Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

AS CINCO LEIS DA BIBLIOTECONOMIA
Reproduzido com a gentil permissão do Sr. C. Seshachalam, de Curzon & Co., Madras. Copyright: Curzon & Co.
S.R. Ranganathan 
As Cinco Leis da 
Biblioteconomia
Tradução de Tarcisio Zandonade 
© Sarada Ranganathan Endowment for Library Science. 1963 
Esta tradução: © 2009 by Lemos Informação e Comunicação Ltda. 
Do original inglês: The five laws of library science (2. ed. 1963) 
Primeira edição original: 1931 
Segunda edição: 1957 
Reimpressão (com pequenas correções: 1963) 
Todos os direitos reservados. De acordo com a lei n° 9610, de 19/2/1998, nenhuma parte 
deste livro pode ser fotocopiada, gravada, reproduzida ou armazenada num sistema de 
recuperação de informação ou transmitida sob qualquer forma ou por qualquer meio 
eletrônico ou mecânico sem o prévio consentimento dos autores e do editor. 
Este livro obedece ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 
Capa: Formatos Design Gráfico Ltda. 
Revisão e notas: Antonio Agenor Briquet de Lemos e 
Maria Lucia Vilar de Lemos 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) 
Cãmara Brasileira do Livro, sp, Brasil
Ranganathan, S. R., 1892-1972. 
 As cinco leis da biblioteconomia / S.R. Ranganathan ; tradução de Tarcisio 
Zandonade. – Brasília, df : Briquet de Lemos / Livros, 2009. 
 Título original: The five laws of library science. 
 Bibliografia. 
 isbn 978-85-85637-38-5 
 1. Biblioteconomia I. Título. 
09-06911 cdd 020 
Índices para catálogo sistemático: 
1. Biblioteconomia 020 
2009 
Briquet de Lemos / Livros 
srts - Quadra 701 - Bloco o - Loja 7 
Edifício Centro Multiempresarial 
Brasília, df 70340-000 
Telefones (61) 3322 9806 / 3323 1725 
www.briquetdelemos.com.br 
editora@bríquetdelernos.com.br 
À
Querida Memória
de
Srimati RUKMINI
vii
SUMÁRIO
Apresentação desta edição xi
Prefácio de sir P.S. Sivaswamy Aiyer xix
Introdução do Sr. W. C. Berwick Sayers xxi
 0 Gênese 1 
01 Ingresso na profissão de bibliotecário 1 
02 Primeira experiência 1 
03 Tendências bibliotecárias 1 
04 Método científico 2 
05 Enunciado 2 
06 Divulgação 3 
07 Publicação 4 
08 Consequências 5 
 1 A Primeira Lei 6 
11 Princípio fundamental 6 
12 Negligência da lei 6 
13 Localização da biblioteca 10 
14 Horário da biblioteca 15 
15 Mobiliário da biblioteca 19 
16 Um diálogo 20 
17 Pessoal da biblioteca 25 
18 Não se enamore dos frutos 49 
 2 A Segunda Lei e sua luta 50 
20 Introdução 50 
21 As classes e as massas 51 
22 Homens e mulheres 59 
23 Os moradores das cidades e os moradores do campo 67 
24 O normal e o excepcional 81 
25 O coral da biblioteca 86 
26 A terra e o mar 87 
27 O adulto e a criança 90 
28 Democracia ilimitada 92 
 3 A Segunda Lei e sua digvijaya 94 
30 Abrangência 94 
as cinco leis da biblioteconomiaviii
31 Américas 94 
32 África do Sul 105 
33 Europa oriental 108 
34 Escandinávia 118 
35 Europa ocidental 123 
36 Oceano Pacífico 130 
37 Ásia 131 
38 Índia 134 
 4 A Segunda Lei e suas implicações 138 
40 Abrangência 138 
41 Compromisso do Estado 138 
42 Lei estadual de bibliotecas 152 
43 Lei das bibliotecas da União 165 
44 Sistema bibliotecário 173 
45 Sistema de bibliotecas universitárias 176 
46 Compromisso da autoridade responsável 
 pela biblioteca 177 
47 Compromisso do pessoal da biblioteca 180 
48 Compromisso do leitor 184 
 5 A Terceira Lei 189 
50 Enunciado 189 
51 Sistema de acesso livre 189 
52 Arranjo nas estantes 192 
53 Catálogo 194 
54 Serviço de referência 197 
55 Departamentos populares 198 
56 Publicidade 199 
57 Serviço de extensão 205 
58 Seleção de livros 210 
 6 A Quarta Lei 211 
60 Introdução 211 
61 Sistema ‘fechado’ 212 
62 Arranjo nas estantes 214 
63 Sinalização do recinto das estantes 216 
64 Entradas no catálogo 220 
65 Bibliografia 225 
66 Serviço de referência 228 
67 Método de empréstimo 230 
68 O tempo do pessoal 236 
691 Catalogação centralizada 237
692 Localização da biblioteca 241
sumário ix
 7 A Quinta Lei 241
70 Introdução 241
71 Crescimento de tamanho 241 
72 Sala do catálogo 249
73 Sistema de classificação 251
74 Leitores e empréstimo de livros 254
75 Pessoal 258
76 Evolução 261
77 Princípio vital 263
 8	 O	método	científico,	a	biblioteconomia	e	o	avanço
 da digvijaya 264
80 O que é ciência? 264
81 O método científico 266
82 A Segunda Lei e novos tipos de livros e de práticas 276
83 A Terceira Lei e a documentação 278
84 A Quarta Lei e as novas práticas biblioteconômicas 281
85 A Quinta Lei e suas diversas implicações 283
86 Ramos da biblioteconomia 286
87 Ensino e pesquisa 289
88 A marcha da digvijaya 303
Apêndice 1: Especificações para um módulo de estante 
 feito de teca 314
Apêndice 2: Especifícação para uma mesa de periódicos 
 feita de teca 315
Bibliografia 317
Índice 326
 
xi
Levar conhecimento a quem não o tem e ensinar a todos para
que possam discernir o que é certo! Nem mesmo partilhar 
toda a Terra seria comparável a esta forma de serviço. 
 Manu 
As cinco leis da biblioteconomia 
Os livros são para usar 
A cada leitor seu livro 
A cada livro seu leitor 
Poupe o tempo do leitor 
A biblioteca é um organismo em crescimento 
xiii
APRESENTAÇÃO DESTA EDIÇÃO 
Shiyali Ramamrita Ranganathan (1892–1972) nasceu em Shiyali, no esta-
do de Madras, hoje Tamil Nadu, na Índia. Bibliotecário e pensador, sua 
produção intelectual e seus feitos profissionais tornaram-no conhecido 
como o ‘pai da biblioteconomia indiana’. Este livro foi editado pela pri-
meira vez em 1931. E por que, depois de tanto tempo, ainda se lê este 
livro? 
A resposta a esta pergunta é simples: porque os clássicos se leem sem-
pre. E o que faz desta obra um clássico? Por que, decorridos quase 80 
anos, este quincálogo da biblioteconomia, reiterada e teimosamente re-
diviva, continua atraindo leitores e releitores? Outra pergunta, por que 
publicar esta edição em português? O que tem ainda a nos dizer este 
senhor mais do que centenário, que nasceu e viveu num país tão distante 
do Brasil?
É razoável supor que este seja, no campo da biblioteconomia e ciên-
cia da informação, um dos livros que apresentam mais longa meia-vida, 
maior número de citações e uma capacidade muito grande de estimular 
novas ideias. Aliás, Berwick Sayers, no prefácio à primeira edição, ante-
via o destino dele: o de um ‘standard text-book’, standard aqui no sen-
tido de obra modelar, que, como todos os modelos, tendem a se tomar 
clássicos. Clássico porque permanece atual, trazendo lições sempre úteis 
mesmo quando a tecnologia da informação dá a impressão de os biblio-
tecários de hoje esta rem muito à frente do mundo de Ranganathan. Clás-
sico porque no uni verso brasileiro, tão distante da Índia, tanto historica 
quanto culturalmente, suas palavras encontram ressonância e parecem 
refletir a realidade de muitas de nossas bibliotecas e a visão de muitas de 
nossas autoridades.
Os dois prefácios, de Aiyer e de Berwick Sayers, souberam logo re-
conhecer a qualidade excepcional do texto do bibliotecário indiano. Em 
particular, a capacidade que teve Ranganathan, de forma simples e clara, 
a partir da observação direta do mundo dos livros e das bibliotecas, de 
cons truir seus princípios, sua teoria, sua filosofia, sua epistemologia. 
Sem em pregar conceitos abstrusos, sem erigir construtos informes, sempatinar na geleia mal digerida de ideias alheias, ele extraiu da realidade 
circundante suas constatações e suas conclusões, que cada vez mais são 
reconhecidas como uma das melhores contribuições para a formulação 
de uma teoria da biblioteconomia. Erigiu assim, de forma exemplar, não 
as cinco leis da biblioteconomiaxiv
só um texto que, com a simplicidade de um manual de boas práticas 
bibliotecárias, procurava estimular a criação de bibliotecas em seu país, 
mas também, com argúcia e clareza de pensamento, dissecava essas 
práticas em busca de sua razão de ser, de seus princípios, e argumentos 
que as justificassem como técnicas e como necessidades sociais. Rana-
ganathan procura e consegue identificar o que se acha por trás de uma 
sucessão de atos e rotinas sem sentido aparente, mas que se revestem de 
grande significado para a produção e difusão da cultura.
Seu contato com a realidade das bibliotecas do Reino Unido levou-o 
a procurar saber o que se passava em instituições semelhantes de outros 
países. Isso serviu de quadro de referência no qual e com o qual contrastou 
a situação das bibliotecas da Índia. Pioneiro, portanto, da biblioteconomia 
comparada, buscou nesse processo elementos que fundamentassem sua ar-
gumentação, a qual também serve para ‘convencer as autoridades’, como 
dizemos aqui, quanto à importância do livro, da biblioteca e da leitura.
Seu texto não tem o formalismo e a aridez de uma tese doutoral. Ele 
não vacila em antropomorfizar as leis da biblioteconomia, em criar um 
elenco de personagens exemplares (as diversas autoridades, os leitores 
potenciais, cidadãos comuns, etc.) e colocá-las num espaço dramático, 
numa feliz reunião da maiêutica socrática com o diálogo teatral, a que 
não falta o apelo ao coro grego.
Encontram-se disponíveis na Rede inúmeras informações biográficas 
sobre Ranganathan. Por exemplo: Gopinath, M.A. Ranganathan, Shiyali 
Ramamrita. Encyclopedia of library and information science. 2nd ed., p. 2419-
2437, 2003. Disponível em: <http://www.informaworld.com/10.1081/e-
elis-120009006>. Acesso em: 15/5/2009). As referências que recomenda-
mos abaixo são relevantes para o estudo das cinco leis da biblioteconomia 
e de sua repercussão em diversas vertentes da teoria e da prática.
Antonio Agenor Briquet de Lemos
editor
Recomendações de leitura 
Allen, Ethan. Ranganathan’s third law and collection access at Norica: an assess-
ment. Joumal of Access Services, v. 4, n. 3/4, p. 57-69, 2006. 
Atherton, Pauline A. Putting knowledge to work: an American view of Ranganathan’s 
five laws of library science. Delhi: Vikas, 1973. 
Beffa, Maria Lucia; Napoleone, Luciana Maria. Estruturando a informação para 
um sistema virtual centrado no usuário: a avaliação do website do Serviço de 
Biblioteca e Documentação da Faculdade de Direito da usp, Brasil. In: Fer-
reira, Sueli Mara Soares Pinto; Savard, Réjean. The virtual customer: a new 
paradigm for improving customer relation in libraries and information services, p. 
xvapresentação desta edição
49-71. Satellite Meeting, São Paulo, Brazil, August 18-20, 2004. (ifla Publica-
tions, 117)
Binkley, Peter. [As cinco leis da biblioteconomia em latim.] Libri utendi. Omni 
libro lector. Omni lectori liber. Otium lectoris servandum. Floreat biblioteca. Dis-
ponível em: <http://www.wallandbinkley.com/quaedam/?s=ranganathan>. 
Acesso em: 29/6/2009. 
Byron, Suzanne. Preparing to teach in cyberspace: user education in real and 
virtual libraries. Reference Librarian, n. 51/52, p. 241-247, 1995. 
Campos, Maria Luiza de Almeida. As cinco leis da biblioteconomia e o exercício profis-
sional. Disponível em: <http://www.conexaorio.com/biti/mluiza/index.htm>. 
Acesso em: 4/5/2009. 
Cana, Mentor. Open source and Ranganathan’s five laws of library science. July 
5, 2003. Disponível em: <http://www.kmentor.com/mtcgi/mt-search.cgi?sear
ch=ranganathan&IncludeBlogs=1>. Acesso em: 24/1/2009>. 
Caulking, V. Norbert. The five laws of library science of S.R. Ranganathan. Ameri-
can Libraries, v. 16, p. 329, May 1985. 
Cloonan, Michèle V.; Dove, John G. Ranganathan online: do digital libraries vio-
late the Third Law? Library Journal, v. 130, n. 6, p. 58-60, Apr. 1, 2005. 
Cochrane, Pauline Atherton. Information technology in libraries and Rangana-
than’s five laws of library science. Libri, v. 42, p. 235-242, July/Sept. 1992. 
Cossette, André. Humanisme et bibliothèques; essai sur la philosophie de la biblio-
théconomie. Montreal: Association pour l’Avancement des Sciences et des 
Techniques de la Documentation (asted), 1976. 69 p. 
Croft, Janet Brennan. Changing research patterns and implications for Web page 
design: Ranganathan revisited. College & Undergraduate Libraries, v. 8, n. 1, p. 
69-77, 2001. 
Estes, M.E. Managing information. Trends in Law Library Management & Technology, 
v. 7, n. 10, p. 1-3, Oct./Dec. 1996. 
Figueiredo, Nice Menezes de. A modernidade das cinco leis de Ranganathan. 
Ciência da Informação, Brasília, v. 21, n. 3, p. 186-191, set./dez. 1992. 
Foskett, D.J. Ranganathan and ‘user-friendliness’. Libri, v. 42, n. 3, p. 227-234, 
Sept. 1992. 
Garfield, Eugene. A tribute to S.R. Ranganathan, the father of Indian library sci-
ence. Part 1. Life and works. Current Contents, n. 6, p. 5-12, Feb. 6, 1984. Dis-
ponível em: <http://www.garfield.library.upenn.edu/essays/v7p037y1984. 
pdf>. Acesso em: 11/5/2009. 
 ——— . A tribute to S.R. Ranganathan, the father of Indian library science. Part 2. 
Contribution to Indian and international library science. Current Contents, n. 
7, p. 3-7, Feb. 13, 1984. Disponível em: <http://www.garfield.library.upenn.
edu/essays/v7p045y1984.pdf>. Acesso em: 11/5/2009. 
Gnoli, Claudio. Il tavolino di Ranganathan. Bibliotime, a. 3, n. 3, nov. 2000. Dis-
ponível em: <http://www2.spbo.uníbo.it/bibliotime/num-iii-3/gnoli.htm>. 
Acesso em: 1/7/2009. 
Gorman, Michael. Five new laws of librarianship. American Libraries, v. 26, n. 8, 
p. 784-785, Sept. 1995.
 ——— . The five laws of library science: then & now. School Library Journal, v. 44, 
n. 7, p. 20-23, July 1998. 
as cinco leis da biblioteconomiaxvi
 ——— ; Caulking, N. Norbert. Gorman uncovers scholar’s magnum opus. Ameri-
can Libraries, v. 16, n. 5, p. 329, May 1985. 
Grolier, Eric de. Les politiques des bibliothèques, des services d’information et 
l’héritage de Ranganathan. Bulletin d’Information de l’Association des Bibliothé-
caires Français, n. 158, p. 78-82, 1993. 
Gupta, Dinesh K. User-focus approach: central to Ranganathan’s philosophy. Li-
brary Science with a Slant to Documentation & Information Studies, v. 36, n. 2, p. 
123-128, 1999. 
Hilyard, Nann Blaine. Practical perspectives on readers advisory. Public Libraries, 
v. 44, n. 1, p. 15-20, Jan./Feb. 2005. 
Intner, Sheila S. Remembering Ranganathan. Technicalities, v. 15, p. 10-12, Oct. 
1995. 
Jas, Nikhil Kumar. Relevance of user education for efficient library service: a 
study in the context of five laws. Library Science with a Slant to Documentation 
& Information Studies, v. 36, n. 1, p. 49-54, Mar. 1999. 
Kaur, Amritpal. Five Laws: their relevance in information technology environ-
ment. ila Bulletin, v. 36, n. 1, p. 24-27, Apr./June 2000. 
Kuronen, Timo; Pekkarinen, Paivi. Ranganathan’s five laws of library science 
revisited: the challenge of the virtual library. Herald of Library Science, v. 35, n. 
1-2, p. 3-17, Jan./Apr. 1996. 
 ———; ——— . Ranganathan revisited: a review article. Journal of Librarianship and 
Information Science, v. 31, n. 1, p. 45-48, Mar. 1999. 
Lancaster, F.W. If you want to evaluate your library... 2nd ed. Champaign, il: Uni-
versity of Illinois, Graduate School of Library and Information Science, 1993, 
p. 11-15. [Trad. brasileira: Avaliação de serviços de bibliotecas. Brasília: Briquet de 
Lemos / Livros, 2004.] 
 ———; Mehrotra, R. The five laws of library science as a guide to the evaluation 
of library services. In: Agarwal, S.N.; Khan, A.A.; Stayanarayana, N.R. (ed.) 
Perspectives in library and informationscience. Lucknow: Print House (India), 
1982, v. 1, p. 26-39. 
 ———; Metzler, L. Ranganathan’s influence examined bibliometrically. Libri, v. 
42, n. 3, p. 268-281, Sept. 1992. 
Langridge, D.W. Book selection and the five laws. Library Science with a Slant to 
Documentation, v. 5, n. 3, p. 193-199, Sept. 1968. 
Leiter, Richard A. Reflections on Ranganathan’s Five laws of library science. Law 
Library Journal, v. 95, n. 3, p. 411-418, Summer 2003. 
Line, Maurice B. Line’s five laws of librarianship... and one all embracing law. 
Library Association Record, v. 98, p. 144, Mar. 1996. 
Mitchell, W.B. Access: the key to public service. Collection Management, v. 17, n. 
1/2, p. 1-22, 1992. 
 ——— . Reflections on academic libraries in the 21st century. Journal of Access Ser-
vices, v. 5, n. 1/2, p. 1-9, 2007. 
Murthy, T.A.V. Digital information environment and application of the laws of 
Ranganathan. Herald of Library Science, v. 44, n. 3/4, p. 229-234, Jul./Oct. 2005. 
Neelameghan, A. Books and other learning materials: the windows of knowledge. 
Information Studies, v. 5, n. 2, p. 67-72, Apr. 1999. 
 ——— . Infrastructure facilities for library and information science education and 
xviiapresentação desta edição
training in India. Information Studies, v. 5, n. 3, p. 129-136, July 1999. 
Noruzi, Alireza. Application of Ranganathan’s laws to the Web. Webology, v. 1, 
n. 2, Dec. 2004. Disponível em: <www.webology.ir/2004/vln2/a8.html>. Aces-
so em: 15/1/2009. Trad. para o português disponível em: http://extralibris.
org/revista/pesquisa/aplicacao-das-leis-de-ranganathan-a-web. Acesso em: 
4/5/2009. 
Patkar, Vivek N. On library as an autopoietic system. Information Studies, v. 4, n. 
2, p. 105-114, Apr. 1998. 
Rahman, Afifa. A reaction to Timo Kuronen and Paivi Pekkarinen’s ‘New 
Supple mentary Laws’. Herald of Library Science, v. 44, n. 3/a, p. 226-229, July/
Oct. 2005. 
Rimland, Emily. Ranganathan’s relevant rules. Reference & User Services Quar-
terly, v. 46, n. 4, p. 24, Summer 2007. 
Satija, M.P. The five laws in information society and virtual libraries era. srels 
Journal of Information Management, v. 40, n. 2, p. 93-104, June 2003. 
Schoffner, Ralph M. Appearance and growth of computer and electronic products 
in libraries. In: Abel, Richard E.; Newman, Lyman W. (ed.) Scholarly publishing: 
books, journals, publishers. and libraries in the twentieth century. New York: John 
Wiley, 2002, p. 209-255. 
Sen, B.K. Ranganathan’s five laws. Annals of Library & Information Studies, v. 55, 
n. 1, p. 1, June 2008. 
Sepúlveda, Fernando Antônio Miranda. A gênese do pensar de Ranganathan: 
um olhar sobre as culturas que o influenciaram. 1996. 80 p. Dissertação (Mes-
trado em ciên cia da informação) — ibict/ufrj/eco. Disponível em: <http://
www.conexaorio.com/biti/sepulveda/index.htm>. Acesso em: 29/6/2009. 
Sharma, R.N. Ranganathan’s impact on intemational librarianship through in-
formation technology. Libri, v. 42, n. 3, p. 258-267, Sept. 1992. 
Shera, J.H. The dimensions of magnitude (library services). Library Science, v. 20, 
n. 1, p. 2-17, Mar. 1983. 
Siddiqui, Mohammad Azeem. Dr. S.R. Ranganathan’s five laws and their relevance 
and imperatives in context of library science. Disponível em: <http://ezinearticles.
com/?Dr.-S.R.-Ranganathans-Five-Laws-and-Their-Relevance-and-Imperatives 
-in-Context-of-Library-Science&id=371593>. Acesso em: 24/1/2009.
Simpson, Carol. Editor’s notes: five laws. Librany Media Connection, v. 26, n. 7, p. 
6, Apr./May 2008. 
Singh, Ram Shobhit (ed.) Encyclopaedia of the Five laws of library science. New Delhi: 
Anmol, 2008. 280 p. 
Sowards, Steven W. ‘Save the time of the surfer’: evaluating Web sites for users. 
Library Hi Tech, v. 15, n. 3/4, p. 155-158, 1997. 
Taher, Mohamed. The reference interview through asynchronous e-rnail and 
syn chronous interactive reference: does it save the time of the interviewee? 
Internet Reference Services Quarterly, v. 7, n. 3, p. 23-34, 2002.
Talukder, Tridibesh; Ghosh, Saptarshi. Total quality rnanagernent and its impli-
cation on library laws. srels Journal of Information Management, v. 41, n. 3, p. 
255-266, Sept. 2004. 
Walter, Virginia A. Library services to children: future tense. Journal of Youth 
Services in Libraries, v. 15, n. 3, p. 18-20, Spring 2002. 
as cinco leis da biblioteconomiaxviii
Yucht, Alice H. Guiding princíples. Teacher Librarian, v. 28, n. 5, p. 38-39, June 
2001. 
Yusuf, Mohammad. Role of cooperation in library and inforrnation centres. Herald 
of Library Science, v. 45, n. 3/4, p. 204-212, July/Sept. 2006.
xix
PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO 
O movimento por bibliotecas é de origem comparativamente recente nos 
países ocidentais e é o resultado das influências democráticas que se tor- 
naram preponderantes no final do século xix. O anseio de estender os be- 
nefícios do saber ao povo em geral inspirou a fundação de numerosas 
bibliotecas públicas. As potencialidades das bibliotecas como instrumen- 
tos de educação popular ocuparam desde então a atenção dos interessa- 
dos neste movimento. Nos anos recentes têm-se estudado intensamente 
quais os melhores métodos de popularização do uso das bibliotecas.
O grande aumento do número de livros publicados ano após ano 
e dos que dão entrada nas bibliotecas suscitou uma enorme gama de 
questões relativas à organização, administração e gestão de bibliotecas. 
A perspectiva das pessoas em relação a estes assuntos passou por uma 
mudança radical. As bibliotecas são hoje vistas não como bens precio-
sos a serem ciosamente preservadas da intromissão da plebe, mas como 
instituições democráticas para benefício e satisfação de todos. Como 
atrair os leitores para as bibliotecas, como ampliar para todas as classes 
as oportunidades de usá-las, como prestar a maior ajuda possível aos que 
desejam usar as bibliotecas e como poupar o tempo dos leitores e também 
dos funcionários da biblioteca são questões que, aparentemente simples, 
demandam não pouca reflexão, imaginação, capacidade e experiência por 
parte do bibliotecário.
A bibliografia produzida sobre esta matéria tem se avolumado 
grandemente. Foram criadas associações de bibliotecários em muitos 
países, foram iniciados cursos em várias universidades para o ensino 
da administração de bibliotecas e surgiram numerosos periódicos de 
biblioteconomia. Foram feitas tentativas de sistematizar o conhecimento 
sobre a matéria e agora se afirma que ela atingiu o status de ciência. 
Dispensa comentar se a organização e administração de bibliotecas deva 
ser considerada uma ciência ou uma arte. Não há dúvida, entretanto, 
de que há certos princípios essenciais subjacentes à administração de 
bibliotecas de acordo com as necessidades e concepções atuais. 
O autor deste livro procurou expor estes princípios numa forma siste- 
mática. Conseguiu sintetizá-los em cinco princípios cardeais e desenvol- 
ver todas as regras de organização e administração de bibliotecas como 
as cinco leis da biblioteconomiaxx
implicações necessárias e corolários inevitáveis destas cinco leis. Uma 
vez enunciadas, as leis parecem tão óbvias que nos surpreendemos que 
não tenham sido claramente percebidas e elaboradas antes.
O tratamento dado ao tema pelo Sr. Ranganathan é claro, lógico e 
lúcido. Ele trouxe para este empreendimento um amplo domínio da 
literatura sobre bibliotecas, um conhecimento pessoal com os métodos de 
administração de bibliotecas na Grã-Bretanha, uma inteligência analítica 
experiente e um entusiasmo ardente, mas iluminado pelo movimento por 
bibliotecas. Ele foi o pioneiro desse movimento na província de Madras 
e vem realizando uma propaganda enérgica para divulgá-lo. Ele sabe 
como despertar e manter o interesse do leitor e produziu um livro muito 
atraente e agradável de ler. Não tenho dúvida de que encontrará ampla 
receptividade e logo virá a ser reconhecido como um texto clássico da 
biblioteconomia.
A Madras University é afortunada de ter o autor como seu 
bibliotecário. Em suas mãos,essa biblioteca evoluiu para se transformar 
numa instituição humana viva, que busca um contato pessoal proveitoso 
entre funcionários e usuários. O enorme crescimento no empréstimo 
de livros desde que o autor assumiu a biblioteca é um testemunho 
impressionante da solidez dos princípios em que a administração dela 
se baseia, bem como da eficiência de seu trabalho de gestão, apesar das 
precárias condições do local onde a biblioteca tem funcionado.
A publicação deste livro pela Madras Library Association não é a me- 
nor de suas reivindicações pela gratidão do público.
P.S. Sivaswamy Aiyer 
xxi
INTRODUÇÃO À PRIMEIRA EDIÇÃO
 
Este é um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos sobre nossa 
profissão. Ele é único, acredito, na medida em que procura pela primeira 
vez apresentar um estudo abrangente, feito por um bibliotecário que 
tem uma mente inconfundivelmente indiana, e que faz refletir a própria 
cultura de seu povo nas teorias básicas da arte da difusão dos livros 
como ela é entendida no moderno mundo das bibliotecas. Para quem 
é recém-chegado à nossa profissão talvez cause surpresa o tanto que se 
pode extrair de algo que, à superfície, parece ser um ofício tão simples, 
mas uma leitura atenta das páginas do Sr. Ranganathan propiciará ao 
iniciante uma compreensão profunda do tema. 
O Sr. Ranganathan está extraordinariamente dotado para a empresa a 
que se propôs. Faz alguns anos ele esteve, por um período de tempo, 
sob a orientação de professores assistentes da School of Librarianship da 
University of London, quando se aproximou particularmente de mim. 
Percebi que era homem de notável cultura, muito original em seu modo 
de ver, persistente e incapaz de se desviar de suas investigações, e que, 
prudentemente, acatava quaisquer sugestões que lhe fossem apresen-
tadas. Não somente assistiu às aulas de biblioteconomia na University 
of London, mas estudou intensamente os serviços de bibliotecas de to-
dos os tipos, visitando-as em várias partes do país. Por algum tempo, 
estudou diariamente nas bibliotecas públicas de Croydon, onde eu ob-
servava seu trabalho com interesse. Ele examinou os processos de cada 
departamento e empregou muito tempo analisando-os e criticando-os. 
Ao longo de toda essa jornada, buscava as razões subjacentes a todos os 
nossos fazeres.
Não estava interessado somente em livros e bibliotecas, e usou parte 
do seu tempo de lazer para examinar os métodos pedagógicos adotados 
nas escolas das cidades e as relações destes com as bibliotecas. Seu modo 
crítico de ver era tão profundo que ele resolveu partir para a elaboração 
de uma nova classificação bibliográfica. Esta classificação, como ele nos 
diz mais adiante neste volume, é empregada na biblioteca da universi-
dade de Madras, e em algumas outras bibliotecas da Índia, que começam 
a classificar seus acervos.
as cinco leis da biblioteconomiaxxii
Este programa de estudos e esta atitude mental não poderiam deixar 
de resultar na preparação de um tipo de bibliotecário, cujo trabalho se 
tornaria importante. A obra que temos em mãos é prova disto. 
ii 
A prática da biblioteconomia precedeu de muito a formulação de 
quaisquer leis. Em todas as profissões, naturalmente, o mesmo acontece. 
É só lentamente e a partir da experiência contínua dos profissionais que 
uma teoria pode ser deduzida e enunciada. Nossa profissão pode reivin-
dicar, entretanto, ser uma das mais antigas do mundo, e alguns dos pro-
cessos bastante comuns que hoje se mostram tão aperfeiçoados, a ponto 
de o Sr. Ranganathan ser capaz de formular seus resultados como ‘leis’, 
existiam em forma embrionária nas bibliotecas assírias e provavelmente 
em outras mais antigas. Os catálogos de tabuletas de argila do British 
Museum provam-nos que havia então não somente bibliotecas, mas uma 
biblioteconomia sistemática. Anos mais tarde, mas ainda em tempos an-
tigos, o trabalho de bibliotecários, como Calímaco, nas bibliotecas dos 
faraós, apresenta métodos de gestão, especialmente na classificação dos 
livros, que surpreendem os bibliotecários modernos que os estudaram. 
Cada uma das grandes nações do passado teve suas bibliotecas públi- 
cas, mesmo que seu uso fosse às vezes limitado a certas classes da co-
munidade, e, na anarquia geral da civilização europeia, que se seguiu à 
queda do Império Romano Ocidental, os mosteiros ainda preservaram e 
ampliaram suas bibliotecas.
A história das bibliotecas foi muito influenciada por esta preservação 
dos livros nos mosteiros, pois durante séculos as bibliotecas estiveram cir-
cunscritas a escolas superiores e outros estabelecimentos fechados, e seu 
uso era restrito aos ocupantes dessas instituições. Preservar o livro era de 
importância igual ou maior do que fazer com que fosse usado. Esta men-
talidade vem desaparecendo desde meados do século xix. As grandes bib-
liotecas do mundo, com variados graus de generosidade, foram abertas 
para leitores externos, e a atitude do conservateur cedeu lugar àquele que 
me arrisquei a chamar alhures de explorador de livros [exploiter of books] por 
julgar ser esta a descrição apropriada do bibliotecário. 
O principal fator da atitude moderna diante das bibliotecas e dos livros 
tem sido o que é conhecido na Inglaterra e nos Estados Unidos como 
‘bibliotecas públicas’. Este termo tem hoje um sentido bem diferente do que 
tinha antes de 1850. Então, as bibliotecas eram públicas mais no sentido 
com que as public schools* da Inglaterra são públicas; quer dizer, o seu uso 
* Escola particular mantida pelos pais dos alunos, oriundos, na maioria, das classes privile- 
giadas. A escola pública mantida pelo Estado chama-se, no Reino Unido, local school (n.e.). 
xxiiiintrodução à primeira edição
estava em muito limitado às classes governantes. A biblioteca pública 
moderna é uma instituição municipal, sustentada pelos municípios para 
uso gratuito pelos cidadãos sem discriminação. Eram anglo-saxônicas 
em sua origem, e surgiram quase ao mesmo tempo na Grã-Bretanha e nos 
Estados Unidos. Essas bibliotecas são agora formadas com o emprego de 
técnicas próprias, e, em muitos casos, contam com um grande acervo de 
livros e, literalmente, milhões de leitores. 
Um dos fatores sociais mais significativos da segunda metade do sé-
culo xix e do primeiro quartel do século xx foi o desenvolvimento amplo 
do hábito da leitura entre os povos ocidentais. Até mesmo as nações mais 
conservadoras da Europa desenvolveram sistemas de bibliotecas mais 
ou menos de acordo com o modelo anglo-saxão.
iii
A visão moderna das bibliotecas, portanto, é a que considera toda a 
população como sua clientela. Até mesmo em bibliotecas universitárias e 
especializadas, em quase todos os lugares, os estudantes sérios dispõem 
sem dificuldade dos recursos da biblioteca. Esta é a atitude que, espero e 
acredito, assumirá o bibliotecário, na Índia. Deve ficar bem claro, en-
tretanto, que regras ou noções universais devem sempre receber um 
tratamento local e individual. Não acho que os métodos das bibliotecas 
dos Estados Unidos, por mais que eu as admire, sejam completamente 
adequados para a Europa, ou até mesmo para a Inglaterra. A psicologia 
dos povos varia, e variantes da prática bibliotecária devem ser feitas para 
adequar-se a este fato. Mais ainda entre os povos da Índia, com sua imen-
sa história, fortes tradições, e distintas características étnicas, a aplicação 
pura e simples das ideias anglo-saxônicas a algo tão íntimo, pessoal e 
espiritual como a literatura, sem modificação, pode não ser sensata. Tive 
muitos estudantes estrangeiros nas bibliotecas de que cuidei, e sempre 
procurei convencê-los de que o que eles aprendem de nós deve sempre 
ser examinado cuidadosamente à luz das necessidades de seus próprios 
países de origem. Sinto que isto é imensamente importante para a Índia. 
Isso, em minha opinião, dá um valor especial à obra do Sr. Rangana-
than. Ele trata de todas as questões que ocupam as mentes dos bibliotecá- 
rios europeus. A seleção de livros, com umamente universal que deter-
mina que todos os lados devem ser ouvidos, e que nenhuma preferência 
pessoal terá influência indevida; os melhores métodos para mobiliar e 
equipar bibliotecas; uma descrição ponderada sobre o que pode ser pro-
porcionado pelo catálogo e pela classificação: isto será óbvio para o leitor. 
Ele escreve, ademais, como um educador — como deveriam ser todos 
os bons bibliotecários —, e espero que tenha deixado bem claro que o 
desenvolvimento de uma nação culta, com um profundo amor por sua 
as cinco leis da biblioteconomiaxxiv
grande literatura e um entendimento correto da importância dos livros, 
deve começar com o atendimento criterioso e generoso das crianças. 
No Ocidente, toda criança é um leitor em potencial. Também deve ser 
assim no Oriente, mesmo em lugares onde as crianças ainda não tiveram 
a oportunidade de ler o bastante ou ter acesso aos livros. 
iv
Um experiente bibliotecário norte-americano observou certa vez que 
uma tora de madeira com um livro numa ponta e um bibliotecário na 
outra faria uma perfeita biblioteca. Era, naturalmente, um exagero pi-
toresco, mas é o elemento pessoal que o bibliotecário traz para a bibliote-
ca que lhe dá sua vitalidade; muitas bibliotecas, infelizmente, carecem de 
vitalidade; têm funcionários, mas não têm bibliotecários. O espírito do 
bibliotecário autêntico nunca foi descrito com mais beleza ou sabedoria 
do que no epitáfio escrito por Austin Dobson para Richard Garnett, um 
dos maiores bibliotecários do século xix:
 
Dele podemos falar merecidamente, — Aqui estava alguém 
 Que sobre a maioria das coisas sabia mais que todos; 
Que amava aprender de tudo sob o sol, 
 E olhava para cada aprendiz como se fosse um irmão.
As implicações disto são suficientemente profundas para chamar à mo-
déstia o mais consumado bibliotecário. Isto implica que o bibliotecário 
deve ser uma pessoa de mente aquisitiva, que não fecha a mente para 
nenhum assunto de interesse humano. É sempre um aprendiz; deve es-
tar sempre alerta e acolher qualquer desenvolvimento do pensamento 
humano e toda aventura do espírito humano. Deve, portanto, ser uma 
pessoa educada não somente no sentido geral, mas em toda operação e 
processo da biblioteca. Deve amar o próximo. Quando jovens me pro-
curam como aspirantes ao trabalho bibliotecário, pergunto-lhes: “Vocês 
gostam de livros?” Invariavelmente respondem que gostam, mas per-
gunto-lhes em seguida: “Vocês gostam de gente e de servir às pessoas?” 
Rejubilo-me de que na Índia haja pessoas que atualmente tomaram em 
suas mãos o papel de selecionar e treinar bibliotecários. Não conheço 
profundamente a situação do país em matéria de bibliotecas, mas com 
suas grandes literaturas, tão variadas, haverá sem dúvida muitos cam-
pos de pesquisa e muitas possibilidades bibliotecárias até o momento 
não sonhadas nem mesmo pelos indianos.
Eis, portanto, um livro que pode servir de inspiração para todos aque- 
les que, em posição mais elevada ou mais humilde, servirão à Índia em 
suas bibliotecas. Concebido com um espírito aberto e generoso, deve 
introdução à primeira edição xxv
entusiasmar quem ingressa em nossa profissão naquele país com as 
imensas, embora nem sempre impressionantes, possibilidades de uma 
biblioteca. Mostrará que ela não é meramente uma coleção de livros que 
acumula idade e pó, mas um organismo vivo e em crescimento, que 
prolonga a vida do passado e a renova para a geração presente, mas que 
também dá a esta geração o melhor que seus próprios pesquisadores, 
pensadores e sonhadores têm a oferecer. 
W.C. Berwick Sayers 
Bibliotecário-Chefe, Croydon 
Professor da School of Librarianship da University of London 
Examinador de organização de bibliotecas da Library Association
1
CAPÍTULO 0
GÊNESE
01 Ingresso na Profissão de Bibliotecário
Em julho de 1923, a University of Madras criou o cargo de bibliotecário 
da universidade. Em novembro, fui nomeado seu primeiro ocupante. Na 
época, ensinava matemática no Presidency College, em Madras, uma das 
faculdades da universidade. Comecei meu trabalho como bibliotecário na 
tarde de quinta-feira, 4 de janeiro de 1924. Nas primeiras semanas, não 
havia quase nada para fazer. Sentia-me enfastiado, e queria muito voltar a 
dar aula. Mas meus amigos aconselharam-me a não me precipitar. Ocupei-me 
com a catalogação de centenas de livros que estavam empilhados. O nú-
mero de leitores que usavam a biblioteca raramente passava de dez por dia.
02 Primeira Experiência
Em outubro de 1924, ingressei na School of Librarianship do Univer-
sity College, em Londres. Sua biblioteca era bastante completa, ainda que 
pequena. Bastaram uns dois meses para ler os livros do acervo. Depois 
dessa bagagem teórica, adquiri alguma experiência prática, trabalhando 
nas bibliotecas públicas de Croydon por uns seis meses. Nos seis meses 
seguintes, visitei cerca de uma centena de bibliotecas de diferentes tipos. 
Os bibliotecários deram-me plena liberdade de observar, fazer perguntas 
e conversar. Esta foi a primeira experiência. Foi uma experiência rica.
03 Tendências Bibliotecárias
As bibliotecas encontravam-se em diferentes estágios de desenvolvi-
mento, o que facilitou um estudo comparado das práticas bibliotecárias. 
As tendências progressistas eram impressionantes. Mas, as linhas de de-
senvolvimento nos diversos setores da prática biblioteconômica pareciam 
desconexas. As conversas com quem trabalhava nesses setores davam-me 
a impressão de que cada um trabalhava isolado sem muito contato ou 
relação com outros setores. Mesmo quem trabalhava num mesmo setor 
não dava muito sinal de trabalho em equipe. Não havia indicação alguma 
de que houvesse uma visão de conjunto. Todos esses fatores tendiam a 
ocultar a característica comum de tendências que estivessem surgindo 
nos diferentes setores. Portanto, o que se via era somente um agregado de 
1
as cinco leis da biblioteconomia2
técnicas que não formavam um todo. Era como se os desenvolvimentos 
futuros fossem totalmente imprevisíveis. Tudo parecia ser uma questão 
de norma prática, rigorosamente empírica.
04 Método Científico
A experiência que eu acumulara em matéria de estudo e pesquisa cien-
tífica gerou uma sensação de revolta contra o ter de guardar na memória e 
lidar com uma miríade de informações desconexas e tipos de práticas sem 
relação entre si. Será que todos esses agregados empíricos de informações 
e práticas não seriam redutíveis a um punhado de princípios fundamen-
tais? Será que não se poderia adotar, neste caso, o processo indutivo? 
Não seria possível deduzir, a partir dos princípios fundamentais, todas 
as práticas conhecidas? Será que os princípios fundamentais não contêm, 
como implicações necessárias, muitas outras práticas que atualmente não 
são correntes, nem conhecidas? Não se tornarão tais práticas necessárias 
sempre que as condições-limite estabelecidas pela sociedade se modifica-
rem? Estas questões começavam a fremir em minha mente. É claro que 
havia a consciência de que o tema a ser estudado pertencia ao campo das 
ciências sociais e não ao das ciências naturais. O método científico, porém, 
era aplicável igualmente a ambos os campos. A única diferença estava na 
posição ocupada pelos princípios fundamentais. Estes constituíam hipó-
teses nas ciências naturais e princípios normativos nas ciências sociais. 
Mas o ciclo do método científico era semelhante em ambos os casos. A 
pergunta a ser respondida era esta: quais são os princípios normativos a 
que aludem as tendências que se observam nas práticas bibliotecárias e 
aludem às tendências futuras que atualmente ainda não são muito visíveis? 
Isso agitava minha mente desde os primeiros meses de 1925.
05 Enunciado
Depois que voltei à Índia, em julho de 1925, o trabalho extenuante de 
organizar e formar a biblioteca da universidade de Madras, praticamente 
a partir do zero, afastou esse problema do meu consciente. Os 32 mil volu-
mes da biblioteca tinham que ser classificados e recatalogados;ao mesmo 
tempo, era preciso planejar e desenvolver a Classificação dos Dois Pontos 
[Colon Classification] e o Código para o Catálogo Sistemático [Classified 
Catalogue Code]. Implantou-se o acesso livre às estantes. Não tinha ajuda 
no serviço de referência. A publicidade da biblioteca era feita em grande 
escala. Como consequência, o comparecimento diário saltou de uns vinte 
para duzentos. Os funcionários tinham que ser recrutados e treinados. 
Ao mesmo tempo, era preciso redigir um manual de administração de 
bibliotecas. As aquisições no ano pularam de mil para seis mil. O projeto 
do novo prédio da biblioteca exigia sua parcela de reflexão. A pressão 
3
de todas essas tarefas compulsórias empurrava os princípios normativos 
para camadas cada vez mais profundas da mente. Mas era uma pressão 
conveniente e proveitosa. Cada passo do projeto da Classificação dos Dois 
Pontos, cada regra formulada para o Código do Catálogo Sistemático e 
cada parágrafo do rascunho do manual de administração de bibliotecas 
teve origem e se irradiou dos princípios normativos que se achavam 
ocultos, sob aquela pressão, no subconsciente. Inversamente, os avanços 
e as necessidades impostas por essas tarefas estavam inconscientemente 
moldando os princípios normativos numa forma exprimível. Isso durou 
três anos. O ponto crítico foi alcançado no final de 1928, a altas horas da 
noite. A pressão mudou de rumo. Todas as outras tarefas foram postas 
de lado. O esforço era insuportável. À tardinha, o professor Edward B. 
Ross fez-me sua costumeira visita diária. A ele eu devia minha formação 
intelectual. Fora meu professor de matemática durante todo o curso uni-
versitário; sua versatilidade e sua amizade o levaram a se interessar, de 
modo profundo e inteligente, por minha nova área de trabalho. Ele perce-
beu meu estado de angústia. Partilhei com ele minhas preocupações. Ele 
se preparava para montar a motocicleta. Seus olhos brilhavam, o que era 
sempre indício de que estava descobrindo alguma novidade, então, surgiu 
o sorriso característico dessas ocasiões, e falou, “Você quer dizer, ‘Os livros 
são para usar’; você quer dizer que esta é a sua primeira lei.” Partiu sem 
nem ao menos esperar por minha reação; este era bem o seu jeito de ser. 
Mas seu toque de intuição fez-me voltar à realidade com grande alívio. 
Os enunciados das outras leis surgiram automaticamente. Levei umas três 
horas preenchendo cinco folhas de papel com a dedução das cinco leis. 
Seus enunciados estavam assim completos.
06 Divulgação
A seguir teve início a divulgação das implicações dessas leis nos diver-
sos setores da prática bibliotecária. Não havia então nenhuma publicação 
profissional na Índia dedicada à biblioteconomia. No entanto, alguns anos 
antes, eu participara do lançamento da revista mensal South Indian Teacher, 
e suas páginas estavam abertas para mim. Para tratar dos problemas da 
organização de bibliotecas e do serviço de referência, que tivessem interesse 
para o público em geral, o jornal local Hindu prestou-se ao duplo objetivo 
de fazer propaganda da biblioteca e liberar minha tensão. Em dezembro 
de 1928, a University of Madras convidou-me para proferir uma série de 
palestras para professores durante as férias, por ocasião da conferência 
provincial de educação, que, naquele ano, foi realizada no Meenakshi 
College, em Chidambaram, às vésperas de se transformar na Annamalai 
University. Havia cerca de mil professores presentes, muitos deles meus 
amigos pessoais. Não poderia ter havido uma plateia com mais afinidade 
gênese
as cinco leis da biblioteconomia4
e mais simpática na primeira apresentação formal das recém-enunciadas 
cinco leis da biblioteconomia. As implicações de cada uma das leis foram 
expostas em duas palestras. Algumas, como era corrente, foram ilustradas 
com a projeção de diapositivos e diagramas e de viva voz. Algumas novas 
práticas foram também deduzidas como passíveis de virem a existir. Algu-
mas já se concretizaram; a Insdoc list, iniciada em 1954, é substancialmente 
uma delas. Como a plateia consistia inteiramente de professores, as impli-
cações educacionais das cinco leis mereceram grande ênfase. Entretanto, 
elas não são inteiramente apresentadas neste livro. Tornaram-se o único 
tema de uma série independente de palestras de férias, proferidas em Ma-
dras três anos mais tarde, que foram expandidas no livro School and college 
libraries (1942). Em dezembro de 1930, a primeira conferência pan-asiática 
de educação foi realizada em Benares. Seu organizador, P. Seshadri, con-
vidou-me para secretariar a sessão sobre serviços bibliotecários. Isso me 
propiciou o ensejo de expor as cinco leis para um público formado por 
bibliotecários, que, naquela época, ainda eram poucos. Foi um incentivo a 
mais para que eu desenvolvesse minuciosamente todas as implicações das 
leis da biblioteconomia na área de organização e legislação bibliotecária. 
Na verdade, rascunhei um anteprojeto de lei-modelo de bibliotecas, que 
foi discutido, artigo por artigo, durante a conferência. A lei de bibliotecas 
de Madras (1948) foi baseada nesse anteprojeto. A de Hyderabad (1955) 
também a seguiu. Essa lei-modelo encontra-se no capítulo 4 da primeira 
edição deste livro, mas, nesta, foi substituída por uma versão melhorada e 
mais ousada, projetada em 1950 para adaptar-se à situação da Índia como 
Estado independente. Acima de tudo, a School of Library Science, fundada 
em abril de 1929, ensejou a divulgação sistemática das cinco leis a cada ano.
07 Publicação
A Madras Library Association foi fundada em janeiro de 1928 com o 
objetivo de promover a criação de um serviço de bibliotecas de alcance 
nacional. Cerca de 800 membros a ela se filiaram em pouco tempo. Natu-
ralmente, eram todos amantes de livros e amigos da biblioteca, mas nem 
todos pertenciam à profissão de bibliotecário. De fato, mal chegava a dez o 
número de profissionais em Madras naqueles tempos. Para atrair o interesse 
ativo dos sócios, o presidente, Sr. K.V. Krishnaswamy Ayyer, teve a ideia de 
solicitar a alguns que apresentassem trabalhos para um simpósio. Houve 
uma boa resposta a essa iniciativa. Os anais do simpósio foram publicados 
em 1929 sob o título Library movement: a collection of essays by divers hands. 
O ensaio principal foi What makes a library big, de Rabindra Nath Tagore, o 
poeta nacional. Em 1930, decidiu-se iniciar uma publicação seriada regular 
“sobre os aspectos técnicos e práticos do trabalho bibliotecário”. Percebeu-
-se que seria apropriado começar com um volume que apresentasse uma 
5
exposição completa das cinco leis da biblioteconomia, do qual todos os 
demais volumes decorressem como consequências necessárias. Assim, a 
primeira edição deste livro foi publicada em junho de 1931. Com a graça 
de Deus, os volumes posteriores fluíram, ano após ano, desdobrando as 
implicações das cinco leis em cada um dos ramos da biblioteconomia. Cerca 
de 48 livros foram assim publicados, alguns pela Madras Library Associa-
tion, e outros por diversas entidades. E em 1953, chegou-se ao vigésimo 
primeiro volume da série da Madras Library Association. Tratava-se de 
Library science in India: silver jubilee volume presented to the Madras Library 
Association.
Com mais dois amigos passamos vários dias dando forma à primeira 
edição. O Sr. K. Swaminathan, então professor de inglês no Presidency 
College, empenhou-se grandemente no exame de cada frase, com olhar 
crítico, de modo a reduzir ao mínimo as deficiências de linguagem e estilo. 
Sir P.S. Sivaswamy Aiyer — respeitável estadista da Índia, ex-membro do 
governo de Madras, ex-vice-reitor da University of Madras e da Benares 
Hindu University, erudito intelectual e grande amante de livros, leu as pro-
vas tipográficas, fez muitas sugestões úteis e, por fim, escreveu o prefácio. 
Meu professor em Londres, W.C. Berwick Sayers, escreveu a introdução. 
Foi dele que recebi a maior inspiração. Além de assistir às suas aulas, 
compartilhei com ele muitas horas de conversasinformais. Ele me ajudou 
de muitas formas a fazer com que o ano que passei na Grã-Bretanha fosse 
verdadeiramente proveitoso. Minha consideração e afeição para com estes 
três cavalheiros fizeram-me manter, na presente edição, o texto original, 
o prefácio e a introdução.
08 Consequências
Ao longo dos 25 anos desde a primeira edição, surgiram, no entanto, 
duas mudanças fundamentais. Uma foi a generalização do conceito de 
‘livro’, acentuado nos anos recentes no vocábulo ‘documentação’. A se-
gunda mudança foi a generalização do termo ‘crescimento’, que ocorreu 
em minhas próprias ideias, suscitada enquanto lecionava e trabalhava nos 
livros Library development plan (1950) e Library book selection (1953). Além dis-
so, senti a necessidade de responder à pergunta ‘a biblioteconomia é uma 
ciência?’ Além disso, o movimento bibliotecário tem feito grandes avanços 
em muitos países, inclusive na Índia. Para dar lugar a essas mudanças, 
acrescentei um oitavo capítulo, intitulado ‘Método científico, biblioteco-
nomia e a marcha da digvijaya’. Este capítulo é a novidade nesta edição.
