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COZINHA BRASILEIRA 1 Apresentação Ao estudarmos a fundo a cozinha brasileira, também temos contato com os principais povos que fazem parte da história deste país e que inevitavelmente trouxeram um pedacinho de suas raízes para solo brasileiro. Assim, ao longo do estudo desse tema, passaremos de forma sucinta pela história do Brasil articulada ao desenvolvimento da gastronomia, bem como as características de cada região e as influências que as tornam tão peculiares. Convidamos você, leitor, a fazer parte desta jornada pelos ingredientes e pratos típicos dessa culinária colorida, cheirosa e cheia de sabores. Primeiro trataremos da tríplice de culturas que formam a base de nossa gastronomia. Os indígenas desmistificaram o uso da mandioca e os segredos da Amazônia, da caatinga, do cerrado, do pantanal e dos pampas. Os portugueses e africanos, por sua vez, contribuíram com técnicas culinárias e trouxeram matérias-primas não só da Europa e da África, mas também da Ásia. A partir daí, cada imigrante traz consigo outros ingredientes, pratos e técnicas, para enriquecer ainda mais nosso saboroso enredo culinário e ajudar a caracterizar as regiões do país, as quais também abordaremos de forma mais aprofundada. Tal mistura é o que torna o Brasil um país todo especial, e é nessa jornada pela nossa diversidade cultural e gastronômica, com os mais variados ingredientes e temperos, que adentraremos agora. Bons estudos! COZINHA BRASILEIRA 2 UNIDADE 1 – HISTÓRIA, COLONIZAÇÃO, ESCRAVATURA E INFLUÊNCIAS REGIONAIS. Página 5 Regiões brasileiras: cultura e historicidade // A interação do europeu com os nativos - // A gastronomia brasileira contemporânea - Introdução: norte, nordeste, centro-oeste, sul e sudeste // Região norte // Região nordeste // Região centro-oeste // Região sudeste // Região sul Cozinha afro-brasileira // A chegada dos africanos ao Brasil // Cultura e costumes africanos // As mulheres de tabuleiros // A religião // Comidas de santo Alimentação indígena // Hábitos alimentares // Técnicas de preparo // Produtos Contribuição de Portugal em nossas mesas // O catolicismo // O açúcar // Tradição de família // Doçaria portuguesa // Doceria conventual COZINHA BRASILEIRA 3 UNIDADE 2 – INGREDIENTES E PRODUTOS DA MESA DO BRASILEIRO- Pagina 30 Origem e uso na gastronomia: café, dendê, pequi, açaí, guaraná, coco // Café: origem, chegada ao Brasil e métodos de preparo // Dendê: origem, utilização e simbologia // Pequi: fruto, região e produtos // Açaí: palmeira, fruto e palmito // Guaraná: a lenda e a semente // Coco: origem e seus produtos Os produtos da mesa brasileira: mandioca, milho, feijão, arroz, carne seca, açúcar, macarrão // Mandioca, rainha do Brasil // Milho, o cereal das Américas que conquistou o mundo // Arroz e feijão // Carne seca // Açúcar // Macarrão Mandioca, o pão do Brasil UNIDADE 3 – REGIÕES NORDESTE E SUDESTE DO BRASIL-Pagina 57 Região Nordeste: clima, geografia, economia, gastronomia e principais produtos // Maranhão // Piauí // Bahia // Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba // Pernambuco, Alagoas e Sergipe Região Sudeste: clima, geografia, economia, gastronomia e principais produtos // Minas Gerais // São Paulo // Rio de Janeiro // Espírito Santo COZINHA BRASILEIRA 4 UNIDADE 4 –REGIÕES NORTE, CENTRO-OESTE E SUL DO BRASIL- Pagina 80 Região Norte (clima, geografia e economia): gastronomia e principais produtos // Amazonas e Pará // Acre, Amapá, Roraima, Rondônia e Tocantins Região Centro-Oeste (clima, geografia e economia): gastronomia e principais produtos // Goiás e Distrito Federal // Mato Grosso // Mato Grosso do Sul Região Sul (clima, geografia e economia): gastronomia e principais produtos // Paraná // Santa Catarina // Rio Grande do Sul COZINHA BRASILEIRA 5 UNIDADE 1 História, colonização, escravatura e influências regionais Carla Keiko Mochizuki Ishizaka OBJETIVOS DA UNIDADE Introduzir a história da cozinha brasileira e sua evolução; Apresentar costumes, técnicas, hábitos alimentares e heranças culinárias dos indígenas; Abordar os primeiros povos colonizadores, suas heranças e adaptações culinárias; Tratar da miscigenação do povo brasileiro; Explicar conceitos iniciais de cozinha brasileira; Expor um panorama geral da evolução da gastronomia brasileira. Regiões brasileiras: cultura e historicidade O Brasil possui valores culturais de dimensões tão grandes quanto sua extensão territorial, de abrangência continental. A culinária dos nativos de diferentes tribos indígenas, adaptados aos variados biomas, se mesclou aos costumes e hábitos alimentares dos colonizadores portugueses e ganhou influências africanas, por meio dos escravos trazidos ao longo de séculos, e de outras culturas que adentraram a nossa, miscigenando os hábitos e costumes alimentares deste país. Sergio Buarque de Holanda, na obra seminal Raízes do Brasil, publicada pela primeira vez em 1936, e desde então republicada em muitas outras edições, sendo uma das mais famosas o relançamento de 1995, afirma que Espanha e Portugal são territórios-ponte pelos quais a Europa se comunica com outros mundos, constituindo uma espécie de zona fronteiriça, de transição, menos carregada, em alguns casos, de europeísmos. Esse raciocínio evidencia que os COZINHA BRASILEIRA 6 portugueses já tinham suas misturas antes de virem ao Brasil, além de contato com outras nações e culturas em busca do comércio de mercadorias. A influência portuguesa inicia o processo de formação da cozinha brasileira como conhecemos hoje, por meio da adaptação de técnicas e pratos tradicionalmente europeus ao cenário brasileiro e suas matérias-primas. O Brasil, portanto, não oferece uma culinária única, comum em todo o território, mas maneiras singulares na forma de usar os ingredientes, cozinhar e temperar. Essa diversidade resulta em diversas gastronomias que refletem suas populações locais: sertanejos, caiçaras, caipiras, matutos, ribeirinhos, interioranos, metropolitanos etc. A INTERAÇÃO DO EUROPEU COM OS NATIVOS O primeiro contato do indígena com a culinária portuguesa é descrito por Pero Vaz de Caminha em sua carta a El Rei Dom Manuel, de 24 de abril de 1500, conforme disponibilizado pela Fundação Biblioteca Nacional (p. 3): Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora. Sheila Moura Hue, no livro Delícias do Descobrimento – A Gastronomia Brasileira no século XVI, de 2008, afirma que o paladar europeu se ampliou ao ser apresentado a iguarias indígenas, como tanajura frita, rãs, cágados, cobras e bicho-de-taquara. Mas os indígenas não assimilaram as plantas e animais introduzidos pelos portugueses na culinária: criavam galinhas para vendê-las, mas não as comiam. Dessa forma, os portugueses utilizaram o conhecimento e produtos dos indígenas, mas o indígena não o fez necessariamente da mesma forma, salvo utensílios e adereços nunca antes vistos e imaginados por eles, como espelhos e pentes, que se tornaram moeda de troca por grande quantidade de comida. Raul Lody cita no livro Dendê: símbolo e sabor da Bahia, de 2009, que produtos nativos do Brasil são chamados "da terra": amendoim, mandioca, cará, caju, mamão etc.; os que vieram da África são chamados "da costa" (costa COZINHA BRASILEIRA7 africana, costa dos escravos): dendê, inhame, galinha d’angola; e os que foram trazidos pelos portugueses, também da Europa e Ásia, são chamados "do reino": da Europa, havia laranja, limão, alface, salsinha, coentro etc.; e da Ásia, gengibre, cana-de-açúcar, coco, entre outras. A GASTRONOMIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA A chegada de chefs franceses herdeiros da Nouvelle cuisine, no Brasil, nos anos 80, como Claude Troisgros e Laurent Suaudeau, inseriu na gastronomia brasileira outros elementos e técnicas, conferindo mais leveza aos pratos, valorização e utilização de ingredientes frescos, naturais e locais. Assim, técnicas francesas modernas destacaram os produtos brasileiros nas preparações, evidenciando e valorizando nossa cultura de maneira diferente. EXPLICANDO A Nouvelle cuisine foi um movimento da gastronomia francesa originado nos anos 1960 com uma nova maneira de cozinhar e apresentar pratos da alta gastronomia. Valoriza o sabor original dos alimentos, preservando seu frescor, sabor e qualidade. Os pesados molhos clássicos dão espaço a molhos mais leves e menos condimentados, e a apresentação dos pratos deixa de ser exagerada para ser individual, mais enxuta e com uma aparência clean. Entre os chefs que iniciaram esse movimento estão os irmãos Troisgros, Michel Guérard e Paul Bocuse. Esse olhar para a gastronomia intensificou a falta de profissionais qualificados ou sem o treinamento necessário para executar esse tipo de prática gastronômica. A formação desses profissionais no Brasil tornou-se imprescindível – escolas iniciaram formações profissionais, reconhecendo a gastronomia como uma profissão de formação acadêmica, e não mais um trabalho de mão de obra meramente braçal. Trabalhos de pesquisa e estudos da gastronomia brasileira fizeram com que ingredientes nacionais ganhassem não só o mundo, mas reconhecimento e valor no próprio país. Trabalhar a alta gastronomia, utilizando técnicas clássicas e contemporâneas, com ingredientes exclusivamente brasileiros, se tornou o objetivo de chefs como Alex Atala, Roberta Sudbrack, Helena Rizzo, Mara COZINHA BRASILEIRA 8 Sales, Rodrigo Oliveira e muitos outros que vêm sendo reconhecidos pelo seu trabalho. ASSISTA Chefs de cozinha renomados mostram como a cozinha tradicional brasileira evoluiu e vem se transformando com a valorização dos ingredientes e da profissão. Assista ao episódio da série Mundo à Mesa, produzida pela TV Gazeta, dedicado ao Brasil. A vinda dos imigrantes de vários lugares do mundo moldou nossas culinárias regionais e, com a globalização, a facilidade da informação e do acesso a produtos do mundo todo fez dos centros urbanos verdadeiros polos gastronômicos. O hábito alimentar do brasileiro continua sendo moldado com a chegada de imigrantes e refugiados de diversas partes do mundo, como Síria, Congo, Venezuela, Líbano, Camarões, entre outros povos, que trazem componentes da cultura de seu país e contribuem ainda mais para uma gastronomia diversificada. Ao mesmo tempo que esses povos chegam, o movimento de emigração de brasileiros para diversos continentes também ajuda a disseminar a culinária típica brasileira ao redor do mundo. Introdução: norte, nordeste, centro-oeste, sul e sudeste As regiões brasileiras são divididas em agrupamentos de estados segundo suas particularidades e características geográficas, sociais e econômicas, que diferem tanto umas das outras, que a cultura gastronômica, aqui, aparenta ser de distintas nacionalidades dentro de um mesmo país. Apesar da separação dos estados, observa-se entre eles algumas características semelhantes, quando não idênticas, na culinária. Isso se dá pela exploração, migração, imigração, geografia dos biomas e das fronteiras. Os tropeiros transportavam alimentos de um estado a outro e, juntamente a isso, os seus COZINHA BRASILEIRA 9 costumes. O mesmo bioma proporciona a mesma fauna e flora. A migração e imigração levam consigo os costumes de um povo, e as fronteiras, muitas vezes, só existem no mapa. Na Figura 1 é possível ver o mapa do Brasil, com a divisão bem demarcada dos estados e, além disso, das regiões, separadas por cores. Figura 1. Mapa das regiões e estados brasileiros. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 18/12/2019. A seguir, comentaremos de forma introdutória os hábitos culinários de cada uma dessas regiões. REGIÃO NORTE A região norte do Brasil é composta pelos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, constituindo um Brasil pouco conhecido até mesmo por alguns brasileiros. Com notória herança indígena, a região se destaca pelo ecoturismo e possui festas folclóricas, como o Festival do Boi- Bumbá, em Parintins (AM), e Círio de Nazaré, em Belém (PA). COZINHA BRASILEIRA 10 Peixes de água doce têm destaque na região, como o pirarucu, também chamado de “bacalhau da Amazônia”, que pode chegar a três metros de comprimento; o filhote, que pode ser servido frito e acompanhado de açaí, disposto como na Figura 2; o tambaqui, que ganha fama com suas costelas, e o também apreciado tucunaré. Figura 2. Peixe frito com açaí e farinha de mandioca. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 18/12/2019. A mandioca, um dos ingredientes mais representativos do Brasil, confundida precipitadamente com inhame pelos portugueses, é a base da alimentação de tribos de várias etnias na bacia tropical do Amazonas. Nessa região, ela é utilizada de todas as maneiras possíveis e valorizada ao máximo. Existe uma quantidade grande de frutas de características marcantes, como açaí, buriti, cupuaçu, abiu, graviola, taperebá, murici, mangaba, pupunha, entre outras. Entre seu pratos mais emblemáticos estão: pato no tucupi, tacacá, torta de castanha do Pará, torta de cupuaçu, maniçoba, pirarucu de casaca, pudim de tapioca etc. REGIÃO NORDESTE O nordeste possui uma culinária bastante marcada pelo uso de temperos, sabores, cores e aromas. Formado pelos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, as características culinárias dessa região vem da mistura dos indígenas, africanos e portugueses e, no mais tardar, com alguma sutileza, da cultura holandesa. A culinária do nordeste difere em cada estado, mas pode ser dividida de forma geral em litorânea, rica em peixes e frutos do mar, com a utilização de dendê e leite de coco; e sertaneja, com suas carnes de sol e seca, farinha, rapadura e queijo coalho, que contribui para a produção de manteiga de garrafa. COZINHA BRASILEIRA 11 Segundo Vivaldo da Costa Lima, professor emérito da Universidade Federal da Bahia, contribuinte do livro Viagem gastronômica através do Brasil, de 2002, organizado por Caloca Fernandes, a influência africana é definida iconicamente pelo uso do azeite de dendê na comida afro-brasileira, cozinha regional que se formou no recôncavo baiano. A “cozinha baiana” é também chamada de “comida do azeite”, devido à importância do azeite extraído do fruto da palmeira trazida pelos africanos no início do século XVII. Observa-se também a utilização da pimenta e o comércio de comidas tipicamente africanas nas ruas da Bahia no fim do século XVIII, como acarajé, acaçá, vatapá e abará. Imagens da preparação do acarajé nas ruas de Salvador, como na Figura 3, constituem uma das faces da identidade visual da cultura local. Repare, na imagem, que, enquanto o acarajé é recheado, a massa é frita no já mencionado azeite de dendê. Figura 3. Preparação do acarajé. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 10/12/2019. Influências africanas nessa região se mostram em diversos níveis: em palavras adotadas no vocabulário usual da região, como: cachimbo, berimbau, batuque, quitute e outras; ou a comida de santo, que traz preparações e ingredientes oferecidos aos orixás, como pipoca, caruru, efó, xinxim, mel e inhame, cada qual com seus gostos e preferências. A herança portuguesa foi deixadaem doces feitos com o açúcar dos engenhos, ovos, farinha de trigo, queijo e manteiga, dando origem a bolos, geleias, compotas de frutas e outras delícias da doçaria portuguesa. As frutas do nordeste também são extremamente aromáticas: cajá, seriguela, umbu, caju, jambo, bacuri etc. Entre os pratos típicos estão ainda arroz de cuxá, galinha de cabidela, paçoca de carne, acarajé, moqueca baiana, bobó de camarão, caruru, buchada de bode, patinhas de caranguejo, bolo Souza Leão, bolo de rolo, entre outras delícias. COZINHA BRASILEIRA 12 REGIÃO CENTRO-OESTE O centro-oeste é uma região que teve sua colonização mais tardia que as demais, e é composta por imigrantes e migrantes de outros locais do Brasil. Compreende os estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal. Na região, se destaca o Pantanal, cuja beleza estonteante abrange do sul do Mato Grosso ao noroeste do Mato Grosso do Sul. Sua culinária, considerada rural, por estar longe dos centros urbanos, é composta por carne bovina da pecuária local, representados pela carne seca e de sol, sempre presentes na alimentação dos pantaneiros; peixes de água doce, como a piranha, em seu delicioso caldo; o pacu, ainda preparado no moquém de influência indígena; e demais peixes encontrados em seus rios, como o pintado e o dourado. Já na culinária urbana ocorre uma miscigenação muito maior, justificada pela variedade de povos que firmaram suas raízes na cidade. É o caso de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, que recebeu imigrantes italianos, libaneses, japoneses, paraguaios, bolivianos e migrantes mineiros. Um ingrediente emblemático desta região, com toda a certeza, é o pequi, típico de toda a região central do Brasil, marcante no sabor e muito utilizado no representativo arroz de pequi (Figura 4), principalmente em Goiás e no Distrito Federal. Figura 4. Galinhada com pequi. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 12/12/2019. COZINHA BRASILEIRA 13 Representando a região, podemos citar ainda linguiça de Maracaju, arroz com guariroba, caribéu, macarrão de comitiva, furrundum, peixe na telha, empadão goiano, pamonhas salgadas e doces, fritas, assadas ou cozidas, arroz de puta rica e arroz de puta pobre. REGIÃO SUDESTE No sudeste, cada estado possui sua peculiaridade de forma mais visível. A região é composta por Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Mesmo tendo características distintas, alguns pratos também se repetem, disseminados pelos bandeirantes e pelos tropeiros. Além disso, o bioma da Mata Atlântica passa por todos os estados, uniformizando aspectos da fauna e da flora. Sendo assim, São Paulo divide alguns pratos típicos com Minas Gerais, como o feijão tropeiro e os farnéis que, como Caloca Fernandes afirma no livro Viagem gastronômica através do Brasil, de 2002, deram origem aos atuais virados e cuscuzes paulistas. A cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro, é berço da apreciada comida de boteco, com seus quitutes acompanhados de um chope gelado e pratos típicos que homenageiam homens públicos brasileiros, como o filé Oswaldo Aranha e a sopa Leão Veloso. O prato-símbolo do Brasil, a feijoada, também tem fortes raízes no Rio. Em São Paulo, observa-se duas vertentes: a capital moderna, funcionando como um polo gastronômico de apelo internacional, e o interior, preservando suas tradições. O estado teve forte influência de imigrantes à procura de oportunidades nas fazendas de café, como italianos e japoneses, que chegaram como mão de obra e se fixaram. Minas Gerais é marcada pela comida de fazenda que remete à hospitalidade de seus cidadãos, à ideia de comida farta e à presença de doces artesanais, como os doces de tacho, e queijos deliciosos, que levam os nomes de seus locais de origem: Serra da Canastra, do Serro e Minas. Ícone brasileiro, o pão de queijo pode ser consumido puro ou recheado de linguiça, pernil – e por que não com mais queijo, acompanhado de café adoçado com rapadura? Consome-se ainda carne de porco preparada de várias maneiras, galinha, feijão, milho e mandioca. A gastronomia capixaba, do Espírito Santo, recebe influências do indígena, da região serrana e do litoral. Possui semelhanças com as regiões que fazem COZINHA BRASILEIRA 14 fronteira, e alguns povos, arraigados nas vilas locais, mantêm tradições alemãs e italianas. Entre os pratos típicos estão a moqueca e a torta capixaba. REGIÃO SUL Considerada a região mais europeia do Brasil, devido à colonização marcada pela presença de imigrantes, como alemães, italianos, poloneses e ucranianos, o sul é composto por Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Recebeu imigrantes alemães, italianos, poloneses, portugueses, ucranianos e sofre influência dos países vizinhos de fronteira: Argentina, Uruguai e Paraguai. A região sul é muito associada ao churrasco e ao chimarrão. O churrasco é comumente preparado com carne de boi e de carneiro, assada lentamente, com uma distância certa da brasa. O chimarrão é proveniente da erva-mate, e comumente temos a imagem típica do gaúcho com a cuia em uma mão e a garrafa térmica com água quente na outra, como mostra a Figura 5. Além disso, no litoral catarinense se encontram as melhores ostras brasileiras, enviadas para todo o país. Na Serra Gaúcha se produz muito vinho, e espumantes que vêm sendo premiados entre os melhores do mundo, ficando ao lado dos condecorados champagnes franceses. Cozinha afro-brasileira Os povos africanos trazem elementos que influenciam de forma marcante o Brasil, principalmente o nordeste e, mais precisamente, a Bahia. No candomblé, por exemplo, a fé dos devotos é guiada por seus respectivos orixás, o que tem influência inclusive nas preferências alimentares: se o santo não gosta de algum alimento, o devoto dele não se alimentará. A mão de obra escrava, durante séculos, esteve presente em todos os âmbitos da vida e do cotidiano do país: dentro das casas-grandes, os escravos preparavam alimentos e cuidavam dos filhos dos senhores e da casa; nos engenhos, eram responsáveis pela plantação, colheita e processamento da cana, fosse para virar açúcar ou cachaça; nas lavouras de café, atuavam em todos os processos de plantio, colheita e beneficiamento. COZINHA BRASILEIRA 15 Até a escravatura ser abolida, portanto, como os africanos estavam presentes em todos os locais no serviço braçal, não havia maneira deste fato não influenciar a adaptação de outras culinárias, pois, por mais que as receitas fossem de origem portuguesa, as mãos que preparavam os pratos eram de escravas africanas, que carregavam consigo uma bagagem e conhecimentos culinários próprios de seus países de origem. Mais adiante nos aprofundaremos neste tema. A CHEGADA DOS AFRICANOS AO BRASIL Segundo Raul Lody no livro Dendê: símbolo e sabor da Bahia, de 2009, a África chega ao Brasil por duas vertentes, sendo uma formação “biafricana”: a primeira, com os portugueses, devido ao contato destes com o norte da África, Magreb; e a segunda, com o hediondo tráfico de escravos por 350 anos a partir do século XVI. Para os portugueses, que já utilizavam a mão de obra escrava, não havia preocupação em registrar os hábitos dos africanos, visto que eram considerados de valor desumanamente equivalente ao de animais domésticos. Os africanos que comandavam o tráfico chegavam a aceitar como moeda de troca a cachaça, ironicamente produzida pelos próprios escravos, que plantavam, colhiam e moíam a cana-de-açúcar nos engenhos. Estima-se que vieram cerca de 4 a 5 milhões de escravos ao Brasil – estima-se, pois não existe registro oficial de todos os escravos comercializados, muito menos de quantos perderam suas vidas durante o percurso. A introdução dos escravos se fez presente com o aumento da produção agrícola e, consequentemente, com a necessidade de mão de obra massiva que se firmou após a tentativa frustrada de utilizar a mão de obra indígena.O negro era mais resistente em relação à saúde, enquanto o índio era dizimado por doenças contraídas no contato com os portugueses. Chegou o ponto extremo de não haver oferta de alimentos a serem comprados por falta de mão de obra para produzi-los. Eram então vendidos como mão de obra nas casas-grandes e fazendas, onde cuidavam da limpeza, serviços gerais e da cozinha, e atuavam na agricultura e pecuária, nos engenhos e na extração de ouro e diamante. CULTURA E COSTUMES AFRICANOS COZINHA BRASILEIRA 16 Nos registros, pouco se fala a respeito dos grupos étnicos africanos, se referindo a eles apenas como africanos e