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3GE REDAÇÃO 2016 O passo final é reforçar os estudos sobre atualidades, pois as pro- vas exigem alunos cada vez mais antenados com os principais fatos que ocorrem no Brasil e no mundo. Além disso, é preciso conhecer em detalhes o seu processo seletivo – o Enem, por exemplo, é bem diferente dos demais vestibulares. arrow COMO O GE PODE AJUDAR VOCÊ O GE Enem e o GE Fuvest são verda- deiros “manuais de instrução”, que mantêm você atualizado sobre todos os segredos dos dois maiores vestibulares do país. Com duas edições no ano, o GE ATUALIDADES traz fatos do noticiário que podem cair nas próximas provas – e com explicações claras, para quem não tem o costume de ler jornais nem revistas. Um plano para os seus estudos Este GUIA DO ESTUDANTE REDAÇÃO oferece uma ajuda e tanto para as provas, mas é claro que um único guia não abrange toda a preparação necessária para o Enem e os demais vestibulares. É por isso que o GUIA DO ESTUDANTE tem uma série de publicações que, juntas, fornecem um material completo para um ótimo plano de estudos. O roteiro a seguir é uma sugestão de como você pode tirar melhor proveito de nossos guias, seguindo uma trilha segura para o sucesso nas provas. O primeiro passo para todo vestibulando é escolher com clareza a carreira e a universidade onde pretende estudar. Conhecendo o grau de dificuldade do processo seletivo e as matérias que têm peso maior na hora da prova, fica bem mais fácil planejar os seus estudos para obter bons resultados. arrow COMO O GE PODE AJUDAR VOCÊ O GE PROFISSÕES traz todos os cursos superiores existentes no Brasil, explica em detalhes as carac- terísticas de mais de 260 carreiras e ainda indica as instituições que oferecem os cursos de melhor qualidade, de acordo com o ranking de estrelas do GUIA DO ESTUDANTE e com a avaliação oficial do MEC. Para começar os estudos, nada melhor do que revisar os pontos mais importantes das principais matérias do Ensino Médio. Você pode repassar todas as matérias ou focar apenas em algumas delas. Além de rever os conteúdos, é fundamental fazer muito exercício para praticar. arrow COMO O GE PODE AJUDAR VOCÊ Além do GE REDAÇÃO, que você já tem em mãos, produzimos um guia para cada matéria do Ensino Médio: GE HISTÓRIA, Geografia, Português, Idiomas, Biologia, Física, Química e Matemática. Todos reúnem os temas que mais caem nas provas, trazem muitas questões de vestibulares para fazer e têm uma linguagem fácil de entender, permitindo que você estude sozinho. Os guias ficam um ano nas bancas – com exceção do ATUALIDADES, que é semestral. Você pode comprá-los também nas lojas on-line das livrarias Saraiva e Cultura. CAPA: NELSON PROVAZI 1 Decida o que vai prestar 2 Revise as matérias-chave 3 Mantenha-se atualizado FALE COM A GENTE: Av. das Nações Unidas, 7221, 15º andar, CEP 05425-902, São Paulo/SP, ou email para: guiadoestudante.abril@atleitor.com.br CALENDÁRIO GE 2015 Veja quando são lançadas as nossas publicações MÊS PUBLICAÇÃO Janeiro Fevereiro GE HISTÓRIA Março GE ATUALIDADES 1 Abril GE GEOGRAFIA GE QUÍMICA Maio GE BIOLOGIA GE FUVEST Junho GE ENEM GE PORTUGUÊS Julho GE REDAÇÃO GE IDIOMAS Agosto GE ATUALIDADES 2 Setembro GE MATEMÁTICA GE FÍSICA Outubro GE PROFISSÕES Novembro Dezembro APRESENTAÇÃO 4 GE REDAÇÃO 2016 CARTA AO LEITOR 8 EM CADA 10 APROVADOS NA USP USARAM O selo de qualidade acima é resultado de uma pes- quisa realizada com 351 estudantes aprovados em três dos principais cursos da Universidade de São Paulo no vestibular 2015. São eles: � DIREITO, DA FACULDADE DO LARGO SÃO FRANCISCO; � ENGENHARIA, DA ESCOLA POLITÉCNICA; e � MEDICINA, DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP dot 8 em cada 10 entrevistados na pesquisa usaram algum conteúdo do GUIA DO ESTUDANTE durante sua preparação para o vestibular dot Entre os que utilizaram versões impressas do GUIA DO ESTUDANTE: 88% disseram que os guias ajudaram na preparação. 97% recomendaram os guias para outros estudantes. TESTADO E APROVADO! A pesquisa quantitativa por meio de entrevista pessoal foi realizada nos dias 11 e 12 de fevereiro de 2015, nos campi de matrícula dos cursos de Direito, Medicina e Engenharia da Universidade de São Paulo (USP). � Universo total de estudantes aprovados nesses cursos: 1.725 alunos. � Amostra utilizada na pesquisa: 351 entrevistados. � Margem de erro amostral: 4,7 pontos percentuais. SEL O D E Q UA L IDA D E G U I A D O E S T U D A N T E Na hora H pode dar branco? Para 280.903 candidatos do Enem 2014 parece que sim. Eles entregaram a folha da prova de redação em branco. Treineiros ou não, pode-se especular se foi o tema da Publicidade Infantil que os pegou de surpresa, ou se foi demais para esses candidatos a soma desse desafio com a prova de Matemática, na mesma tarde. Nosso Guia se propõe a ajudar os leitores a não passarem por esse impasse e enfrentar o desafio até o fim para alcançar seu objetivo. O GUIA DO ESTUDANTE REDAÇÃO chega a seu nono ano aprimorado em muitos aspectos, e com algo exclusivo que contribui para isso: a par- ticipação direta dos nossos potenciais leitores, por meio das quase duas dezenas de redações que publicamos a cada edição. Podemos afirmar que essa participação é única entre as publicações jornalísticas de educação. A maioria das redações que publicamos são bons textos, de acordo com a avaliação das próprias universidades. Porém, mesmo nessas redações bem avaliadas, o leitor encontra pequenos erros ou escorregões – como a falta de um acento, ou um adjetivo usado como advérbio, por exemplo –, que às vezes sugerem apenas nervosismo do candidato ou candidata. Outros erros e desvios são aqueles que são cometidos porque convivemos com duas línguas diferentes – a que falamos e a que escrevemos e lemos –, infelizmente dentro da mesma cabeça. São os pequenos contrabandos da fala para a escrita. Com esses pequenos erros, e seus acertos, essas redações têm papel fundamental no conjunto da publicação. Elas exemplificam ao leitor tudo o que tentamos relembrar, sugerir e contribuir, como jornalistas e consultores, em nossas reportagens e textos. Essas redações – as muito boas, as não tão boas e mesmo as zeradas – também trazem em comum uma mensagem afirmativa: esses candidatos tentaram e conseguiram enfrentar a proposta da redação e a folha em branco. Nesse sentido, são todos um exemplo de determinação a ser seguido. Esperamos ajudar todos os nossos leitores a enfrentar os desafios das provas de redação até o fim. Paulo Montoia, Editor – paulo.montoia@abril.com.br AGRADECIMENTOS Agradecemos a colaboração da Universidade de Brasília, Universidade de Campinas, Universidade Estadual Paulista, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Colégio Nossa Senhora do Rosário (São Paulo). Encare o desafio até o final 6 GE REDAÇÃO 2016 SUMÁRIO Avaliação Veja os critérios utilizados na avaliação das redações, as formas como são corrigidas e seu valor na prova do Enem 2014 e alguns dos principais vestibulares do país. Guia prático Um roteiro passo a passo para você se dar bem na “hora H”, superar o nervosismo e construir sua redação, da leitura da proposta à revisão final. Tipos e gêneros de texto Conheça as principais características dos diferentes tipos e gêneros textuais, com exemplos reais de cada um no tema A mobilidade urbana e a adoção de ciclovias. Elementos de qualidade Fique por dentro de virtudes essenciais que seu texto precisa ter para ser facil- mente compreendido pelos corretores. Argumentação Descubra as técnicas jornalísticas para usar nas dissertações, em uma análise de editorial de jornal. Temas das provas As estratégias para sair-se bem conforme o tipo de tema. O que caiu nos anos recentes e uma seleção de assuntos quentes que podem cair na prova. Com su- gestões de filmes para atualizar-se. Linguagem não verbal Veja como interpretar charges, fotografias, cartazes e anúncios que já caíram em provas importantes. Gramática Relembre alguns dos pontos mais importantes para evitar deslizes comuns: os diferentes “porques”, colocação pronominal, plural de adjetivos compostos, uso correto de “melhor”, “onde” e “aonde”, entre outros. Desafios Teste a sua gramática, em aspectos como concordância e regência verbal, o em- prego de crase e de vírgulas, e em coesão. Caderno de redação Análises completas das propostas e de redações bem avaliadas nos principais vestibulares dos dois últimos anos e no Enem 2014. E veja também alguns textos que foram considerados abaixo da média esperada. Ponto final Snoopy em O Desafio da Folha em Branco. 8 14 18 22 26 28 34 38 44 49 98 8 GE REDAÇÃO 2016 AVALIAÇÃO E V E LS O N D E F R E IT A S/ E ST A D Ã O C O N TE Ú D O 9GE REDAÇÃO 2016 Saiba informações relevantes sobre os critérios dos avaliadores da sua redação, as formas como elas são corrigidas e seu peso na nota geral, na prova do Enem e nas de quatro destacadas universidades Como a sua redação é avaliada Candidatos prestam a prova do Enem na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP) 10 GE REDAÇÃO 2016 AVALIAÇÃO A prova de redação da Fundação Uni- versitária para o Vestibular (Fuvest) sempre pode surpreender o candidato em sua proposta para o ingresso na Universidade de São Paulo (USP) e no curso de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Em 2013, por exemplo, após três vestibulares seguidos com uma pergunta na prova de redação, a Fuvest voltou a colocar um texto não verbal. Na prova de 2014, o estudante não encontrou uma coisa nem outra: um texto de jornal convocou à construção de um texto dissertativo para ser publicado em jornal, revista ou meio eletrônico. A redação só é solicitada na primeira prova da segunda fase, junto com as questões de português, que está agen- dada para 10 de janeiro de 2016. Critérios de avaliação O vestibular da Fuvest até 2015 valo- rizou três critérios na avaliação: 1 Tipo de texto e abordagem: os avaliadores verificam se o texto configura-se como uma disserta- ção e se atende ao tema proposto. O candidato deve demonstrar a habi- lidade de compreender a proposta de redação e, quando esta contiver uma coletânea, que ele se revele ca- paz de ler e de relacionar adequa- damente os trechos que a integram. É analisada a abordagem, a efetiva progressão de desenvolvimento do Fuvest-USP sempre pode surpreender tema e a capacidade do candidato de criticar e de argumentar. 2 Estrutura: é o componente de ferra- mentas que foi utilizado: a paragra- fação, a coesão textual (composição de frases, períodos e parágrafos), a coerência das ideias. O grau de coe- rência reflete a capacidade do candi- dato para relacionar os argumentos e organizá-los de forma a deles extrair conclusões apropriadas e, também, sua habilidade para planejar e cons- truir um texto significativo. 3 Expressividade: é a clareza ao ex- primir as ideias. São examinados as- pectos gramaticais como ortografia (a grafia e a escolha do vocabulário), morfologia, sintaxe e pontuação. Espera-se que o candidato revele competência para expor com pre- cisão os argumentos selecionados para defender seu ponto de vista. No primeiro semestre 2015, porém, a direção da USP estudava possíveis mu- danças. Essas seriam ou não adotadas em meados do ano e poderiam alterar diferentes pontos do vestibular ou das formas de ingresso na instituição, o que pode incluir a prova de redação e seus critérios de avaliação. Como é feita a avaliação A Fuvest não exige que seus avaliado- res sejam professores da USP, mas eles não podem lecionar no terceiro ano do Ensino Médio. Os corretores cumprem um dia inteiro de treinamento prévio. Cerca de 70 avaliadores de redação, em média, trabalham em cada vestibular. Todas as redações são digitalizadas, e cópias não identificadas de cada uma são encaminhadas a dois corretores. Cada avaliador lê, em média, cem reda- ções por dia. Eles não podem conversar entre si sobre as provas. São atribuídas notas de 0 a 4 às três características, que depois são convertidas para a base 100, proporcionalmente ao valor máximo dessa prova (50 pontos). Quando há discrepância de notas, a redação recebe nota final de auditores ou da diretoria da fundação. Quanto vale A redação vale 50 pontos, e as ques- tões de português também 50. Assim, uma redação nota 9 vale 37,5 pontos. As duas provas seguintes também valem 100 pontos cada uma: no segundo dia, questões das disciplinas do Ensino Mé- dio; e no terceiro dia, duas disciplinas que variam conforme o curso escolhido. Assim, até o vestibular de 2015, a reda- ção valeu 1/6 da nota da segunda fase (50 pontos em 300). Zera a nota Fugir ao tema proposto ou ao tipo de texto (dissertação) anula e zera a nota, mas não elimina o candidato, pois vale a nota da prova, que reúne também as questões de português. Zerar a nota na prova inteira desclassifica o candidato. 11GE REDAÇÃO 2016 A prova de redação do Enem é, em todos os anos, reportada pela imprensa e TV, discutida nos cursinhos e acom- panhada de perto pelas escolas. Sua relevância é notória, pela importância e abrangência do exame e por ser a única das provas do Enem que vale 1.000 pontos, o que pode fazer a di- ferença para conseguir uma vaga nas universidades federais pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu). A prova de redação dos vestibulares é a única em que o candidato expressa seu potencial, o quanto ele evoluiu durante o Ensino Básico em sua capacidade de leitura, compreensão, análise e ex- pressão. No caso do Enem, destaca-se também a avaliação, pela redação, de sua compreensão de questões e pro- blemas sociais e de sua capacidade de elaborar soluções, entendida como sua formação em cidadania. Segundo a instituição federal que realiza o Enem, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 8,7 milhões de candi- datos se inscreveram para o Enem 2014, dos quais 6,1 milhões prestaram a prova de redação. É importante lembrar que muitos não disputam vaga em curso superior, pois há os candidatos com mais de 18 anos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), tentando obter o diploma do Ensino Médio, e os treineiros, que prestam o exame para praticar. A prova de redação do Enem 2015 acontecerá no segundo dia, o domingo 25 de outubro. Critérios de avaliação No Enem são avaliadas, com nota, cinco competências na prova de reda- ção. São elas: 1 Se o candidato demonstra domínio da norma-padrão da língua escrita. 2 Se compreende a proposta de re- dação e aplica conceitos das várias áreas de conhecimento para desen- volver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo- argumentativo. 3 Se consegue selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em de- fesa de um ponto de vista. 4 Se demonstra conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação. 5 Se consegue elaborar proposta de solução para o problema abordado, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade socio- cultural. Na redação do Enem, a dissertação argumentativa deve terminar com uma proposta para solucionar a questão colocada. Na avaliação, pesa mais para a composição da nota a capacidade de argumentar e defender um pon- to de vista do que o chamado estilo, ou seja, o conjunto de elementos de qualidade (veja na página 22) e a orto- grafia. Os textos e imagens motivado- ras geralmente oferecem argumentos suficientes para desenvolver o tema. Uma redação bem avaliada no Enem exige boa conexão ao tema, aderência a ele e uma seleção boa e articulada de argumentos. O autor pode agregar argumentos próprios aos apresentados nos textos motivadores, desde que bem articulados à sua tese. Como são dadas as notas A redação do Enem é corrigida por dois professores, que avaliam as cinco competências. Cada competência vale 200 pontos e é subdividida em dife- rentes aspectos que valem 40 pontos. Desde a prova de 2013, a discrepância aceitável entre a nota final dos dois corretores é de 100 pontos. A diferen- ça aceitável entre a nota de cada uma das cinco competências foi mantida Redação é valorizada no Enem em 80 pontos. Assim, quando a dife- rença das duas notas gerais for igual ou maior que 101 pontos, ou quando a diferença na nota de uma das cinco competências for de 81 pontos ou mais, a prova passará por um terceiro corretor e, se necessário, por uma banca de 3 examinadores. Quando as diferenças não são discrepantes, a nota final em cada competência e a nota geral serão a média das notas recebidas dos dois corretores iniciais. Nos casos em que há a terceira correção, a nota final é a média das duas notas mais próximas, entre as três. Se a prova é enviada para a banca examinadora, todas as notas anteriores são descartadas. Como é feita a avaliação As provas de 2013, por exemplo, fo- ram avaliadas por mais de 5 mil corre- tores. A avaliação envolveu mais de 200 supervisores, mais de 400 auxiliares e subcoordenadores pedagógicos. De acordo com o Inep, os avaliadores são indicados pela reitoria das universida- des públicas do país e são, forçosamen- te, já formados em graduação. Quando os avaliadores não são indicados dessa forma, é exigida cópia do diploma, e a graduação é confirmada pelo instituto. Os avaliadores trabalham remotamente, ou seja, espalhados pelo país. Segun- do o Inep, eles recebem treinamentos presenciais ou remotos em um período prévio de 100 dias. A correção dura cer- ca de um mês, e cada corretor recebe, diariamente, um pacote eletrônico con- tendo 50 redações, organizadas por um sistema que mistura textos de alunos das escolas públicas e das privadas, e de diferentes estados do país. Só após entregar um lote corrigido de redações, o corretor recebe outro. Zera a nota Fugir ao tema ou ao tipo textual pro- posto (a dissertação argumentativa), escrever menos de oito linhas originais (são excluídas as linhas copiadas da co- letânea). Também zeram a nota inserir trechos propositadamente desconecta- dos do resto da argumentação, desenhos e palavras ofensivas, impropérios, pro- testos e afirmações que desrespeitem os direitos humanos, como as de racismo, xenofobia e homofobia. 12 GE REDAÇÃO 2016 AVALIAÇÃO A prova de redação da Universidade de Campinas (Unicamp), tradicional- mente realizada na primeira fase de classificação, a partir do vestibular de 2015 passou a ser feita no primeiro dia da segunda fase. Em 2016, ela ocorrerá em 17 de janeiro, juntamente com a prova de língua portuguesa e literatura. Ela continuará a solicitar dois textos de tipos distintos. Critérios de avaliação Segundo a Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest) da Unicamp, são dadas notas para quatro aspectos de cada texto. 1 O tipo de texto e a interlocução: o texto elaborado em cada uma das tarefas deve ser representativo do tipo de texto solicitado e considerar os interlocutores nele implicados. 2 O propósito: o candidato deve cumprir o propósito da tarefa que é solicitada, observando o tema, a motivação e as instruções de elabo- ração do texto. 3 A leitura: espera-se que o candidato estabeleça pontos de contato com os textos fornecidos em cada tarefa. Ele deve mostrar a relevância desses pontos para o seu projeto de escrita, e não simplesmente reproduzir os textos ou partes deles em forma de colagem direta. Unicamp muda redação para a segunda fase 4 A articulação da escrita: os textos devem propiciar uma leitura fluida e envolvente, ter uma articulação sintática e semântica ancorada no emprego adequado de elementos coesivos e de outros recursos neces- sários à organização dos enunciados. O candidato também deve demons- trar habilidade na seleção de itens lexicais apropriados ao estilo dos tipos solicitados (carta, crônica, dis- curso, comentário etc.) e no emprego de regras gramaticais e ortográficas que atendem a modalidade culta (padrão) da língua portuguesa. Quem avalia e como Na Unicamp, a banca tem sido for- mada por 130 corretores, em média, todos professores ou alunos da pós- graduação, não necessariamente dessa universidade. Os avaliadores trabalham dentro de um mesmo local e são treinados depois da realização do vestibular, já com textos reais produzidos na prova. Cada texto do candidato é corrigido por dois professores. Como é dada a nota Os dois textos valem 24 pontos cada um, totalizando 48 pontos, e a discre- pância máxima de nota para cada texto é de 2 pontos. A partir de 3 pontos em um texto, ele é repassado a um terceiro corretor, que define a nota final. Quanto vale A primeira fase do vestibular, agora com 90 questões, vale 30% da nota fi- nal para ingressar. Na segunda fase, a redação subiu de valor, de 10% para 20%. As demais questões do primeiro dia, e das duas provas seguintes, valem os 50% restantes. A Unicamp aplica uma fórmula de desvio-padrão, que situa o desempenho do candidato, por meio de sua nota, ao desempenho do conjunto dos candida- tos na prova. Zera a nota Fugir aos gêneros de texto solicitados ou ao tema proposto. Zerar a nota em um dos textos não elimina o candidato, pois vale a soma dos dois textos, mas zerar nos dois textos elimina. A Universidade de Brasília (UnB) utiliza o Sisu para ingresso, no primeiro semestre do ano, por meio da prova do Enem. Porém, mantém vestibular próprio para ingresso no meio do ano. O cálculo da nota valoriza o conjunto da redação do candidato, mas erros de norma-padrão da língua tiram pon- tos de nota. É eliminado do vestibular o candidato que obtém nota inferior a 4 (até 3,99) na prova de redação. A nota de redação também é usada como um dos critérios de desempate entre candidatos. A redação é solicitada no primeiro dos dois dias do exame, e em 2015 ocorreu em 6 de junho. Critérios de avaliação A prova avalia os domínios de ha- bilidade de expressão em prosa (tex- to descritivo, narrativo, expositivo- argumentativo ou de instruções). Na prova de 2015 podiam ser solicitados os gêneros resumo, carta, propaganda, texto informativo ou argumentativo. O critério mais abrangente é o de de- senvolvimento do tema (domínio do conteúdo) pelo candidato, juntamente com sua expressividade. A banca tam- bém avalia o domínio da escrita-padrão, em aspectos como ortografia, sintaxe e propriedade na escolha das palavras. Quem avalia e como As provas de redação em língua por- tuguesa de todos os candidatos não eliminados são avaliadas por uma banca UnB tem prova própria no 2o semestre 13GE REDAÇÃO 2016 Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o candidato faz a prova de redação no segundo dia da segunda fase, que em 2015 será em 14 de dezem- bro. A partir do vestibular do meio do ano aplicado em 2013, a universidade adotou um sistema de avaliação online das provas. Critérios de avaliação Os corretores da Vunesp avaliam conforme três critérios: 1 Abordagem da proposta e do tema da prova: o ponto de vista colocado e a reflexão feita pelo candidato. 2 O desenvolvimento da dissertação: a introdução, o desenvolvimento (argumentação) e a conclusão. 3 O domínio da escrita na norma-pa- drão, desde a ortografia e a gramática até os elementos de coesão (veja na pág. 22). Quem avalia e como A banca da prova anual tem sido for- mada por 74 corretores, todos gradua- dos em letras, pelo menos. As provas são digitalizadas e corrigi- das on-line, em um sistema computa- dorizado em rede. Todos os corretores trabalham em um mesmo espaço. Um treinamento prévio é feito durante dois dias e inclui um conjunto de redações pré-selecionado. Como é dada a nota Cada redação é avaliada por, no míni- mo, dois corretores. Eles dão nota de 0 a 3 no primeiro critério; 0 a 4 no segundo; e 1 a 4 no terceiro. Um não sabe qual a nota dada pelo outro, e é aceita apenas uma diferença de 1 ponto entre as no- tas. Quando há diferença a partir de 2 pontos, a redação é avaliada por outros examinadores da banca, que dão novas notas sem conhecer as notas anteriores. Caso a diferença de notas se mante- nha, a prova é avaliada uma quarta vez. A nota final é a média das duas notas mais próximas, sejam quantas notas forem dadas. Ela é convertida para uma escala de zero a 28 pontos. Por exemplo: uma nota 9 dos corretores vale 22,9 pontos. Quanto vale A redação vale 28 pontos em 100. Os 72 pontos restantes são das ques- tões discursivas nos dois dias de prova. A nota final dessa fase será a soma das duas notas. A nota final para ingresso será a média aritmética das notas da segunda e da primeira fase, que também vale 100 pontos. Zera a nota Fugir ao tipo textual ou ao tema, es- crever menos de sete linhas, apresentar letra ilegível, identificar a autoria por escrito ou por algum sinal. Quem zera a nota de redação é desclassificado, o que vale também para as demais provas. Unesp adota avaliação online das provas de professores especialistas. As pro- vas são digitalizadas e passam por um processo de “desidentificação” para que a banca não seja capaz de identifi- car o autor do texto. Após a análise da redação, é feito o preenchimento de planilhas, com as informações relativas à avaliação, que gerarão a nota. Como são dadas as notas O domínio do conteúdo, que é o con- junto expressivo da redação em tema e desenvolvimento, recebe nota de até 10,00 pontos. Já o domínio de escrita é medido também com um indicador: a quantidade de erros cometida (por exemplo, 9 erros) é dividida pelo nú- mero de linhas redigidas (como 20, por exemplo), o que resulta 0,45. Da nota recebida no domínio de conteúdo é então subtraído esse valor multiplicado por 2 (0,90). Se o candidato obteve nota 8,0, por exemplo, terá nota final 7,1. Quanto vale A prova de redação em língua por- tuguesa vale 10,00 pontos, conforme estabelece o edital do Vestibular 2015 da UnB e, de modo geral, corresponde a cerca de 10% do Argumento Final (desempenho final) do candidato. Zera a nota Fugir ao tema ou ao gênero textual proposto e identificar-se de forma inde- vida na folha do texto resulta em nota zero na prova de redação. 14 GE REDAÇÃO 2016 GUIA PRÁTICO Um roteiro para não ficar nervoso 1. Leia a proposta com atenção Este é um aspecto absolutamente essencial e talvez o mais importante da prova: ler atentamente o que é so- licitado que você faça, de preferência mais de uma vez. Leia a proposta de redação, as orientações sobre o número de linhas exigido, o gênero ou gêneros de textos solicitados, as instruções, tex- tos de apoio e referências bibliográfi- cas e observe as imagens com atenção. É muito importante atentar para as orientações quanto ao uso de textos e imagens oferecidos na coletânea. Muitos candidatos perdem pontos por não ter lido a proposta adequada- mente. Não são raros os casos de alunos que fogem do tema – como quando a prova pede para escolher uma das abordagens apresentadas na coletânea, e o candidato refuta todas; ou quando o texto pede uma proposta de solução para um problema, e a redação é toda realizada de forma a mostrar como a questão é insolúvel. Também é ruim o candidato repetir informações já dadas nos textos-base ou apresentá-las de forma desencon- trada – o que pode ser visto, pela banca corretora, como incapacidade de inter- pretação textual ou mesmo descaso. Por fim, existem estudantes que deixam de contemplar o básico, como fazer uma dissertação quando é solicitada uma narrativa ou crônica, esquecem- se de colocar o título ou de trabalhar o número de linhas exigido. Portanto, ler a proposta com muita atenção é o primeiro passo para uma redação bem- feita e com boa nota. Um passo a passo do que fazer na hora H da prova, do momento em que você lê a proposta de redação até entregar seu texto. Com depoimentos de quem se saiu bem com diferentes estratégias 15GE REDAÇÃO 2016 2. Construa sua tese Nas dissertações, a construção da tese é peça-chave para elaborar o texto. Para isso, você deve escolher qual aspecto quer abordar, formular sua tese e os argumentos que usará. Essa escolha é o que chamamos de recorte textual, e é esse recorte que diferenciará sua redação das dos demais candidatos. Po- demos dizer que toda a sua dissertação será uma defesa dessa tese – os argu- mentos tentarão prová-la, e a conclusão vai reafirmá-la. Algumas universidades adotam um tema que perpassa toda a prova de língua portuguesa, com textos e imagens que podem ser valiosos na sua argumentação. arrow COMO ENCONTRAR SUA TESE Pense no que mais lhe chama a atenção no tema proposto e sobre o que, de fato, você terá maior capacidade de ar- gumentar. Por exemplo, o tema “a descatracalização da vida” (Fuvest 2005). O que poderíamos pensar so- bre ele? Que as catracas representam uma barreira de acesso aos espaços públicos? Que as pessoas impõem limitações aos outros e a si mesmas? Que essas barreiras se tornam tão comuns no cotidiano que as limita- ções são aceitas sem contestação? Fiquemos com essa ideia. Nossa tese poderia ser: “Muitas das barreiras existentes na sociedade são constru- ídas pelos próprios indivíduos, que se acostumam com as limitações e não se esforçam para livrar-se delas”. Pronto, esse já é um fio condutor para a redação. 3. Organize suas ideias Depois de ler e compreender a pro- posta, você deve preparar a organização do texto, o que significa ordenar suas ideias. Você pode fazer isso por diferen- tes meios: esquematizar as ideias, ano- tar palavras-chave, escrever as princi- pais frases ou tentar fazer um rascunho completo. Organizar as ideias implica mudar algo que não esteja bem claro, acrescentar informações que reforcem os argumentos e retirar aquilo que pre- judicaria a compreensão do leitor. Por mais que as ideias iniciais sejam boas, é sempre possível formatá-las melhor. Não existe uma forma única e con- sagrada de preparar uma redação. O que se recomenda a cada um é testar diversas formas e escolher aquela que melhor dá resultado. arrow RASCUNHO Para pessoas que gostam de visualizar um esboço do texto, o rascunho tradicional pode ser a saída. Porém, ele é pouco indicado para aqueles que escrevem devagar ou têm problemas ao transportar o texto – é preciso lembrar que alguns vestibulares não oferecem um espaço para rascunho. arrow ESQUEMATIZAÇÃO Ela é útil para traba- lhar consequências ou fatos expostos de forma cronológica – as palavras- chave são uma saída rápida para quem consegue, com elas, construir argumentos e referências. Enfim, cada um deve utilizar aquilo que melhor lhe convém, e só a prática poderá orientá-lo. 4. Selecione os argumentos Com a tese definida, você deve pensar na sua argumentação. Defina os argu- mentos que utilizará e elimine ideias secundárias. Isso é muito importante, pois são os argumentos que irão per- suadir o leitor. Normalmente, temos várias ideias quando deparamos com um tema, e nosso ímpeto é apresentar todas. Po- rém, geralmente essa não é a melhor estratégia para uma redação, pois esta oferece um espaço limitado. Dessa for- ma, um número reduzido de argumen- tos bem embasados é uma estratégia mais adequada que despejar um monte deles apenas superficialmente. arrow FAÇA ESCOLHAS Selecione dois ou três argumentos e trabalhe cada um indi- vidualmente em parágrafos. Assim, você pode desenvolvê-lo, contextu- alizá-lo com o tema e utilizá-lo para defender sua tese. Ao escolher os argumentos, sele- cione os que melhor atendem à tese e sejam mais persuasivos. Lembre-se de que, além de estarem relacionados com a tese, os argumentos têm de ser coerentes entre si e levar o leitor a um raciocínio lógico e coeso. Outro aspecto a ser observado é o peso da argumentação em cada pa- rágrafo. Para não perder a unidade textual, tente manter um padrão na extensão do texto e, também, no valor de cada argumento que apresenta. Ou seja, evite concentrar a discussão em um parágrafo e deixar outro como mero coadjuvante. 16 GE REDAÇÃO 2016 GUIA PRÁTICO 5. Estruture seu texto Você já viu o esquema tático de um time de futebol? Embora o objetivo principal seja marcar gols, não é pos- sível montar um time só de atacantes, pois a armação das jogadas, a defesa, e mesmo o ataque dependem de uma distribuição coesa dos jogadores. Isso também ocorre com a dissertação. Ela é composta de tese, argumentos, exemplos ou conclusões, porém é ne- cessário que os elementos formem um conjunto. Boas ideias apenas não garantem o êxito de uma redação, é preciso sa- ber estruturá-las de modo coerente, para persuadir o leitor. Dessa forma, um texto bem-estruturado valoriza os argumentos e facilita a leitura e a assi- milação das ideias. arrow ESTRUTURA BÁSICA Uma dissertação é formada por introdução, desenvolvi- mento e conclusão. Cada uma dessas partes tem uma função no conjunto e traz elementos e comprimentos (extensões) diferentes. Aprender a desenvolver assim a sua redação é o que ajuda a dar coesão e progressão textual a ela – e “enche os olhos” dos corretores: a estruturação do texto pode ser seu grande diferencial. Vamos apreciar cada parte separa- damente. 6. Revise sua redação Se você finalizou sua redação como um rascunho, vale a pena revisar o que fez antes de passar a limpo. arrow REVEJA A LINGUAGEM Caso tenha dú- vida de uma grafia, tente substituir a palavra. Verifique os acentos das palavras e as vírgulas. arrow ELIMINE REPETIÇÕES Quando encon- trar uma repetição, veja se a palavra precisa ser mantida ou se pode ser substituída. arrow ATENTE PARA EXCESSO DE “QUES” Ele pode sinalizar períodos muito longos e malconstruídos. Veja se não é o caso de eliminar um “que” e abrir uma nova oração. Com o verbo ter, utilize “ter de” em lugar de “ter que” para evitar sua repetição. arrow ANALISE SEUS ARGUMENTOS Veja se há coerência entre as ideias e coesão entre os elementos textuais. Observe se acertou na escolha de conjunções e preposições. Procure manter um olhar crítico so- bre o que escreveu e corrigir eventuais problemas. Você trabalhou duro para compor seu texto e não é hora de fazer corpo mole. arrow A INTRODUÇÃO Ela apresenta o tema e traz o recorte que será feito dele. In- troduzir não significa simplesmente iniciar o texto, mas inserir as ideias, torná-las parte da composição. É recomendável que ela exponha a tese do redator, o que tornará a leitu- ra direcionada e facilitará a compre- ensão dos argumentos. Lembre-se: a dissertação é um texto argumentati- vo, que pretende convencer o leitor. Assim sendo, deve ser direta e não fazer rodeios – por isso, é importante que, logo no começo, o leitor já en- tenda a linha de raciocínio do texto. arrow O DESENVOLVIMENTO É o que sustentará o texto. A tese foi apresentada e nela foram expostas as ideias. Agora, é hora de ratificá-la, defendendo es- sas ideias de forma consistente e, se possível, provando-as. Embora essa parte do texto seja muito importante, ela não precisa ser complicada. Deve ser clara o suficiente para que o leitor a compreenda. Uma boa estratégia é reservar um parágrafo para cada argumento, analisando cada aspecto. arrow A CONCLUSÃO Você deve retomar as ideias que expôs na introdução e conjugar com os argumentos que as justificam, para confirmar a tese e encerrar o debate. O leitor deve ter a sensação de que tudo foi exposto, ainda que o tema convide a outras reflexões. Por isso, não convém que a conclusão traga novos argumentos ou deixe a tese em aberto. 17GE REDAÇÃO 2016 O que fazer antes e durante a prova Sugestões, "truques" e depoimentos de quem se saiu bem L er e escrever redações regular-mente são as duas principais ferramentas para o estudante que quer se preparar em longo prazo para enfrentar as provas. Mas elas não são as únicas. Manter-se bem-informado, lendo jor- nais e revistas, amplia seu vocabulário, seu repertório de temas e argumentos e traz familiaridade com modos cor- retos de organizar as ideias. A prática diminui a possibilidade de você ser surpreendido pelo tema da prova. Você pode também escolher os filmes que vai assistir por temas e assuntos que valham a pena ou que não conheça, e não apenas para se divertir, e discutir os filmes com outras pessoas, para ter outros pontos de vista. Aprimorar sua escrita é essencial. Pratique redação, sozinho ou com um amigo, participe de simulados fora da sua escola ou curso e peça uma avalia- ção de suas redações aos professores. Você pode usar as propostas reais do Caderno de Redações deste guia e das seções Temas da Prova e Linguagem não verbal. Escreva a mão, para apri- morar sua caligrafia. Autoconfiança Chegar ao dia da prova com um preparo de longo prazo é importante para ter tranquilidade e autoconfiança. A gaúcha Larissa Freisleben, 18 anos, da cidade de Farroupilha, diz que abriu mão de várias coisas para poder estudar para as provas. “Ao longo do ano, busquei escrever ao menos uma redação por semana (frequentemente duas). Eu procurava Gabriela Almeida Costa ingressou em Geografia na UFBA. Sua redação está na pág. 52 Larissa Freisleben ingressou em Medicina na UFRGS. Você pode conferir sua redação na pág. 54 compreender os critérios de avaliação de cada prova e escrever tendo em men- te esses requisitos. Gosto muito de ler, e esse hábito ajuda a escrever bem. Minha preparação para a prova de redação foi basicamente esta: ler, treinar e entender o que é solicitado ao candidato em cada prova.” No enfrentamento das provas, ela tentava se lembrar de informações relacionadas ao tema (dados, citações etc.), para definir os argumentos. “Com base nisso, eu fazia uma espécie de guia para o texto, definindo o que ia dizer em cada parágrafo.”