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Sumário Abertura Créditos CONSTITUIÇÃO E DIREITO CONSTITUCIONAL I. COMPETÊNCIAS E SIGNIFICADO II. DA SINGULARIDADE DO DIREITO CONSTITUCIONAL III. A CONSTITUIÇÃO DIANTE DA MUDANÇA HISTÓRICA SIGNIFICADO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS I. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA ATUALIDADE II. A EVOLUÇÃO NA ALEMANHA III. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA REPÚBLICA FEDERAL IV. OBJETO E FUNÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS V. DOS PROGRESSOS NA PROTEÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS VI. TITULARES E SUJEITOS OBRIGADOS VII. DESENVOLVIMENTO E LIMITE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS VIII. PROTEÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS IX. PARA UMA VALORIZAÇÃO DO TRAJETO SEGUIDO PELOS DIREITOS FUNDAMENTAIS CONCEITO E PECULIARIDADE DA CONSTITUIÇÃO I. COLOCAÇÃO DO PROBLEMA II. O OBJETIVO DA UNIDADE POLÍTICA E DA ORDEM JURÍDICA III. A CONSTITUIÇÃO E SEU SIGNIFICADO PARA A COMUNIDADE A INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL I. NECESSIDADE, SIGNIFICADO E OBJETIVO DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL II. AS TRADICIONAIS REGRAS DE INTERPRETAÇÃO III. A INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL COMO CONCRETIZAÇÃO IV. A INTERPRETAÇÃO CONFORME À CONSTITUIÇÃO A FORÇA NORMATIVA DA CONSTITUIÇÃO I II III IV LIMITES DA MUTAÇÃO CONSTITUCIONAL I II III IV Rua Henrique Schaumann, 270, Cerqueira César — São Paulo — SP CEP 05413-909 PABX: (11) 3613 3000 SACJUR: 0800 055 7688 De 2a a 6a, das 8:30 às 19:30 saraivajur@editorasaraiva.com.br Acesse: www.saraivajur.com.br FILIAIS AMAZONAS/RONDÔNIA/RORAIMA/ACRE Rua Costa Azevedo, 56 – Centro Fone: (92) 3633-4227 – Fax: (92) 3633-4782 – Manaus BAHIA/SERGIPE Rua Agripino Dórea, 23 – Brotas Fone: (71) 3381-5854 / 3381-5895 Fax: (71) 3381-0959 – Salvador BAURU (SÃO PAULO) Rua Monsenhor Claro, 2-55/2-57 – Centro Fone: (14) 3234-5643 – Fax: (14) 3234-7401 – Bauru CEARÁ/PIAUÍ/MARANHÃO Av. Filomeno Gomes, 670 – Jacarecanga Fone: (85) 3238-2323 / 3238-1384 Fax: (85) 3238-1331 – Fortaleza DISTRITO FEDERAL SIG QD 3 Bl. 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Direito constitucional 342 Diretor editorial Antonio Luiz de Toledo Pinto Diretor de produção editorial Luiz Roberto Curia Editor Jônatas Junqueira de Mello Assistente editorial Thiago Marcon de Souza Produção editorial Ligia Alves Clarissa Boraschi Maria Coura Estagiário Vinicius Asevedo Vieira Preparação de originais, arte, diagramação e revisão de provas Know How Editorial Serviços editoriais Karla Maria de Almeida Costa Carla Cristina Marques Ana Paula Mazzoco Capa IDÉE Arte e Comunicação Data de fechamento da edição: 18-4-2009 Dúvidas? Acesse www.saraivajur.com.br Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei n. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. http://www.saraivajur.com.br APRESENTAÇÃO Tenho a honra de apresentar mais uma importante obra da Série IDP/Saraiva – Direito Comparado, desta feita Temas fundamentais do Direito Constitucional, coletânea de alguns dos mais importantes textos de Konrad Hesse. Konrad Hesse é um dos maiores teóricos do Direito Constitucional contemporâneo. Sua influência pode ser percebida não só pela importância de suas obras, constantemente citadas pela doutrina e pela jurisprudência, como também pelos inúmeros juristas formados sob sua orientação, dentre os quais se destacam Peter Häberle e Friedrich Müller, dois dos mais importantes constitucionalistas da atualidade. Nascido em 1919, Hesse obteve o doutorado em 1950 e em 1955 realizou o procedimento de admissão no corpo docente universitário na Universidade de Göttingen, iniciando suas atividades no semestre de inverno 1956/57, na Faculdade de Direito da Universidade de Freiburg. Além de grande acadêmico e teórico do Direito Constitucional, viveu a interpretação em sua prática, integrando o Tribunal Constitucional Federal alemão de 1975 a 1987. Faleceu no ano 2005 como um dos mais influentes constitucionalistas contemporâneos. Este livro reúne textos essenciais, verdadeiros “Temas Fundamentais”, relativos à Constituição e sua interpretação. Nosso intuito é apresentar ao leitor brasileiro a força e a originalidade do pensamento de Konrad Hesse. Os dois primeiros capítulos desta coletânea, traduzidos do espanhol por Carlos dos Santos Almeida e por mim confrontados com o original alemão, foram escritos por Hesse, inicialmente, para o Manual de Direito Constitucional organizado por Ernst Benda, Werner Maihofer e Hans-Jochen Vogel. Em “Constituição e Direito Constitucional”, Hesse apresenta a Constituição como ordem jurídica fundamental da comunidade, cuja adequada compreensão exige a adoção de uma perspectiva histórica. Afinal, “a Constituição só pode cumprir suas tarefas onde consiga garantir sua continuidade sem prejuízo das transformações históricas”. A preocupação com a perspectiva histórica é uma constante no pensamento do autor e também ilumina a análise por ele desenvolvida no segundo texto que compõe esta obra. Para compreender o “Significado dos Direitos Fundamentais” não se pode prescindir do conhecimento da cultura e da história, os quais determinam o conteúdo concreto dos direitos fundamentais para um Estado. Os dois textos seguintes foram originalmente publicados como capítulos iniciais da obra Elementos de Direito Constitucional da República Federal da Alemanha (Grundzüge des Verfassungsrechts der Bundesreoublick Deutschland) e posteriormente editados na coletânea organizada por Pedro Cruz Villalón, Escritos de Derecho Constitucional - Selección, a partir da qual foram agora traduzidos para o português pelo Professor Inocêncio Mártires Coelho. Em “Conceito e peculiaridade da Constituição”, Konrad Hesse busca um conceito de Constituição suscetível de embasar a efetiva solução de problemas jurídicos atuais, uma vez que, sendo a normatividade da Constituição vigente uma ordem histórico-concreta que deve regular uma vida histórico- concreta, “a única questão que tem sentido colocar-se no contexto da tarefa de se exporem os traços básicos do Direito Constitucional vigente é a relativa à Constituição atual, individual e concreta”. A busca de uma conceituação de tal espécie é defendida pelo autor como um passo necessário para a “realização” da Constituição, a qual só será possível quando as singularidadesdas relações existenciais concretas sobre as quais ela incida sejam levadas em consideração, de forma que Constituição e realidade não fiquem isoladas uma da outra. Em seguida, em “A interpretação constitucional”, Hesse examina a possibilidade de a interpretação alcançar um resultado constitucionalmente “correto”, que, fundamentado de maneira racional e controlável, seja capaz de garantir certeza e previsibilidade jurídicas. Assim, considerando que o conteúdo da norma só se completa com sua interpretação, esta deve ser entendida como “concretização” dotada de caráter criativo, cabendo aos princípios da interpretação constitucional “orientar e dirigir o processo de relacionamento, coordenação e valoração dos pontos de vista ou considerações necessários à solução do problema”. Por sua vez, “A força normativa da Constituição”, quinto capítulo desta coletânea, foi a base da aula inaugural de Konrad Hesse na Universidade de Freiburg, em 1959. Um dos textos mais significativos do Direito Constitucional moderno, nele a relação entre o texto constitucional e a realidade, base de todo o pensamento de Hesse, é abordada sob o enfoque do embate entre os fatores reais de poder e a Constituição, em que esta não deve ser considerada a parte mais fraca. A republicação deste texto, um dos trabalhos mais influentes do Direito Constitucional, por mim traduzido diretamente do alemão e originalmente publicado, como monografia, em 1991, dá-se agora nesta coletânea com o intuito de possibilitar o cotejo das idéias do autor de maneira privilegiada, fazendo perceber os pilares do seu pensamento, recorrentes nos diversos trabalhos, bem como sua evolução ao tratar em específico de certos temas. Por fim, encerrando esta coletânea, “Limites da mutação constitucional”, artigo também retirado da obra Escritos de Derecho Constitucional - Selección e traduzido para o português pelo Professor Inocêncio Mártires Coelho, Konrad Hesse aborda o tema das “modificações do conteúdo de normas constitucionais cujo texto não é modificado” em busca de limites para esse processo, sem os quais a distinção entre atos constitucionais e inconstitucionais seria impossível diante da alegação da existência de uma mutação constitucional que não se pode provar nem refutar. Por meio dos textos selecionados, pretende-se proporcionar uma representação fiel das idéias de um dos grandes teóricos do Direito Constitucional do último século, esperando que o estudo e a reflexão sobre os textos que a compõem possam contribuir para os debates a respeito do significado da Constituição, diante dos constantes desafios para sua correta interpretação e para preservar sua força normativa. Evidentes, portanto, a importância e a atualidade desta obra que a Série IDP/Saraiva coloca ao alcance dos estudiosos de Direito Público. Para tanto, contamos com a especial autorização da Sra. I. Hesse, que manifestou em seu nome e em nome de Konrad Hesse grande alegria diante da publicação no Brasil. Gilmar Ferreira Mendes CONSTITUIÇÃO E DIREITO CONSTITUCIONAL1 I. COMPETÊNCIAS E SIGNIFICADO II. DA SINGULARIDADE DO DIREITO CONSTITUCIONAL III. A CONSTITUIÇÃO DIANTE DA MUDANÇA HISTÓRICA Traduzido por CARLOS DOS SANTOS ALMEIDA A compreensão das partes integrantes e dos problemas da Constituição da Alemanha, de que tratam os capítulos seguintes, pressupõe uma visão de conjunto dessa Constituição. Necessita de um ponto de partida e de um certo marco com cuja ajuda se possa inferir o conteúdo de suas normas. Necessita-se penetrar em seus fundamentos e conexões básicas, sem as quais se podem ajuizar só de forma incompleta os problemas constitucionais atuais e futuros. A esta tarefa sirva a breve exposição do presente capítulo. Parte do reconhecimento de que a constituição de uma comunidade política concreta, seu conteúdo, a singularidade de suas normas e seus problemas hão de ser compreendidos de uma perspectiva histórica 2. Só a consciência dessa historicidade permite a compreensão total e o juízo acertado das questões jurídico-político-constitucionais. Isso é algo que não pode oferecer uma teoria geral e abstrata insensível, que não enquadre a constituição na realidade político-social e nas suas peculiaridades históricas. Tampouco a compreensão histórica pode prescindir, sem mais, da justificação e da configuração teórica. Mas semelhante teoria há de estar referida ao ordenamento constitucional concreto e à realidade que a Constituição está chamada a ordenar. I. COMPETÊNCIAS E SIGNIFICADO Qualquer tipo de união que pretenda perdurar precisa de um ordenamento formado e executado conforme sua vontade, que tenha delimitado seu âmbito e regulado, nele e para ele, a situação de seus membros. Um ordenamento dessas características denomina-se Constituição. Daí que todo Estado disponha necessariamente de uma Constituição... ordinariamente os povos civilizados dispõem de um ordenamento juridicamente reconhecido e composto de normas jurídicas. Segundo o que foi dito anteriormente, a Constituição contém, por regra geral, as normas jurídicas que caracterizam os órgãos supremos do Estado, estabelecem a forma de criá- los, suas relações recíprocas e suas áreas de influência, além da posição fundamental do indivíduo com respeito ao poder estatal3. Essa caracterização geral de G. JELLINEK nos proporciona uma primeira orientação4. Contém os aspectos essenciais da organização do Estado, de seus órgãos, de suas competências e os limites da atuação estatal. Ainda assim, só com isso não se pode inferir o sentido e significado de uma Constituição vigente num concreto momento histórico, como a Lei Fundamental para a Alemanha. Eles só se revelam a partir da consciência de outras funções – primárias - da Constituição, que incumbem a ela na realidade vital de uma comunidade política moderna, além da função organizativa: sua função integradora e sua função de diretriz jurídica5. 1. TAREFAS FUNDAMENTAIS DA CONSTITUIÇÃO As funções da Constituição na vida da comunidade são aplicáveis, antes de mais nada, a duas tarefas fundamentais: à formação e manutenção da unidade política e à criação e manutenção do ordenamento jurídico. Ambas estão estreitamente ligadas. a) Integração A unidade política de ação que denominamos Estado não é hoje, como se pressupõe na descrição de Jellinek, algo que venha dado sem outros motivos. Necessita-se estabelecer tal unidade, e se requer tanto mais sua conservação enquanto não corporificada na vontade uniforme de um povo soberano ou de uma classe dirigente. Pelo contrário, tem de cultivar-se e assegurar-se no processo político da moderna sociedade pluralista; na justaposição e na contenda de numerosos grupos, nos quais a compensação entre as diferentes opiniões, interesses e aspirações, como a resolução e regulação de conflitos, converteram-se, por igual, em tarefa arquetípica e condição de existência do Estado. Onde, partindo da pluralidade de vontades, já não é possível formar uma vontade conjunta vinculante, e onde já não se consiga estabelecer e realizar, pela via do entendimento ou das decisões majoritárias, os objetivos políticos, sucumbe o Estado como unidade política de ação. Seu nascimento e existência ficam condicionados ao êxito do processo de integração estatal, no que acertadamente se contempla um elemento fundamental de sua essência6. Esse êxito depende, em último extremo, do grau de adesão que encontre o Estado. Depende de que esse êxito seja sustentável, de que os cidadãos se façam responsáveis por ele, e, se for o caso, o defendam; só na medida em que isso seja assim, pode-se dizer que se trata de um Estado consolidado, de um Estado robusto. Essas condições dependem de numerosos fatores extrajurídicos, como a tradição, o nível de consciência política ou os líderes; e, em medida não determinável exatamente, e crescente, porém necessária, também do Direito. Isso porque qualquer processo necessita do ordenamento jurídico: a colaboração, que conduz à formação de uma unidade política e na que devem ser levadas a cabo competências do Estado,necessita da organização e de um processo ordenado7, e também a conciliação de vontades que não depende menos de que se configure o conteúdo do ordenamento de modo tal, que encontre a adesão das pessoas que hão de viver sob ele. Essa tarefa fundamental a cumpre a Constituição mediante seus direitos fundamentais. Nessa medida, a Constituição pode considerar-se como o ordenamento jurídico do processo de integração estatal. b) Organização A necessidade do ordenamento jurídico não se apresenta apenas para a formação e conservação da unidade política mas também para a ação e incidência dos órgãos estatais constituídos com esses fundamentos. Em tal medida, necessita- se de uma normatização da arquitetura do Estado e do cumprimento de suas tarefas. A necessidade de fixar essas competências de forma ordenada pela Constituição tem sido algo habitual. Trata-se de constituir órgãos a que confiar, em função de sua natureza objetiva, os diferentes, determinados e delimitados âmbitos de atuação estatal e as competências correspondentes, necessárias ao cumprimento objetivo de tais tarefas: a Constituição funda competências, criando, dessa maneira, poder estatal conforme o Direito com o alcance do respectivo mandato. É ela que regula, amiúde só em suas coordenadas fundamentais, os procedimentos que, dentro do possível, devem permitir a adoção de decisões adequadas. É ela que ordena as atribuições dos distintos órgãos estatais entre si, buscando conseguir, assim, que estes se complementem objetivamente, que se garanta a cooperação, a responsabilidade, o controle, a limitação do poder e, finalmente, que se impeça qualquer abuso de competências. As funções de integração e de organização são, em muitos casos, complementares entre si, pois tanto o conteúdo quanto o êxito da ação dos poderes estatais dependem da consecução de uma unidade política; esta, por sua vez, depende desse conteúdo e desse êxito, que, essencialmente, determinam que o Estado encontre adesão e apoio, por cujo motivo a orientação e os meios de ação estatal têm que dirigir-se claramente a uma adesão e a um apoio existentes ou previsíveis. c) Direção jurídica A função que cumpre o ordenamento jurídico não se aplica só ao Estado. Em sentido amplo, necessita-se do ordenamento jurídico para toda a convivência em comunidade dentro do território do Estado, convivência essa que, sem o ordenamento jurídico, não seria possível. Este não constitui um fim em si mesmo, não se trata de ordenar por ordenar; o importante é o conteúdo dessa ordenação: deve ser o moralmente reto e, portanto, o legítimo. O cânon dessa retidão nos tempos atuais, que têm cobrado consciência da historicidade de todo Direito, não é dedutível de um Direito natural existente à margem do pensamento e da ação humanos. Igualmente injustificável resulta remeter-se a um positivismo cético, para o qual, sem referência a conteúdo nenhum, Direito é qualquer regulação que tenha sido definida como tal pelas instâncias competentes. Frente a isso, a tradição jurídica depurada oferece parâmetros deduzidos da história do Direito. Também, no sentido inverso, pode-se chegar ao mesmo resultado: há experiências históricas que demonstram o que não é moralmente reto e, conseqüentemente, o que não se pode considerar Direito; esse é o caso do aniquilamento de existências sem valor racial ou vital, sob o regime de injustiça nacional-socialista. Demais disso, e relacionado com o anterior, deduzem-se outros cânones dos princípios jurídicos nascidos da luta e da experiência de muitas gerações e que se confirmaram por elas, principalmente dos direitos humanos e civis, bem como de outros princípios, como os de independência judicial ou o direito de ser ouvido. Cânones são, finalmente, os modelos para configurar o presente e o futuro da geração atual. A função diretriz da Constituição consiste em assumir esses cânones e – sobretudo, nos direitos fundamentais – dotá-los de força vinculante para todo o ordenamento jurídico. Por sua vez, esta Constituição contribui, seja como escalão intermediário, seja como traço de união, para garantir a existência de um ordenamento jurídico moralmente reto. 2. A CONSTITUIÇÃO COMO ORDEM JURÍDICA FUNDAMENTAL DA COMUNIDADE Ao cumprir essas tarefas fundamentais de formação de unidade política e de ordem jurídica, a Constituição se converte não só na ordem jurídica fundamental do Estado8 mas também na da vida não estatal dentro do território de um Estado, isto é, na ordem jurídica fundamental da comunidade. Esta Constituição determina primeiro as decisões que levam à unidade política, segundo as quais esta se deve executar e se devem levar a cabo as tarefas estatais. Tais decisões são, segundo a Lei Fundamental, a inviolabilidade da dignidade humana como princípio supremo do ordenamento constitucional, a república, a democracia, o postulado do Estado social de Direito, e a organização territorial em termos de Estado federal. Nas concreções posteriores de tais decisões, a Constituição ordena a organização e o procedimento de formação da unidade política e da ação estatal; estabelece limites à ação dos poderes públicos. Positiva normas segundo as quais se hão de constituir os órgãos do Estado, se há de determinar a orientação política global e se hão de decidir as questões pendentes. É essa mesma Constituição que regula as competências desses órgãos e, a grandes traços, o procedimento com que elas se hão de exercitar. E é ela também que estabelece o procedimento com que se hão de superar os conflitos que surjam dentro da comunidade. Além de tudo isso, a Constituição estabelece princípios fundamentais do ordenamento jurídico, e não só da vida estatal em sentido estrito. Positiva princípios e critérios para estabelecer e aplicar as normas do ordenamento. Ordena todas as esferas de vida essenciais à convivência, precisamente porque ditas esferas são consubstanciais à vida do conjunto e se encontram indissoluvelmente conectadas com a ordem política. Nesse sentido também são ordenados na Constituição os fundamentos de esferas vitais que nada têm a ver, de forma direta, com a formação de unidade política e ação estatal, como é o caso dos fundamentos do ordenamento jurídico civil: matrimônio, família, propriedade, herança, fundamentos do Direito Penal, princípios do ensino, da liberdade religiosa ou das relações laborais ou sociais. Em tudo isso, a Constituição é o plano estrutural básico, orientado por determinados princípios que dão sentido à forma jurídica de uma comunidade9. II. DA SINGULARIDADE DO DIREITO CONSTITUCIONAL O Direito Constitucional diferencia-se de outros ramos jurídicos não só em função de suas competências e de seu objeto. São peculiaridades essenciais seu nível hierárquico, a natureza de suas regras, bem como as condições de sua validade e de sua capacidade para impor-se na realidade social. Essas diferenças têm um significado essencial para sua forma de incidir na realidade: a tomada de consciência dessas diferenças é uma condição sine qua non para compreender os problemas constitucionais e sua adequada solução. 1. PRIMAZIA Ao Direito Constitucional corresponde a primazia relativa a todo o restante Direito interno10. Essa primazia é pressuposto da função constitucional como ordem jurídica fundamental da comunidade. Daí que o Direito Constitucional não possa ser derrogado nem reformado por leis ordinárias; nenhuma disposição do ordenamento jurídico nem ato estatal algum pode contradizê-lo; todos os poderes públicos, inclusive o Legislativo, acham-se vinculados pela Constituição (cfr. os arts. 20.3 e 1.3 GG). 2. CARÁTER ABERTO E VINCULANTE Essa vinculação, precisamente numa Constituição que, como a Lei Fundamental, estabeleceu uma jurisdição constitucional, não carece de problemas, já que as normas constitucionais não são completas nem perfeitas. Amplos setores, inclusive os da vida estatal em sentido estrito, estão ordenados unicamente mediante disposições de maior ou menor amplitude e indeterminação, e alguns nem sequer estão ordenados. A Constituiçãonão é um sistema fechado e onicompreensivo; não contém codificação, apenas um conjunto de princípios concretos e elementos básicos do ordenamento jurídico da comunidade, para o que oferece uma norma marco. Nesse sentido é um ordenamento aberto. Essa abertura é sempre limitada. Porém, na medida em que seja suficiente, concede – o que dá sobretudo um sentido e conteúdo essenciais ao ordenamento democrático – margem de atuação necessária a um processo político livre, tratando de garanti-lo. Por isso, a Constituição possibilita concepções e objetivos políticos diferentes, bem como sua persecução. Permite, também, levar em consideração mudanças técnicas, econômicas e sociais, adaptar-se à evolução histórica, assegurando-se, com isso, um requisito fundamental de sua própria existência e eficácia. Ao mesmo tempo, a indeterminação e a amplitude de algumas normas constitucionais têm certamente como conseqüência que, amiúde, algumas questões constitucionais resultem mais difíceis de resolver que as de outras áreas jurídicas que encontraram uma regulação normativa detalhada. Em concreto, a compreensão da Constituição, em especial dos direitos fundamentais, tem considerável importância e pode dar lugar a respostas diferentes. Dado que todos os poderes públicos estão submetidos à Constituição, decide-se aqui a questão capital de se, e com que amplitude, é livre o legislador para regular uma questão concreta, ou se está submetido a vínculos constitucionais, cujo respeito é controlável pelo Tribunal Constitucional. As relativas abertura e amplitude do Direito Constitucional ofereceriam, no entanto, o perigo de conduzir a uma dissolução em anarquia e insegurança se não fossem aparelhadas a uma fixação determinada e vinculante; ambas, abertura e vinculação, são pressupostos do cumprimento das tarefas da Constituição. Em conseqüência, esta determina os fundamentos do ordenamento da comunidade, bem como os conteúdos que devem ser subtraídos ao debate e a um constante questionamento. Com isso, devem-se proporcionar à comunidade os pilares e parâmetros orientadores necessários a fazer frente à multiplicidade de problemas. A Constituição atua como fator estabilizador; simultaneamente, atua como liberadora de tensões, porque só se apresenta como problema aquilo que não foi previamente decidido11, permitindo, com isso, a indispensável abertura. O que, sobretudo, fica estabelecido de forma vinculante é a arquitetura do Estado e os procedimentos no seu interior. Amiúde, tende-se a subestimar as normas de procedimento; no entanto, quando são adequadas à sua função contribuem na adoção da decisão correta sobre questões em litígio. Além disso, estabelecem uma determinada fórmula para as tomadas de decisões, excluindo, com isso, lutas desordenadas pelo poder. Finalmente, ditas regras tornam perceptível e compreensível para os participantes e afetados os processos decisórios. Quanto mais renuncie a própria Constituição a adotar decisões, mais importante será que estabeleça para elas um procedimento regrado. Só dessa forma a abertura da Constituição poderá cumprir a função que lhe é encomendada. 3. GARANTIA IMANENTE Por último, o Direito Constitucional se diferencia do direito de outros ramos jurídicos em que, em definitivo, não existe instância que possa impor sua observância; o Direito Constitucional tem que garantir-se por si mesmo, supondo-se, então, a existência prévia de uma configuração que esteja em condições de assegurar, quanto possível, tal garantia imanente. As funções ordenadora e pacificadora do Direito ordinário dependem, em grande medida, de que – se necessário – sejam impostas, por via executiva, mediante a coerção estatal. Sua observância, portanto, sempre resulta garantida a partir de fora. O contrário ocorre com as normas da Constituição. Sua observância não se garante nem por um ordenamento jurídico existente acima dela12 nem por uma coação supraestatal; a Constituição não depende senão de sua própria força e das suas próprias garantias. O que intenta é ter em conta tais pressupostos com uma configuração que, mediante a divisão e o concurso dos poderes públicos, procure, de forma natural, a observância do Direito Constitucional: por assim dizer, tem que criar um sistema que gravite sobre si mesmo e comporte os pressupostos necessários para prevalecer13. Não obstante, esse equilíbrio imanente sempre permanece precário. Sempre que exista um tribunal que deva decidir sobre a observância da Constituição, deverá determinar vinculantemente se se trata ou não de um caso assim, e da sentença do tribunal podem advir conseqüências sobre o restabelecimento ou o respeito à situação constitucional. No entanto, isso não pode impor-se coativamente; em última instância, depende de que cada órgão estatal se submeta voluntariamente à Constituição, e que reconheça e cumpra com todas as suas responsabilidades para fazê-la observar. A idéia de um guardião da Constituição14 situado acima ou à margem desse equilíbrio imanente confunde o problema e pode induzir a erro. 4. PRESSUPOSTOS PARA SUA EFETIVIDADE Mais além de tudo isso não pode o mais engenhoso sistema constitucional garantir efetivamente sua observância quando carece dos pressupostos necessários para alcançar sua efetiva vigência, quando a constituição não é capaz de se haver bem com a realidade de uma ordem configuradora e formadora de uma realidade histórica viva. Essa capacidade, que é um pressuposto para que a Constituição possa cumprir as funções assinaladas, depende, em grande medida, de fatores externos, sobre os quais, por sua parte, só pode influir limitadamente. Entre eles podem-se citar as circunstâncias da realidade histórica, a cujo ordenamento está destinada a Constituição, e o nível de desenvolvimento espiritual, social, político e econômico dos tempos. Quanto mais conecte o Direito Constitucional com tais circunstâncias, quanto melhor assuma as forças e tendências de cada época, melhor poderá exibir seus efeitos. Quando tenta apegar-se a formas historicamente superadas ou quando, pelo contrário, se proponha a uma utopia, fracassará inevitavelmente ante a realidade. Junto a tudo isso, não menos essencial é a conduta das pessoas que participam na vida constitucional, a disponibilidade dos dirigentes políticos e dos governados para aceitar como moralmente imperativo o conteúdo da Constituição. Não é a vontade dos diferentes legisladores que consegue que as normas da Constituição sejam acatadas, que se afirme o Estado como unidade política de ação estabelecida por ela, e seja assumido responsavelmente, mas, sim, que, ademais, o acordo dos progenitores da Constituição tem que se perpetuar, por princípio, entre aqueles que posteriormente hão de viver sob ela. Isso depende de que a ordem positivada nela, e por ela se considere moralmente reta, ordem legítima, e exiba à sua volta efeitos integradores. O consenso fundamental sobre isso, que deve transcender os atuais antagonismos e conflitos, é um fator essencial de que dependem a vitalidade e a eficácia do Direito Constitucional15. III. A CONSTITUIÇÃO DIANTE DA MUDANÇA HISTÓRICA 1. MUTAÇÃO E REFORMA CONSTITUCIONAL Toda Constituição é Constituição no tempo16; a realidade social, a que são referidas suas normas, está submetida à mudança histórica e esta, em nenhum caso, deixa incólume o conteúdo da Constituição. Quando se desatende dita mudança, o conteúdo constitucional “fica petrificado” e a curto ou longo prazo não poderá cumprir suas funções. Da mesma forma, a Constituição pode descumprir suas tarefas quando se adapta, sem reservas, às circunstâncias de cada momento; em tal caso, suas normas já não são pauta das circunstâncias, mas são estas que atuam como parâmetros de suas normas. Funcionalmente e só até certo limite pode contrapor-se a tal situação mediante a exigência de maiorias qualificadas para a reforma constitucional. Em ambos os casos, no entanto, a força dos fatos revela-se superior ao poder do Direito; no primeiro caso, o tempo deixa defasada a Constituição, e, no segundo,a degrada até reduzi-la a mero reflexo das relações de poder existentes em cada momento. Por isso, da perspectiva de Constituição no tempo, a Constituição só pode cumprir suas tarefas onde consiga, sob mudadas circunstâncias, preservar sua força normativa, isto é, onde consiga garantir sua continuidade sem prejuízo das transformações históricas, o que pressupõe a conservação de sua identidade. Partindo disso, nem a constituição com um todo nem suas normas concretas podem ser concebidas como letra morta, como algo estático e rígido; precisamente sua continuidade pode chegar a depender da forma em que se encare a mudança. Esta pode ser levada a efeito por duas vias. Uma dessas vias consiste em modificar o conteúdo das normas constitucionais mantendo intacto o texto literal, isto é, mediante uma mutação constitucional. Isso se produz naquelas cláusulas em que a Constituição, e em concreto no referente aos direitos fundamentais, contém normas abertas, isto é, regras que, por sua formulação generalista e lingüisticamente esquemática, só mediante progressivas concreções podem ser levadas à prática. Semelhante concreção só é possível quando o texto da norma é referido ao setor da realidade histórica sobre o qual a norma queira projetar-se. Esse setor co- determina o conteúdo da norma, que não pode ignorar as condições de sua realização nem manter-se inalterável17; transforma-se a realidade social, transforma-se, com ela, o conteúdo da norma. Essa transformação se faz observar claramente, sobretudo na jurisprudência do Tribunal Constitucional, tanto em algumas decisões específicas18 quanto no conjunto da jurisprudência sobre os direitos fundamentais da Lei Fundamental, que, em geral, desenvolveu o conteúdo desses direitos, superando sua originária significação como direitos de defesa. Os limites – que amiúde não resulta simples determinar em concreto – da mutação constitucional estão contidos no próprio texto constitucional19: resulta inadmissível uma interpretação diferente dos enunciados constitucionais em franca contradição com o seu texto. Mais além desse limite, para superar novas situações ou para proceder a reformas, impõe-se a modificação do texto, a reforma constitucional (cfr. art. 79.1 GG). Em todo caso, a reforma constitucional pressupõe que se mantenham intactas as decisões fundamentais que configuram a identidade da Constituição; segundo a Lei Fundamental, os princípios consagrados nos arts. 1° e 20 e a articulação territorial em Länder que concorrem com a legislação (art. 79.3 GG). As reformas constitucionais que eliminam essa identidade produzindo descontinuidade são inadmissíveis. Na realidade, tratar-se-ia de exercitar o poder constituinte, de substituir a atual por outra nova Constituição, à margem da ordem constitucional. 2. NOVOS PROBLEMAS O modelo constitucional com o qual se conecta a Lei Fundamental, embora tenha variado numa série de aspectos, é o do século XIX. Na monarquia constitucional da época era tarefa da Constituição limitar o poder pressuposto e, em princípio absoluto, da Coroa, e garantir, assim, ao cidadão e à Sociedade uma liberdade responsável. Isso se produziu, sobretudo, mediante a vinculação da Lei – Orçamentos do Estado incluídos – à aprovação das câmaras. Na medida em que os direitos fundamentais desempenhavam um papel determinante na garantia da liberdade, eram direitos de defesa contra o poder monárquico, que exigiam deste abster-se de intervir no direito protegido. O direito-liberdade, no âmbito garantido, era liberdade frente ao Estado ou, o que é o mesmo, uma delimitação de esferas subtraídas a qualquer intervenção dos poderes públicos20. a) As atuais tarefas do Estado No Estado democrático intervencionista, de prestação de serviços e de previsão do presente, as tarefas são essencialmente distintas. Não se trata tanto de limitar um poder estatal absoluto, que viesse historicamente dado, mas de constituir um poder previamente limitado, democraticamente legítimo, e de manter sua virtualidade e sua eficiência no processo político regulado. Trata-se, ademais, de garantir eficazmente, sob as condições atuais, a liberdade e uma vida digna. Para isso, junto a normas de organização, necessita-se também na Democracia dos direitos fundamentais como direitos de defesa frente às intervenções estatais. Contudo, já não basta o princípio de exclusão: o que os direitos fundamentais devem garantir depende não só de inexistência de tais intervenções, mas, numa dimensão considerável, da ação estatal, de que, mediante programação, intervenção e previsão estatais se dotem os cidadãos das condições materiais para uma vida livre e digna. Junto a isso, a tarefa de previsão é interpretável não só como a atual procura existencial e a previsão social; compreende também a responsabilidade para o futuro dos homens, o que obriga a ter em conta as possíveis conseqüências das decisões e processos atuais, ao como sucede, por exemplo, com a dívida do Estado, o armazenamento de resíduos radioativos ou a biogenética, e de preservar as gerações futuras dos ônus, perigos ou riscos que tudo isso leva consigo21. Prescindindo disso, a mera exclusão de esferas não suscetíveis de intervenção estatal não era suficiente, por si só, para preservar a liberdade humana dos perigos que podiam ameaçá-la a partir dos poderes não públicos que, nos tempos atuais, podem resultar mais ameaçadores que os derivados do próprio Estado. Quando, à vista de uma hipótese dessa, uma Constituição deva garantir a liberdade, para defendê-la frente ao Estado será necessário adotar cautelas ainda mais elaboradas que a positivação clássica. Tudo dependerá de que possa assegurar aqueles recursos e os serviços necessários a respeito, sem que, mercê de uma desmedida extensão da previsão, da planificação e da configuração globais, se anule a possibilidade de existência autodeterminada e responsável. Faz-se cada vez mais necessário coordenar as distintas esferas de liberdade suscetíveis de entrar em conflito. E, finalmente, dependerá de que a liberdade fique protegida frente ao exercício do poder social ou econômico que, em todo caso, exige a ação estatal. Portanto, uma ordem justa e eficiente em liberdade já não surge sem mais – como pretendia a doutrina clássica – da divisão dos poderes do Estado e de sua abstenção a respeito de esferas sociais autônomas, e sim de que atue positivamente num mundo cada vez mais complexo. Isso supõe deslocar as tarefas do Estado, das simplesmente orientadas a preservar a ordem estabelecida na direção de outras destinadas a configurar uma nova ordem e às formas próprias de ação para atender a tais incumbências. Nesse contexto, os meios imperativos tradicionais, em especial a Lei e o ato soberano, poderiam já não ser suficientes. Ademais, amiúde, uma série de medidas estatais só é executável se se conta com o concurso ou, ao menos, com a aprovação das forças econômicas ou de certos poderes sociais, e isso é algo que o Estado tem que conseguir por via de negociação. Segundo uma difundida interpretação, tudo isso reduz a capacidade do Estado de dirigir os processos sociais22, precisamente quando, cada vez mais, se tornou uma tarefa pública. b) Constituição e poder configurador Essa mudança já originou modificações essenciais na concepção constitucional e na interpretação de suas normas. Isso é aplicável, sobretudo, aos direitos fundamentais, cuja significação atual superou amplamente a versão clássica dos direitos de defesa (infra, cap. 3). Em tal medida, o alcance originário da Constituição não só se mantém como também, apesar das diferentes condições do presente, inclusive aumentou, como conseqüência do desenvolvimento e dos efeitos da jurisdição constitucional. Frente à moderna atividade configuradora do Estado, conserva a Constituição sua função limitadora, pois determina claramente que conteúdos não podem ter essas medidas. A esse respeito, carreia a constituição, como até agora, em si mesma os pressupostas de sua eficácia23; nessa função, pode justificar pretensões dos cidadãosem forma de ação judiciais impeditivas. Do ponto de vista positivo, a Constituição não pode, em troca, conduzir e tornar efetiva diretamente a atividade configuradora: unicamente pode oferecer diretrizes em forma de objetivos. Em tal medida permanece a Constituição limitada a positivar um programa público de configuração, que necessita ser executado posteriormente, e que, por isso, depende de que seja assumido em particular pelo legislador, e levado à prática segundo a situação e as possibilidades do momento24. Sempre que, além disso, se trate de realizar objetivos sociais, isso vem assistido por uma certa imperatividade do postulado do Estado social, que pode prescindir melhor que o Estado de Direito das garantias constitucionais de sua imposição, porque nenhum governo pode hoje em dia renunciar a uma política de previsão e compensação social25. c) Mudanças no ordenamento territorial A diferente natureza dos problemas que se hão de abordar observa-se adicionalmente no ordenamento federal da Constituição. A Lei Fundamental se entrelaça com as leis fundamentais da Federação Alemã e as constituições do século XIX, particularmente no que concerne à instauração do Bundesrat. Junto à vigente tarefa histórica de formação de unidade política no que diz respeito à autonomia dos membros da Federação, acrescenta-se, sob as hipóteses da estabilidade atual, a necessidade de garantir uma certa equiparação das condições materiais de existência, com sua inevitável conseqüência de crescente unitarismo, que é fomentada essencialmente por diversos fatores, tais como os partidos de âmbito nacional26. Com isso se atribui à Constituição a tarefa de garantir o sistema federal inclusive sob as condições atuais, o que exclui qualquer tipo de petrificação das velhas formas federais. O caminho seguido até hoje de compensar, ampliando as competências do Bundesrat, as perdas de autonomia em competências legislativas dos Länder, dificilmente levará a uma solução satisfatória. Não se deve ignorar, no entanto, uma tendência em sentido contrário: a crescente abundância e complexidade das competências do Estado torna inevitável uma desconcentração de seu desempenho, provocando, assim, um reforço dos centros de decisão política com sede em órgãos dos Länder. d) Internacionalização e europeização A atual abertura do Estado para o exterior, isto é, sua internacionalização e europeização, finalmente provoca mudanças essenciais. A internacionalização27 resulta da importância crescente dos acontecimentos exteriores, tanto para a vida interna como para a ação do Estado. Junto às múltiplas vinculações no sistema de tratados internacionais e as conseqüentes obrigações, põe-se claramente de manifesto a dependência da economia interna em relação à economia mundial e à sua evolução, isto é, às numerosas interdependências existentes, o que supõe que os assuntos externos e internos se tornam cada vez mais difíceis de separar. Da mesma forma que tais processos, restam ao Estado possibilidades de ação autônoma apenas quando se apresentam para uma regulação pela Constituição nacional. Disso resulta que esta perca parte de sua vigência geral. Para a República Federal se produzem repercussões muito amplas, derivadas de sua europeização, pela transferência de tarefas estatais para instâncias (supranacionais) da Comunidade Européia, que vai adquirindo maior peso quanto mais avança a Comunidade em direção à União Européia. Nesse sentido, perde a Constituição, na medida da renúncia estatal à sua exclusiva soberania, uma parte de seu valor originário. Ao mesmo tempo, a progressiva integração européia acarreta deslocamentos na ordem constitucional. Isso se observa, por exemplo, na perda de competências dos Länder no âmbito do regime federal. E é aplicável à democracia parlamentar, tanto na Federação quanto nos Länder: o processo de formação da vontade política nacional por intermédio do Parlamento democraticamente eleito se vê limitado em benefício da formação essencialmente executiva de vontade nos órgãos competentes da Comunidade Européia; tão logo entra em vigor o Direito europeu desaparece o espaço para o Direito nacional. O mesmo sucede com a função do Governo Federal responsável perante o Parlamento. Certamente, o Governo concorre no Conselho para a formação européia de vontade (art. 4° EWGV); porém, uma co-gestão com essas características não compensa a perda da autodeterminação nacional, sobretudo nos casos em que o Conselho tome uma decisão por maioria e fique a República Federal em minoria. Em conjunto, a Constituição e o ordenamento jurídico nacional tornam-se uma ordem fundamental e um ordenamento jurídico parciais aos quais se sobrepõe o Direito comunitário, o que, entre outras coisas, não deixará de afetar a ação e o significado da jurisdição constitucional. A importância desse processo não pode ser subestimada, porém, tampouco, deveria ser supervalorizada. O Direito Constitucional não chegará completamente a dissolver-se ao extremo de ser redutível a mero episódio da história constitucional. Com independência da forma que assumirá no futuro a Comunidade Européia: sua existência pressuporá sempre a dos Estados membros e, com isso, a de suas constituições 28. Do mesmo modo, a futura União Européia só poderá cumprir eficazmente suas tarefas se sua execução for descentralizada e observar o princípio da subsidiariedade, isto é, se a Comunidade se limitar a quanto requeira uma regulamentação uniforme29. De todas as formas, é inegável uma profunda mudança: a evolução do Estado desde sua concepção tradicional como soberano, nacional, relativamente hermético, para o Estado atual, internacionalmente imbricado e supranacionalmente vinculado, corresponde à perda da primazia e do valor e importância que até muito recentemente teve sua Constituição. Essa, enquanto Constituição de um membro da Comunidade Européia, tem de respeitar os limites fixados pelo Direito Europeu; seus conteúdos hão de levar em conta a necessária harmonização com a Constituição comunitária e orientar-se materialmente para o Direito europeu, de forma que as atuações de cada um dos Estados membros e as que se realizem em nível comunitário sejam congruentes entre si. Daí que, não por acaso, a unidade alemã se encontre intimamente relacionada à União Européia. Ambas se pressupõem de forma semelhante a como a Alemanha unida faça, necessariamente, parte da União Européia. O pertencimento da Alemanha a essa Europa é condição fundamental do giro histórico de acordo com o qual não cabe um ressurgir do antigo Estado nacional alemão. 3. POLÍTICA CONSTITUCIONAL Os problemas esboçados põem em relevo: a concepção tradicional do Estado é tão dificilmente mantenível como uma idéia de Constituição orientada para o modelo nacional à moda antiga. Partindo dessa situação, não seria correto inferir o ocaso ou, ao menos, uma crise do Estado constitucional. Não há dúvida quanto ao desafio que isso supõe para o presente. Por trás da fase atual de sua consolidação, de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, de progresso e mutação do ordenamento constitucional da Lei Fundamental, faz-se necessário observar, cada vez mais, os acontecimentos futuros; temos de tomar consciência do significado dos novos problemas para os direitos fundamentais, para os órgãos estatais estabelecidos pela Constituição, suas tarefas e a forma de levá-las a cabo, e para adotar as disposições com as quais a ordem constitucional possa fazer frente a novas situações ou às condições de funcionamento, bem como buscar vias que tornem possível, sob condições distintas, uma existência livre e digna. A tarefa de uma política constitucional provedora, claramente concebida, que, por isso, se imponha de forma categórica, é independente da unidade alemã. Constitui um processo a longo prazo em que a necessidade de concerto com o progresso da integração européia terá uma importância essencial. SIGNIFICADO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS30 I. