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GUAZZELLI - A Revolução Chilena e a ditadura militar

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A América Latina iniciou os anos 70 marcados pela presença de ditaduras militares em diversos países. Uma das poucas nações que mantinha as instituições democráticas de governo era o Chile, que vivenciou um dos mais notáveis processos históricos ocorridos nesta década, que foi assim chamada ‘’via chilena’’ para o socialismo. A vitória da Unidade Popular nas eleições presidenciais de 4 de setembro de 1970 deu início a um processo original de transformações sociais visando o socialismo, caracterizado pelo forte engajamento popular ao projeto, pela preservação das instituições democráticas burguesas e acatamento das decisões que delas emanavam, e pelo boicote permanente dos setores dominantes e do imperialismo, que redundaria num verdadeiro banho de sangue, inaugurando uma das mais ferozes ditadura de que se tem notícia.
1970: A Vitória da Unidade Popular
A vitória nas eleições presidenciais do candidato socialista Salvador Allende deveu-se a uma conjuntura muito específica, onde os grupos dominantes chilenos apresentaram-se divididos no enfrentamento com as forças da esquerda. De um lado, o Partido Nacional, que resultara na fusão dos velhos partidos Conservador e Liberal. Sua criação em 1966 deveu-se ao impacto da Democracia Cristã, cujas propostas mais ‘’modernas’’ haviam atraído grande parte do eleitorado chileno, que colocou Eduardo Frei na presidência nas eleições de 1964. O Partido Nacional defendia posturas mais conservadoras, representando a tradicional oligarquia fundiária, setores financeiros e a burguesia associada ao capital monopólico. 
De outro lado, o Partido Democrata Cristão, formado em 1957 pela fusão da Falange Nacional – um abandono voluntário do Partido Conservador de corte fascista ocorrida em 1938 – com outra dissidência do Partido Conservador que adotara os princípios do cristianismo social proclamados pela Democracia Cristã em diversos países da Europa. Seu caráter reformista moderado, propondo-se ao atendimento de algumas demandas populares, garantira-lhe um expressivo crescimento nos anos 60. O governo Frei que se encerrava havia proposto algumas medidas de cunho social; um controle mais rigoroso do setor financeiro; a ampliação do mercado interno e uma tímida reforma agrária, o que fazia a Democracia Cristã irreconciliável com o Partido Nacional nas eleições de 1970. Nas eleições de 1964, a direita optou pelo apoio à ‘’Revolução em Liberdade’’, como o candidato democrata cristão Eduardo Frei definia seu programa. No campo apresentava uma breve reforma agrária; foi reconhecido o direito de organização e greve 
para os trabalhadores rurais; possibilidade de expropriação das terras improdutivas estimulando a modernização; nos centros urbanos, a tônica da Democracia Cristã era um programa habitacional; De alguma forma, o governo Frei adaptava o Chile aos preceitos da Aliança para o Progresso, formulado em 1961, pelo presidente americano John Kennedy visando conter os avanços da esquerda. No entanto, a ‘’Revolução em liberdade’’ frustrou as expectativas da maior parte dos atores sociais envolvidos no processo. A melhora na organização dos camponeses proporcionada por Frei desencadeou forte oposição dos setores oligárquicos mais tradicionais, que viam nas reformas da DC um incentivo às lutas camponesas. Ao final do governo, o Partido Democrata Cristão estava totalmente isolado do Partido Nacional.