12 de agosto de 1956
248 Hofwiesenstrasse, Zurich 57
gênese
as cinco leis da biblioteconomia6
CAPÍTULO 1
A PRIMEIRA LEI
11 Princípio Fundamental
A Primeira Lei da biblioteconomia se assemelha à de qualquer outra 
ciência: incorpora um princípio fundamental. Na verdade, é evidente por 
si mesma; somos levados a supor que seja trivial. Entretanto, esta é uma 
característica invariável de todas as primeiras leis. Vejamos, por exemplo, 
a primeira lei de conduta upanixádica* — satyam vada — ‘falar a verdade’. 
Assim também é a primeira lei do movimento, de Newton.
111 Enunciado
A Primeira Lei da biblioteconomia é: os livros são para usar. Nin-
guém questionará a correção desta lei. Entretanto, na vida real, a história 
é diferente. Os órgãos responsáveis por bibliotecas raramente levaram 
esta lei em consideração.
12 Negligência da Lei
Se examinarmos a história de qualquer aspecto da prática bibliotecária, 
nela encontraremos inúmeras provas da negligência deplorável com que 
esta lei é tratada.
121 Biblioteca Acorrentada
Vejamos, em primeiro lugar, a maneira como os livros eram mantidos 
nos séculos xv e xvi. Naqueles dias, não era incomum encontrar livros 
realmente acorrentados às estantes. Eles eram equipados com molduras e 
argolas de bronze, presas a correntes de ferro, com uma das extremidades 
fixada nas estantes. Os livros assim acorrentados não podiam se afastar das 
estantes além do comprimento da corrente. Sua liberdade estava confinada 
ao espaço determinado pelas correntes. É claro que tal acorrentamento 
propiciava mais a preservação do que o uso dos livros. Na verdade, as 
bibliotecas eram vistas, nessa época, não como organizações voltadas para 
a promoção do uso dos livros, mas para a sua preservação.
* Conforme ao Upanixade, um dos livros da literatura védica que tratam da divindade, da 
criação e da existência. (n.e.)
6
7
122 Preservação para a Posteridade
Talvez seja interessante refletir um pouco sobre esse complicado 
processo de preservação. Qual teria sido a finalidade dessa preservação? 
É difícil pensar em alguma finalidade, a não ser a de preservação para a 
posteridade. Sem dúvida, é uma característica saudável ou, de qualquer 
forma, uma característica inevitável da natureza humana, que pensemos 
em nossos filhos — na nossa posteridade — e que estejamos preparados a 
negar-nos muitas coisas, a fim de legá-las intatas à posteridade. Esta prática, 
porém, implica uma dedução inevitável. Mesmo que tenhamos o anseio de 
legar nossos livros à posteridade, cada geração pode ser impelida por um 
motivo altruístico exatamente similar, e, por conseguinte, os livros talvez 
tenham que ficar para sempre acorrentados e jamais serão liberados para 
o uso. Este aspecto da questão parece não ter sido percebido por muito 
tempo e ‘os livros existem para serem preservados’ usurpou o lugar de 
‘os livros são para usar’. 
123 Costume Herdado
Essa tendência de entesourar livros teve origem numa época em que 
eles eram raros e de produção difícil. Antes da invenção da imprensa, 
levavam-se anos para copiar um livro. Copiar o Mahabharata era traba-
lho de uma vida inteira. Nessas condições, havia uma justificativa para 
esquecer que os livros são para usar e para exagerar na sua preservação. 
Mas essa tendência parece infelizmente que se transformou num hábito 
regular, como resultado de uma longa prática. A situação foi totalmente 
alterada pela invenção da imprensa. Ainda assim, passaram-se séculos até 
que fosse superado esse costume herdado de há muito tempo. O primei-
ro passo consistiu em declarar anistia para os livros e libertá-los de seus 
grilhões. Entretanto, mesmo depois que foram desacorrentados e se lhes 
permitiu que fossem retirados da biblioteca para uso e manuseados pelos 
leitores, não houve, por um longo tempo, um reconhecimento generoso, 
por parte daqueles que mantinham e administravam a biblioteca, do direito 
dos leitores ao uso desembaraçado dos livros. Muitas eram as restrições 
postas no caminho dos livros para que fossem usados livremente, e só 
em anos recentes é que parece ter-se firmado um vigoroso movimento 
visando a eliminar todas essas deficiências. Este movimento ainda não 
se tornou, de forma alguma, universal. Há vários países — e nossa terra 
parece reivindicar, com justiça, ser classificada entre eles — que ainda mal 
foram afetados por este novo movimento.
124 Exemplo 1
Um professor de uma faculdade chefiou seu departamento por quase 
25 anos. O estudo de sua especialidade, a zoologia, aos poucos foi limitando 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia8
o âmbito da sua visão, e ele passou a ter uma mentalidade mecanicista. 
Detalhes triviais começaram a se avolumar para ele. Por isso, passou a 
executar, pessoal e meticulosamente, cada rotina, desde abrir as portas e 
janelas até esvaziar os cestos de lixo. Era comum ter acessos de cólera se 
tudo não estivesse no devido lugar. Infelizmente, sob a influência desta 
tendência incoercível, começou a ver as estantes, mais do que as mãos dos 
leitores, como o lugar próprio para os livros. Seus auxiliares, cuja promoção 
nos cargos dependia da boa vontade dele, preferiam abster-se de usar os 
livros a correr o risco de despertar sua cólera ao retirá-los das estantes. 
Os alunos do primeiro ano, os únicos que desconheciam suas idiossincra-
sias, solicitavam ocasionalmente os livros da biblioteca do departamento. 
Ele costumava despachá-los com este dilema: “Vocês acompanharam as 
aulas? Se prestaram atenção, não precisam destes livros. Se não consegui-
ram acompanhar as aulas, nada lucrarão com a leitura deles.” Os alunos 
mais antigos jamais o abordavam, pois haviam passado por experiências 
dolorosas com suas tentativas baldadas. O resultado foi que, quando ele 
finalmente se aposentou, seu sucessor teve que abrir as páginas de vários 
dos livros que ele deixara! Em alguns casos, descobriu-se até mesmo que 
não valia a pena perder tempo em abri-los, uma vez que haviam se tor-
nado completamente desatualizados e era preciso descartá-los. Teria essa 
carreira profissional sido possível se a faculdade tivesse agido conforme 
a lei segundo a qual os livros são para usar?
125 Exemplo 2
A força e a inexorabilidade extraordinárias dessa tendência herdada, 
que se interpõe entre os livros e seus usuários, são realçadas por um outro 
caso, desta vez com um professor de filosofia. Este era um filósofo não 
somente de profissão, mas também pela prática e pelo temperamento. Era 
também uma daquelas pessoas que sentiam vontade de ser úteis à comuni-
dade. Uma forma de serviço comunitário que nosso professor de filosofia 
decidiu prestar consistia em dar uma oportunidade aos seus vizinhos para 
que se instruíssem. Para isso, costumava investir a maior parte de suas 
economias em livros. Depois que formou uma boa coleção, construiu uma 
bela cabaninha para leitura, a fim de abrigar oslivros. Costumava passar a 
maior parte do tempo livre nessa cabana, de forma que pudesse emprestar 
pessoalmente os livros. Ficou, entretanto, muito desapontado com a total 
indiferença dos vizinhos. Por isso, levou-me um dia à cabana para que eu 
o aconselhasse. No trajeto, foi ficando cada vez mais eloquente ao falar dos 
excelentes livros que comprara para a biblioteca, da deprimente indiferença 
das pessoas do lugar com relação ao uso de livros, e assim por diante. A 
conversa que se seguiu tão logo entramos na encantadora mas desolada 
cabana lançou uma luz profusa sobre a persistência do hábito de preservar, 
9
há muito herdado, que podia sufocar até mesmo a determinação sincera 
e as boas intenções de um honesto filósofo.
“Onde estão os seus livros, meu amigo?”
“Estes dez armários estão cheios deles. Gastei cem rupias* na compra 
de cada um destes armários, confeccionados especialmente para isso, etc. 
etc. etc.”
“Mas, querido professor, por que cobriu estas belas portas de vidro 
transparente com estas horríveis folhas de papel pardo?”
“Você não sabe como as visitas me incomodam. Se eu não colocar este 
papel pardo, verão os livros através do vidro. E aí pedirão ou este ou aquele 
e terei que retirar todos os livros.”
Pobre filósofo derrotado! Sem comentários.
126 Exemplo 3
Embora estas coisas sejam corriqueiras para nós do século xx, basta 
voltar apenas um século para encontrar a forte influência deste costume 
de acumulação nas bibliotecas norte-americanas. T.W. Koch, da North-
-Western University, registra uma história significativa, mas típica, de 
um bibliotecário da Harvard University. Este “certa vez, tendo terminado 
o inventário da biblioteca, foi visto cruzando o campus com um sorriso 
particularmente feliz”. Perguntado qual o motivo de seu humor excep-
cionalmente agradável, exclamou orgulhoso, “Todos os livros estão na 
biblioteca, menos dois. Agassiz está com eles e vou buscá-los”.
127 O Bibliotecário Moderno
Por outro lado, um bibliotecário moderno, que acredita na lei de que 
os livros são para usar, só se sente feliz quando os leitores esvaziam 
constantemente as estantes. O que o preocupa não são os livros que são 
retirados da biblioteca. O que o deixa perplexo e o deprime são os volumes 
que ficam em casa. Ele também atravessará constantemente o pátio atrás 
de seus Agassiz. Mas irá até eles não para pegar de volta os livros que es-
tão usando, mas para entregar as novas aquisições que precisam ser-lhes 
apresentadas o mais rápido possível.
128 A Força da Primeira Lei
Os diferentes estágios pelos quais a força da lei os livros são para 
usar levou à gradual remoção das restrições induzidas pelos mencionados 
costumes herdados podem ser resumidos da seguinte maneira: primeiro, 
* O autor menciona rupias, mesmo quando se refere a valores monetários de outros países. 
Diante da dificuldade de definir uma equivalência atual, em termos de cotação ou de poder 
aquisitivo, tanto da rupia quanto de uma moeda-padrão de circulação internacional, foi 
mantida nesta tradução a redação original do autor, que data de 1931. (n.e.)
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia10
as correntes foram removidas e vendidas como ferro-velho, mas o acesso 
continuava limitado aos poucos eleitos. Mais tarde, o uso dos livros foi 
permitido a quem podia pagar por isso. Em seguida, veio a etapa quando 
se tornaram acessíveis para todos, mas somente para uso no recinto da 
biblioteca. Depois, passou a ser feito o empréstimo aos poucos favorecidos; 
posteriormente, aos que pagavam uma taxa, e, finalmente, o empréstimo 
gratuito para todos. Talvez estejamos acabando de atingir este estágio em 
nossa terra. Mas não foi isso, de forma alguma, o que aconteceu alhures, 
onde a Primeira Lei já era conhecida há bastante tempo, para revelar todas 
as implicações ali profundamente enraizadas. Nesses lugares, métodos 
agressivos, que tornaram bem-sucedidos outros empreendimentos, foram 
empregados para fazer avançar o uso dos livros. Depois, foram abertas 
filiais de bibliotecas nas grandes cidades, a fim de oferecer uma coleção 
satisfatória de livros e uma sala de leitura convidativa a poucos minutos 
de caminhada de cada residência. Posteriormente, os livros eram despa-
chados, mediante o pagamento de uma taxa insignificante, àqueles que 
não podiam, de forma conveniente, chegar até eles. Mais tarde, caixas de 
livros eram enviadas gratuitamente às residências daqueles que se ofe-
recessem para mostrá-los aos vizinhos. Mais recentemente os livros são 
transportados num furgão, de rua em rua, para atendimento dos morado-
res. É difícil imaginar qual o triunfo adicional que ainda está reservado à 
Primeira Lei. Mas, como afirmou J.P. Quincy, é-se tentado a adaptar um 
conhecido paradoxo celta,* ao dizer que uma biblioteca pública é tão boa 
quanto uma biblioteca privada e, para o estudo dos livros, possui vantagens 
indiscutíveis sobre ela.2
13 Localização da Biblioteca
A localização de uma biblioteca pode, em geral, ser tomada como um 
índice do grau de confiança que os órgãos responsáveis por bibliotecas 
têm na lei os livros são para usar. 
131 Exemplo 1
Ocorreu-me visitar Dindukkal, uma cidade no sul da Índia. Os pró-
ceres do lugar convidaram-me para uma conversa sobre a construção de 
uma biblioteca para a cidade. A questão da localização logo veio à baila. 
Praticamente todos sugeriram um lugar nos arrabaldes da cidade. Um 
dos motivos para sugerir um lugar tão remoto era de que havia muita 
poeira no centro e de que os livros se estragariam. Outro motivo era que, 
se não fosse assim, ‘todo tipo de gente’ teria acesso à biblioteca. Nunca lhes 
ocorrera que a função da biblioteca era fazer com que ‘todo tipo de gente’ 
* O paradoxo lembrado é o que diz que um homem é tão bom quanto outro homem e 
também muito melhor. (n.e.)
11
usasse os livros e que o problema da poeira não deveria permitir que a 
biblioteca ficasse afastada da área onde fosse acessível e útil. Por outro lado, 
mostraram-se chocados quando me ouviram sugerir uma localização na 
rua comercial, que atravessa o coração da cidade. Tive que citar o exemplo 
de várias cidades do Ocidente e explicar, minuciosamente, o evangelho da 
organização da biblioteca antes que admitissem haver pelo menos algo a 
dizer em favor de minha sugestão.
132 Exemplo 2
Numa conferência no Kellett Hall, não faz muito tempo, antes da exis-
tência do serviço de ônibus, o talentoso conferencista S. Satyamurti, de 
forma jocosa, fixou as coordenadas de uma das nossas grandes bibliotecas 
da seguinte maneira: “Encontre um lugar na cidade que fique no mínimo 
a dois quilômetros de qualquer linha de bonde ou de qualquer estação 
ferroviária, que não tenha nem mesmo um posto de jinquirixá num raio 
de um quilômetro, cujo alojamento de estudantes mais próximo fique a 
uma distância de cinco quilômetros. Talvez só exista um único lugar na 
cidade que atenda a esta descrição e esse será o lugar escolhido para nossa 
biblioteca.” E, no entanto, ninguém reclamou, pois a biblioteca era vista 
mais como um ornamento da cidade do que como uma instituição, com 
a função essencial de propagar o uso dos livros.
133 Exemplo 3
Por outro lado, em todas as cidades ocidentais que creem vivamente na 
Primeira Lei da biblioteconomia, e que votam em favor das bibliotecas e as 
mantêm, pois têm a preocupação de que os livros sejam usados, a biblioteca 
principal é normalmente erigida no centro da cidade, num lugar por onde 
a maioria dos cidadãos passe obrigatoriamente todos os dias, por algum 
motivo. Ela também funciona através de diversas filiais e postos de aten-
dimento em partes diferentes da cidade, de modo que a distância não seja 
empecilho ao livre e pleno uso dos livros. Dublin, por exemplo, conta com 
cinco bibliotecas regionais para uma população de 324 mil habitantes. Até 
mesmo a próspera Edimburgo, com uma população de 420 mil habitantes, 
já construiu sete bibliotecas regionais. Manchester sentiu a necessidade 
de 30 filiaispara que sua população, que soma 744 mil habitantes, possa 
usar plenamente seus livros. Birmingham, com 919 mil habitantes, não 
acha que suas 24 bibliotecas sucursais sejam suficientes para difundir o 
uso dos livros. Toronto, com uma população de apenas 550 mil habitantes, 
criou 15 filiais e planeja construir mais. Cleveland, onde vivem cerca de 
800 mil pessoas, dá acesso a seu acervo de livros em 25 filiais e 108 pos-
tos de atendimento, enquanto 25 filiais e 108 postos de atendimento são 
considerados insuficientes para os três milhões de moradores de Chicago.
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia12
134 Analogia com a Localização do Comércio
Tão logo a ideia de que os livros são para usar esteja firmemente 
estabelecida, tão logo as bibliotecas compreendam que a sua existência é 
justificada somente na medida em que os livros sejam usados pelos leito-
res, não haverá qualquer diferença de opinião quanto à sua localização. 
Uma localização igual à descrita pelo conferencista do Kellett Hall jamais 
seria imaginada. O comerciante sagaz, que deseja vender seus produtos, 
instala sua loja no santuário (sannidhi) de um templo popular. O dono de 
uma cafeteria, que quer ver seu negócio prosperar, instala-a perto de um 
grande albergue estudantil, como o Victoria Hostel. Um vendedor de bé-
tel, preocupado com a receita diária, arma sua tenda defronte a um hotel 
grande e popular. Do mesmo modo, a biblioteca, interessada em que seus 
livros sejam plenamente utilizados, instalar-se-á no meio de sua clientela. 
Por outro lado, nenhum santuário de templo popular existe sem uma loja 
e a vizinhança de todas as repúblicas de estudantes está invariavelmente 
rodeada de cafés e lojas de vender bétel. O mesmo acontece com as biblio-
tecas. Qualquer lugar onde houver habitualmente a presença de grupos 
humanos será um local potencial para instalar uma biblioteca.
135 Exemplo 4
Um exemplo extremo mas feliz desta dedução da Primeira Lei da biblio-
teconomia nos é dado pela biblioteca de jardim, em Lisboa.3
Lisboa, construída sobre sete colinas, como a nossa Tiruppati e com-
parável à nossa Madura em tamanho e população, conquistou um lugar 
único no mundo da biblioteconomia. Um provérbio português diz: “Quem 
não viu Lisboa, não viu coisa boa”.4 Se esta afirmativa é válida ou não, 
Lisboa certamente sobrepujou todas as demais cidades com sua singular 
biblioteca de jardim, que é certamente uma coisa boa. 
Na encosta de uma das colinas, sobranceiro às águas azuis do Tejo, 
encontra-se um ensolarado jardinzinho público, com um lago artificial, de 
mármore, no centro, em torno do qual as flores tecem uma orgia nas cores 
do arco-íris e as crianças gritam e correm em alegre êxtase. 
Ao fundo, há um cedro gigantesco, que se alastra como um guarda-
-chuva, desafiando o sol e a chuva. Sob sua sombra intensa predomina um 
silêncio profundo, e ali se encontra uma fileira de cadeiras em torno de uma 
coleção encantadora de volumes numa linda estante. Estudantes com suas 
capas esvoaçantes, trabalhadores cobertos de caliça, rústicos camponeses 
de olhos tímidos e lânguidos, empregados de escritórios e lojas mastigando 
o almoço, soldados, gráficos, eletricistas, marinheiros e estivadores, todos 
compartilham o conteúdo dessa biblioteca ímpar, despojados de qualquer 
formalidade, mas auxiliados pela ágil e simpática bibliotecária, a andar 
daqui para lá, de lá para cá, com seu sorriso radiante.
13
Quem teve essa ideia? Foi uma sociedade educativa particular, conhe-
cida como Universidade Livre. Na expectativa de promover o amor pela 
leitura em todas as classes, a Universidade Livre fundou esta biblioteca de 
jardim, fornecendo os livros e o mobiliário.* Os próceres de Lisboa, que 
acreditavam na Primeira Lei da biblioteconomia, calorosamente aprova-
ram este empreendimento e contrataram os serviços de uma bibliotecária.
Conta com menos de mil volumes, que são substituídos de tempos em 
tempos. Possui um pouco de tudo — clássicos, autores contemporâneos, 
viagens, história, eletricidade, química, taquigrafia, contabilidade, constru-
ção, ferraria, navegação, e assim por diante. E esses livros são avidamente 
procurados por todos os visitantes do jardim. A biblioteca fica aberta diaria-
mente das 10 às 18 horas. As estatísticas mostram que durante o primeiro 
ano não houve menos de 25 mil leitores que a utilizaram. Que a sombra 
do vetusto cedro no jardim público da cidade das sete colinas jamais deixe 
de crescer! Que ele sirva de abrigo a esse empreendimento patriótico, a 
serviço desta verdade absoluta: os livros são para usar!
136 Exemplo 5
Também nas escolas e faculdades, a localização das bibliotecas pode ser 
tomada como um índice confiável do grau de fé das autoridades na lei os 
livros são para usar. A evolução das ideias relativas à localização e dimen-
são das bibliotecas escolares e universitárias tem ocorrido de modo muito 
paralelo ao crescimento gradual da crença nesta lei. Conheci, por dentro, 
uma escola. Sua biblioteca consistia de algumas centenas de volumes, na 
sua maioria livros didáticos, que as editoras enviavam como amostras de 
cortesia e eram descartados pelos professores porque não mereciam estar 
em sua posse particular. Essas poucas centenas de livros estavam cuida-
dosamente trancados num armário de madeira. O próprio armário ficava 
trancado numa sala de pouco mais de um metro quadrado, cuja ventilação 
se dava por uma única janela pequena. Havia uma característica mais 
assustadora. O diretor da escola invariavelmente dava aulas — inclusive 
suas inumeráveis aulas especiais — no saguão que dava para esta sala, 
quase bloqueando a entrada. Quem se lembra do respeito mortal em que 
eram tidos os diretores dessas escolas, vinte e cinco ou trinta anos atrás, 
perceberá o que isso significava para os livros da biblioteca. Para quem não 
sabe, pode-se dizer que o aparecimento da figura do diretor na esquina 
era suficiente para fazer com que um grupo de alunos, que jogavam bolas 
de gude ao sol da tarde, corresse para salvar a própria pele, escondendo-
-se nos cantos mais escuros das cozinhas das casas próximas, onde seus 
* A biblioteca do jardim da Estrela, ou jardim Guerra Junqueiro, ainda em funcionamento. 
Esta biblioteca-quiosque dispõe de cerca de mil livros para consulta e empréstimo, jornais, 
revistas e jogos de entretenimento. [http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=1056] (n.e.)
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia14
olhares e modos, assustados e denunciadores, fariam as mães exclamar, 
‘O diretor está indo para o templo?’ Seria muito difícil algum dos meninos 
se atrever a sair de seu esconderijo, enquanto o mais corajoso dos ousados 
diabretes não se arriscasse a espreitar furtivamente e anunciar, contente, 
‘Caminho livre’. Com esta informação, é fácil perceber como a localização 
da biblioteca escolar era eficiente, se o objetivo fosse evitar que os livros 
fossem utilizados. Com certeza, a escola não acreditava, naqueles dias, 
que os livros são para usar, e não era, de forma alguma, uma exceção.
137 Exemplo 6
Há não muito tempo, o diretor de uma grande escola secundária 
convidou-me para fazer uma visita à sua biblioteca e sugerir alguns melho-
ramentos. Compareci de bom grado. Fui recebido com grande afabilidade 
e conduzido através de um labirinto de salas e corredores apertados, es-
curos e malventilados, com armários ao longo das paredes. Ao chegarmos 
perto da outra extremidade, perguntei onde ficava a biblioteca e quando 
chegaríamos lá. Para minha surpresa, o diretor respondeu que, em todo o 
trajeto, estivéramos passando pela biblioteca. Maravilhado diante desse 
estranho arranjo, numa escola secundária, de um lugar onde os meninos 
brincavam de esconde-esconde no intervalo de almoço, perguntei por que 
fora escolhida uma localização tão infeliz para a biblioteca. Sua resposta 
imediata e inocente: “Estas salas não servem para outra coisa e precisa-
vam ser usadas”. Teria esta resposta inocente sido dada, se a PrimeiraLei tivesse alguma influência nas autoridades da escola? Há vinte anos, 
mudamo-nos para um novo prédio. A sala mais agradável, dando para o 
mar, foi destinada aos periódicos. Eu fiquei numa pequena sala do lado 
do poente. Uma pessoa imprópria para a profissão de bibliotecário um 
dia apareceu ali. Expressou surpresa por eu ter escolhido a pior das salas 
como meu gabinete. “Se eu fosse você, instalaria meu gabinete na sala dos 
periódicos”, disse ele. Respondi, “Se a Primeira Lei não se tivesse revelado 
a mim, eu também teria feito isso”. “— Hum! Sua Primeira Lei. Se um dia 
eu vier a substituí-lo, verá o que farei”, foi a resposta imediata! 
138 Exemplo 7
O que hoje predomina em nossas escolas e faculdades prevalecia há uns 
sessenta ou setenta anos nas escolas e faculdades do Ocidente. Discursando 
na inauguração da biblioteca do Colorado College, em março de 1894, o 
Sr. Harper, primeiro reitor da Chicago University, afirmou
Há um quarto de século, a biblioteca, na maioria das nossas instituições, até 
mesmo as mais antigas, quase não chegava a ter tamanho suficiente [...] para 
merecer o nome de biblioteca [...] Conheço uma faculdade, que tem cento e 
cinquenta estudantes matriculados [...] e, apesar disso, numa sala de três por 
15
quatro metros, chamada de biblioteca, não chega a ter duzentos e cinquenta 
volumes [...] Como existia o local, para lá o professor costumava dirigir-se 
ocasionalmente, mas o estudante, nunca [...] O lugar, raramente frequentado, 
era uma sala remota, que não poderia servir para qualquer outra finalidade.5
Quase as mesmas palavras do diretor mencionado acima!
139 Exemplo 8
Mas tudo isso mudou tão logo a Primeira Lei da biblioteconomia se 
instalou nas mentes das pessoas. Atualmente, diversas faculdades no Oci-
dente, que acreditam que os livros são para usar e sabem que um dos 
seus deveres fundamentais consiste em desenvolver o hábito da leitura nos 
alunos de graduação, destinam a sua melhor sala para a biblioteca. Pelo 
menos em uma faculdade do Ocidente, cujos “livros eram colocados em 
corredores, porões e sótãos”, até que esta lei tivesse influência sobre ela, 
a área agora ocupada pelas bibliotecas da faculdade corresponde a quase 
metade da área ocupada por toda a escola. Citando Harper novamente,
Hoje o edifício principal da faculdade, o edifício do qual temos mais orgulho, é 
a biblioteca. Com o conjunto de estantes do acervo geral, a sala de consulta para 
obras de referência, as salas de atendimento, as salas para os seminários, é o 
centro dinâmico da instituição [...] Dificilmente se pode imaginar uma mudança 
que fosse maior do que esta [...] Está próximo o dia em que o estudante pouco 
estudará em seu gabinete: ele deverá estar no meio dos livros. Como o cientista, 
que, embora dispondo de milhares de volumes em sua própria biblioteca, deve 
procurar as grandes bibliotecas do Velho Mundo, se quiser fazer um trabalho 
de alta qualidade, também o estudante universitário, embora tendo centenas 
de volumes em seu próprio aposento, deverá fazer seu trabalho na biblioteca 
da instituição [...] Sua mesa deve ficar onde, sem a menor delonga, sem a 
mediação do zeloso bibliotecário, que provavelmente pensa mais no livro do 
que no seu uso, ele possa pegar um dentre dez ou vinte mil livros que desejar 
utilizar [...] Este fator do trabalho do nosso colégio e da universidade, a biblio-
teca, cinquenta anos atrás quase desconhecida, hoje já o centro da atividade 
intelectual da instituição, e daqui a cinquenta anos, absorvendo tudo o mais, 
ter-se-á transformado na própria instituição. 6
14 Horário da Biblioteca
A influência da lei os livros são para usar foi não menos profunda com 
relação ao horário da biblioteca. Enquanto predominava a noção herdada 
sobre preservação e a lei os livros são para usar não se havia consolidado 
plenamente, a biblioteca permanecia mais tempo fechada do que aberta. 
Talvez fosse aberta mais vezes para matar as traças e tirar a poeira dos livros 
do que para a entrada de leitores e o empréstimo dos livros. Conta-se que 
os registros dos livros emprestados na década de 1730–1740 da Bodleian 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia16
Library, de Oxford, mostram que eram emprestados não mais de um ou 
dois livros por dia. Às vezes, decorria toda uma semana sem que fosse feito 
um único empréstimo. Conta-se que um aviso interessante, datado de 1806, 
teria sido preservado por essa biblioteca. Encontrando-a fechada, um 
estudioso, furioso pela frustração, afixou à porta da biblioteca um pedaço 
de papel com as palavras que a musa grega lhe havia oferecido para aliviar 
seus sentimentos: — “Ai de ti que levaste a chave do conhecimento! Não 
entras e impedes a entrada àqueles que comparecem!” Na sua Story of 
the University of Edinburgh, sir Alexander Grant deplora como, no começo 
do século xix, os horários da biblioteca da universidade restringiam as 
oportunidades oferecidas aos alunos para usá-la. Os livros só podiam ser 
retirados por duas horas, dois dias por semana. Segundo Koch, a biblioteca 
do Amherst College abria, em 1850, apenas uma vez por semana, de uma 
às três horas da tarde. Os alunos da Princeton University podiam usar a 
biblioteca somente por uma hora, duas vezes por semana, enquanto aos 
seus contemporâneos em Missouri se permitia apenas uma hora, a cada 
duas semanas. No Columbia College, criado em 1859, por muitos anos
aos alunos do primeiro e do segundo ano era permitido visitar a biblioteca 
somente uma vez por mês, para contemplar as lombadas dos livros; os alunos 
do terceiro ano eram levados até lá uma vez por semana por um orientador, 
que lhes passava informações orais sobre o conteúdo dos livros, mas somente 
os alunos do último ano [...] podiam tomar livros emprestados da biblioteca, 
durante uma hora, às quartas-feiras à tarde.
141 Insulto contra a Primeira Lei
Se o horário era, até o final do século xix, tão restrito no mundo das 
bibliotecas, pode-se facilmente imaginar as condições que predominam 
hoje em dia em nossas bibliotecas escolares e universitárias, quando, ob-
viamente, elas existem! A prática corrente numa grande faculdade pode 
servir de exemplo. Teoricamente, essa faculdade concede ‘dois dias de 
empréstimo’ por semana. Mas, que a ocorrência da palavra ‘dia’, de modo 
algum nos engane levando-nos a multiplicar o ‘dois’ por 24 ou mesmo por 
12, para chegar a um número de horas por semana com a biblioteca aberta. 
Na prática, o professor encarregado da biblioteca tinha convenientemen-
te interpretado os ‘dois dias de empréstimo’ como dois períodos de 15 
minutos. Nenhum menino prudente ousaria expor-se ao seu desagrado. 
Talvez alguém queira saber o que acontece na biblioteca durante as horas 
restantes da semana. Bem, os livros gozam do seu imperturbável repouso 
eterno, atrás de portas trancadas, numa sala fechada e escura.
1411 Uma Realidade
A biblioteca da Madras University durante muito tempo fez experi-
17
ências com seus horários. As pessoas, suficientemente letradas para usar 
os livros, dispunham do horário entre 11 h e 17 h nos dias úteis. Sábados 
e domingos eram normalmente feriados para elas. Nesses dias, costuma-
vam dedicar as horas da manhã a visitas sociais, compras domésticas e 
outros afazeres de fim de semana; depois do deleite do almoço e da sesta 
ao meio-dia, sentir-se-iam dispostos para o estudo ou para uma série de 
visitas à biblioteca somente à tarde. O horário a que a biblioteca finalmente 
chegou, depois de seus infindos experimentos e investigações, adequou-se 
ao hábito da clientela de uma maneira idealmente equivocada. A decisão, 
na realidade, foi ficar aberta das 10 h às 17 h nos dias úteis e das 7 h às 14 
h aos sábados e domingos! Pode uma decisão mais eficaz ser imaginada 
para um lugar onde a Primeira Lei da biblioteconomia era quase uma he-
resia? Em outra ocasião, quando as autoridades de uma biblioteca estavam 
solenemente discutindo os modos e meios para fazer frente a um grande 
aumento no empréstimode livros, um verdadeiro Daniel apareceu ‘para 
uma decisão’. 
“Quando é que ocorre o maior afluxo de público durante o dia?” per-
guntou o Daniel.
“No final da tarde, entre 4 e 6 horas”, respondeu o bibliotecário.
“Olhe”, apareceu a solução, “feche a biblioteca às 4 e não às 6. Isso vai 
acabar com a complicação.”
Houve um submisso resmungo: “Mas esse é o único horário em que a 
maioria dos alunos e professores pode usar a biblioteca.”
“Você sabe que leitura demais não faz bem”, retorquiu o enérgico 
Daniel.
Coitada da Primeira Lei! Desprezada de modo tão sumário e descortês! 
Mas não se deve recusar clemência ao Sul da Índia; pois, todos os climas 
e todos os tempos fazem jus à nossa clemência. O Sul da Índia não está 
sozinho ao mostrar desrespeito nessa hora tão tardia. Lembrem-se das 
recentes queixas de um bibliotecário parisiense: “Falando de maneira 
geral, uma biblioteca escolar na França era um armário fechado, que se 
abria uma única vez a cada quinzena ou mensalmente.”
142 Magia da Primeira Lei
Mas a magia do mantra os livros são para usar provocou mudanças 
maravilhosas nos horários da biblioteca em outros lugares do Ocidente. 
Até mesmo a Bodleian, vergada ao peso inexorável da tradição medieval, 
rompeu os grilhões de um antigo preceito sobre sua iluminação. Antiga-
mente tomara a decisão de que seu expediente seguiria a caprichosa luz 
solar do hemisfério norte. A iluminação elétrica, proibida durante muito 
tempo, está agora tornando seu horário de funcionamento não apenas 
uniforme, mas também bastante longo. Outras bibliotecas renderam-se, 
até antes, aos preceitos da Primeira Lei. Segundo um levantamento da 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia18
American Library Association sobre as bibliotecas,7 “as horas, durante as 
quais as bibliotecas estão diariamente abertas, variam de dez a quatorze”. 
O Amherst College que, oitenta anos atrás, abria a biblioteca durante 
meras três horas semanais, agora a mantém aberta por aproximadamente 
cem horas por semana. Na verdade, informa-se que o seu horário diário 
é das 8 h às 22 h 30 min. A Cornell University age da mesma forma. A 
Oregon University abre a biblioteca diariamente às 7 h 30 min e a fecha 
somente às 22 h. Até mesmo a biblioteca da Madras University fixou das 
7 h às 20 h o seu horário de abertura e fechamento, para todos os dias do 
ano, inclusive domingos e feriados. Se Deus quiser, poderá brevemente 
imitar o University College London nas suas vigílias noturnas. Não foram 
unicamente as bibliotecas universitárias que responderam ao chamado da 
Primeira Lei da biblioteconomia. A resposta das bibliotecas públicas tem 
sido não menos ardorosa. A maioria delas, que possuem livros para serem 
usados, mantêm-se abertas diariamente das 9 h às 21 h, enquanto outras, 
como em San Francisco e Seattle, trabalham até as 22 h.
143 Todas as Horas de Vigília
Não há nenhuma necessidade de multiplicar as estatísticas. Pode-se 
afirmar com segurança que os argumentos a priori sobre horário de fun-
cionamento das bibliotecas levam exclusivamente a conclusões coerentes 
com essas novas práticas. Em nenhum país onde a lei os livros são para 
usar houver deitado raízes na consciência pública será permitido que as 
bibliotecas encerrem seu expediente antes de a maior parte das pessoas 
ir dormir e, portanto, fiquem impedidas de usá-la. Nem poderão ficar 
fechadas depois que a maioria sai da cama. Também não se permitirá que 
biblioteca alguma fique fechada em qualquer dia da semana, inclusive aos 
domingos, mesmo em países cristãos. O público requer horários amplos, e 
as autoridades responsáveis pelas bibliotecas* reconhecem a correção dessa 
exigência. É, na verdade, considerado criminoso encerrar o expediente da 
biblioteca num horário em que as pessoas possam usá-la comodamente. 
Seria o caso de perguntar quanto custa a biblioteca ser mantida aberta por 
longas horas e todos os dias. A sociedade moderna reconhece que qualquer 
* O leitor encontrará amiúde esta e expressões afins, que correspondem à tradução do 
conceito de library authority e seus correlatos, indicativos de âmbito de atuação, como 
nacional, estadual, local, etc. Trata-se de característica da administração de bibliotecas 
públicas, levada à Índia pela colonização inglesa. No Reino Unido, library authority podia 
ser “qualquer conselho local [local council] responsável pelo governo local que houvesse ado-
tado as leis sobre bibliotecas” [do poder central], condição que ainda persiste no essencial 
(Cf. The librarians’ glossary & reference book, comp. by L.M. Harrod, 4th ed., London: Andre 
Deutsch, 1977, p. 491.) O conselho local é formado por conselheiros eleitos, com funções 
executivas. Sobre governo local na Índia, ver http://www.citymayors. com/government/
india_government.html#Anchor-Municipal-14210. (n.e.) 
19
quantia a mais despendida na manutenção de bibliotecas é despendida 
legitimamente e é bem-vinda. Além de tudo, qual a proporção entre o custo 
adicional da instituição e o enorme benefício que decorre de um uso mais 
amplo da biblioteca? Que grande soma de dinheiro está encerrada nos 
livros das bibliotecas! Não será fazer economia de palito com as pequenas 
quantias e ser perdulário nas grandes despesas ficar pechinchando algumas 
rupias a mais no custo da instituição e assim restringindo o uso pleno desse 
tesouro? Algumas vezes, a sabedoria está em gastar uma boa soma para 
ganhar uma soma maior: “[...] mas, se consentes em lançar outra flecha 
na direção em que lançaste a primeira, como vigiarei o voo, não duvido 
que [...] voltarei a encontrar as duas”.8
144 O Dia Inteiro e a Noite Inteira
Mas em matéria de horário de biblioteca, leva o prêmio o University 
College, London. A aula inaugural aos calouros foi proferida, no ano em 
que lá estudei, por uma feliz coincidência, pelo Dr. E.A. Baker, diretor da 
School of Librarianship. Declarou, orgulhoso, que o University College 
era um pioneiro em romper tradições. Citou vários fatos em apoio à sua 
afirmação. Não lembro, entretanto, que tenha incluído as conquistas da 
universidade no que diz respeito aos horários da biblioteca. Em suma, o 
expediente da biblioteca do University College não é fixado absolutamente 
pela administração. É deixado inteiramente nas mãos dos alunos. Cada um 
recebe uma chave da biblioteca de seu departamento; está livre para usar 
a biblioteca na hora que quiser, do dia ou da noite. A última palavra em 
matéria de liberdade de horários! Este ideal foi endossado sem restrições, 
no relatório final de maio de 1927, do Public Libraries Committee, desig-
nado em 1924 pelo presidente do Board of Education da Grã-Bretanha. 
Ali se diz que
na medida em que não existe nenhum horário noturno ou diurno em que o 
cidadão não possa sentir necessidade de consultar um livro de que não dispo-
nha, o preceito ideal seria que as bibliotecas ficassem sempre abertas ao público.9
 15 Mobiliário da Biblioteca
A seguir, vejamos o efeito que a lei os livros são para usar pode ter 
sobre o mobiliário da biblioteca. Pode-se dizer com segurança ‘mostra-me 
o mobiliário da tua biblioteca e eu te direi se crês ou não na Primeira Lei 
da biblioteconomia’. Em primeiro lugar, na época em que prevalecia o 
enunciado contrário — os livros existem para serem preservados —, as 
estantes das bibliotecas eram construídas somente com vistas à preserva-
ção. O problema consistia em acomodar a maior quantidade de livros no 
menor espaço e pelo menor custo. A regra do menor espaço fazia com que 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia20
a altura das estantes fosse determinada unicamente pela altura do teto. 
Nem mesmo um centímetro do espaço vertical poderia ser desprezado. 
Assim, cada estante deveria começar bem rente ao chão e chegar até o 
teto. Da mesma forma, outro corolário da regra do menor espaço era que 
nenhum centímetro de espaço horizontal, além do mínimo absoluto, 
seria desperdiçado. Isto exigia que o corredor entre as estantes fosse o 
mais estreitopossível — somente o suficiente para que um funcionário 
por ali passasse — quer dizer, entre 30 e 45 cm no máximo. Além disso, 
na ausência de correntes, cada estante teria pelo menos portas, cadeados 
e chaves. A lei do menor custo exigia que o mobiliário da sala de leitura 
fosse tão simples e tão barato quanto possível na prática. O leitor não devia 
esperar por conforto. A sala de leitura não precisava de outros acessórios. 
As paredes nuas, sem papel de parede que tornasse a sala mais atraente. 
Nada de fotografias interessantes ou quadros de bom gosto, nos quais 
os olhos cansados dos leitores pudessem, de vez em quando, repousar e 
revigorar-se. Mas o advento da Primeira Lei da biblioteconomia lançou 
sobre essas regras, a de menor espaço e a de menor custo, um agradável 
feitiço, e as transformou por completo.
16 Um Diálogo
Primeira Lei: Seus métodos são intoleráveis. Devem ser descartados. 
Regra do Menor Espaço: Você poderia, por favor, ser mais específica?
Primeira Lei: Primeiro, veja as estantes. Como é que você imagina que se 
chegue ao topo destes arranha-céus? 
Regra do Menor Espaço: Use uma escada!
Primeira Lei: Isso é muito fácil de dizer. Tudo bem, se forem funcionários 
ágeis e treinados. Talvez você não esteja sabendo que permitirei ao leitor 
retirar diretamente da estante o livro que ele bem quiser.
Regra do Menor Espaço: Isso é novidade para mim. Nunca ouvi falar nisso.
Primeira Lei: Ah! Já sei... Então é isso? Sim, qualquer leitor poderá dirigir-se 
às estantes. Então, imagine um leitor corpulento subindo uma escada, 
pela primeira vez na vida, ansioso para pegar um livro. Imagine-o 
distraindo-se no alto da escada, caindo e quebrando o pescoço. Quem 
pagará os estragos? O que é que sua irmã, a regra do menor custo, tem 
a dizer sobre isso?
Regra do Menor Custo: Sem dúvida, é um assunto para se pensar seriamente.
Regra do Menor Espaço: O que é que você sugere, então?
Primeira Lei: Nenhuma estante deverá ter uma altura superior à que possa 
ser alcançada confortavelmente por uma pessoa de estatura média, de 
pé sobre o piso nu.
21
Regra do Menor Espaço: Uma altura de dois metros a dois metros e dez?
Primeira Lei: Maravilhoso. Esta é a altura correta. Você é muito sensata.
Regra do Menor Espaço: Muito bem, já anotei isso. Algo mais?
Primeira Lei: A largura adotada para o corredor entre as estantes é muito 
pequena.
Regra do Menor Espaço: Foi definida para condições diferentes, sabia? 
Pretendíamos que somente um auxiliar da biblioteca passasse por ali.
Primeira Lei: Desculpe-me, se rio. Se só um auxiliar pode usar esse corredor, 
caberia a você informar às autoridades responsáveis pelas bibliotecas 
para que contratem como auxiliares apenas seres esbeltos ‘unidimen-
sionais’, se não quiserem que eles fiquem entalados entre as estantes!
Regra do Menor Espaço: Mas, sem querer ofender, estes pontos têm que ser 
esclarecidos. Permitir que os leitores tenham acesso às estantes é uma 
ideia muito recente. Isso muda tudo por completo. Mas, as dimensões 
são mais da minha competência. Sem medo de ser considerada pedante, 
digo que você parece contemplar um tipo de leitor que se expandiu, 
como represália, nas minhas três dimensões e exige um corredor capaz 
de comportar o maior deles!
Primeira Lei: Você está quase certa. Gostaria, entretanto, que o corredor 
fosse suficientemente largo para permitir que dois leitores pudessem 
percorrê-lo, um ao lado do outro.
Regra do Menor Espaço: Sim... Agora vejo aonde você quer chegar. Um metro 
e vinte a um metro e oitenta será uma largura suficiente?
Primeira Lei: Muito obrigada. Mais uma palavra. Embora não seja relevante 
para nossa conversa, gostaria de agradecer-lhe de todo o coração pela 
maneira desinteressada como vocês se colocaram contra as autoridades 
responsáveis pela biblioteca quando elas propuseram paralisar tem-
porariamente todas as novas compras, com o argumento de que a sala 
das estantes estava congestionada de livros e não havia mais espaço.
Lei do Menor Espaço: Quer dizer... 
Primeira Lei: Já sei, pela troca de sorrisos com sua irmã, que há algo mais 
atrás disso.
Regra do Menor Custo: Realmente, foi tão bom minha irmã ter concordado 
e me apoiado nessa questão.
Regra do Menor Espaço: Ela apenas me convenceu que, se esta proposta fosse 
adotada, ela estaria em palpos de aranha, pois o custo dos livros antigos, 
e, de modo especial, dos periódicos científicos e outras publicações das 
sociedades científicas, que são indispensáveis para a pesquisa, vão se 
multiplicar por dez a curto prazo.
Primeira Lei: Mesmo assim, estou em dívida com você. Quem é que, hoje 
em dia, está preparado para ser tão altruísta e preocupar-se com o 
conforto de uma irmã em apuros? 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia22
Regra do Menor Espaço: Muito obrigada. Fico tão feliz que ao nos despe-
dirmos continuemos amigas, embora você haverá de reconhecer que 
estava bem violenta no início.
Primeira Lei: Desculpe-me. Peço-lhe que me perdoe. A falha é devida ao 
entusiasmo pela minha causa. Não quis dizer nada pessoal. Vou remediar 
isso, dando algumas notícias alegres à sua irmã.
Regra do Menor Espaço e Regra do Menor Custo: O que é? O que é?
Primeira Lei: Não quero portas, nem fechaduras, nem chaves nas estantes. 
Vocês podem economizar o que seria gasto com tudo isso....
Regra do Menor Custo: De certo modo, estou muito satisfeita; mas, o que 
fazer com os ratos e os esquilos? E você ainda me diz que qualquer 
pessoa poderá andar pelos corredores entre as estantes. O que impedirá 
que joguem os livros para fora pelas janelas?
Primeira Lei: Esta é uma pergunta muito inteligente. Mas vocês não pre-
cisam se preocupar com isso. Pedirei ao arquiteto que torne a própria 
sala à prova de animais nocivos e de ladrões.
Regra do Menor Custo: E à prova de ar, também, não é?
Primeira Lei: Não, não necessariamente. Sejam compreensivas, em compen-
sação, para não tornar a sala de leitura à prova de pessoas.
Regra do Menor Custo: Não estou entendendo.
Primeira Lei: Basta providenciar cadeiras aconchegantes e confortáveis e um 
amplo espaço para as mesas. E também aprove os recursos necessários 
para colocar no piso um forro à prova de ruído.
Regra do Menor Custo: Isso não é problema. Pode ser feito facilmente.
Primeira Lei: Queria também pedir-lhe insistentemente que mobilie a sala 
de leitura da forma mais agradável possível, como uma sala de visitas 
de alta categoria, ou seja, como esta linda sala de vocês, com belo papel 
de parede, flores, quadros, ventiladores, luminárias etc. Lembre-se, 
especialmente, das luminárias, pois minha política é permitir que os 
estudantes sérios permaneçam na biblioteca depois que anoitece, se 
assim desejarem, para continuar o estudo.
Regra do Menor Custo: Esta é uma boa ideia.
Primeira Lei: Mais um pedido. Confio que vocês não vão pensar que estou 
exagerando.
Lei do Menor Custo: Não se preocupe. É melhor que você nos permita co-
nhecer de uma vez todas as suas exigências.
Primeira Lei: Basta providenciar um bom suprimento de água potável, 
alguns sanitários, um banheiro e, sinto quase um receio ao dizê-lo, a 
instalação e manutenção de uma cantina.
Regra do Menor Custo: Por que a preocupação? Estamos somente trocando 
ideias. Seja franca.
Primeira Lei: Então, vou acrescentar: providencie também uma sala reserva-
23
da, talvez com alguns sofás, onde os pesquisadores, que vêm à biblioteca 
para passar o dia inteiro, possam refestelar-se e fechar os olhos de vez 
em quando, por alguns minutos. Naturalmente, posso assegurar-lhe 
que as devidas precauções serão tomadas para que esse privilégio de 
primeira classe não seja mal utilizado por ninguém. Vi salas mobiliadas 
serem confiadas a estudantes sérios por meses ininterruptamente numa 
biblioteca em Amherst. A famosa biografia autorizada de Woodrow 
Wilson foi escrita em uma dessas salas. O autor praticamente a trans-
formou em sua casa por cerca de um ano. O bibliotecário contou-me 
este fato com orgulho e prazer quandoentrei naquela sala.
Regra do Menor Custo: Quantas ideias singulares! Lindo... mas caro. Mas... 
talvez... eco... nômico tam... bém... 
Regra do Menor Espaço: Custinho!... Custinho! Sobre o que é que você está 
refletindo, de olhos fechados?
Regra do Menor Custo: Sim..., querida Espacinho. Meditando... Cogitando, 
se você preferir. Acabei de entrar na ‘máquina do tempo’ para explorar 
o que isso significaria a longo prazo. Já percebi, Espacinho, que a essa 
distância de tempo, toda essa pequena quantia que teremos de gastar a 
mais nessas coisas, para que os livros sejam mais bem utilizados, resulta-
rão, ao fim e ao cabo, numa genuína e saudável economia nacional. Sim, 
a coisa toda agora está clara para mim. Estou certa, Sra. Primeira Lei?
Primeira Lei: Sim, você falou corretamente como uma empresária.
Regra do Menor Custo: Em suma, você não quer que a biblioteca continue 
mais como um depósito morto de livros. Você a quer equipada como 
uma oficina de primeira classe, com comodidades de primeira ordem.
Regra do Menor Espaço: Custinho! Você me faz lembrar as palavras revo-
lucionárias de lord Lytton, na inauguração da biblioteca pública de 
Manchester, em 1851. Você talvez se recorde das palavras dele: “Uma 
biblioteca não é somente uma escola, é um arsenal e um depósito de 
armas. Livros são armas, seja para a guerra, seja para a autodefesa”.10
Regra do Menor Custo: Sim, também me lembro desse discurso. Mas estas 
são palavras de um homem anterior à Liga das Nações. Nossa amiga 
quer que imaginemos a biblioteca como uma oficina pacífica normal, 
que eliminará para sempre (uma panaceia para todos os males da hu-
manidade, e para o que mais me preocupa) todo o desperdício, tanto 
na administração local quanto no estado. 
Regra do Menor Espaço: Nunca conseguirei acompanhar seu ritmo nos 
seus vôos econômicos rumo ao futuro. Sra. Primeira Lei, está satisfeita? 
É tudo o que queremos.
Regra do Menor Custo: Tenho certeza de que ela ficou satisfeita.
Primeira Lei: Oficina! Exatamente. Esta é a palavra. Você a captou. A partir 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia24
de agora, estou certa de que sempre nos olharemos, olhos nos olhos, e 
prosseguiremos de uma forma amigável. Fico feliz com sua compreen-
são. Digo-lhe que, além de fazer tudo isso, quero a ajuda permanente 
dos seus olhos vigilantes para economizar até o último vintém, a fim 
de comprarmos exatamente aqueles livros, para cujo uso, afinal, estou 
dando a vocês todo este incômodo.
