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Como Distinguir a teoria politica antiga (Aristoteles) da teoria politica moderna (hobbes) mencionando os autores (Hannah e Dumont) ??


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Segundo os critérios de Aristóteles as formas de Estado devem ser considerados segundo a verificação da seguinte configuração: “poder de um, de poucos, de todos, exercido para utilidade de um, de poucos, ou de todos” (BOBBIO, 1993: 517). Chauí nos esclarece a teria aristotélica forma bastante clara: “O Estado ou politéia, como todo o que existe no mundo sublunar, está submetido ao perecimento e à corrupção e por isso cada regime política possui sua forma contrária ou corrompida: a tirania (para a realiza), a oligarquia (para a aristocracia) e a democracia (para o regime constitucional ou popular).” (CHAUI, 2008: 466). Segundo Aristóteles:

Hobbes admite a existência de mais de uma espécie de governos, mas defende como ideal o Absolutismo. “A diferença entre governos consiste na diferença do soberano, ou pessoa representante de todos os membros da multidão. Dado que a soberania reside em um homem ou em uma Assembleia de mais de um, e que tal Assembleia ou todos têm o direito de participar, ou nem todos, mas apenas certos homens distinguidos dos restantes, torna-se evidente que só pode haver três espécies de governo. Porque o representante é necessariamente um homem ou mais de um, e caso seja mais de um a Assembleia será de todos ou apenas de uma parte. Quando o representante é só homem, o governo chama-se uma monarquia. Quando é uma Assembleia de todos os que se uniram, é uma democracia, ou governo popular. Quando é uma Assembleia apenas de uma parte, chama-se uma aristocracia. Não pode haver outras espécies de governo, porque o poder soberano inteiro (que já mostrei ser divisível) tem que pertencer a um ou mais homens, ou a todos.” (HOBBES, 1988: 114). A especificidade do Absolutismo em Hobbes, era o descolamento com a teologia, sendo então “partidário do poder absoluto e admite, ao mesmo tempo, o pacto social.”. Ou seja, o filósofo não vê um antagonismo entre o pacto social e o absolutismo, vê em realidade que “o pacto conduziria necessariamente ao absolutismo”(HOBBES, 1988: XVI). Para Hobbes, quando o poder está divido em diversos locais na sociedade, a finalidade do pacto, que é a de garantir a paz entre os homens, se finda impossível de ser concretizada. Hobbes entende que há na religião um grande poder e que este poder se distingue da soberania civil. Havendo a coexistência do poder cuja a origem vem da soberania civil, ou seja, do Estado, e um poder distinto que provêm da religião, o conflito, segundo a teoria hobbesiana, é inevitável: “Hobbes não vê solução para esses conflitos a não ser pela entrega de toda a autoridade religiosa ao soberano absoluto; caso contrário, a religião ameaçaria a paz civil” (HOBBES, 1988: XVII). Ao soberano, tento em vista que havia na época a experiencia de reis católicos que governavam súditos protestantes, havia a necessidade de colocar suas opiniões pessoais de lado em prol da manutenção da paz, pois independente da fé particular do soberano, e neste caso o Estado se faz maior do que o soberano, o Estado deveria “instituir um culto único e obrigatório: ‘porque, caso contrário, seriam encontradas em uma mesma cidade as mais absurdas opiniões referentes à natureza divina e as mais impertinentes e ridículas cerimonias jamais vistas’.” (HOBBES, 1988: XVII). Se há no pacto a necessidade de garantir a paz, tal paz só pode ser estabelecida a partir da ordem, ou seja, do estabelecimento de regras de condutas, as chamadas leis civis. O poder religioso não poderia por si transpor para o status de lei o que apenas é fé: “O pecado, o justo, o injusto, só têm sentido na medida em que recebem sua existência das leis civil. Por outro lado, os preceitos do evangelho – segundo Hobbes – não são leis, mas chamados à fé; nos evangelhos não haveria regra alguma que permitisse distinguir entre ‘o teu e o meu’, como também eles não estabelecem quaisquer regras do intercambio comercial ou outras análogas. Em suma, só ao soberano caberia distinguir entre o justo e o injusto, entre o certo e o errado.” (HOBBES, 1988: XVIII)

 

1) Aristóteles:

Teses Aristotélicas: É possível aglutinar o conceito aristotélico a respeito da política em três teses: I) “o Estado justo ou perfeito é uma comunidade uma e indivisa”; II) “a finalidade do Estado é o bem comum”; III) “os governantes (seja um só, sejam alguns ou todos os cidadãos) devem ser virtuosos porque são espelhos para os governados, que os imitam; seus vícios, por isso, corrompem os governados e destroem o Estado.” (CHAUI, 2008: 463).

