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AS CINCO LEIS DA BIBLIOTECONOMIA Reproduzido com a gentil permissão do Sr. C. Seshachalam, de Curzon & Co., Madras. Copyright: Curzon & Co. S.R. Ranganathan As Cinco Leis da Biblioteconomia Tradução de Tarcisio Zandonade © Sarada Ranganathan Endowment for Library Science. 1963 Esta tradução: © 2009 by Lemos Informação e Comunicação Ltda. Do original inglês: The five laws of library science (2. ed. 1963) Primeira edição original: 1931 Segunda edição: 1957 Reimpressão (com pequenas correções: 1963) Todos os direitos reservados. De acordo com a lei n° 9610, de 19/2/1998, nenhuma parte deste livro pode ser fotocopiada, gravada, reproduzida ou armazenada num sistema de recuperação de informação ou transmitida sob qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico ou mecânico sem o prévio consentimento dos autores e do editor. Este livro obedece ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 Capa: Formatos Design Gráfico Ltda. Revisão e notas: Antonio Agenor Briquet de Lemos e Maria Lucia Vilar de Lemos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) Cãmara Brasileira do Livro, sp, Brasil Ranganathan, S. R., 1892-1972. As cinco leis da biblioteconomia / S.R. Ranganathan ; tradução de Tarcisio Zandonade. – Brasília, df : Briquet de Lemos / Livros, 2009. Título original: The five laws of library science. Bibliografia. isbn 978-85-85637-38-5 1. Biblioteconomia I. Título. 09-06911 cdd 020 Índices para catálogo sistemático: 1. Biblioteconomia 020 2009 Briquet de Lemos / Livros srts - Quadra 701 - Bloco o - Loja 7 Edifício Centro Multiempresarial Brasília, df 70340-000 Telefones (61) 3322 9806 / 3323 1725 www.briquetdelemos.com.br editora@bríquetdelernos.com.br À Querida Memória de Srimati RUKMINI vii SUMÁRIO Apresentação desta edição xi Prefácio de sir P.S. Sivaswamy Aiyer xix Introdução do Sr. W. C. Berwick Sayers xxi 0 Gênese 1 01 Ingresso na profissão de bibliotecário 1 02 Primeira experiência 1 03 Tendências bibliotecárias 1 04 Método científico 2 05 Enunciado 2 06 Divulgação 3 07 Publicação 4 08 Consequências 5 1 A Primeira Lei 6 11 Princípio fundamental 6 12 Negligência da lei 6 13 Localização da biblioteca 10 14 Horário da biblioteca 15 15 Mobiliário da biblioteca 19 16 Um diálogo 20 17 Pessoal da biblioteca 25 18 Não se enamore dos frutos 49 2 A Segunda Lei e sua luta 50 20 Introdução 50 21 As classes e as massas 51 22 Homens e mulheres 59 23 Os moradores das cidades e os moradores do campo 67 24 O normal e o excepcional 81 25 O coral da biblioteca 86 26 A terra e o mar 87 27 O adulto e a criança 90 28 Democracia ilimitada 92 3 A Segunda Lei e sua digvijaya 94 30 Abrangência 94 as cinco leis da biblioteconomiaviii 31 Américas 94 32 África do Sul 105 33 Europa oriental 108 34 Escandinávia 118 35 Europa ocidental 123 36 Oceano Pacífico 130 37 Ásia 131 38 Índia 134 4 A Segunda Lei e suas implicações 138 40 Abrangência 138 41 Compromisso do Estado 138 42 Lei estadual de bibliotecas 152 43 Lei das bibliotecas da União 165 44 Sistema bibliotecário 173 45 Sistema de bibliotecas universitárias 176 46 Compromisso da autoridade responsável pela biblioteca 177 47 Compromisso do pessoal da biblioteca 180 48 Compromisso do leitor 184 5 A Terceira Lei 189 50 Enunciado 189 51 Sistema de acesso livre 189 52 Arranjo nas estantes 192 53 Catálogo 194 54 Serviço de referência 197 55 Departamentos populares 198 56 Publicidade 199 57 Serviço de extensão 205 58 Seleção de livros 210 6 A Quarta Lei 211 60 Introdução 211 61 Sistema ‘fechado’ 212 62 Arranjo nas estantes 214 63 Sinalização do recinto das estantes 216 64 Entradas no catálogo 220 65 Bibliografia 225 66 Serviço de referência 228 67 Método de empréstimo 230 68 O tempo do pessoal 236 691 Catalogação centralizada 237 692 Localização da biblioteca 241 sumário ix 7 A Quinta Lei 241 70 Introdução 241 71 Crescimento de tamanho 241 72 Sala do catálogo 249 73 Sistema de classificação 251 74 Leitores e empréstimo de livros 254 75 Pessoal 258 76 Evolução 261 77 Princípio vital 263 8 O método científico, a biblioteconomia e o avanço da digvijaya 264 80 O que é ciência? 264 81 O método científico 266 82 A Segunda Lei e novos tipos de livros e de práticas 276 83 A Terceira Lei e a documentação 278 84 A Quarta Lei e as novas práticas biblioteconômicas 281 85 A Quinta Lei e suas diversas implicações 283 86 Ramos da biblioteconomia 286 87 Ensino e pesquisa 289 88 A marcha da digvijaya 303 Apêndice 1: Especificações para um módulo de estante feito de teca 314 Apêndice 2: Especifícação para uma mesa de periódicos feita de teca 315 Bibliografia 317 Índice 326 xi Levar conhecimento a quem não o tem e ensinar a todos para que possam discernir o que é certo! Nem mesmo partilhar toda a Terra seria comparável a esta forma de serviço. Manu As cinco leis da biblioteconomia Os livros são para usar A cada leitor seu livro A cada livro seu leitor Poupe o tempo do leitor A biblioteca é um organismo em crescimento xiii APRESENTAÇÃO DESTA EDIÇÃO Shiyali Ramamrita Ranganathan (1892–1972) nasceu em Shiyali, no esta- do de Madras, hoje Tamil Nadu, na Índia. Bibliotecário e pensador, sua produção intelectual e seus feitos profissionais tornaram-no conhecido como o ‘pai da biblioteconomia indiana’. Este livro foi editado pela pri- meira vez em 1931. E por que, depois de tanto tempo, ainda se lê este livro? A resposta a esta pergunta é simples: porque os clássicos se leem sem- pre. E o que faz desta obra um clássico? Por que, decorridos quase 80 anos, este quincálogo da biblioteconomia, reiterada e teimosamente re- diviva, continua atraindo leitores e releitores? Outra pergunta, por que publicar esta edição em português? O que tem ainda a nos dizer este senhor mais do que centenário, que nasceu e viveu num país tão distante do Brasil? É razoável supor que este seja, no campo da biblioteconomia e ciên- cia da informação, um dos livros que apresentam mais longa meia-vida, maior número de citações e uma capacidade muito grande de estimular novas ideias. Aliás, Berwick Sayers, no prefácio à primeira edição, ante- via o destino dele: o de um ‘standard text-book’, standard aqui no sen- tido de obra modelar, que, como todos os modelos, tendem a se tomar clássicos. Clássico porque permanece atual, trazendo lições sempre úteis mesmo quando a tecnologia da informação dá a impressão de os biblio- tecários de hoje esta rem muito à frente do mundo de Ranganathan. Clás- sico porque no uni verso brasileiro, tão distante da Índia, tanto historica quanto culturalmente, suas palavras encontram ressonância e parecem refletir a realidade de muitas de nossas bibliotecas e a visão de muitas de nossas autoridades. Os dois prefácios, de Aiyer e de Berwick Sayers, souberam logo re- conhecer a qualidade excepcional do texto do bibliotecário indiano. Em particular, a capacidade que teve Ranganathan, de forma simples e clara, a partir da observação direta do mundo dos livros e das bibliotecas, de cons truir seus princípios, sua teoria, sua filosofia, sua epistemologia. Sem em pregar conceitos abstrusos, sem erigir construtos informes, sempatinar na geleia mal digerida de ideias alheias, ele extraiu da realidade circundante suas constatações e suas conclusões, que cada vez mais são reconhecidas como uma das melhores contribuições para a formulação de uma teoria da biblioteconomia. Erigiu assim, de forma exemplar, não as cinco leis da biblioteconomiaxiv só um texto que, com a simplicidade de um manual de boas práticas bibliotecárias, procurava estimular a criação de bibliotecas em seu país, mas também, com argúcia e clareza de pensamento, dissecava essas práticas em busca de sua razão de ser, de seus princípios, e argumentos que as justificassem como técnicas e como necessidades sociais. Rana- ganathan procura e consegue identificar o que se acha por trás de uma sucessão de atos e rotinas sem sentido aparente, mas que se revestem de grande significado para a produção e difusão da cultura. Seu contato com a realidade das bibliotecas do Reino Unido levou-o a procurar saber o que se passava em instituições semelhantes de outros países. Isso serviu de quadro de referência no qual e com o qual contrastou a situação das bibliotecas da Índia. Pioneiro, portanto, da biblioteconomia comparada, buscou nesse processo elementos que fundamentassem sua ar- gumentação, a qual também serve para ‘convencer as autoridades’, como dizemos aqui, quanto à importância do livro, da biblioteca e da leitura. Seu texto não tem o formalismo e a aridez de uma tese doutoral. Ele não vacila em antropomorfizar as leis da biblioteconomia, em criar um elenco de personagens exemplares (as diversas autoridades, os leitores potenciais, cidadãos comuns, etc.) e colocá-las num espaço dramático, numa feliz reunião da maiêutica socrática com o diálogo teatral, a que não falta o apelo ao coro grego. Encontram-se disponíveis na Rede inúmeras informações biográficas sobre Ranganathan. Por exemplo: Gopinath, M.A. Ranganathan, Shiyali Ramamrita. Encyclopedia of library and information science. 2nd ed., p. 2419- 2437, 2003. Disponível em: <http://www.informaworld.com/10.1081/e- elis-120009006>. Acesso em: 15/5/2009). As referências que recomenda- mos abaixo são relevantes para o estudo das cinco leis da biblioteconomia e de sua repercussão em diversas vertentes da teoria e da prática. Antonio Agenor Briquet de Lemos editor Recomendações de leitura Allen, Ethan. Ranganathan’s third law and collection access at Norica: an assess- ment. Joumal of Access Services, v. 4, n. 3/4, p. 57-69, 2006. Atherton, Pauline A. Putting knowledge to work: an American view of Ranganathan’s five laws of library science. Delhi: Vikas, 1973. Beffa, Maria Lucia; Napoleone, Luciana Maria. Estruturando a informação para um sistema virtual centrado no usuário: a avaliação do website do Serviço de Biblioteca e Documentação da Faculdade de Direito da usp, Brasil. In: Fer- reira, Sueli Mara Soares Pinto; Savard, Réjean. The virtual customer: a new paradigm for improving customer relation in libraries and information services, p. xvapresentação desta edição 49-71. Satellite Meeting, São Paulo, Brazil, August 18-20, 2004. 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As bibliotecas são hoje vistas não como bens precio- sos a serem ciosamente preservadas da intromissão da plebe, mas como instituições democráticas para benefício e satisfação de todos. Como atrair os leitores para as bibliotecas, como ampliar para todas as classes as oportunidades de usá-las, como prestar a maior ajuda possível aos que desejam usar as bibliotecas e como poupar o tempo dos leitores e também dos funcionários da biblioteca são questões que, aparentemente simples, demandam não pouca reflexão, imaginação, capacidade e experiência por parte do bibliotecário. A bibliografia produzida sobre esta matéria tem se avolumado grandemente. Foram criadas associações de bibliotecários em muitos países, foram iniciados cursos em várias universidades para o ensino da administração de bibliotecas e surgiram numerosos periódicos de biblioteconomia. Foram feitas tentativas de sistematizar o conhecimento sobre a matéria e agora se afirma que ela atingiu o status de ciência. Dispensa comentar se a organização e administração de bibliotecas deva ser considerada uma ciência ou uma arte. Não há dúvida, entretanto, de que há certos princípios essenciais subjacentes à administração de bibliotecas de acordo com as necessidades e concepções atuais. O autor deste livro procurou expor estes princípios numa forma siste- mática. Conseguiu sintetizá-los em cinco princípios cardeais e desenvol- ver todas as regras de organização e administração de bibliotecas como as cinco leis da biblioteconomiaxx implicações necessárias e corolários inevitáveis destas cinco leis. Uma vez enunciadas, as leis parecem tão óbvias que nos surpreendemos que não tenham sido claramente percebidas e elaboradas antes. O tratamento dado ao tema pelo Sr. Ranganathan é claro, lógico e lúcido. Ele trouxe para este empreendimento um amplo domínio da literatura sobre bibliotecas, um conhecimento pessoal com os métodos de administração de bibliotecas na Grã-Bretanha, uma inteligência analítica experiente e um entusiasmo ardente, mas iluminado pelo movimento por bibliotecas. Ele foi o pioneiro desse movimento na província de Madras e vem realizando uma propaganda enérgica para divulgá-lo. Ele sabe como despertar e manter o interesse do leitor e produziu um livro muito atraente e agradável de ler. Não tenho dúvida de que encontrará ampla receptividade e logo virá a ser reconhecido como um texto clássico da biblioteconomia. A Madras University é afortunada de ter o autor como seu bibliotecário. Em suas mãos,essa biblioteca evoluiu para se transformar numa instituição humana viva, que busca um contato pessoal proveitoso entre funcionários e usuários. O enorme crescimento no empréstimo de livros desde que o autor assumiu a biblioteca é um testemunho impressionante da solidez dos princípios em que a administração dela se baseia, bem como da eficiência de seu trabalho de gestão, apesar das precárias condições do local onde a biblioteca tem funcionado. A publicação deste livro pela Madras Library Association não é a me- nor de suas reivindicações pela gratidão do público. P.S. Sivaswamy Aiyer xxi INTRODUÇÃO À PRIMEIRA EDIÇÃO Este é um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos sobre nossa profissão. Ele é único, acredito, na medida em que procura pela primeira vez apresentar um estudo abrangente, feito por um bibliotecário que tem uma mente inconfundivelmente indiana, e que faz refletir a própria cultura de seu povo nas teorias básicas da arte da difusão dos livros como ela é entendida no moderno mundo das bibliotecas. Para quem é recém-chegado à nossa profissão talvez cause surpresa o tanto que se pode extrair de algo que, à superfície, parece ser um ofício tão simples, mas uma leitura atenta das páginas do Sr. Ranganathan propiciará ao iniciante uma compreensão profunda do tema. O Sr. Ranganathan está extraordinariamente dotado para a empresa a que se propôs. Faz alguns anos ele esteve, por um período de tempo, sob a orientação de professores assistentes da School of Librarianship da University of London, quando se aproximou particularmente de mim. Percebi que era homem de notável cultura, muito original em seu modo de ver, persistente e incapaz de se desviar de suas investigações, e que, prudentemente, acatava quaisquer sugestões que lhe fossem apresen- tadas. Não somente assistiu às aulas de biblioteconomia na University of London, mas estudou intensamente os serviços de bibliotecas de to- dos os tipos, visitando-as em várias partes do país. Por algum tempo, estudou diariamente nas bibliotecas públicas de Croydon, onde eu ob- servava seu trabalho com interesse. Ele examinou os processos de cada departamento e empregou muito tempo analisando-os e criticando-os. Ao longo de toda essa jornada, buscava as razões subjacentes a todos os nossos fazeres. Não estava interessado somente em livros e bibliotecas, e usou parte do seu tempo de lazer para examinar os métodos pedagógicos adotados nas escolas das cidades e as relações destes com as bibliotecas. Seu modo crítico de ver era tão profundo que ele resolveu partir para a elaboração de uma nova classificação bibliográfica. Esta classificação, como ele nos diz mais adiante neste volume, é empregada na biblioteca da universi- dade de Madras, e em algumas outras bibliotecas da Índia, que começam a classificar seus acervos. as cinco leis da biblioteconomiaxxii Este programa de estudos e esta atitude mental não poderiam deixar de resultar na preparação de um tipo de bibliotecário, cujo trabalho se tornaria importante. A obra que temos em mãos é prova disto. ii A prática da biblioteconomia precedeu de muito a formulação de quaisquer leis. Em todas as profissões, naturalmente, o mesmo acontece. É só lentamente e a partir da experiência contínua dos profissionais que uma teoria pode ser deduzida e enunciada. Nossa profissão pode reivin- dicar, entretanto, ser uma das mais antigas do mundo, e alguns dos pro- cessos bastante comuns que hoje se mostram tão aperfeiçoados, a ponto de o Sr. Ranganathan ser capaz de formular seus resultados como ‘leis’, existiam em forma embrionária nas bibliotecas assírias e provavelmente em outras mais antigas. Os catálogos de tabuletas de argila do British Museum provam-nos que havia então não somente bibliotecas, mas uma biblioteconomia sistemática. Anos mais tarde, mas ainda em tempos an- tigos, o trabalho de bibliotecários, como Calímaco, nas bibliotecas dos faraós, apresenta métodos de gestão, especialmente na classificação dos livros, que surpreendem os bibliotecários modernos que os estudaram. Cada uma das grandes nações do passado teve suas bibliotecas públi- cas, mesmo que seu uso fosse às vezes limitado a certas classes da co- munidade, e, na anarquia geral da civilização europeia, que se seguiu à queda do Império Romano Ocidental, os mosteiros ainda preservaram e ampliaram suas bibliotecas. A história das bibliotecas foi muito influenciada por esta preservação dos livros nos mosteiros, pois durante séculos as bibliotecas estiveram cir- cunscritas a escolas superiores e outros estabelecimentos fechados, e seu uso era restrito aos ocupantes dessas instituições. Preservar o livro era de importância igual ou maior do que fazer com que fosse usado. Esta men- talidade vem desaparecendo desde meados do século xix. As grandes bib- liotecas do mundo, com variados graus de generosidade, foram abertas para leitores externos, e a atitude do conservateur cedeu lugar àquele que me arrisquei a chamar alhures de explorador de livros [exploiter of books] por julgar ser esta a descrição apropriada do bibliotecário. O principal fator da atitude moderna diante das bibliotecas e dos livros tem sido o que é conhecido na Inglaterra e nos Estados Unidos como ‘bibliotecas públicas’. Este termo tem hoje um sentido bem diferente do que tinha antes de 1850. Então, as bibliotecas eram públicas mais no sentido com que as public schools* da Inglaterra são públicas; quer dizer, o seu uso * Escola particular mantida pelos pais dos alunos, oriundos, na maioria, das classes privile- giadas. A escola pública mantida pelo Estado chama-se, no Reino Unido, local school (n.e.). xxiiiintrodução à primeira edição estava em muito limitado às classes governantes. A biblioteca pública moderna é uma instituição municipal, sustentada pelos municípios para uso gratuito pelos cidadãos sem discriminação. Eram anglo-saxônicas em sua origem, e surgiram quase ao mesmo tempo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Essas bibliotecas são agora formadas com o emprego de técnicas próprias, e, em muitos casos, contam com um grande acervo de livros e, literalmente, milhões de leitores. Um dos fatores sociais mais significativos da segunda metade do sé- culo xix e do primeiro quartel do século xx foi o desenvolvimento amplo do hábito da leitura entre os povos ocidentais. Até mesmo as nações mais conservadoras da Europa desenvolveram sistemas de bibliotecas mais ou menos de acordo com o modelo anglo-saxão. iii A visão moderna das bibliotecas, portanto, é a que considera toda a população como sua clientela. Até mesmo em bibliotecas universitárias e especializadas, em quase todos os lugares, os estudantes sérios dispõem sem dificuldade dos recursos da biblioteca. Esta é a atitude que, espero e acredito, assumirá o bibliotecário, na Índia. Deve ficar bem claro, en- tretanto, que regras ou noções universais devem sempre receber um tratamento local e individual. Não acho que os métodos das bibliotecas dos Estados Unidos, por mais que eu as admire, sejam completamente adequados para a Europa, ou até mesmo para a Inglaterra. A psicologia dos povos varia, e variantes da prática bibliotecária devem ser feitas para adequar-se a este fato. Mais ainda entre os povos da Índia, com sua imen- sa história, fortes tradições, e distintas características étnicas, a aplicação pura e simples das ideias anglo-saxônicas a algo tão íntimo, pessoal e espiritual como a literatura, sem modificação, pode não ser sensata. Tive muitos estudantes estrangeiros nas bibliotecas de que cuidei, e sempre procurei convencê-los de que o que eles aprendem de nós deve sempre ser examinado cuidadosamente à luz das necessidades de seus próprios países de origem. Sinto que isto é imensamente importante para a Índia. Isso, em minha opinião, dá um valor especial à obra do Sr. Rangana- than. Ele trata de todas as questões que ocupam as mentes dos bibliotecá- rios europeus. A seleção de livros, com umamente universal que deter- mina que todos os lados devem ser ouvidos, e que nenhuma preferência pessoal terá influência indevida; os melhores métodos para mobiliar e equipar bibliotecas; uma descrição ponderada sobre o que pode ser pro- porcionado pelo catálogo e pela classificação: isto será óbvio para o leitor. Ele escreve, ademais, como um educador — como deveriam ser todos os bons bibliotecários —, e espero que tenha deixado bem claro que o desenvolvimento de uma nação culta, com um profundo amor por sua as cinco leis da biblioteconomiaxxiv grande literatura e um entendimento correto da importância dos livros, deve começar com o atendimento criterioso e generoso das crianças. No Ocidente, toda criança é um leitor em potencial. Também deve ser assim no Oriente, mesmo em lugares onde as crianças ainda não tiveram a oportunidade de ler o bastante ou ter acesso aos livros. iv Um experiente bibliotecário norte-americano observou certa vez que uma tora de madeira com um livro numa ponta e um bibliotecário na outra faria uma perfeita biblioteca. Era, naturalmente, um exagero pi- toresco, mas é o elemento pessoal que o bibliotecário traz para a bibliote- ca que lhe dá sua vitalidade; muitas bibliotecas, infelizmente, carecem de vitalidade; têm funcionários, mas não têm bibliotecários. O espírito do bibliotecário autêntico nunca foi descrito com mais beleza ou sabedoria do que no epitáfio escrito por Austin Dobson para Richard Garnett, um dos maiores bibliotecários do século xix: Dele podemos falar merecidamente, — Aqui estava alguém Que sobre a maioria das coisas sabia mais que todos; Que amava aprender de tudo sob o sol, E olhava para cada aprendiz como se fosse um irmão. As implicações disto são suficientemente profundas para chamar à mo- déstia o mais consumado bibliotecário. Isto implica que o bibliotecário deve ser uma pessoa de mente aquisitiva, que não fecha a mente para nenhum assunto de interesse humano. É sempre um aprendiz; deve es- tar sempre alerta e acolher qualquer desenvolvimento do pensamento humano e toda aventura do espírito humano. Deve, portanto, ser uma pessoa educada não somente no sentido geral, mas em toda operação e processo da biblioteca. Deve amar o próximo. Quando jovens me pro- curam como aspirantes ao trabalho bibliotecário, pergunto-lhes: “Vocês gostam de livros?” Invariavelmente respondem que gostam, mas per- gunto-lhes em seguida: “Vocês gostam de gente e de servir às pessoas?” Rejubilo-me de que na Índia haja pessoas que atualmente tomaram em suas mãos o papel de selecionar e treinar bibliotecários. Não conheço profundamente a situação do país em matéria de bibliotecas, mas com suas grandes literaturas, tão variadas, haverá sem dúvida muitos cam- pos de pesquisa e muitas possibilidades bibliotecárias até o momento não sonhadas nem mesmo pelos indianos. Eis, portanto, um livro que pode servir de inspiração para todos aque- les que, em posição mais elevada ou mais humilde, servirão à Índia em suas bibliotecas. Concebido com um espírito aberto e generoso, deve introdução à primeira edição xxv entusiasmar quem ingressa em nossa profissão naquele país com as imensas, embora nem sempre impressionantes, possibilidades de uma biblioteca. Mostrará que ela não é meramente uma coleção de livros que acumula idade e pó, mas um organismo vivo e em crescimento, que prolonga a vida do passado e a renova para a geração presente, mas que também dá a esta geração o melhor que seus próprios pesquisadores, pensadores e sonhadores têm a oferecer. W.C. Berwick Sayers Bibliotecário-Chefe, Croydon Professor da School of Librarianship da University of London Examinador de organização de bibliotecas da Library Association 1 CAPÍTULO 0 GÊNESE 01 Ingresso na Profissão de Bibliotecário Em julho de 1923, a University of Madras criou o cargo de bibliotecário da universidade. Em novembro, fui nomeado seu primeiro ocupante. Na época, ensinava matemática no Presidency College, em Madras, uma das faculdades da universidade. Comecei meu trabalho como bibliotecário na tarde de quinta-feira, 4 de janeiro de 1924. Nas primeiras semanas, não havia quase nada para fazer. Sentia-me enfastiado, e queria muito voltar a dar aula. Mas meus amigos aconselharam-me a não me precipitar. Ocupei-me com a catalogação de centenas de livros que estavam empilhados. O nú- mero de leitores que usavam a biblioteca raramente passava de dez por dia. 02 Primeira Experiência Em outubro de 1924, ingressei na School of Librarianship do Univer- sity College, em Londres. Sua biblioteca era bastante completa, ainda que pequena. Bastaram uns dois meses para ler os livros do acervo. Depois dessa bagagem teórica, adquiri alguma experiência prática, trabalhando nas bibliotecas públicas de Croydon por uns seis meses. Nos seis meses seguintes, visitei cerca de uma centena de bibliotecas de diferentes tipos. Os bibliotecários deram-me plena liberdade de observar, fazer perguntas e conversar. Esta foi a primeira experiência. Foi uma experiência rica. 03 Tendências Bibliotecárias As bibliotecas encontravam-se em diferentes estágios de desenvolvi- mento, o que facilitou um estudo comparado das práticas bibliotecárias. As tendências progressistas eram impressionantes. Mas, as linhas de de- senvolvimento nos diversos setores da prática biblioteconômica pareciam desconexas. As conversas com quem trabalhava nesses setores davam-me a impressão de que cada um trabalhava isolado sem muito contato ou relação com outros setores. Mesmo quem trabalhava num mesmo setor não dava muito sinal de trabalho em equipe. Não havia indicação alguma de que houvesse uma visão de conjunto. Todos esses fatores tendiam a ocultar a característica comum de tendências que estivessem surgindo nos diferentes setores. Portanto, o que se via era somente um agregado de 1 as cinco leis da biblioteconomia2 técnicas que não formavam um todo. Era como se os desenvolvimentos futuros fossem totalmente imprevisíveis. Tudo parecia ser uma questão de norma prática, rigorosamente empírica. 04 Método Científico A experiência que eu acumulara em matéria de estudo e pesquisa cien- tífica gerou uma sensação de revolta contra o ter de guardar na memória e lidar com uma miríade de informações desconexas e tipos de práticas sem relação entre si. Será que todos esses agregados empíricos de informações e práticas não seriam redutíveis a um punhado de princípios fundamen- tais? Será que não se poderia adotar, neste caso, o processo indutivo? Não seria possível deduzir, a partir dos princípios fundamentais, todas as práticas conhecidas? Será que os princípios fundamentais não contêm, como implicações necessárias, muitas outras práticas que atualmente não são correntes, nem conhecidas? Não se tornarão tais práticas necessárias sempre que as condições-limite estabelecidas pela sociedade se modifica- rem? Estas questões começavam a fremir em minha mente. É claro que havia a consciência de que o tema a ser estudado pertencia ao campo das ciências sociais e não ao das ciências naturais. O método científico, porém, era aplicável igualmente a ambos os campos. A única diferença estava na posição ocupada pelos princípios fundamentais. Estes constituíam hipó- teses nas ciências naturais e princípios normativos nas ciências sociais. Mas o ciclo do método científico era semelhante em ambos os casos. A pergunta a ser respondida era esta: quais são os princípios normativos a que aludem as tendências que se observam nas práticas bibliotecárias e aludem às tendências futuras que atualmente ainda não são muito visíveis? Isso agitava minha mente desde os primeiros meses de 1925. 05 Enunciado Depois que voltei à Índia, em julho de 1925, o trabalho extenuante de organizar e formar a biblioteca da universidade de Madras, praticamente a partir do zero, afastou esse problema do meu consciente. Os 32 mil volu- mes da biblioteca tinham que ser classificados e recatalogados;ao mesmo tempo, era preciso planejar e desenvolver a Classificação dos Dois Pontos [Colon Classification] e o Código para o Catálogo Sistemático [Classified Catalogue Code]. Implantou-se o acesso livre às estantes. Não tinha ajuda no serviço de referência. A publicidade da biblioteca era feita em grande escala. Como consequência, o comparecimento diário saltou de uns vinte para duzentos. Os funcionários tinham que ser recrutados e treinados. Ao mesmo tempo, era preciso redigir um manual de administração de bibliotecas. As aquisições no ano pularam de mil para seis mil. O projeto do novo prédio da biblioteca exigia sua parcela de reflexão. A pressão 3 de todas essas tarefas compulsórias empurrava os princípios normativos para camadas cada vez mais profundas da mente. Mas era uma pressão conveniente e proveitosa. Cada passo do projeto da Classificação dos Dois Pontos, cada regra formulada para o Código do Catálogo Sistemático e cada parágrafo do rascunho do manual de administração de bibliotecas teve origem e se irradiou dos princípios normativos que se achavam ocultos, sob aquela pressão, no subconsciente. Inversamente, os avanços e as necessidades impostas por essas tarefas estavam inconscientemente moldando os princípios normativos numa forma exprimível. Isso durou três anos. O ponto crítico foi alcançado no final de 1928, a altas horas da noite. A pressão mudou de rumo. Todas as outras tarefas foram postas de lado. O esforço era insuportável. À tardinha, o professor Edward B. Ross fez-me sua costumeira visita diária. A ele eu devia minha formação intelectual. Fora meu professor de matemática durante todo o curso uni- versitário; sua versatilidade e sua amizade o levaram a se interessar, de modo profundo e inteligente, por minha nova área de trabalho. Ele perce- beu meu estado de angústia. Partilhei com ele minhas preocupações. Ele se preparava para montar a motocicleta. Seus olhos brilhavam, o que era sempre indício de que estava descobrindo alguma novidade, então, surgiu o sorriso característico dessas ocasiões, e falou, “Você quer dizer, ‘Os livros são para usar’; você quer dizer que esta é a sua primeira lei.” Partiu sem nem ao menos esperar por minha reação; este era bem o seu jeito de ser. Mas seu toque de intuição fez-me voltar à realidade com grande alívio. Os enunciados das outras leis surgiram automaticamente. Levei umas três horas preenchendo cinco folhas de papel com a dedução das cinco leis. Seus enunciados estavam assim completos. 06 Divulgação A seguir teve início a divulgação das implicações dessas leis nos diver- sos setores da prática bibliotecária. Não havia então nenhuma publicação profissional na Índia dedicada à biblioteconomia. No entanto, alguns anos antes, eu participara do lançamento da revista mensal South Indian Teacher, e suas páginas estavam abertas para mim. Para tratar dos problemas da organização de bibliotecas e do serviço de referência, que tivessem interesse para o público em geral, o jornal local Hindu prestou-se ao duplo objetivo de fazer propaganda da biblioteca e liberar minha tensão. Em dezembro de 1928, a University of Madras convidou-me para proferir uma série de palestras para professores durante as férias, por ocasião da conferência provincial de educação, que, naquele ano, foi realizada no Meenakshi College, em Chidambaram, às vésperas de se transformar na Annamalai University. Havia cerca de mil professores presentes, muitos deles meus amigos pessoais. Não poderia ter havido uma plateia com mais afinidade gênese as cinco leis da biblioteconomia4 e mais simpática na primeira apresentação formal das recém-enunciadas cinco leis da biblioteconomia. As implicações de cada uma das leis foram expostas em duas palestras. Algumas, como era corrente, foram ilustradas com a projeção de diapositivos e diagramas e de viva voz. Algumas novas práticas foram também deduzidas como passíveis de virem a existir. Algu- mas já se concretizaram; a Insdoc list, iniciada em 1954, é substancialmente uma delas. Como a plateia consistia inteiramente de professores, as impli- cações educacionais das cinco leis mereceram grande ênfase. Entretanto, elas não são inteiramente apresentadas neste livro. Tornaram-se o único tema de uma série independente de palestras de férias, proferidas em Ma- dras três anos mais tarde, que foram expandidas no livro School and college libraries (1942). Em dezembro de 1930, a primeira conferência pan-asiática de educação foi realizada em Benares. Seu organizador, P. Seshadri, con- vidou-me para secretariar a sessão sobre serviços bibliotecários. Isso me propiciou o ensejo de expor as cinco leis para um público formado por bibliotecários, que, naquela época, ainda eram poucos. Foi um incentivo a mais para que eu desenvolvesse minuciosamente todas as implicações das leis da biblioteconomia na área de organização e legislação bibliotecária. Na verdade, rascunhei um anteprojeto de lei-modelo de bibliotecas, que foi discutido, artigo por artigo, durante a conferência. A lei de bibliotecas de Madras (1948) foi baseada nesse anteprojeto. A de Hyderabad (1955) também a seguiu. Essa lei-modelo encontra-se no capítulo 4 da primeira edição deste livro, mas, nesta, foi substituída por uma versão melhorada e mais ousada, projetada em 1950 para adaptar-se à situação da Índia como Estado independente. Acima de tudo, a School of Library Science, fundada em abril de 1929, ensejou a divulgação sistemática das cinco leis a cada ano. 07 Publicação A Madras Library Association foi fundada em janeiro de 1928 com o objetivo de promover a criação de um serviço de bibliotecas de alcance nacional. Cerca de 800 membros a ela se filiaram em pouco tempo. Natu- ralmente, eram todos amantes de livros e amigos da biblioteca, mas nem todos pertenciam à profissão de bibliotecário. De fato, mal chegava a dez o número de profissionais em Madras naqueles tempos. Para atrair o interesse ativo dos sócios, o presidente, Sr. K.V. Krishnaswamy Ayyer, teve a ideia de solicitar a alguns que apresentassem trabalhos para um simpósio. Houve uma boa resposta a essa iniciativa. Os anais do simpósio foram publicados em 1929 sob o título Library movement: a collection of essays by divers hands. O ensaio principal foi What makes a library big, de Rabindra Nath Tagore, o poeta nacional. Em 1930, decidiu-se iniciar uma publicação seriada regular “sobre os aspectos técnicos e práticos do trabalho bibliotecário”. Percebeu- -se que seria apropriado começar com um volume que apresentasse uma 5 exposição completa das cinco leis da biblioteconomia, do qual todos os demais volumes decorressem como consequências necessárias. Assim, a primeira edição deste livro foi publicada em junho de 1931. Com a graça de Deus, os volumes posteriores fluíram, ano após ano, desdobrando as implicações das cinco leis em cada um dos ramos da biblioteconomia. Cerca de 48 livros foram assim publicados, alguns pela Madras Library Associa- tion, e outros por diversas entidades. E em 1953, chegou-se ao vigésimo primeiro volume da série da Madras Library Association. Tratava-se de Library science in India: silver jubilee volume presented to the Madras Library Association. Com mais dois amigos passamos vários dias dando forma à primeira edição. O Sr. K. Swaminathan, então professor de inglês no Presidency College, empenhou-se grandemente no exame de cada frase, com olhar crítico, de modo a reduzir ao mínimo as deficiências de linguagem e estilo. Sir P.S. Sivaswamy Aiyer — respeitável estadista da Índia, ex-membro do governo de Madras, ex-vice-reitor da University of Madras e da Benares Hindu University, erudito intelectual e grande amante de livros, leu as pro- vas tipográficas, fez muitas sugestões úteis e, por fim, escreveu o prefácio. Meu professor em Londres, W.C. Berwick Sayers, escreveu a introdução. Foi dele que recebi a maior inspiração. Além de assistir às suas aulas, compartilhei com ele muitas horas de conversasinformais. Ele me ajudou de muitas formas a fazer com que o ano que passei na Grã-Bretanha fosse verdadeiramente proveitoso. Minha consideração e afeição para com estes três cavalheiros fizeram-me manter, na presente edição, o texto original, o prefácio e a introdução. 08 Consequências Ao longo dos 25 anos desde a primeira edição, surgiram, no entanto, duas mudanças fundamentais. Uma foi a generalização do conceito de ‘livro’, acentuado nos anos recentes no vocábulo ‘documentação’. A se- gunda mudança foi a generalização do termo ‘crescimento’, que ocorreu em minhas próprias ideias, suscitada enquanto lecionava e trabalhava nos livros Library development plan (1950) e Library book selection (1953). Além dis- so, senti a necessidade de responder à pergunta ‘a biblioteconomia é uma ciência?’ Além disso, o movimento bibliotecário tem feito grandes avanços em muitos países, inclusive na Índia. Para dar lugar a essas mudanças, acrescentei um oitavo capítulo, intitulado ‘Método científico, biblioteco- nomia e a marcha da digvijaya’. Este capítulo é a novidade nesta edição. 12 de agosto de 1956 248 Hofwiesenstrasse, Zurich 57 gênese as cinco leis da biblioteconomia6 CAPÍTULO 1 A PRIMEIRA LEI 11 Princípio Fundamental A Primeira Lei da biblioteconomia se assemelha à de qualquer outra ciência: incorpora um princípio fundamental. Na verdade, é evidente por si mesma; somos levados a supor que seja trivial. Entretanto, esta é uma característica invariável de todas as primeiras leis. Vejamos, por exemplo, a primeira lei de conduta upanixádica* — satyam vada — ‘falar a verdade’. Assim também é a primeira lei do movimento, de Newton. 111 Enunciado A Primeira Lei da biblioteconomia é: os livros são para usar. Nin- guém questionará a correção desta lei. Entretanto, na vida real, a história é diferente. Os órgãos responsáveis por bibliotecas raramente levaram esta lei em consideração. 12 Negligência da Lei Se examinarmos a história de qualquer aspecto da prática bibliotecária, nela encontraremos inúmeras provas da negligência deplorável com que esta lei é tratada. 121 Biblioteca Acorrentada Vejamos, em primeiro lugar, a maneira como os livros eram mantidos nos séculos xv e xvi. Naqueles dias, não era incomum encontrar livros realmente acorrentados às estantes. Eles eram equipados com molduras e argolas de bronze, presas a correntes de ferro, com uma das extremidades fixada nas estantes. Os livros assim acorrentados não podiam se afastar das estantes além do comprimento da corrente. Sua liberdade estava confinada ao espaço determinado pelas correntes. É claro que tal acorrentamento propiciava mais a preservação do que o uso dos livros. Na verdade, as bibliotecas eram vistas, nessa época, não como organizações voltadas para a promoção do uso dos livros, mas para a sua preservação. * Conforme ao Upanixade, um dos livros da literatura védica que tratam da divindade, da criação e da existência. (n.e.) 6 7 122 Preservação para a Posteridade Talvez seja interessante refletir um pouco sobre esse complicado processo de preservação. Qual teria sido a finalidade dessa preservação? É difícil pensar em alguma finalidade, a não ser a de preservação para a posteridade. Sem dúvida, é uma característica saudável ou, de qualquer forma, uma característica inevitável da natureza humana, que pensemos em nossos filhos — na nossa posteridade — e que estejamos preparados a negar-nos muitas coisas, a fim de legá-las intatas à posteridade. Esta prática, porém, implica uma dedução inevitável. Mesmo que tenhamos o anseio de legar nossos livros à posteridade, cada geração pode ser impelida por um motivo altruístico exatamente similar, e, por conseguinte, os livros talvez tenham que ficar para sempre acorrentados e jamais serão liberados para o uso. Este aspecto da questão parece não ter sido percebido por muito tempo e ‘os livros existem para serem preservados’ usurpou o lugar de ‘os livros são para usar’. 123 Costume Herdado Essa tendência de entesourar livros teve origem numa época em que eles eram raros e de produção difícil. Antes da invenção da imprensa, levavam-se anos para copiar um livro. Copiar o Mahabharata era traba- lho de uma vida inteira. Nessas condições, havia uma justificativa para esquecer que os livros são para usar e para exagerar na sua preservação. Mas essa tendência parece infelizmente que se transformou num hábito regular, como resultado de uma longa prática. A situação foi totalmente alterada pela invenção da imprensa. Ainda assim, passaram-se séculos até que fosse superado esse costume herdado de há muito tempo. O primei- ro passo consistiu em declarar anistia para os livros e libertá-los de seus grilhões. Entretanto, mesmo depois que foram desacorrentados e se lhes permitiu que fossem retirados da biblioteca para uso e manuseados pelos leitores, não houve, por um longo tempo, um reconhecimento generoso, por parte daqueles que mantinham e administravam a biblioteca, do direito dos leitores ao uso desembaraçado dos livros. Muitas eram as restrições postas no caminho dos livros para que fossem usados livremente, e só em anos recentes é que parece ter-se firmado um vigoroso movimento visando a eliminar todas essas deficiências. Este movimento ainda não se tornou, de forma alguma, universal. Há vários países — e nossa terra parece reivindicar, com justiça, ser classificada entre eles — que ainda mal foram afetados por este novo movimento. 124 Exemplo 1 Um professor de uma faculdade chefiou seu departamento por quase 25 anos. O estudo de sua especialidade, a zoologia, aos poucos foi limitando a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia8 o âmbito da sua visão, e ele passou a ter uma mentalidade mecanicista. Detalhes triviais começaram a se avolumar para ele. Por isso, passou a executar, pessoal e meticulosamente, cada rotina, desde abrir as portas e janelas até esvaziar os cestos de lixo. Era comum ter acessos de cólera se tudo não estivesse no devido lugar. Infelizmente, sob a influência desta tendência incoercível, começou a ver as estantes, mais do que as mãos dos leitores, como o lugar próprio para os livros. Seus auxiliares, cuja promoção nos cargos dependia da boa vontade dele, preferiam abster-se de usar os livros a correr o risco de despertar sua cólera ao retirá-los das estantes. Os alunos do primeiro ano, os únicos que desconheciam suas idiossincra- sias, solicitavam ocasionalmente os livros da biblioteca do departamento. Ele costumava despachá-los com este dilema: “Vocês acompanharam as aulas? Se prestaram atenção, não precisam destes livros. Se não consegui- ram acompanhar as aulas, nada lucrarão com a leitura deles.” Os alunos mais antigos jamais o abordavam, pois haviam passado por experiências dolorosas com suas tentativas baldadas. O resultado foi que, quando ele finalmente se aposentou, seu sucessor teve que abrir as páginas de vários dos livros que ele deixara! Em alguns casos, descobriu-se até mesmo que não valia a pena perder tempo em abri-los, uma vez que haviam se tor- nado completamente desatualizados e era preciso descartá-los. Teria essa carreira profissional sido possível se a faculdade tivesse agido conforme a lei segundo a qual os livros são para usar? 125 Exemplo 2 A força e a inexorabilidade extraordinárias dessa tendência herdada, que se interpõe entre os livros e seus usuários, são realçadas por um outro caso, desta vez com um professor de filosofia. Este era um filósofo não somente de profissão, mas também pela prática e pelo temperamento. Era também uma daquelas pessoas que sentiam vontade de ser úteis à comuni- dade. Uma forma de serviço comunitário que nosso professor de filosofia decidiu prestar consistia em dar uma oportunidade aos seus vizinhos para que se instruíssem. Para isso, costumava investir a maior parte de suas economias em livros. Depois que formou uma boa coleção, construiu uma bela cabaninha para leitura, a fim de abrigar oslivros. Costumava passar a maior parte do tempo livre nessa cabana, de forma que pudesse emprestar pessoalmente os livros. Ficou, entretanto, muito desapontado com a total indiferença dos vizinhos. Por isso, levou-me um dia à cabana para que eu o aconselhasse. No trajeto, foi ficando cada vez mais eloquente ao falar dos excelentes livros que comprara para a biblioteca, da deprimente indiferença das pessoas do lugar com relação ao uso de livros, e assim por diante. A conversa que se seguiu tão logo entramos na encantadora mas desolada cabana lançou uma luz profusa sobre a persistência do hábito de preservar, 9 há muito herdado, que podia sufocar até mesmo a determinação sincera e as boas intenções de um honesto filósofo. “Onde estão os seus livros, meu amigo?” “Estes dez armários estão cheios deles. Gastei cem rupias* na compra de cada um destes armários, confeccionados especialmente para isso, etc. etc. etc.” “Mas, querido professor, por que cobriu estas belas portas de vidro transparente com estas horríveis folhas de papel pardo?” “Você não sabe como as visitas me incomodam. Se eu não colocar este papel pardo, verão os livros através do vidro. E aí pedirão ou este ou aquele e terei que retirar todos os livros.” Pobre filósofo derrotado! Sem comentários. 126 Exemplo 3 Embora estas coisas sejam corriqueiras para nós do século xx, basta voltar apenas um século para encontrar a forte influência deste costume de acumulação nas bibliotecas norte-americanas. T.W. Koch, da North- -Western University, registra uma história significativa, mas típica, de um bibliotecário da Harvard University. Este “certa vez, tendo terminado o inventário da biblioteca, foi visto cruzando o campus com um sorriso particularmente feliz”. Perguntado qual o motivo de seu humor excep- cionalmente agradável, exclamou orgulhoso, “Todos os livros estão na biblioteca, menos dois. Agassiz está com eles e vou buscá-los”. 127 O Bibliotecário Moderno Por outro lado, um bibliotecário moderno, que acredita na lei de que os livros são para usar, só se sente feliz quando os leitores esvaziam constantemente as estantes. O que o preocupa não são os livros que são retirados da biblioteca. O que o deixa perplexo e o deprime são os volumes que ficam em casa. Ele também atravessará constantemente o pátio atrás de seus Agassiz. Mas irá até eles não para pegar de volta os livros que es- tão usando, mas para entregar as novas aquisições que precisam ser-lhes apresentadas o mais rápido possível. 