Regra do Menor Custo: Vejo que você é uma missionária regular. Mas, já que nos 
entendemos, posso tomar a liberdade de fazer uma ou duas sugestões?
Primeira Lei: Com toda a certeza. Preciso delas?
Regra do Menor Custo: Penso que a sala de descanso, a cantina e os esmerados 
móveis da sala de leitura — como uma sala de estar de primeira classe, 
como você disse — podem esperar. Talvez você não perceba como cer-
tos grupos poderão reagir a isso. Você deve se lembrar que, por algum 
tempo, as autoridades responsáveis pelas bibliotecas serão formadas 
por pessoas que há muito estão nesta vida, desde antes de você chegar. 
É quase impossível nutrir a esperança de que venham a desenvolver 
o hábito de usuários de bibliotecas nesta etapa tardia da vida. Nestas 
circunstâncias, como esperar que avaliem de modo adequado todas 
essas inovações que inesperadamente caíram sobre suas cabeças?
Primeira Lei: Eu não ignorava totalmente essa dificuldade. Na verdade, 
falando com sua irmã, foram essas considerações que fizeram abster-
-me, com relutância, de pedir espaço para uma ‘sala de conferências’ e 
uma ‘sala de exposições’. Pensei que seria melhor deixar este assunto 
para minha irmã, a Terceira Lei, uma vez que ela está mais diretamente 
interessada nestas coisas.
Regra do Menor Espaço: Faz tanto tempo que estou aqui. Posso dizer o que 
acontecerá. Toda a culpa recairá sobre a cabeça do infeliz bibliotecário. 
Todos os motivos serão atribuídos a ele, tal como a ambição de popu-
laridade barata, e sua vida estará repleta de preocupações.
Regra do Menor Espaço: Minha irmã tem razão.
Primeira Lei: Discordo. Talvez meu zelo missionário, como você disse, e 
meu entusiasmo exacerbado tenham me cegado para esta sabedoria 
secular, que lhe é tão natural... a financista sagaz que você é... quero 
contar com a boa vontade do bibliotecário e de seus funcionários, mais 
que qualquer outra coisa, para que minha missão seja bem-sucedida. 
De fato, é com ele que me encontrarei a seguir. Não quero que venha 
de alguma forma (um inocente...) a cair em descrédito sem ser culpado. 
Por outro lado, não apenas quero que coopere comigo, mas também 
conte com a benevolência e a cooperação dos órgãos responsáveis pelas 
bibliotecas. Caso contrário, ele não me será de muita valia. Não quero 
fragilizar sua posição por nada deste mundo... Muito obrigada pelo 
conselho. Achava que tinha vindo para ensinar, mas volto mais sábia.
25
Regra do Menor Custo: O mesmo acontece conosco. Até logo!
Regra do Menor Espaço: Desejo-lhe boa sorte com o bibliotecário.
Primeira Lei: Obrigada. Adeus!
17 Pessoal da Biblioteca
Passemos agora do mobiliário para o pessoal da biblioteca. O advento da 
Primeira Lei teve efeito fundamental sobre o pessoal da biblioteca. Afetou 
a questão de pessoal de várias formas. Examinemos cada uma delas com o 
maior cuidado e profundidade possíveis. Qualquer que seja a localização, 
o horário, o mobiliário e a forma como são guardados os livros, é o pessoal 
da biblioteca que, em última análise, constrói ou destrói a biblioteca. De 
fato, um enorme esforço foi desenvolvido nos últimos cinquenta anos 
para adequar o pessoal da biblioteca às necessidades deste novo concei-
to — os livros são para usar. Se o mero número de artigos publicados 
sobre biblioteconomia pudesse ser tomado como medida desse esforço, 
ter-se-ia uma ideia de sua extensão a partir da admirável Bibliography of 
library economy, de Cannons. São 58 páginas, impressas de forma compacta, 
dedicadas a este assunto do pessoal, e convém lembrar que a bibliografia 
chega somente até o final de 1920.11
170 Qualificação do Pessoal 
Enquanto a preservação dos livros era a principal preocupação de uma 
biblioteca, tudo o que ela almejava no que concerne a pessoal era um com-
petente guardião que combatesse os quatro inimigos dos livros: o fogo, a 
água, os animais daninhos e os seres humanos.
1701 Os eternos incompetentes
Não raro era criada uma sinecura na biblioteca para pessoas que não 
tinham condição de conseguir emprego em outros lugares. Não era in-
comum, por exemplo, os cargos nas bibliotecas serem preenchidos por 
surdos e aleijados, tartamudos e corcundas, apáticos ou irritadiços, por 
incompetentes de todo tipo.* O termo keeper,** pelo qual os bibliotecários 
das bibliotecas antigas são ainda designados é, de fato, um importante 
** Até fins do século xviii, os termos keeper (guardião, zelador), housekeeper, library keeper ou 
keeper of printed books eram empregados nos países anglófonos com o sentido de librarian 
(bibliotecário). (n.e.) 
* O autor escreveu numa época em que predominavam preconceitos que levavam à exclusão 
social dos portadores de necessidades especiais, ao contrário de hoje, quando prevalecem 
políticas públicas de inclusão produtiva, respeitadas as aptidões e habilidades dessas 
pessoas. Apesar disso, pelo menos no Brasil, ainda se encontram exemplos de escolas 
onde a biblioteca serve de abrigo para professores e funcionários que, por algum motivo, 
apresentem problemas de desempenho funcional. E é na biblioteca onde muitas vezes ficam 
‘encostados’, à espera da aposentadoria. (n.e.)
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia26
vestígio do período anterior à Primeira Lei. A paródia de um trecho da 
República, de Platão, escrita pelo Dr. A.D. Lindsay, diretor do Balliol College, 
na aula inaugural de 1928, coincide apropriadamente com esta concepção 
de bibliotecário.
Então, em que ocasiões relativas aos livros é o bibliotecário um parceiromais útil que outro?
Nos casos em que os livros precisam ser guardados e conservados com 
segurança.
E isso não seria o mesmo que dizer ‘Quando não é preciso ler os livros, mas 
apenas conservá-los sem serem lidos?’
Sim.
Então, a biblioteconomia é útil para os livros quando eles são inúteis?
Assim parece.
A biblioteconomia, então, meu amigo, não pode ter grande importância, 
se for útil para os livros somente quando eles forem inúteis.12
Na realidade, à biblioteconomia, até recentemente, não era dada grande 
importância, não importa qual fosse sua finalidade.
1702 Grã-Bretanha
Na verdade, tardou muito para que fosse percebida a necessidade de 
um profissional bibliotecário. Se havia um cargo de bibliotecário, não se 
sabia quem recrutar, e se havia um bibliotecário, não se sabia o que fazer 
com ele. Por quase meio século, até mesmo o University College, Lon-
don, que hoje se transformou num centro de formação de bibliotecários, 
costumava deixar sua biblioteca “aos cuidados de um auxiliar, às vezes 
dignificado com o título de bibliotecário, mas nunca percebendo mais de £ 
80 por ano, ou aos cuidados de um bedel da biblioteca”.13 
Em sua Story of the University of Edinburgh, sir Alexander Grant registra 
que “entre 1635 e 1667 houve uma sucessão de não menos de dez bibliote-
cários; provavelmente, nenhum deles tinha vocação especial para o cargo”. 
Quando finalmente conseguiu um bibliotecário que não iria embora, mas 
não sabendo o que fazer com ele, foi-lhe solicitado que ficasse incumbido 
do “livro de colação de grau, no qual, durante alguns anos, ele registrou 
os diplomas concedidos”. Como isso não ocupava todo seu tempo, foi-lhe 
dada a função adicional de trabalhar “como secretário do College, cargo 
que desde então esteve combinado com o de bibliotecário!” Quando os 
livros existiam somente para serem preservados e até se perceber que os 
livros são para usar, de que outra forma poderiam o tempo e a energia do 
bibliotecário ser utilizados? Edimburgo não foi, de modo algum, a única 
a atribuir ao bibliotecário alguns desses encargos diversos, em troca do 
salário que lhe pagavam. A vizinha Glasgow fez o mesmo. Conta-se que, 
27
até 1858, “a matrícula e o registro dos alunos eram feitos pelo bibliotecário” 
na University of Glasgow.14
1703 Estados Unidos da América
A situação no Novo Mundo também não era muito diferente. Foi so-
mente em época comparativamente recente que, em Harvard ou Yale, era 
nomeado um bibliotecário que se dedicaria em tempo integral ao trabalho 
na biblioteca. Quando o Kenyon College, que oferecia alojamento para os 
estudantes, foi fundado em 1826, as funções do bibliotecário recaíram sobre 
a esposa do diretor, a Sra. Chase. Mas o trabalho de bibliotecária não era o 
único atribuído a ela. “O cuidado dos afazeres domésticos recaíam sobre 
a Sra. Chase. Ela também fazia a contabilidade da instituição e cuidava da 
biblioteca”.15 (Grifo nosso.) 
Segundo Koch,
Não faz muito tempo que em geral se achava que a biblioteca era o lugar para 
a meia aposentadoria de um professor idoso ou um assistente inepto. Ainda 
hoje, é comum indagar-se ao bibliotecário se não dispõe de um serviço onde 
um acadêmico alquebrado possa prestar ajuda. A necessidade de capacitação, 
vigor, vivacidade e aptidão específica para o trabalho bibliotecário ainda não 
é percebida por muitos que, apesar da familiaridade ocasional com as biblio-
tecas, deveriam saber melhor que tipo de ajuda se requer para administrar 
uma biblioteca.16
1704 Ensinar o uso dos livros
Diz-se que William Frederick Poole, que foi bibliotecário da Newberry 
Library nos últimos anos do século xix, teria dito pouco antes de morrer: 
“Nenhuma universidade alcançou até agora o elevado padrão de poder 
contar com um professor de bibliografia, mas estão caminhando nesta 
direção”. Em 1894, o reitor Harper alimentava a esperança de que “alguns 
de nós verão o dia em que em cada divisão principal da universidade 
haverá professores de bibliografia e de metodologia, cujas funções serão 
as de ensinar às pessoas sobre os livros e como usá-los”.17 O mesmo reitor, 
porém, estava convencido de que “a instalação da biblioteca jamais estará 
pronta enquanto não tiver entre seus funcionários homens e mulheres, cujo 
único encargo será não o cuidado de livros, não a catalogação de livros, 
mas ministrar instrução sobre seu uso”.18
1705 Índia
Voltando-nos para nosso próprio país, ainda temos que conseguir um 
Harper para dirigir alguma das nossas instituições de ensino. Parece que a 
realidade não é muito propícia a que alimentemos tal esperança.
A maior parte de nossas faculdades, sem dúvida, começou a incluir em 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia28
sua folha de pagamento um cargo com o honroso título de ‘bibliotecário’. 
Embora o salário mostrado ao lado do item da lista possa sugerir uma 
deplorável falta de consideração quanto à necessidade de um bibliotecá-
rio de verdade, que faça com que os livros sejam usados, sua verdadeira 
situação somente será compreendida por quem houver, por algum tempo, 
trabalhado em alguma dessas faculdades.
1706 Biblioteca de Faculdade
Na maioria das faculdades, o assim chamado bibliotecário não passa 
geralmente de um funcionário administrativo, tanto por formação e índole 
quanto pelo cargo. Não lhe é dada muita iniciativa e ele tampouco é capaz 
de alguma. Passa a maior parte do tempo arrumando os fichários e levando-
-os, ocasionalmente, para uma sala distante, ocupada pelo dignitário — o 
‘professor encarregado da biblioteca’ — a quem ele responde e diante de 
quem marca presença, na esperança de ser mantido no cargo. Seu auxiliar 
é geralmente um atendente, cuja escolaridade está um pouco acima da 
que é exigida para uma vaga de peão. Sua função consiste em entregar 
livros por cima do gradil que separa o salão de leitura do armazém de 
livros, em determinados horários da semana, e também espanar a poeira 
das estantes ou arrumar os livros e os arquivos. Nenhum dos funcionários 
da biblioteca se identifica com o quadro docente da instituição, para não 
falar no acompanhamento do programa de estudos adotado pela facul-
dade; ninguém que possa examinar o material solicitado, para não falar 
de reuni-lo de antemão à espera de demanda futura; ninguém que possa 
orientar o estudante comum no uso dos livros da biblioteca, para não falar 
em ajudar os alunos envolvidos em pesquisa no que concerne aos métodos 
de utilização de fontes originais. O ‘professor encarregado’ pode fazer estas 
coisas — há ‘professores encarregados’ excepcionais que realmente fazem 
essas coisas e merecem todo o crédito. Mas o ‘professor encarregado’ é um 
professor e não um bibliotecário, e comumente ele é levado a entender que 
sua obrigação começa com a aprovação de cópias autenticadas e termina 
com a assinatura de cópias passadas a limpo. Por outro lado, deve-se real-
mente agradecer se o professor não sucumbir à tentação de manter todas as 
boas aquisições sob sua guarda exclusiva, obtendo, assim, uma vantagem 
temporária sobre os alunos para os quais leciona. Assim agindo, o que é 
raro, ele se enquadrará naquela categoria de bibliotecário cuidadosamente 
descrita pelo diretor do Balliol na paródia de outra passagem da República.
E ele é um excelente guarda de um exército hábil no roubo de planos do 
inimigo e todos os seus preparativos?
Com certeza.
Então, qualquer um que for um hábil guardião de qualquer coisa será 
também um hábil ladrão dessa coisa?
29
Aparentemente.
Então, se o bibliotecário for um hábil guardador de livros, também será 
hábil em roubá-los?
Este é certamente o sentido do argumento.
O compromisso das bibliotecas das escolas de nível médio é ainda pior no 
que diz respeito ao pessoal. Com muita frequência, um jovem imaturo, 
que acabou de passar raspando pelo exame final, é colocado no ‘honroso’ 
assento (gadi) do bibliotecário. Os colégios de nível médio geralmente têm 
um departamento de ensino muito numeroso. Cabe a este departamento,com frequência, aliviar o diretor da incômoda incumbência de arranjar 
ocupação para os jovens, a fim de afastá-los do mal. O registro diário da 
frequência horária dos alunos, a preparação mensal das listas de chama-
das nominais nos registros de presença e o registro final das entradas nos 
livros de certificados de conclusão da escola secundária são, via de regra, 
transformados em seu monopólio. Se isso não o deixar totalmente ocupado, 
terá de ajudar o contador na coleta das taxas escolares, ou a penosa tarefa 
de manter o estoque de papel e de formulários aguarda por sua atenção.
1707 Biblioteca Escolar
Mas o pior acontece nas bibliotecas escolares. Estas sequer reconhece-
ram a necessidade de ter um empregado administrativo como bibliotecário. 
Geralmente solicita-se ao instrutor de educação física ou ao instrutor de 
desenho que cuide da biblioteca, caso exista. Numa escola que conheci, 
o mais forte e cruel dentre os funcionários foi incumbido de ser o anjo da 
guarda da biblioteca. Ganhou o apelido de Mohammad de Ghazni, em 
homenagem ao número de tentativas infrutíferas para obter matrícula.* E 
ele provou ser um guardião muito zeloso. Era tarde da noite, quando um 
aluno aplicado teve a coragem de abordá-lo para pedir um livro para uma 
‘leitura extra’. Ele estava morto de cansado depois de seis horas de aulas. 
“Que é que você quer?”, trovejou Mohammad de Ghazni, quase cha-
muscando o garoto com seus olhos vermelhos.
“O livro Peeps at many lands: Japan,** senhor”, gaguejou o menino. 
“Quanto você tirou no último trimestre?”
“Qua.. quarenta e dois de cinquenta, senhor.”
“Vá embora e consiga os oito pontos restantes antes de pensar em 
a primeira lei
** ‘Uma olhadela em muitos países: Japão’. Volume de uma série de livros com descrições 
de diferentes países, destinados ao público juvenil. Alcançou grande êxito na época. (n.e.)
* Mohammad ou Mahmud de Ghazni (971–1030), sultão de Ghazni, no Afeganistão, que, 
entre os anos 1000 e 1025, assolou repetidamente, fala-se em 17 invasões, territórios da 
Índia e do Paquistão. (n.e.)
as cinco leis da biblioteconomia30
‘leitura extra’”, foi a enfática recomendação acompanhada do punho di-
reito do Mohammad de Ghazni, que o pousou, com uma força de doer, 
na testa do garoto, trêmulo, que fugiu soluçando para nunca, nunca mais 
voltar à biblioteca.
1708 Coração da Escola
Se a escola acreditasse que os livros são para usar pelas crianças, 
tê-los-ia confiado aos cuidados deste monstrengo assustador? Por outro 
lado, não poderia tê-los colocado sob os cuidados de um simpático bi-
bliotecário de biblioteca infantil, cujo treinamento especializado e cuja 
atitude compreensiva teriam atraído todas as crianças para o que é agora 
corretamente denominado o ‘coração da escola’? Então, como teriam sido 
diferentes as lembranças que as crianças guardariam da escola! Imaginem, 
por exemplo, as agradáveis recordações de alguém do Novo Mundo, que 
seja contemporâneo do nosso garoto em prantos:
Posso quase afirmar que devo à biblioteca o maior estímulo mental de minha 
vida. A imagem do rosto inteligente, de olhos cinzentos, daquele bibliotecário e 
o próprio cheiro da sala da biblioteca estão indelevelmente impressos na minha 
memória. Pessoalmente, minha dívida com a biblioteca como instituição e com 
os bibliotecários como classe é maior do que jamais poderei ter esperança de 
pagar com uma gratidão eterna.19
171 O Pessoal da Biblioteca e a Cultura
Mesmo depois de a Primeira Lei ter tido êxito, ao convencer as pesso-
as quanto à necessidade de a biblioteca contar com pessoal especial, de 
tempo integral, ainda demorou muito até que as autoridades responsáveis 
pelas bibliotecas se dessem conta das qualidades e qualificações essenciais 
exigidas para que esse pessoal pudesse cumprir todas as injunções dessa 
lei. A luta travada pela Primeira Lei ao estabelecer padrões adequados para a 
biblioteconomia foi ainda mais tenaz do que a encetada para fixar horários 
adequados para a biblioteca. Sua antecessora — os livros existem para 
serem conservados — legara muitas tradições arraigadas. A tradição, como 
se sabe, é obstinadamente indiferente ao raciocínio de qualquer natureza. 
Não ouviria facilmente os argumentos da Primeira Lei. A analogia, embo-
ra sugestiva, não iria convencê-la. Um vendedor de cereais, obviamente, 
deve conhecer todos os tipos de cereais. Um vendedor de tecidos deve 
saber tudo sobre vestuário. Um corretor de seguros não pode ter sucesso 
se não conhecer tudo sobre tabelas de vida e seu significado. Ninguém 
será contratado como professor, a menos que conheça o assunto que tem 
que ensinar. Mas foi preciso muito tempo para se perceber que o biblio-
tecário — que tem que se dedicar ao ensino, que tem que encontrar para 
cada pessoa o livro que lhe seja adequado, que deve persuadir as pessoas 
31
a se beneficiarem do conhecimento entesourado nos livros, que tem, na 
verdade, que auxiliar na educação ao longo da vida de todos e não apenas 
de fedelhos imberbes — deve possuir uma cultura muito ampla.
1711 Inglaterra
Em seu humorístico retrospecto dos ‘primeiros tempos’, o Sr. Frank 
Pacy, ex-secretário da Library Association britânica, refere-se a certas 
impressões interessantes, causadas pela cultura dos primeiros bibliotecá-
rios britânicos. “A pessoa que nos mostrou a biblioteca não sabia nada de 
nada.” “O bibliotecário de Westminster não somente se parecia com um 
limpa-chaminés, mas era muito surdo.”20 Felizmente, esses dias acabaram. 
Atualmente, ninguém no Ocidente questiona o lugar da biblioteconomia 
entre as profissões cultas.
1712 Índia
Em nosso país, porém, poucos compreendem, ainda hoje, a necessidade 
de pessoal culto trabalhando na biblioteca. Não muito tempo atrás, recebi 
de um alto funcionário da educação uma carta patética de recomendação 
que dizia, “O portador, você verá, é muito idoso. Ele se apresentou para 
o exame de conclusão do ensino secundário mais de umas dez vezes. Não 
existe perspectiva alguma de que venha a ser aprovado ainda ‘nesta vida’ 
(janma). Seria possível aproveitá-lo nem que fosse num cargo adminis-
trativo? Interesso-me por ele. Você poderia recebê-lo em seu quadro de 
pessoal? Esta é a única oportunidade que ele tem.” Quando a biblioteca 
da Madras University foi fundada, uma das primeiras nomeações para o 
‘serviço superior’ da biblioteca foi a de um contínuo do museu da univer-
sidade, pela simples razão de que ele era uma pessoa honesta e de que 
não havia nenhuma outra forma para que seu salário fosse aumentado. 
Talvez, o precedente para isso esteja no fato de o porteiro da Bodleian Li-
brary ter sido nomeado sub-bibliotecário em 1712.21 Igualmente, quando 
um conselho municipal autorizou o presidente de um território federal a 
nomear um bibliotecário em tempo parcial para a biblioteca do território 
(union), com um salário mensal de 10 rupias, conta-se que esse presidente 
logo passou a pagar este salário ao seu criado pessoal, pois ele era uma 
pessoa prestativa e iria vigiar zelosamente a biblioteca. Algumas semanas 
atrás, um ilustrado professor, nascido na Grã-Bretanha e que serve na Índia, 
formulou o princípio segundo o qual a escolaridade de um atendente de 
biblioteca não precisava ser tão alta quanto a de um balconista de farmácia.
1713 Uma História
Mais interessante, porém, é a inferência de que um bibliotecário não 
pode ser um intelectual. Certa vez, a um proeminente funcionário de uma 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia32
cidade do norte do país foi solicitado que me recebesse, a mim, um simples 
bibliotecário, como seu convidado. Seu constrangimento só foi aliviado 
quando um de seus jovens secretários se ofereceu para me hospedar em 
sua casa. Entretanto, como desconhecia tal arranjo, dirigi-me diretamente 
para a casa do alto funcionário. Ao ver as iniciais ‘m.a.’ [Master of Arts] de-
pois do meu nome imediatamente seu constrangimento deu lugar a uma 
sensação de assombro. E ele me recebeu! Terminado o almoçoe chegada 
a ocasião do pan supari,* o assombro transformou-se em compaixão. Cheio 
de simpatia, o douto funcionário condoeu-se do Master of Arts pelo que 
o destino lhe reservara. Amaldiçoou os tempos difíceis que levaram um 
homem da minha capacidade e cultura a ter que cuidar de uma biblioteca. 
Mas esta sincera compaixão foi sobrepujada por uma justa indignação, ao 
descobrir que o meu salário era mais alto do que o dele e que as autoridades 
haviam esbanjado num cargo de bibliotecário não somente um Master of 
Arts do país, mas também uma fatia tão elevada de sua receita. O que me 
preocupa é que esse douto funcionário parece ser a regra e não a exceção.
1714 Tanto de Cultura quanto de Capacidade Executiva
A opinião do douto funcionário ocorre naturalmente a quem raramente 
usa uma biblioteca e nunca sentiu a influência de uma que fosse moderna 
e bem administrada. Mas quem a usou, com assiduidade e seriedade, e 
estudou em profundidade algum assunto uma vez na vida, espera encon-
trar entre os funcionários da biblioteca pelo menos um que ‘fale a mesma 
língua’ e conheça a bibliografia e a metodologia de seu tema. O reitor da 
Western University certa vez observou:
Todo aquele que estiver incumbido de uma biblioteca deverá ser capaz de 
lecionar. A capacidade executiva é, sem dúvida, necessária ao bibliotecário, 
mas, se não estiver conjugada com uma grande cultura, não será, de forma 
alguma, suficiente.
1715 A Cultura Segundo Mark Pattison
Que tipo de pessoa culta deveria a biblioteca recrutar para seu quadro 
de pessoal? Certamente não o erudito retratado nos jornais humorísticos 
como alguém despido de senso comum, nem o tipo pedante, que seja 
inapropriadamente formal e artificioso; nem alguém do tipo especialista, 
que sabe ‘cada vez mais sobre cada vez menos’. A biblioteca necessita, 
em seu quadro, de pessoas que tenham cultura no sentido dado à palavra 
por Mark Pattison, isto é, discernimento, disciplina e hábito científico. Sua 
especialidade deve ser a bibliografia, e sua atitude, a de um estudioso. 
* Preparado à base de folhas e nozes de bétel e limão, usado como mastigatório. Após as 
refeições, suaviza o hálito e funciona como um estimulante suave. (n.e.) 
33
Nas palavras do Public Libraries Committee da Grã-Bretanha, devem ter 
conhecimento e familiaridade suficientes com todos os ramos do saber, 
a fim de que possam contemplá-los adequadamente na seleção de livros, 
de modo a oferecer aos leitores a orientação de que precisam e descobrir, 
com a maior rapidez possível, o lugar onde a informação procurada pode 
ser encontrada. Devem ser capazes de usar os livros como instrumentos 
não somente de disseminação do conhecimento, mas também de expansão 
das fronteiras do saber.
1716 Grau Universitário
É por isso que o grau universitário é considerado um requisito normal 
para admissão pelas escolas de biblioteconomia do Ocidente, e são exigidos 
títulos universitários mais elevados daqueles que aspiram aos postos mais 
altos no serviço bibliotecário. Isso também explica a prática recente, em 
bibliotecas progressistas, de atrair para seu quadro, como bibliotecários de 
referência em tempo parcial, pessoas com larga experiência docente. Foi a 
partir desta ótica que Arnold Bennett disse que se as bibliotecas
gastassem menos com livros e mais com pessoal capacitado, alcançariam 
resultados muito melhores. Não são livros que faltam nas bibliotecas; o que 
falta é a chave para seu uso eficaz. E esta chave está nas qualidades pessoais e 
conhecimentos dos bibliotecários e seus auxiliares.
172 Pessoal e Formação Profissional
Mas só cultura não basta para fazer um bibliotecário. Muitas pessoas 
pensam que, por terem pendor para a leitura, estão qualificadas para serem 
bibliotecários. Bem ilustra este desconhecimento a história ocorrida com 
MacAlister e narrada por Augustine Birrel:22
1721 Ignorância
Ainda anteontem, no navio de Calais, fui apresentado a um militar de renome 
mundial que, quando soube que eu tinha alguma ligação com a Library Asso-
ciation, exclamou: ‘Pois bem, você é exatamente de quem preciso! Ultimamente, 
ando preocupado com meu criado, o velho Atkins. Você pode vê-lo, encurva-
do, procurando abrigo ali atrás da chaminé. Coitado! Já passou do tempo de 
trabalhar, mas continua tão fiel quanto um cão. Acabou de ocorrer-me a ideia 
de que se você pudesse dar-lhe um empurrãozinho para empregá-lo numa 
biblioteca agradável do interior, eu lhe ficaria profundamente agradecido. O 
único defeito dele é a paixão pela leitura, de modo que uma biblioteca seria a 
coisa mais acertada.’
A habitual senhora da nobreza também esteve na conferência. Desta vez, 
estava recomendando sua ex-cozinheira para o cargo de bibliotecária, alegando 
a seu favor o mesmo estranho traço de personalidade: a paixão pela leitura.
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia34
1722 Analogia na Ignorância
O lado patético desse desconhecimento só se compara ao provocado 
por um jovem ingênuo que se candidatou ao cargo de ‘leitor de matemá-
tica’ em uma de nossas universidades.* Baseava tal pretensão em sua alta 
qualificação, pois acabara de obter o grau de bacharel em matemática, com 
aprovação simples, e era ‘apaixonado pela leitura’.
1723 Noções Equivocadas
Entretanto, ainda mais incômoda é a arrogância desdenhosa daqueles 
que, além de adorarem os livros, julgam-se competentes para criticar um 
estilo literário ou possuem algum conhecimento de uma área especializa-
da do saber. Imaginam que tudo numa biblioteca que esteja além de seu 
saber é manual, burocrático, ficando muito abaixo da sua capacidade, e 
ignoram o fato de que ainda não passam de uma boa matéria-prima com a 
qual se tornariam bibliotecários. Não é raro encontrar um recém-chegado 
presunçoso, que se atreve a dizer: ‘O que a indexação tem de importante?’, 
querendo com ‘indexação’ dizer ‘catalogação’. Gostaríamos que lhe fosse 
permitido tentar ‘indexar’ por alguns meses para descobrir por si mesmo 
a confusão que seria capaz de fazer. Outra pessoa, um venerável senhor, 
exclamou: ‘Qual a formação exigida para entregar livros no balcão? No meu 
tempo, fulano fazia isso de forma notável e não tinha qualquer formação 
profissional.’ Bastaria perguntar-lhe: ‘No tempo dele, quantos volumes tinha 
a biblioteca nas estantes? Quantos deles se negaram a deixar as estantes 
sequer uma única vez em sua longa existência? Quantos volumes eram 
acrescentados à sua biblioteca por ano? E quantos dos seus sábios con-
temporâneos alguma vez conheceu uma biblioteca ou sabia qual era sua 
finalidade?’ Outro, muito cioso das prerrogativas de sua especialidade, faz 
uma observação impertinente: ‘Não é assim que se classifica. É assim que se 
cataloga. O trabalho de referência não é de sua competência. Isso é função 
dos professores’, e assim por diante. Somos forçados a dizer-lhe, ‘Senhor 
Especialista, sou tão especializado no meu ramo quanto o senhor é no seu. 
Se seu campo está envolto em mistério e requer uma longa iniciação formal, 
o meu também. Atente para o que você pensaria de um fulano, beltrano ou 
sicrano que, sem qualquer preparo, fosse meter o bedelho em sua seara.”
1724 Desvantagens de uma Profissão Nova
O fato é que, quando a obrigação da biblioteca era preservar os li-
vros, não havia necessidade de dar treinamento especial ao bibliotecário 
‘guardião de livros’. A partir do momento em que os livros são para usar 
* Em inglês, reader é sinônimo de professor, da mesma forma que o português leitor, embora 
neste caso seja mais empregado para designar o docente contratado por uma universidade 
de outro país para lecionar sobre a cultura do país de origem. (n.e.)
35
entrou no lugar de os livros existem para serem preservados, a bibliote-
conomia recebeu vários encargos que exigiam formação profissional bem 
planejada, com tanto estudo e técnica como o que se exige de qualquer 
outra profissão superior, seja medicina, engenharia ou direito. Um médico, 
um engenheiro e um advogado terãorazão para estourar de indignação 
se alguém se arriscar a questionar a necessidade de sua formação profis-
sional. Mas o mesmo médico, o mesmo engenheiro e o mesmo advogado 
ingenuamente questionarão a necessidade de formação profissional dos 
bibliotecários. Isso se deve simplesmente a que medicina, engenharia e 
direito são profissões antigas, esquecidas por completo das lutas travadas 
para que fosse reconhecida a necessidade de sua formação especializada, 
enquanto que a biblioteconomia é uma profissão nova. É natural que quem 
hoje se encontra numa posição privilegiada defenda cada centímetro dela 
antes de admitir a um estranho o mesmo privilégio. Essa luta só terminará 
quando o médico, o engenheiro e o advogado de hoje forem substituídos 
por aqueles que tiveram, desde a juventude, o prazer e o benefício de 
serem servidos por profissionais bibliotecários tecnicamente qualificados.
1725 Grã-Bretanha
Isso pode parecer um círculo vicioso. Mas sob o coro crescente do novo 
canto — os livros são para usar —, em outros lugares as pessoas rompe-
ram este círculo vicioso, e podemos tirar proveito disso. A Grã-Bretanha 
há muito decidiu,
i) instruir a opinião pública para exigir que bibliotecários formados sejam 
a regra e não a exceção; 
ii) fazer valer, junto às autoridades responsáveis pelas bibliotecas, sua 
responsabilidade para levar na devida conta a qualificação na seleção de candi-
datos e a conceder facilidades ao quadro de pessoal para que dê continuidade 
à sua própria capacitação, tanto técnica como cultural, ao mesmo tempo em 
que desempenham seus serviços.23
1726 Outros Países
Os Estados Unidos da América avançaram e criaram quatorze insti-
tuições credenciadas para o ensino da biblioteconomia. Os ministérios da 
Educação da maioria dos países da Europa continental assumiram a tarefa 
de prover o país de bibliotecários com formação profissional adequada. 
O Japão criou, há muito tempo, sua própria escola de biblioteconomia, 
enquanto a China possui a Boone Library School.* O mais importante, em 
* Fundada em 1920 pela missionária e bibliotecária Mary Elizabeth Wood (1861–1931), da 
Igreja Episcopal norte-americana, em Wuchang (hoje Wuhan). O Boone College foi assim 
denominado em homenagem a W.J. Boone, primeiro bispo dessa igreja na China. (n.e.)
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia36
alguns países ocidentais, é que a profissão de bibliotecário saiu há muito 
da infância e alcançou a idade madura, produzindo vários ramos, que 
apresentam a tendência de desenvolver certa independência e individuali-
dade, de modo que logo teremos várias profissões semi-independentes de 
bibliotecários, distribuindo-se em torno do tronco primitivo, assim como 
as raízes aéreas, que brotam em profusão dos galhos da gigantesca árvore 
baniana,* parecem estar separadas da árvore, mas ainda fazem parte dela, 
dando abrigo a milhares de pássaros.
1727 Início na Índia
Vivemos esperançosos. Um pequeno começo está ocorrendo até mes-
mo em nossa terra. Uma nova plantinha desta espécie, a Summer School 
of Library Science, foi zelosamente cuidada por dois anos no viveiro da 
Madras Library Association. Quando estava pronta para ser transplantada, 
encontrou seu lugar no fértil pomar da Madras University. Essa univer-
sidade pode não somente cuidar dela com mais facilidade, mas também 
encontrar um mercado para seus frutos. Que essa pequena árvore cresça 
cada vez mais! E que a colheita dos seus frutos enriqueça esta terra, do 
Himalaia ao cabo Comorim!
173 Pessoal da Biblioteca e sua Posição
O trabalho seguinte da Primeira Lei, em prol do pessoal da biblioteca, 
teve que ser orientado na direção da renovação de outro demônio legado 
pelo conceito os livros existem para serem preservados. Mesmo depois 
que um quadro de pessoal com formação cultural e tecnicamente treinado 
foi recrutado, as autoridades responsáveis pelas bibliotecas, ofuscadas 
pela tradição, não compreendiam a necessidade de revisão da tabela de 
salários que fora originalmente projetada para atrair e manter o ‘bibliote-
cário guardião’ e o ‘bibliotecário secretário’. É até provável que a tabela 
tenha ficado abaixo da dos chefes dos serventes, ou da do pedreiro ou do 
guarda-fios. Embora essa anomalia não tenha abalado a consciência das 
autoridades, era uma questão com a qual a Primeira Lei se preocupava 
seriamente. Essa tabela de forma alguma atrairia o tipo certo de gente. 
E, mesmo que o fizesse, a pessoa que ela conseguisse atrair do exército 
de desempregados estaria simplesmente marcando passo, com a mente 
e o coração em outro lugar. Até mesmo a pouca experiência que viesse a 
acumular estaria logo perdida para a biblioteca, uma vez que aproveitaria 
a primeira oportunidade para deixá-la. Por uma ou duas gerações, nos 
primeiros tempos da Primeira Lei, quando as autoridades responsáveis 
* Ficus benghalensis, conhecida também como figueira, figueira-baniana, figueira-de-bengala, 
árvore-da-borracha, falsa-seringueira, etc. A metáfora desta árvore, considerada sagrada 
pelo hinduísmo, é retomada pelo autor em seus estudos sobre classificação. (n.e.)
37a primeira lei
pelas bibliotecas consistiam, em sua maioria, de pessoas que jamais haviam 
recebido a influência de uma biblioteca, cujo lema orientador fosse os li-
vros são para usar, quando o trabalho do pessoal da biblioteca não podia 
nem ser apreciado nem avaliado adequadamente, era, de fato, uma tarefa 
árdua para a Primeira Lei convencer as autoridades sobre a necessidade 
de se fixar uma tabela salarial equitativa.
1731 Perigos de um Pessoal Malremunerado
A Primeira Lei sabia que pessoal insatisfeito era um risco social. Mesmo 
sem levar em conta essa palavra de ordem genérica, sabia que o pessoal 
malremunerado não teria o entusiasmo necessário para cumprir, com êxito, 
sua missão. E se o cumprisse, o entusiasmo, o zelo e a solicitude não teriam 
o resultado esperado. As palavras do pobre, mesmo quando proveitosas, 
são raramente ouvidas.24
Seriam menosprezadas como intromissão egoísta, embora o desdém 
induzido na mente do leitor pelo seu baixo salário viesse a repercutir no 
próprio leitor. Seria o caso de dizer: que se lixe o leitor! Mas, assim, o uso 
dos livros da biblioteca haveria de sofrer e isso é assunto que merece muita 
atenção, para quem crê na Primeira Lei.
1732 Posição e Dinheiro
Certo ou errado, a sociedade humana desenvolveu a economia com base 
no dinheiro. Uma análise simples das bases da teoria do valor revelará, 
para espanto de muitos, que os pés do deus Mamona são de barro. Mas, 
o que é o bem? Será a maioria das pessoas guiada pelo supremo valor 
das coisas? “Um enfático não”, é a resposta daquele sagaz professor de 
Sabedoria Terrena, Bhartrihari.25 “Por outro lado”, diz ele,
acredita-se que aquele que tiver riquezas terá o mais azul dos sangues correndo 
nas veias. É tomado por sábio. Passa por mais bem informado. É considerado 
o mais distinto. Sua oratória é enaltecida como inigualável. E a sua imagem é 
descrita como a mais formosa. É o ouro sob sua posse que determina a quali-
dade de cada um de seus atributos.
 
With reason may ye wele se, 
That Peny wyll mayster be, 
Prove nowe man of mode; 
[...]
 He makyth the fals to be soende 
And ryght puttys to the grounde.*26
 
1733 Remunere Bem o Pessoal
O dinheiro, portanto, rege o mundo. Ele determina a posição das pes-
soas, da mesma forma que regula o valor dos serviços prestados por elas. 
Infelizmente, as pessoas só estão dispostas a usufruir de um serviço na 
proporção do valor que lhe for atribuído pelo dinheiro. Assim, funcionários 
que passem fome tornarão os esforços da Primeira Lei tão fúteis quanto a 
escassez de livros ou a escassez de leitores. Na tríade da biblioteca — livros, 
funcionários e leitores — a riqueza dos funcionários em bens mundanos 
parece ser tão necessária quanto a riqueza dos outros dois em número e 
variedade, se se quiser que a lei os livros são para usar seja traduzida 
na prática. Assim terá que ser, enquantoa condição social das pessoas 
for deixada ao controle caprichoso e arbitrário do deus Mamona. “Por 
conseguinte, remunere bem o pessoal da biblioteca”, diz a Primeira Lei. 
1734 Benefícios Tardios
Um empecilho importante, que o serviço prestado pela biblioteca 
apresenta, para que receba o que merece, consiste em que os benefícios 
que ele proporciona se manifestam com certa demora. O médico ganha 
suas quinze rupias por uma única visita, pois as pessoas acreditam que a 
vida ou a morte do paciente nas horas seguintes depende do seu atendi-
mento. O advogado ganha cem rupias para ficar de pé por uma hora, pois 
as pessoas acreditam que a propriedade de um bem no minuto seguinte 
depende do seu serviço. Mas os benefícios do serviço proporcionado pelo 
pessoal da biblioteca, da mesma forma que os serviços ministrados pelo 
professor, não são percebidos de imediato, nem mesmo no ano ou década 
seguintes. Seus benefícios, embora mais universais e duradouros, tornar-
-se-ão evidentes somente uma ou duas gerações mais tarde, quando as 
pessoas que deveriam abrir a carteira e pagar por eles, já estarão mortas 
ou esquecidas. Trata-se de um predicado angustiante, que parece que 
lhe foi atribuído por Deus num momento em que talvez estivesse com a 
intenção de fazer uma travessura.
as cinco leis da biblioteconomia
* De uma poesia popular inglesa do século xv intitulada Syr Peny (Dom Dinheiro). Possui 
versões, algumas anteriores, em outras línguas. “Com razão você verá / que o dinheiro será 
o senhor, / comprove-o agora almofadinha / [...] / Ele transforma o falso em verdadeiro / 
E arrasa o que está certo .” (n.e.)
38
39
1735 Progresso no Ocidente
Apesar disso, a Primeira Lei já chegou perto do sucesso em países do 
Ocidente para eliminar os efeitos dessa travessura. A sociedade ocidental 
está hoje preparada para admitir que um bibliotecário universitário deva ter 
o mesmo nível e o mesmo salário de um decano da universidade, que um 
bibliotecário de faculdade deve receber tratamento semelhante ao de um 
professor, que um bibliotecário escolar não é de forma alguma inferior a um 
professor e que um bibliotecário municipal merece o mesmo pagamento, 
os mesmos direitos e os mesmos privilégios que os demais funcionários 
do município, como o engenheiro, o sanitarista, o funcionário graduado 
da Receita e o funcionário graduado da Educação.
1736 Apelo à Índia
Quando a Índia se equiparará às suas irmãs ocidentais? Irá ela apro-
veitar a experiência de suas irmãs ou fechará os olhos para elas e trilhará 
cada centímetro daquele velho e incômodo caminho? Se agir dessa maneira, 
seus filhos jamais alcançarão seus primos na sua marcha para o progresso. 
Esperemos e oremos para que ela não tome este curso fatal, mas mergulhe 
na primeira crista da onda do progresso, triunfalmente coloque seus bibliote-
cários em pé de igualdade com os de outros países, e, dessa forma, aumente 
a possibilidade de a Primeira Lei da biblioteconomia conduzir os filhos 
da Índia, há muito tempo negligenciados, à mesma posição de vantagem 
que esta lei foi capaz de assegurar às outras nações do mundo. Amém!
1737 Na Índia Medieval
Uma luz esclarecedora incidiu sobre a posição que as bibliotecas ocupa-
vam nas instituições educacionais da Índia medieval graças às Inscriptions 
of Nagai, publicação no 8 da Hyderabad Archaeological Series.27
Nagai é uma vila perto de Wadi e ali existiu uma antiga cidade, hoje 
desaparecida, que deixou um legado de vários monumentos e inscrições 
de grande valor histórico.
Uma inscrição na língua cânada, no templo de sessenta colunas, cha-
mado ‘Aruvathu Kambada Gudi’ dessa vila, que se supõe datar do dia 
que corresponde a 24 de dezembro de 1058 d.C., faz um relato sobre as 
instituições públicas fundadas por Madusudana, famoso general e ministro 
do rei de Chalukya, Rayanarayana. Uma das instituições por ele fundadas 
foi um colégio interno chamado Chatikasala, destinado a duzentos sábios 
que estudavam os Vedas e cinquenta e dois que estudavam os sastras.* O 
* Os Vedas são os livros sagrados da literatura e religião védica. Os sastras ou shastras são 
obras que tratam das regras de conduta dos seguidores do hinduísmo. A palavra que 
designava as bibliotecas na Índia antiga era sarasvati-bhandagaras, que significava ‘casas 
do tesouro da deusa do saber’. (n.e.)
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia40
colégio era “administrado por três professores de Vedas, três professores 
de Sastras [...] e seis bibliotecários (sarasvati-bhandarikas)”.
Se a presença de seis bibliotecários tem alguma importância, talvez se 
possa com razão inferir que a biblioteca anexa ao colégio deve ter sido de 
tamanho e utilidade consideráveis. Somos ainda tentados a comparar essa 
biblioteca universitária medieval com nossas bibliotecas universitárias de 
agora, que são tão notoriamente indiferentes e relutantes, tanto no que 
tange ao melhoramento de seus recursos bibliográficos como ao supri-
-las com os recursos humanos necessários para auxiliar os professores e 
estudantes na utilização adequada de seus recursos.
Um verso de data posterior na mesma inscrição mostra que Madusu-
dana estava muito à nossa frente, ao definir a posição dos bibliotecários 
da faculdade. Pois a distribuição de terra aos professores e bibliotecários, 
em lugar do salário, era feita do seguinte modo:
48 unidades (materiais) de terra para o professor de Prabhakara darsana.
35 unidades para o professor de Bhatta darsana.
30 unidades para o professor de Nyaya.
20 unidades para o professor de Vendangas.*
30 unidades para cada um dos seis bibliotecários, e assim por diante.
Isto mostra que Madusudana tratava professores e bibliotecários quase 
da mesma forma e ainda é possível deduzir que suas qualificações acadê-
micas também seriam de igual ordem.
As instituições educacionais do Ocidente, que avaliam corretamente o 
lugar que as bibliotecas devem ocupar, colocam os bibliotecários na posição 
de docentes e, em compensação, insistem em que tenham alta qualificação 
acadêmica. Espera-se ardentemente que o padrão definido por nosso ilustre 
patrício Madusudana, que se aproxima tanto da prática atual de outros 
países, seja logo alcançado por nossas universidades, faculdades e escolas.
174 Pessoal da Biblioteca e sua Responsabilidade
Vimos que a tarefa essencial da Primeira Lei era educar as autoridades 
a respeito do pessoal da biblioteca, e que ela foi cumprida passo a passo 
em quatro estágios. Primeiro, convenceu-as da necessidade de pessoal 
especializado, depois, de pessoal com cultura, em seguida, de pessoal capa-
citado, e finalmente de pessoal bem remunerado. Sua segunda tarefa, nesta 
questão, foi afinar o mesmo pessoal ao tom adequado. De fato, seria trágico 
se o próprio pessoal da biblioteca, como Sugriva,** esquecesse a causa 
nobilíssima que lhes garantiu instrução, pagamento dos estudos e posição.
* As matérias lecionadas pelos professores tratam do estudo de obras essenciais da filosofia 
hindu. (n.e.)
** Na mitologia hindu, Sugriva é o rei dos macacos que se esqueceu de cumprir a promessa 
de ajudar a libertar da prisão Sita Devi, a esposa do herói Rama. (n.e.)
41
28
 
Os melhores prêmios são como a maçã do Éden. E quem deles estiver 
usufruindo precisará de vez em quando perscrutar o coração, à luz das 
palavras indignadas dos filhos de Kausalya e Sumitra.29 A cada instante o 
pessoal da biblioteca deve lembrar-se que os livros são para usar. Jamais 
deve cair no estado de espírito de seu ancestral da Bodleian Library, do 
qual se diz que “era um bibliotecário muito bom em alguns sentidos; mas 
odiava quem se aproximasse dos seus livros”.30 Jamais deve esquecer que 
nas bibliotecas os livros são reunidos para serem usados, preparados para 
serem usados, guardados para serem usados e oferecidos para serem usa-
dos. Os intermináveis processos e rotinas técnicas — receber sugestões dos 
especialistas, adquirir por compra ou doação, registrar, classificar, catalogar, 
registrar o númerode chamada, colocar nas estantes, emprestar e dar baixa 
— tudo isso é executado tendo como única finalidade o uso. Para cumprir 
esta suprema missão da Primeira Lei do modo mais amplo possível, o 
pessoal da biblioteca deve não só lembrar-se constantemente desta missão, 
não só adquirir a necessária cultura e formação profissional, mas também 
desenvolver certas atitudes e interesses, que são também indispensáveis.
175 O Pessoal da Biblioteca e os Leitores
Em primeiro lugar está a atitude diante dos leitores. Talvez pareça 
supérfluo ter que afirmar que os leitores constituem uma parte essencial 
do trabalho de uma biblioteca viva. Mas, infelizmente, há pessoas que não 
conseguem abandonar o hábito de ver os leitores como um estorvo. Há 
outras que somente permitem o ingresso dos leitores se eles se lembrarem 
que estão ali graças à sua tolerância e não têm direito algum de pedir nada, 
menos ainda qualquer conforto que propicie o estudo. Há ainda outras 
que não se importarão de prestar atenção às necessidades dos leitores, se 
isso não interferir na meticulosa execução de sua rotina administrativa. 
Seu lema é ‘administração’ primeiro, tudo o mais, inclusive os ‘leitores’, 
depois. Cerca de um século e meio atrás, quando a Primeira Lei não era 
amplamente conhecida, uma biblioteca com esta perspectiva talvez tivesse 
sido tolerada. Na verdade, infelizmente era assim mesmo.
1751 Anacronismo
Durante quase meio século, a partir de 1763, a Bodleian Library, de 
Oxford, esteve nas mãos do reverendo John Price, do Jesus College. Bem no 
começo de sua carreira de bibliotecário, em 1771, foi publicado A journal of a 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia42
voyage round the world, do capitão Cook, e havia uma grande procura dessa 
obra. Mas nosso bibliotecário Price emprestou imediatamente o exemplar 
da biblioteca para um amigo e pediu-lhe que ficasse com ele o maior tempo 
possível. Assim, não seria “importunado constantemente pelos leitores 
que o procurassem”. O bibliotecário Price, de bom grado, teria tido uma 
biblioteca sem leitores. Na verdade, dele se diz que “desencorajava os 
leitores por negligência e por grosseria”. Apesar disso, foi-lhe permitido 
dirigir a Bodleian, sem qualquer estorvo, durante toda a metade de um 
século e instalar no seu ‘trono’ o próprio genro, que era farinha do mesmo 
saco, e conseguiu nele se manter com igual determinação por outro meio 
século. Mas o bibliotecário Price é hoje um anacronismo. Uma biblioteca 
moderna não pode existir sem leitores. A ‘negligência’ e a ‘grosseria’ mu-
daram de lado, por assim dizer, pois não é mais o leitor que tem que tolerar 
docilmente a ‘grosseria’ do pessoal da biblioteca, mas, infelizmente, é o 
pessoal da biblioteca que, calado, tem que suportar a grosseria que parte, 
de vez em quando, de leitores descorteses e presunçosos.
1752 Boas-Vindas e Atenção 
A biblioteca deve hoje em dia adotar os métodos de uma loja moderna. 
É verdade que, em inúmeras bibliotecas, talvez não seja possível contar 
com um número suficiente de auxiliares, que fiquem simplesmente por ali 
à espera de que apareça alguém. Haverá consultas a serem pesquisadas, 
cartas para responder, fichas catalográficas para redigir e mil e outras coi-
sas para fazer. Mas, apesar disso, assim que um leitor entrar na biblioteca, 
prevalecerá a regra segundo a qual qualquer que seja o trabalho em curso 
deverá ser imediatamente interrompido de modo que o leitor perceba que 
teve boa acolhida e atenção.
1753 Bom Humor e Cortesia 
Sabemos que é muito importuno quando estamos bem no meio do tra-
balho de somar uma coluna de números e alguém chega repentinamente. 
E pior ainda é descobrir que a pessoa quer simplesmente dar uma olhadi-
nha, sem procurar nada em particular. Mas isso são detalhes mandados 
para nos testar; devemos manter uma atitude cordial e, de modo algum, 
sermos indelicados. É muito importante lembrar que o ‘cliente adora um 
atendente cordial’.
