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entre os privilegiados, muitos 
carregarão alegremente seus 80 anos.
Bastante comum é a compreensão de velhice como terceira idade, 
caracterizada por um período no qual se olha muito mais para o passado do que 
para o futuro e o panorama o conduz a reflexões não muito otimistas, como as 
que a perspectiva do porvir produz no jovem. É comum, nesse momento, ser 
feito um certo balanço entre o que foi realizado e os frutos obtidos, o que, muitas 
vezes, acarreta um certo desengano. Dentre as várias dificuldades presentes nesse 
momento da vida, destacam-se as limitações físicas, mas, sobretudo, e de maior 
interesse nesse Livro de estudos, as de ordem psicológica e social. Novamente, 
é importante advertir que a medida e o tempo dos processos de envelhecimento 
estão submetidos a grandes diferenças individuais. Embora não seja possível 
negar que haja limitações corporais e dificuldades cognitivas, há casos em que 
se percebe assombroso vigor físico e mental, ao passo que outros se encontram 
muito debilitados e em alguns casos em processos de demência.
TÓPICO 4 | IDADE ADULTA E velhice
111
IMPORTANT
E
Em contramão ao que normalmente se constata, surge o termo utilizado 
atualmente “melhor idade”. Esse termo parece ser equivocado diante das várias dificuldades 
e dos vários obstáculos presentes na velhice e que revela um movimento que pode ser 
chamado de “juvenização da velhice”, ou seja, em que cada indivíduo tenta construir para si 
uma idade desejada, que difere da idade que possui. 
Para marco de início da velhice, vários autores têm a aposentadoria como 
algo com um significado importante. Associada a ela, surge um novo modo de 
vida que precisa ser bem assimilado. Se biologicamente a velhice é a etapa da 
vida caracterizada pela queda da força e degeneração do organismo, da mesma 
forma existem implicações sociais e psicológicas que não podem deixar de ser 
consideradas. Se o envelhecimento biológico pode ser considerado como inerente 
ao processo da vida, muitos reflexos psicológicos e sociais podem e devem ser 
contextualizados. É importante o fato de que o envelhecimento biológico por si 
só traz mudanças inevitáveis no campo psicológico. A dificuldade em realizar 
coisas, que anteriormente eram fáceis e consideradas significativas, acaba por 
despertar um sentimento de perda e inutilidade, típico nessa faixa etária.
Em relação à aposentadoria, citada no início do parágrafo anterior, o fato 
é que são vários os estudos que trazem os efeitos deletérios da aposentadoria da 
vida dos idosos e a perda de áreas de interesse, que acabam por dar sentido às 
suas vidas. De tão preocupante essa questão, tem-se observado mortes repentinas 
em pessoas que a pouco tempo são aposentadas. 
Essas ocorrências são mais comuns naquelas que passaram quase toda a 
sua vida ocupadas em um trabalho especializado e acabaram não encontrando 
satisfação em outros aspectos da vida. Algumas empresas, diante da constatação 
de que uma aposentadoria brusca, em muitas pessoas, pode ser uma ameaça 
para a saúde, optaram por estabelecer aposentadorias parciais, promovendo, 
dessa forma, uma gradual transição no ato de aposentar. Para McKinney (apud 
MOSQUERA, 1978), a aposentadoria traz consigo o abandono ou a diminuição 
da força de trabalho, o que acaba por ameaçar a integração de si mesmo. Na nossa 
cultura, a aposentadoria é tida como o não emprego e, aliado a isso, são vários os 
reflexos sentidos pelo idoso, principalmente de ordem psicológica e social. 
O que parece estar em voga nessa discussão é que uma das melhores 
garantias para a conservação de uma boa saúde na velhice é estar ocupado em 
coisas que despertam verdadeiro interesse. Para Beauvoir (1990), é exatamente 
esse o grande desafio para o idoso, continuar perseguindo fins que deem sentido 
à nossa vida: dedicação a indivíduos, a coletividades, a causas, trabalho social ou 
político, intelectual, criador. 
