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ARTIGO PROJETO NA EI (1)

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PROJETOS PEDAGÓGICOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL: A EXPERIÊNCIA DAS CRIANÇAS NO MODO DE VIVER SUAS INFÂNCIAS NO CAMPO
Resumo: O presente texto é resultado de estudos do grupo de pesquisa “Infâncias na diversidade” somado a uma experiência com projeto pedagógico na educação infantil com crianças do campo desenvolvido em uma escola de assentamento em um município ao norte do estado de Mato Grosso. Tem como objetivo refletir sobre práticas de projetos pedagógicos na educação infantil numa ordem qualitativa apresentando como centralidade de análise as crianças na relação orgânica com o seu modo de viver suas infâncias no campo. A primeira parte traz alguns pressupostos para pensarmos os conceitos de criança, de infância e educação infantil do campo. Em seguida discutimos brevemente o conceito de projetos pedagógicos na educação infantil como possibilidades dialógicas na construção de um currículo narrativo que dão significados aos modos de vida no campo. Por fim apresentamos o “Projeto Passeio na casa do amigo feliz”, uma experiência pedagógica vivenciada por crianças de uma turma de educação infantil do campo, suas famílias e a educadora. 
Palavras-chave: Projetos pedagógicos; educação infantil; infâncias no campo; 
INTRODUÇÃO
As reflexões que este texto apresenta decorrem dos estudos e experiências realizados no grupo de pesquisa “Infâncias na Diversidade” e traz uma experiência de projeto pedagógico intitulado como “Passeio na casa do amigo feliz”, vivenciada por uma educadora de educação infantil e sua turma de Pré I e Pré II constituída por 8 crianças (5 meninos e 3 meninas) na sala anexa da Escola Estadual Florestan Fernandes do Assentamento 12 de Outubro, pertencente ao município de Cáudia/MT. 
No decorrer dos estudos e vivências no grupo de pesquisa fomos tecendo pensamentos e discussões a respeito de uma organização escolar que saia do lugar de reprodutora do pensamento das classes dominantes, para uma educação do campo com base curricular e centralidade nas vivências dos próprios sujeitos do campo e que de fato ocupe a posição de educação de qualidade para todos. 
Este texto busca refletir sobre práticas de projetos pedagógicos na educação infantil do campo numa ordem qualitativa tendo como centralidade de análise as crianças na relação orgânica com o seu modo de viver suas infâncias. A primeira parte traz alguns pressupostos para pensarmos os conceitos de criança, de infância e educação infantil do campo. Em seguida discutimos brevemente o conceito de projetos pedagógicos na educação infantil como possibilidades dialógicas na construção de um currículo narrativo. Por fim apresentamos a experiência denominada pela turma como “Projeto Passeio na casa do amigo feliz” vivenciado pelas crianças, suas famílias e a educadora. 
1. CRIANÇAS, INFÂNCIAS E EDUCAÇÃO INFANTIL: CONCEITOS E CONCEPÇÕES 
Quando discorremos sobre a criança e sua infância, muitas vezes, nos deparamos com concepções que desconsideram que os significados atribuídos à ela dependem do contexto no qual surge e se desenvolve e também das relações sociais que participa, nos seus aspectos econômico, histórico, cultural e político, dentre os quais nos mostram diferentes “infâncias” coexistindo em um mesmo tempo e lugar. Sabemos que criança sempre existiu, mas o conceito de infância não foi considerado da mesma maneira. Buscamos ajuda nas palavras de Pinto e Sarmento (1997, p.101), que apontam a seguinte diferenciação “[...] crianças existiram desde sempre, desde o primeiro ser humano, e a infância como construção social [...] existe desde os séculos XVII e XVIII”. 
