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50 Unidade V PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Unidade V 5 Libras: aspectos gramaticais 5.1 os parâmetros formacionais da Libras Nesse mergulho ao interior da Libras, há a necessidade de um retorno aos termos criados por Stokoe, em 1960, de forma que seja possível entender do que exatamente se trata. Ao criar o termo quirema para designar o segmento mínimo sinalizado, correspondente ao fonema da fala, muitos autores, entre eles Quadros e Karnopp (2004 apud PEREIRA et al., 2011) e Souza (1998), fazem uma correspondência entre quirema e fonema, pois o primeiro é um termo desconhecido da maioria das pessoas, inclusive de alguns estudantes de cursos de Letras, enquanto o segundo é conhecido e estudado. Esse paralelo com as línguas orais faz parte, também, da diferença de valor entre as duas línguas, pois, além de as modalidades serem diferentes há línguas mais valorizadas do que outras. Como exemplo, pode-se pensar na diferença entre a língua portuguesa e as línguas indígenas brasileiras, como o tupi ou o guarani. As línguas indígenas não só têm menor valor frente à sociedade majoritária de não indígenas como também foram perseguidas, e muitas delas deixaram de existir. Assim também ocorreu com as línguas de sinais ao redor do mundo, com a proibição de seu uso no Congresso de Milão de 1880 e os diversos movimentos para que os surdos não convivessem uns com os outros em comunidades ou escolas e nem mesmo casassem entre si. Foi por meio do uso às escondidas nos colégios internos e no interior dos clubes de surdos que as línguas de sinais se mantiveram vivas e hoje adquirem maior relevância. Por essas razões, sempre que se apresenta a língua de sinais, faz-se esse paralelo com as línguas orais, usando a nomenclatura a elas concernida: fonema, fonologia, sistema fonológico etc. Como visto, os quiremas são as unidades mínimas das línguas de sinais, as quais, por si sós, não têm significado. Por essa razão, há necessidade de três (ou mais) quiremas para formar um morfema, o qual, segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss (2001), é: a menor unidade linguística que possui significado, abarcando raízes e afixos, formas livres (por exemplo: mar) e formas presas (por exemplo: sapat-, -o-, -s) e vocábulos gramaticais (preposições, conjunções). [Para o estruturalismo norte-americano, pode ter ainda outras manifestações, como a ordem das palavras na frase, indicando as funções sintáticas dos constituintes, ou a entonação sozinha, que pode mudar o sentido de um enunciado: Você vai. Você vai?]. 51 PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Linguística e Língua de sinais: compreender as diferenças Linguísticas a partir dos estudos da Linguagem Significa, portanto, que para termos um sinal com significado, teremos de combinar configuração de mãos (CM); ponto de articulação (PA ou L); movimento (M) (STOKOE, 1960), aspectos não manuais (NM) e orientação de mãos (Or) (BATTISON, 1974, 1978 apud AMARAL; COUTINHO; MARTINS, 1994). O que vem a ser uma configuração de mão? Segundo a primeira pesquisadora da Libras, Lucinda Ferreira Brito (1995, p. 36-37): “são as diversas formas que a(s) mão(s) toma(m) na realização do sinal. [...] Cada configuração é um elemento distintivo, como o comprovamos, sinais de costume e educação, que possuem todos os parâmetros idênticos, menos a configuração de mão.” Nas figuras a seguir, retiradas do livro inaugural de estudos da Libras (BRITO, 1995) podemos observar essa diferença e devemos nos recordar de que a língua se constitui por traços de diferença. COSTUME Figura 2 EDUCAçãO Figura 3 52 Unidade V PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Quais são as configurações de mãos (CM) da Libras? Qual a diferença entre configuração de mãos e alfabeto manual? Configuração das Mãos Alfabeto manual Configuração de Mãos Figura 4 Pode-se constatar, pela observação das figuras anteriores, que todas as “letras” do alfabeto manual fazem parte das configurações