128 A Força da Primeira Lei Os diferentes estágios pelos quais a força da lei os livros são para usar levou à gradual remoção das restrições induzidas pelos mencionados costumes herdados podem ser resumidos da seguinte maneira: primeiro, * O autor menciona rupias, mesmo quando se refere a valores monetários de outros países. Diante da dificuldade de definir uma equivalência atual, em termos de cotação ou de poder aquisitivo, tanto da rupia quanto de uma moeda-padrão de circulação internacional, foi mantida nesta tradução a redação original do autor, que data de 1931. (n.e.) a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia10 as correntes foram removidas e vendidas como ferro-velho, mas o acesso continuava limitado aos poucos eleitos. Mais tarde, o uso dos livros foi permitido a quem podia pagar por isso. Em seguida, veio a etapa quando se tornaram acessíveis para todos, mas somente para uso no recinto da biblioteca. Depois, passou a ser feito o empréstimo aos poucos favorecidos; posteriormente, aos que pagavam uma taxa, e, finalmente, o empréstimo gratuito para todos. Talvez estejamos acabando de atingir este estágio em nossa terra. Mas não foi isso, de forma alguma, o que aconteceu alhures, onde a Primeira Lei já era conhecida há bastante tempo, para revelar todas as implicações ali profundamente enraizadas. Nesses lugares, métodos agressivos, que tornaram bem-sucedidos outros empreendimentos, foram empregados para fazer avançar o uso dos livros. Depois, foram abertas filiais de bibliotecas nas grandes cidades, a fim de oferecer uma coleção satisfatória de livros e uma sala de leitura convidativa a poucos minutos de caminhada de cada residência. Posteriormente, os livros eram despa- chados, mediante o pagamento de uma taxa insignificante, àqueles que não podiam, de forma conveniente, chegar até eles. Mais tarde, caixas de livros eram enviadas gratuitamente às residências daqueles que se ofe- recessem para mostrá-los aos vizinhos. Mais recentemente os livros são transportados num furgão, de rua em rua, para atendimento dos morado- res. É difícil imaginar qual o triunfo adicional que ainda está reservado à Primeira Lei. Mas, como afirmou J.P. Quincy, é-se tentado a adaptar um conhecido paradoxo celta,* ao dizer que uma biblioteca pública é tão boa quanto uma biblioteca privada e, para o estudo dos livros, possui vantagens indiscutíveis sobre ela.2 13 Localização da Biblioteca A localização de uma biblioteca pode, em geral, ser tomada como um índice do grau de confiança que os órgãos responsáveis por bibliotecas têm na lei os livros são para usar. 131 Exemplo 1 Ocorreu-me visitar Dindukkal, uma cidade no sul da Índia. Os pró- ceres do lugar convidaram-me para uma conversa sobre a construção de uma biblioteca para a cidade. A questão da localização logo veio à baila. Praticamente todos sugeriram um lugar nos arrabaldes da cidade. Um dos motivos para sugerir um lugar tão remoto era de que havia muita poeira no centro e de que os livros se estragariam. Outro motivo era que, se não fosse assim, ‘todo tipo de gente’ teria acesso à biblioteca. Nunca lhes ocorrera que a função da biblioteca era fazer com que ‘todo tipo de gente’ * O paradoxo lembrado é o que diz que um homem é tão bom quanto outro homem e também muito melhor. (n.e.) 11 usasse os livros e que o problema da poeira não deveria permitir que a biblioteca ficasse afastada da área onde fosse acessível e útil. Por outro lado, mostraram-se chocados quando me ouviram sugerir uma localização na rua comercial, que atravessa o coração da cidade. Tive que citar o exemplo de várias cidades do Ocidente e explicar, minuciosamente, o evangelho da organização da biblioteca antes que admitissem haver pelo menos algo a dizer em favor de minha sugestão. 132 Exemplo 2 Numa conferência no Kellett Hall, não faz muito tempo, antes da exis- tência do serviço de ônibus, o talentoso conferencista S. Satyamurti, de forma jocosa, fixou as coordenadas de uma das nossas grandes bibliotecas da seguinte maneira: “Encontre um lugar na cidade que fique no mínimo a dois quilômetros de qualquer linha de bonde ou de qualquer estação ferroviária, que não tenha nem mesmo um posto de jinquirixá num raio de um quilômetro, cujo alojamento de estudantes mais próximo fique a uma distância de cinco quilômetros. Talvez só exista um único lugar na cidade que atenda a esta descrição e esse será o lugar escolhido para nossa biblioteca.” E, no entanto, ninguém reclamou, pois a biblioteca era vista mais como um ornamento da cidade do que como uma instituição, com a função essencial de propagar o uso dos livros. 133 Exemplo 3 Por outro lado, em todas as cidades ocidentais que creem vivamente na Primeira Lei da biblioteconomia, e que votam em favor das bibliotecas e as mantêm, pois têm a preocupação de que os livros sejam usados, a biblioteca principal é normalmente erigida no centro da cidade, num lugar por onde a maioria dos cidadãos passe obrigatoriamente todos os dias, por algum motivo. Ela também funciona através de diversas filiais e postos de aten- dimento em partes diferentes da cidade, de modo que a distância não seja empecilho ao livre e pleno uso dos livros. Dublin, por exemplo, conta com cinco bibliotecas regionais para uma população de 324 mil habitantes. Até mesmo a próspera Edimburgo, com uma população de 420 mil habitantes, já construiu sete bibliotecas regionais. Manchester sentiu a necessidade de 30 filiaispara que sua população, que soma 744 mil habitantes, possa usar plenamente seus livros. Birmingham, com 919 mil habitantes, não acha que suas 24 bibliotecas sucursais sejam suficientes para difundir o uso dos livros. Toronto, com uma população de apenas 550 mil habitantes, criou 15 filiais e planeja construir mais. Cleveland, onde vivem cerca de 800 mil pessoas, dá acesso a seu acervo de livros em 25 filiais e 108 pos- tos de atendimento, enquanto 25 filiais e 108 postos de atendimento são considerados insuficientes para os três milhões de moradores de Chicago. a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia12 134 Analogia com a Localização do Comércio Tão logo a ideia de que os livros são para usar esteja firmemente estabelecida, tão logo as bibliotecas compreendam que a sua existência é justificada somente na medida em que os livros sejam usados pelos leito- res, não haverá qualquer diferença de opinião quanto à sua localização. Uma localização igual à descrita pelo conferencista do Kellett Hall jamais seria imaginada. O comerciante sagaz, que deseja vender seus produtos, instala sua loja no santuário (sannidhi) de um templo popular. O dono de uma cafeteria, que quer ver seu negócio prosperar, instala-a perto de um grande albergue estudantil, como o Victoria Hostel. Um vendedor de bé- tel, preocupado com a receita diária, arma sua tenda defronte a um hotel grande e popular. Do mesmo modo, a biblioteca, interessada em que seus livros sejam plenamente utilizados, instalar-se-á no meio de sua clientela. Por outro lado, nenhum santuário de templo popular existe sem uma loja e a vizinhança de todas as repúblicas de estudantes está invariavelmente rodeada de cafés e lojas de vender bétel. O mesmo acontece com as biblio- tecas. Qualquer lugar onde houver habitualmente a presença de grupos humanos será um local potencial para instalar uma biblioteca. 135 Exemplo 4 Um exemplo extremo mas feliz desta dedução da Primeira Lei da biblio- teconomia nos é dado pela biblioteca de jardim, em Lisboa.3 Lisboa, construída sobre sete colinas, como a nossa Tiruppati e com- parável à nossa Madura em tamanho e população, conquistou um lugar único no mundo da biblioteconomia. Um provérbio português diz: “Quem não viu Lisboa, não viu coisa boa”.4 Se esta afirmativa é válida ou não, Lisboa certamente sobrepujou todas as demais cidades com sua singular biblioteca de jardim, que é certamente uma coisa boa. Na encosta de uma das colinas, sobranceiro às águas azuis do Tejo, encontra-se um ensolarado jardinzinho público, com um lago artificial, de mármore, no centro, em torno do qual as flores tecem uma orgia nas cores do arco-íris e as crianças gritam e correm em alegre êxtase. Ao fundo, há um cedro gigantesco, que se alastra como um guarda- -chuva, desafiando o sol e a chuva. Sob sua sombra intensa predomina um silêncio profundo, e ali se encontra uma fileira de cadeiras em torno de uma coleção encantadora de volumes numa linda estante. Estudantes com suas capas esvoaçantes, trabalhadores cobertos de caliça, rústicos camponeses de olhos tímidos e lânguidos, empregados de escritórios e lojas mastigando o almoço, soldados, gráficos, eletricistas, marinheiros e estivadores, todos compartilham o conteúdo dessa biblioteca ímpar, despojados de qualquer formalidade, mas auxiliados pela ágil e simpática bibliotecária, a andar daqui para lá, de lá para cá, com seu sorriso radiante. 13 Quem teve essa ideia? Foi uma sociedade educativa particular, conhe- cida como Universidade Livre. Na expectativa de promover o amor pela leitura em todas as classes, a Universidade Livre fundou esta biblioteca de jardim, fornecendo os livros e o mobiliário.* Os próceres de Lisboa, que acreditavam na Primeira Lei da biblioteconomia, calorosamente aprova- ram este empreendimento e contrataram os serviços de uma bibliotecária. Conta com menos de mil volumes, que são substituídos de tempos em tempos. Possui um pouco de tudo — clássicos, autores contemporâneos, viagens, história, eletricidade, química, taquigrafia, contabilidade, constru- ção, ferraria, navegação, e assim por diante. E esses livros são avidamente procurados por todos os visitantes do jardim. A biblioteca fica aberta diaria- mente das 10 às 18 horas. As estatísticas mostram que durante o primeiro ano não houve menos de 25 mil leitores que a utilizaram. Que a sombra do vetusto cedro no jardim público da cidade das sete colinas jamais deixe de crescer! Que ele sirva de abrigo a esse empreendimento patriótico, a serviço desta verdade absoluta: os livros são para usar! 136 Exemplo 5 Também nas escolas e faculdades, a localização das bibliotecas pode ser tomada como um índice confiável do grau de fé das autoridades na lei os livros são para usar. A evolução das ideias relativas à localização e dimen- são das bibliotecas escolares e universitárias tem ocorrido de modo muito paralelo ao crescimento gradual da crença nesta lei. Conheci, por dentro, uma escola. Sua biblioteca consistia de algumas centenas de volumes, na sua maioria livros didáticos, que as editoras enviavam como amostras de cortesia e eram descartados pelos professores porque não mereciam estar em sua posse particular. Essas poucas centenas de livros estavam cuida- dosamente trancados num armário de madeira. O próprio armário ficava trancado numa sala de pouco mais de um metro quadrado, cuja ventilação se dava por uma única janela pequena. Havia uma característica mais assustadora. O diretor da escola invariavelmente dava aulas — inclusive suas inumeráveis aulas especiais — no saguão que dava para esta sala, quase bloqueando a entrada. Quem se lembra do respeito mortal em que eram tidos os diretores dessas escolas, vinte e cinco ou trinta anos atrás, perceberá o que isso significava para os livros da biblioteca. Para quem não sabe, pode-se dizer que o aparecimento da figura do diretor na esquina era suficiente para fazer com que um grupo de alunos, que jogavam bolas de gude ao sol da tarde, corresse para salvar a própria pele, escondendo- -se nos cantos mais escuros das cozinhas das casas próximas, onde seus * A biblioteca do jardim da Estrela, ou jardim Guerra Junqueiro, ainda em funcionamento. Esta biblioteca-quiosque dispõe de cerca de mil livros para consulta e empréstimo, jornais, revistas e jogos de entretenimento. [http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=1056] (n.e.) a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia14 olhares e modos, assustados e denunciadores, fariam as mães exclamar, ‘O diretor está indo para o templo?’ Seria muito difícil algum dos meninos se atrever a sair de seu esconderijo, enquanto o mais corajoso dos ousados diabretes não se arriscasse a espreitar furtivamente e anunciar, contente, ‘Caminho livre’. Com esta informação, é fácil perceber como a localização da biblioteca escolar era eficiente, se o objetivo fosse evitar que os livros fossem utilizados. Com certeza, a escola não acreditava, naqueles dias, que os livros são para usar, e não era, de forma alguma, uma exceção. 137 Exemplo 6 Há não muito tempo, o diretor de uma grande escola secundária convidou-me para fazer uma visita à sua biblioteca e sugerir alguns melho- ramentos. Compareci de bom grado. Fui recebido com grande afabilidade e conduzido através de um labirinto de salas e corredores apertados, es- curos e malventilados, com armários ao longo das paredes. Ao chegarmos perto da outra extremidade, perguntei onde ficava a biblioteca e quando chegaríamos lá. Para minha surpresa, o diretor respondeu que, em todo o trajeto, estivéramos passando pela biblioteca. Maravilhado diante desse estranho arranjo, numa escola secundária, de um lugar onde os meninos brincavam de esconde-esconde no intervalo de almoço, perguntei por que fora escolhida uma localização tão infeliz para a biblioteca. Sua resposta imediata e inocente: “Estas salas não servem para outra coisa e precisa- vam ser usadas”. Teria esta resposta inocente sido dada, se a PrimeiraLei tivesse alguma influência nas autoridades da escola? Há vinte anos, mudamo-nos para um novo prédio. A sala mais agradável, dando para o mar, foi destinada aos periódicos. Eu fiquei numa pequena sala do lado do poente. Uma pessoa imprópria para a profissão de bibliotecário um dia apareceu ali. Expressou surpresa por eu ter escolhido a pior das salas como meu gabinete. “Se eu fosse você, instalaria meu gabinete na sala dos periódicos”, disse ele. Respondi, “Se a Primeira Lei não se tivesse revelado a mim, eu também teria feito isso”. “— Hum! Sua Primeira Lei. Se um dia eu vier a substituí-lo, verá o que farei”, foi a resposta imediata! 138 Exemplo 7 O que hoje predomina em nossas escolas e faculdades prevalecia há uns sessenta ou setenta anos nas escolas e faculdades do Ocidente. Discursando na inauguração da biblioteca do Colorado College, em março de 1894, o Sr. Harper, primeiro reitor da Chicago University, afirmou Há um quarto de século, a biblioteca, na maioria das nossas instituições, até mesmo as mais antigas, quase não chegava a ter tamanho suficiente [...] para merecer o nome de biblioteca [...] Conheço uma faculdade, que tem cento e cinquenta estudantes matriculados [...] e, apesar disso, numa sala de três por 15 quatro metros, chamada de biblioteca, não chega a ter duzentos e cinquenta volumes [...] Como existia o local, para lá o professor costumava dirigir-se ocasionalmente, mas o estudante, nunca [...] O lugar, raramente frequentado, era uma sala remota, que não poderia servir para qualquer outra finalidade.5 Quase as mesmas palavras do diretor mencionado acima! 139 Exemplo 8 Mas tudo isso mudou tão logo a Primeira Lei da biblioteconomia se instalou nas mentes das pessoas. Atualmente, diversas faculdades no Oci- dente, que acreditam que os livros são para usar e sabem que um dos seus deveres fundamentais consiste em desenvolver o hábito da leitura nos alunos de graduação, destinam a sua melhor sala para a biblioteca. Pelo menos em uma faculdade do Ocidente, cujos “livros eram colocados em corredores, porões e sótãos”, até que esta lei tivesse influência sobre ela, a área agora ocupada pelas bibliotecas da faculdade corresponde a quase metade da área ocupada por toda a escola. Citando Harper novamente, Hoje o edifício principal da faculdade, o edifício do qual temos mais orgulho, é a biblioteca. Com o conjunto de estantes do acervo geral, a sala de consulta para obras de referência, as salas de atendimento, as salas para os seminários, é o centro dinâmico da instituição [...] Dificilmente se pode imaginar uma mudança que fosse maior do que esta [...] Está próximo o dia em que o estudante pouco estudará em seu gabinete: ele deverá estar no meio dos livros. Como o cientista, que, embora dispondo de milhares de volumes em sua própria biblioteca, deve procurar as grandes bibliotecas do Velho Mundo, se quiser fazer um trabalho de alta qualidade, também o estudante universitário, embora tendo centenas de volumes em seu próprio aposento, deverá fazer seu trabalho na biblioteca da instituição [...] Sua mesa deve ficar onde, sem a menor delonga, sem a mediação do zeloso bibliotecário, que provavelmente pensa mais no livro do que no seu uso, ele possa pegar um dentre dez ou vinte mil livros que desejar utilizar [...] Este fator do trabalho do nosso colégio e da universidade, a biblio- teca, cinquenta anos atrás quase desconhecida, hoje já o centro da atividade intelectual da instituição, e daqui a cinquenta anos, absorvendo tudo o mais, ter-se-á transformado na própria instituição. 6 14 Horário da Biblioteca A influência da lei os livros são para usar foi não menos profunda com relação ao horário da biblioteca. Enquanto predominava a noção herdada sobre preservação e a lei os livros são para usar não se havia consolidado plenamente, a biblioteca permanecia mais tempo fechada do que aberta. Talvez fosse aberta mais vezes para matar as traças e tirar a poeira dos livros do que para a entrada de leitores e o empréstimo dos livros. Conta-se que os registros dos livros emprestados na década de 1730–1740 da Bodleian a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia16 Library, de Oxford, mostram que eram emprestados não mais de um ou dois livros por dia. Às vezes, decorria toda uma semana sem que fosse feito um único empréstimo. Conta-se que um aviso interessante, datado de 1806, teria sido preservado por essa biblioteca. Encontrando-a fechada, um estudioso, furioso pela frustração, afixou à porta da biblioteca um pedaço de papel com as palavras que a musa grega lhe havia oferecido para aliviar seus sentimentos: — “Ai de ti que levaste a chave do conhecimento! Não entras e impedes a entrada àqueles que comparecem!” Na sua Story of the University of Edinburgh, sir Alexander Grant deplora como, no começo do século xix, os horários da biblioteca da universidade restringiam as oportunidades oferecidas aos alunos para usá-la. Os livros só podiam ser retirados por duas horas, dois dias por semana. Segundo Koch, a biblioteca do Amherst College abria, em 1850, apenas uma vez por semana, de uma às três horas da tarde. Os alunos da Princeton University podiam usar a biblioteca somente por uma hora, duas vezes por semana, enquanto aos seus contemporâneos em Missouri se permitia apenas uma hora, a cada duas semanas. No Columbia College, criado em 1859, por muitos anos aos alunos do primeiro e do segundo ano era permitido visitar a biblioteca somente uma vez por mês, para contemplar as lombadas dos livros; os alunos do terceiro ano eram levados até lá uma vez por semana por um orientador, que lhes passava informações orais sobre o conteúdo dos livros, mas somente os alunos do último ano [...] podiam tomar livros emprestados da biblioteca, durante uma hora, às quartas-feiras à tarde. 141 Insulto contra a Primeira Lei Se o horário era, até o final do século xix, tão restrito no mundo das bibliotecas, pode-se facilmente imaginar as condições que predominam hoje em dia em nossas bibliotecas escolares e universitárias, quando, ob- viamente, elas existem! A prática corrente numa grande faculdade pode servir de exemplo. Teoricamente, essa faculdade concede ‘dois dias de empréstimo’ por semana. Mas, que a ocorrência da palavra ‘dia’, de modo algum nos engane levando-nos a multiplicar o ‘dois’ por 24 ou mesmo por 12, para chegar a um número de horas por semana com a biblioteca aberta. Na prática, o professor encarregado da biblioteca tinha convenientemen- te interpretado os ‘dois dias de empréstimo’ como dois períodos de 15 minutos. Nenhum menino prudente ousaria expor-se ao seu desagrado. Talvez alguém queira saber o que acontece na biblioteca durante as horas restantes da semana. Bem, os livros gozam do seu imperturbável repouso eterno, atrás de portas trancadas, numa sala fechada e escura. 1411 Uma Realidade A biblioteca da Madras University durante muito tempo fez experi- 17 ências com seus horários. As pessoas, suficientemente letradas para usar os livros, dispunham do horário entre 11 h e 17 h nos dias úteis. Sábados e domingos eram normalmente feriados para elas. Nesses dias, costuma- vam dedicar as horas da manhã a visitas sociais, compras domésticas e outros afazeres de fim de semana; depois do deleite do almoço e da sesta ao meio-dia, sentir-se-iam dispostos para o estudo ou para uma série de visitas à biblioteca somente à tarde. O horário a que a biblioteca finalmente chegou, depois de seus infindos experimentos e investigações, adequou-se ao hábito da clientela de uma maneira idealmente equivocada. A decisão, na realidade, foi ficar aberta das 10 h às 17 h nos dias úteis e das 7 h às 14 h aos sábados e domingos! Pode uma decisão mais eficaz ser imaginada para um lugar onde a Primeira Lei da biblioteconomia era quase uma he- resia? Em outra ocasião, quando as autoridades de uma biblioteca estavam solenemente discutindo os modos e meios para fazer frente a um grande aumento no empréstimode livros, um verdadeiro Daniel apareceu ‘para uma decisão’. “Quando é que ocorre o maior afluxo de público durante o dia?” per- guntou o Daniel. “No final da tarde, entre 4 e 6 horas”, respondeu o bibliotecário. “Olhe”, apareceu a solução, “feche a biblioteca às 4 e não às 6. Isso vai acabar com a complicação.” Houve um submisso resmungo: “Mas esse é o único horário em que a maioria dos alunos e professores pode usar a biblioteca.” “Você sabe que leitura demais não faz bem”, retorquiu o enérgico Daniel. Coitada da Primeira Lei! Desprezada de modo tão sumário e descortês! Mas não se deve recusar clemência ao Sul da Índia; pois, todos os climas e todos os tempos fazem jus à nossa clemência. O Sul da Índia não está sozinho ao mostrar desrespeito nessa hora tão tardia. Lembrem-se das recentes queixas de um bibliotecário parisiense: “Falando de maneira geral, uma biblioteca escolar na França era um armário fechado, que se abria uma única vez a cada quinzena ou mensalmente.” 142 Magia da Primeira Lei Mas a magia do mantra os livros são para usar provocou mudanças maravilhosas nos horários da biblioteca em outros lugares do Ocidente. Até mesmo a Bodleian, vergada ao peso inexorável da tradição medieval, rompeu os grilhões de um antigo preceito sobre sua iluminação. Antiga- mente tomara a decisão de que seu expediente seguiria a caprichosa luz solar do hemisfério norte. A iluminação elétrica, proibida durante muito tempo, está agora tornando seu horário de funcionamento não apenas uniforme, mas também bastante longo. Outras bibliotecas renderam-se, até antes, aos preceitos da Primeira Lei. Segundo um levantamento da a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia18 American Library Association sobre as bibliotecas,7 “as horas, durante as quais as bibliotecas estão diariamente abertas, variam de dez a quatorze”. O Amherst College que, oitenta anos atrás, abria a biblioteca durante meras três horas semanais, agora a mantém aberta por aproximadamente cem horas por semana. Na verdade, informa-se que o seu horário diário é das 8 h às 22 h 30 min. A Cornell University age da mesma forma. A Oregon University abre a biblioteca diariamente às 7 h 30 min e a fecha somente às 22 h. Até mesmo a biblioteca da Madras University fixou das 7 h às 20 h o seu horário de abertura e fechamento, para todos os dias do ano, inclusive domingos e feriados. Se Deus quiser, poderá brevemente imitar o University College London nas suas vigílias noturnas. Não foram unicamente as bibliotecas universitárias que responderam ao chamado da Primeira Lei da biblioteconomia. A resposta das bibliotecas públicas tem sido não menos ardorosa. A maioria delas, que possuem livros para serem usados, mantêm-se abertas diariamente das 9 h às 21 h, enquanto outras, como em San Francisco e Seattle, trabalham até as 22 h. 143 Todas as Horas de Vigília Não há nenhuma necessidade de multiplicar as estatísticas. Pode-se afirmar com segurança que os argumentos a priori sobre horário de fun- cionamento das bibliotecas levam exclusivamente a conclusões coerentes com essas novas práticas. Em nenhum país onde a lei os livros são para usar houver deitado raízes na consciência pública será permitido que as bibliotecas encerrem seu expediente antes de a maior parte das pessoas ir dormir e, portanto, fiquem impedidas de usá-la. Nem poderão ficar fechadas depois que a maioria sai da cama. Também não se permitirá que biblioteca alguma fique fechada em qualquer dia da semana, inclusive aos domingos, mesmo em países cristãos. O público requer horários amplos, e as autoridades responsáveis pelas bibliotecas* reconhecem a correção dessa exigência. É, na verdade, considerado criminoso encerrar o expediente da biblioteca num horário em que as pessoas possam usá-la comodamente. Seria o caso de perguntar quanto custa a biblioteca ser mantida aberta por longas horas e todos os dias. A sociedade moderna reconhece que qualquer * O leitor encontrará amiúde esta e expressões afins, que correspondem à tradução do conceito de library authority e seus correlatos, indicativos de âmbito de atuação, como nacional, estadual, local, etc. Trata-se de característica da administração de bibliotecas públicas, levada à Índia pela colonização inglesa. No Reino Unido, library authority podia ser “qualquer conselho local [local council] responsável pelo governo local que houvesse ado- tado as leis sobre bibliotecas” [do poder central], condição que ainda persiste no essencial (Cf. The librarians’ glossary & reference book, comp. by L.M. Harrod, 4th ed., London: Andre Deutsch, 1977, p. 491.) O conselho local é formado por conselheiros eleitos, com funções executivas. Sobre governo local na Índia, ver http://www.citymayors. com/government/ india_government.html#Anchor-Municipal-14210. (n.e.) 19 quantia a mais despendida na manutenção de bibliotecas é despendida legitimamente e é bem-vinda. Além de tudo, qual a proporção entre o custo adicional da instituição e o enorme benefício que decorre de um uso mais amplo da biblioteca? Que grande soma de dinheiro está encerrada nos livros das bibliotecas! Não será fazer economia de palito com as pequenas quantias e ser perdulário nas grandes despesas ficar pechinchando algumas rupias a mais no custo da instituição e assim restringindo o uso pleno desse tesouro? Algumas vezes, a sabedoria está em gastar uma boa soma para ganhar uma soma maior: “[...] mas, se consentes em lançar outra flecha na direção em que lançaste a primeira, como vigiarei o voo, não duvido que [...] voltarei a encontrar as duas”.8 144 O Dia Inteiro e a Noite Inteira Mas em matéria de horário de biblioteca, leva o prêmio o University College, London. A aula inaugural aos calouros foi proferida, no ano em que lá estudei, por uma feliz coincidência, pelo Dr. E.A. Baker, diretor da School of Librarianship. Declarou, orgulhoso, que o University College era um pioneiro em romper tradições. Citou vários fatos em apoio à sua afirmação. Não lembro, entretanto, que tenha incluído as conquistas da universidade no que diz respeito aos horários da biblioteca. Em suma, o expediente da biblioteca do University College não é fixado absolutamente pela administração. É deixado inteiramente nas mãos dos alunos. Cada um recebe uma chave da biblioteca de seu departamento; está livre para usar a biblioteca na hora que quiser, do dia ou da noite. A última palavra em matéria de liberdade de horários! Este ideal foi endossado sem restrições, no relatório final de maio de 1927, do Public Libraries Committee, desig- nado em 1924 pelo presidente do Board of Education da Grã-Bretanha. Ali se diz que na medida em que não existe nenhum horário noturno ou diurno em que o cidadão não possa sentir necessidade de consultar um livro de que não dispo- nha, o preceito ideal seria que as bibliotecas ficassem sempre abertas ao público.9 15 Mobiliário da Biblioteca A seguir, vejamos o efeito que a lei os livros são para usar pode ter sobre o mobiliário da biblioteca. Pode-se dizer com segurança ‘mostra-me o mobiliário da tua biblioteca e eu te direi se crês ou não na Primeira Lei da biblioteconomia’. Em primeiro lugar, na época em que prevalecia o enunciado contrário — os livros existem para serem preservados —, as estantes das bibliotecas eram construídas somente com vistas à preserva- ção. O problema consistia em acomodar a maior quantidade de livros no menor espaço e pelo menor custo. A regra do menor espaço fazia com que a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia20 a altura das estantes fosse determinada unicamente pela altura do teto. Nem mesmo um centímetro do espaço vertical poderia ser desprezado. Assim, cada estante deveria começar bem rente ao chão e chegar até o teto. Da mesma forma, outro corolário da regra do menor espaço era que nenhum centímetro de espaço horizontal, além do mínimo absoluto, seria desperdiçado. Isto exigia que o corredor entre as estantes fosse o mais estreitopossível — somente o suficiente para que um funcionário por ali passasse — quer dizer, entre 30 e 45 cm no máximo. Além disso, na ausência de correntes, cada estante teria pelo menos portas, cadeados e chaves. A lei do menor custo exigia que o mobiliário da sala de leitura fosse tão simples e tão barato quanto possível na prática. O leitor não devia esperar por conforto. A sala de leitura não precisava de outros acessórios. As paredes nuas, sem papel de parede que tornasse a sala mais atraente. Nada de fotografias interessantes ou quadros de bom gosto, nos quais os olhos cansados dos leitores pudessem, de vez em quando, repousar e revigorar-se. Mas o advento da Primeira Lei da biblioteconomia lançou sobre essas regras, a de menor espaço e a de menor custo, um agradável feitiço, e as transformou por completo. 16 Um Diálogo Primeira Lei: Seus métodos são intoleráveis. Devem ser descartados. Regra do Menor Espaço: Você poderia, por favor, ser mais específica? Primeira Lei: Primeiro, veja as estantes. Como é que você imagina que se chegue ao topo destes arranha-céus? Regra do Menor Espaço: Use uma escada! Primeira Lei: Isso é muito fácil de dizer. Tudo bem, se forem funcionários ágeis e treinados. Talvez você não esteja sabendo que permitirei ao leitor retirar diretamente da estante o livro que ele bem quiser. Regra do Menor Espaço: Isso é novidade para mim. Nunca ouvi falar nisso. Primeira Lei: Ah! Já sei... Então é isso? Sim, qualquer leitor poderá dirigir-se às estantes. Então, imagine um leitor corpulento subindo uma escada, pela primeira vez na vida, ansioso para pegar um livro. Imagine-o distraindo-se no alto da escada, caindo e quebrando o pescoço. Quem pagará os estragos? O que é que sua irmã, a regra do menor custo, tem a dizer sobre isso? Regra do Menor Custo: Sem dúvida, é um assunto para se pensar seriamente. Regra do Menor Espaço: O que é que você sugere, então? Primeira Lei: Nenhuma estante deverá ter uma altura superior à que possa ser alcançada confortavelmente por uma pessoa de estatura média, de pé sobre o piso nu. 21 Regra do Menor Espaço: Uma altura de dois metros a dois metros e dez? Primeira Lei: Maravilhoso. Esta é a altura correta. Você é muito sensata. Regra do Menor Espaço: Muito bem, já anotei isso. Algo mais? Primeira Lei: A largura adotada para o corredor entre as estantes é muito pequena. Regra do Menor Espaço: Foi definida para condições diferentes, sabia? Pretendíamos que somente um auxiliar da biblioteca passasse por ali. Primeira Lei: Desculpe-me, se rio. Se só um auxiliar pode usar esse corredor, caberia a você informar às autoridades responsáveis pelas bibliotecas para que contratem como auxiliares apenas seres esbeltos ‘unidimen- sionais’, se não quiserem que eles fiquem entalados entre as estantes! Regra do Menor Espaço: Mas, sem querer ofender, estes pontos têm que ser esclarecidos. Permitir que os leitores tenham acesso às estantes é uma ideia muito recente. Isso muda tudo por completo. Mas, as dimensões são mais da minha competência. Sem medo de ser considerada pedante, digo que você parece contemplar um tipo de leitor que se expandiu, como represália, nas minhas três dimensões e exige um corredor capaz de comportar o maior deles! Primeira Lei: Você está quase certa. Gostaria, entretanto, que o corredor fosse suficientemente largo para permitir que dois leitores pudessem percorrê-lo, um ao lado do outro. Regra do Menor Espaço: Sim... Agora vejo aonde você quer chegar. Um metro e vinte a um metro e oitenta será uma largura suficiente? Primeira Lei: Muito obrigada. Mais uma palavra. Embora não seja relevante para nossa conversa, gostaria de agradecer-lhe de todo o coração pela maneira desinteressada como vocês se colocaram contra as autoridades responsáveis pela biblioteca quando elas propuseram paralisar tem- porariamente todas as novas compras, com o argumento de que a sala das estantes estava congestionada de livros e não havia mais espaço. Lei do Menor Espaço: Quer dizer... Primeira Lei: Já sei, pela troca de sorrisos com sua irmã, que há algo mais atrás disso. Regra do Menor Custo: Realmente, foi tão bom minha irmã ter concordado e me apoiado nessa questão. Regra do Menor Espaço: Ela apenas me convenceu que, se esta proposta fosse adotada, ela estaria em palpos de aranha, pois o custo dos livros antigos, e, de modo especial, dos periódicos científicos e outras publicações das sociedades científicas, que são indispensáveis para a pesquisa, vão se multiplicar por dez a curto prazo. Primeira Lei: Mesmo assim, estou em dívida com você. Quem é que, hoje em dia, está preparado para ser tão altruísta e preocupar-se com o conforto de uma irmã em apuros? a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia22 Regra do Menor Espaço: Muito obrigada. Fico tão feliz que ao nos despe- dirmos continuemos amigas, embora você haverá de reconhecer que estava bem violenta no início. Primeira Lei: Desculpe-me. Peço-lhe que me perdoe. A falha é devida ao entusiasmo pela minha causa. Não quis dizer nada pessoal. Vou remediar isso, dando algumas notícias alegres à sua irmã. Regra do Menor Espaço e Regra do Menor Custo: O que é? O que é? Primeira Lei: Não quero portas, nem fechaduras, nem chaves nas estantes. Vocês podem economizar o que seria gasto com tudo isso.... Regra do Menor Custo: De certo modo, estou muito satisfeita; mas, o que fazer com os ratos e os esquilos? E você ainda me diz que qualquer pessoa poderá andar pelos corredores entre as estantes. O que impedirá que joguem os livros para fora pelas janelas? Primeira Lei: Esta é uma pergunta muito inteligente. Mas vocês não pre- cisam se preocupar com isso. Pedirei ao arquiteto que torne a própria sala à prova de animais nocivos e de ladrões. Regra do Menor Custo: E à prova de ar, também, não é? Primeira Lei: Não, não necessariamente. Sejam compreensivas, em compen- sação, para não tornar a sala de leitura à prova de pessoas. Regra do Menor Custo: Não estou entendendo. Primeira Lei: Basta providenciar cadeiras aconchegantes e confortáveis e um amplo espaço para as mesas. E também aprove os recursos necessários para colocar no piso um forro à prova de ruído. Regra do Menor Custo: Isso não é problema. Pode ser feito facilmente. Primeira Lei: Queria também pedir-lhe insistentemente que mobilie a sala de leitura da forma mais agradável possível, como uma sala de visitas de alta categoria, ou seja, como esta linda sala de vocês, com belo papel de parede, flores, quadros, ventiladores, luminárias etc. Lembre-se, especialmente, das luminárias, pois minha política é permitir que os estudantes sérios permaneçam na biblioteca depois que anoitece, se assim desejarem, para continuar o estudo. Regra do Menor Custo: Esta é uma boa ideia. Primeira Lei: Mais um pedido. Confio que vocês não vão pensar que estou exagerando. Lei do Menor Custo: Não se preocupe. É melhor que você nos permita co- nhecer de uma vez todas as suas exigências. Primeira Lei: Basta providenciar um bom suprimento de água potável, alguns sanitários, um banheiro e, sinto quase um receio ao dizê-lo, a instalação e manutenção de uma cantina. Regra do Menor Custo: Por que a preocupação? Estamos somente trocando ideias. Seja franca. Primeira Lei: Então, vou acrescentar: providencie também uma sala reserva- 23 da, talvez com alguns sofás, onde os pesquisadores, que vêm à biblioteca para passar o dia inteiro, possam refestelar-se e fechar os olhos de vez em quando, por alguns minutos. Naturalmente, posso assegurar-lhe que as devidas precauções serão tomadas para que esse privilégio de primeira classe não seja mal utilizado por ninguém. Vi salas mobiliadas serem confiadas a estudantes sérios por meses ininterruptamente numa biblioteca em Amherst. A famosa biografia autorizada de Woodrow Wilson foi escrita em uma dessas salas. O autor praticamente a trans- formou em sua casa por cerca de um ano. O bibliotecário contou-me este fato com orgulho e prazer quandoentrei naquela sala. Regra do Menor Custo: Quantas ideias singulares! Lindo... mas caro. Mas... talvez... eco... nômico tam... bém... Regra do Menor Espaço: Custinho!... Custinho! Sobre o que é que você está refletindo, de olhos fechados? Regra do Menor Custo: Sim..., querida Espacinho. Meditando... Cogitando, se você preferir. Acabei de entrar na ‘máquina do tempo’ para explorar o que isso significaria a longo prazo. Já percebi, Espacinho, que a essa distância de tempo, toda essa pequena quantia que teremos de gastar a mais nessas coisas, para que os livros sejam mais bem utilizados, resulta- rão, ao fim e ao cabo, numa genuína e saudável economia nacional. Sim, a coisa toda agora está clara para mim. Estou certa, Sra. Primeira Lei? Primeira Lei: Sim, você falou corretamente como uma empresária. Regra do Menor Custo: Em suma, você não quer que a biblioteca continue mais como um depósito morto de livros. Você a quer equipada como uma oficina de primeira classe, com comodidades de primeira ordem. Regra do Menor Espaço: Custinho! Você me faz lembrar as palavras revo- lucionárias de lord Lytton, na inauguração da biblioteca pública de Manchester, em 1851. Você talvez se recorde das palavras dele: “Uma biblioteca não é somente uma escola, é um arsenal e um depósito de armas. Livros são armas, seja para a guerra, seja para a autodefesa”.10 Regra do Menor Custo: Sim, também me lembro desse discurso. Mas estas são palavras de um homem anterior à Liga das Nações. Nossa amiga quer que imaginemos a biblioteca como uma oficina pacífica normal, que eliminará para sempre (uma panaceia para todos os males da hu- manidade, e para o que mais me preocupa) todo o desperdício, tanto na administração local quanto no estado. Regra do Menor Espaço: Nunca conseguirei acompanhar seu ritmo nos seus vôos econômicos rumo ao futuro. Sra. Primeira Lei, está satisfeita? É tudo o que queremos. Regra do Menor Custo: Tenho certeza de que ela ficou satisfeita. Primeira Lei: Oficina! Exatamente. Esta é a palavra. Você a captou. A partir a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia24 de agora, estou certa de que sempre nos olharemos, olhos nos olhos, e prosseguiremos de uma forma amigável. Fico feliz com sua compreen- são. Digo-lhe que, além de fazer tudo isso, quero a ajuda permanente dos seus olhos vigilantes para economizar até o último vintém, a fim de comprarmos exatamente aqueles livros, para cujo uso, afinal, estou dando a vocês todo este incômodo. Regra do Menor Custo: Vejo que você é uma missionária regular. Mas, já que nos entendemos, posso tomar a liberdade de fazer uma ou duas sugestões? Primeira Lei: Com toda a certeza. Preciso delas? Regra do Menor Custo: Penso que a sala de descanso, a cantina e os esmerados móveis da sala de leitura — como uma sala de estar de primeira classe, como você disse — podem esperar. Talvez você não perceba como cer- tos grupos poderão reagir a isso. Você deve se lembrar que, por algum tempo, as autoridades responsáveis pelas bibliotecas serão formadas por pessoas que há muito estão nesta vida, desde antes de você chegar. É quase impossível nutrir a esperança de que venham a desenvolver o hábito de usuários de bibliotecas nesta etapa tardia da vida. Nestas circunstâncias, como esperar que avaliem de modo adequado todas essas inovações que inesperadamente caíram sobre suas cabeças? Primeira Lei: Eu não ignorava totalmente essa dificuldade. Na verdade, falando com sua irmã, foram essas considerações que fizeram abster- -me, com relutância, de pedir espaço para uma ‘sala de conferências’ e uma ‘sala de exposições’. Pensei que seria melhor deixar este assunto para minha irmã, a Terceira Lei, uma vez que ela está mais diretamente interessada nestas coisas. Regra do Menor Espaço: Faz tanto tempo que estou aqui. Posso dizer o que acontecerá. Toda a culpa recairá sobre a cabeça do infeliz bibliotecário. Todos os motivos serão atribuídos a ele, tal como a ambição de popu- laridade barata, e sua vida estará repleta de preocupações. Regra do Menor Espaço: Minha irmã tem razão. Primeira Lei: Discordo. Talvez meu zelo missionário, como você disse, e meu entusiasmo exacerbado tenham me cegado para esta sabedoria secular, que lhe é tão natural... a financista sagaz que você é... quero contar com a boa vontade do bibliotecário e de seus funcionários, mais que qualquer outra coisa, para que minha missão seja bem-sucedida. De fato, é com ele que me encontrarei a seguir. Não quero que venha de alguma forma (um inocente...) a cair em descrédito sem ser culpado. Por outro lado, não apenas quero que coopere comigo, mas também conte com a benevolência e a cooperação dos órgãos responsáveis pelas bibliotecas. Caso contrário, ele não me será de muita valia. Não quero fragilizar sua posição por nada deste mundo... Muito obrigada pelo conselho. Achava que tinha vindo para ensinar, mas volto mais sábia. 25 Regra do Menor Custo: O mesmo acontece conosco. Até logo! Regra do Menor Espaço: Desejo-lhe boa sorte com o bibliotecário. Primeira Lei: Obrigada. Adeus! 17 Pessoal da Biblioteca Passemos agora do mobiliário para o pessoal da biblioteca. O advento da Primeira Lei teve efeito fundamental sobre o pessoal da biblioteca. Afetou a questão de pessoal de várias formas. Examinemos cada uma delas com o maior cuidado e profundidade possíveis. Qualquer que seja a localização, o horário, o mobiliário e a forma como são guardados os livros, é o pessoal da biblioteca que, em última análise, constrói ou destrói a biblioteca. De fato, um enorme esforço foi desenvolvido nos últimos cinquenta anos para adequar o pessoal da biblioteca às necessidades deste novo concei- to — os livros são para usar. Se o mero número de artigos publicados sobre biblioteconomia pudesse ser tomado como medida desse esforço, ter-se-ia uma ideia de sua extensão a partir da admirável Bibliography of library economy, de Cannons. São 58 páginas, impressas de forma compacta, dedicadas a este assunto do pessoal, e convém lembrar que a bibliografia chega somente até o final de 1920.11 170 Qualificação do Pessoal Enquanto a preservação dos livros era a principal preocupação de uma biblioteca, tudo o que ela almejava no que concerne a pessoal era um com- petente guardião que combatesse os quatro inimigos dos livros: o fogo, a água, os animais daninhos e os seres humanos. 1701 Os eternos incompetentes Não raro era criada uma sinecura na biblioteca para pessoas que não tinham condição de conseguir emprego em outros lugares. Não era in- comum, por exemplo, os cargos nas bibliotecas serem preenchidos por surdos e aleijados, tartamudos e corcundas, apáticos ou irritadiços, por incompetentes de todo tipo.* O termo keeper,** pelo qual os bibliotecários das bibliotecas antigas são ainda designados é, de fato, um importante ** Até fins do século xviii, os termos keeper (guardião, zelador), housekeeper, library keeper ou keeper of printed books eram empregados nos países anglófonos com o sentido de librarian (bibliotecário). (n.e.) * O autor escreveu numa época em que predominavam preconceitos que levavam à exclusão social dos portadores de necessidades especiais, ao contrário de hoje, quando prevalecem políticas públicas de inclusão produtiva, respeitadas as aptidões e habilidades dessas pessoas. Apesar disso, pelo menos no Brasil, ainda se encontram exemplos de escolas onde a biblioteca serve de abrigo para professores e funcionários que, por algum motivo, apresentem problemas de desempenho funcional. E é na biblioteca onde muitas vezes ficam ‘encostados’, à espera da aposentadoria. (n.e.) a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia26 vestígio do período anterior à Primeira Lei. A paródia de um trecho da República, de Platão, escrita pelo Dr. A.D. Lindsay, diretor do Balliol College, na aula inaugural de 1928, coincide apropriadamente com esta concepção de bibliotecário. Então, em que ocasiões relativas aos livros é o bibliotecário um parceiromais útil que outro? Nos casos em que os livros precisam ser guardados e conservados com segurança. E isso não seria o mesmo que dizer ‘Quando não é preciso ler os livros, mas apenas conservá-los sem serem lidos?’ Sim. Então, a biblioteconomia é útil para os livros quando eles são inúteis? Assim parece. A biblioteconomia, então, meu amigo, não pode ter grande importância, se for útil para os livros somente quando eles forem inúteis.12 Na realidade, à biblioteconomia, até recentemente, não era dada grande importância, não importa qual fosse sua finalidade. 1702 Grã-Bretanha Na verdade, tardou muito para que fosse percebida a necessidade de um profissional bibliotecário. Se havia um cargo de bibliotecário, não se sabia quem recrutar, e se havia um bibliotecário, não se sabia o que fazer com ele. Por quase meio século, até mesmo o University College, Lon- don, que hoje se transformou num centro de formação de bibliotecários, costumava deixar sua biblioteca “aos cuidados de um auxiliar, às vezes dignificado com o título de bibliotecário, mas nunca percebendo mais de £ 80 por ano, ou aos cuidados de um bedel da biblioteca”.13 Em sua Story of the University of Edinburgh, sir Alexander Grant registra que “entre 1635 e 1667 houve uma sucessão de não menos de dez bibliote- cários; provavelmente, nenhum deles tinha vocação especial para o cargo”. Quando finalmente conseguiu um bibliotecário que não iria embora, mas não sabendo o que fazer com ele, foi-lhe solicitado que ficasse incumbido do “livro de colação de grau, no qual, durante alguns anos, ele registrou os diplomas concedidos”. Como isso não ocupava todo seu tempo, foi-lhe dada a função adicional de trabalhar “como secretário do College, cargo que desde então esteve combinado com o de bibliotecário!” Quando os livros existiam somente para serem preservados e até se perceber que os livros são para usar, de que outra forma poderiam o tempo e a energia do bibliotecário ser utilizados? Edimburgo não foi, de modo algum, a única a atribuir ao bibliotecário alguns desses encargos diversos, em troca do salário que lhe pagavam. A vizinha Glasgow fez o mesmo. Conta-se que, 27 até 1858, “a matrícula e o registro dos alunos eram feitos pelo bibliotecário” na University of Glasgow.14 1703 Estados Unidos da América A situação no Novo Mundo também não era muito diferente. Foi so- mente em época comparativamente recente que, em Harvard ou Yale, era nomeado um bibliotecário que se dedicaria em tempo integral ao trabalho na biblioteca. Quando o Kenyon College, que oferecia alojamento para os estudantes, foi fundado em 1826, as funções do bibliotecário recaíram sobre a esposa do diretor, a Sra. Chase. Mas o trabalho de bibliotecária não era o único atribuído a ela. “O cuidado dos afazeres domésticos recaíam sobre a Sra. Chase. Ela também fazia a contabilidade da instituição e cuidava da biblioteca”.15 (Grifo nosso.) Segundo Koch, Não faz muito tempo que em geral se achava que a biblioteca era o lugar para a meia aposentadoria de um professor idoso ou um assistente inepto. Ainda hoje, é comum indagar-se ao bibliotecário se não dispõe de um serviço onde um acadêmico alquebrado possa prestar ajuda. A necessidade de capacitação, vigor, vivacidade e aptidão específica para o trabalho bibliotecário ainda não é percebida por muitos que, apesar da familiaridade ocasional com as biblio- tecas, deveriam saber melhor que tipo de ajuda se requer para administrar uma biblioteca.16 1704 Ensinar o uso dos livros Diz-se que William Frederick Poole, que foi bibliotecário da Newberry Library nos últimos anos do século xix, teria dito pouco antes de morrer: “Nenhuma universidade alcançou até agora o elevado padrão de poder contar com um professor de bibliografia, mas estão caminhando nesta direção”. Em 1894, o reitor Harper alimentava a esperança de que “alguns de nós verão o dia em que em cada divisão principal da universidade haverá professores de bibliografia e de metodologia, cujas funções serão as de ensinar às pessoas sobre os livros e como usá-los”.17 O mesmo reitor, porém, estava convencido de que “a instalação da biblioteca jamais estará pronta enquanto não tiver entre seus funcionários homens e mulheres, cujo único encargo será não o cuidado de livros, não a catalogação de livros, mas ministrar instrução sobre seu uso”.18 1705 Índia Voltando-nos para nosso próprio país, ainda temos que conseguir um Harper para dirigir alguma das nossas instituições de ensino. Parece que a realidade não é muito propícia a que alimentemos tal esperança. A maior parte de nossas faculdades, sem dúvida, começou a incluir em a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia28 sua folha de pagamento um cargo com o honroso título de ‘bibliotecário’. Embora o salário mostrado ao lado do item da lista possa sugerir uma deplorável falta de consideração quanto à necessidade de um bibliotecá- rio de verdade, que faça com que os livros sejam usados, sua verdadeira situação somente será compreendida por quem houver, por algum tempo, trabalhado em alguma dessas faculdades. 