filosofia da Universidade não adianta neste momento, para depois chegar na filosofia é uma escala. O assistente social é um dos maiores sociólogos, mas em primeiro lugar deve ser a assistência34 (apud VASCONCELOS. 2003, p. 278). Vejo muito o Serviço Social na visão assistencialista, aquela moça boazinha que está ali para fazer tudo pelo Outro (apud VASCONCELOS, 2003, p. 278). 34 Em pesquisa realizada na cidade do Rio de Janeiro, na rede pública de saúde, Vasconcelos (2003, p. 276), em entrevista, indaga aos assistentes sociais acerca do papel do Serviço Social na sociedade brasileira e depara-se com dois posicionamentos: para 69% dos assistentes sociais há perspectivas para o Serviço Social, e 24% dos assistentes sociais não vêem espaço na sociedade brasileira para a profissão. 73 As pessoas nos procuram por carências materiais, as instituições nos cobram produtividade, esperam ações assistencialistas, respostas materiais (apud Barros – Com 001) . Gosto do Serviço Social pela ajuda e é uma oportunidade; é a única profissão que permite ajuda; o assistente social é nato, tem que nascer assistente social. (apud VASCONCELOS, 2003, p. 334). Para ajudar ao próximo, são necessárias e suficientes a vocação e a índole cristã. Dentre os motivos que conduzem à procura pela profissão, destacam-se aqueles relacionados ao desejo de servir ao próximo, da ajuda guiada por valores cristãos. O assistencialismo é caracterizado pelos próprios assistentes sociais como o dar sem reflexão e, no jargão liberal significa dar sem ensinar a pescar. O sufixo ismo é utilizado para designar e qualificar sistemas sociais (feudalismo, capitalismo, comunismo), períodos sócio-históricos (monopolismo, mercantilismo), manifestações de expressões culturais e artística (modernismo, expressionismo, cubismo, primitivismo), correntes de pensamentos e teorias sociais (positivismo, marxismo, pragmatismo) e doutrinas e tendências políticas de toda ordem, até mesmo no interior das profissões. Mas, também, recorrentemente, o mesmo sufixo é utilizado de forma pejorativa, como uma alusão a tudo que excede, que extrapola o bom senso . O ismo de assistencialismo refere-se a qualidade (ou falta de), uma forma de linguagem que qualifica uma prática, um modo de fazer. 74 O assistencialismo é designado como uma ação de caridade, ação filantrópica motivada por valores cristãos35. A ajuda é para fazer o bem ao próximo, é uma passagem para o reino do céu e, nesse sentido, o profissional assume o seu fazer como um apostolado, fundado, segundo Yazbek (2000, p. 22), em uma “abordagem da questão social como problema moral e religioso e numa intervenção que prioriza a formação da família e do indivíduo para a solução dos problemas e atendimento de suas necessidades materiais, morais e sociais”. A concepção que apreende a constituição da profissão como a institucionalização da caridade, da ajuda, encontra-se vinculada ao Serviço Social tradicional e, ainda repercute no meio profissional e na representação que grande parte da sociedade tem acerca da profissão. Da análise histórico- cultural da imbricação entre a assistência social de caráter filantrópico − cuja motivação para a ajuda dá-se por meio de valores cristãos − e o Serviço Social emergiu a tese36 endogenista sustentando que a origem da profissão está “na evolução, organização, profissionalização das anteriores formas ajuda, da caridade e da filantropia, vinculada agora a intervenção na questão social” (MONTAÑO, 1998, p. 10). Segundo Montaño (1998), aparecem como autores37 desta tese: Herman Kruse, Ezequiel Ander-Egg, Natálio Kisnerman, Boris Aléxis Lima, Ana Augusta de Almeida, Balbina Ottoni Vieira, José Lucena Dantas, dentre outros. 35 Em A divina comédia, Dante Alighieri, depois de ter passado pelos círculos do inferno e do purgatório, encontra-se com São Tomás de Aquino no reino dos céus, que lhe ensina as virtudes do bem. 36 A segunda tese, segundo Montaño (1998, p. 20), é aquela formulada pela perspectiva histórico-crítica que “entende o surgimento da profissão do assistente social como um subproduto da sínteses dos projetos político-econômicos que operam no desenvolvimento histórico, onde se reproduz material e ideologicamente a fração da classe hegemônica, quando, no contexto do capitalismo em sua idade monopolista, o Estado toma para si as respostas da questão social”. A análise da imediaticidade na prática profissional do assistente social com base nessa perspectiva será abordada no quarto capítulo. 37 Entre esses autores há diferenças quanto aos fundamentos teórico-metodológicos, aos modelos operacionais, ao significado da prática profissional, aos valores e às direções sócio-políticas que materializam. 75 No estudo que realizou para apreender a interlocução construída pelos assistentes sociais com as tendências teórico-metodológicas do Serviço Social, Torres (2006) detecta a presença dos valores cristãos impulsionando a prática profissional: “porque além dessa visão já do Serviço Social, tem a minha visão espiritual [...] eu acho que a gente tem que dar chance para as pessoas” (fala do sujeito 15, p. 55). A incidência dos valores cristãos sobre o fazer profissional torna-se o eixo norteador da relação que o profissional estabelece com a pessoa, na forma de abordagem do problema (individual e debitado ao comportamento moral da pessoa), nos procedimentos desencadeados para se informar a respeito do problema e as respostas necessárias. A abordagem individual com o objetivo da ajuda e da acolhida aparece, nessas circunstâncias, como uma atividade central. Na atualidade, tal prática, como expressão de um fazer profissional, está sendo colocada em questão. Conforme analisam Iamamoto (Iamamoto; Carvalho, 1982, p. 84), a demanda da atuação profissional “não deriva daqueles que são o alvo de seus serviços profissionais − os trabalhadores − mas do patronato que é quem diretamente o remunera, para atuar, segundo metas estabelecidas por estes, junto aos setores dominados”. Para obter os serviços de que necessita na instituição, o usuário deve passar pelo crivo do assistente social, e essa imposição, segundo Iamamoto (Iamamoto; Carvalho, 1982, p. 84), “marca grande parte da atuação do profissional [e] não aparece limpidamente no discurso da instituição Serviço Social”. Expressa-se, ao contrário, na representação dos profissionais, aflorando o seu dom de servir: A vocação do servir é concebida, nessa perspectiva, como uma escolha, oriunda de um chamado, justificado por 76 motivações de ordens éticas, religiosas ou políticas, a que só podem aderir indivíduos dotados de certas aptidões particulares e dispostos a engajar a totalidade de suas vidas em um projeto que, antes de ser trabalho, é uma missão (IAMAMOTO. In Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 85). Para o profissional que projeta o seu fazer como uma missão, o significado de sua prática profissional é mensurado somente pela relação entre um sujeito singular e um objeto singular, ou seja, ele simplesmente ignora o que de fato o prende a esse fazer − a relação de compra e venda da força de trabalho. Segundo Iamamoto (Iamamoto;Carvalho, 1982, p. 85), aí se estabelece uma das linhas divisórias entre a atividade assistencial voluntária, desencadeada por motivações puramente pessoais e idealistas, e a atividade profissional que se estabelece mediante uma relação contratual que regulamenta as condições de obtenção dos meios de vida necessários à reprodução desse trabalhador especializado. Na atual conjuntura, verifica-se um movimento ambíguo em relação ao modo de fazer profissional assistencialista. Como a assistência social, em decorrência do processo de luta da classe trabalhadora e das forças progressistas da sociedade, alçou ao estatuto de política social, desde a promulgação da Constituição de 1988 (BRASIL, 1988), os serviços sociais passaram a constituírem-se um direito a quem deles necessita e não uma dádiva ou benesse. Ao mesmo tempo, do movimento de minimização do Estado surgiram leis vinculadas ao controle fiscal, dentre as quais, aquelas que 77 regulamentam e estabelecem o controle das instituições filantrópicas desobrigadas de recolherem a contrapartida patronal dos impostos sociais e fiscais. Esse controle impõe às instituições a inserção em redes de atendimento − seja na assistência social, na educação ou na saúde − e define os critérios de atendimento e os mecanismos de prestação de contas. A prática dos profissionais que atuam nessas instituições tende a alterações, tornado-se mais burocratizada e enfeixada pelos objetivos e metas predeterminadas em leis e contratos pontuais com os órgãos governamentais. Por outro lado, como prática política, o assistencialismo aliado ao clientelismo persistem em campo aberto, em decorrência do aprofundamento das desigualdades sociais que propiciam mecanismos de reprodução da pobreza. O assistente social pode participar da reprodução dessa prática como profissional, mas as lideranças populares são os alvos principais no movimento de cooptação pelos líderes políticos e religiosos. Outra expressão do fazer profissional guiado pela certeza sensível é o imediatismo ou a prática imediatista. 1.4.2 A prática profissional imediatista Imediatismo ou imediatista diferencia-se de imediato, de imediaticidade. Imediatismo, no presente estudo, é utilizado para qualificar e acentuar as características de uma prática que fica aquém do imediato ou da imediaticidade, que produz uma consciência que deturpa a dimensão do imediato, da imediaticidade. O imediatismo é a intensificação do imediato, o que extrapola aquilo que é possível no aqui e no agora, é o frenesi da vida cotidiana que não comporta mais o presente como algo que é, em decorrência de um movimento, de um processo e que não se projeta para o futuro, o vir-a- 78 ser. O imediatismo é o tempo no qual ocorre o estilhaçamento do homem inteiro (LUKÁCS, 1967; NETTO, 2000). Na literatura referente ao Serviço Social brasileiro, os termos imediato e imediatista/imediatismo são utilizados como sinônimos. Neste estudo, o imediato refere-se à forma como a consciência, por meio da intuição, apreende o fenômeno como o aparecer na totalidade da coisa-em-si. No imediato, inicia-se o movimento da experiência da consciência para o conhecimento e, ao mesmo tempo, é uma característica da vida cotidiana e se vincula às necessidades inelimináveis do dia-a-dia e a organização das relações de produção e reprodução social, operando, conforme Netto (2000, p. 67), a “relação direta entre pensamento e ação; a conduta específica da cotidianidade é a conduta imediata, sem a qual os automatismos e o espontaneísmo necessários à reprodução do indivíduo enquanto tal seriam inviáveis”. A espontaneidade, como característica da vida cotidiana, responde às múltiplas exigências postas e repostas para a necessária reprodução da vida de cada indivíduo. Nesse sentido, o imediatismo diferencia-se tanto do imediato quanto do espontâneo. A forma de expressão que revela o imediatismo como a saturação do presente por ele mesmo é aquela na qual o assistente social sente que atua sempre como se estivesse apagando fogo, como evidenciam alguns depoimentos: A gente tá meio que atuando como bombeiros, no momento em que tu começa o serviço a demanda vem, parece que descamba; A gente se questiona muito, porque é muita coisa. Então depois tu só fica apagando fogo. Sabe, tu faz de tudo ao mesmo tempo, parece que tu não faz nada. Então a gente até tem uma proposta da gente sentar e começar a 79 organizar (apud SANTOS; LAGUNA; ANDRADE, 1998, p.31); O Serviço Social atua na linha do quebra galho (apud SILVA, et. al., 1980, p. 57). Então, enquanto a gente não consegue estabelecer as questões de prioridade e coisa parecida, a gente está fazendo o que está vindo, para não deixar também a população desamparada ou sem suporte (apud: SILVA; HACKBART, 1998, p. 24). O fazer profissional não está sendo anunciado como uma verdade, mas como a impossibilidade de haver um outro fazer. Coloca-se, nessa relação, a possibilidade de despojar-se da aparência que vincula a consciência a algo estranho. O imediatismo é a emergência de um tempo e de um lugar que aprisionam o indivíduo, no qual sobressaem as demandas que tornam o cotidiano incontrolável. Na prática imediatista, o cotidiano encontra-se saturado de atividades que, aparentemente, não se conectam ao antes e não se desdobram no depois. Esta prática simplesmente é o que a emergência determina e requer a pronta resolutividade dos problemas, das demandas que aparecem, mesmo que signifique passá-las adiante, por meio de encaminhamentos. A abordagem no desenvolvimento dessa prática é sempre individual, requerendo instrumentais técnico-operativos exigidos pela institucão: o preenchimento de uma ficha sócio-econômica que não terá nenhuma utilidade posteriormente; o encaminhamento, formalizado ou não, que não será acompanhado; a solicitação de um serviço ou de um bem material 80 como cadeira de rodas; a inserção em um programa social (leite, renda mínima, bolsa escola). Trata-se de uma prática profissional que se atém às respostas às demandas sociais cotidianas requeridas pelos usuários e pela instituição, destacando-se a forma em detrimento do conteúdo, no qual prevalece o emergencial38. Por sua vez, o emergencial é determinado por parâmetros organizacionais que advêm da lógica do mercado: o que se produz − no caso, o que se atende e a quem? Quais demandas? Quais as necessidades? Dentre elas quais são emergenciais? O quanto se deve produzir − capacidade de atendimento físico e material? Como se produz − quais são os procedimentos, que materiais devem ser utilizados? E, ainda, deve-se determinar a quantidade, o tempo do atendimento, a forma de registro, etc. Em decorrência da determinação imperativa do tempo presente saturado em si-mesmo − o presente presentificado − o cotidiano torna-se, aparentemente, incontrolável, decorrendo uma relação de mal-estar do profissional em relação à profissão. Ele a vê e a sente com profundo desencanto e passa a nega-la. Em sua pesquisa Vasconcelos (2003, p. 335), constata que 21,6% dos assistentes sociais afirmam a insatisfação com a profissão e cita algumas declarações: muita decepção com a diferença entre a teoria e a prática e depois percebi que não era a profissão que queria para mim; devido às intervenções genéricas é que o Serviço Social se perde; as pessoas ficam apostando que tudo é para o 38 Moraes (2004), ao problematizar o trabalho dos assistentes sociais nos hospitais públicos de Maceió, em comunicação no XI CBAS, diz que, com base em sua inserção profissional e de sua participação na referida pesquisa e como membro da comissão de fiscalização do CRESS, observou as particularidade dos diversos campos de atuação em instituições ou órgãos governamentaisvinculados à prestação de serviços assistenciais na área da saúde e chamam a atenção o imediatismo da prática profissional. 81 assistente social resolver, fazendo determinadas pressões; por ex: comunicar falecimento, telefonar, etc. A prática profissional descrita é desencadeada pela demanda apresentada pelo usuário ou pela instituição ao Serviço Social, restringindo-se a esse atendimento. Nas grandes instituições, sobretudo entre aquelas que implementam a política de saúde, as situações emergenciais que exigem o pronto atendimento tendem a intensificar o ritmo de trabalho do assistente social. Como a demanda pelos serviços sócio-assistenciais é maior que a capacidade de atendimento, o profissional vê-se premido pela pressão tanto de usuários quanto da instituição e de sua jornada de trabalho. Nessas condições, o Serviço Social tende a ser encarado pela instituição e pelos profissionais de outras áreas como o ponto de refugo do atendimento, a saída para a busca de soluções de problemas diversos que os outros profissionais não querem ou não têm tempo para atendimentos e encaminhamentos devidos. Por sua vez, os usuários, após percorrerem aos vários setores da instituição para o atendimento de suas necessidades, e, tendo em vista as dificuldades encontradas, dirigem-se ao Serviço Social como o último recurso. Assim, é uma característica da prática imediatista a busca de respostas para as demandas que outros setores/instâncias da instituição refugaram. Essas demandas não estão previstas no fluxo de atendimento estabelecido pelas atribuições, procedimentos e rotinas. Dessa forma, o assistente social pode ser requerido para facilitar o atendimento em outros setores da instituição, estabelecer contatos e proceder a encaminhamentos não-sistemáticos para o acesso a bens sociais na instituição na qual se encontra alocado ou em outros órgãos da rede de atendimento. 82 Essa prática é de extrema importância para a instituição, pois contribui para aliviar as tensões relacionadas à insuficiência e à precariedade do atendimento. Na relação que o profissional estabelece com o usuário, na prática imediatista, a abordagem é sempre individual, podendo abarcar o atendimento/orientação do grupo familiar e a ênfase dá-se com a compreensão de que cada caso é um caso. Como as demandas são sempre individualizadas, subsumem-se os problemas relacionados aos limites da instituição, da própria operacionalização da política social e se encobrem as possibilidades de politização das expressões da questão social. As ocorrências tornam-se problemas de fórum privado de cada indivíduo, e o assistente social é chamado a dar apoio ao usuário, apaziguar e solucionar conflitos, repassar mecanicamente os benefícios de que a instituição dispõe, elaborar declarações e pareceres sociais, agilizar o atendimento e preencher cadastros e formulários para cumprir as determinações burocráticas da instituição. É recorrente no discurso dos profissionais a referência à precariedade dos espaços de atendimento destinados ao Serviço Social nas instituições. Esse limite reforça o atendimento individual informal, e, em decorrência, entre os demais trabalhadores da instituição, os trabalhadores que buscam o Serviço Social e os próprios assistentes sociais constrói-se a imagem de um profissional quebra-galho. Do atendimento informal, voltado meramente ao emergencial, resulta a utilização inadequada dos instrumentais técnico-operativos39 para o conhecimento da realidade sócio-econômica e cultural dos usuários, suas 39 Aparentemente tal afirmativa constitui um paradoxo, pois como profissão, que emerge da divisão social e técnica do trabalho para executar ações terminais no âmbito das políticas sociais, a instrumentalidade apresenta-se como a dimensão mais desenvolvida da profissão, conforme afirma Guerra (1999). A instrumentalidade para Guerra (1999, p. 37) não se reduz ao “acervo técnico-instrumental, tampouco aos conhecimentos técnicos e habilidades específicas dos sujeitos, mas incorporam padrões de racionalidade subjacentes às teorias e métodos pelos quais os agentes apreendem os fenômenos postos na realidade”. 83 condições de vida e as expressões da questão social que os levam a recorrer aos serviços sociais, enfim, para desvelar e problematizar a dinâmica, as demandas, os limites e as possibilidades de atendimento da instituição e do próprio Serviço Social e para subsidiar, fundamentar as propostas e estratégias de ação, isto é, o planejamento das atividades de intervenção profissional. Nessa prática, cada instrumental técnico-operativo tem uma finalidade em si-mesmo. As informações obtidas no cadastramento do usuário por meio da ficha sócio-econômica ou anamnese e entrevistas ficam esquecidas e mais tarde, são encaminhadas para o arquivo morto. O registro das atividades dá-se de acordo às exigências normativas da instituição, seguindo a burocracia institucional mecanicamente. Os assistentes sociais que se organizam em trabalho de plantão comunicam, por meio do registro em livro de ocorrência, as atividades desenvolvidas no período para que um outro profissional possa lhes dar prosseguimento, não havendo a preocupação em acompanhar o processo de atendimento dos trabalhadores que recorreram à instituição. A realidade sócio-econômica-política e cultural dos trabalhadores fica submersa. No atendimento às necessidades sociais da classe trabalhadora, a prática imediatista cessa no repasse dos bens assistenciais pontuais, isto é, somente aqueles explícitos no ato da demanda. O assistente social assume como sua única atribuição o atendimento espontâneo e emergencial. Institucionalmente, não há desdobramentos, e os trabalhadores que necessitam de um acompanhamento ou atendimento sistemático deixam a instituição sem perspectivas de retorno ou de encaminhamento para programas que possam dar continuidade ao atendimento. O profissional, no desenvolvimento cotidiano dessa prática, isola-se, estabelecendo contatos 84 pontuais com outros assistentes sociais e demais profissionais, e com outras instituições. Os nexos que essa prática estabelece com as determinações sócio-históricas e jurídico-legais são tênues, frágeis, pois a sua valoração vincula-se à capacidade de dirimir as tensões sociais. O conteúdo contido nessa prática restringe-se ao que é suficiente para o desencadeamento de prontas respostas prático-utilitárias. Trata-se de uma prática cuja significação aparentemente se encontra nela mesma, em-si. E, quando o assistente social, premido pela urgência das coisas e pelo ritmo acelerado do cotidiano, estilhaça-se, ele questiona a escolha que fez pela profissão e não a coisa em-si. Verifica-se que a forma de objetivação do trabalho dos assistentes sociais esvaziou-se de conteúdo e se afastou das atribuições da profissão, é um não-ser profissional, mas, certamente, é uma outra coisa. Para esses profissionais, prevalece a percepção de que a prática desenvolvida no cotidiano profissional se encontra distante dos conteúdos filosóficos, econômicos, políticos, sociais e culturais abordados no processo de formação ou discutidos em congressos, seminários, debates da categoria pois, não encontram aplicação no dia-a-dia. O conhecimento acionado por esse profissional é de domínio comum, é o senso comum, mas ele sente que é o único instaurador da verdade que anuncia. Sua atitude é dúbia. Descontenta-se com a profissão em decorrência do limite ao imediatismo no qual prendeu o seu fazer profissional e aceita passivamente as atribuições que a instituição e outros profissionais lhe delegam. Esse não é um fenômeno recente no interior da profissão. Em pesquisa relativa a prática profissional nas instituições campos de estágio, realizada em 1980 , Silva, et al.(1980, p. 51) constatam que, em relação à instituição, a atitude do assistente social é passiva e acomodatícia: “Os depoimentos denotam uma concepção de instituição como algo pronto, acabado, 85 monolítico, unilinear, frente à qual nada ou pouco se pode fazer”. Quanto às características da prática que os assistentes sociais desenvolvem, Silva, et al. (1980, p. 57) identificam a ausência de um referencial teórico e de uma proposta metodológica clara, sobressaindo “uma prática administrativa e tarefeira (...), freqüentemente adesista aos objetivos institucionais”. A pesquisa detecta que a abordagem da população efetuada pelos assistentes sociais é “predominantemente individual, em caráter de plantão para atendimento de problemas imediatos” (SILVA et al. 1980, p. 59). Para os autores, da predominância da abordagem individual para o atendimento dos problemas imediatos resulta o imediatismo vinculado não só ao referencial teórico insubsistente, como também à ausência de planejamento de trabalho, ou, até mesmo, de linhas gerais orientadoras. Naquele momento particular da história do Serviço Social brasileiro − o marco inicial do processo de mudança de orientação das diretrizes curriculares na formação profissional − a pesquisa realizada por Silva et al. (1980) com os profissionais40 revela a nebulosidade em relação à teoria. Os fundamentos a que se referem esses profissionais são aqueles orientados pelo currículo do Serviço Social tradicional: meu referencial teórico é estudo, diagnóstico e tratamento; sabe fazemos um pequeno estudo, com impressão diagnóstica; não dá para fazer aquelas coisas direitinhas do Serviço Social − estudo, diagnóstico e tratamento (apud SILVA et. al., 1980, p. 57) 40 Participaram desta pesquisa 36 profissionais , 24 estagiários e 21 professores. 86 Verifica-se, naquele momento, a nebulosidade do referencial teórico vinculado ao Serviço Social tradicional, da qual decorre a necessidade em considerar a denúncia da não-aplicabilidade dos fundamentos teórico-metodológico transmitidos/apreendidos no processo de formação no fazer profissional do assistente social, não como um problema vinculado exclusivamente à formação profissional atual ou um problema contemporâneo da profissão. O imediatismo compreendido como a prática profissional que se restringe ao atendimento emergencial, aparentemente descolada de uma concepção de mundo e a ausência de planejamento no trabalho são, antes de tudo a forma de ser do ser social na esfera da vida cotidiana, no qual, aparentemente, prevalece o caos. Se a prática imediatista, presa no aqui e no agora da experiência cotidiana do profissional, auto-representada e automanifestada como o lugar da verdade, que aparentemente surge da experiência do sujeito singular não é apenas imediatez, mas se relaciona com o universal, seu significado, sua forma e seu conteúdo não podem ser apreendidos em si-mesmos. Em outras palavras, a prática profissional do assistente social na imediatez do cotidiano relaciona- se com o todo, pois se trata de uma prática que mesmo presa no imediato se encontra mediatizada (sujeito-objeto) e nela permanece o universal, o todo universal que constitui o conteúdo da experiência sensível. Iamamoto (2002, p.88) descortinou o caminho que explicita esta relação há mais de duas décadas, De acordo com a autora, para apreender o significado social da prática profissional supõe inseri-la no conjunto das condições e relações sociais que lhe atribuem um sentido histórico e nas quais se torna possível e necessária. O Serviço Social afirma-se como um tipo de especialização do trabalho coletivo, ao se 87 constituir em expressão de necessidades sociais derivadas da prática histórica das classes sociais no ato de produzir e reproduzir seus meios de vida e de trabalho de forma socialmente determinada. O Serviço Social, apreendido em-si mesmo, de forma endógena, não explica o assistencialismo e o imediatismo. Tais facetas, quando presentes no fazer profissional, aparecem sobrepondo-se ao significado real da profissão e enfatizam a forma, em detrimento do conteúdo. O significado e o sentido histórico das práticas sociais que assumem essas características somente podem ser apreendidos no todo, no modo de ser da sociedade. Assistencialismo e imediatismo são formas de manifestações da prática profissional que qualificam um modo de fazer que se encontra preso à certeza sensível, no qual o saber imediato, para um segmento profissional, é simples e exclusivo. Esse modo de fazer é uma propriedade do modo de ser do ser social que se propaga por meio de práticas sociais que não apreendem a negação constitutiva do aqui e do agora, porque se circunscrevem à certeza sensível. As condições econômico-sociais e político-culturais para a propagação dessas práticas tanto são produzidas pelo modo de ser da sociedade capitalista como são necessárias. A consciência alojada na aparência prende o conhecimento no reino da experiência diária, na imediatez dos sentidos, significando que não há o supra-sumir para outro nível de compreensão. Prevalece o sentimento em relação ao mundo e não uma concepção de mundo. No entanto, o imediato do saber decorrente da análise da experiência cotidiana não pode ser descartado, porque é a imediatez que é o ser. Hegel (2001, p. 29) esclarece: 88 Segundo minha concepção − que só deve ser justificado pela apresentação do próprio sistema −, tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro não como substância, mas também, precisamente, como sujeito. Ao mesmo tempo, deve-se observar que a substancialidade inclui em si não só o universal ou a imediatez do saber mesmo, mas também aquela imediatez que é o ser, ou a imediatez para o saber. As antinomias do pensamento de Hegel (2001) e de sua ontologia idealista serão discutidas no terceiro capítulo − o ser e a essência derivados do conceito para o qual o verdadeiro é a substância e o sujeito de forma identidária. Por enquanto, importa destacar que o fim não está na imediatez do ser, na forma imediata como esse ser aparece e, ao mesmo tempo, esse imediato não pode ser abandonado. Para Hegel (2001), essa premissa é válida para o pensamento, porque a atividade reconhecida por ele é a atividade da consciência. Nesse pensamento, a idéia coloca a realidade, e para o autor, essa é uma premissa da atividade prático-social, pressupondo-se o movimento, a dialética. O sistema hegeliano revela a experiência da consciência no caminho que percorre para a ciência, cuja razão de existir, para Hegel (2001, p. 61) está situada “no automovimento do conceito”. Segundo Lukács (1979, p. 76-77) Hegel quer demonstrar como as diversas fases, categorias, etc., do pensamento humano surgem na consciência dos homens, ao mesmo tempo como produtores e instrumentos da dominação ideal e prática da realidade, paralelamente ao desenvolvimento peculiar dessa mesma realidade; como o 89 fracasso parcial ou total da consciência em cada fase conduz à explicitação de um modo cognoscitivo melhor adequando à verdadeira essência da realidade, até que se verifique uma verdadeira apropriação da realidade pelo sujeito. De acordo com Hegel (2001), a consciência dos homens surge e se desenvolve paralelamente ao desenvolvimento do mundo objetivo. A experiência advinda da certeza sensível demonstra que a verdade não está no objeto singular e nem no indivíduo particular, pois, nessa relação, o aqui e o agora imediatos apontados são desalojados do senso comum, negam-se mutuamente na mediação que estabelecem com o universal. A certeza sensível exclui de si toda oposição e, por isso, ela não suporta nenhuma diferença. No entanto, quando se apontam esse aqui e esse agora, eles jádeixaram de ser, não são “um simples imediato, e sim um movimento que contém momentos diversos. Põe-se este, mas é um Outro que é posto, ou seja, o este é suprassumido” (HEGEL, 2001, p. 79). Trata-se de um movimento no qual a verdade resulta de um duplo processo de negação, como se viu anteriormente. Hegel (2001) indica nesse movimento o supra-sumir de uma verdade na outra. Ele diz que, ao indicar o agora como verdadeiro, ele já foi supra-sumido. Ao afirmor, como segunda verdade, o que esse agora foi, ela já está supra-sumida. Porém, diz Hegel (2001, p. 80), o que foi não é, e retorna à primeira afirmação: No entanto, esse primeiro refletido em si mesmo não é exatamente o mesmo que era de início, a saber, um imediato; ao contrário, é propriamente algo em si 90 refletido ou um simples, que permanece no ser-Outro o que ele é: um agora que é absolutamente muitos agoras. Faz-se necessário despender esforços para apreender esse movimento na experiência da consciência sensível que não descarta o imediato mas o supra-sume, negando-o e o conservando ao mesmo tempo. Nas palavras de Hegel (2001, p. 84), suprassumir apresenta sua dupla significação verdadeira que vimos no negativo: é ao mesmo tempo um negar e um conservar. O nada, como nada disto, conserva a imediatez e é, ele próprio sensível; porém é uma imediatez universal. A certeza sensível, ao dar-se conta de que a sua verdade é o universal e que, sem essa mediação, ela não pode captar o aqui e o agora, ela caminha para uma outra dimensão, negando e, ao mesmo tempo, conservando o imediato. Verifica-se na processualidade do pensamento que busca captar a verdade que o imediato é constitutivo e constituinte do movimento dialético. Como o desenvolvimento desse movimento da consciência está interligado ao desenvolvimento do mundo objetivo, o imediato tampouco pode ser descartado da substância, do ser. O modo de aparição imediato do mundo objetivo constitui um elemento da esfera da vida cotidiana. No entanto, é dessa dimensão do imediato que pode ocorrer a supra-sunção para outros níveis de consciência e de práticas sociais. 