Prévia do material em texto
Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 174 O ENSINO DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA A JOVENS DE ESCOLAS PÚBLICAS DE SANTO ÂNGELO 1 The Teaching Financial Education for Young Public Schools Santo Ângelo Larissa BRUTES1 Rosane Maria SEIBERT2 RESUMO Este artigo tem o objetivo de relatar a experiência de um projeto de extensão desenvolvido pelo curso de Ciências Contábeis, da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI Campus de Santo Ângelo, que tinha por finalidade a disseminação da educação financeira a jovens alunos de escolas públicas do município de Santo Ângelo mediante a elaboração de uma cartilha sobre o tema e a da realização de ciclos de estudos com esses jovens nas escolas e com os seus pais. Desta forma, pretendia melhorar a qualidade de vida destes alunos através da boa gestão de suas finanças. Palavras - chave: Educação Financeira; Extensão; Finanças Pessoais. ABSTRACT This article aims to describe the experience of the extension project developed by the Accounting course of Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões - URI Campus Santo Ângelo which was intended to spread financial education to young students of public school in the district of Santo Ângelo by developing a primer on the subject and conducting study cycles with these young people in schools and with their parents. Thus, it intended to improve the quality of life of these students through the proper management of their finances. Keywords: Financial Education, Extension; Personal Finance INTRODUÇÃO Finanças pessoais é a ciência que estuda os conceitos relacionados ao dinheiro no dia-a-dia de uma pessoa ou família. A educação financeira orienta a como utilizar os recursos disponíveis de maneira adequada, ensinando a fazer melhores escolhas com o dinheiro para garantir o futuro, preparar para situações de emergência e auxiliar no alcance de objetivos e projetos de vida. 1 Acadêmica do 7º semestre do Curso de Ciência Contábeis da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai – Campus Santo Ângelo. larissab@via-rs.net 2 Orientadora, Professora Mestre do Curso de Administração e Ciências Contábeis da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões - Campus Santo Ângelo. Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 175 Nota-se hoje, na sociedade em que vivemos uma falta de educação financeira da população que, em sua grande maioria, sofre com problemas financeiros e com dívidas. Os jovens, em geral, não aprendem esses conhecimentos nas escolas, pois esse ainda não é um tema obrigatório nos currículos. Desse modo, muitos acabam repetindo o comportamento financeiro dos pais, que também desconhecem tais conceitos. Como resultado, os jovens entram no mercado de trabalho sem saber como fazer boas escolhas no que diz respeito as suas finanças pessoais. Diante disso, o curso de Ciências Contábeis da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI, Campus de Santo Ângelo -RS, desenvolveu um projeto de extensão a fim de levar a educação financeira aos estudantes da 8ª série do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, de escolas públicas do município de Santo Ângelo, através da elaboração de uma cartilha sobre o tema e de encontros e ciclos de estudo. Para tanto, a cartilha contemplou assuntos relacionados às finanças pessoais, sobre como bem administrar os recursos da família e contendo inclusive exercícios práticos para aprimoramento do aprendizado. Já os encontros ocorreram nas escolas públicas por meio de palestras abrangendo os temas expostos na cartilha e da resolução de alguns exercícios práticos contidos nesta. A grande relevância do projeto de extensão, além de proporcionar a educação financeira aos alunos, foi contribuir para a melhoria da sua qualidade de vida hoje e no futuro, através da melhor gestão de suas finanças. REVISÃO DA LITERATURA E FUNDAMENTOS TEÓRICOS As discussões envolvendo o homem e sua relação com o dinheiro são tão antigas quanto a invenção da moeda e desde então ele enfrenta dificuldades para administrar as suas finanças. De acordo com D’Aquino (2008), “desde que surgiu o dinheiro, surgiu a necessidade de se pensar sobre ele. Não por acaso, é possível encontrar até mesmo lá atrás, na Grécia antiga, conselhos