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A JUS HUMANIZAÇÃO DAS REL. HUMANOS NO DIR. PRIVADO

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a cada membro da própria família. Assim, 
depreende-se que a responsabilidade não se pauta tão-somente no dever alimentar, mas se insere no dever de 
possibilitar o desenvolvimento humano dos filhos, baseado no princípio da dignidade da pessoa humana. 
71 op. cit., p. 220. 
72 Conforme manifestação do STJ: A Lei 8009/90 não está dirigida a número de pessoas. Ao contrário – à pessoa. 
Solteira, casada, viúva, desquitada, divorciada, pouco importa. O sentido social da norma busca garantir um teto 
para cada pessoa. (...). RE 262568, 19/08/99. 6ª Turma. Relator: Ministro Luiz Vicente Cernicchiaro. No mesmo 
sentido, Impenhorabilidade de bem familiar solteiro. Devedor solteiro. Situação abarcada pela norma protetora. 
Impossibilidade da penhora. A impenhorabilidade do bem familiar, resguardada pela legislação pátria, abrange 
o imóvel de indivíduo solteiro. O que o ordenamento quis proteger foi a idéia de lar residencial, não havendo 
razão para a interpretação restritiva.(...). Agravo de Instrumento nº 70001885466, Primeira Câmara Cível, 
Tribunal de justiça do RS. Relator: Desembargador Henrique Osvaldo Poeta Roenick. Julgado em 20/12/2000. Na 
mesma linha argumentativa, esta outra decisão: RESP 315979/RJ. Relator Min. SÁLVIO DE FIGUEIREDO 
TEIXEIRA (1088). Data da Decisão 26/03/2003. Órgão Julgador: SEGUNDA SEÇÃO. Ementa: BEM DE 
FAMÍLIA. IMÓVEL LOCADO. IRRELEVÂNCIA. ÚNICO BEM DOS DEVEDORES. RENDA UTILIZADA 
PARA A SUBSISTÊNCIA DA FAMÍLIA.INCIDÊNCIA DA LEI 8.009/90. ART. 1º. TELEOLOGIA. 
CIRCUNSTÂNCIAS DA CAUSA. I - Contendo a Lei n. 8.009/90 comando normativo que restringe princípio 
geral do direito das obrigações, segundo o qual o patrimônio do devedor responde pelas suas dívidas, sua 
interpretação deve ser sempre pautada pela finalidade que a norteia, a levar em linha de consideração as 
circunstâncias concretas de cada caso. II – Consoante anotado em precedente da Turma, e em interpretação 
teleológica e valorativa, faz jus aos benefícios da Lei 8.009/90 o devedor que, mesmo não residindo no único 
imóvel que lhe pertence, utiliza o valor obtido com a locação desse bem como complemento da renda familiar, 
considerando que o objetivo da norma é o de garantir a moradia familiar ou a subsistência da família. 
 
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causa está o direito à moradia – iniludivelmente um dos fatores a garantir 
a dignidade da pessoa humana.73
Sem embargo, não se desconhece o legítimo direito de crédito. 
De fato, há uma colisão entre o interesse do credor, que busca a satisfação 
de seu direito, e o executado, que visa a assegurar a sua habitação – 
garantia mínima para uma condição de vida digna. Diante do referido 
conflito, sustentamos que o magistrado não deva se afastar da tutela da 
pessoa humana e de sua dignidade.74 Porque esse é o fundamento, a 
coordenada axiológica instituinte do direito e que, portanto, deve permear 
a sua efetiva realização. A figura da impenhorabilidade, à vista disso, 
plenamente se justifica, revelando-se indispensável na realização das mais 
primárias exigências que a vida apresenta. 
 Para alcançarmos a jus-humanização ora postulada – 
expressão que ultrapassa os limites impostos pela Carta Constitucional, ao 
encontrar o fundamento e a validade do direito em princípios transpositivos 
–, importa argumentarmos igualmente na superação das linhas 
metodológicas do normativismo jurídico. Fundamentalmente, por tal 
modelo de juridicidade associar-se a um contexto histórico não compatível 
com o sentido material da normatividade jurídica contemporânea.75 
Ademais, propõe uma redução do direito à lei,76 concebendo o sistema 
jurídico como axiomático. Por via de conseqüência, limita a função 
jurisdicional, amarrando-a as premissas da lógica formal, pretendendo 
conferir ao direito uma suposta neutralidade. Tudo, decerto, em harmonia 
 