91 1.5 A percepção e a prática profissional do assistente social A verdade, o conteúdo real da certeza sensível, é o universal. Como o que ela quer captar é o aqui e o agora, cujo conhecimento é revelado naquilo que permanece, algo que é universal, a experiência da consciência, no caminho para conhecer a verdade, remete-se à percepção sensível. Assinala Hegel (2001, p. 83): A certeza sensível não se apossa do verdadeiro, já que a verdade dela é o universal, mas a certeza sensível quer captar o isto. A percepção, ao contrário, toma como universal o que para ela [a certeza sensível] é o essente [o saber do imediato]. Como a universalidade é seu princípio em geral, assim também são universais seus momentos, que nela se distinguem imediatamente: o Eu é um universal, e o objeto é um universal. O princípio da percepção, diferentemente da certeza sensível, é o universal. “Os objetos da percepção são coisas (Dinge), e as coisas não se alteram com as mudanças do Aqui e Agora”, afirma Marcuse (2004, p. 101). O princípio da universalidade emerge da indagação da certeza sensível, resulta da destruição do senso comum, da experiência universal, da simplicidade mediatizada. Por isso, Hegel (2002, p. 83) diz que o apreender da percepção “não é mais um apreender aparente [fenomenal], como o da certeza sensível, mas um apreender necessário”. A essência da percepção é a universalidade tanto do objeto quanto do sujeito. O objeto necessita de exprimir a sua simplicidade mediatizada como a sua natureza e, para tanto, mostra-se como uma coisa de 92 muitas propriedades, apreendidas pela percepção que contém, segundo Hegel (2001, p. 84), “a negação, a diferença ou a múltipla variedade em sua essência”, isto é, a coisa, o objeto, é aprendido segundo as propriedades que contém ao relacionar-se consigo mesma. Quando o aqui e o agora são captados pela percepção, ele já se encontra supra-sumido, é um determinado, tem um conteúdo que é universal. Ao apreender o movimento da experiência da consciência em busca da verdade, Hegel (2001) demarca as aproximações e as diferenças entre a percepção e a certeza sensível41, demonstrando a presença da mediação e da negação no ser que capta e exprime na imediatez da simplicidade do universal as determinidades, as propriedades da coisa que “relacionam-se consigo mesmo, são indiferentes umas às outras: cada uma é para si, livre da outra” (p. 84). Elas interpenetram-se sem se tocarem porque tais determinidades são indiferentes para si, apesar de participarem da universalidade de uma unidade simples, são coisas − “um conjunto simples de muitos” (p. 85). Para explicitar como as determinidades expressam-se na simplicidade do universal, Hegel (2001, p. 85) exemplifica: Este sal é um aqui simples, e ao mesmo tempo múltiplo; é branco e também picante, também é cubiforme, também tem peso determinado etc. Todas essas propriedades múltiplas estão num aqui simples no qual assim se interpenetram: nenhuma tem um aqui diverso do da outra, pois cada uma está sempre onde a outra está. Igualmente, 41 “Pertence à percepção a riqueza do saber sensível, e não à certeza imediata, na qual só estava presente como algo em-jogo-ao-lado”(...). Assim, o isto é posto como não isto, ou como suprassumido; e portanto, não como nada, e sim como um nada determinado, ou um nada de um conteúdo, isto é, um nada disto. Em conseqüência ainda está presente o sensível mesmo, mas não como devia estar na certeza imediata − como um singular visado −, e sim como universal, ou como o que será determinado como propriedade”, declara Hegel (2001, p. 84). 93 sem que estejam separadas por aquis diversos, não se afetam mutuamente por essa interpenetração. As propriedades da coisa − branco, picante, cubiforme − são universais, o meio geral pelo qual o objeto aparece. Trata-se do puro universal que engloba todas essas propriedades que, inicialmente, parecem emergir somente do caráter positivo da universalidade. Mas, essas propriedades do objeto somente são determinadas porque se relacionam e se diferenciam com outras como opostos, excluindo outras propriedades que contradizem o ser do objeto. O sal não é doce e nem vermelho ou preto. As propriedades determinantes do objeto excluem e negam outras propriedades, diferenciando esse objeto dos demais, por isso, ele é Uno, uma unidade excludente. Afirma Hegel (2001, p. 85): O Uno é o momento da negação tal como ele mesmo, de uma maneira simples, se relaciona consigo e exclui o Outro; e mediante isso, a coisidade é determinada como coisa. Na propriedade, a negação está como determinidade, que é imediatamente um só com a imediatez do ser − o qual, por essa unidade com a negação, é a universalidade. A negação, porém, é como Uno, quando se liberta dessa unidade com seu contrário, e é em si e para si mesma. Na percepção, a verdade de início é apreendida por meio do objeto, assim como na certeza sensível. Mas, a experiência da consciência é movimento. Quando a consciência precisa captar o que o objeto realmente é, nos momentos no qual a coisa está completa, como o verdadeiro da percepção, 94 surgem as contradições, as possibilidades de incorreções no perceber do objeto. Hegel (2001, p. 86) explica: A consciência percebente é cônscia da possibilidade da ilusão, pois na universalidade, que é [seu] princípio, o ser- Outro é para ela, imediatamente: mas enquanto nada, [como] suprassumido. Portanto seu critério de verdade é a igualdade consigo-mesmo, e seu procedimento é apreender o que é igual a si mesmo. As contradições desenvolvem valendo-se domovimento da consciência para apreender o objeto que se apresenta como Uno, mas suas propriedades são universais. As propriedades do objeto são universais, mas o primeiro ser da essência objetiva-se como Uno. Surge, nas palavras de Hegel (2001, p. 87), a desigualdade, a inverdade: “Devido à universalidade da propriedade, devo tomar a essência objetiva antes como uma comunidade em geral”. A implicação desse movimento é que a consciência percebe que a verdade não está no objeto, mas na oposição da propriedade determinada em relação ao Outro excluído. Esta oposição é estabelecida pelo sujeito − o que o ser percebe não é um meio universal, mas a propriedade singular em-si. Mas, as contradições novamente vêm à tona, uma vez que “a propriedade singular para si nem é propriedade nem um ser determinado, pois não está nem em um Uno, nem em relação com outras”, afirma Hegel (2001, p. 87). Adentra-se um círculo no qual a consciência é remetida ao ponto inicial, na certeza sensível, e o essencial passa novamente para o objeto. Hegel (2001) diz que esse retorno não ocorre do mesmo modo, uma vez que a consciência se torna cônscia de sua reflexão sobre-si, separando-se da simples apreensão. O autor esclarece: 95 Assim primeiro me dou conta da coisa como Uno e tenho de mantê-la nessa determinação verdadeira; se algo lhe ocorrer de contraditório no movimento do perceber, isso deve ser reconhecido como reflexão minha. Agora surgem na percepção também diversas propriedades − propriedades essas que parecem ser da coisa. Só que a coisa é Uno, e estamos conscientes que recai em nós essa diversidade pela qual a coisa deixa de ser Uno (HEGEL, 2001, p. 88). A diversidade das propriedades contidas na coisa é atribuída pelo sujeito, sobre o qual incidem diversos Outros que são estabelecidos por comparação, por associação. Hegel (2001, p. 88) expõe: “somos assim o meio universal onde esses momentos se separam e são para si”. Para o sujeito, a verdade da coisa é ser Uno, mas ela somente é para si porque se opõe às outras, em decorrência de suas determinidades. No movimento da consciência de apreender a coisa em si e para si, Hegel (2001) demonstra que a coisa, também, é o meio universal no qual as propriedades subsistem, fora uma da outra, sem se tocarem, sem se supra-sumirem. A verdade recai novamente no objeto. Nesse perceber a consciência reflete sobre si mesma e eleva a coisa a matérias independentes. E, nas tentativas de a percepção estabelecer a verdade do objeto, emergem novas contradições, pois o ser é unidade e multiplicidade ao mesmo tempo. Verifica-se, assim, que o princípio da percepção é a universalidade, mas o seu conteúdo verdadeiro é a contradição. A coisa é um ser diverso mas é também Uno. O ser Uno contradiz a sua diversidade. A coisa é constituída por múltipla variedade, e dela não pode separar-se, mas isso não é o essencial, uma vez que ela é em oposição a outras coisas, e em oposição a outras, ela somente é em decorrência de suas 96 determinidades. Hegel (2001) apreende esse duplo aspecto da percepção em seu caminho para determinar o que o objeto realmente é, e como as contradições são inevitáveis. “A coisa é em si mesma unidade e diferença, unidade na diferença”, observa Marcuse (2004, p. 102). Nesse desenho circular no qual se movimenta a consciência42, Hegel (2001) deixa transparecer que a percepção cai em uma armadilha. No entanto, a dialética − este jogo de supra-sunção − retira a percepção da sofistaria no qual ela se coloca em decorrência, segundo Hegel (2001), de sua universalidade originar-se do ser sensível e se encontrar por ele condicionada, estabelecendo a unidade com o seu oposto. Trata-se agora de uma “universalidade afetada de um oposto; a qual se separa, por esse motivo, nos extremos da singularidade e da universalidade, do Uno das propriedades e do também das matérias livres”, afirma Hegel (2001, p. 92). Para a consciência iludida, essas determinidades, “parecem exprimir a essencialidade mesma, mas são apenas um ser-para-si que está onerado de um ser para Outro” (HEGEL, 2001, p. 92). Ao buscar apreender o conteúdo real do objeto, a percepção dá- se conta de que a unidade se constitui da diversidade de relações com seus opostos, desvanecendo a singularidade sensível, pois não se trata somente de um ser para-si. A essência do ser está na relação que ele auto-estabelece com as outras coisas. Essa essência encontra-se presente na unidade absoluta incondicionada, ou unidade na diferença, mas como se demonstrou, a percepção não apreende a relação que o objeto estabelece com outras coisas e, segundo 42 Hegel (2001, p. 94) assinala que esse percurso é “uma alternância perpétua entre o determinar do verdadeiro e o suprassumir desse determinar, constitui a rigor a vida e a labuta, cotidianas e permanentes, da consciência que percebe e acredita mover-se dentro da verdade. Ela procede sem descanso para o resultado do mesmo suprassumir de todas essas essencialidades ou determinações essenciais. Porém, em cada momento singular, só está consciente desta única determinidade como sendo o verdadeiro, logo faz o mesmo com a oposta”. 97 Hegel (2001, p. 92), “a consciência entra de verdade no reino do entendimento”. Nesse movimento da consciência, verifica-se, por meio da percepção, que o ser em-si é em oposição ao ser-outro, mas ela não apreende o conteúdo verdadeiro dessa relação, porque as contradições não se desenvolvem para além da coisa em si. Na história da filosofia, encontram-se presentes pensamentos que decorrem da percepção e a tomam como se fosse a razão. Na percepção, a relação entre sujeito e objeto é marcadamente determinada pelo alcance da experiência intuitiva do sujeito, posto que ele é o meio universal que atribui propriedades à coisa e, em conseqüência, o conhecimento pode ser tomado como decorrente da vivência do sujeito. A experiência da consciência, ao atingir a percepção, apreende o objeto em-si, pela sua simplicidade mediatizada, de suas diferentes propriedades que se relacionam consigo mesmos. Qual a forma e o conteúdo da prática profissional do assistente social guiada pela percepção? Essa análise, faz-se necessário advertir, inicialmente, somente é possível porque a prática profissional é tomada em sua singularidade, em si-mesma, de forma endógena. Ainda que o seu princípio seja o universal, a consciência mantida na percepção busca um repouso na apreensão das diferentes propriedades da coisa em-si, apreende a negação com base nas propriedades que guardam a autonomia entre si, não se relaciona com as outras coisas. Ela está retida na aparência, mas contém a negação, a diferença e a múltipla variedade em sua essência, e o que dali emerge para a consciência é considerado verdadeiro. Porém, o seu critério de verdade é a igualdade consigo mesmo. A consciência, além de perceber, é cônscia de sua reflexão sobre-si, e este é o passo adiante construído em relação à certeza sensível. Como se verificou na análise do processo histórico de constituição da profissão, o seu foco é a intervenção. Em sua emergência, a 98 formação profissional objetivava dotar o fazer profissional de princípios doutrinários, o alicerce dos valores éticos e morais adequados e necessários à convivência social no âmbito da sociedade capitalista. Cada situação com a qual o profissional se deparava era captada pela sua simplicidade mediatizada, em sua imediatez. O fazer profissional pressupunha a identificação de problemas sociais e morais vivenciados por um indivíduo e o seu núcleo familiar, sempre apreendido como Uno. O profissional possui o conhecimento para discernir as problemáticas vividas pelo indivíduo e sua família, isto é, identificar as carências. Tal identificação, ou o diagnóstico, dá-semediante a negação da situação considerada adequada: carência alimentar em negação à alimentação satisfatória, falta de moradia em contraposição à moradia, etc. Essa negação remete à universalidade, ao mesmo tempo em que é Uno. Entretanto, todo o cuidado é necessário para que o agente profissional não apareça simplesmente como um fantoche manipulado por um ser invisível que estabelece o adequado, ou que não apareça como instituidor da verdade, aquele que manipula. Segundo Netto (2001, p. 89), a afirmação e o estatuto profissional ocorrem por meio de um duplo dinamismo: de uma parte aquele que é deflagrado pelas demandas que lhe são socialmente colocadas; de outra, aquele que é viabilizado pelas suas reservas próprias de forças (teóricas e prático-sociais), aptas ou não para responder às requisições extrínsecas − e este é, enfim, o campo em que incide o seu sistema de saber. O obscurecimento desse duplo dinamismo conduziu à percepção da auto-imagem da profissão construída pela distinção entre o estatuto teórico e 99 o prático-profissional, afirma Netto (2001). O eixo de demandas histórico- sociais que se apresentavam como universo problemático original para o Serviço Social foram as seqüelas da questão social. Ao tornar-se objeto de intervenção contínua e sistemática do Estado, tendo em vista o novo reordenamento econômico e político para assegurar a expansão e a acumulação do capital monopolista, a questão social foi fragmentada, e suas expressões tomadas como problemáticas particulares. Netto (2001) analisa os nexos causais entre essa dinâmica no processo de constituição do monopólio e das transformações que ela implicou no papel e na funcionalidade do Estado burguês e o desenvolvimento do Serviço Social como profissão, seu núcleo organizativo e sua norma de atuação. As seqüelas da questão social foram recortadas e apreendidas como problemáticas particulares pelo pensamento e pela ideologia burguesa, aparecendo como problemas sociais e as respostas a elas também foram fragmentadas. Com essa conversão, os problemas sociais transfiguram-se em problemas pessoais. A dinâmica e a lógica operada remete à relação entre o publico e o privado, e se conecta, segundo Netto (2001), ao giro43 que a organização monopólica da sociedade burguesa conferiu ao enfrentamento das refrações da questão social e deriva da contínua, sistemática e estratégica intervenção estatal sobre elas. Neste contexto, a refuncionalização do Estado não abandona o individualismo da tradição liberal. A estratégia de implementação de políticas sociais públicas na fase dos monopólios para o enfrentamento das seqüelas da questão social, visando criar condições sociais para o desenvolvimento do indivíduo, não retira a sua responsabilidade sobre o seu destino. Ao contrário, 43 Conforme Netto (2001, p. 34-35), no movimento que determinou este giro, “confluíram quer as exigências econômico-sociais próprias da idade do monopólio, quer o pratagonismo político-social das camadas trabalhadoras, especialmente o processo de lutas e de auto-organização da classe operária; mas intercorreu também, com significativa ponderação, o novo dinamismo político e cultural que passou a permear a sociedade burguesa com as crescentes diferenciações no interior da estrutura de classes”. 100 o princípio da oportunidade dada a todos, cabendo a cada um o aproveitamento das possibilidades que podem ser acessadas, tanto se acentua e se legitima na organização monopólica, pelo viés da psicologização da vida social, como estabelece um relacionamento personalizado entre o indivíduo e as instituições. Conforme Netto (2001, p. 42), tais estratégias não solucionam as refrações da questão social que afetam o indivíduo, mas são suficientemente lábeis para entrelaçar, nos serviços que oferecem e executam, desde a indução comportamental até os conteúdos econômico-sociais mais salientes da ordem monopólica − num exercício que se constitui em verdadeira pedagogia psicossocial, voltada para sincronizar as impulsões individuais e os papéis sociais propiciados aos protagonistas. O exercício profissional do assistente social, movendo-se de acordo com essa lógica, sem o suporte de um referencial teórico-crítico- dialético, fragmenta-se, parcializa-se, prende-se às expressões fenomênicas do ser social e uma de suas formas de manifestação é aquela cuja consciência atém-se à percepção. Quando o movimento da consciência freia-se nessa dimensão, o assistente social vincula o seu fazer profissional sempre a um objeto em-si. Ele detecta a problemática com a qual trabalha como Uno. Tal problemática é apresentada por um indivíduo que a vivencia, e, como a suas reservas próprias de força (teóricas e prático-sociais) não se encontram aptas para responder às requisições extrínsecas, a sua consciência interrompe o seu curso e passa a manipular a problemática sempre com o mesmo conteúdo. A satisfação buscada pela consciência encontra repouso quando atinge o já 101 conhecido, ou o aceitável, considerado socialmente necessário pelo pensamento e ideologia hegemônica que norteiam esse fazer. E essa é a questão. Para o assistente social, cuja prática se guia pela percepção, o seu fazer profissional ou aparece como algo estabelecido de fora, ou aparece como resultado de sua experiência e capacidade de manipular as informações transmitidas pelo indivíduo que recorre ao Serviço Social. Na primeira situação, ele se sente manipulado, mas a sua consciência encontra um ponto de repouso que justifica o seu fazer. Na segunda, ele manipula, por meio de sua experiência, a situação e, ao sentir-se como o instituidor da verdade, porque ele é um meio universal, procura remeter o indivíduo que busca o Serviço Social para o mesmo jogo de satisfação, e o usuário é levado a reconhecer a sua problemática e, por meio de suas forças, revertê-la com o reconhecimento das oportunidades que estão dadas. O problema social sempre é apreendido em sua simplicidade mediatizada, como uma coisa de muitas propriedades e se relaciona consigo mesmo. Trata-se da singularidade que contém a universalidade de uma unidade simples. No Serviço Social tradicional, a utilização do método de caso explicita como uma determinada situação vivenciada por um indivíduo é problematizada pelo assistente social. O indivíduo torna-se o problema, pois nele se encontram evidenciadas as múltiplas propriedades que caracterizam a carência: o desemprego, a analfabetismo, a doença, a ignorância, a fraqueza, etc. O indivíduo vivencia os problemas sociais, mas eles, não são tomados em sua totalidade. Apesar de um mesmo indivíduo viver as diversas problemáticas sociais ou carências , uma não afeta a outra, elas não se entrecruzam. O tratamento dado aos problemas sociais vivenciados pelo indivíduo segue esta premissa, e, em decorrência, o encaminhamento torna-se a principal estratégia de ação, o procedimento mais utilizado. 102 A realidade vivida pelo indivíduo é problematizada segundo a sua personalidade. Richmond (apud SILVA, 2004, p. 84) assinala: Sociabilidade e individualidade, constituem os dois aspectos de uma realidade, que é a personalidade − um valor final − única coisa no mundo, que vale a pena ter por si mesma. Naturalmente, não queremos dizer que qualquer personalidade seja boa em si, mas sim que afora a personalidade, nada é bom em si mesmo. A sociedade é melhor ordenada, quando melhor desenvolve a personalidade de seus membros”. Silva (2004) afirma que o campo específico do serviço social de caso é o desenvolvimento da personalidade, o que a leva a indagar se haveria um rompimento entre a proposição de Mary Richmond e a ciência positiva. Estaria Richmond aproximando-se do terceiro caminho44 da filosofia44 Para Lukács (1979), o terceiro caminho é a filosofia do imperialismo, que se afasta cada vez mais dos problemas econômicos, sociais e políticos da sociedade capitalista. Esta vertente teórica do pensamento da burguesia estabelece a crítica à idéia do progresso com base na cultura e na moral individual, ocorrendo uma luta contra o formalismo na teoria do conhecimento. A intuição torna-se o instrumento novo de conhecimento ( Lukács, 1972). Nesse período, que tem como marco a ascensão do fascismo, a filosofia burguesa, revestida de uma pretensa pseudo-objetividade, propõe salvar a integridade do ser humano preconizando “a existência voltada para si mesma, isolada de toda vida pública e cujo equilíbrio repousa precisamente num pessimismo total a respeito do mundo exterior” ( LUKÁCS, 1972, p. 44). A pseudo- objetividade da teoria do conhecimento reconhece a existência independente da consciência e nega a inteligibilidade da realidade objetiva. Para a ideologia do terceiro caminho nem o capitalismo e nem o socialismo correspondiam às aspirações da humanidade. Segundo Lukács (1972), a missão social da filosofia imperialista consistia em impedir a possibilidade de uma saída socialista para a profunda crise econômica, política e social da sociedade capitalista naquele período, o método fenomenológico ganhou evidência no pensamento burguês com influência sobre o existencialismo, no qual a intuição é a fonte de todo conhecimento verdadeiro, “capaz de apreender a essência da realidade objetiva, sem no entanto ultrapassar a consciência humana, mesmo a individual” (LUKÁCS, 1972, p. 70). A intuição que deriva do saber imediato é tomada como o novo instrumento que conduz ao conhecimento. Lukács (1972) indaga se esse método é capaz de apreender a realidade objetiva? Ele não é em si mesmo subjetivo e arbitrário por sua natureza? Em resposta a essas indagações, Lukács (1972, p. 70) afirma que a “aplicação rigorosa desse método mostra-nos que o conhecimento da realidade é simplesmente inaccessível à fenomenologia”. Na fenomenologia, a introspecção intuitiva tem como ponto de partida os dados imediatos da experiência vivida e considera as condições sociais como dados secundários que quase não afetam a “essência da realidade humana”, determinada pela consciência individual. A realidade objetiva que existe fora da consciência é colocada entre parênteses. 103 imperialista, no qual a intuição, derivada da percepção sensível, tornou-se a fonte de todo o conhecimento? As evidências dos princípios e procedimentos que conformam o método de caso conduzem a uma resposta afirmativa. Conforme Silva (2004), a preocupação de Mary Richmond, em 1922, além da organização do estudo de caso, voltava-se para a preocupação com a classe de fenômenos que são apreendidos no interior de seu processo e ela os agrupou em dois títulos: insights e ações. Os insights esclarecem, segundo Silva (2004, p. 91), “de maneira singular a relação entre a qualidade do objeto específico − relações sociais do indivíduo e sua readaptação − e sua estrutura como conhecimento científico ou objeto da ciência”. A ações subdividem-se em operações diretas (mente a mente) e indireta (meio social), Conforme Silva (2004, p. 91-92), as ações diretas compreendem diferentes aspectos de tratamento, indo desde a prestação de serviços, às vezes muitos humildes, acompanhando os clientes em situações de vida difíceis, mantendo uma franqueza mútua de relações, a palavra dada, a paciência nascida da compreensão, até a política do apoio, advertências e estabelecimento de uma disciplina real, flexibilidade e perseverança . As ações indiretas referem-se à utilização dos recursos do meio que o assistente social acessa, pessoas e instituições, para atender aos objetivos propostos. A análise de Silva (2004) sintetiza o método e o qualifica como um método rigoroso de compreensão, no qual se conhece agindo e age conhecendo. 104 Pode-se afirmar que os insigths derivam da intuição que se aloja na percepção. Uma das correntes filosóficas que apreende a realidade por meio da intuição é a fenomenologia de Edmund Husserl45(1859-1838). O Serviço Social brasileiro aproximou-se dessa corrente de pensamento em meados da década de 1970, e o seu marco de expressão de suas proposições são os documentos sínteses do Seminário de Sumaré e de Alto da Boa Vista, realizados respectivamente nos anos de 1978 e 1984, e organizados pelo Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviço Social (CBCISS). Netto (1996) identifica essa tendência no interior do Serviço Social brasileiro como reatualização do conservadorismo. Os assistentes sociais vinculados a essa tendência estabelecem a critica a herança positivista e marxista e concebem o Serviço Social como uma intervenção que se inscreve rigorosamente nas fronteiras da ajuda psicossocial. A intervenção centraliza- se nas dinâmicas individuais, as determinações de classe nos processos sociais são dissolvidas e ela se sustenta em uma tríade conceitual: diálogo, pessoa e transformação. Resume-se a uma interação ativamente compartilhada por dois atores, o profissional e o cliente que se debruçam sobre uma situação qualquer (os problemas percebidos pelo cliente) para, tomando como pondo arquimédicos os sujeitos em presença e mobilizando conhecimentos de várias ordens, ampliar e inovar a visão da situação e identificar e escolher uma forma de posicionar-se (NETTO, 1996, p. 244). 45 “Segundo Husserl, os objetos se definem precisamente como correlatos dos estados mentais , não havendo distinção possível entre aquilo que é percebido e nossa percepção. A experiência inclui, entretanto, não só a percepção sensorial, mas todo o objeto do pensamento”, afirmam Japiassú e Marcondes, 2006, p. 137). 105 O assistente social é um sujeito que percebe, um sujeito no mundo, que, por meio da percepção, busca deixar transparecer a situação existência problematizada. As ações profissionais são desencadeadas para solucionar problemas suscitados pelo indivíduo cliente, segundo os seus traços típicos, isto é, como ele vivencia determinada situação − como uma enfermidade (Aids, neoplasia maligna) ou um fenômeno em si-mesmo (internação hospitalar, luto, etc). O assistente social, por meio do diálogo, estimula a participação do indivíduo cliente para transformar a situação problematizada. O instrumento de ação privilegiado é o diálogo, o instrumental técnico utilizado é a entrevista, e o registro do diálogo estabelecido. O registro detalha as reações do indivíduo cliente em relação à situação existência problematizada (aspereza, indignação, violência física, resignação, ect) a cada encontro com o profissional, isto é, registra-se como o indivíduo com a situação existencial problematizada se comporta e transforma a sua personalidade. À medida que o diálogo se desenvolve, o assistente social desencadeia as ações necessárias para a resolução de problemáticas vinculadas ao meio social que afeta o indivíduo em sua situação existencial problematizada, como por exemplo, uma entrevista com o médico para elucidar as fases do tratamento, o apoio financeiro e material quando necessário (transporte, alimentação dos acompanhantes de paciente, aquisição de medicamentos), a orientação familiar, alterações no horário de visitação nas instituições, autorização para a permanência contínua de acompanhante, etc... O assistente social, por meio de sua prática profissional, é convidado a retornar às coisas mesmas, ao mundo anterior à reflexão e as ações emergem do diálogo estabelecido com o indivíduo a fim de deixar transparecer a situação existencial problematizada. Dentre as comunicações orais apresentadas no XI CBAS (2004), aquelas que apreendem o fazer 106 profissional conforme a problemática existencialdo indivíduo, as discussões são remetidas para a questão da subjetividade dos sujeitos sociais (o indivíduo atendido nas instituições), como a humanização dos serviços prestados pelas instituições à população, os instrumentais técnicos ou as novas tecnologias procedimentais que aperfeiçoam as condições para o diálogo entre o assistente social e o indivíduo cliente e a acolhida46. Nas abordagens que privilegiam e valorizam unicamente a melhoria das relações pessoais e interpessoais por meio de técnicas psicosociais, o problema tende a tornar-se procedimental, pois os antagonismos de ordem estrutural ficam obscurecidos. A percepção não apreende a relação que o objeto estabelece com as outras coisas. Quando a consciência busca aprender a relação entre as coisas em-si, ela entra no reino do entendimento, ou na intelecção, ou na razão formal-abstrata. 46 Características da prática profissional identificas nas comunicações orais apresentadas por Debastiani e Lopes (2004); Lima (2004), Terra (2004) e Valente (2004). 