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HOBSBAWM, Eric. Pessoas extraordinárias: Resistência, rebelião e jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998. Cap.15. p.305-316
CAP.15: Maio de 1968
1: “De todos os acontecimentos inesperados dos últimos anos da década de 1960, um período notavelmente ruim para os profetas, o movimento de maio de 1968 na França, sem dúvida, o mais surpreendente – e, para os intelectuais de esquerda é capaz que tenha sido o mais empolgante.” [p.305] 
1.1: “Pareceu demonstrar [...] que era possível fazer revolução em um país industrial avançado em condições de paz, prosperidade e aparente estabilidade política. A revolução não trinfou e, como veremos, há muita discussão sobre se teria ou não havido mais do que uma tênue possibilidade de êxito.” [p.305]
1.2: “Provavelmente, jamais houve outro movimento revolucionário com maior porcentagem de pessoas que liam e escreviam; por conseguinte, não é de surpreender que a indústria editorial francesa tivesse corrido para satisfazer uma demanda aparentemente limitada.” [p.306] 
1.2.1: “Todos são trabalhos apressados, alguns não mais do que breves artigos, suplementados por reimpressões de antigos escritos, entrevistas à imprensa, discursos gravados e assim por diante.” [p.306] Dentre essas publicações Quartier Latin se destaca.
1.2.2: Sobre o conteúdo dessas produções, “[...] a maior parte tenta explicar o movimento, analisar a natureza e suas possíveis contribuições para a mudança social. Uma porção razoável tenta adequá-lo a uma ou outra das categorias analíticas de seus simpatizantes – o que são a esmagadora maioria dos autores – com uma razoável originalidade e argumentações especiais. Isso é natural. Entretanto, não nos proporciona um outro Dezoito Brumário – quer dizer, um estudo da polícia de Maio de 1968.” [p.306] 
1.2.3: “Indubitavelmente, os eventos estão gravados de forma tão vivida nas mentes da maior parte dos intelectuais franceses, que eles pensam já saber tudo a seu respeito. Não é acidental que o que mais se próxima de uma narrativa analítica coerente da crise proceda de dois jornalistas ingleses, Saele e McConville,” [p.306] 
2: “Todavia, se Maio de 1968 foi uma revolução que só fracassou em derrubar De Gaulle, merece ser analisada a situação que permitiu àqueles que, algumas semanas antes, faziam parte de um conjunto de facções universitárias rivais entre si levava a cabo esta tentativa. Do mesmo modo, devem ser analisadas as razões do fracasso destas facções revolucionárias ne tentar esclarecer a questão menos empolgante de seu êxito inicial e de seu relativamente rápido fracasso.”	 [p.307] 
2.1: “Houve, isto está claro, dois estágios na mobilização das forças revolucionárias, ambos totalmente inesperados pelo governo, pela oposição oficial e, inclusive, pela oposição não oficial, apesar de reconhecida, construída por importantes intelectuais e escritores de esquerda de Paris.” [p.307] 
2.1.1: “No primeiro estágio, aproximadamente entre 3 e 11 de maio, os estudantes se mobilizaram. Graças à falta de previsão, complacência e estupidez de Paris, desfrutando de ativistas de um campus de subúrbio se transformou em um movimento de massas que incluía praticamente todos os estudantes de Paris, desfrutando de amplo apoio da opinião pública [...] e se tornando daí em diante em uma espécie de insurreição simbólica do Quartier Latin. O governo recuou perante a eles e, assim agindo, estendeu o movimento às províncias e especialmente aos operários.” [p.307] 
2.1.2: “A segunda fase da mobilização, de 14 a 27 de maio, constituiu essencialmente na programação de uma greve geral espontânea, a maior da história da França e talvez do mundo, e culminou com a rejeição por parte dos grevistas do acordo negociado em seu nome pelos líderes oficiais dos sindicatos e o governo. [...] A situação mudou rapidamente quando De Gaulle, finalmente, tomou a iniciativa, em 29 de maio.” [p.307] 