Já no campo da esquerda, organizava-se a Unidade Popular como um amplo leque de alianças de grande colisão interna, com hegemonia do proletariado que se representava pelos partidos Comunista e Socialista de larga trajetória política do Chile. O movimento operário do Chile era um dos mais antigos e organizados da América Latina. O Partido Operário Socialista foi fundado em 1912 e, em 1922, filiou-se como secção chilena à Terceira Internacional com o nome de Partido Comunista. De acordo com esta adesão, até 1933 o partido manteve uma posição marxista-leninista radicalizada, evitando aproximação com outras forças políticas; O Partido Socialista foi fundado em 1933, a partir de diversos pequenos grupos, que não concordavam com as interpretações da Internacional Comunista para a realidade latino-americana. Uma condição importante para os socialistas era o seu intransigente respeito às instituições, e o legalismo político eram tão importantes quanto às reivindicações de natureza econômica. A partir do final da década de 50, aparecem sempre aliados aos Comunistas, portanto, era os principais esteios da Unidade Popular, conferindo a esta o caráter de representação do proletário. 
Outros componentes da Unidade Popular eram o Partido Radical, fundado em 1863; O Partido Social Democrático; o Movimento de Ação Popular Unitário (MAPU); O Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR), que apoiou com reservas a ascensão da Unidade Popular ao poder. O MIR desenvolveu uma estratégia a partir de uma política revolucionária, estimulando as ações diretas, e colocando-se como uma alternativa a UP. Por outro lado, a formação de frentes populares já tinha uma trajetória sólida na história política chilena. A crise de 1929 ampliou as aberturas por onde cresceram os movimentos populares. Em consequência da depressão do setor exportador causada pela crise, se desenvolveu no Chile a industrialização de substituição da importação, reforçando a importância dos trabalhadores e colocando as oligarquias fundiárias tradicionais na defensiva, clamando sempre pela manutenção da velha ordem. Essa polarização política resultou na aliança dos partidos proletários – elegendo em 1938 o representante da Frente Popular: Pedro Aguirre Cerdas; em 1948, Gonzáles Videla, também eleito pela Frente passou a reprimir o movimento operário e terminou por colocar o Partido Comunista na ilegalidade. 
Nos anos 50, apesar destes reveses, o movimento operário urbano aumenta paralelamente ao crescimento do setor industrial, e um dos resultados deste processo foi a fundação, em 1953, da Central Única de Trabalhadores (CUT). Nas eleições de 1958, o candidato da Frente de Ação Popular, o socialista Salvador Allende, perderia para o candidato conservador. Nota-se, no entanto, que a Unidade Popular tinha, portanto, não apenas partidos de sólida presença no cenário político chileno, como também a herança de uma prática bem-sucedida destes partidos na formação de frentes partidárias, onde predominava o pensamento da esquerda. Sendo assim, nas eleições de 4 de setembro de 1970, o candidato socialista da Unidade Popular, Salvador Allende, alcança a vitória por escassa margem: 36,3% dos votos, contra 34,9% do Partido Nacional. Como não obteve a maioria simples, sua posse esteve condicionada a uma eleição pelo Congresso Nacional. Logo após as eleições iniciaram as campanhas golpistas para impedir a posse de Allende. Além dos grupos dominantes chilenos, o imperialismo norte-americano envolveu-se firmemente numa intensa propaganda sobre os perigos de um governo de orientação marxista no Chile.
As forças militares chilenas alardeavam, então, uma tradição constitucionalista que as tornava distante distantes das disputas partidárias, o que não pode afiançar na história do Chile. Desde o século XIX, muito mais que um papel arbitral, os militares chilenos estiveram envolvidos em diversos episódios políticos, sempre favoravelmente aos interesses das oligarquias e do imperialismo. De toda sorte, por quase quatro décadas não houvera participação dos militares nas disputas políticas chilenas, o que reforçava essa propalada tradição civilista do país. Além disto, o comandante do exército havia reiterado diversas vezes durante a campanha eleitoral que o resultado das urnas seria respeitado. Essa atitude resultou em um ataque de um grupo terrorista de extrema-direita, onde foi assassinado e no seu lugar assumiria o general Carlos Pratts, ele também um militar constitucionalista. 
Em 24 de outubro o Congresso ratificou a posse de Salvador Allende, não antes da Unidade Popular, alegadamente para evitar a instauração de um ‘’regime totalitário’’. O cumprimento zeloso

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