107 CAPÍTULO II - O REINO DO ENTENDIMENTO E A PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL Ora, um dos traços específicos do ser social é precisamente o fato de que a consciência não é simplesmente consciência de algo que, no plano ontológico, resta inteiramente indiferente ao fato de ser conhecido; ao contrário, a presença ou a ausência de consciência, sua justeza ou falsidade, são partes integrante do próprio ser, ou seja, a consciência não é aqui − em sentido ontológico − um mero epifenômeno, mesmo deixando de lado o fato de seu papel concreto em cada caso singular ser relevante ou irrelevante (LUKÁCS, 1979, p. 73-74). A década de 1960 é marcada pela crise do Serviço Social “tradicional” no continente latino-americano e, nesse contexto histórico e sócio-político-geográfico, inicia-se processo de renovação do Serviço Social brasileiro. Na base desse processo, encontrava-se a crítica aos fundamentos teórico-metodológicos e ideológicos que alicerçavam o Serviço Social tradicional e as condições de vida objetivas e subjetivas da classe trabalhadora no continente latino-americano, sua organização política e lutas reivindicatórias. Apesar de todas as dificuldades advindas de um longo período marcado pela ditadura militar, instaurado com o golpe de abril de 1964, segmentos do Serviço Social brasileiro, nas décadas seguintes, buscaram a superação do assistencialismo, do filantropismo e do endogenismo com ao quais desenvolvia sua prática. Ainda que tais concepções e características possam ser encontradas no modus de operar do Serviço Social no atual contexto, obviamente a presença de um posicionamento crítico pôs o debate em outro 108 patamar e balizou o significado das mudanças ocorridas na forma de conceber a profissão e o seu processo de objetivação. Ao reconstituir o processo histórico das relações entre a autocracia burguesa e o Serviço Social, Netto (1996) identifica as direções intrínsecas ao processo de renovação: a perspectiva modernizadora, a reatualização do conservadorismo e a intenção de ruptura. Tais direções são expressões das racionalidades que orientaram o processo de renovação do Serviço Social brasileiro e retratam o embate permanente em torno de posicionamentos teórico-metododológico e ético-políticos no interior da profissão, que se vinculam aos projetos societários em confronto na modernidade. Harvey (1993, p. 23) compreende a modernidade como um projeto que entrou em foco no século XVII e traduz o esforço intelectual dos pensadores iluministas “para desenvolver a ciência objetiva, a moralidade, as leis universais e a arte autônoma nos termos da própria lógica interna delas”. O projeto da modernidade prometia a liberdade da escassez, da necessidade e da arbitrariedade das calamidades naturais por meio do domínio científico, isto é, da razão. A razão moderna, forjada no processo de ruptura do modo de produção feudal para a sociedade do capital, ergueu-se após um longo processo que, para Coutinho (1972), pode ser discernido em duas etapas. A primeira vai dos pensadores renascentistas a Hegel e a segunda compreende o período de 1830 à 1848, caracterizada por uma profunda decadência, na qual as conquistas anteriores são abandonadas. Na primeira etapa desse processo, “a burguesia representava objetivamente os interesses da totalidade do povo, no combate a reação absolutista feudal” (COUTINHO, 1972, p. 8), e a realidade era considerada um todo racional, abrindo a possibilidade de a razão humana conhecer e dominar a 109 realidade. A primeira etapa culminou com a elaboração da racionalidade humanista e dialética, cujas categoriais essenciais, sintetizadas por Hegel, são o humanismo, o historicismo e a razão dialética, como aponta Coutinho (1972, p. 14-15): O humanismo, a teoria de que o homem é o produto de sua própria atividade, de sua história coletiva; o historicismo concreto, ou seja, a afirmação do caráter ontologicamente histórico da realidade, com a conseqüente defesa do progresso e do melhoramento da espécie humana; e finalmente a razão dialética, em seu duplo aspecto, isto é, o de uma racionalidade objetiva imanente ao desenvolvimento da realidade (que se apresenta sob a forma de unidade dos contrários), e aquele das categorias capazes de apreender subjetivamente essa racionalidade objetiva e que englobam, superando, as provenientes do “saber imediato” (intuição) e do “entendimento” (intelecto analítico). A razão começou a ser renegada e/ou limitada pela burguesia47, como instrumento do conhecimento e da práxis, a partir do momento que essa classe social ascendeu ao poder sócio-econômico, político e cultural, e o modo de produção capitalista revelou os seus antagonismos. Na segunda etapa do processo de constituição da razão, a burguesia rompeu com a tradição progressista sintetizada por Hegel, substituindo o humanismo por um individualismo exacerbado. Segundo Coutinho (1972, p. 17), o individualismo 47 Ao tornar-se uma classe conservadora, interessada na perpetuação e na justificação teórica do existente, a burguesia estreitou cada vez mais a margem para uma apreensão objetiva e global da realidade, a razão é encarada como um ceticismo cada vez maior, renegada como instrumento de conhecimento ou limitada a esferas progressivamente menores ou menos significativas da realidade (COUTINHO, 1972, p. 8). 110 nega a sociabilidade do homem, ou a afirmação de que o homem é a “coisa”, ambas as posições levando a uma negação do momento (relativamente) criador da práxis; em lugar o historicismo, surge uma pseudo-historicidade subjetivista e abstrata ou uma apologia da positividade, que transformam a história real (o processo de surgimento do novo) em algo “superficial” ou irracional; em lugar da razão dialética, que afirma a cognoscibilidade da essência contraditória do real, vemos o nascimento de um irracionalismo fundado na intuição arbitrária, ou um profundo agnosticismo decorrente da limitação da racionalidade às suas formas puramente intelectivas. Ocorreu, no segundo período, uma crescente ideologização das categoriais essenciais que fundam a ética e a ontologia. A burguesia rompeu com a tradição progressista quando o caráter essencialmente contraditório da realidade social revelou os antagonismos de um modo de produção que, em sua base, se sustenta na socialização do trabalho e na apropriação individual dos seus produtos. No plano da teoria do conhecimento, essa tendência tornou-se agnóstica, afirmando que nada se pode saber sobre a essência verdadeira do mundo e da realidade. No plano ontológico, o pensamento da burguesia48 renunciou à possibilidadede apreender o modo de ser da sociedade em sua totalidade, e, ainda, à razão dialética precisamente como uma racionalidade objetiva imanente ao desenvolvimento da realidade. A expressão do pensamento burguês que se tornou hegemônica é o positivismo, que nega o 48 O pensamento da burguesia encarrega-se de construir diferentes matrizes teóricas para justificar a ordem do capital conforme as constantes turbulências postas e repostas no modo de produção capitalista, constituído por uma seqüência de períodos de prosperidade e de crise. As diferentes orientações do pensamento da burguesia, racionalista e irracionalista, possuem em comum o “limite do pensamento imediatista às formas fenomênicas assumidas pelo ser social do capitalismo” (COUTINHO, 1972, p. 48). Esse limite circunscreve-se ao saber imediato que advém da intuição e ao conhecimento formal-abstrato ou razão analítica proveniente do entendimento, da intelecção. 111 caráter contraditório da realidade social e limita a racionalidade às suas formas intelectivas. O movimento da consciência, restrito à dimensão do entendimento, interrompeu o seu percurso no momento em que a coisa em-si foi apreendida como conceito e leis gerais que sintetizam as diversas propriedades de unidades independentes. O pensamento ainda não descortinara, no movimento do real, a essência que se esconde por trás da aparência. A síntese das categorias reflexivas elaboradas por Hegel49 (2001) representa e denota o cume, o ponto mais elevado atingido pela razão e guarda congruência com o período de ascensão político-econômica da classe burguesa em seu combate contra o antigo regime. Quando ascendeu como classe hegemônica, o pensamento vinculado à classe burguesa passou a limitar a razão à dimensão do entendimento. Na sociedade capitalista, o pensamento hegemônico encontra-se condicionado para apreender a realidade por meio da intelecção, restringindo- se à captura do fenômeno em-si. No entanto, o pensamento da burguesia encarrega-se, também, de construir diferentes matrizes teóricas para justificar a ordem do capital e suas constantes turbulências. Os períodos de estabilidade ou de crise determinam à ascendência de diferentes orientações do pensamento da burguesia, dentre elas o próprio irracionalismo. As diferentes orientações do pensamento da burguesia limitam-se “às formas fenomênicas assumidas pelo ser social do capitalismo”, assinala Coutinho (1972, p. 48). A compreensão do movimento da consciência na estação do entendimento permite capturar a forma e o conteúdo intrínseco à prática 49 As antinomias contidas no pensamento hegeliano serão resumidamente explicitadas no próximo capítulo da presente tese. No momento é preciso sinalizar que, em parte, tais antinomias decorrem do posicionamento político de Hegel em defesa do regime absolutista de Guilherme III. Hegel (2001) formula o seu pensamento com base nos grandes acontecimentos que abalavam o mundo ao seu redor – a revolução industrial e a revolução francesa fundamentalmente − mas busca a conciliação com a sociedade do antigo regime. 112 profissional retida nessa dimensão, circunscrita à razão formal-abstrata. Todo o esforço a ser desprendido na elaboração do presente capítulo tem em vista, de um lado, compreender o movimento dialético da consciência na dimensão do entendimento, evidenciando minimamente, no campo da construção da razão, a interlocução entre o pensamento hegeliano e o pensamento kantiano, de outro lado, destacar os principais estudos na literatura do Serviço Social brasileiro que apreendem criticamente a forma e o conteúdo da prática profissional pautada pela intelecção, além de descrever e analisar como essa prática profissional se reproduz. 2.1 A força do entendimento A consciência apreende a realidade dialeticamente, em um movimento no qual o saber é, inicialmente, imediato e não pode ser abandonado e nem deixado de lado para se chegar ao saber verdadeiro, a essência. No pensamento hegeliano, o saber imediato, inicialmente, tem a sua sustentação na certeza sensível: o sujeito possui a verdade do objeto e instaura a verdade do objeto. Em seu percurso, pela incorporação de novas experiências − sempre no sentido hegeliano −, a consciência dissolve a certeza proveniente do saber imediato. Neste momento, a verdade sai do sujeito e transfere-se para o objeto cujo movimento da consciência apreendido por meio da percepção depara-se com a diversidade das propriedades contidas na coisa, o ser Uno. Quando a consciência percebe que as propriedades da coisa são universais e se determinam em relação a outra coisa excluída, toma conhecimento de sua reflexão sobre si mesma, mas não se reconhece no objeto refletido. Há um retorno à percepção que, ao se elevar, constitui no movimento da força o primeiro momento do entendimento. O movimento da consciência de supra-sunção de um estágio a outro é conduzido pelas 113 determinações reflexivas essência-fenômeno-aparência que, segundo Lukács50 (1979, p. 76), constituem a “mais importante descoberta metodológica de Hegel” e nelas reside o centro de sua dialética, “tanto da dialética da dinâmica e estrutura da própria realidade independente da consciência, quando da dialética de seus diversos reflexos na consciência subjetiva”. Ao analisar a ontologia idealista, Lukács (1979, p. 76) realiza a crítica ao pensamento hegeliano e suas antinomias indissolúveis que transformam a substância em sujeito e retiram do esterco das contradições contidas nesse pensamento o seu aspecto metodológico fundamental: “mostrar como as diversas fases, categorias, etc., do pensamento humano surgem na consciência dos homens, ao mesmo tempo como produtos e instrumentos da dominação ideal e prática da realidade, paralelamente ao desenvolvimento peculiar dessa mesma realidade”. Hegel (2001) inicia a Fenomenologia do espírito expondo o movimento dialético que a consciência exercita para captar a verdade, a essência em seu desenvolvimento imanente, passando de um nível a outro, ou de uma estação a outra. O primeiro capítulo intitula-se Consciência, subdividindo-se em três seções: A certeza sensível ou O Isto ou o Visar; A percepção ou: a coisa e a ilusão e, Força e entendimento: fenômeno e mundo supra-sensível. O filósofo basea-se na imagem do mundo, nas palavras de Lukács (1979, p. 77), “ao nível da percepção sensível e investiga a maneira pela qual − em função da inter-relação entre a realidade e as tentativas subjetivas de dominá-la − a percepção sensível se eleva ao intelecto”. Quando a consciência, pelo desenvolvimento das contradições, apreende o objeto como Uno, mas percebe que suas propriedades são 50 O presente estudo recorreu ao capitulo III – A falsa e a verdadeira ontologia de Hegel, e ao capítulo IV – Os princípios ontológicos fundamentais de Marx, que compõem a “ Ontologia do ser social” de Georg Lukács (1979ª, 1979b), constitutivos da primeira versão dessa produção do filósofo húngaro, conhecida como a grande Ontologia. Posteriormente Lukács lançou a obra Prolegômenos à ontologia do ser social, que, segundo Lessa (2002, p.19) destinavam-se a “desenvolver uma teoria geral das categorias e dos nexos categoriais explorados na obra anterior”. 114 universais, dá-se conta que surge dessa constatação a inverdade e se conduz, suprassumindo a universalidade incondicionada, para o entendimento. O princípio da percepção é a universalidade, mas o seu real conteúdo é a contradição, chegando a pensamentos que se reúnem no universal incondicionado, que passa a ser o objeto verdadeiro da consciência, mas ainda não apreendido como conceito. Hegel (2001, p. 95) estabelece a distinção entre o objeto verdadeiroda percepção, o universal incondicionado e a apreensão do conceito como conceito: para a consciência, o objeto retornou a si mesmo a partir da relação para com um outro, e com isso tornou em-si conceito. Porém a consciência não é ainda, para si mesma, o conceito; e por causa disso não se reconhece naquele objeto refletido. Para nós, esse objeto, mediante o movimento da consciência, passou por um vir-a-ser em que a consciência está de tal modo implicada que a reflexão é a mesma dos dois lados, ou seja, é uma reflexão só. Hegel (2001) também alerta que a consciência nesse movimento tem por conteúdo apenas a essência objetiva, e não a consciência como tal e o resultado para ela deve ter uma significação objetiva e retirar-se do resultado como algo objetivo. O entendimento suprassume-se com a sua própria inverdade e com a inverdade do objeto, resultando o conceito do verdadeiro: como o verdadeiro contudo é em-si essente, está privado do ser para si da consciência. Hegel (2001, p. 96) afirma: 115 É um verdadeiro que o entendimento, sem saber que está ali dentro, deixa mover-se à vontade. Esse verdadeiro dá um impulso à sua essência por si mesma, de modo que a consciência não tem participação alguma em sua livre realização; mas ao contrário, simplesmente o contempla e puramente o apreende. Encontra-se em curso na experiência da consciência a sua elevação, que implica o suprassumir para diferenciar a consciência essente, vinculada ao sensível, da consciência concebente. Essa elevação conecta-se dialeticamente com o movimento anterior, não há abandono, há superação. Para a percepção, o conteúdo tido como verdadeiro vincula-se à forma e se dissolve em sua unidade. Trata-se de um conteúdo universal, determinado de ser para si e de relacionar-se com outro, cuja verdade é ser universal incondicionado. Mas, ao mesmo tempo, é um conteúdo que reflete o uno em si. “A diferença entre a forma e o conteúdo emerge no universal incondicionado, por ser ele objeto para a consciência”, declara Hegel (2001, p. 96). Em relação à figura do conteúdo, os momentos têm o aspecto de ser um meio universal de muitas matérias subsistentes, e o uno em si, refletido, no qual a sua independência se aniquila, afirma Hegel (2001). O primeiro momento é a dissolução da independência da coisa, e o segundo é o ser-para-si. A essência desses momentos é a universalidade incondicionada. Como esses momentos não podem ficar separados um do outro, mas são lados que neles mesmos suprassumem, transitam de um lado para o outro. Esse universal “é exatamente a multiplicidade desses diferentes universais”, assinala Hegel (2001, p. 97). E, ainda, como cada uma dessas matérias está onde a outra está, interpenetram-se sem se tocarem, são apresentadas como independentes, e ocorre a redução da diversidade contida na matéria como puro ser para si. Nas 116 palavras do autor: “as diferenças postas como independentes, passam imediatamente à sua unidade e sua unidade imediatamente ao seu desdobramento; e esse novamente, de volta à redução” (HEGEL, 2001, p. 97). Esse é o movimento que se chama força. Em um de seus momentos, a força recalcada em-si-mesma tem de exteriorizar-se, e, nesse processo, ela é força em-si-mesma essente e exteriorização nesse ser-em-si-mesmo. Quando nós mantemos os dois momentos em sua unidade imediata, então o entendimento − ao qual o conceito de força pertence − é o conceito propriamente dito, que sustém os momentos distintos como distintos, pois na força mesma não devem ser distintos; a diferença, portanto, está no pensamento (HEGEL, 2001, p. 97). Em outras palavras, a força é o movimento da consciência que pertence ao entendimento e capta o conceito da coisa tanto em sua multiplicidade, contida no universal incondicionado, quanto em sua determinação de ser para si. O conceito da força contém todos os elementos que até então a análise filosófica descobriu serem características do objeto real do conhecimento, mas até esse momento, segundo Marcuse (2004), foi estabelecido apenas o conceito de força e não a sua realidade. A força, afirma Hegel (2001, p. 98), “é o universal incondicionado que é para si-mesmo o que é para um Outro; ou que tem nele a diferença, pois essa não é outra coisa que o ser-para-um-Outro”. No jogo no qual a força é para si-mesmo o que é para um outro e é para um outro o que é para si-mesmo sobressaem justamente as diferenças e, nesse sentido, ela é substância das coisas. Nas palavras de Hegel (2001, p. 98), 117 para que a força seja em sua verdade, deve ser deixada totalmente livre no pensamento e posta como substância dessas diferenças; vale dizer: primeiro, ela, como esta força total, que permanece essencialmente em si e para si; depois, suas diferenças, como momentos substanciais, ou como momentos para si subsistentes. A força é em si Uno, recalcada em si, e, nesta condição o desdobramento das matérias é uma outra essência subsistente, diferente e independente. A força é, também, o todo, pois permanece tal como é segundo o seu conceito, como indica Hegel (2001). Como todo, as diferenças vinculam-se as formas e são superficiais momentos evanescentes. A força existe nesses modos contrários, e Hegel (2001) distingue-os em dois momentos que se fazem independentes para novamente se suprassumirem. O movimento da percepção é aquele no qual o percebente e o percebido são ao mesmo tempo, de uma parte, um só e indistinto, como o apreender do verdadeiro, mas igualmente de outra parte, cada lado reflete sobre si, ou é para si. Esses dois lados são momentos da força, “formam também uma unidade, unidade essa que se manifesta como meio termo em relação a extremos para si essentes, e se divide sempre de novo justamente nesses extremos, que são somente isso” (HEGEL, 2001, p. 98). Na força, esse movimento tem a forma objetiva e produz como resultado o universal incondicionado como interior das coisas. Ela é um dos lados do seu conceito, mas foi estabelecida como a determinidade do Uno. O subsistir das matérias desdobradas fica excluído dessa força, e é um outro distinto dela. Hegel (2001) afirma que se deve abandonar o modo de ver em que a força é estabelecida como Uno, e sua essência, como algo que, de fora, a 118 aborda para que se exteriorize. A força, diz Hegel (2001, p. 99), “é antes, ela mesma, esse meio universal do subsistir dos momentos como matérias. Dito de outro modo: a força [já] se exteriorizou: o que devia ser o outro Solicitante é, antes , ela mesma”. A força então existe como meio das matérias desdobradas. Ela é esse ser refletido-em-si, ou esse ser suprassumido de exteriorização. Aquilo que surge como Outro e solicita à força tanto à exteriorização quanto o retorno a si mesma, é ele mesmo força, como imediatamente resulta. O Outro mostra-se tanto como meio universal, como Uno e, ao mesmo tempo, só aparece em cada uma dessas figuras como momento evanescente. Enquanto permanece como momento evanescente, a força ainda não saiu em geral do seu conceito, pois um Outro é para ela, e, ela para um Outro. Ao mesmo tempo, afirma Hegel (2001), duas forças estão presentes, e embora ambas tenham o mesmo conceito, passaram de sua unidade à dualidade. A oposição parece ter escapado ao domínio da unidade por meio do desdobramento em forças totalmente independentes. Hegel (2001) examina essa situação de independência e explicita as trocas de posições, recíprocas de determinações entre as duas forças, no qual uma transmuda-se na outra, e ora é solicitante, ora é solicitada. Hegel (2001) quer demonstrar, no jogo permeado pela troca imediata das determinações entre as duas forças que parecem independentes na forma de suas apresentações, que uma só tem determinidade mediante a outra, “só é solicitante enquanto pela outra é solicitadaa tornar-se solicitante e perde também imediatamente essa determinidade que lhe foi dada, pois passa para a outra; ou melhor, já passou para lá” (p. 100). Há, portanto, o mesmo conceito, mas como duas forças encontram-se presentes, ele passa da unidade para a dualidade, no qual a solicitante se torna solicitada e a solicitada, solicitante. Ao cabo desse movimento, as diferenças já não mais se prendem somente à forma, mas se 119 mostram com dupla diferença: de conteúdo e de forma. Em relação às diferenças de conteúdo, um dos extremos é a força refletida sobre si mesma, e o outro, o meio das matérias − são diferentes em geral. Como diferença de forma, uma é ativa − solicitante e, a outra, passiva − solicitada, separam-se uma da outra e são opostas. O objeto cinde-se em conteúdo e forma, que são mutuamente indiferentes, mas não são independentes. Aquilo que vem-a-ser para a consciência, nesse movimento da força, desaparece na passagem imediata de cada lado para o seu oposto, no qual as diferenças de conteúdo e de forma desvanecem-se51. Mas a efetividade do conceito de força resulta desta duplicação em duas forças, que, segundo Hegel (2001, p. 101), existem como “essências para si essentes; mas sua existência é um movimento tal, de uma em relação a outra, que seu ser é antes um puro Ser-oposto mediante um outro, isto é: seu ser tem, antes, a pura significação do desvanecer”. Diante dessa existência, que somente o é na relação que estabelece com o seu oposto e imediatamente desvanece-se Hegel (2001, p. 101) afirma que as “forças não têm, pois nenhuma substância própria que as sustenha e conserve”. A efetividade da força está em sua exteriorização e, como tal, ela é o suprassumir-se-a-si-mesma dos momentos que se desvanecem. Hegel (2001, p. 101-102) afirma: a verdade da força permanece, pois, só como pensamento da mesma, e os momentos dessa efetividade, suas substâncias e seu movimento desmoronam sem parar numa unidade indiferenciada − que não é a força recalcada 51 Em relação ao desvanecimento das diferenças de forma e conteúdo, Hegel (2001, p. 101) diz: do “lado da forma, segundo a essência, o ativo, o solicitante, ou o para-si-essente eram o mesmo que se apresentava como força recalcada em si, do lado do conteúdo. E o passivo, o solicitado, ou o essente para um outro, do lado da forma, é o mesmo que se apresentava como meio universal de múltiplas −matérias− do lado do conteúdo” . 120 sobre si (pois ela mesma é só um momento desses) senão que essa unidade é seu conceito, como conceito. Esse conceito é o primeiro universal do entendimento, no qual a força não é ainda para si. O segundo universal é a sua essência tal como se apresenta em si e para si, “o interior das coisas como interior − idêntico ao conceito como conceito”, afirma Hegel (2001, p. 102). Aquilo que o entendimento conhece imediatamente como sua essência é a força52, que se realiza no jogo no qual ela se apresenta recalcada em si mesma de um lado, e exteriorizada, de outro. O jogo de vir-a-ser e desaparecer nada mais é do que a aparência, e se chama fenômeno. Nas palavras de Hegel (2001, p. 102), o meio termo que encerra juntos os dois extremos − o entendimento e o interior − é o ser da força desenvolvido, que doravante é para o entendimento mesmo, um evanescente. Por isso se chama fenômeno; pois a aparência é o nome dado ao ser que imediatamente é em si mesmo um não ser. Porém, não é apenas um aparecer, mas sim fenômeno, uma totalidade do aparecer. Essa totalidade como totalidade ou universal é o que constitui o interior: o jogo de forças como sua reflexão sobre si mesmo. A aparência, para Hegel (2001), possui duplo sentido. Primeiro, a aparência é o nome dado ao ser que imediatamente é um não ser, segundo, não é apenas um aparecer, mas uma totalidade do aparecer. No primeiro sentido, 52 Segundo Hegel (2001, p. 102), a “realização da força é assim, ao mesmo tempo, a perda da realidade. A força se tornou, pois, algo totalmente distinto, a saber, essa universalidade que o entendimento conhece primeiro ou imediatamente como sua essência; e que também se mostra como sua essência em sua realidade que-deve-ser, nas substâncias efetivas”. 121 significa que uma coisa existe de tal maneira que sua existência é diferente de sua essência e, no segundo sentido, significa que aquilo que se revela não é mera aparência, mas é a expressão de uma essência que só existe como aparência, afirma Marcuse (2004). Conforme Hegel (2001), em seu caminho para o conhecimento da essência, a consciência sobre o mundo sensível, nessa estação, adentra o supra-sensível. O mundo sensível é o mundo da aparência e, por detrás dele descerra-se a primeira, e portanto inacabada, manifestação da razão. No entanto, como a consciência ainda não conhece a natureza do conceito, o interior é um puro Além, “é vazio por ser apenas o nada do fenômeno, e positivamente [ser] o Universal simples” (HEGEL, 2001, p. 103). Refutando a tese da incognoscibilidade do interior, Hegel (2001) afirma que não pode haver nenhum conhecimento desse interior tal como ele é imediatamente pela simples natureza da coisa mesma, pois este interior é determinado como o além da consciência. Esse vazio é preenchido com o Além supra-sensível que surgiu e, se não é o fenômeno, provém de sua mediação, é o fenômeno como fenômeno, é a essência do fenômeno. O supra-sensível não é o mundo do sensível posto que “o fenômeno não é de fato o mundo do saber sensível e do perceber como essente, mas esse mundo como suprassumido ou posto em verdade como interior”, assinala Hegel (2001, p. 104). O jogo das forças mostra a diferença entre solicitante e solicitada, entre a força recalcada sobre si mesma e a exteriorizada que se suprassumiam imediatamente. As mudanças de um extremo ao outro encontram-se fora do interior e penetram o supra-sensível, que, para o entendimento vem a ser a lei do interior. Dessa lei, na qual a diferença permanece constantemente igual a si mesma, surge uma segunda lei, que exprime a diferença. O primeiro supra-sensível, o reino tranqüilo das leis − a 122 cópia imediata do mundo percebido − transmuda-se em seu contrário. O segundo supra-sensível é o mundo invertido. No caminho percorrido pela experiência da consciência, Hegel (2001) demonstra que o universal é mais do que o particular e que as potencialidades dos homens e das coisas não se limitam às formas e relações dadas em que os fatos aparecem. Por meio desse movimento dialético, Hegel (2001) quer provar que, além da aparência das coisas, se encontra a própria a essência, a autoconsciência do homem. A primeira e, portanto, inacabada manifestação da essência é a aparência da essência, o fenômeno que se revela por meio da força, a substância das coisas. Nesse momento, a consciência encontra sua “verdade” sob a forma de objeto, opondo-se ao sujeito. Ao adentrar o interior das coisas, por meio do movimento da força, a consciência apreende o conceito, domina as leis − que determinam a forma do mundo da percepção − e caminha para além do reino móvel e evanescente da aparência, o reino do supra-sensível. O propósito de Hegel (2001) é colaborar para que a filosofia se aproxime da ciência, a fim de que o saber seja saber efetivo. O seu pressuposto é que a necessidade exterior é idêntica à necessidade interior − desde que concebida de modo universal e prescindindo da contingência da pessoa e das motivações individuais. Essa perspectiva filosófica é construída por Hegel (2001), particularmente, com base em sua interlocução com os filósofos da escola clássica alemã, dentre eles, com o pensamento de Kant (1724-1808). Segundo Lima Vaz (2001, p. 12) Hegel, com a Fenomenologia do espírito,quer responder à seguinte pergunta: “o que significa para a consciência experimentar-se a si mesma através de sucessivas formas de saber que são assumidas e julgadas por essa forma suprema que chamamos ciência ou filosofia?”. 123 A preocupação central do pensamento filosófico de Kant e de Hegel vincula-se à construção da Razão, buscando determinar o seu alcance e os seus limites53. No pensamento kantiano, o alcance da razão encontra-se em sua capacidade de examinar os elementos que a constituem e os vínculos entre eles existentes. Para fundamentar esse pressuposto, a filosofia kantiana reconhece e valoriza o preceito básico do empirismo − segundo o qual, todo conhecimento deriva da experiência e dela depende − e do racionalismo − para o qual todo o sentido depende da razão. Com base nessas premissas, o pensamento kantiano propõe fundar um modo de pensar a filosofia como ciência e cujo instrumento é a crítica54. A questão filosófica objeto de preocupação do pensamento kantiano é o conhecimento da metafísica, que não havia atingido o mesmo nível da matemática e da física como ciência, na passagem do século XVII para o século XVIII. Para Kant (1983, p. 11), a razão só compreende o que ela mesma produz segundo seu projeto, que ela teria que ir à frente com princípios dos seus juízos segundo leis constantes e obrigar a natureza a responder às suas perguntas, mas sem se deixar conduzir por ela como se estivesse presa a um laço (...). O alcance da razão em Kant (1983) encontra-se em sua capacidade de produzir os seus próprios princípios que expressam o conhecimento das leis da natureza e o saber científico que determina o 53 Conforme Lukács (1979, p. 9) verifica-se na filosofia clássica alemã “um movimento que leva a negação teórica da ontologia em Kant a uma ontologia universalmente explicitada em Hegel”. Entre a negação teórica da ontologia kantiana e a ontologia hegeliana, há a delimitação de um mundo formado pela revolução francesa. 54 Para estabelecer o alcance e os limites da razão, Immanuel Kant (1724-1808) elabora, entre as suas principais obras, três críticas: Crítica da razão pura, Crítica da razão prática e a Crítica do juízo, em um período, no qual a revolução no pensamento constituía o epicentro do iluminismo, que “propunha criticar todas as tutelas que inibem o uso da razão e julgava possível fazê-lo a partir da própria razão. Ela tinha dois vetores: a crítica e a razão”, assinala Rouanet (1987, p. 31). 