. Na prova do Enem, La- rissa intercalou a redação de parágrafos com a solução das questões objetivas. Ao final, reviu o texto e passou a limpo. Ela recebeu nota 1.000. Gabriela Almeida Costa, 19 anos, de Salvador (BA), também alcançou nota 1.000 na redação do Enem 2014. “Meu Ensino Médio foi técnico, mas no último ano eu comecei a praticar redação. Fazia várias redações de provas que o GUIA DO ESTUDANTE REDA- ÇÃO trazia, e enviava para as profes- soras de língua portuguesa e redação.” Para fazer as provas de redação, Ga- briela diz que se inteira do tema e da coletânea, mas parte para resolver as questões objetivas e deixa a redação para o fim. “Prefiro ir pensando ao longo da pro- va, enquanto estruturo uma ideia em tópicos, mentalmente. Quando tenho ideia do que vou escrever – proposta, argumentos e conclusão – aí eu vou para o papel. E sempre leio duas vezes o rascunho antes de passar para a fo- lha definitiva, uma estratégia que uma professora me ensinou.” “Leitura, muita leitura. É fundamental para escrever bem e para ter argumentos. Eu recomendaria ler não apenas os livros para as provas de literatura, mas qualquer material de leitura por lazer. Além disso, treinar para buscar corrigir erros.” Dica de Larissa Freisleben A R Q U IV O P E SS O A L A R Q U IV O P E SS O A L 18 GE REDAÇÃO 2016 GÊNEROS TEXTUAIS Reveja as características de cada texto Com exemplos reais publicados que abordaram o tema mobilidade urbana e a instalação de ciclovias nas cidades em 2014 e em 2015 Ciclofaixa instalada na Praça Júlio Prestes, em São Paulo: mudança em mobilidade que gera polêmica O gênero dissertativo e argu-mentativo ainda é dominante nos vestibulares do país. Mas parte das universidades solicita do ves- tibulando também diferentes gêneros de texto, como a narração, a carta, o discurso, o comentário, o manifesto, o editorial. Está nesse grupo a Universi- dade Estadual de Campinas (Unicamp) (veja na pág. 70). Esse modo de prova permite ao candidato garantir parte da nota em tipos de texto em que se sai melhor. Na Unicamp, a nota final é a soma das notas de dois textos solici- tados. O vestibulando só não pode se enganar quanto ao gênero solicitado, pois isso zera a nota de um dos textos ou de ambos. Antes de adotar o Enem-Sisu como forma de ingresso, em seu vestibular de 2010 a Universidade Federal da Bahia solicitou um texto argumentativo, mas no gênero de prosa que o candidato preferisse. Além disso, os diferentes gêneros textuais invadiram as coletâ- neas para as redações, como foi o caso da Fuvest-USP 2015 (veja na pág. 78). A Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), em um de seus vesti- bulares de 2015, pede um depoimen- to, gênero pessoal, mas que ao mesmo tempo pede objetividade. Em todos os casos, é importante que você saiba situar socialmente o seu tex- to: onde estou, para quem escrevo, como me dirijo a esse interlocutor ou interlo- cutores, qual a formalidade necessária? LU C A S LI M A 19GE REDAÇÃO 2016 TIPOS São definidos pela linguagem que empregam e são basicamente três. A dissertação é a mais solicitada nos vestibulares. Ela e a narração são os mais importantes, pois se desdobram – como você vê a seguir – em uma grande quantidade de gêneros textuais. Já a descrição acaba sendo apenas uma linguagem empregada eventual- mente no interior de um texto e quase nunca como um texto integral, como receitas culinárias e bulas de remédio. GÊNEROS São muitos. Na escola, du- rante o curso de literatura, estudam-se majoritariamente os gêneros cantiga, romance, crônica, conto, poesia. Além desses, há gêneros solicitados nos ves- tibulares, como carta, discurso, artigo jornalístico, editorial de jornal, verbete enciclopédico, entre outros. Reveja a seguir as características de gêneros e tipos de texto, sempre exemplificados com um trecho sobre o mesmo tema. Tipos textuais Narração O texto narrativo é aquele que conta uma história, fatos que envolvem personagens em um contexto. O autor pode seguir alguns passos básicos: descrever determinada situação ou ambiente, apresentar um ou mais personagens, introduzir um fato ou acontecimento que os envolva ou afete nesse ambiente ou situação e pôr um desfecho para a história. O narrador pode escolher se participa ou não da ação, escre- vendo em primeira pessoa do singular ou do plural, como faz a cineasta Tata Amaral no exemplo abaixo. Não é necessário seguir uma ordem cronológica, mas é importante que a narrativa apresente coerência e uma linguagem envolvente. A narrativa é um gênero por excelência literário. Confira um excerto de narrativa, sobre manifestação em defesa das ciclovias, realizada em São Paulo em março de 2015. VAI TER CICLOVIA! por Tata Amaral O povo começou a se reunir na Praça do Ciclista, quase esquina com a Rua da Consolação, que, agora, com as obras da ciclovia, abre os canteiros e retoma a comunicação com a Avenida Dr. Arnaldo e Avenida Angélica, interrompida há várias décadas com a construção de um canteiro. Às 20:30h, partiu a bicicletada que percorreu toda a Avenida Paulista, desde a rua da Consolação em direção ao Paraíso, me perdoem o trocadilho clássico. Estava enorme, bonita, alto-astral a bicicletada. Milhares de pessoas participaram dela. Num dado momento, uma parte estava indo e a outra estava vindo. Num dado momento, todos se sentaram e assim pudemos perceber a extensão da bicicletada: a mais simbólica avenida da maior cidade da América do Sul, locomotiva do Brasil, carro-chefe e estação primeira do modelo viário baseado nos automóveis, tomada de bicicletas piscantes, conduzidas por pessoas com rostos sorridentes. Do blog blogs.estadao.com.br/tata-amaral/ 31/3/2015. Dissertação É o tipo de texto mais solicitado nas provas. Trata-se de expor uma ideia, um problema ou um questionamento, desenvolver um raciocínio com base em argumentos e apre- sentar uma consideração final. É importante que o candidato saiba problematizar o tema, colocar argumentos favoráveis e contrários para fundamentar cada afirmação. Na dissertação, quem escreve quer persuadir o leitor acerca da opinião que defende e que deve ser explicitada em uma conclusão final. Essa conclusão não precisa fechar a ques- tão, como quem encontra uma solução para os problemas do mundo: se o assunto é complexo, a conclusão pode ser a afirmação dessa complexidade. Não faça uma pergunta sem ao menos problematizá-la. A dissertação pede o uso da norma-padrão da língua, ideias desenvolvidas de forma clara e objetiva e boa paragrafação. Espera-se um texto impessoal. Evite o texto em primeira pessoa. Isso não é proibido, mas é arriscado, pois é mais adequado ao gênero crônica ou ao tipo narração. Veja o exemplo de um trecho de dissertação argumentativa. A VEZ DAS CICLOVIAS Comerciantes protestaram em diversos pontos da cidade; moradores de alguns bairros também reclamaram; e até vereadores da base aliada do prefeito Fernando Haddad (PT) fizeram críticas à implantação de ciclovias pelas ruas e avenidas de São Paulo. Embora capazes de chamar a atenção, esses grupos representam opinião minoritária entre os moradores da capital. Como pesquisa Datafolha publicada neste final de semana deixou claro, a maioria expressiva dos paulistanos defende a expansão de vias exclusivas para ciclistas. Ainda bem. Trata-se, não por acaso, de tendência nas principais metrópoles do mundo. A bicicleta é um meio de transporte limpo, que ocupa muito menos espaço do que um carro (...) Editorial da Folha de S.Paulo, 22/9/2014. 20 GE REDAÇÃO 2016 GÊNEROS TEXTUAIS gêneros textuais Estilos jornalísticos Reportagens, editoriais e artigos são os principais gê- neros de texto jornalístico, cada um com suas caracte- rísticas. Em um jornal ou revista, a reportagem se des- taca dos demais gêneros: a reportagem procura trazer um discurso objetivo, narrativo, descritivo e não opi- nativo, enquanto os outros dois são textos opinativos. A boa reportagem apresenta informações objetivas, faz um relato da notícia que não inclui a opinião de quem escreve. O artigo assinado traz a opinião de um autor e pode ser es- crito em primeira pessoa, e o editorial exprime a posição e opinião do jornal, que não permite a primeira pessoa. Tanto no artigo quanto no editorial, as informações são introdu- zidas para embasar um ou mais argumentos que procuram convencer o leitor. O gênero crônica não apresenta distinções significativas em relação à crônica literária. Veja exemplos publicados na imprensa sobre a instalação de ciclovias no país. EDITORIAL DEBATER AS CICLOVIAS Após ser pressionada por moradores e comerciantes de alguns bairros de São Paulo, a prefeitura decidiu alterar ao menos duas ciclovias já implantadas na cidade. Primeiro foi a vez de uma rota no Cambuci, na zona sul. Na última quinta-feira (13), apagou-se um percurso na Praça Vilaboim, em Higienópolis (zona oeste). (...) Seja como for, tais readequações indicam que a prefeitura começa a fazer agora algo que deveria ter feito desde o começo: ouvir a po- pulação e aceitar críticas. (...) Mas a opção pelas ciclovias, espera-se, é um caminho sem volta. Melhor, assim, que seja amparado num planejamento adequado e no diálogo com a população. Folha de S.Paulo, 19/11/2014. REPORTAGEM CICLISTAS DO BRASIL E DO MUNDO FARÃO ATO PARA APOIAR AS CICLOVIAS DE SÃO PAULO A defesa das ciclovias de São Paulo chegou a níveis internacionais. Nesta sexta-feira (27), estão marcadas manifestações de ciclistas em ao menos 17 cidades brasileiras – além da capital – e em outros oito países. O ato, inspirado na Massa Crítica de Portugal (movimento que luta por espaço aos ciclistas nas cidades), foi motivado pela recente deci- são da Justiça paulista em determinar a paralisação da construção de ciclovias em andamento. De acordo com o juiz, a interrupção foi determinada pela falta de “planejamento” e “estudos prévios”. Reportagem de Ivan Longo, na Revista Fórum (virtual), março de 2015. Crônica Gênero literário que é também utilizado por articulistas da imprensa. Assim como o conto, é um gênero por excelência narrativo, que aborda situações ou fatos do cotidiano. É mais coloquial que o dissertativo, mas não dispensa a norma- padrão da língua. SOBRE DUAS RODAS por Cris Guerra Em dezembro passado, abordei nesta coluna o caos do trânsito de BH, onde a frota de carros praticamente duplica a cada dez anos. Cumpri bem o trajeto do início ao meio do texto, mas derrapei na linha de chegada e levei um tombo feio. Acabei por errar o alvo: a crítica atingiu seus usuários, e não as tais vias, gerando dezenas de respostas furiosas. Pela prontidão e vee- mência de suas reações, entendi que, mais que ciclovias, os ciclistas urbanos querem respeito – traduzido na simples atitude de serem compreendidos como parte integrante do trânsito. Veja BH, 13/3/2013. CICLOVIA, 10. EDUCAÇÃO, ZERO Por Edgard Catoira Manhã de sol. Reflexos prateados circulam a marca das ondas nas areias na praia de Copacabana. Uma brisa refresca o calor nos rostos dos que usam seu tempo matutino para correr no calçadão ou os ciclistas de plantão, que tomam a ciclovia. O cenário é de filme. Mas vamos enfrentar a realidade com bom humor. Afinal, estamos no Rio de Janeiro, cidade maravilhosa. Pre- cisamente em Copacabana, atravessada por uma excelente ciclovia de seis quilômetros, entre Ipanema e Botafogo. (...) A zona sul do Rio é cortada por ciclovias, todas em ótimo estado. É uma das coisas boas que a população pode desfrutar, inclusive para ir para ao trabalho. Vale uma reflexão como frequentador da ciclovia – já que não me considero um ciclista. Antes de tudo, precisamos reconhecer que qualquer ciclovia da cidade é boa para o ciclismo. O que a prefeitura nunca fez – nem os vereadores pensaram nisso – é organizar seu uso. Depois de ultrapassar duas quadras brigando com carros ou quase atropelando velhinhos inocentes nas calçadas, chego à praia e, devi- damente paramentado com capacete e luvas, me arrisco na ciclovia. Aliás, sou uma das poucas pessoas que usam os acessórios de prote- ção. Pelo horário, por volta das 7h30, os corredores e pedestres que passam por mim estão voltando da caminhada, suados e exaustos, prontos para ir para casa e ao trabalho. Alguns – ou melhor, muitos deles – se aventuram a correr na ciclovia – dizem que a performance é melhor do que correr sobre as pedras portuguesas da calçada. Mas eles invadem a pista e não respeitam as bicicletas. (...) Revista CartaCapital, 15/01/2012. 21GE REDAÇÃO 2016 Carta O texto em forma de carta pode ser pessoal (para escrever a um amigo, por exemplo) ou do campo das relações sociais (para reivindicações, apoios, pedidos, reclamações), como carta aberta ou carta-convite. Em todos os casos, a carta deve ter indicação de local e data no topo da página, seguida da identificação do destinatário, uma saudação (vocativo) – que depende do grau de intimidade com esse destinatário –, referência (o motivo da correspondência, que em um e-mail é o assunto e que em cartas abertas pode estar em um título), o corpo do texto e a finalização. As propostas mais comuns são de cartas argumentativas, mas com uma diferença em relação à dissertação: nesta escreve-se a um leitor genérico, na carta é preciso adequar a linguagem a um destinatário. Não é proibido utilizar a primeira pessoa, mas usar o plural majestático pode ser uma alternativa melhor. LEITOR CRITICA EDITORIAL SOBRE CICLOVIAS* (adaptada) Goiânia, 31 de dezembro de 2014 Senhores editores O editorial “Pedalar pela cidade” (“Opinião”, 29/12) trata de forma panfletária um assunto que envolve vidas. O programa cicloviário da cidade de São Paulo está sendo implantado sem que exista uma regu- lamentação para o trânsito dos ciclistas, não existindo um programa de orientação para a população de como se comportar nos diversos conflitos que irão existir, como nas saídas de garagens. Marcos de Luca Rothen (Goiânia, GO), Folha de S.Paulo, 1/1/2015. *Agregamos local, data e saudação, que não são habitualmente publicados na imprensa Comentário Pode-se considerar o comentário uma espécie de subgê- nero, que reúne características da dissertação e da carta. Espera-se do autor que utilize argumentos e, eventualmente, que se posicione. Ao contrário da dissertação, aqui a escrita em primeira pessoa pode ser utilizada, se a proposta permitir isso. Porém, é preciso cuidado redobrado na expressão das ideias em primeira pessoa, evitar generalizações, chavões etc. Os comentários têm sido solicitados em provas, como as da UFPE 2011 e da Unicamp 2012. Em cada última quinta-feira de cada mês, temos uma volta com nossas bicicletas e nossos amigos para passear pela cidade. Desta vez queremos nos solidarizar com nossos colegas de São Paulo em sua luta por uma cidade mais humana e amigável para com as bicicletas. Post do movimento Massa Crítica de Almería, Espanha, em apoio à bicicletada de São Paulo, em março de 2015. Manifesto Um gênero de natureza dissertativa, de exposição de ideias e proposições de uma pessoa ou de um grupo. Em sua interlocução, o manifesto é público, com fins e propósitos determinados e, quando dirigido ao conjunto da sociedade, pode não trazer um vocativo de endereçamento. Assim como a dissertação, um manifesto deve ter um título, desenvolvimento dos temas abordados, argumen- tação bem fundamentada e defesa de um ou mais pontos de vista. Exige assinatura, local e data de sua divulgação. O manifesto assemelha-se à carta-aberta, solicitada em 2015 pela Universidade de Campinas (veja na pág.70). E A BICICLETA FEDERALIZOU-SE! A bicicleta é um típico veículo local. Embora haja quem com ela viaje o mundo, sua maior vocação, e aspiração de quase todos que a usam, é sua utilidade para o cotidiano nos arredores de casa – deslocamentos de até 6 km. Por isso, pode-se pensar que todas as intervenções para facilitar seu uso não precisem ir para além do gabinete do prefeito. Os ciclistas brasileiros organizados em entidades – ou irmanados somente pela aspiração comum de equidade no trânsito – não pen- sam assim. Como nas demais áreas da vida social – saúde, educação, esporte etc. –, a mobilidade também necessita de políticas públicas transversais e integradas, perpassando a administração pública es- tadual e alcançando a esfera federal. Da União de Ciclistas do Brasil, divulgado durante a campanha eleitoral de 2014. Verbete/Síntese É o texto que define uma palavra, conceito, tema ou assunto, de forma estrita, objetiva, como em dicionários, enciclopé- dias. Na popular Wikipedia, embora pouco formalizados ou rigorosos, os verbetes compõem os artigos. O gênero foi solicitado na prova de 2012 da Unicamp. BIKEÉLEGAL.COM.BR – QUEM SOMOS O “Bike é Legal” é um portal na internet sobre ciclismo, mobilidade urbana e sustentabilidade. Com notícias, vídeos, fotos, artes, ideias, questionamentos, discussões e reivindicações, o site reúne ciclistas que são referências sobre o tema no Brasil. (...) Extraído do site bikeelegal.com. RODAS DA PAZ A ONG Rodas da Paz foi instituída em 2003 com o objetivo de reagir à violência e ao crescente número de acidentes e mortes no trânsito do Distrito Federal. Desde então promove ações para a conscientiza- ção em prol de um trânsito seguro para todos, com especial atenção para os usuários da bicicleta. Extraído do site da organização não governamental. 22 GE REDAÇÃO 2016 ELEMENTOS DE QUALIDADE Veja as características que valorizam e fazem uma boa redação. Abordamos aqui as que consideramos essenciais. Os exemplos são sempre de dissertação, que é o tipo de texto mais exigido nas provas Por Davi Fazzolari e Ana Paula Dibbern Os elementos que distinguem o seu texto 23GE REDAÇÃO 2016 Autonomia O texto precisa ser compreendido por si. Ou seja, o autor deve imaginar um leitor que não leu a proposta do enun- ciado da prova. As referências ao material de apoio têm de ser acompanhadas de todas as informações necessárias para que o leitor as entenda, uma vez que a coletânea não faz parte da redação. Como a autonomia de um texto também é medida pelo nível de atualização e pelo repertório do candidato-autor, é importante trazer informações novas, além daquelas presen- tes no texto-base, desde que sejam pertinentes e contribuam para a argumentação e defesa da tese pretendida. O uso de argumentos de autoridade pode contribuir nesse sentido, mas é preciso muito cuidado porque citações mal inseridas podem fazer o efeito contrário e comprometer a redação. Como exemplo, suponha uma prova com o tema “O trabalho infantil”, que traga um mapa de referência como parte da coletânea. TEXTO INADEQUADO (sem autonomia): “A situação mostrada no mapa é uma vergonha. Mas não é fácil de ser enfrentada, pois requer dinheiro e determinação dos governantes”. Note que, no exemplo, o autor faz comentários sobre o mapa da coletânea como se ele estivesse na folha de avaliação. Com isso, a afirmação é construída com base no senso comum e se assemelha mais a uma opinião do que a um argumento. TEXTO ADEQUADO (com autonomia): “O grande número de crianças trabalhadoras no Brasil denuncia a precarização do trabalho na faixa adulta da população e a falta de políticas públicas atentas ao futuro”. Um vocabulário adequado também é muito importante para garantir a autonomia do texto. Note, em nosso exemplo, como as afirmações são mais precisas quando substituímos palavras vagas ou genéricas (como “vergonha” e “fácil”) por outras mais objetivas (“número”, “denuncia” e “precarização”). Coerência e clareza Um texto coerente é resultado dos argumentos que você utiliza para referendar logicamente seu ponto de vista, que é o seu recorte do tema. No desenvolvimento da redação, é importante ter como objetivo convencer o leitor da lógica de seu texto. O processo básico é o mesmo de uma discussão com os amigos sobre um filme ou uma partida de futebol. Em uma dissertação, a melhor ideia será aquela sustentada por argumentos convincentes, com os quais o autor se faça entender. Por isso, o posicionamento diante do tema deve ser ponderado e evitar radicalização e panfletagem. Em outras palavras, é preciso escrever com clareza para que, após ler a redação, ninguém se pergunte: “Mas, afinal, o que o autor quis dizer com isso?” Essa é uma pergunta que o autor deve se fazer antes de passar o texto a limpo. Seu texto estará pronto se responder à pergunta. TEXTO INADEQUADO (sem coerência nem clareza): “Quando os bolivianos chegam ao Brasil só encontram emprego na indústria têxtil, devido às habilidades características de sua cultura, ou trabalham como autônomos através do artesanato. Com isso, o Brasil precisa ajudá-los para que também possa ser ajudado por eles.” Nesse exemplo, o argumento não foi bem construído. Não fica claro o motivo e nem a forma pela qual o Brasil precisa ajudar os bolivianos (isso sem falar que a escolha do verbo “ajudar” não foi feliz). Há, também, uma generalização incorreta das atividades citadas. Além disso, o texto pode favorecer uma interpretação preconceituosa sobre a cultura e capacidades desses imigrantes. Em vez disso, o autor deveria inserir dados e argumentos mais densos para conferir coerência ao texto. TEXTO ADEQUADO (com coerência e clareza): “Grande parte dos bolivianos que migram para o Brasil só encontra trabalho na indústria têxtil, que muitas vezes não garante seus direitos básicos. Constatada essa realidade, conclui-se que é preciso oferecer qualificação e construir mecanismos para que os estrangeiros sejam realmente inseridos no mercado de trabalho. Dessa forma, a vida dessas pessoas – que tanto contribuem para o crescimento do país – seria melhor”. Nesta versão do texto, o problema da generalização foi resolvido com a inserção do trecho “Grande parte”. Há argu- mentos mais claros, especialmente no trecho “é preciso oferecer qualificação e construir mecanismos”. Além disso, foi inserida uma posição que valoriza o imigrante (“contribuem para o crescimento do país”) ao mesmo tempo em que é reforçado o argumento de que o Brasil precisa recompensá-los. 24 GE REDAÇÃO 2016 ELEMENTOS DE QUALIDADE Simplicidade Escrever de forma simples é o caminho certo para quem tem poucas linhas para expressar sua opinião sobre um tema. O candidato deve evitar períodos muito longos ou o uso de vocabulário rebuscado. Períodos longos servem a textos longos, de várias páginas, o que não é o caso de uma redação para o vestibular. As palavras difíceis também devem ser evitadas. Elas geralmente são utilizadas com a intenção de impressionar os avaliadores, mas podem provocar desvio de raciocínio. Além disso, é bom evitar inversões no uso dos elementos da oração e manter a organização básica: sujeito, verbo e complementos. Como falantes da língua, nós já fazemos isso intuitivamente. Pôr o adjetivo antes do substantivo, por exemplo, aumenta a sua ênfase e, portanto, parece intencional para quem lê, e você só deve utilizar se tiver mesmo a intenção de ser enfático. É bom lembrar que, após a realização do exame, as redações serão enviadas para um ou mais avaliadores que têm pouco tempo para avaliar cada texto. Nessa situação, o problema das inversões nos elementos da oração e da escrita rebuscada é agravado, já que a falta de simplicidade atrapalha a fluência na leitura. O ideal é que o avaliador nunca tenha de reler o parágrafo para entendê-lo. TEXTO INADEQUADO (prolixo): “A amizade atual se caracteriza por uma relação direta e virtual de maneira mútua. O estabelecimento da coexistência entre o tradicional e o moderno representa uma resposta à troca de paradigma nas relações interpessoais”. O leitor precisa ler o texto duas vezes para entendê-lo, quem sabe três. Algumas palavras, como “mútua”, “coexistência”, “paradigma” e “interpessoais”, apesar de serem razoavelmente comuns, colocadas em conjunto tornaram o texto prolixo. TEXTO ADEQUADO (escrita simples): “Da mesma forma que o tradicional e o moderno convivem em nossa sociedade, as amizades atuais são baseadas em um modelo caracterizado pela coexistência das relações direta e virtual”. O texto ganha melhor organização quando a disposição das ideias é invertida. Primeiramente, o autor aponta que o tradicional e o moderno convivem na nossa sociedade. Depois expande tal coexistência para o campo das amizades, em uma dualidade entre o real e o virtual. Tal mudança facilita bastante o entendimento. Ao mesmo tempo, o abandono de algumas palavras (como “mútua”, “paradigma” e interpessoais”) torna o texto mais simples. Coesão A coesão é a articulação das partes de um todo. Na gramá- tica da língua portuguesa aprendemos que as articulações são realizadas pelas classes de palavras conhecidas por “arredondar” o discurso e tornar mais agradáveis e com- preensíveis as orações e os períodos. São as preposições e as conjunções que exercem essa função de conectivos com maior frequência. Além da coesão interna em uma oração, também é pre- ciso haver coesão entre as orações do parágrafo e entre as etapas do texto, ou seja, entre os próprios parágrafos. As frases devem se suceder numa sequência lógica. O espírito é o mesmo para os parágrafos, mas, nesse caso, a atenção deve estar voltada para os encontros que se dão no fim de um parágrafo e início de outro. Um bom encadeamento gera “coesão textual” ou “textualidade” e evita que a redação te- nha palavras “soltas”, como se uma frase não tivesse relação com a outra. TEXTO INADEQUADO (com problemas de coesão): “Quando pensamos um tempo melhor para a vida de todos, queremos dizer o seguinte: simplesmente que as coisas podem ser mais justas para todas as pessoas se beneficiarem disso”. Neste fragmento, o autor é redundante e formula duas vezes a mesma ideia. Constrói a frase como se uma oração fosse a conclusão da anterior, mas não traz novas informações e acaba por “andar em círculos”. A organização das palavras dentro das orações (principalmente a disposição das palavras “sim- plesmente” e “disso”) não favorece o entendimento, resultando em um texto pouco coeso. TEXTO ADEQUADO (com boa coesão): “Quando pensamos em um tempo mais justo, imaginamos, simplesmente, que a vida pode ser melhor para todos”. Temos, aqui, uma construção mais consistente da frase. Foi muito positiva a exclusão da expressão “queremos dizer o seguinte”, que é uma marca da linguagem oral. Além disso, o problema da repetição foi resolvido. Não temos mais os dois trechos semelhantes (“um tempo melhor para a vida de todos” e “as coisas podem ser mais justas para todas as pessoas se beneficiarem disso”), mas sim uma só elaboração da ideia, com as palavras bem organizadas e melhor encadeamento. 25GE REDAÇÃO 2016 1 TROCAR O TIPO OU GÊNERO DE TEXTO A prova pede uma dissertação e você faz uma narração. Essa falta de atenção é con- siderada incontornável e resulta em nota zero. Assim, é necessário estar atento para quando a prova solicita três gêneros de tex- to (ou oferece três a escolher) e você indica erroneamente a sua escolha; por exemplo: opta pela proposta 2, que pede uma carta, mas assinala a 1, que era para dissertação. 2 FUGIR DO TEMA Escrever uma redação que foge do tema proposto também pode levar à anulação da redação. Por isso, leia com bastante atenção a coletânea de textos e o enunciado. Tome mui- to cuidado para não se perder em divagações que nada têm a ver com o que foi apresentado (veja mais critérios nas págs. 8 a 13). 3 USO IMPRÓPRIO DA LINGUAGEM ORAL Nem sempre a linguagem que você usa quando está conversando pode ser passa- da para o texto. Expressões como “né” e “ok” não caem bem numa redação. Gírias como “se ligar” e “irado” também não são adequadas. 4 REBUSCAR DEMAIS Abusar de palavras rebuscadas também pode prejudicar sua nota. Lembre-se: lin- guagem formal não é sinônimo de linguagem complicada. Ao exceder no uso de um requin- te desnecessário, é grande a probabilidade de seu texto ficar sem fluência nem clareza. 5 COMETER ERROS DE LÍNGUA PORTUGUESA Erros básicos da língua portuguesa não têm perdão na prova. “Fazem muitos anos”, “há nove anos atrás” e “para mim levar” são des- lizes graves numa redação. Na dúvida quanto à grafia correta ou à aplicação de uma regra gramatical, substitua a palavra por outra ou organize novamente a frase. Os dez erros mais comuns Os deslizes que podem tirar pontos preciosos da sua nota 6 USAR CLICHÊS E PROVÉRBIOS Evite o uso de clichês, que são aque- las expressões muito conhecidas, como “colocar tudo em pratos limpos”, “fechar com chave de ouro”, “água mole em pe- dra dura tanto bate até que fura”. O uso de provérbios e frases, geralmente construí- das com base em ideias estereotipadas, re- vela falta de originalidade do autor. 7 PANFLETAR E RADICALIZAR As redações que instruem o leitor com frases como “Devemos nos unir!” ou “Vamos reciclar o planeta!” são consideradas frágeis. No lugar do discurso politicamente panfletário, é me- lhor organizar argumentos que permitam ao leitor chegar às próprias conclusões. 8 USAR CITAÇÕES SEM CUIDADO As citações devem ser utilizadas com bas- tante critério. Evite expressões batidas, como “Só sei que nada sei”, de Sócrates. Outros erros comuns são o uso de citações fora do contexto, sem que tenham uma relação efetiva com o texto ou argumentação, e ci- tações de autoridade incompletas ou com a grafia errada do nome do autor. Se não tem certeza da grafia de filósofos como Friedrich Nietzsche, Erich Fromm, Immanuel Kant, não utilize essa citação. 9 EXAGERAR EM INFORMAÇÕES Você não precisa despejar tudo o que sabe na redação. O excesso de informações pode prejudicar a coesão do texto, pois dados de- mais podem confundir, ao invés de esclarecer. Seja seletivo. 10 CAIR EM REDUNDÂNCIA A redundância revela falta de repertório do autor-candidato. Numa boa dissertação, a argumentação avança progressivamente, e não fica andando em círculo. Essa é uma falha extra que não se deve cometer. Isso porque você pode perceber algo não tão perfeito quanto gostaria tarde demais, quando já escreveu na versão final. Há candidatos que esquecem, por exemplo, de colocar um título em sua redação da Fuvest, o que é uma das exigências explícitas da prova. Nos últimos textos divulgados, das provas de 2012 e 2013, há redações com essa falha. Os avaliadores da Fuvest reconhecem as boas dissertações, mas eventualmente isso pode ser entendido como falta de atenção ao enunciado da prova e reduzir pontos da nota. NÃO ESQUEÇA DE REVISAR SEU TEXTO 26 GE REDAÇÃO 2016 ARGUMENTAÇÃO Aprenda com os jornais estratégias para persuadir A leitura cotidiana dos editoriais jornalísticos amplia sua capacidade de interpretar fatos e de organizar argumentos Por Alan Nicoliche A argumentação é a prin-cipal ferramenta para os candidatos que preten-dem uma boa colocação nas redações dos vesti- bulares. Evidentemente, a linguagem e a estrutura dos textos são importantes – é a chamada coesão textual –, mas são mais facilmente assimilados com estu- dos e prática do que a argumentação. A capacidade de argumentar extrapola os limites das salas de aula. Ela será necessária ao longo de toda a vida acadê- mica e profissional daqueles que agora adentrarão em uma faculdade. Não é à toa que a maioria dos vestibulares exige a redação de um texto argumentativo em seus processos de seleção. E como adquirir essa capacidade ar- gumentativa? Primeiramente, colocan- do-se a par das questões que o cercam, sejam políticas, sociais, econômicas, filosóficas, técnicas ou culturais, elas poderão compor o chamado repertório pessoal. Em seguida, entender os lados divergentes que podem estar em cada questão para criar uma opinião e argu- mentar a favor dela. Parece trabalhoso, mas a experiência de se interessar pe- los assuntos e interagir com eles torna a prática corriqueira e até prazerosa. Dessa forma, informar-se e conhecer os diversos pontos de vista é funda- mental, o que exige a leitura de bons textos sobre os assuntos que poderão ser explorados. Textos para persuadir Uma das formas textuais mais inte- ressantes para esse exercício é a leitura do editorial dos jornais. Os editoriais trazem o posicionamento ideológico do veículo de comunicação a que per- tencem, ou seja, são também textos argumentativos, que têm a função de informar e persuadir o leitor. Desse modo, a leitura de um editorial, para candidatos a vestibulares, serve para informar sobre diferentes assuntos, e pode ser uma grande fonte de apren- dizado sobre argumentação. Textualmente, os editoriais são habi- tualmente mais longos do que o solici- tado nas dissertações dos vestibulares. Também apresentam múltiplos pará- grafos e, eventualmente, são finaliza- dos com frases de efeito. No vestibular, usamos menos parágrafos e não usamos frases de efeito. Em uma dissertação para o vestibular, o ideal é limitar os parágrafos a quatro ou cinco, um para introduzir sua tese, dois ou três para argumentar e um para concluir. Para esta edição do guia, selecio- namos um editorial do jornal Folha de S.Paulo, publicado em 27 de abril de 2015, que trata do regime prisio- nal utilizado com os jovens infratores. Como você poderá perceber na leitura do editorial e em sua análise, o texto é construído de maneira a não só in- formar o leitor, mas persuadi-lo, fazer com que ele compartilhe da ideia ali exposta. Para tanto, não há vacilos na argumentação, e as informações são apresentadas como afirmações e em- basadas em dados. Observe que a simples exposição das informações não é suficiente para ga- rantir a veracidade do discurso. Isso porque dados podem ser lidos de dife- rentes formas e as conclusões podem ser diferentes, dependendo da linha de pensamento de cada um. 27GE REDAÇÃO 2016 EDITORIAL 1 Paradoxo perverso Adolescentes infratores têm, na prática, menos acesso que os adultos ao regime semiaberto, numa inversão da lógica do sistema penal. 2 A notícia em si já seria chocante. Mas, na conjuntura atual, em que se discute a diminuição da maioridade penal de 18 para 16 anos, a reportagem publicada por esta Folha na quinta-feira (23) tem conotação perversa. Dos 23 mil menores infratores que cumprem algum tipo de punição no Brasil, só 10% têm acesso ao regime de semiliberdade, pelo qual podem sair das insti- tuições durante o dia para estudar ou trabalhar. Em alguns estados, como Paraíba e Maranhão, menos de 3% dos infratores têm atendido esse direito; em Mato Grosso, não se registra caso de menor nessa situação. 3 Seriam, talvez, infratores de alta periculosidade? A realidade é bem diferente disso. Uma minoria bastante limitada dos internos responde por crimes hediondos. Em São Paulo, por exemplo, somente 2,6% dos adolescentes foram punidos por tal tipo de transgressão. Mesmo assim, 93% deles permanecem confinados dia e noite. 4 Configura-se situação de rigor punitivo ainda maior – e este o paradoxo do caso – do que se vê entre infratores adultos. Destes, cerca de 35% estão, no país inteiro, no sistema semiaberto. Não se trata de regalia ou concessão motivada por alguma atitude sentimental. Tal regime se fundamenta na ideia de que, a não ser em casos de grande perigo para a sociedade, há mais vantagem em ter o delinquente dedicado a atividade produtiva do que em mantê-lo preso na companhia de personalidades já defor- madas pelo banditismo e pelas práticas da cadeia. O raciocínio tem maior pertinência no caso dos adolescentes, mais capazes de absorver novas condições de trabalho e estudo. O inverso do que se verifica, portanto. 5 Se alguém quisesse fazer blague com um assunto de máxima importância e seriedade, tantas vezes tratado com a demagogia dos que vociferam em favor do máximo rigor penal, poderia inverter as opiniões correntes. Os que defendem penas mais elevadas, vingança social extrema, dureza com o jovem infrator de- veriam apoiar a atual legislação. Quanto aos que advogam teses mais flexíveis e maior cuidado na punição aos adolescentes, talvez devessem apostar na diminuição da maioridade penal para 16 anos: haveria de ser, bizarramente, o modo de lhes oferecer mais ocasiões de cumprir sua pena no regime semiaberto, de forma mais produtiva. Não se trata disso, por certo. Mas é de notar o quão fora da realidade estão os que, julgando necessário mais rigor contra o jovem delinquente, desconhecem as péssimas condições hoje oferecidas para que se reintegrem à sociedade, e o quão distante está a máquina punitiva de proporcionar real aumento da segurança geral dos cidadãos. Folha de S.Paulo, 27/4/2015. 1 O título deve refletir o conteúdo do texto e a linha argumentativa de quem redige. A escolha do título, neste caso, além de ser adequada ao editorial que seguirá, provavelmente chamou a atenção dos leitores do jornal. 2 A chamada deste editorial e seus primeiros parágrafos apresentam o assunto que será abordado – no caso, o baixo número de menores infratores que cumprem pena em regime semiaberto. O tema é retomado de uma reportagem de quatro dias antes da própria Folha de S.Paulo, cujo título era “Só 1 em cada 10 menores infratores pode sair para estudar ou trabalhar”. Repare como os números são utilizados nesta parte, e ao longo do texto, para impactar o leitor. 3 Nestas duas orações, o jornal ressalta o contraste entre o rigor da pena e o teor das infrações. Novamente são utilizados números para tornar o quadro mais visual ao leitor. 4 Neste ponto o editorial faz a discussão mais importante, que retoma o título e a chamada. A comparação com a situação dos menores infratores e a dos adultos toma maiores proporções, uma vez que o regime semiaberto parece ser mesmo mais adequado aos jovens. Repare como o texto se utiliza de um raciocínio lógico, muito eficaz na persuasão do leitor. 