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Sociologia
Prof. Everaldo da Silva
Prof. Vilmar Urbaneski
2017
Copyright © UNIASSELVI 2017
Elaboração:
Prof. Everaldo da Silva
Prof. Vilmar Urbaneski
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
301 
S586s Silva, Everaldo da
 Sociologia / Everaldo da Silva; Vilmar Urbaneski: UNIASSELVI, 2017.
 
 240 p. : il.
 
 ISBN 978-85-515-0074-3
 
 1.Sociologia e Antropologia.
 I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. 
Impresso por:
III
apreSentação
No afã de se atualizar na sua missão de ensinar, o Grupo UNIASSELVI 
busca todas as possibilidades didáticas de maneira criativa, incitando 
professores e acadêmicos a perseguir o melhor preparo profissional. Todo 
profissional contemporâneo procura a solidez de conhecimentos aliada à 
atualização constante e terá de apresentar um background cultural que vá 
colocá-lo a cavaleiro das dificuldades inerentes à acirrada competição.
Aproveitando a abertura que a legislação educacional propiciou, de que 
25% da carga semestral pode ser cumprida na modalidade semipresencial, as 
congregações de cursos do Grupo UNIASSELVI utilizaram essa prerrogativa 
para construir consistentemente um autêntico ciclo básico ao longo de todo o 
desenvolver-se da tábua curricular. 
Disciplinas como Metodologia do Trabalho Acadêmico, Informática 
Básica, Sociologia, Filosofia, Estatística e outras são ofertadas dentro dessa 
modalidade que, em termos de tecnologias de ensino e de procedimentos 
didáticos, apresentarão significativos ganhos aos acadêmicos e professores, 
uma vez que as atividades previstas garantem um aprendizado consistente e 
maduro.
O presente material, impresso em forma de opúsculos, dividindo o 
conteúdo da Sociologia em unidades, é exemplar em sua forma de apresentar 
a matéria, primando pela clareza dos objetivos, elegância na forma de 
apresentação e erudição na medida justa, evitando pernosticismos na 
apresentação dos autores clássicos. Além do mais, possibilita um tratamento 
diferenciado para os vários cursos, sem fugir, entretanto, da unidade 
fundamental da disciplina.
Os autores desse texto básico de Sociologia conseguiram, dessa 
forma, limpá-lo de exageros doutrinais e ideológicos, dando-lhe a firmeza 
dos bons princípios de tratamento científico, livrando os acadêmicos do mal-
estar decorrente de opções político-partidárias forçadas pelo autoritarismo 
magisterial, forma perversa de subtrair a liberdade de consciência e de 
pensamento. 
Professor Sálvio Alexandre Müller (In memoriam)
IV
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfi m, tanto para 
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades 
em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o 
material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato 
mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação 
no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir 
a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenho de Estudantes – ENADE. 
Bons estudos!
UNI
Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos 
materiais ofertados a você e dinamizar ainda 
mais os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza 
materiais que possuem o código QR Code, que 
é um código que permite que você acesse um 
conteúdo interativo relacionado ao tema que 
você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, 
acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor 
de QR Code. Depois, é só aproveitar mais essa 
facilidade para aprimorar seus estudos!
UNI
V
VI
VII
Sumário
UNIDADE 1 – SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA ................................................................. 1
TÓPICO 1 – RAÍZES HISTÓRICAS DA SOCIOLOGIA ............................................................... 3
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3
2 ANTECEDENTES DA SOCIOLOGIA ............................................................................................ 4
3 SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA ................................................................................................. 5
 3.1 MENTALIDADE MEDIEVAL E MENTALIDADE RENASCENTISTA: DIFERENÇAS ...... 7
4 CONCEPÇÕES DE SOCIOLOGIA .................................................................................................. 12
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 15
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 16
TÓPICO 2 – BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA ................ 19
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 19
2 AUGUSTE COMTE: O PENSAMENTO POSITIVISTA E AS RELAÇÕES SOCIAIS .......... 19
 2.1 ORDEM E PROGRESSO ................................................................................................................ 21
3 ÉMILE DURKHEIM ............................................................................................................................ 24
 3.1 FATO SOCIAL ................................................................................................................................. 25
4 KARL MARX ........................................................................................................................................ 28
5 MAX WEBER ........................................................................................................................................ 33
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 34
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 40
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 41
TÓPICO 3 – LIÇÕES IMPORTANTES DA SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA ................... 45
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 45
2 PIERRE BOURDIEU ............................................................................................................................ 45
3 ZYGMUNT BAUMANN .................................................................................................................... 50
LEITURA COMPLEMENTAR ..............................................................................................................54
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 57
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 58
TÓPICO 4 – PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA ................................................... 61
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 61
2 UM AUTOR PARA ESTUDAR, NÃO PARA LER: GILBERTO FREYRE ................................. 61
3 PENSADOR MARXISTA: FLORESTAN FERNANDES .............................................................. 65
4 O INTELECTUAL INFLUENTE: FERNANDO HENRIQUE CARDOSO ................................ 69
5 SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA E O HOMEM CORDIAL ................................................ 77
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 79
RESUMO DO TÓPICO 4 ....................................................................................................................... 81
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 82
UNIDADE 2 – PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS ........................... 83
TÓPICO 1 – MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE EM DISCUSSÃO ............................ 85
VIII
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 85
2 PÓS-MODERNIDADE ...................................................................................................................... 85
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 91
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 95
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 96
TÓPICO 2 – ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES ........................................... 97
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 97
2 ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE METÁFORAS ........................................................... 98
 2.1 ORGANIZAÇÕES VISTAS COMO MÁQUINAS ...................................................................... 99
 2.1.1 Paradigma mecanicista na formação humana ................................................................... 103
 2.2 AS ORGANIZAÇÕES VISTAS COMO ORGANISMOS ........................................................... 107
 2.3 AS ORGANIZAÇÕES VISTAS COMO CÉREBRO ................................................................... 111
