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DJi - Democracia representativa e democracia semidireta

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os quais não era contemplado o povo, ou Terceiro Estado.
Em razão disso é que Siéyes abre seu famoso apúsculo com as incisivas palavras: "Que é o Terceiro Estado?
Tudo. Que tem sido até agora no ordenamento político? Nada. Que deseja ele? Chegar a ser algo".
 Mais adiante, no capítulo II: "É preciso entender por Terceiro Estado o conjunto dos cidadãos que se
acham submetidos a um ordenamento comum. Todo aquele que é privilegiado pela lei sai do ordenamento
comum e, conseqüentemente, não integra o Terceiro Estado. Já o dissemos: uma lei comum e uma
representação comum é o que constitui uma nação".
 A nação, contudo, não se confunde com as gerações que passam, mas com os interesses permanentes do
Estado. Nação e Terceiro Estado confundem-se, no pensamento de Siéy_s. O Terceiro Estado, diz ele, é
uma nação completa.
 Nada pode progredir sem ele, e seria bem melhor se os outros Estados não existissem. A soberania, que
pertencia ao rei, passa a pertencer à nação, "da qual emanam todos os direitos" (Constituição de 1791,
preâmbulo do título terceiro, arts. 1º e 2º).
 Assim, a nação é uma entidade abstrata, que representa os interesses permanentes do elemento humano
do Estado. Por isso, os interesses da nação suplantam os interesses momentâneos do povo.
 Nisto, a posição de Rousseau é oposta à de Siéyes, porque segundo ele é imprescindível a participação
direta da comunidade nas deliberações políticas, para que haja vontade geral. Entretanto, ambos concordam
num ponto: todo e qualquer organismo intermediário entre os indivíduos e o poder político deve ser
eliminado, sendo que a participação do povo, segundo Rousseau, deve ser direta, ao passo que, para
Siéyes, a representação da nação será atribuída a quem ela determinar. Ora, sendo a nação uma entidade
abstrata, não poderá haver mandato imperativo, isto é, vinculação jurídica entre representantes e
representados, e sim mera representação política.
 Em razão da doutrina de Siéyes, a Constituição francesa de 1791 estabeleceu em seu Art. 7º: "Os
representantes eleitos nos parlamentos não serão representantes de um departamento particular, mas de toda
a nação e nenhum mandato lhes poderá ser atribuído".
 Enquanto o mandato imperativo tem natureza consensual, contratualística, consistindo num veículo
contratual entre representantes e representados, da mesma forma que no direito civil temos um contrato
denominado mandato (do latim manus dare), pois as mãos simbolizam a fidelidade (per dexteram era per
fidem), formalizando-se o pacto por um aperto de mãos, a representação política é obra do poder
constituinte, que fixará a competência e os deveres dos representantes da nação. A responsabilidade dos
representantes apura-se nos termos da Constituição, e a perda do exercício do cargo não decorre da
vontade dos governados, mas das próprias normas da Constituição. Não há, reitere-se, vinculação jurídica
entre mandante e mandatário. A representação nacional tem natureza institucional, vem de cima para baixo,
ao passo que o mandato imperativo tem natureza consensual, de acordo de vontades.
 Ora, tal concepção de democracia, procurando debater os excessos do absolutismo monárquico, incorreu
no extremo oposto, posicionando o indivíduo numa posição de desamparo perante o poder político, a ele
vedada uma participação efetiva nas decisões dos governantes. Foi olvidada a idéia de que o Estado não tem
no elemento humano a mera soma dos indivíduos, e sim a formação de grupos sociais que surgem
espontaneamente, grupos que, muitas vezes, antecedem no próprio Estado, por exemplo, a família e o
município. Se as primitivas sociedades eram homogêneas e a solidariedade social puramente mecânica, o
processo denominado integração ensejou a diferença paulatina de tais grupos, surgindo a solidariedade
orgânica e a divisão do trabalho. Surgem grupos das mais diversas espécies e finalidades; e surgem
espontaneamente, revelando a inclinação do homem para uma agregação orgânica e não puramente
mecânica. De fato, o homem, animal social por natureza (zoon politikon), somente se agrega aos seus
semelhantes que tenham osmesmos interesses, sejam estes de natureza econômica, política, religiosa ou
intelectual. O Estado poderá até desconhecer tais grupos; não poderá jamais, contudo, fazê-los desaparecer,
como frisa Galvão de Souza.