5 Os parágrafos finais servem de conclusão ao editorial – o que é feito inicialmente com certa ironia, mas termina com um tom grave. O texto aponta que o atual regime parece punir mais o jovem, privando-o de possibilidades de reintegração social, do que aconteceria com a redução da maioridade penal – já que, uma vez tratados como adultos, teriam maior chance de cumprir a pena no regime semiaberto. Dessa forma, não só demonstra como o sistema funciona de forma errônea, como sugere uma ignorância do público acerca desse assunto. Observe que há uma dupla crítica: uma à máquina punitiva, mal gerida e estruturada; e outra dirigida àqueles que pedem mais rigor na punição aos jovens, que desconheceriam a realidade do sistema existente no país. ANÁLISE DO EDITORIAL 28 GE REDAÇÃO 2016 TEMAS DAS PROVAS A redação é uma parte diferenciada dos vesti-bulares, e a expectativa quanto ao tema da re-dação costuma resul- tar em uma dose extra de ansiedade. Enquanto as demais provas avaliam basicamente os conteúdos que você aprendeu no Ensino Básico, a prova de redação é a única que tenta medir se você consegue elaborar conteúdos a partir do que aprendeu e, eventualmen- te, fazer propostas. Por isso mesmo, a prova de redação é a “estrela”, digamos, de muitos vestibulares. Um bom início é observar quais tipos de temas são solicitados nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e da universidade em que você quer estudar, pois cada uma habitual- mente adota uma linha, pelo menos nos anos recentes. Algumas universidades, por exemplo, preferem solicitar a dis- sertação sobre temas subjetivos, para tentar evitar temas abordados pelos cursinhos, que geram redações pré- formatadas. Os temas recentes propostos em alguns dos maiores vestibulares dão uma boa pista de sua tendência, e ela- boramos para você uma lista com os mais recentes de alguns dos maiores vestibulares (veja na pág. 33). Além disso, um bom recurso ao can- didato é buscar e consultar na internet as provas vestibulares da faculdade ou universidade que ambiciona, o que aju- da a se inteirar e a praticar. Descobre- se, por exemplo, se a prova costuma trazer apenas um ou dois elementos de coletânea, se traz textos não verbais, ou se a prova inteira é uma coletânea, o que pode ajudar muito o candidato. Evolução da prova “A importância e a forma da redação como conhecemos hoje surgiu com os avanços nas teorias da educação. O estudante era visto e avaliado como um reprodutor de conhecimentos. Mas com o passar do tempo passou-se à compreensão de que ele deve ser vis- to também como um produtor desse conhecimento, como protagonista do Tenha interesse pelos assuntos da prova Veja o que especialistas falam dos temas, abordagens e expectativas da redação. Com sugestões de assuntos atuais e retrospectiva dos mais recentes Por Paulo Montoia [1] [3] [5] [6] [7] [8] [2] [4] [9] [1] e [7] REPRODUÇÃO [2] VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL [3] PETE SOUZA/ OFFICIAL WHITE HOUSE PHOTO [4] e [5] FERNANDA CARVALHO/FOTOS PUBLICAS [6] WORLD ARMIES - FRENCH POLICE [8] FRANCE DIPLOMATIE [9] LUIS MOURA/ FOLHAPRESS 29GE REDAÇÃO 2016 processo”, explica Luciano Segura, do Curso Intergraus, em São Paulo. Eclícia Pereira, professora de redação do Cursinho Politécnico, de São Paulo, afirma que as universidades buscam “estudantes que, por meio da escrita, expressem sua visão de mundo, em um texto pleno em forma e conteúdo”. Em sua avaliação, se em outros tempos a forma se sobrepunha ao conteúdo, hoje eles caminham lado a lado, o que torna mais desafiadora a produção de texto. “A prova de redação objetiva não apenas avaliar as condições de escrita dos candidatos, mas também sua leitura interpretativa dos dados da prova e também do mundo”, diz. Os orientadores que entrevistamos concordam em um ponto: em qualquer tema dissertativo o candidato precisa expressar reflexão sobre o tema e um ponto de vista. Filipe Couto, vice-dire- tor e coordenador de língua portuguesa, literatura e redação do Colégio e Curso pH, do Rio de Janeiro, orienta os alunos que, em todos os casos, é fundamental que eles consigam relacionar fatos e opinião para criar um ou mais argu- mentos que sustentem um ponto de vista. “Sempre que pedem um texto argumentativo, o candidato tem de se posicionar. Se o tema for colocado sob a forma de uma pergunta, ele deve se assegurar de que seu texto oferece uma resposta. Se o tema for uma afirmação, deve problematizar essa afirmação.” Tipos de temas e recorte Os temas da prova podem ser aglu- tinados em três áreas básicas que de- talhamos a seguir. � Temas com foco inicial no pró- prio indivíduo Como felicidade, sofrimento, altruísmo – Fuvest 2011 e 2012, PUC-Rio 2015, PUC- -Minas 2015, UnB 2014 2º Semestre e UFRGS 2015 (veja na pág. 64). � A relação do indivíduo com os ou- tros Temas sociais como direitos civis, violência, imigração, pobreza, trabalho, corrupção, consumismo, inclusão social. São uma diretriz das provas do Enem (veja a prova 2014, pág. 50 e a prova 2013, pág. 82. E tam- bém Fuvest 2015, pág. 78; Unesp 2015, pág. 58, e 2014, pág. 94; Unicamp 2015, pág. 70, e 2014, pág. 88). � A relação humana com o ambiente natural Assuntos como desmatamen- to, biodiversidade, sustentabilidade ambiental, efeito estufa, desastres. (veja na pág. 33 Uneb 2015, UFSC 2011 e Unicamp 2011). Qualquer que seja o tema, ele deve ser abordado objetivamente em uma dissertação ou outro gênero de texto com interlocução semelhante, como a carta aberta, o manifesto e outros (veja na pág. 18). Francisco Platão Savioli, su- pervisor de Língua Portuguesa do Curso Anglo Vestibulares de São Paulo exem- plifica: “Se o tema for amizade (UFRGS 2015 e PUC-Rio 2015), o candidato deve trabalhá-lo como um objeto de investi- gação. Não é para escrever coisas como ‘sem amizade a minha vida seria vazia’, isso não é dissertação”, diz ele. Outra orientação é quanto à neces- sidade de estabelecer um recorte para o tema. Por exemplo, se o tema é o trabalho em geral, pode-se escolher o trabalho terceirizado, o escravo, o infantil. Se o tema já traz um recorte, como o trabalho infantil (Enem 2005), pode-se escolher um recorte menor, como o trabalho da criança em família. É importante também não extrapolar um tema ou acompanhá-lo pela metade. Ou seja, se a proposta é dissertar sobre o legado da escravidão e o preconceito contra negros no Brasil (veja Unesp 2015, na pág. 58), o candidato não pode discor- rer apenas sobre a escravidão ou mesmo a exclusão econômica e social atual dos negros no país e esquecer a segunda parte do enunciado: o preconceito. Savioli alerta para o que chama de “o ladrão de cena”, a saber, quando o assunto da prova se mistura com um daqueles que o vestibulando traba- lhou muito. Daí que o assunto estu- dado “pode roubar a cena” do tema da prova. O candidato se tranquiliza, mas acaba escrevendo sobre o assunto que estudou, e não sobre o que foi solici- tado. Exemplos: o tema “a violência provocada pelas diferenças sociais” não é sobre a violência em geral, e su- gere polemizar as diferenças sociais; o tema “a mobilização pela internet” não coloca o foco na internet, e sim na mobilização humana que ela possibilita. Temas que pedem proposta Algumas provas podem pedir propos- tas para um problema colocado como tema. A mais conhecida nesse senti- do é a do Enem, na qual é obrigatório apresentar uma ou mais propostas de intervenção para um problema social, respeitando os direitos humanos. Todos os entrevistados lembram que a proposta pede uma intervenção, não uma solução. Uma orientação de Yeso Osawa, professor do Curso Positivo, em Curitiba (PR), é que “a proposta não precisa ser aquilo que está por ser feito. É possível mencionar um proce- dimento já existente como aquilo que pode balizar sua sugestão”. Filipe Couto destaca que a proposta precisa resultar de uma tese e argumen- tação claras, e conter três elementos para ser bem fundamentada: “a pro- posta explicitada (informando como ela pode atenuar o problema colocado no tema), como ela seria implementada, e por qual agente social: pode ser um dos governos, a família, a comunidade, uma ONG”. Luciano Segura também destaca a importância de a proposta ser vincu- lada à argumentação. “Se o estudante discute a superlotação dos presídios, por exemplo, não é esperado que ele proponha mais educação como pro- posta de intervenção”. NÃO SE ESQUEÇA: Não fuja do tema da prova e evite radicalismos. Isso tira pontos e pode até zerar sua nota. 30 GE REDAÇÃO 2016 TEMAS DAS PROVAS MEIO AMBIENTE E ECONOMIA Seca severa atinge as áreas urbanas Após uma seca recorde no Nordeste em 2013, a maior e mais grave em 50 anos, desde 2014 a estiagem atinge tam- bém a região mais urbanizada do país, o Sudeste. A redução das chuvas e a queda dos volumes de água disponíveis generalizaram-se em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em janeiro de 2015, a seca já afetava cinco das dez maiores regiões metropolitanas do país: Belo Horizonte, Campinas (SP), Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Em curto e médio prazo, a situação pode se agravar caso seja necessário racio- nar eletricidade por falta de água em represas hidrelétricas integradas ao sistema nacional, como as do sistema Furnas ou Paulo Afonso. Na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), o Sistema Cantareira quase secou, afetando 9 milhões de paulistas. A gravidade da situação le- vou a população atingida a armazenar água, o que foi indicado como uma das causas da maior epidemia de dengue da história paulista. A situação a que foi exposta a maior metrópole do Hemisfério Sul levou a inúmeros questionamentos de falta de planejamento da empresa responsável, a Sabesp, e ao governo paulista na im- prensa, uma vez que foram registrados anos seguidos com redução de chu- vas. Além disso, a RMSP é cortada por rios e abrange duas grandes represas, mas todo esse manancial é usado para despejo de esgoto, o entorno das duas represas foi ocupado irregularmente e a mata original foi destruída. A escassez já gerou uma pergunta no vestibular da Fuvest 2015: o que seria correto afirmar em relação à crise da água em São Paulo? A resposta certa: “ela é ecológica e política, posto que a reposição de água dos reservatórios de- pende de fatores naturais, assim como do planejamento governamental sobre o uso desse recurso”. Por sua impor- tância, a água é tema permanente dos vestibulares. PARA IR ALÉM Aspectos sociais, econômicos e políticos da água estão em Ouro Azul: As Guerras pela Água (Blue Gold: Water Wars, 2008, de Sam Bozzo), disponível na internet; o vídeo Entre Rios (2009, de Caio Silva Ferraz) conta a história da urbanização de São Paulo e do destino dado a seus rios. INTOLERÂNCIA & PRECONCEITO Desrespeito às diferenças Em 27 de abril de 2014, o jogador brasileiro Daniel Alves surpreendeu a torcida, ao pegar e comer uma banana atirada no gramado por um torcedor racista, em jogo na Espanha. Em 25 de março de 2015, uma mulher tentou des- truir a golpes de enxada uma imagem de Nossa Senhora da Piedade em igreja da cidade mineira de Belo Oriente. Em junho, o programa de televisão CQC repercutiu o vídeo em que um gaúcho humilhou um imigrante haitiano que trabalha como frentista e postou a gra- vação na internet. Exemplos de racismo, preconceito e intolerância religiosa como esses podem ser somados a outros tantos. A intolerância a raça, cor, nacionalida- de, gênero, classe social, religião, clube de futebol, opinião e mesmo a partido político até pode ser rotulada como traço social, porém, é inaceitável. Nas redes sociais, chega-se a tal nível de antagonismo e agressão que conversas viram brigas; alguns preferem desistir de acompanhar e cometem “facebooki- cídio” (sair da rede). Questões para dissertar: Por que conflitos sociais e guerras se reves- tem de caráter étnico ou religioso? Educar ou punir são as únicas for- mas conhecidas de combater ra- cismo, xenofobia e preconceito? PARA IR ALÉM Doze Anos de Escravidão (2013, Steve McQueen) mostra a que nível de ausência de direitos chegou a escravidão dos negros nos Estados Unidos. Território Restrito (2009, Wayne Kramer) mostra abusos e discriminação a imigrantes e refugiados nos EUA. Construa seu repertório Selecionamos para você fatos atuais que podem ser tema nas provas de redação deste ano Bombas improvisadas captam água do fundo da represa Jaguari- Jacareí, que abastece São Paulo, em 2014 LA LO D E A LM E ID A /F O LH A P R E SS 31GE REDAÇÃO 2016 TERRORISMO A violência como coerção O atentado ao jornal francês Charlie Hebdo, em Paris, em 7 janeiro de 2015, recolocou o terrorismo no noticiário e nas preocupações dos governos euro- peus. Doze pessoas foram assassinadas pelos irmãos Said e Chérif Kouachi, na sede do jornal, e outras quatro, no dia 9, por um amigo dos Kouachi, em um ataque com reféns em um pequeno mercado de produtos judaicos. Os ata- cantes seriam ligados à rede terrorista Al Qaeda do Iêmen. Não é simples conceituar o que é terrorismo. Pode-se afirmar, mini- mamente, que é o uso sistemático de violência, que gera um ambiente de medo para alcançar objetivos políti- cos. Mas a palavra pode ser utilizada para colocar um rótulo negativo para criminalizar um adversário ou inimigo. O governo de Israel, por exemplo, de- fine como terroristas diversos grupos palestinos que lutam com armas por sua independência. Estes respondem acusando o governo de Israel de pra- ticar terrorismo de Estado. Historicamente, atos que seriam en- quadrados como terroristas foram con- siderados heroicos e legítimos, como a Resistência Francesa, que lutou com atos terroristas e de guerrilha contra a ocupação nazista durante a II Guerra Mundial (1939-1945). O terrorismo foi marcante no mundo nas décadas passadas, durante a Guer- ra Fria (1949-1991), que opôs países comunistas e capitalistas. Na Europa ocidental, grupos terroristas de es- querda atuaram contra o capitalismo na Alemanha (Baader-Meinhof ) e na Itália (Brigadas Vermelhas). Atualmente, causam espanto e in- dignação internacional os horrores praticados pela organização Estado Islâmico, que pretende criar um novo país ocupando e isolando áreas do Ira- que e da Síria. A organização leva o terrorismo a um nível não imaginado: degola e decapita seus reféns, arremessa homossexuais de edifícios, destrói o patrimônio histórico da Mesopotâmia. Questões para refletir: a legitimidade de uma causa humana pode legitimar o uso da violência? O terrorismo contra a opressão se diferencia eticamente do terrorismo por outras causas? PARA IR ALÉM Munique (2005, ficção de Steven Spielberg); Homens-Bomba (Suicide Killers, 2006, de Pierre Rehov) e Valsa com Bashir (2008, Ari Folman) são documentários sobre o terrorismo. AQUECIMENTO GLOBAL China e EUA anunciam um acordo bilateral Em novembro de 2014, os governos da China e dos Estados Unidos (EUA) anunciaram um acordo mútuo, e com metas próprias, para reduzir suas emis- sões de gases que agravam o efeito es- tufa e o chamado aquecimento global. China e EUA são os dois maiores emis- sores desses gases, nessa ordem. Os EUA se comprometeram a reduzir suas emissões em 28% até 2025, e a China, a não aumentar suas emissões a partir de 2030. Juntos eles respondem por mais de 40% do total emitido anualmente. O anúncio traz boas perspectivas de que seja adotado um novo acordo mundial, após o fracasso do Protocolo de Kyoto das Nações Unidas. Este foi prorrogado e os participantes tenta- rão fechar um novo protocolo na 21ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Mudança do Clima (COP-21), em Paris, de 30 de novembro a 11 de dezembro de 2015. Muitos são os aspectos envolvendo a dificuldade em conseguir um acordo global. Os países em desenvolvimento e pobres argumentam que os gases cau- sadores do aquecimento, acumulados na atmosfera, têm dono: os países de- senvolvidos que os geraram enquanto industrializavam suas economias de- vem ser responsabilizados. Os países desenvolvidos, por sua vez, argumen- tam que o esforço deve ser de todos. PARA IR ALÉM O documentário Refugiados do Aquecimento Global (2010, Climate Refu- gees, Michael Nash) investiga as migrações causadas por mudanças do clima. Cena chocante: os irmãos Kouachi assassinam friamente um policial que se rendera, em Paris JO R D I M IR /A FP Os temas sociais têm predomínio nas provas de redação, tanto em dissertações quanto em outros gêneros 32 GE REDAÇÃO 2016 TEMAS DAS PROVAS CIDADANIA E MOBILIDADE Qual o significado das manifestações? Os protestos que eclodiram no país em 2013 passaram a tomar novos rumos. Primeiramente, eram contra o aumento de tarifas de transporte público. A essa bandeira foram acrescentados protes- tos contra gastos na Copa do Mundo, melhorias na saúde pública e, princi- palmente, o fim da corrupção no país. É evidente o aumento da ocupação e posse do espaço público para protestar. Outro aspecto é a concomitância dos protestos no país com os da Europa e Estados Unidos em meio à crise eco- nômica provocada pela globalização. A violência dos protestos de 2013, que incluía a depredação por black blocs, não se registrou mais com aquela frequência. Porém, os protestos adentraram o ano de 2015, com duas manifestações nacio- nais contra o governo, dos que pedem o impeachment da presidente recém- -reeleita, Dilma Rousseff – associando o governo à corrupção revelada nas investigações da Polícia Federal na ope- ração Lava Jato –, e uma de desagravo ao governo, todas envolvendo partidos políticos e outras entidades civis. Nessa nova onda de manifestações, um outro tipo de comportamento sur- giu. Uma guerra de lá e cá foi deflagrada nas redes sociais. Quem apoia o governo é “petralha”, quem protesta é “coxinha” e quer fazer um terceiro turno eleitoral. Em resposta aos panelaços de opo- sição e às faixas e gritos de “Vai pra Cuba”, pipocam nas redes sociais posts dos que seriam os “coxinhas” dando maus exemplos, como estacionar carro de luxo em vaga de deficiente físico e outros exemplos da chamada “lei de Gerson” – dos que querem levar van- tagem em tudo. O uso dos espaços públicos, das ruas ao mundo público virtual, e o questiona- mento do que é corrupção, tornaram-se temas das provas. Unesp 2014 (veja na pág. 94); PUC-SP 2015. Questões para dissertar: os protestos estão virando desobediência civil aberta no Brasil? As manifestações em 2015 refletem apenas as mudanças políticas e econômicas mais recentes, ou também as ocorridas ao longo dos últimos anos? PARA IR ALÉM O filme Junho – O Mês Que Abalou o Brasil (2014, de João Wainer), produzido pela TV Folha, registra e analisa os protestos no país em 2013. É essencial atualizar-se sobre gran- des temas atuais, como os apresenta- dos nesta reportagem. Para entender cada assunto é importante saber dos antecedentes históricos de cada um, acompanhar seu desenvolvimento na imprensa semanalmente e o des- fecho, quando há, com diferentes análises sobre seus significados e consequências. Isso não é tarefa sim- ples para quem está no terceiro ano do Ensino Médio ou fazendo cursinho. Uma publicação que pode ajudar nessa tarefa é o GUIA DO ESTUDANTE ATUALIDADES, publicado em duas edições, em março e agosto. O guia traz fatos do Brasil e do mundo, ana- lisados em uma linguagem acessível, ideal para quem não tem o costume de ler jornais e revistas. Acompanhe os temas da atualidade Protesto contra o aumento das tarifas de transporte público, em São Paulo, em junho de 2013 D IE G O R IN A LD I/ FO TO A R E N A 33GE REDAÇÃO 2016 MOBILIDADE URBANA Busão, carro, bike... Cabe tudo na rua? O crescimento da população mun- dial, da urbanizacão e do inchaço das cidades tornaram a mobilidade urbana um tema de alcance mundial, embora de relevância recente em nosso país. O Brasil passou a ter uma Política Na- cional de Mobilidade Urbana apenas em 2012, com a lei 12.587. Melhorar a mobilidade urbana é im- portante para garantir menor tempo no deslocamento das pessoas, maiores períodos de sono e saúde, acesso a lazer e a bens culturais e mesmo de atendi- mento em saúde. Importante lembrar que o tema abrange a mobilidade de pedestres, cadeirantes, deficientes vi- suais, idosos e obesos. Veja alguns aspectos importantes: Polêmica A adoção de ciclovias ex- clusivas em larga escala em São Paulo gera críticas de motoristas e comer- ciantes, mas segundo pesquisas tem apoio da maioria da população (veja Gêneros, na pág. 18). Argumentos favoráveis Os auto- móveis são poluentes e seu uso deve ser mais seletivo. As ciclovias ajudam a proteger fisicamente os ciclistas. Argumentos contrários É um equí- voco apoiar outro meio de transporte individual; as ciclovias podem coibir o aumento de faixas exclusivas para ônibus. PARA IR ALÉM Mobilidade Urbana e Direito à Cidade (Instituto Favelarte), série de documentários ultracurtos sobre o sistema de transporte público do Rio de Janeiro. Massa Crítica I e II (2012, Helena Krausz) discute o uso de bicicletas nas cidades. Retrospectiva de temas Veja os temas de alguns dos principais vestibulares e do Enem nos últimos exames ENEM 2014 Publicidade infantil em questão no Brasil (veja na pág. 50) 2013 Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil (veja na pág. 82) 2012 O movimento imigratório para o Brasil no século XXI 2011 Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado 2010 O trabalho na construção da dignidade humana 2009 O indivíduo frente à ética nacional FUVEST 2015 “Camarotização” da sociedade brasileira: a segregação das classes sociais e a democracia (veja na pág. 78) 2014 Os idosos e o direito à assistência pública em meio ao liberalismo econômico 2013 Aproveite o melhor que o mundo tem a oferecer com o cartão de crédito 2012 Participação política: indispensável ou superada? 2011 O altruísmo e o pensamento de longo prazo ainda têm lugar no mundo contemporâneo? UNICAMP 2015 Síntese de leituras sobre Humanização da Saúde/Carta-convite à comunidade escolar para resolução de conflitos (veja na pág. 70) 2014 Relatório de um projeto de uma oficina cultural/Carta à prefeitura exigindo ações consistentes de mobilidade urbana. (Veja na pág. 88) 2013 Otimismo e pessimismo/ Álcool na adolescência 2012 Pesquisas e espaços de opinião/ Educação, redes sociais, o espaço público e o privado/Computação em nuvem, segurança de acesso à internet 2011 Desejos e valores da juventude/ Problemas e propostas para o curso de ciências da escola/As enchentes e o poder público UFRGS 2015 Na sua opinião, o que é a amizade nos dias de hoje? (veja na pág. 64) 2014 Qual o livro clássico da sua vida? 2013 O papel e os limites do humor na sociedade 2012 Língua portuguesa: herança, memória, criação 2011 Por que o magistério está desprestigiado? MAIS PROVAS DE 2015 ESPM No Brasil, a tecnologia de livro digital favoreceria o aumento de leitores em relação ao existente hoje, no meio impresso?/Quais são os impactos da Economia Colaborativa ou Compartilhada [Uber, Lifty e Airbnb] na Economia Formal? Isso é apenas um modismo ou irá se consolidar? FATEC A importância da leitura para a inclusão social. ITA Brasil importa haitianos/Brasil é sonho internacional de migrantes MACKENZIE Autopromover-se, selfies e o significado simbólico da fotografia PUC-MINAS Carta solicitando bolsa de estudos PUC-RS Moradores de rua versus circulação pública – a instalação de estruturas antimoradores de rua em espaços públicos/ Dar esmola não é ajuda?/Comportamentos inadequados em espaços públicos. UEMG Obra de Machado de Assis é reescrita para facilitar leitura dos jovens: posicione- se a respeito com um depoimento. UNB 2014 2º SEMESTRE Viagem a Marte sem volta: possíveis motivos que levam pessoas a querer participar dessa viagem. UNEB Turismo: preservação da cultura local versus necessidades de negócios UNIFESP O financiamento de campanhas eleitorais por empresas deve ser proibido? UFSM Juventude conectada ‒ evolução ou problema social? UFSC Diferentes concepções de viajar/ A Velhice 34 GE REDAÇÃO 2016 LINGUAGEM NÃO VERBAL FUVEST 2013 PROPOSTA DE REDAÇÃO Esta é a reprodução (aqui, sem as marcas normais dos anunciantes, que foram substituídas por X) de um anúncio publicitário real, colhido em uma revista, pu- blicada no ano de 2012. Como toda mensagem, esse anúncio, formado pela relação entre imagem e texto, carrega pressupostos e implicações: se o observarmos bem, veremos que ele expressa uma determinada mentalidade, projeta uma dada visão de mundo, manifesta uma certa escolha de valores e assim por diante. Redija uma dissertação em prosa, na qual você interprete e discuta a mensagem contida nesse anúncio, considerando os aspectos mencionados no parágrafo anterior e, se quiser, também outros aspectos que julgue relevantes. Procure argumentar de modo a deixar claro seu ponto de vista sobre o assunto. Consumo e cidadania Observe que o texto de abertura enfatiza ao candidato interpretar a mensagem contida no anúncio, associar a imagem a seu texto e problematizar aspectos como valores humanos, visão de mundo, mentalidade. Pessoas tranquilas observando o vão central, ou sentadas conversando, suge- rem que a segurança do espaço privado é uma das coisas que o cartão de crédito oferece e distingue esses consumidores dos não consumidores. Alguns candidatos exploraram a ideia de que os shopping centers são os tem- plos de consumo deste século, em contraposição aos grandes templos católicos da Idade Média europeia, e que o consumo é uma nova forma de religião a ditar valores sociais e morais. Outros aspectos importantes são a substituição dos valores sociais por valores de mercado, e do conceito de cidadania pelo de consumidor. O que dizem as imagens Fotografias, charges, mapas, infografias e outras formas de linguagens visuais e não verbais estão definitivamente incorporadas às propostas de redação dos vestibulares e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). É preciso habituar-se a interpretar essas imagens e associá- las aos textos. Aqui você vê possibilidades de abordagens de propostas recentes das provas R E P R O D U Ç Ã O 35GE REDAÇÃO 2016 PUC-SP 2015 PROPOSTA DE REDAÇÃO (ADAPTADA) A prova da PUC-SP trouxe o texto Pequenas Corrupções - Contra a 'Lei de Gérson', assinado por Ygor Salles, que re- gistrava o sucesso de compartilhamento, nas redes sociais, de uma campanha publicitária feita pela Controladoria Geral da União (CGU) contra o “jeitinho brasileiro”. A proposta trouxe a pergunta do autor: Por qual motivo a campanha é tão compartilhada? Com base na sua experiência, quer seja com amigos, colegas, vizinhos ou parentes, construa um texto dissertativo-argu- mentativo, concordando ou não com as ideias apresentadas e responda à pergunta feita pelo jornalista. Desenvolva de forma clara e coesa os argumentos que ex- ponham o seu ponto de vista sobre este assunto. Dê um título ao seu texto. Uma discussão ética A corrupção tornou-se um tema do momento, e já fora colocada na prova da Unesp 2014 (veja na pág. 94). Aqui, a abordagem é ética, um dos componentes da Moral, área de estudo da Filosofia e do Direito. A prova pergunta por que a campanha foi muito comparti- lhada nas redes sociais. A imagem de maior destaque procura responder a isso e poderia ser usada como elemento central da argumentação: um estudante singelamente tenta colar de uma colega de sala. Ou seja, os compartilhadores – também estudantes e candidatos – teriam se identificado com o tema e por isso compartilharam. Essa poderia ser uma resposta. Outro aspecto: esse estudante está sendo desonesto e pouco ético em relação à colega. Isso é uma situação bem diferente da que aparece na charge ao alto. Nela, não se pode saber quem é o corruptor ou o corrompido, numa operação que traz até máquina online de pagamento. A ideia, de grande força, poderia ser explorada na redação: o compartilhamento bem-sucedido da campanha é um sintoma de que a ideia expressa foi aceita como exemplar e definidora desse mal social, sugerindo que ele está generalizado e institucionaliza- do a ponto de parecer uma espécie de atividade econômica. As demais citações poderiam ser usadas para ilustrar a redação, inclusive apontando essas duas situações: quando o ato antiético é autônomo (falsificar a carteira de estudante, colar na prova) e quando é um ato de cumplicidade (comprar produto falsificado, bater ponto pelo colega e conseguir subornar o guarda). Também o texto da imagem, poderia ser usado para a argumentação: “A mudança por um Brasil mais ético começa em cada um de nós. Maus hábitos cotidianos muitas vezes são, na verdade, práticas antiéticas e até ilegais, que devem sim ser combatidas. Diga não às 'corrupções' do dia a dia e faça sua parte na luta #contracorrupção.” R E P R O D U Ç Ã O 36 GE REDAÇÃO 2016 LINGUAGEM NÃO VERBAL ENEM 2014 PROPOSTA DE REDAÇÃO A partir da leitura dos textos moti- vadores (...) redija texto dissertativo- argumentativo em norma-padrão da língua portuguesa sobre o tema Publi- cidade infantil em questão no Brasil, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos.(...) Limites à publicidade infantil A infografia do texto I da última prova de redação do Enem trazia, ela própria, fortes elementos de argumentação, re- corte temático e defesa de tese para o candidato. O olhar atento perceberá que o crédito de fontes de informação era a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que remetia à questão da ali- mentação, saúde e obesidade infantil. Isso era reforçado pelo segundo indi- cador de legendas: Alerta – mensagens advertindo para o consumo moderado e alimentação saudável. Logicamente, a coletânea sugeria abordar a publicidade de doces e alimentos calóricos, porém pouco nutritivos, por exemplo. Uma listagem de amostra dos dados apresen- tados revelava que apenas três países deixavam toda a liberdade às empresas (EUA, Brasil e Austrália), enquanto oito fazem proibição parcial e dois são exemplos de proibição total: a Noruega (no país) e Quebec (parte do Canadá), sugerindo afirmar na argumentação a necessidade de medidas de controle. PROPOSTA DE REDAÇÃO Redija uma dissertação a tinta, desenvolvendo um tema comum aos textos apresentados. Obs.: O texto deve ter título e estabelecer relação entre o que é apresentado nos textos da coletânea. Vaidade e individualismo A prova da Universidade Presbiteriana Mackenzie 2015 foi um duro teste para o candidato acostumado a fazer selfies descontraidamente, sem refletir muito a respeito do que faz. Provavelmente o candidato riu ao ver o pôster à venda na Amazon online, uma releitura da obra de arte mais fotografada pelos visitantes do Museu do Louvre, em Paris: La Gioconda (Monalisa), de Leonardo da Vinci. Porém, o sorriso meio sem graça da Monalisa pode ter se mudado para o rosto do candidato ao ler os textos seguintes. O antropólogo Egon Vieira afirma, no texto II: “nos divulgar [-mos] parece ser o ponto principal do momento empobrecedor em que vivemos, no qual as expe- riências humanas estão limitadas a nossa própria imagem em nosso esplendor”. A psicóloga Joana Cruso de Alencar dá uma força ao candidato, afirmando não ver os selfies como negativos, e que eles podem ser lidos como um exemplo “de que somos capazes de ter elevada autoestima”. Porém, o texto do filósofo e semiólogo francês Roland Barthes, que finaliza a série, chega atropelando o leitor: “O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez (...)” e “nunca mais poderá repetir-se existencialmente (...). Seja o que for o que ela nos dê a ver e qualquer que seja a maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que vemos”. Ao voltar à proposta, o candidato pode ter se desesperado diante da dificuldade de estabelecer a relação entre os textos da coletânea. Uma vez que a Monalisa é a imagem mais divulgada no mundo, sua selfie pode ser entendida como um supremo vangloriar-se, sugere uma individualidade exacerbada. Uma abordagem possível é a do fenômeno do individualismo numa sociedade em constante urbanização e aumento da densidade demográfica. Ou- tro viés de argumentação poderia ser a necessidade de autoafirmação e a busca incessante da felicidade. Finalmene, um caminho mais sofisticado seria abordar a prática às vezes ridícula dos autorretratos, sempre sorridentes, diante de peças de arte em exposições, associando-a ao sorriso indecifrável da Monalisa. MACKENZIE 2015 R E P R O D U Ç Ã O R E P R O D U Ç Ã O 37GE REDAÇÃO 2016 FGV-Direito 2014 UFBA 2012 Laerte. Folha de S.Paulo, 10 de junho de 2014 PROPOSTA DE REDAÇÃO Os textos acima apresentam, de maneira enfática, diferentes opiniões sobre a questão da regulação da imprensa em socieda- des democráticas. Tendo em vista as sugestões neles contidas, redija uma dissertação em prosa, na qual você exponha o seu ponto de vista sobre o tema Imprensa e democracia: a regulação da imprensa nas sociedades democráticas. Liberdade de imprensa e de expressão A prova de Direito da Fundação Getulio Vargas trouxe aos calouros um tema espinhoso: a difícil intersecção en- tre os conceitos de liberdade de imprensa e liberdade de expressão. Primeiro texto da proposta, a charge do cartu- nista Laerte, propositadamente irônica, sugere que algum controle já existe, ao perguntar se existe controle e quem o exerce. Observe que o silêncio, no segundo quadro, sugere a necessidade de reflexão. Um caminho para a argumentação, é situar a liberdade de expressão como direito do cidadão que se reflete e amplia como direito de todos os cidadãos. Torna-se, assim, um direito social sujeito a ser legislado, como todos os demais direitos, pela representação política do povo, que é o governo como um todo. No Brasil, por exemplo, a Lei 7.716 de 1989, que define crimes de preconceito, tem sido atualizada pelo Congresso. Em seu artigo 20, emendado em 1997, a lei define os crimes de incitação à discriminação, com penas de um a três anos de prisão com penas e multa para o indivíduo que a praticar. Porém, essa pena é agravada para dois a cinco anos de prisão e multa para os veículos de comunicação que a divulgarem, pois o veículo está vinculado mais diretamente ao direito social e coletivo. Outros textos escritos polemizavam o tema, permitindo discutir a afirmação da imprensa como Quarto Poder e, assim como o poder financeiro, o militar e outros, merece legislação de regulamentação e controle. PROPOSTA DE REDAÇÃO Você está diante de uma coletânea de textos diversificados sobre a temática das novas tecnologias, automação e robótica. Com base nessa coletânea, produza um texto dissertativo- argumentativo sobre o tema: O avanço das tecnologias no mundo contemporâneo e seus benefícios e/ou prejuízos para o Homem, para a sociedade. A globalização e a automação do trabalho A proposta dessa prova favoreceu o candidato com um excelente texto de abertura da coletânea, Adeus, Trabalho Velho, Bem-Vindos, Robôs, de José Odair da Silva. Este já citava questões significativas e polêmicas da automação do trabalho e seu papel na globalização. A coletânea era com- plementada com o poema Ladainha, de Cassiano Ricardo, e a letra da canção Cérebro Eletrônico, de Gilberto Gil (todos disponíveis na internet). A imagem de um aperto de mão entre um homem e um robô sugere uma divisão da importância de papéis, entre homens e máquinas, em partes iguais no mundo do trabalho, e uma abordagem sobre a irreversibilidade do processo humano de criar ferramentas para seu uso. Esse processo também apa- rece na charge do texto 3, que aborda o aspecto ininterrupto das inovações. Porém, ao apresentar um paradoxo, o texto 3 também sugere que talvez devamos fazer análises mais estruturadas e realistas quando utilizamos fatos presentes para fazer projeções. A charge A Mão, de Laerte (texto 2), mais provocativa, sugere uma fusão da tecnologia mecânica com a biologia, a qual de fato já está ocorrendo. A charge permite problemati- zar o avanço das tecnologias, dos benefícios e dos prejuízos humanos e sociais que pode provocar, que se devem evitar conclusões simplistas, e que são desafios humanos sempre presentes garantir o favorecimento e o bem-estar em lugar de prejuízos e perdas. Te xt o 1 Te xt o 3 Te xt o 2 R E P R O D U Ç Ã O R E P R O D U Ç Ã O 38 GE REDAÇÃO 2016 GRAMÁTICA Reveja algumas regras de pontuação, do uso de pronomes e de suas colocações, de crase e plural dos adjetivos compostos, entre outros pontos gramaticais, para não errar na redação. O governo federal adiou a entrada em vigor plena da nova ortografia para 1o/1/2016; assim, as mudanças não serão exigidas nas provas do fim de 2015, mas poderão ser nas de segunda fase no início de 2016, se o prazo não for adiado escreva bem evitando erros comuns 39GE REDAÇÃO 2016 Advinda da fusão de dois “as”, uma preposição e, nor- malmente, um artigo, a crase causa dúvidas em estudantes, vestibulandos e, até mesmo, em profissionais formados. A crase só ocorre diante de palavras femininas. Assim sendo, uma das regras mais simples para descobrir se ela ocorre ou não em uma frase é substituir o termo seguinte ao a por um equivalente masculino – se o resultado gerar a contração ao antes da palavra substituída, há crase. Estava ansioso para ir à prova. Estava ansioso para ir ao vestibular. Acabou perdendo a prova. Acabou perdendo o vestibular. Embora útil, a dica não dá conta de todos os casos. Muitas vezes, há dúvida no uso da crase, também, diante do nome de lugares – cidades, estados, países etc. –, principalmente quando utilizamos o verbo ir. Ir a Manaus ou à Manaus? A Alemanha ou à Alemanha? Nesses casos, o truque é trocar o verbo ir por voltar junto da preposição de – se houver artigo, há crase. Volto de Manaus. Vou a Manaus. Volto da Alemanha. Vou à Alemanha. Locuções