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA ATUALIDADE II. A EVOLUÇÃO NA ALEMANHA III. OS DIREITOS FUNDAMENTAISNA REPÚBLICA FEDERAL IV. OBJETO E FUNÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS V. DOS PROGRESSOS NA PROTEÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS VI. TITULARES E SUJEITOS OBRIGADOS VII. DESENVOLVIMENTO E LIMITE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS VIII. PROTEÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS IX. PARA UMA VALORIZAÇÃO DO TRAJETO SEGUIDO PELOS DIREITOS FUNDAMENTAIS Traduzido por CARLOS DOS SANTOS ALMEIDA I. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA ATUALIDADE Um aspecto importante de nossa época é a significação, cada vez maior, dos direitos fundamentais31, evidenciada nos esforços das Nações Unidas que conduziram à Declaração dos Direitos Humanos de 10 de dezembro de 194832 e, mais recentemente, às Convenções Internacionais sobre Direitos Civis e Políticos e sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais33. Evidencia-se, também, na incorporação de direitos fundamentais às Constituições mais recentes, como as de Portugal e Espanha e, ultimamente, às dos Estados do Leste da Europa34. Manifesta-se no reconhecimento de direitos fundamentais no Direito Comunitário35, bem como na importância, cada vez maior, da Convenção Européia de Direitos Humanos e da jurisprudência do Tribunal Europeu de Direitos Humanos, criado para organizá-los. Finalmente, evidencia-se nos objetivos e na atividade da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, cuja Ata Final, de 1° de agosto de 1975, não criou Direito Internacional vinculante, mas adquiriu significação essencial para os movimentos por direitos humanos nos Estados do antigo bloco do Leste36. Este avanço universal dos direitos fundamentais de modo nenhum exclui sejam diferenças materiais, sejam diferenças em sua concepção ou em suas garantias. Assim, um mesmo direito fundamental podia significar algo absolutamente diferente numa Constituição socialista e no texto constitucional de uma democracia ocidental37; e, enquanto os direitos fundamentais ainda hoje, na Europa ocidental e na América do Norte, são interpretados basicamente segundo seu significado originário (clássico) como liberdades individuais e direitos políticos, surgem, com peso desigual, outras dimensões: direito sociais, de participação, de prestações para a satisfação das necessidades materiais básicas da população; especialmente em Estados do Terceiro Mundo, direitos de grupos e de Estados, como o direito ao desenvolvimento, à paz e à proteção do meio ambiente ou o direito de participar do patrimônio comum da Humanidade; os direitos humanos se vêem, assim, coletivizados38. As formas de garantir os direitos fundamentais podem ser diferentes, embora exista conformidade em seu conteúdo e interpretação, como ocorre no âmbito reduzido das democracias ocidentais. Nelas as soluções oscilam desde regular uma enumeração minuciosa de direitos fundamentais na Constituição (como sucede na Alemanha), ou remeter-se a uma Declaração histórica de Direitos Humanos (como na França), até reconhecer vigência aos direitos fundamentais como garantias não escritas (assim ocorre essencialmente na Grã-Bretanha). Da mesma maneira, é diferente seu desenvolvimento concreto, na medida em que vinculam o legislador ou a fiscalização judicial para garantir sua observância. Toda essa diversidade evidencia que a validade universal dos direitos fundamentais não supõe uniformidade. A razão é bem conhecida: o conteúdo concreto e a significação dos direitos fundamentais para um Estado dependem de numerosos fatores extrajurídicos, especialmente da idiossincrasia, da cultura e da história dos povos. Por isso, só tendo em conta esses aspectos torna-se possível uma compreensão objetiva das tarefas, da conformação e da eficácia dos direitos fundamentais num ordenamento jurídico estatal concreto. II. A EVOLUÇÃO NA ALEMANHA Os direitos fundamentais, que iniciaram sua carreira triunfal no fim do século XVIII com as magnas Declarações de Direitos Humanos, os Bill of Rights na América e as Declarações francesas de 1789 a 179539, só com titubeios foram admitidos, já entrado o século XIX, nas Constituições dos Estados alemães, por exemplo, nas Constituições da Baviera e Baden de 1818, na Constituição de Wurtemberg de 1819, ou – bem mais tarde – na Constituição prussiana de 1850. Porém, nem sequer naqueles Estados nos quais chegaram a formar parte da Constituição desempenharam, na prática, um papel considerável 40. Sua virtualidade se conseguiria pela primeira vez na raiz da revolução de 1848, com a tentativa de fundação do Reich. A Assembléia Nacional de Frankfurt começou a trabalhar na nova Constituição do Reich com a deliberação e aprovação de uma seção ampla de direitos fundamentais, que devia constituir o fundamento da unidade nacional do povo alemão. Essa tentativa fracassou. O Império alemão, que logo se fundou em 1871, não se baseava nos direitos do povo, mas nos dos príncipes; conseqüentemente, a Constituição de 1871 não continha quaisquer direitos fundamentais. Com o trânsito para a forma republicana e democrática do Estado, após a Revolução de 1918, ingressaram os direitos fundamentais pela primeira vez na Constituição do Reich. Na Assembléia Nacional de 1919, foi defendida a idéia de que, fenecida a Monarquia, daí em diante os direitos fundamentais deveriam ter, sobretudo, uma significação integradora. O projeto de Federico Naumann, baseado nessa idéia41, havia influído bastante na configuração da relação de direitos da Constituição do Reich. Porém, tampouco durante a República de Weimar, os direitos fundamentais chegaram a ter plena extensão e eficácia. O passado gravitava intensamente, e, para a corrente dominante na doutrina e na jurisprudência, só vogava o seguinte: considerava-se o conteúdo jurídico dos direitos fundamentais – seguindo especialmente a Jellinek, que vira a sua essência como expressão de uma autolimitação do Estado e de um poder de disposição concedido pelo Estado42 -, como mera modificação das situações vigentes até o momento, reguladas por leis especiais, e, em conformidade com isso, concebiam-nos mais com um caráter jurídico-privado e jurídico- administrativo do que estatal. Partindo dessa teoria, os direitos fundamentais se consideraram, em princípio, como expressão do direito à liberdade frente a qualquer coerção que não se ajustasse ao princípio da legalidade. Faltavam salvaguardas jurídicas frente a infrações, esvaziamento de conteúdo, modificações ou abolição; seriam eles incompatíveis com essa concepção. É certo que uma parte da doutrina alemã do Direito Político (Vereinigung Deutcher Staatsrechtslehrer ) percebeu e elaborou, em crescente medida, a significação dos direitos fundamentais; porém, essas tendências43, orientadas contra o formalismo e positivismo dominantes, não foram capazes de se impor no espaço de tempo existente até o ano de 1933. Dessa forma, os direitos fundamentais não puderam deter a eliminação, pelo Nacional-socialismo, do ordenamento constitucional democrático e do Estado de Direito; mais ainda, nem sequer de impedi-lo numa mínima proporção. O que se seguiu foi, durante os doze anos de domínio nacional-socialista até a capitulação incondicional do Reich, em 1945, o desprezo mais absoluto dos direitos humanos e civis. Por breve que seja tal exposição histórica, resultam evidentes as diferenças que separam a Alemanha das grandes democracias ocidentais. Isso explica sua peculiaridade a respeito da situação dos direitos fundamentais: em seu nascimento faltava o valioso patrimônio de uma tradição, em virtude da qual o conteúdo dos direitos fundamentais constitui o fundamento inquestionável da vida política e forja a consciência de governantes e governados. A experiência de um regime totalitário que depreciou o ser humano e sua liberdade e o fato de que a falta de tradição não tenha permitido considerar humanidade e liberdade como óbvias bases naturais do Estado conduziram, após 1945, ao esforço por estabelecê- las e fortalecê-las no novo ordenamento jurídico até o máximo de garantia possível. Dessa forma, o novo ordenamento jurídico baseia-se, já desde o artigo 1° GG, no princípio supremo, absoluto e intangívelda inviolabilidade da dignidade humana (art. 1.1 GG) e no reconhecimento dos direitos invioláveis e inalienáveis do homem (art. 1.2 GG). Os direitos fundamentais e suas possíveis limitações são regulados, caso a caso, pelo Direito Constitucional positivo; a Lei Fundamental tenta assegurar sua vigência jurídica da maneira mais sólida possível e submete sua observância a controles judiciais. Tudo isso, estabelecido no texto da Lei Fundamental, foi amplamente desenvolvido, elaborado e progressivamente desenvolvido pela jurisprudência, em particular pela emanada do Tribunal Constitucional. A mesma tarefa foi assumida, em relações de enriquecimento mútuo com a jurisprudência, pela doutrina do Direito Político, que, na atualidade, segue caminhos distintos daqueles da época de Weimar. Tudo isso conduziu a uma situação estatal em que os direitos fundamentais determinam e modelam não só a vida estatal mas toda a vida jurídica alemã. Aos direitos fundamentais corresponde um significado desconhecido até agora em sua história constitucional. Convém, a seguir, expor em detalhe essa situação. III. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA REPÚBLICA FEDERAL As garantias dos direitos fundamentais no Direito positivo alemão têm diversas bases. Os direitos fundamentais estão garantidos tanto na Lei Fundamental como na maioria das constituições dos Länder, tendo, conseqüentemente, a condição de Direito Constitucional federal ou de Land. Junto a eles aparecem direitos fundamentais em normas de Direito Internacional e que resultam aplicáveis como Direito federal (ordinário), especialmente na Convenção Européia para Proteção dos Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais44. A aplicabilidade respectiva e as relações recíprocas dessas garantias – em grande parte de conteúdo análogo -, estão reguladas com clareza, de forma que só ocorre colisão em casos concretos. 1. OS DIREITOS DA LEI FUNDAMENTAL A Lei Fundamental é a primeira Constituição alemã que coloca no topo do texto a enumeração dos direitos fundamentais (arts. 1°- 19). Com isso, expressa um traço essencial do novo ordenamento democrático e do Estado de Direito: o significado constituinte dos direitos fundamentais para esse ordenamento após a época de menosprezo e graves violações dos direitos humanos pelo regime nacional-socialista. Sem dúvida, essa enumeração não implica exclusão. Nos capítulos seguintes da Lei Fundamental se garantem direitos que também se podem considerar fundamentais (por exemplo, nos arts. 33, 101 ou 103 GG) e que também haviam encontrado acolhida pelo Direito alemão histórico no quadro dos direitos fundamentais das constituições. Apesar disso, considerados em conjunto, os direitos fundamentais da Lei Fundamental se circunscrevem basicamente aos clássicos direitos humanos e civis. Os constituintes de 1949 evitaram, conscientemente, incluir regras da vida econômica, social e cultural que transcendessem tais direitos, como se continham – ainda que só como programa não vinculante para o legislador, segundo a interpretação dominante – na Constituição do Reich de 191945. 2. DIREITOS FUNDAMENTAIS DAS CONSTITUIÇÕES DOS LÄNDER As constituições dos Länder, que já estavam em vigor com anterioridade à Lei Fundamental (Baviera, Bremen, Hesse, Renania-Palatinado, O Sarre), contêm uma enumeração mais completa dos direitos fundamentais que a Grundgesetz; a mesma coisa se pode dizer das constituições dos novos Länder da Alemanha Oriental. Das surgidas posteriormente à Lei Fundamental, as da Renânia do Norte-Vestifália (art. 4°) e Baden Wurtemberg (art. 2°) fizeram remissão à Lei Fundamental para a incorporação de seus direitos fundamentais; ao mesmo tempo, ambas garantiram direitos fundamentais mais avançados. As constituições de Hamburgo, Baixa Saxônia e Schleswig-Holstein não contêm nenhum direito fundamental. A última incorporou as normas definidoras de tarefas do Estado (Staatszielbestimmungen ) relativas à igualdade da mulher e à proteção do meio ambiente. Nesses Estados vigem os direitos fundamentais da Grundgesetz . Na medida em que as constituições dos Länder garantam os direitos fundamentais de acordo com ela ou os incorporem a si mesmas, estes entram em vigor como Direito do Land (art. 142 GG). Se o Direito Constitucional do Land regular direitos fundamentais distintos dos da Grundgesetz, dada a preeminência do Direito federal, aqueles não poderão contradizer a Lei Fundamental. As garantias estabelecidas pelas constituições dos Länder para salvaguardar os direitos fundamentais ganham importância considerável ali onde contêm decisões em matérias que são de sua exclusiva competência, como sucede, sobretudo, com o direito escolar ou do ensino superior. O mesmo se pode dizer se houver previsão de procedimento de jurisdição constitucional própria para a tutela judicial de ditas garantias (de acordo com o ordenamento jurídico do Land). Até agora, esta via foi adotada pela Constituição bávara (art. 120); o mesmo sucede com as constituições de Berlim (art. 72), Brandenburgo (art. 112 f) Saxônia (art. 81) e Saxônia-Anhalt (art. 75 f), assim como com os projetos de Meclemburgo- Antepomerânia e Turíngia. 3. DIREITOS FUNDAMENTAIS DA CONVENÇÃO EUROPÉIA DE DIREITOS HUMANOS E DOS TRATADOS INTERNACIONAIS Segundo o seu preâmbulo, a Convenção Européia para a proteção dos Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais46 pretende garantir o reconhecimento universal e efetivo dos direitos que nela se proclamam, promovendo, com isso, a integração européia. Na seção I regula direitos humanos concretos e suas possíveis limitações; nas seções II a IV tenta assegurar o cumprimento das obrigações que a Convenção impõe aos Estados signatários, mediante a criação de uma Assembléia e de um Tribunal de Justiça para os Direitos Humanos. A Convenção não é norma geral de Direito Internacional. Por isso, não compartilha da preferência hierárquica dessas normas (art. 25.2 GG). Ao contrário, na Áustria, onde desfruta de nível constitucional, e na Suíça, onde cabe o recurso de apelação contra as violações das garantias fundamentais, a Convenção vigora, como já se disse, com força de lei federal ordinária. No entanto, essa diferença de validade formal não modifica substancialmente o significado objetivo dos Direitos da Convenção, que, como símbolo do progresso atual dos direitos fundamentais além do âmbito nacional, exclui a incomunicabilidade entre direitos fundamentais nacionais e europeus. Por isso, como o pôs acertadamente em relevo o Tribunal Constitucional, o conteúdo e a evolução da Convenção Européia de Direitos Humanos devem ser levados em conta na interpretação da Grundgesetz; em tal sentido, a jurisprudência do Tribunal Europeu de Direitos Humanos contribui na determinação do conteúdo e alcance dos direitos fundamentais da Constituição47. Do mesmo modo, na Alemanha, vigoram com caráter de Direito ordinário as disposições da Carta Social Européia (que só estabelece obrigações jurídico-internacionais dos Estados, e não direitos individuais dos cidadãos) e os Acordos Internacionais sobre Direitos civis e políticos, bem como sobre Direitos econômicos, sociais e culturais (supra, número marginal 3)48. Na prática, não têm importância significativa na proteção dos direitos fundamentais dentro dos Estados. IV. OBJETO E FUNÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS 1. A CONDIÇÃO POLIFACÉTICA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS Os direitos fundamentais devem criar e manter as condições elementares para assegurar uma vida em liberdade e a dignidade humana. Isso só se consegue quando a liberdade da vida em sociedade resulta garantida em igual medida que a liberdade individual. Ambas se encontram inseparavelmente relacionadas. A liberdade do indivíduo só se pode dar numa comunidade livre, e vice-versa; essa liberdade pressupõe seres humanos e cidadãos com capacidade e vontade para decidir por si mesmos, sobre seus próprios assuntos e para colaborar responsavelmente na vida da sociedade publicamente constituída como comunidade. Essas circunstâncias forjam a singularidade, a estrutura e a funçãodos direitos fundamentais: garantem não só direitos subjetivos dos indivíduos mas também princípios objetivos básicos para o ordenamento constitucional democrático e do Estado de Direito, fundamentos do Estado constituído pelos ditos direitos e seu ordenamento jurídico. Em seu duplo caráter mostram diferentes níveis de significação que, respectivamente, se condicionam, criando e mantendo consenso; garantem a liberdade individual e limitam o poder estatal; são importantes para os processos democráticos e do Estado de Direito, influem em todo seu alcance sobre o ordenamento jurídico em seu conjunto e satisfazem uma parte decisiva da função de integração, organização e direção jurídica da Constituição (supra cap. I, tít. 1, números marginais 5 ss.). 2. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS COMO DIREITOS INDIVIDUAIS DE DEFESA E DE ACESSO OU PARTICIPAÇÃO Os direitos fundamentais e sua especial garantia se propõem, a partir da tradição e do desenvolvimento histórico alemão, a prevenir ataques do Estado à esfera de existência individual. Esse é também o ponto de partida mantido até o momento pela jurisprudência do Tribunal Constitucional49; de acordo com a história e o conteúdo atual, os direitos fundamentais constituem, antes de mais nada, direitos humanos, direitos individuais e civis, cujo objeto consiste na proteção de esferas concretas e mais intensamente ameaçadas da liberdade humana50. O Tribunal se atribuiu como tarefa, a partir de um princípio, desenvolver uma efetiva proteção desses direitos. Ao esclarecer e fixar o conteúdo normativo e o alcance dos direitos concretos, suas relações recíprocas e os requisitos para sua limitação (infra números marginais 64 ss.), fez progredir substancialmente, em comparação com épocas pretéritas, a eficácia real dos direitos fundamentais. Em tal empreendimento, deixou-se guiar pela idéia de que só é compreensível o âmbito de proteção de um direito fundamental observando os dados da realidade social; e, assim, não pode uma mudança nesses dados deixar de ser levada em conta - hipótese relevante, por exemplo, à hora de determinar o alcance da garantia da propriedade51 ou da liberdade de comunicação (rádio e televisão)52. O conteúdo dos direitos fundamentais enquanto direitos subjetivos não se esgota nesse significado comum e geralmente aceito. Ao sentido negativo ou de defesa se acrescenta uma significação positiva não menos importante: trata-se, também, de que a pessoa faça uso dessa liberdade. Só mediante uma tal atualização podem-se tornar realidade a autodeterminação do indivíduo e sua participação responsável na vida política, social, econômica e cultural e pode cobrar vida a ordenação de uma sociedade constituída em liberdade. Isso se faz especialmente evidente com o direito à liberdade de expressão, constitutivo por antonomásia para um ordenamento estatal livre e democrático, porque só o permanente debate de argumentos permite a luta entre opiniões que constitui seu elemento vital53; em tal sentido, esse direito fundamental pode adotar o caráter de direito de acesso ou participação. Sem dúvida, dita liberdade positiva não pode significar que se deva fazer uso só de uma determinada maneira, de tal forma que qualquer outro uso dela não fosse protegido. Se para a Constituição é importante que se atualize o conteúdo dos direitos fundamentais, não o é menos que essa atualização se produza em liberdade, algo só factível se existem outras alternativas. Por isso, sempre se garante a liberdade não só de professar uma fé, de manifestar opinião ou de se filiar a partido ou sindicato mas também de não o fazer. 3. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS COMO PRINCÍPIOS OBJETIVOS Pertence desde as origens da tradição dos direitos fundamentais a idéia de que eles não são só direitos subjetivos mas, ao mesmo tempo, princípios objetivos da ordem constitucional. Mas na Alemanha, essa idéia só desempenhou algum papel nas deliberações da Assembléia Nacional de Frankfurt, de 1848. Mais tarde se perde; a interpretação formalista dominante até a época de Weimar não era capaz de abarcá-la. Só obteve reconhecimento a doutrina das garantias institucionais ou de institutos, que via na salvaguarda, por exemplo, do matrimônio, da família, da propriedade, ou, também, da liberdade do ensino ou de investigação, ou da autonomia local, não direitos subjetivos, mas, sim, garantias constitucionais dessas instituições ou figuras jurídicas semelhantes54. A interpretação atual dos direitos fundamentais, como princípios objetivos não só do ordenamento constitucional mas também do ordenamento jurídico em seu conjunto, supera amplamente ditas formulações originárias. Contudo, a significação objetiva dos direitos fundamentais não é meramente justaposta à significação primária jurídico-subjetiva em termos de direitos humanos e civis. Trata-se, sobretudo, de uma relação de remissão e complementação recíprocas. Ao significado dos direitos fundamentais como direitos subjetivos de defesa do indivíduo frente às intervenções injustificadas do Estado corresponde seu significado jurídico objetivo como preceitos negativos de competência. As competências legislativas, administrativas e judiciais encontram seu limite sempre nos direitos fundamentais; estes excluem da competência estatal o âmbito que protegem, e, nessa medida, vedam sua intervenção. Ao significado dos direitos fundamentais como direitos subjetivos garantidos para sua contínua atualização corresponde seu valor de peça fundamental do ordenamento democrático, do Estado de Direito e – se bem que em proporção reduzida – da ordem federal, que, por sua vez, unicamente podem tornar-se efetivos se são vivificados mediante a atualização dos direitos fundamentais enquanto direitos subjetivos. Dessa forma, num Estado de Direito, os direitos fundamentais operam como limite da ação estatal, como garantia dos fundamentos do ordenamento jurídico, em particular dos institutos essenciais do ordenamento jurídico privado; obrigam a proteger os conteúdos que garantem mediante procedimentos adequados. De igual maneira, o ordenamento democrático da Lei Fundamental busca sua configuração jurídica nos direitos fundamentais, nos princípios de um sufrágio geral, livre, igual e secreto, o da igualdade de oportunidades dos partidos políticos, da liberdade religiosa e ideológica, das liberdades de expressão, reunião e associação. Esses direitos fundamentais regulam e asseguram a livre e igual participação dos cidadãos na formação da vontade política e, ainda mais, protegem a atividade e a igual oportunidade das minorias políticas e a formação da opinião pública: em conjunto, a liberdade e abertura do processo político como o traço decisivo da democracia que regula a Lei Fundamental. Dentro do ordenamento federal, os direitos fundamentais criam um standard constitucional unitário de direitos e princípios, que funda uma certa homogeneidade e que, com este efeito, pertence aos fundamentos de nosso federalismo atual. Sobre o significado dos direitos fundamentais para a vida estatal, sobreleva sua interpretação como princípios objetivos do ordenamento jurídico em seu conjunto, que a jurisprudência do Tribunal Constitucional vem desenvolvendo. Foi plasmada na transcendente sentença ditada em 15 de janeiro de 1958 ao resolver o caso Lüth55. De acordo com essa sentença, os direitos fundamentais destinam-se, em primeiro lugar, a assegurar a esfera de liberdade do indivíduo frente a intromissões do poder público. Ao mesmo tempo, a Lei Fundamental, que não quer ser de nenhum modo uma ordem neutra perante os valores, erigiu na seção correspondente aos direitos fundamentais uma ordem axiológico-objetiva, e nela se expressa, com valor de princípio, um robustecimento da força normativa dos direitos fundamentais. Esse sistema de valores, cuja medula radica na personalidade humana, atuando livremente no seio da sociedade constituída, bem como na dignidade da pessoa, deve vigorar como decisão constitucional básica em todas as esferas do Direito: dele recebem orientação e impulso a legislação, aadministração e a atividade jurisdicional. O decisivo dessa concepção ampla dos direitos fundamentais foi a rejeição à sua interpretação formal, dominante até então, e a guinada no sentido de uma noção material que compreende a dimensão jurídico-objetiva ínsita neles e que os concebe como princípios supremos do ordenamento jurídico, ao abrigo de qualquer relativização. Tal interpretação foi criticada56 – e também subsistem discrepâncias a respeito da relação entre as duas vertentes dos direitos fundamentais. De todas as maneiras, acabou por impor-se a idéia citada de que os direitos fundamentais continham os princípios normativos superiores do ordenamento jurídico. Essa interpretação produz efeitos de grande profundidade que aparecem por toda parte na jurisprudência constitucional. Os direitos fundamentais influem em todo o Direito – inclusive o Direito Administrativo e o Direito Processual – não só quando tem por objeto as relações jurídicas dos cidadãos com os poderes públicos mas também quando regulam as relações jurídicas entre os particulares. Em tal medida servem de pauta tanto para o legislador como para as demais instâncias que aplicam o Direito, as quais, ao estabelecer, interpretar e pôr em prática normas jurídicas, deverão ter em conta o efeito dos direitos fundamentais57. O Tribunal Constitucional circunscreveu dita influência sobre o Direito Privado – e a mesma coisa é de ser dita para as outras esferas do Direito -, no sentido de que o conteúdo jurídico dos direitos fundamentais, como normas objetivas, se espraia indiretamente pelos preceitos que regem imediatamente tais matérias. Sua interpretação doravante vai ser determinada pelo conteúdo constitucional específico que dimana do sistema axiológico dos direitos fundamentais. Um conflito surgido da aplicação de tais normas jurídico-civis informadas por direitos fundamentais continuará sendo, tanto na ordem material como na processual, um conflito jurídico de natureza civil. Continuará sendo o Direito Civil interpretado e aplicado, ainda que a interpretação tenha de seguir a Constituição58. Direito Constitucional e legislação ordinária se imbricam entre si de tal forma que se pode converter em problema o alcance dos controles constitucionais da decisão adotada. Além desses efeitos, a concepção dos direitos fundamentais como normas objetivas supremas do ordenamento jurídico tem uma importância capital, não só teórica, para as tarefas do Estado. Partindo dessa premissa da vinculação dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário aos direitos fundamentais (art. 1.3 GG), surge não só uma obrigação (negativa) do Estado de abster-se de ingerências no âmbito que aqueles direitos protegem mas também uma obrigação (positiva) de levar a cabo tudo aquilo que sirva à realização dos direitos fundamentais, inclusive quando não conste uma pretensão subjetiva dos cidadãos. V. DOS PROGRESSOS NA PROTEÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS 1. NOVAS FORMULAÇÕES Uma obrigação positiva do Estado como a que se acaba de referir constitui um elemento essencial para a evolução progressiva e o desdobramento dos direitos fundamentais. Isso foi manifestado nas mudanças históricas e na conseguinte transformação das condições em que atualmente, e num futuro previsível, se há de desenvolver a liberdade humana (cf. supra sobre isso; cap. I, tit. 1, III, 2, números marginais 26 e ss.): a metamorfose do Estado moderno em Estado social, e o fato de que a liberdade humana resulte ameaçada não só pelo Estado mas por poderes não estatais que atualmente podem ser ainda mais ameaçadores que o próprio Estado. A liberdade dos cidadãos sob as relações atuais não reside só numa liberação da intervenção estatal. Uma configuração em liberdade e autonomia da própria existência depende muito mais de uma série de condições, que não estão à disposição do indivíduo, a respeito de que o indivíduo, na melhor das hipóteses, só parcialmente dispõe, freqüentemente nem isso sequer. Hoje em dia o provimento e a manutenção de tais condições constituem uma clara tarefa do Estado, que chegou a ser quem planeja, guia e configura, isto é, o Estado do cuidado existencial e da segurança social. Por isso, na medida em que a liberdade humana, do ponto de vista do Estado, não dependa tanto já de que ele evite intervir nas esferas particulares quanto de que sua atividade se exerça com alcance geral, não se garante por mais tempo concebendo os direitos fundamentais como meros direitos de defesa. A importância do Estado para a liberdade aumenta à medida que, no limitado e complexo mundo atual, com seus cada vez mais escassos recursos existenciais, não só não se podem ampliar muitas das esferas da liberdade, como, inclusive, tendem a contrair-se. Na medida em que há a ameaça de colidir a liberdade de uma pessoa com a dos demais, faz-se muito mais necessário que antes demarcar, delimitar e ordenar os âmbitos da liberdade, e isso se tornou incumbência do Estado. Isso se torna especialmente evidente com as liberdades em matéria econômica, e, igualmente, na esfera da educação; de igual modo, no âmbito da liberdade de comunicação, o desenvolvimento dos meios modernos, de imprensa, rádio e televisão, conduz à necessidade de delimitar e ordenar as divergentes expectativas de liberdade. Também a segunda hipótese citada, a ameaça da liberdade humana por poderes estatais, leva a novas colocações. A liberdade só se garante efetivamente como um todo unitário. Dado que não deve ser só para os poderosos, deve proteger-se também frente a influências sociais. Se tal questão se considera jurídico-fundamental, a interpretação dos direitos fundamentais como simples direitos de defesa frente ao Estado não oferece solução. Sob ambos os aspectos: se se observa a liberdade tanto do ponto de vista do Estado como do dos poderes sociais, a liberdade que garante os direitos fundamentais não se pode entender como uma esfera do indivíduo livre da influência estatal, que o Estado simplesmente tenha de respeitar. A busca pelo Estado da efetividade dos direitos fundamentais tornou-se precondição de que chegue a haver uma real liberdade. O Estado já não aparece só como o inimigo potencial da liberdade, mas tem de ser também seu defensor e prote-tor. Por sua parte, é evidente que esse papel não está livre de perigos, já que uma ampliação ilimitada da responsabilidade e atividades do Estado que desemboque no onicompreensivo cuidado, planificação e configuração estatal anularia toda configuração existencial auto-responsável. Em tal medida, as garantias constitucionais, que devem cumprir essas funções, aproximam-se dos direitos fundamentais da segunda geração (supra número marginal 2). Junto à particularidade de que não só obrigam o Estado a uma abstenção mas também a uma atuação positiva, levantam a questão de se a obrigação jurídico-objetiva do Estado corresponde, e em que medida, a um direito subjetivo das pessoas e dos cidadãos para demandar do Estado tal atuação. 2. DIREITOS FUNDAMENTAIS COMO DIREITOS DE PARTICIPAÇÃO OU DE PRESTAÇÃO Como uma solução à problemática da garantia jurídico- fundamental das condições de uma vida em liberdade, a dignidade humana oferece, segundo o Direito Constitucional vigente, uma nova interpretação ou expansão das liberdades fundamentais, até converter-se em direitos de participação ou de prestação, que fundam a pretensão de que se procurem e mantenham aquelas condições. Nesse extremo, não apresenta o tema dos direitos derivados de participação dificuldade nenhuma. Se nos regimes de prestação existentes, por exemplo, da seguridade social, da atenção a vítimas de guerra ou do fomento do ensino houvesse pessoas ou grupos de pessoas total ou insuficientemente levadas em conta, e se a distinção assim estabelecida em relação aos grupos de pessoas implicadas no sistema não resultasse compatível com o princípio da igualdade (art. 3° GG), poderia resultar desse direito fundamental, em conexão, em seu caso, com um direito-liberdade e com o postulado do Estado social (arts. 20.1, 28.1 GG), uma pretensãoa igual participação. A efetividade dessas pretensões ou direitos pressupõe basicamente que se complete a lei reguladora: o cidadão pode conseguir assim que o Tribunal Constitucional declare anticonstitucional a lei e, em conseqüência, fique o legislador obrigado a remover esse atentado à igualdade. Não se distinguem, essencialmente, tais direitos derivados de participação das habituais pretensões baseadas em direitos fundamentais: trata-se da convencional gama de prevenções frente a um tratamento desigual, que pode circunstancialmente desembocar num direito de participação. Pretensões dessa índole contam, entretanto, com o reconhecimento sem reservas pela jurisprudência e pela doutrina59. Os autênticos problemas dos direitos fundamentais como direitos de participação começam a propósito da questão que, se levadas em conta as transformações mencionadas nas condições da liberdade humana, podem ou, ainda, devem os direitos fundamentais ser entendidos como direitos originários de participação; doutro modo, cabe basear-se neles não só uma distribuição igual no sistema existente de prestações mas também direitos de participação quando estejam ainda por se criarem as condições para satisfazê-los. O Tribunal Constitucional não excluiu, em princípio, tal perspectiva na sentença de 18 de julho de 1972, em relação à admissibilidade de limitações para o acesso à Universidade60. Quanto mais energicamente se orienta o Estado moderno à asseguração social e à promoção cultural dos cidadãos, tanto mais se afirma na relação entre os cidadãos e o Estado, junto ao postulado originário de assegurar como direito fundamental a liberdade frente ao Estado, a exigência complementar de garantir como direito fundamental a participação em prestações estatais. Isso tem aplicação especial no domínio da educação, visto que o direito à livre eleição do centro de ensino (art. 12.1 GG) careceria de valor sem as condições efetivas para poder ter acesso a ele. Nesse caso e com tal estado de coisas, é mister tomar partido a respeito daquilo que se infere das decisões axiológicas fundamentais e da assunção estatal da titularidade do monopólio educativo de um mandato constitucional objetivo que obrigue o Estado social a prover suficientes recursos docentes, ou sobre se desse mandato constitucional é dedutível em circunstâncias especiais uma pretensão individual do cidadão a que se criem vagas escolares, suscetível de tutela judicial. Tais direitos de participação se colocariam, em qualquer caso, sob a reserva do possível – entendendo por cumprimento possível aquele que o indivíduo pudesse razoavelmente exigir da sociedade. Tanto nessa quanto em posteriores decisões ficou pendente a questão. A própria sentença de 18 de julho de 1972 chama a atenção sobre as objeções colocadas para uma nova interpretação dos direitos de liberdade como direitos originários de participação. De acordo com a divisão de funções contemplada na Lei Fundamental, a regulação de direitos ou pretensões materiais a prestações e as questões a ela conexas unicamente pode ser tarefa do legislador, não do poder judicial. As pretensões individuais a prestações devem ser suficientemente precisas e pressupõem tipicamente concreção mediante lei, não substituível por sentenças judiciais singulares. Se a Constituição impusesse ao processo de formação de vontade política não só objetivos e diretrizes, sem obrigações determinadas, reduzir-se-ia a ordem democrática da Lei Fundamental como marco do processo político em liberdade. Isso levaria a substituir a política – judicialmente fiscalizada - por uma execução da Lei Fundamental e, desse modo, a restringir decisivamente o campo em que se deve formar a vontade parlamentar como fundamento de uma ordem democrática aberta. A contradição sistemática entre direitos fundamentais como direitos originários de participação e ordem democrática põe, em conseqüência, limites61 a tais direitos originários de participação constitucionalmente fundados. Não são adequados para fazer justiça à problemática dos direitos fundamentais num Estado provedor de prestações. 3. DIREITOS SOCIAIS FUNDAMENTAIS Não é, por isso, casual que o debate mais recente tenha por objeto o significado e a possível eficácia dos direitos sociais fundamentais , entendidos como garantia das bases em que se assenta a existência individual62. Algumas constituições dos Länder ocidentais incorporaram direitos fundamentais sociais63; dada, no entanto, a prevalência do Direito federal, apenas alcançaram importância prática. No debate aberto sobre a reforma constitucional, por ocasião da unificação alemã, foi demandada a incorporação dos direitos sociais fundamentais à Constituição, se bem que apenas como normas definidoras de tarefas do Estado (Staatszielbestimmungen)64. A problemática de tais direitos se explica por terem estrutura distinta da dos tradicionais direitos de liberdade e igualdade. Direitos sociais fundamentais, por exemplo, o direito ao trabalho ou o direito à moradia adequada ou à seguridade social não se tornam efetivos pelo fato de que se respeitem e amparem, antes requerem, de antemão e em qualquer caso mais do que em direitos fundamentais tradicionais, ações do Estado tendentes a realizar o programa contido neles. Não só exige isso regularmente uma atuação do legislador mas também da Administração, o que pode afetar os direitos de liberdade alheios. Por isso, os direitos sociais fundamentais não chegam a justificar pretensões dos cidadãos invocáveis judicialmente de forma direta, como na doutrina dos direitos fundamentais. Só podem chegar a ter significação prática e concreta enquanto, de modo vinculante, imponham ao Estado o dever de realizá-los como se prevê, por exemplo, no art. 26 do projeto da nova Constituição Federal suíça65. Só a partir de normas do legislador podem nascer pretensões jurídicas bem determinadas e invocáveis perante os poderes públicos. Só depois de cumprido legislativamente o programa de direitos sociais fundamentais podem esses direitos, sobretudo no terreno de seguridade social, surtir efeitos de garantia constitucional amparadora de direitos adquiridos. Em princípio, não podem tais direitos fundamentais sociais assumir o caráter de direitos subjetivos individuais. Ao limite, apenas se distinguem das normas constitucionais definidoras de competências do Estado, hoje no centro do debate. 4. NORMAS DEFINIDORAS DE TAREFAS DO ESTADO Normas enunciadoras de tarefas do Estado66 existem já em forma de princípios na Lei Fundamental. A ampliação para outros encargos é uma das questões propostas no art. 5 do Tratado de Unificação Alemã, dos quais tenham de se ocupar os órgãos legislativos da Alemanha reunificada (supra cap. 1.3, número marginal 37). Como normas constitucionais vinculantes que impõem à atividade estatal a permanente observância ou satisfação de determinadas competências – fins objetivamente especificados67 -, esses preceitos (Staatszielbestimmungen) se diferenciam dos mandatos legislativos da Lei Fundamental em que (só) obrigam o legislador a levar a cabo regulações do tipo complementar ou de desenvolvimento (por exemplo, arts. 21.3 e 38.3 GG). Também se diferenciam dos direitos fundamentais sociais em que não fundamentam direitos individuais; assim como os direitos à liberdade e igualdade clássicos, contêm Direito Constitucional objetivo. No entanto, ao contrário daqueles, têm caráter dinâmico e impulsor: com eles não se trata de garantir uma situação existente, mas de determinar as tarefas e orientar a futura ação estatal. Formulam para esta ação um programa de objetivos. Em tal medida vinculam os poderes públicos, embora lhes permitam uma ampla margem de manobra quanto ao momento e aos meios adequados para sua realização. Por conseguinte, a eficácia normativa vinculante das normas concernentes às tarefas do Estado fica na retaguarda dos direitos fundamentais, mas, além de tal vinculação, restam amplas margens legislativas e políticas de configuração68. Com esse limitado alcance só adquirem peso específicoautônomo as normas definidoras de tarefas do Estado na medida em que seu conteúdo não se leve à prática por outro meio. Ao não servir para fundamentar direitos individuais, as normas definidoras de tarefas do Estado contornam, assim, as debilidades e riscos dos direitos fundamentais de participação e de tipo social. Podem considerar-se um meio para fazer face a necessidades que resultam das mudanças contemporâneas (vid. supra número marginal 25): os homens encontram na Constituição normas que afetam os fundamentos de sua vida pessoal, o que pode servir para que se sintam mais perto da Constituição e para produzir efeitos integradores. Os objetivos prescritos constitucionalmente gozam de preferência frente a objetivos meramente políticos; em conseqüência, são fatores de observância obrigatória nos necessários processos de ponderação e otimização para as decisões do legislador ante conflitos entre objetivos – por exemplo, entre a proteção do meio ambiente, por uma parte, e a criação e manutenção de postos de trabalho, por outra. A mesma coisa se pode dizer das decisões da Administração e da magistratura. Para a Administração há um mandato operativo; no âmbito de ambas as funções, as normas definidoras de tarefas do Estado são decisivas para a interpretação do Direito, especialmente para a interpretação de conceitos indeterminados e discricionários, bem como para ponderar demandas em conflito. Finalmente, as normas definidoras de tarefas do Estado importam uma ampliação de funções para o Tribunal Constitucional, pois, na medida em que impliquem uma vinculação normativa, submetem seu cumprimento aos controles do Tribunal Constitucional, que terá, sobretudo, de levá-las em conta nos processos de controle concreto e abstrato de normas (arts. 100.1 e 93.1 GG). De todos os modos, tais efeitos são, em parte, incertos e, em parte, não deixam de ter custos. São incertos porque as normas definidoras de tarefas do Estado não realizam nada por si mesmas, mas dependem de sua assunção pelo legislador, e se traduzem e concretizam em direito diretamente vinculante segundo circunstâncias e possibilidades do momento. Isso pressupõe que o Estado seja a tal fim competente, o que, levando-se em conta o atual curso da União Européia, não é algo que se possa dar por certo, pura e simplesmente; é de se ter em mente que, sobretudo, tratando- se de objetivos econômicos e sociais, com freqüência a Federação e, em maior medida, os Länder venham a carecer de competência. Porém, mesmo quando for o Estado competente, pode a realização de determinadas tarefas ultrapassar a capacidade do Estado, por carecer freqüentemente dos meios indispensáveis para realizá-las. Então, o Estado promete algo que não pode satisfazer, com o que podem resultar facilmente frustradas as expectativas despertadas por essas normas definidoras de tarefas do Estado; sua eficácia integradora pode voltar-se contra si própria – aspecto esse que adquire um peso considerável após as experiências da população da Alemanha Oriental com as promessas das constituições da antiga República Democrática. Existe o perigo de que, com preceitos programáticos desse tipo, se distenda em excesso a capacidade da Constituição, por muito que possa vir em sua ajuda uma certa condição irrevogável do Estado social, já que a nenhum Governo cabe hoje em dia descumprir os encargos de provimento, previsão e compensação sociais69. O custo, cuja magnitude depende do número de normas constitucionais definidoras de tarefas do Estado e do grau de sua vinculação, consiste nessa hipótese – ao igual que com os direitos fundamentais originários de participação e com os direitos de ordem social -, num debilitamento dos componentes democráticos da Constituição: o que está constitucionalmente decidido mediante normas definidoras de tarefas do Estado se subtrai à decisão dos poderes políticos; é evidente que tampouco resulta já necessário decidir onde pode radicar efeito exonerador de responsabilidades e estabilizador. Tampouco se pode desconhecer aqui um certo deslocamento de poder do legislador para a jurisdição constitucional, por muito que se mantenha ampla faculdade configuradora do Parlamento. Podemos encontrar tal tipo de normas no mandato para a paz do art. 26 GG, no qual se exige levar em conta as exigências dos equilíbrios macroeconômicos gerais (art. 129.2 GG), em disposições particulares sobre competências e, sobretudo, no postulado do Estado social (arts. 20.1 e 28.1 GG)70. O mandato geral que contém a cláusula de Estado social de Direito fundamenta a obrigação dos órgãos estatais de buscar uma ordem social justa71; no entanto, confia os objetivos concretos e sua prática à decisão que se adote no processo democrático72. A cláusula de Estado social de Direito não fundamenta a priori pretensões individuais diretas de nenhum tipo, embora, entre outras coisas, possa ser de extraordinária importância para interpretar os direitos fundamentais que, como direitos derivados de participação, possam justificar tais demandas. Nas atuais reflexões sobre a incorporação à Lei Fundamental de normas definidoras de tarefas do Estado tem especial interesse a proteção do meio ambiente73, abrigada, dentro da Europa, nas constituições da Grécia, Holanda, Portugal, Suíça e Espanha, ou que faz parte do Direito europeu e foi incorporada a algumas constituições dos novos Länder. Como se indicou anteriormente, existem outras tentativas para proteger os meios e necessidades existenciais da pessoa: melhorar, com recurso a normas constitucionais definidoras de tarefas do Estado, a busca de moradia adequada, a proteção contra o desemprego, a seguridade na aposentadoria ou por ocasião de enfermidades, e a atenção para a formação e a cultura (cf. cit. n. 34). Os novos Länder incorporaram – com diversidade de fórmulas – às suas constituições74 tais normas definidoras de tarefas do Estado. Existem fundadas razões para regular constitucionalmente uma competência estatal que coloque os fundamentos naturais da vida sob a essencial proteção do Estado75. A proteção do meio ambiente se converteu atualmente, de forma patente e indiscutível, numa das principais tarefas do Estado. Após um contínuo debate sobre política constitucional, em cujo curso tomou forma na legislatura passada uma proposta de norma constitucional orientada à proteção do meio ambiente, essa tarefa do Estado não logrou obter na Comissão constitucional a necessária maioria de dois terços. Pelo contrário, não está livre de inconvenientes a introdução de outras normas definidoras de tarefas sociais do Estado já mencionadas, tal como se pretendeu. É preferível seguir invocando, como até agora, o mandato geral do Estado social, que, em sua transparência e flexibilidade, já inclui o conteúdo de tais normas. Permite satisfazer melhor as respectivas necessidades e as tarefas de coordenação, respeitando, ao mesmo tempo, a liberdade democrática de decisão; e, dado que com ele se renuncia a uma maior concreção dos objetivos sociais visáveis, reduz-se, ademais, o risco de despertar falsas expectativas76. 5. REALIZAÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS POR MEIO DA ORGANIZAÇÃO E DO PROCEDIMENTO Por tudo que se disse, a idéia dos direitos fundamentais de participação e dos direitos sociais fundamentais não pode ter na atualidade senão uma importância limitada para a eficácia e a proteção dos direitos fundamentais; igualmente, só de forma limitada seriam adequadas outras normas constitucionais definidoras de tarefas do Estado para fazer frente aos desafios que resultam das mudanças apontadas (número marginal 25). Assim, resulta muito mais importante uma conexão que até aqui se levava bem menos em conta: a relação que guardam entre si direitos fundamentais, organização e procedimento77. Essa relação, que na mais recente jurisprudência do Tribunal Constitucional veio a ser cada vez mais destacada, tem importância genérica para a efetividade e a garantia desses direitos; porém, ademais, permite melhor do que por meio dos direitos de participação e dasnormas enunciadoras de tarefas do Estado, adaptar-se às mudanças produzidas na efetividade dos direitos fundamentais no Estado moderno, e contribui para compensar os déficits da garantia jurídico-fundamental da liberdade. Para poder cumprir sua função na realidade social, os direitos fundamentais precisam, em maior ou menor grau, de um desenvolvimento concretizador pelo ordenamento jurídico (cf. número marginal 62): para que a situação jurídica regulada como direito fundamental se torne real e efetiva no seio da sociedade, faz-se necessário estabelecer por todos os meios não somente normas materiais mais minuciosas mas também pôr de pé formas de organização e normas de procedimentos. Mais imperativa se faz ainda essa necessidade nas condições presentes, em que a liberdade humana depende de apoio, previsão e distribuição pelo Estado e em que, cada vez mais, se impõem o deslinde, a limitação e a ordenação recíproca entre os âmbitos de liberdade (cf. número marginal 25). Freqüentemente se credenciam a organização e o procedimento como meios para alcançar um resultado conforme os direitos fundamentais e, desse modo, assegurar- lhes eficácia também sob as atuais circunstâncias78. Na medida em que os direitos fundamentais precisam consideravelmente de organização e procedimento, atuam, ao mesmo tempo, sobre o Direito Administrativo e o Direito Processual, os quais contribuem desta forma para realizá-los e assegurá-los. Isso se torna evidente em relação aos direitos fundamentais cujo objeto imediato é a garantia de princípios administrativos de organização ou processuais, como a liberdade de associação (art. 9.1 GG), o direito a um juiz determinado por lei (art. 101.1 GG), o de ser ouvido em juízo (art. 103.1 GG), ou com os requisitos e as garantias processuais que estabelece o art. 104 GG para as formas de limitação e privação de liberdade. Porém, também, os direitos fundamentais materiais atuam sobre o procedimento. Daí que o Tribunal Constitucional insista numa aplicação do Direito Processual conforme os direitos fundamentais. Ademais, interessando-se pela eficácia e segurança desses direitos, foi formulando exigências específicas jurídico-processuais a partir de direitos fundamentais materiais, concretamente a necessidade de uma proteção jurídico-fundamental efetiva a que o indivíduo tem direito79. Esses aspectos estão interconectados. Não podemos segui-los em detalhe. No entanto, temos de aludir, brevemente, a alguns pontos que são importantes em relação com os problemas que formulam os direitos fundamentais no moderno Estado social. Organização e procedimento se podem creditar como meios diretos para a realização e garantia dos direitos fundamentais. Isso se aprecia com especial nitidez no caso da liberdade de comunicação e dos meios de difusão. Quer se trate da liberdade das emissoras frente ao Estado ou da oferta de emissões livres, verazes e íntegras que torne possível a informação e a formação de opinião; quer seja o caso de acesso a rádio e televisão ou da criação de novas emissoras: para se fazer efetiva a liberdade, exigem-se garantias de organização e procedimento cuja virtualidade conduza a um resultado conforme o conteúdo do direito fundamental. De modo conseqüente, o Tribunal Constitucional concretizou essa garantia, exigindo determinados requisitos à organização de rádio e televisão, assentando, desse modo, bases sobre as quais configurá-la na República Federal80. Algo semelhante cabe dizer nas circunstâncias atuais da liberdade científica, que, como liberdade de investigação, depende de custosas instalações postas à disposição pelo Estado. A esse propósito, o Tribunal Constitucional enfatizou que um amparo efetivo dos direitos fundamentais requer disposições jurídico-organizativas adequadas, que façam justiça tanto ao direito fundamental que o cientista individual tem à liberdade de investigação e de cátedra quanto à capacidade funcional da ciência livre como instituição81. As normas de organização e procedimento são, ademais, um meio adequado de compensar posições constitucionais confrontadas. Nessa ordem de coisas, o Tribunal Constitucional destacou – por exemplo, em caso de conflito entre liberdade religiosa positiva e negativa – que só cabe encontrar solução apreciando, em seu justo valor, os interesses em colisão, compensando e ordenando entre si os pontos de vista constitucionais determinantes da questão. Compete ao legislador do Land achar essa solução, seguindo um processo público de formação de vontade82. Se essa afirmação é válida em geral, o é muito mais se se considera que no mundo de hoje, cada vez mais estreito, a liberdade de uns ameaça sempre entrar em conflito com a liberdade de outros. É preciso ditar normas que, de modo objetivo, ordenem reciprocamente os âmbitos de liberdade e assegurem que as limitações não se tracem somente em prejuízo de uma das partes. No essencial, só podem ser normas de procedimento, como as que se dão nas áreas do Direito que afetam o desfrute da propriedade (art. 14.1 GG). Só normas dessa espécie permitem e asseguram uma conciliação razoável entre posições divergentes e, com ela, a efetividade dos direitos fundamentais implicados. Finalmente, ocorre o mesmo quando escasseiam as condições requeridas para a liberdade. Os problemas de Direito Constitucional conexos com tais situações se colocaram, até agora, concretamente em relação à falta de vagas escolares, porém não há que se descartar que, num futuro próximo, se façam também peremptórios em outras áreas. Também nesse ponto diremos que só normas apropriadas de organização e de procedimento podem evitar que uns recebam tudo e outros nada, e garantir distribuição eqüitativa das oportunidades de liberdade ainda disponíveis. Como declarou o Tribunal Constitucional no contencioso da distribuição de vagas escolares, o que importa é garantir que qualquer dos detentores do direito tenha pelo menos uma oportunidade de poder fazer uso de seu direito fundamental e prevenir, desse modo, o perigo de depreciação do conteúdo material do direito fundamental83. Normas adequadas de organização e de procedimento ajudam, assim, a realizar essa participação, revelando-se como o meio eficaz de assegurar em igualdade de oportunidades o acesso a prestações ou à sua distribuição e de que se apurem as possibilidades existentes de prestação. 6. DEVER DE PROTEÇÃO POR PARTE DO ESTADO Um segundo aspecto da problemática contemporânea dos direitos fundamentais consiste na necessidade de amparo estatal a prejuízos ou ameaças à liberdade das pessoas por poderes alheios ao Estado (cf. número marginal 26). Seu desenvolvimento só começou; a jurisprudência constitucional estendeu a vigência dos direitos fundamentais, de forma aberta e segundo o caso, às relações jurídicas em que não participa diretamente o Estado84. O ponto de partida foi a teoria dos direitos fundamentais como princípios objetivos (cf. número marginal 23) que obrigam o Estado a pôr de sua parte os meios necessários para torná-los efetivos. Por conseguinte, dos direitos fundamentais pode resultar diretamente uma obrigação estatal de preservar um bem jurídico protegido mediante os direitos fundamentais contra lesões e ameaças provenientes de terceiros, sobretudo de caráter privado, porém, também, por outros Estados, isto é, de pessoas e poderes que não são destinatários de direitos fundamentais85. Essa obrigação tem uma importância prática sobretudo quando se trata dos direitos fundamentais à vida e à integridade física (art. 2° GG), bem como para a proteção do nascituro86, a proteção ante os danos derivados da energia nuclear87, a proteção ante prejuízos produzidos pelo ruído do tráfego aéreo e do trânsito88, ou ante os riscos derivados do depósito de armas químicas89. Nesse sentido, os direitos fundamentais impõem claramente a ação estatal nas condições expostas; regulam, pois, a questão do sim, do pressuposto dessa atuação. No entanto, disso não se infere necessariamente que cautelas tenham que ser adotadas para que a proteção seja suficiente.Para decidir como o Estado há de cumprir tal obrigação, os órgãos estatais competentes dispõem de ampla discricionariedade de configuração com margem suficiente para a consideração, por exemplo, dos interesses públicos ou privados concorrentes90. Em caso extremo, quando não é alcançável de outro modo o amparo que a Constituição outorga, pode a decisão ficar reduzida a uma medida determinada 91. Segundo uma sentença recente, corresponde a essa obrigação protetora do Estado de natureza jurídico-objetiva um direito individual judicialmente tutelável dos afetados: se o Estado descumpre a obrigação de proteção que lhe exige o art. 2.2. GG, produz-se, simultaneamente, uma violação do Direito Constitucional que, levada em conta a liberdade de configuração dos poderes públicos, unicamente cabe conceber- se como exigência de que eles adotem medidas que não sejam completamente inadequadas ou insuficientes ao amparo dos direitos fundamentais92. Todavia, inclusive com tão amplas fórmulas pode dar-se, em algumas circunstâncias, uma redução da liberdade configuradora dos órgãos competentes, até o extremo de fundar uma pretensão a respeito do como, que vá mais adiante do mero sim, cumprir o dever de proteção. VI. TITULARES E SUJEITOS OBRIGADOS 1. TITULARES Na medida em que os direitos fundamentais acolhidos na Constituição garantam direitos individuais, trata-se ou de direitos humanos, cuja validade não fica limitada a um círculo concreto de pessoas, ou de direitos civis, que correspondem somente a alemães (cf. 116.1 GG). Isso se deduz inequivocamente do texto dos diferentes direitos fundamentais. No entanto, a distinção carece de importância prática, dado que não se nega aos estrangeiros um direito (por exemplo, reunir-se ou fundar uma associação) em princípio garantido aos alemães mediante especiais direitos de liberdade. Mais, segundo o direito geral de liberdade do art. 2.1 GG, que de acordo com a jurisprudência abarca a liberdade geral de ação, tal comportamento também está protegido constitucionalmente. Em todo caso, é de se levar em conta que o conteúdo de direitos fundamentais, que, segundo a Constituição, só são válidos para os alemães, está igualmente garantido a qualquer pessoa pelos direitos fundamentais internacionais ou europeus (por exemplo, pelo art. 11.1 da Convenção Européia de Direitos Humanos, os direitos de reunião e de associação). À exceção dos direitos de sufrágio ativo e passivo (art. 32.2 GG), o gozo de direitos fundamentais não está condicionado à maioridade (capacidade de trabalhar nessa matéria) – o que não exclui a necessidade da representação legal para fazer valer os direitos fundamentais dos menores. Entretanto, isso pode ficar sujeito a limitações concretas para garantir a proteção da juventude (art. 5.2, 11.2 e 13.3 GG). O art. 19.3 da Lei Fundamental amplia o círculo dos titulares às pessoas jurídicas nacionais, sempre e quando sua natureza permita a aplicação dos direitos fundamentais. Essa realidade se foi impondo cada vez mais quando se trata de pessoas jurídicas de Direito Privado; avançando um pouco mais, a jurisprudência atribuiu essa capacidade, segundo a significação dos respectivos direitos fundamentais, a grupos de pessoas sem capacidade jurídica (do ponto de vista civil), por exemplo, partidos políticos93 (não estruturados como associações registradas) ou sociedades mercantis94. A conseqüência mais importante é a faculdade de tais titulares de interpor recurso de amparo. Há, pelo contrário, pessoas jurídicas de Direito Público, como o Estado ou seus organismos, que, por princípio, não podem invocar os direitos fundamentais, ao menos na medida em que exerçam funções públicas; a única exceção se dá com respeito a direitos fundamentais de tipo procedimental, como o direito a um juiz predeterminado por lei (art. 101.1 GG) e a ser ouvido em juízo (art. 103.1 GG). Isso se deve a que, nesses casos, seu gozo não se faz efetivo como salvaguarda de liberdades originárias, mas em função de competências outorgadas pelo Direito positivo com um conteúdo medido e limitado. Sua regulação e proteção, à semelhança da decisão sobre os conflitos resultantes, não são objeto dos direitos fundamentais porque em tais casos falta uma referência direta à pessoa. As exceções operam quando uma pessoa jurídica de Direito Público se insere imediatamente em determinadas áreas constitucionalmente protegidas pelos direitos fundamentais e subsiste com autonomia, independência ou separação do Estado, como pode ocorrer com as igrejas, universidades ou entidades de rádio e televisão95. 2. SUJEITOS OBRIGADOS. O PROBLEMA DA EFICÁCIA FRENTE A TERCEIROS DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS O destinatário dos direitos fundamentais e sujeito obrigado por eles é o Estado, que se encontra vinculado pelos mesmos dado seu caráter de normas de Direito necessário, de aplicação direta (art. 1.3 GG). Isso é válido não só quando o Estado atua como poder público federal ou como poder público dos Länder, mas, inclusive, quando, para cumprir suas funções, serve-se de uma instância juridicamente autônoma, de administrações locais, concretamente municípios ou corporações, entes e fundações de Direito Público, pessoas privadas ou organizações que o Estado toma a seu serviço. Em tudo isso não importa a forma jurídica com que atue. Mais, ainda que o Estado, entendido em sentido amplo, recorra para o cumprimento direto ou indireto de seus deveres a fórmulas de Direito Privado, fica igualmente vinculado por direitos fundamentais. Nenhuma resposta determinante se deu à questão de se os direitos fundamentais têm outros destinatários: obrigam-se os titulares do poder econômico ou social e, ademais, os particulares. A relevância dessa problemática se torna evidente se se leva em conta que a liberdade humana pode tornar-se menoscabada ou ameaçada não só pelo Estado mas também dentro de relações jurídicas privadas, e que só cabe garanti-la eficazmente considerando-a como um todo unitário (cf. números marginais 26 ss.) Por isso, vem-se debatendo há muito tempo se, e em que medida, correspondem aos direitos fundamentais efeitos frente a terceiros96. A Lei Fundamental só dotou explicitamente de eficácia frente a terceiros a liberdade sindical (art. 9.3 GG). Carecemos de outras normas constitucionais expressas. Uma resposta ao problema cabe unicamente a partir da função dos direitos fundamentais no ordenamento constitucional. Como direitos individuais de defesa, de participação e a prestações (derivadas) (cf. números marginais 15 a 29), bem como, em sentido e significado objetivo de participações negativas de competência e fundamento de obrigações de proteção, os direitos fundamentais unicamente têm o Estado como destinatário. Como princípios diretores do ordenamento jurídico em seu conjunto (cf. número marginal 21), os direitos fundamentais podem ser determinantes para a configuração de relações jurídicas privadas, porém não fundam direito subjetivo algum em qualquer dessas relações apto a exigir uma conduta da outra parte conforme os direitos fundamentais. Daí que – como estima majoritariamente a doutrina – não proceda reconhecer, com a exceção citada do art. 9.3 GG, um efeito direto dos direitos fundamentais frente a terceiros. A jurisprudência do Tribunal Constitucional segue, no entanto, outra via. Limita-se a admitir uma eficácia mediata frente a terceiros, partindo da base de que o conteúdo jurídico dos direitos fundamentais como norma objetiva se desdobra no Direito Privado mediante preceitos diretamente reguladores, especialmente as cláusulas gerais e os conceitos indeterminados. A eficácia mediata frente a terceiros dos direitos fundamentais radica em sua ascendência sobre os preceitos aplicáveis do Direito Civil, que se tem de levar em conta na hora de interpretá-los (cf. supra, número marginal 22). Se um Tribunal, como titular do poder público, descumpre dita regra, está transgredindo aquelas normas de direitos fundamentais sobre cuja observância pelo poder Judicial o cidadão tem uma expectativa constitucional97.Segundo tal fórmula, também aqui resulta ser o Estado sujeito obrigado pelos direitos fundamentais. No entanto, tal solução alberga simultaneamente decisivas reservas a respeito de generalizados efeitos frente a terceiros. É de se levar em conta que superpor o Direito Constitucional ao Direito Privado pode comportar sensível restrição da autonomia privada e, por isso, uma considerável limitação da liberdade responsável, modificando de forma essencial, portanto, a natureza e o significado do Direito Privado. A isso é de se acrescentar que, nas relações entre particulares, todos os interessados compartilham da proteção dos direitos fundamentais; enquanto, a não ser os poderes públicos titulares de direitos fundamentais, não cabe conflito sobre direitos fundamentais na relação entre esses poderes e os cidadãos. Com freqüência, o juiz se encontra ante a difícil tarefa de fixar, compensando ou ponderando no caso de que se trate, o caráter e o alcance da influência dos diversos direitos fundamentais a partir dos parâmetros amplos e indeterminados desses mesmos direitos. Isso ameaça entrar em contradição com a missão do Direito Privado conforme as exigências do Estado de Direito, que devem tornar possível, com a ajuda de normas claras, detalhadas e precisas, a modelação das relações jurídicas e a solução judicial aos problemas do caso98. A vantagem de uma ampla validade e efetividade dos direitos fundamentais paga o preço de uma certa insegurança jurídica e de perda de autonomia do Direito Privado. Em conseqüência, tudo dependerá de que a obrigação do Estado de proteger os direitos fundamentais, também frente à sua afetação por terceiros, se conceba essencialmente como função do legislador. Antes de mais nada, este deve estabelecer regras que impeçam os abusos sociais ou econômicos; no campo do Direito Privado tem que fazer concreto o conteúdo jurídico dos direitos fundamentais como princípios objetivos do ordenamento jurídico em seu conjunto, bem como demarcar as situações jurídicas fundamentalmente protegidas. Só ali onde o legislador não cumpra ou não possa cumprir esse encargo, há margens nas decisões judiciais para uma eficácia mediata em relação a terceiros. VII. DESENVOLVIMENTO E LIMITE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS 1. DESENVOLVIMENTO Só em uns poucos e concisos parágrafos a Lei Fundamental garante os direitos fundamentais. Amiúde, só podem adquirir efetividade em conexão com a regulamentação jurídica mais detalhada das condições e âmbitos existenciais que devem reger. Precisam de um desenvolvimento que compete, sobretudo, ao legislador; este se encontra vinculado ao marco e às diretrizes fixados pelo direitos fundamentais. Em certos casos, a própria Constituição encomenda ao legislador regular os pormenores (por exemplo, art. 4.3 GG para o direito fundamental de objeção de consciência). À margem desse mandato, também pode evidenciar-se necessária, com particular clareza, uma configuração jurídica onde os direitos fundamentais garantam a existência de um instituto jurídico, como sucede com a proteção do matrimônio e da família (art. 6.1 GG) e com a garantia da propriedade e do direito à herança (art. 14.1 GG), cujo conteúdo deverá ser determinado por lei (14.1 GG). O legislador assume o mandato constitucional de desenvolvimento na hora de concretizar o conteúdo jurídico dos direitos fundamentais no Direito Privado (cf. número marginal 61). Da mesma maneira, a igualdade jurídica do homem e da mulher (art. 3.2 GG), a liberdade de imprensa, de rádio e televisão ou científica (art. 5.1 e 3 GG) e a liberdade de associação e sindical (art. 9.1 e 3 GG), a título de exemplo, exigem regras jurídicas nas quais a igualdade ou liberdade garantidas, tanto materialmente como nas regras do Direito Administrativo e do Direito Processual (cf. número marginal 43), exigem perfil concreto. 2. LIMITAÇÃO É de se distinguir dessa função de desenvolvimento a limitação dos direitos fundamentais, que desempenha um papel primordial em relação, sobretudo, com os direitos de liberdade. Uma liberdade ilimitada ou um uso improdutivo da propriedade podem dar lugar a que se vejam afetados outros interesses, quer se trate de direitos de terceiros, quer se trate de interesses essenciais da Sociedade. Por isso, torna-se necessária uma ordenação das garantias jurídico-fundamentais e de outros bens jurídicos, mediante a qual se fixe um regime de relações no qual uns e outros tenham eficácia. A Constituição prevê, a título de cumprimento de tal encargo, limitações dos direitos fundamentais. Só após levá-las em conta se torna concreto qual seja o alcance de um direito fundamental. Segundo a Constituição, as limitações resultam, em primeiro lugar, da própria Lei Fundamental. Isto pode constar imanentemente na própria norma de garantia [por exemplo, limitando a proteção da liberdade de assembléia para reuniões pacíficas (art. 8.1 GG)] ou em outras normas constitucionais, seja expressamente (art. 9.2 GG, segundo o qual estão proibidas as associações cujos fins ou atividades sejam contrárias às leis penais ou se dirijam contra o ordenamento constitucional ou o ideal do entendimento entre os povos), seja pela própria matéria, em direito fundamental, por outros direitos ou quaisquer outras normas constitucionais [por exemplo, pelo direito geral da personalidade (art. 2.1, em relação ao art. 1.1 GG) à liberdade de expressão (art. 5.1 GG)]. Certamente, não pode a Constituição estabelecer, por si só e de antemão, todos os limites dos direitos fundamentais. Por isso, em muitas ocasiões, a Lei Fundamental confia essa função ao legislador, uma vez que marcou as necessárias distinções. A remissão ao legislador exige forma de reserva de lei, mediante a qual se habilita o legislador para limitar (mediante lei) direitos fundamentais, ou para autorizar aos poderes Executivo ou Judicial uma limitação, precisando os requisitos da hipótese fática (por exemplo, determinando nesse caso, com mais detalhe, o alcance da habilitação: art. 11.2 GG para a liberdade de circulação e residência ou – sem uma qualificação desse tipo – art. 2.2 GG para os direitos fundamentais à vida, à integridade física e à liberdade da pessoa). Também as reserva de regulação dos arts. 12.1 e 14.1 GG autorizam limitar os direitos fundamentais garantidos; porém, contêm, antes de mais nada, uma autorização para o desenvolvimento. Dado que as reservas de lei e de regulação só autorizam a limitação dos direitos fundamentais por parte do legislador, os poderes Executivo e Judicial carecem de competência para levá-las a cabo de maneira autônoma. O legislador deve determinar os requisitos da limitação de modo tão preciso que a faculdade para realizá-la não fique entregue totalmente à discricionariedade da Administração ou da Magistratura99. O certo é que as autorizações concedidas para uma limitação dos direitos fundamentais não carecem, por sua vez, de limites. Isso resulta da tarefa exposta (supra, número marginal 64) e se confirma mediante a garantia do conteúdo essencial do art. 19.2 GG. Por isso, a jurisprudência do Tribunal Constitucional restringiu consideravelmente (sem recorrer expressamente a essa garantia) a possibilidade de limitar os direitos fundamentais: embora a existência desses direitos fique condicionada a uma limitação legal, não são abandonados à livre disposição do legislador. Por isso, só se admitem restrições quando se revestem do interesse do bem comum, isto é, quando se podem justificar com considerações objetivas e razoáveis do bem comum e se compadecem também do princípio de proporcionalidade (em sentido amplo). De acordo com isso, a limitação tem que ser adequada à obtenção do objetivo (público) perseguido. Ademais, o meio tem de se mostrar necessário, o que é o caso, em qualquer momento, em que não se possa eleger outro meio igualmente eficaz, porém, que não afete, ou afete em medida sensivelmente menor, o direito fundamental. Finalmente, ponderando em conjunto a envergadura da intervenção e a imperiosidade dos motivos que a justificam, há develar-se pelas margens do que é razoavelmente exigível100. Amiúde, quando se promulga uma lei não se pode prever com certeza se as medidas adotadas nela são as adequadas e exigidas para conseguir o fim perseguido. Nesses casos, torna- se necessário fazer uma predição, cuja incerteza resulta tanto maior quanto mais complexas e de maior transcendência sejam as circunstâncias a que se refere. Para o controle de tais predições, o Tribunal Constitucional reconhece ao legislador uma prerrogativa de estimação, cujo alcance se aprecia em função da peculiaridade da matéria em questão, das possibilidades existentes para formar-se um juízo suficientemente certo e da significação dos bens jurídicos em jogo; o Tribunal recorre a parâmetros diferenciados que vão de um controle de evidência e razoabilidade até uma intensa verificação material101. Isso permite, por regra geral, uma margem de discricionariedade do legislador não sujeita a controle de constitucionalidade; dessa forma, evita-se que o Tribunal invada as margens discricionais que correspondem à fixação de objetivos e à configuração legislativa. Além das possibilidades citadas de limitar os direitos fundamentais, válidas com caráter geral, podem-se limitar os direitos de determinadas pessoas que se encontram em uma relação especial de sujeição, como sucede, por exemplo, com os funcionários, soldados e estudantes102. As relações derivadas de um estatuto especial e a regulação em que tomam forma jurídica não podiam cumprir amiúde suas funções na vida da sociedade constituída, se se mantivesse para elas o standard geral dos direitos fundamentais. Em todo caso, ao fundamento e à forma dessas limitações se lhes aplicam as mesmas regras que à relação Estado/cidadão: as limitações dos direitos fundamentais têm de basear-se na própria Constituição ou numa lei ditada em virtude do princípio de reserva legal e sempre com esse nível normativo. O legislador pode levar em consideração as necessidades especiais e a peculiaridade inerente às respectivas relações e estabelecer limitações particulares aos direitos fundamentais em virtude da função que desempenhem, por exemplo, limitando a liberdade de expressão dos funcionários em razão da obrigação de segredo própria do cargo (cf. também art. 17 a.1 GG). Isso tampouco significa que, nesses casos, os direitos fundamentais tenham simplesmente que ceder ante tais necessidades; fica-se obrigado a levá-los em conta na medida do possível, por muito que isso possa supor dificuldades ou ônus para o serviço ou o órgão. VIII. PROTEÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS No esforço de assegurar, de forma plena e efetiva, a validade jurídica e fática dos direitos fundamentais, a Grundgesetz deixa para trás consideravelmente o Direito Constitucional tradicional. Com isso, busca prevenir processos como os que concorreram para o fracasso da República de Weimar e para a dominação nacional-socialista. 1. GARANTIAS PERANTE A ABOLIÇÃO, A DEBILIDADE E O ESVAZIAMENTO DO CONTEÚDO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS O art. 79.3 da Lei Fundamental veda uma abolição de direitos fundamentais por via da reforma constitucional: são inadmissíveis reformas que afetem os princípios formulados nos arts. 1 e 20 GG. Esses princípios: a dignidade do homem (art. 1°) e os princípios democráticos e do Estado de Direito (art. 20) resultariam afetados por qualquer abolição, porque praticamente todos os direitos fundamentais constituem parte essencial de tais princípios (supra, número marginal 20), de forma tal que sua eliminação suprimiria aqueles mesmos princípios e o ordenamento construído sobre eles. Não se exclui, em compensação, a reforma do texto dos direitos fundamentais sempre que se preservem seu conteúdo e eficácia. Também resultaria, ao menos parcialmente, em uma abolição se se permitisse um enfraquecimento dos direitos fundamentais, como se admitiu sob a Constituição de Weimar. A Lei Fundamental só se pode modificar por meio de uma lei destinada expressamente a completar ou reformar seu texto (art. 79.1 GG). Com isso, fica excluído o enfraquecimento dos direitos fundamentais: as leis não podem apartar-se de um direito fundamental nem sequer quando tenham sido aprovadas com a maioria necessária para uma reforma constitucional. Ao contrário do estabelecido pelo art. 48.2 da Constituição de Weimar, a Lei Fundamental tampouco permite derrogação provisória de direitos fundamentais em situações de emergência nacional interna ou externa. Para garantir o ordenamento constitucional livre e democrático, a Lei Fundamental só prevê a possibilidade de perda de determinados direitos fundamentais (art. 18 GG). Isso só se pode obter frente a pessoas determinadas e mediante declaração do Tribunal Constitucional. Os mencionados preceitos não bastariam para combater uma desvalorização furtiva e um esvaziamento interno dos direitos fundamentais que resultassem de uma utilização inadequada. Para reagir contra essa possibilidade, o art. 19.1 GG fecha a passagem para leis individuais que limitem direitos fundamentais; as leis limitativas de direitos fundamentais têm de citar literalmente a qual deles se referem, especificando o artigo afetado. Em nenhum caso um direito fundamental pode resultar afetado em seu conteúdo essencial (art. 19.2 GG). O significado prático dessas garantias é limitado. Daí resulta decisiva para que as garantias de que um direito fundamental não se depreciem com limitações desmedidas a exigência de proporcionalidade dessas limitações (supra, número marginal 67). Em qualquer momento que se satisfaça essa exigência fica excluída uma intervenção no conteúdo essencial de um direito. A importância do art. 19.2 GG se limita, por conseguinte, a positivar explicitamente o mandato de proporcionalidade. 2. PROTEÇÃO PELO PODER JUDICIÁRIO Na atualidade é decisiva para uma ampla garantia e efetividade dos direitos fundamentais a proteção pelos tribunais. Na época da Constituição do Reich de 1919 havia só reduzidas oportunidades de que chegassem os direitos fundamentais a se fazerem efetivos ante os tribunais. Continuou sendo escassa, portanto, a importância prática daqueles direitos. Sob a Lei Fundamental essa efetividade resulta plena e sem fissuras. Tal efetividade conseguiu que os direitos impregnem não só a vida pública mas também toda a vida jurídica - ocasionalmente, inclusive, até os detalhes. A tutela judiciária dos direitos fundamentais fica constitucionalmente garantida mediante a disposição do art. 19.4 GG. Segundo ele, o cidadão pode recorrer à via judicial ante uma violação de seus direitos pelos poderes públicos – nesse contexto, o poder Executivo. Com isso, se lhe garante sempre o acesso a um tribunal, não necessariamente a uma dupla instância. À margem disso, compete aos tribunais, em todos os processos, o respeito e a tutela dos direitos fundamentais. Os tribunais que decidem sobre os recursos frente às resoluções judiciais restabelecem em seu direito quem sinta seus direitos fundamentais vulnerados pela instância a quo. As leis que os contradigam, das que dependa a decisão, não podem ser aplicadas pelos tribunais, os quais, por princípio, hão de suspender o processo e acatar a decisão do Tribunal Constitucional (cf. também infra cap. 15). A proteção jurisdicional dos direitos fundamentais cabe, em última instância, ao Tribunal Constitucional, no qual recaem extensas competências. De importância é, neste extremo, o recurso de amparo. É interponível por qualquer pessoa que alegue lesão pelos poderes públicos em algum de seus direitos fundamentais ou nos direitos contidos nos arts. 20.4, 33, 38, 101 e 103 (art. 93.1, n. 4, a, GG). Os §§ 90 e ss. da Lei do Tribunal Constitucional contêm disposições mais detalhadas. Como via diferente à do art. 19.4 GG, o recurso de amparo constitucional pode também dirigir-se contra atos dos poderes Legislativo e Judicial, embora para fazê-lo diretamente contra uma lei seja necessário que o recorrente sinta-se afetado pessoal, atual e diretamente por ela103. A interposição de recurso de amparo contra atosdo poder Executivo e decisões judiciais requer forçosamente o esgotamento da via judicial (§ 90.2 BVerfGG). Frente a decisões judiciais, o recurso de amparo não abre nova instância. A comprovação da hipótese fática, a interpretação e a aplicação dos preceitos infraconstitucionais básicos – de Direito ordinário – são, em princípio, de exclusiva atribuição dos tribunais ordinários competentes. O Tribunal de Karlsruhe deve limitar-se a comprovar se a decisão questionada infringiu o Direito Constitucional104. Se isso não ocorre, a decisão não pode ser acoimada de defeituosa do ponto de vista do Direito ordinário. Os recursos de amparo têm de ser previamente admitidos (§ 93 a BVerfGG). A admissão pode ser denegada, na hipótese geral do § 93 b núm. 2, BVerfGG por decisão unânime de uma das salas de três magistrados, se o recurso é improcedente ou se carece, por outros motivos, de perspectivas de sucesso (cf. sobre isso infra cap. 16). IX. PARA UMA VALORIZAÇÃO DO TRAJETO SEGUIDO PELOS DIREITOS FUNDAMENTAIS Faz-se evidente, numa visão de conjunto, até que ponto os direitos fundamentais determinam e cunham, inclusive em menores detalhes, não só a vida pública mas também a totalidade das relações jurídicas na Alemanha: em nenhum momento da história alemã desfrutaram os cidadãos de mais liberdade e proteção jurídica do que hoje. Poder-se-á discutir se as mulheres e os homens da República Federal são, por isso – e tomados em seu conjunto -, mais felizes que seus pais e avós. Há razões para pensar que alguns setores da geração mais jovem não sabem o que fazer com sua liberdade. Seja porque na velha República Federal a liberdade se tornou algo pacífico, seja porque há quatro décadas sob um regime socialista não se encontrem nos novos Länder a colocar-se de um dia para o outro no papel de cidadãos autônomos e responsáveis de uma democracia com uma ordem econômica regida pela liberdade. Mas isso, de modo nenhum, avaliza uma interpretação dos recentes avanços em matéria de direitos fundamentais como evolução fracassada. O mesmo vale para a crítica que se faz a tal evolução. Pode- se resumir na idéia de que o atual progresso dos direitos fundamentais saiu das vias tradicionais já provadas e, por isso, há de debilitar, se não dissolver o Estado105. Também o debate da atualidade tropeça na objeção de excesso de liberdade que tem como seqüela debilitar o Estado e fazê-lo incapaz de enfrentar seus encargos. Todavia, direitos fundamentais e Estado forte não se excluem reciprocamente; antes, pelo contrário, são mutuamente dependentes. Isso se explica por que o dever de tornar efetivos e assegurar os direitos fundamentais está, sob as condições de nosso tempo, cometido ao Estado; um e outro encargo requerem um Estado forte, capaz de funções e prestações, em condições de cumprir sua missão. Tal fortaleza é, por isso, não tanto tema de um aparato estatal de poder, o mais eficaz possível, quanto de um livre assentimento de um número tão vasto quanto possível de cidadãos a quem importe obtê-la, mantê-la e renová-la a todo momento. Concerne, assim, à capacidade de integração dos cidadãos no Estado e seu ordenamento jurídico. Se os direitos fundamentais, como é o caso sob a Lei Fundamental, são as pedras angulares que legitimam essa ordem, se aspiram a aplainar o caminho para o assentimento livre, são, então, um fator decisivo para a existência do Estado e da ordem estatal, e o robustecimento dos direitos fundamentais não pode senão redundar em favor do Estado. Não é aqui onde se devam buscar as reservas. Tampouco cabe dizer que esteja livre de perigos a evolução atual dos direitos fundamentais. Como se expôs anteriormente, essa evolução foi mais além que as precedentes: os direitos fundamentais vinculam também o legislador, contêm princípios que abarcam a ordem jurídica em sua totalidade e a aplicação do Direito; sua observância está submetida, em última instância, ao controle do Tribunal Constitucional. Sob essas hipóteses, quanto mais se estenda a esfera de aplicação dos direitos fundamentais, tanto mais se dilatará a projeção das disposições constitucionais vinculantes. A partir daí, os órgãos políticos de deliberação e direção verão reduzidas suas margens de livre decisão, reduzindo-se à condição de meros executores da Constituição – por outra parte, sob os olhares fiscalizadores do Tribunal Constitucional. Isso não só restringiria, se não se detiver, um processo político livre e aberto como o que pressupõe a democracia. Em tempos de transformações radicais como os nossos, em que, para sobreviver, se fazem necessárias novas soluções para nossos problemas, uma evolução ulterior em tal sentido obstaculizaria a dinâmica e o progresso que tão decididamente importam. Dessa maneira, se prestaria um débil serviço a quem vive sob a Lei Fundamental, ao Estado e à força normativa da Constituição – tanto mais se a pressão das circunstâncias obrigasse, ao fim, a se encolherem outra vez os direitos fundamentais antes expandidos, a relativizá-los ou a ignorá-los. Historicamente e em seu significado atual são os direitos fundamentais sobretudo direitos humanos: o que com eles se põe em jogo são as condições essenciais da vida individual e comunitária em liberdade e da dignidade humana, um encargo que nada perdeu, nas circunstâncias presentes, de sua importância para nosso tempo. Se os direitos fundamentais hão de assegurar eficazmente essas condições essenciais, não devem obstaculizar as mudanças sociais; ao mesmo tempo, deverão ser mantidos e protegidos em sua essência sem reserva nem restrição alguma. Isso pressupõe que não se dilatem de modo inflacionário nem sejam reduzidos a tostões. Daí a essencialidade e riqueza em conseqüências da elaboração de sua vertente objetiva: é incumbência dessa interpretação reforçar a validade dos direitos fundamentais como direitos humanos106; seu significado como princípios objetivos nunca deverá ser dissociado dessa idéia nuclear. De outro modo, correr-se-ia o risco de abrir vias a uma interpretação que perca de vista o sentido original e permanente dos direitos fundamentais e se equivoque na sua principal missão. CONCEITO E PECULIARIDADE DA CONSTITUIÇÃO I. COLOCAÇÃO DO PROBLEMA II. O OBJETIVO DA UNIDADE POLÍTICA E DA ORDEM JURÍDICA III. A CONSTITUIÇÃO E SEU SIGNIFICADO PARA A COMUNIDADE Traduzido por INOCÊNCIO MÁRTIRES COELHO I. COLOCAÇÃO DO PROBLEMA 1. Entender o Direito Constitucional vigente implica a compreensão prévia do seu objeto: a Constituição. Só a partir desta compreensão o Direito Constitucional permite identificar os problemas constitucionais, assim como lhes dar resposta adequada. Daí que não seja apenas a teoria da Constitucional quem deva inescusavelmente perguntar-se pela Constituição. Que é a Constituição? A direção para onde deva apontar essa interrogação acha-se subordinada ao objetivo a ser alcançado por meio do conceito que se trata de obter; por isso, essa direção pode ser diferente para a teoria da Constituição107 e para a teoria do Direito Constitucional. Procurar um conceito abstrato de Constituição que abarque o que é comum a todas ou, pelo menos, a um número considerável de Constituições históricas, deixando de lado as peculiaridades de tempo e lugar, pode ter sentido para a teoria da Constituição. Para a teoria do Direito Constitucional, um conceito dessa natureza resultaria vazio de conteúdo e, também, incapaz de fundamentar uma compreensão suscetível de embasar a solução de problemas suscitados aqui e agora. A partir do momento em que a normatividade da Constituição vigente não é senão a de uma ordem histórica concreta e a vida a regular senão a vida histórico-concreta, a única questão que tem sentido colocar-se no contexto da tarefa de se exporem os traços básicos do Direito Constitucional vigente é a relativa à Constituição atual, individual e concreta. 2. Esta questão não pode ser resolvida recorrendo-se a um conceito de Constituição já consolidado ou, pelo menos, admitido majoritariamente. Isso porque a teoria do Direito Constitucionalainda está começando a explicar o próprio conceito e a peculiaridade da Constituição, sem ter alcançado sequer uma “opinião dominante”. O fato de que essa teoria, em larga medida, não está plenamente consciente nem do seu objeto nem dos seus fundamentos resulta claro pelo uso freqüentemente acrítico de conceitos antigos, desenvolvidos a partir de pressupostos distintos, que, desvinculados dos seus fundamentos, impedem a sua vinculação em um todo, razão por que não conseguem explicar esse todo108. Com alguns resíduos do positivismo jurídico-político e outros das teorias do Estado e da Constituição da época da República de Weimar resulta impossível fundamentar uma teoria da Constituição em condições de sustentar o edifício teórico dos diferentes institutos constitucionais; menos ainda porque vários pressupostos históricos da antiga teoria do Direito Político hoje estão desaparecidos, tornando-se necessária a compreensão e a elaboração teóricas de uma problemática nova. 3. Não é de se estranhar, portanto, que onde a ciência não cumpre a sua função esclarecedora da jurisprudência constitucional, em particular, a do Tribunal Constitucional Federal, tampouco ofereça uma resposta conclusiva à questão colocada pela Constituição. Ademais, não cabe à jurisprudência dar resposta direta a essa questão. Para a jurisprudência, a compreensão da Constituição não é mais que a base – embora quase sempre muito firme – sobre a qual as diferentes questões devem ser resolvidas. É possível que as considerações configuradoras desse fundo não se desenvolvam expressamente, em toda a sua extensão, nos fundamentos jurídicos das sentenças, resumindo-se a alguns traços soltos, fundamentais em cada contexto, e podendo diferir nas duas Salas, ou se modificar conforme a composição do Tribunal. Dadas essas limitações, a compreensão da Constituição pelo Tribunal Constitucional Federal se caracteriza, antes de tudo, por ser uma compreensão não formal, mas de conteúdo; a Constituição é concebida como uma unidade material109. Estes seus conteúdos são qualificados freqüentemente como valores fundamentais, anteriores ao ordenamento jurídico positivo110, valores que, pela recepção das tradições da democracia parlamentar liberal representativa111, do Estado de Direito liberal112, do Estado Federal113 e pela incorporação de novos princípios, como, especialmente, o do Estado social114, resultaram unidos por obra das decisões do constituinte em uma “ordem de valores”115, constituindo um ente estatal que, embora ideologicamente neutro116, não é neutro diante desses valores117. Essa compreensão geral – mais pressuposta do que demonstrada - da Constituição põe em relevo dados essenciais. Mas enfrenta apenas aspectos determinados e, com a idéia da “ordem de valores” suscita mais perguntas do que as responde. Se o essencial da Constituição esgota-se na determinação de “valores”, quais sejam esses valores constitucionalmente prescritos, por que e em que medida constituem uma “ordem” ou sequer um “sistema”118, como explicar que a Constituição possa mudar119 e que limites encontra essa mudança: nada disso pode restar indeterminado no marco de uma fundamentação suficiente. 