1706 Biblioteca de Faculdade Na maioria das faculdades, o assim chamado bibliotecário não passa geralmente de um funcionário administrativo, tanto por formação e índole quanto pelo cargo. Não lhe é dada muita iniciativa e ele tampouco é capaz de alguma. Passa a maior parte do tempo arrumando os fichários e levando- -os, ocasionalmente, para uma sala distante, ocupada pelo dignitário — o ‘professor encarregado da biblioteca’ — a quem ele responde e diante de quem marca presença, na esperança de ser mantido no cargo. Seu auxiliar é geralmente um atendente, cuja escolaridade está um pouco acima da que é exigida para uma vaga de peão. Sua função consiste em entregar livros por cima do gradil que separa o salão de leitura do armazém de livros, em determinados horários da semana, e também espanar a poeira das estantes ou arrumar os livros e os arquivos. Nenhum dos funcionários da biblioteca se identifica com o quadro docente da instituição, para não falar no acompanhamento do programa de estudos adotado pela facul- dade; ninguém que possa examinar o material solicitado, para não falar de reuni-lo de antemão à espera de demanda futura; ninguém que possa orientar o estudante comum no uso dos livros da biblioteca, para não falar em ajudar os alunos envolvidos em pesquisa no que concerne aos métodos de utilização de fontes originais. O ‘professor encarregado’ pode fazer estas coisas — há ‘professores encarregados’ excepcionais que realmente fazem essas coisas e merecem todo o crédito. Mas o ‘professor encarregado’ é um professor e não um bibliotecário, e comumente ele é levado a entender que sua obrigação começa com a aprovação de cópias autenticadas e termina com a assinatura de cópias passadas a limpo. Por outro lado, deve-se real- mente agradecer se o professor não sucumbir à tentação de manter todas as boas aquisições sob sua guarda exclusiva, obtendo, assim, uma vantagem temporária sobre os alunos para os quais leciona. Assim agindo, o que é raro, ele se enquadrará naquela categoria de bibliotecário cuidadosamente descrita pelo diretor do Balliol na paródia de outra passagem da República. E ele é um excelente guarda de um exército hábil no roubo de planos do inimigo e todos os seus preparativos? Com certeza. Então, qualquer um que for um hábil guardião de qualquer coisa será também um hábil ladrão dessa coisa? 29 Aparentemente. Então, se o bibliotecário for um hábil guardador de livros, também será hábil em roubá-los? Este é certamente o sentido do argumento. O compromisso das bibliotecas das escolas de nível médio é ainda pior no que diz respeito ao pessoal. Com muita frequência, um jovem imaturo, que acabou de passar raspando pelo exame final, é colocado no ‘honroso’ assento (gadi) do bibliotecário. Os colégios de nível médio geralmente têm um departamento de ensino muito numeroso. Cabe a este departamento,com frequência, aliviar o diretor da incômoda incumbência de arranjar ocupação para os jovens, a fim de afastá-los do mal. O registro diário da frequência horária dos alunos, a preparação mensal das listas de chama- das nominais nos registros de presença e o registro final das entradas nos livros de certificados de conclusão da escola secundária são, via de regra, transformados em seu monopólio. Se isso não o deixar totalmente ocupado, terá de ajudar o contador na coleta das taxas escolares, ou a penosa tarefa de manter o estoque de papel e de formulários aguarda por sua atenção. 1707 Biblioteca Escolar Mas o pior acontece nas bibliotecas escolares. Estas sequer reconhece- ram a necessidade de ter um empregado administrativo como bibliotecário. Geralmente solicita-se ao instrutor de educação física ou ao instrutor de desenho que cuide da biblioteca, caso exista. Numa escola que conheci, o mais forte e cruel dentre os funcionários foi incumbido de ser o anjo da guarda da biblioteca. Ganhou o apelido de Mohammad de Ghazni, em homenagem ao número de tentativas infrutíferas para obter matrícula.* E ele provou ser um guardião muito zeloso. Era tarde da noite, quando um aluno aplicado teve a coragem de abordá-lo para pedir um livro para uma ‘leitura extra’. Ele estava morto de cansado depois de seis horas de aulas. “Que é que você quer?”, trovejou Mohammad de Ghazni, quase cha- muscando o garoto com seus olhos vermelhos. “O livro Peeps at many lands: Japan,** senhor”, gaguejou o menino. “Quanto você tirou no último trimestre?” “Qua.. quarenta e dois de cinquenta, senhor.” “Vá embora e consiga os oito pontos restantes antes de pensar em a primeira lei ** ‘Uma olhadela em muitos países: Japão’. Volume de uma série de livros com descrições de diferentes países, destinados ao público juvenil. Alcançou grande êxito na época. (n.e.) * Mohammad ou Mahmud de Ghazni (971–1030), sultão de Ghazni, no Afeganistão, que, entre os anos 1000 e 1025, assolou repetidamente, fala-se em 17 invasões, territórios da Índia e do Paquistão. (n.e.) as cinco leis da biblioteconomia30 ‘leitura extra’”, foi a enfática recomendação acompanhada do punho di- reito do Mohammad de Ghazni, que o pousou, com uma força de doer, na testa do garoto, trêmulo, que fugiu soluçando para nunca, nunca mais voltar à biblioteca. 1708 Coração da Escola Se a escola acreditasse que os livros são para usar pelas crianças, tê-los-ia confiado aos cuidados deste monstrengo assustador? Por outro lado, não poderia tê-los colocado sob os cuidados de um simpático bi- bliotecário de biblioteca infantil, cujo treinamento especializado e cuja atitude compreensiva teriam atraído todas as crianças para o que é agora corretamente denominado o ‘coração da escola’? Então, como teriam sido diferentes as lembranças que as crianças guardariam da escola! Imaginem, por exemplo, as agradáveis recordações de alguém do Novo Mundo, que seja contemporâneo do nosso garoto em prantos: Posso quase afirmar que devo à biblioteca o maior estímulo mental de minha vida. A imagem do rosto inteligente, de olhos cinzentos, daquele bibliotecário e o próprio cheiro da sala da biblioteca estão indelevelmente impressos na minha memória. Pessoalmente, minha dívida com a biblioteca como instituição e com os bibliotecários como classe é maior do que jamais poderei ter esperança de pagar com uma gratidão eterna.19 171 O Pessoal da Biblioteca e a Cultura Mesmo depois de a Primeira Lei ter tido êxito, ao convencer as pesso- as quanto à necessidade de a biblioteca contar com pessoal especial, de tempo integral, ainda demorou muito até que as autoridades responsáveis pelas bibliotecas se dessem conta das qualidades e qualificações essenciais exigidas para que esse pessoal pudesse cumprir todas as injunções dessa lei. A luta travada pela Primeira Lei ao estabelecer padrões adequados para a biblioteconomia foi ainda mais tenaz do que a encetada para fixar horários adequados para a biblioteca. Sua antecessora — os livros existem para serem conservados — legara muitas tradições arraigadas. A tradição, como se sabe, é obstinadamente indiferente ao raciocínio de qualquer natureza. Não ouviria facilmente os argumentos da Primeira Lei. A analogia, embo- ra sugestiva, não iria convencê-la. Um vendedor de cereais, obviamente, deve conhecer todos os tipos de cereais. Um vendedor de tecidos deve saber tudo sobre vestuário. Um corretor de seguros não pode ter sucesso se não conhecer tudo sobre tabelas de vida e seu significado. Ninguém será contratado como professor, a menos que conheça o assunto que tem que ensinar. Mas foi preciso muito tempo para se perceber que o biblio- tecário — que tem que se dedicar ao ensino, que tem que encontrar para cada pessoa o livro que lhe seja adequado, que deve persuadir as pessoas 31 a se beneficiarem do conhecimento entesourado nos livros, que tem, na verdade, que auxiliar na educação ao longo da vida de todos e não apenas de fedelhos imberbes — deve possuir uma cultura muito ampla. 1711 Inglaterra Em seu humorístico retrospecto dos ‘primeiros tempos’, o Sr. Frank Pacy, ex-secretário da Library Association britânica, refere-se a certas impressões interessantes, causadas pela cultura dos primeiros bibliotecá- rios britânicos. “A pessoa que nos mostrou a biblioteca não sabia nada de nada.” “O bibliotecário de Westminster não somente se parecia com um limpa-chaminés, mas era muito surdo.”20 Felizmente, esses dias acabaram. Atualmente, ninguém no Ocidente questiona o lugar da biblioteconomia entre as profissões cultas. 1712 Índia Em nosso país, porém, poucos compreendem, ainda hoje, a necessidade de pessoal culto trabalhando na biblioteca. Não muito tempo atrás, recebi de um alto funcionário da educação uma carta patética de recomendação que dizia, “O portador, você verá, é muito idoso. Ele se apresentou para o exame de conclusão do ensino secundário mais de umas dez vezes. Não existe perspectiva alguma de que venha a ser aprovado ainda ‘nesta vida’ (janma). Seria possível aproveitá-lo nem que fosse num cargo adminis- trativo? Interesso-me por ele. Você poderia recebê-lo em seu quadro de pessoal? Esta é a única oportunidade que ele tem.” Quando a biblioteca da Madras University foi fundada, uma das primeiras nomeações para o ‘serviço superior’ da biblioteca foi a de um contínuo do museu da univer- sidade, pela simples razão de que ele era uma pessoa honesta e de que não havia nenhuma outra forma para que seu salário fosse aumentado. Talvez, o precedente para isso esteja no fato de o porteiro da Bodleian Li- brary ter sido nomeado sub-bibliotecário em 1712.21 Igualmente, quando um conselho municipal autorizou o presidente de um território federal a nomear um bibliotecário em tempo parcial para a biblioteca do território (union), com um salário mensal de 10 rupias, conta-se que esse presidente logo passou a pagar este salário ao seu criado pessoal, pois ele era uma pessoa prestativa e iria vigiar zelosamente a biblioteca. Algumas semanas atrás, um ilustrado professor, nascido na Grã-Bretanha e que serve na Índia, formulou o princípio segundo o qual a escolaridade de um atendente de biblioteca não precisava ser tão alta quanto a de um balconista de farmácia. 1713 Uma História Mais interessante, porém, é a inferência de que um bibliotecário não pode ser um intelectual. Certa vez, a um proeminente funcionário de uma a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia32 cidade do norte do país foi solicitado que me recebesse, a mim, um simples bibliotecário, como seu convidado. Seu constrangimento só foi aliviado quando um de seus jovens secretários se ofereceu para me hospedar em sua casa. Entretanto, como desconhecia tal arranjo, dirigi-me diretamente para a casa do alto funcionário. Ao ver as iniciais ‘m.a.’ [Master of Arts] de- pois do meu nome imediatamente seu constrangimento deu lugar a uma sensação de assombro. E ele me recebeu! Terminado o almoçoe chegada a ocasião do pan supari,* o assombro transformou-se em compaixão. Cheio de simpatia, o douto funcionário condoeu-se do Master of Arts pelo que o destino lhe reservara. Amaldiçoou os tempos difíceis que levaram um homem da minha capacidade e cultura a ter que cuidar de uma biblioteca. Mas esta sincera compaixão foi sobrepujada por uma justa indignação, ao descobrir que o meu salário era mais alto do que o dele e que as autoridades haviam esbanjado num cargo de bibliotecário não somente um Master of Arts do país, mas também uma fatia tão elevada de sua receita. O que me preocupa é que esse douto funcionário parece ser a regra e não a exceção. 1714 Tanto de Cultura quanto de Capacidade Executiva A opinião do douto funcionário ocorre naturalmente a quem raramente usa uma biblioteca e nunca sentiu a influência de uma que fosse moderna e bem administrada. Mas quem a usou, com assiduidade e seriedade, e estudou em profundidade algum assunto uma vez na vida, espera encon- trar entre os funcionários da biblioteca pelo menos um que ‘fale a mesma língua’ e conheça a bibliografia e a metodologia de seu tema. O reitor da Western University certa vez observou: Todo aquele que estiver incumbido de uma biblioteca deverá ser capaz de lecionar. A capacidade executiva é, sem dúvida, necessária ao bibliotecário, mas, se não estiver conjugada com uma grande cultura, não será, de forma alguma, suficiente. 1715 A Cultura Segundo Mark Pattison Que tipo de pessoa culta deveria a biblioteca recrutar para seu quadro de pessoal? Certamente não o erudito retratado nos jornais humorísticos como alguém despido de senso comum, nem o tipo pedante, que seja inapropriadamente formal e artificioso; nem alguém do tipo especialista, que sabe ‘cada vez mais sobre cada vez menos’. A biblioteca necessita, em seu quadro, de pessoas que tenham cultura no sentido dado à palavra por Mark Pattison, isto é, discernimento, disciplina e hábito científico. Sua especialidade deve ser a bibliografia, e sua atitude, a de um estudioso. * Preparado à base de folhas e nozes de bétel e limão, usado como mastigatório. Após as refeições, suaviza o hálito e funciona como um estimulante suave. (n.e.) 33 Nas palavras do Public Libraries Committee da Grã-Bretanha, devem ter conhecimento e familiaridade suficientes com todos os ramos do saber, a fim de que possam contemplá-los adequadamente na seleção de livros, de modo a oferecer aos leitores a orientação de que precisam e descobrir, com a maior rapidez possível, o lugar onde a informação procurada pode ser encontrada. Devem ser capazes de usar os livros como instrumentos não somente de disseminação do conhecimento, mas também de expansão das fronteiras do saber. 1716 Grau Universitário É por isso que o grau universitário é considerado um requisito normal para admissão pelas escolas de biblioteconomia do Ocidente, e são exigidos títulos universitários mais elevados daqueles que aspiram aos postos mais altos no serviço bibliotecário. Isso também explica a prática recente, em bibliotecas progressistas, de atrair para seu quadro, como bibliotecários de referência em tempo parcial, pessoas com larga experiência docente. Foi a partir desta ótica que Arnold Bennett disse que se as bibliotecas gastassem menos com livros e mais com pessoal capacitado, alcançariam resultados muito melhores. Não são livros que faltam nas bibliotecas; o que falta é a chave para seu uso eficaz. E esta chave está nas qualidades pessoais e conhecimentos dos bibliotecários e seus auxiliares. 172 Pessoal e Formação Profissional Mas só cultura não basta para fazer um bibliotecário. Muitas pessoas pensam que, por terem pendor para a leitura, estão qualificadas para serem bibliotecários. Bem ilustra este desconhecimento a história ocorrida com MacAlister e narrada por Augustine Birrel:22 1721 Ignorância Ainda anteontem, no navio de Calais, fui apresentado a um militar de renome mundial que, quando soube que eu tinha alguma ligação com a Library Asso- ciation, exclamou: ‘Pois bem, você é exatamente de quem preciso! Ultimamente, ando preocupado com meu criado, o velho Atkins. Você pode vê-lo, encurva- do, procurando abrigo ali atrás da chaminé. Coitado! Já passou do tempo de trabalhar, mas continua tão fiel quanto um cão. Acabou de ocorrer-me a ideia de que se você pudesse dar-lhe um empurrãozinho para empregá-lo numa biblioteca agradável do interior, eu lhe ficaria profundamente agradecido. O único defeito dele é a paixão pela leitura, de modo que uma biblioteca seria a coisa mais acertada.’ A habitual senhora da nobreza também esteve na conferência. Desta vez, estava recomendando sua ex-cozinheira para o cargo de bibliotecária, alegando a seu favor o mesmo estranho traço de personalidade: a paixão pela leitura. a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia34 1722 Analogia na Ignorância O lado patético desse desconhecimento só se compara ao provocado por um jovem ingênuo que se candidatou ao cargo de ‘leitor de matemá- tica’ em uma de nossas universidades.* Baseava tal pretensão em sua alta qualificação, pois acabara de obter o grau de bacharel em matemática, com aprovação simples, e era ‘apaixonado pela leitura’. 1723 Noções Equivocadas Entretanto, ainda mais incômoda é a arrogância desdenhosa daqueles que, além de adorarem os livros, julgam-se competentes para criticar um estilo literário ou possuem algum conhecimento de uma área especializa- da do saber. Imaginam que tudo numa biblioteca que esteja além de seu saber é manual, burocrático, ficando muito abaixo da sua capacidade, e ignoram o fato de que ainda não passam de uma boa matéria-prima com a qual se tornariam bibliotecários. Não é raro encontrar um recém-chegado presunçoso, que se atreve a dizer: ‘O que a indexação tem de importante?’, querendo com ‘indexação’ dizer ‘catalogação’. Gostaríamos que lhe fosse permitido tentar ‘indexar’ por alguns meses para descobrir por si mesmo a confusão que seria capaz de fazer. Outra pessoa, um venerável senhor, exclamou: ‘Qual a formação exigida para entregar livros no balcão? No meu tempo, fulano fazia isso de forma notável e não tinha qualquer formação profissional.’ Bastaria perguntar-lhe: ‘No tempo dele, quantos volumes tinha a biblioteca nas estantes? Quantos deles se negaram a deixar as estantes sequer uma única vez em sua longa existência? Quantos volumes eram acrescentados à sua biblioteca por ano? E quantos dos seus sábios con- temporâneos alguma vez conheceu uma biblioteca ou sabia qual era sua finalidade?’ Outro, muito cioso das prerrogativas de sua especialidade, faz uma observação impertinente: ‘Não é assim que se classifica. É assim que se cataloga. O trabalho de referência não é de sua competência. Isso é função dos professores’, e assim por diante. Somos forçados a dizer-lhe, ‘Senhor Especialista, sou tão especializado no meu ramo quanto o senhor é no seu. Se seu campo está envolto em mistério e requer uma longa iniciação formal, o meu também. Atente para o que você pensaria de um fulano, beltrano ou sicrano que, sem qualquer preparo, fosse meter o bedelho em sua seara.” 1724 Desvantagens de uma Profissão Nova O fato é que, quando a obrigação da biblioteca era preservar os li- vros, não havia necessidade de dar treinamento especial ao bibliotecário ‘guardião de livros’. A partir do momento em que os livros são para usar * Em inglês, reader é sinônimo de professor, da mesma forma que o português leitor, embora neste caso seja mais empregado para designar o docente contratado por uma universidade de outro país para lecionar sobre a cultura do país de origem. (n.e.) 35 entrou no lugar de os livros existem para serem preservados, a bibliote- conomia recebeu vários encargos que exigiam formação profissional bem planejada, com tanto estudo e técnica como o que se exige de qualquer outra profissão superior, seja medicina, engenharia ou direito. Um médico, um engenheiro e um advogado terãorazão para estourar de indignação se alguém se arriscar a questionar a necessidade de sua formação profis- sional. Mas o mesmo médico, o mesmo engenheiro e o mesmo advogado ingenuamente questionarão a necessidade de formação profissional dos bibliotecários. Isso se deve simplesmente a que medicina, engenharia e direito são profissões antigas, esquecidas por completo das lutas travadas para que fosse reconhecida a necessidade de sua formação especializada, enquanto que a biblioteconomia é uma profissão nova. É natural que quem hoje se encontra numa posição privilegiada defenda cada centímetro dela antes de admitir a um estranho o mesmo privilégio. Essa luta só terminará quando o médico, o engenheiro e o advogado de hoje forem substituídos por aqueles que tiveram, desde a juventude, o prazer e o benefício de serem servidos por profissionais bibliotecários tecnicamente qualificados. 1725 Grã-Bretanha Isso pode parecer um círculo vicioso. Mas sob o coro crescente do novo canto — os livros são para usar —, em outros lugares as pessoas rompe- ram este círculo vicioso, e podemos tirar proveito disso. A Grã-Bretanha há muito decidiu, i) instruir a opinião pública para exigir que bibliotecários formados sejam a regra e não a exceção; ii) fazer valer, junto às autoridades responsáveis pelas bibliotecas, sua responsabilidade para levar na devida conta a qualificação na seleção de candi- datos e a conceder facilidades ao quadro de pessoal para que dê continuidade à sua própria capacitação, tanto técnica como cultural, ao mesmo tempo em que desempenham seus serviços.23 1726 Outros Países Os Estados Unidos da América avançaram e criaram quatorze insti- tuições credenciadas para o ensino da biblioteconomia. Os ministérios da Educação da maioria dos países da Europa continental assumiram a tarefa de prover o país de bibliotecários com formação profissional adequada. O Japão criou, há muito tempo, sua própria escola de biblioteconomia, enquanto a China possui a Boone Library School.* O mais importante, em * Fundada em 1920 pela missionária e bibliotecária Mary Elizabeth Wood (1861–1931), da Igreja Episcopal norte-americana, em Wuchang (hoje Wuhan). O Boone College foi assim denominado em homenagem a W.J. Boone, primeiro bispo dessa igreja na China. (n.e.) a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia36 alguns países ocidentais, é que a profissão de bibliotecário saiu há muito da infância e alcançou a idade madura, produzindo vários ramos, que apresentam a tendência de desenvolver certa independência e individuali- dade, de modo que logo teremos várias profissões semi-independentes de bibliotecários, distribuindo-se em torno do tronco primitivo, assim como as raízes aéreas, que brotam em profusão dos galhos da gigantesca árvore baniana,* parecem estar separadas da árvore, mas ainda fazem parte dela, dando abrigo a milhares de pássaros. 1727 Início na Índia Vivemos esperançosos. Um pequeno começo está ocorrendo até mes- mo em nossa terra. Uma nova plantinha desta espécie, a Summer School of Library Science, foi zelosamente cuidada por dois anos no viveiro da Madras Library Association. Quando estava pronta para ser transplantada, encontrou seu lugar no fértil pomar da Madras University. Essa univer- sidade pode não somente cuidar dela com mais facilidade, mas também encontrar um mercado para seus frutos. Que essa pequena árvore cresça cada vez mais! E que a colheita dos seus frutos enriqueça esta terra, do Himalaia ao cabo Comorim! 173 Pessoal da Biblioteca e sua Posição O trabalho seguinte da Primeira Lei, em prol do pessoal da biblioteca, teve que ser orientado na direção da renovação de outro demônio legado pelo conceito os livros existem para serem preservados. Mesmo depois que um quadro de pessoal com formação cultural e tecnicamente treinado foi recrutado, as autoridades responsáveis pelas bibliotecas, ofuscadas pela tradição, não compreendiam a necessidade de revisão da tabela de salários que fora originalmente projetada para atrair e manter o ‘bibliote- cário guardião’ e o ‘bibliotecário secretário’. É até provável que a tabela tenha ficado abaixo da dos chefes dos serventes, ou da do pedreiro ou do guarda-fios. Embora essa anomalia não tenha abalado a consciência das autoridades, era uma questão com a qual a Primeira Lei se preocupava seriamente. Essa tabela de forma alguma atrairia o tipo certo de gente. E, mesmo que o fizesse, a pessoa que ela conseguisse atrair do exército de desempregados estaria simplesmente marcando passo, com a mente e o coração em outro lugar. Até mesmo a pouca experiência que viesse a acumular estaria logo perdida para a biblioteca, uma vez que aproveitaria a primeira oportunidade para deixá-la. Por uma ou duas gerações, nos primeiros tempos da Primeira Lei, quando as autoridades responsáveis * Ficus benghalensis, conhecida também como figueira, figueira-baniana, figueira-de-bengala, árvore-da-borracha, falsa-seringueira, etc. A metáfora desta árvore, considerada sagrada pelo hinduísmo, é retomada pelo autor em seus estudos sobre classificação. (n.e.) 37a primeira lei pelas bibliotecas consistiam, em sua maioria, de pessoas que jamais haviam recebido a influência de uma biblioteca, cujo lema orientador fosse os li- vros são para usar, quando o trabalho do pessoal da biblioteca não podia nem ser apreciado nem avaliado adequadamente, era, de fato, uma tarefa árdua para a Primeira Lei convencer as autoridades sobre a necessidade de se fixar uma tabela salarial equitativa. 1731 Perigos de um Pessoal Malremunerado A Primeira Lei sabia que pessoal insatisfeito era um risco social. Mesmo sem levar em conta essa palavra de ordem genérica, sabia que o pessoal malremunerado não teria o entusiasmo necessário para cumprir, com êxito, sua missão. E se o cumprisse, o entusiasmo, o zelo e a solicitude não teriam o resultado esperado. As palavras do pobre, mesmo quando proveitosas, são raramente ouvidas.24 Seriam menosprezadas como intromissão egoísta, embora o desdém induzido na mente do leitor pelo seu baixo salário viesse a repercutir no próprio leitor. Seria o caso de dizer: que se lixe o leitor! Mas, assim, o uso dos livros da biblioteca haveria de sofrer e isso é assunto que merece muita atenção, para quem crê na Primeira Lei. 1732 Posição e Dinheiro Certo ou errado, a sociedade humana desenvolveu a economia com base no dinheiro. Uma análise simples das bases da teoria do valor revelará, para espanto de muitos, que os pés do deus Mamona são de barro. Mas, o que é o bem? Será a maioria das pessoas guiada pelo supremo valor das coisas? “Um enfático não”, é a resposta daquele sagaz professor de Sabedoria Terrena, Bhartrihari.25 “Por outro lado”, diz ele, acredita-se que aquele que tiver riquezas terá o mais azul dos sangues correndo nas veias. É tomado por sábio. Passa por mais bem informado. É considerado o mais distinto. Sua oratória é enaltecida como inigualável. E a sua imagem é descrita como a mais formosa. É o ouro sob sua posse que determina a quali- dade de cada um de seus atributos. With reason may ye wele se, That Peny wyll mayster be, Prove nowe man of mode; [...] He makyth the fals to be soende And ryght puttys to the grounde.*26 1733 Remunere Bem o Pessoal O dinheiro, portanto, rege o mundo. Ele determina a posição das pes- soas, da mesma forma que regula o valor dos serviços prestados por elas. Infelizmente, as pessoas só estão dispostas a usufruir de um serviço na proporção do valor que lhe for atribuído pelo dinheiro. Assim, funcionários que passem fome tornarão os esforços da Primeira Lei tão fúteis quanto a escassez de livros ou a escassez de leitores. Na tríade da biblioteca — livros, funcionários e leitores — a riqueza dos funcionários em bens mundanos parece ser tão necessária quanto a riqueza dos outros dois em número e variedade, se se quiser que a lei os livros são para usar seja traduzida na prática. Assim terá que ser, enquantoa condição social das pessoas for deixada ao controle caprichoso e arbitrário do deus Mamona. “Por conseguinte, remunere bem o pessoal da biblioteca”, diz a Primeira Lei. 1734 Benefícios Tardios Um empecilho importante, que o serviço prestado pela biblioteca apresenta, para que receba o que merece, consiste em que os benefícios que ele proporciona se manifestam com certa demora. O médico ganha suas quinze rupias por uma única visita, pois as pessoas acreditam que a vida ou a morte do paciente nas horas seguintes depende do seu atendi- mento. O advogado ganha cem rupias para ficar de pé por uma hora, pois as pessoas acreditam que a propriedade de um bem no minuto seguinte depende do seu serviço. Mas os benefícios do serviço proporcionado pelo pessoal da biblioteca, da mesma forma que os serviços ministrados pelo professor, não são percebidos de imediato, nem mesmo no ano ou década seguintes. Seus benefícios, embora mais universais e duradouros, tornar- -se-ão evidentes somente uma ou duas gerações mais tarde, quando as pessoas que deveriam abrir a carteira e pagar por eles, já estarão mortas ou esquecidas. Trata-se de um predicado angustiante, que parece que lhe foi atribuído por Deus num momento em que talvez estivesse com a intenção de fazer uma travessura. as cinco leis da biblioteconomia * De uma poesia popular inglesa do século xv intitulada Syr Peny (Dom Dinheiro). Possui versões, algumas anteriores, em outras línguas. “Com razão você verá / que o dinheiro será o senhor, / comprove-o agora almofadinha / [...] / Ele transforma o falso em verdadeiro / E arrasa o que está certo .” (n.e.) 38 39 1735 Progresso no Ocidente Apesar disso, a Primeira Lei já chegou perto do sucesso em países do Ocidente para eliminar os efeitos dessa travessura. A sociedade ocidental está hoje preparada para admitir que um bibliotecário universitário deva ter o mesmo nível e o mesmo salário de um decano da universidade, que um bibliotecário de faculdade deve receber tratamento semelhante ao de um professor, que um bibliotecário escolar não é de forma alguma inferior a um professor e que um bibliotecário municipal merece o mesmo pagamento, os mesmos direitos e os mesmos privilégios que os demais funcionários do município, como o engenheiro, o sanitarista, o funcionário graduado da Receita e o funcionário graduado da Educação. 1736 Apelo à Índia Quando a Índia se equiparará às suas irmãs ocidentais? Irá ela apro- veitar a experiência de suas irmãs ou fechará os olhos para elas e trilhará cada centímetro daquele velho e incômodo caminho? Se agir dessa maneira, seus filhos jamais alcançarão seus primos na sua marcha para o progresso. Esperemos e oremos para que ela não tome este curso fatal, mas mergulhe na primeira crista da onda do progresso, triunfalmente coloque seus bibliote- cários em pé de igualdade com os de outros países, e, dessa forma, aumente a possibilidade de a Primeira Lei da biblioteconomia conduzir os filhos da Índia, há muito tempo negligenciados, à mesma posição de vantagem que esta lei foi capaz de assegurar às outras nações do mundo. Amém! 1737 Na Índia Medieval Uma luz esclarecedora incidiu sobre a posição que as bibliotecas ocupa- vam nas instituições educacionais da Índia medieval graças às Inscriptions of Nagai, publicação no 8 da Hyderabad Archaeological Series.27 Nagai é uma vila perto de Wadi e ali existiu uma antiga cidade, hoje desaparecida, que deixou um legado de vários monumentos e inscrições de grande valor histórico. Uma inscrição na língua cânada, no templo de sessenta colunas, cha- mado ‘Aruvathu Kambada Gudi’ dessa vila, que se supõe datar do dia que corresponde a 24 de dezembro de 1058 d.C., faz um relato sobre as instituições públicas fundadas por Madusudana, famoso general e ministro do rei de Chalukya, Rayanarayana. Uma das instituições por ele fundadas foi um colégio interno chamado Chatikasala, destinado a duzentos sábios que estudavam os Vedas e cinquenta e dois que estudavam os sastras.* O * Os Vedas são os livros sagrados da literatura e religião védica. Os sastras ou shastras são obras que tratam das regras de conduta dos seguidores do hinduísmo. A palavra que designava as bibliotecas na Índia antiga era sarasvati-bhandagaras, que significava ‘casas do tesouro da deusa do saber’. (n.e.) a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia40 colégio era “administrado por três professores de Vedas, três professores de Sastras [...] e seis bibliotecários (sarasvati-bhandarikas)”. Se a presença de seis bibliotecários tem alguma importância, talvez se possa com razão inferir que a biblioteca anexa ao colégio deve ter sido de tamanho e utilidade consideráveis. Somos ainda tentados a comparar essa biblioteca universitária medieval com nossas bibliotecas universitárias de agora, que são tão notoriamente indiferentes e relutantes, tanto no que tange ao melhoramento de seus recursos bibliográficos como ao supri- -las com os recursos humanos necessários para auxiliar os professores e estudantes na utilização adequada de seus recursos. Um verso de data posterior na mesma inscrição mostra que Madusu- dana estava muito à nossa frente, ao definir a posição dos bibliotecários da faculdade. Pois a distribuição de terra aos professores e bibliotecários, em lugar do salário, era feita do seguinte modo: 48 unidades (materiais) de terra para o professor de Prabhakara darsana. 35 unidades para o professor de Bhatta darsana. 30 unidades para o professor de Nyaya. 20 unidades para o professor de Vendangas.* 30 unidades para cada um dos seis bibliotecários, e assim por diante. Isto mostra que Madusudana tratava professores e bibliotecários quase da mesma forma e ainda é possível deduzir que suas qualificações acadê- micas também seriam de igual ordem. As instituições educacionais do Ocidente, que avaliam corretamente o lugar que as bibliotecas devem ocupar, colocam os bibliotecários na posição de docentes e, em compensação, insistem em que tenham alta qualificação acadêmica. Espera-se ardentemente que o padrão definido por nosso ilustre patrício Madusudana, que se aproxima tanto da prática atual de outros países, seja logo alcançado por nossas universidades, faculdades e escolas. 174 Pessoal da Biblioteca e sua Responsabilidade Vimos que a tarefa essencial da Primeira Lei era educar as autoridades a respeito do pessoal da biblioteca, e que ela foi cumprida passo a passo em quatro estágios. Primeiro, convenceu-as da necessidade de pessoal especializado, depois, de pessoal com cultura, em seguida, de pessoal capa- citado, e finalmente de pessoal bem remunerado. Sua segunda tarefa, nesta questão, foi afinar o mesmo pessoal ao tom adequado. De fato, seria trágico se o próprio pessoal da biblioteca, como Sugriva,** esquecesse a causa nobilíssima que lhes garantiu instrução, pagamento dos estudos e posição. * As matérias lecionadas pelos professores tratam do estudo de obras essenciais da filosofia hindu. (n.e.) ** Na mitologia hindu, Sugriva é o rei dos macacos que se esqueceu de cumprir a promessa de ajudar a libertar da prisão Sita Devi, a esposa do herói Rama. (n.e.) 41 28 Os melhores prêmios são como a maçã do Éden. E quem deles estiver usufruindo precisará de vez em quando perscrutar o coração, à luz das palavras indignadas dos filhos de Kausalya e Sumitra.29 A cada instante o pessoal da biblioteca deve lembrar-se que os livros são para usar. Jamais deve cair no estado de espírito de seu ancestral da Bodleian Library, do qual se diz que “era um bibliotecário muito bom em alguns sentidos; mas odiava quem se aproximasse dos seus livros”.30 Jamais deve esquecer que nas bibliotecas os livros são reunidos para serem usados, preparados para serem usados, guardados para serem usados e oferecidos para serem usa- dos. Os intermináveis processos e rotinas técnicas — receber sugestões dos especialistas, adquirir por compra ou doação, registrar, classificar, catalogar, registrar o númerode chamada, colocar nas estantes, emprestar e dar baixa — tudo isso é executado tendo como única finalidade o uso. Para cumprir esta suprema missão da Primeira Lei do modo mais amplo possível, o pessoal da biblioteca deve não só lembrar-se constantemente desta missão, não só adquirir a necessária cultura e formação profissional, mas também desenvolver certas atitudes e interesses, que são também indispensáveis. 175 O Pessoal da Biblioteca e os Leitores Em primeiro lugar está a atitude diante dos leitores. Talvez pareça supérfluo ter que afirmar que os leitores constituem uma parte essencial do trabalho de uma biblioteca viva. Mas, infelizmente, há pessoas que não conseguem abandonar o hábito de ver os leitores como um estorvo. Há outras que somente permitem o ingresso dos leitores se eles se lembrarem que estão ali graças à sua tolerância e não têm direito algum de pedir nada, menos ainda qualquer conforto que propicie o estudo. Há ainda outras que não se importarão de prestar atenção às necessidades dos leitores, se isso não interferir na meticulosa execução de sua rotina administrativa. Seu lema é ‘administração’ primeiro, tudo o mais, inclusive os ‘leitores’, depois. Cerca de um século e meio atrás, quando a Primeira Lei não era amplamente conhecida, uma biblioteca com esta perspectiva talvez tivesse sido tolerada. Na verdade, infelizmente era assim mesmo. 1751 Anacronismo Durante quase meio século, a partir de 1763, a Bodleian Library, de Oxford, esteve nas mãos do reverendo John Price, do Jesus College. Bem no começo de sua carreira de bibliotecário, em 1771, foi publicado A journal of a a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia42 voyage round the world, do capitão Cook, e havia uma grande procura dessa obra. Mas nosso bibliotecário Price emprestou imediatamente o exemplar da biblioteca para um amigo e pediu-lhe que ficasse com ele o maior tempo possível. Assim, não seria “importunado constantemente pelos leitores que o procurassem”. O bibliotecário Price, de bom grado, teria tido uma biblioteca sem leitores. Na verdade, dele se diz que “desencorajava os leitores por negligência e por grosseria”. Apesar disso, foi-lhe permitido dirigir a Bodleian, sem qualquer estorvo, durante toda a metade de um século e instalar no seu ‘trono’ o próprio genro, que era farinha do mesmo saco, e conseguiu nele se manter com igual determinação por outro meio século. Mas o bibliotecário Price é hoje um anacronismo. Uma biblioteca moderna não pode existir sem leitores. A ‘negligência’ e a ‘grosseria’ mu- daram de lado, por assim dizer, pois não é mais o leitor que tem que tolerar docilmente a ‘grosseria’ do pessoal da biblioteca, mas, infelizmente, é o pessoal da biblioteca que, calado, tem que suportar a grosseria que parte, de vez em quando, de leitores descorteses e presunçosos. 1752 Boas-Vindas e Atenção A biblioteca deve hoje em dia adotar os métodos de uma loja moderna. É verdade que, em inúmeras bibliotecas, talvez não seja possível contar com um número suficiente de auxiliares, que fiquem simplesmente por ali à espera de que apareça alguém. Haverá consultas a serem pesquisadas, cartas para responder, fichas catalográficas para redigir e mil e outras coi- sas para fazer. Mas, apesar disso, assim que um leitor entrar na biblioteca, prevalecerá a regra segundo a qual qualquer que seja o trabalho em curso deverá ser imediatamente interrompido de modo que o leitor perceba que teve boa acolhida e atenção. 1753 Bom Humor e Cortesia Sabemos que é muito importuno quando estamos bem no meio do tra- balho de somar uma coluna de números e alguém chega repentinamente. E pior ainda é descobrir que a pessoa quer simplesmente dar uma olhadi- nha, sem procurar nada em particular. Mas isso são detalhes mandados para nos testar; devemos manter uma atitude cordial e, de modo algum, sermos indelicados. É muito importante lembrar que o ‘cliente adora um atendente cordial’. 1754 Comportamento Equivocado A conduta dos funcionários da biblioteca não deve, absolutamente, ensejar este tipo de comentário: “Estivemos, há pouco, naquela biblioteca bonita e imponente. Encontramos uma figura, de quem emanava um ir- ritante cheiro de essência de eucalipto, cuidando da biblioteca, inclinada 43 sobre o balcão, aparentemente endereçando envelopes. Ao chegarmos, nossa presença nem foi notada e somente depois de passados alguns minutos essa figura nos fez saber que estava viva. E, ao fazê-lo, podia-se ler claramente em seu semblante: ‘Gostaria que as pessoas não entrassem quando tenho de terminar meu trabalho’. Na verdade, porém, pergun- tou: ‘Em que lhes posso ser útil?’, sem se erguer da cadeira. Ao explicar o que queríamos e dele ouvir ‘Lamento, mas esse livro está emprestado’, não ficamos com a certeza de que estivesse lamentando ou mesmo de que soubesse qual o livro que procurávamos e ficamos a imaginar se de fato o livro não estivera nas estantes o tempo todo.” 1755 Comportamento Correto Por outro lado, o ideal seria que, ao voltar para casa, os leitores dis- sessem: “O jovem que nos atendeu naquela biblioteca tinha um sorriso tão cativante que iluminava toda a sala e sentimos com muita certeza que tínhamos ido ao lugar certo. Tudo ali é tão confortável. Qualquer dia desses, gostaria de voltar lá nas minhas horas de folga.” Todo leitor deve sentir a presença da personalidade radiante do bibliotecário. Como Krishna, o bibliotecário, de vez em quando, deve colocar-se ao lado de cada leitor. Não permanecer grudado ao assento, nem se refugiar na sala de descanso. Deve circular entre os leitores e estar sempre disponível para eles. 176 Pessoal da Biblioteca e Psicologia Depois de saudá-los, deve-se traçar um perfil mental dos leitores e en- trar em sintonia com ele. Para ser bem-sucedido nessa tarefa o bibliotecário precisa ser um psicólogo. Melhor ainda seria se todos os funcionários da biblioteca fossem psicólogos, para alcançar os melhores resultados. Será que isso implica que todo o pessoal da biblioteca deva seguir um curso for- mal sobre teoria da psicologia? Nada disso, embora não fizesse mal algum. Até uma criança aprende, pela observação, o tipo de tática necessária para se entender com os pais e professores. Assim também, todo funcionário da biblioteca, que tem inúmeras oportunidades de observar as pessoas, deve adquirir, pela prática, um conhecimento operacional de psicologia e a capacidade de entender a natureza humana. É função do bibliotecário saber lidar com todos os tipos de leitores e não só com os que se mostram dóceis. O bibliotecário realmente bem-sucedido deve ser capaz de lidar com leitores difíceis. Caso contrário, seus livros ficarão sem uso em igual proporção. Quantas vezes o bibliotecário atribui seu fracasso à insensatez do leitor! Conhecer os livros é somente metade da batalha. Quase tão fatal quanto ignorar a diferença entre João e José é desconhecer a diferença entre Newton e Einstein. Para lidar com êxito com o leitor difícil é preciso entendê-lo. Ele resmunga? Se resmunga, quer dar a entender isso mesmo a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia44 ou se trata de simples afetação? É realmente uma pessoa mal-humorada ou apenas seu jeito é desagradável? Muitos leitores potenciais se afastarão do balcão de atendimento se nos esquivarmos de enfrentar o problema do visitante sem modos, desagradável, nervoso ou excessivamente crítico. O êxito estará em nossa competência ao traçarmos rapidamente o perfil da- queles de trato fácil, e na paciência e inteligência que tivermos ao estudar e lidar com os que são difíceis. 1761 Exemplo Há alguns anos, um indiano de turbante estava de plantão no departa- mento de referência de uma biblioteca inglesa. Um inglês de cartola entrou com a habitual familiaridade, mas se sentiu intimidado ao ver aquela figura exótica na área reservada ao pessoal. O bibliotecário indiano ofereceu-lhe ajuda, disfarçando cuidadosamente a sensaçãoque lhe provocara aquele olhar assustado. — Não, obrigado — foi a resposta polida, e o inglês passou a percorrer as estantes. Passados alguns minutos, o indiano aproximou-se com outro ‘em que posso ser útil?’ — Muito obrigado. Onde estão os livros sobre temperança? — foi a única resposta relutante. Em seguida, livro após livro da seção de ‘temperança’ foi aberto e fechado em rápida sucessão. O relógio era tirado do bolso a cada minuto. Evidentemente, tinha pressa. Ainda não havia encontrado o que procurava e já eram 16 h 45 min. Coitado! — Se o senhor me disser exatamente o que procura sobre temperança, talvez eu possa ajudá-lo — foi o novo oferecimento do indiano de plantão. Desta vez, com a cabeça virada para o outro lado, o cavalheiro de cartola disse: — Tenho que presidir uma reunião sobre temperança. Preciso de algo para meu discurso de abertura. Será que você pode me ajudar? O meu trem sai às cinco e quinze. Instantaneamente, um volume da enciclopédia que ficava em outro lu- gar da sala ofereceu-lhe aquele algo que ele procurava, e ele partiu com uma profusão de agradecimentos, que cintilavam de seus lábios sorridentes. 1762 Vencer a Timidez dos Leitores “A que se deve esse comportamento estranho?” perguntou o novo bibliotecário de referência, quando a biblioteca estava sendo fechada no fim do expediente daquele dia. “Timidez, meu amigo, timidez”, foi a resposta de um experiente colega, que acrescentou, “se você quiser ser 45 um bibliotecário de referência, deve aprender a superar não apenas sua timidez, mas também a dos outros!” 1763 Trabalho com o Leitor Situação comum é a do consulente que chega à biblioteca e que você nunca viu antes. Ele diz o que precisa. Você lhe mostra os livros que acha que servirão. Você deve observá-lo continuamente para verificar se sua primeira impressão está correta ou se precisa revê-la. Acima de tudo, você não deve impor-lhe suas ideias, suas preferências e suas antipatias. Se lhe oferecer a nova edição em formato grande do Vanbrough e ele disser ‘não gosto de Vanbrough, ele é horrível’, será melhor não insistir, e tratar de passar para a estante seguinte. Não discuta sobre isso. Ah! Somos todos humanos e ao tentar provar que estamos corretos, perdemos de vista nosso objetivo principal, que consiste em ajudar o consulente a encontrar o que pode usar com prazer e proveito. Trabalhe com o leitor. Não o influencie. Você pode orientá-lo, mas não arrastá-lo. Trabalhe com ele respeitando sua posição. Se ele for vaidoso, aproveite essa qualidade. Se fala de si próprio, ouça com respeito, mas não deixe que ele se afaste muito do assunto, ou seja, a escolha dos livros. Se for insensato e irrequieto, mostre-lhe o mais cedo possível que pode ser categórico e que conhece os direitos e poderes atribuídos a você. Mas não ceda à tentação de cair numa conversa agra- dável, pelo simples prazer dessa conversa, por mais agradável que seja. 1764 Dois Grupos de Leitores Os consulentes dividem-se em dois grupos: os que querem atenção imediata, para que possam ir embora o mais rápido possível, e os que querem fazer uma seleção sem pressa e sem muita ajuda. Erros de diag- nóstico nesse momento criam uma impressão desfavorável imediata e duradoura. O erro é usar um cumprimento estereotipado para todos os visitantes. Deve-se buscar uma resposta para a pergunta ‘em que grupo este leitor se enquadra’ e atendê-lo de acordo com esta análise. 