adverbiais, ou que usam conjunções e prepo- sições com palavras femininas, também apresentam crase. Exemplos desses casos são: à noite, às vezes, à direita, à frente, às escondidas, à moda de, à esquerda de, à volta de, à medida que, à altura de etc. Não raro, encontramos textos que confundem os pronomes demonstrativos este e esse e suas variações (esta, isto, desse, nesse etc.). Afinal, qual é o certo? Este deve ser utilizado para demonstrar proximidade com o enunciador, enquanto esse serve para os casos em que aquilo a que se refere está afastado do enunciador e mais próximo do receptor. Este meu coração teme o que passa nessa sua cabeça. A ideia de proximidade também pode ser utilizada na localização temporal. Este é utilizado para indicar o tempo em que estamos: este ano, este dia, esta hora. Ainda no que se refere ao tempo, usamos esse para o tempo passado e este para o futuro. Prestei vestibular nessa semana. Prestarei vestibular nesta semana. Tal raciocínio também é utilizado para a localização dos elementos indicados no texto. Usamos esse para elementos já citados e este para os que serão anunciados. Não perco mais meu tempo com baladas, isso faz parte do passado! Só o que desejo é isto: uma boa balada! LEMBRE-SE: em contraposição a aquele, usamos sempre este para indicar o elemento mais próximo. Eis a maior diferença entre meu trabalho anterior e o atual: este me dá mais tempo livre, aquele me tomava até os fins de semana. No caso acima, este se refere ao trabalho atual, mais pró- ximo no texto, e aquele ao trabalho anterior. Uso da crase Este ou esse 40 GE REDAÇÃO 2016 GRAMÁTICA É de conhecimento geral que, quando fazemos comparações, o uso da forma sintética melhor é obrigatória no lugar de mais bem e mais bom. O Fazer uma graduação é melhor do que parar no Ensino Médio. X Fazer uma graduação é mais bom do que parar no Ensino Médio. O Um profissional formado ganha melhor que um estagiário. X Um profissional formado ganha mais bem que um estagiário. No entanto, diante de particípio, o uso da forma sintética melhor não é corre- to, já que o mais não intensifica apenas o advérbio bem, mas toda a expressão formada por bem + particípio. Veja: O Com uma especialização estarei mais bem preparado para o mercado de trabalho. X Com uma especialização estarei melhor preparado para o mercado de trabalho. Escreve-se por que separado em pergunta quando trata-se da preposição por + pronome interrogativo que, na função de advérbio de interrogação. Veja um exemplo com uma substituição: Por que motivo eu deveria pagar essa conta? Por qual razão eu deveria pagar essa conta? Quando usada no fim da oração, com a mesma função interrogativa, deve ter o pronome acentuado: Eu devo pagar essa conta por quê? Quando é empregada a conjunção explicativa ou causal porque, equivalente a pois ou já que, a grafia é de uma palavra só: Porque foi você quem fez o pedido... Pois foi você quem fez o pedido... Já que foi você quem fez o pedido... Finalmente, grafamos porquê, em uma palavra com acento, quando se trata de um substantivo, com sentido de um motivo ou uma razão. Veja exemplos de certo e errado e analise: X Não soubemos porque a estação de trem USP Leste desistiu da certificação ambiental. O Não soubemos por que a estação de trem USP Leste desistiu da certificação ambiental. O A estação de trem USP Leste desistiu da certificação, mas não se sabe o porquê disso. X Não houve a certificação ambiental da estação de trem USP Leste por que? O Não houve a certificação ambiental da estação de trem USP Leste por quê? O A certificação da estação seria importante porque serviria de parâmetro para outras instituições. Porque – Por que Por quê – Porquê O emprego correto de melhor 41GE REDAÇÃO 2016 Raramente utilizado corretamente, o ponto e vírgula é, muitas vezes, evitado nas redações. Melhor do que fugir dessa pontuação é saber usá-la corretamente e, possivelmente, ganhar uns pontos a mais dos corretores. Um dos empregos do ponto e vírgula é separar partes de períodos que já são divididos por vírgulas. Observe: O Tinha feito um bom texto: uma introdução clara, uma argumentação pertinente, uma conclusão perfeita; o título, no entanto, estava difícil. Outro uso é na separação de itens de enunciados enumerativos. O A prova de Matemática, muito temida, acontecerá no primeiro dia; as de humanas, no segundo; as de exatas e biológicas no terceiro; a de linguagem e a redação, no quarto. Além disso, utilizamos o ponto e vír- gula na separação de orações coorde- nadas extensas. Veja: O Ela sabia a maratona que seriam as provas; por isso, preparou tudo: canetas testadas e lápis apontado, um bom lanche, muita água, roupas e tênis bem confortáveis. Na norma padrão da língua, o advér- bio onde, indicador de lugar, deverá ser acompanhado da preposição a se houver a presença de um verbo que a exija. Na gramática normativa o verbo ir “rege” o emprego da preposição a: Quem vai, vai a algum lugar. Logo: Aon- de você vai? Analise outros exemplos: O Aonde você quer chegar? X Onde você quer ir? O O bairro onde moro não recebeu investimentos públicos. X A cidade aonde ocorreram as inundações pediu ajuda. Outra dica importante: onde, de acordo com a gramática normativa, deve ser empregado somente quando remete a lugares, espaços. É incorreto ser usado em substituição a outro ele- mento gramatical: X A situação econômica onde estamos tem resultados frágeis (em lugar de na qual). X Vou treinar a dissertação onde sempre cai nas provas (em lugar de que). X Essa foi a redação onde demorei a encontrar a argumentação (em lugar de na qual). Os adjetivos compostos vêm, salvo exceções, separados por hífen, e apenas o último elemento sofre modificação para concordar com o substantivo. O Jogadores franco-argentinos. O Reuniões político-partidárias. O Políticas econômico-sociais. O Medidas social-humanitárias. Exceção: Surdo-mudo flexiona em número e gênero (surdos-mudos, surdas-mudas). O caso é diferente quando um dos elementos do adjetivo composto é um substantivo. Nesse caso, usa-se o hífen, mas nenhum dos dois elementos varia. O Bandeiras vermelho-cereja. O Uniformes verde-abacate. O Mísseis terra-ar. Não se confunda quando o elemento composto que você sempre vê como adjetivo muda de função e é usado como substantivo. Exemplo: Os verdes-abaca- te e os vermelhos-cereja da moda deste ano não são bonitos. Também são aceitos verdes-abacates e vermelhos-cerejas. Onde e aonde Plural dos adjetivos compostos O ponto e vírgula 42 GE REDAÇÃO 2016 GRAMÁTICA Não adianta apenas saber para que servem os sinais de pontuação, deve-se saber quando utilizá-los. Em determi- nados tipos de texto, algumas pontua- ções podem não ser adequadas. Enquanto em uma narrativa é comum o emprego de interrogações, excla- mações e reticências, em uma disser- tação esse uso não é recomendado. É até possível que o candidato insira uma pergunta nesse tipo de texto, desde que ela seja respondida na própria redação, mas frases exclamativas e ideias em aberto estão fora de questão. Também se deve evitar o uso de aspas e parênteses em um texto dissertativo – no caso de textos intercalados, por exemplo, pode-se utilizar vírgulas ou travessão. As aspas devem ser em- pregadas exclusivamente em casos de citações, desde que pertinentes, e em palavras estrangeiras imprescindíveis ao contexto. Gírias e neologismos tam- bém não devem ser usados nos textos vestibulares. Enfim, a pontuação deve ser utilizada com critério, para que possa auxiliar a compreensão do leitor. Não há lugar para deslizes, brincadeiras nem inven- cionices nesse aspecto. Entre os elementos gramaticais mais negligenciados em redações escolares e de vestibulares estão os pronomes relativos. A função dos pronomes relativos é substituir um termo da oração anterior e estabelecer relações ente duas orações dentro de um mesmo período. Veja: Prefiro fazer dissertações. Eu já conheço a estrutura das dissertações. Prefiro fazer dissertações, cuja estrutura eu já conheço. O desvio no uso dos pronomes relativos compromete a coesão textual e pre- judica, até mesmo, a coerência dos textos. Um dos pronomes relativos usados equivocadamente na construção dos textos é cujo. X Esta é a prova cuja farei. O Esta é a prova que farei X A redação é a parte da prova cujo tenho mais medo. O A redação é a parte da prova de que tenho mais medo. O pronome relativo cujo, e suas flexões, tem valor possessivo, ou seja, só pode ser utilizado quando a segunda oração apresentar elementos possuídos pelo termo retomado. O Não confio em instituições cujos cursos não são aprovados pelo MEC. No exemplo acima, os cursos pertencem às instituições, por isso o uso de cujos está correto. Vale ressaltar que, embora o cujo e suas flexões retomem o termo anterior, eles não concordam com esse termo, mas com os elementos possuídos. Veja: O Procuro um curso cuja licenciatura seja integrada ao bacharelado. (cuja, no feminino, retoma curso e concorda com licenciatura) O Quero uma instituição cujos alunos saiam preparados para o mercado de trabalho. (cujos, no masculino plural, retoma instituição e concorda com alunos) Acerte os pontos na dissertação Uso de pronomes relativos 43GE REDAÇÃO 2016 A colocação pronominal incorreta é uma das falhas mais recorrentes nas redações. O motivo é simples: no uso oral da língua, costumamos negligenciar a norma-padrão no uso dos pronomes oblíquos átonos – é comum aos falantes da língua portuguesa nascidos no Brasil colocar o pronome antes do verbo, ou seja, privilegiar a próclise quando fala, por exemplo. Recordando, a colocação pronominal é a posição que os pronomes pessoais oblíquos átonos (me, te, se, o, os, a, as, lhe, lhes, nos e vos) ocupam na frase em relação ao verbo a que se referem. Os pronomes oblíquos átonos podem assumir três posições na oração em relação ao verbo: 1. Próclise: o pronome vem antes do verbo; 2. Ênclise: o pronome vem depois do verbo; 3. Mesóclise: o pronome vem no meio do verbo. PRÓCLISE A próclise é aplicada antes do verbo quando temos: PALAVRAS COM SENTIDO NEGATIVO: Não me inscrevi para o vestibular. Ninguém me auxiliou na escolha da carreira. ADVÉRBIOS: Aqui se testam os candidatos. Naquela sala se fazem as inscrições. PRONOMES RELATIVOS: O professor que te auxiliou era competente. Percebi o que te atrapalhava. PRONOMES INDEFINIDOS: Quem nos auxiliou? Todos nos auxiliaram. PRONOMES DEMONSTRATIVOS: Isso lhe atrapalhou. Aquilo lhe pareceu certo. PREPOSIÇÃO SEGUIDA DE GERÚNDIO: Em se tratando do vestibular, estou confiante. Salvo ficar se lamentando, ele não faz mais nada. CONJUNÇÃO SUBORDINATIVA: Fizemos a redação, conforme nos indicaram. Preenchemos a ficha, como nos pediram. ÊNCLISE A ênclise é empregada depois do verbo quando temos: O VERBO NO IMPERATIVO AFIRMATIVO: Matricule-se já. Inscreva-se ali. O VERBO INICIANDO A ORAÇÃO: Inspirei-me no professor. Matriculei-me hoje. O VERBO NO INFINITIVO: Procure acalmar-se. Será preciso empenhar-se. O VERBO NO GERÚNDIO: Dedicando-me, irei passar. Permaneci esforçando-me. VÍRGULA OU PAUSA ANTES DO VERBO: Acabando a prova, entreguei-me ao cansaço. Quando passei, senti-me realizado. MESÓCLISE A mesóclise acontece quando o verbo for flexionado no futuro do presente ou no futuro do pretérito: A prova realizar-se-á nas dependências da faculdade. Ajudar-te-ei a estudar. Colocação pronominal. Próclise, ênclise e mesóclise RRRRRR Análises completas das propostas e dos textos de redação de candi- datos bem avaliados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e nos principais vestibulares do país nos dois últimos anos. Conheça os pontos fortes e fracos das redações campeãs e evite os erros daquelas que não foram tão bem avaliadas na prova. Redações campeãs 50 Enem 2014 58 Unesp 2015 64 UFRGS 2015 70 Unicamp 2015 78 Fuvest 2015 82 Enem 2013 88 Unicamp 2014 94 Unesp 2014 Redações abaixo da média 76 Unicamp 2015 ANÁLISES DE: ALAN NICOLICHE, consultor da Educon Consultoria Educacional; ANA PAULA DIBBERN, professora e coordenadora do Cursinho Henfil; DAVI FAZZOLARI, professor do Colégio Visconde de Porto Seguro; e NATHÁLIA MACRI NAHAS, professora dos colégios Poliedro e I.L.Peretz. ILUSTRAÇÕES DE: MILENA GALLI (vestibulares) VITOR INOUE (capa) Caderno de redaçoes arrow arrow SUMÁRIO 50 GE REDAÇÃO 2016 A proposta de redação da prova de 2014 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) desafiou muitos secundaristas a refletir pela primeira vez sobre um tema que foi considerado uma surpresa: a recomendação de proibição de publicidade dirigida a crianças no país, adotada no mesmo ano. Ao contrário do tema da prova de 2013, a chamada Lei Seca, essa proibição não mereceu tanta repercussão, mas um mapa ajudou o estudante a perceber que essa questão já foi enfrentada em diferentes países. Veja a proposta e algumas redações bem avaliadas. As análises são do professor Alan Nicoliche A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma-padrão da língua por- tuguesa sobre o tema Publicidade infantil em questão no Brasil, apresentando proposta de intervenção, que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista. TEXTO I A aprovação, em abril de 2014, de uma resolução que considera abusiva a publicidade infantil, emitida pelo Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), deu início a um verdadeiro cabo de guerra envolvendo ONGs de defesa dos direitos das crianças e setores interessados na continuidade das propagandas dirigidas a esse público. Elogiada por pais, ativistas e entidades, a resolução estabelece como abusiva toda propaganda dirigida à criança que tem “a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço” e que utilize aspectos como desenhos animados, bonecos, linguagem infantil, trilhas sonoras com temas infantis, oferta de prêmios, brindes ou artigos colecionáveis que tenham apelo às crianças. Ainda há dúvidas, porém, sobre como será a aplicação prática da resolução. E associações de anunciantes, emissoras, revistas e de empresas de licenciamento e fabricantes de produtos infantis criticam a medida e dizem não reconhecer a legitimidade consti- tucional do Conanda para legislar sobre publicidade e para impor a resolução tanto às famílias quanto ao mercado publicitário. Além disso, defendem que a autorregulamentação pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) já seria uma forma de controlar e evitar abusos. IDOETA, P. A.; BARBA, M. D. A Publicidade Infantil Deve Ser Proibida? Disponível em: www.bbc.co.uk. Acesso em: 23 maio 2014. Adaptado. PROTEÇÃO À CRIANÇA E LIBERDADE PUBLICITÁRIA - ENEM 2014 51GE REDAÇÃO 2016 INSTRUÇÕES 1. O rascunho da redação deve ser feito no espaço apropriado. 2. O texto definitivo deve ser escrito à tinta, na folha própria, em até 30 linhas. 3. A redação que apresentar cópia dos textos da Proposta de Redação ou do Caderno de Questões terá o número de linhas copiadas desconsiderado para efeito de correção. RECEBERÁ NOTA ZERO, EM QUALQUER DAS SITUAÇÕES EXPRESSAS A SEGUIR, A REDAÇÃO QUE: box tiver até 7 (sete) linhas escritas, sendo considerada insuficiente. box fugir ao tema ou que não atender ao tipo dissertativo-argu- mentativo. box apresentar proposta de intervenção que desrespeite os direitos humanos. box apresentar parte do texto deliberadamente desconectada com o tema proposto. TEXTO II A PUBLICIDADE PARA CRIANÇAS NO MUNDO Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 24 jun. 2014. Adaptado. TEXTO III Precisamos preparar a criança, desde pequena, para receber as informações do mundo exterior, para compreender o que está por trás da divulgação de produtos. Só assim ela se tornará o consumidor do futuro, aquele capaz de saber o que, como e por que comprar, ciente de suas reais necessidades e consciente de suas responsabilidades consigo mesma e com o mundo. SILVA, A. M. D.; VASCONCELOS, L. R. A Criança e o Marketing: Informações Es- senciais para Proteger as Crianças dos Apelos do Marketing Infantil. São Paulo: Summus, 2012. Adaptado. 52 GE REDAÇÃO 2016 A HORA DE OPINAR O propósito da redação do Enem é avaliar os candidatos não apenas nos aspectos técnicos – gramática e estrutura textual –, mas principalmente no aspecto argumentativo, na capacidade de refletir sobre uma situação-problema e propor intervenções razoáveis. A proposta de 2014 trouxe os elementos essenciais para que o redator pudesse mostrar suas capacidades discursivas e expor suas ideias como cidadão. O tema proposto não era novidade – a regulamentação da publicidade voltada ao público infantil é pauta de discussão há muito tempo, tanto no Brasil, quanto em diversas outras nações. Mas ainda que não fosse algo novo, o assunto não vinha ganhando muito destaque pela mídia, o que acabou surpreendendo aqueles que realizaram a prova. Dessa forma, os textos de apoio foram fundamentais para ambientar os candidatos e ajudá-los a escolher um direcionamento em suas composições. Os três textos-base apresentaram a questão da publicidade in- fantil e sua regulamentação. No primeiro, é apresentado o impasse no caso nacional, resultado da decisão do Conanda de considerar a publicidade direcionada às crianças como abusiva. No segundo texto, um mapa mostra como o assunto é tratado em diferentes países. O último texto traz uma abordagem mais pedagógica, tra- tando da necessidade de orientar os jovens quanto à publicidade e seu poder persuasivo. Obviamente, dada a proposta, o maior diálogo da redação deveria ser realizado com o texto I, servindo os demais como base para a linha argumentativa. Afinal, proibir, liberar ou moderar? Qualquer uma das possibi- lidades poderia ser abordada na redação. Mais importante que a opinião do candidato era sua capacidade de argumentar. Aqueles que optassem pela proibição deveriam ter em mente que, para defender essa colocação, mais radical, teriam não apenas de con- cordar com a proposta do Conanda, mas apresentar informações que sustentassem a necessidade de proibir os anúncios. Para quem defendesse a liberação, seria necessário convencer o leitor de que a publicidade não é maléfica, ou que as agências e anunciantes têm capacidade e responsabilidade para se autorregularem. A saída moderada deveria explicar como se daria a regulação: horários e produtos pré-definidos, mensagens de advertência, formatos distintos em diferentes mídias etc. Enfim, a proposta de Redação do Enem 2014 conseguiu cumprir o objetivo de apresentar um tema no qual os jovens cidadãos pudessem dar sua opinião e apresentar propostas de intervenção reais. O candidato, por mais que não estivesse familiarizado com o tema, teve subsídio para escrever e trabalhar sua argumentação. anÁlise DA PROPOSTA ENEM 2014 - Redação 1- Sem título* Desde o início da expansão da rede dos meios de comunicação, em especial o rádio e a televisão, a mídia publicitária tem veiculado propagandas destinadas ao público infantil, mesmo que os produtos ou serviços mencionados não sejam destinados a este. Na década de 1970, por exemplo, era transmitida no rádio a propaganda de um banco utilizando personagens folclóricos, chamando a atenção das crianças que, assim, persuadiam os pais a consumir. É sabido que, no período da infância, o ser humano ainda não desenvolveu claramente seu senso crítico, e assim é facilmente influenciado por personagens de desenhos animados, filmes, gibis, ou simplesmente pela combinação de sons e cores de que a publicidade dispõe. Os adolescentes também são alvo, numa fase em que o consumo poder ser sinônimo de autoafirmação. Ciente deste fato, a mídia cria os mais diversos produtos, fazendo uso desses atributos, como brindes em lanches, produtos de higiene com imagens de personagens e até mesmo utilizando atores e modelos mirins nos comerciais. Muitos pais têm então se queixado do comportamento consumista de seus filhos, apelando para organizações de defesa dos direitos da criança e do adolescente. Em abril de 2014, foi aprovada uma resolução que julga abusiva essa publicidade infantil, gerando conflito entre as empresas, organizações publicitárias e os defensores dos direitos deste público-alvo. Entretanto, tal resolução configura um importante passo dado pelo Brasil com relação ao marketing infantil. Alguns países cujo índice de escolaridade é maior que o brasileiro já possuem legislação que limita os conteúdos e horários de exibição dos comerciais destinados às crianças. Outros, como a Noruega, proibiram completamente qualquer publicidade infantil. A legislação brasileira necessita, portanto, continuar a romper com as barreiras impostas pela indústria publicitária, a fim de garantir que o público supracitado não seja alvo de interesses comerciais por sua inocência e fácil persuasão. No âmbito educacional, as escolas devem auxiliar na formação de cidadãos com discernimento e capacidade crítica. Desta forma, é importante que sejam ensinados e discutidos nas salas de aula os conceitos de cidadania, consumismo, publicidade e etc., adequando-os a cada faixa etária. *Redação de Gabriela Almeida Costa, de Salvador (BA), que recebeu nota 1000 na prova do Enem 2014. Gabriela foi aprovada para ingresso no curso de Geografia na Universidade Federal da Bahia (Veja seu depoimento na pág. 17). 53GE REDAÇÃO 2016 QUATRO REQUISITOS COMPLETOS A redação do Enem deve seguir quatro premissas básicas: uti- lizar a estrutura clássica do texto dissertativo, com introdução, desenvolvimento e conclusão; manter-se no tema proposto – quase sempre amparando-se nos textos de apoio –; cometer o mínimo possível de desvios de linguagem; e apresentar e desenvolver uma proposta de intervenção passível de ser acatada. É o que o texto desta candidata faz. Bebendo na fonte dos textos de apoio, a candidata contextualiza o leitor enquanto desenvolve seu raciocínio. A construção acontece de maneira tão clara e progressiva, que, ainda que não traga muitas novidades em sua argumentação, cumpre bem a proposta. Vale a pena ressaltar a maneira como as informações dos textos-base são aproveitadas no texto, inclusive as do gráfico: não se trata de um remendo de informações, antes disso, elas são bem costuradas – servindo de base para os argumentos apresentados. Quanto à linguagem, os desvios gramaticais e coesivos são poucos, mantendo a produção dentro da margem de erros aceitáveis pela grade de correção. Vale lembrar que o Enem trabalha com faixas de notas, ou seja, a nota máxima pode ser alcançada ainda que a redação apresente alguns deslizes quanto à norma e à construção textual. Por fim, uma proposta de intervenção totalmente plausível e bem desenvolvida fecha os requisitos do texto. Aqui um ponto importan- te: a sugestão não se restringe a um único campo. É reconhecida a necessidade de haver uma legislação ativa quanto à publicidade e ainda se propõe uma ação dentro das escolas – esta última ideia, principalmente, muito bem desenvolvida. Ressalvando-se a ausência de título, esta dissertação é um exemplo de como uma redação não precisa ser mirabolante para alcançar uma boa nota no exame. Candidatos que fazem uma boa leitura da proposta, e que conseguem desenvolver suas ideias de forma coerente, têm grande chance de emplacar um bom resultado. análise Persuasão Veja como o texto utiliza um conjunto progressivo de ideias para convencer o leitor. Os argumentos são expostos como verdade, sem vacilo. Essa firmeza é importante para persuadir o leitor Uso da coletânea A candidata soube traduzir o gráfico e não cometeu o erro de tentar utilizar todas as informações; trouxe apenas os dados que lhe pareceram coerentes com seu discurso Completude A proposta de intervenção não deve ser simplesmente uma ideia mencionada. Perceba como a candidata explica sua proposta e como ela deveria ser aplicada nas escolas Etcetera Etc. é a abreviação do termo latino “et cetera”, que significa e outras coisas. Portanto, o “e” já está presente e “e etc” torna-se redundante e incorreto 54 GE REDAÇÃO 2016 ENEM 2014 Redação 2-- Publicidade Infantil: perigoso artifício* Uma criança imitando os sons emitidos por porcos já foi atitude considerada como falta de educação. No entanto, após a popularização do programa infantil “Peppa Pig”, essa passou a ser uma cena comum no Brasil. O desenho animado sobre uma família de porcos falantes não apenas mudou o comportamento dos pequenos como também aumentou o lucro de uma série de marcas que se utilizaram do encantamento infantil para impulsionar a venda de produtos relacionados ao tema. Peppa é apenas mais um exemplo do poder que a publicidade exerce sobre as crianças. Os nazistas já conheciam os efeitos de uma boa publicidade: são inúmeros os casos de pais delatados pelos próprios filhos – o que mostra a facilidade com que as crianças são influenciadas. Essa vulnerabilidade é maior até os sete anos de idade, quando a personalidade ainda não está formada. Muitas redes de lanchonetes, por exemplo, valem-se disso para persuadir seus jovens clientes: seus produtos vêm acompanhados por brindes e brinquedos. Assim, muitas vezes a criança acaba se alimentando de maneira inadequada na ânsia de ganhar um brinquedo. A publicidade interfere no julgamento das crianças. No entanto, censurar todas as propagandas não é a solução. É preciso, sim, que haja uma regulamentação para evitar a apelação abusiva – tarefa destinada aos órgãos responsáveis. No caso da alimentação, a questão é especialmente grave, uma vez que pesquisas mostram que os hábitos alimentares mantidos até os dez anos de idade são cruciais para definir o estilo de vida que o indivíduo terá quando adulto. Uma boa solução, nesse caso, seria criar propagandas enaltecendo o consumo de frutas, verduras e legumes. Os próprios programas infantis poderiam contribuir nesse sentido, apresentando personagens com hábitos saudáveis. Assim, os pequenos iriam tentar imitar os bons comportamentos. Contudo, nenhum controle publicitário ou bom exemplo sob a forma de um desenho animado é suficiente sem a participação ativa da família. É essencial ensinar as crianças a diferenciar bons produtos de meros golpes publicitários. Portanto, em se tratando de propaganda infantil, assim como em tantos outros casos, a educação vinda de casa é a melhor solução. *Redação de Larissa Freisleben, que recebeu nota 1000 na prova do Enem 2014. Larissa ingressou em Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. (Veja depoimento dela na pág.17). Contextualização Trazer elementos do cotidiano, do universo pop ou de programas de televisão não é necessariamente falta de cultura; se bem contextualizado, pode refletir uma boa capacidade de leitura do mundo ao redor Repertório A passagem do desenho infantil a uma inesperada citação histórica do nazismo surpreende o leitor, mostra amplo repertório e tem forte efeito persuasivo Variação de estilo A proposta de intervenção não precisa se restringir à conclusão da dissertação. Ela pode aparecer já nos parágrafos argumentativos 55GE REDAÇÃO 2016 SAINDO DO QUADRADO As melhores redações são, sem dúvida, aquelas cujos argumentos e exemplos fo- gem do lugar-comum. Aqueles que almejam as melhores notas, seja no Enem ou em exames vestibulares, devem surpreender a banca examinadora, demonstrando um bom repertório cultural e capacidade de articular informações de diversas fontes dentro de um contexto coerente. Este texto, que ficou famoso na mídia, traz alguns desses traços. Quando dizemos que o candidato deve ousar na escolha do repertório que utili- zará em seu texto, isso não quer dizer que ele deva demonstrar profunda erudição, citar grandes autores ou mostrar-se um ser multimídia. De nada vale qualquer informação no texto se estiver descontex- tualizada. A ousadia deve residir na falta de medo de trabalhar exemplos menos convencionais e na capacidade argumen- tativa para extrapolar essas informações. Fazer uma boa intertextualidade, perceber conceitos filosóficos, sociológicos ou polí- ticos em produções midiáticas, intercam- biar visões artísticas clássicas com outras mais alternativas, ou seja, perceber as relações evidentes ou subjetivas presentes no mundo e amarrá-las em um texto são as características de um bom escritor. A redação de Larissa Freisleben certamen- te chamou a atenção de todos pela citação do desenho animado Peppa Pig; no entanto, outras referências ao longo do texto deram consistência à tese apresentada na introdu- ção, como as crianças que denunciavam os pais durante o nazismo, o caso das lancho- netes e os hábitos alimentares infantis, que se complementam. Claramente, nenhum elemento está ali apenas para fazer graça ou, como popularmente se diz, “encher lin- guiça”. Os programas infantis, por exemplo, são retomados na proposta de intervenção. Se na argumentação e na escolha dos exemplos a ação da candidata foi acertada, na estruturação não foi diferente. A intro- dução utiliza a animação da porquinha para análise ilustrar o poder da mídia e da publicidade. Na sequência, os demais exemplos demonstram como a propaganda interfere no comporta- mento das crianças. No terceiro parágrafo, a dissertação trabalha especificamente o caso da veiculação da publicidade infantil, cerne da proposta do Enem. Ali a redatora demonstra sua opinião, favorável a uma regulamentação responsável, diferente de uma proibição total. Também nesse ponto é iniciada a proposta de intervenção, já que há a sugestão de inclusão de hábitos saudáveis nas propagandas e nas personagens dos desenhos animados. Por fim, a redação é concluída com mais propostas interventivas, dessa vez colocando a família como respon- sável por guiar o jovem no discernimento da publicidade. Dessa forma, a candidata conseguiu um texto que cumpriu todas as exigências da proposta e agradou os avaliadores. Uma quantidade medida de ousadia fez com que o texto se destacasse e atingisse a nota má- xima no exame. Um exemplo a ser seguido! 56 GE REDAÇÃO 2016 ENEM 2014 Redação 3-- Publicidade infantil: o processo de reificação e suas consequências* Com o advento do capitalismo, o consumismo tornou-se um princípio social básico do cotidiano de muitos brasileiros. A publicidade infantil, principal meio pelo qual o capitalismo cresce, inicialmente destinada à população adulta, agora possui foco em faixas etárias cada vez menores, já apresentando fortes impactos na porção infante do país. A publicidade destinada às crianças utiliza-se de diversos artifícios, como utilizar personagens populares e linguagem especificamente infantil para atingirem seu principal objetivo de gerar mais um consumidor. Ocorre uma manipulação psicológica indireta da criança, que leva esta a consumir o produto em questão não por necessidade, mas sim porque nela foi induzido o desejo de consumo. Acontece, portanto, um covarde processo de reificação da criança, em que ela torna-se o meio necessário para o lucro de grandes empresas. Contudo, os danos não se estendem somente à área psicológica da criança. Através do oferecimento de brindes e/ou artigos colecionáveis, redes de fast-food estão criando uma geração viciada em alimentos não-saudáveis. Já pode ser notado no Brasil as consequências: três a cada dez crianças estão acima do peso e apresentam grandes chances de desenvolverem doenças crônicas no futuro. Apesar de estes fatores estarem inseridos tão profundamente na sociedade brasileira a ponto de parecerem comuns, é possível erradicá-los. Além de colocar em prática o básico, que no caso trata-se da proibição de elementos especialmente infantis em publicidades, a criação de programas de educação nutricional em escolas públicas e privadas, assim como desde cedo conscientizarem a criança e seus responsáveis sobre os danos causados pelo consumismo são algumas das possíveis medidas para que, no futuro, não tenhamos uma sociedade regida pelos cruéis e frios princípios consumistas. *Redação de Lucas Pagliúca Martins, de São Paulo, que prestou a prova do Enem 2014 como treineiro. Seu texto recebeu nota 960. Escorregão O autor não queria dizer “a publicidade infantil”, mas sim a publicidade em geral. É importante revisar o texto Reificação Em Filosofia, o processo de alienação do indivíduo pelo qual uma ideia abstrata se impõe a ele, transforma- se em objeto, coisa real para ele. É a coisificação do indivíduo Construção inadequada Bastaria colocar dois pontos depois de “objetivo:” e eliminar “de”; ou inserir o artigo “o” (“objetivo: o de gerar”) Evite repetições Mesmo a de um verbo em diferentes flexões Pronome Para referir-se a elementos já citados, utilize esse, essa Concordância Fique atento, principalmente quando inverter a ordem da oração Conjunção Evite começar os parágrafos com conjunções adversativas. Elas são usadas para contrastar o que foi dito imediatamente antes - algo impossível no início de um parágrafo 57GE REDAÇÃO 2016 UMA BOA ARTICULAÇÃO Os temas de redação do Enem costumam tratar de questões atuais da sociedade bra- sileira. Essa configuração da prova faz com que, na maioria dos casos, os candidatos te- nham de assumir um posicionamento sobre o assunto, para que possam desenvolver sua argumentação. Esta dissertação é um bom exemplo disso. O texto começa contextualizando a pu- blicidade e seus objetivos, chegando à pu- blicidade infantil e em seus efeitos. Logo no início, já fica clara a posição do candidato, que percebe efeitos danosos no discurso publicitário, principalmente nos jovens e nas crianças. É importante ressaltar que os argumentos apresentados no texto não trazem novidades, são, em geral, retirados do senso comum e presentes na própria cole- tânea; mas a forma como são apresentados, mostrando os efeitos no consumismo e nas práticas de alimentação, tornam-nos mais amplos – mostrando uma capacidade de articulação acima da média. Já no segundo parágrafo, o candidato apresenta o argumento da reificação, so- fisticado conteúdo de Filosofia que ele usa para abrilhantar o argumento e a análise. Nesse parágrafo, e no seguinte, associa duas diferentes consequências em saúde mental e do corpo, dando completude ao título que escolheu. O candidato opta por não usar os diferentes exemplos de legislação presentes no texto não verbal da prova. Porém, o enfo- que em saúde mostra vínculo com o crédito da imagem dado à Organização Mundial da Saúde (OMS). Na conclusão, a opção por divi- dir a proposta de intervenção em três eixos foi escolha acertada. Ainda que as propostas sejam bastante simples, elas são coerentes e complementares, o que deve ter agradado aos avaliadores e contribuído para garantir a boa nota para a redação. Dessa forma, um texto simples, mas que deixou clara a opinião de seu redator e suas propostas, conseguiu satisfazer os anseios da proposta. Um aspecto que deve ser con- siderado são os problemas coesivos (como os que grifamos no texto) – a maioria fruto da inabilidade no uso dos pronomes – e que provavelmente foram os responsáveis pelo desconto na nota. É possível especular que, por estar prestando a prova como treineiro, tenha faltado ao candidato a revisão no uso dos pronomes, matéria normalmente vista no terceiro ano do Ensino Médio. Apesar desses problemas coesivos, não é difícil ao leitor dessa redação entender os argumentos e a análise apresentada. Sendo esse o texto de um candidato que ainda não completou o Ensino Médio, as expectativas para as próximas produções são excelentes! análise 78 GE REDAÇÃO 2016 CIDADANIA EM CATEGORIAS PAGAS A proposta de redação da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) na prova de 2015 da Universidade de São Paulo voltou a revisitar a filosofia, ao abordar aspectos de exclusão social. Veja aqui a proposta e uma análise do professor Davi Fazzolari. Nas páginas seguintes, um exemplo de redação bem avaliada, selecionada entre estudantes, analisada pela professora Nathália Macri Nahas. Proposta de redação Na verdade, durante a maior parte do século XX, os estádios eram lugares onde os executivos empresariais sentavam-se lado a lado com os operários, todo mundo entrava nas mesmas filas para comprar sanduíches e cerveja, e ricos e pobres igualmente se molhavam se chovesse. Nas últimas décadas, contudo, isso está mudando. O advento de camarotes especiais, em geral, acima do campo, separam os abastados e privilegiados das pessoas comuns nas arquibancadas mais embaixo. (...) O desaparecimento do convívio entre classes sociais diferentes, outrora vivenciado nos estádios, representa uma perda não só para os que olham de baixo para cima, mas também para os que olham de cima para baixo. Os estádios são um caso exemplar, mas não único. Algo semelhan- te vem acontecendo na sociedade americana como um todo, assim como em outros países. Numa época de crescente desigualdade, a “camarotização” de tudo significa que as pessoas abastadas e as de poucos recursos levam vidas cada vez mais separadas. Vivemos, trabalhamos, compramos e nos distraímos em lugares diferentes. Nossos filhos vão a escolas diferentes. Estamos falando de uma espécie de “camarotização” da vida social. Não é bom para a de- mocracia nem sequer é uma maneira satisfatória de levar a vida. Democracia não quer dizer igualdade perfeita, mas de fato exige que os cidadãos compartilhem uma vida comum. O importante é que pessoas de contextos e posições sociais diferentes encontrem-se e convivam na vida cotidiana, pois é assim que aprendemos a negociar e a respeitar as diferenças ao cuidar do bem comum. Michael J. Sandel. Professor da Universidade Harvard. O Que o Dinheiro Não Compra. Adaptado. Comentário do Prof. Michael J. Sandel referente à afirmação de que, no Brasil, se teria produzido uma sociedade ainda mais segregada do que a norte- americana. O maior erro é pensar que serviços públicos são apenas para quem não pode pagar por coisa melhor. Esse é o início da destrui- ção da ideia do bem comum. Parques, praças e transporte público precisam ser tão bons a ponto de que todos queiram usá-los, até os mais ricos. Se a escola pública é boa, quem pode pagar uma particular vai preferir que seu filho fique na pública, e assim teremos uma base política para defender a qualidade da escola pública. Seria uma tragédia se nossos espaços públicos fossem shopping centers, algo que acontece em vários países, não só no Brasil. Nossa identidade ali é de consumidor, não de cidadão. Entrevista. Folha de S.Paulo, 28/04/2014. Adaptado. FUVEST 2015 79GE REDAÇÃO 2016 Os três primeiros textos aqui reproduzidos referem-se à “camaroti- zação” da sociedade – nome dado à tendência a manter segregados os diferentes estratos sociais. Em contraponto, encontra-se também reproduzido um testemunho, no qual se recupera a experiência de um período em que, no Brasil, a tendência era outra. Tendo em conta as sugestões desses textos, além de outras informa- ções que julgue relevantes, redija uma dissertação em prosa, na qual você exponha seu ponto de vista sobre o tema “Camarotização” da sociedade brasileira: a segregação das classes sociais e a democracia. INSTRUÇÕES A versão final do seu texto deve: 1. A redação deve ser uma dissertação, escrita de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa. 2. Escreva, no mínimo, 20 linhas, com letra legível. Não ultrapasse o espaço de 30 linhas da folha de redação. 