 2.4 AS ORGANIZAÇÕES VISTAS COMO CULTURAS ................................................................. 113
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 116
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 117
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 118
TÓPICO 3 – HOMEM CONTEMPORÂNEO: CONSCIENTE DA QUALIDADE DE VIDA . 121
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 121
2 EM DEFESA DA ABORDAGEM SUBSTANTIVA NAS INSTITUIÇÕES .............................. 122
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 128
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 132
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 133
TÓPICO 4 – TRABALHO E EDUCAÇÃO ......................................................................................... 135
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 135
2 TRABALHO NA HISTÓRIA: BREVES CONSIDERAÇÕES ...................................................... 135
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 138
3 EDUCAÇÃO: PREOCUPAÇÃO PARA COM O TRABALHO ................................................... 143
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 148
RESUMO DO TÓPICO 4 ....................................................................................................................... 153
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 154
UNIDADE 3 – TEMAS DIVERSOS EM DISCUSSÃO SOB O OLHAR DA SOCIOLOGIA .. 155
TÓPICO 1 – DIVERSIDADE CULTURAL ........................................................................................ 157
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 157
2 ASPECTOS CULTURAIS EM DISCUSSÃO .................................................................................. 157
3 CONSIDERAÇÕES SOBRE ETNOCENTRISMO, RELATIVISMO CULTURAL E 
 MULTICULTURALISMO .................................................................................................................. 163
4 TERRORISMO ..................................................................................................................................... 167
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 168
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 170
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 171
TÓPICO 2 – DESAFIOS E PERSPECTIVAS NA VIDA URBANA ............................................... 173
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 173
2 VIDA URBANA: DIVERSIDADE, VIOLÊNCIA, HABITAÇÃO E TRÂNSITO .................... 173
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 183
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 187
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 188
IX
TÓPICO 3 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO ............................... 189
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 189
2 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO ................................................................................................... 189
3 SOCIEDADE E CONHECIMENTO ................................................................................................. 195
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 196
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 199
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 200
TÓPICO 4 – CONSUMO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ........................................ 201
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 201
2 O SENTIDO DO CONSUMO ........................................................................................................... 202
3 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ........................................................................................ 205
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 209
RESUMO DO TÓPICO 4 ....................................................................................................................... 213
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 214
TÓPICO 5 – SOCIEDADE BRASILEIRA: MULTIFACES .............................................................. 215
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 215
2 ORIGEM DA SOCIEDADE BRASILEIRA ..................................................................................... 216
 2.1 ÍNDIOS ............................................................................................................................................. 216
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 219
 2.2 PORTUGUESES .............................................................................................................................. 219
 2.3 AFRICANOS .................................................................................................................................... 219
 2.4 IMIGRANTES .................................................................................................................................. 221
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 222
3 RESPEITANDO A DIVERSIDADE ÉTNICA NO BRASIL ......................................................... 222
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 225
RESUMO DO TÓPICO 5 ....................................................................................................................... 228
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 229
REFERÊNCIAS ........................................................................................................................................ 231
ANOTAÇÕES .......................................................................................................................................... 237
X
1
UNIDADE 1
SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade, você será capaz de compreender:
• os antecedentes históricos da Sociologia; 
• a natureza e as origens da Sociologia;
• o estudo da Sociologia e a sua importância;
• o pensamento sociológico clássico;
• a importância do papel desempenhado por Comte, Marx, Durkheim e We-
ber;
• o que são fatos sociais e a sua força coercitiva;
• como ocorrem as ações sociais e os seus diferentes tipos;
• os dois tipos de solidariedade cuja coesão procura garantir;
• os conceitos centrais do pensamento de Pierre Bourdieu mobilizados para 
descrever e explicar as lógicas de funcionamento da sociedade e as práti-
cas dos agentes.
Esta unidade está dividida em quatro tópicos. Em cada um deles você 
encontrará atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados.
TÓPICO 1 – RAÍZES HISTÓRICAS DA SOCIOLOGIA
TÓPICO 2 – BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA 
 SOCIOLOGIA
TÓPICO 3 – LIÇÕES IMPORTANTES DA SOCIOLOGIA 
 CONTEMPORÂNEA 
TÓPICO 4 – PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
2
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
RAÍZES HISTÓRICAS DA SOCIOLOGIA
1 INTRODUÇÃO
É preciso dar prioridade à questão social porque, caso contrário, vamos 
ter a moeda mais forte do mundo juntamente com a maior miséria 
do mundo. Nós não somos palhaços, nós somos cidadãos e temos de 
ser respeitados nos nossos direitos, assim como nos compromissos 
de campanha que são estabelecidos a cada quatro anos. É preciso 
aprender a ser mais indignado, a cobrar mais; não podemos ficar tão 
passivos e tão pacíficos diante de tanta miséria.
Sociólogo Betinho
No seu dia a dia, você pode visualizar que cada pessoa emite seu parecer 
sobre a sociedade. Uns podem dizer que a mesma é contraditória no sentido de 
existir riquezas nas mãos de poucos e a maioria estar na miséria. Outros podem 
alegar que a sociedade está em crise, ou ainda que na sociedade há ausência de 
valores, falta de respeito, desconfiança, corrupção, dentre outros problemas. 
Outros ainda podem mencionar que a sociedade tem um futuro promissor devido 
aos avanços tecnológicos e científicos, em virtude dos investimentos em médio 
e longo prazo, dentre outros pareceres. E é claro, você pode ter o seu parecer, 
seja ele sofisticado, usando arcabouços de diversas teorias de diversas áreas do 
conhecimento para compreender a sociedade, ou simplesmente ter um parecer 
breve, sem maiores aprofundamentos e fundamentos sobre o funcionamento, as 
anomalias e futuro da sociedade e os possíveis impactos na sua área de atuação.
Salienta-se que no decorrer da história da humanidade, você pode 
encontrar várias teorias sobre a sociedade ou até mesmo propostas para melhorar 
o seu funcionamento ou explicar as suas anomalias.