sobre o melhor uso das finanças: Aristóteles discorreu sobre a necessidade de se ter uma poupança; o sofrimento de que o avarento é vítima e algoz, e sobre como é de mau gosto a ostentação”. Conforme Bugarin et al A base conceitual para a criação do dinheiro foi a troca ou o escambo. Essa troca tinha como premissa básica a necessidade do homem em adquirir coisas que ele não dispunha (seja por não encontrar na natureza ou por não saber produzi-las), trocando-as por outras que ele tinha sobrando, que dispunha em abundância ou que não eram tão importantes quanto àquelas que ele necessitava, podendo, assim, delas se desfazer. (BUGARIN et al, 2010, pg.13) A moeda surgiu, posteriormente, da necessidade de um meio de troca padronizado para o pagamento de bens, serviços e dívidas. De acordo com Carrion Jr.(1998): Devido ao poder de compra e à estabilidade da moeda, alguns passaram a guardá-la em boa quantidade para compras futuras ou mesmo investimentos. Adiante, os que gozavam de confiança na comunidade passaram a tomar conta desses metais e, em garantia, davam papéis em que estava escrito o montante em moda que ficara sob guarda; surgia, então, a ‘moeda-papel’. (CARRION JR., 1998, p 13) Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 176 Com o tempo, os mais ricos emprestavam moedas ou esses papéis, ficando com um instrumento particular de crédito, o que encaminhou o surgimento e ampliação das operações bancárias e a própria criação dos bancos. (CARRION JR., 1998) Com o advento da Revolução Industrial e o surgimento do capitalismo, iniciou-se a preocupação com a acumulação de riquezas, e o dinheiro passou a ser visto como símbolo de status social, principiando-se, assim, a sociedade de consumo. Nesse contexto, segundo Coelho (2002), o homem tornou-se escravo de suas sofisticadas invenções. As preocupações giram em torno de novas técnicas; tal realidade engolfou de tal maneira o ser humano, que ele se acabou por esquecer de si próprio. Em uma sociedade do consumo, o homem é motivado a consumir por fatores internos e externos: interno, influenciado por sua vontade pessoal; externo, influenciado pelo meio social. (COELHO, 2002). De acordo com Cerbasi (2004), o consumo e um padrão de vida além de nossas posses são o motivo do insucesso financeiro. Desse modo, o consumo exagerado é uma das principais causas de endividamento das pessoas e faz com que estas tenham problemas para equilibrar as finanças. Conforme Pereira (2001) com o desenvolvimento da tecnologia das comunicações, da informática, dos plásticos, dos chips, e por último, da infovia com a Internet, o dinheiro saiu da superfície e ocupou o espaço aéreo, funcionando como impulso eletrônico. Hoje, o dinheiro eletrônico não começa nem termina em lugar nenhum: está em constante movimento, transitando de um lugar para outro. (PEREIRA, 2001). De acordo com Carrion Jr. (1998), só foi possível aos mercados evoluírem – e por consequência, as economias – na medida em que a moeda se consolidou como instrumento seguro e representativo de valor. No entanto, o desenvolvimento dos mercados financeiros não ocorreu aliado a uma educação financeira da população, que ainda sofre para administrar as suas finanças e desconhece os principais produtos deste mercado. Diante disso, o ensino da educação financeira torna-se indispensável, conforme afirma a Organização para a Cooperação eDesenvolvimento Econômico – OCDE: Educação financeira sempre foi importante aos consumidores para auxiliá- los a orçar e gerir a sua renda, a poupar e investir com eficiência, e a evitar que se tornem vítimas de fraudes. No entanto, sua crescente relevância nos últimos anos vem ocorrendo em decorrência do desenvolvimento dos mercados financeiros, e das mudanças demográficas, econômicas e políticas. (OCDE, 2004, p.223) A OCDE conceitua educação financeira como sendo: “[...] o processo pelo qual os consumidores/investidores financeiros melhoram a sua compreensão dos produtos financeiros, conceitos e riscos e, por meio de informação, instrução e /ou aconselhamento objetivo, desenvolvem as habilidades e a confiança para se tornarem mais conscientes dos riscos financeiros e oportunidades, a fazer escolhas informadas, para saber onde procurar ajuda, e tomar outras ações efetivas para melhorar o seu bem-estar financeiro. (OCDE, 