112
UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
No campo relacional, como expõe Chazaud (1986), os apegos são 
geralmente questionados, assim como os papéis familiar, sexual e profissional. 
De forma geral, o grande drama, que parece estar presente no idoso, é a mudança 
brusca de seu padrão de vida. Seu modo habitual de se relacionar, de fazer, de 
se comportar, e que durante muito tempo fez parte do seu repertório, precisa ser 
agora reformulado e, por isso, gera medo e incerteza. 
Outro grande drama é a morte. Embora inevitável e encerre a história 
de uma existência, para muitos acaba não sendo uma ameaça a ideia de uma 
ampulheta com a areia chegando ao fim e a impossibilidade de começar essa 
contagem novamente, despertando um sentimento único para o ancião. 
O corpo passa a ser uma preocupação, principalmente no campo cognitivo, 
a partir do momento em que se constata a depreciação das funções intelectuais, 
como: a concentração, memória, fluidez mental e percepção. Estranhamente, o 
envelhecimento psicológico nem sempre é estreitamente relacionado à senilidade 
orgânica. Não há dúvida que há uma deterioração no nível orgânico, no entanto, 
a grande questão que se coloca é o que vem antes: o processo orgânico acarreta 
disfunções cognitivas ou o isolamento afetivo desencadeia essas alterações físicas? 
Vários estudos compartilham a ideia de que é uma via de mão dupla. 
O fato é que a velhice assume um alto significado por trazer o fim de 
um processo. Se o ser nasce, cresce, amadurece, envelhece e morre, esse último 
período acaba sendo único, por ser pautado em um declínio no desenvolvimento, 
o que nos incumbe da responsabilidade de perceber e ter atitudes diante disso, 
surgindo, assim, um problema central. Para Beauvoir (1990), o que caracteriza a 
atitude prática do adulto para com os velhos é sua duplicidade. O adulto, por um 
lado, inclina-se a agir de acordo com a moral vigente e, por uma pressão societal 
de séculos, a respeitar os idosos, enquanto, por outro lado, há o interesse em 
tratá-los como inferiores e em convencê-los de sua decadência. Segundo Beauvoir 
(1990), de maneira dissimulada, o adulto tiraniza o velho que depende dele. A 
sociedade pré-fabrica a condição mutilada presente na última idade e, muito por 
culpa dela, a decadência senil começa prematuramente, explorados, alienados e 
considerados “refugos”, “destroços”, denunciando o fracasso de uma civilização. 
Se não há como negarmos que a partir de certo número de anos o organismo 
humano sofre uma involução com uma redução das atividades do indivíduo, 
uma diminuição das faculdades mentais e uma mudança de atitude em relação 
ao mundo são impressionantes, que um grande número de animais morrem sem 
passar por um estágio degenerativo. Imaginada uma sociedade ideal, poderíamos 
afirmar que talvez a velhice não existisse. O indivíduo secretamente enfraquecido 
pela idade, mas não aparentemente debilitado, seria um dia acometido de uma 
doença e não resistiria. Infelizmente, a sociedade acaba se preocupando com o 
indivíduo somente na medida em que ele rende. 
TÓPICO 4 | IDADE ADULTA E velhice
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Para Lloret (apud GUSMÃO, 2001), o caráter do mundo moderno, em 
sua natureza capitalista, está dado pela ordem produtiva que torna o jovem e o 
adulto como úteis e compreende o velho e a velhice como uma irrupção perigosa 
da ordem, já que não são mais produtivos para o capital. Nesse sentido, os 
marginais da ordem devem ser postos sob controle, passando, agora a fazer parte 
de uma nova etapa da educação, que busca o enquadramento e a adaptação. 
O saber acumulado pelo velho o habilita a um lugar de destaque, porém, em 
uma sociedade centrada no jovem e no que representa sua força de trabalho e 
produção, o velho torna-se aquele que já não pode responder aos objetivos do 
sistema. São, pois, sujeitos reprimidos no contexto social, sem possuir ou ter uma 
forma particular de expressão. 
UNI
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