Entretanto, o que é ser criança? O que é a infância? Quem é a criança hoje? Como se constitui a infância atualmente? Por que essas perguntas são feitas separadamente? As respostas a estas questões se modificam conforme a concepção que se tem delas. Para alguns é uma fase da vida onde impera a fantasia e a liberdade. Para outros, a infância é uma etapa da vida onde a criança é considerada um “adulto em miniatura” (ARIÈS, 2012). Moss (2002) expressa que:
[...] as crianças são vistas como cidadãos com direitos, membros de um grupo social, agentes de suas próprias vidas (embora não agentes livres), e como co-construtores do conhecimento, identidade e cultura. A infância está relacionada à fase adulta, mas não hierarquicamente; ao contrário, é uma etapa importante da vida em si mesma, que deixa traços nas etapas posteriores. Não estamos preocupados apenas com o adulto que a criança vai se tornar, mas com a infância que a criança está vivendo (MOSS, 2002, p.242).
	É sabido que historicamente as crianças não foram vistas e respeitadas como sujeitos de direitos, seres humanos inteiros com sentimentos, desejos, visões de mundo e, sobretudo, com capacidades de construir conhecimentos na relação com o outro e com o mundo. Reconhecê-las como ser humano inteiro e concreto vai além daquilo que está nas prerrogativas legais. O SER sujeito de direitos é o ser da autonomia, que sabe o que quer, que possui o direito de expressar suas opiniões enfim, aquele que na dinâmica das relações sociais constrói conhecimentos e produz culturas. 
	As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil definem a criança como um sujeito histórico que está no centro do planejamento curricular: 
A criança, centro do planejamento curricular, é sujeito histórico e de direitos que se desenvolve nas interações, relações e práticas cotidianas a ela disponibilizadas e por ela estabelecidas com adultos e crianças de diferentes idades nos grupos e contextos culturais nos quais se insere. Nessas condições ela faz amizades, brinca com água ou terra, faz-de-conta, deseja, aprende, observa, conversa, experimenta, questiona, constrói sentidos sobre o mundo e suas identidades pessoal e coletiva, produzindo cultura. (BRASIL/MEC DCNEI, 2013, p.86). 
As crianças constroem suas próprias histórias, identidades e culturas num processo de interação social. Possuem suas maneiras específicas de ver e sentir o mundo. Corsaro (2011) nos inspira a pensar em uma criança sujeito histórico e de direitos que nas relações, interações e práticas cotidianas nas quais vivenciam, constrói conhecimentos e produz culturas devendo ser compreendida no sentido plural porque elas são plurais nas suas formas de viver a infância. 
A criança sujeito de direitos que apresentamos neste texto é o sujeito da centralidade, aquela que brinca, fala, pesquisa, interage e assim, constrói seus saberes e vivem suas experiências cotidianas numa relação dialógica entre o eu, o outro e o mundo. As significações do SER criança do campo se constituem nos modos de viver a infância camponesa e dá sentido à vida no campo. Silva e Pasuch (2010) ao elaborar o texto com orientações curriculares para a educação infantil do campo traz uma concepção de educação infantil do campo como: 
Uma educação infantil que valorize suas experiências, seus modos de vida, sua cultura, suas histórias e suas famílias, que respeite os tempos do campo, os modos de convivência, as produções locais. Uma educação infantil que permita que a criança conheça os modos como sua comunidade nomeia o mundo, festeja, canta, dança, conta histórias, produz e prepara seus alimentos. Creches e pré-escolas com a cara do campo, mas também com o corpo e a alma do campo, com a organização dos tempos, atividades e espaços organicamente vinculados aos saberes de seus povos.[footnoteRef:1] (SILVA e PASUCH, 2010). [1: Trecho contido nas orientações curriculares para a educação infantil do campo elaborado pelas professoras Drªs Ana Paula soares da Silva e Jaqueline Pasuch. O texto está disponível na página do Ministério da Educação, foi acessado em 25/06/2015.] 
Nesse sentido, pensar escolas e creches com o “corpo e a alma do campo” está na concepção de uma educação infantil que possui na sua essência práticas e concepções que valorize as infâncias como tempos específicos da vida humana, que concebe a criança como ser pensante, construtora de seus saberes porque a criança do campo como qualquer outra,

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