Prévia do material em texto
JÚLIA GUIMARÃES MEDEIROS A ESCOLA E OS VALORES: A AÇÃO DO PROFESSOR Trabalho relacionado à disciplina Sociologia da Educação, apresentando com requisito para obtenção de avalição semestral do curso Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade Federal do Pará. BELÉM 2021 A ESCOLA E OS VALORES: A AÇÃO DO PROFESSOR Introdução O seguinte trabalho foi baseado no texto “A escola e os valores: A ação do professor” de Yves de La Taille, o autor apresenta uma síntese de algumas de suas palestras sobre o tema valores e sua relação com a educação. Ao falarmos de valor, o autor cita Piaget que define valor como “caráter afetivo do objeto, isto é um conjunto de sentimentos projetados sobre o objeto; ele constitui uma relação entre o objeto e o sujeito, mas uma relação afetiva”, ou seja, qualquer objeto (pessoas, ideias ou objetos físicos) se investidos de afetividade, se tornam valores. Seguindo este pensamento, percebe-se que a escola lida diretamente com valores, pois cada aluno, professor e a própria instituição tem valores pessoais. O autor nos propõe à reflexão de quais valores a escola trabalha e quais seus objetivos, dito isso, o texto se divide em três temas: Conhecimento, moral e ética; cada um deles seguido de uma definição, sua relação com valores, uma análise conjuntural e possíveis estratégias educacionais. O conhecimento Taille define conhecimento como um “sistema de informações articuladas, articulação esta que lhes confere significado.” Ou seja, o conhecimento é a capacidade de, obtendo duas informações, conseguir relaciona-las e dar sentido a elas, o autor cita o exemplo do 3, conhecer esse número é uma informação, e saber que 9 é outro, é outra informação. Porém, compreender a produção do número natural e conseguir relacionar os dois em contas de adição, subtração etc é possuir um conhecimento. É válido ressaltar que todas as disciplinas (artes, ciências, educação física etc) trabalham com conhecimento, pois articulam diversas informações nelas e entre elas. Sendo o conhecimento um objeto, este pode ser investido de afetividade, logo torna-se um valor. O autor divide essa relação de conhecimento e valor em quatro tópicos: 1.Ver no conhecimento uma riqueza cultural que possui valor em si mesmo: o conhecimento é “um valor fim”, de prazer pessoal em estudar e conhecer determinadas áreas do conhecimento, não necessariamente com uma finalidade de “servir” para algo; 2.Ver no conhecimento um elemento do progresso da humanidade: Neste o conhecimento serve de “meio” para alcançar uma vida social mais confortável e justa. Como o direito, que é um meio de conhecer seus direitos socias, pessoais, financeiros etc; direito defesa e acusação; melhorando assim a convivência dos seres humanos na sociedade. 3.Ver o conhecimento como meio para ter sucesso na vida e ascender socialmente: Como anteriormente, o conhecimento serve de “meio”, mas nesse caso é pessoal, usamos ele para ter emprego, dinheiro etc. Não é um progresso social, mas sim individual. 4.Ver no conhecimento um saber necessário à autonomia intelectual: Neste caso, ele continua servindo como um valor meio, só que aqui o conhecimento serve para nos “proteger da alienação, das manipulações ideológicas, das mentiras ou mitos que circulam”, possuir esse conhecimento para analisar o real valor das informações que são passadas para nós no dia-a-dia. Análise Conjuntural A sociedade atual vem sendo chamada de “sociedade da informação” pois somos constantemente bombardeados com elas, a maior dificuldade tem sido filtra- las para saber a veracidade delas. Dessa forma, o conhecimento e a informação não podem ser confundidos. Nessa sociedade, o conhecimento se tornou algo que só se é valorizado quando se tem uma ambição pessoal ou social por trás, pois só se são valorizadas ações com resultados imediatos, deixando a curiosidade e o conhecimento em segundo plano. Portanto, a relação conhecimento/progresso ficou ameaçada, visto que o conhecimento científico atualmente ficou atrelado às ameaças presentes nesse contexto, como a criação de bombas, armas químicas e etc. A relação entre posse de conhecimento e ascensão social também foi posta em risco, visto que nos dias de hoje ocorre uma grande banalização do conhecimento, onde estudar e se aprimorar em alguma área tem sido algo que as pessoas estão descartando, se procurando cada vez mais, caminhos que são vistos como mais fáceis para a obtenção de dinheiro, luxo, melhora de vida, como se o conhecimento fosse algo que somente servisse para alguma ascensão. Com isso, a ação do professor diante