73 Assim manifestou-se o Ministro Humberto Gomes de Barros, do Superior Tribunal de Justiça: A interpretação 
teleológica do Art. 1º [da Lei 8009/90] revela que a norma não se limita ao resguardo da família. Seu escopo 
definitivo é a proteção de um direito fundamental da pessoa humana: o direito à moradia. Embargos de 
Divergência em RESP 182.223 – SP. Disponível no endereço eletrônico www.stj.gov.br, acessado em 30/01/2004. 
74 Digno de lembrança, em conformidade com o que afirmamos, o Acórdão no 62/02, do Tribunal Constitucional 
de Portugal, da lavra do Relator Paulo Mota Pinto: Será constitucionalmente aceitável o sacrifício do direito do 
credor, se o mesmo for necessário e adequado à garantia do direito à existência do devedor com um mínimo de 
dignidade. Disponível no endereço eletrônico www.tribunalconstitucional.pt – acessado em 30/01/2004. 
75 Sobre esse tema, ver o nosso pequeno trabalho A Ética como dimensão constitutiva do Direito, in Revista 
Tributária e de Finanças Públicas, ano 10, no 44, São Paulo: Revista do Tribunais, 2002, p. 18-40. 
76 Trazemos à baila o que fora contado em certa história: (...) não creiais que a lei é justa só porque lhe chamais 
lei. José Saramago. O evangelho segundo Jesus Cristo. 23ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras,1991, 
p.419. 
 
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com o postulado político do Estado liberal moderno, ornamentado pelos 
ditames de um contratualismo assaz individualista. 
Em contrapartida, há de se afirmar o ato de concretização do 
direito pela perspectiva de uma prática histórica e circunstancialmente 
contextualizada, a se constituir dinamicamente pelo apreciar dos concretos 
problemas humanos. Outrossim, a racionalidade jurídica não há de se 
compaginar com uma mera racionalidade formal. De fato, há de se iluminar 
por uma racionalidade material, rumando para a realização dos valores 
instituintes da ordem jurídico-social. 
8 – NOTAS MODERNO-ILUMINISTAS E CAUSAS DO 
POSITIVISMO JURÍDICO 
Decerto que o consolidar da perspectiva normativista acima 
mencionada encontra uma série de concausas historicamente situadas. 
Muitas das quais encontradas a partir do pensamento moderno iluminista. 
Como bem destaca o Professor CASTANHEIRA NEVES,77 a nota concludente 
do paradigma jurídico construído a partir desse período, do qual ainda 
somos legatários, foi a compreensão do direito como uma ordem expressa 
do Poder Legislativo. A exigência de uma validade material vê-se 
substituída por uma validade formal – especificamente uma validade 
política dada pela legitimidade do poder político e a observância do 
processo legislativo. Dentre as concausas que levaram a tal situação, 
anotamos: 
A cultura humana corta os vínculos com quaisquer fatores 
transcendentes, passando a ser assumida como de responsabilidade 
humana. Tal circunstância decorreu do postulado da autonomia humana, 
que estabelecera uma nova compreensão do homem em relação a si 
mesmo. O homem moderno volta-se para si, sendo um homem de 
liberdade. De fato, tem-se um homem emancipado. E o termo emancipação 
fora empregue, primeiramente, com o sentido da liberdade de um povo em 
 
77 Curso de Introdução ao Direito. Coimbra, 1976. 
 
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se reger. Na Alemanha, em 1792, corresponderia a dizer que o homem 
possuía em si próprio o sentido de orientação do seu próprio 
comportamento.