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mulheres 
começam a ingressar no universo adulto, não há como negarmos que a 
sexualidade acaba sendo um ingrediente presente. É evidente que a sexualidade, 
que tem seu lugar no corpo humano, deve ser considerada nos seus aspectos 
biológicos. Entretanto, as mudanças físicas ocorridas na adolescência devem 
ser significadas na cultura. Dessa forma, não podemos ignorar os processos de 
maturação fisiológica, ao mesmo tempo devemos compreendê-los na sua dinâmica 
sociocultural. Se tínhamos a sexualidade com uma função básica: a sobrevivência 
da espécie, hoje acaba tendo contornos muito mais complexos e que, por muito 
tempo, foram ignorados pela Psicologia ao naturalizar este fenômeno.
Para Bock, Furtado e Teixeira (2002), a sexualidade passa a ser uma 
incógnita por ser recoberta de preconceitos, de moralismo, de dúvidas. Na nossa 
cultura o sexo em si, por exemplo, acaba sendo um tabu por ser algo velado e em 
que o adolescente acaba tendo muitas perguntas e poucas respostas, o que gera 
uma ansiedade de certa forma esperada. Na adolescência, tem-se a emergência de 
várias questões ligadas à sexualidade, como: a opção sexual, o início da atividade 
sexual-afetiva, anticoncepção etc. Na juventude, em específico a questão sexual, é 
aflorada e se apresenta diante da contradição desejo/repressão. 
De forma geral, como apresentam Aguiar, Bock e Ozella (2007), a 
contradição básica da adolescência está no fato de que os jovens apresentam 
todas as possibilidades de se inserir na sociedade adulta em termos cognitivos, 
afetivos, de capacidade de trabalho e de reprodução, no entanto, esse não é 
autorizado a essa inserção. Dessa relação e contradição será constituída grande 
parte das características daquilo que concebemos como adolescência: rebeldia, 
instabilidade, busca de identidade e conflitos. Por isso, não há como negar estas 
dificuldades, no entanto, elas foram e são construídas socialmente. O “ser” 
jovem é o “ser” vinculado nos meios de comunicação, fruto das relações que 
estabelecemos cotidianamente a partir da contradição condição/autorização.
TÓPICO 3 | ADOLESCÊNCIA
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Em síntese, a nossa sociedade ocidental, além da infância, criou uma 
etapa do desenvolvimento como passagem do mundo infantil para o mundo 
adulto. Em outras épocas isso não se deu dessa maneira. De um simples ritual de 
iniciação, esse momento foi transformado em algo complexo, complexo como as 
relações dos homens entre si e com a natureza hoje.
UNI
A seguir, você lerá um trecho de um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 
20 de setembro de 1998, pelo psicanalista Contardo Calligaris e citado por Bock, Furtado e 
Teixeira (2002, p. 303-304). Em contramão com a psicanálise clássica, suas palavras revelam 
muito bem o contraposto entre a visão hegemônica da adolescência e a concepção de 
adolescência enquanto construção recente.
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UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
LEITURA COMPLEMENTAR
A SEDUÇÃO DOS JOVENS
Contardo Calligaris
De qualquer forma, para que a adolescência seduza os adultos, é necessário 
primeiro que ela exista. Só recentemente ela se tornou uma ideia forte na nossa 
cultura. O conceito de um momento crucial e crítico da vida, entre a infância e a 
vida adulta, afirma-se no fim do século passado. A adolescência é vista como um 
momento difícil, arriscado, de preparação e acesso ao exercício da sexualidade e 
da plena autonomia social. Ela é concebida como o corolário psicológico e social 
de uma crise biológico-hormonal de crescimento.
 
As coisas mudam quando a antropóloga Margaret Mead publica, em 
1928, Coming of Age in Samoa (crescendo em Samoa), com o intento específico de 
mostrar que os tempos da vida não são ciclos naturais ou biológicos, mas culturais. 