3. Dê um título a sua redação. [No Brasil, com o aumento da presença de classes populares em centros de compras, aeroportos, lugares turísticos etc., é crescente a tendência dos mais ricos a segregar-se em espaços exclusivos, que marquem sua distinção e superioridade.] (...) Pode ser que o fenôme- no “camarotização”, isto é, a separação física entre classes sociais, prospere para muitos outros setores. De repente, os supermercados poderão ter ala VIP, com entrada independente, cuja acessibilidade, tacitamente, seja decidida pelo limite do cartão de crédito. Renato de P. Pereira. www.gazetadigital.com.br, 06/05/2014. Resumido e Adaptado Até os anos de 1960, a escola pública que eu conheci, embora existisse em menor número, tinha boa qualidade e era um espaço animado de convívio de classes sociais diferentes. Aprendíamos muito, uns com os outros, sobre nossas diferentes experiências de vida, mas, em geral, nos sentíamos pertencentes a uma só sociedade, a um mesmo país e a uma mesma cultura, que era de todos. Por isso, acreditávamos que teríamos, também, um futuro em comum. Vejo com tristeza que hoje se estabeleceu o contrário: as escolas passaram a segregar os diferentes estratos sociais. Acho que a perda cultural foi imensa e as consequências, para a vida social, desastrosas. Trecho do testemunho de um professor universitário sobre a Escola Funda- mental e Média em que estudou. SEGREGAÇÃO SOCIAL A apresentação do pensamento de Michael Sandel na coletânea motivadora poderia provocar o estudante atualizado a recuperar fatos de uma cultura recente que foi se acomodando cada vez mais em nossos ambientes coletivos: atendimento diferenciado nos bancos e em estacionamentos, mesas em restaurantes e camarotes exclusivos de carnaval com a chancela Very Important Person – VIP. Seguindo os passos do pensador, que citou a mudança nos está- dios, o exemplo mais à mão do estudante brasileiro era a Copa do Mundo de futebol de 2014, na qual os ingressos para as partidas chegaram a preços viáveis apenas a certa elite econômica. Assim, os estádios destinados ao esporte mais popular entre nós, nor- malmente frequentados pelas camadas populares da sociedade, foram se ajustando a uma certa segregação institucionalizada. Em poucas linhas, o terceiro texto da antologia, assinado pelo empresário Renato de Paiva Pereira, associou a “camarotização” a exclusividade, distinção, superioridade, independência e acessi- bilidade. A semântica desses substantivos poderia ser explorada pelo estudante, para estabelecer um questionamento crítico acerca do recorte temático: 1) Até que ponto a “distinção” favorece a coletividade?; 2) A “exclusividade” pode em algum momento ser benéfica à sociedade?; 3) Em quais circunstâncias a “superioridade” pode servir de motivação ou de modelo?; 4) Quando a “acessibili- dade” garante a “independência”, negar o acesso não premedita a desigualdade social com toda a sua gama de sequelas? Apontado pelo enunciado da prova como “contraponto [...] no qual se recupera a experiência de um período em que, no Brasil, a tendência era outra”, o último texto da antologia oferecia ao candidato uma possibilidade de refletir e de desenvolver compa- rações históricas. Eram considerações pessoais de um professor universitário acerca de suas experiências de estudante nas escolas de 1º e de 2º graus. Há um tempo perdido no passado quando a sociedade pertencia a todos e promovia um futuro comum. Hoje, a segregação de “estratos sociais” gera “consequências desas- trosas”. Terreno fértil para investigações no entorno do próprio estudante que se via frente a frente com uma prova de seleção para uma das universidades de mais difícil acesso em nosso país. A antologia, como pudemos ver, não se apresenta ao candi- dato apenas como instrumento de aquecimento ou de amparo ao tema. É também a grande oportunidade de questionamento do tema. Uma “leitura ativa” dos textos oferecidos pela prova pode, de fato, consolidar o ponto de vista e estabelecer argumentação consistente para sua sustentação. anÁlise DA PROPOSTA Redação -FUVEST 2015 - Ops ops! Quando perceber, evite o eco entre palavras substituindo os termos Esse ou este? Utilize “essa, esse” para retomar algo que já citou. Nestes dois casos o exigido na norma padrão seria “esta” e “este”. Cada vez mais Use a expressão com cautela, quando, de fato, houver a ideia de crescimento, de progressão. Concordância Ao usar um sujeito composto coloque o verbo no plural Vocabulário Atenção ao escolher as palavras: em 1, “irrisório” quer dizer “pequeno”, “insignificante”. Em 2, “Inconscientemente” não foi uma boa escolha Evite repetições Mesmo que sejam termos apenas semelhantes Camarote individual * Quando se pensa em democracia, deve-se pensar principalmente em isonomia. No entanto, ao abarcar a prática desse tipo de governo na vida social, essa comparação se torna irrisória1. O real significado da palavra “democracia” vem se perdendo na história brasileira, e essa perda não é recente. O que se criou e foi imposto inconscientemente2 foi a segregação da sociedade em patamares que se distanciam e se fragmentam cada vez mais. Esse distanciamento e essa fragmentação põem em risco a verdadeira democracia, pois, além da perda de seu significado, perde-se também a unidade e o poder social. A “camarotização” da sociedade exibe essa falta de união. A partir daí, a divisão entre classes torna-se ainda mais acentuada e mais perceptível ao bom observador crítico. Cria-se também uma situação que vai além da “camarotização”: a separação dentro de uma classe já formada e moldada, uma separação que busca a privatização e a exclusividade de um espaço já privado e exclusivo. Buscando esse excesso, a pessoa privatiza sua vida e sua vivência, conquistando o caráter individualista, totalmente oposto ao que se espera do caráter democrático de uma sociedade. Essa característica segregacionista e individualista dificilmente desaparecerá em uma sociedade que apresenta e prega tal característica como panorama normal a suas crianças. As escolas são apenas um exemplo que ilustra a “camarotização” social: há a pública e há a privada. A interação praticamente inexistente entre ambas e a questão individualista também se apresenta de modo bastante intenso no comportamento dos pequenos grupos que se formam, desejando cada qual conquistar o seu próprio espaço privado. Assim, a escola não se mostra à sociedade como um modelo de democracia. Se as escolas não vivem o real significado democrático, a criança e a futura nação se tornam apenas vítimas do que já foi deixado para trás há muito tempo. Com o aprendizado precoce de que para viver em sociedade é necessário “camarotizar”, não há como esperar grandes mudanças sociais para um bem maior no futuro da nação. *Redação de Nicole Lopes Reginato, estudante secundarista que prestou a prova em simulado Clareza “Um bem maior à nação no futuro” seria mais adequado para a ideia sugerida 81GE REDAÇÃO 2016 UMA ABORDAGEM QUE PEDE APROFUNDAMENTO O texto em questão apresentou uma visão adequada ao tema proposto pela Fuvest para o ingresso em 2015. O redator, a partir do conceito de “camarotização”, aborda a intensa contradição entre a se- gregação social e a democracia, conforme solicitava a proposta. Observamos que o autor mantém um posicionamento críti- co sobre o assunto, o que é fundamental para a adequação ao gênero pedido pelos avaliadores. Porém, há alguns pontos que merecem atenção. A introdução elaborada é eficaz: ela apresenta o assunto a ser abordado no texto. Em seguida, é feito um recorte desse tema: o contexto brasileiro. O parágrafo é finalizado com a tese do texto, ou seja, o ponto de vista que será defendido pelo redator ao longo de sua redação. Note que é uma estratégia muito eficiente ao candidato indicar concisamente sua tese no final da introdução. Apesar disso, o au- tor poderia elaborar seu parágrafo inicial de uma forma mais sucinta, pois ele não deve ter uma extensão tão longa quanto os parágrafos intermediários, onde desen- volvemos nossa opinião. No segundo parágrafo, observa-se que o candidato começa a elaborar seu ponto de vista, o que é uma estratégia correta. Porém, o argumento utilizado – a falta de união e a camarotização – está apenas citado, não está explicado. O conceito de camarotização deveria ser mais bem traba- lhado, explorando, por exemplo, o viés de segregação nele contido. Assim, o trecho ficaria mais coerente e aprofundado: a se- gregação elucidaria a falta de união citada, afinal os dois termos não são sinônimos. O candidato deveria explicar a relação entre esses conceitos para fortalecer seu argumento e poderia colocar um exemplo para ilustrar a ideia central do trecho. Em seguida, o autor apresenta um novo argumento, porém em tom de previsão, o que não é recomendável em uma disserta- ção. É muito difícil sustentar um argumen- to tendo como base uma previsão ou uma hipótese, o que fragiliza a argumentação. A melhor estratégia é manter argumentos concretos e evitar hipóteses. Para manter sua ideia, o candidato poderia apresentar a relação contraditória entre o individualis- mo exacerbado e a democracia na formação de crianças e jovens, evitando a previsão. O exemplo trazido pelo candidato é eficaz: a estrutura escolar reproduz a segregação social que temos na sociedade, opção que deu pontos para o texto. A conclusão poderia ser mais eficiente: o candidato centrou-se na questão da escola, sem retomar seu primeiro argumento sobre o individualismo exacerbado trabalhado anteriormente. Ademais, temos novamen- te uma previsão, o que deve ser evitado também na conclusão, espaço no qual se devem retomar objetivamente as principais ideias do texto com o objetivo de finalizar e fortalecer os argumentos discutidos. Assim, o caráter de convencimento da dissertação torna-se mais intenso, o que garante uma boa nota pelos avaliadores. análise 58 GE REDAÇÃO 2016 unesp 2015 UM RECORTE SOBRE DISCRIMINAÇÃO A prova da Unesp 2015 cobrou ao candidato dissertar sobre um aspecto específico das questões do negro no Brasil, que é o preconceito racial. É a segunda prova da universidade que traz um tema social atual. Em 2014, o tema foi a corrupção na política (veja na pág. 94). Acompanhe aqui a proposta e, nas páginas seguintes, exemplos de redações bem avaliadas. As análises são do professor Alan Nicoliche Proposta de redação TEXTO 1 O Brasil era o último país do mundo ocidental a eliminar a escravidão! Para a maioria dos parlamentares, que se tinham empenhado pela abolição, a questão estava encerrada. Os ex-escravos foram abandona- dos à sua própria sorte. Caberia a eles, daí por diante, converter sua emancipação em realidade. Se a lei lhes garantia o status jurí- dico de homens livres, ela não lhes fornecia meios para tornar sua liberdade efetiva. A igualdade jurídica não era suficiente para eliminar as enormes distâncias sociais e os preconceitos que mais de trezentos anos de cativeiro haviam criado. A Lei Áurea abolia a escravidão mas não seu legado. Trezentos anos de opressão não se eliminam com uma penada. A abolição foi apenas o primeiro passo na direção da emancipação do negro. Nem por isso deixou de ser uma conquista, se bem que de efeito limitado. Emília Viotti da Costa. A Abolição, 2008. TEXTO 2 O Instituto Ethos, em parceria com outras entidades, divulgou um estudo sobre a parti- cipação do negro nas 500 maiores empresas do país. E lamentou, com os jornais, o fato de que 27% delas não souberam responder quantos negros havia em cada nível funcio- nal. Esse dado foi divulgado como indício de que, no Brasil, existe racismo. Um paradoxo. Quase um terço das empresas demonstra a entidades seríssimas que “cor” ou “raça” não são filtros em seus departamentos de RH e, exatamente por essa razão, as empresas passam a ser suspeitas de racismo. Elas são acusadas por aquilo que as absolve. Tempos perigosos, em que pessoas, com ótimas in- tenções, não percebem que talvez estejam jogando no lixo o nosso maior patrimônio: a ausência de ódio racial. Há toda uma gama de historiadores sérios, dedicados e igualmente bem-intencionados, que estudam a escravidão e se deparam com esta mesma constatação: nossa riqueza é esta, a tolerância. Nada escamoteiam: bem documentados, mostram os horrores da escravidão, mas atestam que, não a cor, mas a condição econômica é que explica a manutenção de um indivíduo na pobreza. [...]. Hoje, se a maior parte dos pobres é de negros, isso não se deve à cor da pele. Com uma melhor distribuição de renda, a condi- ção do negro vai melhorar acentuadamente. Porque, aqui, cor não é uma questão. Ali Kamel. “Não Somos Racistas”. www.oglobo.com.br, 09.12.2003. TEXTO 3 Qualquer estudo sobre o racismo no Brasil deve começar por notar que, aqui, o racismo é um tabu. De fato, os brasilei- ros imaginam que vivem numa sociedade onde não há discriminação racial. Essa é uma fonte de orgulho nacional, e serve, no nosso confronto e comparação com outras nações, como prova inconteste de nosso status. Antonio Sérgio Alfredo Guimarães. Racismo e Antiracismo no Brasil, 1999. Adaptado. 59GE REDAÇÃO 2016 O PRECONCEITO DOS OUTROS A redação do vestibular da Unesp 2015 trouxe um recorte específico da questão do negro no Brasil, que é o preconceito. Por meio de uma coletânea extensa, a proposta abordou desde as consequências diretas da escravatura até o momento atual, no qual a admissão do preconceito na sociedade é tabu. Ao candidato ficou a tarefa de dis- sertar sobre o que salta aos olhos e sobre o que a maioria insiste em não ver. O leitor atento observou que, dos quatro textos da coletânea, três afirmam a existência do preconceito. A escravatura é uma chaga na história nacional, e dificilmente o candidato te- ria dificuldades de discorrer sobre suas atrocidades. No entanto, nenhuma dessas abordagens era esperada pela banca de correção – o enunciado deixou bem claro que se esperava uma dissertação sobre o legado da escravidão, ou seja, o que nos restou desse período; o preconceito especifi- camente contra os negros e, evidentemente, no Brasil, e não no exterior. O primeiro texto da coletânea sinalizou ao leitor o aspecto histórico do tema e tratou de como a Lei Áurea modificou os direitos civis dos ex-escravos, mas não lhes garantiu uma integração à sociedade de fato, além de não extinguir as relações de preconceito existentes. anÁlise DA PROPOSTA TEXTO 4 Na ausência de uma política discriminató- ria oficial, estamos envoltos no país de uma “boa consciência”, que nega o preconceito ou o reconhece como mais brando. Afirma-se de modo genérico e sem questionamento uma certa harmonia racial e joga-se para o plano pessoal os possíveis conflitos. Essa é sem dúvida uma maneira problemática de lidar com o tema: ora ele se torna inexisten- te, ora aparece na roupa de alguém outro. É só dessa maneira que podemos explicar os resultados de uma pesquisa realizada em 1988, em São Paulo, na qual 97% dos entre- vistados afirmaram não ter preconceito e 98% dos mesmos entrevistados disseram conhecer outras pessoas que tinham, sim, preconceito. Ao mesmo tempo, quando inquiridos sobre o grau de relação com aqueles que consideravam racistas, os en- trevistados apontavam com frequência parentes próximos, namorados e amigos íntimos. Todo brasileiro parece se sentir, portanto, como uma ilha de democracia ra- cial, cercado de racistas por todos os lados. Lilia Moritz Schwarcz. Nem Preto Nem Branco, Muito Pelo Contrário, 2012. Adaptado. Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva uma redação de gênero dissertativo, empregan- do a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema: O legado da escravidão e o preconceito contra negros no Brasil O segundo é o único texto da coletânea a negar o preconceito afirmado nos três demais textos. Ele traz leituras ambíguas sobre a relação das empresas com o contin- gente negro, assim como a relação entre a condição social e a cor da pele – abordagem que, se não é equivocada, é pelo menos confusa. Inicialmente, nega existir aqui o “ódio racial”, para finalizar generalizando não haver questão alguma a ser tratada pela cor como um fator no país. O terceiro texto dialoga com o ante- rior, ao tocar em uma questão bastante particular: a negação do preconceito em território nacional interpretada como um sinônimo ou afirmação de nossa civilida- de. Enquanto o último texto escancara a versão paradoxal do brasileiro como moço bom e solitário – que se diz um ser despro- vido de preconceitos, mas vivendo numa sociedade em que praticamente todos à sua volta são preconceituosos. O candidato teria duas possibilidades: aderir ao discurso míope de uma nação que se diferencia pela tolerância e igualdade de oportunidades ou enfrentar a tarefa de escancarar o preconceito velado e trazer à tona os aspectos amargos da herança de nosso tempo escravocrata. O mergu- lho poderia ser raso ou profundo. Uma redação com uma boa análise crítica em seus argumentos poderia render um bom resultado no vestibular e um universitário mais consciente. 60 GE REDAÇÃO 2016 unesp 2015 - Redação 1 Racismo invisível O racismo não existe no Brasil. Essa é a frase que ecoa em uma sociedade que crê cegamente na harmonia entre as etnias de um país multirracial. Porém, embora não haja placas que determinem onde brancos e negros podem se sentar – como houvera outrora nos Estados Unidos e na África do Sul – existe aqui uma linha invisível que segrega cores e se torna tão mais visível quanto mais escura é a cor da pele. É isso que o Mito da Democracia Racial reserva aos negros: um racismo velado, que eles próprios sentem, mas a sociedade insiste em não enxergar. A abolição da escravidão no Brasil, além de tardia, se deu num período determinista em que prevaleciam teorias como o “darwinismo social” que defendia a superioridade do homem branco. Dessa forma, a Lei Áurea propiciou aos negros igualdade de direitos, mas não igualdade de condições. Eles estavam excluídos de um plano social que privilegiava a mão de obra imigrante branca, relegando-os à tarefas inferiores e à marginalização social. Não obstante a condição excludente de ex-escravos, o sociólogo Gilberto Freyre, comparando a realidade do negro brasileiro à do norte-americano, cria a concepção de harmonia das raças e ausência de preconceito no Brasil, teoria que fundamenta a mentalidade até os dias de hoje. É evidente que os índices muito maiores de negros entre os pobres e a população carcerária são um legado da escravidão. Contudo, tais índices não têm validade para uma sociedade que trata o preconceito como tabu. Aos negros, então, foi reservado a face mais cruel da discriminação, aquela que os responsabiliza por esses índices sociais, como se fossem incapazes ou inferiores e não historicamente prejudicados. O filósofo Hegel defendia que a realidade muda quando o pensamento das pessoas se transforma, sendo este condicionante da mudança. Logo, através da dialética hegeliana constata-se o cerne do preconceito no país: o pensamento coletivo. Apenas pouco mais de um século depois da abolição da escravatura (que perdurou três séculos) é complexa a transformação do pensamento. Embora sociólogos e intelectuais diversos tenham discutido a posição do negro na sociedade de maneira crítica, o pensamento predominante ainda é o da inferioridade. Sobretudo, a população brasileira não se reconhece como preconceituosa, uma vez que,1 associa o preconceito a práticas explícitas como a política africana do Apartheid, o que contribuiu para que ele cresça sob a invisibilidade lhe dada. O legado da escravidão no Brasil foi, portanto, a marginalização do negro que obteve direitos jurídicos2 mas não igualdade substantiva, ou seja, igualdade de oportunidades. Hoje, por ser um tabu, o preconceito não é discutido da forma que deveria, perpetuando ideias falhas como a de não existência de segregação racial e culpabilização do negro pelas condições sociais desfavoráveis. A realidade do negro brasileiro é a de alguém que sofre as implicações do racismo2 mas se vê impotente, devido a sua invisibilidade. Crase indevida Não há artigo para se unir à preposição Citação incompleta O correto seria sul-africana Se lembrar, evite Não use “através” no lugar de “por meio de” Gênero O correto seria reservada Pontuação 1) vírgula indevida 2) faltou vírgula antes de oração adversativa 61GE REDAÇÃO 2016 análise UMA BOA COMPREENSÃO DO TEMA Muitas vezes, uma boa capacidade de leitura e desenvolvimento do tema é sufi- ciente para que o candidato possa produzir uma boa dissertação – é o que aconteceu com esta redação. Sem argumentos mi- rabolantes ou exemplos impactantes, o candidato conseguiu apresentar ao leitor ideias bastante claras e coerentes, total- mente em acordo com a proposta dada pelo vestibular. O texto parte do conceito utópico de que não existe racismo no Brasil e explica que o fato de não convivermos com uma intole- rância racial escancarada não faz com que a discriminação não exista. Na verdade, os argumentos explicam que os negros sofrem uma discriminação velada, que os levam a ter uma participação desigual na sociedade e, além disso, são culpados por essa situação – como se fossem de fato inferiores ou menos capazes. Ou seja, o preconceito velado é tão ou mais cruel quanto sua versão explícita. Podemos perceber, ao longo do texto, que o candidato possui um bom repertório, o que torna seu texto mais interessante e persuasivo. Uma simples análise dos argu- mentos e informações citadas mostra que tal repertório é oriundo do conteúdo rece- bido no Ensino Médio. Dessa forma, pode-se concluir que um aluno atento às aulas de História e Atualidades pode contar com uma boa bagagem para trabalhar seu texto. Outro ponto importante desta redação foi a estruturação dos argumentos. Pode- mos perceber que o candidato divide o tema proposto em duas partes: “o legado da escravidão” (que está no primeiro trecho que grifamos) e “o preconceito contra os negros no Brasil” (componente do tema, no segundo trecho grifado), cada uma delas desenvolvida em um parágrafo argumen- tativo. Tal divisão não tem o propósito de distinguir um ponto do outro, como se eles não tivessem ligação, mas trabalhá-los de maneira individualizada, evidenciando suas relações. Na conclusão, o candidato sintetiza as ideias apresentadas e deixa clara a situação daqueles que sofrem o preconceito, impo- tentes diante de um problema real, mas não reconhecido pela sociedade. O fim do texto não traz uma solução ao problema, nem um lamento indignado; antes disso mostra um pensamento consciente e um vestibulando que sabe fazer o uso da leitura e da escrita. Não à toa, foi aprovado pela banca. 62 GE REDAÇÃO 2016 unesp 2015 - Redação 2 Introdução O candidato sintetiza as raízes da discriminação racial e sua presença na sociedade brasileira. A estratégia foi importante para assegurar o texto dentro do tema e para articular a argumentação Coesão Ao iniciar a argumentação, o candidato retoma as informações da introdução, mantendo o diálogo entre as partes Rigor O candidato mantém a neutralidade do sujeito da dissertação e acerta no uso das conjunções, apesar de repetir o verbo perceber Pronominal O correto seria oferecer-lhes Atenção à proposta Neste segundo parágrafo argumentativo, o candidato retoma a segunda parte da tese de introdução e apresenta o legado da escravidão solicitado Discriminação racial velada Sabe-se que, durante a expansão marítima do século XVI e o neocolonialismo do século XIX, teses racistas, como o darwinismo social, que pregava a superioridade do branco europeu e via o negro como uma raça inferior e destinada à escravidão, foram amplamente difundidas. Essas teorias mascaravam o real objetivo das potências europeias, que era dominar e explorar os povos africanos. Contudo, mesmo com a abolição da escravidão, percebe-se que resquícios desse pensamento discriminatório e infundado estão presentes no mundo, em especial na sociedade brasileira. Assim, nota-se que os negros no Brasil convivem com uma difícil realidade, permeada pelo preconceito e opressão velados. Nesse contexto, deve-se recordar que milhares de negros foram trazidos da África para o Brasil na condição de escravos, desde as primeiras décadas de colonização do país. Dessa forma, observa-se que os negros africanos trabalharam arduamente para a sociedade brasileira por mais de trezentos anos. Além disso, o processo de miscigenação fez dos africanos uma das bases da etnia brasileira. No entanto, após a abolição da escravatura, nenhum amparo foi dado aos escravos libertos, que foram substituídos na lavoura e, posteriormente, na indústria, pelos imigrantes europeus. Assim, os negros, sem formação, sem emprego e abandonados pelo Estado passaram a viver numa situação de miséria e ausência de direitos básicos e, atualmente, representam a grande parte da classe baixa brasileira. Deve-se verificar também que, embora os negros sejam a maioria da população brasileira, sua presença é absurdamente menor que a dos brancos nas universidades e em posições de chefia nas empresas. Além disso, pesquisas mostram que indivíduos negros recebem menos que brancos ao exercerem a mesma função e que as mulheres negras compreendem a maior parte das vítimas de violência sexual. Desse modo, percebe-se que a equidade racial ainda é uma realidade distante no Brasil. Paradoxalmente, muitos brasileiros orgulham-se de viverem em uma nação em que não existe discriminação contra os negros. Portanto, percebe-se que a igualdade jurídica não foi suficiente para emancipação do negro no país. Assim, é fundamental que, primeiramente, a sociedade brasileira reconheça a existência dessa segregação econômica e ideológica do negro. Diante dessa constatação, deve-se criar e ampliar políticas de inclusão dos negros no Brasil, a fim de oferecê-los oportunidades para que tenham uma vida digna e escapem da condição histórica de marginalização e exploração. 63GE REDAÇÃO 2016 análise O HISTÓRICO DO PRECONCEITO De maneira muito clara, o candidato soube traçar um histórico do preconceito racial, de suas origens à realidade atual no Brasil. Com um texto bem-estruturado, fica fácil ao leitor acompanhar o raciocínio apresentado pelo autor. Ao apontar as origens do preconceito contra os negros na expansão europeia sobre a África e o novo mundo, o candidato deixou clara a ideia que dominou aquele momento – a desvalorização dos africanos com o intuito de subjugá-los. Esse conceito é fundamental para o desenvolvimento do texto, pois os argumentos irão demonstrar que o mesmo pensamento persiste na sociedade atual, embora de forma velada. De fato, a dissertação divide o preconcei- to em três momentos: a já citada expansão marítima; o século XIX, no qual diversas teses racistas tentavam demonstrar uma superioridade caucasiana e a atualidade. O texto faz o percurso histórico de for- ma sintética precisa, concentrando seus exemplos nos dias atuais – no início a desculpa do preconceito seria a civilida- de do homem europeu diante dos povos menos desenvolvidos; no século XIX, as teses serviam para manter o status quo dos brancos que dominavam a economia e os meios intelectuais; hoje, no Brasil, o preconceito é negado e execrado por todos, mas existe nas entranhas da sociedade, nas oportunidades desiguais oferecidas às pessoas de pele mais escura. É importante ressaltar que o candidato demonstra um bom conhecimento do as- sunto, provavelmente oriundo das aulas de História – o que ressalta a importância de usar os conhecimentos escolares de outras matérias, além das de Linguagens e Códigos, na composição da redação. Por fim, a estruturação do texto e o di- álogo entre as partes fizeram com que a leitura fluísse bem e deixasse os argu- mentos e a contextualização bem claros para quem lê. Isso certamente agradou os professores de avaliação, que concederam uma boa nota ao texto. 64 GE REDAÇÃO 2016 AMIZADES SAO CONEXÕES? A prova de 2015 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul propôs aos candidatos dissertar sobre o significado da amizade. Ou seja, produzir um texto de análise e reflexão sobre um tema de natureza subjetiva, mas bastante atual. Veja a proposta e redações bem avaliadas, com análises da professora Ana Paula Dibbern A música Canção da América, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, de onde foi extraída a passagem acima, fala da - quela amizade capaz de resistir à distância e ao tempo, caracte- rística de uma época em que o contato físico entre amigos era a forma mais usual de aproximação. Era um tempo em que se valorizavam os poucos e verdadeiros amigos. Atualmente, com a conectividade das redes sociais, a realida- de é outra. Hoje é possível manter-se em contato contínuo com pessoas que estejam em qualquer lugar do planeta, o que permite multiplicar de modo expressivo o número de amizades. Parado- xalmente, o apego ao mundo virtual parece estar promovendo um outro tipo de distanciamento, já que não é incomum, hoje em dia, ver amigos reunidos em um mesmo ambiente físico, mas isolados uns dos outros pela força atrativa dos tablets e dos smartphones. Levando em conta esse cenário, reflita sobre o tema a seguir. Na sua opinião, o que é a amizade nos dias de hoje? Para tanto, você deve: box expressar a sua opinião sobre o que caracteriza a amizade nos dias atuais; box apresentar argumentos que justifiquem o ponto de vista as- sumido; e box organizar esses argumentos em um texto dissertativo. INSTRUÇÕES A versão final do seu texto deve: 1. conter um título na linha destinada a esse fim; 2. ter a extensão mínima de 30 linhas, excluído o título – aquém disso, seu texto não será avaliado –, e máxima de 50 linhas. Segmentos emendados, ou rasurados, ou repetidos, ou linhas em branco terão esses espaços descontados do cômputo total de linhas; 3. ser escrita, na folha definitiva, à caneta e com letra legível, de tamanho regular. ( ... ) Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não, mesmo esquecendo a canção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração, pois, seja o que vier, venha o que vier, qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar. Canção da América (Milton Nascimento e Fernando Brant) Proposta de redação UFRGS 2015 65GE REDAÇÃO 2016 UM CONVITE À REFLEXÃO No vestibular 2015, assim como nos dois vestibulares anteriores, a UFRGS propôs ao concorrente, na redação, um tema subje- tivo. Segundo a Universidade, tal escolha visa garantir maior liberdade de expressão e ultrapassar os debates já exaustivamente tratados pela mídia. Dessa forma, a proposta de redação fa- voreceu o aluno reflexivo em detrimento daqueles que tentam utilizar fórmulas ou argumentos prontos para os temas discu- tidos no cursinho ou na escola. Apesar de a Fuvest ter apresentado, em 2007, uma pro- posta de redação muito parecida com essa, é bastante improvável que os estudantes que procuram “decorar” argumentos te- nham se destacado nessa redação, pois ela exige muito mais do que isso. Esse foi o primeiro ano em que 30% das vagas da UFRGS foram reservadas para preenchimento utilizando a prova do Enem anÁlise DA PROPOSTA e o Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Em meio às discussões acaloradas, no Rio Grande do Sul, sobre o preenchimento des- sas vagas por alunos de outros estados (que teoricamente pode aumentar com a adesão ao Enem), o tema “amizade” parece muito oportuno para ser abordado pelo vestibular tradicional. O trecho da música dos compositores Milton Nascimento e Fernando Brant (9/10/1946 - 12/6/2015), inserido na pro- posta de redação, funciona como uma apresentação sobre o que era a amizade antigamente. O comando da redação pro- põe uma nova leitura, atualizada, sobre o que é a amizade num momento em que a comunicação e relações pessoais estão per- meadas pelo aspecto virtual. É importante observar que o trecho da música não fecha a argumentação na linha de que agora a amizade é, necessariamente, diferente. É possível argumentar que os meios virtuais servem, nos momentos de distância (nos momentos em que o amigo está guardado do lado esquerdo do peito), para atenuar a saudade e que, como diz a música, um dia esses verdadeiros amigos irão se encontrar. O tema permite duas possibilidades principais de abordagem. A primeira linha argumentativa seria a de demonstrar como os dispositivos virtuais e as redes sociais atrapalham a amizade. Nesse caso, seria importante demonstrar situações que in- diquem o empobrecimento das relações de amizade nos dias de hoje. Essa seria uma postura mais crítica, ou pessimista, sobre a modernidade virtual. A segunda opção seria mostrar que há, sim, amizade verdadeira nos dias de hoje. Para isso, o aluno poderia argumentar que o mundo virtual é somente um dos meios de esta- belecer e realizar o contato com os ami- gos, da mesma forma que anteriormente eram utilizados o telefone e as cartas, por exemplo. Nesse modelo, a nova forma de contato, virtual, caminharia junto com a forma tradicional de se relacionar, sem prejuízo de nenhuma delas. Há, ainda, uma terceira abordagem, como seguir um caminho intermediário entre essas duas linhas antagônicas, apontando que há, hoje, amizade tal qual antigamente, mas exemplificando como o mundo virtual pode interferir nessas relações. 66 GE REDAÇÃO 2016 Redação 1-UFRGS 2015 - Repertório O vestibulando mostra que sabe relacionar seu repertório à situação apresentada Gadgets, com G Na dúvida, substitua a palavra por outra que você saiba. Prefira palavras em português Ditados populares Apesar de o uso de ditados não ser recomendado, nesse caso ele aparece relacionado com consistência à argumentação e ao título Fidelidade à proposta Nestes trechos, o estudante responde à indagação motivadora da redação Argumento de autoridade Além de muito pertinente, tal referência será reforçada em todos os parágrafos da redação Contando nos dedos Como sabiamente analisa o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, vivemos, na atual conjectura, em um mundo e entre uma sociedade caracterizados por relações sociais e interpessoais cada vez mais “líquidas”. Diante de tal contexto, as amizades, antigamente baseadas no contato e na presença, desejando- se a proximidade do outro, hoje são distantes, virtuais e frágeis, unidas por falsas pontes de “kilo, mega e gigabytes”. Com certeza, o conceito “amizade” transfigurou-se e já não é mais o mesmo. A partir das Revoluções Industriais (da Terceira, especialmente) e da criação das novas tecnologias e das modernidades que transformaram a vida do ser humano, o modo do mesmo relacionar-se e interagir em sociedade ganhou diferentes e mais dinâmicas – e não melhores – configurações. Ao mesmo passo que proporcionaram facilidade, comodidade e infinitos outros benefícios ao homem, as inovações tornaram-no um moderno Narciso, egoísta e individualista. O “parecer” sobrepõe-se ao “ser” e mais valem milhões de admiradores, virtualmente chamados de “amigos”, e suas “curtidas”, do que poucas e verdadeiras amizades. Ainda que seja um ditado popular e possa parecer clichê, “amigos de verdade se contam nos dedos”, e não aos milhões. A amizade, infelizmente, torna-se muito mais uma relação de troca de favores, escolhida segundo os possíveis benefícios e ganhos obtidos, do que de cumplicidade, fidelidade, carinho e amor. Não há contato físico, abraços, beijos ou troca de confidências; ao se procurar o ombro que consola, encontra-se a nuvem líquida de dados e de falsos relacionamentos. Não somente, o advento de smartphones, tablets e gadjets tem levado também a um distanciamento da atenção e do foco, uma transferência de importância e uma modificação na “hierarquia sociodigital”: mais valem horas nas redes (teoricamente) sociais a um encontro entre amigos. Até mesmo quando em presença de outros, diante de um ambiente de convício social, figuram-se como mais importantes as telas touchscreen e a navegação nas incontáveis utilidades dos aparelhos eletrônicos. Atualmente, apresenta-se como comum a cena de, por exemplo, namorados em um restaurante não trocarem uma palavra, um toque de afeto, um sorriso ou um olhar entre si, apenas vidrados em seus smartphones. Pode parecer absurdo e impensável para demais gerações as quais, até pouco tempo, faziam de tudo, com o pouco que lhes dispunha, para o maior convívio e contato possível. Essa, porém, é a modernidade líquida de Bauman, presente e consolidada em nosso contemporâneo. As amizades, nos dias de hoje, portanto, viram, antes de mais nada, uma relação de interesses, na qual até mesmo aquelas em que a aproximação e o contato físico permanecem são interferidas e pautadas pela liquidez virtual. Gradativamente vão se extinguindo os amigos verdadeiros e a parceria inseparável, ao mesmo tempo que o homem precisa cada vez mais deles diante de sua solidão “tapada pela peneira” dos milhões de usuários. Fica, infelizmente, mais fácil de se contar os amigos nos dedos (sobram dedos), e mais difícil de se contar os “amigos” nas redes ( falta conhecê-los). 