2005, p.4) No Brasil, anos de inflação contribuíram para uma ausência de educação financeira da população, principalmente em relação ao planejamento financeiro e poupança. A inflação é o Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 177 aumento generalizado e contínuo dos preços, causando a redução do poder aquisitivo da moeda. “Numa economia sufocada pela inflação, qualquer tentativa de planejamento financeiro, por mais sério e bem-intencionado que fosse, tinha resultados frágeis e um bocado desanimadores. Se não era possível saber o que esperar da economia para o dia seguinte, que dirá planejar os passos para os próximos cinco ou dez anos”. (D’AQUINO, 2008) Frankenberg (1999) destaca que há no Brasil, pouca ou nenhuma educação financeira e que muitos anos de inflação, desinformação e erros cometidos por sucessivos governos do passado resultaram em conceitos financeiros errôneos, absorvidos sem contestação e passivamente pela população. Com a implementação do Plano Real e a consequente estabilização da moeda, tornou-se possível o planejamento e a poupança a longo prazo. No entanto, mesmo com o cenário favorável, a população tem problemas financeiros devido a fatores como os apelos da mídia para o consumo, a grande oferta de crédito e a falta de conhecimentos financeiros. Também, esses conhecimentos não são passados nas escolas, embora existam alguns projetos para implantar a educação financeira no ensino. Dessa forma, os jovens acabam, muitas vezes, repetindo os mesmos erros dos pais e inserem-se no mercado de trabalho sem ter uma noção de como administrar o seu salário. A educação financeira ensina como utilizar o dinheiro de forma consciente e saber consumir melhor para manter o equilíbrio das finanças, possibilitando a preparação para situações de emergência, a realização dos projetos de vida e a garantir o futuro. Muito mais do que ensinar a ganhar dinheiro, cortar gastos e poupar, ela orienta a bem utilizar o dinheiro, buscando uma melhor qualidade de vida tanto hoje quanto no futuro. Sebstad e Cohen (2003) afirmam que: “… o propósito da educação financeira é ensinar às pessoas conceitos relacionados ao dinheiro e como administrá-lo com sabedoria. O objetivo é capacitar as pessoas a tornarem-se mais informadas nas suas decisões financeiras, desenvolver a consciência das questões e escolhas referentes às suas finanças pessoais, e aprender habilidades básicas relacionadas a ganhar, gastar, orçar, poupar, emprestar e investir dinheiro”. (SEBSTAD e COHEN, 2003, p. 8) O ensino da educação financeira deve começar desde cedo, como afirma Pereira (2001), o processo de educação financeira deveria começar por volta dos 2 ou 3 anos de idade, quando a criança pede pela primeira vez dinheiro para doces e brinquedos. D’Aquino (2008) afirma que o objetivo de ensinar educação financeira para as crianças é levá-los a atingir a maturidade financeira, ou seja, a capacidade de adiar os desejos de agora em função de futuros benefícios. Os jovens precisam aprender esses conceitos, mesmo que ainda não recebam salário ou mesada, pois no futuro terão que lidar com o próprio dinheiro e o quanto antes esses conhecimentos forem aprendidos serão mais facilmente utilizados. Para D’Aquino (2005) a educação financeira prepara os jovens para uma vida de autonomia responsável e valores solidários, ajudando-os a evitar as armadilhas da supervalorização do dinheiro em suas vidas. Não é incomum vermos jovens seduzidos pelas armadilhas do consumo, comprando algum item por estar na moda ou para satisfazer o grupo de amigos. Além disso, alguns pais não limitam o consumo dos filhos, que quando adultos acabam não tendo controle sobre os seus gastos. Desse modo, aprender sobre finanças auxilia aos jovens a diferenciar o que é essencial e o que é supérfluo, Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 178 tornando-os consumidores mais conscientes. O equilíbrio financeiro é possível a todos, independentemente da renda auferida, pois o mais importante não é o quanto se ganha de dinheiro, mas como ele é utilizado, conforme destaca Modernell (2011): Os princípios da educação financeira visam ajudar as pessoas a adquirir bons hábitos financeiros para que possam conquistar melhores condições de vida, sejam elas de famílias de baixa renda ou das