 
Entretanto, na história, várias foram as maneiras de organização das 
sociedades, como, por exemplo, o caso da Grécia Antiga, do Império Romano, dos 
persas e dos chineses, ou seja, você pode observar que cada sociedade se estruturou 
a seu modo – com valores próprios, organização política, social, econômica e 
cultural –, e esta estrutura pode ou não ter subsistido ao tempo. É possível dizer 
que as sociedades antigas podem ter influenciado direta ou indiretamente outras 
sociedades, ou até mesmo posteriores a elas, seja na forma de pensar e agir ou no 
seu legado cultural.
Além disso, vale destacar que na história diversas teorias foram elaboradas 
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
4
para entender a sociedade, que dependem de época para época, de sociedade para 
sociedade e de pensador para pensador. Ou ainda de área para área de estudo. E 
uma das áreas de estudo que têm se dedicado ao entendimento do funcionamento 
da sociedade, dentre outras finalidades, é a Sociologia. 
Assim, neste tópico, você estudará o contexto do surgimento da Sociologia 
e os antecedentes históricos, algumas concepções sobre a Sociologia e suas 
finalidades.
2 ANTECEDENTES DA SOCIOLOGIA
A Sociologia é uma área de estudo que surgiu no início da modernidade 
com o intuito de compreender a sociedade de um modo geral ou até mesmo 
nas suas peculiaridades (é claro que cada sociólogo daquele período tinha o seu 
entendimento da sociedade). Outrossim, você pode perguntar em que contexto 
surge a Sociologia (também conhecida para o período como a Nova Ciência), o 
que estava acontecendo antes do seu surgimento e ainda por que ela surgiu. 
Assim, vale salientar queo período anterior à modernidade é conhecido 
como Idade Média e, historicamente, está situada entre o século V e o século XV 
(você pode encontrar o termo pré-modernidade para esse período). A Sociologia, 
nos termos em que conhecemos hoje, não estava presente. Neste período conhecido, 
via de regra, como Idade Média, a religião teve um papel relevante na vida das 
pessoas de um modo geral, bem como influenciava na política, educação, cultura e 
na organização da sociedade e, até mesmo, em seu entendimento.
A visão do mundo predominante no período medieval era a teocêntrica. 
Do grego (théos: Deus), o teocentrismo medieval significava que Deus era o mais 
importante na vida das pessoas, ou seja, Deus era a medida de todas as coisas. 
E, neste sentido, até mesmo os liames da sociedade tinham explicação em Deus. 
Desta forma, a sociedade medieval, composta pelo clero, nobreza e servos, era 
tida como vontade de Deus e assim se postulava que, se a sociedade teria de ser 
diferente, Deus a teria feito de modo diferente. Deste modo, a visão que se tinha no 
período medieval era a de que o mundo se constituía daquela maneira em virtude 
da vontade divina. E se fosse de outra maneira, Deus o teria feito de outro modo e 
com outra estrutura de funcionamento. 
Neste contexto, alguns homens dedicavam-se a servir a Deus, louvá-lo e 
pregar as palavras de Cristo no Mundo. Outros teriam a função de defender a 
cristandade com armas em mãos, bem como defender os fracos. E, por fim, os 
que tinham a incumbência de trabalhar para que não faltasse pão, para si e para 
os que defendiam e rezavam. E neste sentido, o lugar que cada pessoa ocupava 
na estrutura social medieval era entendido como determinado por Deus. Pode-
se dizer que no período medieval acreditava-se que a sociedade era imutável e, 
para isso, buscavam-se justificativas das mais variadas, tendo-as como ponto de 
sustentação à vontade de Deus.
TÓPICO 1 | RAÍZES HISTÓRICAS DA SOCIOLOGIA
5
Você deve ter percebido que o funcionamento da sociedade, no período 
medieval, era balizado pela vontade de Deus. Entretanto, as novas ideias que 
começam a se fazer presentes no final da Idade Média, de certa forma, contribuíram 
para o surgimento da Sociologia.
3 SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA
Nos séculos XV e XVI, período da entrada da modernidade, o homem 
toma consciência das suas capacidades racionais para desvendar os segredos da 
natureza e as emprega na busca da solução dos seus problemas de entendimento 
do mundo. Neste sentido, a cultura teocêntrica vigente até então perde espaço 
para a cultura antropocêntrica (antropo: homem: medida de todas as coisas). Pode-
se dizer que uma nova forma de ver, agir e pensar aparece lentamente entre os 
homens daquele período e que, de certa maneira, contribuiu para impulsionar 
diversas transformações que estavam se fazendo presentes no final da Idade Média.
De modo geral, pode-se dizer que Deus deixa de ser o centro do mundo 
medieval e lentamente o homem torna-se o centro. O homem é valorizado como 
um ser individual e que busca descortinar as suas potencialidades humanas. 
Assim, o homem moderno deseja superar os obstáculos e desenvolver-se enquanto 
ser humano, bem como o mundo de que ele faz parte. De acordo com Andery, 
Micheleto e Sério (1996, p. 175):
[...] na nova visão de mundo, que veio a substituir a medieval, o homem, 
no seu sentido mais genérico, era a preocupação central. As relações 
Deus-homem, que eram enfatizadas pelo teocentrismo medieval, foram 
substituídas pelas relações homem e a natureza. Isso significava, com 
relação ao conhecimento, a valorização da capacidade de o homem 
conhecer e transformar a realidade. 
 
Neste período ocorreram vários eventos que estavam em consonância com 
tal mentalidade. Brevemente destacaremos os mais importantes, a saber: 
Renascimento comercial: no sistema feudal da Idade Média a economia 
era basicamente agrária e autossuficiente. E a riqueza de uma pessoa era 
medida pela quantidade de terras. Contudo, a partir da segunda metade da 
Idade Média, o comércio começou a ser reativado. Dentre o fatores estavam 
as Cruzadas e a produção do excedente. Além disso, outros fatores estiveram 
inerentes ao renascimento comercial, como: ascensão do capitalismo, incremento 
do sistema bancário, o mercantilismo e o surgimento de uma nova classe social, 
a burguesia. 