67GE REDAÇÃO 2016 REDAÇÃO QUE IMPRESSIONA O AVALIADOR Foi uma excelente opção recorrer ao so- ciólogo Zygmunt Bauman para abrir uma redação cujo tema é a amizade nos dias de hoje. A citação de autoridade não poderia ser mais oportuna, já que Bauman é, se não o principal, um dos principais teóricos sobre as relações sociais na pós-modernidade. Em suas obras, aponta para a fluidez das rela- ções pessoais, seja entre casais, familiares ou amigos, como a grande marca da atuali- dade. Nessa sociedade líquida, segundo o autor, traços importantes são a insatisfação permanente e a baixa tendência ao com- prometimento com o outro. Essas caracte- rísticas são muito visíveis nas relações de amizade intermediadas pelos dispositivos virtuais, como coloca a proposta de redação. Dessa forma, a relação dessa referência com o tema indicado é muito precisa. Ao longo de toda a redação, o vestibulan- do retoma as ideias da citação, conectan- do-as aos seus argumentos e à sua resposta para a pergunta presente na proposta de redação (“Em sua opinião, o que é a amiza- de nos dias de hoje?”), o que confere ainda maior qualidade ao texto. O texto traz dois parágrafos argumen- tativos. No primeiro deles (o segundo da redação), além de fazer um breve resgate sobre como a configuração das relações pessoais se alterou do passado para a atualidade, o concorrente antecipa sua posição quanto ao que é a amizade hoje: uma troca de favores. No parágrafo seguin- te, ele utiliza argumentos semelhantes àqueles presentes no texto da proposta (sem copiá-los) e traz um novo exemplo, o do casal de namorados num restaurante. Na conclusão, o estudante volta a respon- der, agora de forma mais definitiva, o questio- namento da proposta. Afirma que a amizade é, hoje, uma relação de interesses e que essa relação é pautada, mesmo nas amizades em que o contato físico permanece, pela liquidez virtual da nossa sociedade. Dessa forma, além de direcionar seus argumentos do 2° e 3° parágrafos para uma resposta à pergunta do enunciado, o autor elabora essa resposta de modo a mostrar o quanto sua referência a Bauman, na introdução, foi acertada. A redação impressiona o avaliador. Atende, muito bem, a todos os aspectos avaliados. Cumpre integralmente o tema apresentado pela proposta, respondendo ao questionamento sobre o que é amizade nos dias de hoje, com qualidade textual notável. Apresenta coerência na argumen- tação, coesão entre as partes do texto e simplicidade ao redigir, deixando de lado o uso desnecessário de vocabulário difícil. A qualidade do texto faz com que passe em branco o pequeno deslize do concorren- te ao escrever gadgets com “j” e enumerar smartphones, tablets e gadgets como três elementos diferentes, sendo que os dois pri- meiros são também considerados gadgets. análise 68 GE REDAÇÃO 2016 UFRGS 2015 Redação 2-- Amigos ou conexões? Amizade é um relacionamento que envolve pré-requisitos para se concretizar com sucesso, como o afeto, a lealdade, a parceria e a convivência. Na era da conectividade, a relação entre amigos é quase um desafio, já que os encontros presenciais são menos frequentes e reduzem o convívio. Além disso, a comodidade no uso de aplicativos e redes sociais, apesar de encurtar distâncias, permite um contato constante, porém, muitas vezes, superficial. Para que um relacionamento possa perdurar, deve ser construído e mantido através de convivência, empatia e cumplicidade. Essas condições valem para relações amorosas, familiares e de amizade. Atualmente, a sociedade vive uma rotina acelerada, de tempo escasso e acúmulo de atividades. Essa sobrecarga de compromissos impacta diretamente em suas interações sociais. A utilização da tecnologia, para encurtar as distâncias, acaba sendo adotada como medida para driblar a falta de tempo e manter contato. Grupos no “Whatsapp” e conversas no “Facebook” são soluções criadas para minimizar e manter amizades importantes e leais. Entretanto, a utilização de recursos digitais deve servir como meio agregador, e não como substituto, para os encontros presenciais. Havendo essa substituição, a amizade ficará fadada à superficialidade e não se sustentará. Ocorrerá, nesse caso, a banalização da amizade, em que as interações não se aprofundam e perdem significado. Um amigo deixará de ter fundamental importância na vida de alguém, transformando-se em uma mera conexão na rede social. Os diálogos, aos poucos, poderão perder a profundidade, que só um relacionamento forte proporciona, além de se tornarem cada vez mais escassos. Portanto, a amizade nos dias de hoje não difere da de outros tempos. O que muda são as maneiras de preservá-la em função das mudanças tecnológicas que influenciam a rotina da sociedade atual. Investir tempo, dedicação e interesse, conciliando os espaços “online” e “offline” é a grande solução para ter sempre por perto os grandes e verdadeiros amigos. Oração mal construída O verbo “reduzem” foi mal inserido na oração. O trecho final poderia ser substituído por “(...) e as situações de convivência são reduzidas” ou ainda por “e o convívio é reduzido” Ênclise correta Há uma vírgula antes do verbo e ele aparece em gerúndio Atenção Uso incorreto da vírgula. Evite fórmulas mágicas O emprego da expressão “grande solução” pode soar ingênuo, um pouco pretensioso ou clichê Repetição dos pronomes relativos Não chega a prejudicar o texto, mas torna a leitura menos agradável Bom posicionamento O autor responde diretamente ao questionamento motivador da redação 69GE REDAÇÃO 2016 ADEQUAÇÃO AO TEMA E BOA CONSTRUÇÃO A redação é muito bem construída. Há uma organização e divisão adequada entre as partes que compõem o texto (parágrafos e frases), conferindo boa progressão, ou encadeamento, até a conclusão. Há, ainda, o uso adequado de conectores, como “além disso”, “entretanto” e “portanto”, o que também concorre para uma redação coesa. A introdução, apesar de um pequeno deslize na segunda frase, foi bem feita e mostra que houve uma compreensão adequada da proposta de redação. O autor apresenta de forma leve e clara o tema da amizade nos dias de hoje, e faz uso das informações presentes na proposta de redação utilizando uma nova formulação. No segundo parágrafo, visando contex- tualizar o assunto (que é um dos critérios avaliados pela UFRGS), o autor traça um panorama das relações pessoais no mundo “maluco” de hoje e os motivos pelos quais as relações pessoais acabam mediadas pelas soluções virtuais. O candidato lança seu principal argu- mento e começa a construir o seu posicio- namento no terceiro parágrafo. Ele aponta, nesse momento, que os dispositivos virtu- ais são instrumentos a serem utilizados de maneira agregadora à amizade, e não substitutiva. Utilizando algumas informa- ções da proposta, mostra como as amizades podem ser prejudicadas caso tais meios virtuais não funcionem da forma ideal, ou seja, como agregadores. A elaboração da conclusão é bastante interessante. As ideias tratadas ao longo do texto culminam num posicionamento que agora aparece de forma mais direta. No parágrafo final fica claro o que é, para o estudante, a amizade nos dias de hoje. Seu posicionamento é de que o significado da amizade não é diferente do de outros tempos, mas que a forma de preservá-la mudou. Não é uma visão radical, mas pon- derada, sobre a influência do mundo virtual nos relacionamentos pessoais. Apesar de não ter trazido reflexões muito profundas ou elementos novos em relação ao cenário descrito na coletânea, o con- corrente teve o mérito de organizar muito bem o texto e construir uma redação coesa, como já dito, e também de demonstrar boa expressão linguística. Há boa seleção do vocabulário, bom domínio dos processos de construção das orações e razoável uso dos recursos de pontuação e das convenções ortográficas. Com esse conjunto de quali- dades, a redação provavelmente obteve uma das maiores notas do exame. análise 70 GE REDAÇÃO 2016 Unicamp 2015 TEXTO 1 Você integra um grupo de estudos for- mado por estudantes universitários. Pe- riodicamente, cada membro apresenta resultados de leituras realizadas sobre temas diversos. Você ficou responsável por elaborar uma síntese sobre o tema humanização no atendimento à saúde, que deverá ser escrita em registro formal. As fontes para escrever a síntese são um trecho de um artigo científico (excerto A) e um trecho de um ensaio (excerto B). Seu texto deverá contemplar: a) o conceito de humanização no atendi- mento à saúde; b) o ponto de vista de cada texto sobre o conceito, assim como as principais informações que sustentam esses pon- tos de vista; c) as relações possíveis entre os dois pon- tos de vista. O DIÁLOGO NA MEDICINA E NA SOLUÇÃO DE CONFLITOS A prova de 2015 da Universidade de Campinas manteve a exigência de apenas dois textos e testou a capacidade de síntese e de interlocução. Veja aqui as duas propostas e, nas páginas seguintes, redações bem avaliadas ou consideradas abaixo da média. As análises são da professora Nathália Macri Nahas Excerto A A humanização é vista como a capacida- de de oferecer atendimento de qualidade, articulando os avanços tecnológicos com o bom relacionamento. O Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH) destaca a importância da conjugação do binômio “tecnologia” e “fator humano e de rela- cionamento”. Há um diagnóstico sobre o divórcio entre dispor de alta tecnologia e nem sempre dispor da delicadeza do cuida- do, o que desumaniza a assistência. Por outro lado, reconhece-se que não ter recursos tecnológicos, quando estes são necessários, pode ser um fator de estresse e conflito entre profissionais e usuários, igualmente desumanizando o cuidado. Assim, embora se afirme que ambos os itens constituem a qualidade do sistema, o “fator humano” é considerado o mais estratégico pelo documento do PNHAH, que afirma: (...) as tecnologias e os dispositivos orga- nizacionais, sobretudo numa área como a da saúde, não funcionam sozinhos – sua eficácia é fortemente influenciada pela qualidade do fator humano e do relacionamento que se estabelece entre profissionais e usuários no processo de atendimento. (Ministério da Saúde, 2000). Adaptado de Suely F. Deslandes, Análise do Dis- curso Oficial Sobre a Humanização da Assistência Hospitalar. Ciência & saúde coletiva. Vol. 9, n. 1, p. 9-10. Rio de Janeiro, 2004. Excerto B A famosa Faculdade para Médicos e Cirur- giões da Escola de Medicina da Columbia University, em Nova York, formou recente- mente um Programa de Medicina Narrativa que se ocupa daquilo que veio a se chamar “ética narrativa”. Ele foi organizado em resposta à percepção recrudescente do sofrimento – e até das mortes – que podia ser atribuído parcial ou totalmente à ati- tude dos médicos de ignorarem o que os pacientes contavam sobre suas doenças, sobre aquilo com que tinham que lidar, sobre a sensação de serem negligenciados e até mesmo abandonados. Não é que os mé- dicos não acompanhassem seus casos, pois eles seguiam meticulosamente os pron- tuários de seus pacientes: ritmo cardíaco, hemogramas, temperatura e resultados dos exames especializados. Mas, para pa- rafrasear uma das médicas comprometidas com o programa, eles simplesmente não ouviam o que os pacientes lhes contavam: as histórias dos pacientes. Na sua visão, eles eram médicos “que se atinham aos fatos”. “Uma vida”, para citar a mesma médica, “não é um registro em um prontuário”. Se um paciente está na expectativa de um grande e rápido efeito por parte de uma intervenção ou medicação e nada disso acontece, a queda ladeira abaixo tem tanto o seu lado biológico como psíquico. “O que é, então, a medicina narrativa?”, perguntei*. “Sua responsabilidade é ouvir o que o paciente tem a dizer, e só depois decidir o que fazer a respeito. Afinal de Proposta de redação 71GE REDAÇÃO 2016 contas, quem é o dono da vida, você ou ele?”. O programa de medicina narrativa já começou a reduzir o número de mortes causadas por incompetências narrativas na Faculdade para Médicos e Cirurgiões. *A pergunta é feita por Jerome Bruner a Rita Charon, idealizadora do Programa de Medicina Narrativa. Adaptado de Jerome Bruner, Fabricando Histó- rias: Direito, Literatura, Vida. São Paulo: Letra e Voz, 2014, p. 115-116. TEXTO 2 Em busca de soluções para os inúmeros incidentes de violência ocorridos na escola em que estudam, um grupo de alunos, inspirados pela matéria “Conversar para resolver conflitos”, resolveu fazer uma primeira reunião para discutir o assunto. Você ficou responsável pela elaboração da carta-convite dessa reunião, a ser en- dereçada pelo grupo à comunidade esco- lar – alunos, professores, pais, gestores e funcionários. A carta deverá convencer os membros da comunidade escolar a participarem da reunião, justificando a importância desse espaço para a discussão de ações concretas de enfrentamento do problema da violência na escola. Utilize as informações da matéria abaixo para construir seus argumentos e mostrar possibilidades de solução. Lembre-se de que o grupo deverá assinar a carta e também informar o dia, o horário e o local da reunião. CONVERSAR PARA RESOLVER CONFLITOS Quando a escuta e o diálogo são as regras, surgem soluções pacíficas para as brigas Alunos que brigam com colegas, pro- fessores que desrespeitam funcionários, pais que ofendem os diretores. Casos de violência na escola não faltam. A pesquisa O Que Pensam os Jovens de Baixa Renda sobre a Escola, realizada pelo Centro Bra- sileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) sob encomenda da Fundação Victor Civita (FVC), ambos de São Paulo, revelou que 11% dos estudantes se envolveram em conflitos com seus pares nos últimos seis meses e pouco mais de 8% com professores, co- ordenadores e diretores. Poucas escolas refletem sobre essas situações e elaboram estratégias para construir uma cultura da paz. A maioria aplica punições que, em vez de acabarem com o enfrentamento, estimu- lam esse tipo de atitude e tiram dos jovens a autonomia para resolver problemas. Segundo Telma Vinha, professora de Psico- logia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e colunista da revista NOVA ESCOLA, implementar um projeto ins- titucional de mediação de conflitos é funda- mental para implantar espaços de diálogo sobre a qualidade das relações e os proble- mas de convivência e propor maneiras não violentas de resolvê-los. Assim, os próprios envolvidos em uma briga podem chegar a uma solução pacífica. Por essa razão, é importante que, ao longo do processo de implantação, alunos, professores, gestores e funcionários sejam capacitados para atuar como mediado- res. Esses, por sua vez, precisam ter algumas habilidades como saber se colocar no lugar do outro, manter a imparcialidade, ter cuidado com as palavras e se dispor a escutar. O projeto inclui a realização de um levan- tamento sobre a natureza dos conflitos e um trabalho preventivo para evitar a agres- são como resposta para essas situações. Além disso, ao sensibilizar os professores e funcionários, é possível identificar as vio- lências sofridas pelos diferentes segmentos e atuar para acabar com elas. Pessoas capacitadas atuam em encontros individuais e coletivos Há duas formas principais de a media- ção acontecer, segundo explica Lívia Maria Silva Licciardi, doutoranda em Psicologia Educacional, Desenvolvimento Humano e Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A primeira é quando há duas partes envolvidas. Nesse caso, ambos os lados se apresentam ou são chamados para conversar com os mediadores – nor- malmente eles atuam em dupla para que a imparcialidade no encaminhamento do caso seja garantida – em uma sala reservada para esse fim. Eles ouvem as diversas ver- sões, dirigem a conversa para tentar fazer com que todos entendam os sentimentos colocados em jogo e ajudam na resolução do episódio, deixando que os envolvidos proponham caminhos para a decisão final. A segunda forma é utilizada quando acontece um problema coletivo – um alu- no é excluído pela turma, por exemplo. Diante disso, o ideal é organizar mediações coletivas, como uma assembleia. Nelas, um gestor ou um professor pauta o encontro e conduz a discussão, sem expor a vítima nem os agressores. “O objetivo é fazer com que todos falem, escutem e proponham saídas para o impasse. Assim, a solução 72 GE REDAÇÃO 2016 deixa de ser punitiva e passa a ser forma- tiva, levando à corresponsabilização pelos resultados”, diz Ana Lucia Catão, mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Uni- versidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ela ressalta que o debate é enriquecido quando se usam outros recursos: filmes, peças de teatro e músicas ajudam na con- textualização e compreensão do problema. No Colégio Estadual Federal (CEF) 602, no Recanto das Emas, subdistrito de Bra- sília, o Projeto Estudar em Paz, realizado desde 2011 em parceria com o Núcleo de Estudos para a Paz e os Direitos Humanos da Universidade de Brasília (NEP/UnB), tem 16 alunos mediadores formados e outros 30 sendo capacitados. A instituição conta ainda com 28 profes- sores habilitados e, desde o começo deste ano, o projeto faz parte da formação conti- nuada. “Os casos de violência diminuíram. Recebo menos alunos na minha sala e as depredações do patrimônio praticamente deixaram de existir. Ao virarem protagonis- tas das decisões, os estudantes passam a se responsabilizar por suas atitudes”, conta Silvani dos Santos, diretora. (...) “Es- sas propostas trazem um retorno muito grande para as instituições, que conseguem resultados satisfatórios. É preciso, porém, planejá-las criteriosamente”, afirma Suzana Menin, professora da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Adaptado de Karina Padial, Conversar Para Re- solver. Gestão Escolar. São Paulo, no. 27, ago/set 2013. http://gestaoescolar.abril.com.br/formacao/ conversar-resolver-conflitos-brigas-dialogo-762845. shtml?page=1. Acessado em 02/10/2014. INSTRUÇÕES Neste caderno, na prova de Redação, de- verão ser elaborados 2 textos (Texto 1 e Tex- to 2). Os textos são de execução obrigatória. Não deverá haver nenhuma identificação pessoal (nome, sobrenome etc.) nos textos. A prova deve ser feita a caneta esfero- gráfica preta. Utilize apenas o espaço re- servado (página pautada com 24 linhas). anÁlise DA PROPOSTA FORMAS DIFERENTES DE INTERLOCUÇÃO COLETIVA Na prova de redação, o vestibular da Unicamp 2015 apresentou, como no ano anterior, duas propostas baseadas em tipos textuais distintos, em diálogo com a interpretação de uma coletânea de ou- tras formas textuais. Nesse exame, para se obter um bom resultado, era essencial atentar-se às orientações oferecidas em relação a cada texto a ser desenvolvido, pois cada tipo textual possui suas parti- cularidades e suas exigências. Assim, era preciso considerar também o contexto em que cada redação seria inserida. O can- didato deveria ter claro seu papel como emissor da mensagem, o interlocutor (a quem o texto se destina), o conteúdo que a redação deveria contemplar e o canal pelo qual o texto seria criado. O candidato deveria ainda atentar-se às informações suscitadas pela coletânea das propostas. A primeira proposta solicitava uma sínte- se sobre a humanização no atendimento à saúde, a partir das informações de dois tex- tos-base: um artigo científico e um ensaio. A síntese reúne informações de diferentes fontes em uma só produção, ressaltando os aspectos importantes dos textos-base. Não é um simples resumo, pois a síntese traz as possíveis relações entre os textos principais, criando um único discurso. O candidato, então, deveria colocar-se como um estudante universitário que participa de um grupo de estudos, o qual seria seu interlocutor. Era fundamental expor nessa redação o conceito de huma- nização no atendimento à saúde – dado no primeiro texto–, o posicionamento de cada texto-base e a relação possível entre eles em linguagem formal. Para o êxito dessa proposta, o candidato precisava ler atentamente a coletânea, destacando os principais conceitos e o ponto de vista de cada um dos textos da coletânea. A segunda proposta, a carta-convite, exigia do candidato um contexto mais elaborado. Esse tipo textual implica que o redator traga argumentos para persuadir o leitor a realizar o que se espera – no caso, comparecer ao encontro da comunidade escolar. O candidato deveria citar os obs- táculos e soluções, o que indicaria ao leitor objetivos palpáveis para serem discutidos. Para isso, o candidato deveria utilizar-se da reportagem sobre o tema, contendo estatísticas e opiniões, alguns exemplos e soluções. O candidato também não poderia esquecer-se de assinar em nome de um grupo fictício, e principalmente de indicar o local, o dia e o horário da reunião, o que provavelmente zeraria a nota desse texto. Unicamp 2015 73GE REDAÇÃO 2016 Humanização no atendimento à saúde O ato de somar os avanços tecnológicos ao bom relacionamento, a fim de proporcionar um atendimento de qualidade, é o que entende-se por humanização. No trecho do artigo científico “Análise do discurso oficial sobre a humanização da assistência hospitalar” de Suely Deslandes, a humanização no atendimento à saúde é importante pois, se houver tecnologia sem bom relacionamento, segundo o artigo, “desumaniza a assistência”, e, se houver atendimento sem tecnologia, quando esta é necessária, acaba “desumanizando o cuidado”. Entretanto, apesar de tecnologia e relacionamento serem importantes, o “fator humano” tem maior relevância, de acordo com o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH). O trecho do ensaio de Jerome Bruner, “Fabricando histórias: direito, literatura, vida”, trata da importância do médico escutar o que o paciente tem a dizer, antes de tratá-lo. Para isso, toma como base um Programa de Medicina Narrativa desenvolvido na Faculdade para Médicos e Cirurgiões da Escola de Medicina da Columbia University, cujo objetivo é atentar-se para o que o paciente tem a dizer, antes de intervir em seu caso clínico. Segundo os organizadores do programa, o número de mortes por incompetências narrativas já começou a diminuir na Faculdade da Columbia University. Ambos os trechos, artigo científico e ensaio, ressaltam a importância do bom relacionamento entre profissionais e usuários e a necessidade de se atentar ao papel do profissional, seja para controlar os equipamentos tecnológicos, seja para bem atender pessoalmente. Redação 1 análise SÍNTESE PRECISA E CONCISA DOS TEXTOS DA COLETÂNEA O texto em questão apresenta uma boa adequação ao gênero solicitado, o que lhe garantiu a avaliação acima da média pela banca examinadora. Podemos observar que o candidato elabora de forma concisa e completa uma síntese sobre a humaniza- ção no atendimento à saúde a partir de uma leitura aprofundada dos textos oferecidos pela coletânea. O vestibulando acerta em oferecer ao inter- locutor, que seria o grupo de estudos do qual supostamente faria parte, a definição sobre quis defender. Ressalta-se em sua síntese a citação das pesquisas que permitiram ao autor do ensaio elaborar seu ponto de vista sobre o tema. A conclusão da redação apresenta ao leitor, de forma resumida, a relação entre ambos os textos da coletânea, encerrando o assunto de maneira objetiva e concisa. O diálogo entre o artigo de opinião e o ensaio indicado na conclusão ratifica a importância da humanização no atendimento à saúde, correspondendo àquilo que os examinadores esperavam do gênero proposto. O candidato ainda acerta ao elaborar seu texto em uma linguagem clara, objetiva, respeitando o registro formal, apesar da ocorrência de alguns pequenos desvios gra- maticais. Seu texto indica a leitura atenta e eficaz da coletânea e uma interpretação bem elaborada, apresenta os principais aspectos dos textos-base, trazidos em um discurso conciso e objetivo. Sua avaliação foi consi- derada muito positiva pela banca. a humanização relativa à saúde. Essa estra- tégia é eficaz, pois o redator deveria trazer esse conceito conforme solicitava a proposta. Dessa maneira, apresentar a informação logo no começo da introdução permitiu ao autor do texto iniciar objetivamente sua síntese nos parágrafos seguintes, deixando seus interlocutores cientes do que se trata a humanização no atendimento à saúde. Em seguida, o candidato cita explicitamen- te o primeiro texto do qual fala, uma estra- tégia permitida pelo tipo textual. A partir de uma leitura atenta, o redator apresenta os principais pontos do primeiro texto sintetiza- do, o artigo de opinião. Ele evidencia em sua síntese a importância do caráter humano no atendimento à saúde, informando de forma clara seus interlocutores. A mesma estratégia é mantida no texto em relação ao ensaio sobre humanização. O candidato expõe os pontos centrais de sua leitura, explicando suscintamente o que o autor do texto oferecido pela coletânea Próclise O pronome relativo “que” atrai o pronome “se”: o que se entende Sujeito, não objeto Seria “do médico” se fosse objeto, como se trata de sujeito do verbo escutar, o correto seria “a importância de o médico escutar...” Vírgula Aqui, “pois” é uma conjunção que articula uma oração coordenada explicativa, devendo ser antecedido por vírgula Faltou apostar O nome da autora deveria estar apostado, entre vírgulas Elegância e domínio Evite a repetição tão próxima de palavras 74 GE REDAÇÃO 2016 Campinas, 11 de Janeiro de 2015 Prezados pais, alunos, professores, gestores e funcionários da escola Acreditamos que seja do conhecimento de todos vocês a ocorrência de um grande número de incidentes de violência em nossa escola. Após percebermos um aumento constante no número dessas ocorrências e pouca reflexão e elaboração de estratégias por parte da comunidade escolar para solucionar os problemas, nós, alunos de variadas séries, nos reunimos em um grupo e desejamos convidá-los a se reunir conosco para debatermos o assunto e pensarmos possíveis soluções. A participação de todos vocês nessa reunião é de extrema importância para que consigamos contemplar a opinião dos mais variados grupos, ao mesmo tempo em que será possível dialogar sobre os acontecimentos. Procurando fontes para nos auxiliar na busca por soluções, encontramos a matéria “conversar para resolver conflitos”, no site “Gestão Escolar”, e estamos convencidos de que soluções pacíficas são possíveis de serem conseguidas por meio do dialogo, o que reduz, ou até mesmo extingue a violência que permeia as discussões e agressões. A partir de nossas pesquisas, chegamos a conclusão de que é preciso, sobretudo, realizarmos um trabalho preventivo, com fomento de debates e elaboração de palestras. Acreditamos, ainda, na formação de pais, professores, alunos e funcionários como mediadores, para que sejam capazes de auxiliar nos conflitos e de se colocarem no lugar dos outros, o que educará a todos contra os malefícios da violência. Essas medidas contribuirão para melhoria das relações interpessoais e para o rendimento dos alunos, o que trará inúmeros benefícios para a comunidade escolar. Aguardamos a todos no ginásio esportivo da escola, no dia 16 de Fevereiro, às 20:00 horas, para darmos continuidade à conversa. Obrigado. Grupo de alunos da escola Unicamp 2015 Redação 2- Acerto formal O candidato coloca local e data na carta, e faz a saudação no endereçamento. Uma vírgula após “escola” faria parte dessa saudação Faltou crase “Conclusão” é um substantivo antecedido pelo artigo feminino “a”, e quem chega, chega a algum lugar Fiel à solicitação O autor registra precisamente o local do evento, agradece a todos e assina 75GE REDAÇÃO 2016 análise BOA FUNDAMENTAÇÃO E ESTRUTURA ADEQUADA O texto apresenta de forma clara e ob- jetiva os elementos esperados de uma carta-convite. Desde o cabeçalho, o candi- dato respeita a estrutura clássica do tipo textual solicitado, embora ele pudesse ter apresentado um fechamento mais formal. A introdução é também eficaz, pois o au- tor logo indica o assunto do qual se trata a carta e faz o convite para a participação da comunidade escolar na reunião em que se discutiria a questão da violência, conforme demandava a proposta. O candidato segue uma estratégia inte- ressante: apresenta, no desenvolvimen- tecimentos que envolvem a violência e a formação de pais, funcionários e professores para o auxílio daqueles que sofrem com o problema. O redator, assim, corresponde às demandas da proposta no que tange à argumentação, mostrando propostas de intervenção concretas e bem relacionadas entre si. A carta-convite solicitada pela banca é um texto argumentativo, pois se esperava que o candidato fosse capaz de convencer o leitor a participar da reunião. Nesse tipo de texto, é fundamental que os argumentos apresentados sejam bem articulados, afinal eles são parte da mesma situação-problema abordada. Ao finalizar o parágrafo mostran- do que as medidas contribuirão para a dimi- nuição da violência, o candidato encerra a argumentação mantendo a coesão do texto. O término da carta, também eficaz, reitera o convite à comunidade escolar e indica ain- da o local do encontro. A assinatura também está coerente com a proposta. O candidato mostrou-se atento às instruções da prova, assim como aos aspectos exigidos pelo tipo textual, sobressaindo-se no exame. to da carta, uma justificativa do convite. A presença de todos é solicitada para que soluções para o entrave discutido sejam debatidas. Dessa maneira, o autor do texto consegue indicar que o convite pressupõe a adesão de todos para combater algo que também atinge a todos. Em seguida, é feito explicitamente o diálogo com o texto da coletânea – uma estratégia permitida nesse gênero – funcionando bem como uma base para as soluções que seriam discutidas no encontro. A proposta instruía o candidato a apoiar-se no texto oferecido para elaborar possíveis soluções ao entrave da violência. O modo como o candidato vale-se desse recurso foi muito eficiente, pois ele, dessa maneira, fundamenta as soluções pensadas, dando uma credibilidade maior aos seus argumentos. Nesse caso, ele também acerta ao indicar a fonte de onde teria extraído o texto, reforçando a credibilidade. Ainda no desenvolvimento, o candidato acerta novamente ao apresentar ao leitor quais soluções foram imaginadas: o tra- balho preventivo, o debate sobre os acon- 76 GE REDAÇÃO 2016 notas baixas A prender com os erros também pode ajudá-lo. Aqui, damos alguns exemplos de textos considerados pelos avaliadores como abaixo da média espera- da. As redações foram divulga- das pela Unicamp em seu portal do vestibular (www.comvest. unicamp.br). A partir de 2015, a prova de redação da Unicamp passou a ser realizada na segunda fase. Como em 2014, pediu dois tex- tos. A nota final de redação é a soma das notas de ambos, e ze- rar a nota em um dos gêneros de texto não elimina o candidato. gêgêgg nenen rororo OO OO cocoorrrrrretetetettoooo oo sesesseeririririaaa g “aa hhhumumumumananannizizizzaçaçaççãoãoãoão éé é dededed fififiininininnidadadad ” ErErErErrorororro ssutututiliilil AAA cococoonjnjnjjjununununçãçãçãççãçç oooooo “eeeee” nnãnãooo o dedddeveveev sserererr j ç seeseepapapapp rarar dadada pppppppporrororor vívívívíív rgrgrgrgrggululuuululaaa ququuquququananananannddododododo eleleellaaaaaa a lilililil gagagaggagg dddddduauauauau sss oroororaçaççççõeõeõess cococoommm m oooo memmem smmmmoooo susuuujejejej ititittittoooooo UsUsUU eee esese sesee,,,, dededesse.e.e....... .....p.p.pparaarraa see rrrefefererririrr aaaa alaalallgogogogo cccitititadadadooo ananaanteteeteririririoroorormementtnteeee ErErErrrrororoross dedede acacaceneentuttuaçaçççãoãoo (1(1)) méémédiddicocoos,s,s,, nenececessárárárioioioio; ; (2(2))) crcrrasase e inindededevivividadada Grupo, aqui estão os meus resultados de leituras realizadas sobre o tema “humanização no atendimento à saúde”. No artigo científico lido “humanização” é definido como a capacidade de atrelar bom atendimento médico e bom relacionamento. O artigo diz, posteriormente, que há um programa nacional que destaca a importância da humanização da saúde, e usa deste programa para sustentar o seu ponto de vista de que, embora o fator humano não resolva nada sozinho, ele é o de maior importância. No trecho de um ensaio lido é dito que a Faculdade de Medicina da Columbia University criou um “Programa de Medicina narrativa” que se dedica a treinar os medicos(1) para ouvirem mais os pacientes. Segundo o texto, esse programa foi criado em resposta à percepção de que muitos pacientes sofriam e até mesmo morriam simplesmente porque os médicos não lhes ouviam. No final do texto é dito que o programa criado já reduziu o número de mortes, e isto é usado para defender o ponto de vista do autor de que é necessario (1) “humanizar” à (2) saúde. Por fim, é possível relacionar os pontos de vista dos dois textos como sendo complementares, já que ambos utilizam argumentos diferentes para defender uma mesma ideia: é necessário humanizar o atendimento médico. Apesar de adequar-se ao gênero textual solicitado em seu conjunto, a redação não foi bem avaliada. A síntese não informa suficientemen- te o leitor sobre os principais aspectos de cada texto da coletânea. Além disso, a estrutura elaborada também não foi eficiente e há desvios de linguagem. Note no trecho que grifamos, já na introdução, que ao decidir saudar os membros do grupo o autor acabou por narrar que faria a síntese, uma estratégia que não é adequada ao gênero textual. A proposta pedia uma síntese da leitura, e não uma narrativa dela, embora o candidato tenha concluído que a síntese seria lida. análise Tanto em sua síntese para definir “humanização”, quanto para as ideias colocadas na reportagem dada na coletânea, o candidato é breve, incompleto ou pouco claro. O intuito da síntese é oferecer ao interlocutor os aspectos mais relevantes de um texto de forma concisa e objetiva. Para concluir a produção, o autor foi pouco eficiente ao apresentar a relação entre os dois textos-base. O texto ainda apresenta desvios de linguagem ligados à pontua- ção, à acentuação, à escolha lexical e à repetição, que prejudicam a compreensão. Assim, mesmo que tenha produzido uma síntese, esses aspectos comprometeram a adequação ao gênero textual, sua expressão e, naturalmente, sua avaliação. SÍNTESE POUCO INFORMATIVA Unicamp 2015 Redação I - Síntese / Abaixo da Média 77GE REDAÇÃO 2016 REdação 2 - Carta / Abaixo da Média- São Paulo, 11 de janeiro de 2015. Caros alunos, pais, funcionarios, professores e gestores, membros da comunidade vinculada a Escola Estadual I. H. Eu M.A.S., membro do grupo escolar, venho por meio desta carta convidar você a participar da assembleia que abordara os conflitos gerados na escola com assuntos de suma importância como: brigas, desrespeito, ofenças, lazer e melhorias para o convívio na escola, juntos buscaremos soluções pacíficas e eficazes, bem como sabem à escola passa por diversas ocorrências de violência e depredação e que posteriormente reflete no rendimento escolar, diga- se de passagem a marginalização da comunidade escolar e evasão dos alunos. O objetivo da reunião é pautar esses problemas com a ajuda da comunidade escutando e buscando soluções. A assembleia será realizada na Escola Estadual I. H. no dia, 17, de janeiro de 2015 às 10:00 horas. Sua participação é de exprema importância M.A.S comunicação social, J.A. assistência social. Falhas na acentuação AA rerer grgrgrg aa pepepp dede aacecentnttooo ç ememm ffunununcicicionononárárrioioios ee e ememm ababbororordadad rárár .. AA A crcrrasa ee e éé é ininindededevivividadada ErErrrororos dede ggggrarar fifiaa ee atatenençãçãooo Ofensas, extrema DESVIOS DA PROPOSTA COMPROMETEM O TEXTO O texto foi considerado adequado ao tema, no entanto, devido a desvios importantes, não recebeu uma boa nota. O redator elabora uma carta-convite, mas não atende plenamente aos elementos solicitados pela proposta. Ele acerta no cabeçalho, mas, desde a introdução, a carta deixa a desejar. Na introdução, o objetivo da carta não é evidenciado de forma clara e coerente: ainda que haja o convite, não está bem elaborado o motivo da reunião. O candidato não especifica o assunto logo de início e ainda apresenta questões ligadas a lazer e a melhorias gené- ricas na escola como pautas para o encontro. A proposta solicitava ao candidato a elaboração de uma carta em que o tema “violência” fosse bem trabalhado e fosse a motivação para o encontro. Ao mis- turar outros temas, o redator distancia-se das instruções pedidas, o que prejudica sua nota. análise No parágrafo seguinte, o candidato indica de forma pouco apro- fundada qual seria a intenção da reunião e não mostra nenhuma possibilidade de solução, algo solicitado pela proposta. É funda- mental perceber que fora solicitada uma carta argumentativa, que deveria convencer o leitor a participar da suposta reunião por meio de argumentos concretos sobre os conflitos ligados à violência. Mas, nessa redação, o candidato não desenvolve seu ponto de vista sobre o assunto e não indica nenhuma intervenção, deixando ainda de lado o diálogo com o artigo dado na coletânea. A finalização da carta está dentro do esperado, entretanto o candidato assina como alguém que faz parte da “comunicação social de assistência social” e, novamente, ele se distancia da proposta. Além dos aspectos ligados à estrutura da carta e à argumentação, o texto apresenta problemas de ortografia, acentuação, regência e pontuação, o que prejudica a compreensão do texto e compromete a sua avaliação. 