1765 Ramo Especial da Psicologia “O mesmo Polônio de sempre aparece para dar conselhos!” poderia alguém zombar. Mas uma breve reflexão mostrará o tamanho do desserviço que causaria à Primeira Lei da biblioteconomia, se fossem desprezados alguns desses preceitos aparentemente banais. Todo bibliotecário que tiver sido obrigado a lidar com muitos funcionários lembrar-se-á com que frequência em sua carreira foi preciso pregar esses preceitos aos seus colegas. Se houver dúvida quanto à imparcialidade desse testemunho, eis as palavras ponderadas deliberadamente incorporadas em relatório a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia46 ‘apresentado pelo presidente do Board of Education ao parlamento por ordem de Sua Majestade’, em maio de 1927: A disposição de ajudar, a paciência diante da estultícia, o controle do tempe- ramento diante de provocações devem ser inculcados em cada auxiliar e em cada atendente da biblioteca, ao mesmo tempo que os membros de hierarquia superior necessitam cultivar o estudo da natureza humana, um tipo de estudo que talvez quase possa aspirar à posição de um ramo especial da psicologia. O fator humano tem uma importância tão grande na administração das bibliotecas que conviria solicitar às escolas de biblioteconomia e aos cursos de treinamento que dediquem parte de sua atenção a orientações sobre este tema.31 177 Os Funcionários da Biblioteca e o Serviço Pessoal O prazer de compreender a natureza humana e lidar com casos difí- ceis não deve, entretanto, ser visto como o início e o fim da biblioteconomia. São apenas meios para alcançar um fim. O que é uma biblioteca? Uma biblioteca é uma coleção de livros mantidos para serem usados. A biblio- teconomia, por conseguinte, consiste em estabelecer a ligação entre um usuário e um livro. Portanto, a própria existência da biblioteca consiste no serviço pessoal prestado aos consulentes. De qualquer maneira, isso é o que impera nas bibliotecas que acreditam sinceramente que os livros são para usar. Esta Primeira Lei da biblioteconomia é um capataz firme. Uma vez que se admita sua doutrina, fica impossível fugir da conclusão lógica à qual nos arrastará. Ela dirá, por exemplo, “se a biblioteca mantém livros para serem usados, o trabalho do bibliotecário não consiste em baixar das estantes um monte de livros e dizer aos leitores que se sirvam. Nem se deve abastecê-los à força com livros de nossa escolha. É preciso ajudá-los, e ajudar alguém significa cooperar com ele para levar a cabo seus próprios planos e desejos — ajudá-lo a ajudar-se a si mesmo.” Este é o tipo de serviço pessoal que a Primeira Lei espera dos funcionários da biblioteca, se de fato pretendem auxiliá-la no cumprimento de sua missão. É digno de nota o fato de as solicitações individuais por esse serviço pessoal estarem crescendo. A resposta a essas solicitações devem ser livros selecionados de modo a coincidirem com as necessidades individuais e acompanhados por uma orientação hábil. 1771 Necessidades Individuais Diferentes Há quem almeje melhorar suas perspectivas de vida; há quem almeje complementar a educação formal recebida na escola; há quem almeje ampliá-la, ingressando em novos campos do conhecimento; há quem almeje reunir dados de certo tipo; há quem almeje ler pelo simples prazer de ler. A essas diferentes necessidades individuais o pessoal da biblioteca deve atender com igual eficiência. Para prestar esse serviço pessoal, o co- 47 nhecimento e a experiência dos funcionários da biblioteca devem ser de tal natureza que eles sejam capazes de recomendar, com o devido discerni- mento, livros adequados sobre um mesmo assunto para homens e mulheres que difiram amplamente em termos de aptidão, educação e objetivos. Por exemplo, todo mundo quer ler a respeito da teoria da relatividade e temos inúmeros livros sobre este tema. Será que qualquer um ou todos esses livros atendem aos requisitos de qualquer leitor? Será que Relativi- ty, de Lodge, Readable relativity, de Durell, Reign of relativity, de Haldane, Meaning of relativity, de Einstein, A. B. C. of relativity, de Russell, Principles of relativity, de Whitehead, Mathematical theory of relativity, de Eddington, e Origin, nature and influence of relativity, de Bikhoff agradariam a todos da mesma forma? Um destes títulos talvez seja muito ruim na avaliação de determinada pessoa, mas pode ser o único que apresenta a teoria da relatividade no nível de compreensão de outras pessoas. Outro pode ser muito especulativo, mas este talvezseja o único aspecto da relatividade que agradaria a algumas pessoas. Um terceiro pode ser muito místico, mas há almas que se deleitam no misticismo. E ainda outro talvez adote um tratamento do tema que constitui um desafio ao mais consumado estudante avançado de matemática, mas que pode ser o verdadeiro osso duro que ele buscava encontrar para praticar sua capacidade de roer. É nesta selva de publicações, de dimensões perturbadoras mesmo para quem lida com ela constantemente, de um lado, e a igualmente atordoante variedade dos gostos e capacidades dos leitores, de outro lado, que tornam o serviço pessoal dos funcionários da biblioteca indispensável para efetuar o contato entre o leitor certo e o livro certo no tempo certo e da maneira certa. 1772 Serviço de Inteligência da Comunidade Nas palavras de William S. Learned, A biblioteca do futuro será um serviço de inteligência da comunidade. Exigirá pessoal altamente especializado, que deverá, assim como os professores de uma faculdade, estar familiarizado com a literatura de um campo estrita- mente delimitado e ter além disso aquela aptidão que frequentemente falta por completo ao professor, qual seja a capacidade de rapidamente captar a bagagem intelectual do consulente e entender intuitivamente a natureza de sua necessidade pessoal.32 Para atender às demandas da Primeira Lei em matéria de serviço pessoal, os funcionários da biblioteca devem também estar preparados para recorrer a especialistas, sempre que necessário, em busca de orientação sobre livros que possam ser recomendados a leitores interessados em estudar ou se deleitar em ramos recônditos do saber. a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia48 1773 O Que Torna Grande uma Biblioteca Além disso, os funcionários devem ter personalidade, tato, entusiasmo e simpatia. Na verdade, a relação entre bibliotecário e leitor deve ser a mais fácil e agradável, não a de um superior dizendo a um inferior quais os livros que deve ler, não a de um professor ensinando a uma criança, mas de dois iguais trocando pontos de vista e informação sobre livros. Em suma, o bibliotecário deve ser ‘amigo, filósofo e guia’ para todo aquele que vier a usar a biblioteca. É esse serviço pessoal simpático junto com “essa hospitalidade que tornam grande uma biblioteca, não o seu tamanho”, como diz o poeta Rabindra Nath Tagore.33 178 O Pessoal da Biblioteca e o Serviço à Comunidade O resultado lógico do conceito os livros são para usar é um serviço pesso- al executado com elevada boa vontade. Percebe-se facilmente que somente pessoas dotadas de irrefreável anseio interior de servir à comunidade é que podem chegar a ser bibliotecários, atingindo o alto padrão estabelecido pela Primeira Lei. Percebe-se que nem a cultura, nem o treinamento profissional, nem o elevado salário podem, de per si, formar um bibliotecário, por mais que sejam necessários. A cultura pode levar a um retraimento fleugmáti- co, a formação profissional pode resultar em fatuidade arrogante e o alto salário gerar insociabilidade. Tudo isso poderá se submeter ao objetivo da Primeira Lei somente se houver aquela ‘disposição mental’ — nata ou cultivada — que levou nosso santo Tayumanavar a explodir em versos arrebatados, argumentando com Ele, o Maior dos Maiores:34 “Se somente me concederdes a disposição de servir a meus semelhantes, a condição de prazer virá espontaneamente até mim.”35 1781 Bibliotecário Pioneiro Este prazer com o serviço à comunidade é requisito para qualquer bibliotecário. É absolutamente necessário para alguém que deva lançar a primeira semente do movimento em prol das bibliotecas numa sociedade ou num país. As incisivas palavras de Edward Edwards, um dos baluartes do movimento por bibliotecas na Inglaterra no século xix, ao enumerar as dificuldades e as recompensas que um bibliotecário pioneiro enfrenta, serão uma fonte de conforto e estímulo para muitos dos funcionários de bibliotecas de hoje em dia nesta parte do mundo: Deve encontrar lenitivo entre os desestímulos por um trabalho pouco apre- ciado [...] Trabalho feito sob a direção de homens que não entendem suas dificuldades, nem apreciam seus resultados, provavelmente estará fadado a ser 49 prestado com relutância. Torna-se cada vez mais difícil admitir que o aplauso não seja o objetivo correto do trabalho; que a busca que for muito afetada por recompensas imediatas, ou por sua ausência, deve ser imerecida ou realizada de forma imerecida. Mas ainda existe um amplo terreno para se perseverar com firmeza e alegria. Cada passo dado para ampliar a utilidade da biblioteca — para difundir por toda a parte as melhores ideias dos melhores pensadores — faz minar ainda mais o terreno dos abusos sociais que com tanta frequência têm exercido influência dominante nas instituições públicas deixando-as ao alcance de ladinos aproveitadores ou demagogos espalhafatosos.36 18 Não se Enamore dos Frutos Mas não há necessidade de invocar a ajuda dessa história de mina ou esperar uma recompensa ainda que remota. A Primeira Lei diria: “Plante sua alegria e sua perseverança nas minhas palavras, os livros são para usar. Seu dever é servir por intermédio dos livros. Servir é sua alçada. Não as recompensas. Não vacile. Não se enamore dos frutos. Avance sem se deixar influenciar por qualquer recompensa, real ou fictícia, remota ou imediata.” Para o bibliotecário, as celebradas palavras do Senhor Sri Krishna possuem um apelo especial: Teu direito é à ação apenas e jamais aos frutos. Não deixai que os frutos da ação sejam o motivo. Nem te deixes apegar à inação. a primeira lei as cinco leis da biblioteconomia50 CAPÍTULO 2 A SEGUNDA LEI E SUA LUTA 20 Introdução No capítulo anterior, reconstituímos o lento surgimento da Primeira Lei e examinamos, de modo sucinto, seu efeito no método de guardar livros, na localização, horários, mobiliário e pessoal da biblioteca. As mudanças causadas pela Primeira Lei em todas estas questões foram fundamentais. Se fosse para definir numa palavra o efeito final desta Primeira Lei, ela seria revolução. Uma vez radicalmente transformada a perspectiva, outras coisas vieram com o tempo. 201 Enunciado A Segunda Lei da biblioteconomia surge no encalço da Primeira Lei para que essa revolução avance mais. Se a Primeira substituiu o conceito os livros existem para serem preservados, a Segunda dilata o conceito os livros são para os poucos eleitos. Se o grito revolucionário da Primeira era os livros são para usar, o da Segunda é os livros são para todos. Se a abordagem da Primeira se fazia pelo lado dos livros, a da Segunda se faz pelo lado dos usuários de livros. Se a Primeira vivificava a biblioteca, a Segunda amplia-a para um problema nacional. Se a Primeira escancarou as bibliotecas existentes, a Segunda cria novas bibliotecas e faz surgir a cultura de novas espécies de bibliotecas. Se havia relutância em proceder de acordo com a Primeira, encontra-se, em suas etapas iniciais, oposição categórica à Segunda. Assim, a revolução causada pela Segunda Lei é de natureza mais avançada e aproxima mais a humanidade de seu objetivo. 202 Potencialidade para cada pessoa o seu livro! Que volume de ideias repousa em estado potencial nestas seis palavras de tão poucas sílabas! Quão árdua será a tarefa de concretizar estas ideias! Que variedade de interesses adquiridos se ergue contra qualquer tentativa de fazer valerem estas ideias! Estas ques- tões precisam ser cuidadosamente analisadas num estudo da Segunda Lei. 203 Valor Educacional Talvez seja conveniente começar bem do começo. O que é uma biblio- 50 51 teca? As bibliotecas são coleções de livros, formadas para atender a uma finalidade especial. Que finalidade é essa? ‘Uso’ é a resposta dada pela Primeira Lei. Qual a utilidade dos livros? Os livros fornecem informação; eles educam. Podem também oferecer alívio; podem proporcionar uma forma de recreação inofensiva. Concentremo-nos primeiro em suautilidade educacional. Se os livros são instrumentos de educação, a lei para cada pessoa o seu livro pressupõe o conceito educação para todos. Isso revela a questão fundamental. A história da resposta à questão ‘Todos têm direito à educação?’ mostrará como a Segunda Lei também tem sido na prática ra- ramente levada em conta pelas autoridades responsáveis pelas bibliotecas. 21 As Classes e as Massas 211 Antiguidade É habitual começar toda história clássica com Aristóteles. Qual a res- posta que ele deu para esta questão fundamental? A intenção da natureza é que os corpos dos escravos e dos homens livres sejam diferentes entre si [...] E uma vez que isso é verdade com relação ao corpo, mais justo ainda é definir do mesmo modo quando consideramos a alma.38 Estas premissas plausíveis levaram Aristóteles à conclusão característica de que “um escravo não tem qualquer faculdade de deliberar”.39 O resultado deste raciocínio rigoroso foi que “embora Atenas e Esparta oferecessem educação aos homens livres, nove décimos da população estavam excluídos do privilégio de estudar.”40 Traduzindo isso em termos de livros, desco- brimos que livros para os poucos eleitos era o conceito dominante e que a Segunda Lei não tinha qualquer reconhecimento. Mesmo em Roma, que iniciou a criação de escolas municipais e públicas, o privilégio da educação raramente cruzava as fronteiras ocupacionais e de renda. 212 Idade Média A mesquinhez da Idade Média é descrita por Margaret Hodgen com as seguintes palavras: O espírito de exclusão que as classes dos proprietários de terras sustentava contra os camponeses que, ansiosos por melhorar de vida, procuravam a Igreja; o que a Igreja praticava contra os leigos que buscavam independência intelec- tual; o que os comerciantes adotavam contra os forasteiros que procuravam o lucro em empreendimentos comerciais, era, por sua vez, assegurado por todos contra as aspirações educacionais dos pobres.41 Conta-se inclusive que “os pais vassalos eram punidos por permitir que seus filhos vassalos frequentassem a escola”.42 a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia52 213 Século xviii O espírito de exclusão perdurou por séculos. Eis um exemplo de um tipo de opinião encontrado no século xviii: Para que a sociedade seja feliz e o povo viva tranquilo nas piores circunstân- cias, é preciso que muitos sejam não só ignorantes mas também pobres [...] O bem-estar e a felicidade, portanto, de cada Estado e de cada reino, exige que os conhecimentos dos trabalhadores pobres fiquem confinados aos limites de suas ocupações e nunca se estendam (no que diz respeito às coisas visíveis) além daquilo que diga respeito à sua vocação. Quanto mais um pastor, um lavrador ou qualquer outro camponês conhecer do mundo e das coisas que são estranhas ao seu trabalho ou emprego, tanto menos apto ele será para suportar- -lhes a fadiga e as provações com alegria e satisfação. Aprender a ler, escrever e contar [...] é algo muito pernicioso para os pobres forçados a conseguir o pão de cada dia na labuta diária.43 Que ordenamento caridoso! Que exibição de fatalidade nesse raciocínio do século xviii! Com essas ideias à solta, é fácil imaginar a eficiência com que o conceito os livros são para os poucos eleitos teria frustrado o sur- gimento do conceito antagônico os livros são para todos. 214 Século xix Até mesmo o século xix esteve por longo tempo seduzido por esse conceito de uma divisão dicotômica das pessoas entre uma pequena classe governante formada pelos que, quase que por direito divino, ocupavam a posição privilegiada, e uma grande classe formada pelos demais que, como então se supunha, devido à constituição essencial das coisas, pertenciam às ordens inferiores, sem direito algum à educação e, portanto, sem direito aos instrumentos da educação, ou seja, os livros. As classes abastadas e influentes — os homens livres do século xix — resistiam acintosamente, por puro egoísmo, até mesmo à simples sugestão de que aos pobres fossem ministrados os rudimentos da educação. Conta-se a história do marquês de Westminster, que se recusou a dar um vintém que fosse ao Mechanics’ Institute de Londres, preocupado com a possibilidade de a educação dos trabalhadores torná-los rebeldes. “É verdade”, disse, “mas nós temos que cuidar de nós”.44 As lutas que os livros travaram para chegar a cada pessoa estão muito bem ilustradas na experiência registrada por Francis Place, um alfaiate de Charing Cross, nos primeiros anos do século xix. Ele devia ter o maior cuidado para que nenhum dos clientes habituais tivesse acesso à biblio- teca que ficava nos fundos da alfaiataria. [...] Se soubessem que eu nunca lera um livro, que era completamente ignorante, exceto no meu próprio ofício, que me embebedava num bar, não teriam feito qualquer objeção contra mim. Eu seria um ‘sujeito’ inferior a eles, e me tratariam com condescendência. Mas [...] 53 colecionar livros e pretender conhecer algo de seu conteúdo seria colocar-me em pé de igualdade com eles, ou até bancar superioridade; seria uma ofensa abominável por parte de um alfaiate, senão um crime, que merecia punição. Se todos meus clientes soubessem que, no breve período de 1810 a 1817, reuni uma biblioteca considerável, onde passava todo o tempo livre que conseguia [...] pelo menos a metade deles teria se afastado.45 Sabemos que Green reclamava ainda no final do século xix de que “um dos transtornos relativos à atual situação da sociedade na Inglaterra está no fato de todas as questões ligadas à educação serem complicadas por distinções de classes”.46 Mesmo recentemente, em 1918, a Hansard revela que o projeto de lei da educação, apresentado pelo Sr. H.A.L. Fisher, foi combatido com o argumento de que, se aos trabalhadores fosse oferecida uma educação longa e complexa, Como é que os cavalos serão conduzidos no trabalho, as vacas ordenhadas, as ovelhas apascentadas e os currais abastecidos de feno? Como poderá a educação ajudar um homem que tem que espalhar estrume nos campos?47 Uma verdadeira encarnação de Bernard de Mandeville! 215 Instinto Político Todos os estudiosos de política salientam com palavras inconfundíveis que o instinto político daqueles que se encontram em posições privilegiadas se opunham veementemente ao advento da Segunda Lei da bibliotecono- mia. O visconde Bryce, por exemplo, afirma Que todos os governos despóticos de sessenta anos atrás, e alguns deles até mesmo nos nossos dias, foram indiferentes ou hostis à disseminação da educa- ção entre os seus súditos, porque temiam que o conhecimento e a inteligência criariam um anseio de liberdade.48 2151 Inglaterra Os argumentos de quem se opunha à lei Ewart* – a primeira lei de bibliotecas públicas da Inglaterra – era que “o conhecimento em demasia era uma coisa perigosa e que as bibliotecas poderiam se tornar centros de educação política”.49 Em seu discurso presidencial na conferência de Leeds, o Dr. Guppy observou É um tanto embaraçoso constatar que em meados do século xix muitos dos homens mais eminentes debatiam, com toda a seriedade, não o que a literatura tinha de melhor para oferecer às pessoas, mas se seria de todo seguro, sensato * William Ewart, político inglês (1798–1869). (n.e.) a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia54 e prudente admitir o público em geral às bibliotecas. Mais do que os leitores serem considerados competentes para manusear e pesquisar nos livros, tratava- -se de indagar se se permitiria que uma democracia rude e inculta, apesar das precauções e regulamentos mais severos, invadisse os sagrados recintos da biblioteca.50 2152 Rússia Quando uma biblioteca escolar foi inaugurada em Moscou, em 1913, a seguinte questão foi levantada na Duma nacional pelo líder da extrema direita: “Como pode o governo tolerar cursos de biblioteconomia, que prepararão o caminho para uma revolução?”51 216 Autopreservação Assim, a Segunda Lei teve que enfrentarnão somente um hábito her- dado, como foi o caso da Primeira Lei, mas também uma oposição muito forte baseada em instintos políticos e econômicos. Por mais equivocados que estes instintos possam ter sido, não existe qualquer fundamento para duvidar de sua natureza bona fide. Na verdade, como se percebe facilmente, eram meras consequências de um instinto mais fundamental, ou seja, o instinto de autopreservação. 2161 Inferência Contrária À sociedade, porém, não faltaram espíritos previdentes que puderam entender a natureza equivocada dessa oposição. Houve, de fato, pessoas que fariam exatamente a inferência contrária desse mesmo instinto de autopreservação. A localização de fábricas perto das fontes de energia causou uma redistribuição da população e as cidades foram inundadas com um dilúvio de pessoas que ignoravam as responsabilidades civis. A aglomeração de dezenas de milhares de pobres analfabetos criou uma enormidade de flagelos terríveis. Por um período, as classes altas conse- guiram manter-se a uma distância segura dos centros de sujeira, pestilência e pequenos delitos. Mas não poderiam manter-se à distância para sempre. A miséria, com o tempo, ultrapassou, inclemente, os limites. Trouxe doenças e cenários desagradáveis às portas da paróquia e da casa senhorial. Na ân- sia de se defender, os nobres recorreram às pressas aos seus conselheiros mais confiáveis. Os primeiros deles, os economistas, recomendaram uma dose prudente de educação. Adam Smith, por exemplo, recomendou que O Estado pode impor à quase totalidade da população a obrigatoriedade de adquirir tais elementos mais essenciais da educação, obrigando cada um a submeter-se a um exame ou experiência em relação aos mesmos, antes que ele possa obter a liberdade em qualquer corporação ou poder exercer qualquer atividade, seja em uma aldeia, seja em uma cidade corporativa.52 55 Ele aproveitou essa situação desagradável em que se achavam as classes ricas e ainda propôs o seguinte: A educação das pessoas comuns talvez exija, em uma sociedade civilizada e comercial, mais atenção por parte do Estado que a de pessoas de alguma posição e fortuna [...] O Estado pode facilitar essa aprendizagem elementar criando em cada paróquia ou distrito uma pequena escola, onde as crianças possam ser ensinadas [...] Ainda que o Estado não aufira nenhuma vantagem da instrução das camadas inferiores do povo, mesmo assim deveria procurar evitar que elas permaneçam totalmente sem instrução. Acontece, porém, que o Estado aufere certa considerável vantagem da instrução do povo. Quanto mais instruído ele for, tanto menos estará sujeito às ilusões do entusiasmo e da superstição, que, entre nações ignorantes, muitas vezes dão origem às mais temíveis desordens. Além disso, um povo instruído e inteligente é sempre mais decente e ordeiro do que um povo ignorante e obtuso. As pessoas se sentem, cada qual individualmente, mais respeitáveis e com maior possibilidade de ser respeitadas pelos seus legítimos superiores e, consequentemente, mais propen- sas a respeitar seus superiores. Tais pessoas estão mais inclinadas a questionar e mais aptas a discernir quanto às denúncias suspeitas de facção e de sedição, pelo que são menos suscetíveis de ser induzidas a qualquer oposição leviana e desnecessária às medidas do governo.53 217 A Escada do Saber Ainda que, falando de maneira geral, as palavras de Adam Smith tenham caído em ouvidos moucos, houve quem pôde apreciar a correção de seu raciocínio. De fato, isso levou o Sr. Whitbread a apresentar um projeto de lei no parlamento em 1807 em favor da educação universal. É desnecessário dizer, porém, que foi rejeitado por maioria esmagadora. Apesar do escárnio dos conservadores, a Society for the Diffusion of Useful Knowledge [sociedade para difusão de conhecimentos úteis] muito fez para disseminar a educação entre as massas, sob a liderança inspiradora de lord Brougham. A Penny cyclopaedia, o Penny magazine, a Gallery of portraits e a Pictorial Bible são os monumentos sobreviventes do zelo missionário que promoveu a causa dos livros para todos, na década de 1830. A maioria dos magnatas e das autoridades do começo da era vitoriana queria que o jovem camponês cultivasse os mesmos campos, com as mesmas ferramen- tas e nas mesmas estações, como antes fizera seu pai. Contudo, espíritos iluminados, como Matthew Arnold, estavam impacientes com a lentidão do reconhecimento do novo conceito que então surgia: educação para todos. Na condição de inspetor escolar do governo inglês, lamentava, em 1853, que Os filhos das classes inferiores e mais pobres do país, que pertencem às chama- das ‘massas’, não são, em geral, educados; as crianças que são educadas per- tencem a uma classe diferente, e, consequentemente, em matéria de educação a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia56 das massas, eu, no curso de minhas funções oficiais, falando estritamente, não vislumbro nada ou vislumbro muito pouco.54 As primeiras vinte páginas do Educational systems of Great Britain and Ireland, de Graham Balfour, oferecem uma imagem breve mas nítida da perspicácia e da tenacidade com que alguns estadistas previdentes e patrióticos asse- guraram a legislação educacional de 1870, 1880 e 1891, que gradativamente tornou a educação para todos primeiro permitida, depois compulsória e finalmente gratuita.55 Uma vez instituída a educação para todos, bastou não mais de uma ou duas décadas para que nossa Segunda Lei os livros são para todos entrasse em campo e tranquilamente realizasse o sonho de Huxley,56 de ‘uma escada do saber’, que leva das sarjetas às universidades. 2171 Exemplo 1 A forma como a Segunda Lei realizou literalmente este sonho de Huxley pode ser vista no relato feito em Adult education and the library57 sobre a marcha de um jovem pescador pelo caminho do saber. Nasceu na Noruega. Aos quatorze anos, foi tirado da escola. Seu pai disse, ‘Não vale a pena você estudar’. O adolescente foi mandado para a incessante tarefa de pescar na costa desolada do norte da Noruega. Mas o governo norueguês mantinha nesse fim de mundo uma boa biblioteca, apesar de pequena. Os livros eram periodicamente substituídos e o acervo reabastecido. Enfiando a cabeça e o coração nesses livros, esse jovem, a quem fora declarado que ‘não vale a pena você estudar’, adquiriu uma educação superior ao que ele próprio poderia ter imaginado. Partiu então para o Novo Mundo, matriculou-se na escola preparatória aos vinte e três anos, graduou-se aos vinte e oito anos e estabeleceu-se como professor com seu próprio colégio. Esta carreira do professor Rolvaag, do St. Olaf’s College, não é de forma alguma única. 2172 Exemplo 2 Em Madras, lembramo-nos da história daquele feito maravilhoso empreendido pelos livros, lidos à luz dos postes de iluminação, que con- seguiram alçar um menino que nascera na obscuridade para a tribuna da suprema corte. Trata-se de T. Muthuswami Ayyar. Sua estátua encontra-se hoje ornamentando o centro do prédio da corte suprema de Madras. Esta influência da Segunda Lei fez com que fossem resgatados, dos porões da sociedade, em proveito do mundo, tantos homens promissores. Uma geração ou duas atrás, sua rival livros para uns poucos eleitos teria reconhecido a posição social anterior ao seu nascimento, forçando-os a se arrastar pela vida e morrer, sem jamais alcançar sua plena estatura. 57 2173 Exemplo 3 Eis uma mulher que ganha a vida como chef em um hotel [...] Ela observou um dia que sua filha mais velha franzia impacientemente as sobrancelhas quando a mãe cometia um erro gramatical. A mãe decidiu que não iria perder nem um pouquinho do respeito de sua filha por causa disto. Pediu ao bibliotecário de referência que lhe recomendasse livros que a ajudassem a evitar os erros mais comuns de gramática e pronúncia. Ela precisava de um curso progressivo de bom inglês, que fosse adequado às suas necessidades especiais. Mais tarde ela pediu livrosque a mantivessem informada sobre acontecimentos atuais e assim por diante.58 2174 Exemplo 4 Há, ainda, o caso do policial que solicitou livros que o ajudassem a des- cobrir por que são cometidos crimes. “De que adianta prender as pessoas se você não pode ajudá-las?” perguntava.59 Devorou livros de sociologia e psicologia. Se tivesse vivido antes do advento da lei para cada pessoa o seu livro, que oportunidade teria tido tanto para estudar em livros de sociologia e psicologia, quanto para cumprir seus deveres oficiais de forma não apenas satisfatória para sua consciência, mas também benéfica para a sociedade? Como nossos policiais se tornarão úteis e populares se forem levados a ler, como acontece com seus contemporâneos do Novo Mundo, livros de sociologia e psicologia, além dos capítulos do manual da polícia! 2175 Exemplo 5 A natureza profética das palavras de Adam Smith ficou demonstrada ao pé da letra pelos serviços prestados pela Segunda Lei da bibliotecono- mia ao público da cidade de Grand Rapids, no estado norte-americano de Michigan. O abastecimento de água não podia acompanhar o crescimento da cidade. [...] Como resultado, grande parte dos cidadãos dependia de poços para obter água potável, pois não bebiam a água não-tratada de rios. A incidência de febre tifóide era muito alta — várias centenas de casos por ano — com uma taxa de óbitos igualmente alta. [...] O governo e os interesses comerciais da cidade finalmente asseguraram a formação de uma comissão especial com pessoas de alto nível, dentre empresários e profissionais, para estudar toda a situação e relatar um plano a ser submetido ao voto dos cidadãos. Depois de longo e cuidadoso es- tudo, recomendaram a adoção de um plano para retirar água do rio e tratá-la pelo processo rápido de filtragem mecânica ou em areia. [...] Oito ou dez dias antes da votação, panfletos de página inteira ou meia página de jornal foram distribuídos em cada domicílio da cidade, alegando que a filtragem era um fracasso, com base na publicação de fac-símiles de jornais e revistas técnicas, etc., que se referiam à febre tifóide em certas cidades, seguidas da afirmação de que nessas cidades havia água filtrada. Em suma, esses panfletos tinham como única finalidade desacreditar o relatório da comissão especial, a fim de que a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia58 sua proposta fosse derrotada. Novos panfletos apareciam em dias alternados, sempre entregues em cada domicílio da cidade. Eram publicados sob o nome de um ‘jovem engenheiro desempregado’. A biblioteca imediatamente verificou algumas das referências a outras cidades nos relatórios anuais e documentos municipais de sua coleção [...] nos rastros dos volantes publicados pelo jovem engenheiro e colocou à disposição dos jornais as informações que encontrou, tendo o bibliotecário assinado as declarações publicadas sobre os fatos en- contrados pela biblioteca. Eis um exemplo do que encontramos. Reading, na Pensilvânia, e Albany, em Nova York, ambas possuíam abastecimento de água tratada, que servia a outros lugares. As epidemias de tifóide ocorreram em áreas dessas cidades que contavam com abastecimento de água não-tratada. Os panfletos estavam corretos ao dizer que Reading e Albany tinham epidemias de tifóide e que ambas recebiam água tratada, entretanto, estas declarações eram mentiras execráveis por causa das sugestões que implicavam. Assim, a biblioteca foi a primeira [...] a arregimentar forças para salvar o projeto favorável à água pura. A água pura ganhou na votação e Grand Rapids, exceto em casos esporádicos trazidos de fora, erradicou da cidade, por conseguinte, a febre tifóide [...] Sempre acreditei que a biblioteca teria sido negligente em seu dever se não tivesse dado a público a informação que possuía sobre assunto tão vital.60 2176 Triunfo Geral Exemplos como este podem ser multiplicados ad nauseam. Mas como não é nosso objetivo registrar aqui as conquistas alcançadas por livros para todos basta dizer que atualmente a Segunda Lei da biblioteconomia fincou triunfalmente sua bandeira democrática em muitas terras, tendo reduzido a pó a barreira aristocrática do elitismo e do esnobismo. No século xix, Europa e Estados Unidos, Japão e Rússia eram tão impenetráveis aos seus apelos e tão impermeáveis às suas investidas como a Índia. Entretanto, atualmente, Europa e Estados Unidos, Japão e Rússia renderam-se a ela. 218 Resistência da Índia A Índia, porém, desafiadoramente, ainda se mantém inabalável. Quem é o responsável por esse estranho fenômeno? Quem estará ajudando a Ín- dia a não arredar pé nessa batalha contra livros para todos, embora haja conquistado recordes mundiais de derrotas em outras esferas? 2181 Indiano Educado em Inglês Qualquer que seja o complexo de causas que contribuam para isso, os indianos ‘educados em inglês’ não podem fugir da sua parcela de culpa. Macaulay e Wood importaram a educação inglesa para a Índia com os melhores motivos. Desenvolveram sua famosa ‘teoria da filtragem’ com as melhores intenções. Não poderiam razoavelmente ter previsto que o filtro levaria à inveja e ao elitismo egoísta. Certamente, eles nunca, por um momento sequer, imaginaram que o filtro funcionaria ao contrário e se 59 revestiria de outro superfiltro que garantiria um lugar ao sol somente aos indianos educados em inglês, que pudessem ser ensinados em inglês em solo inglês. Sim. Este trágico triunfo da Índia contra a invasão da Segun- da Lei da biblioteconomia, e, além disso, até mesmo de sua precursora, a educação para todos, não é pouca coisa, devido à apatia quase criminosa e à negligência do dever por parte dos seus mais bem colocados filhos ‘educados em inglês’. Eles desenvolveram uma miopia anormal que os incapacita de enxergar um palmo adiante do nariz, de qualquer forma, além do seu círculo privilegiado. Falam com desembaraço da Índia e dos seus milhões de habitantes, quando de fato estão se referindo apenas aos dois por cento desses milhões que podem balbuciar em inglês. Lembre a eles, como puder, que a intenção de Macaulay era que eles difundissem, de forma ativa e generosa, o seu conhecimento entre as massas. Não, preferirão receber sua lição de Bernard de Mandeville. Exceções honrosas existem e, para elas, toda a honra. Mas a maioria se comporta como um obstáculo inabalável a entupir esse filtro. 2182 Esperança e Fé Nossa única esperança repousa na suprema sabedoria da Segunda Lei. A história tem mostrado que a Segunda Lei é adepta da arte da estratégia. Se se constatou que o filtro de Macaulay era uma armadilha, em breve ela se desviará do seu curso e se livrará desse entupimento do ‘filtro’. A Segunda Lei não aceitará uma derrota. No final, vencerá. Esta é nossa fé. Com a opinião mundial a seu favor, poderá vencer até mesmo numa data não muito distante. Se forem empresários inteligentes, os indianos ‘educa- dos em inglês’ deverão recebê-la com um ramo de oliveira e oferecer seus préstimos na guerra santa que essa lei vem travando contra a ignorância persistente. Somente então conquistarão respeito aos olhos do mundo e somente então poderão sobreviver em meio às forças que serão libertadas no dia em que a Segunda Lei cravar sua bandeira em solo indiano e colocar os livros nas mãos de todos, da mesma forma que o fez em outras terras. 22 Homens e Mulheres A antítese não tem sido simplesmente entre as classes e as massas. À medida que examinamos os preconceitos de tempos antigos à luz da Segunda Lei da biblioteconomia, deparamos com vários outros. Não é apenas a fronteira da renda que, por muito tempo, divide a humanidade entre quem tem direito de usar os livros e quem não tem. O gênero, por exemplo, foi outro fator que restringiu a aplicação da lei livros para todos. Em nosso próprio país, a Segunda Lei ainda não conseguiu completamente superar as limitações vividas pelo sexo feminino. a segunda lei e sua luta as cinco leis dabiblioteconomia60 221 Daí em Diante na Índia Sem dúvida, as condições começaram a mudar. Sinais da investida da Segunda Lei não faltam. A maré montante de livros para todos poderá, em pouco tempo, varrer dos lares indianos até mesmo a sólida barreira do conservadorismo feminino. Mas que isso não feche nossos olhos para a luta tenaz que vem ocorrendo em muitos lares contra a intromissão do ‘pernicioso hábito’ da leitura entre as mulheres. Nem deveríamos nos iludir com a otimista mas enganadora ostentação de que, no passado, nosso país manteve o caminho aberto para que as mulheres competissem com o sexo mais forte na busca da educação. Não nos ajuda agora que nos digam que as mulheres sabiam ler e de fato liam tanto quanto os homens desde os tempos védicos até o dia em que uma língua estrangeira lançou uma cunha cultural na pátria até então homogênea. Não passa de uma meia verdade dizer que o emprego de um veículo estrangeiro para transmitir as ideias correntes afastou as indianas da tendência mundial que permitiu às suas irmãs de muitas regiões manterem-se no mesmo plano de seus irmãos. A história gloriosa de mulheres como Maitreyi, Panchali, Lilavati e Auviar e a memória que ainda persiste das sábias senhoras, que foram as dignas com- panheiras de vida dos gigantes intelectuais de lugares como Tiruvisalur, não devem deixar-nos dormir sobre os louros. Para cada Maitreyi temos uma Katyayini. Muitas de nossas irmãs estão ainda desnorteadas com um século de atraso, analfabetas, ignorantes e carentes de livros. Entretanto, se for uma fonte de consolo e estímulo, pode-se mencionar que os conceitos educação para todos e livros para todos definitivamente superaram a barreira sexual somente nos últimos cinquenta anos, aproximadamente, na maioria dos países. 223 Tradição Desde os tempos do homem primitivo, a maioria das mulheres ge- ralmente ocupou um lugar protegido e, portanto, não receberam uma formação cultural e profissional elevada que as habilitasse a lidar com questões complexas. Tanto em passadas como em recentes civilizações, os limites que as realizações femininas podiam alcançar foram em geral definitivamente fixados pelo costume. As que se atrevessem a excedê-los corriam o risco de serem tidas como ‘pouco femininas’. 2231 Antiguidade Em Atenas, aparentemente, era um dogma aceito que nenhuma moça de respeito devia ser educada. A esposa ateniense, por exemplo, vivia como prisioneira virtual entre quatro paredes [...] Não podiam pessoalmente herdar propriedade, e eram consideradas um apanágio do imóvel [...] Sua educação era trivial.”61 O ostracismo social praticado para impedir que 61 as mulheres tivessem sua parcela de educação e de livros é indicada pela seguinte afirmação sobre a educação das mulheres na Grécia: “A educação literária e as preocupações intelectuais pertenciam às que estavam fora do círculo familiar, as heteras.”62 Nos escritos de são Paulo aparecem restri- ções similares que parecem colocar as mulheres à parte como uma classe inferior e dependente. Depois de citar o versículo 16 do terceiro capítulo do Gênesis sobre a posição da mulher, ele disse: “E se quiserem aprender algo, que perguntem a seus maridos em casa.”63 2232 Século xviii Por muito tempo chegou-se mesmo a crer que as mulheres não fossem capazes de ser ensinadas. Eis Chesterfield, escrevendo para seu filho: As mulheres, portanto, são apenas crianças que cresceram demais; tagarelam de modo divertido e, às vezes, com graça; mas, no que tange a um raciocínio sólido, ao bom senso, nunca em minha vida encontrei uma que o tivesse [...] Um homem sensato [...] não as consulta, nem confia nelas sobre assuntos sérios.64 Rousseau também diz da mulher que ela é “um homem imperfeito” e que em muitos aspectos não passa de “uma criança crescida”.65 E acrescenta A busca de verdades abstratas e teóricas, princípios e axiomas científicos, o que quer que tenda a generalizar ideias, não cai no domínio das mulheres; [...] no que diz respeito a obras de criação, elas estão fora do seu alcance, e tampouco possuem precisão e atenção suficientes para serem bem-sucedidas nas ciências exatas.66 Rousseau repetiria de boa vontade as palavras de Molière: Não é muito honesto, e por várias causas, Que uma mulher estude e saiba tantas coisas. [As sabichonas, ato 2.] A concepção de Rousseau sobre a capacidade das mulheres corresponde simplesmente a algo que era muito comum na França e em outros países no século xviii. 2233 Século xix O século xix procurou sobrepujar o século xviii, inventando explicações anatômicas para a incapacidade de a mulher ter algum proveito com os livros e o saber. Vejamos esta explicação científica séria, que data de 1866: O homem tem vontade e inteligência, e um cerebelo e um cérebro que as fazem funcionar; da mesma forma os tem uma mulher. Nisso são semelhantes. Mas no homem a inteligência predomina e na mulher, a vontade; e aqui são diferentes. a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia62 Sendo assim, podemos, naturalmente, esperar encontrar um desenvolvimento maior do cérebro, ou cérebro superior, no homem, e um desenvolvimento maior do cerebelo, ou cérebro inferior, na mulher; e é isso que acontece. A cabeça do homem é mais alta e maior na frente do que a da mulher, enquanto a cabeça dela é mais larga e maior atrás do que a do homem.67 Outro contemporâneo desse psicólogo ‘frenologista’ não vê mérito algum em desperdiçar um raciocínio tão elaborado para demonstrar uma coisa tão óbvia. Para ele, “o grande argumento contra a igualdade de intelecto entre homens e mulheres é que ela não existe. Se essa prova não satisfizer a uma filósofa, não temos outra melhor a lhe oferecer.”68 2234 Preconceito Masculino Se havia escolas para moças, “elas visavam à ‘civilidade’, às boas ma- neiras e às aptidões pessoais, não à educação”.69 Em seu Essay on projects, Daniel Defoe faz uma descrição comovente da educação feminina habitual, com as seguintes palavras: É espantoso que as mulheres ainda consigam ser sociáveis, pois todo seu saber decorre somente de seus dotes naturais. Passam a juventude aprendendo a bordar e costurar ou a fazer bugigangas. De fato, aprendem a ler e talvez a assinar o nome, se tanto. Esse é o ápice a que chega a educação da mulher.70 Se alguma mulher recebia educação, a atitude em relação a essas damas cultas era de desprezo e ridículo. Segundo está escrito, o Dr. Samuel Johnson certa vez teria dito que “o homem, em geral, fica mais satisfeito quando tem um bom jantar à mesa, do que quando sua mulher fala grego”. A analogia insolente que ele fez entre uma mulher pregando e um cão andando nas patas traseiras é também muito conhecida. Temos a história de um solteirão norte-americano, que explicava seu estado civil dizendo Alguém me encomendou uma mulher bonita e jovem Que falasse francês, espanhol e italiano. Agradeci gentilmente e lhe disse que essas eu não amava, Pois achava que uma língua para uma esposa já era demais. Como? Não gosta das pessoas cultas? Gosto, como eu, De um estudioso culto, mas não de uma esposa culta.71 2235 Preconceito Feminino Os efeitos desse menosprezo à capacidade das mulheres, a falta de incentivos ao estudo e o ridículo a que eram expostas as poucas que es- tudavam tinham um efeito desastroso em moldar a opinião das próprias mulheres com relação ao seu direito à educação e aos livros. Elas continua- riam resignadamente para sempre com os costumes estabelecidos de ideias 63 tradicionais. Muitos indianos de hoje podem ouvir dentro das paredes de sua casa um eco inconfundível das palavras enfáticas “Estudar nos livros não faz bem algum às mulheres”, pronunciadas por uma senhora norte- -americana há mais ou menos duas gerações.72 Na verdade, o obstinado conservadorismo feminino, que mantém a Segunda Lei acuada e se satisfaz com a autocomplacência numa situação sem livros e sem educação, lembra uma das vítimas de Comus que são[...] transformadas Numa forma bruta de lobo, ou urso, Ou onça, ou tigre, porco, ou bode barbudo, [...] E elas, tão perfeitas em sua miséria, Nunca percebem sua deformação hedionda, E se vangloriam como mais belas que nunca.73 224 O Direito das Mulheres à Educação Por mais obstinado que o costume haja sido, durante a lenta passagem de muitos séculos, mantendo a ‘educação’ e sua companheira, a Segunda Lei da biblioteconomia, num dos lados da linha divisória do sexo, o certo é que, nestes tempos de inquietação social, quando praticamente todos os costumes e instituições de todas as sociedades são expostos ao impiedoso escrutínio de mentes críticas, as mulheres e o direito das mulheres à edu- cação e aos livros foram trazidos para o primeiro plano dos debates. Toda a debatida questão do ‘mundo’ da mulher e de sua educação vista à luz desse ‘mundo’ ocupou as mentes dos homens por mais de uma geração e está, hoje, quase resolvida da única forma correta admissível. Reconhece- -se atualmente que mesmo a educação universitária é desejável para pelo menos um grande número de mulheres. Que a educação tornará a mulher inapta para ser esposa e mãe, que o esforço físico será muito grande, ou que ela seja intelectualmente incapaz de dominar os setores de estudo mais complexos, foram argumentos sérios usados há uma ou duas gerações e, inegavelmente, funcionavam como empecilhos. Mas agora são apenas memórias adormecidas na mente social de um mundo atarefado e que afloram à consciência somente em alguns grotões isolados, que ainda não despertaram. A visão antediluviana, que confinava totalmente a mulher, tornando-a, na melhor das hipóteses, uma escrava toleravelmente inteli- gente e obediente, já está desaparecendo. O mínimo que agora pode ser feito seria dar-lhe liberdade que lhe permita avançar no campo educacional, mostrando que, por meio da influência desta mãe educada, a vida social poderá ser aprimorada na própria origem. Mas a visão mais radical, que ganha terreno rapidamente, propõe a absoluta igualdade de oportunidades na educação e na vida política, social e econômica, sustentando que a mu- lher não precisa, a menos que assim o deseje, cumprir com sua obrigação a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia64 para com a sociedade, biologicamente falando, mais do que o homem, e que deveria ser dotada dos meios que lhe permitam ser igualmente livre para escolher uma carreira literária, científica ou empresarial. 2241 Educação pela Aprendizagem Por enquanto, vimos somente a primeira fase da guerra na barreira sexual. A Segunda Lei da biblioteconomia não teve qualquer participação nesta fase da guerra. Tudo foi deixado à sua precursora educação para todos. Mas a campanha contra a discriminação sexual envolveu mais ba- talhas do que aquela contra a discriminação de classe. Mesmo depois que a barreira sexual foi derrubada por sua companheira, a Segunda Lei não foi capaz de avançar livremente. Pois, até que a mais recente visão radical começasse a surgir em cena, as pessoas argumentavam, ‘Sim. A educação é necessária para a mulher e ela tem capacidade para isso. Mas a educação da mulher, a fim de prepará-la para o mundo que lhe foi atribuído — o lar —, pode ser obtida pelo aprendizado com sua mãe, em casa. Não há necessidade de nenhum ensino formal ou de aprendizagem nos livros, o que a levaria para longe da família.’ O pouco de saber que consegui Veio-me todo da simples natureza,74 era uma descrição correta do estado de coisas na segunda metade do século xix, situação que não era favorável para o êxito de livros para as mulheres. 2242 Necessidade de Educação Formal Felizmente, entretanto, até mesmo antes que a visão radical se expres- sasse e rompesse a barreira sexual, percebeu-se que esse processo natural de educação não era praticável na vida agitada de hoje, que a educação formal e a aprendizagem pelos livros são necessárias até mesmo para cozinhar, amamentar e cuidar de crianças. A crescente incapacidade da família para manter o monopólio da educação das filhas e a concepção cambiante de educação muito fizeram para preparar a consciência pública para receber a boa nova também para cada mulher o seu livro. Mesmo supondo que o mundo feminino seja o lar, percebeu-se que a economia doméstica é ao mesmo tempo uma arte e uma ciência. Uma arte em progresso e uma ciência em desenvolvimento. Mantém contato orgânico sério com as belas-artes por um lado e com as ciências mais rigorosas por outro. Incluiria, por exemplo, puericultura, enfermagem, primeiros socorros, alimentação e nutrição, naturalmente, culinária, fazer compras, lavanderia, chapelaria, costura, orçamento e poupança, jardinagem e horticultura, higiene doméstica, 65 saneamento doméstico, decoração doméstica, pequenos reparos, cortesias e obrigações da família e da vida familiar.75 Este é o conjunto de elemen- tos envolvidos na profissão de economista doméstica. As mulheres seriam constantemente treinadas para estes deveres assim como os homens são treinados para as suas ocupações e profissões. 