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5 Libras: aspectos gramaticais
5.1 os parâmetros formacionais da Libras
Nesse mergulho ao interior da Libras, há a necessidade de um retorno aos termos criados por Stokoe, 
em 1960, de forma que seja possível entender do que exatamente se trata.
Ao criar o termo quirema para designar o segmento mínimo sinalizado, correspondente ao fonema 
da fala, muitos autores, entre eles Quadros e Karnopp (2004 apud PEREIRA et al., 2011) e Souza (1998), 
fazem uma correspondência entre quirema e fonema, pois o primeiro é um termo desconhecido da 
maioria das pessoas, inclusive de alguns estudantes de cursos de Letras, enquanto o segundo é conhecido 
e estudado.
Esse paralelo com as línguas orais faz parte, também, da diferença de valor entre as duas línguas, 
pois, além de as modalidades serem diferentes há línguas mais valorizadas do que outras. Como 
exemplo, pode-se pensar na diferença entre a língua portuguesa e as línguas indígenas brasileiras, 
como o tupi ou o guarani. As línguas indígenas não só têm menor valor frente à sociedade majoritária 
de não indígenas como também foram perseguidas, e muitas delas deixaram de existir. Assim também 
ocorreu com as línguas de sinais ao redor do mundo, com a proibição de seu uso no Congresso de 
Milão de 1880 e os diversos movimentos para que os surdos não convivessem uns com os outros 
em comunidades ou escolas e nem mesmo casassem entre si. Foi por meio do uso às escondidas nos 
colégios internos e no interior dos clubes de surdos que as línguas de sinais se mantiveram vivas e 
hoje adquirem maior relevância.
Por essas razões, sempre que se apresenta a língua de sinais, faz-se esse paralelo com as línguas 
orais, usando a nomenclatura a elas concernida: fonema, fonologia, sistema fonológico etc.
Como visto, os quiremas são as unidades mínimas das línguas de sinais, as quais, por si sós, não têm 
significado. Por essa razão, há necessidade de três (ou mais) quiremas para formar um morfema, o qual, 
segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss (2001), é:
a menor unidade linguística que possui significado, abarcando raízes e afixos, 
formas livres (por exemplo: mar) e formas presas (por exemplo: sapat-, -o-, 
-s) e vocábulos gramaticais (preposições, conjunções). [Para o estruturalismo 
norte-americano, pode ter ainda outras manifestações, como a ordem das 
palavras na frase, indicando as funções sintáticas dos constituintes, ou a 
entonação sozinha, que pode mudar o sentido de um enunciado: Você vai. 
Você vai?].
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Linguística e Língua de sinais: compreender as diferenças Linguísticas 
a partir dos estudos da Linguagem
Significa, portanto, que para termos um sinal com significado, teremos de combinar configuração de 
mãos (CM); ponto de articulação (PA ou L); movimento (M) (STOKOE, 1960), aspectos não manuais (NM) 
e orientação de mãos (Or) (BATTISON, 1974, 1978 apud AMARAL; COUTINHO; MARTINS, 1994).
O que vem a ser uma configuração de mão? Segundo a primeira pesquisadora da Libras, Lucinda 
Ferreira Brito (1995, p. 36-37): “são as diversas formas que a(s) mão(s) toma(m) na realização do sinal. 
[...] Cada configuração é um elemento distintivo, como o comprovamos, sinais de costume e educação, 
que possuem todos os parâmetros idênticos, menos a configuração de mão.”
Nas figuras a seguir, retiradas do livro inaugural de estudos da Libras (BRITO, 1995) podemos observar 
essa diferença e devemos nos recordar de que a língua se constitui por traços de diferença.
COSTUME
Figura 2
EDUCAçãO
Figura 3
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Quais são as configurações de mãos (CM) da Libras? Qual a diferença entre configuração de mãos e 
alfabeto manual?
