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John Hus, o mártir( John Hus) 1. Ano de produção: 1977 2. País(es) de produção: Estados Unidos 3. Diretor: Michael Economou 4. Roteirista(s): Richard Morean 5. Produtor(es): Faith for Today 6. Contém cenas de: Livre 7. Temas analisados no resumo do filme: representação do personagem JohnHus - circulação de ideias na Europa medieval - relação entre John Hus e onacionalismo 9. Resumo do filme: Menos conhecido do público em geral e, por isso mesmo, instigante, JohnHus – ou Jan Huss - foi um dos críticos da Igreja Romana anteriores à ReformaProtestante. Ele nasceu na Boêmia, atual República Tcheca, no final do séculoXIV. De família humilde, conseguiu estudar na Universidade de Praga, umimportante centro universitário naquele período, na qual se formou em Filosofia eTeologia. Após se destacar nos estudos, tornou-se professor daquela instituição e,posteriormente, reitor. Ainda conseguiu um cargo como pregador na capela dos Santos Inocentes de Belém, em Praga. Extremamente encantado com as teses deWycliffe e enfrentando disputas políticas no interior do seu reino, John Hus foiconsiderado herege pelo Papa João XXIII e convocado a comparecer ao Concíliode Constança, pelo qual foi condenado e sentenciado à morte. No entanto, após oseu martírio, teve início uma forte reação popular na Boêmia, que ficou conhecida como Guerra Hussita. Diversas cruzadas foram enviadas contra esse território esó tiveram êxito após a divisão do movimento e posterior traição de uma de suasfacções.O filme John Hus, o mártir , produzido em 1977 e dirigido por MichaelEconomou, narra a história deste pensador heterodoxo, desde o ingresso nauniversidade até seu martírio. Antes de iniciar a análise dessa obra, convémressaltar que ela é uma produção confessional, elaborada pela produtora Faith fortoday , que se descreve da seguinte maneira: “Faith For Today is a televisionministry committed to sharing God's grace with the world through broadcastmedia” ( Faith for Today é um grupo televisivo que tem por objetivo divulgar a graçade Deus para o mundo através da mídia). Ao que parece, esta produtora está ligadaao ramo protestante dos Adventistas. Portanto, o filme traz um forte caráterpanfletário. Apesar de ser um antigo filme confessional, apresenta questõespertinentes ao debate e que elucidam não só aspectos do medievo, mas tambémprocessos ulteriores que desembocarão no surgimento da chamada “IdadeModerna”. O presente texto se preocupará de três aspectos principais ao analisa o filme: a construção fílmica do personagem John Hus, a circulação de ideias naEuropa medieval e a relação entre John Hus e o nacionalismo nascente no SacroImpério Romano Germânico.Para construir um personagem o diretor conta com diversas estratégias.Pode optar, por exemplo, por associá-lo a características devidamentereconhecidas em outras personalidades históricas e, também, pode lançar mãodos chamados elementos extradiegéticos, símbolos externos ao filme quecontribuem para a formação de metáforas. No filme aqui analisado, MichaelEconomou utiliza essas duas estratégias na elaboração do seu protagonista.Primeiro, Hus é constantemente associado a Cristo; assim, em diversosmomentos, ele cita passagens dos Evangelhos ditas por Jesus. Um exemplo clarotambém pode ser encontrado no final do seu julgamento: quando está sendoencaminhado para a fogueira, Hus cita a oração feita por Jesus, segundo oevangelho de Mateus, antes de ser levado à morte: “Pai, afasta de mim esse cálice, contudo não seja feito o que eu quero, mas, sim, o que tu queres”. Essa associaçãodenota ter um objetivo claro de mostrar Hus como um perfeito cristão – imitadordo Cristo. Por fim, o diretor também se utiliza dos elementos extradiegéticos.Logo no início do filme há uma cena em que aparece uma vela com uma pequenachama e em seguida corta-se para o rosto de Hus. Além disso, na última sequênciado filme, após ser queimado, a câmera fecha nas chamas da fogueira e a velareaparece, com sua pequena chama tremulando. Parece clara a intenção do diretorem diferenciar as intenções da Igreja Romana e do pensador boêmio. Enquanto aprimeira acende chamas de destruição, o segundo, mesmo após ser morto,permanece sendo uma pequena chama – representado pela vela que continua aarder - iluminando a escuridão em que se encontrava a humanidade. Essa hipóteseé reforçada pelas últimas palavras de Hus: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão demim”, as mesmas ditas por um cego curado pelo Cristo. Portanto, ele estariatrazendo luz à população cega.Outro aspecto interessante que a obra em questão pode suscitar é acirculação das ideias na Europa tardo-medieval. Constantemente, o protagonistase refere aos escritos de Wycliffe, pensador inglês. Como essas ideias teriam chegado até à Boêmia? Essa questão se mostra pertinente, na medida em quefavorece a percepção dos acontecimentos históricos como frutos de um ambientepropício ao seu aparecimento e não como fatos isolados, perpetrados por mentesbrilhantes e vanguardistas. Uma das possíveis explicações para a circulação dessasideias é aquela conferida pelo casamento das casas dinásticas da Inglaterra,representada por Ricardo II, e da Boêmia, representada por Anne deLuxemburgo, irmã do rei boêmio. Esse casamento favoreceu o diálogo entre osdois reinos, sobretudo entre as universidades de Oxford e Praga. Da mesmamaneira, as teses de Hus também chegarão à Saxônia e influenciarão um mongeagostiniano chamado Martinho Lutero.Finalmente, cabe ressaltar os impactos do movimento hussita e suasrelações com o nacionalismo nascente em algumas regiões da Europa, quefavorecerão o surgimento dos Estados Nacionais. Esse aspecto traz comocontributo à compreensão mais larga da história, na medida em que mostra como fatos religiosos e políticos andam imbricados e, muitas vezes, não é possívelentender um sem o outro. Sendo assim, é possível ter uma percepção maisacertada do longo diálogo representado no filme entre o imperador Sigismundo eo cardeal, representante de Roma, no qual o imperador reitera continuamente ofato de que Hus é seu súdito, por isso deveria ser protegido. Ao que orepresentante da Igreja responde, dizendo que seria melhor para o monarcapermanecer fiel a Roma do que tê-la como inimiga. Novamente, aparece aqui ointenso confronto entre a Igreja Romana e os poderes locais em fins da IdadeMédia, que, como dito anteriormente, desembocarão na formação dos chamadosEstados Nacionais.