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MÓDULO PROBLEMAS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO – P4 | Luíza Moura e Vitória Neves TRANSTORNO DE ACUMULAÇÃO INTRODUÇÃO Acumulação compulsiva é um fenômeno comum e frequentemente debilitante associado com prejuízo em funções como: Alimentar; Dormir; e Se arrumar. A acumulação pode resultar em problemas de saúde e de higiene, em particular quando o acúmulo de animais está envolvido, e pode levar à morte, por incêndio ou queda. O transtorno é caracterizado pela: Aquisição sem descarte de coisas que são consideradas de pouco valor, resultando no amontoamento excessivo dos espaços de moradia. A acumulação, originalmente, era considerada um subtipo de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), mas agora é considerada uma entidade diagnóstica separada. Ela costuma ser motivada por um medo obsessivo de perder itens importantes que a pessoa acredita poderem vir a ser úteis em algum momento futuro, por crenças distorcidas sobre a importância de posses e por um apego emocional extremo a elas. PREVALÊNCIA Estudos de prevalência nacionalmente representativos do transtorno de acumulação não estão disponíveis. O transtorno de acumulação afeta ambos os sexos. Mas alguns estudos epidemiológicos relataram uma prevalência significativamente maior em indivíduos do sexo masculino. Isso contrasta com as amostras clínicas, nas quais a predominância é feminina. Os sintomas de acumulação parecem ser quase 3 vezes mais prevalentes em adultos mais velhos (55 a 94 anos) comparados com adultos mais jovens (33 a 44 anos). A!! É mais comum entre pessoas solteiras e é associada com ansiedade social, recolhimento e com traços de personalidade dependente. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS A. Dificuldade persistente de descartar ou de se desfazer de pertences, independentemente do seu valor real. B. Esta dificuldade se deve a uma necessidade percebida de guardar os itens e ao sofrimento associado a descartá-los. C. A dificuldade de descartar os pertences resulta na acumulação de itens que congestionam e obstruem as áreas em uso e compromete substancialmente o uso pretendido. Se as áreas de estar não estão obstruídas, é somente devido a intervenções de outras pessoas: membros da família, funcionários de limpeza, autoridades. MÓDULO PROBLEMAS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO – P4 | Luíza Moura e Vitória Neves D. A acumulação causa sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (incluindo a manutenção de um ambiente seguro para si e para os outros). E. A acumulação não é devida a outra condição médica (lesão cerebral, doença cerebrovascular, síndrome de Prader-Willi). F. A acumulação não é mais bem explicada pelos sintomas de outro transtorno mental: obsessões no TOC, energia reduzida no transtorno depressivo maior, delírios na esquizofrenia ou outro transtorno psicótico, déficits cognitivos no transtorno neurocognitivo maior, interesses restritos no transtorno do espectro autista. Especificar se: Com aquisição excessiva: Se a dificuldade de descartar os pertences está acompanhada pela aquisição excessiva de itens que não são necessários ou para os quais não existe espaço disponível. Especificar se: Com insight bom ou razoável: O indivíduo reconhece que as crenças e os comportamentos relacionados à acumulação (relativos à dificuldade de descartar itens, à obstrução ou à aquisição excessiva) são problemáticos. Com insight pobre: O indivíduo acredita que as crenças e os comportamentos relacionados à acumulação (relativos à dificuldade de descartar itens, à obstrução ou à aquisição excessiva) não são problemáticos apesar das evidências em contrário. Com insight ausente/crenças delirantes: O indivíduo está completamente convencido de que as crenças e os comportamentos relacionados à acumulação (relativos à dificuldade de descartar itens, à obstrução ou à aquisição excessiva) não são problemáticos apesar das evidências em contrário. CARACTERÍSTICAS DIAGNÓSTICAS SOBRE O CRITÉRIO A: O termo persistente indica uma: Dificuldade permanente em vez de circunstâncias vitais mais transitórias que podem levar ao acúmulo