 Vásquez de Mella adverte: "O que se deve representar é o homem de classe e de grupo; e como as
classes são categorias sociais permanentes, não podendo ser negadas sem que se negue uma nação, é
necessário que essas forças estejam representadas nas Cortes. É preciso que aí estejam os interesses de que
vos falei: o interesse religioso e moral representado pelo clero; o interesse docente, intelectual, representado
pelas corporações científicas, pelas universidades e academias; o interesse material, representado pelo
comércio, pela indústria e a agricultura, bem como pelos operários; o interesse da defesa, representado pelo
Exército, e o interesse das superioridades, daquelas autoridades sociais que formam a aristocracia de todos:
os méritos científicos, artísticos, da linhagem, da virtude, que, ainda saindo das camadas inferiores, têm
direito a brilhar nas alturas.
 Quando o parlamento representar todas estas forças, então o espelho da sociedade será ele mesmo, e não
se dará esse caso vergonhoso - prova de que não são representativos os parlamentos modernos - de que,
quando surge uma crise agrícola ou industrial, a primeira medida dos partidos que formam o parlamento é
procurar uma informação pública, para se inteirar do que se passa lá fora".
 A representação por meio de partidos, pelo menos até o momento inexpressiva e fictícia em nosso País e
em quase toda a América Latina, apresentou bons resultados na Inglaterra porque aí eles sempre estiveram
identificados a classes sociais, em perfeita integração com os organismos vivos da nação.
 Assim, o Partido Conservador sempre esteve ligado aos grandes proprietários partido representante,
portanto, da aristocracia; o Trabalhista, identificado com a classe operária e as agremiações sindicais (trade
unions); e, finalmente, o Liberal, representando a classe média burguesa. Além disso, a Inglaterra, de certa
forma isolada do drama político que se desenrolava no continente europeu, em especial na França, sofreu
menos o impacto das novas idéias revolucionárias. Fenômeno semelhante, bem apontado por Maurice
Duverger, ocorreu nos Estados Unidos da América do Norte, onde, no tocante à representação partidária, o
pragmatismo suplantou as abstrações ideológicas, a ponto de não haver uma diferença bem definida nos dois
grandes partidos aí existentes.
 Se na liberal-democracia os partidos apareceram para preencher o vazio deixado pelos corpos
intermediários extintos em 1791, por influência de Siéyes, na América Latina tornaram-se quase sempre
órgãos deformados, meros instrumentos de grupos ou de chefes políticos arrivistas.
 Em preciosa monografia intitulada A Democracia e o Brasil, Goffredo Telles Jr. já escrevia antes mesmo
da insurreição de 1964: "Os partidos políticos brasileiros, observados não em tese, não em doutrina, não em
abstrato, mas em concreto, isto é, em seu real funcionamento, são meras siglas, simples rótulos, vazias
embalagens, sem nenhum conteúdo doutrinário e programático, incapazes, portanto, de orientar a opinião, de
quem quer que seja, sobre os problemas nacionais.
 Servem apenas de instrumento para o registro de candidatos no tribunal competente.
Partidos políticos do tipo dos nossos não são órgãos naturais da sociedade. Não são produtos das
exigências comuns da vida humana.
 Em nada se prendem ao drama cotidiano do cidadão. Nada dizem à alma popular. Um sindicato ou um
clube de futebol é, no sentimento do povo, muito mais importante do que um partido".
 Galvão de Souza também se mostra incisivo e claro a esse respeito: "Os partidos podem ser
indispensáveis num determinado tipo de democracia, não em todos.