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humana.
Esta concepção é compartilhada pela Psicanálise, em especial a assumida 
por Aberastury e Knobel (1989), que introduziram o conceito de “síndrome 
normal da adolescência”. Segundo eles, a adolescência pode ser caracterizada 
por uma sintomatologia expressa em uma série de itens. Nesta concepção fica 
evidente um enfoque naturalizador, universalizador e ainda patologizador por 
ser carregada de conflitos naturais.
Osório (1992) é outro autor que apresenta a postura típica da Psicologia em 
relação à adolescência. Também adepto da abordagem psicanalítica, segundo ele 
“[...] sem rebeldia e sem contestação não há adolescência normal” ou então “[...] 
o adolescente submisso é que é exceção à normalidade”. (OSÓRIO, 1992, p. 47). 
Todas estas afirmações pecam por apresentarem alguns riscos. Para Blasco (apud 
AGUIAR; BOCK; OZELLA, 2007), o primeiro risco seria rotular de patológico o 
adolescente não rebelde ou o que não apresente as dificuldades previstas nesse 
período. Um segundo risco se refere considerar saudável o ser “anormal” e no qual 
problemas sérios podem acabar passando despercebidos ao serem considerados 
“bobagens da idade”, por exemplo. Outro risco seria o de estudos dessa natureza 
se pautarem em algum tipo de jovem, como: homem branco, burguês e ocidental, 
o que já em primeira instância mostraria suas limitações. 
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UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
Entretanto, existem saídas para estes equívocos e alternativas para superar 
estas visões ainda bastante presentes e dominantes na Psicologia. Em outra 
perspectiva, embora não possamos negar as alterações biológicas e corporais 
presentes neste período e que isto possa ser algo natural e universal (ocorra em 
todos os lugares), o fato de a adolescência, como compreendida por nós, não se 
fazer presente em algumas sociedades, leva-nos à ideia de ela ser uma invenção 
cultural. 
Em muitas sociedades primitivas, tinham-se os chamados “ritos de 
iniciação” e estes não duravam mais do que algumas semanas. Terminados esses 
rituais, os jovens adquiriam o status de adultos, sem que fossem verificados 
conflitos ou tensões nesse intermédio. Isso nos leva a crer que o nosso modo de 
convívio incrementa e dificulta essa passagem para o estado adulto. 
Além de ser uma passagem demasiadamente longa (vários anos), há 
uma tensão e sobrecarga que justifica o termo tão utilizado: crise. Como afirmam 
Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 292), “[...] quando uma sociedade exige de seus 
membros uma longa preparação para entrar no mundo adulto, como na nossa, 
teremos de fato o adolescente e as características psicológicas que definirão a 
fase”. E nesse sentido Freud (apud CARMEN, 1988, p. 16) nos coloca um desafio: 
“[...] já que se invocaram os fantasmas, não é o caso de sair correndo quando 
eles aparecem”, ou seja, se a nossa cultura criou a crise adolescente, cabe a ela se 
encarregar de entendê-la.
UNI
Para entender melhor a ideia de invenção cultural, segue o relato de um estudo 
realizado pelo etnólogo Bronislaw Malinowski acerca da cultura dos nativos trobriandeses, 
povo morador das ilhas do noroeste da Nova Guiné na Oceania.
De acordo com Bock; Furtado; Teixeira (2002, p. 292):
No caso dos jovens trobriandeses, a puberdade começa antes que na 
nossa sociedade, mas, nessa fase, as meninas e os meninos trobriandeses já 
iniciaram sua atividade sexual. Não há, como em outras culturas primitivas, 
um determinado rito de passagem para a vida adulta. Apenas, gradualmente, 
o rapaz vai participando cada vez mais das atividades econômicas da tribo e 
até o final de sua puberdade será um membro pleno da tribo, pronto para se 
casar, cumprir as obrigações e desfrutar dos privilégios de um adulto.