Renascimento urbano: na Idade Média a vida era predominantemente 
no campo, as pessoas viviam em castelos para obter uma segurança maior, 
ou ainda em mosteiros. Contudo, com o renascimento comercial, surgem os 
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
6
burgos (pequenas vilas), onde as pessoas se encontravam para comercializar e 
trocar ideias.
As grandes navegações: a descoberta da América (1494) por Cristóvão 
Colombo, a chegada às Índias (1498), por Vasco da Gama, e o descobrimento do 
Brasil (1500), por Pedro Álvares Cabral, contribuíram para ampliar o mundo 
conhecido e eliminar a ideia de que o mundo era plano, de que havia monstros 
nos mares, entre outras ideias. O homem se torna capaz de atravessar os mares 
e conquistar outros continentes e colonizá-los: África e América (Novo Mundo).
As invenções: a pólvora era usada pelos chineses para a fabricação de fogos 
de artifício. Os árabes a introduziram na Europa. Revolucionou a arte da guerra. 
A bússola, que os chineses conheciam, os italianos aperfeiçoaram. O papel foi 
introduzido pelos árabes na Europa, a imprensa do alemão João Guttenberg, sendo 
que o primeiro livro impresso foi a Bíblia, em 1445. 
Renascimento científico: os descobrimentos, o racionalismo e a 
preocupação com a natureza estimularam as pesquisas científicas. Pela 
Escola de Pádua, sob proteção de Veneza, passaram intelectuais como Pietro 
Pomponazzi, Galileu Galilei, Copérnico. Pomponazzi pregou a supremacia da 
razão, negou a Criação, a imortalidade da alma e os milagres: eram escritos 
avançados para a época e que questionavam a estrutura e a forma de as pessoas 
pensarem e entenderem o mundo.
Reforma religiosa ou Reforma protestante foi, grosso modo, um 
movimento com características religiosas, políticas e econômicas. Iniciou com 
Lutero na Alemanha, no século XVI – (vale destacar que outros pensadores 
já estavam criticando a Igreja anteriormente). Esta reforma provocou a 
separação de uma parte da comunidade católica da Europa, dando origem ao 
protestantismo. Entre os objetivos dos reformadores: restabelecer a fé cristã na 
sua simplicidade e pureza primitivas, bem como rejeitar a tradição ensinada 
pela Igreja porque a julgavam contrária à palavra de Deus. 
Renascimento cultural que foi um movimento intelectual, artístico 
e literário ocorrido na Europa, especialmente na Itália, nos séculos XV e XVI, 
o qual teve entre as suas características: inspiração nas obras da antiguidade 
greco-romana, a exaltação da vida, o sensualismo e o gosto artístico.
FONTE: Adaptado de Urbaneski (2008)
TÓPICO 1 | RAÍZES HISTÓRICAS DA SOCIOLOGIA
7
Para que você, acadêmico(a), se envolva ainda mais com o tema apresentado, 
sugiro que seja feita uma pesquisa do período estudado (Idade Média), no intuito 
de constatar o que discutiam ou escreviam os que se dedicavam à sua área de estudo.
 O que estava acontecendo?
 Quem eram os pensadores?
 O que estava sendo escrito?
 Que livros foram escritos e tratavam sobre o quê?
Acadêmico(a), você percebeu que no início da Idade Moderna aconteceu 
uma série de fatos e eventos que possibilitaram a mudança do desenho da sociedade 
da época e, de certa maneira, impactou sobre a forma de os pensadores teorizarem 
sobre o mundo ou mentalizarem propostas de organização social. 
Neste sentido, até mesmo o entendimento sobre a sociedade começa a 
mudar e, de certa forma, a Sociologia aparece como uma das áreas de investigação 
que tem como objeto de estudo a sociedade, principalmente para entender em 
princípio a nova ordem social, econômica e política que emergia naquele período, 
tendo como base os postulados científicosque estavam ganhando força. 
Então, foram inúmeras as mudanças neste período e, por isso, o 
entendimento do contexto é essencial para que você entenda o surgimento da 
Sociologia e por que os pensadores daquele período pensavam daquela forma. 
Inclusive, para o seu entendimento, a seguir apresentamos um texto das ideias 
predominantes no período medieval e renascentista.
3.1 MENTALIDADE MEDIEVAL E MENTALIDADE RENASCENTISTA: 
DIFERENÇAS
Leia atentamente e verifique as diferenças de mentalidade (SCHIMIT apud 
URBANESKI, 2008): a medieval e a renascentista (esta última foi um dos suportes 
para a mentalidade moderna em geral). Por isso, de forma didática, você terá duas 
formas diferentes de pensar. 
UNI
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
8
A visão predominante na mentalidade medieval era o Teocentrismo: 
“Deus é o centro de tudo”. As obras de arte e livros mais importantes tratam 
de temas religiosos e o prédio de maior destaque de uma cidade era a Igreja. Na 
mentalidade renascentista predominava o Antropocentrismo: o ser humano no 
centro das atenções e valoriza-se a vida terrena. 
 Na mentalidade medieval, a verdade deveria ser encontrada nas 
tradições da sociedade medieval, no que estava escrito na Bíblia, na autoridade 
da Igreja e nos escritos de pensadores como Santo Agostinho e São Tomás de 
Aquino. Na mentalidade renascentista, a verdade sobre a natureza deveria ser 
obtida por meio de experiências e de observação guiadas pelo uso da razão 
(do raciocínio). Ou seja, não se aceita mais só o que a tradição, Igreja e Bíblia 
expõem, mas o homem renascentista procura outras fontes de conhecimento, 
por exemplo, através da ciência. 
