Prévia do material em texto
2.1 O que é pesquisa científica? Agora que você já identificou as características do conhecimento, principalmente o científico, vamos compreender como ele é produzido. Você sabia que a pesquisa é o caminho para se chegar à ciência e ao conhecimento? Pode-se dizer que a atividade básica da ciência é a pesquisa (VERGARA, 2016). Por meio dela, se desenvolve um processo para inquirir os fenômenos, com o objetivo de compreendê-los e explicá-los (ALYRIO, 2009). Sendo assim, a geração de conhecimento ocorre a partir da confirmação, da complementação, da refutação ou da adição de informações vinculadas ao tema estudado (CAUCHICK-MIGUEL et al., 2017). A pesquisa se estabelece como um procedimento racional e sistemático, que visa a fornecer respostas aos problemas que são propostos. Portanto, as pesquisas são desenvolvidas quando não temos informações suficientes para responder ao problema. Em algumas situações, as informações estão disponíveis, porém, de forma desordenada. Nesse caso, pesquisas também são necessárias para solucionar, adequadamente, o problema proposto (GIL, 2018). Uma pesquisa deve ser desenvolvida com base nos conhecimentos disponíveis e com a utilização cuidadosa de métodos e técnicas de investigação científica (GIL, 2018). Em outras palavras, uma pesquisa representa o processo, a forma, a maneira, o caminho a ser seguido para o alcance de respostas para uma dúvida sobre um problema ou um fato, obedecendo a princípios, normas e técnicas (ALYRIO, 2009). Nesse contexto, uma pesquisa, para ser considerada científica, precisa ser realizada de maneira sistematizada. Para tanto, deve utilizar método próprio e técnicas específicas (ALYRIO, 2009). Vamos compreender o que significa o método de pesquisa? A palavra método origina-se do grego methodos e significa o “caminho para chegar a um fim”. Nesse sentido, refere-se ao conjunto de regras básicas para o desenvolvimento de uma investigação, com o objetivo de produzir novos conhecimentos ou ajustar e integrar conhecimentos já existentes. Pode-se entender o método científico como o conjunto de passos utilizados para a obtenção de um conhecimento confiável (GIL, 2019). Amplie os seus conhecimentos sobre o método científico, por meio do conteúdo disponível no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=eRDBggKy0js Tradução (transcrição) do vídeo A palavra Ciência vem do latim, scientia, que pode ser diretamente traduzida como conhecimento. Mas ciência não se refere a qualquer tipo de conhecimento. Para ser científico é preciso se adequar e passar por um conjunto de princípios e técnicas que servem para organizar e avaliar sua credibilidade. E a esse conjunto de princípios e técnicas damos o nome de método científico. Há milhares de anos o homem vem desenvolvendo métodos para decidir se é seguro ou não acreditar em algo. No início esses métodos eram mais ligados a sistemas filosóficos e baseados em lógicas simples. Só no século 17 é que foi criado o método científico moderno, com a base lógica aperfeiçoada e princípios sistematizados para encontrar verdades. Desde então, especialmente no século XX, muita coisa mudou, e hoje temos um modelo contemporâneo do método científico. As bases do método continuam as mesmas. Observação empírica e um sistema lógico de pensamento. Porém o foco do cientista não é mais provar que algo seja verdadeiro ou falso, porque hoje sabemos que isso é impossível. Qualquer teoria, a princípio considerada verdadeira, está fadada a ser questionada e modificada por futuras evidências, um processo que é observado inúmeras vezes na história. Cientificamente falando não é possível provar coisa alguma, toda verdade é transitória. Então o método científico atualmente é um processo contínuo de verificar a adequação das hipóteses à realidade que foi observada até o momento. Esse processo pode ser ilustrado da seguinte forma. Primeiro é preciso observar a natureza, o mundo a sua volta, e depois questiona-se o que foi observado. Como isso acontece? Por que? Isso é real ou só uma ilusão? A partir desses questionamentos propõem-se hipóteses, que são apenas palpites de qual seria a resposta da pergunta. Essa