4. Pois bem, se descartamos um conceito de Constituição consolidado ou majoritariamente aceito, não faltam abordagens essenciais tanto por parte da antiga como da nova teoria do Direito Constitucional com que vincular o conceito de Constituição a desenvolver-se a seguir, embora como um ponto de partida diverso e uma ênfase distinta. Em particular, esse conceito está próximo do enfoque de R. Smend da Constituição como ordenação jurídica do processo de integração estatal120; apesar disso, tal como H. Heller, ele o vê como um processo de elaboração consciente, organizada e planificada121. Acha-se próximo da concepção de Constituição de R. Bäulin, para quem se trata de um comportamento estabilizador, que precisa de constante atualização sob a idéia do “correto”122, procurando acentuar a concretização individual dos princípios substanciais da ordem constitucional, assim como o elemento normativo, a força vinculante da Constituição e, com isso, o seu caráter relativamente estável e permanente. Neste sentido, aproxima- se da concepção de W. Kägi da Constituição como ordem jurídica fundamental do Estado123; mesmo assim, procura abarcar com maior intensidade os elementos de historicidade, de abertura estrutural, de “dinamicidade”. Finalmente, existe uma coincidência substancial com a concepção da Constituição de H. Ehmke da Constituição como limitação e racionalização do poder e como garantia de um livre processo da vida política124, mas intentando tornar mais visíveis as singularidades da Constituição escrita e sua transcendência. Ademais, cumpre atentar também, sob muitos aspectos, às abordagens da moderna Teoria do Estado e da Constituição125. II. O OBJETIVO DA UNIDADE POLÍTICA E DA ORDEM JURÍDICA 5. O que seja “Constituição”, no sentido da pergunta aqui suscitada e delimitada, é algo que só pode ser concebido a partir da tarefa e da função da Constituição na realidade da vida histórico-concreta. Nesta aparecem como objetivos inescusáveis a unidade política e a ordem jurídica. 6. O objetivo a perseguir é a unidade política do Estado126, porque Estado e poder estatal não podem ser dados por suposto, como algo preexistente. Eles só adquirem realidade na medida em que se consegue reduzir a uma unidade de atuação a multiplicidade de interesses, de aspirações e de formas de conduta existentes na realidade da vida humana, na medida em que se consegue produzir unidade política. Esta redução à unidade da multiplicidade jamais se conclui, de tal modo que se possa, sem mais, pressupô-la existente, antes se constituindo num processo contínuo e, por isso mesmo, posto sempre como objetivo. É um objetivo que vem imposto no sentido de que a convivência humana só é possível no Estado e através do Estado. O simples fato de que o conceito central de “produção da unidade política” aponte para um processo histórico concreto já significa que não se trata da unidade estática e abstrata de uma imaginária pessoa jurídica “Estado”. Assim como não se refere a uma – pressuposta ou pretendida – unidade substancial nacional, religiosa, ideológica ou de que tipo for, e tampouco a uma unidade baseada na comum experiência existencial (Erlebniseinheit), por mais que elementos desse gênero possam operar com força unificadora. Pelo contrário, a unidade política que deve ser constantemente perseguida e alcançada no sentido aqui adotado é uma unidade de atuação possibilitada e realizada mediante o acordo ou o compromisso, pelo assentimento tácito ou a simples aceitação e respeito, se for ocaso, até mesmo por coerção com resultado positivo; numa palavra, uma unidade de tipo funcional, que é condição para que, dentro de determinado território, se possam adotar e fazer cumprir decisões vinculantes, para que, afinal, exista “Estado”, e não anarquia ou guerra civil. 7. “Formação da unidade política” não significa a produção de um harmônico estado de coincidência geral e em nenhuma hipótese a eliminação das diferenças sociais, políticas ou de tipo institucional e organizativo, através da nivelação total. Essa unidade é inimaginável sem a presença e a relevância dos conflitos na convivência humana. Os conflitos evitam a rigidez, o estancamento em formas superadas; são – embora sem exclusividade – a força motriz sem a qual não haveria mudança histórica127. A ausência ou a repressão dos conflitos pode conduzir ao imobilismo, que supõe a estabilização do existente assim como a incapacidade para se adaptar a novas circunstâncias e a produzir formas novas: chega, então, um dia em que a ruptura com o que existe se torna inevitável, e o choque ainda mais profundo. Assim, não é importante apenas que haja conflitos mas também que estes surjam regulados e resolvidos. Não é o conflito enquanto tal que contém a forma nova, mas o resultado a que ele conduz. Em si mesmo, o conflito não permite o viver e o conviver humanos.Por isso, o problema não está tanto em abrir espaço para o conflito e os seus efeitos, quanto em garantir – não, em termos definitivos, por conta do tipo de regulação dos conflitos – a formação e a preservação da unidade política, sem ignorar ou reprimir o conflito em nome da unidade política e sem sacrificar a unidade política em nome do conflito. 8. No passado, essa unidade poderia parecer algo evidente (embora fosse, àquela época, uma unidade histórica, conseguida, defendida, preservada e consolidada tanto em face do interior quanto do exterior), dada a sua identificação na pessoa da autoridade num contexto de relações vitais relativamente constantes e de crença em ordens de validade geral, racionais, situadas acima da História; por isso, podia servir-lhe a teoria do Direito político como ponto de partida de uma compreensão estática, que via o Estado como um ente substantivo existente em si e para si, perguntando-se apenas como devia ser concebido esse ente (por exemplo, como “organismo ético” ou como “domínio ético” na teoria do Direito político do século XIX, ou na formalização e esvaziamento da teoria positivista do Direito político da passagem do século enquanto pessoa jurídica), enquanto a sua existência mesma estava acima de qualquer dúvida. 9. Para a atual teoria do Estado, que assumiu a historicidade do seu objeto (e de si mesma), assim como a “irrupção do tempo”, a que atribui a condição de “categoria da estrutura interior do Estado e do Direito”128, não tem cabimento recorrer a tais representações do Estado como uma unidade essencial, prévia, situada além das forças históricas reais, especialmente quando o moderno desenvolvimento industrial e as transformações a que deu lugar impedem que continue a ignorar o problema da formação da unidade política, isolando o “Estado” do seu substrato sociológico. O desenvolvimento científico, técnico e industrial, o simultâneo aumento da população, a especialização e a divisão do trabalho, assim como o conseguinte e crescente adensamento e mutação das relações vitais ocasionaram o crescimento e a modificação das tarefas do Estado, sua “pluralização” e sua “democratização”. Impuseram ao Estado mais e maiores tarefas porque a moderna vida econômica, cultural e social necessita de planificação, direção e configuração, fazendo surgir com intensidade crescente a tarefa da “busca existencial”129, assim como a compreensão de que a seguridade e a assistência sociais, em dimensões cada vez maiores, constituem tarefa do Estado. Na medida em que, com isso, a atuação estatal adquire relevância para a vida econômica e social e na medida em que aumenta a dependência do indivíduo com respeito a essa atuação, o Estado envolve-se na luta dos grandes grupos econômicos rivais surgidos no curso desse processo, assim como resulta modificada a natureza dos enfrentamentos políticos. Se até o presente os grupos sociais haviam desenvolvido os seus antagonismos fora ou por baixo do marco firme da ordem estatal, agora dirigem as suas aspirações e expectativas diretamente ao poder político e ao seu centro, o Estado governante e administrador130. Se até o momento a luta política tinha sido coisa de setores sociais restritos, a partir de agora ela é assumida pelas massas às quais o sufrágio universal abre a possibilidade de exercer influência. O Estado democrático contemporâneo, que já não se vê como o senhor exclusivo do domínio político, torna-se uma parte (não, pois, a totalidade) da moderna sociedade industrial, cujos conflitos se incorporam ao processo de formação da unidade política e da vontade do Estado, devendo ser aqui dirimidos e pacificados. Já não é possível prescindir desse aspecto da sua realidade. 10. Assim, pois, só na medida em que se cumpre a tarefa de formar e preservar a unidade política o Estado torna-se uma realidade existente, como conexão unitária de atividade e atuação. O Estado só pode ser compreendido na medida em que o entendamos sob essas duas dimensões: como uma unidade que deve ser constantemente criada, preservada e consolidada e como atividade e atuação dos “poderes” constituídos sobre essa base. Ambas as dimensões são, a esse respeito e de várias maneiras, mutuamente interdependentes, pois tanto o conteúdo quanto o êxito da atividade dos poderes estatais dependem do êxito da formação da vontade política. Esta, por sua vez, depende do conteúdo e do êxito que, em grande parte, são condicionantes da adesão e do apoio de que o Estado possa encontrar, razão por que o rumo e os instrumentos da atividade estatal devem orientar-se, em boa medida, para a adesão ou o apoio existentes, ou para aqueles que é cabível esperar. Quando, portanto, se utilizar adiante o conceito de “unidade política” para caracterizar o processo de formação de unidade política e o conceito de “Estado” referido à atuação dos poderes estatais, isso só terá lugar em proveito da clareza, sem que implique esquecer que se trata unicamente de aspectos de uma conexão unitária, embora complexa. 11. Essa conexão unitária não se estende à totalidade da convivência humana dentro do território estatal. Há que se perguntar, portanto, em que relação ela se acha com essa totalidade. A esse respeito, a concepção tradicional parte da distinção entre “Estado” e “Sociedade”, situando o Estado como uma unidade dada e a Sociedade como uma pluralidade dada, um em face do outro e sem relação alguma. Este dualismo continua deitando as suas raízes no pensamento liberal pré-democrático da época anterior a 1918, expressando a relação entre um poder estatal, representado pelo governo monárquico e o aparato de funcionários, e uma “sociedade” excluída em boa parte da determinação e conformação políticas, cuja vida basicamente vinha auto-regulada, enquanto o “Estado” só tinha de garantir os pressupostos de um processo submetido às suas próprias leis, intervindo apenas em caso de perturbações. Pois bem, os pressupostos desse dualismo desapareceram no Estado democrático e social contemporâneo. A vida “social” tornou-se impossível sem uma organização responsável, organizadora e planejadora. Ao revés, o “Estado” democrático não se constitui senão através da cooperação social. Também a vida social se acha em relação mais ou menos estreita com a vida estatal no processo de formação da unidade política. A importância atual do Estado para a vida econômica e social, assim como a influência “social” sobre a atividade estatal, inclusive a participação “social” no Estado excluem uma contraposição desprovida de alguma relação. Daí, pois, que o par de conceitos “Estado” e “Sociedade” seja incapaz de expressar adequadamente tal relação131. Outra coisa se dá quando a distinção é entendida como expressão de uma diferenciação funcional132; pois bem, há que se evitar trasladar para o presente resíduos da concepção anterior. A expressiva diferenciação entre “comunidade política” como a “associação global” e “government” como denominação sintetizada das instituições de formação da opinião e da vontade políticas, das instituições de direção, coordenação e governo dentro da associação global133 obrigaria, no contexto das exposições dos traços fundamentais do Direito Constitucional vigente, a renunciar ao conceito de “Estado” ou a utilizá-lo com um significado dificilmente determinável. Daí que a diferenciação entre o estatal e o não-estatal no seio da colaboração humana dentro do território do Estado deva ser expressada empregando-se o conceito de “Comunidade” (Gemeinwesen) referido aos dois, enquanto o conceito de “Estado” fica reservado para o conceito mais restrito de atividade e atuação dos poderes constituídos através da formação de unidade política. “Unidade política”, “Estado” e “Comunidade” são empregados, portanto, como denominações das diferentes conexões de atuação que, em boa medida, são realizadas pelas mesmas pessoas, razão por que não devem ser entendidos na forma de uma justaposição isolada, e sim como “âmbitos”, para uma compreensão melhor. A esse respeito resulta evidente que uma determinaçãoterminológica desse tipo, condicionada pela tarefa apresentada, da mesma forma que os aspectos antes desenvolvidos, não pode ficar mais do que rascunhada, tendo-se de renunciar ao tratamento de questões essenciais dessa problemática134. 12. Se a unidade política e, com ela, o Estado só vêm a existir através da ação humana, esta última exige, por sua vez, a necessidade de se organizar essa cooperação, que deve conduzir à formação da unidade política e na qual devem cumprir-se as tarefas do Estado. Só através de uma cooperação planificada e consciente e, portanto, organizada135, pode surgir a unidade política. Pois bem, dado que este surgir da unidade política é um processo permanente, ele mesmo necessitará de uma ordenação, se não quiser ficar deixado ao acaso de lutas de poder carentes de regras; do mesmo modo, o Estado, a fim de que os seus poderes se façam operativos, necessita de que se constituam esses poderes, dotando-os de organização, assim como, para cumprir suas tarefas, de algumas regras de procedimento: a cooperação organizada e processualmente ordenada exige uma ordem jurídica, mas, veja-se bem, não uma ordem jurídica qualquer, mas uma ordem jurídica que assegure o êxito dessa cooperação criadora de unidade, assim como a realização das tarefas estatais, eliminando-se o abuso das atribuições de poderes concedidas ou admitidas como necessárias para o cumprimento dessas tarefas, ficando bem entendido que tal garantia e asseguração não é só uma questão de estabelecimento de normas, mas, principalmente, de atualização da ordem jurídica. 13. Mais ainda, a ordem jurídica se apresenta como algo a ser alcançado num sentido mais amplo. A Comunidade necessita dessa ordem porque sem ela a convivência humana não seria possível, sobretudo numa situação como a dos nossos dias, que impõe a necessidadede uma ampla ordenação e coordenação material das relações e dos âmbitos da vida econômica e social. Assim como ocorre em relação ao Estado, essa ordem não é algo que preexista num Direito desligado da existência e da atividade humanas, situado acima da História, existente em si e por si, e tampouco é alguma coisa preexistente nas objetivações de uma prévia “ordem de valores”; pelo contrário, trata-se de uma ordem que tem de ser criada, mantida em vigor, conservada e desenvolvida enquanto ordem histórica, por meio da ação humana. Só quando o direito histórico − consciente ou inconscientemente − incorpora-se à conduta humana, torna-se vivo e vem a existir. Esta “atualização” precisa do apoio e da garantia do Estado: a ordem jurídica precisa ser formulada e declarada vinculante para os poderes estatais em muitos dos seus domínios, devendo concretizar-se e ter garantida a sua observância. Estado e Direito, portanto, nem mesmo nesse sentido ficam lado a lado sem nenhuma relação. De variadas maneiras, estão mutuamente submetidos e dependentes. 14. Nesse sentido amplo, a ordem jurídica não se mostra como uma ordem qualquer a ser alcançada, mas apenas enquanto ordem com determinado conteúdo, “reto” 136 e, por isso, legítimo. Sob esse aspecto, são critérios da sua “retidão” a tradição acreditada, mas também o seu oposto, isto é, aquelas experiências históricas que mostraram o que não é “reto” e, portanto, não deve ser considerado Direito, e, conexos a isso, os princípios jurídicos que se formaram e se confirmaram através da experiência histórica das gerações passadas, bem como os modelos da geração atual em face do presente e do futuro. 15. A fim de poder condicionar a conduta humana, esse Direito histórico, por princípio, precisa de “aceitação”, a qual, por sua vez, repousa no acordo básico sobre o cumprimento dos conteúdos da ordem jurídica − inclusive onde a aceitação só expressa o reconhecimento do caráter vinculante das normas jurídicas, mas não o seu livre acolhimento. Este consenso básico não garante, necessariamente, a “retidão”, e sim a manutenção duradoura da ordem jurídica. Onde falta aquele assentimento, pode ser que a coação autoritária ocupe o seu lugar, mas não será capaz de fundamentar uma ordem jurídica como algo a se realizar. III. A CONSTITUIÇÃO E SEU SIGNIFICADO PARA A COMUNIDADE 1. CONCEITO 16. Não cabe, portanto, partir-se nem de um Estado preexistente, independente da ação humana, nem de um Direito com esse mesmo caráter, mas apenas dos propósitos expostos, aos quais deve corresponder, necessariamente, uma ordem constitutiva − a Constituição. 17. A Constituição é a ordem jurídica fundamental da Comunidade . Ela fixa os princípios diretores com relação aos quais deve-se produzir a unidade política e assumir as tarefas do Estado. Contém os procedimentos para resolver os conflitos no seio da Comunidade. Regula a organização e o procedimento de produção da unidade política e de atuação estatal. Cria as bases e determina os princípios da ordem jurídica em seu conjunto. Nisso tudo, a Constituição é o “plano estrutural básico, orientado por determinados princípios, que dão sentido à conformação jurídica de uma Comunidade”137. 18. Enquanto ordem jurídica fundamental da Comunidade, a Constituição não se limita a ordenar a vida estatal. Suas normas compreendem também − de forma especialmente clara em garantias como as do matrimônio e da família − as bases de ordenação da vida não-estatal. Daí que o Direito “Constitucional” se estenda, por um lado, para além do Direito “político” (Staatsrecht), que, tanto em virtude do objeto quanto do significado literal, refere-se apenas ao Direito do Estado; e, por outro, que os seus limites sejam mais estreitos, porque o Direito “político” abarca Direito do Estado não imputável à ordem fundamental da Comunidade, como o Direito Administrativo ou o Direito Processual138 Os conceitos, portanto, só em parte são idênticos. Dado que a Constituição estabelece os pressupostos da criação, vigência e execução das normas do restante do ordenamento jurídico, determinando amplamente o seu conteúdo, ela vem a se converter em fator de unidade do ordenamento jurídico da Comunidade em seu conjunto, no seio da qual impede não só o isolamento do Direito Constitucional em relação aos outros ramos do Direito como também a existência isolada dos distintos setores do Direito entre si. 2. ESTRUTURA E FUNÇÃO 19. As normas da Constituição não são completas nem perfeitas. Embora inúmeras questões referentes à ordem estatal estejam minuciosamente reguladas, muitos outros setores, inclusive da vida estatal em sentido estrito, acham-se regulados por disposições de conteúdo relativamente amplo, e alguns nem sequer são objeto de qualquer regulação. 20. A Constituição, portanto, não é ordenação da totalidade da cooperação socioterritorial (gebietsgesellschaftliches Zusammenwirken ), que, a seu turno, não é simples “execução constitucional”. Tampouco é a Constituição uma unidade sistemática e fechada, seja de tipo lógico-axiomático, seja baseada numa hierarquia de valores. Apesar disso, seus elementos se acham numa situação de mútua interação e dependência, e somente o jogo da totalidade desses elementos produz o conjunto da conformação concreta da Comunidade por parte da Constituição. Isso não significa que esse jogo global esteja isento de tensões e contradições, e sim que a Constituição só pode ser compreendida e interpretada corretamente quando a entendemos, nesse sentido, como unidade 139, e temos presente que o Direito Constitucional acha-se orientado muito mais no sentido da coordenação do que para o deslinde e a demarcação140. 21. O caráter incompleto da Constituição pode-se dever a que não seja necessária uma norma constitucional. A Constituição não codifica, apenas regula − e muitas vezes só de forma pontual e em termos gerais − aquilo que parece importante e precisa ser determinado; tudo o mais dá-se por suposto, tacitamente, ou se deixa para o restante do ordenamento jurídico conformar e concretizar. Daí que de antemão a Constituição não pretenda ser isenta de lacunas e se considere sequer um sistema fechado. 22. Mas a Constituição também pode ter interesseem não submeter a normas jurídicas certos âmbitos vitais ou, se os regular, fazê-lo apenas sob alguns aspectos; determinadas questões, como a “constituição econômica”, por exemplo, a Constituição deixa pre-tensamente abertas, para a seu respeito ensejar discussão, decisão e configuração141. A Constituição, enfim, pode restar incompleta e inacabada porque determinados segmentos, tais como a política exterior ou a atuação dos partidos políticos, por sua natureza, não são suscetíveis de uma detalhada regulação jurídica ou o são apenas com dificuldade, não se afastando a hipótese de que, nestes casos, o que se pretenda, antes de tudo, seja preservar a liberdade de configuração. 23. Finalmente, coincidindo parcialmente com essas razões especiais e indo além delas, a Constituição deve restar incompleta e inacabada porque a vida, que ela intenta regular, é vida histórica e, enquanto tal, submetida a mudanças históricas. Essa mutabilidade caracteriza particularmente as relações existenciais reguladas pela Constituição. Daí que só ao preço de freqüentes reformas constitucionais possa o Direito constitucional fazer-se preciso, evidente e previsível. Se a Constituição quer ensejar a resolução das múltiplas situações críticas historicamente mutantes, seu conteúdo terá de permanecer, necessariamente, “aberto ao tempo”142. 24. Esta amplitude e indeterminação da Constituição não supõe, entretanto, sua dissolução numa dinâmica absoluta em razão da qual a Constituição se tornasse incapaz de orientar a vida da Comunidade. A Constituição não se limita a deixar em aberto, antes estabelece, com força vinculante, aquilo que não deve ficar em aberto. 25. Não devem restar indeterminados os fundamentos da ordem da Comunidade. Ao estabelecer-se, com caráter vinculante, tanto os princípios que regem a formação da unidade política e a fixação das tarefas estatais, quanto as bases do conjunto do ordenamento jurídico, tais fundamentos devem ficar subtraídos à luta constante dos grupos e tendências, criando-se um núcleo estável do que já não se discute, que não é discutível e, por isso mesmo, não precisa de novo acordo e nova decisão. A Constituição pretende criar um núcleo estável daquilo que deve considerar-se decidido, estabilizado e distendido. 26. Porém tampouco devem restar indeterminados a estrutura estatal e o procedimento através do qual hão de se resolver as questões deixadas em aberto. 27. Por isso, a Constituição institui órgãos aos quais se confiam, segundo o seu caráter objetivo, tarefas estatais de âmbitos distintos, determinados e delimitados, assim como as atribuições de poder necessárias à adequada assunção dessas tarefas. A Constituição funda competências, criando, assim, no âmbito dos respectivos desideratos, poder estatal como for de direito. Procura regular a composição e conformação dos distintos órgãos de modo que corresponda à natureza das suas tarefas, garantindo, assim, a adequada assunção das respectivas tarefas. Coordena as diferentes funções entre si, tratando de conseguir, por essa forma, que elas se complementem mutuamente, que se garantam a cooperação, a responsabilidade e o controle, e se evite abuso de competências. 28. Além dessa regulação da estrutura estatal, a Constituição determina os procedimentos que devem possibilitar a resolução de conflitos, procedimentos através dos quais há de se desenvolver o processo de formação de unidade política e por meio dos quais a decisão das questões em aberto submeta-se a regras claras, compreensíveis e, quanto possível, asseguradoras de um resultado adequado. A importância dessas prescrições é tanto maior quanto mais aberta se mantém a Constituição em suas determinações de conteúdo, porque, acima da necessária abertura material em face de objetivos diferentes, se estabelece, não obstante, uma forma estável para a consecução desses objetivos, alcançando-se, assim, aquele efeito estabilizador143 e de distensão indispensável para uma abertura de conteúdo. 29. Tanto pelo que deixa quanto pelo que não deixa em aberto, a Constituição produz esses efeitos, em que se resume a sua função na vida da Comunidade. 30. O Direito Constitucional cria regras de ação e de decisão políticas; proporciona diretrizes e pontos de orientação para a política, mas sem poder substituí-la. Por isso, a Constituição deixa espaço para a atuação das forças políticas. Quando ela não regula numerosas questões da vida política, ou o faz apenas em linhas gerais, isso não deve ser visto apenas como uma renúncia a essa regulação ou tampouco como um remeter dessa tarefa ao processo de atualização e concretização, mas também, para além disso, como uma atitude constitucional em prol da livre discussão e da livre decisão dessas questões. Que essa liberdade não possa converter-se num sistema fechado, que impeça a atuação de diferentes forças, é algo que a Constituição procura assegurar mediante distintos tipos de prescrições materiais, organizativas e processuais, cuja função não consiste apenas nessa garantia. 31. Por meio das suas prescrições materiais, das relativas à estrutura estatal e à regulação constitucional do processo de formação de unidade política e de atuação do Estado, a Constituição cria unidade estatal, dá forma à vida da Comunidade, assegura continuidade supra-pessoal144, com o conseqüente efeito estabilizador. Ao mesmo tempo, permite entender e compreender a formação de unidade política e a atuação estatal, torna possível a participação consciente, protege de recaída no informe e indiferenciado145, com a conseguinte eficácia estabilizadora. Através da ordenação do processo de formação de unidade política; da instituição, sempre limitada, de atribuições de poderes estatais; da regulação processual do exercício dessas atribuições; e do controle dos poderes estatais, a Constituição intenta limitar o poder estatal e prevenir o abuso desse poder. Nessa função de possibilitar e garantir um processo político livre, de constituir, de estabilizar, de racionalizar, de restringir o poder e, nisso tudo, de assegurar a liberdade individual reside a peculiaridade da Constituição. 3. A CONSTITUIÇÃO COMO CONSTITUIÇÃO ESCRITA 32. O efeito estabilizador e racionalizador da Constituição se reforça quando ela é uma Constituição escrita. Quando o seu conteúdo está recolhido num documento, isso tem o mesmo sentido de qualquer certificação documental: sobre o que está escrito deve existir clareza e certeza jurídicas. É certo que muitas dessas determinações em forma escrita dão margem a entendimentos distintos, sobretudo quando necessitam de uma concretização mais precisa. Porém, ao captar o conteúdo da Constituição em um documento que há de ser interpretado com os meios de interpretação de textos, a Constituição limita as possibilidades de entendimentos diferentes (vid. infra número marginal 77 e seguintes), ministrando pontos de referência firmes para a sua atuação e concretização. Com isso, se fixam nesse texto escrito determinações que elevam, consideravelmente, o efeito estabilizador, racionalizador e assegurador da liberdade que possui a Constituição. 33. Esta intenção fracassa quando se deixa de considerar a Constituição escrita como estritamente vinculante. Quando o juiz e, com o mesmo direito, o político ou qualquer outro − hoje, não raro, a partir de um mal compreendido repúdio da concepção positivista do Direito − acreditam poder impor-se à Constituição escrita, é possível que as soluções obtidas dessa forma sejam, em alguns casos, mais adequadas do que as alcançadas com uma interpretação mais literal do texto da Constituição. Com isso, no entanto, fica aberto o caminho para que se deixe de lado a Constituição com a simples invocação de qualquer interesse aparentemente mais elevado, mas cuja superioridade, com toda a certeza, será posta em questão. A idéia básica da Constituição escrita vê-se, então, substituída por uma situação de insegurança criada pela luta constante de forças e opiniões que, em sua argumentação, não dispõem de uma base comum de referência. 34.A vinculação à Constituição escrita não exclui um Direito constitucional não escrito146, porque tampouco a sua fixação num documento constitucional converte a Constituição num sistema “sem lacunas”; pelo contrário, ela precisa ser completada por intermédio de um Direito Constitucional não escrito, o qual, no entanto, por causa de sua função apenas complementadora, jamais pode surgir e manter-se desvinculado da Constituição escrita, antes se apresentando, sempre, sob a forma de desenvolvimento e aperfeiçoamento dessa mesma Constituição e em conformidade com os seus princípios147. A função da Constituição escrita impede qualquer imposição ao Direito Constitucional em nome de um Direito Constitucional não escrito. 35. Essa primazia da Constituição escrita, entretanto, não a converte na última fonte do Direito. Como Constituição escrita, ela cria legalidade necessariamente, mas não necessariamente legitimidade, embora em sua legalidade já esteja subjacente um elemento − não raro esquecido − de legitimidade. Além disso, a Constituição deve sua legitimidade ao acordo em torno do seu conteúdo ou, pelo menos, a seu respeito. No entanto, nem mesmo o mais completo acordo é capaz de excluir a possibilidade de uma contradição entre a Constituição e os mais elevados princípios do Direito como último fundamento da legitimidade, cuja força obrigatória, entretanto, não pode ser constatada senão pela consciência jurídica. Por isso, embora possam fundamentar um direito de resistência, em razão mesmo dessa contradição não podem adotar a forma de legalidade da Constituição. 4. “RIGIDEZ” E “MUTABILIDADE” DA CONSTITUIÇÃO 36. Dado que a Constituição engloba as características de abertura e amplitude de uma parte com a presença de disposições vinculantes de outra, é claro que o ponto decisivo reside precisamente na polaridade desses elementos. Daí que a questão acerca da “rigidez” ou “mobilidade” da Constituição não se ponha em forma alternativa, mas, antes, como um problema de coordenação “correta” desses elementos. 37. Para que a Constituição possa cumprir seu desiderato, são necessários ambos os caracteres: os de abertura e de amplitude, porque só eles permitem responder à mudança histórica, assim como à diversidade das situações existenciais; as disposições vinculantes porque sua virtude estabilizadora possibilita essa relativa constância que preserva a vida da Comunidade de dissolução numa mudança contínua, incontida e incontrolável. A coordenação de ambos os elementos é necessária para que os dois possam cumprir sua missão. O persistente não pode converter-se em obstáculo onde o movimento e o progresso se impõem, pois, do contrário, a mudança se produz à margem da norma jurídica. O mutante, por sua vez, não deve eliminar a virtude estabilizadora das disposições vinculantes, sob pena de não se cumprir o desiderato da Constituição, como ordem jurídica fundamental da Comunidade. 38. Só num segundo plano aparece o problema da “rigidez” ou da “mutabilidade” da Constituição (por exemplo, sob a forma de requisitos de maiorias qualificadas, de referendo de ratificação ou, também, de exclusão de certas reformas) como um problema de revisão constitucional, o qual só se manifesta onde a amplitude e a abertura da Constituição não são capazes de dar resposta aos problemas suscitados por uma situação determinada. A esse ponto se chegará tanto mais depressa quanto mais estritas e detalhadas sejam as disposições materiais da Constituição. 39. Por “revisão constitucional” entende-se aqui, exclusivamente, a revisão do texto da Constituição, devendo-se distingui-la da “ruptura constitucional” (Verfassungsdurchbrechung), quer dizer, da não observância do texto numa hipótese determinada (sem modificação do texto), como se admitia na prática política da República de Weimar, desde que se alcançassem as maiorias exigidas para a reforma da Constituição. Finalmente, a “revisão constitucional” deve ser distinguida da “mutação constitucional” (Verfassungswandel), que não afeta o texto enquanto tal − que permanece inalterado −, e sim a concretização do conteúdo das normas constitucionais. Com efeito, dada a amplitude e a abertura das normas constitucionais, estas podem levar a resultados distintos em face de supostos mutáveis (número marginal 45 e seguintes), operando, neste sentido, uma “mutação”. A problemática da revisão constitucional começa onde terminam as possibilidades da mutação constitucional. 40. Se se dificultam as reformas constitucionais numa Constituição que deixa pouco espaço para a mutação, então resulta efetivamente correto falar-se de uma Constituição “rígida”; embora o conteúdo das disposições constitucionais, neste caso, esteja determinado com relativa precisão, dificilmente a Constituição estará em condição de cumprir seu desiderato na realidade histórica da vida da Comunidade. A situação não é muito melhor quando uma Constituição que deixa pouco espaço para a mutação se torna “móvel”, possibilitando sua reforma a qualquer momento e sem obstáculos. É certo que esta solução compatibiliza uma mais rápida adaptação, com maior precisão do texto, mas tampouco nesse caso pode a Constituição cumprir a sua missão como ordem jurídica fundamental da Comunidade, porque fica privada de um aspecto essencial, de sua virtude estabilizadora. Diversamente, atende-se à idéia e ao conteúdo da Constituição quando se deixa espaço para a mutação constitucional nos limites traçados no texto, ao mesmo tempo em que se criam obstáculos para a reforma constitucional. Tal solução opera simultaneamente essa relativa elasticidade e essa relativa estabilidade, necessárias ao adequado cumprimento de seu desiderato por parte da Constituição. 5. A “REALIZAÇÃO” DA CONSTITUIÇÃO 41. A Constituição compõe-se de normas. Estas contêm mensagens dirigidas à conduta humana, não ainda conduta humana propriamente dita; as normas passam de letras mortas, sem eficácia alguma, quando o conteúdo dessas mensagens não se incorpora à conduta humana. O Direito Constitucional, nesse sentido, não pode ser desvinculado da atuação humana; só na medida em que através dessa atuação e nessa atuação ele se “realiza”, vem a ser a uma ordem realmente vivida, formadora e conformadora da realidade histórica, podendo cumprir a sua função na vida da Comunidade (número marginal 31). 42. a) Essa realização não é algo que se possa dar por suposto. Depende de quanto a Constituição efetivamente motiva e determina a conduta humana, na medida, portanto, em que as suas normas se achem “em vigor” não só hipoteticamente mas também de fato. Essa vigência real da Constituição não se alcança pelo só fato de ela existir. Confunde-se o processo constituinte no que é e no que faz quando o concebemos como um único ato de vontade do “poder constituinte” 148, de um poder originário do qual deriva todo poder constituído e cujos mandatos hão de ser obedecidos por emanar da sua vontade. Isso porque também o “poder constituinte” se origina e se conforma mediante atuação humana histórica, usualmente a de uma assembléia constituinte, e aquilo que faz não é nada mais − embora, é claro, também nada menos − do que a formulação no texto da Constituição daquilo sobre o que se está de acordo ou daquilo sobre o que, segundo a Constituição, se deve estar de acordo. A vontade do constituinte histórico não pode fundamentar a vigência real da Constituição e, desde logo, também não pode mantê-la. Até que ponto a Constituição consegue essa vigência é mais uma questão de força normativa, de sua capacidade para operar na realidade da vida histórica de forma determinante e reguladora. 43. Essa força normativa acha-se condicionada de um lado pela possibilidade de realização dos conteúdos da Constituição. Quanto maior for a conexão dos seus preceitos com as circunstâncias da situação histórica, procurando conservar e desenvolver o que já está esboçado na disposição individual do presente, tanto melhor conseguirão esses preceitos desenvolver a sua força normativa. Quando a Constituição ignora o estágio de desenvolvimentoespiritual, social, político ou econômico do seu tempo, vê-se privada do imprescindível germe de força vital, tornando-se incapaz de conseguir que se realize o que ela dispõe em contradição com esse estágio de desenvolvimento. Sua força vital e operativa baseia-se na sua capacidade para conectar-se com as forças espontâneas e as tendências vivas da época, da sua capacidade para desenvolver e coordenar essas forças, para ser, em razão do seu objeto, a ordem global específica de concretas relações existenciais. 44. De outro lado, a força normativa da Constituição acha-se condicionada pela vontade constante, dos implicados no processo constitucional, de realizar os conteúdos da Constituição. Dado que a Constituição, como toda ordem jurídica, precisa atualizar-se pela atividade humana, sua força normatizadora depende da disposição para se considerar vinculantes os seus conteúdos e da decisão de realizar esses conteúdos, inclusive contra eventuais resistências; e isso tanto mais porque a atualização da Constituição não pode ser apoiada e garantida da mesma forma como os demais direitos, que não o Direito Constitucional, são atualizados pelos poderes estatais, que, de resto, não se constituem senão mediante essa atualização. Resulta fundamental, portanto, essa vontade, a qual, por sua vez, apóia-se sobre o consenso básico que assegura à ordem jurídica uma estabilidade firme (vid. supra número marginal 15); é imprescindível que o acordo do constituinte histórico se mantenha entre aqueles cuja atuação e cooperação esse constituinte tratou de dirigir e coordenar através das normas da Constituição. Quanto mais intensa for a “vontade de Constituição” (Wille zur Verfassung) tanto mais recuados estarão os limites das possibilidades de realizar-se a Constituição, sem que essa vontade, no entanto, possa eliminar por completo tais limites. Só na medida em que se cumpram ambos os pressupostos é que a Constituição poderá desenvolver a sua força normativa149. 45. b) Assim, portanto, sob a perspectiva das condições de realização do Direito Constitucional, Constituição e “realidade” não podem isolar-se uma da outra. O mesmo se diga sobre o próprio processo de realização. O conteúdo de uma norma constitucional não pode, de ordinário, realizar-se apenas com base nas pretensões nela contidas (sobretudo expressadas na forma de um enunciado lingüístico) e isso tanto menos quanto mais geral, incompleto e indeterminado esteja redigido o texto da norma. Por isso, a fim de poder dirigir a conduta humana em cada situação, a norma, fragmentária em maior ou menor medida, necessita de “concretização”, o que só será possível quando se levem em consideração, nesse processo, junto com o contexto normativo, as singularidades das relações existenciais concretas sobre as quais a norma pretende incidir. A operação de realização da norma constitucional não pode desprezar essas singularidades, sob pena de fracassar diante dos problemas suscitados pelas situações que a Constituição é chamada a resolver. Assim, por exemplo, o conteúdo e o alcance da garantia constitucional da propriedade só podem ser determinados tendo-se em conta a função social e econômica da propriedade no moderno Estado social. A regulação constitucional da liberdade de expressão por meio da radiodifusão só pode ser levada a cabo tomando-se em consideração as rápidas mudanças ocorridas nessa atividade, especialmente no que diz respeito às suas possibilidades técnicas150, razão por que a conformação e a garantia dessa liberdade têm que ser distintas das pertinentes, por exemplo, à liberdade de expressão por meio da imprensa, onde os condicionamentos técnicos e econômicos são diferentes. 46. Destarte, a “concretização” do conteúdo de uma norma constitucional, assim como a sua realização, só se tornam possíveis incorporando as circunstâncias da “realidade” que essa norma é chamada a regular. As singularidades dessas circunstâncias, não raro já conformadas juridicamente, integram o “âmbito normativo”, o qual − a partir do conjunto dos dados do mundo social afetados por um preceito jurídico e através do mandato contido, sobretudo, no texto da norma, o “programa normativo” − é alçado à condição de parte integrante do conteúdo normativo151. Porque essas singularidades, e com elas o “âmbito normativo”, estão submetidas a transformações históricas, os resultados da “concretização” da norma podem mudar, ainda que o texto da norma (e, com isso, no essencial, o “programa normativo”) continue o mesmo. Disso tudo decorre uma constante mutação constitucional, mais ou menos notável, que não é fácil de captar e que, por isso, raramente se manifesta com nitidez. 47. Pois bem, as possibilidades dessa “mutação constitucional” são limitadas, porque em nada se altera a necessidade da constante vinculação entre a realização constitucional e, precisamente, as normas a realizar. Por isso, os conteúdos realizados em contradição com essas normas tampouco podem ser considerados “realidade constitucional”, ou seja, Constituição realizada, pelo menos se com esse conceito se pretenda dizer alguma coisa. A verdade é que, inevitavelmente, a realização de normas constitucionais, ora mais, ora menos, tem que andar a reboque dos mandatos que essas normas dirigem à conduta humana, residindo na descrição dessa diferença a justificativa para a contraposição entre Direito Constitucional e realidade constitucional, sem que isso implique admitir-se a existência de uma realidade constitucional contra constitutionem. A afirmação de uma contraposição entre Direito Constitucional e realidade constitucional pode não só obscurecer como até mesmo desviar a discussão. Ao qualificar a realidade inconstitucional como realidade constitucional, outorga-se força normatizadora a essa realidade, com o que, enquanto força normatizadora da “realidade”, de antemão ela se sobrepõe à força normatizadora do “Direito”. A qualificação da realidade inconstitucional como realidade constitucional contém, portanto, uma opção − não raro, desde logo, inconsciente − contra a Constituição, privando-a de uma contemplação jurídico-constitutucional. 48. Isso não significa que na vida da Comunidade não possa haver realidade alguma que se ache em contradição com a Constituição ou que tal realidade deva ser considerada irrelevante. Trata-se, pelo contrário, de levá-la em consideração e fazer o que for necessário para evitar que se crie uma realidade inconstitucional ou para recolocar a realidade de acordo com a Constituição. Por isso, a perspectiva jurídica, assim como a argumentação que se vincula à normatividade da Constituição, precisa ser completada por considerações de política constitucional dirigidas a manter ou possibilitar esse acordo, a criar os pressupostos para uma realização legítima da Constituição ou, se não, para reformar a Constituição. A INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL I. NECESSIDADE, SIGNIFICADO E OBJETIVO DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL II. AS TRADICIONAIS REGRAS DE INTERPRETAÇÃO III. A INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL COMO CONCRETIZAÇÃO IV. A INTERPRETAÇÃO CONFORME À CONSTITUIÇÃO Traduzido por INOCÊNCIO MÁRTIRES COELHO I. NECESSIDADE, SIGNIFICADO E OBJETIVO DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 49. A interpretação constitucional, no sentido estrito que aqui nos interessa152, faz-se necessária e se põe como problema toda vez que temos de resolver uma questão constitucional que a Constituição não nos permite responder de modo conclusivo. Onde não se suscitam dúvidas não se interpreta e, com freqüência, não faz falta interpretação alguma153. Nem toda realização de normas constitucionais é “interpretação”, embora no curso da interpretação constitucional a Constituição reste sempre “atualizada”. Assim, não se está diante de uma hipótese de interpretação, e sim de “atualização”, quando se cumpre o conteúdo das normas constitucionais sem que, possivelmente, se tenha consciência de que se trata de atos de execução, por exemplo, quando se cria uma associação, se elege o Parlamento, se editam leis, atos administrativosou decisões judiciais, no uso de competências constitucionalmente delimitadas 154. Igualmente não se faz necessário interpretar quando as disposições constitucionais são terminantes, por mais que, aqui também, estejamos diante de um ato − estruturalmente simples − de “compreensão” e, com isso, de “interpretação” em sentido amplo. 