2243 Educação pelos Livros Este desabafo tem muito a dizer: Quando o outro sexo vai estudar direito, medicina ou teologia, tem a seu dispor inúmeras instituições muito bem providas, com professores altamente qualificados e preparados, além de bibliotecas de elevado custo [...] A profis- são da mulher envolve cuidar do corpo em períodos críticos da vida, como na infância e na doença, treinar a mente humana no período mais sensível, que é a infância, instruir e controlar os criados, e a maior parte da administração e economia da propriedade familiar. Estes deveres das mulheres são tão sagra- dos e importantes quanto quaisquer outros que sejam atribuídos aos homens. Contudo, não lhes foi dada nenhuma dessas vantagens para sua preparação.76 Esta censura era justificável até três ou quatro décadas atrás. Entretanto, todos os esforços vêm sendo feitos em todos os países avançados para eliminar essa censura por meio de uma orientação adequada da educação inicial na escola e por um suprimento abundante de livros para que essa educação continue até o fim da vida. para cada mulher o seu livro é o lema que orienta as bibliotecas de hoje em dia. Elas agora cuidam para que seus livros cheguem além do purdah.* Esforçam-se, por exemplo, para que “todas as mães, cujos nomes são incluídos nos cartórios de registro civil quando nasce um filho, procurem conhecer os livros de puericultura existentes na biblioteca.”77 Esta difusão diferenciada de livros, em campos restritos do conhecimento, marca o segundo estágio. 225 Estudo Científico Foi, entretanto, na terceira fase da guerra que a barreira sexual foi completamente derrubada com o avanço da lei livros para todos. Esta fase começou a tomar forma somente neste século. Iniciou com uma in- vestigação crítica da tradição herdada a respeito do ‘mundo feminino’ e da ‘inferioridade feminina’ em questões intelectuais. 2251 Estudo Anatômico O primeiro a assestar um golpe mortal na opinião pseudocientífica * Peças do vestuário ou do mobiliário destinadas a manter as mulheres afastadas da vista de estranhos; também o sistema de forçar à reclusão mulheres de alta condição social. (n.e.) a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia66 do século xix foi Karl Pearson. Em trabalho de 1897, Variation in man and woman,78 demonstrou com clareza que, de fato, não havia qualquer va- riação significativa nas medidas anatômicas de seres humanos tratadas com acuidade matemática. Ele conduziu um rigoroso exame estatístico de diversos dados anatômicos. Baseado neles, concluiu o longo trabalho com seu característico tom mordaz: Afirmo que os presentes resultados mostram que a maior variabilidade frequen- temente reivindicada para os homens continua sendo até agora um princípio totalmente infundado [...] A falta de originalidade revelada por uma multidão de autores semicientíficos acerca da evoluçãoé possivelmente um sinal da ínfima capacidade de variação intelectual possuída pelo macho letrado.79 As provas reunidas por Karl Pearson foram ampliadas e corroboradas por dados estatísticos adicionais publicados por Montague e Hollingworth no American Journal of Sociology de outubro de 1914. 2252 Estudo Psicológico Essa pesquisa baseada na anatomia foi seguida pela demonstração pela psicologia da absoluta ausência de diferença sexual na variabilidade mental, graças aos elaborados testes mentais realizados por Trabue, Cour- tis, Terman e Pyle. Mesmo assim, houve a tradicional e veneranda opinião segundo a qual os períodos fisiológicos causam um efeito desfavorável na capacidade mental da mulher. Havelock Ellis, por exemplo, faz a ob- servação radical de que o ciclo fisiológico mensal “influencia ao longo do mês todo o organismo físico e psíquico da mulher”.80 Contudo, a pesquisa experimental, feita em 1914, pela Dra. Hollingworth, sobre essa alegação, revelou o contrário. Os dados reunidos por ela mais minaram do que apoiaram estas opiniões.81 226 Afirmação de Igualdade Depois que a psicologia experimental estabeleceu, desse modo, que a divisão do trabalho entre os sexos, que existira ao longo dos tempos históricos, não foi absolutamente o resultado de diferenças psicológicas e que as mulheres são tão competentes intelectualmente quanto os homens para assumir qualquer ocupação humana, percebeu-se que “a educação das mulheres, especialmente nos estágios mais elevados, liberará para o país uma riqueza de capacidades que está hoje desperdiçada por falta de oportunidade”82 e se concluiu que a mulher educada, a mulher a quem tenham sido proporcionados seus livros, “é uma garantia melhor e mais segura da educação da próxima geração do que um homem letrado”.83 Surgiu então a oportunidade de a Segunda Lei cruzar a barreira sexual e proclamar triunfante: “A educação deve desenvolver os gostos e as ap- 67 tidões das mulheres tanto quanto dos homens. Os direitos das mulheres de escolher seus livros devem ser precisamente iguais aos dos homens. Os livros que divulgo devem ser diferentes, não porque esta pessoa seja homem e a outra seja mulher, mas devem ser diferentes apenas com base no fato de que cada um é um indivíduo.” Assim, a Segunda Lei da bibliote- conomia não se satisfaz mais em oferecer às mulheres livros sobre afazeres domésticos ou livros de devoção ortodoxa; por outro lado, insiste em que todos os livros têm o lídimo direito de entrar em qualquer domicílio para o benefício de todos os membros da família, independentemente do sexo. 23 Os Moradores das Cidades e os Moradores do Campo Uma terceira antítese que teve que ser superada pela lei livros para todos foi aquela entre o morador da cidade e o morador do campo. A bar- reira do pedágio municipal parece ter postergado a Segunda Lei ainda por mais tempo do que a barreira da renda ou a barreira sexual. Vimos que a da renda quase foi deixada para trás na maioria dos países há cerca de um século. Também observamos que a escalada da barreira sexual começou pelo menos há uma geração. Mas o clamor de livros para todos somente nos dias atuais conseguiu atravessar as muralhas da cidade. Para ser mais preciso, o direito dos moradores do campo aos livros só veio a ser respeitado na maioria dos países depois da Primeira Guerra Mundial. Embora o primeiro serviço sistemático de biblioteca itinerante haja sido inaugurado em Maryland e Ohio (eua) ainda em 1905, foi somente mais ou menos na última década que um esforço sério foi envidado pela maioria das nações para suprir os habitantes de regiões rurais dispersas com os livros que eles queriam. 231 Diferenciação Que aos camponeses falta a oportunidade de estudo e cultura fica claro a partir do desprezo implícito no vocábulo inglês rustic [rústico, em português, com os mesmos sentidos] e na palavra tâmil nattuppurattan [literalmente, um aldeão]. É também indicado pela conotação comum do epíteto sânscrito gramya [grama significa vila, enquanto gramya quer dizer vulgar]. Em Helênicas, Xenofonte de forma ingênua sugere por dedução que a moradia habitual em aldeias bastaria para privar alguém de alguns dos direitos e privilégios mais comuns. Diz ele: Eles [os espartanos], entretanto, não os expulsaram da presidência do templo de Zeus Olímpico, embora este não houvesse pertencido aos eleus em tempos antigos, mas porque pensavam que os pretendentes rivais fossem moradores do campo84 (grifo nosso). Uma tal visão discriminatória tem persistido através dos séculos. Hannah More, por exemplo, “não ‘acabaria com a ignorância’ das aldeias; o vício, a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia68 se pudesse, ela o extirparia, mas o conhecimento, exceto dos deveres e de seu ‘lugar’, aconselharia os [...] aldeões a deixar para seus superiores”85 das áreas urbanas. 2311 Ameaças na Cidade O fato é que, mesmo numa etapa muito inicial, a crescente complexida- de e as graves ameaças presentes nos problemas urbanos de uma cidade superpovoada colocaram uma grande demanda de educação para todos e livros para todos no caso da gente das cidades. Aquela inexorável dama, a Necessidade, entretanto, não exerceu por muito tempo igual pressão com relação à gente do campo. Embora as consequências da ignorância e da falta de livros sejam imediatas nas áreas urbanas, são latentes e tornam-se visíveis somente muito tardiamente nas áreas rurais. 2312 Importância do Campesinato Apesar disso, os trabalhadores agrícolas que moram no interior cons- tituem uma classe muito importante em qualquer país. A agricultura é uma das ocupações fundamentais e originais do homem. Adão cuidava de um pomar e Abraão era pastor. A agricultura alimenta o mundo. Requer habilidades em constante progresso. A necessidade que um país tem de trabalhadores agrícolas preparados e adaptáveis somente pode ser atendida levando-se o uso de livros para as áreas rurais. Mesmo num país industrial como a Inglaterra, onde somente 20% da população moram no campo, e as cidades constituem os centros principais de produção, percebe- -se que o futuro da nação estaria ameaçado se aos poucos habitantes das zonas rurais não fossem dados seus livros. Não seria ainda mais sério e mais fundamental o problema das bibliotecas rurais na Índia, onde, mes- mo que nos limitemos à Índia britânica, somente 12,9% da população de 247 milhões de habitantes vivem em cidades [...], há somente 29 cidades com população superior a 100 mil habitantes [...] e mais de 2 100 cidades contam com população entre cinco mil e 100 mil habitantes, enquanto o número de vilas não fica muito longe de meio milhão?86 Além disso, as cidades indianas ainda não se tornaram semelhantes em sua função às cidades industriais da Inglaterra. Como o Sr. V. Ramasvamy Ayyar, douto presidente da Indian Mathematical Society, observou, bem-humorado, em recente retiro da International Fellowship, a função da maioria das cidades indianas se parece com a do tanque de um compressor de ar: muito pouco do barulho e da trepidação que apresentam se deve a atividades produti- vas. Ocupam-se principalmente em sugar a riqueza produzida nas vilas e levá-la para o ultramar. Por isso a comissão Linlithgow observou, “É sobre os lares e as terras de seus agricultores que a força do país e as bases de sua prosperidade devem, em última análise, apoiar-se.”87 69 2313 Estímulo de Novas Ideias Entretanto, na situação atual de competição e luta internacional, verifica-se que a agricultura e outras indústrias rurais serão cada vez mais inúteis e menos valiosas, se forem praticadas com métodos de produção e comercialização antiquados. A necessidade principal dessas indústrias rurais é o estímulo diário que lhes proporcionam as novas ideias e a cons- tante oferta de treinamento sobre essas ideias. Novos métodos de produção agrícola são inventados a cada ano. Novos mercados devem ser encontra- dos de tempos em tempos. Surgem formasde comunicação com as quais nem mesmo se sonhava, e que devem ser conhecidas. É preciso adotar urgentemente máquinas e dispositivos que economizam mão de obra. 2314 Fluxo de Ideias e de Livros Até recentemente, as famílias viviam da terra e produziam manual- mente quase tudo de que se alimentavam ou vestiam. Os bois e o arado de madeira eram quase os únicos recursos disponíveis que permitiam economizar mão de obra. As pessoas fabricavam a própria manteiga, velas e roupas, produziam por evaporação o próprio sal, moíam o próprio cereal em primitivos moinhos manuais. O comércio era praticado principalmente mediante escambo. Mas, no curto período de uma geração, invenções notá- veis em matéria de implementos e métodos agrícolas foram aperfeiçoadas e são introduzidas em outros lugares. Neste ritmo, a escola de livros deve constantemente complementar a escola da experiência prática. 2315 Mudanças na Comercialização As melhoras na comercialização também contribuíram muito para a necessidade de um campesinato progressista e para a necessidade de ele ser abastecido frequentemente com livros e revistas. Não é mais preciso transportar pequenas cargas de produtos por estradas lamacentas para serem vendidas ou trocadas. Boas estradas de cascalho, caminhões, redes ferroviárias e encomendas expressas mudaram em muito os métodos de transporte. Os navios a vapor e a motor coletam os produtos e rapi- damente os despacham para os grandes mercados do mundo. O bétel de Kumbakonam tem agora que encontrar mercados em Madras e na distante Benares. As bananas de Erode têm que ser comercializadas pela Índia afora. O mesmo acontece com as frutas dos pomares e vinhedos de Coorg e Caxemira. O algodão de Tinnevelly e o arroz de Tanjore devem procurar mercados no exterior. Os produtos agrícolas não podem mais ser trocados nas vilas. Devem ser criteriosamente vendidos em troca de hundies.* Estas condições não serão efêmeras ou passageiras. Vieram para * Espécie de letra de câmbio ou nota promissória, utilizada na Índia e outras regiões da Ásia. (n.e.) a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia70 ficar. Ano após ano, tornar-se-ão cada vez mais importantes. De agora em diante, encaramos a agricultura como uma indústria capitalizada, que requer conhecimento e capacidade executiva e que atrai homens com capital e cérebros. O homem de pouca energia ou capacidade e aquele a quem falte o conhecimento científico terão cada vez mais dificuldade para não serem postos de lado. Não se pode mais depender de um campesinato eternamente megulhado na ignorância e presa de métodos tradicionais. Se o país quiser manter-se em dia com o mundo, os agricultores deverão ser constantemente sacudidos de sua rotina. Deverão ser esclarecidos com os fatos e as ideias científicas e econômicas mais atuais. Como fazer isso senão com livros e revistas? Poderemos ainda permitir-nos continuar adiando a oferta aos agricultores dos seus livros? 2316 Mudança no Horizonte Social Tampouco é permitido aos moradores das cidades negar a seus irmãos do campo os prazeres dos livros e outras amenidades da vida. Pois, como disse recentemente a Royal Commission of Agriculture, Na estrutura antiga da vida das vilas, certas influências estão em curso, que deverão, mais cedo ou mais tarde, modificar profundamente suas caracterís- ticas de auto-suficiência, e que, em algumas partes do país, já começaram a produzir seus efeitos. [...] O desenvolvimento das comunicações e a consequente aceleração e barateamento dos meios de transporte estão levando as vilas a se aproximarem mais das áreas urbanas [...] o contato com as cidades introduz novas ideias e o anseio por melhores condições de vida. A vida do agricultor está, de fato, mudando mentalmente. O antigo isola- mento e o estreito provincianismo estão rapidamente chegando ao fim. Ele e a esposa não mais serão marcadamente ‘caipiras’. Eles, e principalmente os filhos, vestem-se muito melhor do que antigamente. Os movimentos da família não estão mais limitados pela força de tração de sua alimária. O ônibus interurbano leva-os à cidade quase a qualquer hora. Uma viagem à cidade, que antes consumia quase um dia inteiro, é agora uma questão de mais ou menos uma hora. É fácil viajar à noite, uma vez encerrado o trabalho do dia. O cinema e o teatro, antes desconhecidos, agora oferecem suas atrações. As ligações com a cidade — financeiras, sociais e políticas — estão consolidadas. Os filhos vão à escola secundária na cidade vizinha, acabam copiando os modos de lá e fazem novas amizades. O horizonte social amplia-se assim grandemente. Os casamentos consequentemente são realizados a distâncias maiores do que antes e entre novas classes sociais. 71 232 Biblioteca Itinerante Esta rápida e intensiva interação dos moradores da cidade com os moradores do campo levaria estes últimos a exigir para si todas as fa- cilidades de que os primeiros gozam. Os trabalhadores agrícolas e os fazendeiros começariam a peguntar “Pagamos impostos do mesmo modo que o pessoal das cidades. Qual o motivo, portanto, desse tratamento discriminatório? Por que somente os moradores das cidades têm suas bibliotecas e todas as comodidades que se encontram ao seu redor? Por que o Estado não providencia também para nós bibliotecas iguais e outras facilidades? Também temos cérebro. Também queremos melhorar nosso conhecimento do mundo. Também queremos estar atualizados em nossos métodos de trabalho. Também queremos nossos livros.” A democracia moderna investiu estes camponeses conscientes com o poder de exigir seus livros, se não estiverem chegando voluntariamente, e de fazer com que sua reivindicação seja ouvida. Esta, na verdade, foi a origem da primeira biblioteca itinerante de caráter regular. 2321 Maryland No condado de Washington, Maryland (eua), viviam muitas pessoas que pos- suíam poucos livros para ler, para quem o processo de comprar livros custava muito caro, mas que eram ávidas por uma boa literatura. Algumas delas pro- curaram a senhorita Mary L. Titcomb, da biblioteca pública de Hagerstown, e solicitaram que lhes fossem remetidos livros (grifo nosso) [...] Com isso a senhorita Titcomb teve a ideia de uma carroça onde seriam instaladas estantes e carre- gada com um grande sortimento de livros, e que subissem, pelos caminhos montanhosos, até as moradias, o que seria uma forma esplêndida de oferecer às pessoas uma oportunidade de ler [...] Isso aconteceu em 1905 [...] Em 1910, o cavalo e a carroça deram lugar ao automóvel. Atualmente, cerca de 300 con- dados seguiram o exemplo de Hagerstown, Maryland.88 E, ademais, os municípios de várias outras partes do mundo também começam a seguir esse exemplo. Foi a reivindicação inicial dos camponeses de Maryland que desencadeou a ideia. 2322 Inglaterra Os experientes administradores do Carnegie United Kingdom Trust mostraram como criar nos moradores do campo uma demanda por livros, no caso de estarem esquecidos tanto dos benefícios trazidos pelo uso de livros quanto do seu direito de reivindicá-los. Soubemos disso pela auto- ridade nada menos de sir William Robertson, o primeiro vice-presidente do Trust, ao descrever a origem das bibliotecas rurais na Grã-Bretanha: Colocamos a isca em nossos anzóis com bastante generosidade. Dissemos ‘não a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia72 só nos responsabilizaremos pelas despesas de capital, mas também arcaremos com as despesas de manutenção durante cinco anos’. Assim, os governos lo- cais, sempre apavorados com as taxas cobradas da população, não teriam que recear a necessidade de aumentar essas taxas. Tivemos que seduzi-los ainda mais, pois estávamos convencidos de que, expirado o prazo de cinco anos, uma fome real e permanente de leitura teria sido descoberta, não criada, uma vez que já existia de forma latente. Se os governos locais, depois desse período, se mostrassem contrários e quisessem voltar atrás, a populaçãonão lhes permitiria que fizessem isso. Fomos de condado em condado [...] Não esperamos que nos procurassem, pois, como tínhamos sido nós que lançamos o projeto, partiu de nós o passo inicial para convidá-los a examinar nossa proposta.89 O primeiro projeto de biblioteca de condado da Inglaterra foi inaugurado em Staffordshire, em 1916. Essa campanha deliberada e planejada foi sufi- ciente para, em menos de uma década, levar livros para todos além dos limites daquela cidade e espalhá-los vitoriosamente por todos os condados da Inglaterra, com exceção de três. O resultado foi que a reivindicação dos moradores do campo por seus livros tornou-se tão insistente que o parlamento inglês teve que instituir, pelo Amending Act de 1919,90 um projeto de bibliotecas rurais, por condados, e nomear uma comissão de bibliotecas públicas em 1924 “para estudar a suficiência dos serviços das bibliotecas”e investigar, entre outras coisas, “os meios de ampliar e concluir esses serviços em toda a Inglaterra e no País de Gales”.91 2323 Índia As reformas recentes investiram os camponeses (ryots) da Índia tam- bém com o poder similar de reivindicar seus livros e exigir um projeto de bibliotecas rurais, de âmbito nacional, que ofereça as mais modernas facilidades que hoje lhes são inerentes. Talvez não tarde muito o dia em que se deem conta de que possuem esse poder e venham a pô-lo em prá- tica. O advento desse dia pode ser acelerado por meio de incentivos como os que seus contemporâneos da Grã-Bretanha receberam do Carnegie United Kingdom Trust. Mesmo que não haja tal perspectiva para os ryots da Índia, a propaganda sistemática e contínua feita por entidades como a Madras Library Association pode ser muito útil para levar a mensagem da Segunda Lei ao interior e abrir os olhos dos camponeses para o uso dos livros e para o direito de tê-los. 233 Êxodo para a Cidade Mas, mesmo de um ponto de vista tacanho e estritamente egoísta, os urbanitas fariam bem em admitir as exigências da Segunda Lei quanto a fornecer aos moradores do campo os seus livros. É de seu próprio interesse contribuir para a redução do crescente êxodo da população rural para as 73 cidades. Várias causas estimulam esse êxodo, mas várias delas podem ter seus efeitos atenuados por meio de uma rendição prudente à Segunda Lei da biblioteconomia. 2331 Jovem que Fora Educado Vejamos, por exemplo, uma dessas causas, claramente exposta pela comissão Linlithgow. Os conterrâneos de um rapaz que fora à escola viam que ele possuía uma qualificação com a qual poderia, simplesmente se candidatando, obter um tipo de emprego que estava além do alcance deles [...] Isso contribuiu para o êxodo dos rapazes que haviam frequentado a escola do interior para a cidade, que ainda continua, embora as condições que lhe deram origem estejam mudando rapidamente. A oferta de mão de obra qualificada para trabalho de rotina no governo e no comércio quase supera a demanda [...] Na medida em que essa oferta é aumentada pelo êxodo dos jovens escolariza- dos do interior para as cidades, onde incharão os exércitos de desempregados qualificados, só é possível remediar isso, em nossa opinião, por meio da difusão da educação em áreas rurais junto com a melhoria das comodidades oferecidas pela vida nas vilas do interior. É inútil esforçar-se para fazer o relógio andar para trás, restringindo a educação ao mínimo92 (grifo nosso). 2332 De Filho para Pai A tendência ao êxodo rural passa facilmente de filho para pai. A grande maioria dos agricultores tem pelo menos de dois a quatro meses de folga no verão, o que leva a que desenvolvam o hábito de férias. Por isso, o agri- cultor passa alguns verões com o filho ou a filha ‘na cidade’, próxima ou distante, deixando as terras aos cuidados de um empregado. As atrações urbanas seduzem-no e à sua família de tal modo que ele arrenda a terra, muitas vezes fechando completamente a casa na vila, e todos se mudam para a cidade, para usufruir suas vantagens sociais e educacionais. Na etapa seguinte, volta para casa, vende tudo e retorna à cidade em caráter perma- nente, esquecendo-se por completo da vila e da fazenda. Uma das questões sociais mais importantes, que agora defrontam os que se interessam pelo bem-estar no campo, consiste em como prevenir esse êxodo absurdo. 2333 O Tédio da Vida Rural Mesmo que um jovem escolarizado tenha a força mental para voltar para seu povoado, as tristes condições que lá prevalecem, a absoluta falta de meios de recreação intelectual e de orientação em suas atividades diárias leva a um de dois resultados. Com o passar do tempo, ou negligencia seus interesses importantes e acaba por esquecê-los, mergulhando num estado mental doentio e tornando-se vítima crônica do jogo de cartas, ou volta para a cidade, com medo daquela vida parada do interior. a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia74 234 Efeito do Êxodo Rural Além das desastrosas consequências econômicas, esse êxodo para as cidades aumenta desnecessariamente o adensamento populacional nas áreas urbanas, aumenta o custo de vida para os moradores e torna a manutenção da saúde pública mais difícil e mais cara. 235 Prevenção do Êxodo Rural O fato é que o país necessita de uma nova classe rural e de novas con- dições nas regiões rurais de modo que estas continuem sendo utilizadas para fins e funções agrícolas. Isto requer necessariamente a presença de livros nas vilas — livros de todos os tipos — de modo que o longo verão de ócio possa ser suportável e as mentes inquiridoras encontrem alimento pronto ao seu alcance, sem ter que ir flanar nas cidades à sua procura. Uma vez dado início ao projeto de bibliotecas rurais, será possível, como já ocorre em outros países, ampliar seu campo de ação para muito além dos livros. O projeto enviará filmes e diapositivos para as vilas, tanto para recreação, quanto para informação. Ajudará na organização de concertos musicais, conferências, espetáculos de teatro e exposições de todos os tipos. Esforçar-se-á para atuar em toda nova oportunidade de serviço que surja e se situe naturalmente em sua área de ação. Ademais, como um centro para a vida comunitária, a biblioteca rural possui certas vantagens em compa- ração com outras instituições rurais. É propriedade de todos e possui um sentido democrático que, em geral, nem o templo nem o mutt* possuem. 2351 Serviço de Bibliotecas Rurais Na verdade, se se permitir à lei livros para todos que atravesse os limites da cidade, ela tentará dotar a vila com todas as comodidades e oportunidades intelectuais possíveis que, até hoje, somente são encontradas em áreas urbanas. Desta forma, um serviço de bibliotecas rurais moderno passa a ser uma instituição forte que poderá reduzir o indesejável êxodo das vilas para as cidades. 236 Organização do Serviço de Bibliotecas Rurais Embora seja nossa intenção reservar todas as informações técnicas para um volume posterior desta série, a suprema importância do projeto de bibliotecas rurais para a Índia justificará uma breve digressão sobre o problema da organização de bibliotecas nas vilas. Embora o taluk possa ser, essencialmente, a unidade territorial mais conveniente para o projeto de bibliotecas rurais, por enquanto talvez seja mais adequado começar por uma base municipal. Mesmo que a área do município seja muito grande, * Instituição religiosa e monástica. (n.e.) 75 os recursos do conselho municipal, bem como sua capacidade de trabalho e direção permanentes são muito maiores que os de um conselho de taluk.* 2361 Bibliotecário Municipal A criação e implementação de um serviço municipal de bibliotecas de- penderão em muito da habilidade e do entusiasmo do primeiro bibliotecário municipal. Tenho motivos para atribuir, em grande parte, as excepcionais atividades educacionais de um dos distritos de nossa costa ocidental à nomeação de um dinâmico diretor de educação, de tempo integral, ao qual se deu não somentetotal liberdade, mas também generosos recursos. Do mesmo modo, para que um novo projeto, como o de bibliotecas municipais, tenha êxito, a primeira exigência é selecionar e nomear um bibliotecário bem capacitado, empreendedor e entusiasta, para ser o organizador da biblioteca municipal. Nenhum governo municipal deve cometer o erro crasso de iniciar esse projeto sem atender a este pré-requisito básico. Se o cometer, estará somente tentando provar que o projeto não dará certo. 2362 Primeiro Conheça a Comunidade Se a nomeação do bibliotecário municipal deve ser o primeiro passo do conselho municipal, a primeira providência que o próprio bibliotecário deve tomar é conhecer, diretamente, a comunidade a quem servirá. Seria insensato e desastroso partir de noções estereotipadas sobre as reivindica- ções dos moradores do local. A experiência de outros países mostrou que localidades de espécies aparentemente idênticas na realidade necessitam de diferentes espécies de livros. A bibliotecária do condado de Nottingha- mshire, na Inglaterra, dá um exemplo notável disso em seu trabalho sobre como implantar um projeto de biblioteca de condado,93 que, a propósito, constitui uma exposição muito lúcida das dificuldades iniciais enfrentadas por quem organiza uma biblioteca municipal. A primeira recomendação que ela faz é: “Primeiro conheça sua comunidade, e para isso é essencial visitar cada local antes de implantar o projeto.” 2363 Bibliotecário Distrital** O segundo passo do bibliotecário municipal consiste em recrutar a colaboração do diretor de educação do município, dos inspetores escola- * A Índia divide-se administrativamente em estados e territórios, que possuem quatro níveis hierárquicos: divisão, distrito, taluk (tehsil, quadra e outras denominações) e vila. Assim, o distrito seria aproximadamente o município no Brasil; por isso, nesta tradução empregou-se ‘município’ para district, opção seguida também para o adjetivo, sempre que pertinente, com a ressalva de que não se trata de uma analogia perfeita. Os conselhos municipais (district boards) são órgãos executivos colegiados de autogoverno local. (n.e.) ** No original, village librarian (bibliotecário da vila). (n.e.) a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia76 res, dos coletores de impostos (tahsildars), dos presidentes dos conselhos comunitários (panchayats), das cooperativas e outros interessados nas atividades de desenvolvimento rural. Com sua ajuda e também por meio de sondagens que faça, o bibliotecário municipal deve escolher a pessoa mais indicada para ser o bibliotecário de cada localidade. O professor, o juiz (munsif), ou o contador da vila — quem for a pessoa mais popular — deve ser selecionado para essa incumbência. Como exemplo e norma, o representante escolhido deve ser auxiliado para despertar o entusiasmo necessário. A motivação dos bibliotecários locais é parte crucial da orga- nização. Para esta tarefa precisamos de um organizador, que seja acima de tudo muito entusiasmado, que seja uma personalidade de muito bom relacionamento, paciente e com capacidade para trabalho duro. Muitas vezes existe na vila um partidarismo insuperável. Convém, neste caso, ter um representante local de cada partido. 2364 Publicidade da Biblioteca O passo seguinte consiste em divulgar ao máximo a ideia da biblioteca em toda a região. Convém pedir aos jornais do município que anunciem os recursos oferecidos pela biblioteca municipal, da forma que for mais destacada e tão frequente quanto possível. Folhetos atraentes devem ser amplamente distribuídos de tantas formas quanto possível. Cartazes de óti- ma qualidade, com cores atraentes e texto cativante, devem ser distribuídos em profusão. A imagem do belo cartaz, desenhado pelo Carnegie United Kingdom Trust para uso das bibliotecas dos condados da Grã-Bretanha, mostra “uma tocha do saber, de ferro esmaltado, de 43 por 33 cm, com uma filactera vermelha que leva, em letras brancas, as palavras biblioteca do condado.94 As festas e feiras locais devem ser visitadas, bem como, nessas ocasiões, ser lançada uma forte campanha publicitária, contando com a cooperação de diligentes voluntários. Vejamos esta descrição de uma feira norte-americana: “Em toda parte eram encontrados avisos ‘venha assistir à nossa palestra sobre livros de viagens no estande da biblioteca, hoje, às 15 h.’ E muita gente realmente compareceu.”95 Dá muito trabalho levar a palavra da Segunda Lei a cada vila e povoado e inculcar nas mentes de seus moradores a importância para o país do trabalho feito pela biblioteca municipal. 2365 Seleção de Livros Por último, mas não menos importante, deve ser oferecida, de modo imediato e com regularidade, uma variedade de livros de qualidade, bem escritos e bem ilustrados. Devem ser remetidos para a biblioteca tanto livros para leitura recreativa como de natureza informacional. Alguns destes devem ser pertinentes às indústrias e interesses locais. Vale a pena 77 citar a experiência do bibliotecário local de uma vila do condado de Cam- bridgeshire, na Inglaterra: Livros que tenham relação com as indústrias locais — agricultura e horticultura — são avidamente procurados, e, com relação a isso, gostaria de mencionar um método que adotamos de vez em quando. Muitas vezes recebemos um livro que sabemos que será útil para algumas pessoas que nunca utilizaram a biblioteca. Neste caso, mandamos o livro para o provável leitor com uma mensagem, sugerindo que dê uma olhada e, se estiver interessado, que o retenha por uma ou duas semanas. Dessa forma fizemos circular vários livros técnicos que, ao contrário, nunca seriam lidos. A dificuldade neste caso foi receber o livro de volta; o usuário achou-o tão útil no seu trabalho diário que não podia ficar sem ele. Não tenho dúvida alguma de que esse cavalheiro já ganhou muito dinheiro depois do que aprendeu sobre embalagem de frutas, etc., num livro que lhe enviei por acaso. Fizemos, porém, outro amigo e criamos outro leitor. Começo a acreditar que muitos agricultores e jardineiros não percebem que há livros que tratam exclusivamente de seus interesses e dificuldades, e nosso trabalho consiste em corrigir esta noção equivocada.96 2366 Seleção de Materiais de Extensão A circulação de diapositivos deve ser incorporada ao trabalho da biblio- teca municipal. Em alguns municípios, vi vários projetores, que haviam sido distribuídos pelo conselho municipal, simplesmente enferrujando devido à falta de diapositivos. Muitas vezes, as peças se quebram e o bico de gás fica entupido de ferrugem. Em certo lugar, a lente estava tão irre- mediavelmente suja com uma camada oleosa que, mesmo depois de meia hora de limpeza, não pôde recuperar a transparência original. Revelando a mesma falta de coordenação, é possível encontrar vários projetores num único lugar, sendo que um está com o inspetor de saúde, outro com o inspetor escolar e ainda outro na escola local, mas nenhum deles em condições de funcionamento e nenhum com diapositivos. A biblioteca municipal pode eliminar esta duplicação perdulária e, o que é mais im- portante, fazer os diapositivos circularem periodicamente. Pode também promover a circulação de discos fonográficos e coleções de fotografias. Há ainda grandes possibilidades para o trabalho educacional mediante sessões de cinema itinerante, quando podem ser exibidos filmes que despertem o interesse por outros países, pela natureza, pelas fábricas, pelas indústrias, pelos métodos de venda e pela saúde pública. É bom conquistar simpa- tia, mostrando primeiro filmes baseados no Ramayana, Mahabharata, Sakuntala e assim por diante, alternando-os com filmes mais utilitários e informativos. No início, quando a palavra impressa somente é entendida ao ser lida por outrem e não pode ser lida pessoalmente pela imensa multidão de analfabetos, este aspecto do serviço de biblioteca municipal será não somente essencial, mas também um bom incentivo para que os asegunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia78 camponeses almejem e se sujeitem a superar rapidamente o analfabetismo. Essa deve ser uma das características transitórias das atividades de nossas bibliotecas municipais por um curto período. 237 Biblioteca Central Municipal Talvez seja conveniente instalar o depósito central da biblioteca munici- pal na sede da administração local. Deve ser planejado de modo a facilitar o trabalho tanto quanto possível. Uma sala com estantes, uma sala para empacotamento e um escritório serão suficientes. No início, uma ou duas salas contíguas no andar térreo do escritório do conselho municipal podem ser suficientes. O quadro de pessoal deve evoluir conforme o projeto se desenvolva. Mas, desde o início, deve haver pelo menos um assistente competente que cuide do trabalho rotineiro, caso contrário o bibliotecá- rio terá que dedicar a isso grande parte do tempo que deveria dedicar à organização. Como o bibliotecário estará com frequência viajando pelo interior do município, o assistente deverá ter competência para assumir responsabilidade nessas ocasiões. 2371 Transporte de Livros O transporte variará de acordo com as condições locais do município. Um município como Tanjore pode facilmente despachar caixas de livros graças à sua rede ferroviária e às linhas de ônibus. Num distrito como Kurnool, talvez seja preciso pedir a ajuda de carros de boi e carregadores. Mas talvez não seja preciso o bibliotecário distrital “como um de nossos colegas, viajar durante dois dias em lombo de mula, puxando outra mula carregada de livros, por dentro de um rio,” nas palavras do coronel Mitchell.97 Um método ideal de transporte é o do carro-biblioteca. Ele pode ser adaptado com prateleiras para transportar aproximadamente um milheiro de volumes, onde os moradores e os bibliotecários das vilas podem selecionar o que desejam ao devolver os volumes que foram lidos. O próprio bibliotecário pode dirigir o veículo ou acompanhá-lo em suas viagens pelo município. Também fará publicidade do projeto da biblioteca municipal de uma maneira muito eficiente. Esta é uma forma econômica de transporte e eliminará as despesas de locomoção do bibliotecário. O carro-biblioteca poderá visitar cada localidade uma vez a cada três meses. 2372 Centro Local Os centros locais de entrega e substituição dos livros podem ser quais- quer que sejam convenientes, como escolas, templos, mutts, agências de correios, lojas e residências. Assim que o bibliotecário chega com o carro- -biblioteca, uma multidão de homens, mulheres e crianças cerca o veículo e em pouco tempo a maioria dos livros é tirada das prateleiras. 79 238 Resistência Inicial No início, o bibliotecário municipal deve estar preparado para en- contrar, nas vilas, uma atmosfera absolutamente hostil e desconfiada. Os motivos para essa desconfiança inicial podem, entretanto, ser facilmente identificados. O professor local, malremunerado, a quem provavelmente será repassado o trabalho de fato, talvez já preste uma cota de colaboração voluntária mais do que razoável e não receba de bom grado qualquer en- cargo adicional. O juiz (munsif) da aldeia pode estar na função há muitos anos. Talvez haja desenvolvido um arraigado desprezo por essas novidades modernas e por isso careça da juventude e entusiasmo que são essenciais ao desenvolvimento rural hoje em dia. Um terceiro fator, de mais difícil persuasão, pode ser o latifundiário local, que vê com desconfiança e des- crédito todas as tentativas de ampliação dos recursos educacionais, que podem capacitar os trabalhadores rurais (ryots) a terem independência de pensamento. Todos estes elementos de hostilidade — o professor so- brecarregado de trabalho não remunerado, o juiz em quem se apagou a chama da juventude, e o obscurantista latifundiário (mirasidar)* — levarão aos limites o tato e o entusiasmo do bibliotecário municipal. Porém, com paciência e compreensão das condições locais, esses obstáculos não serão insuperáveis. 2381 Depois de Quebrado o Gelo Depois de superados estes primeiros preconceitos e quebrado o gelo, o progresso ocorrerá sem problemas e de forma automática. Pelo menos assim tem sido em outros lugares. A seguir são relatados alguns casos, que demonstram as tremendas potencialidades de leitura dos moradores do campo que apenas esperam os recursos necessários para eclodirem de forma irrefreável. 2382 Exemplo 1 O bibliotecário do condado de Surrey conta que deparou uma jovem empregada doméstica que aprecia The garden party [A festa], de Katherine Mansfield, mais do que qualquer outro livro que já tinha lido, por- que ‘gosta do jeito que ela escreve’. Ou pode ser uma motorista de ônibus com um gosto pela literatura tão bom quanto o de qualquer estudante do curso de inglês adiantado que eu tenha orientado. Mas há também os adolescentes, recém-egressos da escola, numa idade em que a falta de emprego combinada * Na Índia, antes e depois do domínio britânico, sistema de trabalho rural assemelhado, grosso modo, à parceria ou meação. A parte que cabia ao trabalhador chamava-se mirasi (do verbo merah, compartilhar) e mirasidar era quem detinha a posse da terra, ou seja o latifundiário, que possuía ampla presença, e interferia grandemente em quase todos os aspectos da vida da comunidade que dependia do trabalho em suas terras. (n.e.) a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia80 com o fim da educação formal formam uma grande ferida em todo o tecido social. Numa de nossas bibliotecas ramais, soube de vários jovens — um men- sageiro de telegramas, um carregador da estação ferroviária, um entregador e um balconista de mercearia — que sempre que a biblioteca é aberta vão direto para as estantes onde estão os livros de história natural, passatempos, mecânica e ciência.98 2383 Exemplo 2 A bibliotecária da vila de Sohan, Cambridgeshire, conta: “Há certa demanda por livros sobre assuntos domésticos da parte de jovens casadas, interessadas em melhorar os métodos antigos.”99 A mesma bibliotecária, falando a respeito dos jovens de sua vila, observa Seus gostos são mais universais e geralmente percorrem as estantes onde ficam os livros de não-ficção, aprendendo a garimpar entre eles. Obras sobre invenções, passatempos e história natural os fascinam e por isso esses livros deveriam ser mais profusamente ilustrados.100 Em dois anos de existência, a biblioteca do condado de Cambridgeshire revelou a existência de inúmeros interesses de leitura. 2384 Exemplo 3 O bibliotecário de Cottenham, outra vila do mesmo condado, registra Há o sapateiro que recusa tudo que não seja história ou romances históricos, que não pode acreditar que exista alguém na própria terra do Wake que não tenha lido Hereward, de Kingsley;* e do fruticultor que insiste em livros de astronomia.101 2385 Exemplo 4 Outro bibliotecário de condado menciona um jardineiro que devora todo livro sobre o Egito que o bibliotecário da vila lhe consegue, e um guarda ferroviário que lê os livros de viagem de Sven Hedin.** 2386 Exemplo 5 A alegria que a biblioteca itinerante está levando aos moradores de vilas monótonas é ilustrada por uma nota102 recebida pelo bibliotecário do condado de Kent e enviada por moradora “que vive a mais de 13 qui- * Referência ao romance histórico Hereward, the last of the English, de Charles Kingsley 1819–1875, baseado na figura semilendária de Hereward the Wake, que teria se insurgido contra Guilherme, o Conquistador (c. 1028–c. 1087). (n.e.) ** Geógrafo e explorador sueco (1865–1952), que percorreu regiões da Ásia central. Sobre suas viagens escreveu vários livros, que foram muito populares na Europa nas primeiras décadas do século xx. (n.e.) 81 lômetros de qualquer cidade e que recebeu livros úteis para seus estudos de literatura francesa”. A nota termina assim: “sou-lhe eternamente muito grata por ter me ajudado a construir para mim um pequeno mundo de felicidade”. Segundooutro relato, o pároco de Esclusham Below, em Den- bigshire, com cerca de 1 900 habitantes espalhados por vários vilarejos de mineração, transformou 263 deles em leitores constantes e empresta cerca de sete mil volumes por ano; e o bibliotecário local relata com satisfação que “os membros do conselho paroquial estão jubilosos com o progresso feito e envidarão todos os esforços para assegurar o seu sucesso futuro”.103 2387 Exemplo 6 Não podemos encerrar esta seção mais adequadamente senão citando os votos ardorosos desejados ao progresso da Segunda Lei da biblioteco- nomia no meio rural pelo diretor do New York State College of Agriculture: Quase não é preciso dizer que o sistema educacional de um condado não estará completo enquanto não houver uma ou várias boas bibliotecas que atendam a toda a população. Para a maioria dos condados rurais, a biblioteca do condado parece ser a resposta. Enquanto as crianças e também os adultos das fazendas não tiverem acesso conveniente e regular a coleções de livros adequados a seus diferentes gostos e necessidades, nosso bem-estar e progresso nacional ficarão aquém de suas possibilidades. Chegou a hora de promover um movi- mento nacional para implantar e fazer com que os recursos da biblioteca sejam ativamente utilizados e estejam acessíveis a todos os moradores do campo.104 24 O Normal e o Excepcional A próxima antítese a ser considerada — o normal e o excepcional — é de natureza mais complicada. Há condições excepcionais de todos os tipos. Há o enfermo temporariamente internado num hospital. Há o analfabe- tismo, que é uma condição passível de ser eliminada. Temos o prisioneiro recuperável atrás de grades, enquanto os deficientes visuais, auditivos e da fala formam as classes dos que são comumente descritos como ex- cepcionais.* A palavra ‘todos’ em livros para todos abrange cada um deles. A Segunda Lei não conhece qualquer exceção. Não pode descansar enquanto não houver providenciado o atendimento de cada um, normal ou excepcional, com o seu livro. 