Mead mostra que a adolescência nas ilhas Samoa mal merece ser considerada 
um momento específico da vida, ou seja, a adolescência como nós parecemos 
concebê-la não é a tradução psicológica obrigatória das tempestades hormonais 
da puberdade. O estresse da adolescência – ela afirmava – “está em nossa cultura, 
não nas mudanças físicas pelas quais passam as crianças”.
 
Tornava-se então possível e necessário se perguntar por que, logo em 
nossa cultura, a adolescência se constituiria numa época proverbialmente difícil 
e crucial. A resposta de Mead vale ainda hoje. Em resumo, ela dizia: em uma 
sociedade aberta como a nossa – na qual a função social de cada um não é decidida 
de antemão – a adolescência é um momento de grande intensidade dramática, 
por ser o tempo da possibilidade (e necessidade) de preparar e fazer escolhas 
decisivas para a vida futura.
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RESUMO DO TÓPICO 3
As informações principais deste tópico podem ser resumidas nos 
seguintes itens:
• A partir de uma perspectiva temporal é possível dizer que a adolescência é um 
estágio intermediário do desenvolvimento, se coloca entre a infância e a vida 
adulta.
• Tanto a Psicologia como as ciências médicas historicamente acabaram 
naturalizando, universalizando e patologizando a adolescência.
• Tanto a Psicologia Social como a Antropologia tendem a compreender a 
adolescência como uma invenção cultural já que, como compreendida por nós, 
não se faz presente em algumas sociedades.
• Na perspectiva adotada neste tópico, a adolescência pode ser considerada uma 
fase típica do desenvolvimento do jovem na nossa sociedade industrializada 
e que exige um período específico de preparo para o ingresso no mundo do 
trabalho, assim como se fazem presentes várias contradições como desejo/
repressão e condição/autorização.
106
1 Interprete a afirmação da antropóloga Margaret Mead presente no texto 
complementar anterior: “O estresse da adolescência está em nossa cultura, 
não nas mudanças físicas pelas quais passam as crianças”.
AUTOATIVIDADE
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TÓPICO 4
IDADE ADULTA E VELHICE
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Normalmente, ao se referir à Psicologia do desenvolvimento, tem-se a 
ideia de que esta é uma área da Psicologia voltada a compreender como se dá o 
desenvolvimento humano do nascimento até a morte. Entretanto, ao entrarmos 
em contato com a literatura da área, percebemos que a maioria do material 
voltado a esta temática se volta à compreensão da infância. O que fica evidente 
no estudo do desenvolvimento humano é que este acabou sendo considerado por 
muito tempo como sinônimo de desenvolvimento infantil e isto mudou apenas 
recentemente. 
A vida adulta e a velhice, enquanto etapas estudadas no campo do 
desenvolvimento humano, é algo verificável somente nas últimas décadas, e este 
surgimento tardio fica claro ao nos depararmos com a escassez de material voltado 
especificamente à maturidade, enquanto momento importante e merecedor de 
aprofundamento na Psicologia. 
Mesmo com essa limitação, a seguir serão apresentadas e discutidas 
algumas nuances importantes presentes na vida adulta e velhice, períodos 
significativos do desenvolvimento humano.
2 IDADE ADULTA
A vida adulta e a velhice constituem desafios a todas as sociedades 
humanas, sobretudo no mundo moderno, cuja dimensão social se encontra 
centrada na juventude, como mito e como valor que orientam a percepção de 
mundo e a compreensão possível da vida. No entanto, como afirma Gusmão 
(2001), ao ser vivida, a própria vida se encarrega de destruir o mito e expor a 
realidade humana em sua fragilidade biológica e social. 
Papalia, Olds e Feldman (2006) expõem que a idade adulta já foi 
considerada um período relativamente estável, no entanto, parece mais coerente 
termos que, assim como em outras fases do desenvolvimento humano, o debate 
deve ir além da questão estabilidade versus mudança, já que o desenvolvimento 
psicossocial envolve ambas e a questão central deve ser: que tipos de mudança 
ocorrem? O que os ocasiona? 
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UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
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