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do mercado capitalista (as leis que determinam o mercado vão 
determinar também as relações com Deus, “supermercado da fé”) e, ainda, a 
representação da culpa e do castigo (o sentimento de culpa e a ameaça de castigo 
são também empregados para incentivar as contribuições).
Em suma, o mecanismo de ancoragem é decisivo na legitimação da 
extorsão. O “dar dinheiro” é firmemente legitimado e ancorado no universo 
simbólico cultural-religioso brasileiro. A atividade religiosa dessas igrejas 
apresenta-se como uma simples continuação da vida cotidiana dessas pessoas, 
apresentando as mesmas regras de funcionamento. Guareschi (1995, p. 222), 
encerra seu estudo ao afirmar que “[...] é após estes momentos poderosos de 
catarse e alívio espiritual que se chega ao elemento material. Deus fez sua parte, 
operando milagres e curas. Os fiéis devem fazer a deles: pagar a conta”.
De forma geral, em relação aos avanços trazidos pela teoria das 
representações sociais, destacam-se dois apontados por Oliveira e Werba (1998, 
p. 114):
a) A teoria das representações sociais trata do conhecimento 
construído e partilhado entre pessoas, saberes específicos à 
realidade social, que surgem na vida cotidiana no decorrer 
das comunicações interpessoais, buscando a compreensão de 
fenômenos sociais.
b) A teoria das representações sociais colocou os saberes do 
senso comum em uma categoria científica. Ela veio valorizar 
este conhecimento popular, tornando possível e relevante sua 
investigação.
O campo de estudos em representações sociais, embora recente, tem 
se mostrado cada vez mais produtivo e isto é evidenciado pela crescente 
diversidade de questões pesquisadas. As representações sociais, enquanto 
imagens construídas sobre o real, vêm se revelando material importante nas 
ciências humanas, principalmente dentro da Psicologia Social.
160
No que diz respeito ao estudo das representações sociais é importante 
destacar que:
• As representações sociais são saberes provenientes do senso comum. São 
formas de conhecimento elaboradas coletivamente e, por isso, partilhadas por 
um mesmo conjunto social.
• A utilidade do estudo das representações sociais para a Psicologia Social é 
tamanha por garantir a aproximação com o conjunto de saberes e regras de 
uma determinada comunidade ou, em termos gerais, por aproximar a ciência 
ao senso comum.
• A origem das representações sociais ou do pensamento social é psicossociológica, 
ou seja, se dá a partir das relações entre sujeitos e circunstâncias a que são 
submetidos. Criamos para tornar familiar o não familiar.
• Ancoragem e objetivação explicam grande parte da formação de representações 
sociais.
RESUMO DO TÓPICO 3
161
AUTOATIVIDADE
1 Depois de ler este tópico, defina representação social e exponha a importância 
do estudo das mesmas para a Psicologia Social.
162
163
TÓPICO 4
IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
A partir de uma Psicologia Social crítica, ideologia e alienação são dois 
conceitos imprescindíveis para serem analisados por uma série de fenômenos 
relacionados ao homem moderno, homem imerso na sociedade aos moldes do 
que temos hoje. Se temos a Psicologia Social como o campo da Psicologia voltado 
ao estudo da interação social e à compreensão do homem nas suas relações 
sociais, como exposto na Unidade 1, faz-se necessário compreender toda a forma 
de opressão e dominação a que muitos são submetidos cotidianamente sem se dar 
conta. 
Com esse intuito, abordaremos tais conceitos na tentativa de contribuir 
para a emancipação humana e para o afastamento das ideias enganosas que a todo 
momento se fazem presentes no cotidiano.
2 IDEOLOGIA
Segundo Guareschi (1998), por muito tempo o termo ideologia não 
foi citado na Psicologia Social, porque a mesma foi uma disciplina altamente 
individualizante e experimental. O conceito e a teoria da ideologia só começam 
a fazer parte da Psicologia Social a partir da década de 70, do século XX, quando 
muitos autores iniciam a incorporação do tema em seus estudos e pesquisas. 