A finalidade da política e sua ação: “A política, diz o filósofo, orienta a ética, pois o homem só é verdadeiramente autárquico na pólis, e orienta também as ciências produtivas ou as artes, pois somente a Cidade diz o que deve ser produzido para o bem de cada um e de todos. A política é, assim, aquela ciência prática cujo fim é ‘o bem propriamente humano’ e esse fim é o bem comum. Por isso a política é a ciência prática arquitetônica, isto é, aquela que estrutura as ações e as produções humanas.” (CHAUI, 2008: 462).

O Homem e a política: “O homem é um animal político ou naturalmente político porque é um ser carente e imperfeito que necessita de coisas (para desejar) e de outros (para se reunir), buscando a comunidade como o lugar em que, com os seus semelhantes, alcance completude. Se fosse sem carências, seria um deus e não precisaria da vida comunitária; se fosse uma besta selvagem sequer sentira a falta de outros. Por não ser um deus nem uma besta feroz, o homem é um animal político. Além disso, como explica Aristóteles, ‘a natureza nada fez em vão’ e se deu ao homem a linguagem não foi apenas para comunicar sentimentos de prazer ou dor (como a maioria dos animais), mas para exprimir em comum a percepção do bom e do mau, do útil e do nocivo, do justo e do injusto, ou seja, para exprimir em comum a percepção dos valores.” (CHAUI, 2008: 464).

 

2) Hobbes:

Estado de Natureza: “A condição que Hobbes atribuiu ao estado de N. [ler natureza], a guerra de todos contra todos: ‘Enquanto vivem sem um poder comum ao qual estejam sujeitos, os homens encontram-se na condição que chamamos de guerra, e tal guerra é de um homem contra o outro’ (...). Isto acontece porque, sendo iguais por N., os homens também têm os mesmos desejos, e desejando as mesmas coisas procuram preponderar uns sobre os outros (...). A fundação do Estado, de um poder soberano, é o único meio para sair da condição de guerra, própria do estado de N.” (ABBAGNANO, 2007: 816).