241 Uma Mesa-Redonda O Paciente: Ah! Estar preso para sempre a este leito! Essas paredes sempre brancas, nuas! Como eu gostaria de poder fugir! O Psicólogo: Calma, meu amigo, calma. Não se deixe cair neste mau humor. * Portadores de necessidades especiais. (n.e.) a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia82 Irá prejudicá-lo. Nossa amiga acabou de chegar para conversarmos sobre as formas e os meios de acabar com este tédio. A Segunda Lei: Anime-se, senhor, eu trouxe um carrinho cheio de livros. Você logo verá que ele passou por cada enfermaria e cada leito. O Paciente: Eu não aguento esse barulho do carrinho. O Psicólogo: (À parte, para a Segunda Lei). Coitado! Está com os nervos em frangalhos! O menor rangido o angustia. A Segunda Lei: Não tenha receio. Meu carrinho não faz barulho. Foi es- pecialmente construído para uso hospitalar. Um cego não consegue adivinhar que ele esteja em movimento. O Cego: Ah! Você não sabe como nossos ouvidos são afiados. A Segunda Lei: Mesmo assim, estou certa, você não conseguirá ouvi-lo. O Paciente: Muito atencioso da sua parte. Peço desculpas pelo meu mau humor. Que livros você nos trouxe? A Segunda Lei: Lindos livros ilustrados, belas revistas de arte, romances divertidos, poemas inspiradores, alguns hinos, a revista Tit-Bits, e... O Paciente: Sim... Sua seleção é muito ampla. Mas me deixou de fora. A Segunda Lei: Como? O Paciente: Veja, fui professor a vida inteira. Não gosto de nenhuma leitura que não seja substanciosa. A Segunda Lei: Não faço nenhuma objeção a lhe dar o que quer, mas lembre-se de um perigo. Imagine se você tiver uma rebordosa — Deus me livre! — aí o médico culpará os livros difíceis que eu lhe trouxe, e, quem sabe, talvez até cancele meu passe de visitante! O Psicólogo: Não precisa mais se preocupar. Talvez não saiba que estou aqui em tempo integral. Mande livros de todos os tipos. Cuidarei para dar a cada paciente o seu livro, ou seja, o que ele puder apreciar sem dano para a saúde. De qualquer modo, assumirei a responsabilidade e providenciarei para que o médico não a jogue sobre você. A Segunda Lei: Agradeço desde já. Que posso lhe mandar, professor? O Paciente: Alguma coisa do Croce, em italiano, por favor... É tão gentil da sua parte pensar em nós, pobres infelizes. Estou cansado. Não aguento mais ficar sentado. Posso, com sua licença, recolher-me? O Psicólogo: Sim, com certeza. Atendente! A cadeira de rodas. A Segunda Lei: Professor, transmita minha mensagem de leito em leito. Quando meu bibliotecário circular com o carrinho de livros, cada pa- ciente dirá a ele o que deseja. Agora que o Psicólogo está aqui, posso mandar qualquer coisa que eles peçam. O Paciente: Muito obrigado, Deus o abençoe. Até logo. A mãe do surdo: Imagine a disposição do velhinho em ficar estudando seu italiano mesmo estando de cama. O Analfabeto: Que Groce é esse, dona? 83 O Cego: Ah! Você não o conhece! É Croce e não Groce, um dos maiores filósofos vivos. É italiano, e, é claro, escreve em italiano. O Psicólogo: Também sou encarregado da prisão local, quer dizer, como psicólogo, tenho também que cuidar dos internos. A Segunda Lei: Mas, o que posso fazer? Foi só outro dia que mandei meu bibliotecário dar uma volta com o carro-biblioteca. O velho carcereiro aí ficou duro feito pedra. Rosnou algo como “O quê! Livros para esses assassinos detestáveis!” Parece até que insultou meu bibliotecário, dizendo “Se não tem um jeito melhor de ganhar a vida, aproveite a primeira oportunidade de assaltar uma casa, e terei a oportunidade de lhe conseguir trabalho”. O Carcereiro: O quê? Quando foi isso? A Segunda Lei: Alguns meses atrás, acho. O Carcereiro: Graças a Deus! Não era eu! O Psicólogo: Tudo isso agora são águas passadas. Esse velho carcereiro já se aposentou. Parece que você não faz ideia de como as reformas recentes humanizaram tudo. Esse tipo de carcereiro sarcástico já era. Agora estão recrutando pessoas qualificadas, pessoas simpáticas, que querem recuperar os criminosos ao invés de mantê-los eternamente presos. Por isso é que me querem lá. O Carcereiro: Asseguro-lhe, dona, que a senhora terá sempre minha en- tusiástica cooperação na sua missão filantrópica. Em nome do meu predecessor, apresento-lhe e ao seu bibliotecário o meu mais sincero pedido de desculpas. A Segunda Lei: Muito obrigado, senhor, mas fico muito contente ao saber dessa mudança. Estou muito feliz. Um problema difícil que trouxe para esta conversa já está assim resolvido. O Psicólogo: Você tem a lista dos livros que mandou outro dia? A Segunda Lei: Aqui está. O Psicólogo: Tudo bem, enquanto estiver funcionando... Mas parece que você esqueceu completamente os prisioneiros políticos. Eles gostariam de receber livros e mais livros, de economia, política, metafísica, socio- logia, e assim por diante. A Segunda Lei: Eles permitirão esses livros na prisão? O Psicólogo: Certamente, por que não? Apesar de tudo, é com a maior relu- tância que o governo manda essas pessoas cultas para a prisão. É mais para justificar a majestade da lei, do que para privá-los da liberdade. Jogadores de fim de semana e infratores da lei do sal* são normalmente os maiores intelectuais da comunidade. São presos apenas por causa de * Lei que proibia a fabricação do sal, mesmo artesanal, sem autorização. Foi proposital- mente violada pelo Mahatma Gandhi, em manifestações ocorridas em 1930, quando ele e inúmeros de seus seguidores foram presos. (n.e.) a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia84 delitos técnicos, e o governo também se preocupa para que se permita a estas pessoas uma boa oferta de livros e periódicos, para que sua inércia forçada não termine em mórbida melancolia. O Carcereiro: Sim. Esta é a política correta. Enviarei hoje à noite para o senhor uma lista do que eles querem. A Segunda Lei: Levarei em mãos tão logo ela chegue e farei com que os livros cheguem a você amanhã,por volta do meio-dia. Mas nosso serviço não estará em sua melhor forma, a menos que entremos em contato direto com nossos leitores. O Carcereiro: Isso é fácil. Vou incluir seu bibliotecário em nossa lista semanal de visitantes. Isso vai ajudar? A Segunda Lei: Isso é o ideal. O Cego: Senhoras e senhores, estou contente que vocês façam isso tudo por aqueles que estão presos. E nós que estamos presos em perpétua escu- ridão? Soube que, pelo último censo, chegamos a um total de 479 637.105 A Segunda Lei: Com certeza, este é o meu próximo ponto para discussão. Estou consciente de que quinze em cada dez mil pessoas são cegas em seu país.106 Mas, tenho livros para vocês também. O Carcereiro: O quê? Cego pode ler? A Segunda Lei: Sim, os livros em Braille. O cego pode lê-los com as pontas dos dedos. O Carcereiro: Isso é novidade para mim. Eles se parecem com livros de verdade? A Segunda Lei: Sim, mas são muito volumosos. A Bíblia compõe-se de 38 tomos que medem 25 cm por 31 cm por 5 cm; enquanto um romance de Scott ou Dickens chega a ter de 8 a 10 tomos com as mesmas dimen- sões.107 Além disso, são muito pesados. Cada volume em Braille pesa quase 2,5 kg.108 Mesmo assim, como o cego não pode ir à biblioteca, eles são normalmente remetidos pelo correio e o correio cobra apenas uma taxa nominal. O Analfabeto: As letras são fáceis? Podemos aprendê-las? O Psicólogo: Por quê? Sua vista é boa e você pode aprender a escrita usual. As letras do Braille são formadas com pontos em relevo, arranjados de acordo com um código. O Carcereiro: E quando isso foi inventado? A Segunda Lei: Muito tempo atrás. Há mais de um século. De fato, foi em 1827 que se publicou o primeiro livro para cegos no Reino Unido.109 A primeira edição completa da Bíblia em Braille foi feita em 1890.110 O Cego: Que coisa! No século pasado! Onde se conseguem esses livros? A Segunda Lei: A maioria dos países já criou uma biblioteca nacional para cegos. A Inglaterra fundou a sua já em 1882.111 Os Estados Unidos, pouco depois. A Alemanha, em 1894,112 e... 85 O Cego: E nós? A Segunda Lei: O movimento está se espalhando. Recentemente chegou à China e poderá chegar aqui muito em breve. O Cego: E enquanto não chega? A Segunda Lei: A Inglaterra e os Estados Unidos terão prazer em ajudá-los. O Cego: Terão eles livros em quantidade suficiente? A Segunda Lei: Ah, sim. Somente na Inglaterra, o estoque passa de 100 mil volumes. O Carcereiro: Cem mil volumes para cegos! O Psicólogo: Os livros, você sabe, são o principal refrigério com que contam os que padecem da cegueira. O Carcereiro: São populares? A Segunda Lei: Sim. Os usuários da biblioteca britânica para cegos excedem 10 mil, enquanto o empréstimo anual passa de 50 mil. E não faz muito tempo a rainha distribuiu prêmios para as crianças cegas que usavam as bibliotecas de forma mais eficiente. O Analfabeto: E o que eles leem? O Psicólogo: Naturalmente, todos os assuntos. As necessidades dos cegos não diferem materialmente das necessidades das outras pessoas. O nível de inteligência deles não é inferior, e algumas de suas faculdades muitas vezes são mais desenvolvidas.113 O Cego: É verdade. Um de nós é especialista em consertar relógios de qual- quer tipo. Sua oficina vai de vento em popa e seus concorrentes que enxergam usam os olhos para admirar o sucesso dele, maravilhados e com inveja. A Segunda Lei: Há atualmente vários jovens cegos que ingressam nas uni- versidades e se formam. O Analfabeto: Então, estamos piores do que os cegos. O Cego: Sim, como diz o Senhor, “Tendo olhos, não vedes?”114 A Segunda Lei: É fácil você ajudar a si próprio. O Analfabeto: Mas, eu não sei ler. A Segunda Lei: Se você for à biblioteca, alguém poderá ler os livros para você. Há leitores especialmente designados para esta finalidade. O Psicólogo: E, nesse meio tempo, você pode aprender a ler e escrever. O Analfabeto: Gostaria muito. Mas será que consigo? O Psicólogo: A biblioteca tem um clube de alfabetização. Matricule-se e em seis meses você saberá ler e não precisará mais de ajuda. O Analfabeto: Posso levar minha mulher? Ela também gostaria de aprender. O Carcereiro: Sim. E sua avó também! A mãe do surdo: E meu filho? Ele é surdo-mudo. A Segunda Lei: Para mim, não será um problema especial, desde que ele saiba ler e escrever. a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia86 A mãe do surdo: Ele não sabe. Esse é meu problema. A Segunda Lei: Então, encaminhe-o primeiro à minha irmã, educação para todos. Rapidamente ela o dotará com a capacidade de ler e escrever. Talvez nosso amigo, o Psicólogo, tenha mais informações. O Psicólogo: Hoje é bastante simples ensinar os surdos-mudos. Cuidarei disso. A mãe do surdo: Depois que ele aprender, você conseguirá livros para ele? A Segunda Lei: Com muito prazer. Estou aqui para isso. A mãe do surdo: Você já encontrou leitores surdos-mudos? A Segunda Lei: Muitos. Aqui está um relatório recente:115 Sobre a mesa de uma bibliotecária de referência uma moça passou um bilhete. Nele estava escrito: ‘Estudei somente até a quinta série. Você pode me indicar alguns livros para me ajudar a prosseguir nos estudos?’ A moça era surda-muda. Sentou-se ao lado da bibliotecária e começaram a trocar mensagens escritas numa grande folha de papel. ‘Quantos anos você tem?’, escreveu a bibliotecária. ‘Dezenove,’ ela escreveu em resposta, ‘Trabalho como passadeira numa lavanderia. Gosto de poesia, mas quero também estudar alguns fatos.’ [...] A jovem voltou muitas vezes para pegar mais livros, estimulada por saber que podia aprender graças à sua própria capacidade de ler. A mãe do surdo: Que menina encantadora! Gostaria que meu filho também tivesse esse conforto de espírito. A Segunda Lei: A verdadeira finalidade da minha existência está em pro- porcionar isso a ele. 25 O Coral da Biblioteca Todos cantam em coro: Há lugar para todos Não vá um diretor Malvado ou doutor Confinar os livros Para uma rica elite. Temos livros para todos. Livros para os ricos E livros para os pobres Livros para o homem E para a mulher também. Livros para os doentes E livros para os contentes Livros para os cegos E para os surdos também. Livros para os sabidos E livros para os mandriões Livros para os burgueses E livros para os peões. Livros para os letrados E livros para os apenados Temos livros para todos Para cada um e para todos. Um estranho entra, cantando: Livros para todos, sim. Livros para todos Mas falta acrescentar Livros na terra E livros no mar. O Carcereiro: Posso saber, senhor, com quem estou falando? O Estranho: Sou um marinheiro comum, senhor. Meu navio chegou a este porto ontem à noite. Ao passar pela rua, meus ouvidos captaram o coral. O porteiro me disse que vocês estavam fazendo uma mesa-redonda so- bre livros para excepcionais, e o velhinho gentilmente deixou-me entrar. O Carcereiro: Desculpe-me, mas você chegou muito tarde. Estamos quase terminando. O Marinheiro: Senhor, nossa reivindicação chamou a atenção de vocês? Somos as pessoas mais carentes do mundo, pois passamos o tempo todo sobre a água, flutuando de um lado a outro deste vasto mundo. A Segunda Lei: Aceito isso como uma consulta. Fique tranquilo, pois você não será esquecido. 26 A Terra e o Mar Embora as antíteses entre ricos e pobres, homens e mulheres, cidade e campo, normais e excepcionais tenham, desde o começo, atraído a atenção do público com resultados diferentes, a antítese entre terra e mar parece ter sido negligenciada por muito tempo, pois, como se diz, ‘longe dos olhos, longe do coração’. As pessoas que levam a vida no mar passam a maior parte do tempo longe de casa e suas exigências e carências raramente são notadas por quem leva uma vida sedentária em terra. Entretanto, 87 a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia88 mesmo na Índia, onde as atividades e empresas marítimas não são muito importantes, cerca de 600 mil pessoas116 passam mais tempo no mardo que em terra. Ainda que este caso nos seja lembrado, o problema de levar a cada marítimo o seu livro está cercado de dificuldades. Nas palavras da comissão executiva do Carnegie United Kingdom Trust, condições inerentes à vida no mar combinam-se para criar obstáculos para um serviço organizado. A impraticabilidade de conseguir apoio financeiro com impostos municipais; as constantes mudanças, exceto nas grandes companhias, na tripulação dos navios; as incertezas quanto à movimentação de cargueiros sem rota fixa; a necessidade de que haja meios para reposição de livros em muitos dos principais portos do mundo, todos são fatores que contribuem para a complexidade do problema.117 Apesar disso, a Segunda Lei da biblioteconomia insiste em que tais difi- culdades não são intransponíveis e devem ser resolvidas. Em resposta à sua insistência, a Inglaterra fundou, em 1919, o Seafarers’ Education Service, que procura fornecer livros para os navios em escala ambiciosa, tanto no que tange à organização quanto à seleção dos li- vros [...] Em maio desse ano, a World Association for Adult Education reuniu representantes dos armadores, dos sindicatos de marítimos e das sociedades missionárias. Uma comissão permanente foi então designada para executar o trabalho de fornecer bibliotecas como parte de um esquema educacional completo para os marítimos.118 261 Leitura da Tripulação A experiência logo mostrou que os marítimos liam os melhores livros e cuidavam deles com respeito. Especialmente em viagens de longo curso, a maioria dos livros é utilizada e estima-se que aproximadamente 75% da tripulação usufruem a leitura, enquanto menos de 10% dos que vivem em terra estão dispostos a isto. No fim de 1928, o número total de navios assim atendidos era de 1 276.119 262 Financiamento da Biblioteca dos Marítimos A questão relativa a como financiar adequadamente o fornecimento de livros para os marítimos foi amplamente debatida pelo Public Libraries Committee.120 Começa com a mensagem da Segunda Lei: livros para todos, seja em terra, seja no mar. Os marítimos não têm menos direito a um serviço de livros financiado com recursos públicos do que seus compatriotas que vivem em terra . A única dúvida diz respeito a se a responsabilidade por esse serviço deve ser honrada exclusivamente pelo Estado, pela cooperação entre o Estado e as prefeituras das cidades por- tuárias, ou somente por estas. Os membros da comissão não acham que a 89 última alternativa seja razoável ou viável. Tampouco recomendariam que o Estado devesse ser onerado com a totalidade desse encargo. Por outro lado, sugerem que a tarefa seja dividida igualmente entre as companhias de navegação, os próprios marítimos, os órgãos responsáveis pelas bibliotecas das cidades portuárias e o Estado. O Public Libraries Committee fez a seguinte análise da receita da Sea- farers’ Education Society durante seus primeiros cinco anos: Valor em libras esterlinas Companhias de navegação 6 899 Câmara da marinha mercante 500 Sindicatos dos marítimos 590 Carnegie United Kingdom Trust 2 385 Diversas pessoas jurídicas e físicas 390 Venda de livros, etc. 84 Total ............. 10 848 Esta análise revela a ausência significativa do Estado e das autoridades municipais. O Committee deveria chamar-lhes a atenção para o apelo constante da Segunda Lei e instá-los a que contribuam com sua quota, não necessariamente em espécie, mas, o que talvez fosse melhor, com livros, os do acervo da biblioteca central do Estado e os do acervo das bibliotecas municipais das cidades portuárias. 263 Os Faroleiros Os faroleiros necessitam de livros tanto quanto os próprios marinheiros. A sorte da maioria dos homens confinados na solidão dos faróis é tão dura quanto a de Robinson Crusoe em sua ilha deserta. Ou talvez pior. Enquanto Robinson Crusoe tinha a liberdade de perambular, até mesmo esta liber- dade lhes é negada. Embora o destino dos navios e seus passageiros, bem como a prosperidade de seus proprietários em terra dependam de seus serviços vigilantes e abnegados, não deixa de ser razoável que o apelo da Segunda Lei a seu favor seja ouvido com a maior boa vontade. Embora os faróis da costa possam ser atendidos pelas bibliotecas sucursais ou pelas bibliotecas municipais, conforme for o caso, deve haver uma organização central especial que atenda às necessidades dos faróis isolados em ilhas e embarcações. O total de faróis e navios-faróis que recebem regularmente livros na Grã-Bretanha e na Irlanda é de quase 300. 27 O Adulto e a Criança Os embates da Segunda Lei, porém, atingem a fase mais complicada quando tem que negociar a antítese entre o adulto e a criança. Por muito a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia90 tempo, todos acreditaram — e mesmo hoje alguns ainda acreditam – que a criança não tinha direito a livro algum, a não ser os didáticos, e que so- mente os ineptos ‘perderão tempo com leituras adicionais’. Por outro lado, acreditava-se — e alguns ainda acreditam — que, concluída a educação formal, já se teria obtido o melhor acesso possível aos conhecimentos que os livros podem oferecer. Basta assistir, do alto da ponte Cauvery, em Kumbakonam, às águas do rio Cauvery cobertas e ornadas com páginas de livros rasgados, ali atiradas por estudantes que saem do saguão da faculdade, depois dos exames finais. Muitos interpretam este ato como uma cerimônia que simboliza que eles superaram a etapa dos livros. 271 Educação Permanente Essa crença de que o adulto que concluiu a escola não precisa mais de livros remonta ao que se pode chamar a ‘teoria educacional do camelo’,* segundo a qual, antes de iniciarmos nossa jornada na vida, devemos rece- ber total e integralmente o alimento mental de que precisaremos ao longo de todo o caminho. Essa crença não reconhece que a maturidade tem suas aptidões, aspirações e urgências educacionais. Esta teoria, para a qual a educação tem que ver apenas com a educação das crianças, encontra, po- rém, fundamentação muito limitada na psicologia e tem pouco apoio da experiência prática. Naturalmente, as crianças devem ser educadas. Mas um sistema educacional que não reconheça a necessidade contínua do adulto pelos instrumentos da educação, será mera futilidade. Em qualquer democracia dinâmica, que esteja sempre desenvolvendo uma ordem de coisas nova e melhor, a tarefa definitiva da educação pública será cons- tantemente ensinar os adultos a participarem de forma inteligente dessa nova ordem de vida. Os adultos devem primeiro aprender a viver a nova ordem antes que possam ensiná-la. Foi a deplorável negligência deste fator que fez com que o relógio de nosso currículo escolar fosse cega mas prejudicialmente atrasado de vez em quando, por instância de poderosos políticos, que insistem em meter o nariz onde não são chamados, mas que, na plenitude de sua ignorância, desconhecem qualquer outro currículo a não ser aquele com que foram ensinados, em sua remota infância. Da prática da vida deve surgir a compreensão que traduza esse tipo de vida em educação para as crianças. Portanto, mesmo que a pessoa possua tantos graus quanto um termômetro, mesmo que se tenha graduado com a mais alta distinção, ela será flagrantemente inculta, ou logo se tornará, se parar * Menção à capacidade que o camelo tem de armazenar uma grande quantidade de água, de uma só vez, o que lhe permite varar longas distâncias nos desertos e sobreviver até oito dias sem beber. (n.e.) 91 de ler e deixar que o cérebro se enferruje a partir do dia da formatura. De fato, a educação começa no berço e só termina na sepultura. Todos os adul- tos educados estão, portanto, abrangidos no ‘todos’ de livros para todos. 272 Serviços para os Ex-alunos Persuadir o adulto que se formou em seu curso superior a se submeter ao poder da Segunda Lei constitui apenas um lado desta etapa da luta. A Segunda Lei temigualmente uma tarefa penosa a cumprir, que é convencer a universidade que seu interesse pela educação dos alunos não termina no dia em que ela lhes confere seu diploma. Embora não tenha o direito de impingir-lhes mais educação formal, compete-lhe o dever de continuar educando seus ex-alunos por meio dos livros da sua biblioteca. Uma das conquistas da Segunda Lei da biblioteconomia consiste em inculcar este novo dever, no qual as universidades progressistas e suas bibliotecas começam a participar cada vez mais. A Segunda Lei poderia até ameaçar a universi- dade, advertindo-a de que “você não pode reter o interesse e a lealdade de seus graduados, a menos que reforce este novo serviço para eles através dos seus livros. Deve haver esta ligação intelectual mais elevada. Sim, do ponto de vista nacional, e afinal de contas é o tesouro nacional que a mantém, este serviço aos ex-alunos é essencial, se não se quiser jogar fora o dinheiro gasto no ensino de graduação por falta de acompanhamento dos alunos formados.” 273 Reorientação do Ensino Isso nos leva à nova orientação que a Segunda Lei causou nos métodos de ensino. Ela diz à universidade, “O melhor que você pode fazer pelos seus imaturos graduandos é despertar neles o entusiasmo pelo pensar e pelo hábito de leitura. Lembre-se, a educação não termina na sala de aula. Tenho que começar onde você terminou. É mais fácil para mim fazer com que os graduandos que leem continuem lendo do que reconquistá-los para a leitura depois de pessoas feitas. Em troca, nada tenho a opor a que você dependa de mim, mais amplamente, durante suas aulas; na verdade, estou bem preparada para ficar ao seu lado em seu trabalho diário e dar a mão ao graduando, levando-o a andar com as próprias pernas quando a deixar para trás.” Da mesma forma, ela diz às escolas, “A esperança do futuro depende das crianças de hoje. Lembre-se que uma grande proporção das crianças sai diretamente de seus cuidados para os meus. Não existe uni- versidade para eles. Portanto, é imperativo que você lhes ofereça a maior oportunidade em sua biblioteca escolar para formar o correto hábito de leitura. Você sabe que a criança que adquire um amor profundo pela leitura na escola tem mais probabilidade de continuar com esse hábito de leitura depois que sai da escola. Portanto, fortaleça o trabalho da biblioteca escolar a segunda lei e sua luta as cinco leis da biblioteconomia92 de modo que eu possa fortalecer o trabalho da biblioteca do futuro.” Em sua tentativa de superar a embaraçosa antítese entre o adulto e a criança, esta é a conciliação e a compreensão que a Segunda Lei está alcançando entre os antigos e os novos instrumentos da educação, ou seja, escolas e faculdades de um lado, e a biblioteca de outro. 28 Democracia Ilimitada Assim, a luta da Segunda Lei da biblioteconomia deveu-se grandemente à ilimitada democracia e universalidade de seu apelo. Os caprichos da na- tureza podem militar contra a lei da democracia em muitas esferas da vida. Nenhum credo político ou ético pode uniformizar as diferenças físicas, de temperamento e inteligência mais do que as diferenças de altura ou cor. Mas, a lei livros para todos mostrou ser mais do que um adversário à altura dos perversos caprichos da natureza. Ela pode cegar alguns; pode atar a língua de outros; pode lançar a sorte de outros destinando-os à soli- dão; pode sujeitar a maioria ao jugo da miséria. No entanto a Segunda Lei tratará a todos como iguais e oferecerá a cada um o seu livro. Obedecerá escrupulosamente ao princípio da igualdade de oportunidades em relação aos livros, ao ensino e ao entretenimento. Não terá descanso enquanto não houver reunido todos — ricos e pobres, homens e mulheres, quem mora em terra firme e quem navega os mares, jovens e idosos, surdos e mudos, alfabetizados e analfabetos — a todos, de todos os cantos da Terra, até que os tenha conduzido para o templo do saber e até que lhes tenha garantido aquela salvação que emana do culto de Sarasvati, a deusa do saber. 281 O Episódio de Sambandhar Para fazer uma analogia com esta abrangência universal da Segunda Lei recuemos a Sambandhar e ao século vii.121 Shiyali, o lugar onde ele nasceu, ainda conserva a memória de sua última façanha. No dia em que ele se casou no povoado vizinho de Achalpuram, enquanto caminhava em volta do templo com sua recém-consorte, vendo que de repente as portas do céu se abriam, logo reuniu seus pais e parentes, os amigos e visitantes, criados e seguidores — e não somente estes, mas todos os moradores do lugar, todos os homens de todas as religiões, que acompanhavam ou não a multidão, fossem cegos ou aleijados, jovens ou idosos, de bom grado ou à força se não quisessem — reuniu todos, primeiro fê-los cruzar as portas do céu, e, por último, também ali adentrou com sua amada esposa e se tornou Um no Único, na companhia de todos os demais. Este último feito de Sambandhar, que servirá, em sua expressão de fraternidade universal, como um símbolo da Segunda Lei da biblioteconomia, é descrito com detalhes por Sekkilar, famoso biógrafo da região tâmil do século xii. 93a segunda lei e sua luta 122 as cinco leis da biblioteconomia94 * Na Índia medieval, as tentativas de alguns governantes para expandir sua influência no subcontinente e mais além. Campanha militar. Vitória ampla, conquista, influência alcançada no maior número de lugares. (n.e.) 94 CAPÍTULO 3 A SEGUNDA LEI E SUA DIGVIJAYA* 30 Abrangência No capítulo anterior, testemunhamos a lenta luta da Segunda Lei, de trincheira em trincheira, de obstáculo em obstáculo; neste, veremos o su- cesso arrasador de livros para todos, em sua desimpedida digvijaya ou expedição de conquista do mundo. O capítulo precedente enumerou os vários interesses adquiridos entrincheirados contra a marcha da Segunda Lei; este capítulo nos levará numa volta ao mundo na esteira da majes- tosa conquista da mensagem livros para todos. Por enquanto vimos a difusão da Segunda Lei em diferentes camadas e segmentos da sociedade; agora testemunharemos a difusão de livros para todos nos diferentes continentes e países. livros para uns poucos eleitos tinha existido desde que os livros são escritos. Mas, livros para todos é um conceito novo. Embora as bibliotecas existam desde tempos imemoriais, só as origens do ‘movimento por bibliotecas’ é que estão na memória de nossos avós. Não é nosso objetivo traçar a história das bibliotecas que foram constru- ídas tanto para acumular quanto para oferecer livros, no máximo, para uns poucos eleitos. Nosso esforço, por outro lado, será fazer um rápido levantamento do desenvolvimento do movimento em prol de bibliotecas de nossos dias no maior número possível de lugares. Não trataremos aqui de bibliotecas isoladas, por maiores que sejam, mas teremos que tratar de uma multidão de bibliotecas. A irrupção de miríades de bibliotecas, muitas delas, apesar de diminutas, palpitantes de vida e radiantes com o resplendor causado pela recepção da boa nova democrática anunciada pela incansável Segunda Lei. 31 Américas A Segunda Lei da biblioteconomia lançou as sementes do movimento por bibliotecas em todo o mundo. Algumas caíram em lugares pedregosos, outras entre espinhos, e outras em solo fértil. Mas parece que as sementes que caíram nos campos do Novo Mundo foram as primeiras a germinar. 95a segunda lei e sua digvijaya Parece que alcançaram o estágio de frutificação e que já começaram a espa- lhar novas sementes em todo lugar. Como os primeiros a cuidar desta nova família de plantas, os norte-americanos tiveram a oportunidade de fazer um trabalho pioneiro que está longe de ter sido modesto. Aproveitaram essa oportunidade única com um sucesso único. A energia, o entusiasmo e os recursos do Novo Mundo foram colocados incondicionalmente à disposição dessa espécie recém-germinada: o movimento por bibliotecas. Novos solos foram constantemente preparados, novos transplantes fre- quentemente feitos,novas espécies ousadamente cultivadas, novas classifi- cações cuidadosamente testadas, novas técnicas tornaram-se necessárias e foram inventadas, e surgiram facilmente novos adeptos em números cada vez maiores. Um astuto escocês, que ganhara uma montanha de dólares, distribuiu livremente sua fortuna para a causa desse movimento. A conju- gação de circunstâncias é de longe a mais propícia que jamais aconteceu. O resultado foi que os Estados Unidos passaram a ser considerados com justiça como a terra das bibliotecas. Se perguntarmos às nações do mundo o que sentem em primeiro lugar a respeito de seu próprio movimento por bibliotecas, a maioria começa dizendo, “Estamos seguindo a liderança dos Estados Unidos. Estamos adotando os métodos dos Estados Unidos.” Por conseguinte, seria conveniente começar nosso estudo da digvijaya da Segunda Lei com um breve levantamento de suas façanhas neste primeiro lar do movimento em prol de bibliotecas. 311 American Library Association O ano de 1876 parece ter marcado uma época do progresso do mo- vimento por bibliotecas nos Estados Unidos. Foi o ano de fundação da American Library Association. Discursando na 15a conferência dessa associação sob o título Seed time and harvest, o Sr. R.R. Bowker, um dos fundadores sobreviventes, disse Faz meio século, reuniram-se em Nova York três jovens com ideias e ideais, semente intelectual da qual ricos frutos se mostram neste conclave, na American Library Association e no desenvolvimento do moderno sistema norte-americano de bibliotecas, cujos métodos, conforme esta conferência internacional está a indicar, estão presentes em todo o mundo.123 No dia 4 de outubro de 1876, estes três jovens conseguiram reunir “noventa homens e treze mulheres”, que formaram “a American Library Association, na qual o Sr. Melvil Dewey, primeiro-secretário, orgulhosamente inscreveu- -se como o número 1, e à qual ele deu o lema ‘A melhor leitura para o maior número pelo menor custo’”. Na segunda conferência, realizada em 1877, a presença caiu para sessenta e seis, e numa outra, mais tarde, chegou até a ser mais baixa com trinta membros. Entretanto, com exceção das duas as cinco leis da biblioteconomia96 conferências bienais seguintes e o intervalo de 1894, a American Library Association tem realizado conferências a cada ano, chegando à marca de mil em 1902 e de duas mil em 1926. O número de associados, que começou com 103 nomes, cresceu agora para 11 833. Além disso, em 1850, os Esta- dos Unidos possuíam apenas 644 bibliotecas, muitas das quais estavam abertas somente para alguns eleitos. Mas hoje são mais de 6 500 bibliotecas, de portas abertas para todos. 312 Pesquisa sobre as Bibliotecas Podemos inferir a partir desses números impressionantes que a Se- gunda Lei chegou ao fim de sua missão nos Estados Unidos? A Ameri- can Library Association não tinha certeza da resposta a esta pergunta e, portanto, com a ajuda de uma pequena doação da Carnegie Corporation of New York, contratou os serviços, em julho de 1925, de um experiente especialista para fazer uma pesquisa da situação. As perguntas objetivas formuladas ao especialista foram:124 1. Quantas pessoas nos Estados Unidos e Canadá têm acesso a bi- bliotecas públicas? 2. Quantas não dispõem do serviço de bibliotecas públicas e onde moram? 3. Quantas bibliotecas públicas surgiram desde que a American Library Association foi fundada? 4. A que distância estamos da meta de um serviço de bibliotecas que atenda a toda a população? 3121 Resultados A Segunda Lei estava interessadíssima no relatório do especialista. A pesquisa foi feita com a maior rapidez possível e o relatório veio à luz em julho de 1926. Quais foram os resultados da pesquisa sobre as quatro questões fundamentais? Eis um resumo: 1. Cerca de 64 milhões ou 56% da população vivem em áreas onde há bibliotecas. 2. Cerca de 50 milhões ou 44% da população ainda não dispõem de serviço de bibliotecas públicas e, desse total, três milhões vivem em áreas urbanas e os restantes 47 milhões vivem em áreas rurais. 3. Desde que a American Library Association foi fundada, um dos seus objetivos, estabelecido no estatuto de 1879, a saber, “fomentar no país o interesse pelas bibliotecas [...] predispondo a consciência pública para a criação e o desenvolvimento das bibliotecas”, vem sendo cumprido de forma sistemática. Cerca de seis mil novas bibliotecas foram construídas. Ao invés dos dois milhões de volumes de antes, 70 milhões de volumes vieram a ocupar as estantes das bibliotecas públicas. Cerca de 240 milhões 97a segunda lei e sua digvijaya de volumes são emprestados anualmente e uma soma de aproximadamen- te 90 milhões de rupias é gasta por ano em bibliotecas públicas. 4. O objetivo de atendimento universal da população foi alcançado apenas em parte. Sem considerar os 44 milhões de pessoas que não dis- põem de serviço de bibliotecas, o número atual de volumes é totalmente inadequado. Corresponde somente a seis décimos de livro por habitante. O número de volumes emprestados por ano chega apenas a dois por habitante e o montante aplicado anualmente em bibliotecas públicas é inferior a uma rupia per capita. Esse atendimento insuficiente, do qual resultam médias tão baixas, atende à metade da população, deixando a outra metade a descoberto. 3122 Implementação A Segunda Lei protestou porque essa insuficiência e a consequente desigualdade de oportunidades oferecidas pelas bibliotecas não são nada democráticas, e perguntou: “O problema de fornecer serviço de biblioteca pública para 50 milhões de pessoas que atualmente não dispõem dele é grande o suficiente para pôr em xeque as melhores ideias e esforços de que você seja capaz. Você teve o honroso privilégio de iniciar o movimento por bibliotecas no mundo. Você vai tolerar a perda dessa honrosa posição?“ “Nada disso. Resistiremos,” disseram os Estados Unidos, e a American Library Association imediatamente encarregou125 o Standing Committee on Library Extension [comissão permanente de desenvolvimento biblio- tecário] de envidar um esforço organizado visando à meta de estabelecer um serviço de bibliotecas públicas adequado, ao alcance fácil de cada um, nos Estados Unidos e no Canadá, e a orientou para que isso fosse feito [...] em íntima cooperação com a League of Library Commissions [liga das comissões de bibliotecas] e todas as demais entidades interessadas, mediante quaisquer dos seguintes métodos ou similares: 1. Agentes de campo para prestarem assistência na instalação de agências estaduais de desenvolvimento de bibliotecas, bibliotecas municipais e biblio- tecas locais e melhoria das bibliotecas existentes. 2. Publicidade especialmente através de serviços sociais rurais e do meio escolar. 3. Distribuição gratuita e ampla de publicações que estimulem o desen- volvimento bibliotecário. 4. Pesquisas sobre condições e necessidades de bibliotecas, a fim de de- senvolver programas estaduais ou locais de bibliotecas. 5. Estudo e levantamento de leis de bibliotecas e elaboração de projetos de uma legislação-modelo. 6. Estímulo a demonstrações e iniciativas experimentais, especialmente em áreas do estado e do município. as cinco leis da biblioteconomia98 * No hinduísmo, vaso mágico ofertado por Surya, o deus-sol, a Yudhistira, e que fornecia alimentos de forma constante e infinita. Análogo, na mitologia grega, à cornucópia com que Zeus presenteou a cabra Almateia. (n.e.) 7. Estímulo à obtenção de subsídios privados como ajuda ao desenvolvi- mento de bibliotecas. 8. Estudos complementares sobre os problemas do desenvolvimento de bibliotecas. 3123 Realizações Uma breve descrição das atividades dessa comissão de desenvolvi- mento de bibliotecas,126 em 1929, nos dá uma ideia da seriedade com que o repto da Segunda Lei foi encarado. Se a quantia destinada pela comissão puder ser tomada como um indicador, pode-se dizer que era mais ou me- nos 50 mil rupias além das várias subvençõesconcedidas pela Carnegie Corporation para determinados fins. Foi realizada uma conferência em Chicago e um seminário de verão na University of Wisconsin, que serviu de curso de revisão para agentes de campo. Do lado da publicidade, muitos artigos de divulgação foram publicados em revistas destinadas ao homem do campo, como American Farming, Prairie Farmer e Southern Planter, em revistas femininas, como Farmer’s Wife e Women’s Home Companion, e em periódicos educacionais, como Illinois Teacher, School Life e Texas Parent- -Teacher. O total de matérias impressas e distribuídas gratuitamente entre a população foi de 75 670, além de muitos textos mimeografados. Seis exposições foram montadas e várias palestras ministradas em eventos. A comissão colaborou para a aprovação de legislação favorável em cinco estados e foram elaborados projetos de leis sobre bibliotecas em outros cinco estados. Conseguiu obter ajuda financeira de uma instituição filan- trópica destinada à criação de quinze novas bibliotecas municipais e ao melhoramento de treze outras já existentes. 3124 Aplicação à Índia Se o berço do moderno movimento por bibliotecas precisa de tanta publicidade, de tantas conferências e de tantas despesas para predispor “a consciência pública para a criação e o desenvolvimento das bibliotecas”, qual seria a necessidade de trabalho similar em nosso próprio país, onde o movimento por bibliotecas não passa de um nome? Não só inexiste aqui uma Carnegie Corporation que nos apóie, nenhum anjo com seu akshayapatra,* que nos dê uma interminável ajuda financeira, mas, por outro lado, temos o demônio da inércia, que parece ser um astuto kamarupi. Este monstro assume tantas formas diferentes quanto Proteu. Ora é um esnobe a zombar da publicidade da biblioteca, que considera vulgar, ora um cí- nico que tenta associar todos os serviços públicos a algum motivo pessoal inconfessável, ou um misantropo praguejando que jamais nos sucederá 99a segunda lei e sua digvijaya algum bem; ora aparece como ciúme, ora como uma filosofia paralisante. Uma atmosfera dessas não favorece o crescimento do movimento por bi- bliotecas. A ajuda talvez parta somente do Estado. Assim que o prestígio da ação do Estado clarear a atmosfera, o movimento em prol de bibliotecas poderá ter a oportunidade de preparar adequadamente a consciência da população e encontrar mais nutrientes no solo natural da opinião pública. 313 México Um passo para o sul nos leva ao México. Aqui, as sementes do movi- mento por bibliotecas parece que haviam sido lançadas em solo sáfaro, até que a Revolução de 1910 suscitou aspirações para a cultura popular. Os esforços iniciais, com o objetivo de mostrar que a cultura e a educação não poderiam ser uma reserva fechada das classes altas, não foram, entretanto, eficientes, até ser criado um ministério da educação pública por lei de abril de 1917. Este ministério foi incumbido pelo presidente com a tarefa de produzir a tão necessária ‘transformação social’. Assim sendo, tentou, pela primeira vez, construir uma ponte sobre o fosso cultural entre as classes altas e as massas. Em pouco tempo, descobriu que a única ponte adequada seriam as bibliotecas públicas e para isso estabeleceu um departamento de bibliotecas em setembro de 1920. Ao verificar que a maioria da popu- lação era analfabeta, o ministério teve que adotar métodos rápidos para erradicação do analfabetismo, com a ajuda do que ficou conhecido como ‘missões culturais’.127 O trabalho desse departamento foi tão bem-sucedido, que o México conta atualmente com cerca de 1 500 bibliotecas populares, mil bibliotecas escolares, 800 bibliotecas industriais e 500 bibliotecas rurais. Foram distribuídos em 1927 aproximadamente 700 mil volumes para as bibliotecas das zonas rurais. As verbas alocadas variam conforme a situação do tesouro nacional. Eram de aproximadamente 700 mil rupias em 1923, mas de somente 60 mil rupias em 1927. O número de leitores superou a marca de um milhão em 1927. A seção técnica do departamento mantém um catálogo coletivo dos recursos bibliográficos de todo o país e publica uma revista bibliográfica intitulada El libro y el pueblo. 3131 Dificuldades Superadas As dificuldades enfrentadas pelo ministério da educação nessa missão de ‘transformação social’ não foram poucas. O México é um país de muitas raças, muitos climas e muitas opiniões. Da mesma forma, é um país de castas e classes sociais [...] Grandes distâncias e comunicações lentas tornam muito difícil mobilizar a opinião pública [...] O complexo de inferioridade do índio em relação aos europeus [...] dificulta o progresso de integração nacional.128 as cinco leis da biblioteconomia100 Este México tão variegado está atualmente sendo integrado pelo ministério da educação por intermédio da escola e da biblioteca. Algumas bibliotecas são mantidas pelo governo federal e outras pelos governos estaduais. O seu acervo de livros tem o objetivo de atender ao gosto de todos e às necessida- des de todos. Inclui não só livros didáticos comuns, mas também manuais de técnicas industriais e agrícolas, bem como livros sobre ‘administração do lar’, conformes às necessidades locais. Conferencistas munidos de filmes e diapositivos são mandados até mesmo para os povoados mais remotos, a fim de atrair o povo para as bibliotecas. Criam-se espaços para as crianças destinados a estimular o hábito da leitura e o amor aos livros, antes mes- mo que os demais hábitos se consolidem. Assim, o México mostrou o que pode ser feito por um punhado de técnicos, trabalhando com entusiasmo e devotando toda sua energia a uma tarefa cheia de obstáculos, se tiverem o apoio de um ministério popular que lhes seja favorável. 3132 Ajuda de Carnegie Em 1926, a Segunda Lei induziu outro akshayapatra legado por Carnegie — The Carnegie Endowment for International Peace — a socorrer a veterana Library Association dos vizinhos Estados Unidos, dizendo-lhe “Por que não cruza a fronteira ao sul e ajuda a nova plantinha que está germinando em campos mexicanos? Eu assumo os custos.” A associação norte-americana aceitou, entusiasmada, essa oferta e nomeou um Committee for Library Co- -operation with the Hispanic Peoples [comissão de cooperação bibliotecária com os povos hispânicos] para dedicar atenção integral a esse gesto de confraternização. A comissão começou sua atividade com muita serieda- de, e com a ajuda de uma subvenção de cerca de 3 500 rupias da Carnegie Endowment enviou uma representação de influentes bibliotecários norte- -americanos ao segundo congresso anual de biblioteconomia, que se reuniu na cidade do México em abril de 1928. Esta visita amigável foi retribuída por uma comitiva mexicana que assistiu à conferência de West Baden da American Library Association. A comitiva aproveitou ao máximo possível sua estada para se informar por completo sobre os métodos biblioteconômi- cos norte-americanos. Visitaram várias bibliotecas, grandes e pequenas, e nenhum esforço foi poupado para que suas visitas fossem tão informativas e proveitosas quanto possível. Um resultado interessante de uma visita à Library of Congress foi o anúncio feito por seu diretor de que um conjunto completo das fichas catalográficas impressas desta biblioteca seria depo- sitado na Biblioteca Nacional do México. Como a Library of Congress não dispunha de verba para pagar a embalagem e transporte desse precioso instrumento bibliográfico, o Carnegie Endowment for International Peace ofereceu a quantia de cinco mil rupias para tal fim, além das 10 mil rupias que fornecera para cobrir as despesas da comitiva. 101 * Compare-se com a influência que a mesma obra exerceu no pensamento e nas ativida- des de Rubens Borba de Moraes voltadas para a modernização das bibliotecas públicas da cidade de São Paulo. Cf. O mestre dos livros: Rubens Borba de Moraes, de Suelena Pinto Bandeira (Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2007, p. 19-20, 24). (n.e.) a segunda lei e suadigvijaya 3133 Manual de Biblioteconomia Esse intercâmbio de visitas foi um estímulo para o crescimento do movimento por bibliotecas no México, e o problema de manter padrões adequados de administração tornaram-se muito sérios com esse aumen- to rápido do número de bibliotecas. Para fazer frente a essa situação o Carnegie Endowment aprovou rapidamente a dotação de cerca de 12 mil rupias para a impressão de 5 700 exemplares do livro Las bibliotecas en los Estados Unidos,* do Dr. Ernesto Nelson, para distribuição gratuita entre as bibliotecas da América Central e da América do Sul.129 Este é um manual cuidadosamente redigido, que descreve os métodos de administração de bibliotecas adotados nos Estados Unidos. O México deu-lhe uma recepção cordial como uma fonte proveitosa de informação. Na verdade, a demanda de exemplares foi tão grande que uma segunda edição teve que ser feita em 1929. Assim, a Segunda Lei viu o movimento por bibliotecas crescer vigorosamente dia após dia entre o povo mexicano. Em decorrência de seu crescimento bem-sucedido junto com a difusão de escolas rurais, “um México diferente do que existia antes da revolução está sendo forjado”.130 Quando a nação finalmente chegar à idade adulta, os estudantes de sua história descobrirão que uma grande parte do crédito pelo seu amadure- cimento recairá sobre a missão da Segunda Lei da biblioteconomia. 314 América Central e América do Sul O movimento por bibliotecas nas demais nações da América Latina está ainda em sua infância. Somente agora é que as ideias sobre a necessidade de difundir a educação entre as massas estão se expandindo na maioria desses países. Os homens e as mulheres da América Latina que têm fortuna ainda não se conscientizaram da necessidade e da sabedoria de fazer doações em dinheiro para as bibliotecas ou outras finalidades educacionais, “indo seus donativos preferencialmente para entidades religiosas e de caridade”.131 Por conseguinte, o custo de manter o movimento por bibliotecas recai sobre os próprios governos. 3141 Ajuda dos Estados Unidos da América A mensagem da Segunda Lei da biblioteconomia, contudo, está sen- do lentamente difundida em todas as vinte repúblicas que constituem a América do Sul. O Committee for Library Co-operation with the Hispanic Peoples da American Library Association está estendendo a esses países a mesma cooperação que vem oferecendo ao México. Na conferência de 1929, as cinco leis da biblioteconomia102 realizada em Washington, e à qual compareceram todos os embaixadores da América do Sul, o embaixador da Colômbia declarou Diante do Committee for Library Co-operation with the Hispanic Peoples estende-se um campo destinado a produzir uma abundante safra [...] Quem está a par do problema do comércio do livro reconhece depois de cuidadoso estudo que os Estados Unidos estão destinados a ser o centro do livro para o continente sul-americano [...] O Sul agora mais do que nunca precisa ler.”132 3142 União Pan-Americana Outra importante organização que tenta levar a cabo uma difusão uniforme do movimento por bibliotecas na América do Sul é a União Pan-Americana, que foi organizada em caráter permanente por meio de convenção adotada por unanimidade pela Sexta Conferência Internacional dos Estados Americanos, realizada em 1928. Uma das funções da União é “contribuir para o desenvolvimento de [...] relações culturais, [...] entre as repúblicas americanas”, conforme está enunciado no artigo sexto da convenção.133 A União, que está instalada em prédio doado por Andrew Carnegie, trabalha em íntima cooperação com a American Library Asso- ciation e com o Carnegie Endowment for International Peace e muito se espera de seu trabalho na propagação da mensagem da Segunda Lei da biblioteconomia em todas as vinte nações da América do Sul. 315 Feliz Aliança Deduz-se, pelo que foi dito acima, que um fator notável que caracterizou a expedição encetada pela Segunda Lei no Novo Mundo foi o permanente auxílio daquele constante aliado, Carnegie, e suas boas ações. É muito difícil crer que o Novo Mundo pudesse ter arrebatado a palma na corrida mundial das bibliotecas se não fosse pelo serviço extraordinário prestado por Carnegie à missão da Segunda Lei. Por isso, talvez não seja fora de propósito dedicar algum espaço ao próprio Andrew Carnegie, antes de deixarmos o Novo Mundo. 3151 Andrew Carnegie Filho de um tecelão escocês, de tear manual, que voltava para casa à noite totalmente desesperado com a dolorosa notícia, “Pois é, Andrew, não consigo mais arranjar trabalho”, e da filha de um sapateiro, que buscava melhorar as finanças da família com uma ‘confeitariazinha’ em Dunfer- mline, Andrew Carnegie começou a trabalhar aos 13 anos, ganhando 13 rupias por mês, como coletor de carretéis numa tecelagem dos eua,134 e, por fim, “emergiu das sórdidas espeluncas de Pittsburgh a distribuir dádivas pelo mundo afora”,135 como um aliado, enviado por Deus, da Segunda Lei da biblioteconomia. 103 * Um dos ancestrais de Rama, guerreiro audaz, famoso por sua incrível velocidade ao dirigir carros de guerra, e sua imensa generosidade, ao ponto de se dizer que ninguém saía de seu palácio de mãos vazias. (n.e.) a segunda lei e sua digvijaya 3152 Dois Carnegies A.G. Gardiner imaginou que havia dois Andrews Carnegies coexistin- do no mesmo corpo e com a mesma alma — o empresário que ganhava milhões e o filantropo que gastava milhões — sem qualquer conflito entre eles, e que cada um agia ao ouvir a palavra de ordem, desaparecendo quando a tarefa estava concluída. ‘Negócio!’, e aí surgia o rei do aço, afiado como uma navalha; ‘Humanidade!’, e então era o filantropo, extravasando bene- volência. Seu incomum tino comercial, incansável industriosidade e atilada antevisão pemitiram a Andrew Carnegie acumular uma fabulosa fortuna. 3153 O Evangelho da Riqueza Em seu ‘evangelho da riqueza’ (gospel of wealth), apresentado pela pri- meira vez na North Atlantic Review de junho de 1899, afirmou: Esta, portanto, deve ser a obrigação do homem de fortuna: um exemplo de modéstia, de um modo de vida sem ostentação, evitando exibicionismo ou extravagância; atender moderadamente às necessidades legítimas de quem dele dependa; e, feito isso, tratar todas as rendas excedentes que obtiver sim- plesmente como fundos fiduciários, que lhe caberá administrar da forma que, a seu juízo, melhor servir para alcançar os resultados que sejam mais benéficos para a comunidade. Assim, o homem de fortuna torna-se um mero depositário e agente para seus irmãos mais pobres.136 E este seu ‘evangelho da riqueza’ o levou a doar, à maneira de Raghu,* prati- camente tudo que economizara, “para o aperfeiçoamento da humanidade”. 