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Redação sobre cancelamento

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Cancelar e punir.
O Tribunal da Inquisição, ferramenta repressora católica da Idade Média, condenava à morte na fogueira pessoas suspeitas de condutas alternativas às leis cristãs. No cenário contemporâneo, os internautas assumiram o papel de juízes numa espécie de tribunal virtual protagonizada pela cultura do cancelamento, responsável por hostilizar figuras públicas por atitudes e posicionamentos equivocados. Esse movimento de boicote é nocivo porque é extremamente superficial e limita debates educativos, concentrando o julgamento na pessoa e não no seu discurso. 
Nesse prisma, é valido ressaltar que o cancelamento virtual é uma forma violenta e ineficaz de punição, porque seu foco é atacar a pessoa cancelada. Assim, o boicote acaba silenciando o seu alvo por meio do medo de rejeição, o qual se generaliza e censura legiões de pessoas que preferem ficar caladas para evitar interpretações equivocadas de suas opiniões. De maneira verossimilhante, na série Black Mirror, a protagonista configura seu estilo e suas ações de modo a ser bem avaliada no aplicativo que rege a sociedade vigente. Ademais, muitos internautas ofendem o cancelado sem sequer saber o motivo do boicote, apenas porque tendem a aderir à opinião dominante para alcançar engajamento e autoafirmação moral apontando falhas alheias.
Dentro desse panorama, é valido analisar que a conjuntura do cancelamento é estritamente punitiva em detrimento do viés educativo, tal qual as estruturas panópticas do sistema carcerário analisado por Michael Foucault em sua obra “Vigiar e punir”. Desse modo, esse linchamento rouba o espaço do debate saudável, o qual promoveria o entendimento acerca da problemática e das raízes de discursos preconceituosos- principais alvos dos boicotes virtuais; afinal, muitas falas hostis são provenientes da desinformação e não necessariamente da falta de caráter. A exemplo, a cantora Marília Mendonça, ao ser criticada por transfobia, procurou dialogar com os internautas para entender o viés ofensivo de sua atitude e disseminar esse aprendizado. Logo, por meio do debate inteligente, é possível, além de desconstruir convenções hostis enraizadas na sociedade, aproveitar a visibilidade das celebridades para dar destaque a essas pautas.
Infere-se, pois, que a cultura do cancelamento é extremamente ineficaz e opressiva porque concentra sua energia na punição dos agentes e deixa de lado a conscientização sobre a problemática do ato. Sendo assim, esse tribunal cibernético instaura uma censura não declarada que desencoraja o debate e reforça o ciclo de ignorância, atrasando completamente a evolução dos indivíduos e da sociedade.