Configuração das Mãos
Alfabeto manual Configuração de Mãos
Figura 4
Pode-se constatar, pela observação das figuras anteriores, que todas as “letras” do alfabeto manual 
fazem parte das configurações de mãos, mas o oposto não é verdadeiro, visto que há mais configurações 
do que letras. Deve-se ter em mente que o alfabeto manual é uma representação das letras do alfabeto 
da língua portuguesa, e não sinais. Outro traço distintivo das línguas de sinais é o ponto de articulação, 
definido por Brito (1995, p. 37-38) como
[...] o espaço em frente ao corpo ou uma região do próprio corpo, onde os 
sinais são articulados. Os sinais articulados no espaço são de dois tipos: os 
que se articulam no espaço neutro diante do corpo como, por exemplo, a 
cabeça, a cintura e os ombros.
O ponto de articulação ou lócus (L), portanto, pode ocorrer nesse espaço de articulação próximo ao 
corpo do locutor e também localizado em partes do corpo, como na cabeça (em cima, de um lado, do 
outro), testa, têmporas, bochechas, olhos, nariz, boca, lábios, queixo, pescoço, ombro, esterno, meio do 
tronco, abdômen, braço, antebraço e perna.
Assim como acontece com a CM, também o ponto de articulação é determinante nas suas 
diferenciações com outro locus, como pode ser visto nos exemplos a seguir com os sinais de aprender 
e sábado, que têm a mesma CM, movimento, mas ponto de articulação diferente.
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Linguística e Língua de sinais: compreender as diferenças Linguísticas 
a partir dos estudos da Linguagem
APRENDER
Figura 5
SáBADO
Figura 6
Pode-se observar na duas figuras anteriores como a mudança do parâmetro L faz toda a diferença.
O terceiro quirema, movimento (M), é definido por Brito (1995, p. 38) como
[...] um parâmetro complexo que pode envolver uma vasta rede de formas e 
direções, desde os movimentos internos da mão, os movimentos do pulso, os 
movimentos direcionais no espaço, até conjuntos de movimentos no mesmo 
sinal.
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A complexidade se dá pela quantidade imensa de probabilidades de diferentes combinações, pois 
os dedos podem se mexer, as mãos, ao mesmo tempo, podem abrir ou fechar, e ainda podem ser feitos 
movimentos circulares para cima ou para baixo – enfim, alguns destes adquirem relevância na sintaxe 
da Libras.
Há sinais que se diferenciam pelo movimento, como nas imagens a seguir:
VERDE (SP)
Figura 7
GELADO (SP)
Figura 8
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a partir dos estudos da Linguagem
O parâmetro orientação das mãos (Or), pode ser explicado como a direção da palma da mão durante 
o sinal, seja para cima, para baixo, para o corpo, para fora, para a esquerda ou para a direita, que pode 
acontecer, inclusive, durante a execução do parâmetro movimento (M).
Já o último parâmetro, os aspectos não manuais (NM), considerado por Battison (1974; 1978 
apud AMARAL; COUTINHO; MARTINS, 1994) como outro parâmetro distintivo entre sinais, como nos 
sinais de história, lembra, com a mesma configuração de mão, o mesmo movimento, o mesmo local de 
articulação, mas com as sobrancelhas um pouco cerradas e os lábios levemente em bico, nos sinais de 
lindo, lindinho e lindíssimo, como nas figuras a seguir. 
 
Figura 9
Figura 10 Figura 11
LINDO
LINDINHO LINDíSSIMO
O mais importante é notar que todosesses parâmetros podem estar presentes ao mesmo tempo na 
realização dos sinais e, pela possibilidade de simultaneidade existente nas línguas de sinais, torna-se 
fundamental que o aprendiz e o usuário saibam que uma mudança em um deles muda o significado do 
sinal. Portanto, cabe atenção ao observar e ao sinalizar.
5.2 morfologia
Morfologia, como visto na unidade I, é a área da Linguística que estuda a formação das palavras 
(sejam elas faladas, escritas ou em sinais) e é a ela que será dirigida a atenção nesta seção.
Na formação do conjunto das palavras, as utilizadas por uma língua, ou seja, o seu léxico, há 
influência de muitos fatores, dentre os quais podemos citar a língua de origem – no caso da língua 
portuguesa, o latim – e a força de idiomas estrangeiros sobre a língua de um país. Não é diferente com 
as línguas de sinais.