de mãos, mas o oposto não é verdadeiro, visto que há mais configurações do que letras. Deve-se ter em mente que o alfabeto manual é uma representação das letras do alfabeto da língua portuguesa, e não sinais. Outro traço distintivo das línguas de sinais é o ponto de articulação, definido por Brito (1995, p. 37-38) como [...] o espaço em frente ao corpo ou uma região do próprio corpo, onde os sinais são articulados. Os sinais articulados no espaço são de dois tipos: os que se articulam no espaço neutro diante do corpo como, por exemplo, a cabeça, a cintura e os ombros. O ponto de articulação ou lócus (L), portanto, pode ocorrer nesse espaço de articulação próximo ao corpo do locutor e também localizado em partes do corpo, como na cabeça (em cima, de um lado, do outro), testa, têmporas, bochechas, olhos, nariz, boca, lábios, queixo, pescoço, ombro, esterno, meio do tronco, abdômen, braço, antebraço e perna. Assim como acontece com a CM, também o ponto de articulação é determinante nas suas diferenciações com outro locus, como pode ser visto nos exemplos a seguir com os sinais de aprender e sábado, que têm a mesma CM, movimento, mas ponto de articulação diferente. 53 PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Linguística e Língua de sinais: compreender as diferenças Linguísticas a partir dos estudos da Linguagem APRENDER Figura 5 SáBADO Figura 6 Pode-se observar na duas figuras anteriores como a mudança do parâmetro L faz toda a diferença. O terceiro quirema, movimento (M), é definido por Brito (1995, p. 38) como [...] um parâmetro complexo que pode envolver uma vasta rede de formas e direções, desde os movimentos internos da mão, os movimentos do pulso, os movimentos direcionais no espaço, até conjuntos de movimentos no mesmo sinal. 54 Unidade V PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 A complexidade se dá pela quantidade imensa de probabilidades de diferentes combinações, pois os dedos podem se mexer, as mãos, ao mesmo tempo, podem abrir ou fechar, e ainda podem ser feitos movimentos circulares para cima ou para baixo – enfim, alguns destes adquirem relevância na sintaxe da Libras. Há sinais que se diferenciam pelo movimento, como nas imagens a seguir: VERDE (SP) Figura 7 GELADO (SP) Figura 8 55 PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Linguística e Língua de sinais: compreender as diferenças Linguísticas a partir dos estudos da Linguagem O parâmetro orientação das mãos (Or), pode ser explicado como a direção da palma da mão durante o sinal, seja para cima, para baixo, para o corpo, para fora, para a esquerda ou para a direita, que pode acontecer, inclusive, durante a execução do parâmetro movimento (M). Já o último parâmetro, os aspectos não manuais (NM), considerado por Battison (1974; 1978 apud AMARAL; COUTINHO; MARTINS, 1994) como outro parâmetro distintivo entre sinais, como nos sinais de história, lembra, com a mesma configuração de mão, o mesmo movimento, o mesmo local de articulação, mas com as sobrancelhas um pouco cerradas e os lábios levemente em bico, nos sinais de lindo, lindinho e lindíssimo, como nas figuras a seguir. Figura 9 Figura 10 Figura 11 LINDO LINDINHO LINDíSSIMO O mais importante é notar que todosesses parâmetros podem estar presentes ao mesmo tempo na realização dos sinais e, pela possibilidade de simultaneidade existente nas línguas de sinais, torna-se fundamental que o aprendiz e o usuário saibam que uma mudança em um deles muda o significado do sinal. Portanto, cabe atenção ao observar e ao sinalizar. 