Na mentalidade medieval, o ser humano era visto com certo desprezo, 
pois este era um pecador. E desta forma, o homem deveria aceitar o sofrimento, 
pois o homem merece sofrer porque é pecador. Já na mentalidade moderna, 
o homem é a mais perfeita das criaturas (feito à sua imagem e semelhança), 
capaz de fazer coisas maravilhosas: máquinas, prédios, viagens de descobertas, 
pinturas, estudo sobre a natureza e mudar o seu próprio destino, mudar de 
classe social, por exemplo, e não aceitar as coisas como vontade divina.
Na mentalidade medieval, a vida terrena, bem como os bens materiais 
e o corpo tinham pouco importância. O que era precioso era a salvação da 
alma; fazer parte dos eleitos que habitariam o céu (Paraíso). Já a mentalidade 
renascentista continua cristã, porém considera que a vida material é muito 
importante e, além disso, valoriza em muito o corpo. 
Na mentalidade medieval, tudo o que acontece na natureza deve ser 
explicado pela vontade de Deus (a ordem social, castigos de Deus, pestes, 
terremotos). E devemos conhecer o mundo para admirar a obra de Deus e 
louvá-lo pela sua criação. Já para a mentalidade renascentista, os fenômenos 
da natureza devem ser explicados pelo homem que, com o uso da razão e da 
ciência, consegue conhecer a natureza. 
Na mentalidade medieval as pessoas deveriam se conformar com o 
mundo tal como ele é, porque foi Deus que o quis assim. Se o mundo deveria 
ser diferente, Deus tê-lo-ia feito. E a única grande mudança possível seria o 
apocalipse. Entretanto, na mentalidade renascentista, o homem pode e deve ser 
o criador, aventureiro, sonhador e dominador da natureza.
Na mentalidade medieval a natureza é fonte de pecado. Para a 
mentalidade renascentista, o homem faz parte da natureza e deve conhecê-la 
para conhecer a si próprio. 
TÓPICO 1 | RAÍZES HISTÓRICAS DA SOCIOLOGIA
9
Frente ao exposto anteriormente e ao cenário vigente no final da Idade 
Média, Andery, Micheleto e Sério (1996, p. 177) afirmam que:
 
[...] aliada ao rompimento do mundo medieval, rompeu-se também a 
confiança nos velhos caminhos para a produção do conhecimento: a 
fé, a contemplação não eram mais consideradas vias satisfatórias para 
se chegar à verdade. Um novo caminho, um novo método, precisa ser 
encontrado, que permitisse superar as incertezas [...].
 Neste sentido, o homem busca na razão e na ciência caminhos que possam 
assegurar mais confiança nos seus conhecimentos do que até então adotados, 
ou seja, de certa forma, abandonam-se as explicações alicerçadas em Deus para 
buscar explicações que tenham a ciência como guia. E essa forma de entendimento 
sobre a sociedade tendo como aporte Deus começa a ser deixada de lado e, neste 
sentido, a Sociologia que surge neste contexto busca amparar-se nos conhecimentos 
científicos para as suas investigações.
Assim, a Sociologia surge como consequência da necessidade de as 
pessoas compreenderem os problemas sociais que estavam aparecendo. Dentre 
os principais, podemos destacar o processo de industrialização iniciado no século 
XVIII. Ainda, tendo seu início na Inglaterra, a Revolução Industrial integralizou 
um conjunto de “Revoluções Burguesas” do século XVIII, responsáveis pela crise 
do Antigo Regime, primeiro através da passagem do capitalismo comercial para o 
industrial. Outros dois movimentos foram a Independência dos Estados Unidos e a 
Revolução Francesa. Esta última sofreu forte influência dos princípios iluministas.
O Iluminismo foi um movimento intelectual que tinha como objetivo entender e 
organizar o mundo a partir da razão, contrariando os princípios religiosos.
IMPORTANT
E
E, finalmente, na mentalidade medieval a razão (capacidade humana 
de pensar) deve estar subordinada à fé. Na mentalidade renascentista, a fé 
deve prevalecer no sentido religioso, mas a razão deve ter prioridade sobre a fé 
quando o assunto é o estudo da natureza.
FONTE: Schimit (apud URBANESKI, 2008, p. 50-51).
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
10
A Sociologia nasceu num ambiente de profundas mudanças sociais. Assim, 
a ciência que estuda a sociedade foi construída paulatinamente desde o século XVI 
com as correntes de pensamento que estabeleceram os alicerces da modernidade 
europeia (o racionalismo, o empirismo e o iluminismo). 
Neste contexto, ainda temos o avanço do capitalismo como modo de 
produção dominante na Europa Ocidental, o qual foi desestruturando com 
velocidade e profundidade variadas, tanto os fundamentos da vida material 
como as crenças e os princípios morais, religiosos, jurídicos e filosóficos em que se 
sustentava o antigo sistema. A dinâmica capitalista e as novas forças sociais por ele 
engendradas (causadas) provocaram o enfraquecimento ou o desaparecimento, às 
vezes rapidamente, dos estamentos (camadas sociais) tradicionais e das instituições 
feudais: servidão, propriedade comunal, organizações corporativas artesanais e 
comerciais.
A partir da segunda metade do século XVIII, com a primeira Revolução 
Industrial e o surgimento do proletariado, cresceram as pressões para uma maior 
participação política e a urbanização intensificou-se, recriando uma paisagem 
industrial muito distinta da que antes existia.
Os céus dos grandes centros industriais começaram a cobrir-se da fumaça 
despejada pelas chaminés de fábricas que se multiplicavam em ritmo acelerado, 
aproveitando a considerável oferta de mão de obra proporcionada pela gradual 
deterioração da propriedade comunal. A capitalização e a modernização da 
agricultura provocaram o êxodo de milhares de famílias que buscavam trabalho. 
As condições de trabalho eram as mais precárias possíveis (crianças, 
mulheres e homens trabalhando 16 horas por dia e recebendo salários miseráveis). 
O ambiente era insalubre, a alimentação precária, a falta de aquecimento 
apropriado e o excesso de indisciplina tornavam os trabalhadores expostos a 
frequentes acidentes.