124 pensamento segundo leis constantes. Aquilo que a razão produz, segundo os seus próprios planos, de um lado, advém da experiência e, de outro, é anterior à experiência. Essa proposição responde a indagação sobre o que é o objeto de conhecimento da metafísica, se é possível conhecer objetos que não se restringem à experiência. Segundo Keinert (2007), não há dúvida de que, para Kant, todo conhecimento começa pela experiência, mas há também conhecimentos que não derivam da experiência, que se conectam com a universalidade e a necessidade da ciência moderna. O conhecimento que independe da experiência é qualificado por Kant (1983) como o conhecimento a priori, e o conhecimento dela derivado é o conhecimento a posteriori. Os conceitos que fundamentam o conhecimento a priori têm origem na razão pura, a faculdade teórica da razão. A razão é, para Kant (1983), o fundamento da experiência e a condição do conhecimento, que provém de duas fontes: a intuição e o entendimento. A primeira, a intuição, tem a função de receber as representações sensíveis necessárias para o conhecer e trabalha com duas formas a priori, o espaço e o tempo, condições necessárias para que o sujeito racional seja afetado pelos objetos percebidos pelos sentidos. Esses objetos são denominados fenômenos. A segunda fonte, o entendimento, tem a função de produzir representações por meio do pensamento, de produzir conceitos para se conhecer os objetos. O entendimento aciona as regras lógicas a priori ligando-se com o conteúdo informado pela intuição. Segundo Kant (1983, p. 74), “o entendimento nada pode intuir e os sentidos nada podem pensar”. As possibilidades do conhecimento encontram-se condicionadas pelos próprios princípios que determinam os juízos da razão. Os princípios reunidos são denominados por Kant (1983) categorias do entendimento e apresentam a condição de possibilidade da experiência possível. A preocupação de Kant (2002) volta-se, então, à crítica do “uso teórico da 125 razão [que] ocupava-se com objetos da simples faculdade de conhecer” (p. 25), e ao uso prático da razão que “ocupa-se com fundamentos determinantes da vontade, a qual é uma faculdade ou de produzir objetos correspondentes às representações , ou de então determinar a si própria para a efetuação dos mesmos” (p. 25). Para Kant (2002), a razão, nesse sentido, pode servir para a determinação da vontade. Como a vontade refere-se ao querer, a razão possui sempre realidade objetiva. Verifica-se no pensamento kantiano a distinção entre a razão teórica e a razão prática. Kant (2002) define as proposições fundamentais da razão prática como proposições “que contêm uma determinação universal da vontade, [determinação] que tem sob si diversas regras práticas”. Ao mesmo tempo em que define as proposições fundamentais da razão prática, o filosofo alemão as qualifica em subjetivas ou máximas e objetivas ou leis práticas. Elas são subjetivas ou máximas se forem consideradas pelo sujeito válidas somente para a sua vontade e são objetivas ou leis práticas se forem válidas para a vontade de todo o ente racional. Portanto, preocupado em delimitar as possibilidades e os limites da razão, Kant (2002) qualifica-as em razão pura e razão prática. Essa qualificação hierarquiza e classifica as dimensões da razão pura (teórica) em conhecimento a priori e conhecimento a posteriori, e separa o fenômeno − cognoscível por meio da experiência − da coisa em-si, incognoscível. Neste sentido, Kant (2002) elabora a crítica à metafísica mas não supera o seu caráter transcendental. Por meio das categorias reflexivas da intuição e do entendimento, o filósofo alemão elabora um sistema gnosiológico sustentando que a razão é a condição de possibilidade da experiência, de um lado, e de outro, que a coisa em-si − a essência − encontra-se fora do alcance da razão, na “jurisdição do supra-sensível”. Aquilo que se pode conhecer por meio da razão é o mundo dos fenômenos. 126 Para melhor compreender o pensamento de Hegel e de Kant faz- se necessário contextualizar minimamente o solo sócio-histórico no qual emergem. No advento do século das luzes, a defesa da ciência e da racionalidade crítica não se restringiu a sofistaria, e tanto o pensamento kantiano quanto o pensamento hegeliano, como todo idealismo alemão55, buscavam esclarecer e produzir as leis e os conceitos gerais que pudessem constituir os padrões universais da racionalidade fundada na autonomia do indivíduo56. Trata-se, para Kant (2002), de uma autonomia orientada por uma lei universal dada ao homem pela razão e chamada de lei moral. Essa lei universal constitui o princípio formal da vontade e se conforma por meio de regras práticas que são produtos da razão. Mas, se Kant (2002, p. 34) afirma que a regra prática é sempre produto da razão, existem, para este filósofo, entes que não são portadores da razão total . Kant (2002, p. 34) diz: para um ente, cuja razão não é total e exclusivamente o fundamento determinante da vontade, essa regra constitui um imperativo, isto é, uma regra que é caracterizada por um dever-ser, o qual expressa a necessitação objetiva da ação e significa que, se a razão determinasse totalmente a vontade, a ação ocorreria inevitavelmente segundo essa regra.55 O idealismo alemão, no cenário filosófico do século XVIII, contrapôs-se ao empirismo inglês, uma das correntes formadora da filosofia moderna, que buscava explicar o conhecimento com base na experiência e demonstrar que nenhum conceito ou lei da razão poderia aspirar a universalidade, pois a unidade da razão era apenas uma unidade conferida pelo hábito e pelo costume que aderiam aos fatos, sem jamais os governar. Destacam-se dentre os filósofos empiristas clássicos, Francis Bacon (1561-1626), Thomas Hobbes (1588- 1679), John Locke (1632- 1704), George Berkely (1685- 1753) e David Hume (1711-1776). 56 De acordo com Marcuse (2004, p. 30), “Kant pretende provar que o espírito humano é dono das formas universais que servem para organizar a multiplicidade de dados a ele fornecidos pelos sentidos. As formas da ‘intuição’ (espaço e tempo), e as formas do ‘entendimento’ (categorias) são os universais mediante os quais o espírito ordena, na continuidade da experiência, a multiplicidade sensível. (...) Tais formas são universalmente válidas e aplicáveis, pois constituem a própria estrutura do espírito humano. O mundo de objetos, como uma ordem universal e necessária, é produzido pelo sujeito − não pelo indivíduo, mas por aqueles atos de intuição e conhecimento que são comuns a todos os indivíduos, já que constituem as condições mesmas da experiência” (grifos do autor). 127 Kant (2002) afirma que os imperativos são hipotéticos quando contêm simples preceitos de habilidade e são categóricos quando se vinculam ao dever determinado pela razão. A condição de imperativo categórico encontra-se dado pela razão e pressupõe um sujeito reflexivo, ao passo que o imperativo hipotético depende de um objeto. Segundo Lukács (1979a), uma das controvérsias entre o pensamento filosófico kantiano e hegeliano relaciona-se à concepção do ser precisamente-assim, o presente, e o dever-ser, o futuro. A realidade, para Kant, é transcendente e a relação ontológica do homem com a realidade, surge com o dever-ser moral, assinala Lukács (1979a). O dever-ser é um imperativo categórico, incondicional e abstrato, e a sua realização significa a elevação acima do mundo dos fenômenos − a coisa em-si. Para Hegel, afirma Lukács (1979a, p. 18), “a inteira moralidade é tão somente uma parte, que se traduz na autêntica eticidade da práxis humana; e o dever ser tem um significado real apenas enquanto expressa a defasagem entre a vontade humana e o que é em si”. Para Kant, segundo Lukács (1979a), a coisa em si encontra-se apartada do mundo dos fenômenos; o mundo dos objetos da experiência sensorial possível é distinto da coisa em-si, que se encontra além do alcance das experiências, logo, incognoscível. O modo processual como o sujeito se apropria da realidade no sistema hegeliano diferencia-se do apriorismo categórico do pensamento kantiano. Faz-se necessário, contudo, sinalizar os aspectos que aproximam os dois pesadores da escola clássica da filosofia alemã idealista: ambos são legatários do movimento iluminista; ambos foram profundamente influenciados pelos levantes sócio-políticos da Revolução Francesa e ambos são referências para o desenvolvimento do pensamento da burguesia e a sustentação de princípios valorativos sócio-políticos e ideológicos da então emergente sociedade capitalista. O movimento iluminista caracterizou-se 128 pela defesa da ciência e da racionalidade crítica em contraposição ao dogma religioso. Esse movimento não se circunscreveu somente ao âmbito filosófico mas, também, artístico, político e literário, e construiu, absorveu e defendeu princípios que conformam uma concepção de mundo fincada nos direitos e nas liberdades individuais, próprios da sociedade burguesa, contra o autoritarismo do antigo regime. Verifica-se que, ao longo do processo de construção da razão, a dimensão gnosiológica sobrepôs-se a dimensão ontológica, isto é, a preocupação em relação à origem, a natureza, o valor e os limites da faculdade de conhecer ganhou relevância e preferência entre os pensadores da razão moderna vinculados a ordem hegemônica em detrimento do estudo da questão mais geral do ser como ser, do modo de ser do ser social. Ao ascender ao poder como classe hegemônica, a burguesia perdeu o seu lugar no progresso social e passa a uma atitude defensiva em relação ao proletariado, assinala Lukács57 (1972). O período de 1848 até o início do século XX caracterizou-se como a “era dos compromissos asfixiantes”, quando as unidades nacionais já estavam realizadas, e o liberalismo tornou-se o liberalismo nacional de caráter conservador. Nesse período, no qual a capacidade de desenvolvimento ascendente do capitalismo parecia ilimitada, surgiram as ciências especializadas, e a filosofia da burguesia passou a ser a guardiã dos interesses históricos da burguesia para conter, no plano do conhecimento, as forças de reação (LUKÁCS, 1972). 57 Lukács (1979a) reconstitui, sumariamente, o quadro histórico caracterizando os principais períodos de evolução do pensamento burguês. O primeiro período é o da filosofia burguesa clássica, é aquele que vai do Renascimento até 1848. Este período refletiu a expressão mais elevada da concepção de mundo da burguesia, que se colocava como classe emergente revolucionária. Nesse período, a filosofia que tinha por objeto as questões últimas da existência e do conhecimento, a concepção do próprio mundo, sob as suas formas abstratas concebeu a ideologia sob o signo do conhecimento, e sua ideologia é a ideologia da ciência. A filosofia clássica, no ímpeto de conhecer a razão da existência, de apreender a concepção do próprio mundo refletiu os grandes problemas das ciências naturais e sociais, revolucionando-as. Como a realidade era tomada em sua totalidade, havia a independência entre os pensadores e os interesses da burguesia ascendente. A filosofia, como o seu caráter de universalidade, deparava-se com a possibilidade da crítica e, por isso, as abstrações tornavam-se cada vez mais elevadas até o marco da revolução burguesa. 129 A teoria do conhecimento vinculada aos interesses da burguesia renunciou a possibilidade de apreender a essência da realidade e ascendeu ao agnosticismo, que se preocupa somente com conhecimentos indispensáveis do ponto de vista da vida prática, conforme os valores necessários à reprodução da sociedade capitalista, negando a essência. Refletindo e acompanhando as necessidades imanentes às relações de produção da sociedade capitalista fincada na divisão social e técnica do trabalho, a ciência fragmentou-se em especializações, e dentre elas, a sociologia, fundada à luz do pensamento positivo de August Comte58. Portanto, com base na emergência da razão moderna e, concomitantemente, a ascensão da sociedade capitalista, predominou a perspectiva gnosiológica, segundo a qual o homem somente pode conhecer aquilo que deriva das experiências sensoriais, como postula o pensamento kantiano. Os pensadores do movimento iluminista afirmavam que todos os fenômenos poderiam ser explicados por meio da razão. No entanto, quando o real, em sua processualidade contraditória, explicitou quão mais rico e complexo era em face ao pensamento e, sobretudo, quando a classe burguesa tornou-se hegemônica e submetia a ciência aos seus interesses, instrumentalizando-a e ideologizando-a dava-se vazão ao agnosticismo e ao ceticismo. Repousa nessas orientações a percepção de que a prática deve desenvolver-se na perspectiva do resultado e não do processo, uma vez que o conhecimento da realidade, em sua essência, é inacessível. Na sociedade capitalista, o resultado é valorado pela utilidade, pelo retorno do capital valorizado ou agregado de valor. Para garantir a reprodução da ordem do capital, é necessária a difusão de seus princípios e de58 Comte é considerado um dos criadores da sociologia e, segundo Japiassú e Marcondes (2006, p. 49) procurava conciliar em sua proposta política de reforma social elementos da política conservadora, como a defesa da ordem, e da corrente liberal ou progressista, como a necessidade de progresso. Daí o famoso lema do positivismo comtiano, o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim. 130 seus valores, e é preciso que no modo de ser das relações de produção e reprodução social capitalista tais valores estejam devidamente homogenizados, determinando e direcionando todas as esferas da sociedade, é necessária a hegemonia de uma racionalidade própria desse modo de ser da sociedade, a racionalidade instrumental. O movimento da consciência no pensamento burguês atém-se ao entendimento que conhece e apreende a aparência, o fenômeno. Como se verificou anteriormente, quando a consciência suprassume a dimensão da percepção e atinge o entendimento, as propriedades do objeto são apreendidas em sua universalidade incondicionada, elas não se tocam, e se relacionam com outros objetos somente para reafirmar a sua própria forma e o seu próprio conteúdo. Essa forma e esse conteúdo, no estágio do entendimento, são organizados por meio de leis gerais e por regras práticas. Tais características conformam os fundamentos metodológicos da racionalidade formal-abstrata, defendida e propagada pelo pensamento burguês em suas diversas correntes, como o positivismo, o pragmatismo, o empirismo lógico, o estruturalismo e o próprio irracionalismo. Advém dessa condição de racionalidade hegemônica, portadora de princípios e valores homogeneizados no âmbito das relações de produção e reprodução da sociedade burguesa, a generalização de comportamentos, hábitos, costumes que conduzem ao automatismo, ao espontaneísmo e à mecanização das ações desencadeadas na esfera do cotidiano que absorvem o homem inteiro. A relação entre a racionalidade burguesa e o Serviço Social constitui objeto de análise de importantes estudos na literatura relativos à profissão, dentre os quais se destacam as produções de Iamamoto (1982; 1998; 2002) e Netto (1996; 2001), Mota (1998; 2000), Guerra (1999), Barroco (2005), entre outros. A seguir, buscar-se-á apreender, com base nesses 131 estudos, as determinações, as mediações e as contradições que permeiam essa relação a fim de caracterizar descritivamente o conteúdo e as formas da prática profissional balizada pelo entendimento. 2.2 A força do entendimento, o pensamento burguês e o Serviço Social A literatura recente do Serviço Social brasileiro expressa a crescente preocupação de um segmento da categoria59 em busca da elucidação das tramas que conectam o modo de ser da sociedade capitalista, sua racionalidade hegemônica e a profissão, o seu significado, a sua funcionalidade e as suas atribuições nos diferentes espaços sócio-ocupacionais. Dentre as produções de conhecimento que analisam essa relação destacam-se aquelas que contribuem para a compreensão crítica da prática profissional orientada pela racionalidade formal-abstrata. A obra de Iamomoto (1998; 2002; 2007) analisa a profissão inserida no processo de reprodução das relações sociais, desvelando o significado do Serviço Social e das práticas desenvolvidas em seu âmbito, por agentes especialmente qualificados: os assistentes sociais. O Serviço Social é apreendido como profissão inscrita na divisão social do trabalho, situando-se “no processo de reprodução das relações sociais, fundamentalmente como uma atividade auxiliar e subsidiária no exercício do controle social e na difusão da ideologia da classe dominante junto à classe trabalhadora”. (IAMAMOTO, In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 15). 59 Refere-se ao segmento da categoria que se vincula aos cursos de pós-graduação e da produção do conhecimento na área do Serviço Social. Conforme sinaliza Netto (1999, p. 102), o Serviço Social. Como profissão, “não dispõe de uma teoria própria, nem é uma ciência; isto não impede, entretanto, que seus profissionais realizem pesquisas, investigações etc. e produzam conhecimentos de natureza teórica, inseridos no âmbito das ciências sociais e humanas. Assim, enquanto profissão, o Serviço Social pode se constituir, e tem se constituído nos últimos anos, como uma área de produção de conhecimentos (inclusive com o aval de agências oficiais de fomento à investigação, como é o caso do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPQ)”. 132 A profissão, engendrada no processo de reprodução das relações sociais no contexto de aprofundamento do capitalismo monopolista na sociedade brasileira, defronta-se com o processo de reprodução das contradições criadas e expressas na totalidade das manifestações da vida social na esfera do cotidiano. No confronto com as contradições econômicas, sociais, políticas e culturais entre as classes sociais, o Serviço Social, afirma Iamamoto (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 94, 95), participa também do processo social, reproduzindo e reforçando as contradições básicas que conformam a sociedade do capital, ao mesmo tempo e pelas mesmas atividades em que é mobilizada para reforçar as condições de dominação, como dois pólos inseparáveis de uma mesma unidade . Com a chave heurística histórico e crítico-dialética Iamamoto (1998; 2002; 2007), no início da década de 1980, descortina as determinações, a legalidade da realidade sócio-econômico e político-cultural que incidem na prática profissional do assistente social na sociedade capitalista. As determinações sócio-históricas que permeiam as relações de produção na sociedade capitalista alicerçam e configuram os parâmetros da legalidade da profissão no âmbito da reprodução das relações entre as classes sociais: o Serviço Social gesta-se e se desenvolve como profissão, no contexto do capitalismo monopolista, quando o Estado, em face da “questão social”60, passa a intervir diretamente nas relações entre a classe burguesa e a classe trabalhadora, “estabelecendo não só uma regulamentação jurídica do mercado 60 Para Iamamoto (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 77) “a questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado” (grifos da autora). 133 de trabalho, através de legislação social e trabalhista específicas, como um novo tipo de enfrentamento da questão social”, assinala Iamamoto (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 77). O novo tipo de enfrentamento da questão social encontra-se vinculado ao desenvolvimento das forças produtivas, ao grau de exploração da força de trabalho e da pressão da classe trabalhadora organizada na luta em defesa de melhores salários e melhores condições de vida. A prática profissional do assistente social insere-se e se desenvolve, portanto, em um complexo jogo de relações sociais entre o capital e o trabalho, no qual o Estado desempenha importante papel no controle e na regulação destas relações. Nesse jogo, o Estado quer parecer um ente neutro, acima dos interesses das classes sociais, mas se trata de uma pseudo- neutralidade . Nesse contexto, o Estado cria e organiza instituições para a execução das políticas sociais e dos serviços sociais, requisitando trabalhadores de diferentes profissões. O assistente social insere-se nessas instituições como trabalhador, vendedor de sua força de trabalho em troca de um salário, e essa determinação é fundamental para compreender o significado social da profissão, sua legalidade e os limites e possibilidades da prática profissional. As instituições criadas pelo Estadoou pela sociedade civil, organizam as atividades assistenciais e de prestação de serviços sociais com base na racionalidade imanente à sociedade do capital, com objetivos claros para garantir e reforçar os interesses da classe social detentora do poder −a burguesia, ainda que tenha, também, de absorver as necessidades da classe trabalhadora. A prática profissional não se realiza em qualquer espaço sócio- ocupacional, ou em espaços institucionais destituídos de objetivos, de 134 princípios, de metas, de prioridades, de proposições, de estruturas organizativas, de conflitos e de ambivalências decorrentes das contradições e das relações entre as classes sociais. Na condição de assalariado e, sobretudo, em decorrência do espaço sócio-ocupacional atribuído ao assistente social na implementação das políticas sociais, a prática profissional tende a assimilar, de forma imediata, os princípios, os valores e os objetivos institucionais, a restringir-se às demandas constituídas e priorizadas pela instituição e aos limites estabelecidos pela de eleição de prioridades. O Serviço Social emerge e se afirma como uma profissão voltada para a intervenção na realidade. Essa condição peculiar apresenta o assistente social como um intelectual subalterno e uma das características de sua intervenção na realidade é constituir-se, predominantemente, como uma atividade auxiliar e subsidiária no exercício do controle social e na difusão da ideologia da classe dominante perante a classe trabalhadora, como se destacou anteriormente. Para os assistentes sociais que aderem e reforçam essa prerrogativa , consciente ou inconscientemente61, a intervenção na realidade encontra-se orientada pelo projeto da classe burguesa e, em seu processo de objetivação, propaga e reforça as premissas, os princípios e os valores da sociedade e do pensamento burguês. Iamamoto (1982, 2002) insere esse modo de intervir na realidade na discussão do papel da ideologia para a obtenção e fortalecimento do consenso social que objetiva o controle social. A autora destaca: 61 Iamamoto (1982; 2002) problematiza igualmente e com o rigor advindo da matriz teórico-metodológica que fundamenta a sua análise, a teoria social de Karl Marx, a relação entre ideologia e consciência, afirmando que a “produção da consciência tem seu fundamento na prática da vida social tal como ela se configura, historicamente. Expressa a maneira como a dinâmica social vem sendo apreendida pelos diversos agentes sociais, em dados momentos históricos. Não se trata, pois de uma representação única e homogênea para todas as personagens sociais, enquanto portadoras de diversos interesses de classe” (IAMAMOTO. In Iamamoto e Carvalho, 1982, p.110). 135 Porém, o controle social não se reduz ao controle governamental e institucional. É exercido, também, através de relações diretas, expressando o poder de influência de determinados agentes sociais sobre o cotidiano de vida dos indivíduos, reforçando a internalização de normas e comportamentos legitimados socialmente. Entre esses agentes institucionais encontra- se o profissional de Serviço Social (IAMAMOTO. In Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 108-109). O poder de influência desses agentes sociais advém das relações institucionais estabelecidas entre as classes sociais nos quais,, de um lado, se encontram alocados os recursos materiais, humanos e de infra-estrutura para a implementação das políticas sociais e dos serviços sociais e, de outro, os demandantes de tais políticas e serviços em busca da satisfação de suas necessidades humanas. Quando o assistente social adere acriticamente ao processo de reprodução dessas relações, reforçando e legitimando os interesses da classe burguesa, controladora do aparato estatal e as instituições empresariais que implementam serviços sociais, a sua intervenção na realidade visa a internalização de normas, de condutas e de comportamentos adequados à reprodução do capital, e a sua prática profissional é mensurada e valorada pelos parâmetros da racionalidade burguesa. De acordo com essa estratégia de dominação, vinculada a lógica de exploração por meio da extração da mais-valia, como analisa Iamamoto (In Iamamoto e Carvalho, 1982), o assistente social, no exercício de suas atividades em organismos institucionais estatais, para-estatais ou privadas, dedica-se ao planejamento, operacionalização e viabilização de serviços sociais 136 por eles programados para a população. A autora esclarece que o assistente social exerce funções relacionadas ao suporte à racionalização do funcionamento dessas entidades, além de funções de técnicas propriamente ditas. A função do assistente social conectada ao suporte à racionalização do funcionamento dessas entidades segue padrões estabelecidos oficialmente pelas instituições, segundo a lógica de dominação e de controle de conflitos e tensões sociais. As funções técnicas vinculam-se, segundo Iamamoto (In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 113-114) a realização de atividades como: Seleção sócio-econômica para fins de “elegibilidade” do usuário, de acordo com as normas que regulam os serviços prestados, preparações dos “clientes” para seu “desligamento” da instituição ao término dos programas efetuados; interpretação das normas de funcionamento da entidade à população, explicitando seus direitos e deveres, cuja aceitação é pré-condição para o acesso à programação da entidade; encaminhamento dos solicitantes à rede de equipamentos sociais existentes, articulando uma retaguarda de recursos para a instituição; atendimentos individuais e grupais para orientação dos usuários face à necessidade por eles apresentada e/ou derivada de exigências do trabalho do próprio órgão; trabalhos comunitários; visitas domiciliares, treinamentos, organização de cursos, campanhas sócio-educativas; orientação e concessão de “benefícios” sociais previstos na legislação previdenciária/trabalhista, etc.; distribuição de auxílios materiais (grifos dos autores). 137 O conteúdo e a forma das atividades relacionadas à execução das funções técnicas do assistente social conformam-se aos parâmetros da racionalidade que objetiva a concretização das finalidades e dos interesses da classe burguesa, detentora do poder no aparato estatal e das instituições privadas. Entretanto, as demandas da classe trabalhadora, criadas e recriadas pelas contradições e antagonismos derivados das relações de produção e reprodução social e por ela reivindicadas, devem ser reconhecidas e minimamente atendidas. O próprio enunciado da atividade e a descrição do objetivo denota a racionalidade subjacente, como, por exemplo, seleção sócio-econômica para fins de elegibilidade do usuário, de acordo com as normas que regulam os serviços prestados. Está claro que a atividade serve a racionalização que permeia a implementação da política social e seus programas ou dos serviços sociais e à chamada eficácia dos recursos determinados para tal programa ou serviços sociais que são alocados para atender somente a uma parcela da população e não a todos os cidadãos que necessitam desses serviços. Trata-se da lógica que permeia a implementação de políticas sociais para a satisfação das necessidades da classe trabalhadora que participa da produção da riqueza, mas que se vê espoliada, com baixos salários e sem acesso a bens e serviços. O assistente social, que não detém os recursos ou os meios de trabalho e se insere nessa relação como vendedor de sua força de trabalho e participa do processo de trabalho coletivo, tende a aderir acriticamente a essa racionalidade, aos seus princípios, aos seus valores e à forma do como fazer. Os fundamentos históricos e teórico-metodológicos apreendidos no processo de formação, que estabelece a criticaà ordem do capital com base no pensamento marxista são descartados e considerados desnecessários, como teoria que não se aplica. A teoria que rompe com a imediaticidade é combatida e descartada. A racionalidade do pensamento burguês, presa ao cotidiano das 138 instituições, sobrepujou-se, e a prática profissional do assistente social impregna-se diariamente dos valores necessários para a reprodução da sociedade burguesa e suas contradições e antagonismos, para a reprodução das seqüelas da “questão social” que aparentemente o assistente social quer debelar com a sua ação. Nessas condições, segundo Iamamoto ( 1982, 2002), o assistente social é solicitado a intervir como fiscalizador da pobreza. Diz ainda, a autora que, em face da proximidade com a situação de vida da classe trabalhadora em seu cotidiano, aliada a uma bagagem científica que possibilite superar o caráter pragmático e empirista que caracteriza a intervenção profissional descrita, o assistente social “poderá obter uma visão totalizadora da realidade desse cotidiano e da maneira como é vivenciada pelos agentes sociais” (IAMAMOTO. In: Iamamoto e Carvalho, 1982, p. 116). A crítica elaborada por Netto (2001) à prática profissional presa ao pensamento burguês é tão contundente e radical, com o objetivo de ir à raiz da questão quanto a de Iamamoto (1982; 2002, 2007). Netto (2001), com seu rigor teórico-metodológico e sua erudição, analisa e revela o complexo movimento da realidade econômica, sócio-política e cultural que cria a recria as determinações, as mediações e as contradições advindas do modo de produção e reprodução social. Nelas se inserem as relações entre as classes sociais e os seus embates permanentes como protagonistas de projetos histórico-sociais, a relação entre as classes sociais e o Estado, entre o público e o privado, no contexto do capitalismo monopolista em sua fase tardia e condiciona a emergência do Serviço Social como profissão. A tese de Netto (2001) relativa à estrutura sincrética do Serviço Social e a sua prática indiferenciada62 é uma referência para este estudo que 62 Em torno dessa tese gira a polêmica relativa às possibilidades de rompimento com o sincretismo presente na prática profissional. A tese em pauta é objeto de crítica de Iamamoto (2007, p. 264 -283). 139 trata da imediaticidade da prática profissional do assistente social, pois permite vislumbrar a abertura de caminhos para problematizar a profissão à luz dessa categoria reflexiva própria da esfera do cotidiano. Em decorrência dessa angulação, retomar-se-ão, resumidamente, os fundamentos e os aspectos analíticos sobre as condições histórico-sociais de emergência do Serviço Social e sua estrutura sincrética elaborados por Netto (2001), que, certamente, contribuirão para desenvolvimento da linha argumentativa do presente estudo O primeiro aspecto que chama a atenção na análise de Netto (2001) referente às condições histórico-sociais de emergência do Serviço Social vincula-se exatamente às configurações do capitalismo na idade do monopólio que altera a dinâmica inteira da sociedade burguesa. Netto (2001, p. 18-19) diz: ao mesmo tempo em que potencia as contradições fundamentais do capitalismo já explicitadas no estágio concorrencial e as combina com novas contradições e antagonismos, deflagra complexos processos que jogam no sentido de contrarrestar a ponderação dos vetores negativos e críticos que detona. Em busca do acréscimo dos lucros capitalista mediante o controle dos mercados, objetivo primário da organização monopólica63, dentre outras implicações, ocorre o aumento do quantitativo dos trabalhadores que se inserem no exército industrial de reserva, isto é, a elevação dos índices de 63 Netto (2001, p. 20-21) sumaria os fenômenos que a organização monopólica, em busca de sua finalidade central, introduz na dinâmica da economia capitalista: “a) os preços das mercadorias (e serviços) produzidas pelo monopólio tendem a crescer progressivamente; b) as taxas de lucro tendem a ser mais altas nos setores monopolizados; c) a taxa de acumulação se eleva, acentuando a tendência descendente da taxa média de lucros e a tendência ao subconsumo; d) os investimentos se concentra nos setores de maior concorrência (...); e) cresce a tendência de economizar trabalho “vivo”, com a introdução de novas tecnologias; f) os custos de venda sobem , com um sistema de distribuição e apoio hipertrofiado (...)” (grifos do autor). 