escravos, como se não houvessem diferenças culturais e costumes em seu continente. Vieram povos como os fon, iorubá e bantos, exemplos de povos que contribuíram inclusive para que nosso português se tornasse diferente do de Portugal. Os africanos trouxeram suas heranças culinárias no preparo de galinhas de vários modos, nos assados, no caruru angolano, no sarapatel e muitos outros. No Brasil, introduziram o azeite de dendê, o quiabo e a pimenta malagueta e, apesar de os indígenas já utilizarem as pimentas do gênero Capsicum, nativas da América pré-colombiana, foram os africanos que fixaram sua utilização nos pratos típicos brasileiros. Também não há registros que documentem a alimentação dos escravos, mas há relatos de vários cronistas que escreveram sobre a alimentação de “gente de serviço”, escravos e trabalhadores, com abundância de farinha, vários tipos de peixes salgados, bananas e outras frutas, como cita Sheila Moura Hue no livro Delícias do descobrimento – a gastronomia brasileira no século XVI, de 2008. A farinha de mandioca era alimento essencial para sustentar os escravos nos navios negreiros em suas vindas dos países africanos. Assim, era também alimento dos tripulantes das embarcações, acabando introduzido na dieta de alguns povos daquele continente e gerando uma nova cadeia produtiva de mandioca fora do Brasil. AS MULHERES DE TABULEIROS Há quem diga que a comida de rua tem sua origem nos tabuleiros de quitutes vendidos pelas negras nas ruas da Bahia. No final do século XVIII, o cronista Luís dos Santos Vilhena relata, em uma de suas cartas publicadas no livro Recopilações de notícias soteropolitanas e brasílicas, de 1802, republicado em 1921 pela Imprensa Oficial do Estado da Bahia, a venda de vários alimentos que variavam entre influências indígenas, africanas e portuguesas produzidas pelos negros: mocotós (mãos de vacas), carurus, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas (papas de milho), acaçás, acarajés, abarás, arroz de coco, feijão de coco, angus, pão de ló de arroz e de milho, roletes de cana e ainda aluá, definida como água suja feita com mel e outras misturas. COZINHA BRASILEIRA 17 Fato é que esse se tornou o ofício de muitas mulheres que mantinham suas casas e famílias com o comércio. Gilberto Freyre, autor da importante obra Casa- grande & senzala, publicada em 1933 e revisada, dentre outras edições, em 2003, conta que as senhoras das casas-grandes e abadessas do convento entregavam-se, às vezes, ao comércio de doces e quitutes das negras doceiras, algumas tão boas que conseguiam juntar dinheiro vendendo bolos. A doçaria de rua, segundo Freyre, se desenvolvera na Bahia como em nenhum outro estado brasileiro, oferecendo bolos de tabuleiro, doces secos, bolinhos de goma, sequilhos confeitos e outras guloseimas. A RELIGIÃO Ao contrário dos indígenas, os africanos não foram alvo da catequese dos jesuítas no Brasil, sendo assim, precisavam se firmar na religião que conheciam de origem. As classes sacerdotais recriaram seus rituais de dança, música, cânticos, iniciações conventuais, sacrifícios e oferendas em seus cultos, se reunindo em sistemas religiosos dos escravos de origem fon e iorubá, citado por Vivaldo da Costa Lima, em 2002, no livro Viagem gastronômica através do Brasil, de Caloca Fernandes. Na Bahia do final do século XVIII, alguns anos antes de o Brasil conquistar sua independência, se inicia uma organização social unindo diferentes grupos étnicos de escravos, libertos e crioulos que, adotados por grupos religiosos iniciantes, fundam o candomblé. Seja para ofuscar a atenção da Igreja católica ou não, há uma associação direta entre orixás e santos católicos, seguindo calendários semelhantes quanto aos dias de festas e comemorações. A fé do baiano se faz tão presente na cultura religiosa que não é à toa que o estado é conhecido como a “Bahia de todos os santos”, onde cada devoto tem um orixá, e o costume é que se façam oferendas para que suas preces sejam atendidas. Não somente os orixás devem ter seus gostos atendidos, como o próprio devoto segue a preferência de sua divindade africana em alguns costumes e na alimentação, sendo excluídos os ingredientes impugnados. A Figura 6 mostra um terreiro de candomblé em Simões Filho na Bahia, onde orixás são recebidos em rituais que envolvem dança, canto e comida, a comida de santo. COMIDAS DE SANTO COZINHA BRASILEIRA 18 A comida de santo, da senzala, foi parar nas mesas dos senhores e, depois, difundida pelas negras quituteiras, passou a ser servida em dias de festas. Foi conquistando paladares e se tornou a comida afro-baiana, também considerada afro-brasileira, por manter as raízes africanas ainda preservadas. Seu preparo exige rituais que devem ser seguidos com respeito e asseio. Nem todo utensílio e equipamento podem ser utilizados, sendo somente permitidos objetos exclusivos para este fim, abolindo os que são empregados no dia a dia. A chef de cozinha Dadá, com o auxílio de Mãe Cléo, participou do livro Sabor do Brasil, escrito por Alice Granato em 2012, apontando as preferências dos orixás: • Oxum – ama peixe-vermelho e gosta de feijão-fradinho com cebola e camarão no azeite de dendê; • Xangô – adora quiabo; • Iansã – recebe acarajé grande com camarão em cima; • Oxalá – milho branco (canjica) com mel; • Iemanjá – é servida com feijão branco, bem temperado com azeite de oliva (aqui, se mostrando uma adaptação da cozinha africana à baiana); • Nanã – aprecia mingau de carimã (farinha finíssima de mandioca); • Ogum – feijoada e inhame, acompanhado de cerveja ou vinho; • Exu – carne de bode e xinxim de bofe com camarão e cebola. O orixá masculino aprecia charuto e uísque, e o feminino, champanhe e boas marcas de cigarro; • Oxumaré – arroz e milho-vermelho; • Logun Edé – feijão com milho ao lado; • Obá – canjica com mel, enfeitada com rosas brancas; COZINHA BRASILEIRA 19 • Omolu – pipoca, coco e mel; • Loko – frango e moranga. Na oferenda, colocar alpiste; • Ossain – adora frutas como o melão caboclo; • Ifá – melão branco com bastante mel; • Todos os orixás gostam de acaçá (massa de milho branco enrolada na folha de bananeira). Prato famoso na popular festa de São Cosme e Damião, o caruru de São Cosme ou caruru de Cosme (preparado com quiabo, camarão seco, feijão-fradinho, azeite de dendê, sal, cebola e outros ingredientes) é oferecido ao orixá Ibeji e também pode ser chamado de caruru-dos-Ibejis. Ele acompanha outros pratos típicos e transforma a refeição em um verdadeiro banquete. Alimentação indígena Assim como não se deve fazer alusão aos povos da África meramente como africanos, os povos indígenas do Brasil deveriam ser acurados também pelas suas variadas tribos, cada qual com sua linguagem, etnia e costumes. Quando Cabral e seus marinheiros foram recebidos pelos indígenas, o conhecimento dos nativos tornou sua estadia e adaptação confortável e regada em abundância alimentar. Alguns não tiveram a mesma sorte, não se adaptaram bem aos alimentos que encontraram ou, segundo algumas histórias, teriam virado alimento a tribos praticantes do canibalismo. A seguir vamos observar mais de perto alguns hábitos e técnicas comuns a algumas tribos indígenas. HÁBITOS ALIMENTARES A alimentaçãodo indígena é baseada nos ingredientes da natureza, além da fauna e flora oferecidas pela riqueza dos biomas brasileiros. Tal versatilidade faz da mandioca um dos principais ingredientes da alimentação indígena, junto de milho, pimenta, caça e frutos. COZINHA BRASILEIRA 20 O índio saía para caçar e pescar, enquanto as índias se encarregavam de coletar plantas silvestres e água, cuidar da roça, dos filhos e do marido, fabricar utensílios de cozinha e os utilizar no preparo dos alimentos. TÉCNICAS DE PREPARO Fazem parte do conhecimento indígena algumas técnicas utilizadas até hoje. A paçoca de carne ou peixe com farinha deu origem à paçoca de carne seca – muito consumida na região nordeste –, feita no pilão até ficar homogênea. Métodos e técnicas de conservação foram desenvolvidos pelas índias, como o emprego de fumo, para fazer a cura do jerimum e prolongar sua validade; e o processo da mixiria, que consiste em assar a carne de caça ou peixe em fogo brando, na própria gordura e, posteriormente, armazená-la em potes de barro fechados, próprios para este fim, método muito semelhante ao confit dos franceses. Há ainda o moquém (mokaen), método de cocção indígena adotado até por piratas franceses. Alguns dizem ser uma vertente de origem do churrasco, já que se trata de uma técnica de assar e defumar os alimentos, geralmente peixe, sobre uma “grelha” alta, montada com troncos de madeira e colocada acima da brasa, que pode levar cascas de árvore para dar mais sabor à carne. Os peixes moqueados podem ser consumidos diretamente, virar mojicas (também pode ser feito com peixe cozido, sendo retiradas as espinhas, desfiado e cozido no próprio caldo com farinha d’água ou polvilho) ou virar piracuís, pelo qual o peixe moqueado por mais tempo fica torrado, é pilado e dá origem a uma farinha, que pode ser feita com qualquer peixe. A mojica de pintado e o piracuí de bodó (uma espécie de cascudo) ou de pirarucu são, respectivamente, prato e ingredientes típicos da região norte do Brasil. PRODUTOS A mandioca é, sem dúvidas, o ingrediente mais importante e versátil para o nativo. Dela se aproveita tudo. É o alimento que compõe a mesa do brasileiro do norte ao sul e de leste a oeste até a atualidade. Foi difundida pelo mundo e se tornou alimento-base também de outras culturas. O indígena, dominando a mandioca brava, aprendeu a retirar todo o ácido cianídrico, tornando-a um alimento seguro e fonte de energia para o corpo. O beiju e as farinhas fazem parte da alimentação diária dos indígenas, que extraem outros vários produtos da mandioca, não só da brava, como também da mansa. COZINHA BRASILEIRA 21 Assim, com auxílio do tipiti, o caldo venenoso é extraído da polpa da mandioca brava ralada, cozido várias vezes e temperado, originando o tucupi. Com suas folhas, que devem ser fervidas por pelo menos sete dias para serem consumidas, eliminando completamente o ácido cianídrico, dá origem à maniçoba, que substitui o feijão em seu preparo, considerada a feijoada do paraense. A mandioca mansa (Figura 7), também conhecida como mandioca doce, macaxeira ou aipim, dependendo da região, também é muito utilizada. Dela se extrai a fécula, chamada de goma ou polvilho, que pode ser doce ou azeda, dependendo do processo que recebe. Em seus subprodutos existem inúmeras farinhas (carimã, farinha d’água, farinha de mandioca de Cruzeiro do Sul), puba, tapioca e beijus, que dão origem a pratos típicos como pudins, bolos e doces. Figura 7. Mandioca, macaxeira ou aipim. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 19/12/2019. A antropoentomofagia é parte dos hábitos indígenas e uma boa maneira de obter outra fonte de proteína. Atualmente, essa herança se manteve em algumas regiões do Brasil, como no Vale do Paraíba, onde se aprecia a içá (Atta sexdena), também conhecida como tanajura, preparada fritinha e geralmente servida como farofa. O abdômen da fêmea da saúva, onde ficam suas ovas, é separado para o consumo, fazendo a alegria de seus apreciadores. Aos poucos, essa culinária considerada exótica vem ganhando espaço na dispensa de restaurantes, para compor pratos da cozinha contemporânea brasileira. COZINHA BRASILEIRA 22 EXPLICANDO Segundo Ramon Santos de Minas no livro Antropoentomofagia ou entomofagia: insetos, a salvação nutricional da humanidade, de 2016, entomofagia é conceituada, de maneira simples, como o hábito de alimentar-se de insetos. Segundo o autor, o processo evolutivo do homem fez com que ele passasse por diversos estágios, sempre driblando as adversidades em busca da manutenção e não extinção de sua espécie. Assim, na condição de caçadores, perceberam que, se os insetos se alimentavam das mesmas coisas que eles, os próprios poderiam ser também ótima fonte de alimento e atender também à parte nutricional humana. Dos alimentos consumidos pelos nativos, estão: palmito fresco e cozido, cará, milho, batata, cacau, guaraná, pimentões e pimentas, amendoim (mindubi), tomate, diversas frutas como caju, mamão, abacate etc. Entre as carnes, consomem anta, peixe-boi, porcos-do-mato, cobras, jacarés e lagartos. A tartaruga sempre foi muito apreciada pelos indígenas e caiu no gosto dos portugueses, elaborada de várias maneiras, desde o ovo até sua carne. Verdadeiras iguarias, como Gilberto Freyre afirma em Casa-grande & senzala, tal como republicado em 2003, elas dão origem a uma variedade de quitutes no extremo-norte. Entre os quitutes oferecidos pelos nativos estão o arabu, feito com as gemas dos ovos de tartaruga ou tracajá e farinha; o abunã, ovos de tartaruga ou tracajá moqueados antes de completa gestação e servidos com sal e pimenta; o mujanguê, um mingau das gemas dos ovos, também de tartaruga ou tracajá, com farinha de mandioca mole intumescida de água, que ganhou o acréscimo do sal ou açúcar dos europeus; e paxicá, picado de fígado de tartaruga temperado com sal, limão e pimenta-malagueta, recebendo as influências dos outros povos. CURIOSIDADE Tamanho é o apreço do brasileiro pela carne de tartaruga que passou a ser um problema a caça desenfreada destes quelônios, até algumas COZINHA BRASILEIRA 23 espécies serem consideradas em extinção na década de 1970 e terem sua comercialização e caça proibidas sob penalidade prevista em lei. Em 1979, o Governo Federal criou o Programa Quelônios da Amazônia (PQA), com o objetivo de promover o consumo sustentável pelas comunidades locais e aumentar a conservação da região amazônica, segundo a matéria "Programa quelônios da Amazônia (PQA) monitora milhares de tartarugas em GO", publicada em 2017 no site do IBAMA. O consumo de tartaruga é comum pelos nativos da Amazônia. Contribuição de Portugal em nossas mesas Portugal é historicamente um país de crenças religiosas voltadas ao catolicismo. Muitos de seus alimentos e bebidas giram em torno da Igreja – também fora de Portugal –, também fora de Portugal, que sempre se interessou em ser detentora das técnicas de preparo e fabricação de pães, bolos e doces, cervejas e vinhos. A alimentação conventual, herança dos portugueses, permeia as Igrejas e catedrais católicas até os dias de hoje, tendo um papel imprescindível na história da alimentação em todos os países em que foram difundidos. Como dito, os portugueses introduziram, no Brasil e em outros países com os quais realizaram trocas ou se fixaram em colônias, vários ingredientes não só da Europa, mas também da Índia, África e outros países e povos com que tiveram contato, como a farinha de trigo, junto da técnica de fritura por imersão no Japão, que deu origem ao tempura, tão tradicional nos restaurantes japoneses do mundo todo. No Brasil, essa técnica foi levada pelos portugueses, que apresentaram aos indígenas a fritura em si. O português levou os negros escravizados ao Brasil para explorar sua mão de obra e, a partir daí, ergueram-se vilas e portos. Os cozinheiros da época eram europeus com ajudantes africanos.Logo, era impossível não haver uma troca de experiências. A agricultura e a pecuária foram atividades introduzidas por portugueses. Houve contribuição dos escravos também nas lavouras e hortas em que COZINHA BRASILEIRA 24 trabalhavam. Estes locais abasteciam cidades com alimentos frescos, sementes e mudas de plantas. A pecuária levou ao Brasil a criação de bodes, cabra e cabritos. Do bode se faz farnel, e da cabra se tira o leite, através do qual se produz queijo. Dominava-se ainda a produção de embutidos (paio, presunto, linguiça), queijos, defumados, carnes secas e salgadas e outros métodos. Os portugueses trouxeram pães e cereais, como trigo, cevada, aveia e arroz; frutas, como uva, figo, maçã, marmelo, pêssego, romã, cidra, tâmaras, melão, melancia e coco; e condimentos como mostarda, ervas e especiarias. O CATOLICISMO Ao chegar no Brasil, os portugueses quiseram doutrinar os indígenas segundo suas crenças. Os jesuítas se incumbiram da missão de catequizar os indígenas e convertê-los à nova religião. A religião católica se faz uma importante influência da alimentação dos países que a praticam. A doçaria conventual e a produção de bebidas alcoólicas nunca foram exclusividades da Igreja católica, porém, o domínio do preparo e a tradição mantiveram muitas dessas produções artesanais conservadas até os dias de hoje, como licores produzidos em abadias na Europa, fabricados desde antes de o Brasil ser encontrado por Pedro Álvares Cabral. Havia também as festas comemoradas pelos cidadãos, fossem homenagens aos santos ou comemorações socais da população, como casamentos. Cada comemoração possuía seus doces específicos e tradicionais. Comemoravam o São João, o Espírito Santo, o Natal e a Páscoa. O AÇUCAR Segundo Luís da Câmara Cascudo em A história da alimentação no Brasil, publicado em 1983, o cultivo da cana de açúcar era feito pelos árabes em Granada. Na Ilha da Madeira, território de Portugal, o plantio de cana de açúcar era feito em meados de 1454, ou seja, antes da descoberta do Brasil. O gosto do português pelo açúcar teria sido conquistado gradualmente, primeiro pelo fidalgo, chegando a ser utilizado com canela. Mais tarde, se tornou mais acessível e conquistou o gosto das classes mais humildes. COZINHA BRASILEIRA 25 Os portugueses trouxeram esse cultivo para a Bahia e, mais tarde, o Brasil se torna referência em qualidade de açúcar. Muito antes das plantações de cana-de-açúcar na Ilha da Madeira, a doçaria portuguesa era rica e não utilizava açúcar em suas receitas. O mel era a estrela dos doces. Junto das frutas, ele foi o primeiro ingrediente a adoçar a alimentação do ser humano. TRADIÇÃO DE FAMÍLIA Os costumes portugueses incluíam a hospitalidade e a etiqueta social. Deles, criamos o hábito de oferecer um café para quem pernoitasse hospedado em nossa casa. Para os portugueses da época, era considerado um ato de incivilidade recusar o café da manhã oferecido. Quando se recebia visitas ou se visitava vizinhos, era comum oferecer um bolo, feito pelas próprias mãos, como agrado. Os nobres apreciavam seus banquetes fartos com o serviço completo à francesa, onde se incluíam pratos como entradas diversas, entremets, pratos principais com proteínas variadas, sobremesas diversas e o fechamento com licores digestivos e café. Existem várias heranças culinárias trazidas das casas portuguesas para o Brasil, que se firmaram e se tornaram parte cultural da alimentação diária, do pobre até o milionário, como Dolores Freixa e Guta Chaves contam em Gastronomia no Brasil e no mundo, republicado em 2012. Para elas, um prato tipicamente português é o cozido. Assim como o sarapatel (feito com sangue, miúdos e toucinho de porco cortado em pedaços), a buchada também se incorporou à cultura nordestina. A diferença está na carne utilizada: Portugal costuma usar o "bucho" do porco, para recheá-lo, enquanto aqui usamos bode. O Brasil também contribuiu com a cultura dos colonizadores. O português incluiu a batata à sua alimentação: no bacalhau, elaborado de várias formas, no caldo verde, em guisados e em cozidos. DOÇARIA PORTUGUESA Fartes estavam entre os primeiros alimentos oferecidos aos nativos pelos portugueses, como relatado na carta de Pero Vaz de Caminha. Consiste em um doce feito com bolo e recheio de creme. Um dos primeiros registros da receita é de Lisboa, por José de Aquino Bulhoens em Arte nova, e curiosa, para COZINHA BRASILEIRA 26 conserveiros, confeiteiros, e copeiros, e mais pessoas que se occupão em fazer doces, e conservas com frutas de varias qualidades, e outras muitas receitas particulares, que pertencem à mesma arte, de 1788. Fartes são feitos em poucos lugares no Brasil atualmente. As receitas foram se modificando com o passar dos séculos, e doces semelhantes tomaram seu lugar. A receita a seguir, adaptada da receita da chef Lucia Soares no portal do Museu do Açúcar e Doce, é feita no Brasil moderno, em que os fartes já viraram uma espécie de pastelzinho assado, um pouco diferente da receita original. FARTES Recheio de espécie 400g de açúcar 200ml de água 200g de farinha de amêndoas 200g de cidra ralada 100g de farinha de rosca Casca ralada (sem a parte branca) de ½ laranja Bahia ¼ de colher de café de cravos da Índia em pó ½ de colher de sopa de canela em pó ½ de colher de café de erva doce 1 pitada de sal Massa 450g de farinha de trigo 150g de manteiga sem sal gelada cortada em cubos 3 gemas 100ml de água gelada 1 pitada de sal Para pincelar: 100ml de leite 50g de açúcar Para pincelar 100ml de leite 50g de açúcar // Modo de preparo: Recheio Leve ao fogo a água com o açúcar e deixe-os aquecer até chegar em 107 ºC; Adicione a farinha de amêndoas, a cidra ralada e as especiarias, mexendo sempre, até soltar-se do fundo da panela. Deixe esfriar e reserve. Massa Em um bowl, peneire a farinha de trigo com o sal; Com a ponta dos dedos, misture a manteiga com a farinha, delicadamente e aos poucos, até formar uma farofa; Junte metade da água gelada e a gema e, novamente, agregue à massa, delicadamente, com a ponta COZINHA BRASILEIRA 27 dos dedos. Caso fique muito seca, coloque mais água; Abra a massa com um rolo e corte círculos com o auxílio de um aro redondo; Coloque um pouco do recheio no centro da massa, molhe as bordas com um pouco de água e feche-as, formando uma meia-lua; Em uma vasilha, misture o leite com o açúcar e leve ao forno a 180 ºC, por aproximadamente 25 minutos, ou até dourar levemente. Segundo Luís Câmara Cascudo no livro História da alimentação no Brasil, de 1983, o preparo do bolo era repassado das avós para as netas e fez parte da educação feminina no Brasil. Seu preparo tinha o objetivo de agradar, seja para prestigiar os vizinhos, agradar ao paladar de um futuro marido, fazer a alegria dos filhos ou comercializar nas cidades. Essa herança dos portugueses trouxe à terra do açúcar renome às quituteiras, que utilizavam as frutas tropicais no preparo de compotas e geleias. Entre os doces trazidos pelos portugueses também se encontrava o alfenim, de influência árabe. DOCERIA CONVENTUAL O papel das freiras com a doçaria fez com que os preparos fossem refinados e aperfeiçoados, e permitiu que estas tradições se perpetuassem até hoje, da mesma maneira que à época do Brasil Colônia. Vieram das tradições doceiras das freiras: sonho, queijadinha de amêndoas, pão-de-ló, farófias, manjar- branco, fartes e outros. CURIOSIDADE Luís Câmara Cascudo cita, em História da alimentação no Brasil, que o manjar-branco era feito originalmente com carne de galinha, cozida e desfiada e que, nos dias de jejum, os frades substituíam a galinha por peixe e, na cidade de Porto, por amêndoas. O pão de ló era consumido na Páscoa, dia de Nossa Senhora e no Natal. Era um doce de famílias abastadas paradias de festa, pois rendia pouco, portanto, não era popular. COZINHA BRASILEIRA 28 Santo Antônio era homenageado com o bolo que leva seu nome. Adaptado ao Brasil, levou farinha de cará. Outros santos recebem a mesma homenagem, como São João. Existiam os doces que recebem nomes conventuais, citados por Luís Câmara Cascudo ao longo da História da alimentação no Brasil, como beijos-de-freira, triunfos-de-freira, fatias-de-freira, capela-de-freira, creme-da- abadessa, toucinho-de-céu, cabelos-de-virgem, papo-de-anjo, celestes, queijinho-de-hóstia etc. Ainda havia, segundo ele, os satíricos: barriga-de- freira, conselheiros, velhotes, orelhas-de-abade, galhofas, lérias, casadinhos, viúvas, jesuítas, arrufadas e sopapos; os cerimoniáticos: capelos-de-Coimbra, manjar