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PSICOLOGIA JURÍDICA NO BRASIL Profª. Elizabeth Pereira Paiva 1 2 PENSANDO A PSICOLOGIA APLICADA À JUSTIÇA (Esther Maria de Magalhães Arantes) • Crítica contundente à psicologia formulada pelo historiador Canguilhem em 1956. • O que é Psicologia? Quem designa os psicólogos como instrumentos do instrumentarismo? Crítica à cientificidade da Psicologia e ao seu próprio fazer. • De fato, de muitos trabalhos de Psicologia, tem-se a impressão de que misturam a uma filosofia sem rigor, uma ética sem exigência e uma medicina sem controle 3 • Roudinesco (1993) presta homenagem a Canguilhem, reconhecendo a pertinência e a atualidade de suas críticas à Psicologia, principalmente sobre a aliança vitoriosa entre o organicismo biológico e genético, a ciência da mente, e a tecnologia estaria ganhando terreno em todos os campos. • Estaria então a Psicologia em geral (social, escolar) e a Psi jurídica em particular, sendo pensadas apenas como técnicas ou como ideologias? • Leila Torraca de Brito formula a seguinte questão para a Psi adjetivada de jurídica: o que é a Psi aplicada à justiça? Quais são só seus conceitos e em que se fundamenta sua pretensão de prática científica? • Michel Foucault (1979), pensando uma arqueologia e uma genealogia dos saberes sobre o Homem, identifica em suas análises genealógicas que as práticas jurídicas ou judiciárias são das mais importantes na emergência das formas modernas de subjetividade, e a partir do século XIX, mais do que punir, buscar-se-á a reforma psicológica e a correção moral dos indivíduos. • Na área jurídica, nas varas de família, constata-se o predomínio das atividades de perícia, nos casos de separação litigiosa, onde há disputa da guarda de filhos. • A perícia é um dos procedimentos mais utilizados na área jurídica: para averiguar periculosidade, condições de sanidade mental das partes de um litígio. • Resultado de perícias – uma das partes ficará no lugar de não idôneo, moralmente condenável ou menos habilitado. • Canguilhem (1972): Seria sábio dar mais ouvidos ao filósofo do que ao administrador. Onde querem chegar os psi fazendo o que fazem? A PRÁTICA DOS LAUDOS, PARECERES, RELATÓRIOS • Na prática dos psi jurídicos predominam as atividades de confecção de laudos, pareceres e relatórios, função mais condizente com a dos peritos avaliadores. • Alguns psi têm levantado o mal-estar crescente sobre tais práticas, tão comprometidas com a manutenção da ordem vigente, considerada injusta e excludente. • Para Canguilhem, ao buscar objetividade, a psi transformou-se em instrumentalista, deixando de contextualizar as circunstâncias e os conflitos. SABER/PODER DOS TRABALHADORES SOCIAIS – PSICÓLOGOS, PSIQUIATRAS E ASSISTENTES SOCIAIS Definem o normal e o patológico, sobre o qual repousam a internação para os alienados, a prisão dos delinquentes, a intervenção nos carentes e órfãos. E assim, cria-se a formação de um complexo tutelar, aliado ao Judiciário. DOS CONFLITOS E DO MAL-ESTAR O campo denominado Psi jurídica é particularmente tenso e contraditório. Há uma convivência de antigas e novas práticas. Práticas antigas – marginalização dos jovens pobres de periferia, potencialmente perigosos. Práticas novas – reforma psiquiátrica e luta pela garantia dos direitos humanos em pessoas atingidas por processos judiciais. DO TRATAMENTO QUE É PENA Internação compulsória de jovens pela via da medida judicial – aliança dos saberes médico e psicológico com o judicial. Medidas protetivas como forma impositiva da Justiça DADOS DA REALIDADE O campo social: situação complexa e confusa onde pobreza, abandono e violência se misturam à ausência ou precariedade das políticas públicas, às desconfianças, medos, omissões e acusações mútuas. Ex.: o projeto “Justiça Terapêutica” - adesão do Brasil à política anti-drogas americana, denominada “Tolerância zero”. • Papel do psicólogo nesse programa: controlar as condutas dos jovens inseridos no tratamento. Isso levou à crítica do CRP de que essa prática quebra do sigilo profissional (o psicólogo produz prova contra o próprio sujeito por ele atendido), quebra dos direitos individuais mínimos (o sujeito abre mão do direito de defesa), ausência de distinção entre usuário eventual e dependente, e quebra da condição