3154 Carnegie Corporation A quantia que ele doou para beneficência pública foi de mais ou menos dez milhões de rupias. Grande parte desta soma colossal foi entregue à Carnegie Corporation of New York, criada por lei do estado de Nova York, incorporada na forma do capítulo 297 das leis de 1911, para promover o progresso e a difusão do conhecimento e da compreensão entre os habitantes dos Estados Unidos, ajudando escolas técnicas, instituições de ensino superior, bibliotecas, pesquisas científicas, fundos para atos de hero- ísmo civil, publicações úteis, e outras instituições e meios que, eventualmente, venham a ser julgados apropriados.137 3155 Doação para a Biblioteca Embora tenha declarado em sua carta de doação que “nenhuma pessoa as cinco leis da biblioteconomia104 * Uma das três mais populares divindades do hinduísmo, junto com Ganesh e Garuda, cultuado por sua força física, perseverança e devoção. Entre os poderes de que é dotado está a capacidade de voar e mudar de tamanho. (n.e.) prudente atrelará para sempre os fundos fiduciários a certos rumos, causas e instituições,”138 ele mostrou o que pensava ao fazer este adendo: “Meu desejo é que o trabalho que venho desenvolvendo [...] tenha continuidade nesta enas gerações futuras.”139 Sabe-se que o trabalho que o público associa ao nome de Carnegie é o que ele realizou como aliado da Segunda Lei e do movimento por bibliotecas em geral. Na verdade, dizia-se que “quando ele enfia a mão na algibeira é quase certo que dali tirará uma biblioteca”.140 Provavelmente, no fundo da consciência, suas inúmeras contribuições para as bibliotecas tivessem prioridade sobre todas as outras. Ele achava que só havia um remédio real para os males que assolam a raça humana e este remédio eram as luzes do conhecimento. ‘Let there be light’ [faça-se a luz] era o lema que, no começo, ele insistia em colocar em todos os prédios das bibliotecas. Ele sinceramente acreditava ser possível fazer com que as luzes chegassem a cada um simplesmente fornecendo livros para todos. Foi por acreditar de verdade na mensagem da Segunda Lei que ele passou a ser um adepto tão fiel do movimento por bibliotecas e estabeleceu uma aliança tão bem-sucedida com a Segunda Lei. 3156 Extensão às Colônias Britânicas Graças a uma emenda de 1917, a Carnegie Corporation of New York ampliou sua competência de modo que poderia possuir e administrar “quaisquer fundos que lhe sejam doados para uso no Canadá ou nas colônias britânicas com iguais finalidades [...] à semelhança da autoriza- ção legal para aplicar seus recursos nos Estados Unidos.”141 O primeiro resultado dessa emenda que ampliava sua área de atuação foi a Carnegie Corporation levar a doutrina da Segunda Lei para o Canadá. Contudo, em 1928, após constatar que o ambiente norte-americano estava imbuído da mensagem livros para todos, a Carnegie Corporation quis levá-la também para o hemisfério oriental. Motivada por este anseio, dirigiu o olhar para oeste, a partir de sua sede em Nova York, e avaliou imediata- mente as regiões visíveis do Velho Mundo. Primeiro, percebeu ao longe um minúsculo ponto vermelho que se destacava no continente europeu. Era o Reino Unido. Mas, ao saber que o sagaz escocês fizera um acordo separado e exclusivo para sua terra natal, seus olhos começaram a vas- culhar a costa do Atlântico em busca de outro ponto vermelho. Que bom seria se a Índia fosse banhada pelo Atlântico! Finalmente, localizou uma região bem vermelha na ponta austral do continente negro. Imediatamente, determinou que uma comissão especial transpusesse de um salto, como Hanuman,* o vasto Atlântico, e voltasse logo com um projeto definido 105 * A segregação racial na África do Sul, cujas origens remontam ao início da colonização europeia do território, no século xvii, foi sistematizada em lei em 1948. Somente em 1990, essa política — o apartheid — deixou de existir. (n.e.) a segunda lei e sua digvijaya para apresentar a era da Segunda Lei àquele importante posto avançado do Império Britânico no hemisfério sul. 32 África do Sul 321 Carnegie Commission Desse modo, uma comissão, formada por dois bibliotecários, um norte-americano e um escocês, desembarcou na Cidade do Cabo em 20 de agosto de 1928. Percorreu o país durante três meses e constatou que estava totalmente possuído pela rival da Segunda Lei, ou seja, livros para poucos eleitos. Encontraram, é claro, 211 bibliotecas. 322 O Filtro das Assinaturas Mas todas essas bibliotecas estavam protegidas “pela malha fina do filtro representado por uma libra pela assinatura”. Como consequência, havia uma presença mínima de leitores, de modo que as prateleiras tinham pouco espaço vazio, mesmo quando cada leitor tomava emprestados todos os livros a que tinha direito, e as bibliotecas clamavam por mais estantes. No entanto, se a Segunda Lei tivesse sido ouvida, muitos livros estariam constantemente emprestados e também haveria uma grande porcentagem deles sofrendo desgaste e sendo descartados, o que seria um alívio para a falta de espaço nas estantes. Assim, esse filtro de uma libra mantinha os brancos pobres à margem dos benefícios das bibliotecas. 323 A Barreira da Cor* Aos negros e aos pardos, que formavam a maioria da população, era totalmente negado o uso de livros. Os membros da comissão descrevem este enorme obstáculo no caminho de livros para todos em termos bas- tante inequívocos: O sul-africano aceita — talvez não haja outra saída — que o nativo lhe faça a comida, cuide dos seus filhos, arrume a casa, preste-lhe serviços pessoais, como buscar livros na biblioteca e devolvê-los, mas pressente que o fim desse regime estaria próximo se a esse criado fosse permitido abrir tais livros e lê-los naquele lugar.142 324 A Posição do Bibliotecário A comissão verificou que todos os males que resultam da negação das primeiras duas leis da biblioteconomia existiam em abundância na União da África do Sul. A pessoa selecionada como bibliotecário era comumente as cinco leis da biblioteconomia106 “alguém da localidade que tinha as qualificações geralmente aceitas de amor aos livros ou necessidade de emprego”. Os leigos que formavam a comissão da biblioteca invariavelmente usurpavam para si a atribuição de desempenhar “todas as funções executivas” que geralmente são considera- das “os motivos pelos quais os bibliotecários são capacitados, contratados e remunerados”. Nestas circunstâncias, “a biblioteconomia comumente não é considerada uma profissão, mas um mero trabalho de custódia”. O resultado absurdo da prevalência deste conceito de biblioteconomia é visto nas seguintes experiências vividas pelos membros da comissão: Por exemplo, numa cidade relativamente grande, onde, como de costume, fomos recebidos com irrepreensível hospitalidade, era servido chá durante nossas conversas. Servido pela bibliotecária e sua assistente que, depois de muito bem cumpridas suas funções, retiravam-se e não eram mais vistas. Em outros lugares o bibliotecário nem sequer nos era apresentado, e, insistimos neste ponto, não por causa de qualquer intenção de falta de cortesia por parte da comissão. 325 Padrão Equivocado Ademais, os membros da comissão constataram que os edifícios das bibliotecas eram “mal planejados, muito desconfortáveis e totalmente sem atrativos”. Também assinalaram que O mobiliário é construído [...] aparentemente sem levar em conta projetos que deram certo em outros lugares. As estantes muitas vezes começam a uns 60 cm acima do chão e vão até o teto, o que faz com que as escadas sejam imprescindíveis. Os mesmos livros eram encontrados em todas as bibliotecas, mas nenhum havia sido lido. Esta tendência de cada biblioteca adquirir todos os livros que seus leitores pudessem ocasionalmente solicitar, com total negligência pela cooperação e coordenação bibliotecária, levou a um triste desperdício de dinheiro, imobilizou recursos em livros improdutivos e impossibilitou que as pessoas tivessem acesso a importantes obras especializadas que teriam uma influência direta na superação do subdesenvolvimento do país. 326 Bibliotecas Universitárias Verificou-se que as bibliotecas universitárias haviam sido as que mais sofreram, devido à inexistência de um patrocínio forte da Segunda Lei. Os membros da Comissão registraram que As universidades de Pretória e de Grahamstown têm menos livros do que seria razoável esperar encontrar numa boa escola secundária nos Estados Unidos. [...] A bastante ambiciosa universidade do Witwaterstrand, em Joanesburgo, 107a segunda lei e sua digvijaya oferece o exemplo único de uma instituição de ensino superior sem biblioteca e sem bibliotecário. [...] Classificação, catalogação e aqueles recursos auxiliares para utilização dos livros, que são hoje considerados parte essencial de uma biblioteca universitária, ou inexistem ou são executados de maneira medíocre. Há uma carência desesperada de pessoal e é quase geral a falta de pessoal com formação bibliotecária [...] Os livros são guardados debaixo de chave. 327 Aplicação à Índia Esta longa transcrição das observações feitas pelos membros da co- missão se deve a que parece descrever as condições da Índia com grande precisão.A esperança de que as críticas feitas pelos membros da comissão a essas condições possa, talvez, abrir os olhos daqueles que têm a ver com a administração e a manutenção de bibliotecas na Índia é a única justifica- tiva para essa digressão tão longa. Voltando ao objetivo principal deste capítulo, indaguemos como a Carnegie Commission preparou o terreno para a penetração fácil e certa da Segunda Lei na União da África do Sul. 328 Recomendações da Comissão As viagens da comissão pelo país permitiram que a mensagem da Segunda Lei fosse levada às comissões de bibliotecas, especialmente às autoridades escolares, às autoridades do governo e, em suma, a qualquer pessoa ou entidade que pudesse ser convencida a parar e ouvir. Com raras exceções, as pessoas envolvidas reconheceram os erros de seus projetos e muitas vezes se mostraram espantadas pelo fato de não os terem notado antes. Quando o trabalho da comissão culminou na conferência realizada em Bloemfontein, de 15 a 17 de novembro de 1928, o peso morto de livros para os poucos eleitos foi sepultado, sem choro nem vela, e as únicas discussões havidas diziam respeito a detalhes no pressuposto de que à lei livros para todos estava assegurada a posse da terra e, de fato, um projeto foi finalmente preparado com o toque usual da Carnegie. 1. Recomendou-se ao governo da União da África do Sul que reconhecesse a necessidade de estimular todos os escolares no hábito da leitura, ministrando- -lhes orientação sobre o uso dos livros, e que reconhecesse que o fornecimento de recursos de bibliotecas constitui uma despesa legítima da receita pública do Estado, para que os serviços educacionais financiados pelo Estado possam ser eficientes e proporcionar um retorno justo e duradouro das quantias neles despendidas. 2. O governo da União e a Carnegie Corporation deveriam cada um contri- buir com uma quantia anual de 1 070 000 rupias por um período determinado, depois do qual a Corporation se retiraria aos poucos e finalmente iria para outros países, ficando o governo com responsabilidade integral. 3. O projeto da biblioteca nacional deveria consistir num centro principal, seis centros secundários, diversos centros menores e um sem-número de pontos as cinco leis da biblioteconomia108 de atendimento espalhados pelo país, em escolas de vilas, delegacias de polícia, agências de correios, albergues da juventude, e assim por diante. 4. Deveriam ser feitas representações à South African Railways e ao General Post Office para que colaborassem no desenvolvimento de um serviço gratuito de bibliotecas mediante o transporte gratuito de livros. 5. Os livros deveriam ser fornecidos a todos, independentemente da cor da pele. 6. Deveria ser formada uma associação de bibliotecários para manter pa- drões profissionais adequados e para propagar o movimento por bibliotecas. 7. Deveria ser proposta uma legislação bibliotecária adequada para estabe- lecer a autoridade da Segunda Lei em base permanente. 8. E, em último lugar, mas não menos importante, a comissão recomendaria que “é altamente desejável que um diretor ou um supervisor assuma o cargo” imediatamente para planejar a elaboração adequada do projeto junto com o National Library Board. A comissão enfatizou a enorme importância do passo inicial mencionado por último com as palavras Se os recursos financeiros da Corporation e os da União forem desperdiçados ou se se transformarem em sementes douradas que produzirão safras abun- dantes ano após ano dependerá em grande medida destes primeiros princípios de cultura biblioteconômica. 3281 Produção de Livros Antes de deixar a União da África do Sul, as condições atuais do mundo do livro na Índia exigem que se faça uma menção especial de uma medi- da de importância de longo alcance tomada pela Carnegie Corporation a pedido da comissão. A Corporation fez uma doação de cerca de 26 mil rupias a uma editora do país para capacitá-la a aumentar a quantidade e aperfeiçoar a qualidade bibliográfica dos livros impressos nas línguas indígenas bantu. 3291 África Oriental A Carnegie Commission fez recomendações similares para abrir o caminho para a entrada da Segunda Lei nas colônias das Rodésias e do Quênia. Mas, podemos saltar as partes restantes da África. 33 Europa Oriental A explosão de entusiasmo que caracterizou a recepção da Segunda Lei depois da Primeira Guerra Mundial em todos os países importantes da Eu- ropa é bastante inequívoca. Isso foi devido, em grande parte, à luz sinistra que a fornalha abrasadora da Grande Guerra lançou sobre os resultados fatais da oferta de oportunidades desiguais para a autoeducação, sob o 109a segunda lei e sua digvijaya feitiço das antiquadas gêmeas, educação para os poucos eleitos e livros para os poucos eleitos. Os ideais democráticos e as aspirações sociais gera- dos por essa conflagração levaram ao banimento dessas duas fomentadoras de discórdia, na companhia de algumas das cabeças coroadas da Europa central e oriental. O novo movimento mental das jovens nações que fazia pouco haviam se libertado de um longo período de repressão parece ter-se espalhado também nos países mais antigos e nos países neutros. Parece que todos competiram entre si para fazer, o mais rápido possível, os pre- parativos para a recepção em seu meio da Segunda Lei da biblioteconomia. Novas leis foram aprovadas e leis antigas foram emendadas para que sua mensagem fosse cumprida com a menor demora possível. livros para todos foi um dos clamores que rasgaram o céu europeu na década que se seguiu ao Tratado de Versalhes. Mas a maneira como o Movimento por Bibliotecas construiu seu caminho variou de um país para outro. 331 Grécia Não precisamos nos deter na desgastada Grécia que nos recebe em sua glória desbotada, ao cruzarmos o mar Mediterrâneo. 332 Bulgária O veículo que ela adotou no primeiro país a que chegamos em nosso caminho rumo ao norte a partir da Grécia reveste-se de um significado espe- cial para a Índia. Parece que a Bulgária nos mostra como deitar vinho novo em odres velhos. Ela possuía uma antiga instituição peculiar, denominada chitalista, que “é uma espécie de biblioteca combinada com as atividades de um teatro, cinema, salão social (centro comunitário) e biblioteca”.143 Esta respeitável instituição, muito estimada pelo povo, é o agente selecionado para distribuir livros para todos. As incontáveis conferências que organiza sobre assuntos de interesse atual, como higiene, agricultura, sociologia, ciência, religião, etc., levam à popularização dos livros, especialmente entre os jovens. O ministro da educação, que é um grande entusiasta das bibliotecas, conseguiu a aprovação de uma lei em 1928, que resultou no rápido crescimento do número de chitalistas, que já haviam chegado perto de 1 984. Ademais, nomeou uma supervisora de bibliotecas e a mandou para a Inglaterra e Estados Unidos para receber treinamento. Ela participa do conselho nacional de educação.144 O conhecimento especializado e o entusiasmo ilimitado desta supervisora de bibliotecas mostram que há representantes competentes da Segunda Lei na sua expedição pela Bulgária. 333 Romênia O vizinho ao norte da Bulgária, a Romênia, também adotou plano similar. Ao chegar a oportunidade de hospedar a Segunda Lei, ela facil- as cinco leis da biblioteconomia110 mente adaptou suas astras e atheneums para esta finalidade. Estas antigas instituições parece que se adaptaram imediatamente à ideia da biblioteca moderna, como peixe na água. A astra, que é sigla da associação de lite- ratura e cultura romenas, realiza cursos de alfabetização, organiza círculos de estudo e mantém bibliotecas. Tem a seu crédito em torno de três mil bibliotecas. As dificuldades financeiras experimentadas pelo ministério da educação levaram-no a confiar grandemente nestas antigas instituições e em doações de particulares para a difusão da mensagem da Segunda Lei. 3331 Dois Coelhos com Uma Cajadada As dificuldades financeiras tambémlevaram o ministério da educação a adotar outra medida interessante, que talvez valha a pena empregar em nosso país, onde, de província em província, o responsável pelas finanças traz à baila o espírito do mal dos compromissos financeiros, sempre que se suscita a questão de uma lei de bibliotecas públicas. Parece que o ministério da educação da Romênia tentou matar dois coelhos com uma cajadada. As oito mil e poucas bibliotecas escolares, que possuem mais de um milhão de volumes, criadas nos últimos anos, foram abertas ao público em geral. A economia na administração e o uso intensivo dos recursos bibliográficos advindos desta medida proporcionariam um grande alívio financeiro à maioria de nossas províncias por muitos e muitos anos. 3332 Retorno ao Analfabetismo Outra grande lição que a experiência da Romênia nos ensina é a inuti- lidade e o desperdício resultantes de um projeto de educação compulsória que não adote ao mesmo tempo a oferta de livros que são necessários para preservar e exercitar a alfabetização que custa tão caro. Apesar de a Constituição de Cuza, de 1866, ter incluído um capítulo sobre a educação compulsória gratuita, o censo de 1899 revelou “que 78% da população acima de sete anos de idade não sabem ler nem escrever, enquanto o nú- mero de mulheres analfabetas atinge 90%.”145 Tal era o estrago causado pelo retorno ao analfabetismo devido à ausência de serviço de bibliotecas. Portanto, pode-se ver que somente o mais inconsequente guardião das finanças públicas é que dirá, “disponho apenas do dinheiro suficiente para a educação obrigatória, mas nenhum para o serviço de bibliotecas”. 334 Iugoslávia As três novas nações da Europa central que formam os vizinhos oci- dentais da Romênia abraçaram o moderno movimento por bibliotecas com grande entusiasmo. Em cada um destes países, os ministérios da educação, desde o princípio, compreenderam que sua obrigação fundamental era permanecer no campo da erradicação do analfabetismo e da instalação 111a segunda lei e sua digvijaya de bibliotecas públicas, a fim de preservar a alfabetização adquirida. Na Iugoslávia, por exemplo, foi criado um departamento especial no ministé- rio da educação com o objetivo de desenvolver este novo instrumento de educação popular. O departamento já organizou mais de mil bibliotecas de vilas146 e aproximadamente 700 cursos para analfabetos, nos quais cen- tenas de homens e mulheres aprendem a ler e escrever. Os acervos destas bibliotecas de vilas incluem não só livros destinados à recreação, mas tam- bém os destinados aos ‘afazeres domésticos’, de forma que os aldeões, ao lê-los, possam levar uma vida mais feliz, mais asseada e mais inteligente. 335 Hungria Na Hungria, as coisas ainda não assumiram uma forma final. Ela ainda é muito pobre para oferecer livros para todos, pois ainda não se recuperou por completo das consequências da guerra, da revolução e do desmembramento do país. Ainda assim, a Segunda Lei faz o possível nesse país. O ministro da educação iniciou, em 1923, uma minuciosa pesquisa sobre as necessidades e os recursos para uma eficiente educação popular. Como resultado disso, foi redigido o projeto de uma lei de educação de adultos. O terceiro capítulo do projeto trata do movimento por bibliotecas. Torna obrigatória para as vilas e cidades a criação de bibliotecas. Prevê-se também em localidades muito pequenas e pobres, que não possam man- ter uma biblioteca própria, que sejam servidas por bibliotecas itinerantes mantidas pelos conselhos municipais e ajudadas pelo Estado. 336 Tchecoslováquia Mas o maior sucesso alcançado pela expedição da Segunda Lei somente foi acontecer na Tchecoslováquia. Tão logo conseguiu livrar-se das garras da Áustria — um nome que significava para ela “qualquer mecanismo que pudesse matar a alma de um povo, corrompê-la com um mínimo de bem-estar material, privá-la da liberdade de consciência e de pensamento, minar-lhe o vigor, quebrar-lhe a tenacidade e desviá-la da busca do seu ideal”147 – os ensinamentos de Palacky, um dos que a ‘despertaram’, logo acorreram à sua mente. Um desses ensinamentos era “somente pela edu- cação é possível encontrar o caminho da salvação”,148 sendo a educação interpretada não apenas como colocar as crianças na escola, mas como um processo de toda a vida. Esta educação significava oferecer livros para todos e, portanto, Mesmo com todos os problemas de uma nova nação a enfrentar, a Tchecos- lováquia tornou o serviço de biblioteca pública compulsório nas cidades e vilas pela lei de julho de 1919. Às povoações muito pequenas foram dados dez anos de moratória. Em 1929, o atendimento do serviço de bibliotecas era quase universal.149 as cinco leis da biblioteconomia112 * Antiga moeda divisionária equivalente a 1/16 da rupia. (n.e.) 3361 Legislação Bibliotecária As disposições da lei foram redigidas com a maior atenção pelos deta- lhes de ordem prática. Estabeleceu um sistema hierarquizado de bibliotecas. As comunidades com mais de 10 mil habitantes teriam um bibliotecário formado, a biblioteca teria todos os departamentos de uma biblioteca pública que seriam abertos todos os dias. Em comunidades menores, alguns departamentos podem ser dispensados, a biblioteca pode fechar alguns dias da semana e seria empregado como bibliotecário alguém que tivesse feito apenas um curso rápido de um mês de biblioteconomia. Em pequenos povoados, o professor poderia administrar a biblioteca com o auxílio de um manual prático, fornecido pelo ministério da educação. As despesas das bibliotecas são normalmente cobertas com o pagamento de taxas especiais locais. As comunidades mais pobres, entretanto, recebem ajuda do ministério da educação na forma de doação de livros adequados. O ministério deve também manter uma escola de biblioteconomia com o objetivo de formar a criação de um corpo de profissionais competentes que façam com que seja cumprida a Segunda Lei e realizem inspeções periódicas nas bibliotecas, a fim de que mantenham padrões adequados. 3362 Realização Como resultado dessa lei bibliotecária cuidadosamente elaborada, o número de bibliotecas subiu de 3 400 em 1920 para 16 200 em 1926. Existe, em média, uma biblioteca para cada 894 habitantes e 44 livros para cada 100 habitantes. O número de leitores permanentes da população total cres- ceu 7,1%, e o número médio de livros lidos por leitor por ano é de 18,3.150 3363 Aplicação a Madras A superfície da Tchecoslováquia compara-se à do estado indiano de Tamil Nadu, embora sua população seja equivalente a quase dois terços da dos tâmeis. Donde não se poder dizer que uma comparação entre os dois países seja injusta. A Tchecoslováquia não acha exorbitante uma despesa anual de 15 milhões de rupias com bibliotecas públicas.151 Na verdade, acaba sendo menos de dois anás* per capita. Nota-se a grande importância por ela atribu- ída às bibliotecas quando se compara este montante gasto com bibliotecas com a despesa total anual do Estado, que gira em torno de 10 bilhões de rupias.152 Ora, a despesa anual de Madras é de cerca de 17 bilhões de rupias.153 Tem-se a curiosidade de indagar qual é a despesa pública total de Madras com bibliotecas. Seria de pelo menos um milhão de rupias? Enquanto a Tchecoslováquia gasta quase 1,5% de sua receita com bibliotecas públicas, Madras não reserva nem 0,05% para serviços de bibliotecas. 113a segunda lei e sua digvijaya 3364 Minoria Linguística Outra característica que a Tchecoslováquia compartilha com nossa terra é a heterogeneidade do seu povo. São várias as raças que o formam e que falam diferentes línguas. Entretanto, ela tem demonstrado que estas características não têm necessariamente que ser vistas como um obstácu- lo no caminho do cumprimento das determinações da Segunda Lei. Na verdade, ela enfrentou a situação por meio de um generoso dispositivo da lei de bibliotecas, que estipula que cada comunidade onde houver uma minoria étnica formada por pelo menos400 pessoas, deve contar com uma biblioteca pública especial própria, cuja comissão administrativa será formada unicamente por membros dessa comunidade. Os interesses das comunidades, cujo número não atinja esse mínimo, devem ser levados em conta pela biblioteca principal da comunidade, na sua seleção de livros. 3365 Produção de Livros Outro exemplo relevante que nos é dado pelo governo da Tchecoslová- quia está no interesse com que estimula a produção de livros adequados para o uso das bibliotecas. O Sr. T.G. Masaryk, o primeiro presidente e, em certo sentido, o criador da Tchecoslováquia, criou um fundo de cerca de quatro milhões de rupias para a instituição de uma organização semi- pública “em relação estreita com os órgãos centrais do Estado” para dirigir as atividades culturais da nação. Foi denominada, apropriadamente, instituto Masaryk e funciona desde abril de 1925. Uma de suas atividades é fornecer livros que sejam adequados e em condições vantajosas para as bibliotecas [...] Mediante questionários especialmente projetados, o instituto estuda a psicologia do leitor, e o poder e a influência da palavra impressa [e] interessa- -se em encontrar bons livros para os jovens, para as bibliotecas escolares e a juventude em geral. Publica uma revista mensal de recensões, Unor, dirigida especialmente à literatura para a juventude, edita listas de livros recomendados para jovens leitores e organiza todos os anos exposições de material de leitura apropriado para os jovens.154 Este é um exemplo admirável de tudo o que será feito para promover o movimento por bibliotecas, por parte de um Estado que sinceramente acredita na mensagem da Segunda Lei. 337 Polônia Agora, um passo mais ao norte nos leva à Polônia — a perseguida Polônia — que recuperou sua plena liberdade somente depois da Grande Guerra. No momento em que a Polônia recuperou a independência polí- tica em 1918 e “a nação polonesa reunificada recuperou o controle de seu destino, a causa da educação tornou-se uma das principais preocupações as cinco leis da biblioteconomia114 da sociedade e do Estado polonês renascido”.155 Nas etapas iniciais, mui- tas instituições voluntárias, como a sociedade das bibliotecas populares [Towarzystwo Czytelni Ludowych] e a sociedade de educação popular [Towarzystwa Oświaty Ludowej], ganharam destaque e carregaram a tocha do movimento por bibliotecas com disposição e entusiasmo. A primeira delas é responsável pelo estabelecimento de cerca de 1 300 bibliotecas, en- quanto a segunda tem a seu crédito cerca de 500 bibliotecas fixas e cerca de 800 bibliotecas itinerantes. Os governos locais também estão fazendo a sua parte. A cidade de Lodz, por exemplo, tem uma biblioteca para adultos e cinco bibliotecas infantis. Estas bibliotecas são também centros de trabalho educativo realizado sistematicamente por meio de conferências populares e leituras ilustradas com música e imagens. Em muitas bibliotecas infantis estão sendo introduzidos o autogoverno e a autogestão. 3371 Legislação Bibliotecária O Estado percebeu, a esta altura, que as organizações voluntárias eram muito inadequadas para atender às necessidades do país em matéria de bibliotecas e que as determinações da Segunda Lei só podiam ser ade- quadamente cumpridas por meio de uma legislação. Um projeto de lei de bibliotecas, recentemente elaborado, torna compulsória em cada comu- nidade a instalação de uma biblioteca, enquanto as povoações menores serão servidas por bibliotecas itinerantes supridas pela biblioteca central do município. Os recursos financeiros necessários serão obtidos com o pagamento de uma taxa especial para as bibliotecas. A associação dos bibliotecários poloneses, em Varsóvia, está fazendo todo o possível para aprovar esta lei. Quando isso ocorrer, haverá cerca de 15 mil bibliotecas156 e a Segunda Lei vigorará para sempre na Polônia. 338 Rússia Soviética Um passo para o leste nos faz chegar à Rússia, esse vasto território que abrange dois continentes. Como certo grau de ceticismo parece ocultar-se nas mentes das pessoas sobre acontecimentos recentes na Rússia Soviética, talvez seja interessante começar a descrição das grandes conquistas da Segunda Lei nessa terra misteriosa por meio da transcrição da opinião esclarecedora e honesta de um observador imparcial, o professor Paul Mon- roe, diretor do International Institute, do Teachers’ College da Columbia University, com base em suas experiências de uma estada recente entre os russos. Seu relato sobre como a lei livros para todos está se espalhan- do pelos rincões mais remotos da Rússia encontra-se na seção intitulada ‘The village culture centre, cottage library or the people’s house’ [O centro cultural da vila, cabana-biblioteca ou casa do povo], num artigo publicado em International Conciliation: 115a segunda lei e sua digvijaya A população rural e dos povoados, desinteressada em teoria e desinformada, é a mais difícil de alcançar. Um instrumento criado para a educação dos cam- poneses é a ‘cabana-biblioteca’ também chamada centro de cultura ou casa do povo. Reserva-se um local para o uso cultural da pequena comunidade. Ali se encontram alguns livros, muitos folhetos, jornais e cartazes. Grande parte da educação da população é feita com auxílio de cartazes, produzidos pelo go- verno central e outras instituições. Referem-se a grande variedade de assuntos: puericultura, causas das doenças e especialmente de infecções; propaganda contra moscas, mosquitos, tênias e outras infecções ou portadores de infecção. Há cartazes sobre o uso de maquinaria agrícola, seleção de sementes, métodos de fertilização e cultivo da terra, como a aração profunda; cartazes contra o alcoolismo e contra a religião, religiões estrangeiras, relações externas e sobre todos os princípios comunistas. Estas cabanas-bibliotecas são sempre utilizadas para as reuniões dos camponeses à noite [...] Muitos desses centros culturais possuem rádio, e a transmissão recebida de Moscou é excelente. A maioria dos centros conta com um pequeno palco para apresentações teatrais e funciona como local de recreação. O teatro é um dos métodos apro- vados de instrução e entretenimento. As cabanas-bibliotecas são dirigidas por comissões, cada uma incumbi- da de uma atividade específica. Neste trabalho encontra-se também uma das principais agências educacionais para a melhoria da situação dos adultos. Uma forma muito popular de apresentação é a dramatização de notícias da semana por grupos escolhidos. Neste centro também se reúnem os comitês incumbidos dos vários inte- resses da vila e de seu governo: saúde, agricultura, escolas, estradas, relações com o governo do município ou do distrito, educação e propaganda comunista, organizações de jovens comunistas, etc. A questão da extensão das atividades de bem-estar e educacionais apa- rece novamente em conexão com estas instituições, bem como com as escolas. Posso apenas oferecer minha própria experiência. No distrito de Leninakan, a mais de 3 200 quilômetros de Moscou, que visitei, existem 201 vilas. O governo do distrito relata que em 65 delas havia instalado centros de cultura; que 65 outras vilas instalaram estes centros por sua própria iniciativa; deixando mais ou menos um número semelhante ainda não atingido. Pessoalmente visitei seis vilas. Todas tinham escolas; todas tinham cabanas-bibliotecas.157 3381 Proclamação de Lenin Na verdade, tão logo a Nova Rússia emergiu da Revolução de Outubro, o espírito de educação para todos baixou sobre ela com a velocidade de uma águia em companhia da Segunda Lei da biblioteconomia. A Rússia absorveu profundamente o conceito de Pestalozzi de educação social como o retoque num elo de uma grande corrente, que une toda a humanidade num todo único; e os erros na educação e na orientação das pessoas, em sua maioria, resultam de que alguns elos são isolados da corrente e se começa a filosofar sobre eles como se apenas eles existissem e, na qualidadede elos, não repre- sentassem a propriedade de toda a corrente.158 as cinco leis da biblioteconomia116 * Acrônimo de rabotchi fakultet, ‘faculdade para trabalhadores’. Escolas que preparavam operários e camponeses para o ensino superior, na União Soviética 1920. (n.e.) Lenin proclamou, no congresso pan-russo de trabalhadores sobre cultura para o povo de 1921: “É preciso lembrar que um povo analfabeto e sem cultura não pode vencer.”Afirmava que “a menos que as massas sejam educadas, será impossível chegar a uma verdadeira melhoria de seu bem- -estar econômico, será impossível haver cooperação e será impossível uma vida política autêntica.” Portanto, o primeiro fato para o qual a energia do novo governo se voltou foi o analfabetismo e a ignorância alarmante do povo. “Segundo o censo de 1920, 68% da população da União Soviética eram analfabetos [...] Uma das nossas tarefas primárias foi consequente- mente a abolição do analfabetismo. Em torno de 1933–1934, todo cidadão da União Soviética deverá ser capaz de ler e escrever.” Nas palavras do reitor da universidade estatal de Moscou, esta decisão fora tomada.159 3382 Serviço aos Neoalfabetizados Deste modo, a educação imediata da população adulta tornou-se uma parte muito importante do trabalho do comissariado da educação. O tra- balho envolveu a criação de centros de erradicação do analfabetismo; clubes político-culturais e salas de leitura (recantos de Lenin); casas de operários e camponeses; bibliotecas fixas e itinerantes; centros e revistas de autoeducação [...] trabalho de propaganda (in- clusive quadros vivos, peças teatrais, etc.) para campanhas especiais [...] Quem aprende rápido ajuda o vagaroso; os semialfabetizados ajudam os analfabetos [...] Tão logo conseguem ler um pouco são estimulados, como semialfabetizados, a frequentar a sala de leitura local instalada numa isba ou num clube, e depois a biblioteca. Depois de seis meses desse trabalho, instala-se uma escola para preparar os mais capacitados para ingresso numa rabfak.*160 3383 Realizações O décimo aniversário da Revolução de Outubro foi uma oportunidade para fazer um levantamento das realizações alcançadas ao longo desse período pela expedição feita pela educação para todos e livros para todos na Rússia. Constatou-se que aproximadamente dez milhões de pessoas aprenderam a ler e escrever [...] O número de bibliotecas fixas cresceu de 4 640 para 6 414, de bibliotecas itinerantes urbanas, de 3 054 para 25 579, e de itinerantes de vilas, de 3 167 para 4 343 [...] Na República Russa, em 1926, havia 7 250 círculos, nos quais estudavam 120 mil pessoas.161 O anuário mais recente de que dispomos menciona 46 759 escolas de alfabetização e 50 000 bibliotecas itinerantes.162 117a segunda lei e sua digvijaya 3384 Revista para Neoalfabetizados A difusão fenomenal do movimento por bibliotecas resultou num gosto tão disseminado pela leitura que frequentemente se encontra uma sala de leitura até mesmo nos saguões dos cinemas, onde o público espera pela próxima sessão. Para satisfazer a paixão pela leitura, manifestada por quem acaba de se libertar das garras do analfabetismo, é publicada uma revista mensal “intitulada Doloi Negramotnost [Abaixo o analfabetismo]; o uso generoso de ilustrações e diagramas no texto permite oferecer ar- tigos elementares sobre questões políticas e econômicas àqueles que mal começam a dominar a técnica da leitura”.163 3385 Produção de Livros As atividades do serviço de publicações da União Soviética ilustram o papel que o Estado deve desempenhar na reconstrução de um país como o nosso, onde o divórcio de mais de meio século entre a intelectualidade e a língua materna enfraqueceu esta de tal forma que as massas ignoram profundamente as transformações recentes no mundo científico, econô- mico, político e cultural. A União Soviética desenvolveu uma instituição, que são os correspondentes bibliográficos nas vilas: Estes correspondentes surgiram em resposta à conscientização por parte dos camponeses do papel que o livro desempenha. A missão do correspondente bibliográfico é manter o serviço de imprensa oficial do país informado sobre os tipos de livros que foram mais úteis para os camponeses, muitos dos quais estão apenas começando a ler, as ilustrações que se mostraram mais eficazes, os assuntos para os quais há carência de livros, etc. Este é só o começo do tra- balho de nossos correspondentes bibliográficos para difusão de livros na vila.164 A preparação sistemática de materiais de leitura para crianças está também nos primeiros estágios de progresso. 3386 Aplicação ao Caso de Madras Este interesse profundo e vigoroso que o Estado soviético vem dedican- do à produção dos livros necessários para que cada um receba seu livro, de acordo com os requisitos da Segunda Lei, estão em nítido contraste com as condições predominantes em nossa própria terra. A Madras Library Association verificou as graves dificuldades vividas por sua comissão de seleção de livros em tâmil por causa da escassez de livros nesta língua sobre temas atuais. O conselho da associação afirmou: A situação atual de nosso país exige de forma imperativa que nossas biblio- tecas promovam a circulação em grande quantidade de livros de teor infor- as cinco leis da biblioteconomia118 mativo. Mas, como foi observado, há muito poucos desses livros em tâmil [...] Sem dúvida, a lei da oferta e da procura determinará a solução também deste problema. Entretanto, a comissão reconhece que o estabelecimento de um número considerável de bibliotecas públicas contribuiria grandemente para formar a necessária procura. O conselho também apela ao governo e às universidades da província para que estimulem ativamente a criação da necessária oferta durante as etapas iniciais. Este é um dever legítimo e fundamental do Estado, que é responsável pelo bem-estar geral dos cidadãos, e das universidades, que têm como uma de suas funções principais a disseminação do conhecimento. De qualquer forma, as dificuldades nas etapas iniciais são muito grandes para serem superadas por qualquer instituição que não seja o Estado e as universidades. As experiências de outros países em circunstâncias similares tendem a confirmar esta opinião.165 3387 Resistência do Governo As universidades poderiam desculpar-se dizendo que a produção de conhecimentos, ao invés da disseminação, constitui seu dever fundamental e que, como ainda não cumpriram sequer esse dever fundamental, por es- tarem permanentemente envolvidas na roda-viva dos exames, não haveria perspectiva próxima para desenvolver o lado da extensão. O ministro das finanças do governo, que parece ter ficado assustado com a provável conta de lucros e perdas anuais de tal aventura, não se deixou convencer e disse que a “associação entre a responsabilidade do Estado pelo bem-estar geral de seus cidadãos e a promoção da edição de livros adequados para uso desses cidadãos é mais retórica do que comprovada”.166 3388 Instruindo as Autoridades Em tais circunstâncias, a Segunda Lei da biblioteconomia terá que desenvolver intenso trabalho de doutrinação nos gabinetes ministeriais e nos claustros acadêmicos para instruir, em primeiro lugar, os que ocupam altas posições e os que possuem alto nível intelectual, sobre as experiências por que passou em outras nações progressistas, antes que possa alimentar a esperança de oferecer a cada indiano o seu livro. 34 Escandinávia 341 Finlândia Voltemo-nos agora para o oeste e examinemos a Finlândia e sua hos- pitalidade para com a Segunda Lei. Algum apressado indagaria, “O que essa terra fria e distante, escassamente povoada e pouco conhecida, tem para nos ensinar?” Não há dúvida que a Finlândia fica muito distante. Na verdade, encontra-se em grande parte dentro do círculo ártico, o que, sem dúvida, a torna terrivelmente fria. Ela nem mesmo vê o sol durante vários dias do ano. É também muito esparsamente povoada. Com uma superfície aproximadamentedo tamanho da nossa província, tem apenas 119a segunda lei e sua digvijaya três quartos da população do nosso distrito de Malabar. Mas, se é pouco conhecida, não é culpa dela, que não nos impede de conhecê-la. Entretanto, Ninguém que conheça algo dos finlandeses negará que formam a nação mais bem-educada do mundo. Nem a Alemanha, nem os Estados Unidos podem reivindicar igualdade com eles a respeito disso [...] O amor ao saber assim estimulado tem permanecido como uma característica proeminente do caráter finlandês até os nossos dias e é em parte responsável pelo progresso desse povo. São muito poucos os membros das classes menos privilegiadas que não sabem ler.167 Na verdade, sabe-se que, em 1920, somente 0,7% das pessoas que tinham completado 15 anos de idade não sabiam ler, nem escrever.168 3411 Lei das Bibliotecas Mesmo nos séculos de sua sujeição ao jugo estrangeiro, a Finlândia se dera conta da sensatez de obedecer à Segunda Lei da biblioteconomia. Entretanto, até conquistar sua independência em 1917, a língua finlandesa fora substituída por um idioma estrangeiro. Foi somente depois da Primeira Guerra Mundial que, livre desse ônus, a língua nacional recuperou seu lugar legítimo e que houve um crescimento acentuado do número de livros que serviam às necessidades dos trabalhadores agrícolas e industriais, e agora não há escassez de materiais de leitura, tanto científicos quanto de outras áreas como a educação.169 Ademais, até se libertar de seus senhores estrangeiros, as poucas bibliotecas, separadas por grandes distâncias, só se ligavam graças ao trabalho voluntário da associação finlandesa de bibliote- cários [Suomen Kirjastoseura]. Mas, por lei executiva de 1921 e depois pela lei de bibliotecas de abril de 1928, o Estado tomou sob sua responsabilidade o fomento ao movimento por bibliotecas. 3412 Realizações Essa lei colocou todas as bibliotecas sob a direção de uma comissão na- cional de bibliotecas, presidida por um membro do ministério da educação. O órgão executivo desta comissão é a repartição nacional de bibliotecas, administrada pelo diretor de bibliotecas. Esta repartição faz propaganda das bibliotecas, capacita bibliotecários, publica instrumentos bibliográficos e aperfeiçoa de todas as formas possíveis os métodos bibliotecários. Por causa do seu trabalho de fomento, 537 comunidades rurais da Finlândia são agora servidas por quase mil bibliotecas. De suas 38 cidades e 18 províncias, cerca de 80% têm bibliotecas públicas próprias. Sua cidade principal, Helsinque, que tem uma população de 227 375 habitantes, empresta mais de 700 mil volumes por ano. as cinco leis da biblioteconomia120 * Antiga moeda divisionária, a menor delas, que equivalia a 1/192 de uma rupia. (n.e.) 3413 Financiamento das Bibliotecas A lei de bibliotecas estabelece uma taxa para custear as bibliotecas, que normalmente chega a cerca de seis pies* por habitante. Mas uma caracte- rística importante, que nos interessa, pois nossa taxação centralizada é desproporcionalmente alta, é a do ‘sistema de meio subsídio’. O governo central cobre 50% das despesas com livros, salários, aluguel, etc., além de um subsídio especial para construção de prédios.170 A soma de subsídios assim pagos às bibliotecas em 1928 foi de cerca de 70 mil rupias. Percebe- -se que o subsídio do governo central não é tão pequeno quanto parece se lembrarmos que a população servida é inferior à de um de nossos distritos. 342 Noruega Podemos iniciar nosso estudo sobre os progressos da Segunda Lei na península escandinava com uma breve revisão da recepção que lhe foi dada pela Noruega. Embora o governo norueguês tenha financiado bibliotecas desde 1830, foi somente no século xx que a oferta de bibliotecas atingiu o nível exigido pela Segunda Lei. Ela conta atualmente com cerca de 60 bibliotecas municipais e mais de mil bibliotecas rurais.171 Existe um depar- tamento de bibliotecas vinculado ao ministério da educação. Sua função principal é efetuar o pagamento dos subsídios liberados pelo governo central e zelar para que as bibliotecas observem padrões adequados de funcionamento. Esse departamento também mantém algumas bibliotecas itinerantes, especialmente uma para marinheiros, que possui postos de atendimento em todos os portos da Noruega. Já se mencionou, na seção 2171, o papel de um desses postos de atendimento, numa vila de pescadores do litoral norte, na formação de um jovem pescador, que conseguiu sair da condição de carência em que vivia e conquistar a posição de professor. 343 Suécia A metade oriental da península escandinava oferece um testemunho mais marcante do advento da Segunda Lei da biblioteconomia. A história das bibliotecas suecas ilustra de forma esplêndida a transformação por que passará um sistema bibliotecário antiquado tão logo a mensagem da Segunda Lei o reanime. Vejamos um depoimento autêntico sobre os efei- tos do seu advento constantes de um manual confiável, publicado pelo governo sueco em 1914: As antigas bibliotecas paroquiais, que existiam há muito tempo em muitos lugares, foram vistoriadas em 1900. Constatou-se que ou consistiam dos re- manescentes deteriorados de coleções que originalmente haviam sido boas, ou de livros que estavam em boas condições, mas que quase nunca haviam sido 121a segunda lei e sua digvijaya utilizados [...] A primeira ajuda estatal às bibliotecas populares foi aprovada pelo parlamento em 1905. No Ecklesiastik-departementet [ministério dos cultos, de 1840 a 1967, quando foi substituído pelo ministério da educação], há desde 1913 dois especialistas em bibliotecas (bibliothekskonsulent), que apresentam relatórios ao ministério, informam ao público em geral sobre livros, etc., e supervisionam as bibliotecas subvencionadas pelo Estado.172 3431 Realizações A Segunda Lei foi, portanto, bastante bem-sucedida na Suécia ao con- fiar o fomento do movimento por bibliotecas ao próprio Estado. Dos dois especialistas em bibliotecas, um é encarregado das bibliotecas públicas e o outro das bibliotecas escolares. O responsável pelas bibliotecas públicas promoveu uma reorganização completa do sistema de bibliotecas com a introdução do ‘livre acesso’, mediante a instalação de departamentos infantis, a modernização dos edifícios das bibliotecas e a melhoria siste- mática da competência profissional do pessoal das bibliotecas. As vanta- gens decorrentes da modernização tiveram tal efeito positivo na opinião pública que o ano de 1929 assistiu à fácil aprovação da lei de bibliotecas pelo parlamento. Esta lei dispõe sobre a reorganização do serviço e um programa de organização de bibliotecas distritais (lan), equivalentes às bibliotecas dos condados norte- -americanos [...] O governo fornecerá 10 mil coroas por ano para cada distrito (cinco mil se o distrito criar uma biblioteca, 2 500 se o bibliotecário for capaci- tado, e 2 500 adicionais se a coleção de referência for adequada). O especialista em bibliotecas espera organizar duas bibliotecas por ano, e cobrir cada um dos 24 distritos em 12 anos.173 Além deste novo projeto de bibliotecas distritais, a Suécia já implantou cerca de 8 500 bibliotecas, inclusive as 1 299 bibliotecas escolares, que recebem anualmente uma soma de cerca de 15 milhões de rupias dos go- vernos locais e, adicionalmente, um subsídio do governo central de cerca de três milhões e 750 mil rupias, desde que o volume anual de empréstimos supere sete milhões de volumes. 