Base da teoria hobbesiana: Hobbes parte do pressuposto que o estado de natureza do Homem é a Guerra, “e uma Guerra é de todos os homens contra todos os homens” (HOBBES, 1988: 75). A guerra gera o medo da morte e o desejo de uma vida confortável, e por isso, este estágio da humanidade, sendo o pensador, tende sempre a paz, “As paixões que fazem os homens tender para a paz são o medo da morte, o desejo daquelas coisas que são necessárias para uma vida confortável, e a esperança de consegui-las através do trabalho.” (HOBBES, 1988: 77). A condição do homem, como detentor de todos os seus direitos, diante de outros homens que também detém todos os seus direitos, e cada um assim se autogovernando segundo a própria razão individual, é a condição mesma de guerra do homem contra o homem. A constante ameaça contra a próprio a segurança impossibilita a vida, “não poderá haver para nenhum homem (por mais forte e sabia que seja) a segurança de viver todo o tempo que geralmente a natureza permite aos homens viver” (HOBBES, 1988: 78). Racionalmente o homem deseja se manter vivo, usufruindo os frutos de seu trabalho, assim a “razão sugere adequadas normas de paz, em torno das quais homens podem chegar a acordo.” (HOBBES, 1988: 77). Neste estado de natureza, de guerra do homem contra o homem, onde tende-se a paz afim de garantir a sobrevivência, a lei na natureza, gerada pela razão do homem, determina que “Que todo homem deve esforçar-se pela paz, na medida em que tenha esperança de consegui-la, e caso não a consiga pode procurar e usar todas as ajudas e vantagens da Guerra. A primeira parte dessa regra encerra a lei primeira e fundamental da natureza, isto é, procurar a paz, e segui-la. A segundo encerra a suma do direito de natureza, isto é, por todos os meios que pudermos, defendermo-nos a nós mesmos.” (HOBBES, 1988: 78). Neste estado de natureza, diante dessa lei da natureza, por acordo/pacto entre os homens, gera-se um contrato social: “Desta lei fundamental de natureza, mediante a qual se ordena a todos os homens que procurem a paz, deriva esta segundo lei: Que um homem concorde, quando outros também o façam, e na medida em que tal considere necessário para a paz e para a defesa de si mesmo, em renunciar a seu direito a todas as coisas, contentando-se, em relação aos outros homens, com a mesma liberdade que as outros homens permite em relação a si mesmo.” (HOBBES, 1988: 79); “A transferência mútua de direitos é aquilo a que se chama de contrato.” (HOBBES, 1988: 80); “Por outro lado, um dos contratantes pode entregar a coisa contratada por seu lado, permitindo que o outro cumpra a sua parte num momento posterior determinado, confiando nele até lá. Nesse caso, da sua parte o contrato se chama pacto ou convenção. Ambas as partes podem também contratar agora para cumprir mais tarde, e nesse caso, dado que se confia naquele que deverá cumprir sua parte, sua ação se chama observância da promessa, ou fé; e a falta de cumprimento (se for voluntária) chama-se violação da fé.” (HOBBES, 1988: 80). O contrato que firma o pacto entre os homens, trata-se em de uma transferência mútua de direitos, baseada em uma relação (acordada) de confiança, ou seja, de uma promessa a ser obrigatoriamente cumprida, onde cada parte deve abrir mão do direito natural de possuir seu próprio poder natural, “de usar seu próprio poder, de maneira que quiser, para a preservação se sua própria natureza, ou seja, se sua vida; e consequentemente de fazer tudo aquilo que seu próprio julgamento e razão lhe indiquem como meios adequados a esse fim” (HOBBES, 1988: 70), e se por ocasião, uma das partes quebrar este pacto, ela o faz por má fé. Ao abrir mão de seu direito natural, ou seja, de seu próprio poder, espera-se receber em troca a paz, e por paz compreende-se a permanência da existência e a possibilidade de conquistar uma vida confortável mediante o próprio trabalho. Nesta teoria hobbesiana, durante o estado de natureza, que é o de guerra, o conceito de justiça não existe, “Porque sem um pacto anterior não há transferência de direito, e todo homem tem direito a todas as coisas, consequentemente nenhuma ação pode ser injusta. Mas, depois de celebrado um pacto, rompê-lo pe injusto. E a definição de injustiça não é outra senão o não cumprimento de um pacto. E todo que não é injusto é justo.” (HOBBES, 1988: 86). A justiça como conceito apenas surge mediante a busca pela paz, pois para atingi-la leis são necessárias, “Os desejos e outras paixões do homem não são em si mesmos um pecado. Nem tampouco o são as ações que derivam dessas paixões, até ao momento em que se tome conhecimento de uma lei que as proíba; o que será impossível até ao momento em sejam feitas as leis; e nenhuma lei pode ser feita antes de se ter determinado qual a pessoa que deverá faze-la.” (HOBBES, 1988: 79). A noção de justiça não é inaugurada nos pactos, e sim nas leis da natureza. Para tornar a vida possível é necessário buscar a paz. A paz, por outro lado, demanda regras/leis. Com o pacto determina-se em realidade o que é injusto, tornando todo o resto justo “Daquela lei da natureza pela qual somos obrigados a transferir aos outros aqueles direitos que, ao serem conservados, impedem a paz da humanidade, segue-se uma terceira: Que os homens cumpram os pactos que celebram.” (HOBBES, 1988: 86). Havendo a necessidade de estabelecer a lei e a justiça entre os homens, há necessidade de fazê-la cumprir, e isso significa dizer que um poder coercitivo, um poder de controle deve ser estabelecido. Assim surge o Estado, um poder civil dotado da capacidade de coerção,  “Para que as palavras ‘justo’ e ‘injusto’ possam ter lugar, é necessário alguma espécie de poder coercitivo, capaz de obrigar igualmente os homens ao cumprimento de seus pactos, mediante o terror de algum castigo que seja superior ai benefício que esperam tirar do rompimento do pacto, e capaz de fortalecer aquela propriedade que os homens adquirem por contrato mutuo, como recompense do direito universal a que renunciaram. E não pode haver tal poder antes erigir-se um Estado. (…) E onde não foi estabelecido um poder coercitivo, isto é, onde não há Estado, não há propriedade, pois todos os homens tem direito a todas as coisas. Portanto, onde não há Estado nada pode ser injusto. De modo que a natureza da justiça consiste no cumprimento dos pactos válidos, mas a validade dos pactos só começa com a instituição de um poder civil suficiente para obrigar os homens a cumpri-lo, e é também ai que começa a haver propriedade.” (HOBBES, 1988: 86).

 

Referências bibliográficas:

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

HOBBES, Thomas. Leviatã: Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Volumes I e II).