hipótese deve prever alguma consequência na natureza caso seja verdadeira, então é hora de observar partes específicas da natureza e verificar se essas previsões realmente ocorrem. E para isso são realizados experimentos. Se os resultados dos experimentos não concordarem com a hipótese, isso não é ruim, pois aprendemos algo novo sobre a natureza. E também ainda é possível revisar a hipótese, modifica-la, expandi-la, ou então descarta-la de uma vez. A nova hipótese vai prever novas consequências e outro experimento é feito. Se os resultados concordarem com a hipótese então se tem uma evidência a favor dela. Quando se reúne um grande número de evidências e de acordo com muitas hipóteses sobre um mesmo tema, então pode ser criada uma teoria. Essa ilustração simplifica bem o processo, mas pode causar a falsa impressão de que um cientista faz isso tudo sozinho e de forma linear, o que nunca é o caso. É possível começar ou terminar uma pesquisa ou um projeto em qualquer estágio, e a qualquer momento outros pesquisadores podem participar, conferindo, questionando, propondo alternativas, replicando seus experimentos ou realizando os seus próprios. Essa rede colaborativa é essencial para o funcionamento da ciência, pois cada pesquisa individualmente traz pouca evidência sobre uma hipótese muito específica. É preciso trabalho gradual e acumulado de muitos para poder formular alguma teoria relativamente segura sobre qualquer coisa. E além disso existem alguns detalhes que precisam ser explicados. Uma hipótese é uma proposta de explicação para um fenômeno, que é apenas um palpite. Mas para a hipótese ser considerada científica, precisa ser falseável, isso é, testável. Para isso ela tem que ser específica, e gerar previsões verificáveis. Se a hipótese não for específica ela pode admitir diversas possibilidades, e ser erradamente aceitada porque as evidências vão estar sempre de acordo. Ou então podem ser que não existem meios para verificar as previsões da hipótese. Nesse caso a hipótese não pode ser discutida em termos científicos até que seja criada alguma forma de verificar suas previsões. Os experimentos são feitos para observar um ponto específico da natureza e verificar se as previsões da hipótese estão de acordo com a realidade. Se os resultados concordarem com a hipótese isso não comprova que ela seja verdadeira. Como já disse, nada pode ser provado por meios científicos. É possível que exista um erro nos resultados. Outros pesquisadores podem tentar replicar o experimento e obter um resultado diferente, ou alguém pode conduzir outro experimento diferente, que acabe discordando com a sua hipótese. Mas se os resultados descordarem da hipótese isso também não prova que ela seja falsa. Pode haver algum problema no método usado ou algum fator de confusão não considerado. E mesmo se não for nada disso, ainda é possível revisar a hipótese para criar uma nova e realizar um outro experimento. A publicação dos resultados, positivos ou negativos, é extremamente importante. Ciência só se constrói com a colaboração de muitos, e para isso é preciso que todos compartilhem as suas ideias, métodos e resultados. Isso tudo faz parte de uma visão bem ampla do método científico, mas cada área do conhecimento vai aplicar esses princípios de uma forma diferente, seja na saúde, na física, na sociologia, na astronomia, ou na biologia. Como eu sou médico, minha experiência é mais limitada a área da saúde. Só que esse vídeo já ficou grande demais, então no próximo eu vou falar sobre como é aplicado o método científico na área da saúde. Obrigado e até mais! No próximo tópico, vamos conhecer os requisitos para a realização de uma pesquisa científica. Referências ALYRIO, Rovigati Danilo. Métodos e técnicas de pesquisa em administração. Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2009. GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas,2018. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019. CAUCHICK-MIGUEL, Paulo Augusto et al. Elaboração de artigos acadêmicos: estrutura, métodos e técnicas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 16. ed. São Paulo: Atlas, 2016. 