50. Para o Direito Constitucional, a importância da interpretação é fundamental porque, pelo caráter amplo e aberto da Constituição, os problemas de interpretação surgem com maior freqüência do que noutros setores do ordenamento em que as normas são detalhadas. Importância que aumenta, se isso for possível, numa ordem constitucional dotada de uma jurisdição constitucional de amplas proporções, como é a da Lei Fundamental. Se em virtude da própria Constituição o Tribunal Constitucional a interpreta com eficácia vinculante não só para o cidadão mas também para os órgãos do Estado, a idéia que origina e legitima essa vinculação − que não é senão a de submissão de todo o poder do Estado à Constituição − só poderá tornar-se realidade se as sentenças do Tribunal expressarem o conteúdo da Constituição , ainda que na visão do Tribunal. Embora o Tribunal seja competente para fixar esse conteúdo com eficácia vinculante, nem por isso ele está acima da Constituição, à qual deve sua existência. Por isso, é fundamental para o cumprimento do objetivo do Tribunal, assim como para o processo constitucional como um todo, o modo como se resolva o problema da interpretação constitucional. 51. O objetivo da interpretação é chegar ao resultado constitucionalmente “correto” através de um procedimento racional e controlável, fundamentando esse resultado de modo igualmente racional e controlável, e criando, dessa forma, certeza e previsibilidade jurídicas, ao invés de acaso, de simples decisão por decisão. 52. Pois bem, hoje em dia, esse objetivo acha-se menos alcançado do que nunca. Tanto na jurisprudência como em amplos setores da doutrina, o mesmo positivismo, que permanece acrítico e tão in-conseqüentemente praticado quanto os esforços para superá-lo pelo recurso acrítico a “valores”, provocou crescente insegurança. Embora justa155, na medida em que pretende responsabilizar por essa insegurança a disseminação do método das ciências do espírito − que não se identifica, em absoluto, com esse pensamento acrítico de valores hierarquizados −, e de buscar a solução numa volta às regras tradicionais de interpretação, essa crítica acaba ignorando o complexo problema que, no momento, é suscitado pela interpretação constitucional156. II. AS TRADICIONAIS REGRAS DE INTERPRETAÇÃO 1. CONTEÚDO 53. A teoria tradicional da interpretação pretende, de ordinário, revelar a vontade (objetiva) da norma ou a vontade (subjetiva) do legislador através da análise do texto, do seu processo de criação, das suas conexões sistemáticas e dos seus antecedentes, assim como, finalmente, do sentido e da finalidade (a “ratio” e o “telos”) da norma157. Em seguida, o conteúdo da norma assim revelado − quer dizer, abstração feita do problema concreto que se deve decidir − é subsumido à moda de conclusão silogística ao suposto vital de cuja normação se trata, que assim fica resolvido. Segundo essa teoria, haveria interpretação, inclusive interpretação constitucional, em princípio, na simples execução de uma vontade preexistente (objetiva ou subjetiva), que pode ser encontrada com certeza objetiva através desses métodos, independentemente do problema que se tenha de resolver. 54. O Tribunal Constitucional também adotou expressamente essa doutrina. O Tribunal, com efeito, mesmo não claramente, opta pela “teoria objetiva” da interpretação, como evidencia esta passagem de um dos seus julgados: “Fundamental para interpretar um preceito legal é a vontade objetiva do legislador manifestada através desse preceito, tal como se deduz do texto e do contexto da disposição legal. Não é fundamental, ao contrário, a idéia subjetiva dos órgãos que participam no processo legislativo, ou alguns dos seus membros, acerca do significado da disposição. O processo de criação de um preceito só adquire relevância interpretativa na medida em que venha a confirmar a correção da interpretação feita segundo os aludidos princípios ou na medida em que resolva dúvidas que não podem ser eliminadas apenas com base no mencionado procedimento”158. A esse objetivo, em palavras do Tribunal, servem as várias modalidades de interpretação: “a interpretação a partir do texto da norma (interpretação gramatical), de sua conexão (interpretação sistemática), de sua finalidade (interpretação teleológica) e do seu processo de criação (interpretação histórica)”159, compondo uma atividade em cujo âmbito esses elementos de interpretação se apóiam e se complementam mutuamente a fim de, por exemplo, poder extrair conclusões sobre o significado literal ou a finalidade da norma a partir da sua conexão sistemática ou do seu processo de criação. 2. DIFICULDADES 55. Entretanto, uma ligeira análise já basta para revelar o quanto de problemático tem essa teoria. 56. O objetivo da interpretação só em termos relativos pode consistir na descoberta de uma “vontade”, objetiva ou subjetiva, preexistente na Constituição. Deixando de lado o que é discutível nos fundamentos dessa tese (que, afinal, se apóia no dogma da vontade elaborado pela pandectística do século XIX e adotado pela sua contemporânea ciência do Direito Político que, por si só, não é suficiente para uma compreensão da Constituição moderna), desde logo tem-se encoberta a verdadeira situação. Isso porque, no pressuposto de que Constituição não possui qualquer critério inequívoco − o que equivale a dizer o mesmo em relação a todos os pressupostos de interpretação constitucional −, nem ela nem o constituinte decidiram nada, limitando-se a proporcionar uma série mais ou menos numerosa, porém incompleta, de pontos de apoio para a sua compreensão. Onde não se quis nada de modo inequívoco, torna-se impossível descobrir uma vontade autêntica, conseguindo-se, no máximo, revelar uma vontade suposta ou fictícia, de nada servindo, para nos tirar desse aperto, quaisquer recursos semânticos, do tipo “obediência reflexiva” do intérprete, por exemplo. Identificar como “objetivo” da interpretação constitucional a descoberta da prévia vontade objetiva da Constituição ou do constituinte é o mesmo que pretender cumprir algo que em realidade não preexiste e, portanto, equivocar-se desde o ponto de partida da problemática da interpretação constitucional. Em razão do seu objeto, só com reservas cabe admitir-se que a interpretação seja execução, mas, desde logo, nunca subsunção. Pelo contrário, deverá partir-se do fato de que o seu “objetivo”, realmente, ainda não existe. 57. Tampouco os distintos “métodos da interpretação”, tomados separadamente, oferecem orientação suficiente. Com freqüência, o texto ainda não diz nada que seja inequívoco sobre o significado das suas palavras, o que suscita o problema de como se determinar esse significado, se em conformidade com a linguagem ordinária, com a linguagem jurídica especializada, ou, ainda, segundo a função do conceito em cada caso160. A “interpretação sistemática” pode ser manejada de modo diferente, segundo o que se tenha em conta seja o lugar da lei em que se insere o preceito ou a sua conexão material. A “interpretação teleológica” é praticamente uma carta em branco, pois com a regra de que se tem de suscitar a questão do sentido de um preceito não se avança nada a respeito da questão fundamental sobre como descobrir esse sentido. Finalmente, tampouco é clara a relação dos diferentes métodos entre si. Fica por decidir-se qual deva ser aplicado em cada caso ou mereça preferência, sobretudo quando conduzem a resultados diferentes. 58. As dificuldades assinaladas têm necessariamente que se agravar à vista de uma prática da interpretação constitucional que, com freqüência, afasta-se significativamente das regras de interpretação por ela mesma reconhecidas. Assim, em algumas das suasdecisões, o Tribunal Constitucional Federal considerou o texto de uma disposição como o limite último da interpretação161; noutros casos, relega a segundo plano o texto de uma norma quando assim o exige a aplicação lógica da lei162 ou quando isso sustenta melhor uma decisão constitucionalmente relativa aos valores163 e, no caso Kehl, interpretou os artigos 32 e 39 da Lei Fundamental afastando-se do seu texto “com base numa aplicação e num desenvolvimento lógicos dos princípios da Lei Fundamental”164, ao equiparar aos “Estados estrangeiros” os “sujeitos do Direito internacional semelhantes aos Estados”. Em certos casos, e afastando-se dos seus próprios princípios, o Tribunal utilizou a origem histórica do preceito como argumento decisivo, e não simplesmente para desfazer algumas dúvidas, sem dar maiores explicações165. Foi mais além do padrão dos métodos de interpretação considerados vinculantes quando, por exemplo, levou em conta fatos muito anteriores à imediata origem histórica do preceito166. O Tribunal, finalmente, abandonou o terreno da interpretação tradicional ao considerar como determinantes para a interpretação princípios de tipo jurídico-funcional ou jurídico- material (por exemplo, a distribuição de funções entre os poderes Legislativo e Judiciário167 ou o princípio da unidade da Constituição168), assim como ao considerar relevantes para a determinação do conteúdo da norma as circunstâncias políticas, sociológicas e históricas169 e as considerações relativas à adequação dos resultados170 à situação a ser regulada; aqui a formação do juízo do Tribunal nada tem a ver com as regras de interpretação171, o que se aplica integralmente à sua prática recente, em que a análise cuidadosa e profunda da realidade desempenha, com toda razão, um papel decisivo. 59. Portanto, as “regras tradicionais de interpretação”, que o Tribunal expressamente reconhece, só oferecem uma explicação parcial sobre o modo e a forma como ele elabora suas decisões. Se em lugar dessas regras aparece um grande número de considerações variadas, de modo que só de forma imprecisa se torna possível identificar princípios seguros relativos ao uso dessas considerações, a razão para isso não se encontra numa falta de correção jurídica − por mais que algumas decisões do Tribunal Constitucional Federal possam merecer crítica −, mas, antes, no reiterado fracasso daquelas regras. Restringir-se às “regras tradicionais de interpretação” supõe desconhecer a finalidade da interpretação constitucional; supõe ainda, em larga medida, ignorar, também, tanto a estrutura interna quanto os condicionamentos do processo interpretativo e, assim, só de forma imperfeita, conseguir resolver o problema de uma interpretação correta com base em princípios seguros. Se, em face dessas regras, a práxis se orienta para uma interpretação vinculada ao objeto e ao problema, isso não é simples casualidade, mas, precisamente, expressão e conseqüência dessa realidade. Pela mesma razão, resultará ainda mais necessário ter consciência da própria conduta, não postulando um procedimento de formação do juízo que não se possa respeitar, mas, ao contrário, atendendo às condições reais, às possibilidades e limites da interpretação constitucional. III. A INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL COMO CONCRETIZAÇÃO 60. A interpretação constitucional é “concretização” (Konkretisierung ). Precisamente aquilo que não aparece, de forma clara, como conteúdo da Constituição é o que deve ser determinado mediante a incorporação da “realidade” de cuja ordenação se trata (supra , n. 45 e seguintes). Nesse sentido, a interpretação constitucional tem caráter criativo: o conteúdo da norma interpretada só se completa com a sua interpretação172; mas, veja-se bem, só em tese possui caráter criativo, pois a atividade interpretativa fica vinculada à norma173. 1. CONDIÇÕES DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 61. A concretização pressupõe a “compreensão” do conteúdo da norma a “concretizar”, não podendo desvincular-se nem da “pré-compreensão” do intérprete nem do problema concreto a se resolver. 62. a) O intérprete não pode captar o conteúdo da norma de um ponto de vista quase arquimediano, situado fora da experiência histórica, mas apenas desde a concreta situação histórica em que se encontra, cuja plasmação conformou seus hábitos mentais, condicionando seus conhecimentos e seus pré- juízos. O intérprete compreende o conteúdo da norma a partir de uma pré-compreensão, que lhe enseja contemplar a norma sob certas perspectivas, fazer uma idéia do conjunto e esboçar um primeiro projeto ainda carente de comprovação, correção e revisão, por meio de uma análise mais profunda, até que, como resultado da progressiva aproximação da “coisa” nos projetos sucessivamente revistos, a unidade de sentido se fixe claramente174. 63. Dada a presença de pré-juízos em toda compreensão, não deve o intérprete limitar-se executar as “antecipações” da pré- compreensão, mas, ao contrário, consciente delas e explicando- as, atender ao primeiro comando de toda interpretação: evitar a arbitrariedade do instantâneo, prestando atenção às “coisas mesmas”. A tarefa assim colocada da fundamentação da pré- compreensão é, antes de tudo, uma tarefa de teoria constitucional, cuja formulação, entretanto, não ocorrerá a bel- prazer se constantemente confirmada e corrigida pela prática num intercâmbio contínuo. 64. b) Só conceitualmente, e não em um processo real, cabe distinguir da primeira, esta segunda condição da interpretação constitucional: “compreender” e, com isto, “concretizar” só é possível em face de um problema concreto. O intérprete tem que relacionar a esse problema a norma que pretende entender, se quiser determinar seu conteúdo correto aqui e agora. Esta determinação, assim como a “aplicação” da norma ao caso concreto, constituem um processo único, e não a aplicação subseqüente, a uma determinada hipótese, de algo preexistente, geral, compreensível em si mesmo. Não existe interpretação constitucional desvinculada dos problemas concretos. 65. Também a captação do problema pressupõe um “compreender”; por isso, também depende da pré- compreensão do intérprete e igualmente precisa de uma fundamentação teórico-constitucional. Com isso, a Teoria da Constituição vem a ser condição de compreensão tanto da norma quanto do problema. 2. O PROCESSO DE CONCRETIZAÇÃO DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS 66. A dependência da interpretação da norma a ser concretizada, com relação à pré-compreensão do intérprete e do problema real que, em cada caso, se tem de resolver supõe, dito em forma negativa, que não pode haver um método de interpretação autônomo, desvinculado desses fatores, e, dizendo-se positivamente, que o processo de concretização deve ser dirigido pelo objeto da interpretação – a Constituição – e pelo problema em questão. 67. Se a Constituição, como se pôde ver, não contém um sistema fechado e unitário (quer seja este lógico-axiológico ou de valores hierarquizados) e se a interpretação de suas normas não pode ser simples execução de algo preexistente, far-se-á necessário um procedimento de concretização que responda a essa situação. Pois bem, através de uma atuação “tópica” orientada e limitada pela norma (o que significa dizer vinculada pela norma175), haverão de encontrar-se e provar-se pontos de vista que, buscados pela via da inventio, sejam submetidos ao jogo das opiniões favoráveis e contrárias e fundamentem a decisão da maneira mais esclarecedora e convincente possível (topoi). Sempre que estes pontos de vista contenham premissas objetivamente adequadas e fecundas terão conseqüências que levem à solução do problema ou, ao menos, colaborem para isso. Neste sentido, não ficam entregues à discrição os topoi que devam ser trazidos à colação na multiplicidade dos pontos de vista. De um lado, o intérprete só pode utilizar na tarefa de concretização aqueles pontos de vista que tenham relação com o problema; a vinculação ao problema exclui topoi estranhos à questão. De outro lado, está obrigado a incluir no seu “programa normativo”e no seu “âmbito normativo” (cfr. supra n. 46) os elementos de concretização que lhe ministra a própria norma constitucional, assim como as diretrizes contidas na Constituição, em ordem à aplicação, coordenação e valoração desses elementos no curso da solução do problema. 68. a) Porque está contido basicamente no texto da norma a se concretizar, o “programa normativo” deverá apreender-se pela interpretação desse texto no que diz respeito ao seu significado vinculante para a solução do problema. Aqui têm seu lugar os “métodos” de interpretação tradicionais: as interpretações literal, histórica, original e sistemática permitem que se elaborem elementos de concretização, podendo, com efeito, tais pontos de vista históricos, originais e sistemáticos ajudar a se fazerem precisos possíveis variações de sentido no espaço delimitado pelo texto176; em relação ao ponto de vista “teleológico”, embora ele possa orientar a questão em determinada direção, por si só não propicia resposta suficiente, porque o sentido e a finalidade do preceito só se precisarão de forma indiscutível quando puderem ser confirmado com a ajuda dos outros elementos177. Este trabalho se torna mais leve, usualmente, por decisões prévias de casos similares, assim como, em conexão com isso, pela dogmática do Direito Constitucional. Tanto umas como a outra proporcionam a base mais ou menos segura, embora não vinculante normativamente, àquilo que se admite como compreensão “correta” do texto. 69. b) Normalmente, apenas a interpretação do texto não enseja a sua concretização de forma suficientemente exata. Faz-se preciso, então, ter em conta os dados trazidos pelo “âmbito normativo” em relação ao problema em questão. Dado que aquilo que pretendem as normas da Constituição é ordenar a realidade das concretas situações existenciais, ter-se-á de apreender essa realidade nos termos demarcados no programa normativo, em sua forma e caráter materialmente – e, não raro, também juridicamente – determinados (ver os exemplos do n. 45). Esse modo de atuar não só proporciona elementos adicionais de concretização e uma fundamentação racional e controlável178 como, ademais, assegura (dentro dos limites da interpretação constitucional, cfr. supra 3) em boa medida a adequada solução do problema; supõe, portanto, o contrário desse “normativismo” unilateral e cego, freqüentemente reprovado nos juristas. Em particular e finalmente, nos freqüentes casos em que se trata da relação entre várias normas (como na delimitação de direitos fundamentais) é possível uma solução com base na coordenação objetiva das respectivas relações ou âmbitos vitais e uma exposição dos pontos de vista objetivos que dão suporte a essa coordenação; nesse sentido, possui um caráter sistemático que vai além do ponto vista sistemático correspondente à interpretação do texto da norma, embora com ele esteja em estreita relação. 70. c) Aos princípios da interpretação constitucional cabe a tarefa de orientar e dirigir o processo de relacionamento, coordenação e valoração dos pontos de vista ou considerações necessários à solução do problema. 71. a’) Assim, temos, em primeiro lugar, o princípio da unidade da Constituição. A relação e interdependência existentes entre os distintos elementos da Constituição (supra n. 20) obrigam a que, em nenhum caso, se contemple a norma isoladamente, mas, ao contrário, sempre no conjunto em que ela deve estar situada; todas as normas constitucionais hão de ser interpretadas de tal modo que se evitem contradições com outras normas da Constituição. A única solução do problema coerente com este princípio é a que se encontre em consonância com as decisões básicas da Constituição179 e evite sua limitação unilateral a aspectos particulares180. 72. b’) Em íntima relação com o anterior encontra-se o princípio da concordância prática181: os bens jurídicos constitucionalmente protegidos devem ser coordenados de tal modo que, na solução do problema, todos eles tenham preservada a sua identidade. Onde ocorram colisões não se deve, através de uma precipitada “ponderação de bens” ou, inclusive, de uma abstrata “ponderação de valores”, realizar um dos bens com o sacrifício do outro182. Pelo contrário, o princípio da unidade da Constituição exige um trabalho de “otimização”: faz-se necessário estabelecer os limites de ambos os bens a fim de que os dois alcancem uma efetividade ótima. A fixação desses limites deve observar em cada caso concreto o princípio da proporcionalidade; não deve ir além do necessário para a concordância entre ambos os bens jurídicos. “Proporcionalidade”183 significa, nesse contexto, uma relação entre duas magnitudes variáveis, concretamente aquela que corresponda melhor a essa tarefa de otimização e não uma relação entre um “objetivo” constante e um ou mais “meios” variáveis. Essa se mostra clara, por exemplo, no (equivocadamente assim chamado) “efeito recíproco” entre a liberdade de expressão e o objetivo geral limitador do art. 5° da Lei Fundamental184: do que se trata é da concordância prática, por meio de uma coordenação “proporcional”, entre a liberdade de expressão, de um lado, e os bens jurídicos protegidos pelas “leis gerais”, de outro. Acerca do que seja “proporcional” em cada caso o princípio não diz nada; apesar disso, enquanto critério orientador contido na Constituição e, por isso mesmo, vinculante, aponta a direção e determina o único procedimento através do qual se deve buscar uma solução constitucional. A “ponderação de bens” carece de um critério orientador no que se refere às suas valorações; não é somente que lhe falte uma base de apoio, e sim que, a todo instante, corre o risco de sacrificar a unidade da Constituição. O mesmo se diga quando a relação entre as garantias e as limitações constitucionais da liberdade é determinada com base na presunção de partida em favor da liberdade (in dubio pro libertate), não sendo possível, por isso, ver essa presunção como um princípio de interpretação constitucional185. 73. c’) Um princípio de interpretação é o critério da correção funcional. Se a Constituição regula, de certa maneira, a competência dos agentes das funções estatais, o órgão de interpretação deve manter-se no marco das funções que lhe são atribuídas; esse órgão não deverá modificar a distribuição de funções pela forma e resultado dessa interpretação186. Isto se aplica, em particular, às relações entre legislador e tribunal constitucional: porque ao tribunal só compete, em face do legislador, uma função de controle, é-lhe vedada qualquer interpretação que restrinja a liberdade de conformação do legislador além dos limites estabelecidos pela Constituição ou, inclusive, a uma conformação feita pelo próprio tribunal. 74. d’) Um princípio de avaliação dos pontos de vista adotados é o critério da eficácia integradora: se a Constituição se propõe criar e manter a unidade política, isso exige que se dê preferência na solução dos problemas jurídico- constitucionais àqueles pontos de vista que promovam e preservem essa unidade. Pois bem, essa tarefa não se cumprirá corretamente quando só se puder realizar “através de vias não estritamente constitucionais”187, pois, com isso, terão sido ultrapassados os limites da interpretação constitucional (vid. infra 3). 75. e’) Um critério de interpretação que, entretanto, em boa medida já satisfaz o que foi dito anteriormente188 é o da força normativa da Constituição (vid. supra n. 42 e seguintes). Dado que a Constituição pretende ver-se “atualizada” e tendo em conta que as possibilidades e condicionamentos históricos dessa “atualização” vão se alterando, será preciso dar preferência à solução dos problemas jurídico-constitucionais, sobretudo aos pontos de vista que ajudem as normas da Constituição a alcançar a máxima eficácia nas circunstâncias de cada caso. 76. Este procedimento tópico vinculado, em coerência com o caráter da Constituição, ao problema concreto, mas sempre guiado e orientado pela norma, terá o máximo de possibilidades para chegar a resultados sólidos, racionalmenteexplicáveis e controláveis. É certo que a decisão jurídica, e muito particularmente no Direito Constitucional, nunca pode ser racionalizada de todo; porém, isso só pode significar que se trata da racionalidade possível, e não simplesmente que se possa prescindir de uma metodologia consciente. A “correção” dos resultados obtidos através do aludido processo de concretização das normas constitucionais não tem, por isso, o caráter do exatamente demonstrável que se pode obter nas ciências da Natureza; no âmbito da interpretação jurídica, isso não seria mais do que a ficção e a eterna mentira dos juristas, por trás da qual, e de uma forma implícita e incontrolável, se esconderiam os verdadeiros motivos da decisão ou esta última seria simplesmente ocultada. Frente à pretensão de uma correção absoluta que é impossível se demonstrar e que, não raro, nem sequer a ratio decidendi torna patente, através da correção apenas relativa, que implica reconhecer o caráter limitado de sua pretensão, mas que, apesar disso, dentro dessa limitação, resulta explicável, convincente e até certo ponto previsível, parece conseguir-se algo, e não apenas um “quantum” de honestidade jurídica mas também de – limitada – segurança jurídica. 3. LIMITES DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL 77. A interpretação acha-se vinculada a algo estabelecido189. Por isso, os seus limites situam-se onde não existe algo estabelecido de forma vinculante pela Constituição, onde terminam as possibilidades de uma compreensão lógica do texto da norma ou uma determinada solução está em clara contradição com esse texto. A esse respeito pode haver disposições vinculantes no Direito Constitucional não escrito. Pois bem, dado que o Direito Constitucional não escrito não pode achar-se em contradição com a constitutio scripta (vid. supra n. 34), esta última se converte em limite inultrapassável da interpretação constitucional190. A existência desse limite é pressuposto da função racionalizadora, estabilizadora e limitadora do poder própria da Constituição (vid. supra n. 31). Tal função admite a possibilidade de uma mudança constitucional (Verfassungswandel), mediante interpretação, mas exclui o enfraquecimento constitucional (Verfassungsdurchbrechung) – desvio do texto num caso concreto – e a reforma da Constituição por interpretação. Onde o intérprete se impõe à Constituição deixa de interpretá-la para mudá-la ou enfraquecê-la. Qualquer dessas duas condutas é vedada pelo Direito vigente. Inclusive quando um problema não se possa resolver adequadamente por meio de concretização, o juiz, que está submetido à Constituição, não pode escolher livremente os topoi191. 78. Daqui decorrem os limites que no Direito Constitucional se impõem ao pensamento tópico. Este parte da primazia do problema192, examinando o texto do preceito no marco de topoi basicamente intercambiáveis e se afastando desse texto na solução do problema, com o que se desrespeitam os limites da interpretação. Para uma interpretação constitucional que parte da primazia do texto, é este último o limite inultrapassável da sua atuação. As possibilidades de compreensão do texto delimitam o campo das suas possibilidades tópicas. Daí que o método tópico só possa desempenhar um papel limitado no âmbito da interpretação constitucional; tanto mais porque, sendo fundamentador da ordem global e concebido como ordem de convivência, o Direito Constitucional não pode ser compreendido pontualmente, a partir de problemas isolados, como pode ocorrer no Direito privado, ao qual a moderna teoria da interpretação deve a recuperação do pensamento tópico. IV. A INTERPRETAÇÃO CONFORME À CONSTITUIÇÃO 79. A recente evolução do Direito Constitucional assistiu ao aparecimento de um princípio interpretativo que, embora não pressuponha a existência de uma jurisdição constitucional, deve, no entanto, a sua formação e conformação práticas à implantação da justiça constitucional na Lei Fundamental: o princípio da interpretação conforme à Constituição193. Na jurisprudência do Tribunal Constitucional Federal este princípio alcançou importância crescente e, embora não se encontre totalmente delineado quanto ao seu alcance, já integra a doutrina constante do Tribunal. 1. CONTEÚDO E FUNDAMENTOS JURÍDICO- MATERIAIS 80. Segundo esse princípio, uma lei não deve ser declarada nula quando possa ser interpretada em consonância com a Constituição 194. Esta “consonância” não existe apenas onde a lei, sem que se recorra a pontos de vista jurídico- constitucionais, comporta uma interpretação compatível com a Constituição; pode ter lugar, também, quando um conteúdo ambíguo ou indeterminado da lei se torna preciso graças aos conteúdos da Constituição195. Assim, portanto, no âmbito da interpretação conforme, as normas constitucionais não são apenas “normas-parâmetro” (Prüfungsnormen) mas também normas de conteúdo (Sachnormen) na determinação do conteúdo das leis ordinárias. No entanto, a interpretação conforme não é possível contra “texto e sentido”196 ou contra a “finalidade legislativa”197. A esse respeito não tem que ser determinante a vontade subjetiva do legislador; antes, trata-se de manter ao máximo aquilo que ele pretendeu198. Em nenhum caso deve ser declarada nula uma lei quando a inconstitucionalidade não é evidente, mas apenas que existem reservas, por mais sérias que elas sejam199. 81. A idéia expressa através do princípio da interpretação conforme só em parte coincide com a da “observância da ordem de valores da Lei Fundamental”200 na interpretação das leis ordinárias. O princípio deita as suas raízes muito mais no princípio da unidade do ordenamento jurídico: em função dessa unidade, as leis emanadas sob a vigência da Lei Fundamental devem ser interpretadas em consonância com a Constituição, assim como o direito anterior ainda vigente deve ser adaptado à nova situação constitucional. Ao se pronunciar sobre isso, o juiz controla a concretização da Constituição realizada pelo legislador, fazendo a sua própria concretização da Constituição e da lei. 2. LIMITES JURÍDICO-FUNCIONAIS 82. Como conseqüência disso tudo, a interpretação conforme adquire uma importância fundamental em seu aspecto jurídico- funcional. Em correspondência com o conteúdo jurídico- material faz-se necessária uma coordenação de funções dos órgãos que intervêm no processo de concretização. Isso vale tanto para a relação entre jurisdição constitucional e legislação quanto para a relação entre a jurisdição constitucional e as outras jurisdições. 83. a) Na relação entre jurisdição constitucional e legislação coloca-se a questão de a quem corresponde, antes de tudo, a concretização da Constituição. Se aquilo que se pretende com a interpretação conforme é manter, quanto possível, a validade da lei, então o princípio aparecerá, no seu aspecto jurídico- funcional, como o da primazia do legislador na concretização da Constituição201. A vontade e a conduta do legislador democrático gozam de uma presunção de constitucionalidade; a ele, legislador, corresponderá em primeira linha a conformação jurídica das relações sociais. Ao tribunal constitucional está vedado discutir essa primazia do legislador, pois isso acarretaria um deslocamento das funções constitucionalmente atribuídas. No entanto, a primazia do legislador democrático se produz à custa de uma alteração do significado do conteúdo da lei por parte do tribunal constitucional; primazia que pode resultar anulada quando o preço é excessivamente alto, quando o conteúdo que, através da interpretação conforme, o tribunal confere à lei encerra não um minus, e sim um aliud em face do conteúdo original da lei. Neste caso, o tribunal interfere nas competências do legislador com mais intensidade do que na hipótese de uma declaração de nulidade, porque é ele mesmo quem conforma positivamente, enquanto no caso da declaração de nulidade a nova conformação continua sendo assunto do legislador202. Quanto mais corrija o legislador tanto mais o tribunal se aproximará dos limites jurídico-funcionais da interpretação conforme,os quais, além disso, são difíceis de se precisar com absoluta nitidez203. 84. b) No que toca à relação entre a jurisdição constitucional e as demais jurisdições coloca-se a questão de saber-se a quem corresponde, em primeira linha, a concretização das leis. Tampouco aqui resulta possível uma separação nítida: com a instauração das jurisdições dos artigos 95 e 96 da Lei Fundamental, esta, por certo, atribui principalmente a essas jurisdições a interpretação das leis ordinárias; porém, não exclui por completo o Tribunal Constitucional Federal de toda interpretação das leis ordinárias, porque o controle de norma que faz parte da sua competência (art. 93, 1, 2°; art. 100 da Lei Fundamental) pressupõe essa interpretação. Se, nessas hipóteses, o Tribunal se sobrepõe à interpretação das leis feita pelas restantes jurisdições204, isso parecerá justificado pelo interesse na “preservação da norma” (supra a). Mas fica sem resposta a questão de até onde pode chegar essa primazia da interpretação do Tribunal Constitucional sem fazer dele – que está concebido como um específico tribunal de justiça constitucional -, um supremo tribunal civil, penal e administrativo205. 3. REPERCUSSÕES NA INTERPRETAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO: INTERPRETAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO CONFORME À LEI 85. A “interpretação conforme” não coloca somente a questão relativa ao conteúdo da lei submetida a controle mas também a referenteao conteúdo da Constituição, segundo a qual essa lei deverá ser apreciada. Exige, pois, tanto a interpretação da lei quanto a da Constituição, e dado que tanto a relação material quanto a funcional vão no sentido da manutenção da lei, a interpretação conforme interpretará a norma constitucional, dentro do possível, no sentido em que o legislador a concretizou. Daí que a interpretação conforme das leis venha a ser, em seus efeitos, reflexo sobre a interpretação da Constituição, interpretação da Constituição conforme a lei206. Nisso se manifesta como um princípio suplementar – cabe dizer-se mediato - da interpretação da Constituição por parte dos tribunais. Este efeito confirma ao mesmo tempo a estreita inter-relação existente entre Constituição e lei e, com isso, a unidade do ordenamento jurídico. A FORÇA NORMATIVA DA CONSTITUIÇÃO I II III IV Traduzido por GILMAR FERREIRA MENDES I Em 16 de abril de 1862, Ferdinand Lassalle proferiu, numa associação liberal-progressista de Berlim, sua conferência sobre a essência da Constituição (Uber das Verfassungswesen)207. Segundo sua tese fundamental, questões constitucionais não são questões jurídicas, mas, sim, questões políticas. É que a Constituição de um país expressa as relações de poder nele dominantes: - Poder militar, representado pelas Forças Armadas. - Poder social, representado pelos latifundiários; o poder econômico, representado pela grande indústria e pelo grande capital; e, finalmente, ainda que não se equipare ao significado dos demais, o poder intelectual, representado pela consciência. - Pela cultura geral. – As relações fáticas resultantes da conjugação desses fatores constituem a força ativa determinante das leis e das instituições da sociedade, fazendo com que estas expressem, tão-somente, a correlação de forças que resulta dos fatores reais de poder. Esses fatores reais de poder formam a Constituição real do país. Esse documento chamado Constituição – a Constituição jurídica - não passa, nas palavras de Lassalle, de um pedaço de papel (ein Stück Papier). Sua capacidade de regular e de motivar está limitada à sua compatibilidade com a Constituição real. Do contrário, torna-se inevitável. - Conflito, cujo desfecho há de se verificar contra a Constituição escrita, esse pedaço de papel que terá de sucumbir diante dos fatores reais de poder dominantes no país. Questões constitucionais não são, originariamente, questões jurídicas, mas, sim, questões políticas. Assim, ensinam-nos não apenas os políticos mas também os juristas. Tal como ressaltado pela grande doutrina, ainda não apreciada devidamente em todos os seus aspectos – afirma Georg Jellinek quarenta anos mais tarde -, o desenvolvimento das Constituições demonstra que regras jurídicas não se mostram aptas a controlar, efetivamente, a divisão de poderes políticos. As forças políticas movem-se consoante suas próprias leis, que atuam independentemente das formas jurídicas208. Evidentemente, esse pensamento não pertence ao passado. Ele se manifesta, de forma expressa ou implícita, também no presente. É verdade que hoje ele surge apenas de forma mais simplificada e imprecisa, não se atribuindo relevância maior à consciência e à cultura gerais, também contempladas por Lassalle como fatores reais de poder. A concepção sustentada inicialmente por Lassalle parece ainda mais fascinante se se considera a sua aparente simplicidade e evidência, a sua base calcada na realidade – o que torna imperioso o abandono de qualquer ilusão -, bem como a sua aparente confirmação pela experiência histórica. É que a história constitucional parece, efetivamente, ensinar que, tanto na práxis política cotidiana quanto nas questões fundamentais do Estado, o poder da força afigura-se sempre superior à força das normas jurídicas e que a normatividade submete-se à realidade fática. Pode-se recordar, a propósito, tanto o conflito relativo ao orçamento da Prússia (Budgetkonflikt), referido por Lassalle, como a mudança do papel político do Parlamento subjacente à resignada armação de Georg Jellinek ou, ainda, o exemplo da débâcle da Constituição de Weimar, que, em virtude de sua evidência, revela-se insuscetível a qualquer contestação. Considerada em suas conseqüências, a concepção da força determinante das relações fáticas significa o seguinte: a condição de eficácia da Constituição jurídica, isto é, a coincidência de realidade e norma, constitui apenas um limite hipotético extremo. O fato é que, entre a norma fundamentalmente estática e racional e a realidade fluida e irracional, existe uma tensão necessária e imanente que não se deixa eliminar. Para essa concepção do Direito Constitucional, está configurada permanentemente uma situação de conflito: a Constituição jurídica, no que tem de fundamental, isto é, nas disposições não propriamente de índole técnica, sucumbe cotidianamente em face da Constituição real. A idéia de um efeito determinante exclusivo da Constituição real não significa outra coisa senão a própria negação da Constituição jurídica. Poder-se-ia dizer, parafraseando as conhecidas palavras de Rudolf Sohm, que o Direito Constitucional está em contradição com a própria essência da Constituição. Essa negação do Direito Constitucional importa na negação do seu valor enquanto ciência jurídica. Como toda ciência jurídica, o Direito Constitucional é ciência normativa. Diferencia-se, assim, da Sociologia e da Ciência Política enquanto ciências da realidade. Se as normas constitucionais nada mais expressam do que relações fáticas altamente mutáveis, não há como deixar de reconhecer que a ciência da Constituição jurídica constitui uma ciência jurídica na ausência do direito, não lhe restando outra função senão a de constatar e comentar os fatos criados pela Realpolitik. Assim, o Direito Constitucional não estaria a serviço de uma ordem estatal justa, cumprindolhe tão-somente a miserável função – indigna de qualquer ciência – de justificar as relações de poder dominantes. Se a Ciência da Constituição adota essa tese e passa a admitir a Constituição real como decisiva, tem-se a sua descaracterização como ciência normativa, operando-se a sua conversão numa simples ciência do ser. Não haveria mais como diferenciá-la da Sociologia ou da Ciência Política. Afigura-se justificada a negação do Direito Constitucional, bem como a conseqüente negação do próprio valor da Teoria Geral do Estado enquanto ciência, se a Constituição jurídica expressa, efetivamente, uma momentânea constelação de poder. Ao contrário, essa doutrina afigura-se desprovida de fundamento se se puder admitir que a Constituição contém, ainda que deforma limitada, uma força própria, motivadora e ordenadora da vida do Estado. A questão que se apresenta diz respeito à força normativa da Constituição. Existiria, ao lado do poder determinante das relações fáticas, expressas pelas forças políticas e sociais, também uma força determinante do Direito Constitucional? Qual o fundamento e o alcance dessa força do Direito Constitucional? Não seria essa força uma ficção necessária para o constitucionalista, que tenta criar a suposição de que o direito domina a vida do Estado, quando, na realidade, outras forças mostram-se determinantes? Essas questões surgem particularmente no âmbito da Constituição, uma vez que aqui coexiste, ao contrário do que ocorre em outras esferas da ordem jurídica, uma garantia externa para execução de seus preceitos. O conceito de Constituição jurídica e a própria definição da Ciência do Direito Constitucional enquanto ciência normativa dependem da resposta a essas indagações. II Uma tentativa de resposta deve ter como ponto de partida o condicionamento recíproco existente entre a Constituição jurídica e a realidade político-social209 (1). Devem ser considerados, nesse contexto, os limites e as possibilidades da atuação da Constituição jurídica (2). Finalmente, hão de ser investigados os pressupostos de eficácia da Constituição (3). 1. O significado da ordenação jurídica na realidade e em face dela somente pode ser apreciado se ambas – ordenação e realidade - forem consideradas em sua relação, em seu inseparável contexto, e no seu condicionamento recíproco. Uma análise isolada, unilateral, que leve em conta apenas um ou outro aspecto, não se afigura em condições de fornecer resposta adequada à questão. Para aquele que contempla apenas a ordenação jurídica, a norma “está em vigor” ou “está derrogada”; não há outra possibilidade. Por outro lado, quem considera, exclusivamente, a realidade política e social, ou não consegue perceber o problema na sua totalidade, será levado a ignorar, simplesmente, o significado da ordenação jurídica. A despeito de sua evidência, esse ponto de partida exige particular realce, uma vez que o pensamento constitucional do passado recente está marcado pelo isolamento entre norma e realidade, como se constata tanto no positivismo jurídico de Escola de Paul Laband e Georg Jellinek quanto no “positivismo sociológico” de Carl Schmitt210. Os efeitos dessa concepção ainda não foram superados. A radical separação, no plano constitucional, entre realidade e norma, entre ser (Sem) e dever ser (Sollen) não leva a qualquer avanço na nossa indagação. Como anteriormente observado211, essa separação pode levar a uma confirmação, confessa ou não, da tese que atribui exclusiva força determinante às relações fáticas212. Eventual ênfase numa ou noutra direção leva quase inevitavelmente aos extremos de uma norma despida de qualquer elemento da realidade ou de uma realidade esvaziada de qualquer elemento normativo. Faz-se mister encontrar, portanto, um caminho entre o abandono da normatividade em favor do domínio das relações fáticas, de um lado, e a normatividade despida de qualquer elemento da realidade, de outro. Essa via somente poderá ser encontrada se se renunciar à possibilidade de responder às indagações formuladas com base numa rigorosa alternativa. A norma constitucional não tem existência autônoma em face da realidade. A sua essência reside na sua vigência, ou seja, a situação por ela regulada pretende ser concretizada na realidade. Essa pretensão de eficácia (Geltun 1 anspruch) não pode ser separada das condições históricas, que estão, de diferentes formas, numa relação de interdependência, criando regras próprias que não podem ser desconsideradas. Devem ser contempladas aqui as condições naturais, técnicas, econômicas e sociais. A pretensão de eficácia da norma jurídica somente será realizada se levar em conta essas condições. Há de ser, igualmente, contemplado o substrato espiritual que se consubstancia num determinado povo, isto é, as concepções sociais concretas e o baldrame axiológico que influenciam decisivamente a conformação, o entendimento e a autoridade das proposições normativas. Mas – esse aspecto afigura-se decisivo – a pretensão de eficácia de uma norma constitucional não se confunde com as condições de sua realização; a pretensão de eficácia associa-se a essas condições como elemento autônomo. A Constituição não configura, portanto, apenas a expressão de um ser mas também de um dever ser; ela significa mais do que o simples reflexo das condições fáticas de sua vigência, particularmente as forças sociais e políticas. Graças à pretensão de eficácia, a Constituição procura imprimir ordem e conformação à realidade política e social. Determinada pela realidade social e, ao mesmo tempo, determinante em relação a ela, não se pode definir como fundamental nem a pura normatividade, nem a simples eficácia das condições sociopolíticas e econômicas. A força condicionante da realidade e a normatividade da Constituição podem ser diferençadas; elas não podem, todavia, ser definitivamente separadas ou confundidas. 