classes mais privilegiadas. O foco não deve ser na busca de conhecimentos nem na perseguição das riquezas, mas na melhoria de atitudes e posturas que ajudem a fazer o dinheiro render mais, para que proporcione às pessoas mais tranquilidade, mais segurança, mais conforto e mais prazer. (MODERNELL, 2011) Ainda, D’Aquino (2008) salienta que: “Educação financeira não pode ser privilégio de crianças ricas ou de classe média. É justamente às camadas menos favorecidas da população que se deve dar prioridade neste aspecto. É sobretudo a essas pessoas - de pouquíssimos recursos - a quem se deve dar a conhecer, com urgência, como ganhar, gastar e poupar dinheiro”. (D’AQUINO, 2008) As classes mais baixas precisam aprender sobre finanças para que consigam sobreviver por conta própria, sem precisar de auxílios do governo para cobrir suas necessidades essenciais, como ressalta Domingos (2011): Fala-se muito na melhor distribuição de riqueza, hoje concentrada na mão de poucos, em nosso país. Todavia, além de distribuir, é preciso ensinar a gerir e gerar riqueza a partir das fatias do bolo que couberem a cada um, com base em uma distribuição mais justa. Do contrário, não será possível romper definitivamente o círculo de miséria ao qual tantos hoje se veem condenados. (DOMINGOS, 2011, p. 23) Assim, não basta distribuir riquezas, é necessário que haja uma educação financeira da população. Um país cuja taxa de poupança interna seja reduzida possui menos recursos disponíveis para investimentos e menos dinheiro circulando no mercado. Desse modo, uma população educada financeiramente - que sabe como ganhar, gastar e poupar dinheiro – não só melhora as suas condições de vida como também contribui para o crescimento econômico do país. Atualmente, a educação financeira já é uma preocupação a nível mundial. Neste sentido, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE tem atuado para difundir a educação financeira pelo mundo. A OCDE é uma organização internacional fundada em 1961 com a finalidade de trocar informações para fomentar o crescimento econômico e o desenvolvimento dos países membros. É composta por 34 membros e tem sede em Paris, na França. O Brasil não é membro da OCDE, mas tem participado de atividades por ela patrocinadas. Em 2003, a OCDE inaugurou um programa de educação financeira e, desde então, vem promovendo ações sobre o tema. Entre os países que já possuem programas de educação financeira no ensino encontram-se Austrália, Canadá, França, Irlanda, Malásia,Holanda, Cingapura, Reino Unido (Escócia, Inglaterra, País de Gales) e Estados Unidos. (ENEF, 2008) Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 179 No Brasil, a educação financeira ainda não é obrigatória nas escolas, embora existam algumas instituições particulares que desenvolvam projetos sobre o assunto. No entanto, o governo federal criou em 2010, através do Decreto nº 7.397, a Estratégia Nacional de Educação Financeira que visa, entre outras medidas, implantar a educação financeira no ensino. Conforme o Plano Diretor da ENEF (2011): A ENEF tem os objetivos de promover e fomentar a cultura de educação financeira no país, ampliar o nível de compreensão do cidadão para efetuar escolhas conscientes relativas à administração de seus recursos, e contribuir para a eficiência e solidez dos mercados financeiro, de capitais, de seguros, de previdência e de capitalização. (ENEF, 2011, p.2) O programa conta com a participação de diversas entidades e, além de auxiliar na educação financeira de crianças e adultos, também pretende mapear as iniciativas de educação financeira gratuitas nas escolas que já ocorrem no país através do site da ENEF (www.vidaedinheiro.gov.br). Em 2010, a ENEF iniciou um projeto piloto de educação financeira em algumas escolas selecionadas e, de acordo com Cerbasi (2012), após dois anos de projeto piloto da ENEF, concluiu- se que a educação financeira é transformadora para a vida dos alunos e de suas famílias. Desse modo, como afirma Domingos (2011) [...] o reconhecimento da importância da educação financeira na vida das pessoas já é um fato concreto. Mas ainda temos um longo caminho pela frente, inclusive para superar o estigma de que a educação financeira está relacionada às ciências exatas, quando, na verdade, o componente comportamental, os hábitos