82 GE REDAÇÃO 2016 enem 2013 A proposta de redação da prova de 2013 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) voltou a abordar uma questão social e sua dimensão em políticas públicas. Desta vez o tema foi a adoção da Lei Seca no país. Veja aqui a proposta e, nas páginas seguintes, redações que receberam excelentes avaliações e ficaram entre os 0,9% que obtiveram nota de 900 a mil. Das 5.049.248 redações realizadas, apenas 481 receberam nota mil nessa prova. As análises são do professor Davi Fazzolari ©WWW.OPERACAOLEISECARJ.RJ.GOV.BR/A-LEI-SECA/ Proposta de redação A ação do poder público sobre o indivíduo A partir da leitura dos textos motiva- dores seguintes e com base nos conhe- cimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo- argumentativo na modalidade escrita for- mal da língua portuguesa sobre o tema “Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil”, apresentando proposta de inter- venção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista. QUAL O OBJETIVO DA “LEI SECA AO VOLANTE”? De acordo com a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), a utilização de bebidas alcoólicas é responsável por 30% dos acidentes de trânsito. E metade das mortes, segundo o Ministério da Saúde, está relacionada a uso de álcool por moto- ristas. Diante deste cenário preocupante, a Lei 11.705/2008 surgiu com uma enorme missão: alertar a sociedade para os perigos do álcool associado à direção. Para estancar a tendência de crescimento de mortes no trânsito, era necessária uma ação enérgica. E coube ao Governo Federal o primeiro pas- so, desde a proposta da nova legislação à aquisição de milhares de etilômetros. Mas, para que todos ganhem, é indispensável a participação de estados, municípios e sociedade em geral. Porque, para atingir o bem comum, o desafio deve ser de todos. Disponível em: www.dprf.gov.br. Acesso em: 20 jun. 2013. REPULSÃO MAGNÉTICA A BEBER E DIRIGIR A lei da física que comprova que dois po- los opostos se atraem em um campo mag- nético é um dos conceitos mais populares desse ramo do conhecimento. Tulipas de chope e bolachas de papelão não servem, em condições normais, como objetivos de experimento para confirmar essa proposta. A ideia de uma agência de comunicação em Belo Horizonte foi bem simples. Ímãs foram inseridos em bolachas utilizadas para 83GE REDAÇÃO 2016 descansar os copos, de forma imperceptível para o consumidor. Em cada lado, há uma opcão para o cliente: dirigir ou chamar um táxi depois de beber. Ao mesmo tempo, tuli- pas de chope também receberam pequenos pedaços de metal mascarados com uma pequena rodela de papel na base do copo. Durante um fim de semana, todas as bebi- das servidas passaram a pregar uma peça no cliente. Ao tentar descansar seu copo com a opção dirigir virada para cima, os ímãs apresentavam a mesma polaridade e, portanto, causando repulsão, fazendo com que o descanso fugisse do copo; se estivesse virada mostrando o lado com o desenho de um táxi, ela rapidamente grudava na base do copo. A ideia surgiu da necessidade de passar a mensagem de uma forma leve e no exato momento do consumo. Disponível em: www.operacaoleisecarj.rj.gov.br. Acesso em: 20 jun. 2013. (adaptado). Instruções: * O rascunho da redação deve ser feito no espaço apropriado. * O texto definitivo deve ser escrito à tinta, na folha própria, em até 30 linhas. * A redação que apresentar cópia dos textos da Proposta de Redação ou do Caderno de Questões terá número de linhas copiadas desconsiderado para efeito de correção. Receberá nota zero, em qualquer das situ- ações expressas a seguir, a redação que: * tiver até 7 (sete) linhas escritas, sendo considerada “insuficiente”. * fugir ao tema ou que não atender ao tipo dissertativo-argumentativo. * apresentar proposta de intervenção que desrespeite os direitos humanos. * apresentar parte do texto deliberadamen- te desconectada com o tema proposto. O tema de redação do Enem 2013 aque- ce, por escrito, discussão acerca de uma contundente questão nacional: o ato de dirigir veículos, caminhões, motocicletas etc. após ter ingerido bebida alco ólica. O Enem manteve, assim, sua tradição de abordar uma questão social de grande penetração social e em todo o território, uma situação cultural bastante significa- tiva (e polêmica!). Um breve texto descritivo da Polícia Rodoviária Federal introduzia a lei e sua motivação ao estudante, ilustrado por um cartaz do governo federal e por um conjun- to de dados numéricos sobre a adoção da Lei Seca. Esses dados foram selecionados de um portal do Governo do Rio de Janeiro e tinham como fonte o próprio governo, o Ministério da Saúde, a prefeitura da capital carioca e um instituto privado de pesquisa. Completava a antologia uma descrição em prosa de uma iniciativa publicitária em Belo Horizonte, talvez sugerindo ao candi- dato que o caminho das campanhas seria conveniente para a sua argumentação. Dados advindos do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e de Brasília podem ter levado um estudante atento a considerar situações mais próximas de sua realidade, e a propor modificações e medidas aplicá- veis tanto nos hábitos brasileiros como NOVA INSTRUÇÃO DA PROVA A partir da prova de 2013, zeram a nota da redação desvios do tema, como receitas culinárias, hinos, tentativas de estabelecer conversas com o avaliador ou brincadeiras. Essa nova instrução tende a ser mantida nas próximas edições. anÁlise DA PROPOSTA nas leis e nos métodos utilizados em seu estado ou em sua cidade. Dentro dessa perspectiva, espelhando-se no sucesso da lei federal, os candidatos a uma vaga em nossas universidades públicas poderiam sugerir aos poderes estaduais e munici- pais, mais habilitados, em tese, a consi- derar situações específicas de sua região, a formular leis mais íntimas às realidades locais. A necessidade de colaboração de governos, de prefeituras e da sociedade, que aparece ao final do texto da Polícia Rodoviária Federal, poderia ser utilizada pelo autor para a proposta de intervenção social, exigida e valorizada pelo Enem em sua 5ª competência, responsável por 20% do universo avaliativo da prova. PROBLEMATIZAÇÃO E ARGUMENTAÇÃO Mesmo diante de um tema aparentemen- te árido, o estudante deveria garantir uma análise isenta. Para tanto, era necessário manter distanciamento crítico, abordar situações factuais de modo mais panorâ- mico e evitar argumentos exemplificativos muito particulares. Em outras palavras, era preciso acolher o tema em uma pers- pectiva social e desenvolver um ponto de vista que problematizasse a necessidade de modificar hábitos culturais. Um bom caminho poderia ser estabeleci- do por reflexões acerca das causas sociais que têm produzido os trágicos dados ofe- recidos pela proposta. Além disso, ques- tionar e discorrer sobre as consequências da conjugação de álcool e direção não só individuais, mas também sociais, traria universalização a esse tema normalmente tratado sob um ponto de vista subjetivo e moralista. O desafio maior estava em se descolar de situações pontuais e produzir argumentos a partir da observação crítica de certos aspectos da cultura nacional. 84 GE REDAÇÃO 2016 enem 2013 Redação 1- Conclusão Traz uma proposta de intervenção social coerente e adequada ao tema Introdução Define que a abordagem será cultural e comportamental Retrospectiva Uma breve retrospectiva da lei antecipa o contraponto Conectivo O conectivo adversativo mas introduz o contraponto Sem álcool Ao se falar em momento de diversão é impossível para muitas pessoas desvincular a imagem de boas risadas de uma lata de cerveja ou um copo de caipirinha. Um churrasco na casa de amigos não é verdadeiramente um churrasco se não for acompanhado por algumas tulipas de chope. E como “homem que é homem não se deixa derrubar por um pouco de cerveja”, lá se vão os casais, famílias e grupos de conhecidos sendo guiados por aqueles que não admitem que ninguém encoste em seus preciosos carros. A lei seca, ao entrar em vigor, foi um exemplo de rigor e motivo de orgulho. Policiais munidos de bafômetros por todas as partes, motoristas que se preocupavam até mesmo com o fato de seu enxaguante bucal ter álcool em sua fórmula ou não. As ruas ficaram mais seguras, menos pessoas morreram e os taxistas – diga-se de passagem – ficaram eternamente gratos pela lei. E fora das ruas a campanha de conscientização também teve lugar, apresentando-se de forma bem-humorada ou mostrando as possíveis consequências sangrentas da imprudência. Mas depois de poucos meses o rigor não era mais tão grande e encontrar motoristas exalando álcool por todos os seus poros também não era mais tão difícil. O número de pessoas conscientes dos riscos aos quais estavam se expondo aumentou significativamente, porém, ainda há aqueles que confiam em sua sorte. Para que todo o esforço feito não seja perdido é imprescindível que a fiscalização – tanto policial quanto das pessoas físicas – continue, assim como é importante mostrar às crianças que carros e álcool só podem estar juntos se o último estiver na forma de combustível. Assim, são criados futuros adultos responsáveis e atuais fiscalizadores mirins, tão ou mais eficazes do que pontos na carteira e um bolso menos cheio. 85GE REDAÇÃO 2016 análise O Enem estabelece uma banca corretora composta de, no mínimo, dois avaliadores. Levando em consideração que a pontuação é distribuída em cinco níveis, dentro de cada uma de suas cinco competências, e que cada um desses nívieis vale 40 pontos quando bem avaliado, a redação Sem álcool recebeu de um avaliador a nota 1000 e de outro, a nota 960. Essa faixa de nota foi obtida apenas por 0,9% dos participantes da prova de 2013. Trata-se de uma nota oferecida a um tex- to que contempla todas as orientações escolares de clareza e adequação vocabular, objetividade, perspectiva crítica, constru- ção de um ponto de vista nítido e coerência na argumentação. Apesar do respeito à norma culta, o uso de uma linguagem mais simples, e em al- guns momentos até despojada, garantiu a fluidez da leitura, aspecto fundamental na recepção do texto pelo avaliador. DESENVOLVIMENTO TEXTUAL A autora abre sua dissertação estabe- lecendo claramente para o leitor que sua abordagem do tema se dará a partir de uma abordagem cultural, e cita claramente os elementos do tema proposto, a tulipa de chope (presente no texto mais comporta- mental da coletânea) e os carros, adjetiva- dos como valiosos aos proprietários. O segundo e o terceiro parágrafos reto- mam o tema, trazem uma citação ao texto da coletânea e preparam para o desenvol- vimento de um contraponto, no parágrafo seguinte, garantindo a coesão do texto. O conectivo de introdução no quarto pa- rágrafo – a conjunção adversativa “mas” – concretizou o ponto de vista e introduziu o contundente contraponto que o sustentou: mesmo com o aumento da conscientização, alguns insistem nas práticas combatidas pelas campanhas espalhadas pelo país. A conclusão ofereceu uma proposta de intervenção social coerente e adequada ao tema, ao ponto de vista apresentado e à argumentação desenvolvida. Apesar de ter projetado qualquer mudança efetiva apenas para o futuro, a ação apresentada – a educação sistemática das novas gerações – vislumbrou o tempo presente. EXCELENTE DESEMPENHO VEJA AS COMPETÊNCIAS AVALIADAS NA PROVA E a forma como é recebida por cada participante COMPETÊNCIA 1 Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. NOTA: 200,0 (100%) O participante demonstra excelente domínio da modali- dade escrita formal da língua portuguesa e de escolha de registro. Desvios gramaticais ou de convenções da escrita, neste nível, são aceitos somente como excepcionalidade e quando não caracterizam reincidência. COMPETÊNCIA 2 Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto disserta- tivo-argumentativo em prosa. NOTA: 200,0 (100%) O participante desenvolve o tema por meio de argumen- tação consistente, a partir de um repertório sociocultu- ral produtivo e apresenta excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, ou seja, em seu texto, o tema é desenvolvido de modo consistente e autoral, por meio do acesso a outras áreas do conhecimento, com progressão fluente e articulada ao projeto do texto. COMPETÊNCIA 3 Selecionar, relacionar, organizar e interpretar infor- mações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. NOTA: 200,0 (100%) Em defesa de um ponto de vista, o texto apresenta infor- mações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e organizada, configurando autoria, ou seja, os argumentos selecionados estão organizados e relacionados de forma consistente com o ponto de vista defendido e com o tema proposto, configurando-se independência de pensamento e autoria. COMPETÊNCIA 4 Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação. NOTA: 200,0 (100%) O participante articula bem as ideias, os argumentos, as partes do texto e apresenta repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. COMPETÊNCIA 5 Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos. NOTA: 180,0 (90%) O participante elabora excelente proposta de intervenção, detalhada, relacionada ao tema e articulada à discussão desenvolvida no texto. Trata-se de redação cuja proposta de intervenção seja muito bem elaborada, relacionada ao tema, decorrente da discussão desenvolvida no texto, abrangente e bem detalhada. 86 GE REDAÇÃO 2016 Direcionando o Brasil Bebida e direção são incompatíveis. Juntando-se a cultura hedonista e irresponsável do brasileiro com a histórica preferência por rodovias e incentivo à compra de carros, ficou evidente esse problema nos grandes números de acidentes por conta do álcool. Nesse contexto, a criação da Lei Seca cumpre um papel fundamental de tentar conter a situação, mas não conseguirá resolvê-la por si só. Junto a ela, é preciso mudar a consciência do povo que aqui reside. Em primeiro lugar, é importante ressaltar quão benéfico foi o efeito da Lei Seca nos últimos 5 anos. Apesar de inicialmente ter encontrado certa resistência da população, a redução expressiva no número de mortos e de acidentes foi suficiente para convencer a sociedade de sua eficiência. Devido a isso, já se observa uma reflexão antes de beber em muitos indivíduos. Entretanto, vale também dizer que essa medida não pode ser a única, por não se tratar de uma ação preventiva. Depois de alguns anos em uso, já ficam claros os limites e os defeitos da lei. Muitos dos policiais que deveriam fiscalizar cobram propinas para não punir os criminosos e diversas pessoas já procuram na internet onde acontecem as patrulhas e trocam para rotas alternativas, escapando impunes. Outro problema é o fato de existir um transporte público caro e insuficiente. A falta de opções como o metrô e o preço das passagens deixam a população insatisfeita, como se viu nas manifestações deste ano, e pior, tornam-na refém do carro. Isso não pode ser ignorado quando o objetivo é reduzir as taxas de acidentes. Desse modo, fica clara a importância da Lei Seca no atual contexto, mas expõe-se também seu limite no futuro. O problema da direção alcoolizada será verdadeiramente resolvido com mudanças nos hábitos da população. Para tal, é necessário que o governo faça campanhas de conscientização dos perigos do álcool na direção, com ajuda de escolas e da iniciativa privada, por meio de palestras em salas de aula e programas no rádio e na televisão. Deve-se, do mesmo modo, direcionar mais investimentos ao transporte público, efetivando o passe livre e construindo linhas de metrô mais complexas nos centros urbanos. Essas atitudes levarão o país a um futuro mais seguro. enem 2013 Redação 2- Bom título O autor explora a semântica do verbo dirigir e, de certa forma, já apresenta um posicionamento crítico Falta de autonomia Não generalize ou coloque 8ID8¡x<J�J<D�;8;FJ� que as corroborem. O leitor não deve ter de deduzir Excelente argumento Ele fundamenta a 8ID8¡iF�;8�E<:<JJ@;8;<� de outras medidas Virgulação Uma vírgula deveria anteceder a nova sentença “e diversas...” Conectores excelentes Introduzem adequadamente parágrafos e frases, sem erros de virgulação Atenção à coesão A coesão pede a mesma ordem de elementos, para caro e @EJL:@<EK<�J<>L@I^J<^@8D�GI<¡F� <�=8CK8�;<�FG¡x<J 87GE REDAÇÃO 2016 análise Uma ótima redação! O autor apresentou um conjunto de ações que, associadas, poderiam atenuar os principais proble- mas que ele levanta em seu texto. Não há nada de mirabolante, algo que, de fato, não pudesse ser realizado em nossos tempos. Além disso, ao apresentar sua proposta de intervenção social ele retomou pon- tos importantes de sua própria argumen- tação ao longo da redação – “mudança de hábitos promovida por campanhas e palestras visando à conscientização em escolas, programas no rádio e na televi- são; maiores investimentos no transporte público, efetivação do passe livre” – o que contemplou bem a proposta de intervenção social exigida na competência 5 da prova. Destaca-se no texto o uso de conecto- res variados e bem empregados, que dão coesão ao texto. Há uma boa distribuição de articuladores do discurso, na abertura dos parágrafos e das frases dentro deles: “devido a isso”, “entretanto”, “outro pro- blema é”, “desse modo”, “para tal”, “por meio de”. Isso costuma ser considerado um bom desempenho na competência 4 (uso dos mecanismos linguísticos para a argumentação), sinal de estrutura bem resolvida. PROPOSTA DE INTERVENÇÃO DETALHADA E REALIZÁVEL ARGUMENTAÇÃO Com o título que escolheu, o candidato dá um exemplo de oportunidade bem apro- veitada. Ele explora a semântica do verbo dirigir e, de certa forma, já apresenta um posicionamento crítico ante o tema. O primeiro parágrafo atua como síntese. O posicionamento crítico do autor dá-se de modo direto e nítido: “Bebida e direção são incompatíveis”. Em seguida, problematiza o tema, a partir de clara contextualização, oferecendo circunstâncias culturais e eco- nômicas como responsáveis pela situação atual: “cultura hedonista e irresponsável do brasileiro e incentivo à compra de car- ros”. Além disso, incorpora o tema ao ponto de vista – “a criação da lei seca cumpre um papel fundamental” – e anuncia a proposta de intervenção social – “é preciso mudar a consciência do povo que aqui reside”. Porém, aqui o candidato cometeu seu prin- cipal deslize, ao fazer uma generalização do perfil do brasileiro como irresponsável para a qual não oferece subsídio concreto. Também arrisca uma perigosa implicitude na introdução, ao deixar aos corretores a tarefa de decidirem se a cultura hedonista a que ele se refere seria a do status da posse de veículos ou, de alguma forma, ligada ao consumo de bebidas alcoólicas. Os parágrafos 2, 3 e 4 ponderam e sus- tentam o ponto de vista apresentado no início, garantindo no parágrafo 2 razoável progressão temática. Nele, o autor confir- ma os benefícios da implantação da Lei Seca pelos números oferecidos na prova. A seguir, pondera que a lei não é eficiente sozinha e elenca razões. No parágrafo final, apresenta diferentes propostas de inter- venção social, ancoradas nos elementos da sua argumentação. 88 GE REDAÇÃO 2016 prático, com o objetivo de proporcionar oportunidades de aquisição de novos conhecimentos e novas vivências, de experimentação e de contato com os mais diversos tipos de linguagens, técnicas e ideias. As Oficinas Culturais atuam nas áreas de artes plásticas, cinema, circo, cultura geral, dança, design, folclore, fotografia, história em quadrinhos, literatura, meio ambiente, multimídia, música, ópera, rádio, teatro e vídeo. O público a ser atingido depende do objetivo de cada atividade, podendo variar do iniciante ao profissional. As Oficinas Culturais visam à formação cultural e não à educação formal do cidadão. Pretendem mostrar caminhos, sugerir ideias, ampliar o campo de visão. Adaptado de Oficina Cultural Regional Sérgio Buarque de Holanda. Dispo- nível em http://www.guiasaocarlos.com.br/oficina_cultural/conceito.asp. Acessado em 07/10/2013. TEXTO 2 Em virtude dos problemas de trânsito, uma associação de mo- radores de uma grande cidade se mobilizou, buscou informações em textos e documentos variados e optou por elaborar uma carta aberta. Você, como membro da associação, ficou responsável por redigir a carta a ser divulgada nas redes sociais. Essa carta tem o objetivo de reivindicar, junto às autoridades municipais, ações consistentes para a melhoria da mobilidade urbana na sua cidade. Para estruturar a sua argumentação, utilize também informações apresentadas nos trechos abaixo, que foram lidos pelos membros da associação. Atenção: assine a carta usando apenas as iniciais do remetente. Proposta de redação A prova da Unicamp de 2014 solicitou do candidato saber se expressar em nome de um grupo. Trata-se de uma proposta de texto cada vez mais presente nas provas. Aqui você vê as propostas analisadas e, nas páginas seguintes, exemplos de textos bem avaliados pela universidade. As análises são da professora Nathália Macri Nahas Você é o porta-voz de um grupo TEXTO 1 Você e um grupo de colegas ganharam um concurso que vai financiar a realização de uma oficina cultural na sua escola. Após o desenvolvimento do projeto, você, como membro do gru- po, ficou responsável por escrever um relatório sobre as atividades realizadas na oficina, informando o que foi feito. O relatório será avaliado por uma comissão composta de professores da escola. A aprovação do relatório permitirá que você e seu grupo voltem a concorrer ao prêmio no ano seguinte. O relatório deverá contemplar a apresentação do projeto (público-alvo, objetivos e justificativa), o relato das atividades desenvolvidas e comentário(s) sobre os impactos das atividades na comunidade. Na abertura do concurso, os grupos concorrentes receberam o seguinte texto de orientação geral: As Oficinas Culturais são espaços que procuram oferecer aos interessados atividades gratuitas, especialmente as de caráter Unicamp 2014 89GE REDAÇÃO 2016 I “A boa cidade, do ponto de vista da mobilidade, é a que possui mais opções”, explica o planejador urbano Jeff Risom, do escritório dinamarquês Gehl Architects. E Londres está entre os melhores exemplos práticos dessa ideia aplicada às grandes metrópoles. A capital inglesa adotou o pedágio urbano em 2003, diminuindo o número de automóveis em circulação e gerando uma receita anual que passou a ser reaplicada em melhorias no seu já consolidado sistema de transporte público. Com menos carros e com a redu- ção da velocidade máxima permitida, as ruas tornaram-se mais seguras para que fossem adotadas políticas que priorizassem a bicicleta como meio de transporte. Em 2010, Londres importou o modelo criado em 2005 em Lyon, na França, de bikes públicas de aluguel. Em paralelo, começou a construir uma rede de ciclovias e determinou que as faixas de ônibus fossem compartilhadas com ciclistas, com um programa de educação massiva dos motoristas de coletivos. Percorrer as ruas usando o meio de transporte mais conveniente – e não sempre o mesmo – ajuda a resolver o pro- blema do trânsito e ainda contribui com a saúde e a qualidade de vida das pessoas. Natália Garcia, 8 Iniciativas Urbanas Inspiradoras, em Red Report, fev. 2013, p. 63. Disponível em http://cidadesparapessoas.com/2013/06/29/pedalando- por-cidades-inspiradorass/. Acessado em 06/09/2013. II Mas, afinal, qual é o custo da morosidade dos deslocamentos urbanos na região metropolitana de São Paulo? Não é muito difícil fazer um cálculo aproximado. Podemos aceitar como tempo normal, com muita boa vontade, uma hora diária. Assim, o tempo médio perdido com os conges- tionamentos em São Paulo é superior a uma hora por dia. Sendo a jornada de trabalho igual a oito horas, é fácil verificar que o tempo perdido é de cerca de 12,5% da jornada de trabalho. O valor monetário do tempo perdido é de R$ 62,5 bilhões por ano. Esse é o custo social anual da lentidão do trânsito em São Paulo. Adaptado de André Franco Montoro Filho, O custo da (falta de) mobilidade ur- bana, Folha de S.Paulo, Caderno Opinião, São Paulo, 04 ago. 2013. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/08/1321280-andre-francomontoro- filho-o-custo-da-falta-de-mobilidade-urbana.shtml. Acessado em 09/09/2013. III Torna-se cada vez mais evidente que não há como escapar da progressiva limitação das viagens motorizadas, seja aproximando os locais de moradia dos locais de trabalho ou de acesso aos serviços essenciais, seja ampliando o modo coletivo e os meios não motori- zados de transporte. Evidentemente que não se pode reconstruir as cidades, porém são possíveis e necessárias a formação e a con- solidação de novas centralidades urbanas, com a descentralização de equipamentos sociais, a informatização e descentralização de serviços públicos e, sobretudo, com a ocupação dos vazios urbanos, modificando-se, assim, os fatores geradores de viagens e diminuindo- se as necessidades de deslocamentos, principalmente motorizados. BRASIL. Ministério das Cidades. Caderno para a Elaboração de Plano Diretor de Transporte e da Mobilidade. Secretaria Nacional de Transportes e de Mobilidade Urbana [SeMob], 2007, p. 22-23. Disponível em http://www.antp. org.br/_5dotSystem/download/dcmDocument/2013/03/21/79121770-A746- 45A0-BD32-850391F983B5.pdf. Acessado em 06/09/2013. 90 GE REDAÇÃO 2016 PRÁTICAS DE INTERLOCUÇÃO A prova de redação do vestibular da Unicamp 2014 trouxe duas propostas que pediam ao candidato um desafio interes- sante: ser o emissor de textos represen- tando um grupo. Para elaborar um texto adequado às propostas pedidas pela Unicamp, é funda- mental que o candidato atente-se às orien- tações oferecidas, não somente ao gênero de texto, mas também ao contexto no qual ele está inserido. Assim, é importante notar o emissor da mensagem, o interlocutor, ou seja, a quem o texto se destina, o conteúdo que será exposto e o canal pelo qual o texto será criado. Para que tudo seja coerente e bem fundamentado, é preciso também que o candidato baseie-se no texto oferecido como coletânea. A proposta 1 solicitava um relatório, um gênero textual que demanda a impessoali- dade. Logo, o texto deveria ser apresentado preferencialmente na terceira pessoa. O candidato deveria evitar o uso da primeira pessoa do singular (eu), mas a primeira pessoa do plural também caberia ao gê- nero de texto. Como a finalidade do texto era apresentar detalhadamente o projeto, descrever as atividades desempenhadas e indicar seus impactos na comunidade onde se inseria a escola, o candidato deve- ria prezar pela objetividade e clareza das ideias. Nesse sentido, era importante evitar pontos de vistas subjetivos (nós achamos, parece-nos ou nos parece, nós pensamos). Ainda de acordo com a proposta, o rela- tório seria analisado para que o grupo em questão pudesse concorrer novamente ao concurso. Sendo assim, o candidato preci- anÁlise DA PROPOSTA sava apresentar as atividades exercidas de forma coerente aos objetivos trazidos na apresentação, de forma adequada ao público-alvo. A proposta 2 pedia ao candidato que redigisse uma carta aberta, gênero de tex- to de caráter argumentativo, no qual se expressa em público uma reivindicação, uma opinião ou uma proposta acerca de determinado assunto de interesse coleti- vo. O autor da carta (o emissor) falaria em nome da associação de moradores de uma grande cidade, e os destinatários seriam as autoridades municipais, como secretários e o prefeito. O emissor da carta poderia, por- tanto, falar em primeira pessoa do singular ao apresentar-se como o representante e, em seguida, utilizar-se da terceira pessoa (a associação) e a primeira do plural (nós). O objetivo do texto é reivindicar ações urbanas para amenizar os problemas de trânsito na cidade. Para ser adequado ao gênero solicitado, o texto deveria apre- sentar a estrutura básica de uma carta: um cabeçalho, indicando a data e o local de emissão da carta e um vocativo de introdu- ção (por exemplo, Prezados Senhores, Ex- celentíssimo Senhor Prefeito e Secretários) No texto, a autoapresentação do remetente, introdução e desenvolvimento da situação- problema. Os argumentos deveriam ser dis- cutidos de forma pertinente ao tema e bem fundamentados com informações e dados. Após a conclusão das ideias, o candidato deveria finalizar a carta com uma saudação formal, e assinar apenas com as iniciais do remetente. Seguindo essa estrutura formal, o candidato poderia se preocupar somente em expor um ponto de vista pautado em argumentos pertinentes, indicando como o problema em questão é de preocupação de todos os moradores da cidade. 91GE REDAÇÃO 2016 Unicamp 2014 Redação 1- Relatório de atividades da Oficina de Música Clássica do Colégio Vestibulando Introdução: durante todo o segundo trimestre do ano de 2013, os alunos do segundo ano, turma A, do Ensino Médio do Colégio Vestibulando, organizaram uma oficina cultural sobre música clássica. O projeto teve como público-alvo os alunos do Ensino Fundamental da escola, bem como pais, professores e funcionários. Os objetivos da oficina consistiam em incentivar o interesse e a apreciação pela música clássica através de palestras, recitais (ao vivo ou por mídia digital) e aulas práticas. Dessa forma, a Oficina de Música Clássica se justificava pelo intuito de combater a tradicional elitização desse estilo musical e desmistificar a noção de que a prática desses instrumentos é retrógrada ou tediosa. Atividades realizadas: a oficina funcionou de abril a junho de 2013, todas as sextas e sábados, das 14 às 18 horas, no auditório do Colégio Vestibulando. As duas primeiras horas eram sempre reservadas a palestras abordando grandes compositores e o contexto histórico da criação dos instrumentos. Ao final da exposição teórica, os organizadores executavam um recital relacionado ao tema da aula. Durante a última hora, os participantes eram convidados a manusear e aprender técnicas básicas de violino, violoncelo, piano ou flauta transversal. Ao longo do trimestre, foram comentados os compositores Beethoven, Mozart, Chopin, Debussy, Rachmaninoff, Tchaikovsky e Paganini. A aula de encerramento durou uma hora a mais e tratou a respeito da harmonização e formação das orquestras sinfônicas e filarmônicas. Impacto da oficina na comunidade: o principal objetivo do projeto foi derrubar o rótulo de música clássica como erudita e ultrapassada – e, de modo geral, a oficina obteve êxito nisso. Os alunos do Ensino Fundamental foram incentivados a fundar um clube de música na escola e conseguiram patrocínio dos pais para comprar instrumentos e contratar um instrutor. Diante de tamanho sucesso, os alunos do segundo ano, turma A, esperam poder recriar essa oficina em 2014; para isso, pretendem contar com o financiamento do próximo Prêmio Oficina Cultural. Sutileza Na norma-padrão, a locução adverbial através de é usada, preferencialmente, com substantivos que podem ser “atravessados”: através das nuvens, da janela, da rua. Nos demais casos recomenda-se usar por meio de ou pelo/pela Na mosca O candidato acerta ao elencar nomes reconhecidos para alicerçar seu conhecimento sobre o tema e dar pertinência à sua defesa. E não errou nenhuma grafia análise Texto I > Relatório ADEQUAÇÃO AO TEMA E LINGUAGEM EFICAZ O texto em questão apresenta um bom di- álogo com a situação proposta, conseguindo expressar um ponto de vista e utilizar uma estrutura que respeita o gênero de texto solicitado. A linguagem é eficaz, o que faci- lita a compreensão das ideias, e o texto traz todos os elementos pedidos nas instruções. O candidato acertou ao organizar o texto pelas indicações da prova: introdução, ati- vidades e impactos. Dessa maneira, pôde equilibrar uma apresentação mais expositiva das ideias, a parte mais descritiva e factual do texto, ao seu posicionamento como autor, ou seja, sua análise dos resultados da oficina. sões da oficina, como horários, descrição das atividades e do conteúdo. Além disso, o autor fundamenta esse conteúdo com exemplos dos artistas trabalhados, o que oferece mais pertinência à defesa do projeto. Na conclusão, o candidato oferece à co- missão suas considerações finais. Esse tre- cho é essencial para adequação à proposta, pois é aqui que o autor consegue defender seu projeto, afirmando os impactos positi- vos das atividades em relação aos objetivos pretendidos, ao conteúdo trabalhado e à metodologia aplicada. Temos, assim, a parte mais argumentativa do relatório. De forma concisa, o candidato retoma sua tese – afir- mando que o mito da música clássica fora derrubado – em diálogo com a descrição dos métodos e conteúdos trabalhados – oferecendo ao leitor uma fundamentação do ponto de vista dos autores do projeto. Dessa maneira, o texto apresenta uma ex- plicação pertinente das ideias expostas à comissão avaliadora. Já na introdução, o vestibulando expôs as informações necessárias ao leitor para que compreendesse do que se tratava o projeto e os objetivos pretendidos. É interessante observar que são descritos os métodos pelos quais as atividades foram exercidas, o que tornou a redação bem adequada ao gêne- ro solicitado. Ao apresentar a justificativa do projeto elaborado, o autor expressou o posicionamento que ele busca elaborar e defender nas partes posteriores à introdução (desmistificar a ideia de que a música clássica pertença somente a um âmbito erudito). No segundo parágrafo, o candidato co- locou informações relativas à execução do projeto, descrevendo de forma eficaz o seu andamento. De acordo com as orientações da proposta, o relatório seria analisado por uma comissão de professores, os quais decidiriam se a oficina poderia ou não ser mantida. Observe que o autor traz detalhes fundamentais que constroem a pertinência do projeto desenvolvido: detalhes das ses- 92 GE REDAÇÃO 2016 Unicamp 2014 Redação 2- Belo Horizonte, 10 de Novembro de 2013, Carta aberta à prefeitura de Belo Horizonte Venho, por meio desta carta, apresentar reivindicações da Associação de Moradores de Belo Horizonte concernentes à mobilidade em nossa cidade. Diante de congestionamentos cada vez maiores, do atraso provocado pelo trânsito de veículos em horários de ápice e do consequente estresse que acomete os belo-horizontinos diariamente, quando precisam se locomover, nossa Associação se comprometeu a estudar as principais causas e elaborar as melhores propostas para a melhoria da mobilidade em nossa cidade. Chegamos portanto, à conclusão de que o principal problema do trânsito de Belo Horizonte é a dimensão exorbitante de sua frota de veículos, quando analisa-se o que a infraestrutura da cidade é capaz de suportar. Com base nisso, criamos propostas de intervenção que visam reduzir a frota de automóveis, dinamizar a locomoção urbana e aumentar a qualidade de vida dos habitantes. A primeira proposta se refere à implantação do pedágio urbano, que está em voga em Londres desde 2003 e se mostrou muito bem-sucedido. Esse pedágio consiste em uma tarifa, cobrada em diversos pontos da cidade, para motoristas de automóveis. O efeito imediato dessa proposta é o desencorajamento do uso de automóveis pelos cidadãos. Além disso, o dinheiro dos pedágios torna-se um fundo para investimento em transporte público. A segunda proposta relaciona-se, justamente, ao transporte público. Sugere- se a ampliação da frota e das linhas de ônibus, além da criação de ciclovias por toda a cidade. Paralelamente a isso, convém implantar o serviço de aluguel de bicicletas públicas, sucesso na França. Com essas propostas, esperamos uma melhoria significativa na mobilidade em Belo Horizonte, portanto exortamos à prefeitura que elas sejam postas em prática. Atenciosamente, T.M.G. Formalização perfeita O candidato acerta ao começar por local e data, endereçamento, identificação do gênero textual e ao apresentar- se, na primeira pessoa (venho) e no plural majestático (nossa) Conjunção Quando intercaladas na oração as conjunções devem ser isoladas por vírgulas: “Chegamos, portanto, à” Evite se repetir Procure substituir a palavra por outra. Por exemplo, “essa medida” Texto II > Carta aberta 93GE REDAÇÃO 2016 análise ARGUMENTAÇÃO FUNDAMENTADA E ESTRUTURA ADEQUADA O texto apresenta de forma clara e obje- tiva os elementos esperados de uma