2.2 Requisitos da pesquisa científica O desenvolvimento de uma pesquisa científica depende do atendimento de alguns requisitos básicos, que irão impactar na obtenção dos resultados e na resposta adequada ao problema proposto. Uma pesquisa conduzida com recursos amplos e adequados tem maior probabilidade de ser bem-sucedida, em comparação com outra em que os recursos disponíveis são deficientes (GIL, 2018). Veja, na Figura 1, quais são os requisitos para o desenvolvimento da pesquisa científica: Requisitos para a pesquisa científica: qualificação do pesquisador, recursos humanos, financeiros e materiais Figura 1: Requisitos básicos para o desenvolvimento da pesquisa científica A partir das informações disponíveis na Figura 1, podemos destacar a qualificação intelectual e social do pesquisador, contemplando aspectos como o conhecimento do assunto a ser pesquisado, a curiosidade, a criatividade, a integridade intelectual, a sensibilidade social, a perseverança e a paciência (GIL, 2018). Também é importante salientar que uma pesquisa necessita de recursos humanos, representados pelo(s) pesquisador(es) e sua(s) equipe(s). Além disso, a disponibilização de materiais, tais como equipamentos, livros e instrumentos, o pagamento da remuneração dos profissionais envolvidos e a contratação de serviços terceirados, relacionados à pesquisa, demandam a disponibilidade de recursos financeiros. Portanto, o desenvolvimento da pesquisa científica, de forma bem-sucedida, dependerá da existência dos recursos anteriormente mencionados. Como você já conhece o que é a pesquisa científica e os seus requisitos, vamos explorar, no próximo tópico, as suas finalidades. Referências GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2018. Fonte da Figura 1: elaboração própria. 2.3 Finalidades da pesquisa científica Chegou a hora de respondermos a seguinte pergunta: Por que realizamos uma pesquisa científica? As razões pelas quais a pesquisa científica é desenvolvida podem ser classificadas em dois grandes grupos: razões de ordem intelectual e razões de ordem prática (GIL, 2018). Essa classificação também ocorre em função do grau da aplicação mais ou menos imediata dos resultados (ALYRIO, 2009). A pesquisa desenvolvida por razões predominantemente intelectuais e decorrente do desejo de conhecer, pela própria satisfação de conhecer, é denominada de pesquisa básica ou pura (GIL, 2018). Nessa tipologia, os resultados obtidos se situam em um futuro remoto, sem aplicação imediata (ALYRIO, 2009). Veja alguns exemplos de pesquisa básica (ALYRIO, 2009; MARCONI; LAKATOS, 2018): a descoberta de um novo material resistente ao fogo, à água, ao tempo, ainda não aplicável; a teoria da relatividade. Já a pesquisa realizada por razões de ordem mais prática, decorrente do desejo de conhecer um objeto, com vistas a fazer algo de maneira mais eficiente ou eficaz, denomina-se pesquisa aplicada (GIL, 2018). Nessa tipologia, há uma expectativa de utilização mais imediata dos resultados, visando a atender às exigências da vida moderna, por meio da busca de solução de problemas concretos (ANDRADE, 2018). Veja alguns exemplos de pesquisa aplicada (ALYRIO, 2009; MARCONI; LAKATOS, 2018): estudos sobre como o óleo de cozinha pode ser transformado em biodiesel ou sabão doméstico; utilização da energia nuclear. Embora exista essa classificação, as pesquisas básicas e aplicadas não são mutuamente excludentes. Pelo contrário, elas podem ser complementares. Uma pesquisa que aborda problemas práticos pode conduzir à descoberta de princípios científicos. Por outro lado, uma pesquisa básica pode originar conhecimentos passíveis de aplicação prática mais imediata (ANDRADE, 2018; GIL, 2018). Referências ALYRIO, Rovigati Danilo. Métodos e técnicas de pesquisa em administração. Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2009. ANDRADE, Maria Margarida de. Introdução à metodologia do trabalho científico: elaboração de trabalhos na graduação. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2018. GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2018. MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de pesquisa. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2018.