real, bolo-rei, manjar-imperial, príncipes, marqueses; e os sussurrados, que eram confissões, apelos, críticas, murmúrios e queixas: bolinhos de amor, esquecidos, melindres, paciências, raivas, sonhos, beijos, suspiros, abraços, caladinhos, saudades. O manjar-branco, segundo Câmara Cascudo em seu livro, é um doce cortado em cubos feito com leite, galinha desfiada, açúcar e farinha de arroz cozidos até dar o ponto. Há ainda a versão de manjar real que mistura a galinha com amêndoas. Foi um prato proibido por Dom Sebastião por ser demasiadamente luxuoso. nessa unidade. Vamos lá?! SINTETIZANDO Nessa unidade, vimos que os três pilares do povo e da cultura brasileiro são: o indígena, nativo desta terra, que já conhecia a fauna e a flora, dominava técnicas de preparo dos alimentos locais e possuía seus próprios costumes; os portugueses, que desembarcaram no Brasil trazendo seus costumes, modo de se organizar em sociedade, animais, plantas, especiarias, técnicas e tecnologias da época, não só originárias da Europa, mas também de outros continentes com os quais já tinham tido contato; e os povos africanos, trazidos como mão de obra escrava pelos portugueses, e que também contribuíram com costumes culinários, culturais e religiosos, e conhecimentos quanto ao cultivo da terra e no preparo dos alimentos na cozinha das casas-grandes. Essa base cultural fez com o que o Brasil criasse linguagens, religiões e culinárias muito peculiares. Após alguns anos, imigrantes chegaram ao Brasil procurando novas oportunidades de vida e agregaram ainda mais cultura, contribuindo com técnicas e ingredientes novos. A chegada de simpatizantes da nossa terra valorizou nossa cultura e tornou a gastronomia brasileira reconhecida e diversa. COZINHA BRASILEIRA 29 Assim, vimos que cada região conta com suas próprias características e hábitos alimentares, Dessa forma, é possível pensar em diferentes cozinhas no território brasileiro: caipira, caiçara, interiorana, litorânea, sulista, nortista, e assim por diante. COZINHA BRASILEIRA 30 UNIDADE 2. Ingredientes e produtos da mesa do brasileiro Carla Keiko Mochizuki Ishizaka OBJETIVOS DA UNIDADE Conhecer os ingredientes das diversas regiões que compõem a gastronomia brasileira; Conhecer as histórias e lendas dos principais ingredientes utilizados na cozinha brasileira; Conhecer a origem dos principais ingredientes; Identificar os subprodutos dos principais ingredientes; Identificar pratos típicos que utilizam os principais ingredientes da cozinha brasileira. Origem e uso na gastronomia: café, dendê, pequi, açaí, guaraná, coco O Brasil é conhecido por produzir um dos melhores cafés do mundo, e alguns estrangeiros acreditam que as famílias brasileiras tomam um café de excelente qualidade no dia a dia. Porém, sabemos que esta realidade não é a vivenciada por todos. É muito comum que as pessoas não saibam diferenciar um café arábica de um robusta, tomando um café torrado ao extremo, demasiadamente quente e cheio de açúcar. Brasil, terra das baianas que se vestem de branco nas ruas vendendo seus acarajés fritos nos tachos de dendê; de frutas como o açaí – que até tentaram patentear em outro país, mas foi constatado ser brasileiro; do guaraná, dos tupiniquins, que parecem olhos e dos coqueiros que forram as praias oferecendo seu fruto refrescante. COZINHA BRASILEIRA 31 Muitas lendas e histórias são contadas sobre as origens desses ingredientes, com especulações de origens incertas. Por sorte, cronistas do mundo todo descreveram e ilustraram algumas dessas histórias, possibilitando que esses conhecimentos chegassem até nossas mãos. O café foi fonte de renda das elites no Brasil Colônia. O azeite de dendê é um símbolo forte da comida baiana, um dos principais ingredientes que difere a moqueca baiana da capixaba. O pequi é um fruto particularmente distinto, quem o prova pode amar ou pode repudiar seu sabor. Já o açaí conquistou a maior parte dos brasileiros e tem ganhado o mundo, e enquanto o nativo o consome como acompanhamento de pratos salgados, nos estados distantes do Pará – ou em outros países, consome-se o açaí adoçado, servido como sorvete ou em doces. O guaraná é procurado por amantes de refrigerante ou por quem busca mais vigor e energia. Por fim, temos o coco, que está presente na cultura de vários povos e pode ser consumido como salgado, sobremesa, docinho, pode compor o prato principal, pode substituir o leite de vaca em dietas veganas, pode ser usado como soro fisiológico e hidratante, e vez ou outra integra as dietas da moda, mas também já foi vilão. CAFÉ: ORIGEM, LENDA, CHEGADA AO BRASIL E MÉTODOS DE PREPARO Muitas lendas contam como o café foi descoberto e quando começou seu consumo. Um dos mitos mais encantadores é a de Kaldi, um pastor de cabras. Em suas caminhadas com o rebanho, Kaldi não pôde deixar de reparar que seus animais consumiam uma frutinha avermelhada, proveniente de arbustos e que ficavam no percurso do pastoreio. Quando as cabras se alimentavam das frutinhas, tinham mais energia, ficavam mais animadas e conseguiam andar por longas distâncias e por mais tempo. Kaldi Ficou curioso com as frutinhas e as levou a um monge, que secou os grãos e os tornou em água fervente, tomando a bebida quente. Percebeu que conseguia se manter acordado e mais disposto durante rezas COZINHA BRASILEIRA 32 noturnas e horas de leitura. Desta forma, o café teria sido difundido através dos monastérios islâmicos, sendo cultivado pela primeira vez na região onde hoje se encontra o Iêmen. O café é originário da Etiópia e os manuscritos mais antigos sobre o consumo do fruto datam do ano de 557, no Iêmen. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), Kaffa, província no sudoeste da Etiópia, seria o local de origem da planta, mas seu nome se origina do árabe qahwa, que significa vinho. Era conhecido como “vinho da Arábia”, na Europa, e foram os árabes que difundiram a cultura de beber o café como alternativa às bebidas alcoólicas, pois o consumo de álcool é proibido pelo islamismo. O café foi plantado pela primeira vez no Brasil em 1727, no Pará. Com o favorecimento do clima, as plantações foram logo se alastrando e a produção de café ganhou, além do Pará, os estados do Maranhão, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Bahia e Rondônia. O Brasil é o maior produtor de café do mundo há mais de 150 anos e o segundo maior consumidor, perdendo apenas para os Estados Unidos. A primeira mão de obra que os barões do café utilizaram em suas plantações eram de africanos em situação de escravização. Em 1888, a escravidão foi legalmente abolida, mudando a forma de trabalho empregado nas fazendas. Foi criado o projeto de colonização agrícola, onde eram oferecidas terras aos imigrantes para povoar e demarcar o território. Chegaram poloneses, ucranianos, escandinavos, noruegueses, belgas, espanhóis, sírios, libaneses, japoneses e, principalmente, italianos. Existem dois tipos de café que são os mais difundidos no mercado: arábica (Coffea arabica)e robusta ou conilon (Coffea canephora), também chamados respectivamente de cafés especiais e de commodity. O Brasil produz os dois, porém o café arábica, que possui melhor qualidade, ganha mais prestígio fora do país, pois a maioria é exportado. Historicamente, o café de commodity liderou a produção cafeeira do Brasil, explicando, juntamente com a diferença monetária, a preferência e principalmente o costume do brasileiro de tomar o cafezinho feito todos os dias com grãos de conilon. CONTEXTUALIZANDO COZINHA BRASILEIRA 33 O café de commodity tem importante papel na economia brasileira e até que os cafés especiais ganhassem maior destaque, seu preço sofria altos e baixos. Na crise de 1929, quando a bolsa de Nova Iorque quebrou, o valor do café caiu bruscamente. Com o intuito de conter a queda, milhares de sacas de cafés foram queimadas para diminuir a oferta e aumentar o valor no comércio internacional, pois o Brasil era o maior exportador. No fim da crise, a produção voltou a crescer e o Brasil se manteve como maior produtor de café do mundo. A preferência de preparo do café do dia a dia no Brasil é o coado, utilizando coador de pano ou de papel. Também se consome muito café expresso e, atualmente, os cafés em cápsulas vêm ganhando mercado. Existem muitos outros métodos de preparo de café: com coadores e suportes diferenciados, prensa francesa, ibrik (turco), sifão (a vácuo) e cafeteira italiana. As primeiras cafeterias surgiram em Meca como locais para conversar e ouvir música tomando café. O hábito de tomar café coado com leite e adoçado foi criado em Veneza, em 1687. No Brasil, as cafeterias vêm conquistando espaço com cafés especiais preparados por baristas. Também se consome muito café ao final das refeições nos restaurantes. Nas padarias e botecos, é comum pedir um carioca – café expresso com mais água, parecido com o americano; um pingado – serve-se o leite em um copo americano com uma quantidade proporcional menor de café, que seriam os “pingos”; um expresso, que no Brasil possui 50 ml, enquanto em outros países não passa de 30 ml; ou uma média, conhecida como latte nos outros países, é o café expresso com leite vaporizado e uma fina camada de espuma. Essas são as maneiras brasileiras de beber o cafezinho. Na gastronomia, o café está no clássico italiano tiramissú e saboriza outras sobremesas como parfaits, panacotas, mousses, cheesecakes, tortas, suflês, bolos, e no Brasil varia o sabor do brigadeiro. Na Figura 1 temos a foto de um especialista em café fazendo a análise sensorial dos grãos torrados e moídos que receberão classificação segundo suas qualidades. COZINHA BRASILEIRA 34 Figura 1. Especialista em café analisando a qualidade do produto final. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. DENDÊ: ORIGEM, UTILIZAÇÃO E SIMBOLOGIA O dendê é originário dos países da costa ocidental da África, de Guiné-Bissau a Angola. Os frutos da palmeira Elaeis guineensis teriam chegado ao Brasil com os africanos escravizados e foi na Costa do Dendê, local entre Salvador e Ilhéus, que o dendezeiro melhor se adaptou. O nome dendê vem do quimbundo dendém, como é chamado em Angola. Tanto na África quanto no Brasil, o óleo extraído do fruto recebe várias denominações, podendo ser chamado de “azeite de dendê”, “azeite de cheiro”, “óleo de dendê”, “óleo de palma”, “epó” ou somente pelas simples palavras “óleo” ou “azeite”, sendo o azeite de oliva o “azeite doce”. Da planta se utiliza tudo: as folhas servem de cobertura para casas; o palmito é comestível e é retirado do caule; da seiva se faz vinho; do óleo da semente se faz sabão, sabonete, velas, detergente ou pode ser utilizado para o consumo; da polpa do fruto se extrai o azeite de dendê e o óleo de palma. Foi usado pelos faraós do Egito e hoje é utilizado como cosmético e matéria prima para produção de biodiesel. O azeite de extração a frio é utilizado na África e no Brasil, enquanto o óleo – que passa por refino e perde totalmente as características que conhecemos do dendê como cor, aroma e sabor – é amplamente utilizado em produtos alimentícios por todo o mundo pela sua produtividade e seu valor de mercado. A presença do dendê é característica marcante da cultura africana na comida brasileira juntamente com os temperos e técnicas de preparo. O dendê está presente principalmente na cozinha baiana, mas também é utilizado em outros estados no Nordeste e no Norte. Seu uso foi repassado por africanos escravizados e afrodescentes e introduzido na mesa colonial, de forma que o COZINHA BRASILEIRA 35 dendê está presente em quase todos os pratos baianos, seja no preparo ou na finalização para decorar. Seus pratos fazem parte das festas de todas as religiões, das cozinhas residenciais às cozinhas dos terreiros. No candomblé, o dendê é tão importante que os orixás podem ser separados entre os que apreciam o azeite, chamados de orixás “quentes”, e os que não se agradam com ele, os chamados orixás “frios”. Raul Lody cita os pratos feitos com dendê no livro Bahia bem temperada, de 2013, (n.p.): Cardápios do azeite: abará, acarajé, amalá, amori, arroz de hauçá, axoxó, bobó de camarão, caruru de azedinha, caruru de bredo, caruru quioiô, caruru de vinagreira, caruru, doboru, ebô, efó, eguedé, farofa amarela, farofa de azeite, farofa de bambá, latipá, milho de iemanjá, moqueca de aratu, moqueca de bacalhau, moqueca de bebe-fumo, moqueca de camarão, moqueca de carne-seca, moqueca de fato, moqueca de folha, moqueca de maturi, moqueca de miolos, moqueca de ostras, moqueca de ovos com camarão seco, moqueca de peixe em postas, moqueca de peixe salgado, moqueca de peixe miúdo, moqueca de pitinga, moqueca de pitu, moqueca de siri-mole, moqueca de sururu, omolocum, peixe frito no azeite de cheiro, vatapá de bacalhau, vatapá de galinha, vatapá de peixe, xinxim de bode, xinxim de galinha. PEQUI: FRUTO, REGIÃO E PRODUTOS Figura 2. Pequizeiro e pequi. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. A Figura 2 mostra o pequizeiro e seu fruto, o pequi. Os frutos possuem casca grossa e a polpa é a parte amarela que tem seu tamanho variado entre uma gema e um ovo inteiro. É necessário cuidado ao consumir o fruto, pois há espinhos que se localizam logo abaixo da polpa. Ela deve ser raspada com os dentes, roendo-a, e jamais deve ser mordida para não correr o risco de se machucar com os pequenos espinhos. COZINHA BRASILEIRA 36 Caryocar brasiliense é uma árvore nativa do bioma do cerrado que abrange São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Tocantins, Pará, Piauí, Ceará e Bahia. Pequi vem do tupi, e “py” quer dizer casca e “qui” significa espinho. Também é conhecido como “piqui”, “jiquiá”, “piquiá”, “amêndoa do espinho”, “piquirama”, “piquiá- bravo, “piqui do cerrado”, “grão-pequiá”, “pequerim”, “pequiá-pedra” e “suari”. Além de ingrediente, ele é um condimento que tempera cozidos e arroz devido ao seu sabor perfumado. Sua safra é de novembro a fevereiro, portanto, é encontrado com facilidade em conserva em lascas ou em creme, mas também pode ser encontrado congelado. Pequi é um fruto rico em lipídeos e tem seu óleo extraído e utilizado para consumo e para a indústria de cosméticos na fabricação de sabonetes e cremes. Suas preparações tradicionais são o arroz de pequi e a galinhada, mas também pode ser utilizado no preparo de licores, farofas, sorvetes, compotas, purês, molhos, doces e cozidos. A castanha, protegida pelos espinhos, também é muito apreciada. Crua, assada ou cozida, pode ser consumida pura, em farofas, doces e licores. AÇAÍ: PALMEIRA, FRUTO E PALMITO Euterpe oleracea é uma palmeira da família Arecaceae, a mesma do dendezeiro, da pupunheira e do coqueiro e seu caule também é comestível, oferecendo seu palmito. Seu nome se origina do tupi “yá-çai” que quer dizer “fruto que chora”. No Maranhão também é chamado de “juçara”ou “juçara de touceira”, mas se distingue da planta que quase entrou em extinção, o palmito juçara (Euterpe edulis). O açaí também ganha outros nomes na Amazônia, como “açaí verdadeiro”, “açaí de touceira”, “açaí do baixo amazonas” e “açaí de planta” segundo a EMBRAPA. O fruto açaí é consumido mundialmente como um creme, geralmente batido com xarope de guaraná com acréscimo de frutas, granola e os mais diversos toppings, dependendo do local. O açaizeiro é proveniente das regiões Centro- Oeste e Norte, principalmente do Pará, onde é consumido de forma diferente do restante do Brasil e outros países. Para o paraense, o açaí é acompanhamento de peixe fresco com farinha de mandioca. Comida diária dos ribeirinhos, deve ser consumido fresco, extraído no mesmo dia, com poucas horas, num creme COZINHA BRASILEIRA 37 liso. Também pode ser consumido como bebida, com farinha de mandioca e açúcar. Além do açaí mais conhecido, o roxo, existem outras espécies de açaí, como o açaí branco e o açaí solitário, sendo este nativo da floresta amazônica e faz parte dos alimentos brasileiros da arca do gosto do Slow Food Brasil. Muitas lendas fazem parte da cultura indígena e o açaí também tem a sua. A lenda do açaí conta que no local onde hoje está a cidade de Belém, no Pará, vivia uma populosa tribo que passava por um momento de escassez. Deste modo, o cacique decidiu que todos os bebês que nascessem a partir daquele momento seriam mortos, pois não haveria comida para sustentá-los. Porém, sua filha, Iaçã, deu à luz uma menina. O cacique não hesitou e matou sua neta. Iaçã chorou por muito tempo e em uma noite avistou sua filha ao pé de uma palmeira. Tomada de alegria, abraçou o bebê, que não passava de uma ilusão. No dia seguinte, Iaçã foi encontrada morta, abraçada ao tronco da palmeira e com um sorriso no rosto, olhando para os frutos da planta. O cacique mandou espremer os frutos para extrair seu suco e percebeu o quanto era nutritivo. Então, retirou sua ordem de executar os bebês, pois não iria mais faltar comida para a tribo. O nome dado ao fruto foi em homenagem a Iaçã, seu nome ao contrário, como agradecimento a Tupã. GUARANÁ: A LENDA E A SEMENTE O guaraná é um arbusto e seu fruto é considerado energético, pois possui cafeína. Representado em bebidas como o refrigerante, pode ser encontrado como xarope que é combinado com o açaí, em pó ou em bastão. Seu nome científico é Paullinia cupana e foi difundido pela tribo Sateré-Mawé, que beneficiam e comercializam em larga escala o pó de guaraná, feito com as sementes secas e moídas, e os bastões de guaraná, feitos com sementes do guaraná piladas que viram pó e, misturadas com água, viram uma pasta. Para ralar o bastão é utilizado um pedaço de cuia ou a língua de pirarucu seca. É tradição das tribos oferecerem água com guaraná de bastão ralado ao visitante. Existem algumas versões diferentes da lenda do guaraná. Uma delas conta a história de um casal que era infeliz pela falta de filhos. Pediram a Tupã e a mãe deu à luz um menino que trouxe muito orgulho aos pais, que era muito amado pela tribo e que se tornaria um grande guerreiro. O estimado curumim foi colher frutinhas na floresta sem avisar ninguém. Jurupari, entidade do mal, com inveja do menino se transformou em serpente e o atacou enquanto estava distraído com a coleta. Quando foi encontrado, estava morto e com os olhos abertos e COZINHA BRASILEIRA 38 serenos. Todos da tribo ficaram muito tristes e no mesmo momento caiu um raio, e era Tupã, que orientou a mãe do menino a enterrar seus olhos, pois traria felicidade para a tribo. Fizeram o que divindade aconselhou e alguns dias depois nascera o primeiro guaranazeiro, com frutos semelhantes aos olhos do curumim, trazendo longevidade e alegria a todos. ASSISTA Assista ao vídeo que mostra a fabricação do bastão de guaraná através de processo tradicional da tribo Sateré-Mawé. COCO: ORIGEM E SEUS PRODUTOS O coqueiro, Cocos nucifera, é originário da Ásia e foi trazido pelos portugueses que cultivavam a palmeira em Cabo Verde. Foi plantado em toda a orla baiana, ficando conhecido como “coco-da-bahia” e também “coco-da-índia”, se referindo às origens. O coco dá origem a vários subprodutos: do coco fresco se extrai a água, do coco seco se extrai o coco ralado (do fino ao grosso), lascas de coco, açúcar de coco, óleo de coco, coco em pedaços, fitas de coco e leite de coco. Em relação ao último item da lista, há o relato de Frei João dos Santos, feito na primeira década do século XVII, acerca da extração do leite de coco para o preparo do arroz de coco, citado por Luis da Câmara Cascudo em História da alimentação no Brasil, de 2004: Do miolo do coco fresco se tira leite com que cozem arroz, ralado com um ralo e bem lavado em duas ou três águas, e espremido entre as mãos, de modo que lhe façam lançar toda a umidade que tem. E d’esta maneira fica com o coco tão seco e miúdo, como farelo de pau, e pelo contrário a água em que foi lavado fica tão grossa, que parece leite de vacas muito alvo, ou de amêndoas, e com esta água se faz o arroz de leite tão bom que fica mais saboroso que pudera ficar, se fora cozido com qualquer outro leite (p. 182-183). Assim como na Índia, o Brasil utiliza o leite de coco como condimento e tempero, ainda que os indígenas consumissem somente a polpa da fruta. Dentre os pratos típicos, podemos citar o arroz de coco, o manjar de coco, a moqueca baiana, a canjica, os mingaus, o bolo, o sorvete e as peixadas. COZINHA BRASILEIRA 39 Os produtos da mesa brasileira: mandioca, milho, feijão, arroz, carne seca, açúcar, macarrão Os produtos que compõem a mesa brasileira têm influências das três populações que formaram as primeiras gerações de brasileiros: indígenas, portugueses e africanos. Além deles, outras culturas adentraram ao Brasil de várias maneiras e em várias épocas. As primeiras colonizações aconteceram com o cultivo de cana-de-açúcar e tinham o interesse em dominar as terras e demarcar o território português. Com o ciclo do ouro, mais portugueses vinham ao novo continente; depois é a vez da economia cafeeira e, até então, toda a mão de obra havia sido feita por africanos ou indígenas em situação de escravidão. Após a lei Áurea, a vinda de imigrantes foi incentivada, trazendo pessoas oriundas principalmente da Europa. Os franceses chegaram aos poucos, e alguns cozinheiros e chefs de cozinha que vieram com a monarquia haviam trazido seus menus da alta gastronomia. Os banquetes contavam com cardápios que Dom Pedro II gostava de colecionar, os serviços eram compostos sempre de entradas, entremets, pratos principais com proteínas variadas (peixe, pato, peru, porco), pelo menos duas sobremesas diferentes, frutas e, para finalizar, café, licores e até charutos, tudo isso para uma simples inauguração. Tudoservido no capricho e com o uso de porcelanas, cristais e pratarias. Assim como os franceses, os suíços também vieram em pequenos grupos, não como colonos, mas como missionários fugidos da perseguição religiosa em 1557. E assim, vieram soldados mercenários, padres jesuítas, desbravadores e pessoas sem expectativas de ficaram no país. A colônia que viria a se chamar Nova Friburgo imigraria ao Brasil apenas em 1819. Um grande número de imigrantes italianos vieram para trabalhar nos cafezais na virada do século XIX para o século XX, e trouxeram hábitos e pratos que se fixaram em nossos costumes. O costume de comer macarronada aos domingos, comer pizza e consumir queijo sã algumas das muitas influências italianas. Muitos estrangeiros vieram para trabalhar nas lavouras de café no oeste paulista, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Santa Catarina, Paraná e Rio COZINHA BRASILEIRA 40 Grande do Sul. No Paraná, as casas ganham arquitetura europeia, com telhas para dias de neve, por exemplo, que se tornaram mais ornamentais do que funcionais; os alemães trazem o associativismo, que maistarde seria adotado pelas cooperativas. Os japoneses chegaram em 1908 para trabalhar na agricultura e atualmente o Brasil é o país com a maior colônia de japoneses fora do Japão. Um ano depois, os holandeses chegaram e montaram cooperativas de laticínios que hoje são grandes indústrias com tecnologia de ponta. No período de 1870 a 1930, o Brasil teve um fluxo migratório intenso, sendo que cada imigrante saiu de sua terra por um motivo, seja político, religioso ou econômico, e procuravam por melhores condições. Nem sempre as promessas de se estabelecer em uma nova terra, com conforto de um lar, foram cumpridas. Muitos não resistiram ao percurso demorado nos navios e, ao chegar, se depararam com doenças como a malária e os desafios de se adaptarem em um novo continente. Durante a Segunda Guerra Mundial, o fluxo de imigrantes caiu e na década de 1980 se inicia o movimento de emigração, ou seja, os brasileiros saíram do Brasil para o exterior, onde seus destinos são Estados Unidos, Europa, outros países da América do Sul e Ásia. Ao mesmo tempo, uma leva de imigrantes de novos países chegou ao Brasil: bolivianos, chineses, paraguaios, chilenos, peruanos, coreanos e angolanos. Os povos que aqui se estabeleceram foram responsáveis pela formação e identidade do Brasil como um país culturalmente rico e etnicamente miscigenado, e as nacionalidades e etnias enriquecem a região no qual estão instaladas, depositando seus costumes, culturas e hábitos alimentares. Cada região do Brasil possui influências de outras nações que se enraizaram e se manifestam em pratos e ingredientes típicos de cada local. Já na década de 1990, houve a chegada de refugiados vindos de Angola, Serra Leoa, Libéria, República Democrática do Congo, Colômbia, Iraque e, em 2010, chegaram os haitianos. Esse processo de imigração e acolhimento de refugiados tende a continuar enquanto houver conflito em outros países. Os motivos de imigração, migração e refúgio têm hoje um significado e motivos muito distintos daqueles da época do Brasil Colônia ou do início do século XX. Os costumes dos últimos povos vêm se estabelecendo aos poucos e é possível encontrarmos restaurantes, food trucks e barraquinhas em feiras que oferecem comidas oriundas de países de ondas imigratórias recentes. Alguns comércios COZINHA BRASILEIRA 41 ainda se mantêm restritos e mais reservados às suas colônias, mas cada vez mais a curiosidade do brasileiro em conhecer as novas culturas que aqui se estabelecem faz com que a gama de sabores, técnicas e ingredientes se ampliem a cada dia. MANDIOCA, RAINHA DO BRASIL Denominada “rainha do Brasil” por Câmara Cascudo e confundida com o inhame pelos primeiros portugueses, ela recebe os mais variados nomes dependendo da região: cassava, macaxeira, aipim ou mandioca. A mandioca possui uma grande variedade de espécies e podemos dividi-las em mandioca mansa e mandioca brava. A mandioca brava possui ácido cianídrico, tóxico ao ser humano, precisando passar por alguns pré-preparos para eliminá- lo e se tornar comestível, tanto as folhas quanto a raiz. A mandioca mansa é a mandioca de mesa, que pode ser consumida tranquilamente, pois não é tóxica. EXPLICANDO O ácido cianídrico presente na mandioca brava (Manihot esculenta) ataca o sistema nervoso central e pode causar sintomas como vertigem, taquipneia, pulsação fraca, cefaleia, arritmia cardíaca, convulsões, vômitos e pode levar ao coma e à morte. Uma menor exposição pode causar tontura, falta de ar, indisposição e dores de cabeça. A exposição prolongada pode causar algumas doenças como a neuropatia tropical atáxica (NTA) que causa perda gradual da coordenação motora, da audição, da visão e sensorial; konzo, que causa uma paralisia súbita e irreversível nas pernas; bócio e hipertireoidismo. COZINHA BRASILEIRA 42 Figura 3. Tipiti. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. A Figura 3 mostra a imagem do tipiti, uma prensa cilíndrica feita de palha pelos indígenas para extrair o caldo da mandioca ralada, matéria prima do tucupi. O tucupi é o sumo extraído da mandioca brava ralada, espremida no tipiti. Esse caldo é mantido em repouso e o que se deposita no fundo é a goma que seca, formando o polvilho. O caldo restante é cozido para eliminar o ácido cianídrico e temperado com chicória do Pará e pimenta de cheiro, acondicionado em garrafas, geralmente PET, e vendidos para o preparo de pratos como pato no tucupi e tacacá. O tucupi, quando é reduzido, ganha coloração escura e é chamado de tucupi negro, de aparência semelhante ao molho shoyu ou vinagre balsâmico. Para se obter meio litro, são necessários 10 litros do tucupi tradicional. A mandioca espremida é levada ao forno para virar farinha. A Figura 4 mostra o tucupi comercializado em Belém do Pará. Figura 4. Tucupi comercializado em Belém do Pará. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. As folhas da mandioca brava, a maniva, que cozinham por uma semana para deixarem de ser toxicas, são matérias-primas para a maniçoba, considerada a “feijoada paraense”. Ela é composta por carnes e miúdos de porco, COZINHA BRASILEIRA 43 acompanhada de arroz e farinha de mandioca. Também é apreciada no Recôncavo baiano. Câmara Cascudo em História da alimentação no Brasil, p. 97, cita como a farinha carimã é feita, também chamada de “farinha d’água”, “farinha de mandioca puba” ou “mandioca mole”: Põem a mandioca com casca e tudo em vasilhas com água ao sol durante 4 a 5 dias até amolecer e a casca afrouxar, largando pelo simples contato. Colocam essa mandioca dentro de um saco, pendurado para escorrer, um a dois dias. Tira-se a massa e espreme-se com a mão, fazendo-se bolinhos oblongos que vão secar numa urupema ao sol. Não se tira, pelo exposto, “goma” da carimã como se tira mandioca ralada. Aproveitam-na toda. Por isso a carimã, a farinha d’água no Maranhão, Pará, Amazonas, é mais forte e substancial. Antes de ser carimã, farinha d’água ou farinha de mandioca puba, é importante lembrar que a massa de puba é a massa obtida da mandioca fermentada, e conforme descrição de Cascudo, fica de quatro a cinco dias com água no sol. Além de dar origem às farinhas citadas, úmidas, ela é ingrediente usada para fazer bolo. Abaixo, vemos a imagem da farinha d’água que possui uma coloração amarelada e possui maior granulometria, e diferentemente da farinha de mandioca comum, essa farinha é muito comum na região norte. Figura 5. Farinha d’água. Fonte: Adobestock. Acesso em: 03/03/2020. Cada região brasileira tem sua preferência ou maneira de preparar sua farinha de mandioca. Além das já citadas, no Recôncavo baiano se prepara a farinha de copioba, levemente amarelada, fininha e mais crocante que a farinha comum, pois possui quase 10% menos teor de umidade. Sua coloração amarela pode ser artificial ou cúrcuma. Na Amazônia, muito se aprecia a farinha de Uarini e sua produção é muito parecida com a farinha d’água. A diferença entre elas é que COZINHA BRASILEIRA 44 antes da farinha de Uarini ser seca, ela é “boleada” para ficar redondinha como ovinhas e depois é torrada. A farinha de Cruzeiro do Sul é produzida no Acre e em 2019 virou patrimônio cultural. Ao contrário das farinhas d’água e de Uarini, a mandioca não fermenta e uma série de cuidados são tomados para que isso não ocorra na produção. Caso aconteça a fermentação, a produção é perdida. A farinha é granulada e seu sabor é levemente adocicado. Cada região tem sua preferência e no Sul e Sudeste a farinha mais fina e seca faz mais sucesso. A farinha de mandioca está presente em todas as regiões brasileiras e é base na alimentação desde que os povos nativos dominaram seu preparo. Fez parte da mesa dos colonizadores e dos africanos escravizados, do rico e do pobre, acompanhando os mais tradicionais pratos típicos e originando novos pratos. Muitos dos pratos feitos com a farinha de mandioca encontram na farinha de milho uma boa alternativade preparo, sendo assim, é comum haver versões, adaptações e regionalidades que alternam as duas farinhas. É o caso da farofa, presente no Brasil inteiro, com ingredientes variando de região para região, seja com dendê no Nordeste, com pinhão no Sul, com couve no Sudeste, com farinha d’água no Norte ou com banana no Centro-Oeste. O pirão de influência portuguesa vem da mistura dos caldos dos cozidos engrossados com a farinha de mandioca, mistura que rendeu um acompanhamento saboroso para carnes, legumes e moquecas. O chibé, “xibé”, “cimbé” ou “cimé”, bebida indígena da Amazônia, foi difundida pelo Brasil como jacuba. Era feito da mistura de farinha de mandioca com água, mais água do que mandioca. Inicialmente era uma bebida e hoje virou acompanhamento nas refeições dos pescadores que levam um pouco da farinha de mandioca nos barcos, umedecem com água e colocam-na para acompanhar os peixes assados. Foi adicionada a rapadura, trazida pelos africanos em situação de escravidão, mas podia ser adoçada também com mel ou açúcar. Os tropeiros utilizavam tanto a farinha de mandioca quanto a farinha de milho. Além do chibé, outras bebidas eram produzidas com a mandioca, generalizadas como cauim ou caiçuma. Primeiro, deve-se mastigar a mandioca, cozer em fogo baixo e depois deixar fermentar. Assim é feito o aipij, que se bebe morno, e da farinha de mandioca se fazia o tipiaci e beeutingui. COZINHA BRASILEIRA 45 MILHO, O CEREAL DAS AMÉRICAS QUE CONQUISTOU O MUNDO Antes da chegada dos portugueses, o milho ocupava mais terras do que a mandioca. O milho traz sua versatilidade no preparo de canjicas, pipoca e farinhas das quais viram mingaus, cuscuzes, polentas, bolos, farofas. Não tão representativo como a mandioca, o milho esteve presente na alimentação indígena nas Américas, principalmente na América do Norte, Central e na costa do Pacífico. Era cultivada por alguns povos com as variedades de amarelo, preto e vermelho. O Zea mays era consumido cozido ou assado no Brasil, enquanto nas outras Américas virava tortilha pelo processo de nixtamalização e chicha fermentada pela ação das enzimas contidas nas bocas de quem mastigava e cuspia o milho. Os povos originários brasileiros faziam o abatií, uma bebida usada em cerimônias que passava pelo processo de fermentação pelas enzimas da boca das mulheres mais velhas e cunhãs da tribo. Também chamado de caiçuma, uma referência genérica para as bebidas, que geralmente são fermentadas e preparadas com mandioca ou milho verde. A caiçuma de milho pode ser consumida com amendoim (mudubim). CURIOSIDADE A nixtamalização é um processo desenvolvido no México em que o maíz (milho branco utilizado para fazer tortilhas) passa por um cozimento em solução alcalina, composto por cal ou cinzas, para ajudar a retirar a película que envolve o grão, ajudando na digestão. Depois de cozido, o milho é triturado e vira base para as tortilhas ou para os tamales. Não existem muitos registros sobre a origem desse processo, mas ele melhora o aproveitamento nutricional do milho. Segundo Caloca Fernandes em Viagem gastronômica através do Brasil, de 2002, a lenda indígena conta a história de dois guerreiros que foram atrás de “caça, pesca ou qualquer outro alimento para a família”, em vão. Nhandeiara, o grande espírito, havia dito que somente após uma batalha mortal entre os dois irmãos é que conseguiriam alimento, pois enterraria quem perdesse e do seu COZINHA BRASILEIRA 46 túmulo nasceria uma planta que salvaria a tribo da fome. O irmão derrotado, Avati, que significa milho em tupi, foi enterrado e deu origem ao milharal. Ainda segundo Caloca Fernandes, os portugueses começaram usando o milho como ração para os animais e como alimento dado aos escravizados indígenas e africanos. Antes de virar bolo pela mão das portuguesas, com a adição de leite, ovos e açúcar à sua farinha, foi consumido como angu ou mingau grosso. Foi pelas mãos dos portugueses que o milho deu origem a broas, pudins, papas, migas, cremes de milho verde, canjicas e curaus. Já os africanos acabaram manuseando mais o milho branco, utilizado no acaçá e no mugunzá, sendo esse oferecido a Oxalá sem sal e para Iemanjá com pouco sal. A pipoca feita de milho-alho agrada Omulu, Obalauê e Oxumarê, enquanto pratos feitos com o milho vermelho agradam Iansã e Xangô. A melhor época de colheita do milho é em junho, período de festas dedicadas a São João e ao solstício de verão, quando todos os preparos do milho ganham destaque e o cereal mais famoso das Américas vira majestade: pamonha, curau, milho verde cozido, pipoca, canjica, broa, bolo de fubá, suco e o que a criatividade alcançar. Assim como a mandioca, o milho possui uma variedade de farinhas e derivados das mais diversas espessuras. A variedade é menor que a da mandioca, mas ainda assim é considerável. A canjica, além do nome da sobremesa em que é utilizado, é o grão do milho branco sem o gérmen. Ainda do milho branco pode- se encontrar a farinha flocada, também chamada de “farinha para acaçá”. Do milho amarelo se encontra farinha de milho flocada, que é feita com o milho sem o gérmen, fermentado, triturado e peneirado, largamente utilizado na culinária em virados, polentas, bolos, farofas, pães, broas e no cuscuz paulista. O milho quebrado em pedaços menores é a quirela, utilizada no preparo da canjiquinha, e pode ser cozida com carnes como costela de boi ou de porco, sendo o prato típico da cidade Lapa, no Paraná, chamado de “quirera lapeana”. A milharina torna o preparo mais prático e rápido, pois são pequenos flocos de milho pré-cozidos, e são utilizados no preparo de cuscuzes, polentas, bolos, mingaus e angus. COZINHA BRASILEIRA 47 ARROZ E FEIJÃO Oryza subulata ou caudata, ou Zizania aquatica são tipos de arrozes nativos, raramente utilizados pelos indígenas, segundo Fernandes em Viagem gastronômica através do Brasil. O autor diz que o arroz só começou a ser cultivado amplamente após a chegada dos portugueses, que trouxeram Oryza sativa e cuja a primeira plantação foi em 1587, mas só ganharia importância no século XVIII. Obteve relevância no Pará em 1722, no Maranhão em 1745, e em 1750 foi a vez de Pernambuco, após o arroz ter sido misturado ao feijão e os maranhenses terem chamado-o de “papa-arroz”. Existe ainda o argumento defendido pelo pesquisador, chef e apresentador Guga Rocha, de que o arroz foi trazido pelos africanos. Segundo o líder da comunidade quilombola Ivaporunduva, do Vale do Ribeira em São Paulo, Ditão, o arroz que não é de cultivo alagado, o Oryza glaberrima, teria sido trazido pelos africanos escravizados em seus cabelos. Assim, o arroz que dá em morros, cultivado de maneira orgânica, é herança do africano dos quilombos (LAZARETTI, 2019). No Brasil são produzidos vários tipos diferentes de arroz: preto, vermelho, cateto e o nativo, mini arroz. O alimento é utilizado vastamente na culinária nacional e, apesar do alicerce do arroz com o feijão, se comparado ao consumo dos orientais, o brasileiro consome 1/3 do que a população japonesa costuma comer de arroz. Os japoneses consomem arroz até no café da manhã, um hábito bem diferente do brasileiro, que consome o arroz somente nas principais refeições. Desta forma, o arroz ganha pratos como o arroz de carreteiro, baião de dois, arroz Maria Isabel, arroz de coco, arroz de viúva, arroz com pequi, galinhada, arroz de pato com tucupi, arroz de cuxá, arroz doce, entre outros. O feijão é fonte de proteínas que se complementa ao arroz. A leguminosa é base na alimentação brasileira desde os tempos de colonização e pode ser consumida com farinha e sem arroz, como no Norte e no Nordeste. Muitos não sabem, mas vários feijões utilizados em nossos pratos típicos não são nativos do Brasil e os africanos contribuíram para a vinda de alguns deles, como o feijão fradinho e feijão-guandu ou andu. São inúmeros pratos típicos brasileiros com feijão: baião dedois, acarajé, feijão-tropeiro, dobradinha, tutu, farofa, salada, guisado, cozido, com arroz etc., é item diário que compõem a mesa do brasileiro. O feijão possui elementos antinutricionais e, para evitá-los, alguns cuidados devem ser tomados, como COZINHA BRASILEIRA 48 descartar a água do remolho, e para evitar a formação de gases, aconselha-se descartar a água da primeira fervura. Os bandeirantes e os tropeiros ajudaram a espalhá-los de São Paulo e do Sul para o interior do Brasil, levando-os para Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. O feijão carioca também tem seu conto popular de que a inspiração do seu nome foi o desenho do calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro. O feijão carioca não caiu no gosto do carioca e não tem nada “da gema”, pois foi desenvolvido em São Paulo, na década de 1970. Ele ganhou esse nome pela sua semelhança com a raça de porco carioca – bege com manchas marrons rajadas. A preferência do carioca é pelo feijão preto, assim como a preferência no Rio Grande do Sul. Em algumas localidades do Nordeste, a preferência é o mulatinho, mas o feijão carioca ainda detém 70% do consumo de feijão no Brasil. Entre os tipos de feijão que encontramos no Brasil, além dos já citados, temos: bolinha, de metro, branco, mulatinho, gorgotuba, mangalô, manteiga, manteiguinha, mudubim-de-rama, mudubim-de-vara, peruano, quarentão, rosinha, roxinho e verde. CARNE-SECA As técnicas de conservação da carne transitavam pelo território onde hoje se encontra o Brasil antes mesmo da chegada dos portugueses. Com o moquém, os povos autóctones tostavam, secavam e pilavam as carnes, que duravam por muito mais tempo. Desta forma, a carne se fez presente nas viagens dos bandeirantes juntamente com a mandioca e o milho. O costume de salgar a carne veio com os portugueses, pois a utilização do sal não era muito disseminada entre as tribos indígenas. Após a salga, a carne era seca ao sol, mantendo, assim, sua conservação. As carnes mais utilizadas foram também trazidas pelos colonizadores: galinhas, vacas, cabras, porcos e ovelhas. A técnica de salgar a carne também foi adotada por sertanejos, vaqueiros e viajantes. A “carne-seca”, “carne-de-sol” ou “carne-de-vento” também ganhou o nome de “carne-do-Ceará”, como conta Caloca Fernandes (2002), pois o governo de Pernambuco havia proibido a salga regular e a industrialização de carnes do sertão nordestino em 1778, tornando o Ceará o principal fornecedor do produto. Caloca afirma que em 1780 o cearense José Pinto Martins, que era de família COZINHA BRASILEIRA 49 produtora de carne-seca, teria se mudado para o Rio Grande do Sul, desenvolvendo a produção do “charque”, com mais sal e secagem intensa ao sol e ao vento, dando uma nova produção aos grandes rebanhos que antes eram mortos e divididos entre os vaqueiros para virar churrasco. Atualmente, cuidados são tomados para evitar contaminações e pragas nas carnes, pois não ficam mais expostas ao sol. A carne de sol, a carne seca e o charque possuem características semelhantes, mas processos de salga e secagem diferentes. Carne de sol ou carne de vento é feita na região Nordeste com carne de bode ou de boi dividida em mantas. Recebe salga leve e é estendida em varais durante a noite para secar por fora e adquirir sabor. Durante o dia, é conservada sob refrigeração e permanece assim até atingir os parâmetros para a conservação adequada. Pode ser consumida nas paçocas feitas com farinha de mandioca, cortada em fatias e grelhada ou assada, com manteiga de garrafa, servida com mandioca, cuscuz, pirão de leite, queijo coalho e muitas outras opções. ASSISTA Rita Lobo recebe Rodrigo Oliveira, que ensina como fazer carne de sol e cuscuz de milho com feijão verde. O chef mostra o passo a passo de como curar uma carne. A carne-seca, ou jabá, é feita em todo país, mas principalmente nas regiões Norte e Nordeste com carne de boi cortada em mantas. Semelhante ao processo da carne de sol, as mantas são salgadas em água salobra, imersas, depois empilhadas e estendidas em varais protegidos por telas para desidratar. É utilizada na feijoada, preparada com recheio, desfiada, refogada, na paçoca com farinha de mandioca, também é estrela dos escondidinhos. COZINHA BRASILEIRA 50 O charque, típico da região Sul, é salgado dos dois lados e estendido por vários dias ao sol protegido por telas, da maneira tradicional. É ingrediente indispensável no arroz carreteiro. Também pode ter características de defumado quando estendidas sob o forno a lenha, conforme ilustra a Figura 6, com suas mantas secas, defumadas e enroladas. Figura 6. Mantas de charque. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 04/03/2020. AÇÚCAR O açúcar é um item de imensa importância para os portugueses, tendo em vista a relevância que ganha a doçaria portuguesa com seus famosos doces conventuais. O bolo, para os portugueses, representava a solidariedade, sendo servido em ocasiões de festividades ou oferecidos ao próximo como sinal de benevolência. A cana de açúcar foi utilizada pelos portugueses no contexto da colonização do Brasil. Os engenhos eram diferenciados conforme sua estrutura: o “trapiche” usava cerca de sessenta bois como tração animal, uma dúzia de cada vez por várias horas; os denominados de “reais” eram movidos por força hidráulica, com menor rendimento em tempos de seca. No início, os engenhos eram as máquinas e as rodas que trituravam a cana de açúcar. Posteriormente, todo o complexo produtivo ganhou esse nome. A cana era triturada na casa da moenda, depois era fervida e “purificada” para adquirir coloração branca nas caldeiras, que ficavam nas casas de purgar. Da parte mais grossa, o melaço, se faz a rapadura, muito apreciada no Nordeste. A cachaça ganhou valorização pelos apreciadores da bagaceira portuguesa, na sua falta. Era oferecida aos escravos para aliviar o cansaço do trabalho incessante. Para produzi-la, por vezes, se retirava a parte superficial do caldo de cana, que era levada aos alambiques. O paladar doce do brasileiro tem suas raízes na influência de Portugal, conforme cita Câmara Cascudo em História da alimentação no Brasil, p. 308: COZINHA BRASILEIRA 51 Nunca um brasileiro dispensou o adoçar a boca depois de salgar o estômago. Muito mais de sessenta por cento dos bolos e doces portugueses seguem no Brasil uso e abuso no plano do consumo. [...] Mas dizia padre Antônio Delicado nos seus Adágios seiscentistas, com açúcar e com mel até as pedras sabem bem. E, amargo, basta a vida. Recorre-se ao milagroso antídoto. O doce nunca amargou... Tantos doces com frutas, compotas, geleias, pudins, balas e bolos herdados dos colonizadores. Atualmente existe uma grande preocupação com a ingestão do açúcar refinado e vários estudos apontam os malefícios do seu consumo, sendo recomendada a utilização do açúcar mascavo, que é produzido a partir da rapadura, no Acre, chamado de “graximó”. Existe também o açúcar demerara e o cristal, com granulometria média e grande, respectivamente. MACARRÃO O macarrão chegou com os imigrantes italianos que vieram para o Brasil atrás de novas oportunidades. Segundo o IBGE, sete milhões de italianos vieram para o Brasil entre os anos de 1860 a 1920 por razões econômicas e socioculturais. Grande parte se instalou em São Paulo, onde os italianos incluíram seus hábitos alimentares aos brasileiros da época. O macarrão conquistou o brasileiro pela praticidade no preparo, pelo custo e pela sua versatilidade em combinar molhos e sabores. Tanto a farinha de trigo quanto o tomate eram ingredientes de fácil aquisição. A macarronada do domingo entrou nos lares e conquistou estômagos, afinal, era um prato que facilitava a vida das donas de casa nos fins de semana, no século passado. O macarrão se adequou aos locais, sendo preparado no Vale do Paraíba ao molho com frango guisado com óleo de urucum. No pantanal mato- grossense, o macarrão de comitiva foi criadocomo uma alternativa ao arroz de carreteiro que os peões preparavam em suas viagens para transportar o gado de uma fazenda à outra, o que duravam dias. A industrialização da massa de macarrão fez o consumo crescer largamente e em 1896 Enrico Secchi fundou a Premiato Pastificio Italiano, que produzia quarenta tipos diferentes de massa e dois mil quilos por dia. Outro personagem importante para o pastifício, em São Paulo, foi Francisco Matarazzo, que chegou em 1881 e construiu um império longe da sua terra natal. Entre o seu COZINHA BRASILEIRA 52 legado, produzia farinha de trigo para macarrão em escala industrial e depois fabricava seu próprio macarrão. Na década de 1970, os macarrões instantâneos invadem as gôndolas dos mercados e se fazem presentes na vida de quem procura praticidade sem se preocupar muito com qualidades nutricionais e