3432 Biblioteca Escolar Com relação às bibliotecas escolares, também muito foi feito. A edu- cação foi planejada de forma a estar cada vez mais ligada diretamente às bibliotecas escolares. Os alunos recebem instrução especial sobre o uso da biblioteca e seus instrumentos. A reforma escolar de 1928 exige crescente autoatividade da parte dos alunos em íntima associação com as bibliotecas e isso já causou um aumento no financiamento das bibliotecas escolares. Em vez das 279 bibliotecas escolares de 1913, havia1 299 bibliotecas esco- lares em 1927. Em vez dos 300 mil volumes emprestados em 1923, foram as cinco leis da biblioteconomia122 emprestados dois milhões de volumes aos estudantes em 1927. Seria educativo calcular os números equivalentes para Madras. 344 Dinamarca Da tríade de países escandinavos, foi a Dinamarca que mais se benefi- ciou, oferecendo educação para todos e livros para todos. Com a ajuda de um sistema educacional conscientemente voltado para o desenvolvimento das indústrias — particularmente o singular sistema de escolas públicas de nível médio — e de um sistema cuidadosamente coordenado de bibliotecas públicas modernas, a Dinamarca, embora dotada pela natureza com uma riqueza agrícola comparativamente modesta, produz atualmente imensas safras e marca presença nos mercados mundiais [...] (e felizmente) interrompeu o êxodo para as cidades da população rural e construiu uma vida social rural, onde muitos dos problemas sociais enfrentados pelas comunidades rurais em outros países foram eliminados.174 Esta demonstração de êxito da Dinamarca deveria, oportunamente, abrir os olhos de nossas províncias para o único remédio seguro contra o devas- tador ‘êxodo para as cidades da população rural’ que já começa a ocorrer. 3441 Sistema de Bibliotecas Há outra lição que a Dinamarca pode ensinar àqueles que estão ansio- sos para atender às exigentes demandas da Segunda Lei, com a máxima consideração possível pela economia nacional. Seu sistema de bibliotecas caracteriza-se pelo mais completo esquema de coordenação possível. A cadeia nacional de bibliotecas começa num extremo com as duas biblio- tecas depositárias oficiais — a biblioteca real e a biblioteca universitária — em Copenhague, que são, por consentimento mútuo, especializadas, respectivamente, em humanidades e em ciências. O elo seguinte da ca- deia é o grupo de 80 bibliotecas municipais, das quais 27, localizadas em entroncamentos ferroviários, atuam também como bibliotecas centrais ou como bibliotecas-depósito secundárias. E, no outro extremo da cadeia, encontramos cerca de 800 bibliotecas de vilas espalhadas pelo país. O sistema de empréstimo interbibliotecário, junto com esta cadeia, coloca todos os recursos bibliográficos do país à disposição de qualquer leitor, independentemente de onde ele more, e reduz a duplicidade de livros ao mínimo com base na demanda real. Esta maravilhosa coordenação é uma das consequências da lei das bibliotecas de 1920, que, em certo sentido, nacionalizou as bibliotecas do país e colocou seu desenvolvimento e su- pervisão nas mãos de um diretor nacional de bibliotecas, que tem o apoio de uma forte inspetoria de bibliotecas. 123a segunda lei e sua digvijaya 3442 Financiamento das Bibliotecas A mesma lei colocou as bibliotecas municipais sob a responsabilidade dos respectivos municípios e as bibliotecas das vilas sob a responsabili- dade dos conselhos paroquiais das respectivas comunidades. Os recursos financeiros para as bibliotecas advêm de taxas locais suplementadas com subsídios do governo central, que são iguais às contribuições locais no caso das bibliotecas menores. O diretor nacional de bibliotecas é o responsável pelo pagamento dos subsídios, pela recomendação de padrões de equi- pamentos e métodos de trabalho, pelo fornecimento de orientação biblio- gráfica e pela organização do treinamento profissional de bibliotecários. O subsídio do governo central durante um ano atinge cerca de sete milhões de rupias e o montante recolhido com taxas locais e outras fontes atinge cerca de 12 milhões de rupias. Assim, as despesas anuais com bibliotecas públicas no país atingem cerca de 19 milhões de rupias. 3443 Realizações Há mais de um milhão de volumes no conjunto de todas as bibliotecas e o empréstimo anual é de cerca de cinco milhões de volumes. Adotam-se medidas de estímulo ao hábito de frequentar as bibliotecas até mesmo na etapa escolar. De fato, “em cada escola há uma biblioteca circulante, cada vez mais apreciada pelas crianças.”175 Portanto, a Segunda Lei da biblio- teconomia vem sendo acolhida pelo povo dinamarquês de forma perfeita. 35 Europa Ocidental 351 Alemanha Rumo ao sul penetra-se na república da Alemanha, onde é muito edu- cativo passar algum tempo examinando a maravilhosa organização das bibliotecas especializadas da Prússia, que já existiam antes do advento da Segunda Lei. Sua organização foi impulsionada pelo anseio de oferecer a cada estudante sério e a cada pesquisador o seu livro. Caracteriza-se pela mesma exatidão de detalhe, que se nota nos exclusivos Handbücher que apenas a Alemanha, entre todos os países, publica com tão grande variedade. 3511 Biblioteca Central do Estado O centro desta organização é a biblioteca do estado prussiano [Preus- sische Staatsbibliothek], em Berlim. Ao seu acervo de dois milhões de volumes são acrescentados, a cada ano, cerca de 50 mil novos volumes, e o número de periódicos correntes é de cerca de 20 mil títulos. A área do subsolo do edifício da biblioteca, com treze níveis de armazéns, possui cerca de 18 500 m2. O catálogo sistemático ocupa mais de mil volumes e seu índice alfabético, três mil volumes, aos quais cerca de 90 são acrescidos anualmente. Possui 320 funcionários, dos quais 76 são especialistas em as cinco leis da biblioteconomia124 * Referência, talvez, à Reichsverband Deutscher Bibliotheksbeamter und -angestellter [asso- ciação nacional dos funcionários públicos e empregados alemães de bibliotecas], fundada em junho de 1920, em Halle, e que encerrou suas atividades em 1933. (n.e.) diferentes ramos da ciência, que trabalham na classificação dos livros e ajudam os leitores na localização de suas referências. 3512 Cooperação entre Bibliotecas As bibliotecas das dez universidades e quatro escolas técnicas de nível médio prussianas, similares em organização, mas em escala menor, fun- cionam em estreita cooperação com a biblioteca central. Por entendimento mútuo, especializam-se em diferentes ramos do conhecimento, de forma que os recursos do estado destinados às bibliotecas como um todo são postos, com eficiência, num fundo comum de modo a garantir a aquisição do maior número possível de publicações diferentes. Esta característica deveria ter um significado especial para nós, pois até mesmo os diferentes departamentos de uma mesma universidade tendem a desperdiçar os escassos recursos do orçamento para aquisições de material bibliográfico, cada um deles insistindo na compra de seu exemplar de um mesmo livro, para uso exclusivo, mesmo que essa utilização só ocorra esporadicamente. 3513 Catálogo Coletivo A biblioteca do estado mantém um catálogo coletivo dos recursos de todas as bibliotecas especializadas e um centro de informação que auxilia o pesquisador, em qualquer parte da Prússia, a receber os materiais de que precisa, por meio de sua biblioteca local, enviados por qualquer biblioteca do estado. Não se pode negar que um sistema de bibliotecas especializadas, construído de modo tão criterioso, foi um dos fatores que contribuíram para a enorme produção científica da Alemanha. 3514 Bibliotecas Populares É claro que as bibliotecas especializadas somente atendem a uma pe- quena elite de acadêmicos e profissionais, a aristocracia intelectual, por assim dizer. Embora cumpram sua finalidade de modo admirável, estão aquém das expectativas do ideal pregado pela Segunda Lei: ‘Livros para os sabidos e livros para os mandriões’. O atual movimento por bibliotecas na Alemanha está nos seus trinta anos de vida, embora só tenha alcançado uma etapa aceitável pela Segunda Lei depois das mudanças sociais revo- lucionárias ocorridas na esteira da Primeira Guerra Mundial. A associação dos bibliotecários da república da Alemanha, fundada em 1922,* está rea- lizando uma propaganda tenaz a favor da Segunda Lei e tenta convencer as administrações locais e estaduais da necessidade de fortalecer este novo instrumento de educaçãouniversal para o fortalecimento da democracia. 125 * Institut für Leser- und Schrifttumskunde (1926–1937), fundado em Leipzig por Walter Hofmann (1879–1952). (n.e.) a segunda lei e sua digvijaya 3515 Instituto de Leipzig De longe, a contribuição mais notável da Alemanha em prol do atendi- mento dos requisitos da Segunda Lei é o trabalho que está sendo realizado pelo instituto de Leipzig.* Este instituto sobre leitores e leitura deve sua fundação aos persistentes esforços de W. Hofmann, para quem uma mera coleção de livros, de um lado, e uma multidão de leitores desassistidos, de outro lado, não formarão uma biblioteca pública moderna, que é aquela que deve ajudar cada leitor a encontrar seu livro prontamente. Salientava que o esforço humano capaz de estabelecer contato entre o livro adequado e o leitor adequado no tempo adequado e da forma adequada constitui um terceiro fator imprescindível. Não é fácil preparar candidatos para esse trabalho e não é qualquer um que terá a cultura, o temperamento e a personalidade exigidos para essa forma avançada, mas necessária, de serviço bibliotecário. Hofmann mostrava que o profundo conhecimento das bases psicológicas da leitura é tão importante quanto o conhecimento dos livros. O objetivo do instituto de Leipzig é oferecer o treinamento necessário ao pessoal da biblioteca para executar tal tarefa: o chamado serviço de referência. 3516 Aplicação à Índia Mesmo os profissionais mais avançados necessitam desse tipo de ser- viço pessoal, embora seja ainda mais necessário para as pessoas comuns e os estudantes. Se se apresentarem propostas sobre este aspecto essencial do serviço bibliotecário, leigos, que viveram a juventude numa época anterior à da Segunda Lei, as rejeitarão caracterizando-as com chavões como ‘pajear’ ou ‘paparicar’. São necessários muitos Hofmanns em nosso país para convencer as autoridades responsáveis pelas bibliotecas quanto à imperativa necessidade desse serviço pessoal e apagar de suas cabeças a noção antediluviana segundo a qual atendentes semialfabetizados, que mal conseguem ler as capas dos livros, e, por isso, não precisam ganhar mais do que ganharia um pedreiro ou um servente, tenham condições de formar um quadro de pessoal adequado para as bibliotecas. 352 Itália Dirigindo-nos para o sul, omitamos a Áustria, que não é diferente da Alemanha no que concerne à maioria das questões acadêmicas, e entremos na Itália. Embora Garibaldi antevisse a necessidade de bibliotecas e tivesse fundado várias bibliotecas populares, a maioria delas logo caiu em desuso. Foi somente na presente geração que elas foram reavivadas e grandemente as cinco leis da biblioteconomia126 * Federazione Italiana delle Biblioteche Popolari, fundada em 1909, como o que seria hoje uma organização não-governamental, por Ettore Fabietti (1876–1962). Existiu até 1932, quan- do o governo fascista criou o Ente Nazionale per le Biblioteche Popolari e Scolastiche. (n.e.) multiplicadas. Por exemplo, no lugar das quatro bibliotecas que tinha em 1905, Milão agora possui vinte. Durante a última década várias bibliotecas itinerantes (aproximadamente duas mil) foram também implantadas para atender às áreas rurais. 3521 Federação de Bibliotecas Públicas A federação italiana de bibliotecas públicas,* fundada há duas décadas, tem prestado um serviço persistente pela causa da Segunda Lei. Estimulou a formação de várias bibliotecas, promoveu a publicação de livros ade- quados para o uso popular, convenceu benfeitores privados, associações políticas, governos locais e o Estado a fornecerem ajuda financeira às bibliotecas, e organizou o treinamento profissional de bibliotecários. 3522 Ação do Governo Nos últimos anos, o governo fascista começou a ter interesse direto na promoção do movimento por bibliotecas. O seu Istituto di Cultura Fascista começou a financiar a publicação de livros para uso popular e a distribuí-los gratuitamente às bibliotecas mais pobres. O governo também nomeou um diretor-geral de bibliotecas estatais para reorganizar o sistema de bibliotecas do país. Criou também uma escola de biblioteconomia em Florença, que se somou às escolas mantidas pelas universidades de Pádua e de Bolonha. 353 França Rumo ao oeste, não precisamos perder muito tempo com a França, pois, apesar de ela possuir muitas coleções valiosas, o sistema de bibliotecas como um todo é desorganizado e fracamente desenvolvido do ponto de vista da Segunda Lei. Foi somente no pós-guerra que algum esforço passou a ser feito para introduzir algumas reformas adequadas. O tom melancólico que o presidente da Association des Bibliothécaires Français fez soar no parágrafo de conclusão da nota que remeteu à conferência comemorativa do cinquentenário da American Library Association comprova claramente que existe muito espaço de trabalho para a Segunda Lei. Afirma ele Em conjunto, à França não faltam bibliotecas especializadas, que oferecem uma variedade infinita de recursos intelectuais, mas que necessitam de esforços vigorosos para melhorar sua eficácia. As instalações para a leitura do público necessitam ser organizadas de forma mais democrática, e para atingir os tra- balhadores da cidade e do campo é preciso, em síntese, multiplicar ‘bibliotecas para todos’.176 127 * Jules Destrée (1863–1936), político belga. (n.e.) a segunda lei e sua digvijaya 354 Bélgica No sentido norte, chegamos à Bélgica, que, em superfície e população, quase corresponde à nossa região de Kerala (isto é, Travancore, Cochin e Malabar juntos). A Segunda Lei entrou na Bélgica com a promulgação da lei Destrée* de bibliotecas em 1921. Entretanto, sua excursão nesse pequeno país alcançou muitas conquistas. Já em 1928, a Bélgica contava por volta de 2 154 bibliotecas, com um total de 3 615 494 livros. Havia 517 822 leitores, que usaram 7 518 494 volumes.177 Tem-se uma medida dos feitos da Segunda Lei, ao se comparar estes números com os das 1 200 bibliotecas que emprestaram somente dois milhões e 650 mil volumes em 1921. Ainda há muito a ser feito pela Segunda Lei como se vê pelo fato de 946 das 2 675 comunidades belgas ainda não disporem de serviço de biblioteca. 355 Países Baixos Mais um passo para o norte e chegamos aos Países Baixos. Seu sistema de bibliotecas tem uma organização bastante inusitada. Historicamente, a Maatschappij tot Nut van ‘t Algemeen [sociedade para o bem geral] fundada em 1784 e comumente conhecida como ‘Nut’ [bem], espalhou seus ramos pelo país, organizada de modo a emprestar livros, de forma que a população da maioria das cidades começou a criar bibliotecas por meio de subscrição e por doações, sem esperar que os governos locais to- massem a iniciativa. São estas bibliotecas, administradas como instituições privadas, que são normalmente conhecidas como bibliotecas públicas nos Países Baixos. Seu número está em torno de 100, e uma biblioteca, depois que se consolida, passa a receber ajuda financeira dos governos locais e do governo central. A Vereniging van Openbare Bibliotheken [associação de bibliotecas públicas], central, com sede em Haia, é um órgão influente, de cuja recomendação depende normalmente o pagamento de subsídios às bibliotecas pelo ministério da educação. Algumas dessas bibliotecas públicas abastecem de livros as áreas rurais e, em troca, recebem subvenções adicionais da autoridade local. Um defeito deste sistema é que a receita de uma biblioteca não é fixa, flutuando, o que é inconveniente, de ano para ano, dependendo do número de leitores registrados e da situação financeira do governo central e das administrações locais. 356 O Reino Unido Depois de atravessar o canal da Mancha, aportamos nas ilhas britânicas e examinamos se a expedição empreendida pela Segunda Lei conseguira realizar algo ali. Embora a semente do Movimento por Bibliotecas tenha germinado com a lei Ewart de bibliotecas de 1850, a expansão da semeadura as cinco leis da biblioteconomia128* Árvore mítica capaz de atender aos desejos de quem se abriga sob sua copa. (n.e.) Anos Início de operação dos órgãos responsáveis por bibliotecas nos condados Início de operação de outros órgãos responsáveis por bibliotecas Total de órgãos responsáveis por bibliotecas que surgiram no período Observações Até 1850 0 1 1 1850–1859 0 22 22 1860–1869 0 17 17 1870–1879 0 43 43 1880–1889 0 73 73 Jubileu da rainha 1890–1899 0 139 139 Início da Carnegie 1900–1909 0 132 132 1910–1919 0 27 27 1920–1927 57 26 83 Projeto das bibliotecas Carnegie de condados Total 57 480 537 foi extremamente lenta por muito tempo, exceto no que tange ao pequeno estímulo em seu apoio representado pelas coleções comemorativas do jubileu da rainha Vitória. Mas o século xx presenciou esse movimento fertilizado por Andrew Carnegie, de maneira generosa, mas criteriosa. Isto fez com que a semente frágil e pouco promissora repentinamente flores- cesse com todo o vigor de uma kalpaka,* lançando seus frutos de maneira uniforme em todos cantos do Reino Unido, enquanto o Estado observava de longe com um sorriso de satisfação diante da boa sorte da nação. 3561 Carnegie A tabela acima178 mostra as consequências do advento desse afortunado aliado da Segunda Lei em solo inglês: nota-se que 71% dos órgãos respon- sáveis por bibliotecas só vieram a existir graças às doações de Carnegie. 3562 Carnegie e as Bibliotecas de Condados O discurso de sir William Robertson, vice-presidente do Carnegie Uni- ted Kingdom Trust, mostra que todo o projeto de bibliotecas de condados deveu-se somente à iniciativa dessa fundação: Fomos muito claros (por acaso eu fazia parte da comissão e posso falar com conhecimento de causa) que se o governo não concedesse aos condados as 129a segunda lei e sua digvijaya condições para dar continuidade a estes projetos (os projetos experimentais de bibliotecas dos condados haviam sido totalmente financiados pelo Carnegie United Kingdom Trust), teríamos que reexaminar por completo nossa posição e sustar a concessão de fomento aos condados para a continuação deste trabalho [...] Seria, naturalmente, absurdo estimular um condado a implantar o projeto por dois ou três anos e depois deixar que tudo viesse a se perder; nós, portanto, afirmamos enfaticamente perante o conselho de educação que, a menos que nos fosse apresentada uma lei dando poder à administração do condado para continuar o trabalho, a fundação deveria encerrar suas atividades. O resultado disso foi a lei que permite a vocês ir adiante e continuar o trabalho para cujo início nós os preparamos.179 3563 Passividade do Governo Além disso, a característica passividade do governo britânico na pro- moção do movimento por bibliotecas e na recepção da Segunda Lei foi ressaltada pelo visconde Haldane, então presidente da câmara dos pares [House of Lords], em seu discurso de boas-vindas aos delegados à segunda conferência das bibliotecas de condados: De questões como educação, de instrumentos como bibliotecas, deixamos ao cuidado de vocês [...] O Estado, naturalmente, terá que cuidar disso, mas ele não cuida enquanto isso não estiver funcionando. Então, dirá, ‘Isso é bom, isso é popular; vamos desenvolvê-lo e assim atrair votos para quem o administra!’ Espero que o movimento educacional em geral tenha chegado a essa etapa; o movimento por bibliotecas não chegou a tanto, embora ache que há sinais de que está chegando cada vez mais perto.180 3564 Resultados Entretanto, qualquer que seja a instituição envolvida nesse trabalho, a expedição feita pela Segunda Lei já obteve o maior sucesso na Grã- -Bretanha. O ideal de livros para todos foi quase alcançado. Por exemplo, 96,3% da população da Inglaterra e do País de Gales têm atualmente fácil acesso aos livros de que precisam. Cerca de 13 milhões de volumes são encontrados nas bibliotecas urbanas e rurais, enquanto o empréstimo anual se aproxima de 80 milhões. Cerca de 15% da população tornaram-se leitores regulares, enquanto a despesa anual com as bibliotecas urbanas e rurais, em conjunto, é de cerca de 15 milhões de rupias, que equivalem a cerca de metade de uma rupia per capita. Esta quantia é arrecadada mediante o pagamento de uma taxa especial para bibliotecas, cujo valor médio para áreas urbanas é de cerca de 2 pie de rupia, enquanto o valor médio para as áreas rurais é inferior a meio pie. 3565 Fase de Consolidação Na verdade, a expedição empreendida pela Segunda Lei já se tornou as cinco leis da biblioteconomia130 um êxito total no Reino Unido, uma vez que seu movimento por biblio- tecas ingressou na etapa final de consolidação e de coordenação em base nacional. 36 Oceano Pacífico 361 Austrália Deixando a ilha central do Império britânico, iniciamos nossa explora- ção do Oriente, com uma espiada na ilha-continente do mesmo Império. Esta colônia segue os passos da metrópole em sua hospitalidade para com a Segunda Lei da biblioteconomia, com as limitações devidas à ausência da relação com Carnegie. São por volta de 1 200 bibliotecas em todo o país, que recebem ajuda dos governos locais ou do governo central, conforme o caso. As necessidades de livros da população rural, que é muito disper- sa, são geralmente atendidas pelos órgãos chamados County Institutes, dos quais existem cerca de 230 para servir aos 250 mil habitantes do país. Com a ajuda de subsídios adequados pagos pelo governo central, estão realizando um bom trabalho e reuniram um acervo de cerca de 600 mil volumes, que estão em constante circulação. 362 O Arquipélago Havaiano Saindo dessa ilha imensa, passamos a um minúsculo arquipélago no meio do Pacífico. O arquipélago havaiano confirma o bom velho ditado ‘querer é poder’. São inúmeros os obstáculos naturais que tem de enfrentar para oferecer livros para todos. Localizado na encruzilhada do Pacífico, é um cadinho de várias nacionalidades. Sua população é formada de chineses, japoneses, portugueses, filipinos, espanhóis, alemães, russos, ingleses, norte-americanos e vários outros povos. Esta população poliglota está espalhada em oito ilhas principais e várias outras pequeninas. Esses obstáculos de língua e transporte não impediram que o Havaí viesse a sa- tisfazer às mais exigentes expectativas da Segunda Lei da biblioteconomia. 3621 Realizações O Havaí fornece, de fato, um serviço universal de bibliotecas públicas de alto padrão por meio de quatro bibliotecas municipais, que contam com 246 postos de atendimento. O financiamento do sistema de bibliotecas é proporcionado inteiramente pelo Estado, e o orçamento anual é de cerca de três milhões de rupias. Os bibliotecários frequentemente circulam pelas ilhas e entram em contato pessoal com os leitores, com a finalidade de compreender suas necessidades e orientá-los para uma gama mais ampla de estudos. Cerca de 700 mil empréstimos são feitos a cada ano. O intenso hábito de leitura que isso implica é percebido quando se nota que a população total do Havaí é de apenas 250 mil habitantes. Sabe-se que 131 * As prefeituras (ken) são as principais divisões territoriais japonesas, equivalentes, apro- ximadamente, aos estados brasileiros. (n.e.) a segunda lei e sua digvijaya mesmo a ilha mais remota, habitada por somente 15 homens que tomam conta de uma estação de cabo submarino, recebe a sua troca trimestral de livros.181 Isto é, na verdade, o cumprimento literal da lei livros para todos. 37 Ásia 371 Japão Agora é a vez do continente asiático. Antes dele, convém dar uma olhada no progresso da Segunda Leino Japão, no Extremo Oriente, que vem rapi- damente alcançando as primeiras posições entre as potências mundiais. O célere progresso do moderno movimento por bibliotecas no Japão durante o século xx é, ao mesmo tempo, causa e efeito de “sua rápida transição para a industrialização, de sua riqueza recente e o efeito de ideias políticas ocidentais sobre as massas”, bem como da maneira bem-sucedida como “as massas populares estão gradualmente se qualificando a ocupar seu lugar na expressão da opinião pública”.182 3711 Despertar Depois da primeira metade do século xix, quando o Japão “rompeu a política de isolamento e contemplou o mundo, surpreendeu-se ao ver tremulando, no litoral do lado da China, várias bandeiras desconhecidas: a tricolor, a inglesa e, mais próxima dela, a da águia de duas cabeças”.183 Notou também sinais visíveis de intromissões ameaçadoras em seu litoral. Isso o levou a dizer para si, ‘mude como o mundo está mudando’. Mandou seus melhores filhos para o mundo para descobrirem o que lhe faltava e o que deveria fazer. Quando regressaram com seus relatórios, disse: “Muito bem, meras revoluções cosméticas e a importação integral e indiscrimina- da de teorias inviáveis, forjadas na Alemanha, na França ou nos Estados Unidos não produzirão a necessária mudança. A única coisa que pode ser eficaz é a lenta mas firme transformação do espírito de cada cidadão, com um propósito definido e com um plano definido.” Por conseguinte, um edito imperial proclamou em 1812, “Fica decidido de agora em diante que a educação será tão difundida que não haverá uma vila sequer com uma família ignorante, nem uma família sequer com um membro ignorante.”184 3712 Crescimento do Sistema de Bibliotecas Depois que a educação para todos, assim anunciada sob os auspícios do imperador, ter lutado, sozinha, para abrir caminho durante quase uma geração, ela percebeu a necessidade de buscar a ajuda vigorosa de livros para todos. Por conseguinte, o ano de 1899 assistiu à aprovação da primeira lei de bibliotecas, que autorizava prefeituras,* cidades e vilas a criar biblio- as cinco leis da biblioteconomia132 * Região situada no nordeste da China, invadida pelo Japão em 1931, que ali instalou o estado-fantoche de Manchuko. Em 1945, voltou a fazer parte da China. (n.e.) ** Foi reorganizada em Taipé (Taiwan), em 1953. Em Beijing, na República Popular da China, foi criada em 1979 a sociedade chinesa de biblioteconomia (Zhongguo tu shu guan xue hui), que se diz ser continuadora da que foi fundada em 1925. (n.e.) tecas públicas. De tempos em tempos, o ministério da educação baixava instruções informais aos governadores das prefeituras, estimulando-os a instalar bibliotecas públicas. Isto levou a um rápido crescimento do número de bibliotecas durante os últimos trinta anos, como mostra o gráfico na página seguinte. “Em 1926–1927 havia 4 337 bibliotecas no Japão com 7 623 371 volumes.”185 3713 Agências de Promoção O ministério da educação publica uma lista semestral de livros próprios para uso popular. Também mantém uma escola de biblioteconomia, em associação com a biblioteca imperial, para treinamento de pessoal biblio- tecário. A associação japonesa de bibliotecários [Nihon Toshokan Kyokai], criada em 1892, é o órgão não-oficial que promove o movimento por bi- bliotecas. Faz intenso trabalho de publicidade e promove anualmente uma ‘semana da biblioteca’, celebrada com o maior entusiasmo em todo o país. 372 Manchúria* Poderemos presenciar o funcionamento de um novo instrumento de que a Segunda Lei lançou mão para oferecer livros para todos, ao ingressarmos no continente asiático na Manchúria. Trata-se das bibliotecas da estrada de ferro do sul da Manchúria que formam uma categoria própria. A empresa ferroviária mantém uma biblioteca bastante grande em sua sede, em Dai- ren, para uso dos empregados e do público em geral. Possui um acervo de mais de 120 mil volumes e destina por ano cerca de 25 mil rupias para a manutenção da biblioteca. Incumbiu-se, inclusive, da tradução de livros estrangeiros para uso da clientela. Estabeleceu ainda cerca de 20 bibliotecas públicas nas principais cidades e entrega livros em todas as estações ao longo da linha ferroviária, que percorre cerca de 1 120 quilômetros. 373 China Ao chegar à China, descobrimos que o movimento por bibliotecas ganhou grande impulso nas mãos do governo republicano. Um dos de- -partamentos do ministério da educação é o de educação social, que é responsável pelas bibliotecas públicas e pelas escolas para adultos analfa- betos. Outro órgão importante que colabora com a causa da Segunda Lei na China é a associação nacional de bibliotecários [Zhonghua Minguo tu shu guan xue hui],** fundada em 1925. O movimento por bibliotecas chinês 133 N Ú M ER O D E BI BL IO TE CA S EM F U N CI O N A M EN TO N U M A N O ANO está sendo também fortalecido com generosos donativos dos eua e de alguns comerciantes chineses. Embora a China tenha enviado durante muito tempo a maioria dos seus bibliotecários para estudar nos eua, o Boone College iniciou recentemente uma escola de biblioteconomia sob os auspícios de sua faculdade de artes, atividade esta que é complemen- tada por vários cursos de verão oferecidos por outras universidades. a segunda lei e sua digvijaya as cinco leis da biblioteconomia134 * Denominação, até 1935, da atual República Islâmica do Irã. (n.e.) ** Em sânscrito, Punjab significa ‘cinco rios’, que são Beas, Chenab, Jhelum, Ravi e Sutlej, afluentes do rio Indo. (n.e.) *** Durante o domínio inglês, assim se chamava um grupo de províncias no norte da Índia. Em 1950 foi formado aproximadamente na mesma área o estado de Uttar Pradesh. (n.e.) 374 Pérsia* Ao escalar a Grande Muralha da China não encontramos qualquer vestígio da Segunda Lei enquanto vagamos pelo Turquestão, Pérsia e Afe- ganistão. Numa comunicação sobre as bibliotecas da Pérsia, apresentada à sessão sobre serviços bibliotecários da primeira conferência educacional pan-asiática, de 1930, o Sr. Herrick B. Young, bibliotecário do American College de Teerã, afirmou que o movimento por bibliotecas ainda está realmente por começar nesta terra antiga. Solicitações de órgãos do governo, que podem organizar suas respectivas bibliotecas, e o interesse com que o jovem estudante persa contempla o trabalho em bibliotecas como uma profissão alimentam a esperança de que esse movimento esteja aqui em seus primeiros estágios.186 38 Índia 381 Punjab Entretanto, ao ingressarmos em nosso país através do histórico desfila- deiro de Kaiber, encontramos a Terra dos Cinco Rios** marcada aqui e ali com as pegadas recentes da Segunda Lei. O antigo vale do Sindhu é reco- nhecido como o berço de muitas instituições indianas. Como para respeitar esta antiga tradição, a Segunda Lei parece ter escolhido o Department of Public Instruction do Punjab para ser um de seus primeiros apóstolos na Índia britânica. São realmente gratificantes estas palavras: Outro recente desenvolvimento é a instituição de bibliotecas de vilas. São atu- almente mais de 1 600, anexas a escolas de ensino fundamental e médio. São mantidas pelos conselhos distritais com a ajuda de subvenções do governo, e estão abertas não só para os estudantes e ex-alunos, mas também para a popu- lação em geral das vilas, e ao mesmo tempo os bibliotecários são solicitados a fazer conferências e palestras sobre temas úteis para o homem do campo, além de ajudar as pessoas alfabetizadas a usarem as bibliotecas. Para isto, além de livros comuns, folhetos e revistas, fornecidos pelos conselhos distritais, o con- selho comunitário rural, além de remunerar o bibliotecário, consegue a melhor literatura disponível sobre assuntos de agricultura, cooperativas, saúde e outros tópicos de interesse especial para a comunidade das vilas.187 382 Províncias Unidas*** A influência da Segunda Lei parece ter também chegado à província vizinha. Conformese lê, 135 * Equivalente ao centro de recursos audiovisuais, ou recursos pedagógicos, das últimas décadas do século xx; unidade de tecnologia educacional. (n.e.) a segunda lei e sua digvijaya Outro importante projeto é a criação de bibliotecas circulantes e carros-biblio- tecas em distritos lançado pelo governo das Províncias Unidas no período ora examinado. Em 1924, esse governo decidiu estabelecer, em caráter experimental, em 1925–1926, bibliotecas circulantes em alguns distritos selecionados de acordo com as recomendações de uma comissão nomeada para assessorar o governo neste e em assuntos correlatos. Três distritos foram então selecionados para este objetivo em 1925–1926 e os conselhos distritais interessados receberam subsídios. O esquema foi expandido para mais um distrito em 1926–1927 e informa-se que o experimento alcançou razoável sucesso.188 383 Governo da Índia De fato, a Segunda Lei parece que conquistou a simpatia também do governo da Índia. Seu comissário de educação foi um dos primeiros con- versos à causa de livros para todos. Independentemente do que reformas futuras venham a fazer com a função desse comissário, esperemos e oremos para que os ministros provinciais de educação adotem as medidas iniciais para concretizar sua previsão de que “as bibliotecas ocuparão uma posição proeminente no campo da educação no futuro próximo e sua influência se fará sentir em todo o país”.189 384 Bengala Nossos irmãos bengaleses formaram uma associação de bibliotecários para disseminar a mensagem da Segunda Lei na província. 385 Baroda Somente aqui foram adotadas as providências mais satisfatórias para proporcionar livros para todos. Segundo o primeiro-ministro de Baroda, O movimento por bibliotecas de Baroda faz parte de um programa cuidadosa- mente planejado de educação de massas, inaugurado e desenvolvido por sua alteza o marajá Saheb [...] Um projeto de bibliotecas públicas gratuitas com base em subsídios foi implantado em 1910, tendo chegado hoje, a partir de um modesto começo, a uma rede de bibliotecas de distritos, cidades e vilas, além de bibliotecas itinerantes, que atendem a mais de 60% da população do estado. 3851 Realizações O centro dessas atividades é a biblioteca de Baroda com seus anexos, o Oriental Institute, a biblioteca das mulheres, a biblioteca juvenil e a unidade de instrução visual.* Em seguida, vêm as bibliotecas dos distritos e das cidades, em número de 45, com 19 mil leitores e 222 mil livros. Mais abaixo na escala estão 661 bi- bliotecas de vilas com mais de 37 mil leitores e mais de 250 mil livros; enquanto as cinco leis da biblioteconomia136 ** Arrendatário ou trabalhador de terras do Estado e a quem cabe arrecadar o imposto territorial. (n.e.) *** O autor manteve a redação da primeira edição, pois, em 1931, quando foi publicada, a Índia ainda fazia parte desse império. A independência ocorreu em 1947. (n.e.) * A partir de 1953, Andhra Pradesh. (n.e.) as vilas que não possuem bibliotecas são servidas por bibliotecas itinerantes, que em 1926–1927 circularam 418 caixas com 13 400 livros para 123 centros.190 386 Andhra Desa* Indo mais ao sul, vemos uma excelente safra de bibliotecas que bro- taram no final da década passada na terra dos andhras. A associação dos bibliotecários de Andhra Desa foi grandemente responsável por isso. 387 Madras Madras, porém, possui hoje uma associação de bibliotecários com três anos de vida, que já conseguiu convencer o governo do estado a dar uma oportunidade para a biblioteca pública de Connemara se desenvolver como biblioteca depositária central. Foi também bem-sucedida ao convencer os distritos de Chingleput e Malabar a iniciarem um projeto de biblioteca distrital. Publicou listas de livros apropriados para uso popular e criou uma escola de verão para formar devotos bem informados para servirem à Segunda Lei e às suas irmãs. Realiza uma campanha publicitária para “predispor a consciência da população favoravelmente às bibliotecas e aos livros”. Ob- teve a oportuna cooperação da principal universidade do estado, a quem convenceu que reconhecesse a importância do movimento por bibliotecas, primeiro organizando um curso, em forma de palestras, sobre as leis da biblio- teconomia, e depois colocando a escola de verão sob sua tutela acadêmica. 3871 Financiamento Local Dito isso, é questionável que se possa obter o impulso necessário para a Segunda Lei ultrapassar a resistência colossal que a confronta. As causas que levam a isso são muitas: políticas, econômicas, linguísticas, financeiras, etc. Tal resistência logo se diluiria se Madras encontrasse um Carnegie, como ocorreu nos eua e na Inglaterra, que tiveram essa sorte. Sem dúvida, os comerciantes, os zemindars,** os chefes religiosos e a aristocracia fundiária podem facilmente fazer por Madras o que Carnegie fez pela Grã-Bretanha e pelos eua. Mas, infelizmente, com raras exceções, sua doutrina sobre a riqueza parece ser ainda a que é comum na América do Sul, isto é, “seus donativos vão preferencialmente para entidades religiosas e de caridade”. 3872 Órgãos Locais A Índia pertence ao Império Britânico*** e espera vir a se valer das 137a segunda lei e sua digvijaya alterações feitas no estatuto da Carnegie Corporation of New York. É discutível, porém, que venha a atrair a atenção dela em futuro próximo. Tampouco temos as ‘Nuts’ dos Países Baixos para com elas seduzir o povo para o hábito da leitura e também implantar suas próprias bibliotecas sem ter que aguardar a iniciativa dos órgãos locais. Sem dúvida, existem odres velhos, como as chitalishtas da Bulgária e as astras da Romênia. Mas o pro- blema consiste em saber quem despejará o vinho novo nesses odres velhos. 3873 Fonte de Inspiração Tudo que a Madras Library Association pode fazer é ser um aliado ativo e um agente publicitário da Segunda Lei, como foi a associação polonesa de bibliotecários, até que uma entidade mais rica e influente lhe dê seu apoio. Se existe uma lição importante, que a história da digvijaya da Segunda Lei salienta claramente, é a responsabilidade do ministro da educação pelo fornecimento de livros para todos. Não são os Estados Unidos, não é a África do Sul, não são os Países Baixos, não é a Inglaterra que nos mostram o caminho para cumprir as determinações da Segunda Lei. São os novos governos da Europa central e oriental e os antigos governos do noroeste europeu que nos dão a pista. É o exemplo dos ministérios da educação da Tchecoslováquia, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Japão, e Havaí que devem inspirar nosso ministério da educação. 388 Máxima de Manu Não podemos encerrar este rápido esboço da expedição de conquista do mundo da Segunda Lei da biblioteconomia de maneira mais apropriada a não ser orando, com toda a sinceridade, pelo rápido sucesso da Segunda Lei na Índia, bem como para lembrar aos nossos ministros da educação que o exemplo de seus irmãos nas outras nações adiantadas está em íntima consonância com o preceito de nosso antigo legislador: Levar o saber às portas de quem dele carece e ensinar a todos a entenderem o que é certo! Nem mesmo a distribuição de toda a terra se compara a essa forma de serviço. as cinco leis da biblioteconomia138 138 CAPÍTULO 4 A SEGUNDA LEI E SUAS IMPLICAÇÕES 40 Abrangência No capítulo anterior, demos uma volta ao globo na trilha da expedição de conquista do mundo da Segunda Lei. Já que estamos em seu território, será útil analisarmos todas as implicações de sua mensagem e examinar- mos o que acontecerá se a Segunda Lei for acatada na escala adequada. O estudo das implicações da Segunda Lei será mais fácil se a considerarmos no formato a cada pessoa seu livro. Destas cinco palavras, ‘cada’ e ‘seu’ é que guardam o segredo das implicações. Portanto, será adequado dedi- carmos algum tempo a cada uma delas. 401 Implicações de ‘Cada’ As consequências de enfatizar ‘cada’ podem ser deduzidas do pro- vérbio ‘cada umcom seu gosto’ que podemos parafrasear dizendo ‘cada leitor com seu gosto’. A questão a ser considerada é: quais, então, são os compromissos implícitos na tarefa de proporcionar a cada pessoa o seu livro? Talvez seja conveniente examiná-los sob quatro categorias: 1) os compromissos do Estado, 2) os compromissos da autoridade incumbida das bibliotecas, 3) os compromissos do pessoal das bibliotecas, e 4) os compromissos dos próprios leitores. 41 Compromisso do Estado Os compromissos do Estado giram em torno de a) financiamento, b) legislação, e c) coordenação. Destes, o último compromisso será o de ajudar na redução do primeiro a um mínimo, e o segundo consiste normalmente em como definir a maneira de se desincumbir dos outros dois. 411 Recursos Financeiros Comecemos a partir do axioma segundo o qual um fator necessário à manutenção de um sistema bibliotecário, que possa prestar um serviço satisfatório a cada membro da comunidade, é o financiamento. Os recur- sos financeiros raramente caem do céu como o maná. Foi apenas no Israel pré-histórico que o Senhor disse “Eis que vos farei chover pão do céu; sairá o povo e colherá a porção de cada dia.”191 Por algum motivo, que só 139 Ele conhece, parece que o Senhor desistiu dessa atuação direta e jamais diz “Eis que vos farei chover rupias do céu; as bibliotecas sairão e colherão a porção de cada dia”. Portanto, cada comunidade tem que encontrar, por si mesma, os recursos financeiros necessários para manter as bibliotecas. Se por sorte houver milionários em seu meio, guiados pelo Evangelho da riqueza, de Carnegie, a comunidade poderá isentar muitos de seus membros do pagamento de sua quota. Caso contrário, cada um deverá recolher sua parcela, cabendo ao Estado fixar a quota de cada um e providenciar sua efi- ciente arrecadação, ou solicitar ao governo central que a arrecade e a repasse para as autoridades responsáveis pelas bibliotecas, ou autorizar os próprios órgãos locais a recolhê-la para empregá-la em suas respectivas bibliotecas, ou distribuir essa responsabilidade entre as partes, na proporção que for. 412 Taxa de Biblioteca Assim que são ditas as palavras ‘taxa de biblioteca’, parece que nossos ministros perdem o fôlego. Quando voltam a respirar, frequentemente têm a desculpa-padrão, “Haverá um clamor público. Enfrentaremos imediata oposição.” Poderíamos contestar perguntando: “Será que eles desistem de arrecadar todas as taxas que encontram oposição?” Mas, se por acaso não estiverem convencidos da mensagem da Segunda Lei e da necessidade de obter recursos para usufruir o benefício dessa mensagem, não será desca- bido mostrar-lhes a vertente econômica da mensagem livros para todos. 4121 Economia do Financiamento das Bibliotecas As pessoas de qualquer comunidade constituem seu maior patrimônio econômico, que vale em dinheiro muito mais do que todos seus bens ma- teriais. Tudo que sirva para preservar este patrimônio humano e contribua para torná-lo mais produtivo e valioso tem valor econômico direto para a comunidade. As escolas e as bibliotecas são duas das instituições públicas mais relevantes para aumentar o valor econômico do patrimônio humano, para não dizer de seu valor espiritual, que é muito mais importante. Este valor econômico das pessoas é muito real, embora a maioria de nós jamais cogite sobre a vastidão desta riqueza em termos de dinheiro. Os dados coletados pelas grandes seguradoras nos levariam a compreender o formi- dável valor econômico dos seres humanos em conjunto e as imensas pos- sibilidades de aumentá-lo por intermédio da oferta de livros para todos. 4122 Capital Humano* Eis as conclusões da Metropolitan Life Insurance Company sobre o valor a segunda lei e suas implicações * No original, human wealth (riqueza humana). A tradução ‘capital humano’ justifica-se para evitar ambiguidade, embora esta expressão somente haja passado a ter curso na literatura econômica a partir da década de 1950. (n.e.) as cinco leis da biblioteconomia140 econômico da população dos Estados Unidos, baseadas em estudos feitos por seu pessoal técnico. A riqueza material dos Estados Unidos em 1922 era de 321 bilhões de dólares — uma soma inconcebível. O valor econômico da população dos Estados Unidos nesse ano era cinco vezes maior, isto é, mais de um trilhão e quinhentos bilhões de dólares [...] E, contudo, em todas as discussões sobre taxação temos o hábito de dar muito maior importância ao capital material do que ao capital humano. Estudos como os da Metropolitan indicam a tremenda importância das escolas e bibliotecas no desenvolvimento do valor econômico do nosso povo, pois já se demonstrou inúmeras vezes que uma pessoa comum com escolaridade adequada possui mais valor econômico do que uma sem escolaridade, não só para a comunidade, mas também para si mesma.192 4123 Ato de Estadista O reconhecimento desse notável valor — o maior recurso natural de qualquer comunidade, bem como do país como um todo — raramente passa pela cabeça do contribuinte comum. É função do estadista, que está no leme da administração, perceber isso claramente e, ao invés de se refu- giar na má vontade do contribuinte de visão tacanha, ousar dar um passo adiante. Então, certamente receberá, no futuro, ele próprio ou sua memória, fartos elogios por esse gesto de coragem. O estadista está à frente do governo exatamente para implantar medidas cujo alcance foge à percepção dos ho- mens comuns, e não só para dirigir a máquina rotineira da administração. Poucos são os estadistas que possuem essa visão ampla e convicção arrojada. 413 Reação das Pessoas Quanto às pessoas que são servidas, se conseguirem os livros de que precisam quando deles precisam e se forem levadas a se conscientizarem, como fruto da própria experiência, de que as bibliotecas só existem para servir aos seus interesses, não tardará muito até que se regozijem ao ver a rubrica ‘biblioteca’ no seu carnê de impostos. Na verdade, a experiência de países, onde se reconhece que o serviço gratuito de acesso aos livros prestado pelo Estado constitui aplicação meritória do dinheiro público, aponta para essa conclusão. Para dar apenas um exemplo, “Em 1850 a lei de bibliotecas públicas [da Inglaterra] foi aprovada por uma maioria de apenas 17 votos. Em 1919, foi aprovada por unanimidade.”193 Talvez seja instrutivo investigar, com mais detalhes, o lento mas firme desapareci- mento da oposição à taxa de biblioteca, na medida em que os benefícios do serviço de bibliotecas públicas começaram a chegar às massas, embora, no início, lhes tivesse sido empurrado goela abaixo. 414 Exemplo da Grã-Bretanha Estimulado entre outras coisas pelo trabalho de Edward Edwards intitulado ‘A statistical view of the principal public libraries in Europe 141 and the United States of North America’, apresentado à Statistical Society of London, em 20 de março de 1848,194 o Sr. William Ewart anunciou, no outono do mesmo ano, a escolha de uma comissão para estudar a neces- sidade de implantação de bibliotecas públicas. 4141 A lei de 1850 No dia 14 de fevereiro de 1850, depois de haver recebido o relatório da comissão, o mesmo parlamentar propôs à House of Commons autorização para apresentar um modesto projeto de lei, com a finalidade meramente de permitir aos conselhos das cidades que criassem bibliotecas públicas e museus, mediante a arrecadação de uma taxa que não deveria exceder meio pêni, na tributação geral da cidade. Opondo-se a esta inofensiva medida, de caráter autorizativo, que exigia que houvesse uma votação favorável de dois terços dos contribuintes para que a lei pudesse ser ado- tada em qualquer cidade, o Sr. Buck proclamou que a “taxação adicional, que o projeto de lei propõe, neste momento em que a nação está em geral empobrecida, é vista como um sério agravo pelos interesses industriais e agrícolas do país”. Outro parlamentar, o Sr. Goulburn, apoiou a oposição, argumentando que “os contribuintes mais