2. Para usar a terminologia referida, “Constituição real” e “Constituição jurídica” estão em uma relação de coordenação213. Elas condicionam-se mutuamente, mas não dependem, pura e simplesmente, uma da outra. Ainda que não de forma absoluta, a Constituição jurídica tem significado próprio. Sua pretensão de eficácia apresenta-se como elemento autônomo no campo de forças do qual resulta a realidade do Estado. A Constituição adquire força normativa na medida em que logra realizar essa pretensão de eficácia. Essa constatação leva a uma outra indagação, concernente às possibilidades e aos limites de sua realização no contexto amplo de interdependência no qual esta pretensão de eficácia encontra- se inserida. Como mencionado, a compreensão dessas possibilidades e limites somente pode resultar da relação da Constituição jurídica com a realidade. Não se trata, à evidência, de revelação nova. Ela permanece uma obviedade para a Teoria do Estado do Constitucionalismo, para a qual uma separação entre a Constituição jurídica e o Todo da realidade estatal ainda se afigura estranha. Se estou a analisar corretamente, esse entendimento encontra a sua mais clara expressão nos escritos políticos de Wilhelm Humboldt. “Nenhuma Constituição política completamente fundada num plano racionalmente elaborado – afirma Humboldt num dos seus primeiros escritos – pode lograr êxito; somente aquela Constituição que resulta da luta do acaso poderoso com a racionalidade que se lhe opõe consegue desenvolver-se”. Em outros termos, somente a Constituição que se vincula a uma situação histórica concreta e suas condicionantes, dotada de uma ordenação jurídica orientada pelos parâmetros da razão, pode, efetivamente, desenvolver-se. (...) “Cuida-se de uma conseqüência – acrescenta ele – da natureza completamente singular do presente” (aus der ganzen Beschaffenheit der Gegenwart). “Os projetos que a razão pretende concretizar recebem forma e modificação do objeto mesmo a que se dirigem. Assim, podem eles tornar-se duradouros e ganhar utilidade. Do contrário, ainda que sejam executados, permanecem eternamente estéreis... A razão possui capacidade para dar forma à matéria dispo-nível. Ela não dispõe, todavia, de força para produzir substâncias novas. Essa força reside apenas na natureza das coisas; a razão verdadeiramente sábia empresta-lhe estímulo, procurando dirigi-la. Ela mesma permanece modestamente estagnada. As Constituições não podem ser impostas aos homens tal como se enxertam rebentos em árvores. Se o tempo e a natureza não atuaram previamente, é como se se pretendesse coser pétalas com linhas. O primeiro sol do meio-dia haveria de chamuscá-las214. Na monografia sobre a Constituição Alemã, de dezembro de 1813, desenvolveu Humboldt as seguintes reflexões. “As Constituições, afirma, pertencem àquelas coisas da vida cuja realidade se pode ver, mas cuja origem jamais poderá ser totalmente compreendida e, muito menos,reproduzida ou copiada. Toda Constituição, ainda que considerada como simples construção teórica, deve encontrar um germe material de sua força vital no tempo, nas circunstâncias, no caráter nacional, necessitando apenas de desenvolvimento. Afigura-se altamente precário pretender concebê-la com base, exclusivamente, nos princípios da razão e da experiência”215. Com essas assertivas, logrou Humboldt explicitar os limites da força normativa da Constituição. Se não quiser permanecer “eternamente estéril”, a Constituição – entendida aqui como “Constituição jurídica” – não deve procurar construir o Estado de forma abstrata e teórica. Ela não logra produzir nada que já não esteja assente na natureza singular do presente (individuelle Beschaffenheit der Gegenwart). Se lhe faltam esses pressupostos, a Constituição não pode emprestar “forma e modificação” à realidade; onde inexiste força a ser despertada – força esta que decorre da natureza das coisas – não pode a Constituição emprestar-lhe direção; se as leis culturais, sociais, políticas e econômicas imperantes são ignoradas, a Constituição carece do imprescindível germe de sua orça vital. A disciplina normativa contrária a essas leis não logra concretizar-se. Definem-se, ao mesmo tempo, a natureza peculiar e a possível amplitude da força vital e da eficácia da Constituição. A norma constitucionalsomente logra atuar se procura construir o futuro com base na natureza singular do presente. Tal como exposto por Humboldt alhures, a norma constitucional mostra-se eficaz, adquire poder e prestígio se for determinada pelo princípio da necessidade216. Em outras palavras, a força vital e a eficácia da Constituição assentam-se na sua vinculação às forças espontâneas e às tendências dominantes do seu tempo, o que possibilita o seu desenvolvimento e a sua ordenação objetiva. A Constituição converte-se, assim, na ordem geral objetiva do complexo de relações da vida. Mas a força normativa da Constituição não reside, tão- somente, na adaptação inteligente a uma dada realidade217. A Constituição jurídica logra converter-se, ela mesma, em força ativa, que se assenta na natureza singular do presente (individuelle Beschaffenheit der Gegenwart). Embora a Constituição não possa, por si só, realizar nada, ela pode impor tarefas. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente realizadas, se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida e se, a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência, puder identificar a vontade de concretizar essa ordem. Concluindo, pode-se afirmar que a Constituição converter-se-á em força ativa caso se façam presentes, na consciência geral – particularmente, na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional -, não só a vontade de poder (Wille zur Macht) mas também a vontade de Constituição (Wille zur Verfassung). Essa vontade de Constituição origina-se de três vertentes diversas. Baseia-se na compreensão da necessidade e do valor de uma ordem normativa inquebrantável, que proteja o Estado contra o arbítrio desmedido e disforme. Reside, igualmente, na compreensão de que essa ordem constituída é mais do que uma ordem legitimada pelos fatos (e que, por isso, necessita de estar em constante processo de legitimação). Assenta-se também na consciência de que, ao contrário do que se dá com uma lei do pensamento, essa ordem não logra ser eficaz sem o concurso da vontade humana. Essa ordem adquire e mantém sua vigência através de atos de vontade218. Essa vontade tem conseqüência porque a vida do Estado, tal como a vida humana, não está abandonada à ação surda de forças aparentemente inelutáveis. Ao contrário, todos nós estamos permanentemente convocados a dar conformação à vida do Estado, assumindo e resolvendo as tarefas por ele colocadas. Não perceber esse aspecto da vida do Estado representaria um perigoso empobrecimento de nosso pensamento. Não abarcaríamos a totalidade desse fenômeno e sua integral e singular natureza. Essa natureza apresenta-se não apenas como problema decorrente dessas circunstâncias inelutáveis mas também como problema de determinado ordenamento, isto é, como um problema normativo. 3. A força que constitui a essência e a eficácia da Constituição reside na natureza das coisas, impulsionado-a, conduzindo-a e transformando-se, assim, em força ativa. Como demonstrado, daí decorrem os seus limites. Daí resultam também os pressupostos que permitem à Constituição desenvolver de forma ótima a sua força normativa. Esses pressupostos referem-se tanto ao conteúdo da Constituição quanto à práxis constitucional. Tentarei enunciar, de forma resumida, alguns desses requisitos mais importantes. a) Quanto mais o conteúdo de uma Constituição lograr corresponder à natureza singular do presente, tanto mais seguro há de ser o desenvolvimento de sua força normativa. Tal como acentuado, constitui requisito essencial da força normativa da Constituição que ela leve em conta não só os elementos sociais, políticos e econômicos dominantes mas também que, principalmente, incorpore o estado espiritual (geistige Situation) de seu tempo. Isso lhe há de assegurar, enquanto ordem adequada e justa, o apoio e a defesa da consciência geral. Afigura-se igualmente indispensável que a Constituição mostre-se em condições de adaptar-se a uma eventual mudança dessas condicionantes. Abstraídas as disposições de índole técnico-organizatória, ela deve limitar-se, se possível, ao estabelecimento de alguns poucos princípios fundamentais, cujo conteúdo específico, ainda que apresente características novas em virtude das céleres mudanças na realidade sociopolítica, mostre-se em condições de ser desenvolvido219. A “constitucionalização” de interesses momentâneos ou particulares exige, em contrapartida, uma constante revisão constitucional, com a inevitável desvalorização da força normativa da Constituição. Finalmente, a Constituição não deve assentar-se numa estrutura unilateral se quiser preservar a sua força normativa num mundo em processo de permanente mudança político- social. Se pretende preservar a força normativa dos seus princípios fundamentais, deve ela incorporar, mediante meticulosa ponderação, parte da estrutura contrária. Direitos fundamentais não podem existir sem deveres, a divisão de poderes há de pressupor a possibilidade de concentração de poder, o federalismo não pode subsistir sem uma certa dose de unitarismo. Se a Constituição tentasse concretizar um desses princípios de forma absolutamente pura, ter-se-ia de constatar, inevitavelmente - no mais tardar em momento de acentuada crise -, que ela ultrapassou os limites de sua força normativa. A realidade haveria de pôr termo à sua normatividade; os princípios que ela buscava concretizar estariam irremediavelmente derrogados. b) Um ótimo desenvolvimento da força normativa da Constituição depende não apenas do seu conteúdo mas também de sua práxis. De todos os partícipes da vida constitucional, exige-se partilhar aquela concepção anteriormente por mim denominada vontade de Constituição (Wille zur Verfassung). Ela é fundamental, considerada global ou singularmente. Todos os interesses momentâneos – ainda quando realizados - não logram compensar o incalculável ganho resultante do comprovado respeito à Constituição, sobretudo naquelas situações em que a sua observância revela-se incômoda. Como anotado por Walter Burckhardt, aquilo que é identificado como vontade da Constituição “deve ser honestamente preservado, mesmo que, para isso, tenhamos de renunciar a alguns benefícios ou até a algumas vantagens justas. Quem se mostra disposto a sacrificar um interesse em favor da preservação de um princípio constitucional, fortalece o respeito à Constituição e garante um bem da vida indispensável à essência do Estado, mormente ao Estado democrático”. Aquele, que, ao contrário, não se dispõe a esse sacrifício, “malbarata, pouco a pouco, um capital que significa muito mais do que todasas vantagens angariadas, e que, desperdiçado, não mais será recuperado”220. Igualmente perigosa para força normativa da Constituição afigura-se a tendência para a freqüente revisão constitucional sob a alegação de suposta e inarredável necessidade política. Cada reforma constitucional expressa a idéia de que, efetiva ou aparentemente, atribui-se maior valor às exigências de índole fática do que à ordem normativa vigente. Os precedentes aqui são, por isso, particularmente preocupantes. A freqüência das reformas constitucionais abala a confiança na sua inquebrantabilidade, debilitando a sua força normativa. A estabilidade constitui condição fundamental da eficácia da Constituição. Finalmente, a interpretação tem significado decisivo para a consolidação e preservação da força normativa da Constituição. A interpretação constitucional está submetida ao princípio da ótima concretização da norma (Gebot optiraler Verwirklichung der Norm). Evidentemente, esse princípio não pode ser aplicado com base nos meios fornecidos pela subsunção lógica e pela construção conceitual. Se o direito e, sobretudo, a Constituição têm a sua eficácia condicionada pelos fatos concretos da vida, não se afigura possível que a interpretação faça deles tábula rasa. Ela há de contemplar essas condicionantes, correlacionando-as com as proposições normativas da Constituição. A interpretação adequada é aquela que consegue concretizar, de forma excelente, o sentido (Sinn) da proposição normativa dentro das condições reais dominantes numa determinada situação. Em outras palavras, uma mudança das relações fáticas pode – ou deve – provocar mudanças na interpretação da Constituição. Ao mesmo tempo, o sentido da proposição jurídica estabelece o limite da interpretação e, por conseguinte, o limite de qualquer mutação normativa. A finalidade (Telos) de uma proposição constitucional e sua nítida vontade normativa não devem ser sacrificadas em virtude de uma mudança da situação. Se o sentido de uma proposição normativa não pode mais ser realizado, a revisão constitucional afigura-se inevitável. Do contrário, ter-se-ia a supressão da tensão entre norma e realidade com a supressão do próprio direito. Uma interpretação construtiva é sempre possível e necessária dentro desses limites. A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui condição fundamental da força normativa da Constituição e, por conseguinte, de sua estabilidade. Caso ela venha a faltar, tornar-se-á inevitável, cedo ou tarde, a ruptura da situação jurídica vigente. III 1. Em síntese, pode-se afirmar: a Constituição jurídica está condicionada pela realidade histórica. Ela não pode ser separada da realidade concreta de seu tempo. A pretensão de eficácia da Constituição somente pode ser realizada se se levar em conta essa realidade. A Constituição jurídica não configura apenas a expressão de uma dada realidade. Graças ao elemento normativo, ela ordena e conforma a realidade política e social. As possibilidades, bem como os limites da força normativa da Constituição, resultam da correlação entre ser (Sein) e dever ser (Sollen). A Constituição jurídica logra conferir forma e modificação à realidade. Ela logra despertar “a força que reside na natureza das coisas”, tornando-a ativa. Ela própria converte-se em força ativa que influi e determina a realidade política e social. Essa força impõe-se de forma tanto mais efetiva quanto mais ampla for a convicção sobre a inviolabilidade da Constituição, quanto mais forte mostrar-se essa convicção entre os principais responsáveis pela vida constitucional. Portanto, a intensidade da força normativa da Constituição apresenta-se, em primeiro plano, como uma questão de vontade normativa, de vontade de Constituição (Wille zur Verfassung). Constatam-se os limites da força normativa da Constituição quando a ordenação constitucional não mais se baseia na natureza singular do presente (individuelle Beschaffenheit der Gegenwart). Esses limites não são, todavia, precisos, uma vez que essa qualidade singular é formada tanto pela idéia de vontade de Constituição (Wille zur Verfassung) quanto pelos fatores sociais, econômicos e de outra natureza. Quanto mais intensa for a vontade de Constituição, menos significativas hão de ser as restrições e os limites impostos à força normativa da Constituição. A vontade de Constituição não é capaz, porém, de suprimir esses limites. Nenhum poder do mundo, nem mesmo a Constituição, pode alterar as condicionantes naturais. Tudo depende, portanto, de que se conforme a Constituição a esses limites. Se os pressupostos da força normativa encontrarem correspondência na Constituição, se as forças em condições de violá-la ou de alterá-la mostrarem-se dispostas a render-lhe homenagem, se, também em tempos difíceis, a Constituição lograr preservar a sua força normativa, então ela configura verdadeira força viva capaz de proteger a vida do Estado contra as desmedidas investidas do arbítrio. Não é, portanto, em tempos tranqüilos e felizes que a Constituição normativa vê-se submetida à sua prova de força. Em verdade, esta prova dá-se nas situações de emergência, nos tempos de necessidade. Em determinada medida, reside aqui a relativa verdade da conhecida tese de Carl Schmitt, segundo a qual o estado de necessidade configura ponto essencial para a caracterização da força normativa da Constituição. Importante, todavia, não é verificar, exatamente durante o estado de necessidade, a superioridade dos fatos sobre o significado secundário do elemento normativo, mas, sim, constatar, nesse momento, a superioridade da norma sobre as circunstâncias fáticas. 2. Tudo isso não significa mais do que uma primeira orientação básica em relação aos problemas anteriormente enunciados. Essa orientação fornece, porém, uma resposta prévia às questões colocadas. A Constituição jurídica não significa simples pedaço de papel, tal como caracterizada por Lassalle. Ela não se afigura “impotente para dominar, efetivamente, a distribuição de poder”, tal como ensinado por Georg Jellinek e como, hodiernamente, divulgado por um naturalismo e sociologismo que se pretende cético. A Constituição não está desvinculada da realidade histórica concreta do seu tempo. Todavia, ela não está condicionada, simplesmente, por essa realidade. Em caso de eventual conflito, a Constituição não deve ser considerada, necessariamente, a parte mais fraca. Ao contrário, existem pressupostos realizáveis (realizierbare Voraussetzungen) que, mesmo em caso de confronto, permitem assegurar a força normativa da Constituição. Somente quando esses pressupostos não puderem ser satisfeitos, dar-se-á a conversão dos problemas constitucionais, enquanto questões jurídicas (Rechtsfragen), em questões de poder (Machtfragen). Nesse caso, a Constituição jurídica sucumbirá em face da Constituição real. Essa constatação não justifica que se negue o significado da Constituição jurídica: o Direito Constitucional não se encontra em contradição com a natureza da Constituição. Portanto, o Direito Constitucional não está obrigado a abdicar de sua posição enquanto disciplina científica. Se a Constituição jurídica possui significado próprio em face da Constituição real, não se pode cogitar a perda de legitimidade dessa disciplina enquanto ciência jurídica. Ele não é – no sentido estrito da Sociologia ou da Ciência Política – uma ciência da realidade. Não é mera ciência normativa, tal como imaginado pelo positivismo formalista. Contém essas duas características, sendo condicionada tanto pela grande dependência que o seu objeto apresenta em relação à realidade político-social quanto pela falta de uma garantia externa para a observância das normas constitucionais. Em verdade, esse fato mostra-se mais evidente na Ciência do Direito Constitucional do que em outras disciplinas jurídicas. A íntima conexão, na Constituição, entre a normatividade e a vinculação do direito com a realidade obriga que, se não quiser faltar com o seu objeto, o Direito Constitucional se conscientize desse condicionamentoda normatividade. Para que as suas proposições tenham consistência em face da realidade, ele não deve contentar-se com uma complementação superficial do “pensamento jurídico rigoroso” através da adoção de uma perspectiva histórica, social, econômica ou de outra índole. Devem ser examinados todos os elementos necessários atinentes às situações e forças, cuja atuação afigura-se determinante no funcionamento da vida do Estado. Por isso, o Direito Constitucional depende das ciências da realidade mais próximas, como a História, a Sociologia e a Economia221. Isso significa que o Direito Constitucional deve preservar, modestamente, a consciência dos seus limites. Até porque a força normativa da Constituição é apenas uma das forças de cuja atuação resulta a realidade do Estado. E esta força tem limites. A sua eficácia depende da satisfação dos pressupostos acima enunciados. Subsiste para o Direito Constitucional uma enorme tarefa, sobretudo porque a força normativa da Constituição não está assegurada de plano, configurando missão que, somente em determinadas condições, poderá ser realizada de forma excelente. A concretização plena da força normativa constitui meta a ser almejada pela Ciência do Direito Constitucional. Ela cumpre seu mister de forma adequada não quando procura demonstrar que as questões constitucionais são questões do poder, mas quando envida esforços para evitar que elas se convertam em questões de poder (Machtfragen). Em outros termos, o Direito Constitucional deve explicitar as condições sob as quais as normas constitucionais podem adquirir a maior eficácia possível, propiciando, assim, o desenvolvimento da dogmática e da interpretação constitucional. Portanto, compete ao Direito Constitucional realçar, despertar e preservar a vontade de Constituição (Wille zur Verfassung), que, indubitavelmente, constitui a maior garantia de sua força normativa222. Essa orientação torna imperiosa a assunção de uma visão crítica pelo Direito Constitucional, pois nada seria mais perigoso do que permitir o surgimento de ilusões sobre questões fundamentais para a vida do Estado. IV Tendo a oportunidade de conscientizar-nos dessa problemática, tentarei, finalmente, demonstrar a sua relevância com base na análise da ordem constitucional vigente. Pode-se imaginar que o status dominante repudia, de forma clara, todo e qualquer questionamento da Constituição jurídica. Em verdade, existem elementos que ressaltam o peculiar significado atribuído à Constituição jurídica na vida do Estado moderno. A política interna afigura-se, em grande medida, “juridicizada”. A argumentação e discussão constitucional assumem particular significado tanto na relação entre a União e os Estados quanto na relação entre diversos órgãos estatais e suas diferentes funções. Embora elas pareçam, por natureza, refratárias a uma regulamentação jurídica, até mesmo as forças que imprimem movimento e direção à vida política – os partidos políticos – estão submetidas à ordem constitucional. Os princípios basilares da Lei Fundamental não podem ser alterados mediante revisão constitucional, conferindo preeminência ao princípio da Constituição jurídica sobre o postulado da soberania popular223. O significado superior da Constituição normativa manifesta-se, finalmente, na quase ilimitada competência das Cortes Constitucionais – princípio até então desconhecido -, que estão autorizadas, com base em parâmetros jurídicos, a proferir a última palavra sobre os conflitos constitucionais, mesmo sobre questões fundamentais da vida do Estado. A Constituição não ficou limitada a esses aspectos. Até mesmo no âmbito do Direito Civil, que antes parecia rigorosamente isolado, assegura-se-lhe, através da jurisdição dos Tribunais Federais, uma posição de relevo. Todo esse complexo não deve ser subestimado. Nós não devemos, todavia, olvidar que estamos colocados, de forma particular, diante do problema relativo à força normativa da Constituição. Tal como acentuado, a força normativa da Constituição depende da satisfação de determinados pressupostos atinentes à práxis e ao conteúdo da Constituição. Esses pressupostos não foram ainda totalmente satisfeitos. Aquela posição por mim designada vontade de Constituição (Wille zur Verfassung) afigura-se decisiva para a práxis constitucional. Ela é fundamental, considerada global ou singularmente. O observador crítico não poderá negar a impressão de que nem sempre predomina, nos dias atuais, a tendência de sacrificar interesses particulares com vistas à preservação de um postulado constitucional; a tendência parece encaminhar-se para o malbaratamento no varejo do capital que existe no fortalecimento do respeito à Constituição. Evidentemente, essa tendência afigura-se tanto mais perigosa se se considera que a Lei Fundamental não está plenamente consolidada na consciência geral, contando apenas com um apoio condicional224. Não menos significativo afigura-se o questionamento da força normativa de várias disposições constantes da Lei Fundamental. Muitas vezes foram ressaltadas as tensões existentes entre o Direito Constitucional e a realidade constitucional no sistema da República Federal da Alemanha225. O exemplo mais conhecido – ainda que não constitua exemplo fundamental – refere-se ao art. 38, 1 da Lei Fundamental, no qual se estabelece que os deputados do Parlamento alemão são representantes de todo o povo, não estando vinculados a ordens ou instruções 226. Embora passe muitas vezes despercebido, o perigo do divórcio entre o Direito Constitucional e a realidade ameaça um elenco de princípios basilares da Lei Fundamental, particularmente o postulado da liberdade. Este se torna um sério problema no contexto da profunda mudança de concepção de vida do homem moderno, resultante das condições impostas pela sociedade industrial227. Aqui se encontra o presente confrontado, em toda profundidade, com a indagação sobre a efetividade das normas jurídicas no contexto de uma realidade dominada por correntes e tendências contraditórias. O questionamento da Constituição não decorre de um estado de anormalidade. Ao contrário da Constituição de Weimar, a Lei Fundamental (Grundgesetz) - promulgada numa época de inesperado desenvolvimento econômico e sob a influência de relações políticas relativamente estáveis – não foi submetida a uma prova de força. Como referido, as situações de emergência no âmbito político, econômico ou social configuram a maior prova desse tipo para a força normativa da Constituição, uma vez que elas não podem ser resolvidas com base no exercício das competências convencionais previstas na Constituição. A Lei Fundamental (Grundgesetz) não está preparada para esse embate228. Em virtude da experiência colhida com o art. 48 da Constituição de Weimar, a Lei Fundamental (Grundgesetz) não adotou qualquer cláusula especial para o estado de necessidade. Para essas situa-ções, dispõe ela apenas de competências isoladas e estritamente limitadas, que não se afiguram suficientes para arrostar situações de perigo relativamente sérias229. A questão sobre o estado de necessidade não precisava ser decidida definitivamente em 1949, uma vez que, nos termos do Estatuto de Ocupação, esse tema integrava as matérias reservadas à competência das Forças de Ocupação. Nos termos do art. 5 °, II do Tratado sobre a Alemanha (Deutschlandsvertrag), essa reserva somente haverá de extinguir-se quando as autoridades alemãs receberem a correspondente autorização legal, passando a dispor de condições para enfrentar sérios distúrbios da segurança ou da ordem pública230. Essa autorização não existe, subsistindo, portanto, a cláusula autorizativa da intervenção das Forças de Ocupação. Todavia, ela somente deveria tornar-se atual em caso de uma ameaça externa ou de uma agressão contra a República Federal da Alemanha. Outros casos de ameaça para a ordem e segurança públicas ou para a vida constitucional, decorrentes, por exemplo, de profunda crise econômica (wirtschaftlicher Notstand), não foram contemplados, pelo menos em primeiro plano,pelo art. 5° do Tratado sobre a Alemanha (Deutschlandsvertrag). Resta indagar se as três potências, eventualmente, farão uso de seu poder de intervenção. Não se pode, portanto, negar que, ressalvadas as exceções referidas, a República Federal da Alemanha não dispõe de um estatuto jurídico sobre o estado de necessidade231. Sem dúvida, a existência de competência excepcional estimula a disposição para que dela se faça uso. Esse perigo existe. Maiores riscos poderão advir, todavia, da falta de coragem de enfrentar o problema. Trata-se de um terrível engano imaginar que, por não ser esperada, uma ameaça não se deverá concretizar. Caso se verifique essa situação, faltará uma disciplina normativa, ficando a solução do problema entregue ao poder dos fatos. As medidas eventualmente empreendidas poderiam ser justificadas com base num estado de necessidade suprapositivo. Ressalte-se que o conteúdo dessa regra jurídica suprapositiva somente poderia expressar a idéia de que a necessidade não conhece limites (Not kennt kein Gebot). Tal proposição não conteria, portanto, regulação normativa, não podendo, por isso, desenvolver força normativa. Assim, a renúncia da Lei Fundamental (Grundgesetz) a uma disciplina do estado de necessidade revela uma antecipada capitulação do Direito Constitucional diante do poder dos fatos (Macht der Fakten). O desfecho de uma prova de força decisiva para a Constituição normativa não configura, portanto, uma questão aberta: essa prova de força não se pode sequer verificar. Resta apenas saber se, nesse caso, a normalidade institucional será restabelecida e como se dará esse restabelecimento. Não se deve esperar que as tensões entre ordenação constitucional e realidade política e social venham a deflagrar sério conflito. Não se poderia, todavia, prever o desfecho de tal embate, uma vez que os pressupostos asseguradores da força normativa da Constituição não foram plenamente satisfeitos. A resposta à indagação sobre se o futuro do nosso Estado é uma questão de poder ou um problema jurídico depende da preservação e do fortalecimento da força normativa da Constituição, bem como de seu pressuposto fundamental, a vontade de Constituição. Essa tarefa foi confiada a todos nós. NOTAS DO TRADUTOR (I) A Lei Fundamental consagrou, no art. 79, III, cláusula pétrea, que considera inadmissível qualquer reforma constitucional que pretenda introduzir alteração na ordem federativa, modificar a participação dos Estados no processo legislativo ou suprimir os postulados estabelecidos nos arts. 1° (inviolabilidade da dignidade humana) e 20 (estado republicano, federal, democrático e social, divisão de poderes, regime representativo, princípio da legalidade). Segundo a jurisprudência da Corte Constitucional alemã (Bundesverfassungsgericht), essa disposição tem por escopo impedir que “a ordem constitucional vigente seja destruída na sua substância ou nos seus fundamentos, mediante a utilização de mecanismos formais, permitindo a posterior legalização do regime totalitário” (BVerfGE 30, 1 (24) (Cf., a propósito, nosso “Controle de Constitucionalidade”, São Paulo, 1990, p. 96, 100 e ss.). (II) Na declaração de 27.09.1968 reconheceram as três antigas Forças de Ocupação que, com a entrada em vigor da 17ª. Emenda à Lei Fundamental e da Lei que disciplina o sigilo de correspondências postais, das comunicações telegráficas e telefônicas, ter-se-ia verificado a extinção do seu direito de intervenção (Cf., sobre o assunto: HESSE, Konrad. Grundzüge des Verfassungsrechts, Heidelberg, 16ª ed., 1988, p. 286, n§ 762). (III) Como ressaltado por Hesse, a Lei Fundamental não estabeleceu, inicialmente, um estatuto sobre o “Estado de necessidade”. Limitou-se a disciplinar o chamado “Estado de necessidade interno” (innerer Notstand) (art. 37; art. 91). Competências mais amplas, nesse aspecto, foram asseguradas pela Reforma Constitucional sobre a Defesa (Verteidigungsnovelle) de 19.03.1956. A Emenda Constitucional n. 17, de 24.06.1968 introduziu na Lei Fundamental a base de um estatuto do “Estado de necessidade”, com a modificação ou a introdução de 28 artigos na Constituição. O Estado de necessidade envolve: (a) Estado de necessidade para afastar ameaças ou perigos advenientes de catástrofes, acidentes graves ou atentados contra a ordem fundamental do Estado liberal-democrático, no plano federal ou estadual (innerer Notstand); (b) Estado de necessidade determinado por razões externas (äuβerer Notstand), nos casos de defesa (Verteidigungsfall) (LF, art. 115a, §§ 1° e 3°), tensão externa (Spanungsfall) ( LF, art. 80a, § 1°) ou decisão da Organização Internacional de Defesa (Bündnisklausel) (LF, art. 80, § 3°). Ademais, prevê-se, no art. 81, da Lei Fundamental, o estado de necessidade legislativo (Gesetzgebungsnotstand), em caso de que moção de confiança do Chanceler Federal não seja aprovada pelo Parlamento (art. 68) e, mesmo assim, o Presidente da República não determine a sua dissolução, configurando a necessidade de formação de um Governo de Minoria. Nesse contexto, se um projeto de lei considerado urgente pelo Governo não for aprovado pelo Parlamento, poderá o Presidente da República, com a aprovação do Conselho Federal (Bundesrat), declarar o estado de necessidade legislativo. Nesse caso, rejeitado, uma vez mais, o projeto de lei em apreço, aprovado com modificações consideradas inaceitáveis pelo Governo ou, ainda, se não lograr o Parlamento concluir a deliberação sobre o projeto no prazo de 4 semanas, ter-se-á por encerrada a sua tarefa, considerando-se a lei aprovada no casos de sua simples aprovação pelo Conselho Federal (Bundesrat) (LF, art. 81, § 2°). LIMITES DA MUTAÇÃO CONSTITUCIONAL I II III IV Traduzido por INOCÊNCIO MÁRTIRES COELHO I A Teoria da Constituição, elaborada com base na Lei Fundamental, tem dado pouca atenção ao fenômeno da mutação constitucional232. A possibilidade de uma mutação constitucional é admitida de forma absolutamente majoritária233; e, veja-se bem, ou não oferece explicação alguma para esse fenômeno234, ou só o faz de modo bastante sumário, quer seja com as teses de que a “dinâmica interna” e a “historicidade” da Constituição é que provocam as mutações constitucionais235, que a vontade da Constituição não é algo imutável, mas uma vontade estável cambiante, de tal modo que diante de mudanças das circunstâncias cabe apresentar novas interpretações236, ou que, afinal, determinadas alterações da realidade constitucional poderiam modificar o significado de certos preceitos da Constituição escrita237. O Tribunal Constitucional declarou – para nos limitarmos apenas a uma citação – que um preceito constitucional pode sofrer mudança de significado “quando em certo âmbito surjam fatos novos, não previstos, ou quando fatos conhecidos, em decorrência de sua inserção no curso geral de um processo evolutivo, mostrem-se com um novo significado ou em uma nova relação238. Falta qualquer resposta para a questão de se existem limites para uma mudança desse tipo e onde, eventualmente cabe situá-los. Recentemente, Lerche239 chamou atenção sobre os perigos que podem advir da possibilidade − por ele admitida − de uma mutação constitucional tácita (stille) derivada de uma modificação de normas infraconstitucionais, o que sugere a fixação de alguns limites240. Não se empreenderam, ao que saibamos, outras tentativas de fixação de limites241, em característico contraste com o problema dos limites da reforma constitucional, que mereceu amplo tratamento. E, sem embargo estamos unicamente diante de duas faces de uma mesma tarefa: a garantia da Constituição exige o controle e, se for o caso, o bloqueio de diversas vias de irrupção, ficando incompleta quando alguma delas não é atendida. Verdade é que essa atenção não era necessária a partir do momento em que a problemática da mutação constitucional, em particular a de seus limites, somente adquiriu transcendência prática na evolução constitucional da República Federal. Certamente, produziram-se, desde 1940, algumas mudanças de ênfase, especialmentevisíveis no âmbito da ordem federal, assim como no caso de alguns direitos fundamentais. Entretanto, essas mudanças de ênfase não devem ser explicadas simplesmente como mutações constitucionais; têm lugar antes no marco de uma ordem constitucional concebida ab initio como algo aberto e flexível, suscetível de adaptar-se a circunstâncias diversas e cambiantes. Na evolução constitucional da República Federal não se encontra até agora nada equivalente aos profundos processos de mudança que Laband242 e G. Jellinek243 qualificaram como modificações da Constituição de 1871. Onde uma prática política no mínimo constitucionalmente discutível teria podido dar suporte para se admitir uma mutação constitucional, como é o caso das subvenções federais (Fondswirtschaft), com razão não se sustentou a presença de uma mutação constitucional244. A razão dessa escassa importância da mutação constitucional não se encontra certamente apenas na vigência, até o momento relativamente breve, da Lei Fundamental; Laband pôde constatar os fatos que na sua opinião supunham mutações da Constituição de 1871 nos vinte e quatro anos da sua entrada em vigor. Maior repercussão deveria atribuir-se à presença de uma justiça constitucional de amplas proporções que originou o fato de que a prática dos poderes Legislativo e Executivo não seja a única coisa que decida de forma vinculante sobre a aplicação do Direito Constitucional, tudo isso com independência de que uma eventual correção esteja subordinada a recurso ao tribunal constitucional, em cada hipótese concreta 245. Entretanto, o decisivo foi a prática de freqüentes reformas constitucionais, característica da evolução constitucional da República Federal desde os seus começos246. E embora caiba sempre objetar que, por esse caminho, o prestígio e a força normativa da Constituição têm que sofrer quando a Constituição é reformada com freqüência e a prazos curtos, em ocasiões − como na época da “Grande Coalisão” −, arrogantemente, obtém-se em troca disso a vantagem de uma evolução diáfana, que atenua possíveis pontos conflitivos247, o que até agora permitiu prescindir-se em boa medida da admissão de mutações constitucionais. Porém, esta existência cinzenta da mutação constitucional não tem porque perdurar. Se, no contexto de uma polarização mais acentuada entre maioria governamental e oposição, não se alcança uma maioria qualificada para reformas constitucionais polêmicas, o recurso à afirmação de uma mutação constitucional não ficará distante. Não sucede outra coisa quando a constitucionalidade das leis ou de outros dos poderes públicos torna-se polêmica tão logo são promulgados. Se se apela ao tribunal constitucional, este decidirá de forma vinculante. O tribunal, entretanto, encontra-se submetido à Constituição, pelo que necessita de parâmetros os mais claros possíveis que permitam responder se houve uma mudança da Constituição, o que não se deve admitir quando se estabelecem limites para essa mudança e os mesmos foram ultrapassados. Quando faltam tais parâmetros, então já não cabe distinguir entre atos constitucionais e inconstitucionais, porque a afirmação, sempre possível, da existência de uma mutação constitucional não se pode provar nem refutar. Isto obriga levantar-se a questão sobre os limites da mutação constitucional, que não pode normalmente separar-se da questão relativa ao próprio fenômeno da mutação constitucional. Na medida em que existe uma relação desse tipo, ela deverá ser incorporada às considerações a seguir. Depois de um esclarecimento terminológico (II), há de se estudar o tratamento que foi dispensado ao problema por parte de alguns representantes da doutrina alemã do passado, na qual, ao contrário de hoje, isso foi analisado extensamente (III). Por último, deveremos tratar de oferecer uma resposta válida para o presente (IV). II Que devemos entender por “mutação constitucional”? Tanto o Tribunal Constitucional Federal como a doutrina atual entendem que uma mutação constitucional modifica, de que maneira for, o conteúdo das normas constitucionais de modo que a norma, conservando o mesmo texto, recebe uma significação diferente. A velha doutrina entendeu esse conceito em parte com um sentido semelhante, em parte com um sentido diferente, substancialmente mais amplo. Assim, Laband identificou as mudanças por ele descritas na Constituição de 1871 nas importantes modificações da situação constitucional (Verfassungszustand) do Império que não alcançaram expressão na Constituição; tratar-se-ia, portanto, de uma contradição entre situação constitucional e lei constitucional248. G. Jellinek entendeu por mutação constitucional, frente à reforma constitucional (modificação do texto constitucional produzida por atos conscientes de vontade), “aquela modificação que permite deixar estes textos formalmente intactos e que é provocada por fatos que não têm que ser acompanhados de algum propósito ou consciência de tal modificação”249. Com isso, como se deduz do texto, uma mutação constitucional pode mudar tanto o conteúdo da norma quanto a “situação constitucional”, tendo como resultado, nesta última hipótese, que a efetiva vigência da norma constitucional (não modificada em seu conteúdo) é relegada. Ambas as manifestações aparecem resumidas na observação de Kelsen de que o fato designado como “mutação constitucional” − consistente em que a aplicação das normas constitucionais modifica-se, lenta e imperceptivelmente, quando às palavras que permanecem sem alteração no texto constitucional atribui- se um sentido distinto do original, ou quando se produz uma prática em contradição com o texto e com qualquer sentido possível da Constituição − não é algo peculiar às normas constitucionais, mas um fenômeno constatável em todos os âmbitos do Direito250. Embora isso tenha sido sustentado ocasionalmente, não se deve aceitar que uma mutação constitucional exija um lapso de tempo mais ou menos longo251; em todo caso não pode tratar- se de um elemento definitório: os processos que dão lugar a uma mutação constitucional não têm qualquer relação com o caráter mais ou menos remoto da entrada em vigor da Constituição, podendo produzir-se ao cabo de muitos anos, mas também ao cabo de pouco tempo. Tão pouco cabe fazer depender a mutação constitucional de que esta se produza de forma patente ou de forma “implícita” ou “tácita” (stille) ou ainda que tenha de se produzir dessa última forma. Se, com isso, se quiser dizer que a mutação constitucional é algo “imperceptível”252, trata-se de algo irrelevante, porque dificilmente se pode falar de uma mutação que ninguém perceba. Se o de que se trata é de que os fatos que dão lugar a uma mutação constitucional “não têm que vir acompanhados do propósito ou da consciência dessa modificação”253, tal característica não pode ser constitutiva do conceito de mutação constitucional: na hipótese mais importante de mutação constitucional, a da interpretação modificada, essa modificação não passará despercebida a um intérprete atento. Excluir, nesse caso, uma mutação constitucional, mas admiti-la se a mudança de interpretação se produzir de forma não consciente, seria mais do que incongruente. O que possa ser correto como descrição de numerosos casos de mutação constitucional não pode converter-se em seu elemento definidor. Pela mesma razão isso resulta irrelevante para a questão dos limites da mutação constitucional. As notas relativas à duração e ao caráter inconsciente do processo devem, portanto, ser desprezadas. Resta a questão sobre se a “mutação constitucional” deve ser entendida no já aludido sentido restritivo da doutrina contemporânea ou no mais amplo da doutrina do passado. A resposta deve inclinar-se em favor da primeira alternativa. Ver uma mutação constitucional na “contradição entre a situação constitucional e a lei constitucional” ou, na terminologia atual, entre Constituição e realidade constitucional, simplesmente não é admissível pelo fato de que se está argumentando em diferentes níveis; o que muda não é o conteúdo da normaconstitucional, para cuja determinação colabora o seu texto, mas outra coisa. Portanto, o conceito deveria ficar limitado a modificações do conteúdo de normas constitucionais cujo texto não é modificado254. Tal limitação não deve, naturalmente, excluir de partida o necessário debate. Daí que também incluamos, na exposição que se segue, o segundo dos fenômenos designados como mutação constitucional, a contradição entre Constituição e realidade constitucional. III 1. Na época da Constituição de 1871, em especial Laband e G. Jellinek trataram a mudança constitucional em escritos que impressionam pela amplitude e abundância de sua visão prática255. Entretanto, não aparece neles nenhum esclarecimento jurídico do fenômeno da mutação constitucional nem uma resposta explícita para a questão dos seus limites256. O balanço é, não obstante, inequívoco: não há limites para a mutação constitucional e é impossível traça-los. As mutações constitucionais são, em essência, o resultado de uma atuação de forças elementares dificilmente explicáveis e, em todo caso, irresistíveis e cuja submissão ao direito seria um esforço inútil. O único critério que conta é o da sua imposição de fato, com o resultado de que sobre a juridicidade ou antijuridicidade de uma determinada modificação o que decide é seu êxito ou fracasso. O “fait accompli”, o fato consumado − disse G. Jellinek − é um fenômeno histórico de potencialidade constituinte em face do qual qualquer oposição por parte das teorias da legitimidade é um intento vão257. a) Assim, aparecem na obra de Laband como mutações constitucionais mudanças no âmbito da Administração, da Fazenda e da Justiça federais que levaram ao aparecimento de uma situação constitucional incompatível com a Constituição de 1871, mas que se impuseram de fato258. A “cláusula Frankenstein”, contrária à Constituição, é, inclusive, qualificada (afastando-se da definição inicial, supra II) não só como mudança da situação constitucional mas também como “profunda reforma da Constituição” (portanto, da lei constitucional), apesar de deixar subsistente o seu texto259. Entretanto, tampouco neste caso se produz uma modificação do conteúdo dos artigos 38 e 70 da Constituição de 1871, assistindo-se, isto sim, a uma prática apoiada numa simples lei federal contrária a esses preceitos. b) Diferentemente de Laband, G. Jellinek agrupa os casos de mutação constitucional por ele tratados (que não se limitam ao Direito alemão) segundo tipos sob os quais subsumem-se os mais diferentes fatos. Uma mutação constitucional pode resultar de uma interpretação incorreta da norma constitucional na prática dos parlamentos, dos governos e dos tribunais de justiça, podendo essa atuação inconstitucional originar − quando reiteradamente efetuada e se impõe na prática − uma modificação da Constituição mesma 260. A necessidade política desempenha um papel relevante como motor das mutações constitucionais261. Logo, há mutações constitucionais que se produzem através de regras constitucionais e em razão de um Direito Constitucional acomodatício262. As mudanças da Constituição pelo desuso de competências estatais263, assim como pela necessidade de cobrir lacunas constitucionais264. Junto a todas essas mudanças parciais de peso relativamente escasso situam-se, finalmente, aquelas que, “sem provocar nenhuma comoção súbita do Estado, põem em evidência, com o seu resultado final, uma completa destruição do ordenamento estatal vigente e a total reconstrução do Estado”265. Este seria o caso da mudança produzida na posição dos parlamentos266. Para G. Jellinek, o fato de que “as duas únicas forças naturais indestrutíveis do Estado, o Governo e o Povo, comecem a posicionar-se diretamente um frente ao outro” supõe a mais impressionante mutação constitucional de toda a história recente267. Isso quer dizer que, em alguns casos de mutação constitucional mediante interpretação, o conteúdo da norma constitucional mesma pode mudar. Entretanto, em maioria, as mutações constitucionais, concretamente as de maior peso são, assim como para Laband, mudanças da “situação constitucional”. E assim aparece como o núcleo da teoria de Jellinek a conhecida frase de que “as normas jurídicas são incapazes de impor efetivamente a distribuição do poder político, porque as autênticas forças políticas movem-se segundo suas próprias leis, atuando independentemente de quaisquer formas jurídicas”268. c) Esta conclusão é conseqüente com o positivismo jurídico- público da última passagem de século. Uma teoria jurídica da mutação constitucional e de seus limites só seria possível com o sacrifício dos pressupostos metódicos básicos do positivismo: a estrita separação entre “Direito” e “realidade”, assim como o que constitui sua conseqüência, a rejeição de quaisquer considerações históricas, políticas e filosóficas do processo de argumentação jurídica269. Com tais pressupostos resultava impossível resolver juridicamente o problema da influência da “realidade” sobre o conteúdo das normas270. Fica-se, assim, em descrições empíricas de casos importantes271 que, sem embargo precisamente por causa do seu caráter empírico confere ao resultado alcançado um peso semelhante ao da demonstração de uma lei física. G. Jellinek advertiu perfeitamente sobre tudo isso. A marcha da sua investigação, escreve, move-se pela linha divisória entre o Direito político e a ciência política, havendo defendido sempre a separação metódica e a conexão científica de ambas as disciplinas; em um momento no qual o Direito político experimentou na Alemanha um desenvolvimento notável, surge cada vez com mais força a necessidade de uma investigação política que complemente e faça progredir aquele Direito. Daí que não seja de todo inútil que ele chame a atenção sobre algumas questões políticas da maior importância (leia-se o fenômeno da mutação constitucional), que até o momento só foi levado em conta pela ciência alemã272. A “separação metódica” entre Direito político e ciência política significa que a “realidade”, cujas modificações conduzem a uma mutação constitucional, assume uma magnitude extra-jurídica e, no entanto, essa realidade resulta inevitavelmente − apesar da “separação metódica” − de relevância jurídica: incapaz por definição de operar no interior da própria norma, modifica, por assim dizer, de fora o Direito Constitucional de uma forma explicável só politicamente, não juridicamente, ao deixar que ocupe seu lugar uma “situação constitucional” divergente que, afastando as normas da Constituição torna-se ela mesma Direito. O intento de uma vinculação jurídica da realidade e, com isso, a obtenção de parâmetros jurídicos para determinar os limites da mutação constitucional não pode ser empreendido sobre uma base dessas. Antes, acarreta a imposição ilimitada e incondicionada do fático, sendo o fait accompli a única coisa decisiva, inclusive juridicamente. Como é possível que o fato consumado se converta em Direito Constitucional do Estado é uma questão que a contemporânea teoria positivista das fontes do Direito deixou sem resposta273. 