sabores frescos. Com a chegada dos imigrantes asiáticos, os sabores do macarrão ganham novas nuances e matérias primas. Restaurantes e mercearias orientais oferecem macarrão de feijão e de arroz, e pratos com os mais variados ingredientes. Mandioca, o pão do Brasil Como sugestão de um cardápio todo feito de mandioca, é possível preparar entradas, pratos principais e sobremesas que levem a raiz como elemento essencial. Abaixo, apresentamos três receitas. A primeira é uma entrada, com o dadinho de tapioca, criada pelo chef Rodrigo Oliveira. A segunda receita traz uma versão do chibé, ou jacuba, pelas mãos do chef Thiago Castanho. O chibé pode ser entrada, prato principal (dependendo da quantidade de proteína que compõe) ou sobremesa, se adicionado de rapadura, açúcar ou mel. Geralmente é mais simples, feito apenas com farinha de mandioca e água. Pode acompanhar o charque e adicionar temperos que o tornam refrescante, saboroso e completo. A última é um prato principal, que segue para apreciação, da receita de família de Celeste Klautau, que prepara a maniva com todos os cuidados para retirar o ácido cianídrico. Em outros estados longe da região Norte do país, é possível encontrar a maniva pré-cozida, podendo utilizá-la sem os sete dias de cozimento prévio. Dadinho de Tapioca Classificação: Entrada Rendimento: 8 porções // Ingredientes: 500 ml de leite; 300 g queijo coalho ralado na hora; 250 g de tapioca granulada ; Sal (quanto for suficiente); 1 pitada de pimenta do reino branca; Óleo (suficiente para fritura). Molho de Pimenta Agridoce COZINHA BRASILEIRA 53 // Ingredientes: 8 g de alho com a casca; 4 g de pimenta dedo de moça inteira; 30 g de pimenta-biquinho; 15 g de pimenta-malagueta; 95 ml vinagre de manga; 185 g de açúcar; 7 g de sal; 15 ml de cachaça branca; 8 g de polvilho doce. Dadinho de Tapioca // Modo de preparo: Forre uma assadeira com filme PVC para facilitar a aderência, umedeça a forma com um pouco de água antes de colocar o filme para facilitar na hora de desenformar; Aqueça o leite, até quase ferver; Em uma tigela, misture o queijo coalho ralado com a tapioca granulada e junte o leite aos poucos, mexendo sempre para não formar grumos; Acerte o sal, levando em consideração o teor de sal do queijo, e acrescente a pimenta do reino branca a gosto. Continue mexendo até a mistura começar a firmar; Despeje na forma forrada e cubra a superfície com um pedaço de filme PVC para evitar a formação de película (retrogradação do amido). Deixe esfriar até atingir a temperatura ambiente e leve à geladeira por pelo menos 4 horas; Preaqueça o óleo para fritar a 180 °C. Desenforme a massa gelada e corte em cubos. Frite, aos poucos, até dourarem ou asse em forno preaquecido a 190 °C; Sirva quente, acompanhado do molho de pimenta agridoce. Molho de Pimenta Agridoce // Modo de preparo: Preaqueça o forno a 150 °C. Asse a pimenta dedo de moça com o alho com casca por 18 minutos, depois descasque-o; Coloque a pimenta e o alho assados no processador de alimentos com metade da pimenta-biquinho e aperte o botão pulsar até obter uma pasta com pedacinhos visíveis. Reserve em uma tigela; Sem precisar lavar o recipiente do processador, bata a pimenta- malagueta com a outra metade da pimenta-biquinho, escorra qualquer excesso de líquido que houver e transfira para a tigela com a pasta de pimenta e alho; Em uma panela, misture o vinagre, metade do açúcar, o sal e a cachaça e leve ao fogo baixo, mexendo sempre, até ferver. Desligue o fogo e mantenha aquecido; Em uma panela grande e grossa, prepare um caramelo claro com a outra metade do açúcar. Com cuidado, junte 25 ml de água e mexa até dissolver. Adicione a pasta de pimentas reservada, misturando bem; COZINHA BRASILEIRA 54 Aqueça novamente a mistura do vinagre, até ferver. Despeje aos poucos na panela com o caramelo, com cuidado para não se queimar com os respingos; Dilua o polvilho em 100 ml de água fria, misturando bem. Adicione à panela, mexendo sempre; Aumente o fogo e deixe ferver, mexendo sempre, até atingir o ponto de geleia fina. Deixe esfriar e coloque em uma garrafa ou pote de vidro esterilizados. Conserve tampado, na geladeira, e consuma em até uma semana. Chibé ou Jacuba Classificação: Entrada Rendimento: 4 porções // Ingredientes: 500 g de charque dianteiro salgado cortado em cubos; 100 g de farinha d’água ou farinha de mandioca fina e crua; 1 l de água mineral gelada; Sal (quanto for suficiente); 80 g de cebola roxa picada; 2 colheres de sopa de chicória do Pará (coentro do sertão) picado; 2 colheres de sopa de coentro picado; 2 colheres de sopa de pimenta de cheiro sem semente picada; 2 unidades de pimenta cumari do Pará sem semente picada; 60 ml de suco de limão. // Modo de preparo: Coloque o charque em uma tigela e cubra com água fria. Deixe de molho por 12 horas na geladeira trocando a água a cada 3 horas; Escorra a água e coloque a carne em uma panela com 1,5 litro de água fria. Cozinhe por 1 hora, em fogo médio ou até que o charque esteja macio. Escorra; Preaqueça a churrasqueira. Asse os pedaços de carne por 1 minuto de cada lado, a 30 cm de distância da brasa. Reserve; Coloque a farinha d’água em uma tigela e cubra com a água mineral gelada. Deixe hidratar por 5 minutos. Tempere com sal a gosto e acrescente os demais ingredientes, misturando bem; Divida o chibé entre 4 cuias e disponha 3 pedaços de charque assado em cada uma antes de servir. COZINHA BRASILEIRA 55 Maniçoba com costela de porco Classificação: Entrada Rendimento: 10 porções // Ingredientes: 2,5 kg de maniva moída; 1 kg de charque; 1 kg de toucinho fresco cortado em cubos; ½ de pé de porco salgado cortado em 3 pedaços; ½ de língua de porco salgada; 500 g de costela de porco defumada; 750 g de bucho de boi; 250 g de chouriço do Paraná (linguiça de lombo de porco defumada do tipo portuguesa) cortado em fatias; 250 g de paio cortado em fatias; 500 g de toucinho defumado cortado em cubos; Pimenta do reino (quanto for suficiente) ; Sal (quanto for suficiente); // Modo de preparo: Coloque as folhas moídas numa bacia e lave bem, cuidadosamente, em muitas águas, escorrendo as folhas numa peneira. Passe as folhas lavadas para uma panela grande com bastante água e leve ao fogo, mexendo de vez em quando. Quando ferver, diminua o fogo e introduza o toucinho fresco deixando ferver, sempre em fogo baixo, durante quatro dias, somente durante o dia. Quando o volume de água baixar, junte mais água, mexendo de vez em quando para não pegar no fundo da panela; No quinto dia, à noite, prepare os ingredientes: ponha as carnes salgadas de molho em água de um dia para o outro. No sexto dia, pela manhã, verifique o sal das carnes e, se necessário, afervente-as pararetirar o excesso de sal; Enquanto isso, lave bem com bastante vinagre o bucho e o mocotó, e a seguir ponha-os numa panela, cubra com água e leve ao fogo para ferver; Amasse os dentes de alho com a pimenta e tempere as carnes com essa pasta. Corte toda a carne em pedaços pequenos e junte ao panelão onde está a maniva, que, a esta altura, já deve estar com uma tonalidade bem escura; Acrescente o chouriço, o paio e o toucinho defumado e leve ao fogo para cozinhar até as carnes ficarem macias. No sétimo dia estará pronta. Sirva acompanhada de arroz branco, farinha d’água e COZINHA BRASILEIRA 56 molho de pimenta de cheiro. Nota: Dizem os apreciadores que a boa maniçoba se reconhece quando deixa um rastro esverdeado no fundo da colher. SINTETIZANDO Vimos como cada ingrediente utilizado pelo brasileiro no seu cotidiano culinário tem algo para nos contar, tem sua história, sua lenda, seu percurso. Conferimos que é importante saber identificar a qual região pertence determinado ingrediente e reconhecer quais preparações podem ser utilizadas. Cada região possui sua identidade cultural, tornando a gastronomia local muito apreciada. Nem todos os ingredientes que utilizamos são nativos, mas muitos ingredientes de fora se desenvolveram da mesma forma – ou até melhor – em nossas terras, visto que podem ser oriundos de continentes diversos. Ingredientes como a mandioca e o milho possuem inúmeros subprodutos e inúmeras formas de preparo. Estudamos como cada ingrediente constitui alguns pratos típicos e de que forma o alimento compõe os pratos: minimamente processado, processado ou ultraprocessado. Todos os processos que são necessários para trazer estes ingredientes à mesa do brasileiro foram importantes e evoluíram através dos séculos. COZINHA BRASILEIRA 57 UNIDADE 3. Ingredientes e produtos da mesa do brasileiro Carla Keiko Mochizuki Ishizaka OBJETIVOS DA UNIDADE Compreender a miscigenação da culinária brasileira nas regiões Nordeste e Sudeste; Conhecer e praticar a culinária brasileira regional do Nordeste e Sudeste; Desenvolver pratos da culinária brasileira; Elaborar fichas técnicas de preparações; Analisar as etnias formadoras da população brasileira que contribuíram para a construção da gastronomia local; Explorar os ingredientes das regiões Nordeste e Sudeste; Conhecer as características geográficas que incidem em cada região. Região Nordeste: clima, geografia, economia, gastronomia e principais produtos A região Nordeste é composta pelos seguintes estados: Maranhão, Piauí, Bahia, Ceará, Rio Grande no Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. A Figura 1, que torna possível identificar a localização de cada estado com suas respectivas capitais, evidencia que todos eles são banhados pelo Oceano Atlântico. O clima da região é muito quente, uma vez que esta se localiza na zona intertropical. Ademais, a região Nordeste possui três tipos de clima, a saber: O clima tropical, que abrange o litoral de todos os estados, o sul da Bahia e o centro do Maranhão, e possui estações bem definidas de chuva e seca; O clima semiárido, que está presente na região central, caracterizado pela presença de muito calor e chuvas mal distribuídas, o que ocasiona estiagem; O clima equatorial úmido, relativo ao oeste do Maranhão, que configura-se como região amazônica. COZINHA BRASILEIRA 58 Figura 1. Mapa da região Nordeste com os estados e as capitais. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 30/01/2020. Já a Figura 2 evidencia a abrangência dos biomas que integram a região Nordeste: amazônia, caatinga, cerrado e mata atlântica. São quatro dos seis biomas existentes no Brasil, e a Bahia, como pode ser observado, possui três. COZINHA BRASILEIRA 59 Figura 2. Nordeste: biomas e microrregiões. Fonte: EMBRAPA, 2010. Acesso em: 30/01/2020. A cozinha do Nordeste pode ser dividida, definitivamente, em cozinha do sertão e cozinha do litoral. No litoral, os peixes e frutos do mar são amplamente servidos em moquecas, ensopados, fritadas, bobós, caldeiradas, peixadas, no acarajé da baiana, com o uso de leite de coco, pimenta e dendê na Bahia. No sertão, há as carnes de sol, charque e seca, carne de bode e cabrito, toucinho, rapadura, milho, farinha de mandioca, jerimum, mel, manteiga de garrafa, feijão verde, maxixe, quiabo, queijo coalho e tantos outros ingredientes da cozinha sertaneja. Muitas festas acontecem no Nordeste e os festejos incluem suas comidas típicas, como o São João e as delícias do milho; a Festa do Divino Espírito Santo, com seus doces de espécie; e, por fim, a Festa de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes de Guararapes, que ocorre em Pernambuco e é caracterizada pela pitomba, muito apreciada in natura mas também utilizada no preparo de sucos, geleias, sorvetes e licores. COZINHA BRASILEIRA 60 A economia do Nordeste é diversificada, e isto beneficiou seu desenvolvimento nos últimos anos. Aqui, destaca-se a agropecuária, com a produção de algodão, cana-de-açúcar, cacau, arroz, feijão, coco, milho, soja, banana, castanhas e frutas para exportação, ao passo que na pecuária o que se sobressai é a criação bovina. No litoral, a principal atividade econômica é o turismo. Por fim, há ainda a produção têxtil e de gesso e a extração de minério, sal, petróleo e flor de sal. MARANHÃO O Maranhão possui dois biomas: o amazônico e o cerrado, configurando-se, portanto, como uma mistura entre Norte e Nordeste. Sua capital, São Luís, foi fundada por invasores franceses em 1612, mas pouco tempo depois ocorre a chegada dos portugueses, que constroem uma arquitetura local que chama a atenção por seus casarões e sobrados coloniais, com belas fachadas e azulejos coloridos. É pertinente comentar que a cidade foi reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1997. Apelidados de papa-arroz, os maranhenses apreciam preparações como o arroz de cuxá. Este prato é feito com as folhas da vinagreira, que podem ser chamadas também de quiabo-azedo, quiabo-roxo, caruru-azedo, azedinha, rosela ou rosélia. As flores da vinagreira são chamadas de hibisco, muito conhecidas por quem procura perder peso. Elas também são ingrediente de infusões, para dar cor, e os japoneses a utilizam para fazer conservas. Outro ingrediente importante do cuxá é uma espécie de pasta, que, além da vinagreira trazida pelos africanos, utiliza gergelim torrado, de influência árabe. Já o preparo em si possui influência portuguesa e o prato possui ainda outra erva de influência indígena: o joão-gomes, também conhecido como língua de vaca, maria-gomes ou caruru. O cuxá é servido acompanhado de farinha de mandioca torrada ou farinha d’água, pimentas e camarão seco, além de poder ser recheado, também, de tortas de caranguejo ou camarão. A influência portuguesa também nos presenteou com os doces de espécie: feitos com coco no Maranhão, são típicos da Festa do Divino. Alice Granato revela em seu livro Sabor do Brasil, de 2011, que os doces receberam este nome graças ao fato de as doceiras que os produziam se inspiravam na silhueta de animais de diversas espécies, visando criar os doces mais diferenciados. COZINHA BRASILEIRA 61 Famoso em todo Brasil e com preço de produto importado em outros estados, o guaraná Jesus, de coloração rosa quase neon, é um refrigerante tão consumido no Maranhão que a maior multinacional de bebidas do mundo comprou a marca em 2001 e passou a distribuir o refrigerante, antes restrito ao seu local de origem, para outros estados do Brasil. A tiquira é um destilado de mandioca e possui cor geralmente arroxeada, proveniente das folhas e cascas de tangerina adicionadas ao seu preparo. Do tupi tiquire, significa “destilar” e sua graduação alcoólica varia entre 36 a 54 ºGL, uma vez que não existe um padrão devido à falta de regulamentação. Muitas lendas cercamessa bebida, e uma delas diz que tomar banho após consumir a tiquira pode levar à morte. O azeite de babaçu é um óleo obtido ao se aquecer o coco da palmeira Attalea speciosa. É utilizado no preparo de frituras ou para saborizar preparações. É comercializado em garrafas PET e dificilmente é encontrado em supermercados, uma vez que não é produzido em escala industrial. Já a tarioba é um molusco bivalve, utilizada como ingrediente principal no arroz de tarioba. Também denominada de “marisco lambão”, pode chegar a 8 cm, como evidencia a Figura 3. Outro fato interessante é que a tarioba se assemelha ao vôngole, mas é bem maior. Figura 3. Tarioba. Fonte: MARCELLINI; FERRAZ, 2018a. p. 50. A pescada amarela, que ganha este nome por causa da coloração de sua barriga, é normalmente apreciada como peixada, juntamente com leite de coco, batatas, ovos cozidos e azeite de oliva. Já o camarão branco é pescado em regiões de areia e lodo, e é considerado por seus apreciadores um dos melhores camarões da costa brasileira. Ele possui sabor adocicado e não libera muita água no cozimento. Por fim, o bobó e o caruru maranhenses, diferentemente daqueles encontrados na Bahia, não utilizam dendê: no bobó utiliza-se vinagreira, joão-gomes e quiabo, nada de purê de aipim. Já a mandioca mansa, em forma de farinha, vira ingrediente somente do caruru, em conjunto com o quiabo e o azeite de oliva. COZINHA BRASILEIRA 62 PIAUÍ Com a menor extensão de litoral do Brasil, o Piauí possui uma cultura sertaneja forte. Carne de sol não pode faltar, sempre acompanhada de macaxeira na manteiga de garrafa. Isso dá-se, entre outros motivos, pela existência de muitos criadores de gado. Campo Maior, que no passado foi a maior cidade exportadora de carne de sol do mundo, ainda hoje produz a carne do modo rústico. Ainda sobre a carne de sol, é relevante comentar também que descobriu-se com a experiência que, os pedaços de carne, se estendidos em varais à sombra e bem ventilados, não perdem tanta umidade como quando expostos ao sol, mantendo sua suculência e maciez. A capital Teresina está longe do litoral e em seus mercados, como o de Mafuá – o mais antigo – reinam miúdos, sangue, pés e rabos de boi e carneiro, verdadeiras iguarias que compõem dobradinhas, sarapatéis, paneladas e o clássico cordeiro ao molho. Preparação típica do sertão nordestino em Pernambuco e no Ceará, o sarapatel é um ensopado com miúdos e sangue de carneiro. Já a panelada é preparada com tripa, bucho e mocotó de boi e é geralmente consumida aos finais de semana. É servida com seu pirão, engrossado com farinha de mandioca. Mas o prato que mais representa o estado é o capote. A galinha capote, como é chamada a galinha d’angola pelos piauienses, é muito apreciada na região. É comum pedir um capote com arroz e “pegado”, fazendo referência às raspas de arroz que “pegaram” no fundo da panela. Além do arroz, existem pratos como o capote ao molho pardo ou ensopado no leite de coco e o frito de capote. Inscrita no livro de Livro de Registro dos Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a cajuína é genuína do Piauí. Bebida famosa feita com a fruta do cajueiro, ela é preparada com o sumo do caju e posteriormente passa por uma clarificação, realizada com uma espécie de gelatina, que decanta a bebida. Depois, a cajuína é envasada em garrafas de vidro e cozida por duas horas. Antigamente, a cajuína era clarificada com cola de sapateiro, como descreve Caloca Fernandes em seu livro Viagem gastronômica através do Brasil, de COZINHA BRASILEIRA 63 2002, onde relata a adição de placas de cola de sapateiro ao sumo do caju que, em repouso, causava uma precipitação, separando o líquido translúcido. Já sobre o arroz Maria Isabel, conta-se a história de uma família numerosa e com poucos recursos, na qual as mulheres não consumiam carne, visto que este ingrediente caro era escasso e somente servido aos homens. Estes saíam para trabalhar e, em seu retorno, comiam toda a carne, não deixando nada para as mulheres. Pensando em suas filhas, a mãe da família teria misturado a carne cortada ao arroz, em pequenos pedaços e, assim, todos poderiam se beneficiar dela. A lenda conta que a mãe batizou o arroz com o nome de suas duas filhas: Maria e Isabel. BAHIA Na Bahia, reina o dendê. Em sua capital, Salvador, e em Ilhéus, ele ainda é produzido de forma artesanal e chamado de “azeite de rodão”. O dendê é a gordura na qual se frita o acarajé, que entrou no Livro de Registro dos Saberes como patrimônio cultural imaterial pelo IPHAN em 2005. Ele é um bolinho feito com feijão fradinho e camarão seco moído e, se não for o prato mais famoso dos tabuleiros de rua, com certeza é o mais representativo. Acompanha camarão seco, cebola e molho de pimenta, e pode ter como recheio o vatapá de origem ibérica, feito com leite de coco, castanha de caju, amendoim, camarão seco defumado, caldo de peixe, gengibre, tomate e dendê. O caruru é um guisado que classifica-se como prato principal, composto por quiabo, camarão seco defumado, castanha de caju, amendoim, azeite de dendê, cebola, alho, limão e pimenta malagueta. O caruru é oferecido a Xangô e é o prato da celebração dos orixás gêmeos nagôs Ibejis, no candomblé, ou Cosme e Damião, no catolicismo. Nas comemorações relativas aos gêmeos, saquinhos de doces são distribuídos às crianças e as mesas são fartas com outros famosos pratos da culinária baiana, como o xinxim de galinha (um ensopado bem temperado com camarão seco, castanha de caju, amendoim, gengibre e dendê), o vatapá, as frigideiras de peixes, frutos do mar e o efó, normalmente oferecido a Nanã, que leva folhas de língua-de-vaca, castanha de caju, amendoim, camarões secos, azeites de oliva e dendê, coentro, leite de coco, cebola e pimenta em seu preparo. COZINHA BRASILEIRA 64 CURIOSIDADE A língua-de-vaca (Portulaca raccemosa ou Talinum paniculatum) é nativa do Brasil e atualmente considerada uma PANC, ou Planta Alimentícia Não Convencional. No Ceará é chamada de manjogome; em Pernambuco, de major gomes ou bredo; em São Paulo, de maria- gomes, beldroegão ou maria gorda; no Maranhão, de bênção-de-deus; e na Amazônia, de caruru. A língua-de-vaca possui 100% mais ferro que o espinafre cru e cresce nas guias, calçadas, vasos e canteiros espontaneamente. Para consumi-la, é necessário se certificar de que a sua fonte é segura, além de realizar a higienização correta antes do consumo. Os muçulmanos do norte da Nigéria, os hauçás, deram origem ao prato mais representativo da cultura afro-brasileira (FERNANDES, 2002): o arroz-de- hauçá, que é um arroz cozido até o ponto de ficar meio empapado, servido com carne-seca e molho de camarão seco defumado. Outros pratos emblemáticos não podem deixar de ser citados, como é o caso do bobó de camarão, um creme feito com purê de mandioca, leite de coco, pimentão, coentro, tomate, azeite de dendê e camarões médios ou grandes. As moquecas, que têm origem tupi-guarani para alguns e africana para outros, são tradicionalmente preparadas com peixes e frutos do mar. As moquecas podem ganhar várias outras versões, mas o que caracteriza a moqueca baiana é o uso do leite de coco e dendê. Raul Lody, em seu livro Bahia bem temperada: cultura gastronômica e receitas tradicionais de 2013, discorre sobre pratos servidos nas folhas de bananeira ou mesmo envolto nelas, como o acaçá branco ou vermelho, feito com milhos das cores supracitadas, que são cozidos até se transformarem em um mingau grosso e liso, dividido em porções nas folhas. O aberém também é feito com milho e possui um processo semelhante ao do acaçá, mas é cozido no vapor. Já o abará é feito com feijão-fradinho e possui processo de preparação semelhante ao processo do acarajé, recebendo dendê para dar cor. Todavia, o abará é envolto em uma folha de bananeira e, ao invés de ser frito, é cozido no vapor. A pamonha de carimãpode ser feita com a massa puba acrescida de açúcar, coco ralado e sal, sendo cozida na folha de bananeira. O beiju de carimã ou bolo COZINHA BRASILEIRA 65 de folha é feito com leite de coco, sal e açúcar envoltos na folha de bananeira e assados na grelha. Por fim, a moqueca de folha geralmente é feita com o peixe chicharro temperado com pimenta malagueta verde e sal, que é embalado nas folhas de bananeira e assado ao moquém. Por ser consumido com as mãos, é considerado comida de tabuleiro. Moqueca Baiana Tradicional Classificação: Prato principal Rendimento: 5 porções // Ingredientes: 1 kg de postas de xaréu; 1 Limão; 1 dente de alho; 2 tomates; 240 ml de leite de coco; 240 ml de azeite de dendê; 45 ml de azeite doce (de oliva); Pimenta malagueta a gosto; Coentro a gosto; Sal a gosto. // Modo de preparo: Lave as postas de xaréu com água e limão; Depois, tempera-se com sal, alho, pimenta-malagueta, coentro, cebola e tomates cortados em rodelas; Junte todos os ingredientes em uma panela e acrescente o dendê e o azeite doce; Leve para cozinhar; Quando estiver pronto, acrescente o leite de coco e deixe até ferver; Sirva com arroz branco e farofa de dendê. A região do Recôncavo Baiano é composta por 19 cidades, e o principal rio que a corta é o Paraguaçu. Essa região é berço