TÓPICO 3 | ADOLESCÊNCIA
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Essa fase descrita pelo etnólogo, se é possível estabelecer um paralelo, 
estaria para a nossa sociedade, em termos etários, definida como pré-
adolescente. Entretanto, no nosso caso, as relações sexuais vêm depois dessa 
fase. Outra diferença é que os nativos das ilhas Trobriand, devido ao tabu que 
representam as relações sociais com irmãs, saem de casa na puberdade, para 
uma espécie de república organizada por um jovem mais velho não casado, 
ou por um jovem viúvo. Essa “república” tem o nome de bukumatula, e lá os 
jovens, moças e rapazes moram sem controle dos pais. Mas, até que casem e 
organizem suas próprias casas, trabalham para as suas famílias.
Esse exemplo deixa claro que a adolescência não pode ser considerada 
uma fase natural do desenvolvimento humano. Não podemos negar a existência 
em qualquer cultura da passagem da infância para a fase adulta, embora ela se 
dê de forma muito diferente em um lugar e outro: duração, comportamentos 
associados etc. No caso dos trobriandeses, como há um salto da pré-adolescência 
para a fase adulta, poderíamos afirmar, sem medo, de parecermos ridículos que 
lá não existe adolescência. 
A adolescência, dessa forma, é uma fase típica do desenvolvimento 
do jovem na nossa sociedade. Nessa sociedade altamente industrializada há 
uma exigência sem precedentes de um período específico para que os jovens se 
preparem para o ingresso no mundo do trabalho, dentre outras. Aguiar, Bock e 
Ozella (2007, p. 170), ao tentarem defini-la, afirmam que “[...] a adolescência se 
refere, assim, a esse período de latência social constituída a partir da sociedade 
capitalista gerada por questões de ingresso no mercado de trabalho e extensão 
do período escolar, da necessidade do preparo técnico”. Vale ainda o destaque 
de que a partir do momento que temos como determinante o fator econômico, 
jovens de diferentes classes sociais acabarão passando por essa transição de 
forma diferenciada. Em uma mesma cultura ainda assim teremos várias 
adolescências. 
Diante dessas constatações fica claro que o “normal” em nossa sociedade 
nada mais é do que aquilo que hoje é valorizado e que a maioria acaba acatando: 
não é natural nem eterno e isso é válido também para o psiquismo humano. Tudo 
no psiquismo humano pode ser diferente, já que é constituído por um processo 
histórico. As características da adolescência somente podem ser entendidas se 
olharmos as relações sociais e a cultura nas quais estamos inseridos e não somente 
o desenvolvimento do adolescente considerado de forma isolada. Não há como 
negar a adolescência, mas sim devemos ter o cuidado de compreendê-la como 
uma produção humana. 
Em termos genéricos é possível afirmar que temos várias questões 
colocadas, dentre elas a tendência do jovem se sentir confuso e “perdido” diante 
de muitas contradições ligadas ao fato de não ser mais menino, ao mesmo tempo 
que ainda não pode ser considerado um adulto propriamente dito. Estando no 
meio do caminho, tem dificuldade de abandonar os resquícios de uma infância 
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UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
que, querendo ou não, lhe traz segurança e proteção; e, por outro lado, sente-
se atraído pelo mundo adulto, mesmo que ainda tenha dificuldade de gozá-
lo plenamente. Por se perceberem no meio do caminho, acabam tendo muitas 
dúvidas. 
Para Kahhale (2007), no que tange à sexualidade, ressaltada pela 
abordagem psicanalítica, esta deve ser analisada a partir de uma leitura histórica 
e contextualizada. Devemos buscar resgatar a gênese da sexualidade tal qual a 
vivemos e a concebemos atualmente em nossa sociedade. A sexualidade deve 
ser sempre pensada e debatida a partir do campo das relações sociais, da cultura, 
dos valores e formas sociais de vida, algo vivido no âmbito individual, mas 
cuja constituição nos sujeitos é regida pelas normas e valores sociais vigentes. 
A construção de tabus como a proibição do sexo antes do casamento pela Igreja 
católica, ou então, a heterossexualidade enquanto algo esperável são exemplos 
disso.
Se temos como adolescência o momento em que homens e