1754 Comportamento Equivocado 
A conduta dos funcionários da biblioteca não deve, absolutamente, 
ensejar este tipo de comentário: “Estivemos, há pouco, naquela biblioteca 
bonita e imponente. Encontramos uma figura, de quem emanava um ir-
ritante cheiro de essência de eucalipto, cuidando da biblioteca, inclinada 
43
sobre o balcão, aparentemente endereçando envelopes. Ao chegarmos, 
nossa presença nem foi notada e somente depois de passados alguns 
minutos essa figura nos fez saber que estava viva. E, ao fazê-lo, podia-se 
ler claramente em seu semblante: ‘Gostaria que as pessoas não entrassem 
quando tenho de terminar meu trabalho’. Na verdade, porém, pergun-
tou: ‘Em que lhes posso ser útil?’, sem se erguer da cadeira. Ao explicar 
o que queríamos e dele ouvir ‘Lamento, mas esse livro está emprestado’, 
não ficamos com a certeza de que estivesse lamentando ou mesmo de que 
soubesse qual o livro que procurávamos e ficamos a imaginar se de fato 
o livro não estivera nas estantes o tempo todo.”
1755 Comportamento Correto
Por outro lado, o ideal seria que, ao voltar para casa, os leitores dis-
sessem: “O jovem que nos atendeu naquela biblioteca tinha um sorriso 
tão cativante que iluminava toda a sala e sentimos com muita certeza que 
tínhamos ido ao lugar certo. Tudo ali é tão confortável. Qualquer dia desses, 
gostaria de voltar lá nas minhas horas de folga.” Todo leitor deve sentir 
a presença da personalidade radiante do bibliotecário. Como Krishna, o 
bibliotecário, de vez em quando, deve colocar-se ao lado de cada leitor. 
Não permanecer grudado ao assento, nem se refugiar na sala de descanso. 
Deve circular entre os leitores e estar sempre disponível para eles.
176 Pessoal da Biblioteca e Psicologia 
Depois de saudá-los, deve-se traçar um perfil mental dos leitores e en-
trar em sintonia com ele. Para ser bem-sucedido nessa tarefa o bibliotecário 
precisa ser um psicólogo. Melhor ainda seria se todos os funcionários da 
biblioteca fossem psicólogos, para alcançar os melhores resultados. Será 
que isso implica que todo o pessoal da biblioteca deva seguir um curso for-
mal sobre teoria da psicologia? Nada disso, embora não fizesse mal algum. 
Até uma criança aprende, pela observação, o tipo de tática necessária para 
se entender com os pais e professores. Assim também, todo funcionário 
da biblioteca, que tem inúmeras oportunidades de observar as pessoas, 
deve adquirir, pela prática, um conhecimento operacional de psicologia 
e a capacidade de entender a natureza humana. É função do bibliotecário 
saber lidar com todos os tipos de leitores e não só com os que se mostram 
dóceis. O bibliotecário realmente bem-sucedido deve ser capaz de lidar 
com leitores difíceis. Caso contrário, seus livros ficarão sem uso em igual 
proporção. Quantas vezes o bibliotecário atribui seu fracasso à insensatez 
do leitor! Conhecer os livros é somente metade da batalha. Quase tão fatal 
quanto ignorar a diferença entre João e José é desconhecer a diferença 
entre Newton e Einstein. Para lidar com êxito com o leitor difícil é preciso 
entendê-lo. Ele resmunga? Se resmunga, quer dar a entender isso mesmo 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia44
ou se trata de simples afetação? É realmente uma pessoa mal-humorada 
ou apenas seu jeito é desagradável? Muitos leitores potenciais se afastarão 
do balcão de atendimento se nos esquivarmos de enfrentar o problema do 
visitante sem modos, desagradável, nervoso ou excessivamente crítico. O 
êxito estará em nossa competência ao traçarmos rapidamente o perfil da-
queles de trato fácil, e na paciência e inteligência que tivermos ao estudar 
e lidar com os que são difíceis.
1761 Exemplo 
Há alguns anos, um indiano de turbante estava de plantão no departa-
mento de referência de uma biblioteca inglesa. Um inglês de cartola entrou 
com a habitual familiaridade, mas se sentiu intimidado ao ver aquela figura 
exótica na área reservada ao pessoal.
O bibliotecário indiano ofereceu-lhe ajuda, disfarçando cuidadosamente 
a sensaçãoque lhe provocara aquele olhar assustado.
— Não, obrigado — foi a resposta polida, e o inglês passou a percorrer 
as estantes.
Passados alguns minutos, o indiano aproximou-se com outro ‘em que 
posso ser útil?’ 
— Muito obrigado. Onde estão os livros sobre temperança? — foi a 
única resposta relutante.
Em seguida, livro após livro da seção de ‘temperança’ foi aberto e 
fechado em rápida sucessão. O relógio era tirado do bolso a cada minuto. 
Evidentemente, tinha pressa. Ainda não havia encontrado o que procurava 
e já eram 16 h 45 min. Coitado!
— Se o senhor me disser exatamente o que procura sobre temperança, 
talvez eu possa ajudá-lo — foi o novo oferecimento do indiano de plantão.
Desta vez, com a cabeça virada para o outro lado, o cavalheiro de 
cartola disse:
— Tenho que presidir uma reunião sobre temperança. Preciso de algo 
para meu discurso de abertura. Será que você pode me ajudar? O meu 
trem sai às cinco e quinze.
Instantaneamente, um volume da enciclopédia que ficava em outro lu-
gar da sala ofereceu-lhe aquele algo que ele procurava, e ele partiu com uma 
profusão de agradecimentos, que cintilavam de seus lábios sorridentes.
1762 Vencer a Timidez dos Leitores 
“A que se deve esse comportamento estranho?” perguntou o novo 
bibliotecário de referência, quando a biblioteca estava sendo fechada no 
fim do expediente daquele dia. “Timidez, meu amigo, timidez”, foi a 
resposta de um experiente colega, que acrescentou, “se você quiser ser 
45
um bibliotecário de referência, deve aprender a superar não apenas sua 
timidez, mas também a dos outros!”
1763 Trabalho com o Leitor 
Situação comum é a do consulente que chega à biblioteca e que você 
nunca viu antes. Ele diz o que precisa. Você lhe mostra os livros que acha 
que servirão. Você deve observá-lo continuamente para verificar se sua 
primeira impressão está correta ou se precisa revê-la. Acima de tudo, você 
não deve impor-lhe suas ideias, suas preferências e suas antipatias. Se lhe 
oferecer a nova edição em formato grande do Vanbrough e ele disser ‘não 
gosto de Vanbrough, ele é horrível’, será melhor não insistir, e tratar de 
passar para a estante seguinte. Não discuta sobre isso. Ah! Somos todos 
humanos e ao tentar provar que estamos corretos, perdemos de vista nosso 
objetivo principal, que consiste em ajudar o consulente a encontrar o que 
pode usar com prazer e proveito. Trabalhe com o leitor. Não o influencie. 
Você pode orientá-lo, mas não arrastá-lo. Trabalhe com ele respeitando sua 
posição. Se ele for vaidoso, aproveite essa qualidade. Se fala de si próprio, 
ouça com respeito, mas não deixe que ele se afaste muito do assunto, ou 
seja, a escolha dos livros. Se for insensato e irrequieto, mostre-lhe o mais 
cedo possível que pode ser categórico e que conhece os direitos e poderes 
atribuídos a você. Mas não ceda à tentação de cair numa conversa agra-
dável, pelo simples prazer dessa conversa, por mais agradável que seja.
1764 Dois Grupos de Leitores 
Os consulentes dividem-se em dois grupos: os que querem atenção 
imediata, para que possam ir embora o mais rápido possível, e os que 
querem fazer uma seleção sem pressa e sem muita ajuda. Erros de diag-
nóstico nesse momento criam uma impressão desfavorável imediata e 
duradoura. O erro é usar um cumprimento estereotipado para todos os 
visitantes. Deve-se buscar uma resposta para a pergunta ‘em que grupo 
este leitor se enquadra’ e atendê-lo de acordo com esta análise.
1765 Ramo Especial da Psicologia 
“O mesmo Polônio de sempre aparece para dar conselhos!” poderia 
alguém zombar. Mas uma breve reflexão mostrará o tamanho do desserviço 
que causaria à Primeira Lei da biblioteconomia, se fossem desprezados 
alguns desses preceitos aparentemente banais. Todo bibliotecário que 
tiver sido obrigado a lidar com muitos funcionários lembrar-se-á com 
que frequência em sua carreira foi preciso pregar esses preceitos aos seus 
colegas. Se houver dúvida quanto à imparcialidade desse testemunho, 
eis as palavras ponderadas deliberadamente incorporadas em relatório 
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia46
‘apresentado pelo presidente do Board of Education ao parlamento por 
ordem de Sua Majestade’, em maio de 1927:
A disposição de ajudar, a paciência diante da estultícia, o controle do tempe-
ramento diante de provocações devem ser inculcados em cada auxiliar e em 
cada atendente da biblioteca, ao mesmo tempo que os membros de hierarquia 
superior necessitam cultivar o estudo da natureza humana, um tipo de estudo 
que talvez quase possa aspirar à posição de um ramo especial da psicologia. O 
fator humano tem uma importância tão grande na administração das bibliotecas 
que conviria solicitar às escolas de biblioteconomia e aos cursos de treinamento 
que dediquem parte de sua atenção a orientações sobre este tema.31
177 Os Funcionários da Biblioteca e o Serviço Pessoal 
O prazer de compreender a natureza humana e lidar com casos difí-
ceis não deve, entretanto, ser visto como o início e o fim da biblioteconomia. 
São apenas meios para alcançar um fim. O que é uma biblioteca? Uma 
biblioteca é uma coleção de livros mantidos para serem usados. A biblio-
teconomia, por conseguinte, consiste em estabelecer a ligação entre um 
usuário e um livro. Portanto, a própria existência da biblioteca consiste 
no serviço pessoal prestado aos consulentes. De qualquer maneira, isso é 
o que impera nas bibliotecas que acreditam sinceramente que os livros 
são para usar. Esta Primeira Lei da biblioteconomia é um capataz firme. 
Uma vez que se admita sua doutrina, fica impossível fugir da conclusão 
lógica à qual nos arrastará. Ela dirá, por exemplo, “se a biblioteca mantém 
livros para serem usados, o trabalho do bibliotecário não consiste em 
baixar das estantes um monte de livros e dizer aos leitores que se sirvam. 
Nem se deve abastecê-los à força com livros de nossa escolha. É preciso 
ajudá-los, e ajudar alguém significa cooperar com ele para levar a cabo seus 
próprios planos e desejos — ajudá-lo a ajudar-se a si mesmo.” Este é o tipo 
de serviço pessoal que a Primeira Lei espera dos funcionários da biblioteca, 
se de fato pretendem auxiliá-la no cumprimento de sua missão. É digno 
de nota o fato de as solicitações individuais por esse serviço pessoal estarem 
crescendo. A resposta a essas solicitações devem ser livros selecionados 
de modo a coincidirem com as necessidades individuais e acompanhados 
por uma orientação hábil.
1771 Necessidades Individuais Diferentes 
Há quem almeje melhorar suas perspectivas de vida; há quem almeje 
complementar a educação formal recebida na escola; há quem almeje 
ampliá-la, ingressando em novos campos do conhecimento; há quem 
almeje reunir dados de certo tipo; há quem almeje ler pelo simples prazer 
de ler. A essas diferentes necessidades individuais o pessoal da biblioteca 
deve atender com igual eficiência. Para prestar esse serviço pessoal, o co-
47
nhecimento e a experiência dos funcionários da biblioteca devem ser de tal 
natureza que eles sejam capazes de recomendar, com o devido discerni-
mento, livros adequados sobre um mesmo assunto para homens e mulheres 
que difiram amplamente em termos de aptidão, educação e objetivos. 
Por exemplo, todo mundo quer ler a respeito da teoria da relatividade e 
temos inúmeros livros sobre este tema. Será que qualquer um ou todos 
esses livros atendem aos requisitos de qualquer leitor? Será que Relativi-
ty, de Lodge, Readable relativity, de Durell, Reign of relativity, de Haldane, 
Meaning of relativity, de Einstein, A. B. C. of relativity, de Russell, Principles 
of relativity, de Whitehead, Mathematical theory of relativity, de Eddington, 
e Origin, nature and influence of relativity, de Bikhoff agradariam a todos 
da mesma forma? Um destes títulos talvez seja muito ruim na avaliação 
de determinada pessoa, mas pode ser o único que apresenta a teoria da 
relatividade no nível de compreensão de outras pessoas. Outro pode ser 
muito especulativo, mas este talvezseja o único aspecto da relatividade 
que agradaria a algumas pessoas. Um terceiro pode ser muito místico, mas 
há almas que se deleitam no misticismo. E ainda outro talvez adote um 
tratamento do tema que constitui um desafio ao mais consumado estudante 
avançado de matemática, mas que pode ser o verdadeiro osso duro que 
ele buscava encontrar para praticar sua capacidade de roer. É nesta selva 
de publicações, de dimensões perturbadoras mesmo para quem lida com 
ela constantemente, de um lado, e a igualmente atordoante variedade dos 
gostos e capacidades dos leitores, de outro lado, que tornam o serviço pessoal 
dos funcionários da biblioteca indispensável para efetuar o contato entre 
o leitor certo e o livro certo no tempo certo e da maneira certa.
1772 Serviço de Inteligência da Comunidade 
Nas palavras de William S. Learned,
A biblioteca do futuro será um serviço de inteligência da comunidade. Exigirá 
pessoal altamente especializado, que deverá, assim como os professores de 
uma faculdade, estar familiarizado com a literatura de um campo estrita-
mente delimitado e ter além disso aquela aptidão que frequentemente falta 
por completo ao professor, qual seja a capacidade de rapidamente captar a 
bagagem intelectual do consulente e entender intuitivamente a natureza de 
sua necessidade pessoal.32
Para atender às demandas da Primeira Lei em matéria de serviço pessoal, os 
funcionários da biblioteca devem também estar preparados para recorrer a 
especialistas, sempre que necessário, em busca de orientação sobre livros 
que possam ser recomendados a leitores interessados em estudar ou se 
deleitar em ramos recônditos do saber.
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia48
1773 O Que Torna Grande uma Biblioteca
Além disso, os funcionários devem ter personalidade, tato, entusiasmo 
e simpatia. Na verdade, a relação entre bibliotecário e leitor deve ser a 
mais fácil e agradável, não a de um superior dizendo a um inferior quais 
os livros que deve ler, não a de um professor ensinando a uma criança, 
mas de dois iguais trocando pontos de vista e informação sobre livros. Em 
suma, o bibliotecário deve ser ‘amigo, filósofo e guia’ para todo aquele 
que vier a usar a biblioteca. É esse serviço pessoal simpático junto com “essa 
hospitalidade que tornam grande uma biblioteca, não o seu tamanho”, 
como diz o poeta Rabindra Nath Tagore.33
178 O Pessoal da Biblioteca e o Serviço à Comunidade 
O resultado lógico do conceito os livros são para usar é um serviço pesso-
al executado com elevada boa vontade. Percebe-se facilmente que somente 
pessoas dotadas de irrefreável anseio interior de servir à comunidade é que 
podem chegar a ser bibliotecários, atingindo o alto padrão estabelecido pela 
Primeira Lei. Percebe-se que nem a cultura, nem o treinamento profissional, 
nem o elevado salário podem, de per si, formar um bibliotecário, por mais 
que sejam necessários. A cultura pode levar a um retraimento fleugmáti-
co, a formação profissional pode resultar em fatuidade arrogante e o alto 
salário gerar insociabilidade. Tudo isso poderá se submeter ao objetivo 
da Primeira Lei somente se houver aquela ‘disposição mental’ — nata ou 
cultivada — que levou nosso santo Tayumanavar a explodir em versos 
arrebatados, argumentando com Ele, o Maior dos Maiores:34
 
“Se somente me concederdes a disposição de servir a meus semelhantes, 
a condição de prazer virá espontaneamente até mim.”35
1781 Bibliotecário Pioneiro 
Este prazer com o serviço à comunidade é requisito para qualquer 
bibliotecário. É absolutamente necessário para alguém que deva lançar a 
primeira semente do movimento em prol das bibliotecas numa sociedade 
ou num país. As incisivas palavras de Edward Edwards, um dos baluartes 
do movimento por bibliotecas na Inglaterra no século xix, ao enumerar 
as dificuldades e as recompensas que um bibliotecário pioneiro enfrenta, 
serão uma fonte de conforto e estímulo para muitos dos funcionários de 
bibliotecas de hoje em dia nesta parte do mundo:
Deve encontrar lenitivo entre os desestímulos por um trabalho pouco apre-
ciado [...] Trabalho feito sob a direção de homens que não entendem suas 
dificuldades, nem apreciam seus resultados, provavelmente estará fadado a ser 
49
prestado com relutância. Torna-se cada vez mais difícil admitir que o aplauso 
não seja o objetivo correto do trabalho; que a busca que for muito afetada por 
recompensas imediatas, ou por sua ausência, deve ser imerecida ou realizada 
de forma imerecida. Mas ainda existe um amplo terreno para se perseverar com 
firmeza e alegria. Cada passo dado para ampliar a utilidade da biblioteca — para 
difundir por toda a parte as melhores ideias dos melhores pensadores — faz 
minar ainda mais o terreno dos abusos sociais que com tanta frequência têm 
exercido influência dominante nas instituições públicas deixando-as ao alcance 
de ladinos aproveitadores ou demagogos espalhafatosos.36
18 Não se Enamore dos Frutos
Mas não há necessidade de invocar a ajuda dessa história de mina ou 
esperar uma recompensa ainda que remota. A Primeira Lei diria: “Plante 
sua alegria e sua perseverança nas minhas palavras, os livros são para 
usar. Seu dever é servir por intermédio dos livros. Servir é sua alçada. 
Não as recompensas. Não vacile. Não se enamore dos frutos. Avance sem 
se deixar influenciar por qualquer recompensa, real ou fictícia, remota 
ou imediata.” Para o bibliotecário, as celebradas palavras do Senhor Sri 
Krishna possuem um apelo especial:
Teu direito é à ação apenas e jamais aos frutos.
Não deixai que os frutos da ação sejam o motivo.
Nem te deixes apegar à inação.
a primeira lei
as cinco leis da biblioteconomia50
CAPÍTULO 2
A SEGUNDA LEI E SUA LUTA
20 Introdução
No capítulo anterior, reconstituímos o lento surgimento da Primeira Lei 
e examinamos, de modo sucinto, seu efeito no método de guardar livros, 
na localização, horários, mobiliário e pessoal da biblioteca. As mudanças 
causadas pela Primeira Lei em todas estas questões foram fundamentais. 
Se fosse para definir numa palavra o efeito final desta Primeira Lei, ela 
seria revolução. Uma vez radicalmente transformada a perspectiva, outras 
coisas vieram com o tempo.
201 Enunciado
A Segunda Lei da biblioteconomia surge no encalço da Primeira Lei 
para que essa revolução avance mais. Se a Primeira substituiu o conceito 
os livros existem para serem preservados, a Segunda dilata o conceito os 
livros são para os poucos eleitos. Se o grito revolucionário da Primeira 
era os livros são para usar, o da Segunda é os livros são para todos. Se 
a abordagem da Primeira se fazia pelo lado dos livros, a da Segunda se 
faz pelo lado dos usuários de livros. Se a Primeira vivificava a biblioteca, 
a Segunda amplia-a para um problema nacional. Se a Primeira escancarou 
as bibliotecas existentes, a Segunda cria novas bibliotecas e faz surgir a 
cultura de novas espécies de bibliotecas. Se havia relutância em proceder 
de acordo com a Primeira, encontra-se, em suas etapas iniciais, oposição 
categórica à Segunda. Assim, a revolução causada pela Segunda Lei é de 
natureza mais avançada e aproxima mais a humanidade de seu objetivo.
202 Potencialidade
para cada pessoa o seu livro! Que volume de ideias repousa em estado 
potencial nestas seis palavras de tão poucas sílabas! Quão árdua será a 
tarefa de concretizar estas ideias! Que variedade de interesses adquiridos 
se ergue contra qualquer tentativa de fazer valerem estas ideias! Estas ques-
tões precisam ser cuidadosamente analisadas num estudo da Segunda Lei.
203 Valor Educacional
Talvez seja conveniente começar bem do começo. O que é uma biblio-
50
51
teca? As bibliotecas são coleções de livros, formadas para atender a uma 
finalidade especial. Que finalidade é essa? ‘Uso’ é a resposta dada pela 
Primeira Lei. Qual a utilidade dos livros? Os livros fornecem informação; 
eles educam. Podem também oferecer alívio; podem proporcionar uma 
forma de recreação inofensiva. Concentremo-nos primeiro em suautilidade 
educacional. Se os livros são instrumentos de educação, a lei para cada 
pessoa o seu livro pressupõe o conceito educação para todos. Isso revela 
a questão fundamental. A história da resposta à questão ‘Todos têm direito 
à educação?’ mostrará como a Segunda Lei também tem sido na prática ra-
ramente levada em conta pelas autoridades responsáveis pelas bibliotecas.
21 As Classes e as Massas
211 Antiguidade
É habitual começar toda história clássica com Aristóteles. Qual a res-
posta que ele deu para esta questão fundamental?
A intenção da natureza é que os corpos dos escravos e dos homens livres sejam 
diferentes entre si [...] E uma vez que isso é verdade com relação ao corpo, mais 
justo ainda é definir do mesmo modo quando consideramos a alma.38
Estas premissas plausíveis levaram Aristóteles à conclusão característica de 
que “um escravo não tem qualquer faculdade de deliberar”.39 O resultado 
deste raciocínio rigoroso foi que “embora Atenas e Esparta oferecessem 
educação aos homens livres, nove décimos da população estavam excluídos 
do privilégio de estudar.”40 Traduzindo isso em termos de livros, desco-
brimos que livros para os poucos eleitos era o conceito dominante e que 
a Segunda Lei não tinha qualquer reconhecimento. Mesmo em Roma, que 
iniciou a criação de escolas municipais e públicas, o privilégio da educação 
raramente cruzava as fronteiras ocupacionais e de renda. 
212 Idade Média
A mesquinhez da Idade Média é descrita por Margaret Hodgen com 
as seguintes palavras:
O espírito de exclusão que as classes dos proprietários de terras sustentava 
contra os camponeses que, ansiosos por melhorar de vida, procuravam a Igreja; 
o que a Igreja praticava contra os leigos que buscavam independência intelec-
tual; o que os comerciantes adotavam contra os forasteiros que procuravam o 
lucro em empreendimentos comerciais, era, por sua vez, assegurado por todos 
contra as aspirações educacionais dos pobres.41
Conta-se inclusive que “os pais vassalos eram punidos por permitir 
que seus filhos vassalos frequentassem a escola”.42
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia52
213 Século xviii
O espírito de exclusão perdurou por séculos. Eis um exemplo de um 
tipo de opinião encontrado no século xviii:
Para que a sociedade seja feliz e o povo viva tranquilo nas piores circunstân-
cias, é preciso que muitos sejam não só ignorantes mas também pobres [...] O 
bem-estar e a felicidade, portanto, de cada Estado e de cada reino, exige que 
os conhecimentos dos trabalhadores pobres fiquem confinados aos limites de 
suas ocupações e nunca se estendam (no que diz respeito às coisas visíveis) 
além daquilo que diga respeito à sua vocação. Quanto mais um pastor, um 
lavrador ou qualquer outro camponês conhecer do mundo e das coisas que são 
estranhas ao seu trabalho ou emprego, tanto menos apto ele será para suportar-
-lhes a fadiga e as provações com alegria e satisfação. Aprender a ler, escrever 
e contar [...] é algo muito pernicioso para os pobres forçados a conseguir o pão 
de cada dia na labuta diária.43
Que ordenamento caridoso! Que exibição de fatalidade nesse raciocínio 
do século xviii! Com essas ideias à solta, é fácil imaginar a eficiência com 
que o conceito os livros são para os poucos eleitos teria frustrado o sur-
gimento do conceito antagônico os livros são para todos.
214 Século xix
Até mesmo o século xix esteve por longo tempo seduzido por esse 
conceito de uma divisão dicotômica das pessoas entre uma pequena classe 
governante formada pelos que, quase que por direito divino, ocupavam a 
posição privilegiada, e uma grande classe formada pelos demais que, como 
então se supunha, devido à constituição essencial das coisas, pertenciam 
às ordens inferiores, sem direito algum à educação e, portanto, sem direito 
aos instrumentos da educação, ou seja, os livros. As classes abastadas e 
influentes — os homens livres do século xix — resistiam acintosamente, por 
puro egoísmo, até mesmo à simples sugestão de que aos pobres fossem 
ministrados os rudimentos da educação. Conta-se a história do marquês 
de Westminster, que se recusou a dar um vintém que fosse ao Mechanics’ 
Institute de Londres, preocupado com a possibilidade de a educação dos 
trabalhadores torná-los rebeldes. “É verdade”, disse, “mas nós temos que 
cuidar de nós”.44 As lutas que os livros travaram para chegar a cada pessoa 
estão muito bem ilustradas na experiência registrada por Francis Place, um 
alfaiate de Charing Cross, nos primeiros anos do século xix. Ele devia ter o
maior cuidado para que nenhum dos clientes habituais tivesse acesso à biblio-
teca que ficava nos fundos da alfaiataria. [...] Se soubessem que eu nunca lera 
um livro, que era completamente ignorante, exceto no meu próprio ofício, que 
me embebedava num bar, não teriam feito qualquer objeção contra mim. Eu 
seria um ‘sujeito’ inferior a eles, e me tratariam com condescendência. Mas [...] 
53
colecionar livros e pretender conhecer algo de seu conteúdo seria colocar-me 
em pé de igualdade com eles, ou até bancar superioridade; seria uma ofensa 
abominável por parte de um alfaiate, senão um crime, que merecia punição. 
Se todos meus clientes soubessem que, no breve período de 1810 a 1817, reuni 
uma biblioteca considerável, onde passava todo o tempo livre que conseguia 
[...] pelo menos a metade deles teria se afastado.45
Sabemos que Green reclamava ainda no final do século xix de que “um 
dos transtornos relativos à atual situação da sociedade na Inglaterra está 
no fato de todas as questões ligadas à educação serem complicadas por 
distinções de classes”.46 Mesmo recentemente, em 1918, a Hansard revela 
que o projeto de lei da educação, apresentado pelo Sr. H.A.L. Fisher, foi 
combatido com o argumento de que, se aos trabalhadores fosse oferecida 
uma educação longa e complexa, 
Como é que os cavalos serão conduzidos no trabalho, as vacas ordenhadas, as 
ovelhas apascentadas e os currais abastecidos de feno? Como poderá a educação 
ajudar um homem que tem que espalhar estrume nos campos?47
Uma verdadeira encarnação de Bernard de Mandeville!
215 Instinto Político
Todos os estudiosos de política salientam com palavras inconfundíveis 
que o instinto político daqueles que se encontram em posições privilegiadas 
se opunham veementemente ao advento da Segunda Lei da bibliotecono-
mia. O visconde Bryce, por exemplo, afirma
Que todos os governos despóticos de sessenta anos atrás, e alguns deles até 
mesmo nos nossos dias, foram indiferentes ou hostis à disseminação da educa-
ção entre os seus súditos, porque temiam que o conhecimento e a inteligência 
criariam um anseio de liberdade.48
2151 Inglaterra
Os argumentos de quem se opunha à lei Ewart* – a primeira lei de 
bibliotecas públicas da Inglaterra – era que “o conhecimento em demasia 
era uma coisa perigosa e que as bibliotecas poderiam se tornar centros de 
educação política”.49 Em seu discurso presidencial na conferência de Leeds, 
o Dr. Guppy observou
É um tanto embaraçoso constatar que em meados do século xix muitos dos 
homens mais eminentes debatiam, com toda a seriedade, não o que a literatura 
tinha de melhor para oferecer às pessoas, mas se seria de todo seguro, sensato 
* William Ewart, político inglês (1798–1869). (n.e.)
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia54
e prudente admitir o público em geral às bibliotecas. Mais do que os leitores 
serem considerados competentes para manusear e pesquisar nos livros, tratava-
-se de indagar se se permitiria que uma democracia rude e inculta, apesar das 
precauções e regulamentos mais severos, invadisse os sagrados recintos da 
biblioteca.50
2152 Rússia
Quando uma biblioteca escolar foi inaugurada em Moscou, em 1913, 
a seguinte questão foi levantada na Duma nacional pelo líder da extrema 
direita: “Como pode o governo tolerar cursos de biblioteconomia, que 
prepararão o caminho para uma revolução?”51
216 Autopreservação
Assim, a Segunda Lei teve que enfrentarnão somente um hábito her-
dado, como foi o caso da Primeira Lei, mas também uma oposição muito 
forte baseada em instintos políticos e econômicos. Por mais equivocados 
que estes instintos possam ter sido, não existe qualquer fundamento para 
duvidar de sua natureza bona fide. Na verdade, como se percebe facilmente, 
eram meras consequências de um instinto mais fundamental, ou seja, o 
instinto de autopreservação.
2161 Inferência Contrária
À sociedade, porém, não faltaram espíritos previdentes que puderam 
entender a natureza equivocada dessa oposição. Houve, de fato, pessoas 
que fariam exatamente a inferência contrária desse mesmo instinto de 
autopreservação. A localização de fábricas perto das fontes de energia 
causou uma redistribuição da população e as cidades foram inundadas 
com um dilúvio de pessoas que ignoravam as responsabilidades civis. A 
aglomeração de dezenas de milhares de pobres analfabetos criou uma 
enormidade de flagelos terríveis. Por um período, as classes altas conse-
guiram manter-se a uma distância segura dos centros de sujeira, pestilência 
e pequenos delitos. Mas não poderiam manter-se à distância para sempre. 
A miséria, com o tempo, ultrapassou, inclemente, os limites. Trouxe doenças 
e cenários desagradáveis às portas da paróquia e da casa senhorial. Na ân-
sia de se defender, os nobres recorreram às pressas aos seus conselheiros 
mais confiáveis. Os primeiros deles, os economistas, recomendaram uma 
dose prudente de educação. Adam Smith, por exemplo, recomendou que
O Estado pode impor à quase totalidade da população a obrigatoriedade de 
adquirir tais elementos mais essenciais da educação, obrigando cada um a 
submeter-se a um exame ou experiência em relação aos mesmos, antes que ele 
possa obter a liberdade em qualquer corporação ou poder exercer qualquer 
atividade, seja em uma aldeia, seja em uma cidade corporativa.52
55
Ele aproveitou essa situação desagradável em que se achavam as classes 
ricas e ainda propôs o seguinte:
A educação das pessoas comuns talvez exija, em uma sociedade civilizada 
e comercial, mais atenção por parte do Estado que a de pessoas de alguma 
posição e fortuna [...] O Estado pode facilitar essa aprendizagem elementar 
criando em cada paróquia ou distrito uma pequena escola, onde as crianças 
possam ser ensinadas [...] Ainda que o Estado não aufira nenhuma vantagem 
da instrução das camadas inferiores do povo, mesmo assim deveria procurar 
evitar que elas permaneçam totalmente sem instrução. Acontece, porém, que 
o Estado aufere certa considerável vantagem da instrução do povo. Quanto 
mais instruído ele for, tanto menos estará sujeito às ilusões do entusiasmo e 
da superstição, que, entre nações ignorantes, muitas vezes dão origem às mais 
temíveis desordens. Além disso, um povo instruído e inteligente é sempre mais 
decente e ordeiro do que um povo ignorante e obtuso. As pessoas se sentem, 
cada qual individualmente, mais respeitáveis e com maior possibilidade de ser 
respeitadas pelos seus legítimos superiores e, consequentemente, mais propen-
sas a respeitar seus superiores. Tais pessoas estão mais inclinadas a questionar 
e mais aptas a discernir quanto às denúncias suspeitas de facção e de sedição, 
pelo que são menos suscetíveis de ser induzidas a qualquer oposição leviana 
e desnecessária às medidas do governo.53
217 A Escada do Saber
Ainda que, falando de maneira geral, as palavras de Adam Smith 
tenham caído em ouvidos moucos, houve quem pôde apreciar a correção 
de seu raciocínio. De fato, isso levou o Sr. Whitbread a apresentar um 
projeto de lei no parlamento em 1807 em favor da educação universal. 
É desnecessário dizer, porém, que foi rejeitado por maioria esmagadora. 
Apesar do escárnio dos conservadores, a Society for the Diffusion of Useful 
Knowledge [sociedade para difusão de conhecimentos úteis] muito fez para 
disseminar a educação entre as massas, sob a liderança inspiradora de lord 
Brougham. A Penny cyclopaedia, o Penny magazine, a Gallery of portraits e a 
Pictorial Bible são os monumentos sobreviventes do zelo missionário que 
promoveu a causa dos livros para todos, na década de 1830. A maioria 
dos magnatas e das autoridades do começo da era vitoriana queria que o 
jovem camponês cultivasse os mesmos campos, com as mesmas ferramen-
tas e nas mesmas estações, como antes fizera seu pai. Contudo, espíritos 
iluminados, como Matthew Arnold, estavam impacientes com a lentidão 
do reconhecimento do novo conceito que então surgia: educação para 
todos. Na condição de inspetor escolar do governo inglês, lamentava, 
em 1853, que
Os filhos das classes inferiores e mais pobres do país, que pertencem às chama-
das ‘massas’, não são, em geral, educados; as crianças que são educadas per-
tencem a uma classe diferente, e, consequentemente, em matéria de educação 
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia56
das massas, eu, no curso de minhas funções oficiais, falando estritamente, não 
vislumbro nada ou vislumbro muito pouco.54
As primeiras vinte páginas do Educational systems of Great Britain and Ireland, 
de Graham Balfour, oferecem uma imagem breve mas nítida da perspicácia 
e da tenacidade com que alguns estadistas previdentes e patrióticos asse-
guraram a legislação educacional de 1870, 1880 e 1891, que gradativamente 
tornou a educação para todos primeiro permitida, depois compulsória e 
finalmente gratuita.55 Uma vez instituída a educação para todos, bastou 
não mais de uma ou duas décadas para que nossa Segunda Lei os livros 
são para todos entrasse em campo e tranquilamente realizasse o sonho de 
Huxley,56 de ‘uma escada do saber’, que leva das sarjetas às universidades.
2171 Exemplo 1
A forma como a Segunda Lei realizou literalmente este sonho de Huxley 
pode ser vista no relato feito em Adult education and the library57 sobre a 
marcha de um jovem pescador pelo caminho do saber. Nasceu na Noruega. 
Aos quatorze anos, foi tirado da escola. Seu pai disse, ‘Não vale a pena você 
estudar’. O adolescente foi mandado para a incessante tarefa de pescar na 
costa desolada do norte da Noruega. Mas o governo norueguês mantinha 
nesse fim de mundo uma boa biblioteca, apesar de pequena. Os livros eram 
periodicamente substituídos e o acervo reabastecido. Enfiando a cabeça e 
o coração nesses livros, esse jovem, a quem fora declarado que ‘não vale 
a pena você estudar’, adquiriu uma educação superior ao que ele próprio 
poderia ter imaginado. Partiu então para o Novo Mundo, matriculou-se 
na escola preparatória aos vinte e três anos, graduou-se aos vinte e oito 
anos e estabeleceu-se como professor com seu próprio colégio. Esta carreira 
do professor Rolvaag, do St. Olaf’s College, não é de forma alguma única.
2172 Exemplo 2
Em Madras, lembramo-nos da história daquele feito maravilhoso 
empreendido pelos livros, lidos à luz dos postes de iluminação, que con-
seguiram alçar um menino que nascera na obscuridade para a tribuna da 
suprema corte. Trata-se de T. Muthuswami Ayyar. Sua estátua encontra-se 
hoje ornamentando o centro do prédio da corte suprema de Madras. Esta 
influência da Segunda Lei fez com que fossem resgatados, dos porões 
da sociedade, em proveito do mundo, tantos homens promissores. Uma 
geração ou duas atrás, sua rival livros para uns poucos eleitos teria 
reconhecido a posição social anterior ao seu nascimento, forçando-os a se 
arrastar pela vida e morrer, sem jamais alcançar sua plena estatura.
57
2173 Exemplo 3
Eis uma mulher que ganha a vida como chef em um hotel [...] Ela observou um 
dia que sua filha mais velha franzia impacientemente as sobrancelhas quando 
a mãe cometia um erro gramatical. A mãe decidiu que não iria perder nem um 
pouquinho do respeito de sua filha por causa disto. Pediu ao bibliotecário de 
referência que lhe recomendasse livros que a ajudassem a evitar os erros mais 
comuns de gramática e pronúncia. Ela precisava de um curso progressivo de 
bom inglês, que fosse adequado às suas necessidades especiais. Mais tarde 
ela pediu livrosque a mantivessem informada sobre acontecimentos atuais e 
assim por diante.58
2174 Exemplo 4
Há, ainda, o caso do policial que solicitou livros que o ajudassem a des-
cobrir por que são cometidos crimes. “De que adianta prender as pessoas 
se você não pode ajudá-las?” perguntava.59 Devorou livros de sociologia 
e psicologia. Se tivesse vivido antes do advento da lei para cada pessoa 
o seu livro, que oportunidade teria tido tanto para estudar em livros de 
sociologia e psicologia, quanto para cumprir seus deveres oficiais de forma 
não apenas satisfatória para sua consciência, mas também benéfica para 
a sociedade? Como nossos policiais se tornarão úteis e populares se forem 
levados a ler, como acontece com seus contemporâneos do Novo Mundo, 
livros de sociologia e psicologia, além dos capítulos do manual da polícia!
2175 Exemplo 5
A natureza profética das palavras de Adam Smith ficou demonstrada 
ao pé da letra pelos serviços prestados pela Segunda Lei da bibliotecono-
mia ao público da cidade de Grand Rapids, no estado norte-americano 
de Michigan.
O abastecimento de água não podia acompanhar o crescimento da cidade. [...] 
Como resultado, grande parte dos cidadãos dependia de poços para obter água 
potável, pois não bebiam a água não-tratada de rios. A incidência de febre tifóide 
era muito alta — várias centenas de casos por ano — com uma taxa de óbitos 
igualmente alta. [...] O governo e os interesses comerciais da cidade finalmente 
asseguraram a formação de uma comissão especial com pessoas de alto nível, 
dentre empresários e profissionais, para estudar toda a situação e relatar um 
plano a ser submetido ao voto dos cidadãos. Depois de longo e cuidadoso es-
tudo, recomendaram a adoção de um plano para retirar água do rio e tratá-la 
pelo processo rápido de filtragem mecânica ou em areia. [...] Oito ou dez dias 
antes da votação, panfletos de página inteira ou meia página de jornal foram 
distribuídos em cada domicílio da cidade, alegando que a filtragem era um 
fracasso, com base na publicação de fac-símiles de jornais e revistas técnicas, 
etc., que se referiam à febre tifóide em certas cidades, seguidas da afirmação de 
que nessas cidades havia água filtrada. Em suma, esses panfletos tinham como 
única finalidade desacreditar o relatório da comissão especial, a fim de que 
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia58
sua proposta fosse derrotada. Novos panfletos apareciam em dias alternados, 
sempre entregues em cada domicílio da cidade. Eram publicados sob o nome 
de um ‘jovem engenheiro desempregado’. A biblioteca imediatamente verificou 
algumas das referências a outras cidades nos relatórios anuais e documentos 
municipais de sua coleção [...] nos rastros dos volantes publicados pelo jovem 
engenheiro e colocou à disposição dos jornais as informações que encontrou, 
tendo o bibliotecário assinado as declarações publicadas sobre os fatos en-
contrados pela biblioteca. Eis um exemplo do que encontramos. Reading, na 
Pensilvânia, e Albany, em Nova York, ambas possuíam abastecimento de água 
tratada, que servia a outros lugares. As epidemias de tifóide ocorreram em 
áreas dessas cidades que contavam com abastecimento de água não-tratada. Os 
panfletos estavam corretos ao dizer que Reading e Albany tinham epidemias 
de tifóide e que ambas recebiam água tratada, entretanto, estas declarações 
eram mentiras execráveis por causa das sugestões que implicavam. Assim, a 
biblioteca foi a primeira [...] a arregimentar forças para salvar o projeto favorável 
à água pura. A água pura ganhou na votação e Grand Rapids, exceto em casos 
esporádicos trazidos de fora, erradicou da cidade, por conseguinte, a febre 
tifóide [...] Sempre acreditei que a biblioteca teria sido negligente em seu dever 
se não tivesse dado a público a informação que possuía sobre assunto tão vital.60
2176 Triunfo Geral
Exemplos como este podem ser multiplicados ad nauseam. Mas como 
não é nosso objetivo registrar aqui as conquistas alcançadas por livros 
para todos basta dizer que atualmente a Segunda Lei da biblioteconomia 
fincou triunfalmente sua bandeira democrática em muitas terras, tendo 
reduzido a pó a barreira aristocrática do elitismo e do esnobismo. No século 
xix, Europa e Estados Unidos, Japão e Rússia eram tão impenetráveis aos 
seus apelos e tão impermeáveis às suas investidas como a Índia. Entretanto, 
atualmente, Europa e Estados Unidos, Japão e Rússia renderam-se a ela.
218 Resistência da Índia
A Índia, porém, desafiadoramente, ainda se mantém inabalável. Quem 
é o responsável por esse estranho fenômeno? Quem estará ajudando a Ín-
dia a não arredar pé nessa batalha contra livros para todos, embora haja 
conquistado recordes mundiais de derrotas em outras esferas?
2181 Indiano Educado em Inglês
Qualquer que seja o complexo de causas que contribuam para isso, os 
indianos ‘educados em inglês’ não podem fugir da sua parcela de culpa. 
Macaulay e Wood importaram a educação inglesa para a Índia com os 
melhores motivos. Desenvolveram sua famosa ‘teoria da filtragem’ com 
as melhores intenções. Não poderiam razoavelmente ter previsto que o 
filtro levaria à inveja e ao elitismo egoísta. Certamente, eles nunca, por um 
momento sequer, imaginaram que o filtro funcionaria ao contrário e se 
59
revestiria de outro superfiltro que garantiria um lugar ao sol somente aos 
indianos educados em inglês, que pudessem ser ensinados em inglês em 
solo inglês. Sim. Este trágico triunfo da Índia contra a invasão da Segun-
da Lei da biblioteconomia, e, além disso, até mesmo de sua precursora, a 
educação para todos, não é pouca coisa, devido à apatia quase criminosa 
e à negligência do dever por parte dos seus mais bem colocados filhos 
‘educados em inglês’. Eles desenvolveram uma miopia anormal que os 
incapacita de enxergar um palmo adiante do nariz, de qualquer forma, 
além do seu círculo privilegiado. Falam com desembaraço da Índia e dos 
seus milhões de habitantes, quando de fato estão se referindo apenas aos 
dois por cento desses milhões que podem balbuciar em inglês. Lembre a 
eles, como puder, que a intenção de Macaulay era que eles difundissem, 
de forma ativa e generosa, o seu conhecimento entre as massas. Não, 
preferirão receber sua lição de Bernard de Mandeville. Exceções honrosas 
existem e, para elas, toda a honra. Mas a maioria se comporta como um 
obstáculo inabalável a entupir esse filtro.
2182 Esperança e Fé
Nossa única esperança repousa na suprema sabedoria da Segunda Lei. 
A história tem mostrado que a Segunda Lei é adepta da arte da estratégia. 
Se se constatou que o filtro de Macaulay era uma armadilha, em breve 
ela se desviará do seu curso e se livrará desse entupimento do ‘filtro’. A 
Segunda Lei não aceitará uma derrota. No final, vencerá. Esta é nossa fé. 
Com a opinião mundial a seu favor, poderá vencer até mesmo numa data 
não muito distante. Se forem empresários inteligentes, os indianos ‘educa-
dos em inglês’ deverão recebê-la com um ramo de oliveira e oferecer seus 
préstimos na guerra santa que essa lei vem travando contra a ignorância 
persistente. Somente então conquistarão respeito aos olhos do mundo e 
somente então poderão sobreviver em meio às forças que serão libertadas 
no dia em que a Segunda Lei cravar sua bandeira em solo indiano e colocar 
os livros nas mãos de todos, da mesma forma que o fez em outras terras.
22 Homens e Mulheres
A antítese não tem sido simplesmente entre as classes e as massas. 
À medida que examinamos os preconceitos de tempos antigos à luz da 
Segunda Lei da biblioteconomia, deparamos com vários outros. Não é 
apenas a fronteira da renda que, por muito tempo, divide a humanidade 
entre quem tem direito de usar os livros e quem não tem. O gênero, por 
exemplo, foi outro fator que restringiu a aplicação da lei livros para todos. 
Em nosso próprio país, a Segunda Lei ainda não conseguiu completamente 
superar as limitações vividas pelo sexo feminino.
a segunda lei e sua luta
as cinco leis dabiblioteconomia60
221 Daí em Diante na Índia
Sem dúvida, as condições começaram a mudar. Sinais da investida da 
Segunda Lei não faltam. A maré montante de livros para todos poderá, 
em pouco tempo, varrer dos lares indianos até mesmo a sólida barreira 
do conservadorismo feminino. Mas que isso não feche nossos olhos para 
a luta tenaz que vem ocorrendo em muitos lares contra a intromissão do 
‘pernicioso hábito’ da leitura entre as mulheres. Nem deveríamos nos iludir 
com a otimista mas enganadora ostentação de que, no passado, nosso país 
manteve o caminho aberto para que as mulheres competissem com o sexo 
mais forte na busca da educação. Não nos ajuda agora que nos digam que 
as mulheres sabiam ler e de fato liam tanto quanto os homens desde os 
tempos védicos até o dia em que uma língua estrangeira lançou uma cunha 
cultural na pátria até então homogênea. Não passa de uma meia verdade 
dizer que o emprego de um veículo estrangeiro para transmitir as ideias 
correntes afastou as indianas da tendência mundial que permitiu às suas 
irmãs de muitas regiões manterem-se no mesmo plano de seus irmãos. A 
história gloriosa de mulheres como Maitreyi, Panchali, Lilavati e Auviar e a 
memória que ainda persiste das sábias senhoras, que foram as dignas com-
panheiras de vida dos gigantes intelectuais de lugares como Tiruvisalur, 
não devem deixar-nos dormir sobre os louros. Para cada Maitreyi temos 
uma Katyayini. Muitas de nossas irmãs estão ainda desnorteadas com um 
século de atraso, analfabetas, ignorantes e carentes de livros. Entretanto, se 
for uma fonte de consolo e estímulo, pode-se mencionar que os conceitos 
educação para todos e livros para todos definitivamente superaram a 
barreira sexual somente nos últimos cinquenta anos, aproximadamente, 
na maioria dos países.
223 Tradição
Desde os tempos do homem primitivo, a maioria das mulheres ge-
ralmente ocupou um lugar protegido e, portanto, não receberam uma 
formação cultural e profissional elevada que as habilitasse a lidar com 
questões complexas. Tanto em passadas como em recentes civilizações, 
os limites que as realizações femininas podiam alcançar foram em geral 
definitivamente fixados pelo costume. As que se atrevessem a excedê-los 
corriam o risco de serem tidas como ‘pouco femininas’.
2231 Antiguidade
Em Atenas, aparentemente, era um dogma aceito que nenhuma moça 
de respeito devia ser educada. A esposa ateniense, por exemplo, vivia como 
prisioneira virtual entre quatro paredes [...] Não podiam pessoalmente 
herdar propriedade, e eram consideradas um apanágio do imóvel [...] Sua 
educação era trivial.”61 O ostracismo social praticado para impedir que 
61
as mulheres tivessem sua parcela de educação e de livros é indicada pela 
seguinte afirmação sobre a educação das mulheres na Grécia: “A educação 
literária e as preocupações intelectuais pertenciam às que estavam fora do 
círculo familiar, as heteras.”62 Nos escritos de são Paulo aparecem restri-
ções similares que parecem colocar as mulheres à parte como uma classe 
inferior e dependente. Depois de citar o versículo 16 do terceiro capítulo 
do Gênesis sobre a posição da mulher, ele disse: “E se quiserem aprender 
algo, que perguntem a seus maridos em casa.”63 
2232 Século xviii
Por muito tempo chegou-se mesmo a crer que as mulheres não fossem 
capazes de ser ensinadas. Eis Chesterfield, escrevendo para seu filho:
As mulheres, portanto, são apenas crianças que cresceram demais; tagarelam 
de modo divertido e, às vezes, com graça; mas, no que tange a um raciocínio 
sólido, ao bom senso, nunca em minha vida encontrei uma que o tivesse [...] 
Um homem sensato [...] não as consulta, nem confia nelas sobre assuntos sérios.64
Rousseau também diz da mulher que ela é “um homem imperfeito” e que 
em muitos aspectos não passa de “uma criança crescida”.65 E acrescenta
A busca de verdades abstratas e teóricas, princípios e axiomas científicos, o 
que quer que tenda a generalizar ideias, não cai no domínio das mulheres; 
[...] no que diz respeito a obras de criação, elas estão fora do seu alcance, e 
tampouco possuem precisão e atenção suficientes para serem bem-sucedidas 
nas ciências exatas.66
Rousseau repetiria de boa vontade as palavras de Molière:
Não é muito honesto, e por várias causas,
Que uma mulher estude e saiba tantas coisas. [As sabichonas, ato 2.]
A concepção de Rousseau sobre a capacidade das mulheres corresponde 
simplesmente a algo que era muito comum na França e em outros países 
no século xviii.
2233 Século xix
O século xix procurou sobrepujar o século xviii, inventando explicações 
anatômicas para a incapacidade de a mulher ter algum proveito com os 
livros e o saber. Vejamos esta explicação científica séria, que data de 1866:
O homem tem vontade e inteligência, e um cerebelo e um cérebro que as fazem 
funcionar; da mesma forma os tem uma mulher. Nisso são semelhantes. Mas no 
homem a inteligência predomina e na mulher, a vontade; e aqui são diferentes. 
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia62
Sendo assim, podemos, naturalmente, esperar encontrar um desenvolvimento 
maior do cérebro, ou cérebro superior, no homem, e um desenvolvimento maior 
do cerebelo, ou cérebro inferior, na mulher; e é isso que acontece. A cabeça do 
homem é mais alta e maior na frente do que a da mulher, enquanto a cabeça 
dela é mais larga e maior atrás do que a do homem.67
Outro contemporâneo desse psicólogo ‘frenologista’ não vê mérito algum 
em desperdiçar um raciocínio tão elaborado para demonstrar uma coisa 
tão óbvia. Para ele, “o grande argumento contra a igualdade de intelecto 
entre homens e mulheres é que ela não existe. Se essa prova não satisfizer 
a uma filósofa, não temos outra melhor a lhe oferecer.”68
2234 Preconceito Masculino
Se havia escolas para moças, “elas visavam à ‘civilidade’, às boas ma-
neiras e às aptidões pessoais, não à educação”.69 Em seu Essay on projects, 
Daniel Defoe faz uma descrição comovente da educação feminina habitual, 
com as seguintes palavras:
É espantoso que as mulheres ainda consigam ser sociáveis, pois todo seu saber 
decorre somente de seus dotes naturais. Passam a juventude aprendendo a 
bordar e costurar ou a fazer bugigangas. De fato, aprendem a ler e talvez a 
assinar o nome, se tanto. Esse é o ápice a que chega a educação da mulher.70
Se alguma mulher recebia educação, a atitude em relação a essas damas 
cultas era de desprezo e ridículo. Segundo está escrito, o Dr. Samuel 
Johnson certa vez teria dito que “o homem, em geral, fica mais satisfeito 
quando tem um bom jantar à mesa, do que quando sua mulher fala grego”. 