Na unidade anterior, quando foi apresentada a origem da Libras, ficou-se sabendo que havia uma 
língua (talvez línguas) utilizada pelos surdos brasileiros, antes de existir a primeira escola para surdos 
em nosso país, o Ines (Instituto Nacional de Educação de Surdos, fundado em 1857 no Rio de Janeiro). 
O Ines, por sua vez, foi inaugurado por D. Pedro II, sob a direção de um professor surdo francês, Hernest 
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Huet, formado pelo Instituto de Surdos de Paris. Dessa forma, com o início da educação formal dos 
surdos brasileiros, houve forte influência da Língua Francesa de Sinais (Langue dês Signes Française 
– LSF). Pode-se compreender que também o alfabeto manual francês seja a base do nosso alfabeto 
manual.
Nas línguas de sinais, portanto, há influências variadas, como a do léxico não nativo e do alfabeto 
manual sobre o léxico nativo, que sofre alterações, mas ao mesmo tempo mantém um núcleo que 
encerra as características da língua. Na Libras, pode-se considerar como léxico não nativo a LSF e o 
alfabeto manual francês, a língua portuguesa e, em tempos de internet, a ASL, utilizada largamente na 
web, nos chats, por meio de webcam.
A seguir, observa-se a influência do alfabeto e, por consequência, da língua portuguesa na Libras, na 
configuração dos sinais.
FAMíLIA FELIz
FéRIAS
Figura 12
A modificação dos sinais da Libras pode se dar por muitas razões: variações relacionadas ao processo 
de nominalização, ou variações de gênero, de número e quantidade ou de grau; pela variação de tempo 
ou de aspecto e pela negação. Nesta seção serão apresentadas as formas mais importantes de formação 
de palavras para que você, aluno-leitor, possa continuar aprendendo Libras, prestando atenção a essas 
questões e percebendo as nuances imperceptíveis para os que não se debruçam sobre a língua.
A variação de gênero se faz a partir da introdução do sinal de homem ou mulher antes do sinal a 
ser utilizado.
A modificação na duração e extensão do movimento de alguns sinais pode oferecer a ideia de grau, 
assim como verbos direcionais (a serem apresentados na próxima unidade) apresentam flexão para 
pessoa e número por meio da direção do movimento.
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a partir dos estudos da Linguagem
Nas figuras a seguir, pode-se perceber um importante processo de formação de palavras, ou melhor, 
de sinais, que é a nominalização, isto é, a formação de um sinal por sua transformação de verbo em um 
nome, ou, como denominam alguns, em um substantivo:
SENTAR CADEIRA
Figura 13 Figura 14
ou
OUVIR OUVINTE
Figura 15 Figura 16
Pode-se perceber que o movimento no verbo é mais longo e torna-se mais curto e se repete nos 
nomes, como em cadeira e em ouvinte.
Outro modo formação de sinais é a composição, em que dois sinais se combinam para formar um 
terceiro. Essa forma de criação de sinais é facilmente observada nos sinais de escola e igreja, nos quais 
ao sinal de casa se compõe respectivamente o de estudar e o de cruz.
ESCOLA
Figura 17
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IGREJA
Figura 18
Outra forma de criação de novos sinais é a incorporação de um argumento, como explicitam Pereira 
et al. (2011, p. 72), sendo muito comum nas línguas de sinais, assim como na Libras, em decorrência de 
suas características visoespaciais. A incorporação ocorre quando ao sinal se juntam características do 
objeto que sofre a ação, como no caso de lavar.