Segundo os critérios de Aristóteles as formas de Estado devem ser considerados segundo a verificação da seguinte configuração: “poder de um, de poucos, de todos, exercido para utilidade de um, de poucos, ou de todos” (BOBBIO, 1993: 517). Chauí nos esclarece a teria aristotélica forma bastante clara: “O Estado ou politéia, como todo o que existe no mundo sublunar, está submetido ao perecimento e à corrupção e por isso cada regime política possui sua forma contrária ou corrompida: a tirania (para a realiza), a oligarquia (para a aristocracia) e a democracia (para o regime constitucional ou popular).” (CHAUI, 2008: 466). Segundo Aristóteles:

Hobbes admite a existência de mais de uma espécie de governos, mas defende como ideal o Absolutismo. “A diferença entre governos consiste na diferença do soberano, ou pessoa representante de todos os membros da multidão. Dado que a soberania reside em um homem ou em uma Assembleia de mais de um, e que tal Assembleia ou todos têm o direito de participar, ou nem todos, mas apenas certos homens distinguidos dos restantes, torna-se evidente que só pode haver três espécies de governo. Porque o representante é necessariamente um homem ou mais de um, e caso seja mais de um a Assembleia será de todos ou apenas de uma parte. Quando o representante é só homem, o governo chama-se uma monarquia. Quando é uma Assembleia de todos os que se uniram, é uma democracia, ou governo popular. Quando é uma Assembleia apenas de uma parte, chama-se uma aristocracia. Não pode haver outras espécies de governo, porque o poder soberano inteiro (que já mostrei ser divisível) tem que pertencer a um ou mais homens, ou a todos.” (HOBBES, 1988: 114). A especificidade do Absolutismo em Hobbes, era o descolamento com a teologia, sendo então “partidário do poder absoluto e admite, ao mesmo tempo, o pacto social.”. Ou seja, o filósofo não vê um antagonismo entre o pacto social e o absolutismo, vê em realidade que “o pacto conduziria necessariamente ao absolutismo”(HOBBES, 1988: XVI). Para Hobbes, quando o poder está divido em diversos locais na sociedade, a finalidade do pacto, que é a de garantir a paz entre os homens, se finda impossível de ser concretizada. Hobbes entende que há na religião um grande poder e que este poder se distingue da soberania civil. Havendo a coexistência do poder cuja a origem vem da soberania civil, ou seja, do Estado, e um poder distinto que provêm da religião, o conflito, segundo a teoria hobbesiana, é inevitável: “Hobbes não vê solução para esses conflitos a não ser pela entrega de toda a autoridade religiosa ao soberano absoluto; caso contrário, a religião ameaçaria a paz civil” (HOBBES, 1988: XVII). Ao soberano, tento em vista que havia na época a experiencia de reis católicos que governavam súditos protestantes, havia a necessidade de colocar suas opiniões pessoais de lado em prol da manutenção da paz, pois independente da fé particular do soberano, e neste caso o Estado se faz maior do que o soberano, o Estado deveria “instituir um culto único e obrigatório: ‘porque, caso contrário, seriam encontradas em uma mesma cidade as mais absurdas opiniões referentes à natureza divina e as mais impertinentes e ridículas cerimonias jamais vistas’.” (HOBBES, 1988: XVII). Se há no pacto a necessidade de garantir a paz, tal paz só pode ser estabelecida a partir da ordem, ou seja, do estabelecimento de regras de condutas, as chamadas leis civis. O poder religioso não poderia por si transpor para o status de lei o que apenas é fé: “O pecado, o justo, o injusto, só têm sentido na medida em que recebem sua existência das leis civil. Por outro lado, os preceitos do evangelho – segundo Hobbes – não são leis, mas chamados à fé; nos evangelhos não haveria regra alguma que permitisse distinguir entre ‘o teu e o meu’, como também eles não estabelecem quaisquer regras do intercambio comercial ou outras análogas. Em suma, só ao soberano caberia distinguir entre o justo e o injusto, entre o certo e o errado.” (HOBBES, 1988: XVIII)

 

1) Aristóteles:

Teses Aristotélicas: É possível aglutinar o conceito aristotélico a respeito da política em três teses: I) “o Estado justo ou perfeito é uma comunidade uma e indivisa”; II) “a finalidade do Estado é o bem comum”; III) “os governantes (seja um só, sejam alguns ou todos os cidadãos) devem ser virtuosos porque são espelhos para os governados, que os imitam; seus vícios, por isso, corrompem os governados e destroem o Estado.” (CHAUI, 2008: 463).