A analogia insolente que ele fez entre uma mulher pregando e um cão 
andando nas patas traseiras é também muito conhecida. Temos a história 
de um solteirão norte-americano, que explicava seu estado civil dizendo
 
Alguém me encomendou uma mulher bonita e jovem
Que falasse francês, espanhol e italiano. 
Agradeci gentilmente e lhe disse que essas eu não amava,
Pois achava que uma língua para uma esposa já era demais.
Como? Não gosta das pessoas cultas? Gosto, como eu,
De um estudioso culto, mas não de uma esposa culta.71
2235 Preconceito Feminino
Os efeitos desse menosprezo à capacidade das mulheres, a falta de 
incentivos ao estudo e o ridículo a que eram expostas as poucas que es-
tudavam tinham um efeito desastroso em moldar a opinião das próprias 
mulheres com relação ao seu direito à educação e aos livros. Elas continua-
riam resignadamente para sempre com os costumes estabelecidos de ideias 
63
tradicionais. Muitos indianos de hoje podem ouvir dentro das paredes de 
sua casa um eco inconfundível das palavras enfáticas “Estudar nos livros 
não faz bem algum às mulheres”, pronunciadas por uma senhora norte-
-americana há mais ou menos duas gerações.72 Na verdade, o obstinado 
conservadorismo feminino, que mantém a Segunda Lei acuada e se satisfaz 
com a autocomplacência numa situação sem livros e sem educação, lembra 
uma das vítimas de Comus que são[...] transformadas
Numa forma bruta de lobo, ou urso,
Ou onça, ou tigre, porco, ou bode barbudo,
[...] E elas, tão perfeitas em sua miséria,
Nunca percebem sua deformação hedionda,
E se vangloriam como mais belas que nunca.73
224 O Direito das Mulheres à Educação 
Por mais obstinado que o costume haja sido, durante a lenta passagem 
de muitos séculos, mantendo a ‘educação’ e sua companheira, a Segunda 
Lei da biblioteconomia, num dos lados da linha divisória do sexo, o certo 
é que, nestes tempos de inquietação social, quando praticamente todos os 
costumes e instituições de todas as sociedades são expostos ao impiedoso 
escrutínio de mentes críticas, as mulheres e o direito das mulheres à edu-
cação e aos livros foram trazidos para o primeiro plano dos debates. Toda 
a debatida questão do ‘mundo’ da mulher e de sua educação vista à luz 
desse ‘mundo’ ocupou as mentes dos homens por mais de uma geração e 
está, hoje, quase resolvida da única forma correta admissível. Reconhece-
-se atualmente que mesmo a educação universitária é desejável para pelo 
menos um grande número de mulheres. Que a educação tornará a mulher 
inapta para ser esposa e mãe, que o esforço físico será muito grande, ou 
que ela seja intelectualmente incapaz de dominar os setores de estudo mais 
complexos, foram argumentos sérios usados há uma ou duas gerações e, 
inegavelmente, funcionavam como empecilhos. Mas agora são apenas 
memórias adormecidas na mente social de um mundo atarefado e que 
afloram à consciência somente em alguns grotões isolados, que ainda não 
despertaram. A visão antediluviana, que confinava totalmente a mulher, 
tornando-a, na melhor das hipóteses, uma escrava toleravelmente inteli-
gente e obediente, já está desaparecendo. O mínimo que agora pode ser 
feito seria dar-lhe liberdade que lhe permita avançar no campo educacional, 
mostrando que, por meio da influência desta mãe educada, a vida social 
poderá ser aprimorada na própria origem. Mas a visão mais radical, que 
ganha terreno rapidamente, propõe a absoluta igualdade de oportunidades 
na educação e na vida política, social e econômica, sustentando que a mu-
lher não precisa, a menos que assim o deseje, cumprir com sua obrigação 
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia64
para com a sociedade, biologicamente falando, mais do que o homem, e 
que deveria ser dotada dos meios que lhe permitam ser igualmente livre 
para escolher uma carreira literária, científica ou empresarial.
2241 Educação pela Aprendizagem
Por enquanto, vimos somente a primeira fase da guerra na barreira 
sexual. A Segunda Lei da biblioteconomia não teve qualquer participação 
nesta fase da guerra. Tudo foi deixado à sua precursora educação para 
todos. Mas a campanha contra a discriminação sexual envolveu mais ba-
talhas do que aquela contra a discriminação de classe. Mesmo depois que 
a barreira sexual foi derrubada por sua companheira, a Segunda Lei não 
foi capaz de avançar livremente. Pois, até que a mais recente visão radical 
começasse a surgir em cena, as pessoas argumentavam, ‘Sim. A educação 
é necessária para a mulher e ela tem capacidade para isso. Mas a educação 
da mulher, a fim de prepará-la para o mundo que lhe foi atribuído — o 
lar —, pode ser obtida pelo aprendizado com sua mãe, em casa. Não há 
necessidade de nenhum ensino formal ou de aprendizagem nos livros, o 
que a levaria para longe da família.’ 
 
 O pouco de saber que consegui
 Veio-me todo da simples natureza,74
era uma descrição correta do estado de coisas na segunda metade do século 
xix, situação que não era favorável para o êxito de livros para as mulheres.
2242 Necessidade de Educação Formal
Felizmente, entretanto, até mesmo antes que a visão radical se expres-
sasse e rompesse a barreira sexual, percebeu-se que esse processo natural de 
educação não era praticável na vida agitada de hoje, que a educação formal 
e a aprendizagem pelos livros são necessárias até mesmo para cozinhar, 
amamentar e cuidar de crianças. A crescente incapacidade da família para 
manter o monopólio da educação das filhas e a concepção cambiante de 
educação muito fizeram para preparar a consciência pública para receber 
a boa nova também para cada mulher o seu livro. Mesmo supondo que o 
mundo feminino seja o lar, percebeu-se que a economia doméstica é ao mesmo 
tempo uma arte e uma ciência. Uma arte em progresso e uma ciência em 
desenvolvimento. Mantém contato orgânico sério com as belas-artes por 
um lado e com as ciências mais rigorosas por outro. Incluiria, por exemplo, 
puericultura, enfermagem, primeiros socorros, alimentação e nutrição, 
naturalmente, culinária, fazer compras, lavanderia, chapelaria, costura, 
orçamento e poupança, jardinagem e horticultura, higiene doméstica, 
65
saneamento doméstico, decoração doméstica, pequenos reparos, cortesias 
e obrigações da família e da vida familiar.75 Este é o conjunto de elemen-
tos envolvidos na profissão de economista doméstica. As mulheres seriam 
constantemente treinadas para estes deveres assim como os homens são 
treinados para as suas ocupações e profissões.
2243 Educação pelos Livros
Este desabafo tem muito a dizer:
Quando o outro sexo vai estudar direito, medicina ou teologia, tem a seu 
dispor inúmeras instituições muito bem providas, com professores altamente 
qualificados e preparados, além de bibliotecas de elevado custo [...] A profis-
são da mulher envolve cuidar do corpo em períodos críticos da vida, como na 
infância e na doença, treinar a mente humana no período mais sensível, que 
é a infância, instruir e controlar os criados, e a maior parte da administração e 
economia da propriedade familiar. Estes deveres das mulheres são tão sagra-
dos e importantes quanto quaisquer outros que sejam atribuídos aos homens. 
Contudo, não lhes foi dada nenhuma dessas vantagens para sua preparação.76
Esta censura era justificável até três ou quatro décadas atrás. Entretanto, 
todos os esforços vêm sendo feitos em todos os países avançados para 
eliminar essa censura por meio de uma orientação adequada da educação 
inicial na escola e por um suprimento abundante de livros para que essa 
educação continue até o fim da vida. para cada mulher o seu livro é o 
lema que orienta as bibliotecas de hoje em dia. Elas agora cuidam para 
que seus livros cheguem além do purdah.* Esforçam-se, por exemplo, para 
que “todas as mães, cujos nomes são incluídos nos cartórios de registro 
civil quando nasce um filho, procurem conhecer os livros de puericultura 
existentes na biblioteca.”77 Esta difusão diferenciada de livros, em campos 
restritos do conhecimento, marca o segundo estágio.
225 Estudo Científico
Foi, entretanto, na terceira fase da guerra que a barreira sexual foi 
completamente derrubada com o avanço da lei livros para todos. Esta 
fase começou a tomar forma somente neste século. Iniciou com uma in-
vestigação crítica da tradição herdada a respeito do ‘mundo feminino’ e 
da ‘inferioridade feminina’ em questões intelectuais.
2251 Estudo Anatômico
O primeiro a assestar um golpe mortal na opinião pseudocientífica 
* Peças do vestuário ou do mobiliário destinadas a manter as mulheres afastadas da vista 
de estranhos; também o sistema de forçar à reclusão mulheres de alta condição social. (n.e.)
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia66
do século xix foi Karl Pearson. Em trabalho de 1897, Variation in man and 
woman,78 demonstrou com clareza que, de fato, não havia qualquer va-
riação significativa nas medidas anatômicas de seres humanos tratadas 
com acuidade matemática. Ele conduziu um rigoroso exame estatístico 
de diversos dados anatômicos. Baseado neles, concluiu o longo trabalho 
com seu característico tom mordaz:
Afirmo que os presentes resultados mostram que a maior variabilidade frequen-
temente reivindicada para os homens continua sendo até agora um princípio 
totalmente infundado [...] A falta de originalidade revelada por uma multidão 
de autores semicientíficos acerca da evoluçãoé possivelmente um sinal da 
ínfima capacidade de variação intelectual possuída pelo macho letrado.79
As provas reunidas por Karl Pearson foram ampliadas e corroboradas por 
dados estatísticos adicionais publicados por Montague e Hollingworth no 
American Journal of Sociology de outubro de 1914.
2252 Estudo Psicológico
Essa pesquisa baseada na anatomia foi seguida pela demonstração 
pela psicologia da absoluta ausência de diferença sexual na variabilidade 
mental, graças aos elaborados testes mentais realizados por Trabue, Cour-
tis, Terman e Pyle. Mesmo assim, houve a tradicional e veneranda opinião 
segundo a qual os períodos fisiológicos causam um efeito desfavorável 
na capacidade mental da mulher. Havelock Ellis, por exemplo, faz a ob-
servação radical de que o ciclo fisiológico mensal “influencia ao longo do 
mês todo o organismo físico e psíquico da mulher”.80 Contudo, a pesquisa 
experimental, feita em 1914, pela Dra. Hollingworth, sobre essa alegação, 
revelou o contrário. Os dados reunidos por ela mais minaram do que 
apoiaram estas opiniões.81
226 Afirmação de Igualdade
Depois que a psicologia experimental estabeleceu, desse modo, que 
a divisão do trabalho entre os sexos, que existira ao longo dos tempos 
históricos, não foi absolutamente o resultado de diferenças psicológicas e 
que as mulheres são tão competentes intelectualmente quanto os homens 
para assumir qualquer ocupação humana, percebeu-se que “a educação 
das mulheres, especialmente nos estágios mais elevados, liberará para o 
país uma riqueza de capacidades que está hoje desperdiçada por falta de 
oportunidade”82 e se concluiu que a mulher educada, a mulher a quem 
tenham sido proporcionados seus livros, “é uma garantia melhor e mais 
segura da educação da próxima geração do que um homem letrado”.83 
Surgiu então a oportunidade de a Segunda Lei cruzar a barreira sexual 
e proclamar triunfante: “A educação deve desenvolver os gostos e as ap-
67
tidões das mulheres tanto quanto dos homens. Os direitos das mulheres 
de escolher seus livros devem ser precisamente iguais aos dos homens. 
Os livros que divulgo devem ser diferentes, não porque esta pessoa seja 
homem e a outra seja mulher, mas devem ser diferentes apenas com base 
no fato de que cada um é um indivíduo.” Assim, a Segunda Lei da bibliote-
conomia não se satisfaz mais em oferecer às mulheres livros sobre afazeres 
domésticos ou livros de devoção ortodoxa; por outro lado, insiste em que 
todos os livros têm o lídimo direito de entrar em qualquer domicílio para 
o benefício de todos os membros da família, independentemente do sexo.
23 Os Moradores das Cidades e os Moradores do Campo
Uma terceira antítese que teve que ser superada pela lei livros para 
todos foi aquela entre o morador da cidade e o morador do campo. A bar-
reira do pedágio municipal parece ter postergado a Segunda Lei ainda por 
mais tempo do que a barreira da renda ou a barreira sexual. Vimos que a 
da renda quase foi deixada para trás na maioria dos países há cerca de um 
século. Também observamos que a escalada da barreira sexual começou pelo 
menos há uma geração. Mas o clamor de livros para todos somente nos dias 
atuais conseguiu atravessar as muralhas da cidade. Para ser mais preciso, 
o direito dos moradores do campo aos livros só veio a ser respeitado na 
maioria dos países depois da Primeira Guerra Mundial. Embora o primeiro 
serviço sistemático de biblioteca itinerante haja sido inaugurado em Maryland 
e Ohio (eua) ainda em 1905, foi somente mais ou menos na última década 
que um esforço sério foi envidado pela maioria das nações para suprir os 
habitantes de regiões rurais dispersas com os livros que eles queriam.
231 Diferenciação
Que aos camponeses falta a oportunidade de estudo e cultura fica 
claro a partir do desprezo implícito no vocábulo inglês rustic [rústico, em 
português, com os mesmos sentidos] e na palavra tâmil nattuppurattan 
[literalmente, um aldeão]. É também indicado pela conotação comum do 
epíteto sânscrito gramya [grama significa vila, enquanto gramya quer dizer 
vulgar]. Em Helênicas, Xenofonte de forma ingênua sugere por dedução 
que a moradia habitual em aldeias bastaria para privar alguém de alguns 
dos direitos e privilégios mais comuns. Diz ele:
Eles [os espartanos], entretanto, não os expulsaram da presidência do templo 
de Zeus Olímpico, embora este não houvesse pertencido aos eleus em tempos 
antigos, mas porque pensavam que os pretendentes rivais fossem moradores do 
campo84 (grifo nosso).
Uma tal visão discriminatória tem persistido através dos séculos. Hannah 
More, por exemplo, “não ‘acabaria com a ignorância’ das aldeias; o vício, 
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia68
se pudesse, ela o extirparia, mas o conhecimento, exceto dos deveres e de 
seu ‘lugar’, aconselharia os [...] aldeões a deixar para seus superiores”85 
das áreas urbanas.
2311 Ameaças na Cidade
O fato é que, mesmo numa etapa muito inicial, a crescente complexida-
de e as graves ameaças presentes nos problemas urbanos de uma cidade 
superpovoada colocaram uma grande demanda de educação para todos e 
livros para todos no caso da gente das cidades. Aquela inexorável dama, 
a Necessidade, entretanto, não exerceu por muito tempo igual pressão com 
relação à gente do campo. Embora as consequências da ignorância e da 
falta de livros sejam imediatas nas áreas urbanas, são latentes e tornam-se 
visíveis somente muito tardiamente nas áreas rurais.
2312 Importância do Campesinato
Apesar disso, os trabalhadores agrícolas que moram no interior cons-
tituem uma classe muito importante em qualquer país. A agricultura é 
uma das ocupações fundamentais e originais do homem. Adão cuidava 
de um pomar e Abraão era pastor. A agricultura alimenta o mundo. 
Requer habilidades em constante progresso. A necessidade que um país 
tem de trabalhadores agrícolas preparados e adaptáveis somente pode ser 
atendida levando-se o uso de livros para as áreas rurais. Mesmo num país 
industrial como a Inglaterra, onde somente 20% da população moram no 
campo, e as cidades constituem os centros principais de produção, percebe-
-se que o futuro da nação estaria ameaçado se aos poucos habitantes das 
zonas rurais não fossem dados seus livros. Não seria ainda mais sério e 
mais fundamental o problema das bibliotecas rurais na Índia, onde, mes-
mo que nos limitemos à Índia britânica, somente 12,9% da população de 
247 milhões de habitantes vivem em cidades [...], há somente 29 cidades 
com população superior a 100 mil habitantes [...] e mais de 2 100 cidades 
contam com população entre cinco mil e 100 mil habitantes, enquanto o 
número de vilas não fica muito longe de meio milhão?86 Além disso, as 
cidades indianas ainda não se tornaram semelhantes em sua função às 
cidades industriais da Inglaterra. Como o Sr. V. Ramasvamy Ayyar, douto 
presidente da Indian Mathematical Society, observou, bem-humorado, em 
recente retiro da International Fellowship, a função da maioria das cidades 
indianas se parece com a do tanque de um compressor de ar: muito pouco 
do barulho e da trepidação que apresentam se deve a atividades produti-
vas. Ocupam-se principalmente em sugar a riqueza produzida nas vilas e 
levá-la para o ultramar. Por isso a comissão Linlithgow observou, “É sobre 
os lares e as terras de seus agricultores que a força do país e as bases de 
sua prosperidade devem, em última análise, apoiar-se.”87
69
2313 Estímulo de Novas Ideias
Entretanto, na situação atual de competição e luta internacional, 
verifica-se que a agricultura e outras indústrias rurais serão cada vez mais 
inúteis e menos valiosas, se forem praticadas com métodos de produção 
e comercialização antiquados. A necessidade principal dessas indústrias 
rurais é o estímulo diário que lhes proporcionam as novas ideias e a cons-
tante oferta de treinamento sobre essas ideias. Novos métodos de produção 
agrícola são inventados a cada ano. Novos mercados devem ser encontra-
dos de tempos em tempos. Surgem formasde comunicação com as quais 
nem mesmo se sonhava, e que devem ser conhecidas. É preciso adotar 
urgentemente máquinas e dispositivos que economizam mão de obra.
2314 Fluxo de Ideias e de Livros
Até recentemente, as famílias viviam da terra e produziam manual-
mente quase tudo de que se alimentavam ou vestiam. Os bois e o arado 
de madeira eram quase os únicos recursos disponíveis que permitiam 
economizar mão de obra. As pessoas fabricavam a própria manteiga, velas 
e roupas, produziam por evaporação o próprio sal, moíam o próprio cereal 
em primitivos moinhos manuais. O comércio era praticado principalmente 
mediante escambo. Mas, no curto período de uma geração, invenções notá-
veis em matéria de implementos e métodos agrícolas foram aperfeiçoadas 
e são introduzidas em outros lugares. Neste ritmo, a escola de livros deve 
constantemente complementar a escola da experiência prática.
2315 Mudanças na Comercialização
As melhoras na comercialização também contribuíram muito para a 
necessidade de um campesinato progressista e para a necessidade de ele 
ser abastecido frequentemente com livros e revistas. Não é mais preciso 
transportar pequenas cargas de produtos por estradas lamacentas para 
serem vendidas ou trocadas. Boas estradas de cascalho, caminhões, redes 
ferroviárias e encomendas expressas mudaram em muito os métodos 
de transporte. Os navios a vapor e a motor coletam os produtos e rapi-
damente os despacham para os grandes mercados do mundo. O bétel 
de Kumbakonam tem agora que encontrar mercados em Madras e na 
distante Benares. As bananas de Erode têm que ser comercializadas pela 
Índia afora. O mesmo acontece com as frutas dos pomares e vinhedos de 
Coorg e Caxemira. O algodão de Tinnevelly e o arroz de Tanjore devem 
procurar mercados no exterior. Os produtos agrícolas não podem mais 
ser trocados nas vilas. Devem ser criteriosamente vendidos em troca de 
hundies.* Estas condições não serão efêmeras ou passageiras. Vieram para 
* Espécie de letra de câmbio ou nota promissória, utilizada na Índia e outras regiões da 
Ásia. (n.e.)
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia70
ficar. Ano após ano, tornar-se-ão cada vez mais importantes. De agora em 
diante, encaramos a agricultura como uma indústria capitalizada, que 
requer conhecimento e capacidade executiva e que atrai homens com 
capital e cérebros. O homem de pouca energia ou capacidade e aquele a 
quem falte o conhecimento científico terão cada vez mais dificuldade para 
não serem postos de lado. Não se pode mais depender de um campesinato 
eternamente megulhado na ignorância e presa de métodos tradicionais. Se 
o país quiser manter-se em dia com o mundo, os agricultores deverão ser 
constantemente sacudidos de sua rotina. Deverão ser esclarecidos com os 
fatos e as ideias científicas e econômicas mais atuais. Como fazer isso senão 
com livros e revistas? Poderemos ainda permitir-nos continuar adiando a 
oferta aos agricultores dos seus livros? 
2316 Mudança no Horizonte Social
Tampouco é permitido aos moradores das cidades negar a seus irmãos 
do campo os prazeres dos livros e outras amenidades da vida. Pois, como 
disse recentemente a Royal Commission of Agriculture,
Na estrutura antiga da vida das vilas, certas influências estão em curso, que 
deverão, mais cedo ou mais tarde, modificar profundamente suas caracterís-
ticas de auto-suficiência, e que, em algumas partes do país, já começaram a 
produzir seus efeitos. [...] O desenvolvimento das comunicações e a consequente 
aceleração e barateamento dos meios de transporte estão levando as vilas a se 
aproximarem mais das áreas urbanas [...] o contato com as cidades introduz 
novas ideias e o anseio por melhores condições de vida.
A vida do agricultor está, de fato, mudando mentalmente. O antigo isola-
mento e o estreito provincianismo estão rapidamente chegando ao fim. Ele 
e a esposa não mais serão marcadamente ‘caipiras’. Eles, e principalmente 
os filhos, vestem-se muito melhor do que antigamente. Os movimentos da 
família não estão mais limitados pela força de tração de sua alimária. O 
ônibus interurbano leva-os à cidade quase a qualquer hora. Uma viagem 
à cidade, que antes consumia quase um dia inteiro, é agora uma questão 
de mais ou menos uma hora. É fácil viajar à noite, uma vez encerrado o 
trabalho do dia. O cinema e o teatro, antes desconhecidos, agora oferecem 
suas atrações. As ligações com a cidade — financeiras, sociais e políticas 
— estão consolidadas. Os filhos vão à escola secundária na cidade vizinha, 
acabam copiando os modos de lá e fazem novas amizades. O horizonte 
social amplia-se assim grandemente. Os casamentos consequentemente são 
realizados a distâncias maiores do que antes e entre novas classes sociais.
71
232 Biblioteca Itinerante
Esta rápida e intensiva interação dos moradores da cidade com os 
moradores do campo levaria estes últimos a exigir para si todas as fa-
cilidades de que os primeiros gozam. Os trabalhadores agrícolas e os 
fazendeiros começariam a peguntar “Pagamos impostos do mesmo modo 
que o pessoal das cidades. Qual o motivo, portanto, desse tratamento 
discriminatório? Por que somente os moradores das cidades têm suas 
bibliotecas e todas as comodidades que se encontram ao seu redor? Por 
que o Estado não providencia também para nós bibliotecas iguais e outras 
facilidades? Também temos cérebro. Também queremos melhorar nosso 
conhecimento do mundo. Também queremos estar atualizados em nossos 
métodos de trabalho. Também queremos nossos livros.” A democracia 
moderna investiu estes camponeses conscientes com o poder de exigir seus 
livros, se não estiverem chegando voluntariamente, e de fazer com que 
sua reivindicação seja ouvida. Esta, na verdade, foi a origem da primeira 
biblioteca itinerante de caráter regular. 
2321 Maryland
No condado de Washington, Maryland (eua), viviam muitas pessoas que pos-
suíam poucos livros para ler, para quem o processo de comprar livros custava 
muito caro, mas que eram ávidas por uma boa literatura. Algumas delas pro-
curaram a senhorita Mary L. Titcomb, da biblioteca pública de Hagerstown, e 
solicitaram que lhes fossem remetidos livros (grifo nosso) [...] Com isso a senhorita 
Titcomb teve a ideia de uma carroça onde seriam instaladas estantes e carre-
gada com um grande sortimento de livros, e que subissem, pelos caminhos 
montanhosos, até as moradias, o que seria uma forma esplêndida de oferecer 
às pessoas uma oportunidade de ler [...] Isso aconteceu em 1905 [...] Em 1910, 
o cavalo e a carroça deram lugar ao automóvel. Atualmente, cerca de 300 con-
dados seguiram o exemplo de Hagerstown, Maryland.88
E, ademais, os municípios de várias outras partes do mundo também 
começam a seguir esse exemplo. Foi a reivindicação inicial dos camponeses 
de Maryland que desencadeou a ideia.
2322 Inglaterra
Os experientes administradores do Carnegie United Kingdom Trust 
mostraram como criar nos moradores do campo uma demanda por livros, 
no caso de estarem esquecidos tanto dos benefícios trazidos pelo uso de 
livros quanto do seu direito de reivindicá-los. Soubemos disso pela auto-
ridade nada menos de sir William Robertson, o primeiro vice-presidente 
do Trust, ao descrever a origem das bibliotecas rurais na Grã-Bretanha:
Colocamos a isca em nossos anzóis com bastante generosidade. Dissemos ‘não 
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia72
só nos responsabilizaremos pelas despesas de capital, mas também arcaremos 
com as despesas de manutenção durante cinco anos’. Assim, os governos lo-
cais, sempre apavorados com as taxas cobradas da população, não teriam que 
recear a necessidade de aumentar essas taxas. Tivemos que seduzi-los ainda 
mais, pois estávamos convencidos de que, expirado o prazo de cinco anos, uma 
fome real e permanente de leitura teria sido descoberta, não criada, uma vez 
que já existia de forma latente. Se os governos locais, depois desse período, se 
mostrassem contrários e quisessem voltar atrás, a populaçãonão lhes permitiria 
que fizessem isso. Fomos de condado em condado [...] Não esperamos que nos 
procurassem, pois, como tínhamos sido nós que lançamos o projeto, partiu de 
nós o passo inicial para convidá-los a examinar nossa proposta.89
O primeiro projeto de biblioteca de condado da Inglaterra foi inaugurado 
em Staffordshire, em 1916. Essa campanha deliberada e planejada foi sufi-
ciente para, em menos de uma década, levar livros para todos além dos 
limites daquela cidade e espalhá-los vitoriosamente por todos os condados 
da Inglaterra, com exceção de três. O resultado foi que a reivindicação 
dos moradores do campo por seus livros tornou-se tão insistente que o 
parlamento inglês teve que instituir, pelo Amending Act de 1919,90 um 
projeto de bibliotecas rurais, por condados, e nomear uma comissão de 
bibliotecas públicas em 1924 “para estudar a suficiência dos serviços das 
bibliotecas”e investigar, entre outras coisas, “os meios de ampliar e concluir 
esses serviços em toda a Inglaterra e no País de Gales”.91
2323 Índia
As reformas recentes investiram os camponeses (ryots) da Índia tam-
bém com o poder similar de reivindicar seus livros e exigir um projeto 
de bibliotecas rurais, de âmbito nacional, que ofereça as mais modernas 
facilidades que hoje lhes são inerentes. Talvez não tarde muito o dia em 
que se deem conta de que possuem esse poder e venham a pô-lo em prá-
tica. O advento desse dia pode ser acelerado por meio de incentivos como 
os que seus contemporâneos da Grã-Bretanha receberam do Carnegie 
United Kingdom Trust. Mesmo que não haja tal perspectiva para os ryots 
da Índia, a propaganda sistemática e contínua feita por entidades como 
a Madras Library Association pode ser muito útil para levar a mensagem 
da Segunda Lei ao interior e abrir os olhos dos camponeses para o uso dos 
livros e para o direito de tê-los.
233 Êxodo para a Cidade
Mas, mesmo de um ponto de vista tacanho e estritamente egoísta, os 
urbanitas fariam bem em admitir as exigências da Segunda Lei quanto a 
fornecer aos moradores do campo os seus livros. É de seu próprio interesse 
contribuir para a redução do crescente êxodo da população rural para as 
73
cidades. Várias causas estimulam esse êxodo, mas várias delas podem ter 
seus efeitos atenuados por meio de uma rendição prudente à Segunda 
Lei da biblioteconomia.
2331 Jovem que Fora Educado
Vejamos, por exemplo, uma dessas causas, claramente exposta pela 
comissão Linlithgow. Os conterrâneos de um rapaz que fora à escola
viam que ele possuía uma qualificação com a qual poderia, simplesmente se 
candidatando, obter um tipo de emprego que estava além do alcance deles [...] 
Isso contribuiu para o êxodo dos rapazes que haviam frequentado a escola do 
interior para a cidade, que ainda continua, embora as condições que lhe deram 
origem estejam mudando rapidamente. A oferta de mão de obra qualificada 
para trabalho de rotina no governo e no comércio quase supera a demanda [...] 
Na medida em que essa oferta é aumentada pelo êxodo dos jovens escolariza-
dos do interior para as cidades, onde incharão os exércitos de desempregados 
qualificados, só é possível remediar isso, em nossa opinião, por meio da difusão 
da educação em áreas rurais junto com a melhoria das comodidades oferecidas pela 
vida nas vilas do interior. É inútil esforçar-se para fazer o relógio andar para trás, 
restringindo a educação ao mínimo92 (grifo nosso).
2332 De Filho para Pai
A tendência ao êxodo rural passa facilmente de filho para pai. A grande 
maioria dos agricultores tem pelo menos de dois a quatro meses de folga 
no verão, o que leva a que desenvolvam o hábito de férias. Por isso, o agri-
cultor passa alguns verões com o filho ou a filha ‘na cidade’, próxima ou 
distante, deixando as terras aos cuidados de um empregado. As atrações 
urbanas seduzem-no e à sua família de tal modo que ele arrenda a terra, 
muitas vezes fechando completamente a casa na vila, e todos se mudam 
para a cidade, para usufruir suas vantagens sociais e educacionais. Na etapa 
seguinte, volta para casa, vende tudo e retorna à cidade em caráter perma-
nente, esquecendo-se por completo da vila e da fazenda. Uma das questões 
sociais mais importantes, que agora defrontam os que se interessam pelo 
bem-estar no campo, consiste em como prevenir esse êxodo absurdo.
2333 O Tédio da Vida Rural
Mesmo que um jovem escolarizado tenha a força mental para voltar 
para seu povoado, as tristes condições que lá prevalecem, a absoluta falta 
de meios de recreação intelectual e de orientação em suas atividades diárias 
leva a um de dois resultados. Com o passar do tempo, ou negligencia seus 
interesses importantes e acaba por esquecê-los, mergulhando num estado 
mental doentio e tornando-se vítima crônica do jogo de cartas, ou volta 
para a cidade, com medo daquela vida parada do interior.
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia74
234 Efeito do Êxodo Rural
Além das desastrosas consequências econômicas, esse êxodo para as 
cidades aumenta desnecessariamente o adensamento populacional nas áreas 
urbanas, aumenta o custo de vida para os moradores e torna a manutenção 
da saúde pública mais difícil e mais cara.
235 Prevenção do Êxodo Rural
O fato é que o país necessita de uma nova classe rural e de novas con-
dições nas regiões rurais de modo que estas continuem sendo utilizadas 
para fins e funções agrícolas. Isto requer necessariamente a presença de 
livros nas vilas — livros de todos os tipos — de modo que o longo verão 
de ócio possa ser suportável e as mentes inquiridoras encontrem alimento 
pronto ao seu alcance, sem ter que ir flanar nas cidades à sua procura. 
Uma vez dado início ao projeto de bibliotecas rurais, será possível, como 
já ocorre em outros países, ampliar seu campo de ação para muito além 
dos livros. O projeto enviará filmes e diapositivos para as vilas, tanto para 
recreação, quanto para informação. Ajudará na organização de concertos 
musicais, conferências, espetáculos de teatro e exposições de todos os tipos. 
Esforçar-se-á para atuar em toda nova oportunidade de serviço que surja e 
se situe naturalmente em sua área de ação. Ademais, como um centro para 
a vida comunitária, a biblioteca rural possui certas vantagens em compa-
ração com outras instituições rurais. É propriedade de todos e possui um 
sentido democrático que, em geral, nem o templo nem o mutt* possuem. 
2351 Serviço de Bibliotecas Rurais
Na verdade, se se permitir à lei livros para todos que atravesse os 
limites da cidade, ela tentará dotar a vila com todas as comodidades e 
oportunidades intelectuais possíveis que, até hoje, somente são encontradas 
em áreas urbanas. Desta forma, um serviço de bibliotecas rurais moderno 
passa a ser uma instituição forte que poderá reduzir o indesejável êxodo 
das vilas para as cidades.
236 Organização do Serviço de Bibliotecas Rurais
Embora seja nossa intenção reservar todas as informações técnicas 
para um volume posterior desta série, a suprema importância do projeto 
de bibliotecas rurais para a Índia justificará uma breve digressão sobre o 
problema da organização de bibliotecas nas vilas. Embora o taluk possa 
ser, essencialmente, a unidade territorial mais conveniente para o projeto 
de bibliotecas rurais, por enquanto talvez seja mais adequado começar por 
uma base municipal. Mesmo que a área do município seja muito grande, 
* Instituição religiosa e monástica. (n.e.)
75
os recursos do conselho municipal, bem como sua capacidade de trabalho 
e direção permanentes são muito maiores que os de um conselho de taluk.*
2361 Bibliotecário Municipal
A criação e implementação de um serviço municipal de bibliotecas de-
penderão em muito da habilidade e do entusiasmo do primeiro bibliotecário 
municipal. Tenho motivos para atribuir, em grande parte, as excepcionais 
atividades educacionais de um dos distritos de nossa costa ocidental à 
nomeação de um dinâmico diretor de educação, de tempo integral, ao qual 
se deu não somentetotal liberdade, mas também generosos recursos. Do 
mesmo modo, para que um novo projeto, como o de bibliotecas municipais, 
tenha êxito, a primeira exigência é selecionar e nomear um bibliotecário 
bem capacitado, empreendedor e entusiasta, para ser o organizador da 
biblioteca municipal. Nenhum governo municipal deve cometer o erro 
crasso de iniciar esse projeto sem atender a este pré-requisito básico. Se 
o cometer, estará somente tentando provar que o projeto não dará certo.
2362 Primeiro Conheça a Comunidade
Se a nomeação do bibliotecário municipal deve ser o primeiro passo 
do conselho municipal, a primeira providência que o próprio bibliotecário 
deve tomar é conhecer, diretamente, a comunidade a quem servirá. Seria 
insensato e desastroso partir de noções estereotipadas sobre as reivindica-
ções dos moradores do local. A experiência de outros países mostrou que 
localidades de espécies aparentemente idênticas na realidade necessitam 
de diferentes espécies de livros. A bibliotecária do condado de Nottingha-
mshire, na Inglaterra, dá um exemplo notável disso em seu trabalho sobre 
como implantar um projeto de biblioteca de condado,93 que, a propósito, 
constitui uma exposição muito lúcida das dificuldades iniciais enfrentadas 
por quem organiza uma biblioteca municipal. A primeira recomendação 
que ela faz é: “Primeiro conheça sua comunidade, e para isso é essencial 
visitar cada local antes de implantar o projeto.”
2363 Bibliotecário Distrital**
O segundo passo do bibliotecário municipal consiste em recrutar a 
colaboração do diretor de educação do município, dos inspetores escola-
* A Índia divide-se administrativamente em estados e territórios, que possuem quatro 
níveis hierárquicos: divisão, distrito, taluk (tehsil, quadra e outras denominações) e vila. 
Assim, o distrito seria aproximadamente o município no Brasil; por isso, nesta tradução 
empregou-se ‘município’ para district, opção seguida também para o adjetivo, sempre 
que pertinente, com a ressalva de que não se trata de uma analogia perfeita. Os conselhos 
municipais (district boards) são órgãos executivos colegiados de autogoverno local. (n.e.)
** No original, village librarian (bibliotecário da vila). (n.e.)
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia76
res, dos coletores de impostos (tahsildars), dos presidentes dos conselhos 
comunitários (panchayats), das cooperativas e outros interessados nas 
atividades de desenvolvimento rural. Com sua ajuda e também por meio 
de sondagens que faça, o bibliotecário municipal deve escolher a pessoa 
mais indicada para ser o bibliotecário de cada localidade. O professor, o 
juiz (munsif), ou o contador da vila — quem for a pessoa mais popular — 
deve ser selecionado para essa incumbência. Como exemplo e norma, o 
representante escolhido deve ser auxiliado para despertar o entusiasmo 
necessário. A motivação dos bibliotecários locais é parte crucial da orga-
nização. Para esta tarefa precisamos de um organizador, que seja acima 
de tudo muito entusiasmado, que seja uma personalidade de muito bom 
relacionamento, paciente e com capacidade para trabalho duro. Muitas 
vezes existe na vila um partidarismo insuperável. Convém, neste caso, ter 
um representante local de cada partido. 
2364 Publicidade da Biblioteca
O passo seguinte consiste em divulgar ao máximo a ideia da biblioteca 
em toda a região. Convém pedir aos jornais do município que anunciem 
os recursos oferecidos pela biblioteca municipal, da forma que for mais 
destacada e tão frequente quanto possível. Folhetos atraentes devem ser 
amplamente distribuídos de tantas formas quanto possível. Cartazes de óti-
ma qualidade, com cores atraentes e texto cativante, devem ser distribuídos 
em profusão. A imagem do belo cartaz, desenhado pelo Carnegie United 
Kingdom Trust para uso das bibliotecas dos condados da Grã-Bretanha, 
mostra “uma tocha do saber, de ferro esmaltado, de 43 por 33 cm, com uma 
filactera vermelha que leva, em letras brancas, as palavras biblioteca do 
condado.94 As festas e feiras locais devem ser visitadas, bem como, nessas 
ocasiões, ser lançada uma forte campanha publicitária, contando com a 
cooperação de diligentes voluntários. Vejamos esta descrição de uma feira 
norte-americana: “Em toda parte eram encontrados avisos ‘venha assistir 
à nossa palestra sobre livros de viagens no estande da biblioteca, hoje, às 
15 h.’ E muita gente realmente compareceu.”95 Dá muito trabalho levar a 
palavra da Segunda Lei a cada vila e povoado e inculcar nas mentes de 
seus moradores a importância para o país do trabalho feito pela biblioteca 
municipal.
2365 Seleção de Livros
Por último, mas não menos importante, deve ser oferecida, de modo 
imediato e com regularidade, uma variedade de livros de qualidade, bem 
escritos e bem ilustrados. Devem ser remetidos para a biblioteca tanto 
livros para leitura recreativa como de natureza informacional. Alguns 
destes devem ser pertinentes às indústrias e interesses locais. Vale a pena 
77
citar a experiência do bibliotecário local de uma vila do condado de Cam-
bridgeshire, na Inglaterra:
Livros que tenham relação com as indústrias locais — agricultura e horticultura 
— são avidamente procurados, e, com relação a isso, gostaria de mencionar um 
método que adotamos de vez em quando. Muitas vezes recebemos um livro que 
sabemos que será útil para algumas pessoas que nunca utilizaram a biblioteca. 
Neste caso, mandamos o livro para o provável leitor com uma mensagem, 
sugerindo que dê uma olhada e, se estiver interessado, que o retenha por uma 
ou duas semanas. Dessa forma fizemos circular vários livros técnicos que, ao 
contrário, nunca seriam lidos. A dificuldade neste caso foi receber o livro de 
volta; o usuário achou-o tão útil no seu trabalho diário que não podia ficar 
sem ele. Não tenho dúvida alguma de que esse cavalheiro já ganhou muito 
dinheiro depois do que aprendeu sobre embalagem de frutas, etc., num livro 
que lhe enviei por acaso. Fizemos, porém, outro amigo e criamos outro leitor. 
Começo a acreditar que muitos agricultores e jardineiros não percebem que 
há livros que tratam exclusivamente de seus interesses e dificuldades, e nosso 
trabalho consiste em corrigir esta noção equivocada.96
2366 Seleção de Materiais de Extensão
A circulação de diapositivos deve ser incorporada ao trabalho da biblio-
teca municipal. Em alguns municípios, vi vários projetores, que haviam 
sido distribuídos pelo conselho municipal, simplesmente enferrujando 
devido à falta de diapositivos. Muitas vezes, as peças se quebram e o bico 
de gás fica entupido de ferrugem. Em certo lugar, a lente estava tão irre-
mediavelmente suja com uma camada oleosa que, mesmo depois de meia 
hora de limpeza, não pôde recuperar a transparência original. Revelando 
a mesma falta de coordenação, é possível encontrar vários projetores 
num único lugar, sendo que um está com o inspetor de saúde, outro com 
o inspetor escolar e ainda outro na escola local, mas nenhum deles em 
condições de funcionamento e nenhum com diapositivos. A biblioteca 
municipal pode eliminar esta duplicação perdulária e, o que é mais im-
portante, fazer os diapositivos circularem periodicamente. Pode também 
promover a circulação de discos fonográficos e coleções de fotografias. Há 
ainda grandes possibilidades para o trabalho educacional mediante sessões 
de cinema itinerante, quando podem ser exibidos filmes que despertem o 
interesse por outros países, pela natureza, pelas fábricas, pelas indústrias, 
pelos métodos de venda e pela saúde pública. É bom conquistar simpa-
tia, mostrando primeiro filmes baseados no Ramayana, Mahabharata, 
Sakuntala e assim por diante, alternando-os com filmes mais utilitários e 
informativos. No início, quando a palavra impressa somente é entendida 
ao ser lida por outrem e não pode ser lida pessoalmente pela imensa 
multidão de analfabetos, este aspecto do serviço de biblioteca municipal 
será não somente essencial, mas também um bom incentivo para que os 
asegunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia78
camponeses almejem e se sujeitem a superar rapidamente o analfabetismo. 
Essa deve ser uma das características transitórias das atividades de nossas 
bibliotecas municipais por um curto período.
237 Biblioteca Central Municipal
Talvez seja conveniente instalar o depósito central da biblioteca munici-
pal na sede da administração local. Deve ser planejado de modo a facilitar 
o trabalho tanto quanto possível. Uma sala com estantes, uma sala para 
empacotamento e um escritório serão suficientes. No início, uma ou duas 
salas contíguas no andar térreo do escritório do conselho municipal podem 
ser suficientes. O quadro de pessoal deve evoluir conforme o projeto se 
desenvolva. Mas, desde o início, deve haver pelo menos um assistente 
competente que cuide do trabalho rotineiro, caso contrário o bibliotecá-
rio terá que dedicar a isso grande parte do tempo que deveria dedicar à 
organização. Como o bibliotecário estará com frequência viajando pelo 
interior do município, o assistente deverá ter competência para assumir 
responsabilidade nessas ocasiões.
2371 Transporte de Livros
O transporte variará de acordo com as condições locais do município. 
Um município como Tanjore pode facilmente despachar caixas de livros 
graças à sua rede ferroviária e às linhas de ônibus. Num distrito como 
Kurnool, talvez seja preciso pedir a ajuda de carros de boi e carregadores. 
Mas talvez não seja preciso o bibliotecário distrital “como um de nossos 
colegas, viajar durante dois dias em lombo de mula, puxando outra 
mula carregada de livros, por dentro de um rio,” nas palavras do coronel 
Mitchell.97 Um método ideal de transporte é o do carro-biblioteca. Ele 
pode ser adaptado com prateleiras para transportar aproximadamente 
um milheiro de volumes, onde os moradores e os bibliotecários das vilas 
podem selecionar o que desejam ao devolver os volumes que foram lidos. 
O próprio bibliotecário pode dirigir o veículo ou acompanhá-lo em suas 
viagens pelo município. Também fará publicidade do projeto da biblioteca 
municipal de uma maneira muito eficiente. Esta é uma forma econômica 
de transporte e eliminará as despesas de locomoção do bibliotecário. O 
carro-biblioteca poderá visitar cada localidade uma vez a cada três meses.
2372 Centro Local
Os centros locais de entrega e substituição dos livros podem ser quais-
quer que sejam convenientes, como escolas, templos, mutts, agências de 
correios, lojas e residências. Assim que o bibliotecário chega com o carro-
-biblioteca, uma multidão de homens, mulheres e crianças cerca o veículo 
e em pouco tempo a maioria dos livros é tirada das prateleiras.
79
238 Resistência Inicial
No início, o bibliotecário municipal deve estar preparado para en-
contrar, nas vilas, uma atmosfera absolutamente hostil e desconfiada. Os 
motivos para essa desconfiança inicial podem, entretanto, ser facilmente 
identificados. O professor local, malremunerado, a quem provavelmente 
será repassado o trabalho de fato, talvez já preste uma cota de colaboração 
voluntária mais do que razoável e não receba de bom grado qualquer en-
cargo adicional. O juiz (munsif) da aldeia pode estar na função há muitos 
anos. Talvez haja desenvolvido um arraigado desprezo por essas novidades 
modernas e por isso careça da juventude e entusiasmo que são essenciais 
ao desenvolvimento rural hoje em dia. Um terceiro fator, de mais difícil 
persuasão, pode ser o latifundiário local, que vê com desconfiança e des-
crédito todas as tentativas de ampliação dos recursos educacionais, que 
podem capacitar os trabalhadores rurais (ryots) a terem independência 
de pensamento. Todos estes elementos de hostilidade — o professor so-
brecarregado de trabalho não remunerado, o juiz em quem se apagou a 
chama da juventude, e o obscurantista latifundiário (mirasidar)* — levarão 
aos limites o tato e o entusiasmo do bibliotecário municipal. Porém, com 
paciência e compreensão das condições locais, esses obstáculos não serão 
insuperáveis.
 
2381 Depois de Quebrado o Gelo
Depois de superados estes primeiros preconceitos e quebrado o gelo, 
o progresso ocorrerá sem problemas e de forma automática. Pelo menos 
assim tem sido em outros lugares. A seguir são relatados alguns casos, 
que demonstram as tremendas potencialidades de leitura dos moradores 
do campo que apenas esperam os recursos necessários para eclodirem de 
forma irrefreável.
2382 Exemplo 1
O bibliotecário do condado de Surrey conta que deparou
uma jovem empregada doméstica que aprecia The garden party [A festa], de 
Katherine Mansfield, mais do que qualquer outro livro que já tinha lido, por-
que ‘gosta do jeito que ela escreve’. Ou pode ser uma motorista de ônibus com 
um gosto pela literatura tão bom quanto o de qualquer estudante do curso de 
inglês adiantado que eu tenha orientado. Mas há também os adolescentes, 
recém-egressos da escola, numa idade em que a falta de emprego combinada 
* Na Índia, antes e depois do domínio britânico, sistema de trabalho rural assemelhado, 
grosso modo, à parceria ou meação. A parte que cabia ao trabalhador chamava-se mirasi 
(do verbo merah, compartilhar) e mirasidar era quem detinha a posse da terra, ou seja o 
latifundiário, que possuía ampla presença, e interferia grandemente em quase todos os 
aspectos da vida da comunidade que dependia do trabalho em suas terras. (n.e.)
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia80
com o fim da educação formal formam uma grande ferida em todo o tecido 
social. Numa de nossas bibliotecas ramais, soube de vários jovens — um men-
sageiro de telegramas, um carregador da estação ferroviária, um entregador 
e um balconista de mercearia — que sempre que a biblioteca é aberta vão 
direto para as estantes onde estão os livros de história natural, passatempos, 
mecânica e ciência.98
2383 Exemplo 2
A bibliotecária da vila de Sohan, Cambridgeshire, conta: “Há certa 
demanda por livros sobre assuntos domésticos da parte de jovens casadas, 
interessadas em melhorar os métodos antigos.”99 A mesma bibliotecária, 
falando a respeito dos jovens de sua vila, observa
Seus gostos são mais universais e geralmente percorrem as estantes onde 
ficam os livros de não-ficção, aprendendo a garimpar entre eles. Obras sobre 
invenções, passatempos e história natural os fascinam e por isso esses livros 
deveriam ser mais profusamente ilustrados.100
Em dois anos de existência, a biblioteca do condado de Cambridgeshire 
revelou a existência de inúmeros interesses de leitura.
2384 Exemplo 3
O bibliotecário de Cottenham, outra vila do mesmo condado, registra
Há o sapateiro que recusa tudo que não seja história ou romances históricos, 
que não pode acreditar que exista alguém na própria terra do Wake que não 
tenha lido Hereward, de Kingsley;* e do fruticultor que insiste em livros de 
astronomia.101
2385 Exemplo 4
Outro bibliotecário de condado menciona um jardineiro que devora 
todo livro sobre o Egito que o bibliotecário da vila lhe consegue, e um 
guarda ferroviário que lê os livros de viagem de Sven Hedin.**
2386 Exemplo 5
A alegria que a biblioteca itinerante está levando aos moradores de 
vilas monótonas é ilustrada por uma nota102 recebida pelo bibliotecário 
do condado de Kent e enviada por moradora “que vive a mais de 13 qui-
* Referência ao romance histórico Hereward, the last of the English, de Charles Kingsley 
1819–1875, baseado na figura semilendária de Hereward the Wake, que teria se insurgido 
contra Guilherme, o Conquistador (c. 1028–c. 1087). (n.e.)
** Geógrafo e explorador sueco (1865–1952), que percorreu regiões da Ásia central. Sobre 
suas viagens escreveu vários livros, que foram muito populares na Europa nas primeiras 
décadas do século xx. (n.e.)
81
lômetros de qualquer cidade e que recebeu livros úteis para seus estudos 
de literatura francesa”. A nota termina assim: “sou-lhe eternamente muito 
grata por ter me ajudado a construir para mim um pequeno mundo de 
felicidade”. Segundooutro relato, o pároco de Esclusham Below, em Den-
bigshire, com cerca de 1 900 habitantes espalhados por vários vilarejos de 
mineração, transformou 263 deles em leitores constantes e empresta cerca 
de sete mil volumes por ano; e o bibliotecário local relata com satisfação 
que “os membros do conselho paroquial estão jubilosos com o progresso 
feito e envidarão todos os esforços para assegurar o seu sucesso futuro”.103 
2387 Exemplo 6
Não podemos encerrar esta seção mais adequadamente senão citando 
os votos ardorosos desejados ao progresso da Segunda Lei da biblioteco-
nomia no meio rural pelo diretor do New York State College of Agriculture:
Quase não é preciso dizer que o sistema educacional de um condado não estará 
completo enquanto não houver uma ou várias boas bibliotecas que atendam a 
toda a população. Para a maioria dos condados rurais, a biblioteca do condado 
parece ser a resposta. Enquanto as crianças e também os adultos das fazendas 
não tiverem acesso conveniente e regular a coleções de livros adequados a 
seus diferentes gostos e necessidades, nosso bem-estar e progresso nacional 
ficarão aquém de suas possibilidades. Chegou a hora de promover um movi-
mento nacional para implantar e fazer com que os recursos da biblioteca sejam 
ativamente utilizados e estejam acessíveis a todos os moradores do campo.104
24 O Normal e o Excepcional
A próxima antítese a ser considerada — o normal e o excepcional — é 
de natureza mais complicada. Há condições excepcionais de todos os tipos. 