LAVAR OS CABELOS LAVAR PRATO
LAVAR ROUPA
Figura 19
Figura 21
Figura 20
Ocorre também quando os numerais se incorporam ao sinal, como nos exemplos a seguir, que 
buscam transmitir noção de tempo, que podem ser dias, meses ou a duração de um evento ou viagem, 
entre outras possibilidades:
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Linguística e Língua de sinais: compreender as diferenças Linguísticas 
a partir dos estudos da Linguagem
UM MêS DOIS MESES TRêS MESES
Figura 22 Figura 23 Figura 24
DURAçãO DE
UMA HORA
DURAçãO DE
DUAS HORAS
DURAçãO DE
TRêS HORAS
Figura 25 Figura 26 Figura 27
Outro evento importante na formação de sinais é decorrente da formação da negativa, que pode 
ocorrer de diferentes maneiras. Um dos modos de se estabelecer a forma negativa ocorre quando ela 
está contida no sinal – por exemplo, há uma inversão na orientação de mão com manutenção da CM, 
como em querer e não querer. Vejamos:
QUERER NãO QUERER
Figura 28 Figura 29
Ainda segundo Pereira et al., outra forma de construir a negativa por incorporação pode ser observada 
no sinal de gostar e não gostar, na qual o sinal que se fecha na altura do peito em gostar faz com 
que a mão estendida se afaste e mude a orientação da mão (Or) para fora, como se observa nas figuras 
a seguir. Essa mudança no parâmetro movimento e na orientação de mão pode ser percebida também 
em saber e não saber.
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Figura 30 Figura 31
GOSTAR NãO GOSTAR
Existem mais duas maneiras de produzir as negativas. Uma delas é aquela presente em ter e não ter, 
na qual há assimilação do parâmetro movimento (no caso, a oscilação da mão) da partícula não ao item 
negado. A CM permanece a mesma, mas o L se modifica. Veja nas figuras a seguir:
Figura 32 Figura 33
TER NãO TER
A outra maneira de se incorporar a negativa a alguns verbos se faz por meio do acréscimo dos 
movimentos negativos da cabeça à forma afirmativa do verbo. Isso pode ser visto nas figuras a seguir 
dos verbos entender e não entender e de conhecer e não conhecer. 
Figura 34 Figura 35
ENTENDER NãO ENTENDER
Figura 36 Figura 37
CONHECER NãO CONHECER
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a partir dos estudos da Linguagem
A forma negativa pode ser utilizada também com movimentos de não com o dedo indicador.
Com essas últimas ilustrações, concluímos a apresentação das principais características de parâmetros 
formacionais e aspectos morfológicos da Libras, o que abre a perspectiva para a próxima e última 
unidade deste livro-texto, que tratará dos aspectos sintáticos da nossa língua de sinais.
 resumo
Nesta unidade, foram apresentados os parâmetros formacionais da 
Libras, a partir do termo quirema,cunhado por Stokoe, em 1960, o qual é 
considerado o segmento mínimo sinalizado, correspondente ao fonema da 
fala.
Discutimos, também, que o morfema ou sinal é a unidade mínima de 
significação, e para termos um sinal com significado, há de se combinar 
configuração de mãos (CM), ponto de articulação (PA ou L), movimento 
(M) (STOKOE, 1960), aspectos não manuais (NM) e orientação de mãos (Or) 
(BATTISON, 1974; 1978 apud AMARAL; COUTINHO; MARTINS, 1994).
Muitos autores fazem uma correspondência entre quirema e fonema, 
pois quirema é um termo desconhecido da maioria das pessoas e, desde o 
início dos estudos das línguas de sinais, sempre se busca estabelecer um 
paralelo com as línguas orais, por constatar-se uma diferença de valor entre 
as duas línguas, pois além das modalidades serem diferentes, as línguas da 
maioria da população (língua oral) são mais valorizadas do que as línguas 
de sinais.
Outro aspecto tratado nesta unidade foi a morfologia, a área da 
Linguística que estuda a formação das palavras, sejam elas faladas, escritas 
ou em sinais. Vimos que, com o início da educação formal dos surdos 
brasileiros, houve forte influência da Língua Francesa de Sinais (Langue dês 
Signes Française – LSF) e do alfabeto manual francês como a base do nosso 
alfabeto manual, assim como da língua portuguesa e, mais recentemente, 
da Língua Americana de Sinais.
Procuramos apresentar de que forma acontecem as variações em 
uma língua e constatamos que elas estão relacionadas ao processo de 
nominalização, a variações de gênero, de número e quantidade ou de grau, 
pela variação de tempo ou de aspecto, e pela negação.

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