140 desemprego. A segunda implicação destacada por Netto (2001, p. 22) “é o parasitismo que se instaura na vida social em razão do desenvolvimento do monopólio” (grifo do autor). Esse parasitismo deve ser considerado, conforme o autor, por dois ângulos: o engendramento da oligarquia financeira e o divórcio da propriedade com a gestão dos grupos dos monopólios que traz à tona a natureza parasitária da burguesia e a generalizada burocratização da vida social relacionada, parcialmente, à queima do excedente, em razão da supercapitalização, em atividades que não criam valor. A monopolização, assinala Netto (2001, p. 23), dá corpo a uma generalizada burocratização da vida social, multiplicando ao extremo não só as atividades improdutivas stricto sensu, mas todo um largo espectro de operações que, no “setor terciário”, tão somente vinculam-se a formas de conservação e/ou de legitimação do próprio monopólio. O capitalismo monopolista repõe as contradições e os antagonismos do capitalismo concorrencial, cria e recria novas contradições, reorganiza a divisão internacional capitalista do trabalho e deflagra novos mecanismos de intervenção extra-econômicos. Tais mecanismos de intervenção extra-econômicos constituem os complexos processos que garantem a reprodução da ordem do capital, são obstáculos às forças políticas e culturais da classe trabalhadora que, como sujeitos para si, ponderam, denunciam, desvelam e lutam contra os vetores negativos e críticos que o modo de produção capitalista desencadeia e quer encobrir. Netto (2001) analisa a função do Estado e o seu redimensionamento para garantir as condições necessárias à acumulação e à 141 valorização do capital monopolista. Dentre essas funções, o Estado atém-se ao seu papel de comitê executivo da burguesia monopolista que deve se legitimar perante outras forças sociais e organizar um consenso. Uma das formas de legitimação e de organização desse consenso são as respostas dadas às seqüelas da questão social, por meio da implementação de políticas sociais. Faz-se desnecessário retomar a rica e complexa análise elaborada por Netto (2001) que apreende as mediações e particularidades que conectam, na totalidade da vida social, as relações entre as classes sociais, a questão social, o Estado e as políticas sociais que configuram o conjunto de processos econômico e sócio-políticos e condicionam a emergência do Serviço Social como profissão. Por outro lado, é preciso chamar a atenção para o conteúdo que trata dos vetores culturais impregnados no pensamento burguês fetichizado que despolitiza as relações sociais e apreende a questão social como um problema do indivíduo, psicologizando, moralizando, deseconomizando as relações entre as classes sociais. Esse caminho abre possibilidades para a compreensão do jogo de relações que permeiam a prática profissional do assistente social orientada por uma racionalidade atida a imediaticidade. Exposto resumidamente, sob pena de deixar para trás fios importantes tecidos por Netto (2001), o Serviço Social emerge como profissão quando a dinâmica da ordem monopólica cria o espaço sócio-ocupacional na divisão social e técnica do trabalho que estabelece as condições para a sua constituição. A instauração desseespaço sócio-ocupacional tem “sua base nas modalidades através das quais o Estado burguês se enfrenta com a questão social, tipificadas nas políticas sociais” (NETTO, 2001). As políticas sociais, além de suas dimensões políticas, constituem-se também como conjuntos de procedimentos técnico-operativos e requerem agentes técnicos em dois 142 planos, assinala Netto (2001): o da a sua formulação e o da sua implementação. No âmbito da implementação das políticas sociais, a natureza da prática técnica é essencialmente executiva, e os agentes profissionais alocados neste plano recebem a incumbência de executar as ações planejadas e deliberadas por atores cuja prática técnica se circunscreve ao plano da formulação das políticas sociais. O mercado de trabalho que se constitui para o Serviço Social aloca-se prioritariamente no plano da implementação, “ele é investido como um dos agentes executores das políticas sociais”, afirma Netto (2001). Ao assistente social são designadas funções executivas para o enfrentamento das seqüelas da questão social, transfiguradas em problemas sociais, cuja objetivação traduz-se, nas palavras de Netto (2001, p. 81), “numa operação em que se combinam dimensões prático-empíricas e simbólicas, determinadas por uma perspectiva macroscópica que ultrapassa e subordina a intencionalidade das agências a que se vinculam os atores64”. Até a década de 1970, predominava, entre os assistentes sociais, a concepção que atribuía um seu suposto fundamento científico à institucionalização da profissão. As determinações, as mediações e as contradições que condicionam a emergência da profissão e a conectam à totalidade das relações sociais eram ignoradas. Netto (2001) desvela em sua crítica a conexão que essa concepção estabeleceu entre o estatuto teórico do Serviço Social e o seu estatuto profissional. Em breves palavras: até esse período predominavam concepções que hipotecam a institucionalização da profissão a uma maturidade científica , da qual o estatuto profissional é 64 O desempenho das funções executivas dos assistentes sociais, profissionais assalariados independem da representação que delas façam. No entanto, mesmo conectados originalmente ao projeto sócio-político conservador vinculado à burguesia monopolista, “à medida que sua profissionalização se afirma os assistentes sociais tornam-se permeáveis a outros projetos sócio-políticos”, assinala Netto (2001). 143 estabelecido basicamente como dependente de seu fundamento científico65. Colada a essa concepção e dela derivada, a condição subalterna da profissão estaria relacionada ao fato de o Serviço Social apresentar-se como “profissão feminina”. Para os adeptos dessa concepção, ancorando a institucionalização da profissão à sua ascensão como ciência romper-se-ia com a sua subalternidade técnica. A busca do chamado fundamento “científico” dá-se com base em duas proposições: a construção da teoria resulta da sistematização da prática ou pela translação e incorporação de bases teóricas de outras áreas de conhecimento (psicologia e sociologia). Netto (2001, p. 89) estabelece a crítica e aprofunda a análise alicerçando-se no conduto segundo o qual o esclarecimento do estatuto profissional do Serviço Social deve remeter-se ao “dinamismo histórico-social, que recoloca, a cada uma de suas inflexões, a urgência de renovar (e, nalguns casos, de refundar) os estatutos das profissões particulares”. O espaço de cada profissão na divisão social e técnica do trabalho opera-se de acordo com Netto (2001) mediante a intercorrência de um duplo dinamismo, sem a eles se restringir ou deles ser exclusivo: as demandas são socialmente dirigidas e as suas reservas próprias de forças teóricas e prático-sociais. Esse procedimento analítico, apoiado na crítica histórico- dialética, conduz ao desmonte da concepção que coloca o estatuto profissional dependente do seu fundamento “científico”. Para Netto (2001, p. 92) essa percepção é uma ilusão, pois o problema está na “própria natureza sócio- profissional do Serviço Social”. Quando ausente de um referencial teórico, 65 Segundo Netto (2001), essa concepção vincula-se à necessidade de os assistentes sociais construírem uma auto-imagem da profissão que possa romper com suas protoformas. 144 crítico-dialético, trata-se de um exercício prático-profissional medularmente sincrético. Segundo Netto (2001, p. 92), o sincretismo66 parece ser O fio condutor da afirmação e do desenvolvimento do Serviço Social como profissão, seu núcleo organizativo e sua norma de atuação. Expressa-se em todas as manifestações da prática profissional e revela-se em todas as intervenções do agente profissional como tal. O sincretismo foi um princípio constitutivo do Serviço Social. Os fundamentos objetivos da estrutura sincrética do Serviço Social são: “o universo problemático original que se lhe apresentou como eixo de demandas histórico-sociais, o horizonte do seu exercício profissional e a sua modalidade específica de intervenção”, esclarece Netto (2001, p. 92). O universo problemático que se apresentou como eixo de demandas histórico-sociais para o Serviço Social foi a questão social. Para Netto (2001) a questão social por sua natureza difusa, pelo seu caráter polifacético e polimórfico, implica uma enorme variedade de intervenções profissionais, e deve ser apreendida no marco da intervenção operativa do assistente social no aparecer de sua totalidade, isto é, em sua fenomenalidade. O horizonte do exercício profissional do assistente social é o cotidiano, que se caracteriza por sua heterogeneidade, superficialidade extensiva e imediaticidade. A funcionalidade histórico-social do Serviço Social 66 “Na história da filosofia, o sincretismo designa a tendência dos filósofos neoplatônicos a uma certa unificação arbitrária das mais variadas doutrinas que os precederam. Contrariamente ao ecletismo, o sincretismo constitui uma tendência para fundir todas as doutrinas anteriores. Hoje em dia, o termo adquire um sentido pejorativo, pois designa uma miscelânea das mais disparatadas idéias”, assinalam Japiassú e Marcondes, 2006, p. 254). 145 vincula-se à organização “dos componentes heterogêneos da cotidianidade de grupos sociais determinados para ressituá-los no âmbito desta mesma estrutura do cotidiano” (NETTO, 2001, p. 96). A organização dos componentes heterogêneos do cotidiano ocorre por meio da manipulação planejada , com o objetivo de inculcar valores morais e comportamentais para a ressocialização dirigida de segmentos da classe trabalhadora mais afetados pelas seqüelas da questão social. Os assistentes sociais inserem-se na divisão social e técnica do trabalho, prioritariamente, em funções executivas, isto é, não planejam ou decidem as bases valorativas do conjunto de ações a serem implementadas tendo em vista o enfrentamento das seqüelas da questão social, donde advém um dos aspectos constitutivo do traço subalterno da profissão. Netto (2001, p. 97) assinala que, dentre todos os profissionais alocados à organização do cotidiano de determinados grupos sociais, o assistente social é aquele que se vê posicionado de modo tal que o aparente sincretismo da matéria sobre a qual opera (a “problemática”) conjuga-se à perfeição com as condições da sua operação (a intervenção profissional como reordenadora de práticas e condutas cotidianas). O exercício profissional do assistente social situa-se no horizonte do cotidiano e, conjugado com a variedade de intervenções em face da matéria sobre a qual opera, refere-se a uma modalidade de intervenção profissional que contribui, de forma decisiva, para “inscrever o Serviço Social no círculode giz do sincretismo”, assinala Netto (2001, p. 97). A manipulação de variáveis empíricas de um contexto determinado encontra-se, segundo o autor, no centro dessa modalidade de intervenção. O exercício profissional do assistente social desencadeia ações cuja intenção é a 146 alteração de variáveis empíricas vinculadas às expressões da questão social, que, psicologizadas, são tomadas como problemas sociais de ordem moral e individual. Portanto, não se pretende alterar a estrutura social, mas o comportamento de indivíduos e grupos sociais para serem inseridos na realidade social vigente, considerada como dada. Netto (2001) destaca duas implicações relacionadas a esse fazer profissional. Trata-se de uma modalidade de exercício profissional que demanda um conhecimento social capaz de mostrar-se diretamente instrumentalizável e, segundo, repõe o sincretismo em sua dimensão intelectual. Essas duas implicações encontram sustentação em paradigmas explicativos que segmentam a realidade, vinculados à matriz positivista, à racionalidade formal-abstrata. Para Netto (2001), destacam-se dois aspectos que marcam a relação do Serviço Social com os produtos das ciências sociais: a sua condição de receptor, passiva, a-crítica e a sua necessidade de unir as contribuições das ciências sociais “num quadro de referência minimamente articulado e estável − uma espécie de sistema de saber de segundo grau“67, que implica uma atitude ativa. Uma das decorrências dessa relação é a assimetria nos procedimentos teóricos, nos tratamentos técnicos e nas operações analíticas. O saber de segundo grau é eminentemente sincrético e sua fase visível é o ecletismo e deve ter pertinência direta com a prática profissional, afirma Netto (2001). A estrutura sincrética do Serviço Social, cujos fundamentos se encontram mutuamente imbricados e indissociáveis, tem no pensamento positivista fetichizado o sustentáculo para a sua reprodução. O exercício 67 O saber de segundo grau é “obtido pela acumulação seletiva dos subsídios das ciências sociais conforme as necessidades da própria profissão. A história profissional do Serviço Social, a partir da vertente norte- americana e, depois, da sua afirmação hegemônica, em escala mundial, é uma sucessão de sistemas de saber des quilate”, assinala Netto (2001, p. 146). 147 profissional moldurado por estas referências, sem o suporte da teoria social crítico-dialética, limita o seu marco operacional como prática. A heterogeneidade do seu universo problemático constitui o eixo de suas demandas histórico-sociais e de sua complexidade em um contexto de reversão dos direitos sociais e de avanço das medidas neoliberais que apregoam a seletividade como estratégia para a implementação das políticas sociais; o seu horizonte profissional circunscreve-se à cotidianidade, intensificada pelo ritmo e regularidade da sociedade do consumo e a intervenção condicionada pela manipulação de variáveis empíricas, relativa ao entendimento que apreende a realidade somente em sua fenomenalidade e que conduzem à prevalência da imediaticidade que norteia a prática profissional. Em outras palavras: o movimento da consciência não captura o movimento da realidade em sua totalidade contraditória e, em decorrência, não suprassume a dimensão do entendimento para a razão dialética, o objeto é apreendido pelo assistente social apenas no aparecer de sua totalidade, que nada mais é do que o fenômeno, sua aparência. Destaca-se como característica da prática profissional guiada pela imediaticidade a conexão imediata entre pensamento e ação, que redundam, no limite, em reações espontâneas, mecânicas, imediatistas, repetitivas, como fim em si mesmas. Nessas condições, o conhecimento que o profissional tem da realidade circunscreve a aparência do fenômeno, no qual as demandas sócio-institucionais, conforme expõe Pontes (1997, p. 168), aparecem ao intelecto do profissional despida de mediações, parametrada por objetivos técnico-operativos, metas e uma dada forma de inserção espacial (bairro, município 148 etc), programática (divisão por projetos ou áreas de ação) ou populacional (crianças, idosos, migrantes, etc). O estudo realizado por Netto (2001) refere-se ao período histórico que data da emergência do Serviço Social até a década de 1980, e as suas bases e premissas explicam e desvelam os fundamentos que alicerçam o Serviço Social, abrindo pistas importantes para a reflexão e o descortinamento do movimento da totalidade do ser social, do qual o Serviço Social é parte constitutiva e constituinte. A indagação que se apresenta com base nessa perspectiva de análise é a possibilidade da prática profissional do assistente social superar a imediaticidade, cujo horizonte é a cotidianidade, na qual há prevalência de ritmos, regularidades e comportamentos fincados essencialmente no pensamento formal-abstrato. Netto (2001, p. 149) afirma que, independentemente da superação do seu lastro no pensamento conservador e no pensamento formal-abstrato, não se erradica o sincretismo do exercício profissional do assistente social, uma vez que o estatuto fundamental do Serviço social é de constituir-se “uma atividade que responde, no quadro da divisão social (e técnica) do trabalho da sociedade burguesa consolidada e madura, as demandas sociais prático-empíricas” Essa premissa impõe a necessidade de compreender o solo, em que se desenvolve o exercício profissional − o cotidiano, as bases racionais do pensamento hegemônico que permeiam as instituições sociais nas quais os assistentes sociais exercem a profissão e as elaborações teórico-práticas do Serviço Social. Outra referência importante para compreender a racionalidade do pensamento burguês é a apontada por Guerra68 (1999). A autora 68 As bases filosóficas e sociológicas do pensamento formal-abstrato foram analisadas criticamente por Yolanda Guerra, A instrumentalidade do serviço social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1999. 149 compreende criticamente a relação entre o pensamento formal-abstrato e o Serviço Social, ao longo do processo de constituição sócio-histórica das políticas sociais e da profissão. Guerra (1999) apreende as dinâmicas, as determinações, as mediações e as contradições presentes no processo de desenvolvimento das forças produtivas na sociedade capitalista que conduz e potencializa o processo de racionalização dos meios e instrumentos de trabalho. A autora apropria-se dessa dinâmica com base na perspectiva ontológica marxiana, na qual toda forma de objetivação humana carece de meios, instrumentos e modos específicos para sua concretização. Na sociedade capitalista, a dimensão instrumental generaliza-se, transformando-se no paradigma de relação entre os homens, reduzindo a razão substantiva (a razão dialética). A racionalidade instrumental tem vínculos intrínsecos com a divisão social e técnica do trabalho e o desenvolvimento das forças produtivas na sociedade capitalista e visa o aumento da produção e da acumulação do capital. Por configurar-se como a racionalidade própria da sociedade capitalista, a racionalidade instrumental − formal abstrata − espraia-se por todos os quadrantes, invade os espaços do trabalho, da cultura, da economia, da política, da vida cotidiana, impregnando os seus valores, os seus ritmos, as suas regularidades e os comportamentos a ela adequados. As atividades são fragmentadas, parcializadas e valoradas por seus resultados, mensuradas quantitativamente, determinadas pelos instrumentos de trabalho. Respeitados esses parâmetros, ao analisar o exercício profissional do assistente social, Guerra (1999, p. 157) afirma: se o produto final do trabalho do assistente social consiste em provocar alterações no cotidianodos segmentos que o procuram, os instrumentos e técnicas a 150 serem utilizados podem variar, porém devem estar adequados para proporcionar os resultados concretos esperados. Para tanto, as ações instrumentais − mobilização de meios para o alcance de objetivos imediatos − são, não apenas suficientes como necessárias. Contudo não pode prescindir de um conjunto de informações, conhecimentos e habilidades que o instrumentalize. As alterações no cotidiano dos segmentos que procuram o Serviço Social apresentam-se, primeiramente, como posições teleológicas, são planejadas previamente com objetivos a serem atingidos, e como tais, não são estabelecidos pelo profissional. Na objetivação dos princípios e dos valores contidos nas atividades, cujas formas e conteúdos se encontram dados quando executadas a-criticamente, os assistentes sociais comparecem na divisão social e técnica do trabalho como profissionais dotados de experiência para a execução da atividade, capazes de manipular as variáveis empíricas e com habilidade para atenuar os conflitos. As variáveis empíricas são manipuladas em sua fenomenalidade por meio de rotinas que se concretizam com base nas “estruturas técnicas, legais, burocráticas, formais e, portanto, da lógica em que se inscrevem as políticas sociais”, assinala Guerra (1999, p. 158). Se tais estruturas são aceitas passivamente como se encontrassem aprioristicamente dadas, a prática do assistente social orientada pela lógica formal-abstrata, circunscreve-se à fenomenalidade dos processos sociais. Consciente ou inconscientemente, o assistente social conhece a realidade apenas no aparecer de sua totalidade, que culmina no movimento da consciência na dimensão do entendimento. 151 Na esfera do cotidiano, a tendência do pensamento burguês que orienta esse comportamento é a busca do fim, sem questionar o significado das objetivações, da prática profissional. Tal fim, como afirmado anteriormente, não é projetado, antevisto pelo assistente social, mas por outros profissionais que, na divisão social e técnica do trabalha, planejam as políticas sociais e os serviços sociais. O saber que o assistente social deve dominar são aqueles necessários para a manipulação de variáveis empíricas, tendo em vista os resultados concretos esperados, os objetivos imediatos. O saber determinante nesse processo guia-se pelo caráter da utilidade, como valor de troca e, nesse sentido, não há necessidade de questionar a gênese dos fenômenos sociais, ou a função da prática profissional. Redunda dessa atitude acrítica, a fixação da prática profissional no âmbito do cotidiano, que estabelece a relação imediata entre pensamento e ação. Essa prática não abandona o cotidiano para retornar a essa esfera do ser social enriquecida pelo desvelamento da essência, oculta na imediatez dos fenômenos e processos sociais. Na ausência de instrumento teórico-metodológico para desocultar a realidade para além de suas expressões fenomênicas, os conhecimentos, as habilidades que instrumentalizam a prática profissional, ou a subjetividade presente na vida cotidiana, oscilam constantemente entre os motivos imediatos e instantâneos e as decisões baseadas em fundamentos rígidos como as tradições, os costumes, as rotinas legais e burocráticas. Guiado pelas motivações instantâneas e os processos rígidos estabelecidos por meio de estruturas técnicas, legais, burocráticas, o profissional estabelece os seus interesses, e que é útil para ele, para a instituição, para o usuário, depende da retórica. A teoria dissolve-se em decorrência da utilidade, uma vez que não há nenhuma verdade superior à realidade cotidiana, àquilo que resulta da prática do dia-a-dia que é preciso manipular em seu favor. O pensamento que conecta 152 imediatamente teoria e prática e guia-se pelo critério da utilidade é o pragmatismo, que defende o empirismo e o utilitarismo. O pragmatismo, segundo Vazquez (1977, p. 211), “ depura o aspecto rudimentar do senso comum, alçando-o ao nível da doutrina filosófica”. A retórica desse pensamento busca atingir os interesses do homem da rua, e se encontra próximo ao senso comum, espraiando-se na esfera da vida cotidiana. Na sociedade capitalista, os interesses econômicos demarcam os critérios para aferir a validade do conhecimento. A prática, conforme esse pensamento, é concebida como “a ação subjetiva do indivíduo destinada a satisfazer os seus interesses” (VASQUEZ, 1977, p. 211). A atitude pragmática em face dos processos sociais conduz ao questionamento das teorias, a sua utilidade, pois a função e a gênese dos fenômenos sociais não são colocadas em questão. Como esse pensamento é mais próximo do senso comum, sua reprodução no âmbito do cotidiano dá-se pela naturalização dos fenômenos sociais e da própria sociedade capitalista. Esse tipo de pensamento tem norteado a prática profissional dos assistentes sociais em seus diferentes espaços sócio-ocupacionais, públicos e privados. No entanto, quando o Serviço Social é requisitado diretamente pelas empresas69 para atuar com os trabalhadores, a racionalidade histórico- crítica tende a ser questionada pelo assistente social com maior veemência, em razão de sua adesão à lógica formal-abstrata, defendida ideologicamente pela instituição, cujos conteúdos se encontram transmutados na forma de estruturas técnicas, legais e burocráticas do espaço sócio-ocupacional. Nesse espaço, o Serviço Social intervém nas “situações que interferem na produtividade da força de trabalho”, afirma Mota (1998, p. 69 Mota (1998, p. 39) conceitua a empresa como “uma instituição cujo objetivo é gerenciar capital e trabalho na produção de bens e serviços que se transformam em mercadorias. Através desse gerenciamento, ela assegura a valorização do capital, acumulando-o e reproduzindo-o e tendo na produção da mais-valia um instrumento para a obtenção de lucros” . 153 130). Os valores absorvidos pelo assistente social alocado nesse espaço sócio- ocupacional e transmitidos aos trabalhadores visam a produtividade (mensurada pela quantidade de força de trabalho despendida e materializada em mercadorias no menor tempo de trabalho), a eficácia (valorada pela equação resultante do aproveitamento relacionado à utilização da matéria prima, dos meios de produção disponíveis e o produto final), a qualidade (propriedade do produto), a disciplina (cumprimento de horários e de rotinas dentro e fora do espaço de trabalho) e a hierarquia (reconhecimento e respeito aos diversos níveis de autoridade que se legitimam pelo poder de mando ou pelo conhecimento). A partir da década de 1970, com a reestruturação produtiva, outros valores foram alçados à condição de essências na relação capital e trabalho. Em face do desemprego estrutural, da constante ameaça de expulsão do mercado de trabalho e da utilização de tecnologia de ponta no processo produtivo, os trabalhadores, além dos valores já mencionados, devem exercitar cotidianamente a criatividade (descobrindo mecanismos relacionados à tecnologia e à organização do trabalho para intensificar a produção), a colaboração (para garantir o seu posto de trabalho é necessário colaborar para que a empresa aumente sua produtividade e lucratividade, empresários e trabalhadores, portanto, devem jogar do mesmo lado) e a polivalência (encontrar-se apto para desenvolver múltiplas funções). Esse quadro de referências prevalecente na lógica produtiva do mercado translada-se para os espaços públicos. O balizamento para aferir a eficácia e a qualidade dos serviços públicos é mensurado segundo a lógica do mercado, aumentando a pressão sobre o alcance de resultados com base na quantidade de atendimento e da resolução imediata das demandas sociais, intensificando os processos de trabalho e conduzindo à agilizaçãodo atendimento. 154 A classe burguesa dispõe de complexos sociais70 e mecanismos diferenciados para inculcar os valores e objetivos próprios e necessários ao modo de produção capitalista. A organização produtiva e o consenso acerca dela são fundamentais e transcendem a si mesmos. Os trabalhadores assimilam os comportamentos, as normas, as técnicas, as habilidades necessárias para tornarem-se funcionais à ordem do capital, como vendedores da única mercadoria de que dispõem, a força de trabalho. Esses valores passam da produção para outras esferas da vida social. Como vendedor de sua força de trabalho, o assistente social não se situa fora dessa lógica, na qual se insere e participa de sua reprodução. Quando o profissional apreende a dinâmica dessa sociedade apenas pelo viés do pensamento burguês, a sua consciência acerca do movimento do real e a sua prática baliza-se pela imediaticidade alojada na certeza sensível, na intuição e no entendimento, participando mecanicamente da reprodução das relações sociais. Como essa prática, que se atém à consciência e à apreensão da realidade na dimensão do entendimento, é descrita pelos profissionais do Serviço Social? Quais são as características que sobressaem na prática profissional permeada pela racionalidade formal-abstrata? Com base em pesquisas recentes relativas ao exercício profissional do assistente social, pela análise das comunicações apresentadas por assistentes sociais no XI Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, realizado em 2004, e em artigos 70 Dentre esses complexos, encontram-se o Estado e a cultura. O Estado, na implementação de políticas sociais, reforça a cultura que é própria da estrutura organizativa do modo de produção capitalista. Dentre as políticas sociais, a educação formal cumpre um papel essencial tanto na assimilação dos valores funcionais á ordem do capital quanto na formação da força de trabalho. O aprendizado não se atém somente aos conteúdos, mas aos aspectos não-cognitivos. Segundo Costa (1978, p. xii ), as práticas pedagógicas contribuem para a formação de traços não-cognitivos, isto é, “os valores e normas internalizados pelo indivíduo, e que, se traduzem em atitudes, enquanto opiniões verbalmente manifestadas, e em forma de comportamentos possíveis de serem observados”. 155 de relatos de experiências profissionais publicados em revistas, buscar-se-á apreender as características que conformam essa prática. 2.3 Descrição da prática profissional do assistente social orientada pelo entendimento A prática profissional do assistente social, cujo movimento da consciência repousa no entendimento, encontra a aparência dos fenômenos e a toma como se fosse a essência. Nessa dimensão do movimento da consciência em busca do conhecimento do real, o conceito emerge da reflexão referente ao interior do próprio fenômeno como uma totalidade do aparecer. Os fenômenos não revelam o que é a realidade, a essência está escondida sob a aparência das coisas, e o conteúdo encontra-se envolto pela forma, pelo formalismo. Os aspectos que sobressaem na análise e na descrição dos assistentes sociais acerca da prática profissional orientada pelo entendimento são a naturalização e a fragmentação dos processos e fenômenos sociais e a questão do método de conhecimento/intervenção na realidade. O primeiro aspecto a ser ressaltado na forma de conceber a realidade apreendida em sua fenomenalidade é a naturalização dos processos sociais. Os assistentes sociais que orientam a sua prática ou têm a sua prática orientada pela racionalidade formal-abstrata tomam os processos sociais em sua fenomenalidade, e eles, se apresentam como se estivessem dados. Na descrição da prática profissional, a naturalização dos fenômenos sociais tem expressão na forma como as seqüelas da questão social são enfrentadas no cotidiano: como problema do indivíduo, pela negação do caráter classista da questão social, pela adequação do exercício profissional às estruturas técnicas, legais e burocráticas das instituições e como demandas 156 que se apresentam e são reconhecidas e respondidas de forma imediata pelo assistente social. Tais características acham-se organicamente imbricadas, mas, tomadas como indiferentes e independentes entre si mesmas, e a forma, portanto, cinde-se do conteúdo, porque ele já está dado. A forma, considerada em si mesma, conduz a consciência a apreender o fenômeno como evanescente, e, por isso, a própria forma se desmorona e, tratada como independente do conteúdo, ela se torna o próprio conteúdo. Nessas condições, quando o assistente social é chamado a indicar as demandas atendidas pelo Serviço Social, ora elas aparecem como o procedimento técnico (apoio, triagem71, laudo, estudo de critério de elegibilidade, visita domiciliar, cadastramento, reunião, orientações), ora aparecem como instrumental técnico (entrevista, estudo ou ficha sócio- econômico, questionário), ora como problema social (relacionamento, conflito familiar, doenças, etc.); ora como estratégias de ação (agilização de vagas, entrega de cesta de alimentos, Benefícios de prestação continuada, contatos com escola, encontros com famílias, etc.). A naturalização72 dos processos sociais invoca a concepção dualista de sociedade. De um lado, há a coisa em-si, os fenômenos que já estão dados, não podem ser conhecidos e nem modificados, devem ser aceitos pois não pertencem ao reino dos homens, não resultam das relações entre os homens, e, de outro, os fenômenos que podem ser conhecidos por meio da intuição e do entendimento. Outro aspecto a ser ressaltado é a fragmentação dos processos sociais. A realidade, segundo Lukács (1979a, p. 79), é constituída por 71 Verifica-se a utilização de terminologias diferenciadas para caracterizar procedimentos técnicos que visam a qualificação da demanda ou do serviço prestado, como a triagem e o estudo para fins de elegibilidade para atendimento. 