Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais92 seguidores
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o espaço social. As cidades começam,

então, a expulsá-los.

Nesta lógica da exclusão Foucault traz a imagem ficcional da Nau dos loucos
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que, no entanto, teve uma existência concreta nas sociedades europeias entre o século

XIV e XVI. Na embarcação, o louco fica a mercê da sua própria errância; melhor

dizendo, preso em sua própria liberdade. Louco e desterritorializado ele vagueia pelos

mares até ser definitivamente excluído de todo e qualquer contato com o mundo.

Confiar o louco aos marinheiros é com certeza evitar que ele ficasse vagando

indefinidamente entre os muros da cidade, é ter a certeza de que ele irá para longe, é

torná-lo prisioneiro de sua própria partida. [...] Fechado no navio, de onde não se

escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande

incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das

estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por

excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida,

assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra que vem. Sua única verdade e

sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer

(FOUCAULT, 2009 a, p. 11-12).
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 Ironicamente - apesar da voz do louco anunciar a morte e o caos e, com isso ser

afastado do convívio dos demais cidadãos -, a loucura não era algo se prendesse, e sim

algo que circulava (Fonseca, 2002). Ao expulsá-lo para longe de seus domínios,

impediam-no de circular pelas ruas, tornando-se, deste modo, um estorvo para a

população. Embarcado, navegante de grandes mares e rios, era-lhe impossível escapar,

pois “prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente

acorrentado à infinita encruzilhada” (Foucault, 2009 a, p. 12). O louco não se encontra,

ainda, enclausurado: ele é aquele sujeito que fala sobre algo que o não-louco se

surpreende, se inquieta, não entende, mas, ao mesmo tempo, fascinado, quer se

aproximar e ouvir: trata-se da concepção trágica da loucura, quando esta ainda é

tolerada por não apresentar nenhuma ameaça aparente.

 Contudo, o louco, segundo a lógica de Descartes em sua obra Meditações

Metafísicas, escrita e publicada pela primeira vez em 1641, é aquele que não pode

pensar, ou se pensar, não pode ser louco, sugerindo com isso que, enquanto o homem

10 “Um objeto novo acaba de fazer seu aparecimento na paisagem imaginária da renascença; e nela, logo ocupará
lugar privilegiado: é a Nau dos loucos, estranho barco que desliza ao longo dos calmos rios da Renânia e dos canais

flamengo. A Narrenschiff é, evidentemente, uma composição literária [...] mas de todas essas naves romanescas ou

satíricas, a Narrenschiff é a única que teve existência real, pois eles existiram, esses barcos que levavam sua carga

insana de uma cidade para outra. Os loucos tinham então uma existência facilmente errante” (Foucault, 2009, p. 9).
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 No Brasil, em fins do século XIX, observa-se uma reedição, em aparência mais moderna, da Nau dos

loucos das sociedades europeias: muitos estados brasileiros que não possuíam hospital psiquiátrico ou

asilo costumavam enviar seus insanos para a capital federal ou para outros estados de trem, apelidado de

‘trem de doido’, reproduzindo, deste modo, o antigo modelo de exclusão do século XVI (Mattos, 1999).

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sadio questiona a si mesmo, o louco não o faz. O que significa afirmar, parafraseando

Machado, que “a loucura é condição de impossibilidade do pensamento; o pensamento

exclui a possibilidade da loucura” (Machado, 1981, p. 61). A ‘equação cartesiana’

parece anunciar que aquele que for considerado louco não é um sujeito: tratar-se-ia,

portanto, de uma ‘não-pessoa’. A loucura passa a representar o negativo da razão ou o

não-ser da razão; e o louco passa a ser tido como desarrazoado, um animal sem razão

que deve, por esse motivo, ser asilado.

 Com isso, já não basta mais afastar o louco ou deixá-lo errante, à sua própria

sorte. As viagens a céu aberto nas estranhas e loucas barcaças vão dando lugar, pouco

mais de um século depois, a sólidos locais fincados em terra firme: já não existe mais a

nau; em seu lugar, aporta o hospital. Assim, “a loucura, cujas vozes a Renascença acaba

de libertar, cuja violência, porém ela já dominou, vai ser reduzida ao silêncio pela era

clássica [...].” (Foucault, 2009 a, p. 45). Destarte, aqueles passageiros anônimos são

despejados pelas naus e, com o tempo, algumas cidades surgem como lugares de

peregrinação. Cria-se, então, uma nova forma de assistência no que diz respeito à

questão da loucura: o encarceramento dos insanos. O século XVII faz acontecer o

‘grande confinamento’. Aí já não mais se ouve a voz do louco, mas tão somente o seu

silêncio.

 Na época clássica, as instituições que os recebiam não dependiam de

conhecimento ou de critérios médicos para interná-los, mas tão somente, como nos

ensina Michel Foucault (2009 a), de uma percepção social produzida por tantas outras

instituições, tais como a Igreja, a polícia ou a própria família
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. Estas se valiam de

critérios, não da medicina, mas daqueles que diziam respeito à transgressão da razão e

da moralidade para designar e excluir o louco. Dito de outra maneira, “esta percepção

de desrazão não é uma percepção médica, mas ética” (Machado, 1981, p. 66),

merecendo - por esta maneira que a psiquiatria tentou transformar a ‘percepção social’

em ‘percepção médica’ -, a alusão às suas ‘baixas’ origens. À percepção social do louco

como o estranho passa-se à análise médica do desarrazoado, convertendo-se a exclusão

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 Era comum, no século XVIII, que amigos, parentes ou mesmo vizinhos solicitassem à autoridade real a

reclusão ou o afastamento de um elemento perturbador, através das lettres de cachet, instrumentos que

datam entre 1660 a 1760 e ocupam lugar de destaque no que diz respeito à análise foucaultiana das

relações entre o poder e o discurso. Tratava-se de documentos emitidos em nome do rei de França - não

necessariamente por sua própria iniciativa -, que tinham como função manter em regime de prisão ou de

internamento todo o indivíduo cujo comportamento era, no discurso desses mesmos documentos,

tipificados de ‘indesejáveis’.

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em enclausuramento, apenas e tão somente com o intuito de preservar a ordem social,

com o objetivo de defender a sociedade.

 Esta, então, passa a demandar uma assepsia que acarretou no afastamento de

uma massa que não se encaixava nos parâmetros sociais. Assim, o louco e os outros

marginalizados pela consciência hegemônica - os hereges, libertinos, homossexuais,

filhos ingratos, e toda uma sorte de indivíduos colocados à margem -, são capturados

agora, em instituições fechadas.

 Cria-se, então em Paris, em 1656, o Hospital Geral que, antes de ser um

estabelecimento médico, trata-se de uma estrutura semijurídica, entregue a diretores

nomeados vitaliciamente com plenos poderes para decidir, julgar e executar sobre a vida

daqueles lá internados.

É sabido que o século XVII criou vastas casas de internamento; não é muito sabido que

mais de um habitante em cada cem da cidade de Paris viu-se fechado numa delas, por

alguns meses. A partir de Pinel, Tuke, Wagnitz, sabe-se que os loucos, durante um

século e meio, foram postos sob o regime desse internamento [...]. Mas nunca aconteceu

de seu estatuto nelas ser claramente determinado, em qual sentido tinha essa vizinhança

que parecia atribuir uma mesma pátria aos pobres, aos desempregados, aos

correcionários e aos insanos. É entre os muros do internamento que Pinel e a psiquiatria

do século XIX encontrarão os loucos; é lá – não nos esqueçamos – que eles o deixarão,
não sem antes se vangloriarem por terem-nos ‘libertado’. A partir da metade do