5.2 morfologia Morfologia, como visto na unidade I, é a área da Linguística que estuda a formação das palavras (sejam elas faladas, escritas ou em sinais) e é a ela que será dirigida a atenção nesta seção. Na formação do conjunto das palavras, as utilizadas por uma língua, ou seja, o seu léxico, há influência de muitos fatores, dentre os quais podemos citar a língua de origem – no caso da língua portuguesa, o latim – e a força de idiomas estrangeiros sobre a língua de um país. Não é diferente com as línguas de sinais. Na unidade anterior, quando foi apresentada a origem da Libras, ficou-se sabendo que havia uma língua (talvez línguas) utilizada pelos surdos brasileiros, antes de existir a primeira escola para surdos em nosso país, o Ines (Instituto Nacional de Educação de Surdos, fundado em 1857 no Rio de Janeiro). O Ines, por sua vez, foi inaugurado por D. Pedro II, sob a direção de um professor surdo francês, Hernest 56 Unidade V PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Huet, formado pelo Instituto de Surdos de Paris. Dessa forma, com o início da educação formal dos surdos brasileiros, houve forte influência da Língua Francesa de Sinais (Langue dês Signes Française – LSF). Pode-se compreender que também o alfabeto manual francês seja a base do nosso alfabeto manual. Nas línguas de sinais, portanto, há influências variadas, como a do léxico não nativo e do alfabeto manual sobre o léxico nativo, que sofre alterações, mas ao mesmo tempo mantém um núcleo que encerra as características da língua. Na Libras, pode-se considerar como léxico não nativo a LSF e o alfabeto manual francês, a língua portuguesa e, em tempos de internet, a ASL, utilizada largamente na web, nos chats, por meio de webcam. A seguir, observa-se a influência do alfabeto e, por consequência, da língua portuguesa na Libras, na configuração dos sinais. FAMíLIA FELIz FéRIAS Figura 12 A modificação dos sinais da Libras pode se dar por muitas razões: variações relacionadas ao processo de nominalização, ou variações de gênero, de número e quantidade ou de grau; pela variação de tempo ou de aspecto e pela negação. Nesta seção serão apresentadas as formas mais importantes de formação de palavras para que você, aluno-leitor, possa continuar aprendendo Libras, prestando atenção a essas questões e percebendo as nuances imperceptíveis para os que não se debruçam sobre a língua. A variação de gênero se faz a partir da introdução do sinal de homem ou mulher antes do sinal a ser utilizado. A modificação na duração e extensão do movimento de alguns sinais pode oferecer a ideia de grau, assim como verbos direcionais (a serem apresentados na próxima unidade) apresentam flexão para pessoa e número por meio da direção do movimento. 57 PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Linguística e Língua de sinais: compreender as diferenças Linguísticas a partir dos estudos da Linguagem Nas figuras a seguir, pode-se perceber um importante processo de formação de palavras, ou melhor, de sinais, que é a nominalização, isto é, a formação de um sinal por sua transformação de verbo em um nome, ou, como denominam alguns, em um substantivo: SENTAR CADEIRA Figura 13 Figura 14 ou OUVIR OUVINTE Figura 15 Figura 16 Pode-se perceber que o movimento no verbo é mais longo e torna-se mais curto e se repete nos nomes, como em cadeira e em ouvinte. Outro modo formação de sinais é a composição, em que dois sinais se combinam para formar um terceiro. Essa forma de criação de sinais é facilmente observada nos sinais de escola e igreja, nos quais ao sinal de casa se compõe respectivamente o de estudar e o de cruz. ESCOLA Figura 17 58 Unidade V PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 IGREJA Figura 18 Outra forma de criação de novos sinais é a incorporação de um argumento, como explicitam Pereira et al. (2011, p. 72), sendo muito comum nas línguas de sinais, assim como na Libras, em decorrência de suas características visoespaciais. A incorporação ocorre quando ao sinal se juntam características do objeto que sofre a ação, como no caso de lavar. LAVAR OS CABELOS LAVAR PRATO LAVAR ROUPA Figura 19 Figura 21 Figura 20 Ocorre também quando os numerais se incorporam ao sinal, como nos exemplos a seguir, que buscam transmitir noção de tempo, que podem ser dias, meses ou a duração de um evento ou viagem, entre outras possibilidades: 59 PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Linguística e Língua de sinais: compreender as diferenças Linguísticas a partir dos estudos da Linguagem UM MêS