2.2: “O que de início se observa é que somente a segunda fase criou possibilidade revolucionária (ou, para dizê-lo de outra forma, criou para o governo a necessidade de empreender uma ação contrarrevolucionária). O movimento estudantil, por si só, era um transtorno, mas não um perigo político. As autoridades o subestimaram completamente, e isto se deve em grande parte a que estavam preocupadas com outros assuntos, inclusive outros problemas universitários e discussões burocráticas entre vários departamentos governamentais, os quais lhe pareciam mais importantes.” [p.308]
2.2.1: “Contudo, o paradoxal é que a própria falta de importância do movimento estudantil tenha-o transformado e negligenciado, o governo da mobilização operária. Tendo-o subestimado e negligenciado, o governo tentou dispersá-lo pela força. E quando os estudantes se recusam a ir para a casa, a única alternativa foi atirar ou aceita uma retirada política e humilhante.” [p.308] 
2.2.2: “Justamente por serem os estudantes tão só um punhado de jovens desarmados que não colocavam em risco o regime, o governo não teve outra opção senão recuar perante eles. Mas, assim agindo, criou própria situação que queria evitar: pareceu mostrar sua impotência e deu aos estudantes uma vitória barata.” [p.308] 
2.3: “De modo inverso, a mobilização dos operários colocou o regime em uma posição arriscada, razão pela qual De Gaulle finalmente se dispões a usar o derradeiro recurso, ao convocar o exército, a guerra civil. E não o fez porque a insurreição fosse um sério objetivo para alguém, já que nem os estudantes, que podiam tê-la desejado, nem os operários, que com certeza não a desejaram, pensaram ou agiram em termos políticos desta natureza.” [p.308-309]
2.3.1: “De Gaulle o fez porque a progressiva deterioração da autoridade governamental deixava um vazio, e porque a única alternativa viável de governo era uma frente popular denominada inevitavelmente pelo Partido Comunista.” [p.309] 
2.3.2: “De fato, houve um momento em que até mesmo as duas instituições hobbesianas (o exército e a polícia francesa) [...] deixaram claro que não considerariam uma insurreição, a qual fossem obrigadas a combater, um governo de frente popular legalmente constituído. A insurreição, por si só, não teria sido revolucionária (exceto em sua maneira de chegar ao poder) e não teria sido considerada como tal. Por outro lado, é difícil imaginar qualquer outra saída política positiva da crise, inclusive tendo em conta as expectativas dos revolucionários.” [p.309] 
2.4: “Mas a Frente Popular não estava preparada para ocupar o vazio deixado pela desintegração do gaullismo. Os não-comunistas da eventual aliança foram propositalmente morosos, já que a crise demonstrou que não representavam ninguém salvo alguns poucos políticos, em quando o Partido Comunista, mediante seu controle sobre a confederação sindical mais poderosa, era naquele momento a única força civil de real importância e, portanto, inevitavelmente dominaria o novo governo.” [p.309] 
2.4.1: “Mas os comunistas, por sua vez, não tinham meios para precipitar o movimento de sua união forçada com os demais grupos da oposição, pois eles mesmos tinham participado do jogo eleitoral. Não haviam mobilizado as massas, cuja ação empurrou-os para o vértice do poder, e nem haviam pensado em utilizar aquela ação para forçar a ajuda de seus aliados.” [p.309]
2.4.2: Mas: “Com a aparente eminência de uma Frente Popular liderada pelos comunistas, um regime conservador podia, pelo menos, jogar se principal trunfo: o medo à revolução. Foi taticamente falando, uma esplêndida jogada bem calculada. De Gaulle nem sequer teve que abrir o fogo.” [p.310] 
2.4.3: “De qualquer forma, gaullistas e revolucionários coincidiram em atacar o Partido Comunista francês, seja por planejar a revolução, seja por sabotá-la. Nenhum dos argumentos é demasiado significativo, exceto como indicação do papel crucial do PC nos fatos de maio. Foi a única organização civil e certamente a única facção da oposição política que conservou sua força e sua calma.” [p.310] 