A industrialização modificou a percepção de tempo. Os povos possuidores 
de menor poderio tecnológico ficavam presos aos costumes, aos fenômenos 
naturais, como as estações do ano, as marés, a noite e o dia e o clima. A Revolução 
Industrial obrigou a um registro mais contínuo e preciso do tempo na vida social. 
O empresário passou a comprar horas de trabalho e a exigir seu cumprimento. O 
avanço tecnológico como:
● a criaçãoda lançadeira (1733);
● o tear mecânico (1738);
● a máquina a vapor (1768);
● a locomotiva a vapor (1831);
● o barco a vapor (1821); e
● as guerras impulsionaram a criatividade e os mercados consequentemente 
(matérias-primas e produtos industriais).
TÓPICO 1 | RAÍZES HISTÓRICAS DA SOCIOLOGIA
11
 Portanto, a Revolução Industrial foi um conjunto de transformações 
econômicas e sociais que acompanharam o surgimento desses novos avanços 
tecnológicos. A Revolução Industrial mudou de forma dramática a face do mundo 
social, incluindo muitos hábitos que temos atualmente. A maior parte da comida 
que é ingerida pelas famílias hoje é fruto dos meios industriais. (GIDDENS, 2004). 
Não obstante, as transformações sociais ocorridas inspiraram reações 
profundamente conservadoras. Os precursores da Sociologia consideraram que 
o caos e a ausência de moralidade e solidariedade que as sociedades enfrentavam 
eram frutos do enfraquecimento das antigas instituições protetoras (a Igreja e as 
associações de ofícios) que haviam garantido estabilidade e a coesão social. 
As disciplinas existentes naquela época eram insuficientes na explicação 
dos novos fenômenos sociais que estavam acontecendo e muito menos explicações 
ancoradas em Deus, como já estudadas, não eram suficientes para a nova dinâmica 
que se fazia presente. Dessa forma, abriu-se espaço para a atuação da Nova 
Ciência (Sociologia), pois, até o século XV, as ciências eram estabelecidas como 
parte integral dos grandes sistemas filosóficos.
 A partir do século XVI, com a Reforma Protestante, a autoridade da Igreja 
passou a ser questionada e o fiel passou a ter responsabilidade, passando a ser, por 
meio da sua consciência individual, o principal nexo (conexão) com a divindade. 
O destino dos homens passou a ser dependente de suas ações. A Matemática, 
a Química, a Física, a Biologia e outras ciências desenvolveram-se e os estudos 
teológicos da Igreja passaram a ser questionados. 
A mudança de comportamento social levou os pensadores a desenvolver 
uma nova concepção dos mundos natural e social. Os pioneiros da Sociologia 
buscaram compreender as razões e as consequências da emergência das mudanças 
sociais ocorridas durante as duas revoluções, tentando responder a diversas 
questões principalmente às que envolviam a sociedade. Desta forma, a Sociologia 
passa a ser vista como uma luz que orienta sábios e ignorantes em direção à 
verdade, tendo como guia os postulados do conhecimento científico. 
Comte primeiramente colocou o nome desta disciplina de Física Social. 
Mais tarde, em 1836, alterou o nome para Sociologia, nome que se origina do latim 
socius e do grego logos, significando o estudo do social.
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
12
Seriam os deuses sociólogos?
Como na mitologia grega, pródiga em apresentar os deuses com estatuto excepcional e 
heterogêneo a um só tempo, se confrontados com os mortais, na ciência os clássicos têm 
privilégio semelhante no conjunto dos pensadores. A supremacia dos deuses ultrapassa a 
condição humana. Os deuses são vistos como sendo outros, porque, além de serem maiores, 
poderosos e mais sábios que os homens, eles expressam essa diferença de uma forma 
particular, como revelam os versos de Homero, na Ilíada (canto VII, v. 143-144): “Nenhum 
mortal poderia penetrar o pensamento de Zeus, por mais orgulhoso que fosse, Zeus venceria 
mil vezes.” (SISSA; DETIENNE, 1991, p. 43).
Os pensadores de primeira hora da sociologia são considerados clássicos porque o seu 
pensamento ainda tem o poder explicativo, sua vitalidade interpretativa alcança a era 
contemporânea, embora apresente limitações. Assim como os deuses gregos, excepcionais 
e heterogêneos, os clássicos não explicam tudo, mas fazem avançar o pensamento; afinal, 
ciência e realidade social são fenômenos conjugados, históricos e em constante mutação.
FONTE: ARAÚJO, Silvia M; BRIDI, Maria A; MOTIM, Benilde L. Sociologia, um olhar crítico. São 
Paulo: Contexto, 2009. p. 14.
4 CONCEPÇÕES DE SOCIOLOGIA
Caro(a) acadêmico(a), você visualizou que antes do surgimento da 
Sociologia, no período medieval, por exemplo, o entendimento e o funcionamento 
da sociedade eram tidos como vontade de Deus. Vejamos um exemplo para 
mera ilustração da maneira de se pensar. Por exemplo: na obra CIDADE DE 
DEUS, Santo Agostinho mencionava que esta cidade seria edificada pelos eleitos, 
ou seja, aqueles que conseguirem a salvação. (Lembre: a salvação era uma das 
preocupações centrais da Idade Média). Agostinho expõe que a ideia da existência 
de outra realidade, além da existente aqui, seria a realidade celestial que denomina 
de Cidade de Deus. (URBANESKI, 2008). 
Para Santo Agostinho, o homem deve desvencilhar-se da cidade terrena, 
das coisas mundanas e carnais e deve voltar-se para as coisas espirituais e assim, 
aproximar-se de Deus. Cristo virá no fim dos tempos para julgar os vivos e os 
mortos e os bons cristãos que morrerão no amor a Deus. Estes gozarão de felicidade 
eterna na celestial Cidade de Deus. Outrossim, aqueles que morrerem sem batismo, 
impenitentes, heréticos serão amaldiçoados e irão para o inferno. (URBANESKI, 
2008).