fundamental do tratamento, que é ser voluntário. • O Ministério da Saúde, por meio das Portarias nº 336 e 189 estabelece a criação de Centros de Atenção Psicossocial para atendimento a crianças e jovens e para portadores de transtornos em decorrência do uso e dependência de substâncias psicoativas. CRITICANDO A PRÁTICA DOS PSICÓLOGOS Laudos, pareceres e relatórios técnicos carregados de estigmas e preconceito, formando uma produção técnica que dá subsídios ao discurso da verdade, na Justiça. Vera Malaguti, que pesquisou laudos e pareceres produzidos sobre jovens e drogas nos anos de 1968 a 1988, constatou flagrante construção de estereótipos, a partir de olhares “cientificistas” e preconceituosos em relação às favelas e bairros populares. “mais do que 'doença mental', esses processos revelam histórias de miséria e exclusão social”. BUSCA DE FORMAS ALTERNATIVAS PARA ATUAÇÃO PROFISSIONAL que aliem a psicologia à garantia dos direitos humanos, à dignidade da pessoa humana, às liberdades, e que produza uma Psicologia Afirmativa NA ATUALIDADE A ATUAÇÃO DA PSICOLOGIA JURÍDICA TEM PROCURADO: • colaborar com o planejamento e a execução de políticas preventivas de combate à violência, à criminalidade e à exploração sexual infanto-juvenil; • criar condições favoráveis ao cumprimento efetivo dos direitos humanos; • investigar as implicações do jurídico sobre a subjetividade individual; • realizar a mediação por intermédio de intervenções que contribuam para que, eticamente, as pessoas se responsabilizem por seus conflitos e procurem resolvê-los; • além de acompanhar e oferecer a devida orientação para cada caso pertencente aos diversos setores da Justiça, tais como: separações, divórcios, processos de disputa de guarda, adoção, violência de gênero, tratamento de pessoas com transtornos mentais que cometeram crimes etc.(Marafon, G & Pinheiro, D : 2008) QUESTÕES DE CONCURSOS 17 (FGV –DPGERJ - 2014) A inserção do psicólogo nas instituições judiciárias aconteceu inicialmente por meio de: (A) avaliações das políticas públicas destinadas à população infanto-juvenil. (B) avaliações acerca da fidedignidade do testemunho de uma pessoa sobre um acontecimento. (*) (C) análise das condições sociais para efetivação dos direitos humanos. (D) análises complexas acerca do ser humano, valorizando-se aspectos relacionais e abordagens qualitativas. (E) análise dos comportamentos de uma pessoa, articulando-os às transformações no campo social. 18 (CESPE-TJ-RO – 2012) A atuação do psicólogo jurídico pode abranger: (A) enquanto mediador, uma função interventora, no intuito de solucionar conflitos, focalizando estabelecimento de acordo entre as partes, mesmo que o resgate do canal de comunicação não ocorra. (B) a aplicação de questões psicodiagnósticas e a elaboração de laudos e pareceres relativos às áreas criminal e civil, podendo o psicólogo decidir e opinar sobre o andamento do processo judicial. (C) a criação de redes de assistência a famílias de alto risco, com o foco principal em atendimento conjunto de crianças vítimas de abusos e abusadores, pois o trabalho que envolva toda a família é sempre mais benéfico. (D) o desenlace das dificuldades com as quais o Poder Judiciário, frequentemente, precisa lidar, desde que relacionadas a seu campo de atuação, sem intercâmbio de conhecimento técnico com outros campos. (E) a organização do contexto de referência familiar, a fim de que a criança possa se constituir como sujeito e se desenvolver de maneira saudável. (*) 19 (CESPE-TJ-RO – 2012) Com relação à psicologia jurídica, assinale a opção correta.(A) Inicialmente, os estudos de psicologia jurídica contribuíram,principalmente, com as áreas de vitimologia e psicologia do testemunho. (B) A visão psicometrista é o campo da psicologia jurídica de maior relevância e o mais estudado. (C) A psicologia jurídica surgiu em razão das dificuldades dos magistrados em decidir demandas jurídicas de guarda e tutela. (D) As áreas de atuação da psicologia jurídica são a criminologia, a adoção, o divórcio e a separação, sendo de sua competência propor soluções de conflitos e a prevenção de sofrimentos psíquicos graves. (E) No Brasil, a interface entre a psicologia e o direito iniciou-se de modo informal e voluntário, antes mesmo do reconhecimento da profissão. (*) 20