excessivo, como herdar uma propriedade. A dificuldade em descartar pertences refere-se a: Qualquer forma de descarte: jogar fora, vender, dar ou reciclar. As principais razões dadas para essas dificuldades são: Utilidade percebida; ou Valor estético dos itens; ou Forte apego sentimental aos pertences. Alguns indivíduos se sentem responsáveis pelo destino dos seus pertences e com frequência se esforçam muito para evitar o desperdício. O medo de perder informações importantes também é comum. Os itens mais comumente guardados são: Jornais, revistas, roupas velhas, bolsas, livros, correspondência e papelada, mas praticamente qualquer item pode ser guardado. A natureza dos itens não está limitada aos pertences que a maior parte das outras pessoas definiria como inúteis ou de valor limitado. Muitos indivíduos juntam e guardam muitas coisas valiosas, as quais com frequência são encontradas em pilhas misturadas com outros itens menos valiosos. SOBRE O CRITÉRIO B: Esse critério enfatiza que guardar os pertences é intencional, o que discrimina o transtorno de MÓDULO PROBLEMAS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO – P4 | Luíza Moura e Vitória Neves acumulação de outras formas de psicopatologia que são caracterizadas pela: Acumulação passiva de itens ou pela ausência de sofrimento quando os pertences são removidos. SOBRE O CRITÉRIO C: Por exemplo, o indivíduo pode não conseguir preparar alimentos na cozinha, dormir na sua cama ou sentar em uma cadeira. Se o espaço pode ser usado, é somente com grande dificuldade. Obstrução é definida como um: Grande grupo de objetos em geral não relacionados ou marginalmente relacionados empilhados juntos de forma desorganizada em espaços designados para outros propósitos, como: Em cima de mesas, no chão, no corredor. O critério enfatiza as áreas de estar “ativas” da casa, em vez de áreas mais periféricas, como garagens, sótãos ou porões, que às vezes ficam obstruídas nas casas de pessoas sem o transtorno. Entretanto, os indivíduos com transtorno de acumulação com frequência têm pertences que se espalham além das áreas em uso e podem ocupar e prejudicar a utilização de outros espaços, como: Veículos, pátios, ambiente de trabalho e casas de amigos e parentes. Em alguns casos, as áreas de estar podem estar desobstruídas devido à intervenção de outras pessoas, como: Membros da família, funcionários de limpeza, autoridades locais. Os indivíduos que foram forçados a limpar suas casas ainda têm um quadro de sintomas que satisfaz os critérios para transtorno de acumulação, porque a ausência de obstrução deve-se à intervenção de outras pessoas. O transtorno de acumulação contrasta com o comportamento normal de colecionar, que é: Organizado e sistemático, mesmo que em alguns casos a quantidade real de pertences possa ser similar à quantidade acumulada por uma pessoa com transtorno de acumulação. A atividade de colecionar normal não produz obstrução, sofrimento ou prejuízo típicos do transtorno de acumulação. SOBRE O CRITÉRIO D: Em alguns casos, particularmente quando existe insight pobre, o indivíduo pode não relatar sofrimento, e o prejuízo pode ser evidente somente para aqueles que estão próximos. No entanto, qualquer tentativa de outras pessoas de descartar ou limpar os pertences resulta em altos níveis de sofrimento. CARACTERÍSTICAS ASSOCIADAS QUE APOIAM O DIAGNÓSTICO Outras características comuns são: Indecisão, perfeccionismo, esquiva, procrastinação, dificuldade de planejar e organizartarefas e distratibilidade. Alguns indivíduos com o transtorno vivem em condições insalubres que podem ser uma consequência lógica de espaços gravemente obstruídos e/ou que estão relacionados a dificuldades de planejamento e organização. Acumulação de animais pode ser definida como a: Acumulação muitos animais e a falha em proporcionar padrões mínimos de nutrição, saneamento e cuidados veterinários e em agir sobre a condição deteriorante dos animais (doenças, fome ou morte) e do ambiente (superpopulação, condições extremamente insalubres). MÓDULO PROBLEMAS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO – P4 | Luíza Moura e Vitória Neves A acumulação de animais pode ser uma