72 A naturalização dos processos sociais tem vinculação com a reificação. Os fenômenos sociais reificados adquirem existência autônoma, fora do movimento histórico que cria e recria as relações sociais. 157 “complexos dinâmicos multifacéticos e por suas múltiplas relações dinâmicas, enquanto o intelecto é capaz de captar apenas o fenômeno imediato e suas reproduções abstratas”. Os fenômenos captados em sua imediatez aparecem como uma universalidade incondicionada, como uno, como um fragmento que se relaciona com o outro apenas para firmar as suas propriedades e, delas, derivar o conceito em si. O entendimento não estabelece a conexão dialética e contraditória entre as coisas, os processos sociais, mas sim a razão dialética. Em decorrência, na dimensão do entendimento, os objetos parecem ter uma existência autônoma, e esse é o princípio da fragmentação. Acerca da relação entre o entendimento e a razão, Lukács (1979a, p. 79) esclarece: a razão se desenvolve sempre a partir do intelecto, mas ambos – na medida em que são orientados para a mesma realidade – usam as mesmas categorias enquanto princípios ordenadores da realidade (embora essa seja captada diferentemente); ou seja, usam as determinações reflexivas, “só” que o intelecto realiza essa operação na falsa separação imediata e a razão o faz na verdadeira coordenação dialeticamente contraditória. O objeto destituído das conexões dialéticas e contraditórias com os demais objetos relaciona-se com a universalidade apenas para firmar o que ele é em si, como uno incondicionado. Para o Serviço Social, essa fragmentação resulta em conseqüências que se relacionam com a própria natureza difusa e polimórfica da questão social, como afirmam Netto (2001) e Guerra (1999). A fragmentação dos complexossociais é a forma ideo-política como a sociedade capitalista responde às contradições sócio-econômicas e político-culturais 158 geradas pelas relações de produção e a reprodução social para garantir o controle social, tendo em vista os antagonismos entre as classes fundamentais. Como os processos sociais são fragmentados, as respostas às contradições e aos antagonismos que emergem das relações entre as classes sociais também o são. As respostas às seqüelas da questão social são pulverizadas em políticas sociais tipificadas: trabalho, saúde, educação, assistência social, lazer e cultura, previdência, habitação, segurança e saneamento. No interior de cada política social a realidade é novamente fracionada em programas e projetos que se organizam segundo o enfrentamento de cada conjunto de problemas reconhecidos pelas classes sociais e pelo Estado. A política de saúde, por exemplo, é recortada conforme essa lógica: serviço primário ou rede de atendimento básico, serviço secundário ou rede de atendimento hospitalar, serviço terciário ou rede hospitalar de atendimento complexo. No interior de cada um desses serviços, os programas e projetos visam o atendimento de problemáticas específicas. Essa estruturação técnica, legal e burocrática, quando absorvida a-criticamente pelos profissionais do Serviço Social, tende ser reproduzida, e, em decorrência, surge o serviço social da saúde, serviço social de empresas, serviço social da habitação, serviço social psiquiátrico, serviço social hospitalar, etc. A compreensão do Serviço Social determinada pela forma fragmentada de inserção e apreensão da realidade com base em políticas sociais tipificadas ou em problemas sociais singulares tem a sua raiz no pensamento positivista e se encontra presente desde a emergência da profissão. Na atualidade, a tendência à fragmentação do Serviço Social em especialidades ganha força e visibilidade pelo grau de competitividade no mercado de trabalho, decorrente da corrida das profissões pelos espaços sócio-ocupacionais, pela quebra das fronteiras entre os saberes e a exigência 159 de uma mão-de-obra que domine, ao mesmo tempo, conhecimentos gerais para o exercício de múltiplas tarefas e conhecimentos específicos para responder à segmentação interna. A fragmentação desdobra-se, ainda, conforme o perfil sócio- econômico e cultural dos trabalhadores que procuram acessar as políticas e os serviços sociais. O segmento para o qual se destina o atendimento é denominado de população alvo: criança e adolescente, idoso, mulher, portador de necessidades especiais, diabéticos, adolescente infrator, família, etc. A fragmentação vincula-se diretamente à complexidade da realidade mas também à crescente necessidade de a burguesia manter o controle social utilizando, dentre outras armas, o pensamento burguês fetichizado que oculta a dinâmica dos complexos sociais e apreende a realidade somente em sua imediatez, em fragmentos que, em relação ao todo, guardam independência e têm uma função específica. Para esse tipo de pensamento, a naturalização e a fragmentação dos processos sociais são princípios determinantes que forjam o que Coutinho (1972) denomina sentimento de mundo. Em congruência com esses princípios, há o próprio método, ou, na acepção positivista, o conjunto de procedimentos racionais, baseados em regras racionais que visam atingir um objetivo determinado, o conhecimento do objeto, dos fatos sociais. No âmbito do Serviço Social brasileiro, do ponto de vista da perspectiva positivista, doutrina e expressão do ideário do pensamento burguês, a questão do método deve ser averiguada sob dois ângulos: como método de conhecimento e como método de ação ou metodologia da intervenção. Entre o primeiro e o segundo há uma cisão. Nessa perspectiva analítica, o método de conhecimento vincula-se ao processo de abstração, da formulação da teoria que, por princípio, deve ter uma utilização prática. O método de intervenção ou a metodologia de intervenção circunscreve-se às 160 fases que compreendem o estudo da realidade ou diagnóstico − levantamento e interpretação dos dados com o objetivo de identificar a situação-problema; a intervenção − o desenvolvimento do plano, da ação das atividades; e a avaliação − mensuração do resultado da intervenção. Nessas fases que comportam a metodologia de intervenção, identificam-se e se definem o objeto e os objetivos da intervenção profissional, os procedimentos de ação e os instrumentais técnicos a serem utilizados. O exercício profissional do assistente social, permeado e fundamentado no pensamento burguês, não contempla a unidade entre teoria e prática. Embaralhadas e comumente utilizadas de forma dicotômica, há a teoria, de um lado, como instrumento explicativo e justificador da realidade e, de outro, a prática, que se refere à intervenção na realidade, à efetivação de ações. O questionamento acerca dessa disjunção, no âmbito do Serviço Social latino-americano, surge com o movimento de reconceituação73, no período de 1965 a 1975. Esse movimento estabeleceu a crítica ao Serviço Social tradicional e aos seus métodos de intervenção: caso, grupo e comunidade. No Brasil, essa crítica resultou na experiência de Belo Horizonte74 e nas proposições modernizadoras, de caráter desenvolvimentista, vinculadas às necessidades do projeto burguês-ditatorial, de Araxá e Teresópolis. Nesse contexto, para essa perspectiva modernizadora do Serviço Social brasileiro, de viés estrutural-funcionalista, a junção entre teoria e prática ocorreria pela elevação do Serviço Social a condição de ciência75, da qual adviria uma concepção científica da prática profissional e uma metodologia do Serviço Social. Essa concepção separa os procedimentos 73 O movimento de reconceituação, que emergiu na América Latina como uma reação crítica ao Serviço Social tradicional e sua prática funcionalista, propõe um Serviço Social crítico, comprometido com os interesses da classe trabalhador, com interlocução crítica com as ciências sociais e o reconhecimento da dimensão política da profissão entre outros. Para Netto (2005), o movimento de reconceituação permaneceu como um capítulo inconcluso, asfixiado pelas ditaduras latino-americanas em meados da década de 1970. 74 Dessa experiência resulta o método BH, analisado no quarto capítulo. 75 Os documentos de Araxá (1967) e de Teresópolis (1970) explicitam claramente essa proposição. 161 destinados à manipulação das variáveis e dados empíricos e a seqüência dos procedimentos de ação, aplicáveis ao planejamento, à administração e à prestação de serviços diretos. O primeiro passo é o diagnóstico, o segundo, a intervenção. Montaño (1998, p. 156) analisa e demonstra como as principais formulações76 teórico-metodológicas desse período, e mesmo aquelas que se fundamentavam na perspectiva dialética mantêm a “segmentação positivista ciência e técnica, a naturalização da realidade e o apriorismo metodológico”. Em decorrência da prevalência da dualidade entre o conhecer e o fazer que persiste na contemporaneidade, é pertinente indagar o significado da expressão conhecimento da realidade para o assistente social que desenvolve a sua prática tendo como horizonte a esfera do cotidiano. O pressuposto que conduz à compreensão dessa expressão encontra-se na divisão social e técnica do trabalho, donde, de um lado, há aqueles que conhecem a realidade, constroem conhecimentos, organizam sistemas produtivos e administrativos, planejam ações e estabelecem parâmetros de avaliações e, de outro, aqueles que executam. O pensamento burguês sustenta-se em pressupostos que prevalecem no sistema de produção capitalista e que dicotomiza teoria e prática. Essa primeira questão remete a uma segunda, de igual relevância para compreendero significado da expressão conhecimento da realidade para o assistente social que desenvolve a sua prática profissional tendo o cotidiano como horizonte: o processo de intervenção inicia-se com a ação, a atividade propriamente dita? Na perspectiva do pensamento burguês, o método de conhecimento e a metodologia de ação encontram-se apartados. O método de 76 Montaño (1998) analisa comparativamente os fundamentos e as proposições contidas no método básico, formulado pela Escuela de Trabajo Social da Universidad Católica de Santiago de Chile, o método BH e o método de Boris Lima. 162 conhecimento para ter valor científico, deve possibilitar a construção de uma teoria, com base na formulação de hipóteses, na utilização de recursos da lógica formal, na realização de experimentos e na adoção de rigorosos procedimentos de observação dos fenômenos, decompondo-os, averiguando a repetição de regularidades, quantificando-as e unificando-as em diversas leis e regras práticas. Nessa direção, para um segmento profissional, a expressão conhecimento da realidade vincula-se ao método de conhecimento, tendo em vista a construção de uma teoria. Com base na premissa desse vínculo direto entre conhecimento da realidade, sistematização da prática e produção do conhecimento se alçaria o Serviço Social à condição de ciência. A expressão conhecimento da realidade, no entanto, não pode se referir à sistematização da prática profissional. Netto (2001) e Montaño (1998) problematizam essa questão, e, para esses autores, é claro e inequívoco que a sistematização da prática profissional do assistente social não produz conhecimento teórico, não conduz ao conhecimento da realidade em sua essência, e o Serviço Social não é uma ciência. Da crítica elaborada por Netto (1996) à perspectiva modernizadora e por Montaño (1998) ao praticismo profissional, é possível afirmar que o conhecimento da realidade se refere, segundo a tradição positivista, à manipulação de variáveis e dados empíricos, ao conhecimento superficial da realidade, ao diagnóstico77 da realidade − concebido como a primeira sistematização elaborada com base na prática. Dessa compreensão de conhecimento da realidade redunda a compreensão de prática profissional como o procedimento interventivo de campo, a ação que modifica superficialmente as variáveis empíricas 77 Montaño (1998) estabelece a crítica à compreensão que concebe a teoria como sistematização da prática. Segundo o autor, a sistematização “resulta do processo de seleção, ordenamento, priorização e categorização dos dados extraídos de uma prática localizada e singular”. Assim concebida a sistematização coincide com o “diagnóstico”. 163 apreendidas em sua imediatez pela prática profissional cotidiana, conectando de forma direta o pensamento e a ação. O assistente social que tem como horizonte da prática profissional o cotidiano conhece a realidade, em sua fenomenalidade, em sua imediaticidade, para fazer escolhas e desencadear um conjunto de ações em resposta a determinadas seqüelas da questão social, demandadas por segmentos da classe trabalhadora, ou pela instituição, e reconhecidas pelo profissional. Nesse horizonte, a expressão conhecimento da realidade se refere à obtenção de informações objetivas e subjetivas relacionadas às condições de vida de um indivíduo, considerado como tal e não como ser genérico que é, ou do grupo familiar, compreendido como uma célula. Conhecimento da realidade refere-se, também, ao domínio da estrutura formal e burocrática da instituição em que o assistente social se encontra alocado. Para obter e dominar esse conhecimento, não se faz necessária a investigação sistemática, com rigor científico, fundada segundo os parâmetros da cientificidade, com base na fundamentação histórica e teórico-metodológica para desvelar o movimento da realidade. Para a intervenção restrita ao imediato, à dimensão do cotidiano, o estudo das condições de vida sócio-econômicos e culturais do segmento da classe trabalhadora que busca acessar as políticas sociais ou serviços sociais seria um procedimento suficiente. No entanto, há um segmento significativo de assistentes sociais que não utiliza desse procedimento para a caracterização das demandas e o atendimento em-si. Ao descrever a prática profissional, há discurso de assistentes sociais denotando que os atendimentos são realizados sem o estudo sócio- econômico. Os dados acerca da realidade são fornecidos pelos usuários, que 164 comunicam suas necessidades, suas carências, em uma entrevista78, que tem um fim em-si mesmo. Os atendimentos são realizados orientados, também, pela instituição que delibera o tipo de serviços a ser prestado e como deve sê-lo, derivando da aplicação desse instrumental técnico a averiguação da demanda requerida e o seu pronto atendimento, quando possível. Como foi sinalizado no capítulo anterior, se a entrevista configurar-se como formal, o registro das informações efetua-se em fichas sócio-econômicas e são arquivadas. Se a entrevista é realizada informalmente, o registro circunscreve-se à quantificação do atendimento e do recurso material e financeiro repassado. A prática profissional circunscreve-se ao atendimento da demanda explicitada, como revela a pesquisa realizada por Vasconcelos (2003) referente a realidade do trabalho profissional dos assistentes sociais da Secretaria Municipal da cidade do Rio de Janeiro. As demandas dirigidas ao Serviço Social são aquelas apresentadas imediatamente pelo usuário ou pela instituição e reconhecidas pelo profissional. Referindo-se à demanda implícita a que atendem os profissionais, a investigação79 de Vasconcelos (2003) aponta a dificuldade em apreenderem as necessidades sociais de segmentos da classe trabalhadora para além daquilo que é manifestado no momento do atendimento. Vasconcelos (2003, p. 180) relaciona algumas expressões proferidas por assistentes sociais para responderem o que consideram demanda implícita: As demandas implícitas são demandas por serviços que não existem, alternativas aos asilos, centro dia, cuidados 78 Em seu estudo, Vasconcelos (2003) afirma que “são 47% os assistentes sociais que só realizam suas ações através de entrevistas e 64% os que realizam mais entrevistas que reuniões” (p. 209). Dentre os assistentes sociais que responderam a forma como realizam a entrevista – 76% do universo, 72% a utilizam para responder a uma demanda específica e imediata e qualificam a entrevista como ajuda, apoio, informação, aconselhamento e coleta de dados. 79 Segundo Vasconcelos (2003, p. 180), indagados acerca das demandas implícitas a que atendem, os assistentes sociais dividiram-se em quatro grupos: “61% apontam demandas consideradas implícitas; um grupo de 31% simplesmente não respondeu a esta questão; 4% afirmaram que não existem demandas implícitas para o Serviço Social (...); 8% dos profissionais declararam que não sabem quais e/ou o que são demandas implícitas ou fizeram afirmações incompatíveis com a questão”. 165 dos familiares, como lidar com idoso dependente, que são demandas fruto das más condições de vida e falha das políticas sociais que os usuários colocam como questões suas; É a busca de levar vantagem na prioridade do atendimento médico; É a garantia do tratamento e do medicamento Falta de vida mais digna, desemprego, fome; Interpretar os discursos do médico (apud VASCONCELOS, 2003, 180). O balizamento das competências e das atividades desenvolvidas pelo assistente social no cotidiano é dado pelas demandas, que explicitadas são reconhecidas como tais pelas instituições e serviços sociais que atendem segmentos da classe trabalhadora queacessam as políticas sociais. Verifica- se, nas pesquisas que estudam a prática do assistente social no cotidiano, que o registro das atividades ocorre segundo as exigências e demandas apontadas pelas instituições, em face de sua estrutura e organização formal e burocrática. A pesquisa desenvolvida por Santos, Laguna e Andrade (1998), relativa à ação profissional na política de assistência social indica que, mesmo quando o assistente social procura organizar e sistematizar as demandas dirigidas ao Serviço Social, o atendimento circunscreve-se àquelas explicitadas pelos segmentos da classe trabalhadora no momento da procura da instituição. O discurso do assistente social, na entrevista que se segue, evidencia a relação direta entre demanda explicitada e o entendimento a respeito: Não, em cima da demanda que vem eu levo pro secretário e o prefeito: olha isso aqui são listagens em cima disso, 166 disso e disso. Eu sempre procuro fazer também um trabalho, um percentual também do que eu atendo aqui, é importante. Eu tenho isso em casa, no computador. Eu chego lá e digo: olha isso é importante, tá acontecendo muitos casos de drogas, muitos casos de abuso sexual, vamos fazer alguma coisa nesse sentido. Em cima da demanda que vem eu faço um levantamento (SANTOS; LAGUNA; ANDRADE, 1998, p.31-32) Nessas condições, o conhecimento a que se referem os assistentes sociais é o conjunto de informações relacionadas às necessidades dos usuários e à estrutura formal, legal e burocrática das instituições e o modelo de operacionalização das políticas e dos programas sociais. Em determinadas situações, a estrutura formal e burocrática institucional pode exigir registros diferenciados, mas sempre voltados à quantificação do atendimento tendo em vista, sobretudo, o aporte de recursos financeiros. A racionalidade formal-abstrata restringe-se à quantificação dos atendimentos realizados, dos tipos de procedimentos adotados e dos recursos humanos e materiais utilizados, tendo em vista o cálculo tanto dos serviços prestados quanto dos recursos despendidos. O cálculo tem vínculo direto com a contrapartida dos recursos financeiros que cada instituição ou unidade deve receber e está, portanto, diretamente relacionado à lógica de custos e benefícios, mensurados segundo o valor de troca. Registra-se sempre a demanda atendida, e todos os aspectos da realidade que não servem diretamente ao cômputo do serviço prestado são descartados, não-valorados, não-utilizáveis, como a demanda não-atendida, refugada ou a demanda implícita. 167 Permeada por essa condicionalidade, a realidade apresenta-se de forma fragmentada, dividida em diferentes variáveis. De um lado, há a caracterização dos usuários que procuram a instituição e nela, o Serviço Social, e suas condições de vida, e de outro, a caracterização de demandas seletivas, reconhecidas pelas instituições, isto é, o conjunto de problemas sociais que podem ser incorporados pela lógica dos serviços e dos direitos sociais. A caracterização dos usuários ou o perfil sócio-econômico implica a obtenção de dados referentes a nome, idade, sexo, cor, estado civil, escolaridade, endereço, profissão e outras informações pertinentes. A caracterização das condições sócio-econômica e cultural da vida dos usuários busca aferir: condições de trabalho e renda, de moradia, de saúde, de saneamento básico, constituição do núcleo familiar, dentre outros, e, conforme o espaço sócio-ocupacional: infrações e delitos, opção político-partidária, participação popular, religião, etc. A caracterização das demandas visa a precisão da problemática específica que conduz o usuário à busca do atendimento. O trato metodológico dado a esse conjunto de informações a posteriori, segundo a razão formal-abstrata, tem em vista a quantificação de todos os usuários atendidos em um período de tempo (quinzenal, mensal, semestral, anual), traçando o perfil desses usuários, identificando os problemas sociais mais recorrentes80, caracterizando e quantificando o atendimento realizado. A sistematização dos dados e das atividades executadas redunda em relatórios concisos, objetivos. 80 Se as instituições definem os serviços a serem prestados, os programas, as metas e os recursos disponíveis, as reais necessidades dos trabalhadores não se evidenciam na imediatez do cotidiano. As necessidades humanas dos trabalhadores são respondidas ou parcialmente respondidas pela burguesia e pelo Estado quando se instaura o conflito, quando a classe trabalhadora problematiza e politiza as suas necessidades. 168 A forma como são dispostos os dados na exposição segue a seqüência lógica da coleta dos dados. Assim, os relatórios apresentam o perfil dos usuários por meio de análises estatísticas, segundo a tipificação das informações selecionadas e definidas previamente e contidas na ficha sócio- econômica ou em formulários próprios que visam a quantificação do atendimento realizado. Assim, as propriedades caracterizam um extremo que conforma o conhecimento da realidade: a quantidade de atendimento, e seu percentual correspondente, conforme sexo, idade, estado civil, local de moradia, profissão, escolaridade, etc. Apresentam-se na análise expositiva, em seguida, as tendências simples, comparando cada variável em relação a si- mesmo. O outro extremo é o levantamento quantitativo de acordo com as variáveis que denotam as condições de vida dos usuários, circunscrito àquelas demandas reconhecidas pela lógica dos serviços. Resulta desse procedimento o grupo de deduções simples, caracterizando as condições de vida dos usuários. Mantém-se a interdependência entre as varáveis, na qual a significação objetiva da realidade se apresenta como multiplicidade de diferentes universais, tomados como singularidade, originando algo objetivo, calculável. Este é o movimento da percepção. A supra-sunção que conduz o movimento da consciência para o estágio do entendimento implica a construção do conceito, a forma geral de unificação de diversas leis e de regras. Do ponto de vista do pensamento burguês, distinguem-se os conceitos dados a priori e os conceitos a posteriori ou empíricos. Os conceitos empíricos vinculam-se às noções gerais que servem para a classificação dos objetos. Com a prevalência da manipulação de variáveis empíricas, das classificações dos objetos derivam os conceitos empíricos e, como tais, podem relacionar-se somente com uma variável ou o cruzamento de duas, três ou mais variáveis, permanecendo sempre a coisa em-si, objetiva, em sua factualidade, 169 do que decorre o desdobramento do objeto, apreendido em sua evanescência, ausente de determinações, de contradições, de mediações, apenas em sua positividade. Por tratar-se da realidade apreendida somente em sua evanescência, ora o objeto é o próprio usuário, destituído, por aquele que conhece, da capacidade para enfrentar os seus problemas, com suas debilidades físicas e culturais; ora o objeto é o problema em-si, permanecendo nesse jogo a prevalência do objeto preso a forma. Redunda dessa dinâmica intelectiva a busca por novos objetos para o Serviço Social, ou por novas dimensões para a atuação do assistente social e, tanto pode ser caracterizado/justificado pela problemática quanto pelo procedimento ou estratégia de ação. A natureza difusa da questão social, as formas como a própria burguesia a compreende e a qualifica, a fragmentação e a necessidade da tradição positivista em precisar o objeto tendem a condicionar a abordagem profissional para delimitar o seu campo de atuação, e, em decorrência há a necessidade de destacar o objeto, o que é, e como se age em resposta a ele. Com base nessas referências, o exercício profissional justifica-se por meio da apreensão da realidade em sua singularidade,em face de uma problemática específica, singular, com a qual o assistente social, inserido em uma instituição determinada se confronta. Trata-se de um jogo escorregadio e sempre aparentará que os fundamentos histórico e teórico-metodológico são insuficientes. Essa dificuldade explicita-se, por exemplo, nas sistematizações da prática profissional dos assistentes sociais apresentadas em congressos e encontros da categoria. As entidades organizadoras de tais eventos estruturam a apresentação das experiências profissionais em várias temáticas e subtemáticas recortadas por políticas sociais setoriais, por segmento ou 170 faixa-etária populacional. Os eixos que contemplam a análise de complexos sociais como o Estado, a ideologia, e aqueles que tratam dos fundamentos teórico-metodológico, ético-políticos da profissão ou a discussão acerca dos grandes dilemas da sociedade brasileira e da humanidade, como a cidadania, a questão urbana e os direitos humanos, são tratados em conferências e em temáticas específicas. A reflexão que apreende as mediações, as determinações e as contradições entre o exercício profissional cotidiano e a dinâmica dos processos de produção e reprodução social restringem-se a um segmento do meio profissional. Parte das comunicações e artigos que abordam as experiências profissionais estruturam-se conforme o padrão constitutivo da cultura da racionalidade formal-abstrato. Nessa direção, as análises das experiências são sistematizações da prática profissional, segundo os elementos básicos de ordenação e organização formal das atividades: o objeto, os objetivos, a justificativa e problematização, a metodologia de ação − com destaque para o publico alvo, as metas, os recursos técnico-operativos, as atividades e os mecanismos de avaliação −, e a conclusão. Nessa perspectiva, o que se considera objeto de análise, o ponto de partida da narrativa da experiência, tanto pode ser uma das seqüelas da questão social, apreendida como uma problemática social dada a priori; ou uma estratégia de intervenção profissional, ou um procedimento técnico-operativo, ou a ênfase a um instrumento técnico-operativo, ou, ainda as regras normativas e legais das práticas sociais. Após a problematização da realidade, sempre com base em um objeto singular, em-si, um recorte da realidade, apresentam-se as proposições derivadas das experiências vivenciadas em diferentes espaços sócio-ocupacionais. A análise das comunicações apresentadas no XI Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais e III Encontro Nacional de Serviço Social e 171 Seguridade81, cujos títulos ou sub-títulos referem-se diretamente à prática ou atuação profissional82, evidencia a tendência de algumas abordagens reflexivas que enfatizam o procedimento. Nessas comunicações83 buscam-se novos modelos tecno-assistenciais, consideram-se a gestão como paradigma de intervenção, propõe-se a padronização de atribuições, normas e rotinas para a intervenção profissional, a expansão das funções e dos espaços sócio- ocupacionais, respaldando-se no marco jurídico-legal das políticas sociais, expõem-se experiências vinculadas à construção de estratégias de ação comprometidas com a politização no campo dos direitos sociais, relacionam-se o projeto ético-político e o trabalho profissional, sistematizam-se a atuação profissional no cotidiano, dentre outros. O ponto de convergência dessas análises é o reconhecimento de algumas demandas da classe trabalhadora que justificam o fazer profissional, que por sua vez, referenda-se no marco legal da profissão: o código de ética, a lei de regulamentação da profissão e as leis que regulam as políticas sociais. Averigua-se a intensa manipulação do marco legal para balizar a sistematização da prática profissional em diferentes e antagônicas visões de mundo, conduzindo à aparente indiferenciação da prática. Terminologias como construção da cidadania, inserção social, universalidade, justiça social, são utilizadas em proposições analíticas de campos teórico diferenciados e apreendidas parcialmente, enfatizando determinadas atribuições ou 81 O XI Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS), foi realizado na cidade de Fortaleza-CE, de 17 a 22 de outubro de 2004, organizado pelas entidades representativas da categoria – conjunto CFESS/CRESS, ABEPSS e ENESSO. Foram organizadas dezessete sessões temáticas. A definição das comunicações apresentadas no Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais como fonte de pesquisa decorre do significado, da importância e da legitimidade desse evento para a categoria. 82 Foram estudadas 65 comunicações apresentadas no XI CBAS, que analisam ou sistematizam a prática profissional (ação, atuação, processo de trabalho, intervenção, exercício), selecionadas conforme os títulos ou subtítulos e extraídas de todas as seções temáticas. Buscou-se averiguar os seguintes elementos: área de atuação, tema, concepção de Serviço Social, problematização, fundamentação teórica e principais autores de referência, proposições, prática profissional/ações, conceitos e dados empíricos, objetivos da prática. 83 Características da prática profissional identificadas nas comunicações orais apresentadas por Oliveira (2004); Ramos e Neves (2004) e França (2004). 