e costumes, é que estão na base de tudo. (DOMINGOS, 2011, p. 22) A OCDE (2005) recomenda que os programas de educação financeira: devem focar em questões de alta prioridade, que, dependendo das circunstâncias nacionais, podem incluir aspectos importantes do planejamento da vida financeira como poupança, gestão da dívida privada ou seguros, bem como pré-requisitos para a consciência financeira, como matemática financeira elementar e economia. A consciência dos futuros aposentados sobre a necessidade de avaliar a adequação financeira de seus atuais sistemas de pensões públicos ou privados e tomar as medidas adequadas quando necessário, deve ser incentivada. (OCDE, 2005, pg.5) Por fim, Cerbasi (2012) salienta que: Educar para o dinheiro não é condenar o consumo e doutrinar para a poupança. É estimular a organização pessoal para que desejos de consumo não extrapolem limites e se tornem insustentáveis. É exercitar a disciplina com o objetivo de ter qualidade de consumo por toda vida, e não apenas no futuro, como recompensa de sacrifícios presentes. Ferramentas de controle devem ser exercitadas, mas sem que sejam complexas e detalhistas. Devem ser simples, para que possam ser praticados cotidianamente e não consumam nosso tempo. As boas práticas de educação financeira devem induzir a escolhas Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 180 equilibradas. Isso se faz combinando referências matemáticas com práticas ambientais, sociais, filosóficas e éticas. Por isso, recomenda-se que a educação financeira seja uma prática interdisciplinar, e não uma disciplina específica no currículo. Se pais e educadores atentarem a isso, estaremos virando uma página na história do comportamento de consumo dos brasileiros. (CERBASI, 2012) Assim, educar financeiramente não é ensinar fórmulas prontas de como acumular riquezas, mas auxiliar as pessoas a fazerem melhores escolhas no que diz respeito ao dinheiro, procurando ter uma boa qualidade de vida hoje, mas sem esquecer-se do futuro. OBJETIVOS O principal objetivo do projeto de extensão era proporcionar educação financeira pessoal e familiar para jovens estudantes de escolas públicas do Município de Santo Ângelo de forma que estes aprendessem a fazer melhores escolhas e a bem administrar o seu dinheiro. O projeto teve como objetivos específicos: a) Estudar a teoria sobre Finanças, em especial as finanças pessoais e familiares. b) Elaborar uma cartilha sobre o assunto, contendo inclusive exercícios práticos a fim de complementar o aprendizado. c) Promover ciclos de estudos das cartilhas com os alunos de ensino fundamental (8º e 9º anos) e médio das escolas públicas. d) Promover encontros com os pais dos alunos dessas escolas que tenham interesse em aprender sobre finanças pessoais e familiares, de modo que possam contribuir com a formação de seus filhos. MATERIAL E MÉTODOS O projeto de extensão foi proposto pela Universidade por intermédio do Curso de Ciências Contábeis visando o ensino da Educação Financeira a jovens estudantes da 8ª série do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, nas escolas públicas do município de Santo Ângelo. Para a efetivação do projeto foram realizadas duas fases. Na primeira, que compreendeu o período de agosto a dezembro de 2012, foi realizado um estudo teórico através de pesquisas sobre a área das finanças, com ênfase nas finanças pessoais e familiares, e da participação em cursos on- line gratuitos sobre planejamento financeiro familiar, orçamento doméstico e investimentos. Concomitantemente, em setembro, iniciou-se a elaboração de uma cartilha sobre o assunto, que deveria conter também exercícios práticos para aprimoramento do aprendizado. A cartilha tem por objetivo abranger assuntos como o que são finanças, quais suas funções, como controlar os seus ganhos, como fazer um planejamento financeiro, um orçamento e um fluxo de caixa, como analisar qual é o melhor investimento e ou o melhor financiamento, entre outros assuntos relevantes para uma boa administração financeira. Por sua vez, os exercícios práticos foram elaborados conforme exemplos encontrados em livros e sites da internet e com base no material da cartilha. Estes foram adaptados à realidade dos jovens a fim de que fosse possível relacionar os conceitos estudados com o seu dia-a-dia. Na segunda fase, compreendida no período de janeiro a julho de 2013, ocorreu a preparação e a realização dos encontros e ciclos de estudos. Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 181 Antecedendo os encontros, foram realizadas visitas às escolas a fim de apresentar o projeto, averiguar o interesse de participação da instituição e agendar um horário para a palestra. Como o número de escolas públicas em Santo Ângelo que abrangia o grupo de alunos de interesse no projeto era grande, priorizaram-se as escolas estaduais que possuíam ensino fundamental e médio. Também, como o número de alunos nessas escolas era elevado, o espaço insuficiente para acomodar todos e como se desejava abranger o máximo de escolas possíveis, optou-se por realizar as palestras por amostragem ficando a critério da escola selecionar os alunos que participariam do projeto. Os encontros nas escolas públicas ocorreram de abril a junho de 2013. Em cada encontro, o tema era apresentado através de recursos audiovisuais e, posteriormente, alguns exercícios práticos eram realizados a fim de que os jovens conseguissem relacionar o conteúdo exposto com a prática. Os alunos recebiam no início do encontro a cartilha para acompanhar a apresentação. Levando-se em consideração o público jovem, procurou-se fazer uma apresentação didática, com linguagem adequada à idade e com auxílio de vídeos para chamar a atenção. Também, foram feitos questionamentos de forma que os jovens pudessem interagir durante a palestra e que fosse possível conhecer o que o público já sabia sobre o tema.Após o término da palestra era aberto um espaço para que as suas dúvidas acerca do assunto fossem esclarecidas. RESULTADOS Após o primeiro ano do projeto de extensão, pode-se afirmar que o principal objetivo por ele proposto foi atingido, uma vez que os jovens estudantes das escolas públicas do município de Santo Ângelo tiveram acesso ao conhecimento proporcionado pela educação financeira, através da cartilha e da realização dos encontros de estudos. A cartilha foi elaborada de modo a informar os jovens sobre os assuntos relativos às finanças pessoais, tais como: o que são finanças, a importância da educação financeira, planejamento financeiro, orçamento e fluxo de caixa, formas de economizar com atitudes simples, como fazer uma boa compra, dívidas e como sair de uma situação de endividamento, os tipos de crédito, tipos de investimentos, entre outros itens. Antes de iniciar os encontros nas escolas públicas, foi realizada uma apresentação teste na Escola da URI em Santo Ângelo, a fim de avaliar o material utilizado. O encontro teve duração de 1 hora e 20 min e contou com a participação de 76 pessoas, sendo 73 estudantes da 8ª série do Ensino Fundamental e do 1º ano do Ensino Médio. A partir desse evento, iniciaram-se as apresentações nas escolas públicas. As escolas que participaram do projeto foram: Escola Estadual de Ensino Médio Unírio Carrera Machado, Colégio Estadual Onofre Pires, Escola Técnica Estadual Presidente Getúlio Vargas, Escola Estadual de Ensino Médio Dr. Augusto Nascimento e Silva, Colégio Tiradentes Santo Ângelo, Instituto Estadual de Educação Odão Felippe Pippi e Colégio Estadual Pedro II. Cada encontro teve duração entre 1 hora e 1 hora e meia, abrangendo sete escolas públicas e 765 pessoas, entre alunos e professores. Deste total, 44 eram alunos da 8ª série do ensino fundamental e, no ensino médio, 196 eram alunos do 1º ano, 258 do 2º ano e239 do 3º ano, além de 28 professores. Já os ciclos de estudos, que deveriam ser realizados com os pais desses alunos, não ocorreram devido à dificuldade das escolas de trazerem os pais ao âmbito escolar e a indisponibilidade de horários para este fim. Desse modo, optou-se por priorizar os encontros com os alunos e professores. Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 182 Além dos objetivos propostos pelo projeto, foram realizadas palestras fora do grupo de amostra uma vez que este assunto é de relevância não apenas a este grupo, mas à sociedade como um todo. Desse modo, a bolsista ministrou uma aula aos alunos da 7ª série da Escola da URI, em Santo Ângelo, na qual participaram 30 alunos. Levando em consideração a idade dos alunos, o material apresentado foi adaptado de forma que estes conseguissem aliar estes conhecimentos com a sua realidade. Preocupou-se em orientá-los a como fazer o planejamento das finanças e como estes já poderiam iniciar com a mesada. Também, participou-se da XV Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho – SIPAT, na URI Santo Ângelo, com a palestra “Finanças Pessoais”, no dia 17 de maio de 2013. A palestra contou com a presença de 65 funcionários de diversos setores da URI. Ao todo, foram realizadas 14 palestras, em 8 instituições de ensino, para um número de 936 pessoas, entre alunos, professores e funcionários da URI. Diante dos resultados acima expostos, obtidos durante o primeiro ano de realização do Projeto de Extensão de Finanças Pessoais para Jovens de Escolas Públicas, passa-se a sua discussão e análise no item a seguir. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS A realização desse projeto de extensão possibilitou que um grande número de jovens se beneficiasse com os conhecimentos sobre finanças pessoais e aprendessem a fazer uma melhor gestão dos seus recursos. O número de 936 pessoas que participaram do projeto pode ser considerado exitoso. Grande parte das escolas públicas estaduais de ensino fundamental e médio do município foi atendida pelo projeto, apenas uma escola não participou devido a problemas de horários. Ainda, algumas escolas solicitaram mais de uma apresentação para que um maior número de alunos participasse das palestras. Com relação aos assuntos tratados durante os encontros, foi abordada a importância da educação financeira, como e porque fazer um planejamento financeiro, um orçamento e fluxo de caixa, sobre as dívidas e como sair de uma situação de endividamento. Também, falou-se sobre crédito, como utilizá-lo de maneira correta e como escolher entre as principais alternativas de crédito, como fazer uma boa compra e ser um consumidor consciente, o que é uma dívida boa e uma dívida ruim e, por fim, explanou-se sobre os investimentos, a importância de investir o dinheiro e as principais formas de investi-lo. Procurou-se durante a explanação desses assuntos não apenas esclarecer os conceitos, mas mostrar como os alunos poderiam utilizá-los na prática de modo a melhorar a administração dos seus recursos no seu dia-a-dia através de melhores escolhas. Acredita-se que o material utilizado e as apresentações tenham atingido os jovens por serem de fácil linguagem e compatíveis com a sua realidade. Através dos questionamentos realizados durantes as palestras, eles puderam interagir e demonstrar o que já sabiam sobre o assunto. Durante os encontros foi possível constatar o quão pouco os alunos conheciam sobre o tema, poucos tinham contato com o dinheiro, pois apenas alguns já trabalhavam ou recebiam mesada dos pais. Observou-se o desinteresse que alguns demonstravam pelo assunto, principalmente os alunos mais novos. Por outro lado, outros ficaram interessados, inclusive fazendo perguntas sobre o tema e pedindo sugestões para aprofundar os seus conhecimentos. Percebeu-se também que os professores que participaram das palestras conheciam pouco do assunto, de modo que enfatizaram a importância deste projeto. Os ciclos de estudos que deveriam ocorrer com os pais dos alunos a fim de que estes Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 183 auxiliassem os seus filhos na sua educação financeira não aconteceram, pois as escolas tinham dificuldade em chamar os pais à escola. Acredita-se que este fato não tenha causado grande prejuízo para o alcance dos objetivos do projeto, pois a prioridade era a educação financeira dos jovens. Além disso, o projeto abrangeu um grupo maior de pessoas do que o inicialmente proposto, atingindo pessoas fora do grupo de amostra, o que foi importante para a divulgação do tema e do projeto. CONCLUSÃO Após esse primeiro ano de execução do projeto, é possível concluir que sua realização se deu de forma exitosa e destaca-se a sua importância. O tema tratado é de extrema necessidade não apenas aos jovens, mas a sociedade em geral. Ainda vemos na sociedade, hoje, dificuldades para administrar as finanças, o que faz com que grande parte da população esteja endividada. Os jovens não recebem conhecimentos financeiros em casa e este ainda não é um tema obrigatório nas escolas, assim, os seus conhecimentos sobre o tema são escassos. Desse modo, a educação