A finalidade da política e sua ação: “A política, diz o filósofo, orienta a ética, pois o homem só é verdadeiramente autárquico na pólis, e orienta também as ciências produtivas ou as artes, pois somente a Cidade diz o que deve ser produzido para o bem de cada um e de todos. A política é, assim, aquela ciência prática cujo fim é ‘o bem propriamente humano’ e esse fim é o bem comum. Por isso a política é a ciência prática arquitetônica, isto é, aquela que estrutura as ações e as produções humanas.” (CHAUI, 2008: 462).

O Homem e a política: “O homem é um animal político ou naturalmente político porque é um ser carente e imperfeito que necessita de coisas (para desejar) e de outros (para se reunir), buscando a comunidade como o lugar em que, com os seus semelhantes, alcance completude. Se fosse sem carências, seria um deus e não precisaria da vida comunitária; se fosse uma besta selvagem sequer sentira a falta de outros. Por não ser um deus nem uma besta feroz, o homem é um animal político. Além disso, como explica Aristóteles, ‘a natureza nada fez em vão’ e se deu ao homem a linguagem não foi apenas para comunicar sentimentos de prazer ou dor (como a maioria dos animais), mas para exprimir em comum a percepção do bom e do mau, do útil e do nocivo, do justo e do injusto, ou seja, para exprimir em comum a percepção dos valores.” (CHAUI, 2008: 464).

 

2) Hobbes:

Estado de Natureza: “A condição que Hobbes atribuiu ao estado de N. [ler natureza], a guerra de todos contra todos: ‘Enquanto vivem sem um poder comum ao qual estejam sujeitos, os homens encontram-se na condição que chamamos de guerra, e tal guerra é de um homem contra o outro’ (...). Isto acontece porque, sendo iguais por N., os homens também têm os mesmos desejos, e desejando as mesmas coisas procuram preponderar uns sobre os outros (...). A fundação do Estado, de um poder soberano, é o único meio para sair da condição de guerra, própria do estado de N.” (ABBAGNANO, 2007: 816).

