Uma Breve Análise do
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DisciplinaTeoria e Método em Geografia105 materiais3.171 seguidores
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Uma Breve Análise do "Discurso sobre as Ciências" de Boaventura de Sousa Santos
A resenha desta obra será feita da seguinte maneira: inicialmente farei um resumo abrangendo os três pontos centrais da obra (\u201cO paradigma dominante\u201d, \u201cA crise do paradigma dominante\u201d, \u201cO paradigma emergente\u201d), posteriormente, irei expor considerações críticas. Saliento que os dois primeiros capítulos serão tratados com maiores detalhes na parte do resumo. Deixarei para analisar e esclarecer o terceiro capítulo na parte crítica deste trabalho, juntamente com as exposições de minhas idéias sobre o assunto/texto. 
1. INTRODUÇÃO 
A obra \u201cUm discurso sobre as Ciências\u201d apresenta em suas primeiras páginas a crise de identidade das ciências no tempo em que vivemos. Esse assunto será desdobrado ao longo da obra, sendo analisados aspectos históricos das ciências naturais e sociais, bem como o atual contexto cientifico em que nos encontramos e as perspectivas para o futuro. 
O autor sustenta, inicialmente, que nos encontramos em uma fase de transição entre \u201ctempos\u201d científicos. Para uma melhor compreensão, Boaventura utiliza-se do exemplo de Rousseau, que na obra \u201cDiscours sur Le Sciences et lês Arts\u201d, de 1750, buscou respostas por meio de perguntas elementares e simples. Para tanto, o autor estrutura a sua obra da seguinte maneira: 1º) caracteriza a ordem científica hegemônica; 2º) analisa, sob condições teóricas e sociológicas, a crise dessa hegemonia; 3º) propõe um perfil de uma ordem científica emergente, novamente sob condições teóricas e sociológicas. 
2. O PARADIGMA DOMINANTE 
A ordem científica dominante, tratada na obra como \u201cO paradigma dominante\u201d, diz respeito ao modelo de racionalidade herdado a partir do século XVI e consolidado no século XIX. Essa nova racionalidade científica vislumbra uma única forma de se atingir o conhecimento verdadeiro, aquela decorrente da aplicação de seus próprios princípios epistemológicos e de suas regras metodológicas. Sendo um modelo totalitário, esta nova visão de mundo apresentava distinções fundamentais aos modelos de \u201csaberes\u201d aristotélicos e medievais: 1º) opunham-se conhecimento científico e conhecimento do senso comum (desconfiava-se das evidências da experiência imediata e do senso comum e buscava-se respostas na observação científica sistemática, rigorosa e controlável dos fenômenos naturais); 2º) opunham-se natureza e pessoa humana (buscava-se conhecer a natureza para poder controlá-la e dominá-la). 
Para que ocorresse uma observação e experimentação que levasse a um conhecimento mais profundo e rigoroso da natureza, empregava-se, como instrumento privilegiado de análise, a matemática. A matemática permitia que a natureza, bem como os seus fenômenos, fossem analisados e estruturados sob dois pilares: 1º) quantificação como sinônimo de conhecimento, pelo emprego rigoroso das medições; 2º) redução da complexidade do mundo, por meio da divisão e classificação sistemática (tendo como divisão primordial aquela entre condições iniciais (reino da complicação e do acidente, onde é necessário selecionar as condições a serem observadas) e leis da natureza (reino da simplicidade e da regularidade, onde há a possibilidade de se observar e medir de forma rigorosa a natureza). 
A descoberta das leis da natureza, o isolamento das condições iniciais relevantes, a produção de resultados independentemente do lugar e tempo das condições iniciais, o conhecimento causal da ciência moderna (que busca entender o \u201ccomo\u201d ao invés do \u201cpor quem\u201d ou \u201cpara que\u201d) promoveram, dentre outras consequências, a previsibilidade dos fenômenos naturais. É por meio dessa suposta previsibilidade que se firmou o conhecimento na idéia de ordem e estabilidade do mundo, sendo este \u201cestável\u201d e \u201cdeterminável\u201d por meio de leis físicas e matemáticas que poderiam o decompor. Eis aí o fundamento do chamado determinismo mecanicista que irá sustentar a ciência moderna (o mundo-máquina) com a sua idéia de um mundo cognoscível pela decomposição dos seus elementos constituintes. 
