Mudar o nome do largo da Carioca?! Protesto. Com que direito? Com o que me dá o meu título de carioca da gema, o qual, se me não confere a mim a mesma autoridade que a outra qualquer pessoa conferem, por exemplo, os títulos de intendente, deputado ou senador, é de algum modo também, pelo menos neste assunto, representativo da vontade popular. Porque, podem crer, aqui onde estou, dentro das quatro paredes da minha sala de trabalho, eu adivinho que absolutamente ninguém nesta leal cidade tomaria a sério outra qualquer designação, fosse ela qual fosse, para aquele ponto da cidade, seu verdadeiro coração, onde um chafariz tradicional jorra, de não sei quantas bicas, a água deliciosa do aqueduto histórico da Carioca. Não se quebram tradições respeitáveis e afetuosas, como se quebram bugigangas de vidro. Por mais que pareça inerme um nome legado a coisas impassíveis por gerações extintas, a verdade é que pelo hábito de o repetirmos e de o ouvirmos durante largos anos ele adquire como que uma força viva, um prestígio pessoal, qualquer coisa de carinhosa e de estranha psicologia. As cidades têm alma. ALMEIDA, J.L. Dois dedos de prosa: o cotidiano carioca por Júlia Lopes de Almeida. Rio de Janeiro: FBN, Coordenadoria de Editoração, 2016. O protesto contra a alteração do nome do largo revela uma reação ao processo de A) secularização social e abandono de símbolos religiosos. cancel B) modernização urbana e apagamento da memória coletiva. cancel C) especulação imobiliária e elitização dos centros históricos. cancel D) nacionalização cultural e substituição de referências locais. cancel E) burocratização administrativa e imposição de decisões centralizadas.