Mitos e verdades em ciência e religião - uma perspectiva histórica
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Mitos e verdades em ciência e religião - uma perspectiva histórica


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quando lemos os so-
ciólogos, que agora estão tentando explicar por que a 
crença religiosa é tão vigorosa em todo o mundo e não 
apenas a crença religiosa, mas mesmo a crença religiosa 
fundamentalista. Seja na Índia, no Oriente Médio ou 
na América do Norte, a religião tem demonstrado ser 
bastante resiliente e parece estar crescendo, mesmo 
em suas mais conservadoras e inaceitáveis versões. 
Portanto, temos um problema muito diferente a explicar 
daquele que explicamos há apenas algumas décadas. 
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Há alguns estudos tentando avaliar o impacto da 
ciência e particularmente do Darwinismo sobre a perda 
da fé no século XIX, e claramente algumas pessoas aban-
donaram suas crenças por conta do Darwinismo, porém, 
Charles Darwin não o fez. Novamente, como Jim Moore 
mostrou há anos, em um dos mais comoventes ensaios 
que li na história da ciência e que honestamente me 
levou às lágrimas, ele conta a história de como Darwin 
perdeu sua fé. Primeiro ele perde seu pai, que era um 
médico maravilhoso, e de acordo com a teologia cristã, 
por seu pai não ser um crente, ele queimaria para sempre 
no inferno. Como um Deus justo poderia fazer uma coisa 
dessas? Em seguida, seu irmão morre. O golpe final em 
suas crenças religiosas foi quando, aos 10 anos de idade, 
sua filha Annie adoeceu. A Sra. Darwin estava grávida, 
assim Charles Darwin levou a filha para a hidroterapia, 
da qual ele já havia se beneficiado, e permaneceu junto 
à filha até que ela sucumbiu e faleceu. Ele ficou tão 
desconsolado que não pôde sequer estar presente no 
funeral. Darwin acreditava que se houvesse um Deus 
onisciente, um Deus onipotente que pudesse ter salvado 
a vida de Annie, por que não o faria? Portanto, foram es-
sas experiências muito pessoais pelas quais ele passou, 
e não a doutrina da seleção natural, que o impeliram a 
abandonar o Cristianismo.
Há alguns anos, uma socióloga britânica chamada 
Susan Budd estudou as biografias de cento e cinquenta 
secularistas e livre-pensadores britânicos que viveram 
entre 1850 e 1950. Um dos problemas no estudo da secu-
larização é o de aprender o bastante sobre os indivíduos 
para contar o que aconteceu. Porém, na literatura dos 
livre-pensadores, muitas vezes seus obituários contêm 
as histórias de como eles perderam a fé, o que era uma 
coisa interessante de se registrar. Dessa forma, ela 
tinha uma base de dados raramente disponível para as 
pessoas que tentam encontrar respostas para tais ques-
tões. Ela descobriu que apenas dois dos seus sujeitos 
mencionaram ter lido Darwin ou Huxley antes de perder 
a fé. A maioria dessas pessoas perdeu a fé por razões 
muito semelhantes àquelas que tinham destruído a fé 
de Darwin no Cristianismo, por razões muito pessoais, 
questionando sobre a origem e a natureza do pecado, 
do castigo eterno e questões desse tipo. 
Não é de se surpreender que muitos cristãos e outros 
religiosos tenham ficado ofendidos pelas caracterizações 
negativas e, em grande parte injustificadas, que retrata-
vam o Cristianismo como o grande inimigo do progresso 
científico. Eles chamaram a atenção para o fato que a 
Europa cristã deu origem à ciência moderna e que uma 
grande maioria daqueles que contribuíram para a ciência 
era cristã declarada. Alguns apologistas cristãos (não 
vou nomeá-los agora) foram longe na tentativa de refor-
mular a relação histórica entre a ciência e o Cristianismo 
como um compromisso essencialmente harmonioso, 
argumentando que a ciência poderia somente ter se 
desenvolvido em uma cultura como a cristã, em que a 
crença em um cosmos ordenado, criado e regulamenta-
do por um ser divino era amplamente difundida. 