2. Uma diferença fundamental no tratamento dessa temática é suposta nos propósitos de esclarecimento empreendidos na última fase da República de Weimar. Dessa época data a única monografia ampla sobre o tema, a de Hsü-Dau-Lin, que adotou como ponto de partida a teoria da Constituição de R. Smend, e potencializando isoladamente alguns dos seus elementos, chega a resultados semelhantes aos das teorias de Laband e G. Jellinek, frente aos quais, no entanto, assume posição energicamente. a) No problema da mutação constitucional, Smend não viu nenhuma hipótese de aplicação desse problema geral das ciências do espírito semelhante à tensão entre ser e dever ser e tampouco um problema de Teoria do Estado. Antes, se trataria de um problema inerente à específica natureza do Estado como objeto de regulação jurídica por parte da sua Constituição274. O sentido da Constituição não envolve questões de detalhe, mas, sim, a totalidade do Estado e do seu processode integração. Como sistema de integração que realiza continuamente esse sentido, o Direito Constitucional deve assegurar o cumprimento de uma tarefa em contínua evolução, a ser resolvida da melhor maneira possível. Os fatores que incidem nessa solução modificam-se em consonância com a transformação das circunstâncias: isso poderia conduzir a uma mudança gradual do peso e do nível relativos dos fatores, institutos e normas constitucionais, e também à introdução de novos fatores na vida constitucional. Princípio regulador desse processo de evolução constante do Direito Constitucional seria a realização do sentido da Constituição como sistema de integração275. b) Em conexão com o dito anteriormente, Hsü-Dau-Lin parte da “natureza” da Constituição como produto legislativo e sua tríplice especificidade em face de outros setores do ordenamento276, a saber, o caráter inacabado e a elasticidade das normas constitucionais frente às necessidades vitais do Estado, o caráter de fim em si mesmo (Selbestzweckhaftigkeit), que tem o Estado como objeto de regulação jurídica por parte da sua Constituição e a limitação da eficácia da Constituição no que diz respeito às forças e garantias nela contidas. A Constituição não poderia ficar atrás em relação a um Estado em contínuo avanço, sendo a mutação constitucional o resultado dessa especial posição. “Onde está em questão a necessidade vital do Estado, as prescrições da regulação jurídica só têm valor secundário, pois o sentido da Constituição é a compreensão do Estado como totalidade vital, não a fixação de alguns preceitos heterônomos ansiosos de vigência; daí que o cumprimento dessas tarefas – impostas pela necessidade, apesar de desvios isolados com respeito às normas jurídicas escritas – corresponda melhor ao sentido da Constituição do que uma vida constitucional fiel à letra dos artigos, porém inferior em seu resultado.”277 Por isso, a mutação constitucional não é quebra da Constituição nem simples regra convencional, mas algo admitido no Direito Constitucional comparado e, portanto, Direito, apesar de não coincidir com o texto da norma. Seu fundamento jurídico se encontraria nesse valor único do Direito Constitucional, na chamada necessidade política, nas exigências e manifestações da vitalidade de um Estado em realização e evolução278. A questão dos limites da mutação constitucional aparece suscitada e tratada. Porém, o estudo fica sem resultado tangível: em todo caso, não é possível encontrar um limite no sistema constitucional279; se a mutação constitucional encontra um limite na forma do Estado, isso é algo que não se pode responder univocamente, porque não está claro o que se deva entender por forma do Estado280. Finalmente, tampouco a revolução poderia ser vista, sem mais, como hipótese limite da mutação constitucional, porque na maioria dos casos não suprime por completo o ordenamento jurídico281. Por derradeiro, a questão não remota (à vista da fundamentação da mutação constitucional) sobre se pelo menos as necessidades vitais do Estado − como quer que elas se determinem − e o sentido da Constituição não suporiam um limite à mutação constitucional, é algo que fica sem se colocar. c) Através dessa teoria e por oposição à do positivismo jurídico-político desenvolve-se uma fundamentação jurídica, em concreto uma fundamentação jurídico-constitucional da mutação constitucional: a mudança da Constituição não se produz através de fatos da “realidade” que atuam “de fora” sobre a Constituição nem só através de modificações da “situação constitucional”; pelo contrário, a “realidade” é, por assim dizer, incorporada à Constituição sob a forma da “necessidade política”, cujo sentido global é o de responder a essa necessidade. Em virtude da sua vinculação a essa totalidade da Constituição, o conteúdo das distintas normas constitucionais pode mudar, inclusive quando o conteúdo modificado é incompatível com o texto da norma. O conteúdo que até agora possuía não cede ante a pura faticidade, mas em face desse “sentido” de nível superior. Entretanto, dado que este sentido pode mudar segundo as “necessidades vitais do Estado”, o resultado é apenas diferente daquele da Teoria do Estado positivista: não há nenhum limite preciso para essa mudança; tanto aqui como ali, o parâmetro é em termos definitivos, sua imposição de fato. A razão disso se encontra, de um lado, numa conexão demasiado indistinta do Direito Constitucional com a realidade sobre a qual teremos de voltar; de outro lado, em uma grave simplificação da problemática no que se refere à Teoria do Estado e da Constituição. Quando se recorre às necessidades vitais do “Estado” não se repara que o “Estado”, como dimensão abstrata, não existe, que só existe o Estado ou tipo de Estado individual histórico concreto, o Estado constitucional no que aqui interessa. Só neste último podem as “necessidades vitais” passar a fazer parte do “sentido” da Constituição, porém as necessidades vitais do Estado constitucional não só consistem em exigências políticas de um certo tipo. Também faz parte dessas necessidades, e, com isso, do “sentido” da Constituição, a função racionalizadora, estabilizadora e limitadora do poder que assume a Constituição. Função esta que, na Comunidade com Constituição escrita, depende em grande medida de que o texto da Constituição seja apoiado sem reservas. Se o texto da Constituição é igualmente vinculante para todos, inclusive para os governantes, então se conta com uma base comum de argumentação; obriga a explicar se uma conduta coincide ou não com a Constituição; exime de estar continuamente solucionando questões já decididas, dificultando ou impedindo novos questionamentos; é, sobretudo, elemento irrenunciável da proteção que a Constituição exerce em favor dos grupos não hegemônicos. O texto contém, acima de uma maior ou menor necessidade de interpretação, elementos firmes a respeito dos quais, apesar de interesses e pré-compreensões opostos, não cabe discussão. Pelo contrário, sobre o “politicamente necessário, assim como em relação ao problema acerca do que melhor corresponde ao sentido da Constituição numa situação concreta, não haverá, em geral, nenhuma concepção unitária. Declarar vinculante a prática política e, com isso, de fato, a concepção dos que dispõe de força para impor-se recusando submeter-se ao texto da Constituição, não significa senão sacrificar uma necessidade vital indiscutível do Estado constitucional - a função racionalizadora, estabilizadora e limitadora do poder que a Constituição assume – em proveito de outra necessidade vital normalmente discutível. A tarefa da Constituição escrita em uma Comunidade plural consiste não só em ser uma ordem para o exercício do poder por aqueles que o detêm como também em ser uma ordem para todos, inclusive para os que estão em oposição aos grupos dominantes. Entre o cumprimento dessa tarefa e o caráter vinculante do texto existe um nexo indissolúvel que fica destruído quando se reduz a Constituição à função de instrumento de dominação282. 3. Com maior cautela, se bem que apenas em grandes traços, vem tratada essa problemática na Teoria da Constituição de Heller. Esta seria a terceira posição representativa do tratamento da mutação constitucional pela teoria alemã do Direito político que nos cabe expor e valorar. Também Heller parte do peculiar caráter da Constituição: a Constituição juridicamente normatizada jamais se compõe apenas de normas emanadas do Estado, antes necessita, para a sua vigência, da complementação de elementos constitucionais não normatizados, assim como dos normatizados extrajuridicamente283. A Constituição forma um todo em que a normalidade e a normatividade, assim como a normatividade jurídica e a extrajurídica, acham-se numa relação de mútua complementação284. A normalidade social, que encontra expressão nos princípios jurídicos, modifica-se, sem embargo, no fluxo imperceptível do cotidiano. Assim ocorre uma lenta evolução das normas, podendo acontecer que o seu sentido, apesar de inalterado texto, sofrauma completa revolução, enquanto na consciência dos membros da comunidade jurídica permanece a continuidade do Direito. Os princípios jurídicos pressupõem, assim, a via de penetração diária da realidade social positivamente valorada na normatividade estatal. Estabilidade e capacidade de adaptação da normatividade em face da normalidade tornam-se possíveis e toda a constituição estatal é compreendida como “forma impressa vivente e em evolução”285. Que a normalidade social, graças à indeterminação material dos princípios jurídicos, se incorpore à normatividade estatal, podendo dar lugar, assim, a uma mudança constitucional, aparece aqui como um achado de sociologia jurídica286, demonstrado pela função do princípio de igualdade287. Pois bem, com relação à Teoria do Direito esse achado não pode servir de explicação suficiente para o processo de mutação constitucional, porque a normalidade como ser social e a normatividade como dever ser social, embora apareçam como elementos correlativamente ordenados, permanecem como magnitudes separadas288. Tampouco fica suficientemente esclarecido de que maneira, nessa relação de coordenação, um elemento pode incorporar-se ao outro, quando se parte da necessidade de complementação mútua. A questão dos limites da mutação constitucional não é respondida de modo explícito. Contudo, da teoria de Heller cabe extrair limites para uma mudança de significado das normas constitucionais. Heller destacou expressamente que a “tensão” entre ser e dever ser nunca se há de entender de modo unilateral, nem pelo lado normativo, nem pelo da realidade social289. Se, portanto, e segundo a tese central, normatividade e normalidade estão ligas uma à outra em correlativa coordenação e acima de qualquer “tensão”, então a normalidade social não pode ignorar por completo a normatividade da Constituição, porque de outro modo restaria eliminado um dos elementos dessa relação de coordenação. Onde isso ocorra já não pode haver nem coordenação correlativa nem “tensão”, e tampouco norma alguma, por modificada que seja. A mutação constitucional encontra seu limite na normatividade da Constituição. Este limite, no entanto, continua sendo genérico e difícil de precisar-se; tampouco se trazem pontos de apoio que permitam uma concretização. IV O estado da questão, tal como o tema exposto anteriormente, com inevitável limitação ao essencial290, proporciona uma série de importantes esclarecimentos. Ao mesmo tempo, torna manifestos os perigos das teorias tradicionais. Nenhuma desenvolve parâmetros precisos e demonstráveis, que excluam a tentação de “atravessar” a Constituição invocando a presença de uma mutação constitucional. Quem mais se aproxima é Heller. No entanto, tampouco a sua solução – pelas razões expostas – pode alcançar o objetivo correspondente a uma teoria da mutação constitucional. Daí que, não sem razão, a teoria da mutação constitucional se ache exposta à crítica de que debilita, tanto no conjunto como pontualmente, o sentido normativo da Constituição291. Esta delimitação reconduz, em última análise, ao fato de que o “problema nuclear da Teoria da Constituição”292, o “problema fundamental de toda sociologia do Direito e do Estado”293, concretamente a determinação da relação entre “realidade” e “norma”, entre “normalidade” e “normatividade” no Direito Constitucional294 não está resolvido inteiramente. A estrita separação entre ambas, nas teorias de Laband e G. Jellinek, conduz, paradoxalmente, não a um fortalecimento do normativo, e sim a uma capitulação diante da força dos fatos. Na tentativa de solução de Hsü-Dau-Lin, a realidade política se torna parte integrante da Constituição sob a forma das “necessidades vitais do Estado” através do “sentido” da Constituição e com base numa simplificadora interconexão, uma compreensão tão genérica e indiferenciada não chega a nenhum outro resultado. Onde, finalmente,o dualismo entre ser social e dever ser social é suavizado mediante a sua correlativa coordenação, como na posição de Heller, evita-se a capitulação, mas não se consegue uma nítida fundamentação e determinação de limites. A mutação constitucional com seus limites só se consegue entender com clareza quando a modificação do conteúdo da norma é compreendida como alteração “no interior” da norma constitucional mesma, não como conseqüência de desenvolvimentos produzidos fora da normatividade da Constituição, cuja “mutação” em normatividade estatal tampouco se pode explicar satisfatoriamente quando se parte de uma relação de coordenação correlativa entre normalidade e normatividade. Isso militaria em favor de um ponto de partida semelhante aos de Smend e Hsü-Dau-Lin, porém a incorporação da “realidade” à “norma” exige maior clareza e diferenciação. Estas são possíveis a partir dos recentes trabalhos de F. Müller sobre a estrutura das normas constitucionais. As normas que integram o Direito Constitucional não são mandatos (Sollensätze) abstratos que, alheios à realidade, a esta se contrapõem de forma totalmente desconexa, o que, “dialética”, “correlativamente” ou de que modo seja, coordenam-se com essa realidade por meio de uma genérica inter-relação. Estas normas restam letra morta quando seu conteúdo não se incorpora à conduta humana mediante sua aplicação e observância diárias. Só enquanto o Direito Constitucional é “realizado” por e nesta conduta, alcança a realidade de uma ordem vivida, formadora e conformadora da realidade histórica, capaz, portanto, de cumprir sua função na vida da Comunidade. E da mesma maneira que apenas sob esse pressuposto pode ter relevância o Direito Constitucional para a vida da Comunidade, também para uma aproximação jurídica ao que se possa entender como essa ordem real, e não um “sistema” abstrato, só lhe importa o Direito Constitucional como algo realizado e a se realizar. Do ponto de vista dessa “realização” do Direito Constitucional, como assinalou F. Müller, a “norma” não pode ser isolada da “realidade”; pelo contrário, a “realidade” em suas circunstâncias (o “âmbito normativo”), as quais são afetadas pelo mandato da norma (o “programa normativo”), é parte integrante e constitutiva da norma mesma295. A norma aparece, desse modo, como “modelo de ordenação cunhado pelo seu objeto” (sachgeprägtes Ordnungsmodell); é “projeto vinculante de uma ordem parcial da comunidade jurídica, a qual modela a norma e na qual o regulador e o regulado vão necessariamente unidos, complementando-se indeclinavelmente um ao outro e fundamentando-se mutuamente na prática da realização do Direito”296. A partir disso, o Direito Constitucional abarca também, de forma diferente em cada caso, o pedaço da realidade social pressuposto, recepcionado ou produzido por suas distintas normas. Entretanto, se a norma abarca os dados da realidade afetados pelo “programa normativo” como parte material integrante da mesma, o “âmbito normativo” e as modificações deste último devem levar a uma alteração do conteúdo da norma. Nem todo fato novo pertence ao setor da realidade regulado pela norma; o âmbito objetivo é capaz de provocar tal modificação. A instância que decide se a alteração fática pode ser relevante para a norma, quer dizer, se o fato modificado pertence ao âmbito normativo, é o programa normativo que se contém substancialmente no texto da norma constitucional (e que deve ser interpretado com os instrumentos tradicionais297). Só enquanto este fato novo ou modificado resulte pertencente ao âmbito normativo pode-se aceitar também uma mudança da norma298. Esta concepção da mutação constitucional permite e exige fundamentações mais atentas e diferenciadas, acompanhadas de critérios comprováveis. Verdade é que, em alguns aspectos, necessita ainda ser desenvolvida em busca de parâmetros concretos, comprováveis e manejáveis na prática. Tampouco cabe afastar a possibilidade de diferenças de apreciação, especialmente na análise do âmbito normativo. Porém, nada disso altera o fato de que, ao menos desse modo, a discricionariedade na invocação da presença de uma mutação constitucionalse reduz essencialmente. Provar em cada caso a modificação do “âmbito normativo” de uma norma constitucional requer algo mais que a invocação genérica da “força normativa do fático” ou das “necessidades vitais do Estado”. Nesse sentido, pode ser que, portanto, só estejamos diante de um ponto de partida, e não de uma teoria acabada da mutação constitucional. Porém, se esse ponto de partida for correto, permitirá uma resposta válida para a questão que nos havíamos colocado, a dos limites da mutação constitucional. Se as modificações da realidade social só devem considerar-se relevantes para o conteúdo da norma enquanto fazem parte do âmbito normativo, se o “programa normativo” resulta determinante a esse respeito e se para este último resulta fundamental o texto da norma, então o conteúdo da norma constitucional só poderá modificar-se no interior do marco traçado pelo texto. A fixação desse marco é uma questão de interpretação, valendo também para ela o que se aplica a toda interpretação constitucional: onde termina a possibilidade de uma compreensão lógica do texto da norma ou onde uma determinada mutação constitucional apareceria em clara contradição com o texto da norma; assim, encerram-se as possibilidades de interpretação da norma299 e, com isso, também as possibilidades de uma mutação constitucional. Ao mesmo tempo é esta a única solução que permite a manutenção das funções essenciais da Constituição, concretamente as de estabilização, racionalização e limitação do poder, que, como já se indicou (III, 2, c), exigem por princípio, em um sistema de Constituição escrita, a estrita vinculação ao texto da Constituição. Portanto, o texto da Constituição se erige em limite absoluto de uma mutação constitucional não só do ponto de vista da relação entre “Direito” e “realidade constitucional”, a qual encontra expressão na estrutura da norma constitucional, como também do ponto de vista das funções da Constituição. Esta conclusão é confirmada pelo Direito positivo com base no artigo 79, 1, inciso 1°, da Lei Fundamental, segundo o qual o texto vinculante da norma deve resultar do documento constitucional mesmo. Este princípio perderia sua função se ficasse limitado à hipótese da reforma constitucional, razão por que não poderia ser de exclusiva aplicação a esta300. O texto constitucional como limite para a mutação constitucional: não é esta uma resposta muito simples, irreal e, ainda mais, doutrinária para uma questão complexa?301 Não se contrapõe simplesmente com isso à opção radical em favor do fait accompli outra opção não menos radical? Como já se assinalou (III, 2), a problemática específica da mutação constitucional decorre do fato de que funções básicas da Constituição (de um lado, a constituição e preservação de um Estado eficaz e operativo, de outro lado, a atuação estabilizadora, racionalizadora e limitadora do poder na vida da Comunidade) podem entrar em conflito uma com a outra. Nessa hipótese, uma solução “fiat ius pereat mundus” seria seguramente insatisfatória. Mas este conflito não é o normal. Também aqui se impõe, portanto, diferenciar. Uma teoria da mutação constitucional possui, antes de tudo, a função de desenvolver critérios aplicáveis à situação normal. Se como ocorria na velha doutrina o fato consumado considera- se determinante, estar-se-á renunciando desnecessariamente aos limites da mutação constitucional e, com isso, a uma garantia da Constituição na qual a Lei Fundamental acha-se essencialmente interessada, como o prova o artigo 79. Ao invés disso, consciente ou inconscientemente, legitima-se o fait accompli, e não só, certamente, por haver dado lugar a um fato consumado. Se, ao contrário, considera-se o texto como limite da mutação constitucional, se terá conseguido uma garantia, ainda que esta, é claro, não seja absoluta. Esta garantia não limita a capacidade de adaptação da Constituição a tal ponto que lhe impeça de assimilar a mudança histórica e preservar, assim, sua continuidade. As dificuldades derivadas da submissão a estes limites podem impor a reforma constitucional, contribuindo, assim, para uma solução que sirva à clareza da Constituição e intensifique a sua força normativa. Em casos bem determinados pode ser que esta solução não seja viável. Porém, tampouco caberá simplesmente considerar determinante o fato consumado. Quando em casos desse tipo for preciso preservar várias funções da Constituição que entraram em conflito, dever-se-á achar o “equilíbrio de máximo respeito”302, promovendo aquela solução que respeite ambas as funções, no que isto for materialmente possível. Tudo o que se situe mais além dessas possibilidades já não será mutação constitucional, e sim quebra constitucional ou anulação da Constituição. Pode ser que de fato se imponham “os acontecimentos históricos que transtornam os fundamentos do Estado fora do Direito”303, as usurpações e as revoluções304. Isto nenhuma teoria dos limites da reforma constitucional ou da mutação constitucional poderá impedir. Porém, dentro do estrito âmbito aqui demarcado, assegura-se melhor a defesa da Constituição diante dos perigos de “mutações constitucionais” ilimitadas do que pela renúncia prévia, explícita ou implícita à elaboração de limites que possam ser respeitados na prática. Disso é de que se trata, e não de uma – talvez não intencional – legitimação dos fatos consumados. 1 Trata-se do Capítulo Primeiro, escrito por Hesse, do Manual de Direito Constitucional , com a colaboração também de Benda, Maihofer, Vogel e Heyde, publicado por Marcial Pons. Capítulo traduzido do espanhol para o português. 2 R. BÄUMLIN, Staat, Recht und Geschichte, 1961, p. 7 e ss. 3 G. JELLINEK, Algemeine Stastslehre, nova impressão da 3ª ed., 1921, p. 505. Com respeito à história do pensamento constitucional e sobre os tipos de constituições históricas, op. cit., p. 505 e ss.; P. BADURA, Artigo “Verfassung”, em Evangelisches Staatslexikon, 3ª ed., 1987, cols. 3738 ss.; K. STERN, Das Staatsrecht der Bundesrepublik Deutschland, 2ª ed., 1984, p. 61 e ss.; H. HOFMANN, “Zur Idee des Staatsgrudgesetzes”, em Recht – Politik – Verfassung, 1986, p. 261 e ss.; D.GRIMM, “Verfassung”, em Die Zukunft der Verfassung, 1991, p. 11 e ss.; idem, Der Verfassungbegriff in historischer Entwicklung, op. cit. p. 101 e ss. 4 Não cabe fazer a tal caracterização, na medida em que resulta evidente reparo nenhum. Da doutrina atual: BADURA (pé da p. 2), cols. 3737 ss.; idem “Verfassung und Verfassungsgesetz”, em Festschrift für Scheuner, 1973, p. 19 e ss; STERN, Staatsrecht (cit. n. 2) p. 66 e ss., GRIMM, “Verfassung” (cit. n. 2) p. 11 e ss.; J. ISENSEE, “Staat und Verfassung”, em Handbuch des Staatsrecht, t. I, 1987, § 13; J. F. AUBER, “La Constitution, son contenu, son usage”, em Referate zum 125 Schweizerischen Juristentag, 1991, p. 9 e ss.; K. EICHENBERGER, “Sinn und Bedeutung einer Verfassung”, op. cit. p. 143 e ss. Sobre as posturas teórico-constitucionais atuais, H. VORLÄNDER, Verfassung und Konsens, 1981, especialmente p. 275 e ss. 5 Adiante se renuncia à freqüente distinção entre constituição formal e material. Com o primeiro conceito se concebe (só) a norma constitucional que se diferencia de outras leis pelo complicado de sua reforma. O segundo, sem consideração alguma ao tipo e à forma de validade da norma, compreende todo o Direito fundamental para a vida e para a efetividade do Estado, um conjunto normativo que, nem sempre, se pode delimitar com clareza. Nos casos em que, como aqui, só se entende por constituição a Lei Fundamental e seu conteúdo, a distinção resulta supérflua. A partir deste ponto, o Direito Constitucional não escrito, como é o caso do Direito Constitucional consuetudinário, só pode existir como exibição, acabamento ou desenvolvimento dos princípios e só em sentido conforme com eles (cf. a respeito, K. HESSE, Grundzüge des Verfassungsrechts der Bundesrepublik Deutschland, 18ª ed., 1991, números marginais 32 e ss.); como exemplo disso cabe citar o princípio da lealdade federal. 6 R. SMENDE, “Verfassung undVerfassungrecht” (1928), em Staatrechtliche Abhandlungen, 2ª ed., 1968, p. 136 e ss. 7 H. HELLER, Staatlehre, 1934, p. 88 e ss. e 228 e ss. 8 Assim, o título do importante artigo de W. KÄGI, 1945. 9 A. HOLLERBACH, “Ideologie und Verfassung”, em Ideologia e Direito, editado por W. MAIHOFER, 1968, p. 46. 10 Sobre isso, R. WAHL, “Der Vorrang der Verfassung”, em Der Staat 20, 1981, p. 485 e ss.; GRIMM, “Verfassung” (cit. n. 2), p. 14. Com respeito à relação entre o Direito Constitucional e o Direito Internacional, cfr., por exemplo, K. IPSEN/Ch. GLORIA, Völkerrecht, 3ª ed., 1990, p. 1071 e ss., em especial p. 1082 e ss. Sobre a relação entre Direito Constitucional e Direito Comunitário Europeu, cfr. infra, cap. 2. 11 D. GRIMM, “Verfassungfunktion und Grundgesetzreform”, em Die Zukunft der Verfassung (cit. n. 2), p. 323. 12 Em nada o alteram os vínculos internacionais do Estado nem a primazia como a validade e aplicação do Direito Comunitário. Sobre isso, cfr. infra, cap. 2. 13 SMEND, “Verfassung” (pé de página), p. 195 e ss. 14 C. SCHMITT, Der Hüter der Verfassung, 1931. 15 Cfr. sobre o particular U. SCHEUNER, “Konsens und Pluralismus als Verfassungsrechtliches Problem”, em Staatstheorie und Staatsrecht, Ges. Schriften, 1978, p. 135 e ss.; A. PODLECH, “Wertentscheidungen und Konsens”, em Rechtsgeltung und Konsens, editado por G. JAKOBS, 1976, p. 29 e ss. Em detalhe, com relação às condições atuais de consenso sobre a constituição: VORLÄNDER (cit. n. 3), especialmente p. 157 e ss., caps. 3-5. 16 Sobre o particular basicamente: BÄUMLIN (cit. n. 1), especialmente p. 9; P. HÄBERLE, “Zeit und Verfassung”, em Die Verfassung als öffentlicher Prozess, 1978, p. 59 e ss.; G. HUSSERL, Recht und Zeit, 1955, p. 67 e ss. 17 Cfr. também D. GRIMM, “Verfassung” (cit. n. 2) p. 22 e ss. Em conjunto, com mais detalhes: F. MÜLLER, Juristische Methodik, 4ª ed., 1990, p. 270 e ss. 18 Cfr., por exemplo, BVerfGE 53, 157, 290 e ss. (regimes legais de previsão social como objetos de proteção mediante a garantia da propriedade); 54, 148, 153 (garantia constitucional dos direitos gerais da personalidade); 65, 1, 41 e ss. (proteção de dados); 73, 118, 154, e 74, 297, 350 (liberdade de rádio- televisão sob novas condições). 19 Com maior detalhe: K. HESSE, “Grenzen der Verfassungswandlung”, em Festschrift für U. Scheuner, 1973, p. 123 e ss. 20 A respeito da função que os direitos fundamentais exerciam, cfr., por exemplo, U. SCHEUNER, “Die rechtliche Tragweite der Grundrechte in der deutschen Verfassungsentwicklung des 19. Jahrhunderts”, em Festschrift für E.R.Huber, 1973, p. 139 e ss.; E.R. HUBER, “Grundrechte im Bismarckschen Reichssystem”, em Festschrift für U. Scheuner, 1973, p. 163 e ss.; R.WAHL, “Rechtliche Wirkungen und Funktionen der Grundrechte im deutschen Konstitutionalismus des 19. Jahrhunderts”, em Der Staat 18, 1979, p. 321 e ss. 21 Esse aspecto da Constituição no tempo tem sido ressaltado, com razão, com previsão ante o risco por D. GRIMM, Die Zukunft der Verfassung (cit. n. 2), p. 416 e ss., com bibliografia adicional. A respeito da problemática, basicamente P. SALADIN, Verantwortung als Staats prinzip, 1984, p. 99 e ss. 22 Sobre o particular, com maior detalhe: D.GRIMM, “Der Wandel der Staatsaufgaben und die Krise des bürgerlichen Rechsstaats” (cit. n. 2), p. 166 e ss.; idem, Die Zukunft der Verfassung (cit. n. 2), p. 418 e ss. Com o diagnóstico de traços neocorporativos do sistema político: BADURA, Artigo “Verfassung” (cit. n. 2), col. 2758; H. HOFMANN, “Aufgaben und Grenzen des Staatshandels unter den Bedingungen der Gegenwart”, em Veröffentlichungen der Walter Raymond- Stifung 27, 1989, p. 21 e ss. 23 E. FORSTHOFF, “Begriff und Wesen des sozialen Rechtsstats”, em VVDStRL 12, 1954, p. 16. 24 Mais em detalhe, infra, cap. 3, números marginais 31 e ss. 25 D. GRIMM, “Verfassugsfunktion und Grundgesetzreform” (cit. n. 2), p. 325. 26 Sobre isso, em detalhe: HESSE, Grundzüge (cit. n. 4), números marginais 220 e ss. 27 Esse importante aspecto foi desenvolvido convincentemente, sobretudo, por K. EICHENBERGER (cit. n. 3), p. 183 e ss. 28 H. P. IPSEN, “40 Jahre Grundgesetz der Bundesrepublik Deutschland”, em JöR NF 38, 1989, p. 37 e ss.; idem, “Europäische Verfassung und Nationales Verfassung”, em Bitburger Gespräche, Jahrbuch, 1987, p. 50. 29 Cf. art. 3.b).2 do Tratado de Mastrique (Maastricht). O princípio de subsidiaridade é considerado em amplos setores como insuficiente. Como substitutivo se levantam vozes que reclamam claras delimitações de competências no sentido de reserva exclusiva de determinadas matérias aos Estados membros e à sua cooperação. A respeito cf. E. STEINDORFF, “Verfassugsänderung durch die EG?”, em AÖR 116, 1991, p. 464 e ss. 30 Trata-se do Capítulo III, escrito por Hesse, do Manual de Direito Constitucional, com a colaboração também de Benda, Maihofer, Vogel e Heyde, publicado por Marcial Pons. Capítulo traduzido do espanhol para o português. 31 Uma descrição detalhada disso se encontra em K. STERN, Das Staatsrecht der Bundesrepublik Deutschland, t. III, 1, 1988, p. 209 e ss.; cf. também K. IPSEN, Völkerrecht, 1990, p. 626 e ss. 32 Realmente, esta Declaração só contém diretrizes, sem constituir Direito Internacional diretamente vinculante, e, por isso, tampouco é vinculante de efeitos internos, de acordo com o art. 25 GG. 33 Convenção Internacional de Direitos Civis e Políticos de 19 de dezembro de 1966 (BGBl II, 1973, p. 1534); Convenção Internacional de Direitos econômicos, sociais e culturais de 19 de dezembro de 1966 (BGBl II, 1973, p. 1570). 34 Cf. sobre isso P. HÄBERLE, “Verfassungsentwcklungen in Osteuropa”, em AöR 117, 1992, p. 169 e ss. 35 Cf. sobre isso seção 4; STERN, Staatsrecht (cit. n. 1) p. 292 e ss.; M. A. DAUSES, “Der Schutz der Grundrecht in der Europäischen Gemeinschaft”, em JöR NF 31, 1982, p. 1 e ss.; SCHWARZE, “Der Schutz der Grundrechte in der Europäischen Gemeinschaft”, em EuGRZ, 1986, p. 293 e ss. 36 Cf. sobre isso STERN, Staatsrecht (cit. n. 1), p. 265 e ss. 37 Sobre os fundamentos a este respeito: STERN, Staatrecht (cit. n. 1), p. 224 e ss. 38 Essas diferentes interpretações são designadas como Direitos fundamentais da primeira, segunda e terceira geração (dimensão) (assim, por exemplo, W. BRUGGER, “Meschenrechte im modernen Staat”, em AöR 114, 1989, p. 539 e ss.). No entanto, como se já afirmou, com razão, essa categorização não contém indício nenhum de que a proteção dos direitos fundamentais se tenha tornado uma proteção individual para garantir, por igual, a coletivos e indivíduos, para, finalmente, transformar-se em puros direitos coletivos (IPSEN, cit., n. 1, p. 643), de que esses postulados coletivos não constituem desenvolvimentos, mas sim, exatamente, expressão de segmentação diferenciada (H. HOFMANN, “Menschenrechtliche Autonomieansprüche”, em JZ, 1992, p. 165). 39 Sobre a história dos direitos fundamentais: G. JELLINEK, Die Erklärung der Menschen-und Bürgerrechte, 3ª ed., 1919; G. OESTREICH, Geschichte der Menschenrechte und Grundfreiheiten im Umriss, 2ª ed., 1978; STERN, Staatrecht (cit. n. 1), p. 51 e ss., em especial p. 82 e ss.; H. HOFMANN, “Die Grundrechte 1789- 1949-1989”, em NJW, 1989, p. 317 e ss. 40 U. SCHEUNER, “Die rechtliche Tragweite der Grundrechte in der deustschen Verfassungsentwicklung des 19. Jahrhunderts”, em Staatstheorie und Staatsrecht, 1978, p. 633 e ss.; R.WAHL, “Rechtliche Wirkungen und Funktionen der Grundrechte im deustschen Konstitutionalismus des 19. Jahrhunderts”, em Der Staat 18, 1979, p. 321 e ss. 41 Proposta n. 82: Proposta de direitos fundamentais do deputado D. Naumann, Verhandlungen der Nationalversammlung, t. 336, p. 171 e ss. 42 System der subjektiven öffentlichen, 2ª ed., 1905, especialmente p. 81 e ss. 43 É de se mencionar especialmente E. KAUFMANN, “Die Gleichheit vor dem Gesetz im Sinne des Art. 109 der Rechsverfassung” em VVDStRL 3, 1927, p. 2 e ss.; R. SMEND, “Das Recht der freien Meinungsäusserung, 1928”, agora em Staatsrechtliche Abhandlungen, 2ª ed., 1968, p. 91 ess.; C. SCHMITT, Verfassungslehre, 1928, p. 163 e ss. 44 Sobre os direitos fundamentais da Comunidade Européia (que integram o Direito Comunitário, no Direito alemão) cf. supra, cit., n. 5. 45 No presente texto se examinam unicamente – e de forma breve – as questões gerais relativas aos direitos fundamentais que guardam relação com tudo isso. O conteúdo dos direitos fundamentais concretos será tratado em parte nos títulos seguintes e dentro dos capítulos 6 (seções 2 e 3) e 7 (seção 4). Além disso, e conforme a concepção deste Manual, renunciou- se a uma descrição; em conseqüência, é de se remeter aos tratados de Direito Público, aos comentários à GG, à jurisprudência ali citada e à literatura especializada. O Handbuch des Staatsrechts, Bd. VI, 1989, ilustra isso de forma completa. Podem-se encontrar descrições sucintas nos tratados (breves) de Th. Maunz/R. ZIPPELIUS, Deustsches Staatsrecht, 28ª ed., 1991; E. STEIN, Staatsrecht, 13ª ed., 1991; K. HESSE, Grundzüge des Verfassungsrechts der Bundesrepublik Deutschland, 18ª ed., 1991, bem como nos comentários de I. v. MÜNCH (ed.), t. 1, 3ª ed., 1985, e t. 3, 2ª ed., 1983; H. D. JARASS/B. PIEROTH, Grundgesetz für die Bundesrepublik Deutschland, 2ª ed., 1992. 46 Sobre isso, cf. STERN (cit. n. 1), p. 273 e ss.; K. J. PARTSCH, “Die Rechte Freiheiten der Europäischen Menschenrechtskonvention”, em BETTERMANN/ NEUMAM/NIPPERDEY (eds.), Die Grundrechte, I, 1, 1966, p. 125 e ss.; H. GU-RADZE, Die Europäische Menschenrechtskonvention. Konvention zum Schuze der Menschenrechte und Grundfreiheiten nebst Zusatzprotokolen, 1968; H. GOLD-SONG, “Der Schutz der Grundrechte durch die EMRK und seine Mängel”, em MOSLER/BERNHARDT/HILF (eds.), Grundrechtschutz in Europa, 1976, p. 7 e ss.; J. FROWEIN/W. PEUKERT, Europäische MenschenRechtsKovention, 1985. 47 BVerfGE 74, 358 (370). A mesma coisa cabe indicar para o procedimento do recurso de amparo constitucional, apesar de que este não se pode utilizar para violação de direitos sustentada em EMRK [BVerfGE 74, 102 (128)]. 48 Sobre isso, STERN, Staatsrecht (cit n. 1) p. 261 e ss.; IPSEN, Völkerrecht (cit. n. 1), p. 641 e ss.; Chr. TOMUSCHAT, Die Bundesrepublik und die Menschenrecht der Vereinten Nationen. Vereinten Nationen, 1978, p. 1 e ss.; W.-K. GECK, “Der Internationale Stand des Schutzes der Freiheitsrechte: Anspruch und Wirklichkeit”, em ZaöRV 38, 1978, p. 182, em especial p. 205 e ss. 49 Cf. BVerfGE 7, 198 (204 ss.). 50 BVerfGE 50, 290 (337). 51 BVerfGE 53, 257 (289 ss., em especial p. 294). 52 BVerfGE 73, 118 (154 ss.); 74, 297 (350 ss.). 53 BVerfGE 7, 198 (208). 54 Em especial C. SCHMITT, “Freiheitsrechte e institutionelle Garantien der Reichsverfassung (1931), em Verfassungsrechtiliche Aufsätze, 1958, p. 140 e ss. 55 BVerGE 7, 198 (204 ss.). 56 Objetou-se que o recurso aos valores – sempre discutíveis na sociedade pluralista - não permite uma interpretação dos direitos fundamentais segundo regras claras e persuasivas, que desemboca numa confluência de valorações subjetivas do juiz e, dessa forma, em menoscabo para a segurança jurídica (sinteticamente, porém com profundidade: H. GOERLICH, Wertordnung und Grudgesetz, 1973). No entanto, a jurisprudência – influída vivamente pelas experiências de decênios anteriores – só destacou sobre essa questão o que tinha de ser e permanecer como sentido histórico e núcleo irrenunciável dos direitos fundamentais estabelecidos pelo novo ordenamento jurídico: a relação desses direitos com os direitos humanos, que constituem seu fundamento e sua fonte de legitimação. Para a interpretação de direitos fundamentais concretos, a idéia de sistema de valores era uma contribuição (de certo modo interpretativa) em função de uma situação na qual se carecia consideravelmente de uma elaboração do conteúdo normativo concreto e do alcance de direitos fundamentais específicos, de suas recíprocas relações e dos requisitos de sua limitação. Essa elaboração dogmática foi a tarefa, em conjunto, sem descontinuidades, da jurisprudência atual, que ofereceu um corpo firme de pontos de vista e regras, permitindo resolver questões concretas que afetam os direitos fundamentais com ajuda de um adequado instrumental jurídico, evitando consideravelmente o recurso direto aos valores. 57 BVerfGE 7, 198 (205 ss.). No entanto, não se podem ignorar certos perigos dessa jurisprudência. Esses perigos se evidenciam quando, em correspondência com uma generalizada tendência, se conceituam os direitos fundamentais como o núcleo de todo o ordenamento jurídico, com a conseqüência de que qualquer questão jurídica pode converter-se, em princípio, numa questão de direitos fundamentais, tema sobre o qual, em última instância, compete ao Tribunal Constitucional decidir. Nessa hipótese, tudo é relativo e, por assim dizer, para deixar as coisas em seu lugar, não se deve perder de vista que os direitos fundamentais, nem historicamente nem na atualidade, projetam os conteúdos principais, por exemplo, do ordenamento jurídico geral. Em maior medida contêm, até agora, garantias concretas em vigor para proteger as condições elementares e especialmente ameaçadas da dignidade humana e de uma vida em liberdade. A isso se reduz sua função diretora, determinante, sobretudo, para o legislador. Quanto mais amplo for o âmbito de vigência e aplicação dos direitos fundamentais, como se evidencia pela jurisprudência do Tribunal Constitucional sobre o art. 2.1 GG [cf. BVerfGE 6, 32 (36 ss.); 80, 137 (152 ss.)], tanto maior será o perigo de sobrecarga da Constituição, de uma desvalorização e, em conseqüência disso, de cursos erráticos, especialmente de uma perda da liberdade e responsabilidade do próprio legislador democrático e de um menoscabo de funções da jurisdição ordinária. A autonomia de alguns ramos jurídicos concretos – que no Direito Civil ou Penal se apoiava em uma grande e característica tradição – ameaça desaparecer, em prejuízo do desenvolvimento objetivo ulterior desses ramos do Direito, que depende das realidades especiais concretas não abarcáveis sem mais com parâmetros dos direitos fundamentais. Com mais detalhe a respeito da dimensão objetiva dos direitos fundamentais (que nem prática nem teoricamente cabe reduzir a rígidas alternativas): E. BÖCHENFÖRDE, Grundrechte als Grundsatznormen. Zur gegenwärtigen Lage der Grundrechtsdogmatik”, em Der Staat 29, 1990. 1 ss. 58 BVerfGE 7, 198 (205 ss.). 59 Por exemplo, BVerfGE 45, 376 (386 ss.); W. MARTENS, “Grundrechte im Leistugsstaat”, em VVDStRL 30, 1972, p. 21 e ss. 60 BVerfGE 33, 303 (330 ss.); cf. também BVerfGE 35, 79 (115 ss.). 61 Também E. FRIESENHAHN, “Der Wandel des Grundrechtsverständnisses”, em Verhandlungen des 50. Deutschen Juristentages, II, 1974, p. 29 e ss. 62 Cf. também J. P. MÜLLER, Soziale Grundrechte in der Verfassung?, 2ª ed., 1981; P. BADURA, “Das Prinzip der sozialen Grundrechte und seine Verwirklichung im Recht der Bundesrepublik Deutschland”, em Der Staat 14, 1975, p. 17 e ss.; J. ISENSEE, “Verfassung ohne soziale Grundrechte”, em Der Staat 19, 1980, p. 367 e ss.; W. LORENZ, “Bundesverfassungsgericht und soziale Grundrechte”, em Jur. Blätter 103, 1981, p. 16 e ss.; E. W. BÖCKENFÖRDE, “Die sozialen Grundrechte im Verfassungfüge”, em Von der bürgerlichen zur socialen Rechtsordnung, V Congresso Político do SPD, 1980, editado por BÖCKENFÖRDE/JEKEWITZ/RAMM, Dokumentation, 2ª parte, p. 7 e ss.; W. SCHMIDT, “Soziale Grundrechte im Verfassungs recht der Bundesrepublik Deutschland”, em Der Staat, caderno 5, 1981, p. 9 e ss. 63 Por exemplo, Constituição da Baviera, arts. 166 e ss.; Constituição de Hessen, arts. 27 e ss. 64 Uma certa função paradigmática corresponde, ademais, ao projeto da mesa redonda de Constituição para a República Democrática Alemã de abril de 1990, que, entre outras coisas, previa um direito ao trabalho, a uma moradia digna e à seguridade social (arts. 27.1, 25.1 e 27.2). A mesma coisa se pode dizer do projeto de constituição elaborado pela Curadoria para uma Federação democrática de Länder alemães de 20 de junho de 1991(arts. 12.a, 13.a e 12.b), embora, nesse caso, exclusivamente como obrigação protetora do Estado. A respeito do projeto da mesa redonda: U. PREUSS, “Auf der Suche nach der Zivilgeselschaft”, em B. GUGGENBERGER/T. STEIN (eds.), Die Verfassungsdiskussion in Jahr der Deutschen Einheit, 1991, p. 362 e ss. 65 Cf. a respeito o informe final do grupo de trabalho Wahlen para a revisão completa da Constituição Federal suíça, t. VI, 1973, p. 180 e ss., e o informe da Comissão de peritos para a preparação da revisão completa da Constituição Federal, 1977, p. 59 e ss. 66 Cf., da numerosa doutrina científica, os trabalhos essenciais de SCHEUNER, Staatszielbestimmungen (cit. n. 10), p. 223 e ss.; H. H. KLEIN, “Staatsziele im Verfassungsgesetz - Empfiehlt es sich, ein Staatsziel Umweltschutz in das Grundgestz aufzunehmen?”, em: DVBl., 1991, p. 729 e ss.; D. MERTEN, “Über Staatsziele”, em DöV, 1993, p. 368 e ss. 67 Informe da Comissão de peritos Staatszielbestimmungen Gesetzgebungsaufträge, editado pelos Ministros Federais do Interior e da Justiça, 1983, p. 13. A respeito do trabalho da Comissão: E. WIENHOLTZ, “Arbeit, Kultur und Umwelt als Gegenstand verfassungsrechtlicher Staatszielbestimmungen”, em AöR 109 (1984), p. 532 e ss. 68 SCHEUNER (cit. n. 36), p. 236. 69 D. GRIMM, “Verfassungsfunktion und Grundgesetzreform”, em Die Zukungt der Verfassung, 1991, p. 325. 70 Sobre isso, com mais detalhe, SCHEUNER (cit. n. 36), p. 232 e ss.; KLEIN (cit. n. 36), p. 734 e ss. 71 Por exemplo, BVerfGE, 180 (204). 72 Cf. também, por exemplo, BVerfGE 18, 257 (273); 29, 221 (235). 73 Sobre isso, com mais detalhe, KLEIN (cit. n. 36), p. 731, com outras indicações. Na medida em que o Estado venha a ser obrigado pelo art. 2.2 GG (direito à vida e à integridade) a tomar medidas frente a danos contra o meio ambiente produzidos por terceiros (cf. infra, número marginal 50), sua proteção já é hoje um mandato constitucional. 74 Brandenburgo, arts. 45, 47 e 48; Saxônia, art. 7°; Saxônia Anhalt, arts. 38 e ss. 75 Informe da Comissão de peritos (cit. n. 37), números marginais 130, p. 141 e ss., WIENHOLTZ (cit. n. 37) p. 546 ss., 553; KLEIN (cit. n. 36), p. 737. 