manifestação especial do transtorno de acumulação. A maioria dos indivíduos que acumula animais também acumula objetos inanimados. As diferenças mais proeminentes entre a acumulação de animais e de objetos são a: Extensão das condições insalubres e o insight mais pobre na acumulação de animais. COLECIONISMO NORMAL VS. TRANSTORNO DE ACUMULAÇÃO O TA deve ser diferenciado do colecionismo normal. O acúmulo de objetos de determinado tipo (por exemplo, selos, moedas e objetos de arte) é comumente chamado de colecionismo. Os colecionadores geralmente são indivíduos metódicos que: Organizam, limpam e catalogam seus itens. Mais de 50% das crianças em idade escolar têm coleções e muitas são mantidas na idade adulta. Dentre os adultos, cerca de 30% apresentam comportamento colecionista. Entretanto, o colecionismo tende a decrescer ao longo da vida, ao contrário da acumulação, que tende a aumentar com o passar dos anos. MÓDULO PROBLEMAS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO – P4 | Luíza Moura e Vitória Neves DESENVOLVIMENTO E CURSO A acumulação parece iniciar cedo na vida e estender-se até os estágios finais. Os sintomas de acumulação podem: Emergir inicialmente em torno dos 11 aos 15 anos de idade; Começam a interferir no funcionamento diário do indivíduo na metade da década dos 20 anos; e Causam prejuízo clinicamente significativo por volta da metade dos 30 anos. Assim, a gravidade da acumulação aumenta a cada década da vida. Depois de iniciados os sintomas, o curso da acumulação é com frequência crônico, com poucos indivíduos relatando um curso com remissões e recidivas. A acumulação patológica em crianças parece ser facilmente distinguida de comportamentos de poupar e colecionar adaptativos de acordo com o nível do desenvolvimento. Como as crianças e os adolescentes geralmente não controlam o ambiente em que vivem e os comportamentos de descarte, a possível intervenção de outras pessoas (pais mantendo os espaços utilizáveis e, assim, reduzindo a interferência) deve ser considerada quando é feito o diagnóstico. TRATAMENTO O transtorno de acumulação é difícil de tratar. Apesar de exibir semelhanças com o TOC, os tratamentos efetivos para este não demonstraram muitos benefícios para pacientes com transtorno de acumulação. Em um estudo, apenas 18% dos pacientes responderam a medicação e TCC. TERAPIA COGNITIVA- COMPORTAMENTAL Os desafios impostos por esses pacientes ao típico tratamento com TCC incluem: Insight pobre para o comportamento; Baixa motivação; e Resistência ao tratamento. O tratamento mais eficaz é um modelo cognitivo- comportamental que inclui: Treinamento em tomar decisões e categorizar; Exposição e habituação ao descarte; e Reestruturação cognitiva de crenças irracionais associadas à acumulação. A!! Isso inclui sessões em casa e no consultório. O papel do terapeuta, nesse modelo, é: Auxiliar no desenvolvimento de habilidades de tomadas de decisão; Oferecer feedback sobre o comportamento normal de guardar coisas; e Identificar e desafiar as crenças errôneas do paciente sobre as posses. O objetivo do tratamento é: Se livrar de uma quantidade significativa de posses, tornando o espaço da moradia habitável; e Oferecer ao paciente as habilidades para manter um balanço positivo entre a quantidade de posses e o espaço habitável. A!! Estudos demonstraram 25 a 34% de redução em comportamentos de acumulação por meio desse método. A reestruturação desse método para intervenções em grupo e on-line atualmente está sendo avaliada e tem se mostrado muito promissora. MÓDULO PROBLEMAS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO – P4 | Luíza Moura e Vitória Neves FARMACOLÓGICO Os estudos de tratamento farmacológico com ISRSs demonstraram resultados mistos. Alguns exibiram uma resposta negativa em pacientes acumuladores, comparados com não acumuladores; Enquanto outros não encontraram diferença significativa entre os 2 grupos. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL OUTRAS CONDIÇÕES MÉDICAS O transtorno de acumulação não é diagnosticado se os sintomas são considerados consequência direta de outra condição médica (Critério E), como: Lesão cerebral traumática; Ressecção cirúrgica para tratamento de um tumor ou controle de convulsões; Doença cerebrovascular; Infecções do SNC: encefalite por herpes simples; ou De condições neurogenéticas, como a síndrome de Prader-Willi. Danos aos córtices pré-frontal ventromedial anterior e cingulado foram particularmente associados à acumulação excessiva de objetos. Nesses indivíduos, o comportamento de acumulação não está presente antes do início da lesão cerebral e surge logo após a ocorrência desta. Algumas dessas pessoas parecem ter pouco interesse nos itens acumulados e são capazes de descartá-los com facilidade ou não se importam se outros os descartam, enquanto outras parecem ser muito relutantes em descartar qualquer coisa. Legenda: diferenças fenomenológicas entre comportamentos de acumulação secundários a dano cerebral macroscópico em pacientes com lesão cerebral ou demenciados e acumulação no transtorno de acumulação. MÓDULO PROBLEMAS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO – P4 | Luíza Moura e Vitória Neves TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO O transtorno de acumulação não é diagnosticado se os sintomas são considerados consequência direta de obsessões ou compulsões típicas, como medos de contaminação, de ferimentos ou sentimentos de incompletude no TOC. Os sentimentos de incompletude (perder a identidade ou ter de documentar e preservar todas as experiências de vida) são os sintomas mais frequentes de TOC associados a essa forma de acumulação. A acumulação de objetos também pode ser: Resultado de rituais onerosos de esquiva persistente: não descartar objetos para evitar rituais intermináveis de lavagem e verificação. No TOC, o comportamento é, em geral, indesejado e altamente angustiante, e o indivíduo não experimenta prazer ou recompensa com ele. A aquisição excessiva geralmente não está presente; Se está, os itens são adquiridos devido a uma obsessão específica: necessidade de comprar itens que foram tocados acidentalmente para evitar a contaminação de outras pessoas; E não devido a um desejo genuíno de possuir os itens. Os indivíduos que acumulam no contexto do TOC também têm mais probabilidade de acumular itens bizarros, como: Lixo, fezes, urina, unhas, cabelo, fraldas usadas ou comida estragada. A!! A acumulação desses itens é muito incomum no transtorno de acumulação. Quando a acumulação grave aparece concomitantemente a outros sintomas típicos de TOC, mas é considerada independente desses sintomas, ambos devem ser diagnosticados, transtorno de acumulação e TOC. Legenda: características da acumulação em pacientes com transtorno de acumulação versus acumulação secundária ao TOC MÓDULO PROBLEMAS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO – P4 | Luíza Moura e Vitória Neves CASO CLÍNICO A Sra. T., mulher solteira de55 anos, apresentou-se a um terapeuta acompanhada de seu filho adulto, que expressou preocupações com a incapacidade da mãe de “jogar coisas fora”. Relatou que a casa da Sra. T. era extremamente entulhada de “coisas desnecessárias”. Entretanto, sempre que tentava ajudá-la a “organizar as coisas”, ficava agitada e começava a discutir. Ela confirmou a reclamação do filho e declarou ter essa dificuldade desde que conseguia lembrar, mas nunca a viu como um problema. Ao longo dos últimos cinco anos, a casa da Sra. T. ficou cada vez mais entulhada, a ponto de ficar difícil transitar por ela. Ela conseguia manter a cozinha e o banheiro relativamente livres, mas o resto da casa estava cheio de caixas e sacolas com papéis, revistas, roupas e presentes e bugigangas variados. A sala era a mais afetada. Seu filho não conseguia mais visitar a mãe devido à dificuldade de se mover e aos poucos espaços para se sentarem de maneira confortável. Essa, a Sra. T. admite, tem sido uma grande fonte de depressão para ela. Disse que costumava gostar de receber sua família e amigos, especialmente nos feriados, mas não tinha convidados há anos porque sentia que sua casa “não era mais adequada para receber companhia”. Ela fez algumas tentativas de limpar a casa, mas não conseguia descartar a maioria dos itens. Quando lhe perguntavam por que ficava com eles, ela respondia: “Eu posso precisar deles mais tarde”.