2.4.3.1: “Em suma, enquanto os estudantes começavam sua rebelião com igual hostilidade a De Gaulle e ao PC (doqual a maior parte de seus dirigentes havia se separado ou sido expulsa), o mesmo não ocorreu com os operários.” [p.310] 
3.5: “O Partido Comunista se encontrava, portanto, em condições de agir. [...] Acreditavam saber o que deveria fazer. [...] Sem dúvidas, não tentou salvar o getillismo, fosse por razões da política exterior ou qualquer outra. Tão logo a derrota de De Gaulle apareceu impossível, isto é, nos três ou quatro dias após a programação das assembleias espontâneas, formalmente apresentou sua imediata reivindicação para si e para a Frente Popular de subir ao poder. Por outro lado, coerentemente recusou todo possível envolvimento numa convocação de insurreição, com base em que isto fortaleceria De Gaulle.” [p.310-311] 
3.5.1: “Nisso tinha razão. A crise de maio n ão era uma situação revolucionária clássica, embora as condições para tal situação pudessem ter se desenvolvido muito rapidamente como consequência de uma ruptura repentina e inesperada em um regime que se mostrava ser muito frágil do que qualquer um previa. As forças do governo e a ampla base política em que se apoiava não estavam, de modo algum, divididas e desintegradas, mas apenas desorientadas e temporariamente paralisadas. As forças da revolução eram débeis, salvo em tomar a iniciativa.” [p.311] 
3.5.2: “À medida que a crise avançava, a opinião pública em Paris tornou-se muito menos favorável ao gaullismo e algo mais favorável à velha esquerda, mas das pesquisas de opinião não surgia uma preponderância nítida por uma ou outra opção. Se a Frente Popular tivesse se concretizado, teria vencido as eleições subsequentes, exatamente como De Gaulle venceu as suas: vitória é um fator importante para decidir lealdade.” [p.311] 
3.6: “A melhor maneira de derrubar o getulismo era, pois, deixar que se destruísse a si mesmo. Em um determinado momento – entre 27 e 29 de maio -. Sua credibilidade havia se desintegrado a ponto de mesmo seus funcionários e seguidores poderem tê-lo considerado perdido. A pior política teria sido a de dar ao getulismo a possibilidade de reagrupar seus partidários, o aparato estatal e a massa indefinida frente a uma minoria claramente definida e militarmente e impotente de operários e estudantes.” [p.311] 
3.6.1: Mas, por mais que o PC não quisesse em momento algum realizar uma revolução. De Gaulle utilizou do argumento que precisava retomar a “ordem” contra a “revolução vermelha”. [p.311] 
3.6.2: “Sua estratégia estava correta para todos, inclusive para os revolucionários, que inesperadamente descobriram uma oportunidade de derrubar o regime em uma situação basicamente não revolucionária. Supondo, naturalmente, que desejassem tomar o poder.” [p.312] 
3.6.3: “Os verdadeiros erros dos comunistas foram outros. A prova de fogo de um movimento revolucionário não é sua disposição para erguer barricadas em qualquer oportunidade, mas sua presteza em reconhecer quando as condições normais da rotina política deixam de funcionar, e em adaptar seu comportamento à nova situação. O Partido Comunista Francês falhou nestas duas provas e, cem consequência, não só foi incapaz de derrubar o capitalismo (coisa que não queria fazer naquele momento exato), mas também de instalar a Frente Popular (coisa eu desejava).” [p.312] 
3.6.4: “Como observou Touraine, de forma sarcástica, seu verdadeiro fracasso não foi como partido revolucionário, mas como partido reformista. Manteve-se consistentemente atrelado por trás das massas, sendo incapaz de reconhecer a seriedade do movimento estudantil até que as barricadas foram erguidas; e incapaz de reconhecer a disposição dos operários para uma greve geral indefinida are que as ocupações espontâneas forçaram a mão de seus líderes sindicais, apanhados de surpresa uma vez mais, quando os operários rejeitaram os termos de acordo para pôr fim à greve.” [p.312] 