financeira torna-se imprescindível a todos. A educação financeira não auxilia apenas a gerir os recursos financeiros, mas a melhorar as condições de vida, preparando para o futuro, para situações de emergência e, principalmente, para a realização dos sonhos. Também, o equilíbrio financeiro interfere diretamente na vida das famílias, pois evita situações de estresse, endividamento e desentendimentos familiares causados pela má administração do dinheiro. O ensino da educação financeira deve ser um trabalho de longo prazo que deve iniciar desde cedo. Os jovens precisam aprender estes conhecimentos para que quando adultos, saibam utilizar os seus recursos de forma inteligente. Desse modo, a elaboração da cartilha e os encontros de estudo procuraramauxiliar no ensino dos conhecimentos financeiros de jovens estudantes das escolas públicas de Santo Ângelo, a fim de dar ferramentas para uma boa gestão financeira e para fazer melhores escolhas relacionadas ao dinheiro. O material utilizado nos encontros foi de encontro à realidade dos jovens e os assuntos foram tratados de forma a fazê-los refletir acerca do assunto e não apenas aprender os conceitos financeiros. Assim, a iniciativa da Universidade em implantar este projeto de extensão é relevante, e o objetivo de levar a educação financeira aos jovens foi cumprido. As palestras tiveram uma repercussão positiva na maioria dos participantes e proporcionaram a um amplo número de alunos a oportunidade de educarem-se financeiramente. BIBLIOGRAFIA BULGARIM, Maria Clara Cavalcante et al. Orçamento familiar e controle social : instrumento de organização da sociedade. 2. ed. Brasília: Fundação Brasileira de Contabilidade, 2012. CARNEIRO, Murilo; MATIAS, Alberto Borges. Orçamento Empresarial: Teoria, prática e novas técnicas. São Paulo: Atlas, 2011. CARRION Jr., Francisco Machado. Real: o outro lado da moeda. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1998. CERBASI, Gustavo. Casais inteligentes enriquecem juntos. São Paulo: Editora Gente, 2004. CERBASI, Gustavo. A complexa educação financeira. 2012. Disponível em: Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Vivências. Vol. 10, N.18: p. 174-184, Maio/2014 184 <http://www.maisdinheiro.com.br/artigos/4/91/a-complexa-educacao-financeira>. Acesso em: 14 mai. 2013 COELHO, Maria de Lourdes. Consumo e espaços pedagógicos. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2002. D’ÁQUINO, Cássia. Educação Financeira: como educar seus filhos. Rio de Janeiro: Elsevier. 2008. D’ÁQUINO, Cássia. Família Poupe. Disponível em: http://educacaofinanceira.com.br/ index.php/escolas/conteudo/524. Acesso em: 21 jun. 2012. D’ÁQUINO, Cássia. O programa nas escolas públicas. Disponível em: <http://educacaofinanceira.com.br/index.php/escolas/conteudo/468>. Acesso em: 3 mai. 2013. DOMINGOS, Reinaldo. Terapia Financeira. São Paulo: DSOP, 2011. ENEF – Grupo de Trabalho Estratégia Nacional de Educação Financeira. Brasil: A educação financeira no ensino. 2008. Disponível em: <http://www.vidaedinheiro.gov.br/arquivos/noticias/01_Grupo_de_Trabalho.pdf>. Acesso em: 11 jul. 2013 ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira). Plano Diretor ENEF. 2011. Disponível em: <http://www.vidaedinheiro.gov.br/Imagens/Plano%20Diretor%20ENEF.pdf>. Acesso em: 11 jul. 2013. FRANKENBERG, Louis. Seu futuro financeiro. Rio de Janeiro: Campus, 1999. MODERNELL, Álvaro. Afinal, o que é educação financeira?. 2011. Disponível em: <http://ucho.info/afinal-o-que-e-educacao-financeira > Acesso em: 18 jun. 2013. OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico). Recommendation on Principles and Good Practices for Financial Education and Awareness. 2005. Disponível em: <http://www.oecd.org/daf/fin/financial-education/35108560.pdf>. Acesso em: 28 jun. 2013. OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico). OECD's Financial Education Project. Assessoria de Comunicação Social, 2004. Disponível em: < http://www.oecd.org/finance/financial-education/33865427.pdf >. Acesso em: 14 jun. 2013. PEREIRA, Glória Maria Garcia. A energia do dinheiro. 3. ed. São Paulo: Editora Gente, 2001. SEBESTAD, Jennefer; COHEN, Monique. Financial Education For The Poor. 2003. Disponível em: <http://www.globalfinancialeducation.org/documents/WP1_FinEd4Poor.pdf >. Acesso em: 20 jun. 2013.