 
Entretanto, com as diversas transformações e mudanças de mentalidade 
dos homens no início da modernidade, a Sociologia surge com intuito de, grosso 
modo, entender o funcionamento da sociedade naquele período. Ou seja, não busca 
mais explicações de ordem teológica para o entendimento da sociedade, mas, sim, 
usando a capacidade da razão humana e os postulados científicos. Assim, cada 
pensador da sociologia clássica – Comte, Marx, Durkheim, Weber – apresenta o 
NOTA
TÓPICO 1 | RAÍZES HISTÓRICAS DA SOCIOLOGIA
13
seu parecer sobre a sociedade, os quais você estudará no próximo tópico. 
Mas você pode se perguntar: o que faz a Sociologia?. Se você se debruçar 
sobre tal temática, muitas versões poderão ser encontradas. Entretanto, aqui, 
apresentamos três versões. 
A sociologia, de modo bem simples, é o estudo sistemático do 
comportamento social e dos grupos humanos. Ela focaliza as relações 
sociais e como essas relações influenciam o comportamento das pessoas 
e como as sociedades, a soma de tais relações se desenvolve e muda. 
(SCHAEFER, 2006, p. 3).
A sociologia é uma tentativa de compreender o ser humano. Concentra-
se em nossa vida social. Tipicamente não enfoca a personalidade do indivíduo 
como a causa do seu comportamento, mas examina a interação social, os padrões 
sociais (por exemplo: papéis, classes, cultura, poder conflito e a socialização 
em processo) [...]. A sociologia começa, portanto, com a ideia de que o homem 
deve ser entendido no contexto da sua vida social e de que somos seres sociais 
influenciados pela interação, pelos padrões sociais e pela socialização [...].
 
Os sociólogos diferem uns dos outros pelo tipo de questões sobre as 
quais se debruçam. Também diferem quanto à área temática ou ao enfoque 
de seu estudo. Há cinco áreas temáticas: as quais são: sociedade, organização 
social, instituições ou sistemas institucionais, interação face a face e problemas 
sociais.
A sociologia poderia ser definida como uma disciplina acadêmica que 
examina o ser humano como um ser social, resultado de interação, socialização 
e padrões sociais. É uma perspectiva que se preocupa com a natureza do ser 
humano, o significado e a base da ordem social e as causas e consequências da 
desigualdade social. Concentra-se na sociedade: organização social, instituições 
sociais, interação social e problemas sociais. 
FONTE: Charon (1999, p. 5-8).
As explicações que o senso comum apresenta a respeito da sociedade 
não têm objetividade que muitos, sem discussão, acreditam que elas 
possuam. Mas se é verdade que a Sociologia, como qualquer outra 
ciência, pode errar nas suas explicações, as teorias desta disciplina são 
demonstravelmente mais confiáveis do que as elaborações intelectuais 
espontâneas de qualquer povo sobre si mesmo, em razão dos cuidados 
de que o sociólogo procurase cercar para formular as suas teorias. 
(VILA NOVA, 2000, p. 26).
 Enfim, você neste tópico visualizou a mentalidade anterior ao surgimento 
da Sociologia, o contexto de seu surgimento e as novas ideias que se fizeram 
presentes em tal período, bem como sua finalidade.
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
14
Para aprofundar seus estudos, você pode, a título de sugestão, investigar outras 
áreas da Sociologia como, por exemplo: a sociologia da moda, política, das organizações, do 
conhecimento, sociologia jurídica, do conhecimento, do trabalho, sociologia urbana e rural, 
dentre outras, e as possíveis contribuições para a sua área de estudo.
DICAS
15
Caro(a) acadêmico(a), neste tópico você viu que:
• A Sociologia estuda os fenômenos sociais, da ação ou influência mútua e da 
organização social.
• Na Idade Média, Deus era o centro. Com o Renascimento, o Homem torna-se o 
centro.
• A Sociologia é muito importante para cada dia de nossas vidas, permitindo 
entendermos as forças externas que influenciam nossas percepções, pensamentos 
e ações.
• A Sociologia é uma área de estudo que surgiu no início da modernidade, com o intuito 
de compreender a sociedade de um modo geral ou até mesmo nas suas peculiaridades.
• A Sociologia surge num período conturbado e marcado por grandes 
transformações na sociedade: a) o surgimento da indústria e da urbanização; b) 
a visibilidade do Iluminismo como ciência; c) a forte mudança social decorrente 
da Revolução Francesa.
• A Sociologia dedica-se a várias temáticas de estudos inerentes à sociedade.
• Não há unanimidade quanto ao que seja sociologia e suas finalidades.
• Existem diversos campos de atuação na Sociologia.
RESUMO DO TÓPICO 1
16
2 Você já deve ter ouvido no seu dia a dia o seguinte diálogo: 
“Você agiu por impulso pessoal ou pressão do grupo?”
“Eu agi por minha conta e risco, não dou importância ao que os outros pensam!”
“Eu agi de acordo com o grupo, dou muita importância ao que os outros 
pensam!”
Desses pequenos textos, aponte quais podem ser objeto de estudo da 
Sociologia e justifique.
3 Apresente um breve parecer sobre a sociedade atual brasileira tendo como 
aporte os postulados do conhecimento científico.
AUTOATIVIDADE
Mentalidade medieval Mentalidade renascentista
5 Estudar como as sociedades funcionavam e continuam funcionando ao longo 
do tempo e de como é a vida humana dos grupos sociais ou da sociedade em 
específico, é uma das funções:
a) ( ) Da Sociologia.
b) ( ) Do Iluminismo.
c) ( ) Do Positivismo.
d) ( ) Do Capitalismo.
6 Analise as afirmações expressas a seguir e classifique-as em V verdadeiras e F 
falsas:
 
( ) A visão predominante na mentalidade medieval é o Teocentrismo (Deus é 
o centro de tudo). 