Há o enfermo temporariamente internado num hospital. Há o analfabe-
tismo, que é uma condição passível de ser eliminada. Temos o prisioneiro 
recuperável atrás de grades, enquanto os deficientes visuais, auditivos e 
da fala formam as classes dos que são comumente descritos como ex-
cepcionais.* A palavra ‘todos’ em livros para todos abrange cada um 
deles. A Segunda Lei não conhece qualquer exceção. Não pode descansar 
enquanto não houver providenciado o atendimento de cada um, normal 
ou excepcional, com o seu livro.
241 Uma Mesa-Redonda
O Paciente: Ah! Estar preso para sempre a este leito! Essas paredes sempre 
brancas, nuas! Como eu gostaria de poder fugir!
O Psicólogo: Calma, meu amigo, calma. Não se deixe cair neste mau humor. 
* Portadores de necessidades especiais. (n.e.)
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia82
Irá prejudicá-lo. Nossa amiga acabou de chegar para conversarmos 
sobre as formas e os meios de acabar com este tédio.
A Segunda Lei: Anime-se, senhor, eu trouxe um carrinho cheio de livros. 
Você logo verá que ele passou por cada enfermaria e cada leito. 
O Paciente: Eu não aguento esse barulho do carrinho.
O Psicólogo: (À parte, para a Segunda Lei). Coitado! Está com os nervos 
em frangalhos! O menor rangido o angustia.
A Segunda Lei: Não tenha receio. Meu carrinho não faz barulho. Foi es-
pecialmente construído para uso hospitalar. Um cego não consegue 
adivinhar que ele esteja em movimento. 
O Cego: Ah! Você não sabe como nossos ouvidos são afiados.
A Segunda Lei: Mesmo assim, estou certa, você não conseguirá ouvi-lo.
O Paciente: Muito atencioso da sua parte. Peço desculpas pelo meu mau 
humor. Que livros você nos trouxe?
A Segunda Lei: Lindos livros ilustrados, belas revistas de arte, romances 
divertidos, poemas inspiradores, alguns hinos, a revista Tit-Bits, e... 
O Paciente: Sim... Sua seleção é muito ampla. Mas me deixou de fora.
A Segunda Lei: Como?
O Paciente: Veja, fui professor a vida inteira. Não gosto de nenhuma leitura 
que não seja substanciosa. 
A Segunda Lei: Não faço nenhuma objeção a lhe dar o que quer, mas 
lembre-se de um perigo. Imagine se você tiver uma rebordosa — Deus 
me livre! — aí o médico culpará os livros difíceis que eu lhe trouxe, e, 
quem sabe, talvez até cancele meu passe de visitante!
O Psicólogo: Não precisa mais se preocupar. Talvez não saiba que estou 
aqui em tempo integral. Mande livros de todos os tipos. Cuidarei para 
dar a cada paciente o seu livro, ou seja, o que ele puder apreciar sem 
dano para a saúde. De qualquer modo, assumirei a responsabilidade 
e providenciarei para que o médico não a jogue sobre você.
A Segunda Lei: Agradeço desde já. Que posso lhe mandar, professor?
O Paciente: Alguma coisa do Croce, em italiano, por favor... É tão gentil da 
sua parte pensar em nós, pobres infelizes. Estou cansado. Não aguento 
mais ficar sentado. Posso, com sua licença, recolher-me?
O Psicólogo: Sim, com certeza. Atendente! A cadeira de rodas.
A Segunda Lei: Professor, transmita minha mensagem de leito em leito. 
Quando meu bibliotecário circular com o carrinho de livros, cada pa-
ciente dirá a ele o que deseja. Agora que o Psicólogo está aqui, posso 
mandar qualquer coisa que eles peçam.
O Paciente: Muito obrigado, Deus o abençoe. Até logo.
A mãe do surdo: Imagine a disposição do velhinho em ficar estudando seu 
italiano mesmo estando de cama.
O Analfabeto: Que Groce é esse, dona?
83
O Cego: Ah! Você não o conhece! É Croce e não Groce, um dos maiores 
filósofos vivos. É italiano, e, é claro, escreve em italiano.
O Psicólogo: Também sou encarregado da prisão local, quer dizer, como 
psicólogo, tenho também que cuidar dos internos.
A Segunda Lei: Mas, o que posso fazer? Foi só outro dia que mandei meu 
bibliotecário dar uma volta com o carro-biblioteca. O velho carcereiro 
aí ficou duro feito pedra. Rosnou algo como “O quê! Livros para esses 
assassinos detestáveis!” Parece até que insultou meu bibliotecário, 
dizendo “Se não tem um jeito melhor de ganhar a vida, aproveite a 
primeira oportunidade de assaltar uma casa, e terei a oportunidade 
de lhe conseguir trabalho”. 
O Carcereiro: O quê? Quando foi isso?
A Segunda Lei: Alguns meses atrás, acho.
O Carcereiro: Graças a Deus! Não era eu!
O Psicólogo: Tudo isso agora são águas passadas. Esse velho carcereiro 
já se aposentou. Parece que você não faz ideia de como as reformas 
recentes humanizaram tudo. Esse tipo de carcereiro sarcástico já era. 
Agora estão recrutando pessoas qualificadas, pessoas simpáticas, que 
querem recuperar os criminosos ao invés de mantê-los eternamente 
presos. Por isso é que me querem lá.
O Carcereiro: Asseguro-lhe, dona, que a senhora terá sempre minha en-
tusiástica cooperação na sua missão filantrópica. Em nome do meu 
predecessor, apresento-lhe e ao seu bibliotecário o meu mais sincero 
pedido de desculpas.
A Segunda Lei: Muito obrigado, senhor, mas fico muito contente ao saber 
dessa mudança. Estou muito feliz. Um problema difícil que trouxe para 
esta conversa já está assim resolvido.
O Psicólogo: Você tem a lista dos livros que mandou outro dia?
A Segunda Lei: Aqui está.
O Psicólogo: Tudo bem, enquanto estiver funcionando... Mas parece que 
você esqueceu completamente os prisioneiros políticos. Eles gostariam 
de receber livros e mais livros, de economia, política, metafísica, socio-
logia, e assim por diante.
A Segunda Lei: Eles permitirão esses livros na prisão? 
O Psicólogo: Certamente, por que não? Apesar de tudo, é com a maior relu-
tância que o governo manda essas pessoas cultas para a prisão. É mais 
para justificar a majestade da lei, do que para privá-los da liberdade. 
Jogadores de fim de semana e infratores da lei do sal* são normalmente 
os maiores intelectuais da comunidade. São presos apenas por causa de 
* Lei que proibia a fabricação do sal, mesmo artesanal, sem autorização. Foi proposital-
mente violada pelo Mahatma Gandhi, em manifestações ocorridas em 1930, quando ele e 
inúmeros de seus seguidores foram presos. (n.e.)
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia84
delitos técnicos, e o governo também se preocupa para que se permita 
a estas pessoas uma boa oferta de livros e periódicos, para que sua 
inércia forçada não termine em mórbida melancolia.
O Carcereiro: Sim. Esta é a política correta. Enviarei hoje à noite para o 
senhor uma lista do que eles querem.
A Segunda Lei: Levarei em mãos tão logo ela chegue e farei com que os livros 
cheguem a você amanhã,por volta do meio-dia. Mas nosso serviço 
não estará em sua melhor forma, a menos que entremos em contato 
direto com nossos leitores.
O Carcereiro: Isso é fácil. Vou incluir seu bibliotecário em nossa lista semanal 
de visitantes. Isso vai ajudar? 
A Segunda Lei: Isso é o ideal.
O Cego: Senhoras e senhores, estou contente que vocês façam isso tudo por 
aqueles que estão presos. E nós que estamos presos em perpétua escu-
ridão? Soube que, pelo último censo, chegamos a um total de 479 637.105
A Segunda Lei: Com certeza, este é o meu próximo ponto para discussão. 
Estou consciente de que quinze em cada dez mil pessoas são cegas em 
seu país.106 Mas, tenho livros para vocês também. 
O Carcereiro: O quê? Cego pode ler?
A Segunda Lei: Sim, os livros em Braille. O cego pode lê-los com as pontas 
dos dedos. 
O Carcereiro: Isso é novidade para mim. Eles se parecem com livros de 
verdade?
A Segunda Lei: Sim, mas são muito volumosos. A Bíblia compõe-se de 38 
tomos que medem 25 cm por 31 cm por 5 cm; enquanto um romance 
de Scott ou Dickens chega a ter de 8 a 10 tomos com as mesmas dimen-
sões.107 Além disso, são muito pesados. Cada volume em Braille pesa 
quase 2,5 kg.108 Mesmo assim, como o cego não pode ir à biblioteca, 
eles são normalmente remetidos pelo correio e o correio cobra apenas 
uma taxa nominal.
O Analfabeto: As letras são fáceis? Podemos aprendê-las?
O Psicólogo: Por quê? Sua vista é boa e você pode aprender a escrita usual. 
As letras do Braille são formadas com pontos em relevo, arranjados de 
acordo com um código. 
O Carcereiro: E quando isso foi inventado?
A Segunda Lei: Muito tempo atrás. Há mais de um século. De fato, foi em 
1827 que se publicou o primeiro livro para cegos no Reino Unido.109 
A primeira edição completa da Bíblia em Braille foi feita em 1890.110
O Cego: Que coisa! No século pasado! Onde se conseguem esses livros? 
A Segunda Lei: A maioria dos países já criou uma biblioteca nacional para 
cegos. A Inglaterra fundou a sua já em 1882.111 Os Estados Unidos, 
pouco depois. A Alemanha, em 1894,112 e...
85
O Cego: E nós?
A Segunda Lei: O movimento está se espalhando. Recentemente chegou à 
China e poderá chegar aqui muito em breve.
O Cego: E enquanto não chega?
A Segunda Lei: A Inglaterra e os Estados Unidos terão prazer em ajudá-los.
O Cego: Terão eles livros em quantidade suficiente?
A Segunda Lei: Ah, sim. Somente na Inglaterra, o estoque passa de 100 mil 
volumes.
O Carcereiro: Cem mil volumes para cegos!
O Psicólogo: Os livros, você sabe, são o principal refrigério com que contam 
os que padecem da cegueira.
O Carcereiro: São populares?
A Segunda Lei: Sim. Os usuários da biblioteca britânica para cegos excedem 
10 mil, enquanto o empréstimo anual passa de 50 mil. E não faz muito 
tempo a rainha distribuiu prêmios para as crianças cegas que usavam 
as bibliotecas de forma mais eficiente.
O Analfabeto: E o que eles leem?
O Psicólogo: Naturalmente, todos os assuntos. As necessidades dos cegos 
não diferem materialmente das necessidades das outras pessoas. O 
nível de inteligência deles não é inferior, e algumas de suas faculdades 
muitas vezes são mais desenvolvidas.113
O Cego: É verdade. Um de nós é especialista em consertar relógios de qual-
quer tipo. Sua oficina vai de vento em popa e seus concorrentes que 
enxergam usam os olhos para admirar o sucesso dele, maravilhados 
e com inveja.
A Segunda Lei: Há atualmente vários jovens cegos que ingressam nas uni-
versidades e se formam.
O Analfabeto: Então, estamos piores do que os cegos.
O Cego: Sim, como diz o Senhor, “Tendo olhos, não vedes?”114
A Segunda Lei: É fácil você ajudar a si próprio.
O Analfabeto: Mas, eu não sei ler.
A Segunda Lei: Se você for à biblioteca, alguém poderá ler os livros para 
você. Há leitores especialmente designados para esta finalidade.
O Psicólogo: E, nesse meio tempo, você pode aprender a ler e escrever.
O Analfabeto: Gostaria muito. Mas será que consigo?
O Psicólogo: A biblioteca tem um clube de alfabetização. Matricule-se e em 
seis meses você saberá ler e não precisará mais de ajuda.
O Analfabeto: Posso levar minha mulher? Ela também gostaria de aprender.
O Carcereiro: Sim. E sua avó também!
A mãe do surdo: E meu filho? Ele é surdo-mudo.
A Segunda Lei: Para mim, não será um problema especial, desde que ele 
saiba ler e escrever. 
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia86
A mãe do surdo: Ele não sabe. Esse é meu problema. 
A Segunda Lei: Então, encaminhe-o primeiro à minha irmã, educação para 
todos. Rapidamente ela o dotará com a capacidade de ler e escrever. 
Talvez nosso amigo, o Psicólogo, tenha mais informações.
O Psicólogo: Hoje é bastante simples ensinar os surdos-mudos. Cuidarei 
disso.
A mãe do surdo: Depois que ele aprender, você conseguirá livros para ele?
A Segunda Lei: Com muito prazer. Estou aqui para isso.
A mãe do surdo: Você já encontrou leitores surdos-mudos?
A Segunda Lei: Muitos. Aqui está um relatório recente:115
 Sobre a mesa de uma bibliotecária de referência uma moça passou um 
bilhete. Nele estava escrito: ‘Estudei somente até a quinta série. Você pode me 
indicar alguns livros para me ajudar a prosseguir nos estudos?’
A moça era surda-muda. Sentou-se ao lado da bibliotecária e começaram a 
trocar mensagens escritas numa grande folha de papel. 
‘Quantos anos você tem?’, escreveu a bibliotecária.
‘Dezenove,’ ela escreveu em resposta, ‘Trabalho como passadeira numa 
lavanderia. Gosto de poesia, mas quero também estudar alguns fatos.’ [...]
A jovem voltou muitas vezes para pegar mais livros, estimulada por saber 
que podia aprender graças à sua própria capacidade de ler.
A mãe do surdo: Que menina encantadora! Gostaria que meu filho também 
tivesse esse conforto de espírito.
A Segunda Lei: A verdadeira finalidade da minha existência está em pro-
porcionar isso a ele.
25 O Coral da Biblioteca
Todos cantam em coro:
 Há lugar para todos
 Não vá um diretor
 Malvado ou doutor
 Confinar os livros
 Para uma rica elite.
 Temos livros para todos.
 Livros para os ricos
 E livros para os pobres
 Livros para o homem
 E para a mulher também.
 Livros para os doentes
 E livros para os contentes
 Livros para os cegos
 E para os surdos também.
 Livros para os sabidos
 E livros para os mandriões
 Livros para os burgueses
 E livros para os peões.
 Livros para os letrados
 E livros para os apenados
 Temos livros para todos
 Para cada um e para todos.
Um estranho entra, cantando:
 Livros para todos, sim. Livros para todos
 Mas falta acrescentar
 Livros na terra
 E livros no mar.
O Carcereiro: Posso saber, senhor, com quem estou falando?
O Estranho: Sou um marinheiro comum, senhor. Meu navio chegou a este 
porto ontem à noite. Ao passar pela rua, meus ouvidos captaram o coral. 
O porteiro me disse que vocês estavam fazendo uma mesa-redonda so-
bre livros para excepcionais, e o velhinho gentilmente deixou-me entrar. 
O Carcereiro: Desculpe-me, mas você chegou muito tarde. Estamos quase 
terminando. 
O Marinheiro: Senhor, nossa reivindicação chamou a atenção de vocês? 
Somos as pessoas mais carentes do mundo, pois passamos o tempo 
todo sobre a água, flutuando de um lado a outro deste vasto mundo.
A Segunda Lei: Aceito isso como uma consulta. Fique tranquilo, pois você 
não será esquecido. 
26 A Terra e o Mar
Embora as antíteses entre ricos e pobres, homens e mulheres, cidade e 
campo, normais e excepcionais tenham, desde o começo, atraído a atenção 
do público com resultados diferentes, a antítese entre terra e mar parece ter 
sido negligenciada por muito tempo, pois, como se diz, ‘longe dos olhos, 
longe do coração’. As pessoas que levam a vida no mar passam a maior 
parte do tempo longe de casa e suas exigências e carências raramente 
são notadas por quem leva uma vida sedentária em terra. Entretanto, 
87 a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia88
mesmo na Índia, onde as atividades e empresas marítimas não são muito 
importantes, cerca de 600 mil pessoas116 passam mais tempo no mardo 
que em terra. Ainda que este caso nos seja lembrado, o problema de levar 
a cada marítimo o seu livro está cercado de dificuldades. Nas palavras 
da comissão executiva do Carnegie United Kingdom Trust,
condições inerentes à vida no mar combinam-se para criar obstáculos para um 
serviço organizado. A impraticabilidade de conseguir apoio financeiro com 
impostos municipais; as constantes mudanças, exceto nas grandes companhias, 
na tripulação dos navios; as incertezas quanto à movimentação de cargueiros 
sem rota fixa; a necessidade de que haja meios para reposição de livros em 
muitos dos principais portos do mundo, todos são fatores que contribuem 
para a complexidade do problema.117
Apesar disso, a Segunda Lei da biblioteconomia insiste em que tais difi-
culdades não são intransponíveis e devem ser resolvidas. Em resposta à 
sua insistência, a Inglaterra fundou, em 1919, o
Seafarers’ Education Service, que procura fornecer livros para os navios em 
escala ambiciosa, tanto no que tange à organização quanto à seleção dos li-
vros [...] Em maio desse ano, a World Association for Adult Education reuniu 
representantes dos armadores, dos sindicatos de marítimos e das sociedades 
missionárias. Uma comissão permanente foi então designada para executar 
o trabalho de fornecer bibliotecas como parte de um esquema educacional 
completo para os marítimos.118
261 Leitura da Tripulação
A experiência logo mostrou que os marítimos liam os melhores livros 
e cuidavam deles com respeito. Especialmente em viagens de longo curso, 
a maioria dos livros é utilizada e estima-se que aproximadamente 75% 
da tripulação usufruem a leitura, enquanto menos de 10% dos que vivem 
em terra estão dispostos a isto. No fim de 1928, o número total de navios 
assim atendidos era de 1 276.119
262 Financiamento da Biblioteca dos Marítimos
A questão relativa a como financiar adequadamente o fornecimento de 
livros para os marítimos foi amplamente debatida pelo Public Libraries 
Committee.120 Começa com a mensagem da Segunda Lei: livros para 
todos, seja em terra, seja no mar. Os marítimos não têm menos direito 
a um serviço de livros financiado com recursos públicos do que seus 
compatriotas que vivem em terra . A única dúvida diz respeito a se a 
responsabilidade por esse serviço deve ser honrada exclusivamente pelo 
Estado, pela cooperação entre o Estado e as prefeituras das cidades por-
tuárias, ou somente por estas. Os membros da comissão não acham que a 
89
última alternativa seja razoável ou viável. Tampouco recomendariam que 
o Estado devesse ser onerado com a totalidade desse encargo. Por outro 
lado, sugerem que a tarefa seja dividida igualmente entre as companhias de 
navegação, os próprios marítimos, os órgãos responsáveis pelas bibliotecas 
das cidades portuárias e o Estado.
O Public Libraries Committee fez a seguinte análise da receita da Sea-
farers’ Education Society durante seus primeiros cinco anos: 
 Valor em libras esterlinas
Companhias de navegação 6 899
Câmara da marinha mercante 500
Sindicatos dos marítimos 590
Carnegie United Kingdom Trust 2 385
Diversas pessoas jurídicas e físicas 390
Venda de livros, etc. 84
 Total ............. 10 848
Esta análise revela a ausência significativa do Estado e das autoridades 
municipais. O Committee deveria chamar-lhes a atenção para o apelo 
constante da Segunda Lei e instá-los a que contribuam com sua quota, não 
necessariamente em espécie, mas, o que talvez fosse melhor, com livros, 
os do acervo da biblioteca central do Estado e os do acervo das bibliotecas 
municipais das cidades portuárias.
263 Os Faroleiros
Os faroleiros necessitam de livros tanto quanto os próprios marinheiros. 
A sorte da maioria dos homens confinados na solidão dos faróis é tão dura 
quanto a de Robinson Crusoe em sua ilha deserta. Ou talvez pior. Enquanto 
Robinson Crusoe tinha a liberdade de perambular, até mesmo esta liber-
dade lhes é negada. Embora o destino dos navios e seus passageiros, bem 
como a prosperidade de seus proprietários em terra dependam de seus 
serviços vigilantes e abnegados, não deixa de ser razoável que o apelo da 
Segunda Lei a seu favor seja ouvido com a maior boa vontade. Embora os 
faróis da costa possam ser atendidos pelas bibliotecas sucursais ou pelas 
bibliotecas municipais, conforme for o caso, deve haver uma organização 
central especial que atenda às necessidades dos faróis isolados em ilhas e 
embarcações. O total de faróis e navios-faróis que recebem regularmente 
livros na Grã-Bretanha e na Irlanda é de quase 300. 
27 O Adulto e a Criança
Os embates da Segunda Lei, porém, atingem a fase mais complicada 
quando tem que negociar a antítese entre o adulto e a criança. Por muito 
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia90
tempo, todos acreditaram — e mesmo hoje alguns ainda acreditam – que 
a criança não tinha direito a livro algum, a não ser os didáticos, e que so-
mente os ineptos ‘perderão tempo com leituras adicionais’. Por outro lado, 
acreditava-se — e alguns ainda acreditam — que, concluída a educação 
formal, já se teria obtido o melhor acesso possível aos conhecimentos que 
os livros podem oferecer. Basta assistir, do alto da ponte Cauvery, em 
Kumbakonam, às águas do rio Cauvery cobertas e ornadas com páginas 
de livros rasgados, ali atiradas por estudantes que saem do saguão da 
faculdade, depois dos exames finais. Muitos interpretam este ato como 
uma cerimônia que simboliza que eles superaram a etapa dos livros.
271 Educação Permanente
Essa crença de que o adulto que concluiu a escola não precisa mais de 
livros remonta ao que se pode chamar a ‘teoria educacional do camelo’,* 
segundo a qual, antes de iniciarmos nossa jornada na vida, devemos rece-
ber total e integralmente o alimento mental de que precisaremos ao longo 
de todo o caminho. Essa crença não reconhece que a maturidade tem suas 
aptidões, aspirações e urgências educacionais. Esta teoria, para a qual a 
educação tem que ver apenas com a educação das crianças, encontra, po-
rém, fundamentação muito limitada na psicologia e tem pouco apoio da 
experiência prática. Naturalmente, as crianças devem ser educadas. Mas 
um sistema educacional que não reconheça a necessidade contínua do 
adulto pelos instrumentos da educação, será mera futilidade. Em qualquer 
democracia dinâmica, que esteja sempre desenvolvendo uma ordem de 
coisas nova e melhor, a tarefa definitiva da educação pública será cons-
tantemente ensinar os adultos a participarem de forma inteligente dessa 
nova ordem de vida. Os adultos devem primeiro aprender a viver a nova 
ordem antes que possam ensiná-la. Foi a deplorável negligência deste 
fator que fez com que o relógio de nosso currículo escolar fosse cega mas 
prejudicialmente atrasado de vez em quando, por instância de poderosos 
políticos, que insistem em meter o nariz onde não são chamados, mas que, 
na plenitude de sua ignorância, desconhecem qualquer outro currículo 
a não ser aquele com que foram ensinados, em sua remota infância. Da 
prática da vida deve surgir a compreensão que traduza esse tipo de vida 
em educação para as crianças. Portanto, mesmo que a pessoa possua tantos 
graus quanto um termômetro, mesmo que se tenha graduado com a mais 
alta distinção, ela será flagrantemente inculta, ou logo se tornará, se parar 
* Menção à capacidade que o camelo tem de armazenar uma grande quantidade de água, 
de uma só vez, o que lhe permite varar longas distâncias nos desertos e sobreviver até 
oito dias sem beber. (n.e.)
91
de ler e deixar que o cérebro se enferruje a partir do dia da formatura. De 
fato, a educação começa no berço e só termina na sepultura. Todos os adul-
tos educados estão, portanto, abrangidos no ‘todos’ de livros para todos.
272 Serviços para os Ex-alunos
Persuadir o adulto que se formou em seu curso superior a se submeter 
ao poder da Segunda Lei constitui apenas um lado desta etapa da luta. A 
Segunda Lei temigualmente uma tarefa penosa a cumprir, que é convencer 
a universidade que seu interesse pela educação dos alunos não termina 
no dia em que ela lhes confere seu diploma. Embora não tenha o direito 
de impingir-lhes mais educação formal, compete-lhe o dever de continuar 
educando seus ex-alunos por meio dos livros da sua biblioteca. Uma das 
conquistas da Segunda Lei da biblioteconomia consiste em inculcar este 
novo dever, no qual as universidades progressistas e suas bibliotecas começam 
a participar cada vez mais. A Segunda Lei poderia até ameaçar a universi-
dade, advertindo-a de que “você não pode reter o interesse e a lealdade de 
seus graduados, a menos que reforce este novo serviço para eles através 
dos seus livros. Deve haver esta ligação intelectual mais elevada. Sim, 
do ponto de vista nacional, e afinal de contas é o tesouro nacional que a 
mantém, este serviço aos ex-alunos é essencial, se não se quiser jogar fora 
o dinheiro gasto no ensino de graduação por falta de acompanhamento 
dos alunos formados.”
273 Reorientação do Ensino
Isso nos leva à nova orientação que a Segunda Lei causou nos métodos 
de ensino. Ela diz à universidade, “O melhor que você pode fazer pelos 
seus imaturos graduandos é despertar neles o entusiasmo pelo pensar e 
pelo hábito de leitura. Lembre-se, a educação não termina na sala de aula. 
Tenho que começar onde você terminou. É mais fácil para mim fazer com 
que os graduandos que leem continuem lendo do que reconquistá-los para 
a leitura depois de pessoas feitas. Em troca, nada tenho a opor a que você 
dependa de mim, mais amplamente, durante suas aulas; na verdade, estou 
bem preparada para ficar ao seu lado em seu trabalho diário e dar a mão 
ao graduando, levando-o a andar com as próprias pernas quando a deixar 
para trás.” Da mesma forma, ela diz às escolas, “A esperança do futuro 
depende das crianças de hoje. Lembre-se que uma grande proporção das 
crianças sai diretamente de seus cuidados para os meus. Não existe uni-
versidade para eles. Portanto, é imperativo que você lhes ofereça a maior 
oportunidade em sua biblioteca escolar para formar o correto hábito de 
leitura. Você sabe que a criança que adquire um amor profundo pela leitura 
na escola tem mais probabilidade de continuar com esse hábito de leitura 
depois que sai da escola. Portanto, fortaleça o trabalho da biblioteca escolar 
a segunda lei e sua luta
as cinco leis da biblioteconomia92
de modo que eu possa fortalecer o trabalho da biblioteca do futuro.” Em 
sua tentativa de superar a embaraçosa antítese entre o adulto e a criança, 
esta é a conciliação e a compreensão que a Segunda Lei está alcançando 
entre os antigos e os novos instrumentos da educação, ou seja, escolas e 
faculdades de um lado, e a biblioteca de outro.
28 Democracia Ilimitada
Assim, a luta da Segunda Lei da biblioteconomia deveu-se grandemente 
à ilimitada democracia e universalidade de seu apelo. Os caprichos da na-
tureza podem militar contra a lei da democracia em muitas esferas da vida. 
Nenhum credo político ou ético pode uniformizar as diferenças físicas, de 
temperamento e inteligência mais do que as diferenças de altura ou cor. 
Mas, a lei livros para todos mostrou ser mais do que um adversário à 
altura dos perversos caprichos da natureza. Ela pode cegar alguns; pode 
atar a língua de outros; pode lançar a sorte de outros destinando-os à soli-
dão; pode sujeitar a maioria ao jugo da miséria. No entanto a Segunda Lei 
tratará a todos como iguais e oferecerá a cada um o seu livro. Obedecerá 
escrupulosamente ao princípio da igualdade de oportunidades em relação 
aos livros, ao ensino e ao entretenimento. Não terá descanso enquanto não 
houver reunido todos — ricos e pobres, homens e mulheres, quem mora 
em terra firme e quem navega os mares, jovens e idosos, surdos e mudos, 
alfabetizados e analfabetos — a todos, de todos os cantos da Terra, até que 
os tenha conduzido para o templo do saber e até que lhes tenha garantido 
aquela salvação que emana do culto de Sarasvati, a deusa do saber.
281 O Episódio de Sambandhar
Para fazer uma analogia com esta abrangência universal da Segunda 
Lei recuemos a Sambandhar e ao século vii.121 Shiyali, o lugar onde ele 
nasceu, ainda conserva a memória de sua última façanha. No dia em que 
ele se casou no povoado vizinho de Achalpuram, enquanto caminhava em 
volta do templo com sua recém-consorte, vendo que de repente as portas 
do céu se abriam, logo reuniu seus pais e parentes, os amigos e visitantes, 
criados e seguidores — e não somente estes, mas todos os moradores do 
lugar, todos os homens de todas as religiões, que acompanhavam ou não 
a multidão, fossem cegos ou aleijados, jovens ou idosos, de bom grado ou 
à força se não quisessem — reuniu todos, primeiro fê-los cruzar as portas 
do céu, e, por último, também ali adentrou com sua amada esposa e se 
tornou Um no Único, na companhia de todos os demais. Este último feito 
de Sambandhar, que servirá, em sua expressão de fraternidade universal, 
como um símbolo da Segunda Lei da biblioteconomia, é descrito com 
detalhes por Sekkilar, famoso biógrafo da região tâmil do século xii.
93a segunda lei e sua luta
122
as cinco leis da biblioteconomia94
* Na Índia medieval, as tentativas de alguns governantes para expandir sua influência 
no subcontinente e mais além. Campanha militar. Vitória ampla, conquista, influência 
alcançada no maior número de lugares. (n.e.)
94
CAPÍTULO 3
A SEGUNDA LEI E SUA DIGVIJAYA*
30 Abrangência
No capítulo anterior, testemunhamos a lenta luta da Segunda Lei, de 
trincheira em trincheira, de obstáculo em obstáculo; neste, veremos o su-
cesso arrasador de livros para todos, em sua desimpedida digvijaya ou 
expedição de conquista do mundo. O capítulo precedente enumerou os 
vários interesses adquiridos entrincheirados contra a marcha da Segunda 
Lei; este capítulo nos levará numa volta ao mundo na esteira da majes-
tosa conquista da mensagem livros para todos. Por enquanto vimos a 
difusão da Segunda Lei em diferentes camadas e segmentos da sociedade; 
agora testemunharemos a difusão de livros para todos nos diferentes 
continentes e países. livros para uns poucos eleitos tinha existido desde 
que os livros são escritos. Mas, livros para todos é um conceito novo. 
Embora as bibliotecas existam desde tempos imemoriais, só as origens 
do ‘movimento por bibliotecas’ é que estão na memória de nossos avós. 
Não é nosso objetivo traçar a história das bibliotecas que foram constru-
ídas tanto para acumular quanto para oferecer livros, no máximo, para 
uns poucos eleitos. Nosso esforço, por outro lado, será fazer um rápido 
levantamento do desenvolvimento do movimento em prol de bibliotecas 
de nossos dias no maior número possível de lugares. Não trataremos aqui 
de bibliotecas isoladas, por maiores que sejam, mas teremos que tratar 
de uma multidão de bibliotecas. A irrupção de miríades de bibliotecas, 
muitas delas, apesar de diminutas, palpitantes de vida e radiantes com 
o resplendor causado pela recepção da boa nova democrática anunciada 
pela incansável Segunda Lei.
31 Américas
A Segunda Lei da biblioteconomia lançou as sementes do movimento 
por bibliotecas em todo o mundo. Algumas caíram em lugares pedregosos, 
outras entre espinhos, e outras em solo fértil. Mas parece que as sementes 
que caíram nos campos do Novo Mundo foram as primeiras a germinar. 
95a segunda lei e sua digvijaya
Parece que alcançaram o estágio de frutificação e que já começaram a espa-
lhar novas sementes em todo lugar. Como os primeiros a cuidar desta nova 
família de plantas, os norte-americanos tiveram a oportunidade de fazer 
um trabalho pioneiro que está longe de ter sido modesto. Aproveitaram 
essa oportunidade única com um sucesso único. A energia, o entusiasmo 
e os recursos do Novo Mundo foram colocados incondicionalmente à 
disposição dessa espécie recém-germinada: o movimento por bibliotecas. 
Novos solos foram constantemente preparados, novos transplantes fre-
quentemente feitos,novas espécies ousadamente cultivadas, novas classifi-
cações cuidadosamente testadas, novas técnicas tornaram-se necessárias e 
foram inventadas, e surgiram facilmente novos adeptos em números cada 
vez maiores. Um astuto escocês, que ganhara uma montanha de dólares, 
distribuiu livremente sua fortuna para a causa desse movimento. A conju-
gação de circunstâncias é de longe a mais propícia que jamais aconteceu. 
O resultado foi que os Estados Unidos passaram a ser considerados com 
justiça como a terra das bibliotecas. Se perguntarmos às nações do mundo 
o que sentem em primeiro lugar a respeito de seu próprio movimento por 
bibliotecas, a maioria começa dizendo, “Estamos seguindo a liderança 
dos Estados Unidos. Estamos adotando os métodos dos Estados Unidos.” 
Por conseguinte, seria conveniente começar nosso estudo da digvijaya da 
Segunda Lei com um breve levantamento de suas façanhas neste primeiro 
lar do movimento em prol de bibliotecas.
311 American Library Association
O ano de 1876 parece ter marcado uma época do progresso do mo-
vimento por bibliotecas nos Estados Unidos. Foi o ano de fundação da 
American Library Association. Discursando na 15a conferência dessa 
associação sob o título Seed time and harvest, o Sr. R.R. Bowker, um dos 
fundadores sobreviventes, disse
Faz meio século, reuniram-se em Nova York três jovens com ideias e ideais, 
semente intelectual da qual ricos frutos se mostram neste conclave, na American 
Library Association e no desenvolvimento do moderno sistema norte-americano 
de bibliotecas, cujos métodos, conforme esta conferência internacional está a 
indicar, estão presentes em todo o mundo.123
No dia 4 de outubro de 1876, estes três jovens conseguiram reunir “noventa 
homens e treze mulheres”, que formaram “a American Library Association, 
na qual o Sr. Melvil Dewey, primeiro-secretário, orgulhosamente inscreveu-
-se como o número 1, e à qual ele deu o lema ‘A melhor leitura para o maior 
número pelo menor custo’”. Na segunda conferência, realizada em 1877, 
a presença caiu para sessenta e seis, e numa outra, mais tarde, chegou até 
a ser mais baixa com trinta membros. Entretanto, com exceção das duas 
as cinco leis da biblioteconomia96
conferências bienais seguintes e o intervalo de 1894, a American Library 
Association tem realizado conferências a cada ano, chegando à marca de 
mil em 1902 e de duas mil em 1926. O número de associados, que começou 
com 103 nomes, cresceu agora para 11 833. Além disso, em 1850, os Esta-
dos Unidos possuíam apenas 644 bibliotecas, muitas das quais estavam 
abertas somente para alguns eleitos. Mas hoje são mais de 6 500 bibliotecas, 
de portas abertas para todos. 
312 Pesquisa sobre as Bibliotecas
Podemos inferir a partir desses números impressionantes que a Se-
gunda Lei chegou ao fim de sua missão nos Estados Unidos? A Ameri-
can Library Association não tinha certeza da resposta a esta pergunta e, 
portanto, com a ajuda de uma pequena doação da Carnegie Corporation 
of New York, contratou os serviços, em julho de 1925, de um experiente 
especialista para fazer uma pesquisa da situação. As perguntas objetivas 
formuladas ao especialista foram:124 
1. Quantas pessoas nos Estados Unidos e Canadá têm acesso a bi-
bliotecas públicas? 
2. Quantas não dispõem do serviço de bibliotecas públicas e onde 
moram?
3. Quantas bibliotecas públicas surgiram desde que a American 
Library Association foi fundada?
4. A que distância estamos da meta de um serviço de bibliotecas que 
atenda a toda a população? 
3121 Resultados
A Segunda Lei estava interessadíssima no relatório do especialista. 
A pesquisa foi feita com a maior rapidez possível e o relatório veio à luz 
em julho de 1926. Quais foram os resultados da pesquisa sobre as quatro 
questões fundamentais? Eis um resumo:
1. Cerca de 64 milhões ou 56% da população vivem em áreas onde 
há bibliotecas.
2. Cerca de 50 milhões ou 44% da população ainda não dispõem de 
serviço de bibliotecas públicas e, desse total, três milhões vivem em áreas 
urbanas e os restantes 47 milhões vivem em áreas rurais.
3. Desde que a American Library Association foi fundada, um dos 
seus objetivos, estabelecido no estatuto de 1879, a saber, “fomentar no país 
o interesse pelas bibliotecas [...] predispondo a consciência pública para 
a criação e o desenvolvimento das bibliotecas”, vem sendo cumprido de 
forma sistemática. Cerca de seis mil novas bibliotecas foram construídas. 
Ao invés dos dois milhões de volumes de antes, 70 milhões de volumes 
vieram a ocupar as estantes das bibliotecas públicas. Cerca de 240 milhões 
97a segunda lei e sua digvijaya
de volumes são emprestados anualmente e uma soma de aproximadamen-
te 90 milhões de rupias é gasta por ano em bibliotecas públicas. 
4. O objetivo de atendimento universal da população foi alcançado 
apenas em parte. Sem considerar os 44 milhões de pessoas que não dis-
põem de serviço de bibliotecas, o número atual de volumes é totalmente 
inadequado. Corresponde somente a seis décimos de livro por habitante. 
O número de volumes emprestados por ano chega apenas a dois por 
habitante e o montante aplicado anualmente em bibliotecas públicas é 
inferior a uma rupia per capita. Esse atendimento insuficiente, do qual 
resultam médias tão baixas, atende à metade da população, deixando a 
outra metade a descoberto.
3122 Implementação
A Segunda Lei protestou porque essa insuficiência e a consequente 
desigualdade de oportunidades oferecidas pelas bibliotecas não são nada 
democráticas, e perguntou: “O problema de fornecer serviço de biblioteca 
pública para 50 milhões de pessoas que atualmente não dispõem dele é 
grande o suficiente para pôr em xeque as melhores ideias e esforços de que 
você seja capaz. Você teve o honroso privilégio de iniciar o movimento por 
bibliotecas no mundo. Você vai tolerar a perda dessa honrosa posição?“ 
“Nada disso. Resistiremos,” disseram os Estados Unidos, e a American 
Library Association imediatamente encarregou125 o Standing Committee 
on Library Extension [comissão permanente de desenvolvimento biblio-
tecário] de envidar
um esforço organizado visando à meta de estabelecer um serviço de bibliotecas 
públicas adequado, ao alcance fácil de cada um, nos Estados Unidos e no Canadá, e 
a orientou para que isso fosse feito [...] em íntima cooperação com a League 
of Library Commissions [liga das comissões de bibliotecas] e todas as demais 
entidades interessadas, mediante quaisquer dos seguintes métodos ou similares:
1. Agentes de campo para prestarem assistência na instalação de agências 
estaduais de desenvolvimento de bibliotecas, bibliotecas municipais e biblio-
tecas locais e melhoria das bibliotecas existentes.
2. Publicidade especialmente através de serviços sociais rurais e do meio 
escolar.
3. Distribuição gratuita e ampla de publicações que estimulem o desen-
volvimento bibliotecário.
4. Pesquisas sobre condições e necessidades de bibliotecas, a fim de de-
senvolver programas estaduais ou locais de bibliotecas.
5. Estudo e levantamento de leis de bibliotecas e elaboração de projetos 
de uma legislação-modelo.
6. Estímulo a demonstrações e iniciativas experimentais, especialmente 
em áreas do estado e do município.
as cinco leis da biblioteconomia98
* No hinduísmo, vaso mágico ofertado por Surya, o deus-sol, a Yudhistira, e que fornecia 
alimentos de forma constante e infinita. Análogo, na mitologia grega, à cornucópia com 
que Zeus presenteou a cabra Almateia. (n.e.)
7. Estímulo à obtenção de subsídios privados como ajuda ao desenvolvi-
mento de bibliotecas. 
8. Estudos complementares sobre os problemas do desenvolvimento de 
bibliotecas.
3123 Realizações
Uma breve descrição das atividades dessa comissão de desenvolvi-
mento de bibliotecas,126 em 1929, nos dá uma ideia da seriedade com que 
o repto da Segunda Lei foi encarado. Se a quantia destinada pela comissão 
puder ser tomada como um indicador, pode-se dizer que era mais ou me-
nos 50 mil rupias além das várias subvençõesconcedidas pela Carnegie 
Corporation para determinados fins. Foi realizada uma conferência em 
Chicago e um seminário de verão na University of Wisconsin, que serviu 
de curso de revisão para agentes de campo. Do lado da publicidade, muitos 
artigos de divulgação foram publicados em revistas destinadas ao homem 
do campo, como American Farming, Prairie Farmer e Southern Planter, em 
revistas femininas, como Farmer’s Wife e Women’s Home Companion, e em 
periódicos educacionais, como Illinois Teacher, School Life e Texas Parent-
-Teacher. O total de matérias impressas e distribuídas gratuitamente entre 
a população foi de 75 670, além de muitos textos mimeografados. Seis 
exposições foram montadas e várias palestras ministradas em eventos. 
A comissão colaborou para a aprovação de legislação favorável em cinco 
estados e foram elaborados projetos de leis sobre bibliotecas em outros 
cinco estados. Conseguiu obter ajuda financeira de uma instituição filan-
trópica destinada à criação de quinze novas bibliotecas municipais e ao 
melhoramento de treze outras já existentes.
3124 Aplicação à Índia
Se o berço do moderno movimento por bibliotecas precisa de tanta 
publicidade, de tantas conferências e de tantas despesas para predispor “a 
consciência pública para a criação e o desenvolvimento das bibliotecas”, 
qual seria a necessidade de trabalho similar em nosso próprio país, onde 
o movimento por bibliotecas não passa de um nome? Não só inexiste 
aqui uma Carnegie Corporation que nos apóie, nenhum anjo com seu 
akshayapatra,* que nos dê uma interminável ajuda financeira, mas, por outro 
lado, temos o demônio da inércia, que parece ser um astuto kamarupi. Este 
monstro assume tantas formas diferentes quanto Proteu. Ora é um esnobe 
a zombar da publicidade da biblioteca, que considera vulgar, ora um cí-
nico que tenta associar todos os serviços públicos a algum motivo pessoal 
inconfessável, ou um misantropo praguejando que jamais nos sucederá 
99a segunda lei e sua digvijaya
algum bem; ora aparece como ciúme, ora como uma filosofia paralisante. 
Uma atmosfera dessas não favorece o crescimento do movimento por bi-
bliotecas. A ajuda talvez parta somente do Estado. Assim que o prestígio 
da ação do Estado clarear a atmosfera, o movimento em prol de bibliotecas 
poderá ter a oportunidade de preparar adequadamente a consciência da 
população e encontrar mais nutrientes no solo natural da opinião pública. 
313 México
Um passo para o sul nos leva ao México. Aqui, as sementes do movi-
mento por bibliotecas parece que haviam sido lançadas em solo sáfaro, até 
que a Revolução de 1910 suscitou aspirações para a cultura popular. Os 
esforços iniciais, com o objetivo de mostrar que a cultura e a educação não 
poderiam ser uma reserva fechada das classes altas, não foram, entretanto, 
eficientes, até ser criado um ministério da educação pública por lei de abril 
de 1917. Este ministério foi incumbido pelo presidente com a tarefa de 
produzir a tão necessária ‘transformação social’. Assim sendo, tentou, pela 
primeira vez, construir uma ponte sobre o fosso cultural entre as classes 
altas e as massas. Em pouco tempo, descobriu que a única ponte adequada 
seriam as bibliotecas públicas e para isso estabeleceu um departamento 
de bibliotecas em setembro de 1920. Ao verificar que a maioria da popu-
lação era analfabeta, o ministério teve que adotar métodos rápidos para 
erradicação do analfabetismo, com a ajuda do que ficou conhecido como 
‘missões culturais’.127 O trabalho desse departamento foi tão bem-sucedido, 
que o México conta atualmente com cerca de 1 500 bibliotecas populares, 
mil bibliotecas escolares, 800 bibliotecas industriais e 500 bibliotecas rurais. 
Foram distribuídos em 1927 aproximadamente 700 mil volumes para as 
bibliotecas das zonas rurais. As verbas alocadas variam conforme a situação 
do tesouro nacional. Eram de aproximadamente 700 mil rupias em 1923, 
mas de somente 60 mil rupias em 1927. O número de leitores superou a 
marca de um milhão em 1927. A seção técnica do departamento mantém 
um catálogo coletivo dos recursos bibliográficos de todo o país e publica 
uma revista bibliográfica intitulada El libro y el pueblo.
3131 Dificuldades Superadas
As dificuldades enfrentadas pelo ministério da educação nessa missão 
de ‘transformação social’ não foram poucas.
O México é um país de muitas raças, muitos climas e muitas opiniões. Da 
mesma forma, é um país de castas e classes sociais [...] Grandes distâncias e 
comunicações lentas tornam muito difícil mobilizar a opinião pública [...] O 
complexo de inferioridade do índio em relação aos europeus [...] dificulta o 
progresso de integração nacional.128
as cinco leis da biblioteconomia100
Este México tão variegado está atualmente sendo integrado pelo ministério 
da educação por intermédio da escola e da biblioteca. Algumas bibliotecas 
são mantidas pelo governo federal e outras pelos governos estaduais. O seu 
acervo de livros tem o objetivo de atender ao gosto de todos e às necessida-
des de todos. Inclui não só livros didáticos comuns, mas também manuais 
de técnicas industriais e agrícolas, bem como livros sobre ‘administração do 
lar’, conformes às necessidades locais. Conferencistas munidos de filmes e 
diapositivos são mandados até mesmo para os povoados mais remotos, a 
fim de atrair o povo para as bibliotecas. Criam-se espaços para as crianças 
destinados a estimular o hábito da leitura e o amor aos livros, antes mes-
mo que os demais hábitos se consolidem. Assim, o México mostrou o que 
pode ser feito por um punhado de técnicos, trabalhando com entusiasmo 
e devotando toda sua energia a uma tarefa cheia de obstáculos, se tiverem 
o apoio de um ministério popular que lhes seja favorável.
3132 Ajuda de Carnegie
Em 1926, a Segunda Lei induziu outro akshayapatra legado por Carnegie 
— The Carnegie Endowment for International Peace — a socorrer a veterana 
Library Association dos vizinhos Estados Unidos, dizendo-lhe “Por que não 
cruza a fronteira ao sul e ajuda a nova plantinha que está germinando em 
campos mexicanos? Eu assumo os custos.” A associação norte-americana 
aceitou, entusiasmada, essa oferta e nomeou um Committee for Library Co-
-operation with the Hispanic Peoples [comissão de cooperação bibliotecária 
com os povos hispânicos] para dedicar atenção integral a esse gesto de 
confraternização. A comissão começou sua atividade com muita serieda-
de, e com a ajuda de uma subvenção de cerca de 3 500 rupias da Carnegie 
Endowment enviou uma representação de influentes bibliotecários norte-
-americanos ao segundo congresso anual de biblioteconomia, que se reuniu 
na cidade do México em abril de 1928. Esta visita amigável foi retribuída 
por uma comitiva mexicana que assistiu à conferência de West Baden da 
American Library Association. A comitiva aproveitou ao máximo possível 
sua estada para se informar por completo sobre os métodos biblioteconômi-
cos norte-americanos. Visitaram várias bibliotecas, grandes e pequenas, e 
nenhum esforço foi poupado para que suas visitas fossem tão informativas 
e proveitosas quanto possível. Um resultado interessante de uma visita à 
Library of Congress foi o anúncio feito por seu diretor de que um conjunto 
completo das fichas catalográficas impressas desta biblioteca seria depo-
sitado na Biblioteca Nacional do México. Como a Library of Congress não 
dispunha de verba para pagar a embalagem e transporte desse precioso 
instrumento bibliográfico, o Carnegie Endowment for International Peace 
ofereceu a quantia de cinco mil rupias para tal fim, além das 10 mil rupias 
que fornecera para cobrir as despesas da comitiva.
101
* Compare-se com a influência que a mesma obra exerceu no pensamento e nas ativida-
des de Rubens Borba de Moraes voltadas para a modernização das bibliotecas públicas 
da cidade de São Paulo. Cf. O mestre dos livros: Rubens Borba de Moraes, de Suelena Pinto 
Bandeira (Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2007, p. 19-20, 24). (n.e.)
a segunda lei e suadigvijaya
3133 Manual de Biblioteconomia
Esse intercâmbio de visitas foi um estímulo para o crescimento do 
movimento por bibliotecas no México, e o problema de manter padrões 
adequados de administração tornaram-se muito sérios com esse aumen-
to rápido do número de bibliotecas. Para fazer frente a essa situação o 
Carnegie Endowment aprovou rapidamente a dotação de cerca de 12 mil 
rupias para a impressão de 5 700 exemplares do livro Las bibliotecas en los 
Estados Unidos,* do Dr. Ernesto Nelson, para distribuição gratuita entre as 
bibliotecas da América Central e da América do Sul.129 Este é um manual 
cuidadosamente redigido, que descreve os métodos de administração de 
bibliotecas adotados nos Estados Unidos. O México deu-lhe uma recepção 
cordial como uma fonte proveitosa de informação. Na verdade, a demanda 
de exemplares foi tão grande que uma segunda edição teve que ser feita 
em 1929. Assim, a Segunda Lei viu o movimento por bibliotecas crescer 
vigorosamente dia após dia entre o povo mexicano. Em decorrência de 
seu crescimento bem-sucedido junto com a difusão de escolas rurais, “um 
México diferente do que existia antes da revolução está sendo forjado”.130 
Quando a nação finalmente chegar à idade adulta, os estudantes de sua 
história descobrirão que uma grande parte do crédito pelo seu amadure-
cimento recairá sobre a missão da Segunda Lei da biblioteconomia.
314 América Central e América do Sul
O movimento por bibliotecas nas demais nações da América Latina está 
ainda em sua infância. Somente agora é que as ideias sobre a necessidade de 
difundir a educação entre as massas estão se expandindo na maioria desses 
países. Os homens e as mulheres da América Latina que têm fortuna ainda 
não se conscientizaram da necessidade e da sabedoria de fazer doações em 
dinheiro para as bibliotecas ou outras finalidades educacionais, “indo seus 
donativos preferencialmente para entidades religiosas e de caridade”.131 
Por conseguinte, o custo de manter o movimento por bibliotecas recai 
sobre os próprios governos.
3141 Ajuda dos Estados Unidos da América
A mensagem da Segunda Lei da biblioteconomia, contudo, está sen-
do lentamente difundida em todas as vinte repúblicas que constituem a 
América do Sul. O Committee for Library Co-operation with the Hispanic 
Peoples da American Library Association está estendendo a esses países a 
mesma cooperação que vem oferecendo ao México. Na conferência de 1929, 
as cinco leis da biblioteconomia102
realizada em Washington, e à qual compareceram todos os embaixadores 
da América do Sul, o embaixador da Colômbia declarou
Diante do Committee for Library Co-operation with the Hispanic Peoples 
estende-se um campo destinado a produzir uma abundante safra [...] Quem 
está a par do problema do comércio do livro reconhece depois de cuidadoso 
estudo que os Estados Unidos estão destinados a ser o centro do livro para o 
continente sul-americano [...] O Sul agora mais do que nunca precisa ler.”132
3142 União Pan-Americana
Outra importante organização que tenta levar a cabo uma difusão 
uniforme do movimento por bibliotecas na América do Sul é a União 
Pan-Americana, que foi organizada em caráter permanente por meio de 
convenção adotada por unanimidade pela Sexta Conferência Internacional 
dos Estados Americanos, realizada em 1928. Uma das funções da União 
é “contribuir para o desenvolvimento de [...] relações culturais, [...] entre 
as repúblicas americanas”, conforme está enunciado no artigo sexto da 
convenção.133 A União, que está instalada em prédio doado por Andrew 
Carnegie, trabalha em íntima cooperação com a American Library Asso-
ciation e com o Carnegie Endowment for International Peace e muito se 
espera de seu trabalho na propagação da mensagem da Segunda Lei da 
biblioteconomia em todas as vinte nações da América do Sul.