172 determinados valores/princípios do código de ética da profissão ou das leis que regulam as políticas sociais. Manipuladas indistintamente, essas categorias justificam a prática profissional em qualquer direção sócio-histórica, servem a qualquer posição político-ideológica, a qualquer perspectiva teórico- metodológica. No interior da profissão, verifica-se a reprodução do fenômeno ideológico recorrente na sociedade: a utilização abundante dos mesmos termos nos discursos político-partidários, de direita ou de esquerda, de religiosos, empresários ou de líderes sindicais. A manipulação indiscriminada de termos categoriais evidencia-se mais claramente no campo das proposições, no qual se projeta a sociedade ideal sem a problematização do modo de ser da sociedade capitalista, suas contradições, seus antagonismos. A chave para averiguar o que está por detrás do discurso profissional é, pois, a apreensão do significado da profissão: a quem serve, como serve e qual projeto societário reforça. Semelhante ponderação deve, também, crivar a reflexão acerca do papel e do lugar dos instrumentais técnico-operativos no exercício profissional. Eles não têm um sentido em-si, mas ganham significado conforme a finalidade que direciona o processo de objetivação. Como se verificou anteriormente, o exercício de apreender criticamente o significado da profissão no movimento da totalidade das relações de produção e reprodução da sociedade capitalista, nas dinâmicas sócio-econômicas, políticas e culturais das relações entre as classes sociais tem precursores no âmbito do Serviço Social brasileiro. Nas sistematizações da prática profissional cujo discurso permeia-se pelo entendimento, é possível destacar a permanente busca por modelos prescritivos que homogeneízam as objetivações mediante a aplicação de esquemas, modelos de comportamento e de conhecimentos 173 aplicados ao cotidiano da prática profissional. Nesses esquemas, prevalecem a prática burocratizada e a repetitiva, as formas privilegiadas de reprodução da racionalidade formal-abstrata, cuja consciência atém-se ao entendimento. 2.4 A prática profissional burocratizada e repetitiva Entende-se que a burocratização e a repetição84 se complementam, ou que a repetição é característica da burocratização da prática e se dá a repetição, dentre outras determinações, pelas as exigências burocráticas. A repetição é uma característica das objetivações genéricas em- si e, enquanto tal, constitui um nível insuprimível da prática, masnão pode ser toda a prática. A burocratização ocorre quando determinados procedimentos práticos são solidificados, formalizados e repetidos mecanicamente. Segundo Coutinho (1972), com a burocratização ocorre o empobrecimento da ação humana, pois ela se desliga da realidade e de suas finalidades, reduzindo-se a simples objeto de manipulação e a posicionamentos acríticos. O caráter repetitivo da ação burocratizada “bloqueia o contato criador do homem com a realidade, substituindo a apropriação humana do objeto por uma manipulação vazia dos dados, segundo esquemas formais pré-estabelecidos”, esclarece Coutinho (1972, p. 27). A prática burocratizada abstém-se do questionamento acerca de suas finalidades, do conteúdo que ela apresenta, do conhecimento acerca da 84 Segundo Heller |(1991, p. 251) as atividades genéricas em-si são atividades reiteradas. “Una acción llevada a cabo una sola vez no es una acción perteneciente a la costumbre; un objeto manejado con éxito una sola vez, por casualidad, no adquiere por ello un significado concreto, una palabra pronunciada una sola vez no es una palabra. Por tanto, no se trata sólo de que, al igual que todo acción social, toda actividad, a través de un número mayor o menor de mediaciones, deba al final desembocar en la práxis social, sino también del hecho de que ésta debe ser repetible em su ser-así sea cual fuere y debe realmente ser repetida”. 174 racionalidade ou irracionalidade nela impregnada. Quando se busca descortinar a racionalidade subjacente a prática profissional pretende-se justamente descobrir o conteúdo e as finalidades a que servem essas práticas. Essa não é uma questão menor. A história da sociedade capitalista é simultaneamente a história do processo de racionalização das relações sociais, afirma Ianni (1995). Decorre, então, a necessidade permanente de compreender criticamente os caminhos da razão na modernidade. No próprio pensamento burguês, podem ser encontrados os argumentos para essa atitude crítica. Weber (1992), por exemplo, assinala a importância da legitimidade da dominação para a manutenção do espírito capitalista. Segundo Weber (1992, p. 349), a legitimação dá-se perante a dominação, definida como a probabilidade de encontrar obediência a uma determinada ordem, [que] pode ter o seu fundamento em diversos motivos de submissão; pode ser determinada diretamente de uma constelação de interesses, ou seja, de considerações racionais de vantagens e desvantagens (referentes a meios e fim) por parte daquele que obedece, mas também pode depender de um mero costume , ou seja, do hábito cego de um comportamento inveterado; ou pode, finalmente, ter o seu fundamento no puro afeto, ou seja na mera inclinação pessoal do dominado. Para Weber (1992), a dominação fundamenta-se em três bases de legitimação: legal85, tradicional e carismática. No marco da dominação legal, o 85 Ianni (1995) utiliza as expressões dominação racional ou dominação racional legal. Conforme o autor, com freqüência, a dominação racional está convivendo com a dominação tradicional e a dominação carismática. 175 tipo mais puro é a dominação burocrática. A obediência advém da regra estabelecida, decretada. Nesse jogo de dominação, na concepção weberiana, cada um tem o seu papel, mas todos eles são estabelecidos pelas regras, pelos estatutos sancionados. De acordo com as regras, alguns mandam, outros obedecem, movidos pela disciplina, pela competência conforme a utilidade objetiva e as exigências profissionais estipuladas. A dominação legal convive com a dominação tradicional (baseada nos usos e costumes) e a carismática (que se conforma às prescrições estabelecidas pelo líder). Nesses termos, a burocracia influencia e é influenciada por um padrão de racionalidade e se encontra no mercado, no Estado, nos sindicatos, nos partidos políticos, enfim, em todas as instituições. Para que esse padrão de racionalidade se legitime, a fim de manter-se a dominação, o direito desempenha papel fundamental, codificando as normas, estabelecendo as responsabilidades e os procedimentos, estipulando os parâmetros das ações e as relações das profissões, das instituições e organizações. Os fundamentos econômicos que imperam no mercado, na empresa capitalista impõem, por meio da vigência do contrato, “um tipo eminente da relação de dominação legal”, assinala Weber (1992, p. 351). Nesse entrecruzamento, a perspectiva weberiana encontra o parentesco sociológico da dominação legal com o moderno domínio estatal, manifestado claramente, segundo o autor, ao se examinarem os seus fundamentos econômicos. Dessa forma, o sentido da dominação legal que se efetiva mediante a burocratização das relações sociais encontra-se no processo de racionalização, o elemento inerente à ordem do capital e que constitui a própria cultura do capitalismo. A premissa mais geral para a existência do capitalismo, conforme a perspectiva weberiana, é a contabilidade racional do capital como norma para todas as grandes empresas lucrativas, que devem se 176 apropriar não somente dos bens materiais de produção, mas de técnicas racionais contabilizáveis e do direito calculável. Para esse padrão de racionalidade, o princípio da quantidade é preponderante e encobre as mediações e as contradições que permeiam as relações de produção, como, por exemplo, a quantificação do valor do salário que regula as bases legais de compra e venda da força de trabalho valendo-se da falsa premissa de que existe nessa relação a igualdade e a liberdade. A prevalência do princípio da quantidade, em detrimento da qualidade, generalizado na esfera do cotidiano conduz à dinamização das práticas sociais visando os fins e os valores determinados pela produtividade, eficácia e calculabilidade, pela contabilidade sistemática, rigorosa e mecânica. Antecede essa prática a mensuração das probabilidades dos ganhos e perdas, erros e acertos, vantagens e desvantagens de forma automática. A burocratização é um instrumento fundamental que engendra o padrão de racionalidade necessário para a legitimação e manutenção da dominação, sendo decisiva para a naturalização dos fenômenos e dos processos sociais. A assimilação de normas, regras, procedimentos, ações, responsabilidades e valores da economia capitalista86, por meio da 86 A perspectiva weberiana concebe a interdependência entre a ética econômica das religiões e as formações econômico-sociais, afirmando a prioridade do fator cultural. No contexto do capitalismo imperialista, no período anterior a primeira guerra mundial, quando “a sociologia já havia abandonado a pretensão de ser herdeira da filosofia da história ou da filosofia enquanto ciência universal (...) e se converte cada vez mais em uma disciplina especial e limitada”, afirma Lukács (1976, p. 485). A refutação em relação ao marxismo ocorre de forma mais sutil, dentre outras razões, em decorrência da força do movimento operário. Na Alemanha, a ideologia burguesa toma do marxismo alguns elementos aceitáveis para fortalecer o movimento reformista no seio da social-democracia e do revisionismo teórico e prático, que objetivava a liquidação da luta de classes. O campo da sociologia, assinala Lukács (1979, p. 487), segue mantendo com a mesma energia a luta contra o materialismo, contra a prioridade do ser social, contra o papel determinante do desenvolvimento das forças produtivas. O metodologismo relativista a que conduz o neokantismo, porém, “introduz na sociologia burguesa certas formas abstratas de interdependência entre a base e a superestrutura”. Segundo Lukács (1979 a), o problema central da sociologia alemã no período do imperialismo de entreguerras consisteem encontrar uma teoria para explicar o nascimento e a natureza do capitalismo mediante uma concepção teórica própria. Para os sociólogos alemães, a teoria marxiana da acumulação originária, que separa os trabalhadores dos meios de produção era um escândalo. A concepção de Marx Weber (1864-1920) propõe explicar porque o capitalismo surgem somente na Europa e busca captar a essência específica do capitalismo moderno e relacionar o seu nascimento na Europa com as 177 burocratização das práticas sociais, garante o controle e a manutenção do sistema. Levado, ao extremo, a racionalidade formal-abstrada, designada por Weber (1992) como racionalidade ocidental ou racionalidade instrumental, combinada com o capitalismo protestante, torna-se, na concepção desse autor, uma força irresistível conduzindo ao desencantamento do mundo, no qual, tudo se sujeita ao cálculo racional. A força irresistível que submete a vida social ao cálculo racional, para Weber (1992), não se encontra no desenvolvimento das forças produtivas, a prioridade não está nas determinações econômicas, mas na força espiritual da racionalidade instrumental. Mesmo se sustendo em uma inversão de valores, essa matriz teórico-metodológica vinculada ao pensamento da burguesia expõe a funcionalidade da burocratização à ordem do capital. No entanto, a prática burocratizada serve também para que a consciência imediata do profissional que a reproduz acriticamente experimente uma sensação de segurança em relação ao seu exercício profissional, que é apenas uma falsa sensação. Em meio às permanentes crises inerentes ao movimento cíclico da economia capitalista a consciência imediata elabora, conforme Coutinho (1972), um diverso sentimento do mundo, sobre o qual constrói expressões ideológicas sistemáticas. De acordo com o período histórico, de crise ou de estabilidade relativa, o sentimento do mundo, elaborado pela consciência imediata, pode experimentar, diante do real, a sensação de angústia ou de segurança, preponderando diante delas as posições filosóficas irracionalistas ou agnóstico-formalistas. O conceito de segurança, assinala Coutinho (1972, p. 50), tal como é formulado pela cultura da burguesia, diferenças existentes entre o desenvolvimento ético-religioso do oriente e do ocidente, deseconomizando e espiritualizando a essência do capitalismo, assinala Lukács (1979 a). 178 liga-se estreitamente à limitação imposta pela economia capitalista à plena expansão da personalidade humana. Somente submetendo-se às “normas” e regras socialmente impostas, tornando-se um conformista, pode o indivíduo experimentar uma sensação de segurança e de estabilidade num mundo objetivamente assolado por contradições. Em um mundo permeado pela incerteza, a sensação de segurança vincula-se diretamente à burocracia, ou seja, ao “modo pelo qual uma vida segura submete-se aos princípios do formalismo pseudo-racional e aos valores burocráticos da eficácia profissional” , afirma Coutinho (1972, p. 50, grifos do autor). A prática burocrática obedece às normas, às regras, aos procedimentos, às ações formalmente estabelecidas. O conteúdo apresenta-se escamoteado pela forma. Segundo Vázquez (1968), o traço mais característico da prática burocratizada é a formalização, isto é, a forma pré-existe ao conteúdo e se repete infinitamente, convertendo-se em lei a priori, naturaliza-se. Ao cumprir as leis, as normas, as regras estabelecidas para a implementação de políticas sociais, efetivadas por meio de programas e de projetos, o assistente social, conduzido pela sensação de segurança, pretende atingir a eficácia balizada pelos parâmetros da racionalidade formal-abstrata. A consciência imediata que elabora o sentimento do mundo não permite desocultar as contradições existentes na realidade, ela é determinada pela racionalidade formal que impregna a prática profissional. Por outro lado, as leis e as normas podem refletir também os avanços e as conquistas da classe trabalhadora, das forças democráticas. A Constituição brasileira de 1988 (BRASIL, 1988), contém em suas proposições avanços importantes relacionados aos direitos sociais conquistados por meio 179 da organização dos movimentos sociais. Paradoxalmente, nesse mesmo período, em decorrência da crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, o mundo capitalista caiu em uma longa e profunda recessão, “combinando, pela primeira vez, baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação”, como assinala Anderson (1995, p. 10). Nesse contexto de crise, a doutrina e a ideologia neoliberal87 apresentaram-se como alternativa ao Estado do bem- estar social. Conforme as premissas neoliberais, o combate à inflação, a retomada do crescimento econômico e das taxas de lucros seriam garantidos por meio da estabilidade monetária. Para isso, afirma Anderson (1995, p. 11), seriam necessárias, segundo os preceitos neoliberais, as reformas fiscais e “uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com bem-estar, e a restauração da taxa ‘natural’ de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos”. Nesse contexto, o marco legal88 das políticas sociais passou a constituir uma importante ferramenta para garantir e viabilizar os direitos sociais em uma conjuntura regressiva. Na década de 1990, conjuntura de avanços da implementação de medidas neoliberais, segundo o receituário do Consenso de Washington e controladas pelas agências financeiras multilaterais (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial), implementou-se no Brasil o projeto liberal-social da contra-reforma do Estado, como afirma Behring (2003). Tais medidas implicaram a desregulamentação das políticas sociais, as 87 O neoliberalismo “nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar. Seu texto de origem é O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek, escrito já em 1944. Trata- se de um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado, denunciadas como uma ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política” (ANDERSON, 1995, p. 9). 88 Vasconcelos (2003) identificou, em sua pesquisa com assistente sociais vinculados às instituições que prestam serviços sócio-assistenciais na área da saúde, que 21,6% dos profissionais entrevistados desconhecem a texto da Constituição e, portanto, não fazem a relação entre os direitos e deveres dos cidadãos e do Estado e a prática profissional. Para 8% dos profissionais entrevistados, constata Vasconcelos (2003), “a Constituição não tem valor para a prática dos assistentes sociais88” (p. 249). Para desenvolver a prática profissional, esse segmento julga não ser importante o conhecimento relativo aos condicionamentos e às determinações que incidem e na prática profissional e as instrumentalizam. 180 transferências das responsabilidades públicas estatais para as organizações sociais e a focalização do atendimento. Averigua-se, nas descrições da prática profissional dos assistentes socais brasileiros dois posicionamentos políticos em face dessa realidade. Enquanto um segmento aderiu de forma acrítica ao projeto liberal- social, implementando mecanicamente as medidas de cunho neoliberal no âmbito das políticas sociais, restringindo o atendimento às demandas emergenciais e focalizadas, outro segmento estabeleceu a crítica teórico- prática radical à essas diretrizes. Na direção da focalização do atendimento de demandas da classe trabalhadorareconhecidas pela burguesia e pelo Estado, os critérios e os mecanismos de controle norteadores dos programas sociais tornaram-se fontes de balizamento da prática profissional, demarcando os seus limites, determinando o quê e como fazer. A gestão e o controle das políticas e dos programas sociais emolduram-se em formas preestabelecidas e delimitam os critérios de elegibilidade, a utilização dos recursos, o tempo de inserção nos programas sociais, as responsabilidades das esferas governamentais, dentre outros. Os condicionamentos para o exercício profissional ganham agora o status jurídico-legal, dando à prática burocratizada, restrita ao estabelecidos pelas normas e rotinas, a sensação de segurança. Em outras palavras, para a prática burocratizada, as condições reais do segmento da classe trabalhadora que necessita acessar as políticas sociais são irrelevantes diante das leis, das normas instituídas. Em relação ao conteúdo, no discurso dos próprios profissionais cuja prática se desenvolve privilegiando a burocracia instituída e observa-se a ausência de referências às determinações e aos condicionamentos sócio- históricos da prática e que delimitam as possibilidades para a intervenção profissional. 181 Assim, a prática burocratizada e repetitiva é descrita pelo segmento de assistentes sociais que restringe o exercício profissional a esse paradigma, como aquela que se atém ao cumprimento de rotinas e procedimentos, ao trâmite dos procedimentos e das regras estatuídas. A característica dessa prática é o cumprimento fiel das responsabilidades, atribuições, atividades, tarefas designadas ao assistente social na execução de programas no âmbito das políticas sociais. Na execução dos programas de renda mínima89, por exemplo, pode-se identificar a presença da prática profissional burocrática. Tais programas são instituídos por leis específicas e são previstos os critérios que constituem as exigências para a inserção dos trabalhadores, como a renda familiar e o tempo de inserção. Essas regras seguem os preceitos neoliberais, segundo os quais os investimentos sociais devem alcançar os segmentos da classe trabalhadora que vive em situação de pobreza absoluta sem, contudo, configurar um direito social permanente. Ao seguir fielmente as prescrições, o assistente social passa a ser, também, o agente fiscalizador da pobreza. Mesmo quando se constata haver trabalhadores que, pelas condições desumanas a que foram submetidos, necessitariam da proteção permanente e não temporária do Estado, cumprem- se as regras preestabelecidas em detrimento das necessidades humanas reais. O aspecto formal prevalece sobre o conteúdo real. 89 Pesquisa realizada em Goiânia, em 2001, para aferir o impacto do programa de renda mínima nas condições de vida das famílias inseridas nesse programa em 1998, constatou que os assistentes sociais cumpriam rigorosamente os critérios de inserção/desligamento (exclusão) instituídos pela Lei municipal n. 7.691 de janeiro de 1997, bem como suas bases de funcionamento e a normatização de procedimentos (COELHO; et.al., 2002). Ao cumprirem rigorosamente os parâmetros estabelecidos, os assistentes sociais responsáveis pela execução do programa atuavam como agentes fiscalizadores e repressores. Essa pesquisa evidenciou , dentre outros aspectos, que a utilização do subsídio financeiro era rigorosamente controlada, mensalmente, com aplicação da punição do desligamento para aqueles que não comprovassem os gastos e o desligamento/exclusão das famílias em situação de pobreza absoluta que necessitavam permanecer no programa era automático. A prática imediata é reprodutora dos malefícios advindos das relações de produção e reprodução social na sociedade capitalista e a sua adesão mecanicista à essa lógica chama a atenção por sua perversidade diante de situações extremas de desumanidades. 182 No cumprimento das atribuições preestabelecidas conforme os programas e projetos, as atividades instituídas desdobram-se em rotinas e em procedimentos institucionais. Ao cumprir de forma acritica os procedimentos e as rotinas, a prática profissional guiada pelo imediaticidade nega ou desconhece as determinações, as contradições e as mediações sócio-históricas que emergem das relações de produção e reprodução social que os homens estabelecem entre si e com a natureza e as condições materiais de existência dos homens que conduzem ao próprio trabalho do assistente social. A acomodação e o conformismo advindos da prática burocratizada estão presentes no discurso do profissional que se guia pelo formalismo. As possibilidades para o desenvolvimento de uma prática criadora são relativizadas, argumentando-se que o exercício profissional não dispõe de espaço e nem de força para provocar alterações naquilo que se encontra instituído, passando a negar a própria profissão ou os fundamentos históricos, teórico-metodológicos, ético-políticos e técnico-operativos do Serviço Social. Percebe-se que, mais uma vez, a forma nega o conteúdo. Iamamoto ( 2002, p. 115) caracteriza essa prática profissional como fatalista, pois se inspira em análises que naturalizam a vida social e traduzem “uma visão perversa da profissão”. Tal prática pode justificar-se, ainda, em decorrência da atrelagem ativa às exigências do mercado de trabalho, quando a prática profissional adere ao discurso e aos interesses do capital, à sua ideologia, aos seus valores e às suas estratégias de produção. Nessas circunstâncias, o mercado de trabalho, assim como o mercado de capitais, tende a ser tomado como um ser onipresente e onisciente, acima do bem e do mal, por um segmento do meio profissional. Os mercados são instituições centrais na economia capitalista, assim como o Estado e as empresas, nos quais se encontra o poder de competição. Essa 183 competição, como formulou Marx (1988), ocorre entre os capitais e, também, entre os trabalhadores na luta pelo emprego e pelos espaços sócio- profissionais, e acirra-se pela tendência inerente ao movimento do capital: a economia do trabalho vivo. Os relatos de experiências da prática profissional vinculada ativamente às necessidades do mercado de trabalho têm dupla característica que se interligam. A primeira refere-se à funcionalidade do serviço social como profissão no processo produtivo no campo das estratégias de motivação dos trabalhadores para o aumento da produtividade, e a segunda, relaciona-se à adesão e à defesa das expressões ideológicas sistemáticas que consideram como imperativos categóricos as necessidades do mercado de trabalho, de forma independente. A prática profissional com tais características desenvolve-se em espaços sócio-ocupacionais empresariais, em instituições vinculadas à indústria e ao comércio e em empresas estatais. As transformações ocorridas na sociedade capitalista, fundamentalmente aquelas relacionadas ao mundo do trabalho na conjuntura posterior à crise de 1973, conformam o pano de fundo, e são apresentadas como novos paradigmas de pensar e de agir (SILVA, 2003), cabendo ao profissional o papel de empreendedor social, que capta as oportunidades do mercado e, com apurada visão de futuro, transforma-as em bons negócios, com a participação ativa na criação e consolidação de novos modelos tecno-assistenciais (FRANÇA, 2004) e capacidade para reposicionar o Serviço Social nas instituições, empreendendo mudanças tecnológicas e de gestão (SILVA, 2003). Nessa perspectiva, o fundamento metodológico da prática profissional assenta-se no planejamento estratégico de gestão, que segundo Silva (2003, p. 28), pressupõe “a análise do ambiente e do sistema organizacional, a elaboração de filosofias e políticas, definição de objetivos, 184 desenvolvimento de estratégias, implementação e controle”. Osargumentos justificadores para o reposicionamento do Serviço Social sinalizam a intenção de superar a representação histórica da profissão voltada para a resolução de problemas e atendimento a situações emergenciais individuais de caráter assistencialista. Porém, segundo essa perspectiva, os chamados clientes do Serviço Social permanecem as pessoas, agora nos diversos níveis da empresa, tornando o assistente social em consultor interno, como aponta Silva (2003, p. 25): A atuação, como consultor interno, permitirá ao assistente social personalizar a sua prestação de serviços, a partir do conhecimento das especificidades de cada área; preparar os gestores para a atuação no âmbito do social e assessora-los no desenvolvimento das ações. Os clientes individuais, gestões, empregados e dependentes serão constantemente estimulados a usarem as suas potencialidades, a reverem a sua auto-estima e a exercitarem a sua autonomia. A prática burocratizada vinculada às necessidades do mercado referenda-se no discurso da busca de qualidade (das condições de produção, do desenvolvimento humano, da qualidade de vida no trabalho visando o aumento da produtividade) e da participação ou colaboração/cooperação (nas formas de gestão dos serviços e atividades). O objetivo final é o aumento da produtividade e, por conseguinte, do lucro. De acordo com essa lógica, o assistente social deve adquirir a habilidade para vender a sua força de trabalho como qualquer outra mercadoria, aproveitando todas a oportunidades, utilizando as estratégias de marketing para a comercialização da sua mercadoria. O mercado de trabalho contém os imperativos categóricos, o 185 dever-ser que determina a vontade e a ação do profissional. “O assistente social na empresa de qualidade total tem que ser eficiente e sua ação deve mostrar resultado”, sintonizado com as novas tendências, como afirmam Herrera e Mancini (2003, p. 115). A escolha que o profissional pode fazer, conforme a compreensão de Herrera e Mancini (2003, p. 115), é definir uma tendência para se agrupar no mercado de trabalho: Tradicional-conservador continua realizando o seu trabalho social/benefício. Moderno-conservador vai incorporar o discurso da qualidade total junto à empresa e buscar a modernização, estudando e mudando da área de benefício para área de Recursos Humanos como um todo; Moderno-progressista entende que a qualidade total é irreversível e a globalização inevitável. Logo, a mudança ocorrera, mas não abre mão de um projeto, um compromisso ético-político; defende os trabalhadores na conquista dos direitos; é crítico e inconformado. A adesão ao sistema de gestão da força de trabalho da qualidade total, dos círculos de controle de qualidade, da pseudo gestão participativa que contribuem para intensificar a exploração do trabalho vivo no universo da produção não se apresenta, nesse posicionamento, como contraditória e antagônica aos direitos e aos interesses dos trabalhadores. Esse discurso remete a uma representação da profissão e a um posicionamento político segundo o qual poder-se-ia servir simultaneamente a dois senhores, a dois projetos societários que são em-si e para-si antagônicos. O objetivo da gestão da qualidade total é substituir, na dimensão ideo-política, a luta de classe pela colaboração entre as classes sociais. 186 A prática burocratizada e repetitiva, portanto, não está destituída de valor, de pressupostos teórico-metodológicos, de posicionamentos ético-políticos, enfim de concepção de mundo. Nas instituições nas quais se inserem os assistentes sociais, a racionalidade formal-abstrata permeia os processos burocráticos, formalizados por meio de leis, regras, normas e procedimentos. Quando se adere acriticamente a esses processos, reproduzidos pela prática burocrática e repetitiva, reforçam-se as estruturas jurídico-legais e organizacionais da sociedade capitalista. Quando os processos burocráticos organizacionais são considerados fenômenos naturais e, portanto inevitáveis, reforça-se o projeto da sociedade hegemônica. Netto (1996, p. 154) identifica, no processo de renovação do Serviço Social brasileiro, a direção que busca adequar a profissão, como “instrumento de intervenção inserida no arsenal de técnicas sociais a ser operacionalizado no marco de estratégias de desenvolvimento capitalista” como perspectiva modernizadora. Essa perspectiva emergiu desde o encontro de Porto Alegre, em 1965, firmou-se no seminário de teorização do Serviço Social realizado no município de Araxá90, Minas Gerais, organizado pelo Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais (CBCISS), em 1967, que se desdobrou em um segundo seminário realizado em 1970, em Teresópolis, Rio de Janeiro. Segundo Guerra (1999, p. 168), essa perspectiva orientada pela racionalidade formal-abstrata atribui aos instrumentos e técnicas de intervenção “um status superior àquele que é dado aos demais componentes da prática profissional, transformando o que é assessório em essencial”. Ao 90 Convidados pelo CBCISS, reuniram-se em Araxá, 38 assistentes sociais, “com o objetivo de teorizar sobre o Serviço Social face à realidade brasileira” (CBCISS, 1970, p. 5). Entre 10 e 17 de janeiro de 1970 em Teresópolis, foi realizado o segundo seminário com o objetivo de estudar os fundamentos da metodologia do serviço social, a concepção científica da prática do Serviço Social e a aplicação da sua metodologia. 