de muita cultura e tradições como o samba de roda, considerado patrimônio imaterial da humanidade. Nesta localidade, são preparadas frigideiras de caranguejo aratu, camarão, siri catado e maturi, que é a castanha de caju verde. Moquecas são feitas com aratu, pata de caranguejo e pititinga. Muito fácil de fazer, há também o bolinho de estudante, que leva essa nomenclatura por ser de baixo custo. Ele é feito com tapioca granulada, coco, açúcar e leite de coco, COZINHA BRASILEIRA 66 sendo frito posteriormente e passado no açúcar e canela. Esse bolinho não é feito somente no Recôncavo, mas em todo o litoral. Segundo Raul Lody (2013a), a cozinha do sertão tem forte presença de carne bovina e caprina, com pratos como o curu, que integra as mais tradicionais memórias da comida da Bahia. Composto por carne do sertão escaldada na água com limão e cozida no leite de coco com temperos, posteriormente é frito com toucinho e ovo mexido e servido com farofa de torresmo. A carne fresca de gado é chamada de carne verde e geralmente é preparada na grelha e servida com temperos por cima, acompanhando arroz, pirão ou salada. A carne também pode ser “curada” no leite de mamão verde, uma vez que o mamão possui papaína, uma enzima que age na proteína e a torna macia. Depois de passada no leite do mamão verde, a carne é lavada, temperada e frita, assada ou cozida. O badofe é um ensopado de fígado, coração e bofe do boi, servido com angu de farinha ou farofa do caldo, ao passo que o sarapatel pode ser preparado com miúdos da galinha, porco, boi ou bode, juntamente com o sangue do animal. Dizem que o bode da caatinga tem um sabor diferenciado e dele se faz pratos como estrogonofe, buchada e paçoca. A buchada de carneiro é chamada de mininico no sertão e, semelhantemente ao sarapatel ou galinha cabidela, leva sangue e seu preparo pode levar dois dias. A farinha de copioba, produzida no Vale do Copioba, no Recôncavo Baiano, é feita tanto com a mandioca mansa quanto a brava. Com produção artesanal, de coloração amarela, textura crocante e com granulometria bem fina, ela é torrada a ponto de ter apenas 2% de umidade. Além disso, a farinha de copioba não possui acidez, devido à agilidade de seu processo de produção. É relevante mencionar que sua produção está ameaçada por produções que a falsificam, utilizando corantes naturais e/ou artificiais. Das bebidas feitas na Bahia, há o denguê ou dengué, uma bebida feita com farinha de arroz ou milho branco, acrescida de água, açúcar e canela. Há também a gronga, uma bebida de santo feita com gengibre e raízes, e a jacuba, feita com rapadura e farinha. COZINHA BRASILEIRA 67 O cuscuz é o prato do dia a dia, um alimento feito com farinha de milho hidratada e consumido com coco ralado e leite de coco. Quando feito com milho verde, leva farinha de mandioca, e ambos são preparados no cuscuzeiro. Ademais, o cuscuz pode acompanhar carnes com molhos e ser feito com amendoim, fubá de arroz ou inhame ralado. Do cuscuz e do milho verde se faz farofa com manteiga e ovos. Além disso, a Bahia é riquíssima em frutas. Algumas das variedades lá encontradas são: pitanga, bilimbi, cajá, carambola, goiaba, manga, sapoti, acerola, caju e cacau. ASSISTA O cacau foi levado da Amazônia para a Bahia, local de cultivo do cacau forasteiro. Citado nas histórias de Jorge Amado, o cacau brasileiro tem espaço no mercado mundial e é apreciado por sua qualidade e sabor. O primeiro vídeo mostra como é o beneficiamento do cacau e os produtos que o fruto gera, ao passo que o segundo mostra todos os processo da produção do chocolate. CEARÁ, RIO GRANDE DO NORTE E PARAÍBA Enquanto que Fortaleza é chamada de “a terra do sol”, o Ceará possui a maior área com plantações de cajueiro do Brasil, chegando a 61,9% da produção de todo o nordeste em 2017, apontam dados. O caju auxiliava na situação de quem chegava ao Brasil adoentado pela navegação, principalmente os escravos, que eram obrigados a navegar nos navios negreiros em situação desumana. Como é rico em vitamina C, o caju ajudava a aumentar a imunidade. Todavia, embora a fruta seja muito apreciada e utilizada nos mais diversos pratos, a castanha é a maior fonte de renda deste fruto que está presente em todo o clima semiárido. Por fim, o Ceará também possui grande variedade em seus pratos à base de peixe, uma vez que eles podem ser compostos por pargo, garoupa, robalo, beijupirá ou cavala. Ademais, um exemplo clássico de prato é a peixada, que é servida em canecas e tradicionalmente consumida na ceia. Potiguar, como são chamados os nascidos no Rio Grande do Norte, vem do tupi e significa “comedor de camarão” ou “papa-jerimum”. Do seu território, 90% é COZINHA BRASILEIRA 68 a caatinga, que chega até o litoral. Sua capital, Natal, é a terra de Câmara Cascudo, importantíssimo estudioso da alimentação e do folclore: suas obras são referência até hoje. Segundo afirma Granato (2011), Cascudo apreciava peixe cozido com pirão, carne de sol e paçoca, além de tapioca de massa bem fina com leite de coco. Ainda no Rio Grande do Norte, o sertão do Seridó possui açudes para a criação de curimatã, termo que engloba espécies semelhantes de peixes. Além de sua carne, é importante ressaltar suas apreciadas ovas, chamadas de “caviar do sertão”. Também nessa região se produz queijo, caju da Serra do Mel e mel de Jandaíra, uma abelha nativa sem ferrão que dá nome à cidade. Baião de dois do chef Rodrigo Oliveira Classificação: Prato principal Rendimento: 8 porções // Ingredientes: 5 dentes de alho; 30 g de manteiga de garrafa; 1 kg de arroz; 2 l de caldo de legumes ou galinha caseiro; 3 folhas de louro; 5 g de colorau; Sal a gosto; 100 g de toucinho defumado em cubos; 100 g de linguiça defumados em cubos; 200 g de carne seca cozida e desfiada; 1 cebola roxa em cubos; 1 pimentão verde em cubos; 2 tomates em cubos; 1 kg de feijão fradinho cozido e escorrido; 100 g de queijo coalho em cubos; Coentro fresco a gosto; 50 g de manteiga de garrafa. // Modo de preparo: Em uma panela grande, frite o alho na manteiga de garrafa e, antes de dourar, junte o arroz e mexa bem; Junte o caldo fervente, o louro, o colorau e deixe cozinhar com a panela tampada em fogo baixo, até os grãos ficarem macios. Reserve; Frite o toucinho em sua própria gordura e, quando começar a dourar, junte a linguiça e a carne seca, mexendo por mais alguns instantes. Passe para uma tigela e reserve; Na mesmapanela, aqueça rapidamente a cebola, o pimentão e os tomates. Misture todo o arroz e as carnes reservadas, o feijão e o queijo coalho; COZINHA BRASILEIRA 69 Acerte o sal e finalize com o coentro e a manteiga de garrafa; Sirva com vinagrete de cebola-roxa e pimenta fresca. Na Paraíba, terra de Lampião, o rubacão é uma prato típico semelhante ao baião de dois, feito com feijão de corda, charque e queijo coalho, podendo ser acrescido também do arroz vermelho produzido no semiárido. A produção de castanha de caju também ganha destaque pela qualidade. A cidade de Mossoró é conhecida por suas salinas, que vêm produzindo até flor de sal. Já o bode é muito estimado no Cariri paraibano, local onde acontece a festa do Bode Rei. Outro prato apreciado é o ensopado de caranguejo, preparado com batatas, cebola, tomate, cheiro verde e leite de coco. PERNAMBUCO, ALAGOAS E SERGIPE Dos engenhos e da influência portuguesa, surge uma doçaria rica em receitas tradicionais em Pernambuco. Além do famoso bolo de rolo que ganhou o Brasil, estão também em seu rol o bolo Souza Leão e o cartola. Terra do escritor e sociólogo Gilberto Freyre (que adorava pitanga), lar do frevo e do maracatu, sua capital é Recife, também chamada de “Veneza brasileira” devido a seus rios e mangues. CURIOSIDADE O bolo Souza Leão é uma homenagem à família dos engenhos de Pernambuco que deu origem à receita. O bolo é feito com massa puba, leite de coco, manteiga, gemas, cravo, canela e erva doce, podendo ocorrer algumas variações. Tornou-se famoso após ser servido a Dom Pedro II e Dona Tereza Cristina em uma visita ao engenho da família Souza Leão. Garanhuns, município do Agreste pernambucano, com sua altitude, ganha destaque na produção de queijo coalho e queijo manteiga, ao passo que Afrânio produz doce de leite branco artesanal, advindo da criação do gado de leite. Já o Vale do São Francisco ficou conhecido mundialmente por sua produção de uvas viníferas, surpreendentemente possuindo mais safras que outras regiões, graças à influência do clima. Há ainda o brote, herança dos holandeses e tradição COZINHA BRASILEIRA 70 familiar dos imigrantes: feito à base de raízes que substituem o trigo, utiliza batata doce, mandioca e cará moela. Alagoas, que foi província de Pernambuco até 1817, possui muitas similaridades com os hábitos pernambucanos. Lá, consome-se o caldinho de sururu, que é o sururu cozido com tomate, pimentões, cebola e alho, acompanhado de pirão ou mingau pitinga. A capital de Sergipe, Aracaju, é banhada pelo rio São Francisco, carinhosamente chamado de “Velho Chico”, e provém peixes como o surubim. Dos mangues vem o famoso pitu, camarão de água doce, e as ostras, que possuem sabor mais suave e adocicado por viverem em água salobra. As bricelets, símbolo da cidade de São Cristóvão, quarta cidade mais antiga do Brasil, são biscoitos feitos por irmãs beneditinas. Eles possuem massa fina com sabor de limão, são quadrados e têm desenhos em alto relevo, sendo nomeados a partir da máquina suíça que realiza sua prensagem. O caranguejo guaiamum, goiamum ou guaiamu também é apreciado na região. No interior semiárido, cultiva-se o feijão de corda, também conhecido como feijão-caupi: de origem africana, é alimento diário do nordestino. Esta localidade também é marcada por um cenário com muitos cactos, que geralmente servem de alimento ao gado, como os facheiros, mandacarus, palmas, xique-xiques e cabeças-de-frades. Todos estes elementos vêm sendo aos poucos introduzidos na alimentação. Região Sudeste: clima, geografia, economia, gastronomia e principais produtos A região Sudeste é composta pelos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. É a região que possui melhor desenvolvimento econômico desde a corrida do ouro e as produções de café, além de ser também a região mais populosa. É importante ressaltar que hoje, com a industrialização, há uma maior variedade de fonte econômica. No agronegócio, o Sudeste desenvolve o cultivo de cana, soja, algodão, milho, café, laranja e rebanho bovino. Ademais, o que mais se desenvolve no Sudeste COZINHA BRASILEIRA 71 é o setor terceirizado de comércio, finanças e serviços, como consultoria, informática e marketing. Além destes, há também a indústria automobilística, siderúrgica, petroquímica, naval, petrolífera (devido ao pré-sal) e mineradora. O turismo também movimenta a economia com belas paisagens, cidades históricas, gastronomia e entretenimento. Figura 4. Mapa da região Sudeste com seus estados e capitais. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 30/01/2020. A região possui os seguintes climas: tropical, subtropical de altitude e subtropical úmido, sendo raras as geadas, que ocorrem nos meses de inverno nos planaltos e montanhas acima de 700 m. Posto isso, a vegetação é variada, e os biomas predominantes são o cerrado e a mata atlântica, com uma ínfima parte de caatinga no Nordeste de Minas Gerais, como ilustra a Figura 5. COZINHA BRASILEIRA 72 Figura 5. Biomas do Brasil. Fonte: QUEIROZ, [s.d.]. Acesso em: 01/02/2020. Em busca das riquezas naturais, os bandeirantes se lançaram mata adentro e deram origem à atual Estrada Real, que passa por São Paulo e liga Minas Gerais ao porto de Paraty. É pertinente mencionar que foi graças a este percurso que muitos pratos típicos surgiram. A cozinha litorânea do Espírito Santo possui influência indígena local, dos imigrantes alemães e italianos e das regiões com as quais o estado faz fronteira, como é o caso da moqueca capixaba, que difere da moqueca baiana graças aos ingredientes utilizados. Já a influência da região Sudeste é relacionada, inicialmente, aos índios e aos portugueses. Todavia, com a corrida do ouro, chegam mais portugueses, africanos sujeitados à horrenda escravidão e migrantes de outras regiões do Brasil, como os tropeiros, que também auxiliaram na criação de hábitos alimentares. Posteriormente, vieram os italianos, alemães e japoneses. MINAS GERAIS Minas Gerais se tornou uma importante produtora de café e leite no século XIX e isso teve reflexos em seus hábitos alimentares. Sua produção de queijos é apreciada e reconhecida, como o queijo da canastra, por exemplo, declarado bem imaterial pelo IPHAN em 2008, além do queijo minas e curado. O pão de queijo é outra receita ilustre: mineiro e brasileiríssimo, feito com polvilho COZINHA BRASILEIRA 73 escaldado, queijo meia cura ou até farinha de milho, o pão de queijo nas cidades mineiras ganha diversos recheios, que vão do pernil até mais queijo. Já a carne de sol serenada tem processo semelhante à carne de sol tradicional, mas, como indica seu nome, ela fica no sereno. A carne de boi passa por salga e descansa sob refrigeração por algumas horas e, após o descanso, é lavada com sua própria água e então estendida sob o sereno da noite, coberta com uma tela para evitar a contaminação. A taiada, que é uma mistura de rapadura e gengibre, é outro alimento introduzido graças à alimentação do tropeiro, assim como o macarrão de vara, cozido junto com os temperos e consumido na própria panela, visando ser uma refeição prática e rápida. Ademais, na mesa mineira a broa de milho e o cafezinho são essenciais, assim como a ora-pro-nóbis e os pés de couve no jardim. CURIOSIDADE Ora-pro-nóbis, que significa “orai por nós”, é uma planta que apresenta vários outros nomes, além de apresentar espécies diferentes. Ela pode ser encontrada em quase todo o continente americano e é rica em proteínas. A lenda conta que em uma igreja de Minas Gerais havia uma moita desta espécie, mas o padre não permitia sua colheita. Ela só podia ser colhida no momento em que o padre dizia “ora-pro-nóbis”, durante a missa, uma vez que este era o instante em que ele viraria de costas e não poderia ver quem estava furtando as folhas da hortaliça. O mineiro é um povo hospitaleiro, que gosta de oferecerrefeições fartas a seus convidados. As preparações clássicas dessa cozinha, que recebe influências de São Paulo, são bambá de couve, uma sopa feita com fubá, couve e linguiça; vaca atolada, preparada com carne de vaca cozida com mandioca; frango com quiabo; jiló refogado; canjiquinha ou quirela com costelinha; leitão à pururuca; arroz com suã de porco; tutu à mineira, servido com bisteca, torresmo, costela e couve; frango ou galinha com ora-pro-nóbis, servido com feijão tropeiro, farinha de milho torrada e couve rasgada, ou somente com angu. Já os doces de tacho são verdadeiras delícias divinas: seja doce de leite, de abóbora, de banana, de cidra, de mamão verde, de laranja, é comum servi-los com uma fatia de queijo para amenizar o dulçor, como ocorre com o clássico COZINHA BRASILEIRA 74 romeu e julieta. Há também outros doces, como ambrosia, brigadeiro, cajuzinho, pé-de-moleque, cocada, canudinhos de doce de leite, pastel de nata, compotas, pudim e o manuê de bacia, um doce de melado com ovo, farinha de trigo e cravo. Os doces fazem parte das quitandas e, no lanchinho do fim da tarde mineira, são servidos bolo de fubá, broa de milho, pamonha, canjica, biscoito de polvilho, pão de queijo e o clássico bolinho de chuva. Canudinho de doce de leite Classificação: Sobremesa Rendimento: 60 porções Doce de leite // Ingredientes: 3 L de leite; 1 kg de açúcar cristal. Canudinho // Ingredientes: 500 g de farinha de trigo; 200 ml de água; 10 ml de óleo; Sal a gosto; 1 L de óleo para fritura; Coco ralado a gosto para finalizar. Doce de leite // Modo de preparo: Em uma panela, junte os ingredientes e cozinhe em fogo médio, sem parar de mexer, por cerca de uma hora, até adquirir consistência pastosa. Canudinho // Modo de preparo: Em uma bacia, misture aos poucos a farinha de trigo e a água, mexendo com a mão; Acrescente 10 ml de óleo e sal. Misture até obter uma massa homogênea com aspecto de massa de pão (levemente grudenta); Abra a massa com um rolo ou em um cilindro, até ficar com uma COZINHA BRASILEIRA 75 espessura fina; Corte em quadrados de 9 cm e enrole a massa nos canudos de alumínio especiais para panificação; Frite por imersão no óleo; Deixe escorrer o excesso de óleo e espere esfriar. Retire os canudos de alumínio; Recheie os tubinhos de massa com o auxílio de uma manga de confeitar; Passe as pontinhas no coco ralado. SÃO PAULO A capital foi desprezada no passado por estar longe do litoral e, até o século XVIII, era ponto de partida dos bandeirantes que seguiam até Minas Gerais. A partir do século XIX, chegam italianos e japoneses e, com a industrialização e a produção de café, São Paulo vira terra de oportunidades. A partir disso, ocorre a chegada de migrantes de outras regiões do Brasil e imigrantes, como espanhóis, libaneses e poloneses. A capital de São Paulo é uma torre de babel, uma metrópole vanguardista e lar das cantinas italianas que oferecem massas e pizzas, principalmente no bairro do Bixiga e na Mooca, onde se estabeleceram os italianos que vieram da queda do cultivo do café. Já os japoneses se instalaram em vários bairros, como a Vila Carrão, mas o bairro mais simbólico é a Liberdade, que atualmente abriga diversas culturas asiáticas. É importante ressaltar que o Brasil detém as maiores colônias tanto de japoneses quanto de italianos fora de seus países. Os italianos também tiveram participação no quesito artístico da cidade, com monumentos e edificações concretizados em obras, como o Monumento às Bandeiras e o Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Além disso, a língua portuguesa brasileira ganhou 300 vocábulos ítalo-brasileiros, como cantina, macarrão, mortadela, fiasco, caricatura e camarim, segundo Alice Granato (2011). Embutidos como o cudiguim, uma linguiça feita com carne de porco e pedaços cozidos da pele do porco, também fazem parte das heranças culinárias. A comida japonesa também é sensação nos restaurantes de São Paulo: em todas as regiões paulistas é possível comer um rodízio de comida japonesa, em que são oferecidos temakis, sushis, sashimis, sunomonos e yakissobas, entre outros. COZINHA BRASILEIRA 76 Figura 6. Mercado municipal de São Paulo. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/02/2020. No centro de São Paulo está o mercado municipal, ou Mercadão, ilustrado pela Figura 6. Lá, pode-se encontrar alimentos como o famoso sanduíche de mortadela, bolinhos de bacalhau, ostras, peixes, lagostas e camarões, além de carnes de animais não consumidos usualmente, sanduíche de pernil, beirute de camarão, pastel dos mais diversos recheios, queijos, embutidos, conservas, temperos e as mais diversas frutas. O mercadão tornou-se um local voltado ao turismo, e devido a isso o consumidor pode se deparar com preços elevados e superfaturados. Algumas alternativas próximas são o mercado Kinjo Yamato, que oferece produtos de hortifruti muitas vezes vendidos pelo próprio produtor a preços justos, e a zona cerealista, onde é possível encontrar diversas lojas que vendem produtos secos à granel, farinhas, grãos, frutas secas, castanhas e outros produtos com preços acessíveis. Na região da 25 de Março e no bairro do Pari é possível encontrar lojas e restaurantes de comida libanesa e síria, com doces feitos com castanhas e frutas secas, ninhos, baklavas e esfihas fechadas e abertas, além de água de rosas, zaatar e tahine. Existe um bairro para cada nação que vive em São Paulo: Pari e Bresser são os lares de bolivianos e peruanos, que contribuem com sua cultura em feiras que oferecem alimentos e ingredientes típicos. Já o Bom Retiro possui comunidades judaicas e coreanas, com comércio têxtil e alimentício. Higienópolis é outro bairro com uma forte comunidade judaica, e em ambos os lugares é possível encontrar produtos, alimentos e restaurantes kosher. Entre os pratos clássicos de São Paulo estão o cuscuz paulista, herança dos farnéis dos bandeirantes, e o pastelzinho do manezinho, uma adaptação dos italianos à fogaça de trigo, substituindo o trigo pelo milho. COZINHA BRASILEIRA 77 O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) desenvolve uma série de melhorias em cultivares agronômicos, ao passo que no polo do Vale do Paraíba, em Pindamonhangaba, há a produção de diversos tipos de arroz especiais: arroz preto, jasmim, basmati, vermelho. Na mesma região são estudadas as PANCs pelo polo da Associação Paulista dos Agronegócios, a APTA, que desenvolve estudos da fauna e flora voltados à alimentação. No Vale do Paraíba mantém-se influências indígenas e tradições dos tropeiros, com ingredientes e preparações que formaram a base da alimentação caipira e pratos como cuscuz e virado à paulista, farofa de içá, feijão-tropeiro, ensopado de galinha caipira e bolinho de caipira frito, feito com massa de milho amarelo com recheio de carne moída ou, na versão considerada patrimônio imaterial de Jacareí, com massa de milho branca e recheio de linguiça de porco. Encontramos, ainda, frutas como a uvaia, cambuci, que dá nome a um bairro da cidade de São Paulo, cambucá, feijoa, pitanga, cabeludinha, jenipapo, nêspera, pitanga, romã, maga, araçá e jaca, entre outras. Figura 7. Cambuci. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/02/2020. RIO DE JANEIRO O Rio de Janeiro possui fortes traços portugueses, obtidos graças à herança da família real. Há também uma leve influência francesa, principalmente no que diz respeito às artes e arquitetura do Brasil colônia. Ademais, este estado é dono de algumas das mais lindas paisagens e praias do mundo. COZINHA BRASILEIRA 78 Berço do samba e da bossa nova, o Rio oferece petiscos como: bolinhos de bacalhau, empadinhas, bolinhos de aipim com carne seca ou camarão, porções de sardinhas fritas, xereletes, pescadinha regada no azeite, linguiças fritas, carne seca ou filé acebolado acompanhados de farofaou aipim e sanduíches de filé ou pernil. O caldinho de feijão servido com bacon e couve chiffonade é responsável por trazer sustento aos boêmios, e nas praias, há o queijo coalho no espeto, à base mate com limão gelado e biscoitos de polvilho; nos calçadões, o milho com manteiga e sal. O prato carioca mais célebre é também o prato brasileiro mais famoso: a feijoada. Outros pratos clássicos também compõem o repertório carioca, como o picadinho; o filé Oswaldo Aranha, um filé mignon alto com alho frito, servido com arroz branco, batata frita em rodelas e farofa; a sopa Leão Velloso, um prato servido ao embaixador do Brasil na França, inspirado no bouillabaisse, mas que utiliza ingredientes locais, como caldo à base de cabeça de peixe e camarão, frutos do mar e coentro; o filé à francesa, servido com ervilhas, presunto, cebola e batata-palha; e o cabrito com arroz e brócolis. No que tange à influência portuguesa, pratos a base de bacalhau não faltam no cardápio: há o bacalhau à Zé do Pipo, que é misturado com purê de batata e gratinado; o bacalhau à lagareiro, uma posta assada com batatas, cebola e brócolis e finalizada com alho torrado; o bacalhau à Gomes de Sá, disposto em lascas e assado com batatas em rodelas, cebola, alho e ovos cozidos; e o bacalhau à Brás, um bacalhau desfiado com rodelas finas de cebola, alho, batata palha, ovos temperados levemente batidos e azeitonas pretas. ESPÍRITO SANTO O Espírito Santo, um estado litorâneo de mata atlântica cuja capital é Vitória, mantém suas raízes indígenas, embora também receba influências alemãs e italianas. Entre os mais conhecidos pratos desse estado está a moqueca capixaba, que se diferencia da baiana pelo uso de azeite de oliva e a cor conferida pelo uso de urucum. Além disso, nessa modalidade de moqueca não há acréscimo de leite de coco nem dendê. Já a torta capixaba surgiu no século XIX para ser consumida na Semana Santa. É feita com peixe, siri, sururu, bacalhau e ostra, tudo muito bem temperado. A garoupa salgada leva bananas da terra, assim como a moqueca vegana, em que esta fruta substitui o peixe. COZINHA BRASILEIRA 79 Como afirmam Dolores Freixa e Guta Chaves no livro Gastronomia no Brasil e no mundo, de 2015, os imigrantes italianos trouxeram o preparo de pratos como o agnolini, feito com capeletti; a pavesa, feita com caldo de carne com gema de ovo crua e torradas; e a massa de abóbora recheada com legumes, o tortei. Já os alemães trouxeram pratos como o apfelstrudel e o michjabroud, um doce de massa fina semelhante à massa filo, com recheio de maçã e um pão de milho, respectivamente. É importante também mencionar o vinho de jabuticaba produzido na região, bem como geleias, rosquinhas, o guisado de pato caipira, o saboroso joelho de porco eisbein e a machacota, um doce puxa-puxa preparado com farinha de mandioca, gengibre e rapadura, típico da região.idade. Vamos lá?! SINTETIZANDO Nesta unidade, vimos os principais povos que imigraram e migraram de outras regiões para o Nordeste e Sudeste do Brasil. Conhecemos, também, a culinária praticada nestas duas regiões, analisando como é realizado o desenvolvimento de preparo dos principais pratos em suas fichas técnicas de preparo. Foi possível conhecer um pouco mais sobre o que cada etnia agregou aos estados, cidades e bairros nos quais se fixaram. Foram destacados os ingredientes locais, a fauna e flora encontrada nas regiões, bem como o clima e a economia principal. Muitos pratos, frutas e preparações foram declarados patrimônio imaterial da humanidade, o que mostra como nosso país propaga sabores próprios de nossa cultura gastronômica. A variedade de biomas, culturas e povos faz com que cada cidade e região do Brasil tenha suas particularidades e valores. Fica claro que, para que continue desta forma, urge que os ingredientes locais sejam valorizados primeiramente por nós, brasileiros, nos despojando de preconceitos adquiridos através de crenças populares. COZINHA BRASILEIRA 80 UNIDADE 4. Regiões Norte, Centro-Oeste e Sul do Brasil Carla Keiko Mochizuki Ishizaka OBJETIVOS DA UNIDADE Conhecer a miscigenação da culinária brasileira nas regiões Norte, Centro- Oeste e Sul; Elaborar fichas técnicas de preparações; Praticar a culinária brasileira regional do Norte, Centro-Oeste e Sul; Desenvolver pratos da culinária brasileira; Reconhecer os ingredientes das regiões Norte, Centro-Oeste e Sul; Distinguir as etnias formadoras da população brasileira que contribuíram para a formação da gastronomia local; Saber as características geográficas que incidem em cada região. Região Norte (clima, geografia e economia): gastronomia e principais produtos A região Norte, formada pelos estados do Amazonas, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia, Pará e Tocantins, é a que mais manteve a herança indígena em sua cultura, estando nos ingredientes e nas técnicas. Além da cultura indígena, os migrantes do Nordeste tiveram uma parcela de contribuição, agregando ao cardápio novos ingredientes, não esquecendo das matrizes portuguesa e africana, em especial no Pará, e dos imigrantes europeus, libaneses e asiáticos. COZINHA BRASILEIRA 81 Figura 1. Mapa do Norte. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. São consumidos os peixes vindos dos rios, como a pescada, o pacu, a sardinha de rio, a traíra, a piranha, a piraíba que, quando jovem, é chamada de filhote, o tucunaré, o tambaqui e o gigante do rio Amazonas, o pirarucu, que ganhou o título de “bacalhau da Amazônia” em razão do preparo trazido pelos portugueses. A gastronomia do Norte vem granjeando evidência e atraindo cada vez mais a atenção de chefs nacionais e internacionais, integrando pratos com ingredientes de diferentes culturas e sendo adjetivada de exótica até dentro do país, mesmo não se enquadrando na definição. No entanto, isto se dá pelo fato da culinária de lá ser rica e ter ficado muito tempo ignorada pelos povos de outras regiões. Entre seus ingredientes estão frutas como cupuaçu, sapucaia, tucumã, sapotilha, uxi, acerola, bacuri, guaraná, açaí, castanha do Pará, murici, urucum, inajá, cupuí, biriba, miriti, pupunha, taperebá, araçá, camapu, conhecido mundo afora como fisális, physalis ou golden berry e considerado um super alimento por conter aminoácidos essenciais, ferro, antioxidantes e anti-inflamatórias. O bioma da Amazônia preenche cerca de 40% do território nacional, abrangendo os estados do Norte, parte do Mato Grosso e Maranhão e outros países como Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, COZINHA BRASILEIRA 82 Suriname e Venezuela. Exceto o Equador, todos os países fazem fronteira com o Brasil. A economia é baseada no extrativismo mineral e vegetal, onde o Pará se destaca na exploração de minério de ferro e o Tocantins, de manganês. O Amazonas extrai petróleo e gás natural e, com Rondônia, fornece estanho a partir da cassiterita. A região tem ainda exploração de garimpo de ouro e diamantes. Na agropecuária, o maior rebanho de búfalos do Brasil está na Ilha de Marajó, enquanto em Rondônia se planta café, estando entre os maiores produtores de café conilon de 2014 a 2019. O Pará é responsável pelo cultivo e exportação de castanha do Pará e açaí. O ciclo da borracha fez com que a Amazônia e, por consequência, Belém se desenvolvessem economicamente a partir da extração de látex, cuja mão de obra era de migrantes nordestinos que utilizavam as técnicas de extração dos índios e durou de 1870 a 1910. Por fim, a extração de madeira, que acontece desde a chegada dos portugueses e gera discussões em relação à prática ilegal. A fabricação de cosméticos se vale de mercadorias como andiroba, priprioca, pitanga, castanha-do-pará, murumuru, ucuuba, que se transformam em hidratantes, shampoos, condicionadores, sabonetes e muitos outros itens. O folclore amazônico é comemorado no Festival do Boi-Bumbá de Parintins, no Amazonas, e o catolicismose faz presente na comemoração do Círio de Nazaré em Belém do Pará. Em geral, o clima é quente e úmido com predominância equatorial, por se localizar próximo à linha do Equador. Contudo, ele também integra o clima tropical, nos estados do Tocantins e do Pará. AMAZONAS E PARÁ Manaus, capital do Amazonas, já esteve entre as cidades mais importantes do mundo em virtude da borracha fabricada a partir da extração do látex. A Amazônia passava por uma situação econômica extravagante, sendo apelidada até de “belle époque amazonense” e o látex, de “ouro branco”. Por outro lado, os migrantes nordestinos que buscavam uma nova vida encontraram dificuldades em virtude das doenças da floresta, como malária, febre amarela e hepatite, sem falar nos animais perigosos, como onças, escorpiões e cobras. A Amazônia é a maior floresta equatorial do mundo, com seus 180 tipos de frutas, fora as plantas, animais e a maior bacia hidrográfica do mundo, na qual COZINHA BRASILEIRA 83 habitam mais de 100 tipos diferentes de peixes, que estabelecem a base alimentar local, de motivações indígenas, sendo o pirarucu o que mais predomina, chegando a medir três metros e pesar 200 quilos. Em Manaus, o pirarucu de casaca é feito com o peixe assado e destrinchado em lascas com ovos cozidos, banana da terra (pacova) e farinha de mandioca, regados com leite de coco e assados no forno. O tambaqui, ou pacu vermelho, tem suas costelas muito apreciadas, servidas como o carré de cordeiro, com a espinha à mostra, ou ao molho de camarão. Esse peixe chega a atingir dois metros e pesar mais de 30 quilos. Com alto teor de gordura, frito ou assado, o tucunaré é frequente nas mesas de Manaus e Belém, onde é comum nas caldeiradas com batatas e ovos cozidos, variando no tempero e uso da pimenta. A caldeirada de tucunaré é muito estimada por aproveitar rabo, tronco e cabeça do peixe. CURIOSIDADE Roberta Malta Saldanha conta em Culinária brasileira, muito prazer, lançado em 2018, que se aproveita tudo do tambaqui. Dos ossos secos, se faz farinha, das ovas, surge uma espécie de caviar brasileiro e, da bexiga natatória, se faz uma goma. A partir do cruzamento do tambaqui com o pacu, se criou um peixe híbrido, o tambacu. O filhote, de até 50 quilos quando jovem, recebe o nome de piraíba ao chegar na fase adulta, pesando impressionantes 200 quilos. Do tamauatá e do acari, é feito o piracuí dos índios, no qual a carne do peixe é torrada e pilada. Já a gurijuba, ou peixe da vigia, recebe o nome de “haddock paraense” quando defumado. A banana pacova, ou banana-da-terra, é tida como nativa por compor os hábitos alimentares indígenas e estar no Brasil antes da chegada dos portugueses. Porém, há referências que dizem que sua origem é africana ou asiática. Assada, vai como acompanhamento de peixes, mas também é ingrediente de tortas e bolos. Frita bem fininha, é vendida em pacotinhos. A Figura 2 mostra o ouriço, um fruto da castanha do Pará, ou castanha do Brasil. A Bertholletia excelsa, seu nome científico, possui de 12 a 25 sementes. A castanha está localizada dentro do ouriço, protegida por outra casca. Ela é COZINHA BRASILEIRA 84 consumida como farinha em farofas, crostas de peixes, saladas, molhos e seu leite vai em cremes salgados. Figura 2. Castanha do Pará. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. O bombom de cupuaçu faz sucesso garantido com seu sabor azedo e inconfundível. A fruta dá sabor a cremes e sorvetes, consumidos com o açaí, sucos, geleias, tortas e até cervejas. O tucumã é comido no pão pelos manauaras, sendo o “pão com manteiga” deles. O guaraná da tribo Sateré-Mawé está no cotidiano amazonense. Seja em pó ou xarope, ele é diluído no suco de laranja natural para dar vigor e energia. A mandioca tem papel fundamental na cozinha brasileira, em especial no Norte, onde é aproveitada das mais diversas formas. Do caldo extraído da mandioca brava, o tucupi, é feito o tacacá de final da tarde, ou “tacacá das cinco”, um prato emblemático com camarão seco, goma de mandioca e folhas de jambu. O prato mais emblemático do Pará é o pato no tucupi, notório pela festa do Círio de Nazaré, comemorada no segundo domingo de outubro, reunindo mais de um milhão de pessoas em Belém. O preparo é iniciado com um pato novo, cozido no tucupi com folhas de jambu, chicória e alfavaca. A maniçoba é a feijoada do paraense, elaborada com as folhas da maniva, moídas e pré-cozidas para perderem o ácido cianídrico, charque e carnes salgadas do porco, como toucinho defumado, costela, pés, língua, paio, linguiça de chouriço, sem contar bucho e mocotó de boi. CURIOSIDADE O jambu, ou “agrião-do-Pará”, “agrião-bravo”, “agrião-do-Brasil” ou “agrião-da-amazônia”, é uma planta que causa dormência, pois contém espilantol. A flor potencializa a sensação, causando uma salivação excessiva. É usada para aliviar dor de dente. A Ilha de Marajó é o maior arquipélago fluvial do Brasil, com uma área de 50 mil km², e fica a mais de três horas de barco de Belém, ou 30 minutos de avião. Dominada pelos búfalos, a ilha oferece a hospitalidade dos moradores que, em quantidade, estão em número menor que os animais. Dócil, o búfalo é a COZINHA BRASILEIRA 85 montaria da guarda e o meio de transporte, oferece o leite para queijos cremosos e um doce de leite mais escuro que o de vaca. Além dos laticínios, as frutas da ilha são base para licores, pudins e doces. Os peixes frescos são ingredientes para moquecas e o prato mais emblemático da Ilha de Marajó, o frito do vaqueiro ou frito marajoara, com carne de búfalo, tem procedência semelhante ao farnel do sudeste. Caloca Fernandes, no livro Viagem gastronômica através do Brasil, de 2002, conta que o frito marajoara era preparado com uma carne gorda de boi com farinha de mandioca temperada. Depois de pronto, era acondicionado e levado, sob a sela do cavalo ou entre o lombo do animal e as coxas do boiadeiro, num saco de couro denominado “surrão”. O atrito da cavalgada fazia com que o frito estivesse quente na hora do almoço. ACRE, AMAPÁ, RORAIMA, RONDÔNIA E TOCANTINS O estado do Acre passou por dificuldades no seu desenvolvimento, como a demarcação territorial com a Bolívia e a queda do ciclo da borracha, em 1912, pois era lá que se encontravam o maior número de seringueiras. A culinária local tem inspirações indígenas e portuguesas, ganhando mais tarde a cultura dos imigrantes sírio-libaneses, que introduziram o charutinho com folha de couve no lugar da folha de uva e o quibe com macaxeira ou arroz no lugar do trigo. Os feijões crioulos, produzidos no vale do Juruá, chegam a ser cultivados até nas praias de água doce. A farinha de Cruzeiro do Sul, oriunda do estado, tem o selo de Indicação Geográfica (IG) desde 2017 e, em 2019, se tornou patrimônio cultural do estado. Banhada pelo rio Amazonas, a capital do Amapá, Macapá, é a única capital brasileira atravessada pela linha do Equador. Nos igarapés e ilhas, se encontra o pitu, camarão grande de água doce que chega a 40 centímetros de comprimento. Dentre as receitas, a principal consiste em adicioná-lo a ensopados de peixe com leite de castanha. A torta de pirarucu é típica de Roraima. O estado abrigou migrantes de Mato Grosso, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e da Bahia que estavam atrás das riquezas das jazidas de ouro e diamantes. As pimentas, como murupi, malagueta, caraimé, olho de peixe e de cheiro, são preparadas com pintado, filhote ou tambaqui, tucupi preto e folhas de cariru (major-gomes, beldroega, COZINHA BRASILEIRA 86 maria-gomes, etc.) com biju, sendo ingredientes essenciais, bem como o peixe, na damurida oferecida às visitas nas casas dos habitantes de lá. As pimentas são herança das tribos ianomâmis, uapixanas e macuxis. Esta última faz o caxiri, bebida processada apenas por mulheres e obtida pela fermentação de 24 a 48 horas da mandioca, sendo depois coada e diluída em água. Em Rondônia, a influênciaindígena predomina com o consumo de jacarés, peixes e tartarugas. No Tocantins, cuja formação histórica se deu pelas mãos de indígenas, portugueses, mineiros e paulistas, se utilizam os víveres do cerrado numa culinária semelhante a Goiás. Região Centro-Oeste (clima, geografia e economia): gastronomia e principais produtosoo Figura 3. Mapa do Centro-Oeste. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. Composta pelo Distrito Federal e os estados de Mato Groso, Mato Grosso do Sul e Goiás, é a segunda maior do país e a única sem saída para o mar, embora COZINHA BRASILEIRA 87 tenha fronteira com a Bolívia, o Paraguai e todas as outras regiões do Brasil. A região foi a última a ser explorada, sendo colonizada por aventureiros à procura de ouro e, aos poucos, foi alvo da pecuária extensiva, tornando a profissão de peão comum no lugar. A recente exploração do ecoturismo fez com que as fazendas virassem atrações e os peões, guias turísticos. O principal bioma é o cerrado, mas com proeminência do Pantanal. Patrimônio natural mundial e reserva da biosfera da humanidade pela Unesco, o Pantanal é a maior planície úmida do mundo. Antes era chamado “Mar de Xaraés”, por conta da tribo tupi-guarani que ali caçava e pescava, o Pantanal se divide em duas épocas: a cheia, de novembro a março, e a seca, de abril a setembro. Os tuiuiús são o símbolo da planície, rica em flora, fauna e abrigo de tamanduás-bandeiras, veados-campineiros, tatus, quatis, macacos pregos e bugios, jaguatiricas, tucanos, araras-azuis e do maior felino das Américas, a onça-pintada. O clima predominante é o tropical semiúmido, com frequentes chuvas de verão e invernos amenos e secos. No Planalto Central, o clima é tropical de altitude e equatorial no norte do Mato Grosso e na floresta Amazônica. Cortam a região os rios Xingu, Tocantins-Araguaia, Paraguai, Paraná, Jurema e Parnaíba, o que faz de peixes como pacus, piranhas, matrinxãs, dourados e pintados importantes ingredientes, os quais são preparados inteiros, em postas, recheados, assados, fritos, mojicas, ou em caldinhos e moquecas. Como acompanhamento, é oferecido arroz com pequi, uma fruta do cerrado. A produção agrícola comercializa milho, feijão, café, arroz, trigo, algodão, soja e na pecuária se destaca a criação do gado de corte e de leite, ainda se cria o suíno e o equino, sendo o Brasil um dos maiores exportador de carne de cavalo. Fazem parte da economia a exploração de minério de ferro e a de manganês é uma das maiores do mundo, indústrias de fertilizante, maquinário agrícola, automobilístico, madeireiras, farmacêuticos, etc. Não faltam à mesa dos peões a carne de boi e o tereré, bebida com erva mate, gelada e colocada numa guampa. Com o mate, também se faz o mate queimado, no qual açúcar caramelizado é adicionado à água, coado e servido com chipa ou biscoitos. Grande parcela das interferências culinárias vem dos tropeiros e carreteiros, que faziam churrascos de fogo de chão acompanhado de arroz carreteiro. COZINHA BRASILEIRA 88 Outras influências se deram no caribéu, um ensopado de mandioca com a carne seca. Esta última, com pirão, é um ingrediente do João Sujo, e é base da paçoca de carne-seca e do macarrão de comitiva, em que é frita na banha com macarrão espaguete quebrado, recebendo suco de laranja durante o cozimento. A carne de jacaré é muito apreciada num bolinho frito batizado de camambuco. A queixada, prima do cateto, tem carne vermelha, forte e com baixo teor de gordura. Seus cortes mais valorizados são o pernil, a costela, a bisteca e a paleta. Não obstante, sua criação em cativeiro deve ser autorizada pelo IBAMA, assim como acontece com as capivaras. Sob predomínio dos países fronteiriços, como Bolívia e Paraguai, e da Argentina, a região absorveu pratos como locros, saltenhas, empanadas, chipas e pucheros. Os japoneses, por sua vez, levaram na bagagem o preparo do sobá. GOIÁS E DISTRITO FEDERAL Símbolo de Goiás, até a década de 1980, o empadão goiano era apenas empada goiana. Foi no Centro de Tradições Goianas, criado por Maria Valadão, então primeira-dama do estado, que um restaurante passou a nomear a empada como empadão e o nome ficou. É uma verdadeira refeição, com massa recheada de frango, carne de porco (pernil ou lombo), ovos, queijo minas meia cura, azeitonas, guariroba e molho de tomate. Da massa que sobra, são feitos pastelinhos, primo do pastel de Belém, mas recheados com doce de leite. A empada e os pastelinhos são de massa folhada, o que caracteriza a presença portuguesa. CURIOSIDADE A guariroba, de nome científico Syagrus oleracea, é uma palmeira muito valorizada pelo seu palmito amargo, batizado de coco amargoso, catolé, coco-babã ou pati amargoso. Depois de colocada na água fria, cortada e limpa para que não escureça, é ingrediente principal do arroz de guariroba, prato conhecido em Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais. A tigela de guariroba é um refogado com manteiga, alho, cebola e COZINHA BRASILEIRA 89 tomate, ao qual se dá consistência com farinha de trigo e ovos batidos, para depois ser assado. Outro prato que distingue Goiás é a pamonha e suas variações. Ao contrário das do Sudeste, elas são salgadas, cremosas e recheadas com linguiças, queijos, pequi com frango, linguiça com frango ou requeijão. Todavia, as pamonhas não são só cozidas. As “di à moda”, são fritas ou assadas, podendo ser “di à moda de sal”, que levam o mesmo recheio da pamonha tradicional, ou “di à moda de açúcar”, recheadas com queijo com creme de leite e coco ralado. Quando assadas, se aproveita a mesma receita da cozida, deixando de levar óleo na massa e não sendo coadas caso fritas, embora seja possível fritar as pamonhas assadas do dia anterior. As ventrechas são as costelas do pacu, temperadas com sal e limão, empanadas e fritas por imersão. A carne-seca é utilizada na sopa pantaneira, engrossada com farinha de mandioca, recebendo colorau, para dar cor, e macarrão cabelinho de anjo. O mané pelado é um bolo de mandioca ralada com queijo, minas ou coalho e canastra, que leva erva-doce e leite de coco misturado com o de vaca. O nome vem de uma história em que um agricultor colhia suas mandiocas pelado, seja por superstição ou pura vaidade. É servido em festas juninas em Goiás e Minas Gerais. A pastela é uma pamonha de mandioca ralada, gordura, queijo ralado, açúcar e canela, assados na folha de bananeira, a versão goiana do hî-hî do Mato Grosso do Sul. A gastronomia de Goiás, pela proximidade e o bioma do cerrado, se assemelha em muitos aspectos à de Minas. Nos dois estados e no Vale do Paraíba, em São Paulo, se encontra um tubérculo em extinção, o mangarito, cujo formato irregular lembra um pequeno inhame, de sabor meio amendoado, que se transforma em purês, cremes, sopas, bolinhos ou salteados na manteiga. Seu cozimento se assemelha ao nhoque. Conforme fica cozido, sobe à superfície da água e lá cozinha por mais alguns minutos. Ao ser apertado, sua casca sai com certa facilidade e suas folhas lembram uma taioba, sendo comestíveis depois de bem cozidas. Com o arroz, se faz a galinhada e o arroz de suã, com a porção inferior do lombo de porco temperada, frita e cozida com arroz, fazendo parte da herança dos tropeiros, sendo encontrado no interior de São Paulo e sul de Minas Gerais. O COZINHA BRASILEIRA 90 arroz de pequi, ao receber guariroba e açafrão da terra, se converte no arroz do cerrado, prato tradicional do domingo de páscoa goiano. Usando sobras da geladeira, o “arroz de puta pobre” é tradicional de Goiás e tem uma versão mais requintada, com coxa e sobrecoxa de frango, toucinho defumado, azeitona, palmito, costelinha de porco defumada, carne de sol, tomates e ervilhas frescas. Este prato de nome pejorativo é mencionado por Caloca Fernandes em seu livro como um “prato requintado para figurar nas mesas de ocasiões felizes”, além de ser citado como uma receita popular em que o arroz éprotagonista no livro de Saldanha, que lembra que, em consequência da pouca idade e da população constituída por estrangeiros e migrantes de outras regiões, Brasília não tem uma identidade definida. MATO GROSSO Bebida típica mato-grossense, a canjinjin é um licor energético com cachaça, mel, cravo-da-índia, canela, erva-doce, raízes, gengibre e outros ingredientes, que possui o selo de IG. O aaru, provindo na tribo dos nhambiquaras da região central do Mato Grosso, é um bolo com o moqueado de tatu socado no pilão e misturado com a massa de mandioca. Vindo dos rios, o pintado vai na mojica, ensopado de peixe com mandioca, temperos e colorau no próprio pirão, acompanhado de arroz empapado e sem sal. No Mato Grosso do Sul, é chamado de peixada pantaneira. A caça do jacaré é proibida, mas a criação em cativeiro é permitida pelo IBAMA. O corte da exótica carne mais popular é a cauda. Com a carne de jacaré, se elaboram moquecas e ensopados, podendo ser grelhada, empanada e frita. Na receita a seguir, está a ficha técnica da mojica, uma das possibilidades culinárias disponíveis. O IBAMA também controla a criação de javali e capivara, outras carnes exóticas na mesa do mato-grossense. A capivara tem cinco vezes menos gordura que o porco e o boi, devendo ser abatida com um ano de idade para ser melhor degustada e marinada por 24 horas antes. O nome vem do tupi “kapi’wara”, em que “kapi” é capim e “wara” é comedor. Sua carne é aproveitada frita, cozida em ensopados e assada. Já o javali é a mais saborosa das carnes