todos esses fatores ameaçando o verdadeiro sentido de conhecimento na sociedade atual, deve ser do mesmo servir como o canal para uma melhor instrução do valor do conhecimento, tentando, através de escolas e universidades, esclarecer para seus alunos, a distinção entre informação e conhecimento, ajudando esses alunos a terem ideias próprias, de forma que eles consigam se encontrar no meio de tantas informações que são prejudiciais e manipuladoras. A moral: como devo agir? A princípio, para definir o conceito de moral é preciso separar a forma do conteúdo, ou seja, o “plano moral” da moral propriamente dita. Ao fazer essa distinção é possível pontuar que o plano moral corresponde as ações obrigatórias direcionadas ao ser humano, como por exemplo a obrigatoriedade de “não matar”, em outras palavras, esse conceito pode ser definido como os “deveres” a serem seguidos. Outra definição seria a partir do questionamento: como devo agir? A moral diz respeito a uma consciência coletiva e a valores que são construídos por convenções, as quais são formuladas por uma consciência social, o que equivale dizer que são regras sancionadas pela sociedade, pelo grupo. Enquanto que a moral em si, pode ser definida como o conteúdo associado ao plano moral, com isso faz necessário explicitar o primeiro conteúdo para o dever moral: a justiça, baseada na igualdade e equidade. Outro conteúdo a ser pontuado é a dignidade inerente ao ser humano. Tais conteúdos supracitados, são coerentes com o imperativo categórico Kantiano, isto é, nossas ações, para serem morais, nunca devem fazer uso de outros como instrumento para nossos objetivos pessoais. Dito isso, é importante lembrar que esses conceitos podem variar de acordo com a cultura de determinado grupo. Ter uma noção de moral bem definida é muito importante porque dela depende a convivência, sem esse pacto cada pessoa viveria de acordo com aquilo que acredita ou deseja, fazendo tudo quando e como quisesse. Seria uma situação extremamente caótica e é por isso que a moral deve ser respeitada, porque ela garante a segurança de todos, levando em consideração o respeito às individualidades e diversidades de cada grupo social, visando a construção de uma consciência social e coletiva. Moral e valor É intrínseca a relação entre moral e valor, pois valores direcionam o comportamento humano e governam todas as nossas decisões. Os costumes são baseados em valores, são estados emocionais que damos importância e que buscamos vivenciar mesmo que de forma inconscientemente. E os nossos valores foram construídos ao longo de nossas vidas, através principalmente dos nossos pais ou das pessoas que nos educaram enquanto pequenos. Além da educação, sofremos influência da nossa cultura, da nossa escola, da cidade onde moramos, das experiências de vida, através dos nossos familiares e das histórias vividas pelos nossos ancestrais. Valores não mudam, eles seguem sendo reforçados ao longo de nossas vidas, com isso, cada pessoa o tem como sua orientação, que acompanha ao longo de toda a sua vida e que quandoconhecido, faz você ser muito mais consciente. Análise conjuntural A avaliação da “saúde” moral de uma sociedade é uma missão difícil de se realizar, pois são poucas as ferramentas, além da intuição, capazes de identificar isso. Nesse contexto, pode-se afirmar que existirá sempre pessoas mais e outras muito menos inspiradas pelos deveres, confirmando um certo “mal-estar’ moral na sociedade ocidental. Se levado em consideração a realidade de séculos anteriores, por exemplo do período em que existia a escravidão, proibição de atividades profissionais por questões envolvendo a sexualidade, a sociedade hodierna, no que se refere a respeito diretos e à dignidade, nós “evoluímos”. Contudo, pode-se identificar, infelizmente, certas práticas como as que foram citadas ainda hoje, no entanto, a principal diferença é que naquele período tais atitudes eram tidas como normais e legitimas, diferente da realidade atual em que são estritamente proibidos moral e constitucionalmente. A ética: que vida eu quero viver? Primeiramente, é importante que que se saiba o conceito de ética, pois segundo La Taille (2006) ela é comumente vista como sinônimo de moral, e por isso pode haver confusão entre as definições. Assim, segundo o autor, a ética trata-se do significado e valor da vida, ou seja, qual é o ideal do sujeito sobre uma vida significativa. La Taille (2006) ressalta que nem todas as pessoas refletem sobre isso, mas na prática, as escolhas que tomamos na vida se guiam através de determinados valores. Com isso, o autor aborda sobre ética