315 Feliz Aliança
Deduz-se, pelo que foi dito acima, que um fator notável que caracterizou 
a expedição encetada pela Segunda Lei no Novo Mundo foi o permanente 
auxílio daquele constante aliado, Carnegie, e suas boas ações. É muito 
difícil crer que o Novo Mundo pudesse ter arrebatado a palma na corrida 
mundial das bibliotecas se não fosse pelo serviço extraordinário prestado 
por Carnegie à missão da Segunda Lei. Por isso, talvez não seja fora de 
propósito dedicar algum espaço ao próprio Andrew Carnegie, antes de 
deixarmos o Novo Mundo.
3151 Andrew Carnegie
Filho de um tecelão escocês, de tear manual, que voltava para casa à 
noite totalmente desesperado com a dolorosa notícia, “Pois é, Andrew, não 
consigo mais arranjar trabalho”, e da filha de um sapateiro, que buscava 
melhorar as finanças da família com uma ‘confeitariazinha’ em Dunfer-
mline, Andrew Carnegie começou a trabalhar aos 13 anos, ganhando 13 
rupias por mês, como coletor de carretéis numa tecelagem dos eua,134 e, por 
fim, “emergiu das sórdidas espeluncas de Pittsburgh a distribuir dádivas 
pelo mundo afora”,135 como um aliado, enviado por Deus, da Segunda 
Lei da biblioteconomia.
103
* Um dos ancestrais de Rama, guerreiro audaz, famoso por sua incrível velocidade ao 
dirigir carros de guerra, e sua imensa generosidade, ao ponto de se dizer que ninguém 
saía de seu palácio de mãos vazias. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya
3152 Dois Carnegies
A.G. Gardiner imaginou que havia dois Andrews Carnegies coexistin-
do no mesmo corpo e com a mesma alma — o empresário que ganhava 
milhões e o filantropo que gastava milhões — sem qualquer conflito entre 
eles, e que cada um agia ao ouvir a palavra de ordem, desaparecendo quando 
a tarefa estava concluída. ‘Negócio!’, e aí surgia o rei do aço, afiado como 
uma navalha; ‘Humanidade!’, e então era o filantropo, extravasando bene-
volência. Seu incomum tino comercial, incansável industriosidade e atilada 
antevisão pemitiram a Andrew Carnegie acumular uma fabulosa fortuna.
3153 O Evangelho da Riqueza
Em seu ‘evangelho da riqueza’ (gospel of wealth), apresentado pela pri-
meira vez na North Atlantic Review de junho de 1899, afirmou:
Esta, portanto, deve ser a obrigação do homem de fortuna: um exemplo de 
modéstia, de um modo de vida sem ostentação, evitando exibicionismo ou 
extravagância; atender moderadamente às necessidades legítimas de quem 
dele dependa; e, feito isso, tratar todas as rendas excedentes que obtiver sim-
plesmente como fundos fiduciários, que lhe caberá administrar da forma que, 
a seu juízo, melhor servir para alcançar os resultados que sejam mais benéficos 
para a comunidade. Assim, o homem de fortuna torna-se um mero depositário 
e agente para seus irmãos mais pobres.136
E este seu ‘evangelho da riqueza’ o levou a doar, à maneira de Raghu,* prati-
camente tudo que economizara, “para o aperfeiçoamento da humanidade”.
3154 Carnegie Corporation
A quantia que ele doou para beneficência pública foi de mais ou menos 
dez milhões de rupias. Grande parte desta soma colossal foi entregue à 
Carnegie Corporation of New York, criada por lei do estado de Nova York, 
incorporada na forma do capítulo 297 das leis de 1911,
para promover o progresso e a difusão do conhecimento e da compreensão 
entre os habitantes dos Estados Unidos, ajudando escolas técnicas, instituições 
de ensino superior, bibliotecas, pesquisas científicas, fundos para atos de hero-
ísmo civil, publicações úteis, e outras instituições e meios que, eventualmente, 
venham a ser julgados apropriados.137
3155 Doação para a Biblioteca 
Embora tenha declarado em sua carta de doação que “nenhuma pessoa 
as cinco leis da biblioteconomia104
* Uma das três mais populares divindades do hinduísmo, junto com Ganesh e Garuda, 
cultuado por sua força física, perseverança e devoção. Entre os poderes de que é dotado 
está a capacidade de voar e mudar de tamanho. (n.e.)
prudente atrelará para sempre os fundos fiduciários a certos rumos, causas 
e instituições,”138 ele mostrou o que pensava ao fazer este adendo: “Meu 
desejo é que o trabalho que venho desenvolvendo [...] tenha continuidade 
nesta enas gerações futuras.”139 Sabe-se que o trabalho que o público associa 
ao nome de Carnegie é o que ele realizou como aliado da Segunda Lei e do 
movimento por bibliotecas em geral. Na verdade, dizia-se que “quando ele 
enfia a mão na algibeira é quase certo que dali tirará uma biblioteca”.140 
Provavelmente, no fundo da consciência, suas inúmeras contribuições 
para as bibliotecas tivessem prioridade sobre todas as outras. Ele achava 
que só havia um remédio real para os males que assolam a raça humana 
e este remédio eram as luzes do conhecimento. ‘Let there be light’ [faça-se a 
luz] era o lema que, no começo, ele insistia em colocar em todos os prédios 
das bibliotecas. Ele sinceramente acreditava ser possível fazer com que as 
luzes chegassem a cada um simplesmente fornecendo livros para todos. 
Foi por acreditar de verdade na mensagem da Segunda Lei que ele passou 
a ser um adepto tão fiel do movimento por bibliotecas e estabeleceu uma 
aliança tão bem-sucedida com a Segunda Lei.
3156 Extensão às Colônias Britânicas
Graças a uma emenda de 1917, a Carnegie Corporation of New York 
ampliou sua competência de modo que poderia possuir e administrar 
“quaisquer fundos que lhe sejam doados para uso no Canadá ou nas 
colônias britânicas com iguais finalidades [...] à semelhança da autoriza-
ção legal para aplicar seus recursos nos Estados Unidos.”141 O primeiro 
resultado dessa emenda que ampliava sua área de atuação foi a Carnegie 
Corporation levar a doutrina da Segunda Lei para o Canadá. Contudo, 
em 1928, após constatar que o ambiente norte-americano estava imbuído 
da mensagem livros para todos, a Carnegie Corporation quis levá-la 
também para o hemisfério oriental. Motivada por este anseio, dirigiu o 
olhar para oeste, a partir de sua sede em Nova York, e avaliou imediata-
mente as regiões visíveis do Velho Mundo. Primeiro, percebeu ao longe 
um minúsculo ponto vermelho que se destacava no continente europeu. 
Era o Reino Unido. Mas, ao saber que o sagaz escocês fizera um acordo 
separado e exclusivo para sua terra natal, seus olhos começaram a vas-
culhar a costa do Atlântico em busca de outro ponto vermelho. Que bom 
seria se a Índia fosse banhada pelo Atlântico! Finalmente, localizou uma 
região bem vermelha na ponta austral do continente negro. Imediatamente, 
determinou que uma comissão especial transpusesse de um salto, como 
Hanuman,* o vasto Atlântico, e voltasse logo com um projeto definido 
105
* A segregação racial na África do Sul, cujas origens remontam ao início da colonização 
europeia do território, no século xvii, foi sistematizada em lei em 1948. Somente em 1990, 
essa política — o apartheid — deixou de existir. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya
para apresentar a era da Segunda Lei àquele importante posto avançado 
do Império Britânico no hemisfério sul.
32 África do Sul
321 Carnegie Commission
Desse modo, uma comissão, formada por dois bibliotecários, um 
norte-americano e um escocês, desembarcou na Cidade do Cabo em 20 
de agosto de 1928. Percorreu o país durante três meses e constatou que 
estava totalmente possuído pela rival da Segunda Lei, ou seja, livros para 
poucos eleitos. Encontraram, é claro, 211 bibliotecas.
322 O Filtro das Assinaturas
Mas todas essas bibliotecas estavam protegidas “pela malha fina do 
filtro representado por uma libra pela assinatura”. Como consequência, 
havia uma presença mínima de leitores, de modo que as prateleiras tinham 
pouco espaço vazio, mesmo quando cada leitor tomava emprestados todos 
os livros a que tinha direito, e as bibliotecas clamavam por mais estantes. 
No entanto, se a Segunda Lei tivesse sido ouvida, muitos livros estariam 
constantemente emprestados e também haveria uma grande porcentagem 
deles sofrendo desgaste e sendo descartados, o que seria um alívio para a 
falta de espaço nas estantes. Assim, esse filtro de uma libra mantinha os 
brancos pobres à margem dos benefícios das bibliotecas. 
323 A Barreira da Cor*
Aos negros e aos pardos, que formavam a maioria da população, era 
totalmente negado o uso de livros. Os membros da comissão descrevem 
este enorme obstáculo no caminho de livros para todos em termos bas-
tante inequívocos:
O sul-africano aceita — talvez não haja outra saída — que o nativo lhe faça 
a comida, cuide dos seus filhos, arrume a casa, preste-lhe serviços pessoais, 
como buscar livros na biblioteca e devolvê-los, mas pressente que o fim desse 
regime estaria próximo se a esse criado fosse permitido abrir tais livros e lê-los 
naquele lugar.142
324 A Posição do Bibliotecário
A comissão verificou que todos os males que resultam da negação das 
primeiras duas leis da biblioteconomia existiam em abundância na União 
da África do Sul. A pessoa selecionada como bibliotecário era comumente 
as cinco leis da biblioteconomia106
“alguém da localidade que tinha as qualificações geralmente aceitas de 
amor aos livros ou necessidade de emprego”. Os leigos que formavam a 
comissão da biblioteca invariavelmente usurpavam para si a atribuição de 
desempenhar “todas as funções executivas” que geralmente são considera-
das “os motivos pelos quais os bibliotecários são capacitados, contratados 
e remunerados”. Nestas circunstâncias, “a biblioteconomia comumente 
não é considerada uma profissão, mas um mero trabalho de custódia”. O 
resultado absurdo da prevalência deste conceito de biblioteconomia é visto 
nas seguintes experiências vividas pelos membros da comissão:
Por exemplo, numa cidade relativamente grande, onde, como de costume, 
fomos recebidos com irrepreensível hospitalidade, era servido chá durante 
nossas conversas. Servido pela bibliotecária e sua assistente que, depois de 
muito bem cumpridas suas funções, retiravam-se e não eram mais vistas. Em 
outros lugares o bibliotecário nem sequer nos era apresentado, e, insistimos 
neste ponto, não por causa de qualquer intenção de falta de cortesia por parte 
da comissão.
325 Padrão Equivocado
Ademais, os membros da comissão constataram que os edifícios das 
bibliotecas eram “mal planejados, muito desconfortáveis e totalmente sem 
atrativos”. Também assinalaram que
O mobiliário é construído [...] aparentemente sem levar em conta projetos 
que deram certo em outros lugares. As estantes muitas vezes começam a uns 
60 cm acima do chão e vão até o teto, o que faz com que as escadas sejam 
imprescindíveis.
Os mesmos livros eram encontrados em todas as bibliotecas, mas nenhum 
havia sido lido. Esta tendência de cada biblioteca adquirir todos os livros 
que seus leitores pudessem ocasionalmente solicitar, com total negligência 
pela cooperação e coordenação bibliotecária, levou a um triste desperdício 
de dinheiro, imobilizou recursos em livros improdutivos e impossibilitou 
que as pessoas tivessem acesso a importantes obras especializadas que 
teriam uma influência direta na superação do subdesenvolvimento do país.
326 Bibliotecas Universitárias
Verificou-se que as bibliotecas universitárias haviam sido as que mais 
sofreram, devido à inexistência de um patrocínio forte da Segunda Lei. 
Os membros da Comissão registraram que
As universidades de Pretória e de Grahamstown têm menos livros do que seria 
razoável esperar encontrar numa boa escola secundária nos Estados Unidos. 
[...] A bastante ambiciosa universidade do Witwaterstrand, em Joanesburgo, 
107a segunda lei e sua digvijaya
oferece o exemplo único de uma instituição de ensino superior sem biblioteca 
e sem bibliotecário. [...] Classificação, catalogação e aqueles recursos auxiliares 
para utilização dos livros, que são hoje considerados parte essencial de uma 
biblioteca universitária, ou inexistem ou são executados de maneira medíocre. 
Há uma carência desesperada de pessoal e é quase geral a falta de pessoal com 
formação bibliotecária [...] Os livros são guardados debaixo de chave.
327 Aplicação à Índia
Esta longa transcrição das observações feitas pelos membros da co-
missão se deve a que parece descrever as condições da Índia com grande 
precisão.A esperança de que as críticas feitas pelos membros da comissão 
a essas condições possa, talvez, abrir os olhos daqueles que têm a ver com 
a administração e a manutenção de bibliotecas na Índia é a única justifica-
tiva para essa digressão tão longa. Voltando ao objetivo principal deste 
capítulo, indaguemos como a Carnegie Commission preparou o terreno 
para a penetração fácil e certa da Segunda Lei na União da África do Sul.
328 Recomendações da Comissão
As viagens da comissão pelo país permitiram que a mensagem da 
Segunda Lei fosse levada às comissões de bibliotecas, especialmente às 
autoridades escolares, às autoridades do governo e, em suma, a qualquer 
pessoa ou entidade que pudesse ser convencida a parar e ouvir. Com raras 
exceções, as pessoas envolvidas reconheceram os erros de seus projetos e 
muitas vezes se mostraram espantadas pelo fato de não os terem notado 
antes. Quando o trabalho da comissão culminou na conferência realizada 
em Bloemfontein, de 15 a 17 de novembro de 1928, o peso morto de livros 
para os poucos eleitos foi sepultado, sem choro nem vela, e as únicas 
discussões havidas diziam respeito a detalhes no pressuposto de que à lei 
livros para todos estava assegurada a posse da terra e, de fato, um projeto 
foi finalmente preparado com o toque usual da Carnegie.
1. Recomendou-se ao governo da União da África do Sul que reconhecesse 
a necessidade de estimular todos os escolares no hábito da leitura, ministrando-
-lhes orientação sobre o uso dos livros, e que reconhecesse que o fornecimento 
de recursos de bibliotecas constitui uma despesa legítima da receita pública 
do Estado, para que os serviços educacionais financiados pelo Estado possam 
ser eficientes e proporcionar um retorno justo e duradouro das quantias neles 
despendidas.
2. O governo da União e a Carnegie Corporation deveriam cada um contri-
buir com uma quantia anual de 1 070 000 rupias por um período determinado, 
depois do qual a Corporation se retiraria aos poucos e finalmente iria para 
outros países, ficando o governo com responsabilidade integral.
3. O projeto da biblioteca nacional deveria consistir num centro principal, 
seis centros secundários, diversos centros menores e um sem-número de pontos 
as cinco leis da biblioteconomia108
de atendimento espalhados pelo país, em escolas de vilas, delegacias de polícia, 
agências de correios, albergues da juventude, e assim por diante.
4. Deveriam ser feitas representações à South African Railways e ao General 
Post Office para que colaborassem no desenvolvimento de um serviço gratuito 
de bibliotecas mediante o transporte gratuito de livros.
5. Os livros deveriam ser fornecidos a todos, independentemente da cor da 
pele.
6. Deveria ser formada uma associação de bibliotecários para manter pa-
drões profissionais adequados e para propagar o movimento por bibliotecas.
7. Deveria ser proposta uma legislação bibliotecária adequada para estabe-
lecer a autoridade da Segunda Lei em base permanente.
8. E, em último lugar, mas não menos importante, a comissão recomendaria 
que “é altamente desejável que um diretor ou um supervisor assuma o cargo” 
imediatamente para planejar a elaboração adequada do projeto junto com o 
National Library Board.
A comissão enfatizou a enorme importância do passo inicial mencionado 
por último com as palavras
Se os recursos financeiros da Corporation e os da União forem desperdiçados 
ou se se transformarem em sementes douradas que produzirão safras abun-
dantes ano após ano dependerá em grande medida destes primeiros princípios 
de cultura biblioteconômica.
3281 Produção de Livros
Antes de deixar a União da África do Sul, as condições atuais do mundo 
do livro na Índia exigem que se faça uma menção especial de uma medi-
da de importância de longo alcance tomada pela Carnegie Corporation 
a pedido da comissão. A Corporation fez uma doação de cerca de 26 mil 
rupias a uma editora do país para capacitá-la a aumentar a quantidade 
e aperfeiçoar a qualidade bibliográfica dos livros impressos nas línguas 
indígenas bantu.
3291 África Oriental
A Carnegie Commission fez recomendações similares para abrir o 
caminho para a entrada da Segunda Lei nas colônias das Rodésias e do 
Quênia. Mas, podemos saltar as partes restantes da África.
33 Europa Oriental
A explosão de entusiasmo que caracterizou a recepção da Segunda Lei 
depois da Primeira Guerra Mundial em todos os países importantes da Eu-
ropa é bastante inequívoca. Isso foi devido, em grande parte, à luz sinistra 
que a fornalha abrasadora da Grande Guerra lançou sobre os resultados 
fatais da oferta de oportunidades desiguais para a autoeducação, sob o 
109a segunda lei e sua digvijaya
feitiço das antiquadas gêmeas, educação para os poucos eleitos e livros 
para os poucos eleitos. Os ideais democráticos e as aspirações sociais gera-
dos por essa conflagração levaram ao banimento dessas duas fomentadoras 
de discórdia, na companhia de algumas das cabeças coroadas da Europa 
central e oriental. O novo movimento mental das jovens nações que fazia 
pouco haviam se libertado de um longo período de repressão parece ter-se 
espalhado também nos países mais antigos e nos países neutros. Parece 
que todos competiram entre si para fazer, o mais rápido possível, os pre-
parativos para a recepção em seu meio da Segunda Lei da biblioteconomia. 
Novas leis foram aprovadas e leis antigas foram emendadas para que sua 
mensagem fosse cumprida com a menor demora possível. livros para 
todos foi um dos clamores que rasgaram o céu europeu na década que se 
seguiu ao Tratado de Versalhes. Mas a maneira como o Movimento por 
Bibliotecas construiu seu caminho variou de um país para outro.
331 Grécia
Não precisamos nos deter na desgastada Grécia que nos recebe em sua 
glória desbotada, ao cruzarmos o mar Mediterrâneo. 
332 Bulgária
O veículo que ela adotou no primeiro país a que chegamos em nosso 
caminho rumo ao norte a partir da Grécia reveste-se de um significado espe-
cial para a Índia. Parece que a Bulgária nos mostra como deitar vinho novo 
em odres velhos. Ela possuía uma antiga instituição peculiar, denominada 
chitalista, que “é uma espécie de biblioteca combinada com as atividades 
de um teatro, cinema, salão social (centro comunitário) e biblioteca”.143 Esta 
respeitável instituição, muito estimada pelo povo, é o agente selecionado 
para distribuir livros para todos. As incontáveis conferências que organiza 
sobre assuntos de interesse atual, como higiene, agricultura, sociologia, 
ciência, religião, etc., levam à popularização dos livros, especialmente 
entre os jovens. O ministro da educação, que é um grande entusiasta das 
bibliotecas, conseguiu a aprovação de uma lei em 1928, que resultou no 
rápido crescimento do número de chitalistas, que já haviam chegado perto 
de 1 984. Ademais, nomeou uma supervisora de bibliotecas e a mandou 
para a Inglaterra e Estados Unidos para receber treinamento. Ela participa 
do conselho nacional de educação.144 O conhecimento especializado e o 
entusiasmo ilimitado desta supervisora de bibliotecas mostram que há 
representantes competentes da Segunda Lei na sua expedição pela Bulgária.
333 Romênia
O vizinho ao norte da Bulgária, a Romênia, também adotou plano 
similar. Ao chegar a oportunidade de hospedar a Segunda Lei, ela facil-
as cinco leis da biblioteconomia110
mente adaptou suas astras e atheneums para esta finalidade. Estas antigas 
instituições parece que se adaptaram imediatamente à ideia da biblioteca 
moderna, como peixe na água. A astra, que é sigla da associação de lite-
ratura e cultura romenas, realiza cursos de alfabetização, organiza círculos 
de estudo e mantém bibliotecas. Tem a seu crédito em torno de três mil 
bibliotecas. As dificuldades financeiras experimentadas pelo ministério da 
educação levaram-no a confiar grandemente nestas antigas instituições e 
em doações de particulares para a difusão da mensagem da Segunda Lei.
3331 Dois Coelhos com Uma Cajadada
As dificuldades financeiras tambémlevaram o ministério da educação 
a adotar outra medida interessante, que talvez valha a pena empregar em 
nosso país, onde, de província em província, o responsável pelas finanças 
traz à baila o espírito do mal dos compromissos financeiros, sempre que se 
suscita a questão de uma lei de bibliotecas públicas. Parece que o ministério 
da educação da Romênia tentou matar dois coelhos com uma cajadada. As 
oito mil e poucas bibliotecas escolares, que possuem mais de um milhão 
de volumes, criadas nos últimos anos, foram abertas ao público em geral. 
A economia na administração e o uso intensivo dos recursos bibliográficos 
advindos desta medida proporcionariam um grande alívio financeiro à 
maioria de nossas províncias por muitos e muitos anos.
3332 Retorno ao Analfabetismo
Outra grande lição que a experiência da Romênia nos ensina é a inuti-
lidade e o desperdício resultantes de um projeto de educação compulsória 
que não adote ao mesmo tempo a oferta de livros que são necessários 
para preservar e exercitar a alfabetização que custa tão caro. Apesar de a 
Constituição de Cuza, de 1866, ter incluído um capítulo sobre a educação 
compulsória gratuita, o censo de 1899 revelou “que 78% da população 
acima de sete anos de idade não sabem ler nem escrever, enquanto o nú-
mero de mulheres analfabetas atinge 90%.”145 Tal era o estrago causado 
pelo retorno ao analfabetismo devido à ausência de serviço de bibliotecas. 
Portanto, pode-se ver que somente o mais inconsequente guardião das 
finanças públicas é que dirá, “disponho apenas do dinheiro suficiente 
para a educação obrigatória, mas nenhum para o serviço de bibliotecas”.
334 Iugoslávia
As três novas nações da Europa central que formam os vizinhos oci-
dentais da Romênia abraçaram o moderno movimento por bibliotecas com 
grande entusiasmo. Em cada um destes países, os ministérios da educação, 
desde o princípio, compreenderam que sua obrigação fundamental era 
permanecer no campo da erradicação do analfabetismo e da instalação 
111a segunda lei e sua digvijaya
de bibliotecas públicas, a fim de preservar a alfabetização adquirida. Na 
Iugoslávia, por exemplo, foi criado um departamento especial no ministé-
rio da educação com o objetivo de desenvolver este novo instrumento de 
educação popular. O departamento já organizou mais de mil bibliotecas 
de vilas146 e aproximadamente 700 cursos para analfabetos, nos quais cen-
tenas de homens e mulheres aprendem a ler e escrever. Os acervos destas 
bibliotecas de vilas incluem não só livros destinados à recreação, mas tam-
bém os destinados aos ‘afazeres domésticos’, de forma que os aldeões, ao 
lê-los, possam levar uma vida mais feliz, mais asseada e mais inteligente.
335 Hungria
Na Hungria, as coisas ainda não assumiram uma forma final. Ela 
ainda é muito pobre para oferecer livros para todos, pois ainda não se 
recuperou por completo das consequências da guerra, da revolução e do 
desmembramento do país. Ainda assim, a Segunda Lei faz o possível nesse 
país. O ministro da educação iniciou, em 1923, uma minuciosa pesquisa 
sobre as necessidades e os recursos para uma eficiente educação popular. 
Como resultado disso, foi redigido o projeto de uma lei de educação de 
adultos. O terceiro capítulo do projeto trata do movimento por bibliotecas. 
Torna obrigatória para as vilas e cidades a criação de bibliotecas. Prevê-se 
também em localidades muito pequenas e pobres, que não possam man-
ter uma biblioteca própria, que sejam servidas por bibliotecas itinerantes 
mantidas pelos conselhos municipais e ajudadas pelo Estado. 
336 Tchecoslováquia
Mas o maior sucesso alcançado pela expedição da Segunda Lei somente 
foi acontecer na Tchecoslováquia. Tão logo conseguiu livrar-se das garras 
da Áustria — um nome que significava para ela “qualquer mecanismo 
que pudesse matar a alma de um povo, corrompê-la com um mínimo de 
bem-estar material, privá-la da liberdade de consciência e de pensamento, 
minar-lhe o vigor, quebrar-lhe a tenacidade e desviá-la da busca do seu 
ideal”147 – os ensinamentos de Palacky, um dos que a ‘despertaram’, logo 
acorreram à sua mente. Um desses ensinamentos era “somente pela edu-
cação é possível encontrar o caminho da salvação”,148 sendo a educação 
interpretada não apenas como colocar as crianças na escola, mas como um 
processo de toda a vida. Esta educação significava oferecer livros para 
todos e, portanto,
Mesmo com todos os problemas de uma nova nação a enfrentar, a Tchecos-
lováquia tornou o serviço de biblioteca pública compulsório nas cidades e 
vilas pela lei de julho de 1919. Às povoações muito pequenas foram dados 
dez anos de moratória. Em 1929, o atendimento do serviço de bibliotecas era 
quase universal.149
as cinco leis da biblioteconomia112
* Antiga moeda divisionária equivalente a 1/16 da rupia. (n.e.)
3361 Legislação Bibliotecária
As disposições da lei foram redigidas com a maior atenção pelos deta-
lhes de ordem prática. Estabeleceu um sistema hierarquizado de bibliotecas. 
As comunidades com mais de 10 mil habitantes teriam um bibliotecário 
formado, a biblioteca teria todos os departamentos de uma biblioteca 
pública que seriam abertos todos os dias. Em comunidades menores, 
alguns departamentos podem ser dispensados, a biblioteca pode fechar 
alguns dias da semana e seria empregado como bibliotecário alguém que 
tivesse feito apenas um curso rápido de um mês de biblioteconomia. Em 
pequenos povoados, o professor poderia administrar a biblioteca com o 
auxílio de um manual prático, fornecido pelo ministério da educação. As 
despesas das bibliotecas são normalmente cobertas com o pagamento de 
taxas especiais locais. As comunidades mais pobres, entretanto, recebem 
ajuda do ministério da educação na forma de doação de livros adequados. 
O ministério deve também manter uma escola de biblioteconomia com o 
objetivo de formar a criação de um corpo de profissionais competentes 
que façam com que seja cumprida a Segunda Lei e realizem inspeções 
periódicas nas bibliotecas, a fim de que mantenham padrões adequados. 
3362 Realização
Como resultado dessa lei bibliotecária cuidadosamente elaborada, o 
número de bibliotecas subiu de 3 400 em 1920 para 16 200 em 1926. Existe, 
em média, uma biblioteca para cada 894 habitantes e 44 livros para cada 
100 habitantes. O número de leitores permanentes da população total cres-
ceu 7,1%, e o número médio de livros lidos por leitor por ano é de 18,3.150
3363 Aplicação a Madras
A superfície da Tchecoslováquia compara-se à do estado indiano de Tamil 
Nadu, embora sua população seja equivalente a quase dois terços da dos 
tâmeis. Donde não se poder dizer que uma comparação entre os dois países 
seja injusta. A Tchecoslováquia não acha exorbitante uma despesa anual de 
15 milhões de rupias com bibliotecas públicas.151 Na verdade, acaba sendo 
menos de dois anás* per capita. Nota-se a grande importância por ela atribu-
ída às bibliotecas quando se compara este montante gasto com bibliotecas 
com a despesa total anual do Estado, que gira em torno de 10 bilhões de 
rupias.152 Ora, a despesa anual de Madras é de cerca de 17 bilhões de rupias.153 
Tem-se a curiosidade de indagar qual é a despesa pública total de Madras 
com bibliotecas. Seria de pelo menos um milhão de rupias? Enquanto a 
Tchecoslováquia gasta quase 1,5% de sua receita com bibliotecas públicas, 
Madras não reserva nem 0,05% para serviços de bibliotecas.
113a segunda lei e sua digvijaya
3364 Minoria Linguística
Outra característica que a Tchecoslováquia compartilha com nossa 
terra é a heterogeneidade do seu povo. São várias as raças que o formam 
e que falam diferentes línguas. Entretanto, ela tem demonstrado que estas 
características não têm necessariamente que ser vistas como um obstácu-
lo no caminho do cumprimento das determinações da Segunda Lei. Na 
verdade, ela enfrentou a situação por meio de um generoso dispositivo 
da lei de bibliotecas, que estipula que cada comunidade onde houver uma 
minoria étnica formada por pelo menos400 pessoas, deve contar com 
uma biblioteca pública especial própria, cuja comissão administrativa será 
formada unicamente por membros dessa comunidade. Os interesses das 
comunidades, cujo número não atinja esse mínimo, devem ser levados em 
conta pela biblioteca principal da comunidade, na sua seleção de livros.
3365 Produção de Livros
Outro exemplo relevante que nos é dado pelo governo da Tchecoslová-
quia está no interesse com que estimula a produção de livros adequados 
para o uso das bibliotecas. O Sr. T.G. Masaryk, o primeiro presidente e, 
em certo sentido, o criador da Tchecoslováquia, criou um fundo de cerca 
de quatro milhões de rupias para a instituição de uma organização semi-
pública “em relação estreita com os órgãos centrais do Estado” para dirigir as 
atividades culturais da nação. Foi denominada, apropriadamente, instituto 
Masaryk e funciona desde abril de 1925. Uma de suas atividades é fornecer
livros que sejam adequados e em condições vantajosas para as bibliotecas 
[...] Mediante questionários especialmente projetados, o instituto estuda a 
psicologia do leitor, e o poder e a influência da palavra impressa [e] interessa-
-se em encontrar bons livros para os jovens, para as bibliotecas escolares e a 
juventude em geral. Publica uma revista mensal de recensões, Unor, dirigida 
especialmente à literatura para a juventude, edita listas de livros recomendados 
para jovens leitores e organiza todos os anos exposições de material de leitura 
apropriado para os jovens.154
Este é um exemplo admirável de tudo o que será feito para promover o 
movimento por bibliotecas, por parte de um Estado que sinceramente 
acredita na mensagem da Segunda Lei.
337 Polônia
Agora, um passo mais ao norte nos leva à Polônia — a perseguida 
Polônia — que recuperou sua plena liberdade somente depois da Grande 
Guerra. No momento em que a Polônia recuperou a independência polí-
tica em 1918 e “a nação polonesa reunificada recuperou o controle de seu 
destino, a causa da educação tornou-se uma das principais preocupações 
as cinco leis da biblioteconomia114
da sociedade e do Estado polonês renascido”.155 Nas etapas iniciais, mui-
tas instituições voluntárias, como a sociedade das bibliotecas populares 
[Towarzystwo Czytelni Ludowych] e a sociedade de educação popular 
[Towarzystwa Oświaty Ludowej], ganharam destaque e carregaram a tocha 
do movimento por bibliotecas com disposição e entusiasmo. A primeira 
delas é responsável pelo estabelecimento de cerca de 1 300 bibliotecas, en-
quanto a segunda tem a seu crédito cerca de 500 bibliotecas fixas e cerca de 
800 bibliotecas itinerantes. Os governos locais também estão fazendo a sua 
parte. A cidade de Lodz, por exemplo, tem uma biblioteca para adultos e 
cinco bibliotecas infantis. Estas bibliotecas são também centros de trabalho 
educativo realizado sistematicamente por meio de conferências populares 
e leituras ilustradas com música e imagens. Em muitas bibliotecas infantis 
estão sendo introduzidos o autogoverno e a autogestão.
3371 Legislação Bibliotecária
O Estado percebeu, a esta altura, que as organizações voluntárias eram 
muito inadequadas para atender às necessidades do país em matéria de 
bibliotecas e que as determinações da Segunda Lei só podiam ser ade-
quadamente cumpridas por meio de uma legislação. Um projeto de lei de 
bibliotecas, recentemente elaborado, torna compulsória em cada comu-
nidade a instalação de uma biblioteca, enquanto as povoações menores 
serão servidas por bibliotecas itinerantes supridas pela biblioteca central 
do município. Os recursos financeiros necessários serão obtidos com o 
pagamento de uma taxa especial para as bibliotecas. A associação dos 
bibliotecários poloneses, em Varsóvia, está fazendo todo o possível para 
aprovar esta lei. Quando isso ocorrer, haverá cerca de 15 mil bibliotecas156 
e a Segunda Lei vigorará para sempre na Polônia.
338 Rússia Soviética
Um passo para o leste nos faz chegar à Rússia, esse vasto território que 
abrange dois continentes. Como certo grau de ceticismo parece ocultar-se 
nas mentes das pessoas sobre acontecimentos recentes na Rússia Soviética, 
talvez seja interessante começar a descrição das grandes conquistas da 
Segunda Lei nessa terra misteriosa por meio da transcrição da opinião 
esclarecedora e honesta de um observador imparcial, o professor Paul Mon-
roe, diretor do International Institute, do Teachers’ College da Columbia 
University, com base em suas experiências de uma estada recente entre 
os russos. Seu relato sobre como a lei livros para todos está se espalhan-
do pelos rincões mais remotos da Rússia encontra-se na seção intitulada 
‘The village culture centre, cottage library or the people’s house’ [O centro 
cultural da vila, cabana-biblioteca ou casa do povo], num artigo publicado 
em International Conciliation:
115a segunda lei e sua digvijaya
A população rural e dos povoados, desinteressada em teoria e desinformada, 
é a mais difícil de alcançar. Um instrumento criado para a educação dos cam-
poneses é a ‘cabana-biblioteca’ também chamada centro de cultura ou casa do 
povo. Reserva-se um local para o uso cultural da pequena comunidade. Ali se 
encontram alguns livros, muitos folhetos, jornais e cartazes. Grande parte da 
educação da população é feita com auxílio de cartazes, produzidos pelo go-
verno central e outras instituições. Referem-se a grande variedade de assuntos: 
puericultura, causas das doenças e especialmente de infecções; propaganda 
contra moscas, mosquitos, tênias e outras infecções ou portadores de infecção. 
Há cartazes sobre o uso de maquinaria agrícola, seleção de sementes, métodos 
de fertilização e cultivo da terra, como a aração profunda; cartazes contra o 
alcoolismo e contra a religião, religiões estrangeiras, relações externas e sobre 
todos os princípios comunistas. Estas cabanas-bibliotecas são sempre utilizadas 
para as reuniões dos camponeses à noite [...] Muitos desses centros culturais 
possuem rádio, e a transmissão recebida de Moscou é excelente. 
 A maioria dos centros conta com um pequeno palco para apresentações 
teatrais e funciona como local de recreação. O teatro é um dos métodos apro-
vados de instrução e entretenimento.
 As cabanas-bibliotecas são dirigidas por comissões, cada uma incumbi-
da de uma atividade específica. Neste trabalho encontra-se também uma das 
principais agências educacionais para a melhoria da situação dos adultos. Uma 
forma muito popular de apresentação é a dramatização de notícias da semana 
por grupos escolhidos. 
 Neste centro também se reúnem os comitês incumbidos dos vários inte-
resses da vila e de seu governo: saúde, agricultura, escolas, estradas, relações 
com o governo do município ou do distrito, educação e propaganda comunista, 
organizações de jovens comunistas, etc. 
 A questão da extensão das atividades de bem-estar e educacionais apa-
rece novamente em conexão com estas instituições, bem como com as escolas. 
Posso apenas oferecer minha própria experiência. No distrito de Leninakan, a 
mais de 3 200 quilômetros de Moscou, que visitei, existem 201 vilas. O governo 
do distrito relata que em 65 delas havia instalado centros de cultura; que 65 
outras vilas instalaram estes centros por sua própria iniciativa; deixando mais 
ou menos um número semelhante ainda não atingido. Pessoalmente visitei 
seis vilas. Todas tinham escolas; todas tinham cabanas-bibliotecas.157
3381 Proclamação de Lenin
Na verdade, tão logo a Nova Rússia emergiu da Revolução de Outubro, 
o espírito de educação para todos baixou sobre ela com a velocidade de 
uma águia em companhia da Segunda Lei da biblioteconomia. A Rússia 
absorveu profundamente o conceito de Pestalozzi de educação social como
o retoque num elo de uma grande corrente, que une toda a humanidade num 
todo único; e os erros na educação e na orientação das pessoas, em sua maioria, 
resultam de que alguns elos são isolados da corrente e se começa a filosofar 
sobre eles como se apenas eles existissem e, na qualidadede elos, não repre-
sentassem a propriedade de toda a corrente.158
as cinco leis da biblioteconomia116
* Acrônimo de rabotchi fakultet, ‘faculdade para trabalhadores’. Escolas que preparavam 
operários e camponeses para o ensino superior, na União Soviética 1920. (n.e.)
Lenin proclamou, no congresso pan-russo de trabalhadores sobre cultura 
para o povo de 1921: “É preciso lembrar que um povo analfabeto e sem 
cultura não pode vencer.”Afirmava que “a menos que as massas sejam 
educadas, será impossível chegar a uma verdadeira melhoria de seu bem-
-estar econômico, será impossível haver cooperação e será impossível uma 
vida política autêntica.” Portanto, o primeiro fato para o qual a energia do 
novo governo se voltou foi o analfabetismo e a ignorância alarmante do 
povo. “Segundo o censo de 1920, 68% da população da União Soviética 
eram analfabetos [...] Uma das nossas tarefas primárias foi consequente-
mente a abolição do analfabetismo. Em torno de 1933–1934, todo cidadão 
da União Soviética deverá ser capaz de ler e escrever.” Nas palavras do 
reitor da universidade estatal de Moscou, esta decisão fora tomada.159
3382 Serviço aos Neoalfabetizados
Deste modo, a educação imediata da população adulta tornou-se uma 
parte muito importante do trabalho do comissariado da educação. O tra-
balho envolveu a criação de
centros de erradicação do analfabetismo; clubes político-culturais e salas de 
leitura (recantos de Lenin); casas de operários e camponeses; bibliotecas fixas e 
itinerantes; centros e revistas de autoeducação [...] trabalho de propaganda (in-
clusive quadros vivos, peças teatrais, etc.) para campanhas especiais [...] Quem 
aprende rápido ajuda o vagaroso; os semialfabetizados ajudam os analfabetos 
[...] Tão logo conseguem ler um pouco são estimulados, como semialfabetizados, 
a frequentar a sala de leitura local instalada numa isba ou num clube, e depois 
a biblioteca. Depois de seis meses desse trabalho, instala-se uma escola para 
preparar os mais capacitados para ingresso numa rabfak.*160
3383 Realizações
O décimo aniversário da Revolução de Outubro foi uma oportunidade 
para fazer um levantamento das realizações alcançadas ao longo desse 
período pela expedição feita pela educação para todos e livros para 
todos na Rússia. Constatou-se que aproximadamente
dez milhões de pessoas aprenderam a ler e escrever [...] O número de bibliotecas 
fixas cresceu de 4 640 para 6 414, de bibliotecas itinerantes urbanas, de 3 054 
para 25 579, e de itinerantes de vilas, de 3 167 para 4 343 [...] Na República 
Russa, em 1926, havia 7 250 círculos, nos quais estudavam 120 mil pessoas.161
O anuário mais recente de que dispomos menciona 46 759 escolas de 
alfabetização e 50 000 bibliotecas itinerantes.162
117a segunda lei e sua digvijaya
3384 Revista para Neoalfabetizados
A difusão fenomenal do movimento por bibliotecas resultou num 
gosto tão disseminado pela leitura que frequentemente se encontra uma 
sala de leitura até mesmo nos saguões dos cinemas, onde o público espera 
pela próxima sessão. Para satisfazer a paixão pela leitura, manifestada por 
quem acaba de se libertar das garras do analfabetismo, é publicada uma 
revista mensal “intitulada Doloi Negramotnost [Abaixo o analfabetismo]; 
o uso generoso de ilustrações e diagramas no texto permite oferecer ar-
tigos elementares sobre questões políticas e econômicas àqueles que mal 
começam a dominar a técnica da leitura”.163
3385 Produção de Livros
As atividades do serviço de publicações da União Soviética ilustram o 
papel que o Estado deve desempenhar na reconstrução de um país como 
o nosso, onde o divórcio de mais de meio século entre a intelectualidade 
e a língua materna enfraqueceu esta de tal forma que as massas ignoram 
profundamente as transformações recentes no mundo científico, econô-
mico, político e cultural. A União Soviética desenvolveu uma instituição, 
que são os correspondentes bibliográficos nas vilas:
Estes correspondentes surgiram em resposta à conscientização por parte dos 
camponeses do papel que o livro desempenha. A missão do correspondente 
bibliográfico é manter o serviço de imprensa oficial do país informado sobre 
os tipos de livros que foram mais úteis para os camponeses, muitos dos quais 
estão apenas começando a ler, as ilustrações que se mostraram mais eficazes, 
os assuntos para os quais há carência de livros, etc. Este é só o começo do tra-
balho de nossos correspondentes bibliográficos para difusão de livros na vila.164
A preparação sistemática de materiais de leitura para crianças está também 
nos primeiros estágios de progresso.
3386 Aplicação ao Caso de Madras
Este interesse profundo e vigoroso que o Estado soviético vem dedican-
do à produção dos livros necessários para que cada um receba seu livro, 
de acordo com os requisitos da Segunda Lei, estão em nítido contraste 
com as condições predominantes em nossa própria terra. A Madras Library 
Association verificou as graves dificuldades vividas por sua comissão de 
seleção de livros em tâmil por causa da escassez de livros nesta língua 
sobre temas atuais. O conselho da associação afirmou:
A situação atual de nosso país exige de forma imperativa que nossas biblio-
tecas promovam a circulação em grande quantidade de livros de teor infor-
as cinco leis da biblioteconomia118
mativo. Mas, como foi observado, há muito poucos desses livros em tâmil [...] 
Sem dúvida, a lei da oferta e da procura determinará a solução também deste 
problema. Entretanto, a comissão reconhece que o estabelecimento de um 
número considerável de bibliotecas públicas contribuiria grandemente para 
formar a necessária procura.
O conselho também apela ao governo e às universidades da província para 
que estimulem ativamente a criação da necessária oferta durante as etapas 
iniciais. Este é um dever legítimo e fundamental do Estado, que é responsável 
pelo bem-estar geral dos cidadãos, e das universidades, que têm como uma de 
suas funções principais a disseminação do conhecimento. De qualquer forma, 
as dificuldades nas etapas iniciais são muito grandes para serem superadas por 
qualquer instituição que não seja o Estado e as universidades. As experiências 
de outros países em circunstâncias similares tendem a confirmar esta opinião.165
3387 Resistência do Governo
As universidades poderiam desculpar-se dizendo que a produção de 
conhecimentos, ao invés da disseminação, constitui seu dever fundamental 
e que, como ainda não cumpriram sequer esse dever fundamental, por es-
tarem permanentemente envolvidas na roda-viva dos exames, não haveria 
perspectiva próxima para desenvolver o lado da extensão. O ministro das 
finanças do governo, que parece ter ficado assustado com a provável conta 
de lucros e perdas anuais de tal aventura, não se deixou convencer e disse 
que a “associação entre a responsabilidade do Estado pelo bem-estar geral 
de seus cidadãos e a promoção da edição de livros adequados para uso 
desses cidadãos é mais retórica do que comprovada”.166
3388 Instruindo as Autoridades
Em tais circunstâncias, a Segunda Lei da biblioteconomia terá que 
desenvolver intenso trabalho de doutrinação nos gabinetes ministeriais e 
nos claustros acadêmicos para instruir, em primeiro lugar, os que ocupam 
altas posições e os que possuem alto nível intelectual, sobre as experiências 
por que passou em outras nações progressistas, antes que possa alimentar 
a esperança de oferecer a cada indiano o seu livro.
34 Escandinávia
341 Finlândia
Voltemo-nos agora para o oeste e examinemos a Finlândia e sua hos-
pitalidade para com a Segunda Lei. Algum apressado indagaria, “O que 
essa terra fria e distante, escassamente povoada e pouco conhecida, tem 
para nos ensinar?” Não há dúvida que a Finlândia fica muito distante. 
Na verdade, encontra-se em grande parte dentro do círculo ártico, o que, 
sem dúvida, a torna terrivelmente fria. Ela nem mesmo vê o sol durante 
vários dias do ano. É também muito esparsamente povoada. Com uma 
superfície aproximadamentedo tamanho da nossa província, tem apenas 
119a segunda lei e sua digvijaya
três quartos da população do nosso distrito de Malabar. Mas, se é pouco 
conhecida, não é culpa dela, que não nos impede de conhecê-la. Entretanto,
Ninguém que conheça algo dos finlandeses negará que formam a nação mais 
bem-educada do mundo. Nem a Alemanha, nem os Estados Unidos podem 
reivindicar igualdade com eles a respeito disso [...] O amor ao saber assim 
estimulado tem permanecido como uma característica proeminente do caráter 
finlandês até os nossos dias e é em parte responsável pelo progresso desse 
povo. São muito poucos os membros das classes menos privilegiadas que não 
sabem ler.167
Na verdade, sabe-se que, em 1920, somente 0,7% das pessoas que tinham 
completado 15 anos de idade não sabiam ler, nem escrever.168
3411 Lei das Bibliotecas
Mesmo nos séculos de sua sujeição ao jugo estrangeiro, a Finlândia 
se dera conta da sensatez de obedecer à Segunda Lei da biblioteconomia. 
Entretanto, até conquistar sua independência em 1917, a língua finlandesa 
fora substituída por um idioma estrangeiro. Foi somente depois da Primeira 
Guerra Mundial que, livre desse ônus, a língua nacional recuperou seu 
lugar legítimo e que houve um crescimento acentuado do número de livros 
que serviam às necessidades dos trabalhadores agrícolas e industriais, e 
agora não há escassez de materiais de leitura, tanto científicos quanto de 
outras áreas como a educação.169 Ademais, até se libertar de seus senhores 
estrangeiros, as poucas bibliotecas, separadas por grandes distâncias, só se 
ligavam graças ao trabalho voluntário da associação finlandesa de bibliote-
cários [Suomen Kirjastoseura]. Mas, por lei executiva de 1921 e depois pela 
lei de bibliotecas de abril de 1928, o Estado tomou sob sua responsabilidade 
o fomento ao movimento por bibliotecas. 
3412 Realizações
Essa lei colocou todas as bibliotecas sob a direção de uma comissão na-
cional de bibliotecas, presidida por um membro do ministério da educação. 
O órgão executivo desta comissão é a repartição nacional de bibliotecas, 
administrada pelo diretor de bibliotecas. Esta repartição faz propaganda 
das bibliotecas, capacita bibliotecários, publica instrumentos bibliográficos 
e aperfeiçoa de todas as formas possíveis os métodos bibliotecários. Por causa 
do seu trabalho de fomento, 537 comunidades rurais da Finlândia são agora 
servidas por quase mil bibliotecas. De suas 38 cidades e 18 províncias, cerca 
de 80% têm bibliotecas públicas próprias. Sua cidade principal, Helsinque, 
que tem uma população de 227 375 habitantes, empresta mais de 700 mil 
volumes por ano.
as cinco leis da biblioteconomia120
* Antiga moeda divisionária, a menor delas, que equivalia a 1/192 de uma rupia. (n.e.)
3413 Financiamento das Bibliotecas
A lei de bibliotecas estabelece uma taxa para custear as bibliotecas, que 
normalmente chega a cerca de seis pies* por habitante. Mas uma caracte-
rística importante, que nos interessa, pois nossa taxação centralizada é 
desproporcionalmente alta, é a do ‘sistema de meio subsídio’. O governo 
central cobre 50% das despesas com livros, salários, aluguel, etc., além de 
um subsídio especial para construção de prédios.170 A soma de subsídios 
assim pagos às bibliotecas em 1928 foi de cerca de 70 mil rupias. Percebe-
-se que o subsídio do governo central não é tão pequeno quanto parece se 
lembrarmos que a população servida é inferior à de um de nossos distritos.
 
342 Noruega
Podemos iniciar nosso estudo sobre os progressos da Segunda Lei na 
península escandinava com uma breve revisão da recepção que lhe foi dada 
pela Noruega. Embora o governo norueguês tenha financiado bibliotecas 
desde 1830, foi somente no século xx que a oferta de bibliotecas atingiu 
o nível exigido pela Segunda Lei. Ela conta atualmente com cerca de 60 
bibliotecas municipais e mais de mil bibliotecas rurais.171 Existe um depar-
tamento de bibliotecas vinculado ao ministério da educação. Sua função 
principal é efetuar o pagamento dos subsídios liberados pelo governo 
central e zelar para que as bibliotecas observem padrões adequados de 
funcionamento. Esse departamento também mantém algumas bibliotecas 
itinerantes, especialmente uma para marinheiros, que possui postos de 
atendimento em todos os portos da Noruega. Já se mencionou, na seção 2171, 
o papel de um desses postos de atendimento, numa vila de pescadores 
do litoral norte, na formação de um jovem pescador, que conseguiu sair 
da condição de carência em que vivia e conquistar a posição de professor. 