Por se tratar de um modelo de racionalidade hegemônica da época, a ciência moderna, por intermédio de precursores como Bacon, Vico e Montesquieu, não demorou a permeabilizar o campo do comportamento social. Como bem afirma o autor, \u201ctal como foi possível descobrir as leis da natureza, seria igualmente possível descobrir as leis da sociedade\u201d(1). 
Decorre daí, em meados do século XIX, a emergência das chamadas ciências sociais, as quais assumiriam duas correntes distintas de absorção do modelo mecanicista: 1ª) aplicava, dentre as possibilidades existentes, os princípios epistemológicos e metodológicos do estado da natureza (ciências sociais como extensão das ciências naturais); 2ª) estabelecia uma metodologia própria para as ciências sociais, com base na \u201cespecificidade do ser humano e sua distinção polar em relação à natureza\u201d(2). 
A primeira vertente defendia a aplicação de um modelo de ciências sociais erigido a partir de pressupostos das próprias ciências naturais, tendo portanto um caráter de conhecimento universalmente válido. Como bem assinala Boaventura, ao esclarecer essa corrente, \u201cpor maiores que sejam as diferenças entre os fenômenos naturais e sociais é sempre possível estudar os últimos como se fossem os primeiros\u201d(3). Apesar das dificuldades, essa vertente admite a possibilidade de as ciências sociais se compatibilizarem com os critérios rigorosos das ciências naturais. Dessa vertente fazem parte Durkheim e Ernest Nagel. 
A segunda vertente irá defender uma metodologia própria, na qual as dificuldades em compatibilizarem-se os dois campos das ciências, naturais e sociais, são instransponíveis. O fundamento detrás desse pensamento é a subjetividade do comportamento humano, o qual, revestindo-se de complexa estrutura, não pode ser analisado e explicado da mesma maneira que é explicada a natureza (por suas características exteriores observáveis). Como ressalta o autor, ao explicar a segunda corrente, \u201ca ciência social será sempre essa ciência subjetiva e não objetiva como as ciências naturais; tem de compreender os fenômenos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem às suas ações, para o que é necessário utilizar métodos de investigação e mesmo critérios epistemológicos diferentes das correntes nas ciências naturais\u201d(4). Como doutrinadores dessa corrente pode-se citar Max Weber e Peter Winch. 
Apesar de serem aparentemente diversas, as duas correntes acabam por dar maior relevância às ciências naturais do que às ciências sociais. De fato, a segunda vertente serviria como um indício da crise do modelo até então hegemônico. 
3. A CRISE DO PARADIGMA DOMINANTE 
A crise do modelo hegemônico decorre da interatividade de uma série de condições teóricas e sociais. O autor destaca, inicialmente, quatro condições teóricas que contribuíram para a crise do paradigma dominante: 1ª) a teoria da relatividade de Einstein; 2ª) a mecânica quântica; 3ª) o questionamento do rigorismo matemático; 4ª) o avanço do conhecimento nas áreas da microfísica, química e biologia na segunda metade do século XX. Nos últimos parágrafos do capítulo, o autor apresenta, em aspectos genéricos, algumas condições sociais proporcionadas pela crise do paradigma dominante. 
A primeira condição teórica diz respeito à teoria da relatividade de Einstein. O ponto-chave aqui repousa na divisão feita pelo cientista entre simultaneidade de eventos no mesmo local e simultaneidade de eventos em locais diferentes (à distância). Partindo dessa idéia, as concepções até então concebidas de espaço e tempo seriam revolucionadas. \u201cNão havendo simultaneidade universal, o tempo e o espaço absoluto de Newton deixam de existir\u201d(5). Passa-se, portanto, a conclusão de que as leis da física e da geometria assentam-se em medições locais, pois dois acontecimentos simultâneos num sistema de referência não são simultâneos noutro sistema de referência. 
A segunda condição teórica refere-se à mecânica quântica. Aliada ao princípio da incerteza de Heisenberg e à teoria