em nosso meio social, e nos mostra o quanto ela interfere em nossas vidas também, sendo como base exemplar de pessoas honestas de valores ou não. Em meio a diversos tipos de prazeres, pequenos mas que valem a pena, como amar e ser amado, ter saúde, amizades, etc. Sempre tendo que escolher a que rumo tomar na vida, e a ética por sua vez, é uma virtude a ser seguida de forma presente nas atitudes de cada indivíduo. Porém, obter dinheiro, fama, etc, é muito bom, desde que não venha ferir os valores éticos e morais do agente, como a lealdade e o respeito. Porém, é necessário ter em mente que nem todas as escolhas dos indivíduos sobre o que seria uma vida “boa” podem ser chamadas de escolha ética, visto que para estarem no plano ético, segundo o autor, devem estar associadas À vida boa de outras pessoas num contexto moral de justiça [...] Todas as opções individuais a respeito de felicidade são aceitáveis contanto que se inspirem num projeto no qual o outro tenha lugar, e que se paute pelos ideais de justiça e dignidade (LA TAILLE, 2006, p.16) Com isso, nota-se que as atitudes individuais éticas andam juntas com os valores morais da sociedade. E essa relação não está apenas na opção valorativa, mas também inserido no psicológico de cada um, pois como o autor coloca em seu texto, o plano ético e moral tem grande relação com a construção da identidade do sujeito. Toda escolha individual pode estar ou não alinhada a um valor moral. E as escolhas dizem quem é aquela pessoa e como ela pensa. Análise Conjuntural Até não muito tempo atrás, havia uma moralização do plano ético onde um exemplo disso era que a mulher só podia ser feliz e de realizar-se com seus planos se ela casasse e tivesse filhos, além de que caso contrário a mesma seria mal vista na sociedade. Atualmente o ser humano tem o poder de decidir ou escolher como vai viver a vida. Parte do individualismo considera como algo positivo, mas falando em uma liberdade usufruída no plano ético já considera um ponto negativo, já que o indivíduo só se importa com o seu lado o que acaba resultando em índices de suicídios e é possível perceber na relação entre "ser" e "ter", onde "ser" é falado por muitos como o importante, outros já dizem que "ter" é o sentido de "ser". No texto também é visualizado uma outra associação perigosa que associa felicidade à fama e glória, são os famosos " quinzes minutos de fama" onde se é trocado a intimidade pela esperança de serem famosos. Contudo, com o aumento de publicações que envolve o tema felicidade e que podem vim em forma de livros ou de forma um pouco mais crítica, é notório que o tema ético é incontornável e que as pessoas não estão satisfeitas com as soluções, aí surge uma reflexão sobre onde se é possível buscá-la, assim vem o questionamento se a escola pode ajudar, com isto, a escola pode sim ajudar a se situarem no plano ético, mesmo sabendo que não se trata de uma questão curricular, mas se encontra presente em quem ensina e em quem aprende. Sendo assim, o professor deve repassar esse conhecimento aos alunos de forma motivadora na sua aprendizagem, sempre tratar bem, de maneira ética, sem favorecer ou rotular, ensinando de forma ética ao falar, agir com os alunos na sala de aula, mostrando exemplos de ação moral tipo (falar sempre a verdade, respeitar os pais) etc. Ressaltando que nem todos utilizam a ética como forma de conquistar os prazeres momentâneos da vida, a ética vem da filosofia que trabalha com a moral, ou seja, o bom ou mal, certo ou errado. Por isso, a ética e a moral possuem a mesma base etimológica. Considerações finais Por fim, compreendemos que a escola tem um papel muito importante na construção do conhecimento, da ética e da moral do aluno. O professor por sua vez, é o agente que instrui e auxilia na construção de novos valores dos alunos, sendo assim, essencial para essa formação. Porém o repasse dos valores morais e éticos só é possível se os profissionais da escola e os familiares dos alunos, estejam alinhados com esses valores e que isso esteja claro entre todos. Visto que a cultura escolar vai além dos conteúdos disciplinares da prática pedagógica e influencia diretamente na identidade dos alunos. Portanto, é preciso que todos se comprometam na construção e reconstrução de sujeitos éticos, para que a justiça e dignidade seja uma realidade mais presente. Referências bibliográficas LA TAILLE, Yves de. A escola e os valores: a ação do professor. In: LA TAILLE, Yves de; SILVA, Nelson Pedro e Justo, José Sterza. Indisciplina/disciplina: ética, moral e ação do professor. 2. Ed. Porto Alegre: Mediação, 2006. P. 05-21