343 Suécia
A metade oriental da península escandinava oferece um testemunho 
mais marcante do advento da Segunda Lei da biblioteconomia. A história 
das bibliotecas suecas ilustra de forma esplêndida a transformação por 
que passará um sistema bibliotecário antiquado tão logo a mensagem da 
Segunda Lei o reanime. Vejamos um depoimento autêntico sobre os efei-
tos do seu advento constantes de um manual confiável, publicado pelo 
governo sueco em 1914:
As antigas bibliotecas paroquiais, que existiam há muito tempo em muitos 
lugares, foram vistoriadas em 1900. Constatou-se que ou consistiam dos re-
manescentes deteriorados de coleções que originalmente haviam sido boas, ou 
de livros que estavam em boas condições, mas que quase nunca haviam sido 
121a segunda lei e sua digvijaya
utilizados [...] A primeira ajuda estatal às bibliotecas populares foi aprovada 
pelo parlamento em 1905. No Ecklesiastik-departementet [ministério dos cultos, 
de 1840 a 1967, quando foi substituído pelo ministério da educação], há desde 
1913 dois especialistas em bibliotecas (bibliothekskonsulent), que apresentam 
relatórios ao ministério, informam ao público em geral sobre livros, etc., e 
supervisionam as bibliotecas subvencionadas pelo Estado.172
3431 Realizações
A Segunda Lei foi, portanto, bastante bem-sucedida na Suécia ao con-
fiar o fomento do movimento por bibliotecas ao próprio Estado. Dos dois 
especialistas em bibliotecas, um é encarregado das bibliotecas públicas e o 
outro das bibliotecas escolares. O responsável pelas bibliotecas públicas 
promoveu uma reorganização completa do sistema de bibliotecas com 
a introdução do ‘livre acesso’, mediante a instalação de departamentos 
infantis, a modernização dos edifícios das bibliotecas e a melhoria siste-
mática da competência profissional do pessoal das bibliotecas. As vanta-
gens decorrentes da modernização tiveram tal efeito positivo na opinião 
pública que o ano de 1929 assistiu à fácil aprovação da lei de bibliotecas 
pelo parlamento. Esta lei
dispõe sobre a reorganização do serviço e um programa de organização de 
bibliotecas distritais (lan), equivalentes às bibliotecas dos condados norte-
-americanos [...] O governo fornecerá 10 mil coroas por ano para cada distrito 
(cinco mil se o distrito criar uma biblioteca, 2 500 se o bibliotecário for capaci-
tado, e 2 500 adicionais se a coleção de referência for adequada). O especialista 
em bibliotecas espera organizar duas bibliotecas por ano, e cobrir cada um dos 
24 distritos em 12 anos.173
Além deste novo projeto de bibliotecas distritais, a Suécia já implantou 
cerca de 8 500 bibliotecas, inclusive as 1 299 bibliotecas escolares, que 
recebem anualmente uma soma de cerca de 15 milhões de rupias dos go-
vernos locais e, adicionalmente, um subsídio do governo central de cerca 
de três milhões e 750 mil rupias, desde que o volume anual de empréstimos 
supere sete milhões de volumes.
3432 Biblioteca Escolar
Com relação às bibliotecas escolares, também muito foi feito. A edu-
cação foi planejada de forma a estar cada vez mais ligada diretamente às 
bibliotecas escolares. Os alunos recebem instrução especial sobre o uso da 
biblioteca e seus instrumentos. A reforma escolar de 1928 exige crescente 
autoatividade da parte dos alunos em íntima associação com as bibliotecas 
e isso já causou um aumento no financiamento das bibliotecas escolares. 
Em vez das 279 bibliotecas escolares de 1913, havia1 299 bibliotecas esco-
lares em 1927. Em vez dos 300 mil volumes emprestados em 1923, foram 
as cinco leis da biblioteconomia122
emprestados dois milhões de volumes aos estudantes em 1927. Seria 
educativo calcular os números equivalentes para Madras.
344 Dinamarca
Da tríade de países escandinavos, foi a Dinamarca que mais se benefi-
ciou, oferecendo educação para todos e livros para todos. Com a ajuda de 
um sistema educacional conscientemente voltado para o desenvolvimento 
das indústrias — particularmente o singular sistema de escolas públicas de 
nível médio — e de um sistema cuidadosamente coordenado de bibliotecas 
públicas modernas, a Dinamarca, embora dotada pela natureza com uma 
riqueza agrícola comparativamente modesta,
produz atualmente imensas safras e marca presença nos mercados mundiais 
[...] (e felizmente) interrompeu o êxodo para as cidades da população rural e 
construiu uma vida social rural, onde muitos dos problemas sociais enfrentados 
pelas comunidades rurais em outros países foram eliminados.174
Esta demonstração de êxito da Dinamarca deveria, oportunamente, abrir 
os olhos de nossas províncias para o único remédio seguro contra o devas-
tador ‘êxodo para as cidades da população rural’ que já começa a ocorrer. 
3441 Sistema de Bibliotecas
Há outra lição que a Dinamarca pode ensinar àqueles que estão ansio-
sos para atender às exigentes demandas da Segunda Lei, com a máxima 
consideração possível pela economia nacional. Seu sistema de bibliotecas 
caracteriza-se pelo mais completo esquema de coordenação possível. A 
cadeia nacional de bibliotecas começa num extremo com as duas biblio-
tecas depositárias oficiais — a biblioteca real e a biblioteca universitária 
— em Copenhague, que são, por consentimento mútuo, especializadas, 
respectivamente, em humanidades e em ciências. O elo seguinte da ca-
deia é o grupo de 80 bibliotecas municipais, das quais 27, localizadas em 
entroncamentos ferroviários, atuam também como bibliotecas centrais 
ou como bibliotecas-depósito secundárias. E, no outro extremo da cadeia, 
encontramos cerca de 800 bibliotecas de vilas espalhadas pelo país. O 
sistema de empréstimo interbibliotecário, junto com esta cadeia, coloca 
todos os recursos bibliográficos do país à disposição de qualquer leitor, 
independentemente de onde ele more, e reduz a duplicidade de livros ao 
mínimo com base na demanda real. Esta maravilhosa coordenação é uma 
das consequências da lei das bibliotecas de 1920, que, em certo sentido, 
nacionalizou as bibliotecas do país e colocou seu desenvolvimento e su-
pervisão nas mãos de um diretor nacional de bibliotecas, que tem o apoio 
de uma forte inspetoria de bibliotecas.
123a segunda lei e sua digvijaya
3442 Financiamento das Bibliotecas
A mesma lei colocou as bibliotecas municipais sob a responsabilidade 
dos respectivos municípios e as bibliotecas das vilas sob a responsabili-
dade dos conselhos paroquiais das respectivas comunidades. Os recursos 
financeiros para as bibliotecas advêm de taxas locais suplementadas com 
subsídios do governo central, que são iguais às contribuições locais no caso 
das bibliotecas menores. O diretor nacional de bibliotecas é o responsável 
pelo pagamento dos subsídios, pela recomendação de padrões de equi-
pamentos e métodos de trabalho, pelo fornecimento de orientação biblio-
gráfica e pela organização do treinamento profissional de bibliotecários. O 
subsídio do governo central durante um ano atinge cerca de sete milhões 
de rupias e o montante recolhido com taxas locais e outras fontes atinge 
cerca de 12 milhões de rupias. Assim, as despesas anuais com bibliotecas 
públicas no país atingem cerca de 19 milhões de rupias.
3443 Realizações
Há mais de um milhão de volumes no conjunto de todas as bibliotecas e 
o empréstimo anual é de cerca de cinco milhões de volumes. Adotam-se 
medidas de estímulo ao hábito de frequentar as bibliotecas até mesmo na 
etapa escolar. De fato, “em cada escola há uma biblioteca circulante, cada 
vez mais apreciada pelas crianças.”175 Portanto, a Segunda Lei da biblio-
teconomia vem sendo acolhida pelo povo dinamarquês de forma perfeita. 
35 Europa Ocidental
351 Alemanha
Rumo ao sul penetra-se na república da Alemanha, onde é muito edu-
cativo passar algum tempo examinando a maravilhosa organização das 
bibliotecas especializadas da Prússia, que já existiam antes do advento da 
Segunda Lei. Sua organização foi impulsionada pelo anseio de oferecer a 
cada estudante sério e a cada pesquisador o seu livro. Caracteriza-se 
pela mesma exatidão de detalhe, que se nota nos exclusivos Handbücher que 
apenas a Alemanha, entre todos os países, publica com tão grande variedade.
3511 Biblioteca Central do Estado
O centro desta organização é a biblioteca do estado prussiano [Preus-
sische Staatsbibliothek], em Berlim. Ao seu acervo de dois milhões de 
volumes são acrescentados, a cada ano, cerca de 50 mil novos volumes, e 
o número de periódicos correntes é de cerca de 20 mil títulos. A área do 
subsolo do edifício da biblioteca, com treze níveis de armazéns, possui 
cerca de 18 500 m2. O catálogo sistemático ocupa mais de mil volumes e 
seu índice alfabético, três mil volumes, aos quais cerca de 90 são acrescidos 
anualmente. Possui 320 funcionários, dos quais 76 são especialistas em 
as cinco leis da biblioteconomia124
* Referência, talvez, à Reichsverband Deutscher Bibliotheksbeamter und -angestellter [asso-
ciação nacional dos funcionários públicos e empregados alemães de bibliotecas], fundada 
em junho de 1920, em Halle, e que encerrou suas atividades em 1933. (n.e.)
diferentes ramos da ciência, que trabalham na classificação dos livros e 
ajudam os leitores na localização de suas referências. 
3512 Cooperação entre Bibliotecas
As bibliotecas das dez universidades e quatro escolas técnicas de nível 
médio prussianas, similares em organização, mas em escala menor, fun-
cionam em estreita cooperação com a biblioteca central. Por entendimento 
mútuo, especializam-se em diferentes ramos do conhecimento, de forma 
que os recursos do estado destinados às bibliotecas como um todo são 
postos, com eficiência, num fundo comum de modo a garantir a aquisição 
do maior número possível de publicações diferentes. Esta característica 
deveria ter um significado especial para nós, pois até mesmo os diferentes 
departamentos de uma mesma universidade tendem a desperdiçar os 
escassos recursos do orçamento para aquisições de material bibliográfico, 
cada um deles insistindo na compra de seu exemplar de um mesmo livro, 
para uso exclusivo, mesmo que essa utilização só ocorra esporadicamente.
3513 Catálogo Coletivo
A biblioteca do estado mantém um catálogo coletivo dos recursos de 
todas as bibliotecas especializadas e um centro de informação que auxilia 
o pesquisador, em qualquer parte da Prússia, a receber os materiais de que 
precisa, por meio de sua biblioteca local, enviados por qualquer biblioteca 
do estado. Não se pode negar que um sistema de bibliotecas especializadas, 
construído de modo tão criterioso, foi um dos fatores que contribuíram 
para a enorme produção científica da Alemanha.
3514 Bibliotecas Populares
É claro que as bibliotecas especializadas somente atendem a uma pe-
quena elite de acadêmicos e profissionais, a aristocracia intelectual, por 
assim dizer. Embora cumpram sua finalidade de modo admirável, estão 
aquém das expectativas do ideal pregado pela Segunda Lei: ‘Livros para 
os sabidos e livros para os mandriões’. O atual movimento por bibliotecas 
na Alemanha está nos seus trinta anos de vida, embora só tenha alcançado 
uma etapa aceitável pela Segunda Lei depois das mudanças sociais revo-
lucionárias ocorridas na esteira da Primeira Guerra Mundial. A associação 
dos bibliotecários da república da Alemanha, fundada em 1922,* está rea-
lizando uma propaganda tenaz a favor da Segunda Lei e tenta convencer 
as administrações locais e estaduais da necessidade de fortalecer este novo 
instrumento de educaçãouniversal para o fortalecimento da democracia. 
125
* Institut für Leser- und Schrifttumskunde (1926–1937), fundado em Leipzig por Walter 
Hofmann (1879–1952). (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya
3515 Instituto de Leipzig
De longe, a contribuição mais notável da Alemanha em prol do atendi-
mento dos requisitos da Segunda Lei é o trabalho que está sendo realizado 
pelo instituto de Leipzig.* Este instituto sobre leitores e leitura deve sua 
fundação aos persistentes esforços de W. Hofmann, para quem uma mera 
coleção de livros, de um lado, e uma multidão de leitores desassistidos, de 
outro lado, não formarão uma biblioteca pública moderna, que é aquela que 
deve ajudar cada leitor a encontrar seu livro prontamente. Salientava 
que o esforço humano capaz de estabelecer contato entre o livro adequado 
e o leitor adequado no tempo adequado e da forma adequada constitui 
um terceiro fator imprescindível. Não é fácil preparar candidatos para 
esse trabalho e não é qualquer um que terá a cultura, o temperamento e 
a personalidade exigidos para essa forma avançada, mas necessária, de 
serviço bibliotecário. Hofmann mostrava que o profundo conhecimento 
das bases psicológicas da leitura é tão importante quanto o conhecimento 
dos livros. O objetivo do instituto de Leipzig é oferecer o treinamento 
necessário ao pessoal da biblioteca para executar tal tarefa: o chamado 
serviço de referência.
3516 Aplicação à Índia
Mesmo os profissionais mais avançados necessitam desse tipo de ser-
viço pessoal, embora seja ainda mais necessário para as pessoas comuns 
e os estudantes. Se se apresentarem propostas sobre este aspecto essencial 
do serviço bibliotecário, leigos, que viveram a juventude numa época 
anterior à da Segunda Lei, as rejeitarão caracterizando-as com chavões 
como ‘pajear’ ou ‘paparicar’. São necessários muitos Hofmanns em nosso 
país para convencer as autoridades responsáveis pelas bibliotecas quanto 
à imperativa necessidade desse serviço pessoal e apagar de suas cabeças 
a noção antediluviana segundo a qual atendentes semialfabetizados, que 
mal conseguem ler as capas dos livros, e, por isso, não precisam ganhar 
mais do que ganharia um pedreiro ou um servente, tenham condições de 
formar um quadro de pessoal adequado para as bibliotecas.
352 Itália
Dirigindo-nos para o sul, omitamos a Áustria, que não é diferente da 
Alemanha no que concerne à maioria das questões acadêmicas, e entremos 
na Itália. Embora Garibaldi antevisse a necessidade de bibliotecas e tivesse 
fundado várias bibliotecas populares, a maioria delas logo caiu em desuso. 
Foi somente na presente geração que elas foram reavivadas e grandemente 
as cinco leis da biblioteconomia126
* Federazione Italiana delle Biblioteche Popolari, fundada em 1909, como o que seria hoje 
uma organização não-governamental, por Ettore Fabietti (1876–1962). Existiu até 1932, quan-
do o governo fascista criou o Ente Nazionale per le Biblioteche Popolari e Scolastiche. (n.e.)
multiplicadas. Por exemplo, no lugar das quatro bibliotecas que tinha em 
1905, Milão agora possui vinte. Durante a última década várias bibliotecas 
itinerantes (aproximadamente duas mil) foram também implantadas para 
atender às áreas rurais.
3521 Federação de Bibliotecas Públicas
A federação italiana de bibliotecas públicas,* fundada há duas décadas, 
tem prestado um serviço persistente pela causa da Segunda Lei. Estimulou 
a formação de várias bibliotecas, promoveu a publicação de livros ade-
quados para o uso popular, convenceu benfeitores privados, associações 
políticas, governos locais e o Estado a fornecerem ajuda financeira às 
bibliotecas, e organizou o treinamento profissional de bibliotecários.
3522 Ação do Governo
Nos últimos anos, o governo fascista começou a ter interesse direto na 
promoção do movimento por bibliotecas. O seu Istituto di Cultura Fascista 
começou a financiar a publicação de livros para uso popular e a distribuí-los 
gratuitamente às bibliotecas mais pobres. O governo também nomeou um 
diretor-geral de bibliotecas estatais para reorganizar o sistema de bibliotecas 
do país. Criou também uma escola de biblioteconomia em Florença, que 
se somou às escolas mantidas pelas universidades de Pádua e de Bolonha.
353 França
Rumo ao oeste, não precisamos perder muito tempo com a França, pois, 
apesar de ela possuir muitas coleções valiosas, o sistema de bibliotecas 
como um todo é desorganizado e fracamente desenvolvido do ponto de 
vista da Segunda Lei. Foi somente no pós-guerra que algum esforço passou 
a ser feito para introduzir algumas reformas adequadas. O tom melancólico 
que o presidente da Association des Bibliothécaires Français fez soar no 
parágrafo de conclusão da nota que remeteu à conferência comemorativa 
do cinquentenário da American Library Association comprova claramente 
que existe muito espaço de trabalho para a Segunda Lei. Afirma ele
Em conjunto, à França não faltam bibliotecas especializadas, que oferecem uma 
variedade infinita de recursos intelectuais, mas que necessitam de esforços 
vigorosos para melhorar sua eficácia. As instalações para a leitura do público 
necessitam ser organizadas de forma mais democrática, e para atingir os tra-
balhadores da cidade e do campo é preciso, em síntese, multiplicar ‘bibliotecas 
para todos’.176
127
* Jules Destrée (1863–1936), político belga. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya
354 Bélgica
No sentido norte, chegamos à Bélgica, que, em superfície e população, 
quase corresponde à nossa região de Kerala (isto é, Travancore, Cochin e 
Malabar juntos). A Segunda Lei entrou na Bélgica com a promulgação da 
lei Destrée* de bibliotecas em 1921. Entretanto, sua excursão nesse pequeno 
país alcançou muitas conquistas. Já em 1928, a Bélgica contava por volta 
de 2 154 bibliotecas, com um total de 3 615 494 livros. Havia 517 822 
leitores, que usaram 7 518 494 volumes.177 Tem-se uma medida dos feitos 
da Segunda Lei, ao se comparar estes números com os das 1 200 bibliotecas 
que emprestaram somente dois milhões e 650 mil volumes em 1921. Ainda 
há muito a ser feito pela Segunda Lei como se vê pelo fato de 946 das 2 675 
comunidades belgas ainda não disporem de serviço de biblioteca.
355 Países Baixos
Mais um passo para o norte e chegamos aos Países Baixos. Seu sistema 
de bibliotecas tem uma organização bastante inusitada. Historicamente, 
a Maatschappij tot Nut van ‘t Algemeen [sociedade para o bem geral] 
fundada em 1784 e comumente conhecida como ‘Nut’ [bem], espalhou 
seus ramos pelo país, organizada de modo a emprestar livros, de forma 
que a população da maioria das cidades começou a criar bibliotecas por 
meio de subscrição e por doações, sem esperar que os governos locais to-
massem a iniciativa. São estas bibliotecas, administradas como instituições 
privadas, que são normalmente conhecidas como bibliotecas públicas nos 
Países Baixos. Seu número está em torno de 100, e uma biblioteca, depois 
que se consolida, passa a receber ajuda financeira dos governos locais e 
do governo central. A Vereniging van Openbare Bibliotheken [associação 
de bibliotecas públicas], central, com sede em Haia, é um órgão influente, 
de cuja recomendação depende normalmente o pagamento de subsídios 
às bibliotecas pelo ministério da educação. Algumas dessas bibliotecas 
públicas abastecem de livros as áreas rurais e, em troca, recebem subvenções 
adicionais da autoridade local. Um defeito deste sistema é que a receita de 
uma biblioteca não é fixa, flutuando, o que é inconveniente, de ano para ano, 
dependendo do número de leitores registrados e da situação financeira do 
governo central e das administrações locais. 
356 O Reino Unido
Depois de atravessar o canal da Mancha, aportamos nas ilhas britânicas 
e examinamos se a expedição empreendida pela Segunda Lei conseguira 
realizar algo ali. Embora a semente do Movimento por Bibliotecas tenha 
germinado com a lei Ewart de bibliotecas de 1850, a expansão da semeadura 
as cinco leis da biblioteconomia128* Árvore mítica capaz de atender aos desejos de quem se abriga sob sua copa. (n.e.)
Anos
Início de operação 
dos órgãos 
responsáveis por 
bibliotecas nos 
condados
Início de operação 
de outros órgãos 
responsáveis por 
bibliotecas
Total de órgãos 
responsáveis 
por bibliotecas 
que surgiram 
no período
Observações
 Até 1850 0 1 1
 1850–1859 0 22 22
 1860–1869 0 17 17
 1870–1879 0 43 43
 1880–1889 0 73 73 Jubileu da
 rainha
 1890–1899 0 139 139 Início da
 Carnegie
 1900–1909 0 132 132
 1910–1919 0 27 27
 1920–1927 57 26 83 Projeto das
 bibliotecas 
 Carnegie de
 condados
 Total 57 480 537
foi extremamente lenta por muito tempo, exceto no que tange ao pequeno 
estímulo em seu apoio representado pelas coleções comemorativas do 
jubileu da rainha Vitória. Mas o século xx presenciou esse movimento 
fertilizado por Andrew Carnegie, de maneira generosa, mas criteriosa. Isto 
fez com que a semente frágil e pouco promissora repentinamente flores-
cesse com todo o vigor de uma kalpaka,* lançando seus frutos de maneira 
uniforme em todos cantos do Reino Unido, enquanto o Estado observava 
de longe com um sorriso de satisfação diante da boa sorte da nação.
3561 Carnegie
A tabela acima178 mostra as consequências do advento desse afortunado 
aliado da Segunda Lei em solo inglês: nota-se que 71% dos órgãos respon-
sáveis por bibliotecas só vieram a existir graças às doações de Carnegie.
3562 Carnegie e as Bibliotecas de Condados
O discurso de sir William Robertson, vice-presidente do Carnegie Uni-
ted Kingdom Trust, mostra que todo o projeto de bibliotecas de condados 
deveu-se somente à iniciativa dessa fundação:
Fomos muito claros (por acaso eu fazia parte da comissão e posso falar com 
conhecimento de causa) que se o governo não concedesse aos condados as 
129a segunda lei e sua digvijaya
condições para dar continuidade a estes projetos (os projetos experimentais de 
bibliotecas dos condados haviam sido totalmente financiados pelo Carnegie 
United Kingdom Trust), teríamos que reexaminar por completo nossa posição e 
sustar a concessão de fomento aos condados para a continuação deste trabalho 
[...] Seria, naturalmente, absurdo estimular um condado a implantar o projeto 
por dois ou três anos e depois deixar que tudo viesse a se perder; nós, portanto, 
afirmamos enfaticamente perante o conselho de educação que, a menos que 
nos fosse apresentada uma lei dando poder à administração do condado para 
continuar o trabalho, a fundação deveria encerrar suas atividades. O resultado 
disso foi a lei que permite a vocês ir adiante e continuar o trabalho para cujo 
início nós os preparamos.179
 
3563 Passividade do Governo
Além disso, a característica passividade do governo britânico na pro-
moção do movimento por bibliotecas e na recepção da Segunda Lei foi 
ressaltada pelo visconde Haldane, então presidente da câmara dos pares 
[House of Lords], em seu discurso de boas-vindas aos delegados à segunda 
conferência das bibliotecas de condados:
De questões como educação, de instrumentos como bibliotecas, deixamos ao 
cuidado de vocês [...] O Estado, naturalmente, terá que cuidar disso, mas ele 
não cuida enquanto isso não estiver funcionando. Então, dirá, ‘Isso é bom, isso 
é popular; vamos desenvolvê-lo e assim atrair votos para quem o administra!’ 
Espero que o movimento educacional em geral tenha chegado a essa etapa; o 
movimento por bibliotecas não chegou a tanto, embora ache que há sinais de 
que está chegando cada vez mais perto.180
3564 Resultados
Entretanto, qualquer que seja a instituição envolvida nesse trabalho, 
a expedição feita pela Segunda Lei já obteve o maior sucesso na Grã-
-Bretanha. O ideal de livros para todos foi quase alcançado. Por exemplo, 
96,3% da população da Inglaterra e do País de Gales têm atualmente fácil 
acesso aos livros de que precisam. Cerca de 13 milhões de volumes são 
encontrados nas bibliotecas urbanas e rurais, enquanto o empréstimo anual 
se aproxima de 80 milhões. Cerca de 15% da população tornaram-se leitores 
regulares, enquanto a despesa anual com as bibliotecas urbanas e rurais, 
em conjunto, é de cerca de 15 milhões de rupias, que equivalem a cerca 
de metade de uma rupia per capita. Esta quantia é arrecadada mediante o 
pagamento de uma taxa especial para bibliotecas, cujo valor médio para 
áreas urbanas é de cerca de 2 pie de rupia, enquanto o valor médio para 
as áreas rurais é inferior a meio pie.
3565 Fase de Consolidação
Na verdade, a expedição empreendida pela Segunda Lei já se tornou 
as cinco leis da biblioteconomia130
um êxito total no Reino Unido, uma vez que seu movimento por biblio-
tecas ingressou na etapa final de consolidação e de coordenação em base 
nacional.
36 Oceano Pacífico
361 Austrália
Deixando a ilha central do Império britânico, iniciamos nossa explora-
ção do Oriente, com uma espiada na ilha-continente do mesmo Império. 
Esta colônia segue os passos da metrópole em sua hospitalidade para com 
a Segunda Lei da biblioteconomia, com as limitações devidas à ausência 
da relação com Carnegie. São por volta de 1 200 bibliotecas em todo o país, 
que recebem ajuda dos governos locais ou do governo central, conforme 
o caso. As necessidades de livros da população rural, que é muito disper-
sa, são geralmente atendidas pelos órgãos chamados County Institutes, 
dos quais existem cerca de 230 para servir aos 250 mil habitantes do país. 
Com a ajuda de subsídios adequados pagos pelo governo central, estão 
realizando um bom trabalho e reuniram um acervo de cerca de 600 mil 
volumes, que estão em constante circulação.
362 O Arquipélago Havaiano
Saindo dessa ilha imensa, passamos a um minúsculo arquipélago no 
meio do Pacífico. O arquipélago havaiano confirma o bom velho ditado 
‘querer é poder’. São inúmeros os obstáculos naturais que tem de enfrentar 
para oferecer livros para todos. Localizado na encruzilhada do Pacífico, 
é um cadinho de várias nacionalidades. Sua população é formada de 
chineses, japoneses, portugueses, filipinos, espanhóis, alemães, russos, 
ingleses, norte-americanos e vários outros povos. Esta população poliglota 
está espalhada em oito ilhas principais e várias outras pequeninas. Esses 
obstáculos de língua e transporte não impediram que o Havaí viesse a sa-
tisfazer às mais exigentes expectativas da Segunda Lei da biblioteconomia.
3621 Realizações
O Havaí fornece, de fato, um serviço universal de bibliotecas públicas 
de alto padrão por meio de quatro bibliotecas municipais, que contam com 
246 postos de atendimento. O financiamento do sistema de bibliotecas é 
proporcionado inteiramente pelo Estado, e o orçamento anual é de cerca 
de três milhões de rupias. Os bibliotecários frequentemente circulam 
pelas ilhas e entram em contato pessoal com os leitores, com a finalidade 
de compreender suas necessidades e orientá-los para uma gama mais 
ampla de estudos. Cerca de 700 mil empréstimos são feitos a cada ano. O 
intenso hábito de leitura que isso implica é percebido quando se nota que 
a população total do Havaí é de apenas 250 mil habitantes. Sabe-se que 
131
* As prefeituras (ken) são as principais divisões territoriais japonesas, equivalentes, apro-
ximadamente, aos estados brasileiros. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya
mesmo a ilha mais remota, habitada por somente 15 homens que tomam 
conta de uma estação de cabo submarino, recebe a sua troca trimestral de 
livros.181 Isto é, na verdade, o cumprimento literal da lei livros para todos.
37 Ásia
371 Japão
Agora é a vez do continente asiático. Antes dele, convém dar uma olhada 
no progresso da Segunda Leino Japão, no Extremo Oriente, que vem rapi-
damente alcançando as primeiras posições entre as potências mundiais. O 
célere progresso do moderno movimento por bibliotecas no Japão durante 
o século xx é, ao mesmo tempo, causa e efeito de “sua rápida transição 
para a industrialização, de sua riqueza recente e o efeito de ideias políticas 
ocidentais sobre as massas”, bem como da maneira bem-sucedida como 
“as massas populares estão gradualmente se qualificando a ocupar seu 
lugar na expressão da opinião pública”.182
3711 Despertar
Depois da primeira metade do século xix, quando o Japão “rompeu 
a política de isolamento e contemplou o mundo, surpreendeu-se ao ver 
tremulando, no litoral do lado da China, várias bandeiras desconhecidas: 
a tricolor, a inglesa e, mais próxima dela, a da águia de duas cabeças”.183 
Notou também sinais visíveis de intromissões ameaçadoras em seu litoral. 
Isso o levou a dizer para si, ‘mude como o mundo está mudando’. Mandou 
seus melhores filhos para o mundo para descobrirem o que lhe faltava e o 
que deveria fazer. Quando regressaram com seus relatórios, disse: “Muito 
bem, meras revoluções cosméticas e a importação integral e indiscrimina-
da de teorias inviáveis, forjadas na Alemanha, na França ou nos Estados 
Unidos não produzirão a necessária mudança. A única coisa que pode ser 
eficaz é a lenta mas firme transformação do espírito de cada cidadão, com 
um propósito definido e com um plano definido.” Por conseguinte, um 
edito imperial proclamou em 1812, “Fica decidido de agora em diante que 
a educação será tão difundida que não haverá uma vila sequer com uma 
família ignorante, nem uma família sequer com um membro ignorante.”184 
3712 Crescimento do Sistema de Bibliotecas
Depois que a educação para todos, assim anunciada sob os auspícios 
do imperador, ter lutado, sozinha, para abrir caminho durante quase uma 
geração, ela percebeu a necessidade de buscar a ajuda vigorosa de livros 
para todos. Por conseguinte, o ano de 1899 assistiu à aprovação da primeira 
lei de bibliotecas, que autorizava prefeituras,* cidades e vilas a criar biblio-
as cinco leis da biblioteconomia132
* Região situada no nordeste da China, invadida pelo Japão em 1931, que ali instalou o 
estado-fantoche de Manchuko. Em 1945, voltou a fazer parte da China. (n.e.)
** Foi reorganizada em Taipé (Taiwan), em 1953. Em Beijing, na República Popular da 
China, foi criada em 1979 a sociedade chinesa de biblioteconomia (Zhongguo tu shu guan 
xue hui), que se diz ser continuadora da que foi fundada em 1925. (n.e.)
tecas públicas. De tempos em tempos, o ministério da educação baixava 
instruções informais aos governadores das prefeituras, estimulando-os a 
instalar bibliotecas públicas. Isto levou a um rápido crescimento do número 
de bibliotecas durante os últimos trinta anos, como mostra o gráfico na 
página seguinte. “Em 1926–1927 havia 4 337 bibliotecas no Japão com 
7 623 371 volumes.”185 
3713 Agências de Promoção
O ministério da educação publica uma lista semestral de livros próprios 
para uso popular. Também mantém uma escola de biblioteconomia, em 
associação com a biblioteca imperial, para treinamento de pessoal biblio-
tecário. A associação japonesa de bibliotecários [Nihon Toshokan Kyokai], 
criada em 1892, é o órgão não-oficial que promove o movimento por bi-
bliotecas. Faz intenso trabalho de publicidade e promove anualmente uma 
‘semana da biblioteca’, celebrada com o maior entusiasmo em todo o país. 
372 Manchúria*
Poderemos presenciar o funcionamento de um novo instrumento de que 
a Segunda Lei lançou mão para oferecer livros para todos, ao ingressarmos 
no continente asiático na Manchúria. Trata-se das bibliotecas da estrada de 
ferro do sul da Manchúria que formam uma categoria própria. A empresa 
ferroviária mantém uma biblioteca bastante grande em sua sede, em Dai-
ren, para uso dos empregados e do público em geral. Possui um acervo 
de mais de 120 mil volumes e destina por ano cerca de 25 mil rupias para 
a manutenção da biblioteca. Incumbiu-se, inclusive, da tradução de livros 
estrangeiros para uso da clientela. Estabeleceu ainda cerca de 20 bibliotecas 
públicas nas principais cidades e entrega livros em todas as estações ao 
longo da linha ferroviária, que percorre cerca de 1 120 quilômetros.
373 China
Ao chegar à China, descobrimos que o movimento por bibliotecas 
ganhou grande impulso nas mãos do governo republicano. Um dos de-
-partamentos do ministério da educação é o de educação social, que é 
responsável pelas bibliotecas públicas e pelas escolas para adultos analfa-
betos. Outro órgão importante que colabora com a causa da Segunda Lei na 
China é a associação nacional de bibliotecários [Zhonghua Minguo tu shu 
guan xue hui],** fundada em 1925. O movimento por bibliotecas chinês 
133
N
Ú
M
ER
O
 D
E 
BI
BL
IO
TE
CA
S 
EM
 F
U
N
CI
O
N
A
M
EN
TO
 N
U
M
 A
N
O
ANO
está sendo também fortalecido com generosos donativos dos eua e de 
alguns comerciantes chineses. Embora a China tenha enviado durante 
muito tempo a maioria dos seus bibliotecários para estudar nos eua, o 
Boone College iniciou recentemente uma escola de biblioteconomia sob 
os auspícios de sua faculdade de artes, atividade esta que é complemen-
tada por vários cursos de verão oferecidos por outras universidades.
a segunda lei e sua digvijaya
as cinco leis da biblioteconomia134
* Denominação, até 1935, da atual República Islâmica do Irã. (n.e.)
** Em sânscrito, Punjab significa ‘cinco rios’, que são Beas, Chenab, Jhelum, Ravi e Sutlej, 
afluentes do rio Indo. (n.e.)
*** Durante o domínio inglês, assim se chamava um grupo de províncias no norte da Índia. 
Em 1950 foi formado aproximadamente na mesma área o estado de Uttar Pradesh. (n.e.)
374 Pérsia*
Ao escalar a Grande Muralha da China não encontramos qualquer 
vestígio da Segunda Lei enquanto vagamos pelo Turquestão, Pérsia e Afe-
ganistão. Numa comunicação sobre as bibliotecas da Pérsia, apresentada 
à sessão sobre serviços bibliotecários da primeira conferência educacional 
pan-asiática, de 1930, o Sr. Herrick B. Young, bibliotecário do American 
College de Teerã, afirmou que o movimento por bibliotecas
ainda está realmente por começar nesta terra antiga. Solicitações de órgãos do 
governo, que podem organizar suas respectivas bibliotecas, e o interesse com 
que o jovem estudante persa contempla o trabalho em bibliotecas como uma 
profissão alimentam a esperança de que esse movimento esteja aqui em seus 
primeiros estágios.186
38 Índia
381 Punjab
Entretanto, ao ingressarmos em nosso país através do histórico desfila-
deiro de Kaiber, encontramos a Terra dos Cinco Rios** marcada aqui e ali 
com as pegadas recentes da Segunda Lei. O antigo vale do Sindhu é reco-
nhecido como o berço de muitas instituições indianas. Como para respeitar 
esta antiga tradição, a Segunda Lei parece ter escolhido o Department of 
Public Instruction do Punjab para ser um de seus primeiros apóstolos na 
Índia britânica. São realmente gratificantes estas palavras:
Outro recente desenvolvimento é a instituição de bibliotecas de vilas. São atu-
almente mais de 1 600, anexas a escolas de ensino fundamental e médio. São 
mantidas pelos conselhos distritais com a ajuda de subvenções do governo, e 
estão abertas não só para os estudantes e ex-alunos, mas também para a popu-
lação em geral das vilas, e ao mesmo tempo os bibliotecários são solicitados a 
fazer conferências e palestras sobre temas úteis para o homem do campo, além 
de ajudar as pessoas alfabetizadas a usarem as bibliotecas. Para isto, além de 
livros comuns, folhetos e revistas, fornecidos pelos conselhos distritais, o con-
selho comunitário rural, além de remunerar o bibliotecário, consegue a melhor 
literatura disponível sobre assuntos de agricultura, cooperativas, saúde e outros 
tópicos de interesse especial para a comunidade das vilas.187
382 Províncias Unidas***
A influência da Segunda Lei parece ter também chegado à província 
vizinha. Conformese lê,
135
* Equivalente ao centro de recursos audiovisuais, ou recursos pedagógicos, das últimas 
décadas do século xx; unidade de tecnologia educacional. (n.e.)
a segunda lei e sua digvijaya
Outro importante projeto é a criação de bibliotecas circulantes e carros-biblio-
tecas em distritos lançado pelo governo das Províncias Unidas no período ora 
examinado. Em 1924, esse governo decidiu estabelecer, em caráter experimental, 
em 1925–1926, bibliotecas circulantes em alguns distritos selecionados de acordo 
com as recomendações de uma comissão nomeada para assessorar o governo 
neste e em assuntos correlatos. Três distritos foram então selecionados para 
este objetivo em 1925–1926 e os conselhos distritais interessados receberam 
subsídios. O esquema foi expandido para mais um distrito em 1926–1927 e 
informa-se que o experimento alcançou razoável sucesso.188
383 Governo da Índia
De fato, a Segunda Lei parece que conquistou a simpatia também do 
governo da Índia. Seu comissário de educação foi um dos primeiros con-
versos à causa de livros para todos. Independentemente do que reformas 
futuras venham a fazer com a função desse comissário, esperemos e oremos 
para que os ministros provinciais de educação adotem as medidas iniciais 
para concretizar sua previsão de que “as bibliotecas ocuparão uma posição 
proeminente no campo da educação no futuro próximo e sua influência 
se fará sentir em todo o país”.189 
384 Bengala
Nossos irmãos bengaleses formaram uma associação de bibliotecários 
para disseminar a mensagem da Segunda Lei na província. 
385 Baroda
Somente aqui foram adotadas as providências mais satisfatórias para 
proporcionar livros para todos. Segundo o primeiro-ministro de Baroda, 
O movimento por bibliotecas de Baroda faz parte de um programa cuidadosa-
mente planejado de educação de massas, inaugurado e desenvolvido por sua 
alteza o marajá Saheb [...] Um projeto de bibliotecas públicas gratuitas com 
base em subsídios foi implantado em 1910, tendo chegado hoje, a partir de um 
modesto começo, a uma rede de bibliotecas de distritos, cidades e vilas, além 
de bibliotecas itinerantes, que atendem a mais de 60% da população do estado. 
3851 Realizações
O centro dessas atividades é a biblioteca de Baroda com seus anexos, o Oriental 
Institute, a biblioteca das mulheres, a biblioteca juvenil e a unidade de instrução 
visual.* Em seguida, vêm as bibliotecas dos distritos e das cidades, em número 
de 45, com 19 mil leitores e 222 mil livros. Mais abaixo na escala estão 661 bi-
bliotecas de vilas com mais de 37 mil leitores e mais de 250 mil livros; enquanto 
as cinco leis da biblioteconomia136
** Arrendatário ou trabalhador de terras do Estado e a quem cabe arrecadar o imposto 
territorial. (n.e.)
*** O autor manteve a redação da primeira edição, pois, em 1931, quando foi publicada, a 
Índia ainda fazia parte desse império. A independência ocorreu em 1947. (n.e.)
* A partir de 1953, Andhra Pradesh. (n.e.)
as vilas que não possuem bibliotecas são servidas por bibliotecas itinerantes, 
que em 1926–1927 circularam 418 caixas com 13 400 livros para 123 centros.190
386 Andhra Desa*
Indo mais ao sul, vemos uma excelente safra de bibliotecas que bro-
taram no final da década passada na terra dos andhras. A associação dos 
bibliotecários de Andhra Desa foi grandemente responsável por isso.
387 Madras
Madras, porém, possui hoje uma associação de bibliotecários com três 
anos de vida, que já conseguiu convencer o governo do estado a dar uma 
oportunidade para a biblioteca pública de Connemara se desenvolver como 
biblioteca depositária central. Foi também bem-sucedida ao convencer os 
distritos de Chingleput e Malabar a iniciarem um projeto de biblioteca distrital. 
Publicou listas de livros apropriados para uso popular e criou uma escola 
de verão para formar devotos bem informados para servirem à Segunda 
Lei e às suas irmãs. Realiza uma campanha publicitária para “predispor a 
consciência da população favoravelmente às bibliotecas e aos livros”. Ob-
teve a oportuna cooperação da principal universidade do estado, a quem 
convenceu que reconhecesse a importância do movimento por bibliotecas, 
primeiro organizando um curso, em forma de palestras, sobre as leis da biblio-
teconomia, e depois colocando a escola de verão sob sua tutela acadêmica.
3871 Financiamento Local
Dito isso, é questionável que se possa obter o impulso necessário para 
a Segunda Lei ultrapassar a resistência colossal que a confronta. As causas 
que levam a isso são muitas: políticas, econômicas, linguísticas, financeiras, 
etc. Tal resistência logo se diluiria se Madras encontrasse um Carnegie, 
como ocorreu nos eua e na Inglaterra, que tiveram essa sorte. Sem dúvida, 
os comerciantes, os zemindars,** os chefes religiosos e a aristocracia fundiária 
podem facilmente fazer por Madras o que Carnegie fez pela Grã-Bretanha 
e pelos eua. Mas, infelizmente, com raras exceções, sua doutrina sobre a 
riqueza parece ser ainda a que é comum na América do Sul, isto é, “seus 
donativos vão preferencialmente para entidades religiosas e de caridade”.
3872 Órgãos Locais
A Índia pertence ao Império Britânico*** e espera vir a se valer das 
137a segunda lei e sua digvijaya
alterações feitas no estatuto da Carnegie Corporation of New York. É 
discutível, porém, que venha a atrair a atenção dela em futuro próximo. 
Tampouco temos as ‘Nuts’ dos Países Baixos para com elas seduzir o povo 
para o hábito da leitura e também implantar suas próprias bibliotecas sem 
ter que aguardar a iniciativa dos órgãos locais. Sem dúvida, existem odres 
velhos, como as chitalishtas da Bulgária e as astras da Romênia. Mas o pro-
blema consiste em saber quem despejará o vinho novo nesses odres velhos.
3873 Fonte de Inspiração
Tudo que a Madras Library Association pode fazer é ser um aliado ativo 
e um agente publicitário da Segunda Lei, como foi a associação polonesa de 
bibliotecários, até que uma entidade mais rica e influente lhe dê seu apoio. 
Se existe uma lição importante, que a história da digvijaya da Segunda Lei 
salienta claramente, é a responsabilidade do ministro da educação pelo 
fornecimento de livros para todos. Não são os Estados Unidos, não é a 
África do Sul, não são os Países Baixos, não é a Inglaterra que nos mostram 
o caminho para cumprir as determinações da Segunda Lei. São os novos 
governos da Europa central e oriental e os antigos governos do noroeste 
europeu que nos dão a pista. É o exemplo dos ministérios da educação da 
Tchecoslováquia, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Japão, e Havaí que devem 
inspirar nosso ministério da educação.
388 Máxima de Manu
Não podemos encerrar este rápido esboço da expedição de conquista 
do mundo da Segunda Lei da biblioteconomia de maneira mais apropriada 
a não ser orando, com toda a sinceridade, pelo rápido sucesso da Segunda 
Lei na Índia, bem como para lembrar aos nossos ministros da educação 
que o exemplo de seus irmãos nas outras nações adiantadas está em íntima 
consonância com o preceito de nosso antigo legislador:
 Levar o saber às portas de quem dele carece e ensinar a todos a entenderem 
o que é certo!
 Nem mesmo a distribuição de toda a terra se compara a essa forma de 
serviço.
as cinco leis da biblioteconomia138
138
CAPÍTULO 4
A SEGUNDA LEI E SUAS IMPLICAÇÕES
40 Abrangência
No capítulo anterior, demos uma volta ao globo na trilha da expedição 
de conquista do mundo da Segunda Lei. Já que estamos em seu território, 
será útil analisarmos todas as implicações de sua mensagem e examinar-
mos o que acontecerá se a Segunda Lei for acatada na escala adequada. O 
estudo das implicações da Segunda Lei será mais fácil se a considerarmos 
no formato a cada pessoa seu livro. Destas cinco palavras, ‘cada’ e ‘seu’ 
é que guardam o segredo das implicações. Portanto, será adequado dedi-
carmos algum tempo a cada uma delas.
401 Implicações de ‘Cada’
As consequências de enfatizar ‘cada’ podem ser deduzidas do pro-
vérbio ‘cada umcom seu gosto’ que podemos parafrasear dizendo ‘cada 
leitor com seu gosto’. A questão a ser considerada é: quais, então, são os 
compromissos implícitos na tarefa de proporcionar a cada pessoa o seu 
livro? Talvez seja conveniente examiná-los sob quatro categorias: 1) os 
compromissos do Estado, 2) os compromissos da autoridade incumbida 
das bibliotecas, 3) os compromissos do pessoal das bibliotecas, e 4) os 
compromissos dos próprios leitores.
41 Compromisso do Estado
Os compromissos do Estado giram em torno de a) financiamento, b) 
legislação, e c) coordenação. Destes, o último compromisso será o de ajudar 
na redução do primeiro a um mínimo, e o segundo consiste normalmente 
em como definir a maneira de se desincumbir dos outros dois.
411 Recursos Financeiros
Comecemos a partir do axioma segundo o qual um fator necessário 
à manutenção de um sistema bibliotecário, que possa prestar um serviço 
satisfatório a cada membro da comunidade, é o financiamento. Os recur-
sos financeiros raramente caem do céu como o maná. Foi apenas no Israel 
pré-histórico que o Senhor disse “Eis que vos farei chover pão do céu; 
sairá o povo e colherá a porção de cada dia.”191 Por algum motivo, que só 
139
Ele conhece, parece que o Senhor desistiu dessa atuação direta e jamais diz 
“Eis que vos farei chover rupias do céu; as bibliotecas sairão e colherão a 
porção de cada dia”. Portanto, cada comunidade tem que encontrar, por 
si mesma, os recursos financeiros necessários para manter as bibliotecas. 
Se por sorte houver milionários em seu meio, guiados pelo Evangelho da 
riqueza, de Carnegie, a comunidade poderá isentar muitos de seus membros 
do pagamento de sua quota. Caso contrário, cada um deverá recolher sua 
parcela, cabendo ao Estado fixar a quota de cada um e providenciar sua efi-
ciente arrecadação, ou solicitar ao governo central que a arrecade e a repasse 
para as autoridades responsáveis pelas bibliotecas, ou autorizar os próprios 
órgãos locais a recolhê-la para empregá-la em suas respectivas bibliotecas, 
ou distribuir essa responsabilidade entre as partes, na proporção que for.
412 Taxa de Biblioteca
Assim que são ditas as palavras ‘taxa de biblioteca’, parece que nossos 
ministros perdem o fôlego. Quando voltam a respirar, frequentemente têm 
a desculpa-padrão, “Haverá um clamor público. Enfrentaremos imediata 
oposição.” Poderíamos contestar perguntando: “Será que eles desistem de 
arrecadar todas as taxas que encontram oposição?” Mas, se por acaso não 
estiverem convencidos da mensagem da Segunda Lei e da necessidade de 
obter recursos para usufruir o benefício dessa mensagem, não será desca-
bido mostrar-lhes a vertente econômica da mensagem livros para todos.
4121 Economia do Financiamento das Bibliotecas
As pessoas de qualquer comunidade constituem seu maior patrimônio 
econômico, que vale em dinheiro muito mais do que todos seus bens ma-
teriais. Tudo que sirva para preservar este patrimônio humano e contribua 
para torná-lo mais produtivo e valioso tem valor econômico direto para a 
comunidade. As escolas e as bibliotecas são duas das instituições públicas 
mais relevantes para aumentar o valor econômico do patrimônio humano, 
para não dizer de seu valor espiritual, que é muito mais importante. Este 
valor econômico das pessoas é muito real, embora a maioria de nós jamais 
cogite sobre a vastidão desta riqueza em termos de dinheiro. Os dados 
coletados pelas grandes seguradoras nos levariam a compreender o formi-
dável valor econômico dos seres humanos em conjunto e as imensas pos-
sibilidades de aumentá-lo por intermédio da oferta de livros para todos.
4122 Capital Humano*
Eis as conclusões da Metropolitan Life Insurance Company sobre o valor 
a segunda lei e suas implicações
* No original, human wealth (riqueza humana). A tradução ‘capital humano’ justifica-se para 
evitar ambiguidade, embora esta expressão somente haja passado a ter curso na literatura 
econômica a partir da década de 1950. (n.e.)
as cinco leis da biblioteconomia140
econômico da população dos Estados Unidos, baseadas em estudos feitos por 
seu pessoal técnico. A riqueza material dos Estados Unidos em 1922 era de 321 
bilhões de dólares — uma soma inconcebível. O valor econômico da população 
dos Estados Unidos nesse ano era cinco vezes maior, isto é, mais de um trilhão 
e quinhentos bilhões de dólares [...] E, contudo, em todas as discussões sobre 
taxação temos o hábito de dar muito maior importância ao capital material do 
que ao capital humano. Estudos como os da Metropolitan indicam a tremenda 
importância das escolas e bibliotecas no desenvolvimento do valor econômico 
do nosso povo, pois já se demonstrou inúmeras vezes que uma pessoa comum 
com escolaridade adequada possui mais valor econômico do que uma sem 
escolaridade, não só para a comunidade, mas também para si mesma.192
4123 Ato de Estadista
O reconhecimento desse notável valor — o maior recurso natural de 
qualquer comunidade, bem como do país como um todo — raramente 
passa pela cabeça do contribuinte comum. É função do estadista, que está 
no leme da administração, perceber isso claramente e, ao invés de se refu-
giar na má vontade do contribuinte de visão tacanha, ousar dar um passo 
adiante. Então, certamente receberá, no futuro, ele próprio ou sua memória, 
fartos elogios por esse gesto de coragem. O estadista está à frente do governo 
exatamente para implantar medidas cujo alcance foge à percepção dos ho-
mens comuns, e não só para dirigir a máquina rotineira da administração. 
Poucos são os estadistas que possuem essa visão ampla e convicção arrojada.
413 Reação das Pessoas
Quanto às pessoas que são servidas, se conseguirem os livros de que 
precisam quando deles precisam e se forem levadas a se conscientizarem, 
como fruto da própria experiência, de que as bibliotecas só existem para 
servir aos seus interesses, não tardará muito até que se regozijem ao ver a 
rubrica ‘biblioteca’ no seu carnê de impostos. Na verdade, a experiência 
de países, onde se reconhece que o serviço gratuito de acesso aos livros 
prestado pelo Estado constitui aplicação meritória do dinheiro público, 
aponta para essa conclusão. Para dar apenas um exemplo, “Em 1850 a lei 
de bibliotecas públicas [da Inglaterra] foi aprovada por uma maioria de 
apenas 17 votos. Em 1919, foi aprovada por unanimidade.”193 Talvez seja 
instrutivo investigar, com mais detalhes, o lento mas firme desapareci-
mento da oposição à taxa de biblioteca, na medida em que os benefícios 
do serviço de bibliotecas públicas começaram a chegar às massas, embora, 
no início, lhes tivesse sido empurrado goela abaixo.
414 Exemplo da Grã-Bretanha
Estimulado entre outras coisas pelo trabalho de Edward Edwards 
intitulado ‘A statistical view of the principal public libraries in Europe 
141
and the United States of North America’, apresentado à Statistical Society 
of London, em 20 de março de 1848,194 o Sr. William Ewart anunciou, no 
outono do mesmo ano, a escolha de uma comissão para estudar a neces-
sidade de implantação de bibliotecas públicas.
4141 A lei de 1850 
No dia 14 de fevereiro de 1850, depois de haver recebido o relatório da 
comissão, o mesmo parlamentar propôs à House of Commons autorização 
para apresentar um modesto projeto de lei, com a finalidade meramente 
de permitir aos conselhos das cidades que criassem bibliotecas públicas 
e museus, mediante a arrecadação de uma taxa que não deveria exceder 
meio pêni, na tributação geral da cidade. Opondo-se a esta inofensiva 
medida, de caráter autorizativo, que exigia que houvesse uma votação 
favorável de dois terços dos contribuintes para que a lei pudesse ser ado-
tada em qualquer cidade, o Sr. Buck proclamou que a “taxação adicional, 
que o projeto de lei propõe, neste momento em que a nação está em geral 
empobrecida, é vista como um sério agravo pelos interesses industriais e 
agrícolas do país”. Outro parlamentar, o Sr. Goulburn, apoiou a oposição, 
argumentando que “os contribuintes mais

Mais conteúdos dessa disciplina