76 A Comissão de peritos recomendou uma norma definidora de competências do Estado que atribuía expressamente ao Estado a (co)responsabilidade em matéria laboral (e formativa); no entanto, não se chegou a nenhum acordo para formular uma proposta conjunta de reforma constitucional [Informe (cit. n. 37), número marginal 87]. Contra a incorporação de tal norma definidora de competências do Estado: WIENHOLTZ (cit. n. 37), p. 537 e ss. 77 H. GOERLICH oferece uma análise detalhada em Grundrechte als Verfarensgarantien , 1981. Cf., além disso, por exemplo, H. BETHGE, “Grundrechtsverwirklichung und Grundrechtssischerung durch Organisation und Verfahren”, em NJW, 1982, p. 1 e ss.; F. OSSENBÜHL, “Grundrechtsschutz im und durch Verfahrensrecht”, em Festschrift für Kurt Eicheberger, 1982, p. 183 e ss.; P. LERCHE /W. SCHMITT GLAESE/E. SCHMITT-ASSMANN, Verfahren als staats- und verwaltungsrechtliche Kategorie, 1984. 78 Fundamentalmente sobre isso: P. HÄBERLE, “Grundrechte im Leistungsstaat”, em VVDStRL 30, 1972, em especial p. 86 e ss., 121 e ss. 79 Cf. em especial BVerfGE 53, 30 (65 ss.), e visão detalhada na opinião discrepante em p. 72 e ss.; ademais BVerfGE 63, 131 (143); 73, 280 (296). 80 BVerfGE 12, 205 (261 ss.); 31, 314 (325 ss.); 57, 295 (319 ss.); 72, 118 (152 ss.). 81 BVerfGE 39, 79 (120 ss.); 43, 242 (267). 82 BVerfGE 41, 29 (50). 83 BVerfGE 33, 303 (345); 43, 291 (314, 316 ss.). 84 Jurisprudência constante, cf. BVerfGE 77, 170 (214 ss.), com notas adicionais. Da doutrina J. ISENSEE, Das Grundrecht auf Sicheheit, 1983, p. 27 e ss.; D. MUR-SWIEK, Die staatliche Verantwortung für die Risiken der Technik, 1985, R. ALE-XY, Theorie der Grundrechte, 1985, p. 410 e ss.; G. HERMES, Das Grundrecht auf Schutz von Leben und Gesundheit. Schutzplicht und Schutzanspruch aus Art. 2 Abs. 2 Satz 1 GG, 1987, em especial p. 187 e ss.; G. ROBBERS, Sicherheit als Menschenrecht , 1987, p. 121 e ss. 85 E. KLEIN, “Grundrechtliche Schutspflichten des Staates”, em NJW, 1989, p. 1633. 86 BVerfGE 39, 1 (42 ss.). 87 BVerfGE 49, 89. 88 BVerfGE 56, 54 (73); 79, 174 (201 ss.). 89 BVerfGE 7, 170 (214 ss.). 90 BVerfGE 39, 1 (44); 46, 160 (164 ss.); 77, 170 (214 ss.); 79, 174 (201 ss.). 91 Cf. BVerfGE 39, 1 (46 ss.). 92 BVerfGE 77, 170 (214 ss.); cf. também BVerfGE 79, 174 (201 ss.). 93 BVerfGE 7, 99 (103); 14, 121 (129 ss.); 27, 152 (158). 94 BVerfGE 4, 7 (12); 10, 89 (99). 95 Cf. também BVerfGE 21, 362 (367 ss.); 61, 82 (100 ss.); 68, 193 (205 ss.); 70, 1 (15 ss.); 75, 192 (195 ss.); 78, 101 (102 ss.). Da doutrina: A. von MUTIUS, Bonner Kommentar, 2ª revisão, notas marginais 78 ss. ao art. 19.III LF; H. BETHGE, “Grundrechtsträgerschaft juristicher Personen. Sobre a jurisprudência do Tribunal Constitucional Federal”, em AöR 104, 1979, p. 54 e ss., 268 e ss. 96 Fundamentando-o: G. DÜRIG, “Grundrechte und Zivilrechtsprechung”, em Festschrift für Nawiasky, 1956, p. 157 e ss.; MAUNZ/DÜRIG, Grundgesetz, números marginais 127 ss. ao art. 1.III, e 56 ss. ao art. 2.I; W. LEISNER, Grundrecht und Privatrecht, 1960, em especial p. 306 e ss. Ultimamente W. RÜFNER, “Drittwirkung der Grundrechte”, em Gedächtnisscrift für Wolfgang Martens, 1987, p. 215 e ss; C. W. CANARIS, “Grundrechte und Privatrecht”, em AcP, 1984, p. 201 e ss. 97 BVerfGE 7, 98 (204 ss.). Continua sem se explicar a origem e o conteúdo preciso da pretensão do cidadão afetado de que se comprove a influência objetiva de um direito fundamental ao utilizar o recurso de amparo constitucional [nesse sentido, acertadamente, HERMES (cit. n. 54), p. 110 e ss.]. Sobre a significação dos direitos fundamentais na interpretação de declarações de caráter negocial e acordos no campo do Direito Privado, cf. BVerfGE 73, 161 (168 ss., 270 ss.). 98 Sobre isso e o seguinte, mais detalhadamente, K. HESSE, Verfassungsrecht um Privatrecht, 1988, p. 23 e ss. Existe versão espanhola de IGNACIO GUTIÉRREZ, Derecho Constitucional y Derecho Privado, Madrid, Civitas, 1995. 99 Cf. sobre isso, por exemplo, BVerfGE 20, 150 (157 ss.); 52, 1 (41); 62, 169 (182 ss.). 100 Jurisprudência constante, cf., por exemplo, BVerfGE 30, 292 (316). 101 BVerfGE 50, 290 (332 ss.). 102 Cf. sobre isso W. LOSCHELDER, Vom besonderen Gewaltverhältnis zur öffentlichrechtlichen Sonderbindung, 1982, em especial p. 371 e ss. 103 BVerfGE 1, 97 (101 ss.), jurisprudência constante. 104 BVerfGE 18, 85 (92), jurisprudência constante. 105 Essa foi, sobretudo, a opinião de Ernst FORSTHOFF, “Der introvertierte Rechtsstaat und seine Verortung”, em Der Staat 2, 1963, p. 392 e ss. 106 Cf. BVerfGE 50, 290 (337 ss.). 107 Assim, por exemplo, em K. LOEWENSTEIN. “Verfassungslehre” (1959), p. III e ss., 127 e ss. (tradução para o castelhano de A. Galtego Anabitarte, Teoria de la Constitución , Barcelona, 1965, 2ª ed., 1976). 108 Cfr. as visões de conjunto de Th. MAUNZ, “Deutsches Staatstenni” (23ª ed., 1980), p. 30 e ss. e de K. STERN, “Das Staatsrecht der Bundesrepublik Deutschland”, I (1977), p. 51 e ss. 109 BVerfGE 1, 14 (32), jurisprudência constante, cfr., por exemplo, também BVerfGE 49, 14 (56) com mais referências (mantém-se a forma usual de citar a jurisprudência do Tribunal Constitucional Federal alemão, segundo a coleção oficiosa editada pelo mesmo Tribunal, “Entscheidungen des Bundesverfassungsgerichts”, abreviadamente “BVerfGE”: o primeiro dos números faz referência ao volume da coleção, o segundo à página do volume em que se inicia a sentença e o seguinte ou seguintes às páginas onde estão as passagens sobre as quais se pretende chamar a atenção – N. do T.). 110 P. e. BVerfGE 3, 225 (233); ver, porém, p. e., BVerfGE 10, 59 (81). 111 P. e. BVerfGE 4, 144 (148). 112 P. e. BVerfGE 5, 85 (197, 379). 113 P. e. BVerfGE 1, 299 (314 ss.). 114 P. e. BVerfGE 5, 85 (379); 6, 32 (41); 14, 288 (296). 115 P. e. BVerfGE 6, 32 (41); 10, 59 (81); 12, 45 (51); 13, 46 (51); 13,97 (107); 14, 288 (301); 21, 362 (371 ss.): 27, 253 (283); 30, 1 (19). 116 BverfGE 12, 1 (4); 19, 206 (216); 27, 195 (201). 117 P. e. BVerfGE 2, 1 (12); 5, 85 (134 ss.); 6, 32 (40 ss.); 7, 198 (205). 118 P. e. BVerfGE 5, 85 (139); 28, 243 (259). 119 BVerfGE 2, 380 (401); 3, 407 (422); cfr. igualmente, 7, 342 (351). 120 R. SMEND, “Verfassung und Verfassungsrecht”, em: “Staatsrechtliche Abhandlungen” (2ª ed., 1968), p. 189. 121 H. HELLER, Staatslehre” (1934), especialmente p. 228 e ss. (tradução para o castelhano de L. Tobío, Teoría del Estado, México, 1942). 122 R. R. BÄUMLIN, “Staat, Recht und Geschichte” (1961), p. 24 e passim; cfr., a respeito, K. HESSE, Juristenzeitung, 1963, p. 485. 123 W. KÄGI, “Die Verfassung als rechtliche Grundordnung des Staates” (1945), p. 40 e ss. 124 H. EHMKE, “Grenzen der Verfassungsänderung” (1953), em especial p. 88 e ss.; idem. “Prinzipien der Verfassungsinterpretation”, em “Veröffentlichungen der Vereinigung der deutschen Staatsrechtslehrer”, 20 (1963), p. 61 e ss. 125 Devem mencionar-se em particular: U. SCHEUNER. “Das Wesen des Staates und der Begriff des Politischen in der neueren Staatslehre”, em “Staatsverfassung und Kirchenordnung, Festgabe für R. Smend zum 80. Geburtstag” (1962), p. 225 e ss.; idem, voz “Verfassung”, em “Staatslexikon” 8 (1963), col. 117 e ss.; idem, voz “Staat”, em “Handwörterbuch der Sozialwissenschaften” 12 (1965), p. 653 e ss.; H. KRÜGER, voz “Verfassung”, em “Handwörterbuch der Sozialwissenschaften” 11 (1961), p. 72 e ss.; idem, “Allgemeine Staatslehre” (2ª ed., 1966); P. BADURA, voz “Verfassung”, em “Evangelisches Staatslexikon” (2ª ed., 1975), col. 2707 e ss.; idem, “Verfassung und Verfassungsgesetz”, em: “Festschrift für Ulrich Scheuner” (1973), p. 19 e ss.; A. HOLLERBACH, “Ideologie und Verfassung”, em “Ideologie und Recht”, ed. de W. Maihofer (1968), p. 37 e ss.; R. HERZOG, “Allgemeine Staatslehre” (1971), em especial p. 308 e ss.; D. GRIMM, “Verfassungsfunktion und Grundgesetzreform”, em Archiv des öffentlichen Rechts, 97 (1972), p. 489 e ss.; E. W. BÖCKENFORDE, “Die verfassungstheoretische Unterscheidung von Staat und Gesellschaft als Bedingung der individuellen Freiheit” (1973); J. P. MÜLLER. “Soziale Grundrechte in der Verfassung?”, em “Referate und Mitteilungen des Schweizerischen Juristenvereins”, 107 (1973), p. 715 e ss. 126 Cfr. a respeito também BÄUMLIN (cit. n. 16), em especial p. 18 e ss.; SCHEUNER (cit. n. 19) “Handwörterbuch der Sozialwissenschaften”, 12, p. 656; idem, “Festgabe für R. Smend”, p. 255; idem, “Konsens und Pluralismus als verfassungsrechtliches Problem”, em “Rechtsgeltung und Konsens” (1976), p. 33 e ss. 127 R. DAHRENDORF, “Die Funktionen sozialer Konflikte”, em “Gesellschaft und Freiheit” (1961), p. 112 e ss.; idem, “Elemente einer Theorie des sozialen Konflikts”, ibid., p. 197 e ss.; idem, “Gesellschaft und Demokratie in Deutschland” (1965), p. 171 e ss. 128 BÄUMLIN (cit. n. 16), p. 8 e ss., embora reforçando notavelmente o aspecto processual-dinâmico (p. 13, 38 e passim). 129 Este conceito foi cunhado por E. FORSTHOFF (“Die Verwaltung als Leistungsträger” (1938), agora recolhido resumidamente em “Rechtsfragen der leistenden Verwaltung”, 1959, p. 22 e ss.) e designa a provisão de serviços (por exemplo, eletricidade, água, meios de transporte etc., que hoje são vitais tanto para o indivíduo como para a comunidade e, por isso, converteram-se em tarefa para a Administração Pública; isso suscita, junto à problemática tradicional da garantia da liberdade individual frente a intervenções ilegais, o problema da garantia da participação em tais prestações. 130 U. SCHEUNER, “Festgabe für R. Smend” (cit. n. 19), p. 251; P. VON OERTZEN, “Die soziale Funktion des staatsrechtlichen Positivismus. Eine wissenssoziologische Studie über die Entstehung des formaliscischen Positivismus in der deutschen Staatsrechtswissenschaft” (1974), p. 305. 131 H. EHMKE, “‘Staat’ und ‘Gesellschaft’ als verfassungstheoretisches Problem”, em “Staatsverfassung und Kirchenordnung. Festgabe für R. Smend zum 80. Geburtstag” (1962), p. 24 e ss. 132 Assim, basicamente, em BÖCKENFÖRDE (cit. n. 19), p. 21 e ss. 133 EHMKE (cit. n. 25), p. 45. 134 Uma exposição mais ampla destas idéias em K. HESSE, “Bemerkungen zur heutigen Problematik und Tragweite der Unterscheidung von Staat und Gesellschaft”, Die öffentliche Verwaltung, 1975, p. 437 e ss. (agora também recolhido em “Staat und Gesellschaft”, ed. de E. W. Bökkenförde, Darmstadt, 1976, p. 484-502. N. do T.); cfr. igualmente em W. SCHMIDT, “Die Entscheidungsfreiheit des einzelnen zwischen staatlicher Herrschaft und gesellschaftlicher Macht”, Archiv des öffentlichen Rechts, 101 (1976), p. 24 e ss. 135 HELLER (cit. n. 15), p. 88 e ss. e 228 e ss.; BÖCKENFORDE (cit. n. 19), p. 24 e ss. 136 BÄUMLIN (cit. n. 16), p. 17. 137 HÖLLERBACH (cit. s. 19), p. 46. (Sobre a tradução de Gemeiwesen por “Comunidad”, vid. supra nota introdutória n. 26.) 138 Passagens como esta evidenciam a relativa incorreção da tradução do termo Staatsrecht por “Direito político”, a qual, sem embargo se manteve, de resto, na falta de um termo mais aproximado. – N. do T. 139 BVerfGE 1, 14 (32), jurisprudência constante; cfr. também BVerfGE 49, 24 (56) com mais referências. BÄUMLIN (cit. n. 16), p. 27 e passim; EHMKE, “Prinzipien der Verfassungsinterpretation (cit. n. 18), p. 77 e ss.; U. SCHEUNER, “Veröffentlichungen der Vereinigung der deutschen Staatsrechtslehrer”, 20 (1963), p. 125 e ss.; em sentido crítico, F. MÜLLER, “Die Einheit der Verfassung” (1979), em especial p. 225 e ss. 140 H. KRÜGER, “Verfassungswandlung und Verfassungsgerichtsbarkeit”, em “Staatsverfassung und Kirchenordnung. Festgabe für R. Smend zum 80. Geburtstag” (1962), p. 159. 141 Cfr. BVerfGE 50, 290 (336 ss.) com mais referências. 142 BÄUMLIN (cit. n. 16), p. 15. Básico para a significação de “público” para a Constituição: P. HÄBERLE, “Öffentlichkeit und Verfassung”, Zeitschrift für Politik, 16 (1969), p. 273 e ss. 143 Cfr. a respeito, também, BÄUMLIN (cit. n. 16), p. 43; H. KRÜGER. “Allgemeine Staatslehre” (cit. n. 19), p. 197 e ss., 835. 144 SCHEUNER, “Handwörterbuch der Sozialwissenschaften”, 12 (cit. n. 19), p. 658. 145 M. IMBODEN, “Die Staatsformen” (1959), p. 110 e ss. 146 Sobre isto (divergindo em parte da opinião mantida no texto), H. HUBER, “Probleme des ungeschriebenen Verfassungsrechts”, em “Rechtstheorie, Verfassungsrecht, Völkerrecht” (1971), p. 329 e ss. Sobre a problemática do Direito Constitucional consuetudinário: Chr. TOMUSCHAT, “Verfassungsgewohnheitsrecht? Eine Untersuchung zum Staatsrecht der Bundesrepublik Deutschland” (1972). 147 BVerfGE 2, 380 (403). Resulta, no entanto, equívoco que o Tribunal Constitucional Federal busque os fundamentos do Direito constitucional não escrito na “imagem de conjunto preconstitucional” do constituinte, a qual, ao vincular e manter unidos os preceitos da Constituição, converte-se precisamente na única imagem de conjunto constitucionalmente vinculante. 148 C. SCHMITT, “Verfassungslehre” (4ª ed., 1965), p. 75 e ss. (tradução para o castelhano de F. Ayala, Madrid, 1934, reimpr. 1982). Cfr. a respeito EHMKE, “Grenzen der Verfassungsänderung” (cit. n. 18), p. 86 e ss. 149 Sobre tudo isso, mais detalhadamente, K. HESSE, “A força normativa da Constituição” (1959), p. 61-84 desta seleção. 150 Cfr. BVerfGE 12, 205 (260 ss.); 57, 295 (322 ss.). 151 F. MÜLLER, “Normbereiche von Einzelgrundrechten in der Rechtsprechung des Bundesverfassungsgerichts” (1968), p. 9 e ss., com mais referências. A norma converte-se, deste modo, em “modelo de ordenação cunhado pelo seu objeto (sachgeprägtes Ordnungsmodell), como projeto vinculante de uma ordem parcial da comunidade jurídica, que modela a norma, na qual o regulador e o regulado vão necessariamente unidos complementando-se indeclinavelmente um ao outro e fundamentando-se mutuamente na prática da realização do Direito” (ibid. p. 9). Cfr. também F. MÜLLER, “Thesen zur Struktur von Rechtsnormen”, Archiv für Rechtsund Sozialphilosophie,LVI (1970), especialmente p. 504 e ss. (agora recolhido também no mesmo, “Rechtsstaatliche Form Demokratische Politik” [1977], p. 257-270. – N. do T.). 152 Da bibliografía mais recente cabe destacar: E. FORSTHOFF, “Zur Problematik der Verfassungsauslegung” (1961); P. SCHNEIDER e H. EHMKE, “Prinzipien der Verfassungsinterpretation”, em “Veröffentlichungen der Vereinigung der deutschen Staatsrechtslehrer”, 20 (1963), p. 1 e ss., 53 e ss.; F. MÜLLER, “Normstruktur und Normativität. Zum Verhältnis von Recht und Wirklichkeit in der juristischen Hermeneutik, entwickelt an Fragen der Verfassungsinterpretation” (1966); id., “Juristische Methodik” (2ª ed., 1976); M. KRIELE, “Theorie der Rechtsgewinnung” (2ª ed., 1976); E. STEIN, “Juristische Auslegungslehren und wissenschaftliche Methodik”, em “Recht im Dienst des Friedens, Festschrift für E. Menzel” (1975), p. 3 e ss.; E. W. BÖCKENFÖRDE, “Die Methoden der Verfassungsinterpretation”, Neue Juristische Wochenschrift, 1976, p. 2089 e ss.; F. OSSENBÜHL, “Die Interpretation der Grundrechte in der Rechtsprechung des Bundesverfassungsgetichts”, ibid, p. 2100 e ss., assim como as colaborações da obra coletiva: “Probleme der Verfassungsinterpretation”, ed. de R. DREIER e F. SCHWEGMANN (1976), com mais referências, p. 329 e ss.; o volume contém igualmente algumas das obras anteriormente citadas; K. STERN, “Das Staatsrecht der Bundesrepublik Deutschland”, I (1977), p. 33 e ss., 102 e ss. 153 BVerfGE 1, 263 (264). 154 Cfr., no entanto (a partir de um conceito de interpretacão mais amplo), EHMKE (cit. n. 1), p. 68 e ss. 155 Em especial (embora sem tratar da interpretação da Lei Fundamental), W. WEISCHEDEL, “Recht und Ethik” (1956); E. FORSTHOFF, “Die Umbildung des Verfassungsgesetzes”, em “Festschrift für C. Schmitt” (1959), p. 35 e ss.; H. GOERLICH, “Wertordnung und Grundgesetz” (1973). 156 A. HOLLERBACH, “Auflösung der rechtsstaatlichen Verfassung?”, Archiv des öffentlichen Rechts, 85 (1960), p. 241 e ss. 157 Vai, pois, além dos elementos da interpretação da lei formulados por Sayigny - “clássicos”, segundo FORSTHOFF (“Umbildung”, cit. n. 4, p. 36; “Zur Problematik der Verfassungsauslegung”, cit. n. 1, p. 39 ) -: o gramatical, o lógico, o histórico e o sistemático; cfr. sobre isso HOLLERBACH (cit. n. 5), p. 258. 158 BVerfGE 1, 299 (312); confirmado em BVerfGE 6, 55 (75); 6, 389 (431); 10, 234 (244); 11, 126 (130); 33, 265 (294); 35, 263 (278); cfr., igualmente, BVerfGE 24, 1(15); 36, 342 (367); 41, 291 (309). 159 BVerfGE 11, 126 (130); cfr. igualmente BVerfGE 35, 263 (278 ss.) 160 Assim, por exemplo, na distinta interpretação do conceito “ordem constitucional” por parte do Tribunal Constitucional Federal conforme a função assumida por esse conceito (BVerfGE 6, 32 [38]). 161 P. e. BVerfGE 8, 38 (41). 162 BVerfGE 9, 89 (104 ss.); 13, 261 (268); 14, 260 (262); 22, 28 (37); 35, 263 (278 ss.). 163 BVerfGE 8, 210 (221). 164 BVerfGE 2, 347 (374 ss.); cfr. já BVerfGE 1, 351 (366 ss.). 165 P. e. BVerfGE 2, 266 (276); 4, 299 (304 ss.). Cfr. também BVerfGE 33, 125 (153 ss.). 166 P. e. BVerfGE 12, 205 (230 ss.). 167 P. e. BVerfGE 4, 219 (233 ss.); 1, 97 (100 ss.); 2, 213 (224 ss.): 4, 31 (40); 10, 20 (40). Embora os limites traçados sejam inseguros e variados: cfr., de um lado, BVerfGE 7, 377 (411 ss.); de outro lado, BVerfGE 10, 354 (370 ss.). 168 P. e. BVerfGE 3, 225 (231); 28, 243 (261); 34, 165 (183) com mais referências. 169 P. e. BVerfGE 1, 144 (148 ss.); 1, 208 (247 ss.); 3, 58 (95); 3, 288 (301); 5, 85 (129 ss.); 7, 377 (397); 9, 305 (323 ss.); 45, 187 (229 ss.); 52, 1 (29 ss.). O mesmo se diga quando o Tribunal reconhece a possibilidade de mudança do significado de uma norma; p. e. BVerfGE 2, 380 (401); 3, 407 (422); 7, 342 (351). 170 P. e. BVerfGE 1, 208 (239); 1, 264 (275); 4, 322 (328 ss.); 6, 309 (352); 12, 45 (56); 21, 209 (217 ss.). 171 Cfr. também, p. e. BVerfGE 3, 58 e ss. (85 ss.) – a questão submetida ao Tribunal sobre a existência de uma violação de direitos fundamentais não é suscitada até as páginas 135 e ss.-; BVerfGE 6, 32 (35 ss.); 6, 309 (339 ss.). O terreno da interpretação dos preceptos da Lei Fundamental resta abandonado, p. e., em BVerfGE 25, 352 (358 ss.). 172 Aqui se encontra acima de quaisquer diferenças nos questionamentos e nos métodos de trabalho da moderna hermenêutica das ciências do espírito e da especificamente jurídica, o que há de comum às duas. Cfr. H. G. GADAMER, “Wahrheit und Methode” (2ª ed., 1965), p. 307, 312 e ss., 315. Em geral, sobre o caráter produtivo da interpretação jurídica: J. ESSER, “Grundsatz und Norm in der richterlichen Fortbildung des Privatsrechts” (2ª ed., 1964), p. 250 e ss. 173 Uma avaliação crítica do que se segue: BÖCKENFÖRDE (cit. n. 1), p. 2095 e ss., 2097 e ss. 174 Sobre isto (e o que se segue), GADAMER (cit. n. 21), p. 250 e ss.; MÜLLER (cit. n. 1) “Normstruktur und Normativität”. p. 49 e ss.; “Juristische Methodik”, p. 133 e ss. 175 Nisto baseia-se a diferença essencial frente à tópica “pura” (cfr. também infra 3). Sobre isto, Th. VIEHWEG, “Topik und Jurisprudenz” (5ª ed., 1974), tradução espanhola, “Tópica e Jurisprudência”, de L. DIEZPICAZO e prólogo de E. GARCIA DE ENTERRIA. Madrid, 1964 (N. do T.); R. BÄUMLIN, “Staat, Rechf und Geschichte” (1961), p. 27 e ss.; W. HENNIS, “Politik und praktische Philosophie” (1963), p. 89 e ss.; MÜLLER (cit. n. 1) “Normstruktur und Normativität”, p. 56 e ss.; id. “Juristische Methodik”, p. 77 v ss.; KRIELE (cit. n. 1), p. 114 e ss.; G. OTTE, “Zwanzig Jahre Topik-Diskussion: Ertrag und Aufgabe”, em Rechtstheorie, 1 (1970), p. 183 e ss. 176 MÜLLER, “Juristische Methodik” (cit. n. 1), p. 161. 177 Ibid., p. 163. 178 Ibid., p. 92 e ss. Sobre a significação que, desse modo, adquire a análise das conseqüências, ibid. p. 194 e ss. 179 P. e. BVerfGE 1, 14 (32); 19, 206 (220); 30, 1 (19); 34, 165 (183). 180 Sobre isto, detalhadamente EHMKE (cit. n. 1), p. 77 e ss. 181 Destacado por U. SCHEUNER como princípio interpretativo da “harmonização”, “Veröffentlichungen der Vereinigung der deutschen Staatsrechtslehrer” 20 (1963), p. 125 e 22 (1965), p. 53 e P. LERCHE, “Übermass und Verfassungsrecht” (1961), em especial p. 125 e ss., o qual destaca a “idéia do equilíbrio de máximo respeito em ambas as direções”. 182 Resulta por completo inadmissível dar-se prevalência a “bens superiores da comunidade” não protegidos constitucionalmente – cuja presença cabe sempre afirmar discricionariamente -, prescindindo-se não só da unidade da Constituição como da Constituição mesma. Na medida em que as valorações de uma “ponderação de bens” (Güterabwägung) venham determinadas “exclusivamente a partir da Constituição” (P. HÄBERLE, “Die Wesensgehaltsgarantie des Art. 19. Abs. 2 Grundgesetz, 2ª ed., 1972, p. 32), um princípio de “ponderação de bens” assim entendido aproxima-se do princípio da concordância prática. Uma introdução ao princípio da “ponderação de bens”: MÜLLER, “Normstruktur und Normativität” (cit. n. 1), p. 207 e ss. 183 Sobre este conceito, cfr. LERCHE (cit. n. 30), p. 19 e ss. 184 BVerfGE 7, 198 (208 ss.). 185 P. e. P. SCHNEIDER, “In dubio pro libertate”, em “Hundert Jahre deutsches Rechtsleben, Festschrift zum hundertjährigen Bestehen des Deutschen Juristentages”, II (1960), p. 263 e ss. 186 Sobre isto, detalhadamente EHMKE (cit. n. 1), p. 73 e ss. Ver, também, infra IV, 2. 187 Assim, no entanto, R. SMEND, “Verfassung und Verfassungsrecht”, em “Staatsrechtliche Abhandlungen” (2ª ed., 1968), p. 190. 188 MÜLLER, “Juristische Methodik” (cit. n. 1), p. 176 e ss. 189 GADAMER (cit. n. 21), p. 312. 190 Cfr., igualmente, MÜLLER (cit. n. 1) “ Normstruktur und Normanvität”, p. 160 e ss.; id. “Juristische Methodik”, p 78 e ss., 153 e ss.; id. “Juristische Methodik und politisches System” (1976), p. 78. 191 Assim, no entanto, claramente EHMKE (cit. n. 1), p. 60, segundo o qual o Tribunal pode afastar-se do texto da norma quando o mesmo não oferece base alguma para uma solução racional do problema. 192 P. e. VIEHWEG (cit. n. 24), p. 31 e ss. epassim. 193 Sobre isto, mais detidamente: H. SPANNER, “Die verfassungskonforme Auslegung in der Rechtsprechung des Bundesverfassungsgerichts”, Archiv des öffentlichen Rechts 91 (1966), p. 503 e ss.; H. BOGS, “Die verfassungskonforme Auslegung von Gesetzen” (1966); H. SIMON, “Die verfassungskonforme Gesetzesauslegung”, Europäische Grundrechte-Zeitschrift 74, p. 85 e ss.; R. ZIPPELIUS, “Verfassungskonforme Auslegung von Gesetzen”, em “Bundesverfassungsgericht und Grundgesetz” II (1976), p. 108 e ss, com mais referências, p. 109. 194 BVerfGE 2, 266 (282); jurisprudência constante; cfr., também, BVerfGE 48, 40 (45 ss.) com mais referências. Problemático parece extender-se à interpretação de leis de reforma da Constituição: BVerfGE 30, 1 (17 ss., 34). Cfr., sobre isso, P. HÄBERLE, “Die Abhörentscheidung des Bundesverfassungsgerichts vom I5-12-1970”, Juristenzeitung 1971, 145 (148 ss.). 195 P. e. BVerfGE 11, 168 (190); 41, 65 (86). 196 P. e. BVerfGE 2, 380(398); 18, 97 (111); cfr., no entanto, BVerfGE 30, 83 (88). 197 P. e. BVerfGE 8, 28 (34). Por isso rechaza-se a interpretação conforme, p. e., em BVerfGE 8, 28 (34 ss.); 8, 71 (78 ss.); 9, 83 (87); 20, 150 (160 ss.); 34, 165 (199 ss.); 42, 176 (189 ss.). 198 P. e. BVerfGE 8, 28 (34); 9, 194 (200); 12, 45 (61). 199 P. e. BVerfGE 9, 167 (174); 12, 281 (296). 200 P. e. BVerfGE 13, 46 (51); 19, I (8). 201 Cfr. também EHMKE (cit. n. 1), p. 68 e ss. 202 Pode haver exceções a isto quando se conceba uma solução que responda aos mandatos da Constituição; p. e. BVerfGE 2, 336 (340 ss.). 203 Estes limites foram claramente ultrapassados em BVerfGE 9, 194 (199 ss.). Cfr., também, BVerfGE 30, 1 (19 ss., 37 ss.); 33, 52 (65 ss., em especial 69, assim como o voto particular; ibid. p. 78, 80 e ss.); 35, 263 (278 ss.). 204 O Tribunal Constitucional Federal, em jurisprudência constante, assumiu a competência de interpretação das leis ordinárias desde o ponto de vista de sua constitucionalidade. Cfr., p. e. BVerfGE 2, 105 (110); 2, 181 (193); 7, 45 (50); 7, 198 (207); 8, 210 (217): 10, 340 (345): 18, 85 (92 ss.); 38, 154 (162 ss.). 205 EHMKE (cit. n. 1), p. 75, que corretamente remete à problemática da interpretação em relação ao direito do Estado Federal. 206 Inclusive quando o Tribunal que interpreta não o diga expressamente. Cfr., p. e. BVerfGE 12, 45 (53 ss.). 207 Gesammelte Reden und Schriften, organização e introdução de Eduard Bernstein II (1919), p. 25 e ss. 208 Verfassungsãnderung und Verfassungswandlung (1906), p. 72. 209 A questão aqui apresentada sobre a força normativa não constitui indagação da teoria das fontes jurídicas. Não é decisivo, assim, definir se princípios do direito suprapositivo podem integrar a “Constituição jurídica”. A problemática subsiste mesmo em caso de uma resposta afirmativa. 210 (1),(2) e (3) – Ver tópicos a seguir em P. LABAND, Das Staatsrecht des Deutschen Reiches (5ª ed., 1911) I p. IX e ss.; G. JELLINEK, Allgemeine Staatslehre (3ª ed., 1921) p. 20, 50 e ss.; C. SCHMITT, Verfassungslehre (1928), p. 22 e ss. 211 Cf. v.g. G. LEIBHOLZ, Verfassungsrecht und Verfassungswirklichkeit, edição reduzida, agora, em Strukturprobleme der modernen Demokratie (1958), p. 279 e ss.; H. EHMKE, Grenzen der Verfassungsänderung (1953), p. 33; Chr. Graf v. CROCKOW, Die Entscheidung (1958), p. 65 e ss. 212 V.g.: G. JELLINEK, Verfassungsänderung und Verfassungswandlung, cit., e Allgemeine Staatslehre, p. 359; C. SCHMITT, Politische Theologie (2ª ed., 1934), p. 18 e ss. – Quanto à crítica ao Formalismo e ao Positivismo, o necessário foi dito já à Epoca de Weimar, principalmente por E. Kaufmann, R. Smend, H. Heller e G. Holstein. Cf., a propósito, as referências indicadas na nota 7 e, particularmente, ainda H. HELLER, Bemerkungen zur staats und rechtstheoretischen Problematik der Gegenwart, AöR NF 16 (1929), p. 321 e ss., em especial p. 343 e ss. 213 A despeito de todas as diferenças de ponto de vista, essa concepção da estrutura do direito não se perdeu no passado recente e no presente. Cf. v.g. O. GIERKE, Die Grundbegriffe des Staatsrechts und die neuesten Sta atstheorien ZgesStW 30 (1874), p. 159; E. HUBER, Recht und Rechtsverwirklichung (2ª ed., 1925), p. 31 e ss., 281 e ss.; E. KAUFMANN, Das Wesen des Völkerrechts und die clausula rebus sic stantibus (1911) passim, especialmente p. 102 e ss., 107 e ss., 115, 125 e ss., 129 e ss.; idem, Untersuchungsausschulβ und Staatsgerichtshof (1920), p. 68; resumindo e particularmente impressionante, com certeza, com uma tendência fundamental para harmonização: Kritik der neukantischen Rechtsphilosophie (1921) passim; D. SCHINDIER, Verfassungsrecht und soziale Struktur (3ª ed., 1950); com particular clareza: H. HELLER op.cit. e Staatslehre (1934) passim, particularmente, p. 184 e ss.; U. SCHEUNER, Beitritt der Bundesrepublik zur europãischen Verteidigungsgemeinschaft und Grundgesetz, Rechtsgutachten em Der Kampf um den Wehrbeitrag 11 (1953), p. 101 e ss.; idem, Grundfrage des modernes Staates em Recht, Staat und Wirtschaft III (1951), p. 134; J. WINTRI-CH, Über Eingenart und Methode verfassungsgerichtlicher Rechtsprechung in Verfassung und Verwaltung in Theorie und Wirklichkeit, Festschrift für Wilhelm Laforet (1952), p. 229; G. DÜRIG, Art. 2 des Grundgesetzes und die Generalermãchtigung zu allgemeinpolizeilichen MaOrahmen, AõR 79 (1953154), p. 67 e ss.; Idem, Der deutschem Staat im Jahre 1945 und seither, Veröffentlichungen der Vereinigung der Deutschen Staatsrechtslehrer 13 (1955), p. 33 e ss.; G. LEIBHOLZ, Verfassungsrecht und Verfassungswirklichkeit, cit. p. 280 e ss. A teoria da integração (Inregrationslehre) esforça-se para realizar uma aproximação entre norma e fato e reduzir, assim, a necessária tensão entre ambos, tal como ressaltado por R. SMEND (Artikel “Integrationslehre” em Handwörterbuch der Sozialwissenschaften, V, p. 301), na medida em que ela vislumbra o problema como uma “questão concernente à substância específica do Estado como objeto de disciplina jurídica na Constituição” (R. SMEND, Verfassung und Verfassungsrecht em Staatsrechtliche Abhandlungen (1955), p. 188). 214 Ideen der Staatsverfassung, durch die neue französische Konstitution veranlat (1791), Ges. Schriften, organizado pela Preussische Akademie der Wissenschaften 1 (1903), p. 78 (Grifos meus). 215 Ges. Schriften 11. p. 99. 216 Ideen zu einem Versuch, die Wirksamkeit des Staates zu bestimmen, Ges. Schriften I, p. 244, 245; Vgl. auch Denkschrift über Preuáens ständische Verfassung (1819) Ges. Schriften 12, 232. 217 Com acerto, observa G. Ritter sobre esse pensamento de Humboldt, que, estranhamente, nele se encontra muito pouco sobre uma vontade criativa capaz de estabelecer grandes metas e de lutar para a superação de resistências. De qualquer forma, cogita-se muito mais de uma inteligente adequação a uma realidade (Stein – II – p. 260). Também R. SMEND (Art. Integrationslehre, p. 301) ressalta enfaticamente os perigos de uma concepção constitucional que enfatiza, unilateralmente, o significado das leis imanentes da matéria e que empreste pouco significado à vontade de conformação. 218 H. HELLER, AöR NF 16, p. 341, 353. 219 O fato de a Constituição americana estar assentada nesse princípio configura não a única, mas, certamente, a fonte essencial de sua incomparável vitalidade. 220 Walter Burckhardt, Kommentar der schweizerichen Bundesverfassung (3ª ed., 1931), p. VIII. 221 R. SMEND, Art. “Integrationslehre”, p. 300. 222 W. Hennis ressaltou, corretamente, que, em face do fascínio exercido pela força normativa das relações fáticas, cabe à ciência a missão de “recordar o significado da força normativa da Norma” (Meinungsforschung und repräsentative Demokratie (1957) p. 52; Cf. também W. KÄGI, Rechtsfragen der Volksinitiative auf Partialrevision, em Verhandlungen des Schweizerischen Juristenvereins, (1956), p. 741 e ss. 223 Ver notas do tradutor no final do capítulo (I). 224 As céticas observações de W. KÄGI (op. cit. p. 762 e ss.) demonstram que essa constatação expressa uma tendência geral,que não se limita à República Federal da Alemanha e à sua pouco tradicional Constituição. Anteriormente, H. HUBER, Niedergang des Rechts und Krise des Rechtsstaates, em Demokratie und Rechtstaat, em Festgabe für Z. Giacometti (1953) p. 71 e ss., particularmente, W. KÄGI, Die Verfassung als rechtliche Grundordnung des Staates (1945), p. 9 e ss. 225 Cf. particularmente W. WEBER, Spannungen und Kräfte im westdeutschen Verfassungssystem (2ª ed., 1958). 226 A propósito, Cf. sobretudo: G. LEIBHOLZ, Der Strukturwandel der modernen Demokratie, em Strukturprobleme, p. 78 e ss., especialmente p. 112. Não se considera, todavia, que o art. 38, 1 da Lei Fundamental deve desempenhar uma nova e essencial função na moderna democracia instituída pela Constituição. Ele não está em contradição com o art. 21, senão que configura uma conseqüência desse dispositivo, particularmente do seu parágrafo 1°, 3° período, na medida em que assegura a democracia interna nos partidos, garantindo o desenvolvimento intrapartidário e o processo de livre formação de opinião pública. Esse aspecto foi ressaltado por O. KIRCHHEIMER (Parteistruktur und Massendemokratie in Europa, AöR 79 (1953 / 54), p. 310 e ss., p. 315 e ss.) 227 A propósito, principalmente, H. FREYER, Das soziale Ganze und die Freihet der Einzelner unter den Bedingungen des industriellen Zeitalters (1957); E. FECH-NER, Die soziologische Grenze der Grundrechte (1954); R. GUARDINI, Das Ende der Neuzeit (1950), p. 66 e ss. 228 Cf. a propósito: K. HESSE, Ausnahmezustand und Grundgesetz, DÖV 1955, p. 741 e ss. A crítica desse artigo por A. HAMMANN (Zur Frage eives Ausnahmeoder Staatsnotstandsrechts, DVBI. 1958, 405 ss.) não levou em conta os objetivos visados por este trabalho. Trata-se de uma tentativa de esclarecer a problemática fundamental e suscitar discussão a propósito antes de examinar questões particulares. Por isso, fiz, na introdução do trabalho, uma apresentação exemplificativa, e não um catálogo exaustivo das possíveis situações de emergência, acentuando que, hodiernamente, esses casos não se deixam mais determinar previamente (741 ss.). Não me pareceu, portanto, decisivo emprestar uma determinada conformação ao direito do estado de necessidade (Recht des Ausnahmezustandes), afigurando-se-me suficiente que o problema seja identificado e levado a sério. 229 Resulta ingênuo negar esse fato, como faz o A. HAMMANN (DVBI. 1958, 406). Não deveriam ser desconsideradas aqui as experiências estrangeiras. Não deve causar admiração que uma perspectiva limitada à existência da norma acabe por escamotear o problema da força normativa da Constituição. 230 Ver notas do tradutor no final do capítulo (II). 231 Ver notas do tradutor no final do capítulo (III). 232 Uma ampla referência à bibliografia antiga e moderna em F. KLEIN, “Von der föderativen zur stärker unitarischen Gestaltung des Finanzwesens in der Bundesrepublik Deutschland”, em “Festschrift für F. Giese” (1953), p. 112 e ss., nota 172; P. HÄBERLE, “Die Wesensgehaltsgarantie des Art. 19 Abs. 2 Grundgesetz” (2ª ed., 1972), p. 213 e ss. Ultimamente, com um questionamento em parte mais amplo, em parte mais limitado (significado de “mudança social” e sua concepção pela jurisprudência constitucional): FIEDLER, “Sozialer Wandel, Verfassungswandel, Rechtsprechung” (1972), em especial p. 54 e ss. 233 A mutação constitucional interpretativa é considerada por F. KLEIN incompatível com o art. 79.1 da Lei Fundamental: “Festschrift für F. Giese” (cit. n 1), p. 117 e ss.; id. v. MANGOLDT-KLEIN, nota III, 2 al art. 79 (p. 1869) com mais referências. Cfr., no entanto, ibid. nota III, 5 (p. 1874), onde se admite a licitude de uma “mudança de significado” no sentido da jurisprudência do Tribunal Constitucional Federal, porque a mudança de significado não tem nada a ver com uma interpretação legal (n. 58). 234 P. e. MAUNZ-DÜRIG-HERZOG, “Grundgesetz”, número marginal 20 ao art. 79. O trabalho de H. KRÜGER, “Verfassungswandlung und Verfassungsgerichtsbarkeit”, em “Festgabe für R. Smend zum 80. Geburtstag” (1962), p. 151 e ss., não se refere às questões relativas à fundamentação do processo de mutação constitucional – cuja possibilidade pressupõe-se -, e sim ao problema da mutação constitucional através da jurisprudência dos tribunais constitucionais. 235 V. D. HEYDTE, “Stiller Verfassungswandel und Verfassungsinterpretation”, Archiv für Rechtsund Sozialphilosophie XXXIX (1950/51), p. 474. 236 MAUNZ. “Deutsches Staatsrecht” (19ª ed., 1973), p. 51. 237 MAUNZ (cit. n. 5), p. 61. 238 BVerfGE 2, 380 (401). Igualmente, BVerfGE 3, 407 (422); 7, 342 (351). A respeito da tomada em consideração das circunstâncias fáticas, assim como de suas mudanças, cfr. FIEDLER (cit. n. 1), p. 78 e ss. 239 LERCHE, “Stiller Verfassungswandel als aktuelles Problem”, em “Festgabe für Theodor Maunz” (1971), p. 287 e ss. 240 LERCHE vê estes limites na exigência de maioria qualificada do art. 79.2 da Lei Fundamental, quando, através da intervenção nas estruturas do ordenamento jurídico, seu conteúdo é radical e imediatamente modificado em seu sentido pelo Direito infraconstitucional, porque se trata do embasamento da Constituição, que não deve ser modificado sem um consenso amplo (p. 292). 241 Algumas alusões em HAUG, “Die Schranken der Verfassungsrevision” (1947), p. 166 e FIEDLER (cit. n. 1), p. 40 e ss., p. 99 e ss. 242 “Die Wandlungen der deutschen Reichsverfassung” (1895). 243 “Verfassungsänderung und Verfassungswandlung” (1906). 244 O Tribunal Constitucional não entrou na argumentação da presença de uma “mutação constitucional” em relação à constitucionalidade do “Grundvertrag” em sua sentença de 31 de julho de 1973 (“Lei sobre o Tratado entre a RFA e a RDA sobre as bases das relações entre a RFA e a RDA”, de 6 de junho de 1973 - N. do T.). 245 Cfr. TOMUSCHAT, “Verfassungsgewohnheitsrecht?” (1972), p. 140. 246 Nos 23 anos se introduziram 31 reformas da Lei Fundamental. Referidas aos diversos artigos, continham 58 modificações (em parte repetidas), 42 acréscimos e 7 derrogações. 247 Cfr. SCHEUNER, “Das Grundgesetz in der Entwicklung zweier Jahrzehnte”, Archive des öffentlichen Rechts 95 (1970), p. 367. 248 Loc. cit. (n. 11), p. 3. 249 Loc. cit. (n. 12), p. 3. 250 “Allgemeine Staatslehre” (1925, reimpressão 1966), p. 254 (tradução castelhana de Luis Legaz y Lacambra, Teoria geral do Estado, Barcelona, 1934, reimpressão México 1979, p. 332 – N. do T.). Uma combinação semelhante é HSÜ-DAU-LIN, “Die Verfassungswandlung” (1932), p. 17 e ss. 251 Assim, KELSEN. loc. cit.; HAUG, op. cit. (n. 10), p. 166; F. KLEIN, “Festschrift für Giese” (n. 1), p. 118 e ss. 252 KELSEN, loc. cit. (n. 18). 253 JELLINEK, op. cit. (n. 12), p. 3. 254 Sob a vigência da Lei Fundamental – que exige para uma reforma constitucional a modificação do texto da Constituição (art. 79.1) – não cabe falar de uma “reforma material da Constituição” referida à mutação constitucional entendida, neste sentido, em relação à “quebra da Constituição” (“Verfassungsdurchbrechung”, cfr. ANSCHÜTZ, “Die Verfassung des deutschen Reiches” [14ª ed., 1933], art. 76, n. 2, p. 402) e uma prática política oposta à Constituição, mas que se impõe de fato. Se o conceito de Constituição divide-se em um conceito formal e um material, pode-se chegar – conforme se entenda o segundo dele – ao conceito de “reforma constitucional material”. Que a função jurídica essencial deva receber tal divisão é algo que não se acaba de ver. Em todo caso, não devem identificar-se as “reformas materiais da Constituição” derivadas dessa divisão com as da velha doutrina. Cfr, a este respeito, por exemplo, LABAND, “Das Staatsrecht des deutschen Reiches” (5ª ed., 1911), II, p. 38 e ss.; G. JELLINEK, “Allgemeine Staatslehre” (reimpressão da 3ª ed., 1921), p. 536, em especial p. 538; HSÜ-DAU-LIN (cit. n. 18), p. 29 e ss., p. 67 e ss. Em sentido crítico: KÄGI, “Die Verfassung als rechtliche Grundordnung des Staates” (1945), p. 111 e ss. 255 Supra notas 11 e 12. 256 G. JELLINEK (cit. n. 12) suscita na p. 4 unicamentea questão dos limites da subversão revolucionária da situação existente. Responde-a dizendo que uma revolução por princípio só afeta o Direito escrito, não o Direito consuetudinário. 257 Op. cit. (n. 12), p. 21. 258 Em especial, a criação de um sistema de autoridades administrativas federais, “o que apenas mostra algo parecido com a situação descrita na norma constitucional” (p. 15), a mudança no status jurídico do chanceler do Reich com base na lei de suplência de 1878 e a prática que se desenvolveu a partir dela (p. 16 e ss.), o direito de iniciativa do imperador (p. 19 e ss.) e a instauração de uma justiça federal (p. 32 e ss.). 259 Op. cit. (n. 11), p. 26 e ss., em especial p. 31 (A chamada “cláusula Frankenstein” contém diversas prescrições tributárias contrárias aos artigos 38 e 70 da Constituição de 1871. Cfr. G. JELLINEK, Teoria geral do Estado, tradução de F. de los Rios. Buenos Aires, 1978, p. 406 – N. do T.). 260 Op. cit. (n. 12), p. 8 e ss., em especial p. 10. Um exemplo tomado da Constituição de 1871, p. 12: validade das resoluções do Reichstag adotadas em sessão secreta, contra o disposto no artigo 22.1 da Constituição. 261 Op. cit. (n. 12), p. 21 e ss.; exemplos tomados da Constituição de 1871, p. 22 e 24 e ss.: caráter testamental do Bundesrat ou Conselho Federal, posição do chanceler do Reich. 262 Op. cit. (n. 12), p. 24 e ss. 263 Ibid., p. 34 e ss. 264 Ibid., p. 43 e ss. 265 Ibid., p. 44. 266 Ibid., p. 46 e ss. 267 Ibid., p. 80. 268 Ibid., p. 72. 269 LABAND, “Das Staatsecht des deutschen Reiches” (5ª ed., 1911), I, p. IX e ss. 270 BILFINGER, “Verfassungsumgehung”, Archiv des öffentlichen Rechts, nova série 11 (1926), p. 175 e ss. (“elusão da Constituição”; fenômeno puramente fático, não subsumível nos tipos tradicionais de fontes do Direito e que, nesse sentido, “não se produz dentro da esfera do Direito”); cfr. igualmente id., “Der Reichssparkommissar” (1928), p. 18. 271 SMEND, “Verfassung und Verfassungsrecht”, em “Staatsrechtliche Abhandlungen” (2ª ed., 1968), p. 188. Cfr. igualmente HSÜ-DAU-LIN (n. 18), p. 97 e ss. 272 Op. cit. (n. 12), p. V e ss. 273 G. JELLINEK não reassumiu na obra sobre reforma constitucional e mutação constitucional – no marco de sua Teoria social geral do Estado – a teoria, que já enunciara, da força normativa do fático (op. cit. [n. 221], p. 337 e ss.). Porém, tampouco esta teoria é capaz de dar uma resposta, mesmo desprezando todas as objeções que suscita. Cfr., por exemplo, HSÜ-DAU-LIN (n. 18), p. 99. 274 Op. cit. (n. 39), p. 188. 275 Ibid., p. 241 e ss. 276 Op. cit. (n. 18), p. 154 e ss. 277 Ibid., p. 162 e ss. A citação remete a SMEND, op. cit. (n. 39), p. 190. 278 Loc. cit. (n. 18), p. 164. 279 Ibid., p. 176. 280 lbid., p. 178. 281 Ibid., p. 179. 282 Recentemente, HENNIS, “Verfassungsrecht und Verfassungswirklichkeit. Ein deutsches Problem” (1968), p. 36 e ss. 283 “Staatslehre” (1934), p. 225 = “Gesammelte Schriften” (1971), III, p. 368 (cfr. para esta e as notas que se seguem, p. 267-278 da tradução espanhola, Teoria do Estado. México, 1942. 284 Ibid., p. 254 = ibid., p. 367. 285 Ibid., p. 257 e ss. = ibid., p. 371. 286 Ibid., p. 253 = ibid., p. 366. 287 Ibid., p. 257 = ibid, p. 370 e ss. 288 Ibid., p. 185 = ibid., p. 290 e ss. 289 Loc. cit. = ibid., p. 291. 290 Assim, se, concretamente, não nos detivemos nas doutrinas relativas a uma mutação constitucional através do Direito consuetudinário ou de regras convencionais, isso se deveu a que não nos faria avançar na resposta às questões aqui suscitadas. Se admitida a possibilidade de mutações constitucionais através do Direito consuetudinário ou de regras convencionais, isso também valerá com relação a seus limites, o que se expõe a seguir. A respeito da mutação constitucional através do Direito consuetudinário, recentemente (negando corretamente sua possibilidade): TOMUSCHAT, op. cit. (n. 13), p. 149 e ss. Sobre a doutrina da mutação constitucional através de regras convencionais: HSÜ-DAU-LIN. op. cit. (n. 18), p. 120 e ss.; cfr. igualmente KRÜGER, “Allgemeine Staatslehre” (2ª ed., 1966), p. 486 e ss. 291 KÄGI, op. cit. (n. 22), passim, especialmente, p. 121 e ss.; TOMUSCHAT, op. cit. (n. 13), p. 148. 292 SMEND, op. cit. (n. 39), p. 188. 293 HELLER, op. cit., p. 253 = “Gesammelte Schriften”, III, p. 366. 294 Aqui, e não nos questionamentos ao uso da dicotomia entre Constituição e realidade constitucional, encontra seu sentido o problema que HENNIS (n. 50), em sua justificada crítica desses questionamentos, ignorou inteiramente. Cfr., a respeito, HESSE, Archiv des öffentlichen Rechts, 96 (1971), p. 137 e ss. e BÖCKENFORDE. Der Staatt, 9 (1970), p. 533 e ss. 295 F. MÜLLER, “Normstruktur und Normativität” (1966), p. 114 e ss.; sintetizada-mente em id., “Thesen zur Struktur von Rechtsnormen”, Archiv für Rechts- und Sozialphilosophie, LVI (1970), p. 493 e ss., em especial p. 503 e ss. 296 Id., “Normbereiche von Einzelgrundrechten in der Rechtsprechung des Bundesverfassungsgerichts” (1969), p. 9. Cfr. igualmente “Thesen...”, (cit. n. 63), p. 504 e ss. 297 Ibid., p. 504. 298 Em razão do que foi dito acima, devem ser corrigidas as afirmações, sobre estes assuntos, que fiz nas obras Der Rechtsschutz durch staatliche Gerichte im kirchlichen Bereich (1956, p. 28 e ss.) e Grundzüge des Verfassungsrechts der Bundesrepublik Deutschland (1ª a 3ª edições, p. 16 e 19, o que já foi feito desde a 4ª ed., de 1970, p. 16 e ss. e 19). 299 A esse respeito, ibid. (6ª ed., 1973), p. 30; MÜLLER, “Thesen” (cit. n. 63), p. 500-506. 300 Dado que as mutações constitucionais só são admissíveis enquanto não se achem em contradição com o texto, não lhes afeta a proibição do art. 79.1, inciso 1°, da Lei Fundamental. Que, apesar disso, elas sejam possíveis, explica-se porque as normas da Constituição não consistem apenas “no texto da Lei Fundamental”. 301 Cfr., por exemplo, as reservas de Hans Huber a respeito da manutenção do caráter vinculante do texto na operação de “concretização” dos Direitos Fundamentais, em “Der Staat als Aufgabe. Gedenkschrift für Max Imboden” (1972), p. 198 e ss. 302 LERCHE, “Übermass und Verfassungsrecht” (1961), p. 125 e ss. Cfr. também SCHEUNER, Veröffentlichungen der Vereinigung der deutschen Staatsrechtslehrer, 20 (1963), p. 125 e 22 (1965), p. 53, assim como HESSE, op. cit. (n. 67), p. 28 e ss. 303 G. JELLINEK, op. cit. (n. 12), p. 21. 304 Não é este o lugar se, porque e até onde podem estes fatos ter “força constituinte”. Quando a identidade de uma Constituição concreta é suprimida, deixa de tratar-se de uma “mudança”, a qual sempre pressupõe que aquilo que muda conserve seu núcleo essencial, mesmo com um conteúdo modificado. Abertura Créditos CONSTITUIÇÃO E DIREITO CONSTITUCIONAL I. COMPETÊNCIAS E SIGNIFICADO II. DA SINGULARIDADE DO DIREITO CONSTITUCIONAL III. A CONSTITUIÇÃO DIANTE DA MUDANÇA HISTÓRICA SIGNIFICADO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS I. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA ATUALIDADE II. A EVOLUÇÃO NA ALEMANHA III. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA REPÚBLICA FEDERAL IV. OBJETO E FUNÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS V. DOS PROGRESSOS NA PROTEÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS VI. TITULARES E SUJEITOS OBRIGADOS VII. DESENVOLVIMENTO E LIMITE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS VIII. PROTEÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS IX. PARA UMA VALORIZAÇÃO DO TRAJETO SEGUIDO PELOS DIREITOS FUNDAMENTAIS CONCEITO E PECULIARIDADE DA CONSTITUIÇÃO I. COLOCAÇÃO DO PROBLEMA II. O OBJETIVO DA UNIDADE POLÍTICA E DA ORDEM JURÍDICA III. A CONSTITUIÇÃO E SEU SIGNIFICADO PARA A COMUNIDADE A INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL I. NECESSIDADE, SIGNIFICADO E OBJETIVO DA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL II. AS TRADICIONAIS REGRAS DE INTERPRETAÇÃO III. A INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL COMO CONCRETIZAÇÃO IV. A INTERPRETAÇÃO CONFORME À CONSTITUIÇÃO A FORÇA NORMATIVA DA CONSTITUIÇÃO I II III IV LIMITES DA MUTAÇÃO CONSTITUCIONAL I II III IV