DOIS MESES TRêS MESES Figura 22 Figura 23 Figura 24 DURAçãO DE UMA HORA DURAçãO DE DUAS HORAS DURAçãO DE TRêS HORAS Figura 25 Figura 26 Figura 27 Outro evento importante na formação de sinais é decorrente da formação da negativa, que pode ocorrer de diferentes maneiras. Um dos modos de se estabelecer a forma negativa ocorre quando ela está contida no sinal – por exemplo, há uma inversão na orientação de mão com manutenção da CM, como em querer e não querer. Vejamos: QUERER NãO QUERER Figura 28 Figura 29 Ainda segundo Pereira et al., outra forma de construir a negativa por incorporação pode ser observada no sinal de gostar e não gostar, na qual o sinal que se fecha na altura do peito em gostar faz com que a mão estendida se afaste e mude a orientação da mão (Or) para fora, como se observa nas figuras a seguir. Essa mudança no parâmetro movimento e na orientação de mão pode ser percebida também em saber e não saber. 60 Unidade V PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Figura 30 Figura 31 GOSTAR NãO GOSTAR Existem mais duas maneiras de produzir as negativas. Uma delas é aquela presente em ter e não ter, na qual há assimilação do parâmetro movimento (no caso, a oscilação da mão) da partícula não ao item negado. A CM permanece a mesma, mas o L se modifica. Veja nas figuras a seguir: Figura 32 Figura 33 TER NãO TER A outra maneira de se incorporar a negativa a alguns verbos se faz por meio do acréscimo dos movimentos negativos da cabeça à forma afirmativa do verbo. Isso pode ser visto nas figuras a seguir dos verbos entender e não entender e de conhecer e não conhecer. Figura 34 Figura 35 ENTENDER NãO ENTENDER Figura 36 Figura 37 CONHECER NãO CONHECER 61 PÓ S - Re vi sã o: L uc as - D ia gr am aç ão : F ab io - 0 3/ 05 /1 3 // 2 ª r ev isã o: L ua nn e - Co rr eç ão : M ár ci o 15 /0 5/ 13 Linguística e Língua de sinais: compreender as diferenças Linguísticas a partir dos estudos da Linguagem A forma negativa pode ser utilizada também com movimentos de não com o dedo indicador. Com essas últimas ilustrações, concluímos a apresentação das principais características de parâmetros formacionais e aspectos morfológicos da Libras, o que abre a perspectiva para a próxima e última unidade deste livro-texto, que tratará dos aspectos sintáticos da nossa língua de sinais. resumo Nesta unidade, foram apresentados os parâmetros formacionais da Libras, a partir do termo quirema,cunhado por Stokoe, em 1960, o qual é considerado o segmento mínimo sinalizado, correspondente ao fonema da fala. Discutimos, também, que o morfema ou sinal é a unidade mínima de significação, e para termos um sinal com significado, há de se combinar configuração de mãos (CM), ponto de articulação (PA ou L), movimento (M) (STOKOE, 1960), aspectos não manuais (NM) e orientação de mãos (Or) (BATTISON, 1974; 1978 apud AMARAL; COUTINHO; MARTINS, 1994). Muitos autores fazem uma correspondência entre quirema e fonema, pois quirema é um termo desconhecido da maioria das pessoas e, desde o início dos estudos das línguas de sinais, sempre se busca estabelecer um paralelo com as línguas orais, por constatar-se uma diferença de valor entre as duas línguas, pois além das modalidades serem diferentes, as línguas da maioria da população (língua oral) são mais valorizadas do que as línguas de sinais. Outro aspecto tratado nesta unidade foi a morfologia, a área da Linguística que estuda a formação das palavras, sejam elas faladas, escritas ou em sinais. Vimos que, com o início da educação formal dos surdos brasileiros, houve forte influência da Língua Francesa de Sinais (Langue dês Signes Française – LSF) e do alfabeto manual francês como a base do nosso alfabeto manual, assim como da língua portuguesa e, mais recentemente, da Língua Americana de Sinais. Procuramos apresentar de que forma acontecem as variações em uma língua e constatamos que elas estão relacionadas ao processo de nominalização, a variações de gênero, de número e quantidade ou de grau, pela variação de tempo ou de aspecto, e pela negação.