3.6.5: “Ao contrário da esquerda não comunista, o PC não foi marginalizado, já que contava com a organização e o apoio das massas. Continuou a fazer o jogo da política rotineira e do sindicalismo rotineiro. Explorou uma situação que não havia criado, mas não a liderou nem a compreendeu sequer, salvo, talvez, no que representava de ameaça à sua própria posição dentro do movimento operário por parte da ultraesquerda amargurada e hostil. Tivesse o Partido Comunista reconhecido a existência e o alcance do movimento popular, e agido adequadamente, poderia ter ganhado suficiente impulso para forçar seus aliados indecisos da esquerda tradicional a seguir sua linha.” [p.312]
3.6.6: “As possibilidades de derrubar o regime diminuíram não só pelo fracasso dos comunistas, mas pelo caráter do movimento de massas. [...] Sem profundos descontentamentos sociais e culturais prontos a emergir ao menor estímulo, não pode haver revolução social importante.” [p.313] 
3.7: “O movimento popular foi, portanto, sub-político ou antipolítico. A longo prazo, isto não diminui sua importância ou influência histórica. A curto prazo, porém, foi fatal. Como diz Toureine, Maio de 1968 é menos importante, mesmo na história das revoluções, do que a Comuna de Paris. Provou não que as revoluções podem triunfar hoje nos países ocidentais, mas apenas que podem irromper.” [p.313] 
4: O livro de Alain Touraine merece destaque dentre as produções sobre Maio de 1968. “O autor é um estudioso de sociologia industrial de procedência marxista, o professor de Daniel Cohn-Bendit em Nontarre, o foco originário da revolta estudantil; ele esteve profundamente envolvido nela em seus primeiros estágios. Até certo ponto, sua análise reflete tudo isso. Seu valor ressude não tanto em sua originalidade [...] como na lucidez do autor e em seu senso histórico, mas ausência de ilusões, seu conhecimento dos movimentos operários bem como a contribuição incidental de sua experiência em primeira mão.” [p.313-114] 
4.1: “O argumento de Touraine é elaborado e complexo, mas alguns de seus pontos podem ser assinalados, O que está acontecendo hoje é a “grande mutação” de uma velha sociedade burguesa para uma nova sociedade tecnocrata, e isto, como mostra o movimento de Maio, cria conflitos e dissidências não só em sua periferia, mas também em seu próprio centro.” [p.314] 
4.1.1: “De acordo com Touraine, um novo movimento social adaptado à nova economia está surgindo, mas se trata de um movimento curiosamente contraditório. Em um sentido, é uma rebelião primitiva de pessoas que dependem de experiências mais antigas para enfrentar uma nova situação.” [p.314-315] 
4.1.2: “Este movimento é importante não pela luta que está empreendendo agora, segundo as antigas orientações políticas, mas pelo que revela a respeito do futuro: por uma visão, mais do que pela sua realização, necessariamente fraca. Pois a força desta visão de futuro, o “comunismo utópico” que ela criou em 1968, como o jovem proletário a criou antes de 1848, depende de sua importância prática. Por outro lado, este movimento social também incluiu ou implica um tipo de reformismo atualizado, uma força que se pode servir para modificar as estruturas rígidas e obsoletas da sociedade.” [p.314-315] 
4.1.3: Maio de 1968 foi um movimento revolucionário? “Na França, argumenta Touraine, o novo movimento produziu uma crise genuinamente revolucionária, embora fosse improvável que chegasse à revolução porque, por razões históricas, se combinaram nela a luta social, a política e uma “revolução cultural” contra todas as formas de manipulação e integração de comportamento individual. Não pode haver movimento social hoje que não combine estes três elementos, devido ao “desaparecimento progressivo do divórcio entre Estado e sociedade civil”. Mas, ao mesmo tempo, isto torna extremamente difícil a concentração de luta e o desenvolvimento de instrumentos eficazes para a ação, como os partidos do tipo bolchevista.” [p.315] 
4.1.4: Assim, Touraine: “Demonstrou que “um novo período da história social” está começando ou já começou, mas também que a análise de seu caráter não pode derivar das palavras dos próprios revolucionários de Maio.” [p.316]

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