exóticas, sendo 85% menos gordurosa que a carne de boi e COZINHA BRASILEIRA 91 tendo muito pouco colesterol. O javali veio para o Brasil via Argentina e Uruguai em 1950. Do seu cruzamento com o porco doméstico, surgiu o javaporco, raça que se reproduz e engorda mais rápido, o que torna bem provável que a maioria dos “javalis” no Brasil sejam, na realidade, javaporcos. Mojica de jacaré 1 quilo de jacaré 1 unidade de suco de limão Quantidade suficiente de sal e pimenta Quantidade suficiente azeite de oliva 3 dentes de alho 1 unidade de cebola cortada em cubos 1 unidade de pimenta-de- cheiro 1 unidade de pimenta-dedo- de-moça ½ unidade de pimentão verde em cubos ½ de pimentão vermelho em cubos ½ de pimentão amarelo em cubos 2 unidade de tomate vermelho concassé 1 colher de chá de urucum 500 gramas de mandioca cortada em cubos 2 litros de caldo de peixe 5 colheres de sopa de cebolinha picada 5 colheres de sopa de salsinha picada // Modo de preparo: 1 Tempere o jacaré com sal, a pimenta-do-reino e o suco de limão. Reserve; 2 Numa panela grande, aqueça o azeite e coloque o alho e a cebola; 3 Adicione as pimentas, os pimentões, o tomate e o urucum. Refogue bem; 4 Junte a mandioca, acrescente o caldo de peixe e cozinhe por cerca de 15 minutos, ou até a mandioca começar a desmanchar; 5 Acrescente os cubos de jacaré, tampe a panela e cozinhe por mais 10 minutos; 6 Acerte o sal e finalize com o cheiro verde; 7 Sirva com arroz branco. Uma versão local do caruru leva carne moída, quiabo, abóbora, pimentão verde e cheiro verde. De inspirações paraguaias, o bori-bori é um cozido de frango que acompanha bolinhos de fubá, arroz branco e queijo caipira. O quebra-torto é o café da manhã pantaneiro, inclusive no Mato Grosso do Sul. COZINHA BRASILEIRA 92 Nas fazendas, o café é por volta das 4 ou 5 horas da madrugada. Em contrapartida, os hotéis seguem com horários mais comuns, entre as 8 e 10 horas da manhã. São proporcionados muitos alimentos que compõem o almoço de muita gente, como farofa, biscoitos doces, bolo de fubá, bolo de mandioca, picadinho de miúdos, mandioca cozida, ovos fritos, carne com banana verde, bacon, peixe frito, jacuba, linguiças, furrundu, sopa paraguaia, macarrão de comitiva, canjica, sucos, mate queimado e arroz carreteiro acompanhado de ovos fritos e farofa. MATO GROSSO DO SUL O influxo do Paraguai trouxe a típica sopa paraguaia que, apesar do nome, é um bolo salgado de milho com fubá, cebola e queijo, comido no café da manhã, bem como a chipa, espécie de pão de queijo em formato de ferradura, muito semelhante no sabor ao ponto de confundir muita gente. A diferença é que ela leva um pouco mais de queijo e o polvilho não é escaldado, enquanto a chipa pode ser assada ou frita por imersão em óleo, como na receita abaixo. Chipa frita 500 gramas de queijo Minas meia cura ralado 1 unidade de ovo 30 gramas de manteiga Quantidade suficiente de sal 400 - 500 gramas de polvilho doce para dar o ponto Quantidade suficiente de óleo para fritar // Modo de preparo: Misture o queijo minas, o ovo, a manteiga e o sal; Acrescente o polvilho doce aos poucos até chegar no ponto de enrolar; Modele as chipas em formato de ferradura ou rosca; Frite em óleo quente à 180 ºC, até dourarem; Retire com uma escumadeira e seque o excesso de óleo em papel absorvente. O furrundu é um doce do estado, com mamão verde ralado com rapadura e condimentado com gengibre ou cravo e canela. Do mamão verde, se faz COZINHA BRASILEIRA 93 compota, com o mamão cortado em fitas e enrolado de maneira em que se formem tubinhos verdes com a casca mais escura na ponta. Além do mamão, são utilizados a abóbora, o coco e o leite. Um dos peixes que habitam os rios sul mato-grossenses é a temida piranha. A piranha é um peixe carnívoro, de escamas brilhantes e dentes afiados, que chega a medir até cinquenta centímetros e pesar três quilos. Apesar da fama, os pantaneiros garantem que elas só atacam em águas mais calmas, como lagoas, poças ou água parada. Com ela, se faz um caldo reconhecido pelo sabor e pelas propriedades afrodisíacas. À beira dos rios, são preparadas moqueadas sobre galhos de angico, que fornecem um aroma que serve como tempero para piraputangas e pacus. A linguiça de Maracaju, com carne bovina e temperada com alho, pimentas e suco de laranja azeda, obteve o selo de IG em 2016, o que permite a apenas 12 membros da Associação dos Produtores da Tradicional Linguiça de Maracaju (APTRALMAR) comercializarem a linguiça com o selo. Fernandes, em seu livro, relata que mesmo a linguiça tradicional, da Serra de Maracaju, não é comercializada com este nome por conta da patente em que foi registrada o nome da linguiça. Nas latinhas de sardinha, são feitos bolinhos de arroz, com farinha de arroz em remolho por 24 horas, que depois é seca ao sol, recebe açúcar, coco ralado, erva-doce e mandioca ralada e cozida. O caburé é um bolinho assado de mandioca ralada com queijo ralado que lembra um pão de queijo mais rústico, e o biscoito do céu, uma espécie de sequilho com leite de coco e polvilho. A culinária terena tem pratos típicos dos índios, como o hî-hî, uma pamonha de mandioca mansa enrolada na folha de bananeira, com peixe assado, aves e outras carnes, puro ou com mel de abelhas nativas, o poréu, sopa com polvilho doce, e o hó, peixe assado com pimenta combari. Região Sul (clima, geografia e economia): gastronomia e principais produtos COZINHA BRASILEIRA 94 Figura 4. Mapa do Sul. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. Formada pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a região Sul foi colonizada por imigrantes que mantiveram muito da cultura de seus países, como alemães, holandeses, espanhóis, poloneses, italianos, austríacos, ucranianos, árabes e japoneses. Por ser uma área quase toda temperada, com geadas e até neve, o clima é subtropical em grande parte da região. A única exceção é o norte do Paraná, onde predomina o clima tropical. As temperaturas mais frias ajudaram na adequação às terras brasileiras, transformando o Sul em referência na fabricação de vinhos, espumantes e cervejas, sendo a Oktoberfest de Blumenau (SC) a maior celebração da cultura alemãfora da Alemanha. O pinhão faz a vez das festas juninas e é estrela de pratos como paçoca, entrevero de pinhão, farofas e sapecada. O bioma dos pampas ocupa o extremo sul do Brasil, mais da metade do estado do Rio Grande do Sul e é um ótimo local para a criação do gado bovino, com sua vegetação baixa e rasteira, formando grandes campos e fazendo do churrasco a maior especialidade de lá. COZINHA BRASILEIRA 95 Sua origem vem dos indígenas da costa americana e os cortes mais tradicionais são o matambre e a costela de ripa. A economia é movida pela agropecuária com o cultivo de soja, trigo, mandioca, tabaco, algodão, cana de açúcar, laranja, uva, café, erva mate, milho, arroz, cebola e maçã, sem falar nas criações de suínos, aves, peixes e gado bovino para corte e leite, e nas atividades de extrativismo vegetal, para a fabricação de madeira, papel e celulose, e mineral, de caulim, argila, carvão mineral e petróleo. A fabricação de roupas e calçados são uma característica forte, bem como o turismo, que atrai pessoas para as Cataratas do Iguaçu, Gramado e Canela. PARANÁ Curitiba, capital do estado, é considerada uma cidade modelo. Entre seus colonizadores estão os italianos, que se estabeleceram no bairro de Santa Felicidade e popularizaram o frango caipira com polenta, radicchio e gengibirra, refrigerante com gengibre de a mesma receita desde 1930. São típicos o leitão desossado recheado, o porco no rolete de Toledo, o carneiro no buraco de Campo Mourão, o carneiro ao molho de vinho e o barreado, composto por carnes que exigem um cozimento mais lento, como músculo ou paleta, e associado às festas do entrudo, carnaval e fandango, em que o alimento era pensado para acontecer no dia seguinte, dando forças para continuar os festejos. Dos tropeiros, foi herdado o feijão tropeiro e a quirera, quirela ou canjiquinha, cozida com costela de porco e linguiça. Os índios deixaram o legado da mandioca e o consumo do pinhão. ASSISTA O barreado nasceu em duas cidades litorâneas do Paraná: Morretes e Antonina. O nome vem da panela de barro, vedada com uma mistura de farinha de mandioca e água que, dependendo da localidade e das matérias primas disponíveis, varia de cinzas a farinha de trigo ou argila. COZINHA BRASILEIRA 96 O barreado é a vedação que fecha a panela, como uma espécie de panela de pressão, que vai ao fogo lento de 8 a 12 horas. A contribuição dos alemães é notada no uso de batata, embutidos, como linguiças e salsichões, picles de legumes, carnes defumadas, chucrute de repolho fermentado, e em pratos como o einsbein, o famoso joelho de porco, o gemüse, com porco defumado, purê de batata e couve, o kassler, chuleta do porco defumada acompanhada de chucrute, purê de maçã e batata cozida, e sobremesas como o stolen, bolo com frutas secas e oleaginosas e rum, e o strudel, doce de massa folhada que leva maçã no recheio. Os poloneses chegaram, em sua maioria, no século XIX e propagaram o pierogi, espécie de pastel cozido ou frito que lembra um ravioli recheado com batatas cozidas bem temperadas e cebolas carameladas, carne moída, ricota ou chucrute. Na mesma época, vieram os ucranianos, que aproveitam a beterraba para fazer o borscht, um tipo de sopa fria. No começo do século XX, japoneses se estabeleceram em Antonina e os árabes transmitiram o costume de comer carneiro. SANTA CATARINA Graças ao litoral, o estado de Santa Catarina aproveita muitos peixes, mas o que se sobressai é a tainha, preparada de diversas formas. Receita de herança açoriana, a tainha escalada é elaborada com o peixe sem as vísceras e a cabeça seca ao sol com sal grosso por cinco dias, passando as noites protegido em local seco. Após a secagem, o sal é retirado e o peixe é frito em chapa quente ou na brasa, acompanhado de pirão d’água ou pirão de nylon. Outro prato típico é a tainha na telha, inspirada no sável do rio Tejo. Limpo pelas guelras, recheado e assado entre duas telhas, a versão catarinense se vale de apenas uma telha. A tainha, depois de aberta para a retirada das vísceras, é recheada com camarões e temperos, sendo acompanhada de batatas assadas com cebola e tomate. Vindo da Europa e comum em Itajaí, a bottarga é feita com ovas de tainha curadas no sal e secas em estufas, ficando numa textura para serem raladas ou cortadas bem fininhas. COZINHA BRASILEIRA 97 Na capital, Florianópolis, as ostras têm destaque pela qualidade de padrão internacional. A Fenaostra, uma festa anual dedicada ao molusco, também oferece mexilhões e várias maneiras de preparos com camarão: frito, empanado, à paulista (com alho), no bafo e, em alguns lugares, finalizada com caldo de camarões com pirão. Vale ressaltar que os responsáveis por esses artigos de excelente qualidade são de pequeno porte, bem como os que, seguindo receitas francesas, fabricam queijos como o gruyére, reblochon, abbaye de citeaux, comté, saint nectaire, munter, camembert e outros. Os alemães influenciaram com os alimentos do schlachtplatte: salsichões vermelhos e brancos, morcilha, chucrute, joelho e bisteca de porco, bem como o marreco e a cerveja, estrela da Oktoberfest de Blumenau, que traz pratos típicos e hábitos culturais germânicos. A carne seca de ovelha é típica do Vale do Itajaí e a rota do marreco, em que a ave assada é recheada com repolho roxo e acompanhada de purê de batatas e chucrute. A cuca é um pão doce que parece muito um bolo, mas com fermento biológico. O nome em alemão, streuselkuchen, quer dizer “bolo de flocos”, aludindo à farofa doce na cobertura. A princípio, somente o pão com a farofa era ofertado em dias comemorativos como Páscoa e Natal. Hoje, porém, seus recheios e a farofa são múltiplos. Os austríacos trouxeram o knodel, uma espécie de rabanada salgada feita com um bolinho de pão amanhecido triturado e molhado no leite com ovos e linguiça, que pode ser frito ou cozido. Os húngaros, por sua vez, difundiram o goulash e o apfelstrudel, enquanto os italianos conservaram alguns preparos dos camponeses como a fortaia, na qual se agrega queijo colonial com linguiça à omelete. Em São Joaquim desde 1970, os imigrantes japoneses se tornaram um dos maiores fornecedores de maçã da América Latina, manufaturadas em sucos, sidras e calvados, destilado típico da Normandia (França). Os pomeranos suscitaram a fabricação de kochkäse, queijo cozido por pequenos agricultores, e também da linguiça Blumenau, nascida em Pomerode e fabricada até hoje como um dos principais itens da gastronomia alemã do Vale do Itajaí. COZINHA BRASILEIRA 98 Na cidade de Criciúma, é preparada a galinha caipira ensopada com polenta no fio, cujo nome se dá pelo fato da polenta ser colocada sob uma tábua e cortada com um fio depois que esfria. Os italianos disseminaram a massa, com tortei recheados de abóbora, capelettis in brodo artesanais, saladas de radicchio, vinhos e espumantes. Já em Chapecó, o porco light, raça com mais carne que o porco comum, adquire preparações típicas como o leitão light original Chapecó, recheado light e o light à pizza. RIO GRANDE DO SUL O churrasco, símbolo do estado como o chimarrão, é devorado em meio a uma roda. Sua origem, de acordo com Fernandes, vem dos índios e é um hábito adotado após a descoberta do fogo. O boi chegou ao Brasil em 1682, na mesma época que os cavalos. Até então, apenas o couro, chifres e ossos eram vistos como proveitosos. Ao contrário da atualidade, a carne era o item menos valorizado do boi e, por isso, era distribuída aos peões. O aproveitamento dos bovinos incentivou a criação e o gado bovino dos pampas da campanha meridional do Rio Grande do Sul ganhou o selo de IG. O churrasco fogo de chão, disposto nas valas com os espetos fincados na diagonal sob o calor das brasas, é célebre e apreciado, embora demande espaço, como ilustra a Figura 5. Nas casas sulistas, as churrasqueiras ficam na sala, com um sistema de exaustão queimpede a fumaça se espalhar pelo ambiente. Figura 5. Churrasco gaúcho. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. COZINHA BRASILEIRA 99 O churrasco permeia o Uruguai e a Argentina, países que fazem divisa com o Rio Grande do Sul e que compõem as terras dos pampas. As carnes são temperadas apenas com sal grosso, colocadas no espeto e assadas por horas até atingir a consistência e o ponto de cocção desejados. Os cortes mais conhecidos são a costela bovina ou chuleta, a paleta e o matambre, recheado com linguiça, bacon e cebola, sem falar no tanguari, a aorta do boi cozida com temperos. Acompanhando as carnes, estão sempre o vinagrete, o arroz carreteiro, a farinha de mandioca e o feijão campeiro. Aos finais de semana, vão para a churrasqueira os cortes mais nobres ou os que cabem no bolso, como picanha, filé mignon, chuleta, maminha, contrafilé, fraldinha ou vazio, linguiça, galeto e carneiro. O arroz de carreteiro, do espanhol carretero que significa “condutor de carro de bois ou carroça”, foi inspirado nos peões que andavam pelas estradas gaúchas e os pampas carregando o que fosse preciso. O charque, alimento que não perecia nos percursos, cozido junto com arroz, era preparado em paragens que agrupavam os peões. A receita varia conforme o local, mas, em geral, leva alho e cebola refogados, adicionados do charque dessalgado, arroz sem lavar, salsinha picada e água para o cozimento. Na década de 1960, alguns restaurantes, com o intuito de atender caminhoneiros e visitantes que passavam pela estrada e precisavam fazer as refeições de maneira rápida, assavam e distribuíam cortes de carnes diferentes pelas mesas. Surgia, assim, o sistema de rodízio ou “espeto corrido”, que consiste num serviço de saladas e acompanhamentos, além de carnes, em que o cliente se serve à vontade por um preço fixo. O sucesso dos rodízios foi tamanho que é possível encontrar rodízios de pizza, comida japonesa e até de comida mexicana. Adotado em todo Brasil, ele ganhou o mundo e hoje está presente na China, nos Estados Unidos, no Japão e na Europa. COZINHA BRASILEIRA 100 Figura 6. Mate e Chimarrão. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/03/2020. A Figura 6 mostra a bebida símbolo do gaúcho, o chimarrão, herança indígena que remete a um ritual de partilha, sem hierarquias nem classes sociais. Segundo Fernandes, o chimarrão é mais um nome que deriva do espanhol, dado que o Rio Grande do Sul foi colonizado do Paraguai para a costa litorânea brasileira. A palavra vem de cimaron, que significa “bárbaro” ou “bruto”, pelo amargor do mate, ou “clandestino”, por ter sido proibido no Paraguai pelos espanhóis. A erva era batizada pelos índios guaranis de caa-í – bebida de mato, de folha, e pelos incas, que a designavam como matti. A bebida é popular em todo o Sul, não se restringindo ao Brasil, mas a países como Uruguai, Argentina e Paraguai. Há três qualidades de mate, dependendo do gosto e do processo de moagem: puro, somente com as folhas e pouco ou nenhum talo, com tudo triturado, ou pura folha, o barbacuá, feito das folhas com talos triturados e que resulta num sabor mais suave e amargo, ou o tereré, com as folhas pouco trituradas e bebido com água gelada, como no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul. Para o chimarrão, é necessário cuia, bomba e água quente. É comum ver nas ruas do Rio Grande do Sul pessoas com uma cuia na mão e uma garrafa térmica com água quente na outra. A cuia é feita de uma fruta verde chamada porongo. Parente de chuchu, abobrinha e abóbora, quando madura, seu nome muda para caxi, sendo consumido sem semente e sem casca nas saladas e sopas. O preparo é cauteloso, pois o mate é colocado seguindo a lateral do porongo. A bomba, de materiais como prata com o bico de ouro, mas disponível em inox, bambu ou alpaca, fica entre o mate seco e a água colocada na outra metade da COZINHA BRASILEIRA 101 cuia. Quem estiver na vez, bebe toda água que está no recipiente, passando para o próximo, que enche novamente e bebe até o final. O chimarrão jamais é adoçado, pois o doce não melhora o amargor da erva. Quem preferir um sabor mais adocicado, pode mascar um pouco de rapadura ou puxa-puxa antes de sorver a bebida, ou optar pelo tereré com limão ou saborizado com frutas. Com uma mesa farta com doces, bolo de milho, geleias de ameixa, caqui, maçã, biscoitos, pães, pinhão torrado, sucos, queijos artesanais, embutidos, tortas, apfelstrudel, cucas, chocolate quentes, chás e chimarrão são referências de café da manhã nas regiões do Brasil com temperaturas mais frias e popular nas fazendas adeptas do agroturismo. A Serra Gaúcha, nomeadamente o Vale dos Vinhedos, é famosa pelos vinhos e espumantes, desenvolvido pelos italianos e cujo início se deu com o cultivo de cabernet sauvignon e riesling. Os imigrantes trouxeram massas, como o capeletti in brodo ou agnolini na sopa, a polenta frita, galeto na brasa ou al primo canto, este último substituindo os passarinhos na receita da Itália. O galeto deve ter cerca de 25 dias de vida e pesar por volta de 500 gramas. No preparo, eles são marinados em vinhas d’alhos e acompanhados de espaguete ou talharim ao sugo e salada de radicchio. Em Pelotas, a herança dos portugueses aparece nos doces como o pastel de santa clara, papos-de-anjo e toucinhos do céu, que leva toucinho no nome, mas se trata de um bolo. O arroz, no Sul, é ingrediente para o arroz-de-leite, como é apelidado o arroz doce, e para o arroz com origone, um pêssego vendido seco e prensado, que é hidratado com uma hora de antecedência e cozido na água adoçada com caramelo. A receita também é preparada com pêssegos frescos. Uma verdadeira iguaria da gastronomia e artigo de luxo nas refeições das classes abastadas, a trufa é um cogumelo subterrâneo que cresce nas raízes de algumas árvores específicas. A trufa brasileira, batizada pelo chef Paulo Machado de sapucay, o “último grito” em tupi, foi descoberta pelo pesquisador doutor Marcelo Sulzbacher, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul numa fazenda de nogueiras pecã. COZINHA BRASILEIRA 102 Apresentada à gastronomia em 2019 no congresso Mesa Tendências, com a participação do autor em parceria com a Associação Nacional dos Produtores de Cogumelos (ANPC), sua origem vem das mudas de nogueiras vindas dos Estados Unidos plantadas na região. Suas características organolépticas são sutis quando comparadas às trufas europeias, mas ela já se tornou querida dos grandes chefs brasileiros. Dizem que o melhor prato para servir a trufa é um ovo frito, mas vai muito bem com gemas curadas, massas ou pratos que levem manteiga. nessa unidade. Vamos lá?! SINTETIZANDO Nesta unidade, foi possível avaliar a miscigenação da culinária brasileira nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sul. As etnias formadoras da população brasileira, todas com fortes heranças que contribuíram para a formação da gastronomia local, é composta de indígenas, portugueses, africanos e imigrantes italianos, alemães, japoneses, poloneses, ucranianos, libaneses, sírios e outros que continuam chegando. Através de fichas técnicas relativas a preparações típicas, com ingredientes regionais que formam a culinária brasileira de maneira tão maravilhosa e diversificada, se aproximando e diferindo em alguns aspectos, se pôde analisar de forma rasa o terroir de cada região, os biomas, o clima, a fauna e a flora que fazem a biodiversidade rica da nossa gastronomia. A cada dia que passa, movimentos que apoiam e valorizam a cultura e a gastronomia local vem crescendo e expandindo. A cozinha brasileira é uma das mais ricas do mundo e tal riqueza é pouco apreciada por seu povo. Todos os dias, as pessoas passam ao lado de uma PANC e desconhecem o seu valor nutricional e gastronômico, tomam cafés de má qualidade. Muitas vezes, as pessoas viajam para fora do país para conhecer a cultura de outra nação, mesmo ignorando a do próprio país. Portanto, cabeà área de alimentação mudar este cenário e trazer mais informação para a população e experiências que alimentem não só o corpo físico, mas a mente. COZINHA BRASILEIRA 103 Agora é a hora de sintetizar tudo o que aprendemos nessa unidade. Vamos lá?! SINTETIZANDO Nesta unidade, foi possível avaliar a miscigenação da culinária brasileira nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sul. As etnias formadoras da população brasileira, todas com fortes heranças que contribuíram para a formação da gastronomia local, é composta de indígenas, portugueses, africanos e imigrantes italianos, alemães, japoneses, poloneses, ucranianos, libaneses, sírios e outros que continuam chegando. Através de fichas técnicas relativas a preparações típicas, com ingredientes regionais que formam a culinária brasileira de maneira tão maravilhosa e diversificada, se aproximando e diferindo em alguns aspectos, se pôde analisar de forma rasa o terroir de cada região, os biomas, o clima, a fauna e a flora que fazem a biodiversidade rica da nossa gastronomia. A cada dia que passa, movimentos que apoiam e valorizam a cultura e a gastronomia local vem crescendo e expandindo. A cozinha brasileira é uma das mais ricas do mundo e tal riqueza é pouco apreciada por seu povo. Todos os dias, as pessoas passam ao lado de uma PANC e desconhecem o seu valor nutricional e gastronômico, tomam cafés de má qualidade. Muitas vezes, as pessoas viajam para fora do país para conhecer a cultura de outra nação, mesmo ignorando a do próprio país. Portanto, cabe à área de alimentação mudar este cenário e trazer mais informação para a população e experiências que alimentem não só o corpo físico, mas a mente.