Base da teoria hobbesiana: Hobbes parte do pressuposto que o estado de natureza do Homem é a Guerra, “e uma Guerra é de todos os homens contra todos os homens” (HOBBES, 1988: 75). A guerra gera o medo da morte e o desejo de uma vida confortável, e por isso, este estágio da humanidade, sendo o pensador, tende sempre a paz, “As paixões que fazem os homens tender para a paz são o medo da morte, o desejo daquelas coisas que são necessárias para uma vida confortável, e a esperança de consegui-las através do trabalho.” (HOBBES, 1988: 77). A condição do homem, como detentor de todos os seus direitos, diante de outros homens que também detém todos os seus direitos, e cada um assim se autogovernando segundo a própria razão individual, é a condição mesma de guerra do homem contra o homem. A constante ameaça contra a próprio a segurança impossibilita a vida, “não poderá haver para nenhum homem (por mais forte e sabia que seja) a segurança de viver todo o tempo que geralmente a natureza permite aos homens viver” (HOBBES, 1988: 78). Racionalmente o homem deseja se manter vivo, usufruindo os frutos de seu trabalho, assim a “razão sugere adequadas normas de paz, em torno das quais homens podem chegar a acordo.” (HOBBES, 1988: 77). Neste estado de natureza, de guerra do homem contra o homem, onde tende-se a paz afim de garantir a sobrevivência, a lei na natureza, gerada pela razão do homem, determina que “Que todo homem deve esforçar-se pela paz, na medida em que tenha esperança de consegui-la, e caso não a consiga pode procurar e usar todas as ajudas e vantagens da Guerra. A primeira parte dessa regra encerra a lei primeira e fundamental da natureza, isto é, procurar a paz, e segui-la. A segundo encerra a suma do direito de natureza, isto é, por todos os meios que pudermos, defendermo-nos a nós mesmos.” (HOBBES, 1988: 78). Neste estado de natureza, diante dessa lei da natureza, por acordo/pacto entre os homens, gera-se um contrato social: “Desta lei fundamental de natureza, mediante a qual se ordena a todos os homens que procurem a paz, deriva esta segundo lei: Que um homem concorde, quando outros também o façam, e na medida em que tal considere necessário para a paz e para a defesa de si mesmo, em renunciar a seu direito a todas as coisas, contentando-se, em relação aos outros homens, com a mesma liberdade que as outros homens permite em relação a si mesmo.” (HOBBES, 1988: 79); “A transferência mútua de direitos é aquilo a que se chama de contrato.” (HOBBES, 1988: 80); “Por outro lado, um dos contratantes pode entregar a coisa contratada por seu lado, permitindo que o outro cumpra a sua parte num momento posterior determinado, confiando nele até lá. Nesse caso, da sua parte o contrato se chama pacto ou convenção. Ambas as partes podem também contratar agora para cumprir mais tarde, e nesse caso, dado que se confia naquele que deverá cumprir sua parte, sua ação se chama observância da promessa, ou fé; e a falta de cumprimento (se for voluntária) chama-se violação da fé.” (HOBBES, 1988: 80). O contrato que firma o pacto entre os homens, trata-se em de uma transferência mútua de direitos, baseada em uma relação (acordada) de confiança, ou seja, de uma promessa a ser obrigatoriamente cumprida, onde cada parte deve abrir mão do direito natural de possuir seu próprio poder natural, “de usar seu próprio poder, de maneira que quiser, para a preservação se sua própria natureza, ou seja, se sua vida; e consequentemente de fazer tudo aquilo que seu próprio julgamento e razão lhe indiquem como meios adequados a esse fim” (HOBBES, 1988: 70), e se por ocasião, uma das partes quebrar este pacto, ela o faz por má fé. Ao abrir mão de seu direito natural, ou seja, de seu próprio poder, espera-se receber em troca a paz, e por paz compreende-se a permanência da existência e a possibilidade de conquistar uma vida confortável mediante o próprio trabalho. Nesta teoria hobbesiana, durante o estado de natureza, que é o de guerra, o conceito de justiça não existe, “Porque sem um pacto anterior não há transferência de direito, e todo homem tem direito a todas as coisas, consequentemente nenhuma ação pode ser injusta. Mas, depois de celebrado um pacto, rompê-lo pe injusto. E a definição de injustiça não é outra senão o não cumprimento de um pacto. E todo que não é injusto é justo.” (HOBBES, 1988: 86). A justiça como conceito apenas surge mediante a busca pela paz, pois para atingi-la leis são necessárias, “Os desejos e outras paixões do homem não são em si mesmos um pecado. Nem tampouco o são as ações que derivam dessas paixões, até ao momento em que se tome conhecimento de uma lei que as proíba; o que será impossível até ao momento em sejam feitas as leis; e nenhuma lei pode ser feita antes de se ter determinado qual a pessoa que deverá faze-la.” (HOBBES, 1988: 79). A noção de justiça não é inaugurada nos pactos, e sim nas leis da natureza. Para tornar a vida possível é necessário buscar a paz. A paz, por outro lado, demanda regras/leis. Com o pacto determina-se em realidade o que é injusto, tornando todo o resto justo “Daquela lei da natureza pela qual somos obrigados a transferir aos outros aqueles direitos que, ao serem conservados, impedem a paz da humanidade, segue-se uma terceira: Que os homens cumpram os pactos que celebram.” (HOBBES, 1988: 86). Havendo a necessidade de estabelecer a lei e a justiça entre os homens, há necessidade de fazê-la cumprir, e isso significa dizer que um poder coercitivo, um poder de controle deve ser estabelecido. Assim surge o Estado, um poder civil dotado da capacidade de coerção,  “Para que as palavras ‘justo’ e ‘injusto’ possam ter lugar, é necessário alguma espécie de poder coercitivo, capaz de obrigar igualmente os homens ao cumprimento de seus pactos, mediante o terror de algum castigo que seja superior ai benefício que esperam tirar do rompimento do pacto, e capaz de fortalecer aquela propriedade que os homens adquirem por contrato mutuo, como recompense do direito universal a que renunciaram. E não pode haver tal poder antes erigir-se um Estado. (…) E onde não foi estabelecido um poder coercitivo, isto é, onde não há Estado, não há propriedade, pois todos os homens tem direito a todas as coisas. Portanto, onde não há Estado nada pode ser injusto. De modo que a natureza da justiça consiste no cumprimento dos pactos válidos, mas a validade dos pactos só começa com a instituição de um poder civil suficiente para obrigar os homens a cumpri-lo, e é também ai que começa a haver propriedade.” (HOBBES, 1988: 86).

 

Referências bibliográficas:

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

HOBBES, Thomas. Leviatã: Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Volumes I e II).

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Dyego

Há mais de um mês

vai no google

 

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