187 limitar o exercício profissional ao domínio de instrumentais e técnicas de intervenção, o profissional reproduz acriticamente a função operativa que cabe ao assistente social na divisão social e técnica do trabalho, respondendo de forma imediata às expressões da questão social. No processo de renovação do Serviço Social brasileiro, a perspectiva modernizadora expressa o compromisso e o realinhamento da prática profissional às novas atribuições requeridas pelo capital. No contexto do período desenvolvimentista, no momento mais crítico do regime ditatorial, essa perspectiva propôs rever a funcionalidade da profissão. O foco dessa revisão é o Serviço Social tradicional que, circunscrito ao atendimento de problemáticas singulares e individuais, precisava adequar-se à modernização tecnocrática para ampliar as suas atribuições tradicionais, dotando-a de recursos técnicos para intervir na área da administração e planejamento dos serviços sociais. Netto (1996, p. 155) ressalta que se o desenvolvimento dessa perspectiva revela um feixe de profundas vinculações com a ordem sociopolítica oriunda do golpe de abril − muito visivelmente, com a abertura de espaços socioprofissionais nas instituições e organizações estatais e paraestatais, submetidas à racionalidade burocrática das reformas promovidas pelo Estado ditatorial −, sua emergência como que antecipa o padrão de profissional que o Estado “reformado” pela coalizão exigira nos anos seguintes. No auge do processo de afirmação dessa perspectiva, ao final da década de 1960, o Serviço Social era concebido, conforme consta no documento de Araxá, como “disciplina de intervenção na realidade social, constituída por um 188 conjunto de conhecimento e técnicas” (CBCISS, 1986, p. 19). Tais conhecimento e técnicas, de acordo com essa tendência, vinculam-se aos objetivos, aos papéis, às funções e à metodologia de ação do Serviço Social. O conhecimento relativo à prática e à sua sistematização elevaria o Serviço Social ao status de ciência. A legitimidade da profissão, segundo a perspectiva modernizadora, vincula-se ao desenvolvimento de um padrão de cientificidade caucionado pela experiência empírica dos assistentes sociais que, devidamente sistematizados, cria os modelos de intervenção e os conhecimentos necessáriospara a prática profissional. A descrição da prática profissional nessa perspectiva revela a preocupação em relação à forma, aos procedimentos de ação, ao domínio de recursos técnico-operacionais e mantém-se sempre aberta às diferentes concepções teóricas vinculadas ao pensamento da burguesia. A abertura para a assimilação de diferentes concepções teóricas no campo do pensamento da burguesia, mesmo que realizada de forma lateral, imprime aparentemente um caráter renovador a essa perspectiva: ora vincula-se ao estrutural-funcionalismo, ora ao neopragmatismo, ora às teorias sistêmico-organizacionais, sempre acompanhando o mundo da produção, a lógica do mercado, sempre restrita à apreensão da realidade com base em suas expressões fenomênicas, em sua imediaticidade. O caráter renovador, modernizador, que se busca imprimir à profissão, de acordo com essa perspectiva, circunscreve-se ao domínio de modelos prescritivos e técnicas de manipulação de variáveis empíricas aplicáveis ao cotidiano da prática profissional. O desafio, pois, consiste em compreender os elementos que conformam o processo de objetivação na cotidianidade e resgatar o caráter social da imediaticidade, em que se ocultam as largas mediações absorvidas pela sociedade e se encontram as 189 possibilidades para que, objetiva e subjetivamente, ocorra o processo de superação do entendimento para a razão dialética. Outro desafio fundamental é o esclarecimento necessário acerca da dialética idealista hegeliana − que firma o progresso de abstração da realidade por meio da consciência − e da dialética materialista marxiana no qual há a unidade do diverso e as determinações abstratas correspondem à reprodução do concreto por meio do pensamento. 190 CAPÍTULO III – RAZÃO DIALÉTICA IDEALISTA E A RAZÃO HISTÓRICO-CRÍTICA: COTIDIANO E IMEDIATICIDADE Mas o homem não é apenas ser natural, mas ser natural humano, isto é, ser existente para si mesmo (für sich selbst seiendes Wesen), por isso, ser genérico, que enquanto tal, tem de atuar e confirmar-se tanto em seu ser quanto em seu saber” (MARX, 2004, p. 128). Neste estudo relativo à imediaticidade procurou-se, nos capítulos anteriores, descrever as formas e as características da prática profissional dos assistentes sociais quando o movimento da consciência se atém à aparência do fenômeno. Para tanto, percorrendo o movimento dialético que a consciência exercita sobre si mesma, tanto em seu saber como em seu objeto, buscou-se evidenciar o processo de supra-sunção da consciência do estágio da certeza sensível para a percepção e da percepção para o entendimento, ocorrido por meio da negação e da superação. A forma como a consciência conhece a realidade é sempre processual e aproximativa, e as determinações reflexivas hegeliana representam o caminho que o sujeito cognoscente percorre, partindo do imediato, para chegar ao saber absoluto. A exposição do caminho percorrido pela consciência em busca do saber, exercitando tanto o conhecimento sobre si mesma quanto sobre o seu objeto revela a imediaticidade como uma categoria reflexiva determinante para a consciência no estágio da certeza sensível, da percepção e do entendimento, quando ainda não ocorreu a supra-sunção para a razão e, na concepção hegeliana, desta para o saber absoluto. Tal qual como se explicitou o movimento da consciência em seu processo de supra-sunção nos estágios vinculados ao reino da aparência 191 buscar-se-á, a seguir, averiguar como a consciência em-si suprassume-se para o nível da consciência para-si, isto é, como ocorre o movimento de superação da consciência do estágio do entendimento para a razão no âmbito da dialética idealista hegeliana e como essa razão efetivada torna-se o espírito universal. A razão idealista concebida por Hegel (2001) apreende a substância universal como resultado do próprio movimento da consciência. Para a razão histórico- crítica, a substância do mundo resulta das relações que os homens estabelecem com a natureza e entre si, tendo em vista a satisfação das necessidades humanas. Assim, para demarcar as diferenças entre essas duas concepções, buscar-se-á, também, abordar os fundamentos ontológicos do materialismo histórico-dialético, que apreende o movimento da realidade em sua totalidade contraditória e suas conexões com o cotidiano e a imediaticidade. 3.1 Razão na dialética idealista hegeliana A consciência no estágio do entendimento apreende as propriedades do objeto em relação a forma e ao conteúdo explicitadas em leis que refletem o fenômeno como fenômeno − a cópia imediata do mundo percebido ou a aparência da essência. Ao final desse percurso, a consciência encontra a si mesma e, atrás da aparência aparece o sujeito que conhece, ocorre a superação91 do entendimento. A consciência descobre que a essência das coisas é a autoconsciência, o mundo é a realização da autoconsciência do homem, da consciência-de-si que encontrou o conceito das coisas. Hegel (2001) então explicita a sucessão de experiências da consciência-de-si, em situações 91 Superação está sendo empregada no sentido da supra-sunção, que significa “a um só tempo, a eliminação, a conservação e a sustentação qualitativa do ser que supra-sume” (Ranieri, 2004, p.16). 192 históricas efetivas por ela forjadas, conduzindo-se processualmente para a supra-sunção do estágio do entendimento para a razão e adentrando ao mundo verdadeiro do saber absoluto − o reino da essência. No presente capítulo, busca-se descrever o movimento da consciência no estágio da razão e, como no pensamento hegeliano, o conhecimento apreende o objeto. A consciência-de-si, nesse caminho, é impulsionada pelo desejo dos objetos e descobre que o ponto de repouso de sua satisfação é uma outra consciência-de-si92, formando uma conexão de dependência e, ao mesmo tempo, independência entre si, explicitada por Hegel (2001) na relação de dominação/escravidão entre o senhor e o escravo e a luta pelo reconhecimento. Essa luta implica arriscar a vida para conquistar a liberdade mas, se uma consciência-de-si somente se reconhece perante outra consciência-de- si há que se estabelecer o consenso por meio da razão. A atitude negativa ante o ser-outro converte-se em uma atitude positiva. A consciência-de-si, até agora, só se preocupava com sua independência e sua liberdade, a fim de salvar-se e conservar-se para si mesma, às custas do mundo ou de sua própria efetividade [já] que ambos lhe pareciam o negativo de sua essência. Mas como razão, segura de si mesma, a consciência-de-si encontrou a paz em relação a ambos; e pode suportá-los, pois está certa de si mesma como [sendo] a realidade, ou seja, está certa de que toda a efetividade não é outra coisa que ela (HEGEL, 2001, p. 153). 92 Consciência-de-si é razão, porém, afirma Hegel (2001, p. 153) “a consciência-de-si não é toda a realidade somente para si. Segue-se, então, a problematização dos obstáculos que se interpõem para a consciência-de-si que é pura abstração do Eu, o ceticismo e a consciência infeliz imutável. 193 Hegel (2001) evidencia que esse pensamento é apreendido pela consciência singular, que retorna a si mesma e denomina esse movimento de certeza e verdade da razão. Para a consciência-de-si, “seu pensar é imediatamente, ele mesmo, a efetividade; assim comporta-se em relação a ela como idealismo” (HEGEL, 2001. p. 153). A consciência que afirma ser toda a verdade deixa para trás esse caminho e o esquece ao surgir imediatamente como razão, assinala o filósofo. O endereço dessa crítica é o idealismo alemão anterior ao seu pensamento que anuncia a unidade simples da consciência como sendo toda a realidade. Para superar essaunidade simples Hegel (2001) estabelece as mediações entre o Eu e o Nós, entre o singular e o universal. Tais mediações recuperam, no âmbito da razão, o movimento que se inicia com o visar e o perceber dos estágios da certeza sensível e da percepção, mas agora, em outro patamar, ou melhor, contendo já o elemento da superação impulsionada pela negação. Hegel (2001, p. 158) assim explicita esse caminho da consciência, então impregnada pelas propriedades da razão que conecta o singular e o universal, adentrando de novo o visar e o perceber que se suprassumiram só para nós, são agora suprassumidos da consciência para ela mesma. A razão, pois, parte para conhecer a verdade, para encontrar como conceito o que era uma coisa para o “visar” e o perceber, isto é, para ter na coisidade somente a consciência de si mesma. Nesse momento, o que impulsiona a razão é o interesse universal pelo mundo, qualificado por Hegel (2001) como razão observadora, na qual, a consciência retorna às coisas para tomá-las como coisas sensíveis opostas ao 194 Eu. No entanto, a razão conhece as coisas e as transforma em conceitos, afirma que elas só têm verdade como conceito. Para explicitar o movimento da razão observadora, Hegel (2001) apreende a dinamicidade contraditória da natureza, do espírito e a relação entre ambos em forma de ser sensível, evidenciando a mediação entre a singularidade e a universalidade, indivíduo e gênero. Segundo a concepção hegeliana, a natureza orgânica não tem história. O indivíduo universal da natureza orgânica é a terra, que age como negatividade universal contra o sistematizar do gênero, que se divide em espécies e se efetiva apenas como individualidade singular. Conforme Hegel (2001, p. 190), a natureza orgânica não tem história: de seu universal − a vida − precipita-se imediatamente na singularidade do ser-aí; e os momentos unificados nessa efetividade − a determinidade simples e a vitalidade singular − produzem o vir-a-ser apenas como o movimento contingente, no qual cada um desses momentos é ativo em sua parte, e no qual o todo é conservado. Porém essa mobilidade é para si mesma, limitada somente a seu [próprio] ponto, porque nele o todo não está presente; e não está presente porque aqui não está como todo para si. A universalidade da vida orgânica em sua efetividade precipita-se para o extremo da singularidade e, como a razão observadora não pode ir além desse imediato, limita-se às relações aparentes “das indicações adequadas, das relações interessantes, das deferências ao conceito” (HEGEL, 2001, p. 190). A consciência de-si é razão e só encontra o conceito livre, cuja universalidade contém em si mesma a singularidade desenvolvida, no próprio conceito existente como conceito, diz Hegel (2001). A observação da 195 consciência de-si verificará, por outro lado, que o conceito livre não se encontra nas leis psicológicas93, que são leis do puro pensar, mas ao procurá-lo nesse retorno a si mesma abre-se espaço para a efetivação da consciência de- si racional por meio de si mesma, a razão ativa. Os entrelaçamentos entre os aspectos lógicos, gnosiológicos e ontológicos vão se evidenciando no sistema hegeliano. A explicitação do caminho que conduz ao conhecimento sustenta-se em argumentos ontológicos que relacionam o papel da consciência á dinâmica de interiorização e exteriorização, à particularidade e universalidade do agir e dos atos94 humanos. Nesse processo, o trabalho e a linguagem são, para Hegel (2001, p. 198), “exteriorizações nas quais o indivíduo não se conserva nem se possui mais em si mesmo; senão que nessas exteriorizações faz o interior sair totalmente de si, e o abandona a Outro”. A exteriorização é o ato pelo qual uma efetividade separa-se do indivíduo. Ao explicitar esse processo de exteriorização, Hegel (2001) diferencia o agir e o ato, concebendo que o homem é originariamente o seu próprio destino, manifestação e efetivação do em-si da individualidade. Diferentemente da natureza, o indivíduo não fica mudo em seu agir exterior ou em relação a ele, pois, segundo Hegel (2001, p. 202), esse agir “é ao mesmo tempo refletido, sobre si, e exterioriza esse ser-refletido sobre si. É o agir teórico − ou a linguagem do indivíduo consigo mesmo sobre seu 93 “A psicologia contém grande número de leis, segundo as quais o espírito se comporta diversamente para os diversos modos de sua efetividade − enquanto essa efetividade é um ser-outro encontrado. Tal comportamento consiste, por uma parte, em acolher em si mesmo esses modos diversos, em adaptar-se ao que é assim encontrado: hábitos, costumes, modos de pensar, enquanto o espírito é neles objeto para si mesmo como efetividade. Mas, por outra parte [esse comportamento consiste] em saber-se [atuando] espontaneamente frente a eles, a fim de retirar para si, dessa efetividade, só algo especial segundo a própria inclinação e paixão, e, portanto, em adaptar o objetivo a si mesmo. No primeiro caso, o espírito se comporta negativamente pra consigo mesmo, enquanto singularidade; no outro caso, negativamente para consigo, enquanto universal”, afirma Hegel ( 2001, p. 194), 94 Para Hegel (2001), o agir tem duas significações opostas: ou é individualidade interior ou, como exteriorização, é uma efetividade livre do interior. O ato é a efetividade separada do indivíduo. 196 agir−, que é também inteligível para outros, pois a própria linguagem é exteriorização”. O processo de exteriorização do interior é explicitado por Hegel (2001) por meio da individualidade, donde, de um lado, há manifestações das expressões corporais, o ser refletido-em-si revelado nos traços, e, de outro, a essência da individualidade. Essa relação é perpassada por conflitos, pois a individualidade consciente-de-si procura o que deve ser nela o interior e o exterior. Hegel (2001) sinaliza que esse ponto de vista é o pensamento que está na base da ciência fisiognômica e que dessa observação chega-se à oposição, segundo a forma do prático e do teórico. A superação dessa oposição dá-se por meio da razão ativa que apreende o conceito como conceito e reconhece o objeto como efetividade objetiva da consciência-de-si. Nessa estação, a “consciência-de-si encontra a coisa como a si, e a si como coisa, quer dizer: é para ela que essa consciência é em si efetividade objetiva”, afirma Hegel (2001, p. 221). Com essa ponderação, Hegel (2001) estabelece os pressupostos reflexivos para a superação da certeza imediata que já não pode mais ser considerada como toda realidade. A certeza que brota dessa dimensão da consciência-de-si tem o imediato suprassumido, no qual sua objetividade vale somente como aparência, pois o seu interior e sua essência revelam, a própria consciência-de-si que objetiva o objeto, que se efetiva. O objeto para a consciência-de-si já não é mais algo estranho, e, apesar de ser independente é reconhecido em si mesmo. Nesse momento, a consciência-de-si é espírito que, conforme Hegel (2001, p. 221), “tem a certeza de ter sua unidade consigo mesmo na duplicação de sua consciência- de-si e na independência das duas consciências-de-si [daí resultantes]”. A verdade resulta da elevação dessa certeza para a consciência-de-si: “o que 197 para ela vale como sendo em si , em sua certeza interior, deve entrar na sua consciência e vir-a-ser para ela”, diz o filósofo alemão (2001, p. 221). Concebe-se que no caminho percorrido pela auto-consciência repete-se, no âmbito da razão observadora, o movimento da consciência, isto é, a passagem negadora/superadora da certeza sensível para a percepção, e dela, para o entendimento. Por sua vez, a razão ativa retoma o duplo movimento da consciência-de-si, passando da independência para a sua liberdade. Para Hegel (2001) essa superação ésempre processual. Inicialmente, a razão ativa está consciente de si mesma como indivíduo e, em outro momento, produz a sua efetividade. No duplo movimento da razão ativa, ocorre a elevação da consciência, e a razão torna-se universal. De acordo com Hegel (2001, p. 221), o indivíduo é consciente de si como razão, como algo já reconhecido em si e para si, que unifica em sua pura consciência toda a consciência-de-si. É a essência espiritual simples que, ao chegar à [luz da] consciência é, ao mesmo tempo, substância real; para dentro dela retornam, como a seu fundamento, todas as formas anteriores, que assim, em relação a ela, são momentos singulares simples de seu vir-a-ser. Os momentos se desprendem, sem dúvida, e aparentam formas próprias; mas de fato só têm ser-aí e efetividade sustidos pelo fundamento; e só têm verdade à medida que nele estão e permanecem. A verdade que nele está e ali permanece como fundamento é o conceito que surgiu para nós, a consciência-de-si reconhecida, que tem em outra consciência-de-si livre a certeza de si mesma, que Hegel (2001, p.222) 198 designa como o reino da eticidade, “a absoluta unidade espiritual dos indivíduos em sua efetividade independente”. Em relação à certeza sensível e à percepção, a verdade já não é mais produto apenas da consciência do indivíduo singular. Quanto ao estágio do entendimento, a consciência não se encontra presa à apreensão das leis advindas das propriedades do objeto. Nesse estágio da razão, a consciência singular torna-se cônscia da consciência universal como o seu próprio ser: “porque seu agir e seu ser aí são o ethos universal”, afirma Hegel (2001, p.222). No momento em que atinge a razão ativa, o movimento da consciência- de-si, apreende o universal em si, no qual o que é efetivo para ela, o é também para uma outra consciência. Nas palavras do autor: Com efeito, esse reino não é outra coisa que a absoluta unidade espiritual dos indivíduos em sua efetividade independente. É uma consciência-de-si universal em si, que é tão efetiva em uma outra consciência, que essa tem perfeita independência – ou seja, é uma coisa para ela. [Tão efetiva] que justamente nessa independência está cônscia de sua unidade com a outra, e só nessa unidade com tal essência objetiva é consciência-de-si (HEGEL, 2001, p. 222). A substância ética, que resulta dessa unidade, na abstração da universalidade, é a lei pensada, mas é, também, e não menos imediatamente, a consciência-de-si efetiva ou o ethos. A expressão do ethos universal, para Hegel (2001, p. 222) encontra-se na vida de um povo, porque é nela que o conceito tem, de fato, a efetivação da razão consciente- de-si e sua realidade consumada: ao intuir, na 199 independência do Outro, a perfeita unidade com ele; ou seja, ao ter por objeto, como o meu ser-para-mim, substâncias singulares essa livre coisidade de um outro, por mim descoberta – que é o negativo de mim mesmo. A substância ética coincide, pois, com a substância universal, na qual se encontra presente a razão, “como imutável coisidade simples, que a igualmente se refrata em múltiplas essências completamente independentes”, afirma Hegel (2001, p.222). Tais essências em-si dissolvem-se na substância independente simples, porém, cônscias de serem substâncias simples, singulares, sacrificam a sua singularidade porque sua substância universal é a sua alma e essência. Hegel (2001) diz que é na vida do povo que o agir dessas singularidades efetiva a substância universal sem, contudo, anular as necessidades que os indivíduos possuem como ser-natural. O universal é, pois, o agir dessas essências como singulares, que se referem às necessidades que os indivíduos possuem como seres naturais. De um lado, ao buscar a satisfação de suas próprias necessidades, o indivíduo satisfaz também as necessidades de outros indivíduos, e de outro, o indivíduo, para satisfazer as suas necessidades, depende de outros indivíduos. A relação de mútua dependência cria, segundo Hegel (2001, p. 223), a unidade entre os indivíduos que redunda no espírito universal, no qual “cada um tem a certeza de si mesmo – cada um está tão certo dos outros quanto de si mesmo”. A substância universal é a razão efetivada. Aquilo que o indivíduo faz é o ethos de todos e, para Hegel (2001), o trabalho é a expressão dessa substância, pois, nele o indivíduo encontra a forma de subsistência de seu agir em geral, mas também o conteúdo de seu agir. Segundo o filósofo, o “trabalho do indivíduo para [prover a] suas necessidades, é tanto satisfação das 200 necessidades alheias quanto das próprias; e o indivíduo só obtém a satisfação de suas necessidades mediante o trabalho dos outros” (HEGEL, 2001, p. 223). Ao realizar o trabalho singular para satisfazer as suas próprias necessidades, o indivíduo realiza, tendo consciência ou não de seu objeto, o trabalho universal, o ethos de todos. Hegel (2001, p. 223) estabelece assim a reciprocidade entre o singular e o todo, a relação de unidade que expressa a identidade entre ambos, denominada de “unidade do ser para outro – ou do fazer-se coisa – com o ser-para-si”. Essa unidade é a substância universal e fala sua linguagem nos costumes e nas leis de seu povo. Essa essência, expressão da individualidade singular, aparenta ser-lhe oposta contudo, Hegel (2001, p.223) afirma que as leis exprimem o que cada indivíduo é e faz; o indivíduo não as conhece somente como sua coisidade objetiva universal, mas também nela se reconhece, ou: [conhece-a] como singularizada em sua própria individualidade, e na de cada um de seus concidadãos. Assim, no espírito universal, tem cada um a certeza de si mesmo – a certeza de não encontrar, na efetividade essente, outra coisa que a si mesmo. Cada um está tão certo dos outros quanto de si mesmo. Ao atingir esse estágio, a consciência de-si transforma-se também em consciência para-si, eliminam-se todas as barreiras e conflitos entre o indivíduo e a totalidade universal, entre o sujeito e o objeto, que guardam a unidade identitária. O autor esclarece: Vejo em todos eles que, para si mesmos, são apenas esta essência independente, como Eu sou. Neles vejo a livre 201 unidade com os outros, de modo que essa unidade é através dos outros como é através de mim. Vejo-os como me vejo, e me vejo como os vejo (HEGEL, 2001, p. 223) A razão efetivada suprassumida no âmbito da consciência torna- se o espírito vivo presente. A consciência, nesse processo de superação, encontra o reino do saber absoluto e suprime toda a resistência em relação a uma efetividade oposta. Ao retomar o caminho gnosiológico percorrido por Hegel (2001) percebe-se a explicitação dos fundamentos acerca da ontologia da natureza e do ser social, da relação entre o indivíduo e o universal no sistema hegeliano. O caminho gnosiológico elaborado por Hegel (2001), que conduz o processo de supra-sunção do intelecto à razão, cria a base, segundo Lukács (1979 b, p. 79), “para o conhecimento de uma realidade complexa, fundada sobre a totalidade, dinamicamente contraditória, em face da qual havia fracassado a gnosiologia dos séculos XVIII e XIX”. O conhecimento não é cindido entre o cognoscível e o incognoscível (a coisa em si). Em outras palavras, a razão não se encontra mais apartada do intelecto, ela é superior ao intelecto, mas brota exatamente da contraditoriedade do entendimento, estabelece e conhece a conexão entre os objetos. O sistema hegeliano não se limita ao conteúdo da Fenomenologia do espírito (2001), escrito em 1807, mas, nessa obra está contida uma das grandes linhas do pensamento filosófico de Hegel. Por sua vez, o sistema hegeliano representa o ponto culminante atingido pelo idealismo alemão construído por Kant, Fichte95, Schelling96 e Hegel, cujo significado somente95 Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), filósofo alemão, foi dos representantes do idealismo alemão pós- kantinano. Segundo Japiassú e Marcondes (2006, p. 107), “sua ética humanista e seu idealismo prático anteciparam certas idéias do existencialismo como o fazer-se do homem por si mesmo”. 202 pode ser compreendido no contexto da Revolução Francesa97. O pensamento hegeliano ergue-se inspirado nos acontecimentos sociais, econômicos, políticos e culturais da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. A realidade sobrepujada pelas transformações das forças produtivas, da saturação de uma ordem societária que já não respondia as necessidades materiais e espirituais dos homens é, para Hegel (2001), resultado do pensamento, pois, é o pensamento que deve governar a realidade. A totalidade dos conceitos e princípios objetivos que devem governar a realidade, para Hegel (2001), chama-se razão, que é concebida pelo sujeito e jamais seria resultante de sua unidade imediata com a realidade. Marcuse (2004, p. 21) afirma que essa unidade só aparece depois de um longo processo que se inicia no mais baixo nível da natureza e chega à mais alta forma de existência à existência de um sujeito livre e racional, vivendo e agindo na autoconsciência de suas potencialidades. Na medida em que haja qualquer hiato entre o real e o potencial, o primeiro deve ser trabalhado e modificado até se ajustar à razão. Enquanto a realidade não estiver modelada pela razão, não será, ainda, no sentido forte da palavra, realidade. A razão, no sistema hegeliano é a afirmação do pensamento sobre a realidade, do indivíduo pensante sobre a ordem prática. Por isso, o 96 Friedrich Schelling ( 1775-1854), contemporâneo de Fichte e de Hegel e, foi também, um representes do idealismo pós-kantiano. Para este filósofo o único conhecimento possível é o que a consciência tem de si mesma (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2007). 97 O idealismo alemão foi considerado a teoria da Revolução Francesa, e suas idéias surgiram “no cerne dos sistemas idealistas, determinando, sob muitos aspectos, sua estrutura conceitual. A Revolução Francesa, aos olhos dos idealistas alemães, não só abolira o absolutismo feudal, substituindo-o pelo sistema econômico e político da classe média, mas, ao emancipar o indivíduo como senhor auto-confiante de sua vida, completara o que a Reforma Alemã havia começado. A situação do homem no mundo, seu trabalho e lazer, deveriam, doravante, depender de sua própria atividade racional livre e não de qualquer autoridade externa”, assinala Marcuse (2004, p. 15). 203 pensamento hegeliano98 expõe, por meio da lógica, da ética e da gnosiologia, o que deveria ser, para Hegel (2001), o modelo ideal para a sociedade que emergia com a queda do antigo regime, isto é, uma concepção ontológica do ser social. Nos anos que se seguiram à morte de Hegel, ocorrida em 1831, o seu sistema filosófico foi posto em questão e se iniciou o processo de dissolução de seu pensamento em um contexto histórico de profundas transformações societárias, tendo como pano de fundo o desenvolvimento da sociedade capitalista com suas contradições e a luta de classe entre a burguesia e o proletariado, expressa sobretudo nas revoltas de l848. A crítica mais profícua a esse pensamento foi realizada por Karl Marx (1818-1883). Tal crítica conduziu à dialética materialista, que será tratada a seguir, a fim de resgatar os elementos para apreender o caráter social da imediaticidade e as condições necessárias para a superação do imediatismo na prática profissional cotidiana do assistente social. Retomar essa reflexão com base na crítica materialista implica discutir uma concepção de mundo e perspectiva de sociedade diferenciada e antagônica daquela apresentada por Hegel (2001), e, nesse sentido, duas observações são importantes. A primeira é a reafirmação da compreensão segundo a qual a explicitação do caminho gnosiológico percorrido pela ciência em busca do conhecimento revela, também, aspectos lógicos e ontológicos que 98 Para Marcuse (2004, p. 35), a “filosofia de Hegel apresenta cinco diferentes estágios de desenvolvimento: 1. O período de 1790 a 1800 marca a tentativa de formular uma fundamentação religiosa para a filosofia, como o atesta a coletânea daquele período, os Theologische Jugendschreften. 2. 1800 – 1801: formulação do ponto de partida e dos interesses filosóficos de Hegel, por meio da discussão crítica sistemas filosóficos contemporâneos, especialmente os de Kant, Fitche e Schelling. As obras principais de Hegel, nesse período, são: Differenz dês Fichteschen und Schellinsgschen Systems der Philosophie, Glauben und Wissen, e outros artigos no Kristische Journal der Philosophie. 3. Os anos de 1801 a 1806 viram nascer o sistema Jenense, primeira forma do sistema completo de Hegel. Este período foi documentado pela Jenenser Logik und Metaphysik, Jenenser Realphilosophie, e o System der Sittlichleit. 4. 1807: publicação da Phenomenologie dês Geites, 5. Período do sistema final que fora esboçado entre 1808-11 na Philosophische Propädeutik mas não se consumara até 1817. A este período pertencem as obras que constituem a parte mais volumosa dos escritos de Hegel: Wissenschft der Logik (1812-16), Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften (1817, 1827, 1830), Grundlinien der Philosophie dês Rechts (1821), e os vários cursos em Berlim sobre a filosofia da História, História da Filosofia, Estética e Religião”. 204 permeiam o sistema de saber. A segunda observação é a sinalização acerca da importância do retorno ao pensamento de Hegel e à teoria social de Karl Marx, em um contexto de aprofundamento da sensibilidade consumidora que a tudo torna instantâneo, de presentificação do presente e de cultura do imediatismo. Para discutir as categorias reflexivas na perspectiva materialista, que supera a perspectiva idealista, privilegiar-se-á na exposição, a seguir, o significado e os argumentos da crítica realizada por Marx (2004; 2005) e Lukács (1979a; 1979b) ao pensamento hegeliano, as questões que envolvem a relação entre teoria e prática, a fim de sedimentar alguns parâmetros analíticos para refletir acerca da imediaticidade como elemento da vida cotidiana. 3.2 A perspectiva ontológica da concepção materialista: a razão histórico- crítica O movimento crítico99 em relação à filosofia hegeliana que se instaurou na Alemanha, a partir de 1840, foi tão violento que desconsiderou a dialética de Hegel (2001). Em face ao movimento crítico que evidenciava as antinomias dessa filosofia, Marx (2004, p. 115) indaga “o que fazer com a dialética hegeliana?”. Nessa mesma direção, Lukács (1979a, p. 23), analisando esse movimento, diz que, no pensamento hegeliano, “os aspectos justos e os aspectos equivocados apresentam-se nele unidos e ligados de modo indissolúvel”. Para averiguar se a sua filosofia aponta o futuro, há que se tomar cada problema isoladamente, isto é, verificar, por exemplo, a convergência entre idéia e realidade ou como atribuir qualidades diferenciadas para a 99 Conforme Marx (2004, p. 117), Feuerbach é o “único que tem para com a dialética hegeliana um comportamento sério, crítico, e [o único] que fez verdadeiras descobertas nesse domínio”. 205 sociedade em relação à natureza. Somente o estudo particularizado de determinado problema estabelecido no sistema filosófico hegeliano possibilita abrir caminhos para uma nova ontologia do ser social. A nova concepção ontológica, que começou a ser desenhada em Hegel, foi construída por Marx (2004), que buscou − em sua crítica à dialética de Hegel (2001), cujo resultado