Embora o nome “ideologia” tenha surgido há pouco mais de um século, 
com diferentes nomes, o fenômeno, semelhantemente a como é compreendido 
hoje, já se fazia presente desde o momento que a vida social passa a ser analisada. 
A partir do século XV e XVI surgem estudos mais sistemáticos a respeito 
desse tema, embora ainda não fosse empregado o termo. Um exemplo disso é 
Maquiavel (1469-1527) que, em sua célebre obra “O Príncipe” (MAQUIAVEL, 
2007), discutiu as práticas dos príncipes, principalmente o uso da força e da fraude 
para conseguirem se perpetuar no poder. Essas estratégias ainda hoje são usadas 
para que os dominantes consigam se legitimarem.
Para Guareschi (1998), talvez não exista conceito mais complexo e sujeito 
a equívocos do que o de ideologia, o que é justificado quando se tem acesso à 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
164
infinidade de enfoques teóricos que dão sustentação a esse conceito e à atribuição 
de diferentes significados e funções ao mesmo. Nesse sentido, não é tarefa fácil 
abordar esse tema de modo claro e preciso. 
Guareschi (1998), no intuito de expor os muitos significados de ideologia, 
propõe alguns planos de análise, sendo dois os mais significativos e nos quais se 
percebe uma distinção central: estamos falando da dimensão positiva ou negativa 
da ideologia. 
Ideologia no sentido positivo ou neutro é entendida como uma cosmovisão, 
ou seja, o conjunto de valores, ideias e ideais de uma pessoa ou grupo. Nessa 
dimensão, todos, sem distinção, possuem sua ideologia, já que é impossível 
alguém não ter ideias, ideais e posicionamento a respeito das coisas. 
Já a ideologia no sentido negativo ou crítico seria constituída por ideias 
distorcidas e enganadoras: seria algo que ajuda a obscurecer a realidade e a 
enganar as pessoas. É algo ilusório e expressa interesses dominantes, no sentido 
de sustentar relações de dominação. Segundo Guareschi (1998, p. 94), tomar a 
ideologia no sentido negativo é bem mais interessante e proveitoso do que 
empregá-la como sendo um conjunto de ideias. “Ideias todos nós temos e não 
há como ser diferente. O importante, porém, é saber se essas ideias são falsas, 
enganadoras, se elas podem trazer prejuízos aos nossos colegas”. Nesse sentido, 
a seguir serão apresentadas essas duas “ideologias”, sendo que será enfatizada a 
ideologia no sentido negativo pela razão descrita anteriormente.
Tomelin e Tomelin (2004) falam em uma “boa ideologia” e uma “má 
ideologia”. A “boa ideologia” está associada a uma necessidade social e a um 
conjunto de ideias a respeito de algo. Por essa perspectiva, tudo o que nós 
pensamos acaba podendo ser considerado ideológico. Já o outro emprego faz 
alusão à manipulação social como forma de dominação. Enquanto prática, é o 
conhecimento utilizado interesseiramente, uma tentativa de convencer as pessoas 
por meio de um falseamento da realidade. Pode significar ainda o conjunto 
de ideias vinculadas por uma minoria dominante que, proveitosamente, quer 
manipular uma maioria dominada. 
Segundo os mesmos autores, a pergunta norteadora ao se referir à 
ideologia é: como pode o poder de poucos determinar a condição de muitos? 
Nesse sentido, a má ideologia ou a ideologia em seu sentido negativo, como o 
pensamento marxista, passa a ter um emprego político. Sua origem é constatada 
na ambição capitalista, que ao buscar acumular capital e explorar, precisa 
dificultar a percepção do que realmente acontece e alienar. Marx (1983) então se 
refere à ideologia como um mecanismo sutil, utilizado pela classe dominante para 
dominar e perpetuar-se no poder. “A ideologia é a voz do opressor e a alienação, 
o silêncio do oprimido”. (TOMELIN; TOMELIN, 2004, p. 138).
TÓPICO 4 | IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO
165
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