carta aberta. O candidato respeita a estrutura clássica do gênero textual solicitado, desde o cabeçalho indicando o local e a data, até o fechamento formal. Apresenta-se em primeira pessoa como representante, para justificar a assinatura final com suas iniciais, e a partir daí adota corretamente a primeira pessoa do plural. Ele elabora tam- bém um posicionamento crítico diante do problema observado, atendendo ao aspec- to argumentativo também esperado. Além disso, mantém um diálogo eficiente com os textos da coletânea, dando às sugestões que faz uma fundamentação pertinente. Na introdução, o candidato segue um percurso argumentativo eficaz: após apre- sentar o objetivo da carta aberta, ele indica o assunto a ser abordado (o problema dos abordada. Dessa forma, o caráter crítico das ideias torna-se mais aprofundado, favorecendo o convencimento do leitor. No texto em questão, o candidato mantém essa relação e traz uma terceira proposta – sobre as ciclovias – para finalizar suas sugestões. Novamente, ele se utiliza de forma eficiente dos textos oferecidos pela coletânea, mostrando que suas propostas são viáveis e benéficas, haja vista os efeitos positivos nos países que já as aplicaram. A carta é finalizada com o apelo à prefei- tura pela aplicação das sugestões elabora- das. Isso poderia ser feito em um parágrafo distinto, mas da forma como o candidato fez também foi eficaz. A linguagem tam- bém é eficiente: o autor mantém o registro formal sem valer-se de termos rebuscados e eruditos, que poderiam comprometer a clareza das ideias. A escolha lexical é acer- tada: termos como exortar (persuadir, es- timular, induzir) conferem à carta um viés de petição. Assim, o candidato conseguiu elaborar suas ideias de forma adequada ao tipo textual solicitado, obtendo uma boa nota dos avaliadores. congestionamentos) e seu contexto. Diante dessas questões, o autor – em nome da Associação – expõe o ponto de vista que busca defender nos parágrafos seguintes: o problema e as sugestões de interven- ção. Quando trabalhamos com propostas de intervenção, é preciso que elas sejam indicadas de forma completa e bem funda- mentadas na realidade, permitindo – em uma situação real – sua aplicação. O segundo parágrafo já apresenta a primeira proposta de intervenção, cuja fundamentação é feita com o texto I da co- letânea. O parágrafo é elaborado de modo progressivo, isto é, o candidato apresen- ta a proposta, explicando-a nos períodos seguintes por meio dos efeitos benéficos que a mudança proporcionaria. Nesse sentido, o autor garante credibilidade às suas intervenções, o que é essencial para o convencimento do leitor. O último parágrafo indica a segunda proposta de forma bem articulada à ante- rior. Em um texto argumentativo, é funda- mental que os argumentos apresentados sejam bem articulados entre si, afinal eles são parte da mesma situação-problema 94 GE REDAÇÃO 2016 TEXTO 2 Nossa tradição cultural, por diversas ra- zões, criou um ideal de cidadania política sem vínculos com a efetiva vida social dos brasileiros. Na teoria, aprendemos que de- vemos ser cidadãos; na prática, que não é possível, nem desejável, comportarmo-nos como cidadãos. A face política do modelo de identidade nacional é permanentemente corroída pelo desrespeito aos nossos ideais de conduta. Idealmente, ser brasileiro significa herdar a tradição democrática na qual somos todos iguais perante a lei e onde o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade é uma propriedade inalienável de cada um de nós; na realidade, ser brasileiro significa viver em um sistema socioeconômico injusto, onde a lei só existe para os pobres e para os inimigos e onde os direitos individuais são monopólio dos poucos que têm muito. Preso nesse impasse, o brasileiro vem sen- do coagido a reagir de duas maneiras. Na primeira, com apatia e desesperança. É o caso dos que continuam acreditando nos valores ideais da cultura e não querem converter-se ao cinismo das classes dominantes e de seus seguidores. Essas pessoas experimentam uma notável diminuição da autoestima na identi- dade de cidadão, pois não aceitam conviver com o baixo padrão de moralidade vigente, mas tampouco sabem como agir honrada- mente sem se tornarem vítimas de abusos e humilhações de toda ordem. Deixam-se assim contagiar pela inércia ou sonham em renun- ciar à identidade nacional, abandonando o país. Na segunda maneira, a mais nociva, o indivíduo adere à ética da sobrevivência ou à lei do vale-tudo: pensa escapar à delinquência, tornando-se delinquente. Jurandir Freire Costa. http://super.abril.com.br. Adaptado. Proposta de redação A proposta da prova de 2014 da Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista (Vunesp) colocou aos candidatos o desafio de apreciar os aspectos morais da corrupção no governo e na sociedade. Um tema atual, com uma abordagem compatível à inclusão da filosofia como disciplina no Ensino Médio. Veja a proposta e uma redação bem avaliada pela universidade, com análises do professor Alan Nicoliche Análise ética na vida pública e privada TEXTO 1 Dos 594 deputados e senadores em exer- cício no Congresso Nacional, 190 (32%) já foram condenados na Justiça e/ou nos Tri- bunais de Contas. As ocorrências se encaixam em quatro grandes áreas: irregularidades em contas e processos administrativos no âmbito dos Tribunais de Contas (como fraudes em licitações); citações na Justiça Eleitoral (contas de campanha rejeitadas, compra de votos, por exemplo); condenações na Justiça referentes à lida com o bem público no exercício da função (enriquecimento ilícito, peculato etc.); e outros (homicídio culposo, trabalho degradante etc.). Natália Paiva. www.transparencia.org.br. Adaptado. unesp 2014 95GE REDAÇÃO 2016 TEXTO 3 Se o eleitorado tem bastante clareza quanto à falta de hones- tidade dos políticos brasileiros, não se pode dizer o mesmo em relação à sua própria imagem como “povo brasileiro”. Isto pode ser um reflexo do aclamado “jeitinho brasileiro”, ora motivo de orgulho, ora de vergonha. De qualquer forma, fica claro que há problemas tanto quando se fala de honestidade de uma forma genérica, como quando há abordagem específica de comportamentos antiéticos, alguns ilegais: a “caixinha” para o guarda não multar, a sonegação de im- postos, a compra de produtos piratas, as fraudes no seguro, entre outros. A questão que está posta aqui é que a população parece não relacionar seus “pequenos desvios” com o comportamento desonesto atribuído aos políticos. Silvia Cervellini. www.ibope.com.br. Adaptado. Com base nos textos apresentados e em seus próprios conheci- mentos, escreva uma redação de gênero dissertativo, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema: Corrupção no Congresso Nacional: reflexo da sociedade brasileira? A proposta de redação da Unesp 2014 trouxe um tema bastante interessante e, infelizmente, corriqueiro no cotidiano dos bra- sileiros: a corrupção. Em uma época tomada por manifestações e discussões acaloradas contrárias às realizações dos políticos do país, o candidato foi conduzido a esmiuçar o assunto mais a fundo, e questionado se os desvios observados no Congresso não teriam origem na conduta da própria sociedade. Como apoio para a produção textual, foram apresentados três textos. O primeiro informa e explica as condenações, na Justiça e no Tribunal de Contas, de 32% dos atuais senadores e deputados federais em exercício. No segundo, são discutidas as dificuldades de viver em um país (Brasil) em que ser honesto e compromissado com as questões de cidadania torna a vida quase impraticável, forçando os desiludidos a desistir, e até abandonar sua terra, ou render-se ao lado obscuro e ser mais uma peça de uma sociedade sem salvação. Por fim, o terceiro texto escancara a desonestidade existente na sociedade brasileira, presente em pequenos desvios cotidianos, fazendo um paralelo entre essas condutas e aquelas tão criticadas no mundo político. Com a leitura dos textos-base e o tema apresentado em forma de pergunta, coube ao candidato escolher entre dois caminhos, negar tal reflexo ou percebê-lo como real. Se negasse, o texto deveria apontar sinais de que a sociedade não compactua com os desvios de conduta e os favorecimentos ilícitos – possíveis exemplos poderiam ser retirados das atuais manifestações em busca de uma política mais decente e transparente, ou de casos individuais de superação e manutenção de valores sociais. Caso concordasse, os argumentos, provavelmente, citariam situações em que a vantagem e a lei do menor esforço imperam na sociedade, o famoso “jeitinho brasileiro” de facilitar a vida. Outra saída no caminho do reconhecimento seria apontar um efeito “segredo de Tostines”, no qual não se sabe se os políticos são corruptos por reflexo da sociedade, ou se a sociedade se corrompe por causa de um cenário político que não permite opções. Final- mente, a pergunta também permitiria uma problematização mais filosófica e ética na afirmação desse reflexo, na qual a constatação de que existem valores e práticas morais e imorais na sociedade, seja em indivíduos, seja em grupos humanos e políticos, não deve ser confundida com a aceitação passiva desses valores e práticas imorais. Qual fosse a escolha do candidato, traria bons textos quem soubesse trabalhar os argumentos com exemplos histó- ricos e contemporâneos que fossem coerentes com a sociedade brasileira, evitando meros clichês ou um ar de reclamação, que poderia transformar a redação em um texto-manifesto. anÁlise DA PROPOSTA A RAZÃO OU A CULPA, EM TODOS NÓS 96 GE REDAÇÃO 2016 unesp 2014 Redação- Raízes do Brasil e de suas Corrupções As raízes da corrupção brasileira podem ser atribuídas a diversos fatores históricos, como o coronelismo e o clientelismo que dominaram nossa sociedade por tanto tempo, ou o poder oligárquico e excludente que acompanhou nossa história até o século XX. A manutenção da corrupção até os dias de hoje, entretanto, traz um novo panorama, que resulta de uma sociedade acomodada e passiva, que comete delitos e sai impune. A Democracia Indireta e Representativa que vigora no Brasil atualmente nos traz um ótimo reflexo de tal sociedade. Ou seja, a corrupção que rege a moral de muitos políticos nada mais é que a exposição, a nível nacional, de facetas individuais que montam a cultura brasileira. Tal cultura pode ser vista como a união de características do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda – alienado e sem engajamento socio- político – com o atual “jeitinho brasileiro”, que prega a tolerância a delitos e a contornos da conduta ética e moral para se obter algum benefício individual. Ao se construir, portanto, uma sociedade com ínfima cidadania política e que não respeita leis, torna-se inevitável que o Congresso Nacional tenha quase um terço de seus membros já condenados na justiça e/ou Tribunal de Contas. Além disso, a apatia e a desesperança políticas tornam-se parte do legado cultural do brasileiro e parte constante da herança deixada ao longo de gerações. Isso reforça um ciclo em que a hipocrisia da população é vista como algo quase necessário à vida social, ou seja, permanece na sociedade a aceitação de comportamentos antiéticos no âmbito familiar, enquanto as ações da esfera pública são criticadas. Inevitavelmente, esse pensamento se adapta e se transpõe à máquina estatal, que critica uma corrupção amplamente praticada e impune. A corrupção no Congresso Nacional é, portanto, óbvio reflexo da conivência, da passividade e da falta de rigor ético da sociedade brasileira, e isso acontece justamente porque o governo é a própria representação da sociedade, em seus aspectos positivos ou negativos. Incorreção Não há razão para o uso de maiúsculas, o que poderia ser penalizado. Lembre-se: suas palavras não ganham maior importância por serem escritas em maiúsculas Ponto positivo! Um conceito apenas citado e não explicado aparenta ser um clichê. Neste caso, o autor explicou-os clara e sucintamente Adequação Evite o uso de “e/ou” em uma dissertação. Nesse caso, o candidato poderia optar por uma das conjunções sem prejuízo de sentido 97GE REDAÇÃO 2016 análise USO ADEQUADO DA COLETÂNEA Nesta redação, o candidato procurou apontar as raízes históricas da corrupção na formação da sociedade brasileira e no Congresso Nacional, afirmando-a na intro- dução. Ao longo da argumentação, ele agre- ga uma importante citação de autoridade e faz uso adequado da coletânea. Segundo o texto, os desvios têm origens históricas, mas sua manutenção é responsabilidade da cultura da sociedade atual, que convive com situações análogas em seu cotidiano. Assim sendo, ele afirma que o que vemos na esfera pública é a ramificação do que é cultivado pelo brasileiro comum. De forma sucinta, o texto desenha um panorama nacional desanimador: a so- ciedade acostumou-se com as condutas irregulares de favorecimento e os desvios da lei e da própria moral. Os argumentos presentes na redação apontam para uma questão simples: a população brasileira não só convive com as irregularidades, mas também faz uso delas para seu próprio favorecimento – e o que os representantes públicos fazem é apenas reproduzir isso na esfera política. Fica claro perceber que o candidato respondeu sim à questão da proposta: “Corrupção no Congresso Nacional: re- flexo da sociedade brasileira?” Mais do que isso, articulou bem suas ideias com aquelas apresentadas nos textos-base. O candidato agrega aos textos da coletânea uma adequada citação de autoridade, ao utilizar um postulado clássico do historia- dor Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, obra que utiliza no título de seu texto. Além disso, com a simples citação de “apatia e desesperança”, e da releitura da quantidade de parlamentares condenados (32% – “quase um terço”), ele remete aos textos da coletânea, sem fazer o uso não recomendado da cópia pura e simples. Mas é importante perceber que o re- dator foi além. Enquanto no segundo texto de apoio a população é dividida entre aqueles que sofrem e desistem e aqueles que aderem à delinquên- cia, para não serem vítimas dela, no ter- ceiro aponta-se para um eleitorado que não enxerga relação entre seus desvios e os dos políticos que critica; na redação, a população e os políticos têm uma relação de desdobramento clara, agindo consciente- mente de maneira antiética, apenas, talvez, em diferentes escalas. É verdade que a argumentação presente na dissertação não traz novidades, mas trabalha bem com o que expõe. Das refe- rências históricas à citação do “homem cordial” e do “jeitinho brasileiro”, tudo é bem articulado em favor do projeto de texto do candidato e de sua tese. Ainda que sua visão do tema não seja animadora, a forma como as ideias foram apresentadas teve boa aceitação dos avaliadores, o que levou o texto a obter uma boa nota. 98 GE REDAÇÃO 2016 PONTO FINAL O adorável beagle Snoopy pro-tagoniza um dilema perma-nente nos quadrinhos Peanuts: o que escrever na folha em branco? O norte-americano Charles M. Schulz desenhou e publicou os quadrinhos da turma Charlie Brown durante 49 anos. Neles, Snoopy quer escrever um conto, um romance, qualquer coisa. Mas não sabe o quê. Snoopy inventa um jeito muito particular de enfrentar a folha em branco. Ele datilografa sempre a mesma frase introdutória do seu texto: “Era uma noite escura e tempestuosa” (It was a dark and stormy night). Apa- rentemente, Snoopy acha que, tendo já escrito uma frase, era melhor enfrentar uma segunda frase do que ter fracassado logo de cara na primeira. Isso dava um clima de “mãos à obra” e aquecer os motores. Mas, em inúmeras tirinhas, ele não passa dessa frase. Em outras é pior: ele apenas olha fixamente para a folha em branco. Charles M. Schulz escolheu essa frase para acentuar um tipo de humor inocente que se vale de um clichê (um lugar-comum). Consta tratar-se da abertura de um romance de um escri- tor inglês (Edward Bulwer-Lytton, do século XIX), que ganhou a fama de ser considerada a pior introdução da histó- Snoopy em O Desafio da Folha em Branco ria da literatura inglesa, a mais piegas, previsível e oportunista: o autor tenta criar um clima introdutório soturno, dramático, como forma de prender o leitor. Fácil demais! E pior: depois dela pode vir qualquer coisa. Ok, você já entendeu aonde queremos chegar. É o mesmo desafio colocado na prova de redação do Enem e dos vesti- bulares. Sabemos que não é fácil. O que dizer de uma janela com um mundo de vidro voando? (Fuvest 2010) ou da per- gunta “Racionalidade previsível ou sur- presas que emocionam?” (UFRGS 2007). Veja uma lista de temas na página 33. Mas você não pode ficar paralisa- do. Então, se for preciso, faça como o Snoopy: use o seu jeitinho ou muleta. Talvez a mais batida das muletas de introdução na redação do vestibular em dissertações, seja “Desde a anti- guidade...” e variações como “Desde o início, a humanidade...”. Bem, se isso servir para ajudar você a organizar as suas ideias, vá em frente. É melhor que ficar travado diante da folha em branco. Mas não se esqueça de eliminar seu clichê na hora de passar a limpo. Aliás, no caso acima, geralmente a primeira parte da frase é desnecessá- ria, a dissertação pode perfeitamente começar do que você escreveu a seguir. Fundada em 1950 VICTOR CIVITA ROBERTO CIVITA (1907-1990) (1936-2013) Conselho Editorial: Victor Civita Neto (Presidente), Thomaz Souto Côrrea(Vice-Presidente), Eurípedes Alcântara, Giancarlo Civita e José Roberto Guzzo Presidente Abril Mídia: Giancarlo Civita Presidente Editora Abril: Alexandre Caldini Diretor-Superintendente de Assinaturas: Dimas Mietto Diretor de Marketing Corporativo: Ricardo Packness de Almeida Diretora de Mobilidade: Sandra Carvalho Diretora de Publicidade Corporativa: Ivanilda Gadioli Diretor de Apoio Editorial: Edward Pimenta Diretora-Superintendente: Dulce Pickersgill Diretor de Redação: Fabio Volpe Diretor de Arte: Fábio Bosquê Editores: Fábio Akio Sasaki, Lisandra Matias, Paulo Montoia, Paulo Zocchi Repórter: Giovana Moraes Suzin Analista de Informações Gerenciais: Simone Chaves de Toledo Analista de Informações Gerenciais Jr.: Maria Fernanda Teperdgian Designers: André Tietzmann, Dânue Falcão Atendimento ao Leitor: Carolina Garofalo, Sandra Hadich, Sonia Santos, Walkiria Giorgino CTI Eduardo Blanco (Supervisor) NÚCLEO DIGITAL Redator Chefe: Frederico Di Giacomo Editora: Mariana Nadai Repórter: Ana Carolina Prado Editor de Arte: Abraaão Corazza Designers: Juliana Moreira e Laura Rittmeister Animação: Felipe Thiroux Webmasters: Allyson Kitamura, Cah Felix, Leonam Pereira Analista de redes sociais: Lorena Dana e Lucas Baranyi COLABORARAM NESTA EDIÇÃO Texto: Alan Nicoliche, Ana Paula Dibbern, Davi Fazzolari, João Jonas Veiga Sobral, Nathália Macri Nahas Arte: Vitor Inoue (estagiário) Ilustração: Milena Galli, Rodrigo Maroja (capa) Revisão: Bia Mendes e Zé Vicente www.guiadoestudante.com.br PUBLICIDADE UN HOMEM & LIFESTYLE Gerente: Raquel Ienaga Executivos de negócios: Adriana Mendes Dos Santos, Claudia Galdino Luisiane Ferreira, Felipe Sintra Santana, Leandro Thales Freire De Oliveira, Luisiane Ferreira, Marcello Almeida, Marta Veloso, Mauricio Ortiz, Mayara Brigano Lopes, Michele Brito, Vera Reis MARKETING Diretora: Carolina Melo Catto CIRCULAÇÃO Gerente: Cezar Almeida EVENTOS Gerente: Marcella Bognar MARKETING PUBLICITÁRIO Gerente: Ana Laura Tonin PUBLICIDADE REGIONAL Diretor: Jacques Ricardo Gerentes: Grasiele Pantuzo, Ivan Rizental, Kiko Neto, Sonia Paula, Vania Passolongo PUBLICIDADE RJ Andréa Veiga PUBLICIDADE INTERNACIONAL Alex Stevens APOIO – PLANEJAMENTO, CONTROLE E OPERAÇÕES – Gerente: Camila Lima PROCESSOS – Gerente: Ricardo Carvalho DEDOC ABRIL PRESS: Elenice Ferrari PESQUISA E INTELIGÊNCIA DE MERCADO: Andrea Costa CIRCULAÇÃO: Andrea Abelleira RECURSOS HUMANOS Camila Morena, Marizete Ambran e Regina Cordeiro (Consultoria Interna), Alessandra de Castro (Desenvolvimento Organizacional), Ana Kohl (Saúde e Serviços), Márcio Nascimento (Remuneração e Benefícios) Redação e Correspondência: Av. das Nações Unidas, 7221, 15º andar, Pinheiros, São Paulo, SP, CEP 05425-902, tel. 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Trabalhava-se de segunda à segunda, doze horas por dia, com apenas uma folga quinzenal. box 4 Nas regiões mais afastadas do país, grande parte da população prefere o rádio à TV. REGÊNCIA box 5 Os funcionários do museu obedeceram os regulamentos. box 6 Viu as inúmeras exposições disponíveis nos museus da cidade e ficou encantado com a possibilidade de acompanhar de perto. Lembrou-se que levaria a namorada à Bienal na cidade de São Paulo. box 7 As velhas práticas de compadrio não foram totalmente abolidas na empresa. É muito comum a promoção de funcionário que o gestor superior gosta. box 8 O couro está sendo gradualmente substituído por produtos recicláveis ou sintéticos. Sofás e jaquetas em couro custam muito mais caro do que seus similares em produtos sintéticos. CONJUGAÇÃO box 9 A polícia suspeita que deputados investigados na operação “Lava Jato” são na maioria de um só partido. box 10 Quando houver mais acesso à escola pública de qualidade, sem dúvida haverá menos ocorrências policiais que envolvam jovens e menores de idade. box 11 A polícia, percebendo que o grupo de manifestantes se aglomerava próximo à sede do governo, interviu rapidamente com bombas de efeito moral e balas de borracha. box 12 Se você for ao clube, observar as pessoas e supor que todos respeitam as regras, ficará escandalizado com tanta gente reservando cadeiras na piscina. box 13 Eu queria falar com você mais tarde, tudo bem? box 14 Se eu fosse você, só comprava produtos orgânicos. box 15 Não se preocupe com sua falta, amanhã requero o pedido de abono para você. CONCORDÂNCIA box 16 Aécio ou Dilma tomará posse do Governo após eleição acirrada. box 17 Aécio ou Dilma são candidatos fortes para vencer a eleição. box 18 Ódio e rancor formava o caráter daquele homem. box 19 Um grito, uma palavra, um gesto modifica a vida de quem ama. box 20 Meus sonhos é aquela mulher. VÍRGULA box 21 As empresas do setor de calçados apresentaram ao governo uma nova proposta de isenção de impostos para os técnicos do Ministério analisarem. box 22 Tremores de terra no Haiti, causaram a destruição no país em 2010. box 23 Em momentos de desassossego, esperamos que as pessoas compreendam nossa necessidade de isolamento. Desafios em gramática Nesta seção, encare questões de gramática habituais nos vestibulares e no Enem. Na seção seguinte, desafios reais em coesão retirados das provas. O professor João Jonas Veiga Sobral* elaborou as questões de gramática e as respostas das duas seções. C/E Marque C nas orações corretas e coerentes quanto ao emprego das regras da gramática normativa e vírgulas e E nas que estiverem erradas, ou seja, fora da norma-padrão, também chamada de norma culta. * Professor de Língua Portuguesa e Orientador Educacional no Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo 45GE REDAÇÃO 2016 CRASE 1 Errada A palavra “semelhantes” pede a preposição “a”. Assim, há a fusão dessa preposição com o artigo: às encaminhadas. 2 Certa O verbo assistir, no sentido de ver ou de apreciar, é transitivo indireto e pede preposição “a”; na acepção de dar assistência é apenas verbo transitivo direto. 3 Errada Temos apenas as preposições “de” e “a” em “de segunda a segunda”. 4 Certa O verbo preferir é verbo transitivo direto e indireto. Pede tanto objeto direto quanto indireto: o rádio à TV. Na norma culta deve-se dizer “prefiro uma coisa a outra”. REGÊNCIA 5 Errada De acordo com a norma culta o verbo obedecer é transitivo indireto e pede objeto indireto. Quem obedece, obedece a alguma coisa ou a alguém (aos regulamentos). 6 Errada Lembrou-se de que. O verbo lembrar, quando usado com o pronome se pede a preposição de. Quem lembra, lembra algo ou alguém. Quem se lembra, se lembra de algo. 7 Errada Quem gosta, gosta de algo ou de alguém. O verbo gostar é transitivo indireto, solicita preposição de (de que o gestor gosta). 8 Errada A preposição em não é empregada no sentido de material ou de matéria. Deve-se substituir pela preposição de: sofá e blusa de couro. CONJUGAÇÃO 9 Errada O verbo suspeitar apresenta sentido de hipótese e pede correlação no modo subjuntivo (sejam). 10 Certa A conjugação dos verbos está adequada. O verbo haver empregado no futuro do subjuntivo e no futuro do presente do indicativo tornam a frase coesa e correlata. 11 Errada O verbo intervir é derivado do verbo vir e tem a mesma conjugação. A polícia interveio, e não a polícia interviu. 12 Errada O verbo irregular supor foi flexionado de forma errada, o certo é supuser no futuro do subjuntivo 13 Errada O verbo querer foi flexionado equivocadamente, no futuro do pretérito do indicativo a flexão correta é quereria. 14 Errada O verbo comprar deveria ser flexionado no futuro do pretérito (compraria) para fazer a correlação adequada com o pretérito perfeito do indicativo. 15 Errada O verbo requerer não segue a conjugação do verbo querer no presente do indicativo e nos tempos derivados (presente do subjuntivo e imperativo afirmativo). O correto é eu requeiro. Melhor seria “amanhã eu requererei o pedido de abono”. CONCORDÂNCIA 16 Certa O sujeito composto pede verbo no singular, pois é excludente: apenas um dos dois candidatos pode tomar posse. 17 Certa Aplica-se a concordância no plural, pois ambos podem ser bons candidatos. 18 Certa Há um sujeito composto ligado por “e”, porém o verbo fica no singular, pois são sinônimos e mantêm a mesma ideia. É o mesmo que estivesse escrito “um ódio rancoroso formava o caráter”. 19 Certa O sujeito é composto e gradativo, o que pede concordância no singular, por manter basicamente a mesma ideia. 20 Certa O verbo ser pode concordar com o sujeito ou com o predicativo, mas a preferência é pelo sujeito quando é uma pessoa. Exemplos: Minhas filhas são minha vida. Fernado Pessoa é vários poetas. VÍRGULA O emprego da vírgula está vinculado às relações sintáticas entre os termos de um período. A regra básica é que não devemos separar o sujeito do verbo e o verbo de seu complemento. Mas há exceções, por exemplo, quando uma ideia, explicativa ou complemento está em aposto (entre vírgulas). Veja: “Dentro de um mês, salvo engano, eu viajarei”. Note que a frase em sua ordem natural é “Eu viajarei dentro de um mês, salvo engano!” 21 Certa Não ocorre vírgula, uma vez que os termos estabelecem entre si relações de complemento. 22 Errada A vírgula está separando o sujeito da oração do verbo. 23 Certa A vírgula separa corretamente um adjunto adverbial longo no início da oração. r e s p o s ta s 46 GE REDAÇÃO 2016 DESAFIOS cheque sua coesão Usando bem os recursos de coesão, você favorece a coerência e a compreensão de seu texto por quem o lê. Aqui você encara 6 exercícios, de diferentes aspectos. Experimente! I. Pronomes Utilize os pronomes para retomar ou introduzir referentes no texto 1 Ibmec/RJ 2009 O texto a seguir foi retirado da obra de Graciliano Ramos, Vidas Se- cas. Esse romance completou, em agosto de 2008, 70 anos de sua primeira publicação. É narrado em 3a pessoa (ao contrário das obras anteriores de Graciliano) e pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos. 1 Fabiano, uma coisa da fazenda, um triste, seria despedido quando menos esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de fábrica, peneiras, gibão, guarda-peito e sapatões de couro, mas ao sair lar- garia tudo ao vaqueiro que o substituísse. 2 Sinhá Vitória desejava possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Doidice. 3 Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem. 4 Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teria meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa amarrada, dormiriam bem debaixo de um pau. 5 Olhou a caatinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, natu- ralmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. 6 E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo – anos bons, misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas – ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo. Vidas Secas, Graciliano Ramos No texto, o autor usa recursos coesivos para retomar termos citados anteriormente, dando, com isso, coesão ao mesmo. Assinale a alter- nativa na qual o antecedente listado à esquerda NÃO corresponde ao termo destacado ao lado. a) “... que O substituísse.” (parágrafo 1) – Fabiano. b) “... para não contrariá-LA” (parágrafo 3) – Sinhá Vitória. c) “... e ELES ganhariam o mundo...” (parágrafo 4) – Fabiano e Sinhá Vitória. d) “... sucedera O MESMO...” (parágrafo 6) – anos bons misturados com anos ruins. e) “... ELA se avizinhando a galope...” (parágrafo 6) – Sinhá Vitória. 47GE REDAÇÃO 2016 II. Conectivos de sentido O bom uso de conectivos permite ao leitor estabelecer relações de sentidos entre partes do texto. 1 Uerj 2013 adaptada Entretanto, quantas dores, quantas angústias! Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um médico mezinheiro, 1 repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu amanhã lhes fosse falar neste livro – que espanto! que sarcasmo! que crítica desanimadora não fariam. Depois que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das minhas leituras, não falo das minhas lucubrações inte- lectuais a ninguém, e minha mulher, quando me demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto: – Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para amanhã! De forma que não tenho por onde aferir se as minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se a minha inabilidade literária está prejudicando completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em que me acho, em que 2 me dispo em frente de desconhecidos, como uma mulher pública... 3 Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela, unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso ab- solutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite, quando todos em casa se vão recolhendo, insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo furiosa- mente. Estou no sexto capítulo e ainda não me preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom recebimento dos detentores da opinião nacional. 4 Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube dizer. (...) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco expressiva do que eu de fato tinha sentido. Lima Barreto Recordações do Escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o da adição. O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição está em: a) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus como tiraram. b) me dispo em frente de desconhecidos, como uma mulher pública... c) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela, unicamente dela. d) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais hábil... 2 Uemg 2010 adaptada COMO LER BEM O bom repórter deve ser imparcial, diz a lição número 1 do jornalis- mo. 1 Mas o bom leitor 2 também tem sua regra de ouro. Ele deve 4 sempre, 4 sempre, manter a cabeça aberta. O bom leitor sabe se distanciar das paixões. Está sempre disposto a ouvir uma ideia nova – 5 ainda que ela coloque abaixo suas ideias antigas. 3 Posto assim, ler bem parece um desafio fácil. Não é, como também não é simples ser imparcial. Superinteressante, ed. nº 269, ano 23, nº 9 – Seção Escuta – texto adaptado Constatando a presença dos elementos de coesão como fatores da construção de sentido no texto acima, qual a afirmação que não está correta? a) o articulador mas (ref. 1) relaciona-se semanticamente com o arti- culador também (ref. 2) introduzindo, respectivamente, ideias de contraste e inclusão, no sentido do texto. b) o termo posto assim (ref. 3) refere-se às atitudes recomendadas ao bom leitor, anteriormente indicadas. c) a repetição do termo sempre (ref. 4) reforça a ideia de contradição entre a “lição número 1” do repórter e a “regra de ouro” do leitor. d) o articulador representado por ainda que (ref. 5) introduz o sentido de concessão, conectando as expressões “ideia nova” e “ideias antigas”. 3 Mackenzie 2009 adaptada Histórica e sociologicamente, os jogos em geral têm um papel muito 3 importante: são elementos essencialmente reveladores de carac- terísticas civilizatórias, 4 isto é, através da história do jogo podemos conhecer muito da sociedade em que é praticado. O filósofo Platão (...) observa que só se pode admitir a mudança de regras para crianças de até seis anos. 5 A partir daí, as regras deveriam permanecer fixas, inalteradas, pois caso se habituassem às mudanças nas leis do jogo, os jovens desejariam experimentar alterações também nas leis da cidade, 1 o que, segundo Platão, 2 seria muito perigoso para a democracia. Fátima Cabral Assinale a alternativa correta. a) “o que” (ref. 1) estabelece coesão textual ao se referir antecipada- mente ao trecho “seria muito perigoso para a democracia” (ref. 2). b) Os dois pontos (ref. 3) podem ser substituídos, sem prejuízo do sen- tido original do texto, pela conjunção “contudo”. c) “isto é” (ref. 4) introduz frase que retifica afirmação feita na oração imediatamente anterior. d) “A partir daí” (ref. 5) relaciona-se com o período imediatamente anterior, expressando sentido equivalente a “desse ponto em diante”. 48 GE REDAÇÃO 2016 DESAFIOS III. Conectivos temporais O bom uso dos conectivos temporais ajuda a estabelecer uma sequência lógica para quem lê 1 Uema 2015 O texto a seguir foi transcrito integralmente da obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus. Leia-o com atenção e observe o mecanismo de coesão entre as frases no último parágrafo. 30 DE OUTUBRO (...) Eu comecei a fazer as contas quando levar os filhos na cidade quanto eu vou gastar de bonde. 3 filhos e eu, 24 cruzeiros ida e volta. Pensei no arroz a 30 o quilo. Uma senhora chamou-me para dar-me papéis. Disse-lhe que devido ao aumento da condução a polícia estava nas ruas. Ela ficou triste. Percebi que a notícia do aumento entristece todos. Ela disse-me: – Eles gastam nas eleições e depois aumentam qualquer coisa. O Auro perdeu, aumentou a carne. O Adhemar perdeu, aumentou as passagens. Um pouquinho de cada um, eles vão recuperando o que gastam. Quem paga as despesas das eleições é o povo! São Paulo: Ática, 2007. O discurso direto, reproduzido no fragmento em destaque, é marcado por um encadeamento semântico-discursivo que resulta na sequência narrativa. A expressão coesiva responsável por essa sequência é a) “qualquer coisa”. b) “das eleições”. c) “de cada um”. d) “e depois”. e) “o que”. 2 Uepb 2014 Leia o texto a seguir. GUARDIÃO DA BRASILIDADE NA AMÉRICA Na primeira vez em que esteve no Brasil, o historiador Thomas Cohen não estava entendendo nada. Logo ao chegar, tinha um encontro com um renomado professor de história da Universidade de São Paulo. O professor chegou uma hora e meia atrasado e anunciou que precisava viajar em seguida. Convidou o jovem Cohen, então com 25 anos, para acompanhá-lo à cidade de Franca, onde passaria o fim de semana dando palestras. Cohen pensou que o professor fizera o convite apenas para compensá-lo pelo desencontro e, polidamente, recusou. “Só depois descobri que os brasileiros são assim mesmo, disponíveis, espontâ- neos”, diz. Cohen acabou encantando-se com a informalidade dos intelectuais brasileiros, e hoje, passados trinta anos, entende muito do Brasil. Já visitou o país dezenas de vezes, é fluente em português, especialista na obra do padre Antônio Vieira (1608-1697) e guardião de uma preciosidade: a única biblioteca dedicada exclusivamente às coisas do Brasil e de Portugal em solo americano – a The Oliveira Lima Library. (...) André Petry. Revista Veja São Paulo, Abril. Edição 2317. Ano 46. N° 16. 17 de abril de 2013, p. 93. Na primeira linha, a expressão “Na primeira vez”, pode ser enten- dida como a) Forma nominalizante que remete a argumentos da oração subse- quente. b) Elemento não referencial, pois não faz referência a nenhum elemento do grupo nominal. c) Elo de coesão que remete a todo um contexto anterior. d) Elemento referencial que tem função localizadora. e) Forma remissiva que faz referência temporal a um constituinte do universo textual. I. 1 Resposta E. Na letra E, o termo “ela” corresponde à “desgraça” e não a Sinhá Vitória. II. 1 Resposta D. A coesão garante a articulação clara e organizada entre as diferentes partes e elementos de um texto. O uso de conjunções ajuda a manter os períodos coesos. No trecho “Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais hábil”, o emprego da conjunção “mas” em paralelo com o termo “também” configura a relação de adição. 2 Resposta C. A repetição de “sempre” não tem nenhuma relação com gerar contradição, mas possui, sim, a função de enfatizar e intensificar a regra de ouro do leitor: manter a cabeça aberta. 3 Resposta D. Em A, “o que” faz alusão ao que foi dito anteriormente. Em B, os dois pontos não assinalam uma ideia contrária como pro- põe o conectivo “contudo”. Em C, a expressão “isto é” não retifica, e sim ratifica. III. 1 Resposta D. No discurso da senhora, apenas a expressão “e depois” é responsável por encadeamento de orações. Todas as orações que ela produz em seguida seguem a noção de temporalidade, sem que o elemento coesivo seja repetido. 2 Resposta E. A expressão “Na primeira vez” faz remissão a outro(s) elemento(s) do universo textual, constituindo elemento que antecipa algo que vai ser dito posteriormente. R e s p o s t a s