Pouquíssimos historiadores da ciência apoiariam 
essa explicação e uma das razões é bastante óbvia \u2013 
para sustentá-la, é preciso excluir todas as realizações 
dos gregos, muçulmanos e judeus, no período anterior 
à revolução científica ou mesmo durante, e afirmar que 
o que eles estavam fazendo não era ciência. Andrew 
Cunningham tem exercido influência marcante na histo-
riografia da ciência nas últimas décadas, demonstrando 
que a ciência na verdade era inexistente até os séculos 
XVIII ou XIX. Antes disso, tivemos a filosofia natural, a 
história natural e a medicina: essas foram as formas de 
investigação da natureza. A ciência como nós a conhece-
mos, significando o estudo da natureza, exclusivamente 
o estudo do mundo natural, não surgiu até bem mais 
tarde. Talvez essa seja uma questão discutível, quanto 
aos gregos e aos muçulmanos terem feito uma ciência 
genuína, porque é anacrônico falar dessa maneira, mas 
eles estavam fazendo muito daquilo que mais tarde os 
filósofos cristãos e os historiadores naturais fizeram. 
Ainda que os cristãos, como já assinalei, muitas vezes 
contribuíram fundamentalmente para o crescimento da 
ciência nos séculos XVI, XVII e assim por diante, creio 
que seja presunçoso da parte dos cristãos alegarem que 
somente o Cristianismo poderia ter produzido a ciência 
como a conhecemos hoje. 
Como muitos sabem, provavelmente eu tenha tra-
balhado muito mais do que uma pessoa de bom senso 
deveria, na história dos antievolucionistas que dos cria-
cionistas, e gostaria de compartilhar alguns dos mitos 
que decorrem dessa área da minha pesquisa. 
O filme \u201cO vento será sua herança\u201d (Inherit the Wind) 
é um admirável filme premiado com o Oscar que retrata, 
usando nomes fictícios, o importante e infame julgamen-
to de Scopes, em Dayton no Tennessee, em 1925. Este é 
um dos eventos históricos mais conhecidos nos Estados 
Unidos, em parte porque todos os livros didáticos do 
ensino médio e superior, que não contêm mais que uns 
poucos parágrafos sobre ciência nas suas 500 páginas, 
dedicam um parágrafo ou dois para o julgamento de 
Scopes; isso é padrão. 
Ao longo dos anos, centenas de milhares, se não 
foram milhões de pessoas, assistiram à peça ou ao filme 
\u201cO vento será sua herança\u201d. Ele passou a ter a reputação 
de um retrato fiel do que historicamente aconteceu há 
alguns anos. Um grupo de historiadores financiado pelo 
governo federal propôs normas nacionais para o ensino 
de história dos Estados Unidos e, na década de 1920, 
esse grupo de eminentes historiadores sugeriu que os 
professores do ensino médio mostrassem esse filme 
para que os estudantes pudessem entender a mentali-
dade dos fundamentalistas que se opuseram à evolução 
no início do século XX. 
Isso seria adequado se o filme \u201cO vento será sua 
herança\u201d exibisse alguma semelhança ao evento histó-
rico em Dayton, em 1925. Como vocês provavelmente 
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sabem, o anti-herói foi William Jennings Bryan, um 
político norte-americano muito popular que tinha sido 
o candidato democrata à presidência em três ocasiões 
distintas e foi um dos mais conhecidos e queridos polí-
ticos dos Estados Unidos (não querido o suficiente para 
ganhar as eleições, mas querido em alguns círculos). 
Ao contrário do que mostra o filme, e que a maioria 
dos americanos acredita hoje, Bryan, que participou do 
julgamento, não era um criacionista no sentido em que 
agora conhecemos.
Desde meados do século, conseguimos mais ou 
menos identificar os criacionistas como pessoas, que 
acreditam em uma história da Terra jovem, sem que 
nada tenha acontecido há mais de 6 ou 7 mil, talvez 10 mil 
anos atrás. E essa é a forma como Bryan é descrito; ele 
insiste na criação do mundo no ano de 4004 a.C., no dia 
22 de outubro, creio eu. Um dos diálogos importantes 
do filme acontece quando Clarence Darrow, o famoso 
advogado agnóstico que estava questionando Bryan no 
banco das testemunhas, perguntou-lhe se ele poderia ser 
preciso e parece-me que Bryan disse (a Terra foi criada) 
às 9h; Darrow retruca \u201cno horário padrão do leste ou 
no das Montanhas Rochosas?\u201d; é claro que isso sempre 
causa gargalhadas.
A transcrição do julgamento de Scopes está disponí-
vel desde o final de 1925 em uma versão barata, portanto 
prontamente disponível para qualquer historiador. Se