( ) Na mentalidade medieval, o homem é a mais perfeita das criaturas (feito 
à sua imagem e semelhança) e ainda é capaz de fazer coisas maravilhosas: 
máquinas, prédios, viagens de descobertas, pinturas, estudo sobre a 
1 A partir do estudo do Tópico 1, conceitue Sociologia. 
4 Aponte as principais características da mentalidade medieval e 
renascentista:
17
natureza e mudar o seu próprio destino. 
( ) Na mentalidade medieval, o ser humano era visto com certo desprezo, pois 
este era um pecador. Desta forma, o homem deveria aceitar o sofrimento, 
pois merece sofrer porque é pecador. 
( ) Para a mentalidade medieval, tudo o que acontece na natureza deve ser 
explicado pela vontade de Deus (a ordem social, castigos de Deus, pestes, 
terremotos). Na mentalidade moderna, os fenômenos da natureza devem 
ser explicados pelo homem que, com o uso da razão e da ciência, consegue 
conhecer. E, além disso, o homem pode e deve ser criador, aventureiro, 
sonhador e dominador da natureza. 
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) F – F – V – V.
b) ( ) V – V – F – V. 
c) ( ) F – F – V – F. 
d) ( ) F – F – F – V. 
e) ( ) V – F – V – V.
18
19
TÓPICO 2
BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS 
DA SOCIOLOGIA
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
A preocupação em compreender o comportamento humano e a sociedade 
é um fato recente, surgido no princípio do século XIX. O mundo contemporâneo é 
muito diferente do passado e a missão da Sociologia é ajudar-nos a compreender 
o mundo em que vivemos e nos alertar para aquilo que possa ocorrer no futuro.
Várias pessoas são atraídas pela Sociologia, seja como uma área de 
estudo principal, seja como secundária. Ela é fascinante, provocativa e aplicável, 
principalmente quando a sociedade passa por mudanças drásticas como, por 
exemplo, o processo de industrialização. 
A Sociologia tem importantes consequências práticas. Ela permite 
compreendermos um determinado conjunto de acontecimentos sociais, 
aumentando nossa sensibilidade cultural e possibilitando, principalmente, o 
autoconhecimento. Vejamos, a seguir, os clássicos da Sociologia. Tenha uma boa 
leitura!
2 AUGUSTE COMTE: O PENSAMENTO POSITIVISTA E AS 
RELAÇÕES SOCIAIS
“O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim”.
Auguste Comte
Ainda no século XIX tivemos o surgimento de um novo método científico 
de estudo da sociedade. Na busca de tentar entender as transformações sociais, 
suas consequências para a sociedade e o futuro da nova sociedade que estava 
emergindo, é que, a partir de 1826, Auguste Comte (1798-1857) cria em sua 
residência, o Curso de Filosofia Positiva. Em 1830 publica o curso em seis volumes 
até 1842, dedicando-se no quinto volume do livro à ideia de fundar uma disciplina 
dedicada ao estudo científico da sociedade.
Na busca de fazer com que a Sociologia fosse reconhecida como ciência e 
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
20
para que o homem se desenvolvesse completamente, a sociedade deveria passar 
por Três Estados, nos quais o homem deveria aprender a utlizar sua inteligência 
como fonte de inspiração nas suas atitudes. Dessa forma, foi criada a primeira lei 
natural da humanidade, definida pela física social como a Lei dos Três Estados, 
conforme podemos verificar no texto que segue, extraído do livro de Comte, Curso 
de Filosofia Positiva (1973).
Estudando, assim, o desenvolvimento total da inteligência humana 
em suas diversas esferas de atividade, desde seu primeiro voo mais simples 
até nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei fundamental, a que se 
sujeita por uma necessidade invariável, e que me parece poder ser solidamente 
estabelecida, quer na base de provas racionais fornecidas pelo conhecimento de 
nossa organização, quer na base de verificações históricas resultantes do exame 
atento do passado. Essa lei consiste em que cada uma de nossas concepções 
principais, cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessivamente por três 
estados históricos diferentes:
No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas 
investigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de 
todos os efeitos que o tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, 
apresenta os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de 
agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária 
explica todas as anomalias aparentes do Universo.
No estado metafísico, que no fundo nada mais é do que simples 
modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por 
forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes 
aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas 
próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste, então, em 
determinar para cada um uma entidade correspondente.
Enfim, no estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a 
impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e 
o destino do Universo, a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para 
preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do 
raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis 
de sucessãoe de similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus 
termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabelecida entre os 
diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o progresso 
da ciência tende cada vez mais a diminuir.
[...] Ora, cada um de nós, contemplando sua própria história, não se 
lembra de que foi sucessivamente, no que concerne às noções mais importantes, 
teólogo em sua infância, metafísico em sua juventude e físico em sua virilidade?
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
21
2.1 ORDEM E PROGRESSO
Para Comte, no estado positivo o pensamento humano ganharia coerência 
racional à qual ele estivera sempre destinado. Nesse sentido, o positivismo depois 
de implementado em sua plenitude se tornaria a expressão do poder espiritual da 
sociedade moderna, funcionando como o regulador das relações sociais.
A união do conhecimento positivo passa a ser coletiva em busca da 
fraternidade universal e da convivência em comum. A conexão entre teoria e 
experiência é baseada no conhecimento das ações repetitivas dos fenômenos e 
na antecipação científica. O estágio positivo corresponde à atividade fabril e à 
transformação da natureza em mercadorias. 
Logos após, os trabalhos de Comte se baseiam na construção de uma “religião 
da humanidade”, cuja liturgia é baseada no catolicismo romano, estabelecida em O 
CATECISMO POSITIVISTA (1852). Assim, a doutrina positivista ganha força 
religiosa com credo na ciência.
O positivismo é uma corrente de pensamento que apregoa o predomínio da 
ciência e do método empírico sobre os devaneios metafísicos da religião.
O positivismo causou forte repercussão; traços positivistas são facilmente 
percebidos em diferentes atividades da vida humana, principalmente na sociedade 
ocidental, especialmente aqui no Brasil. 
O pensamento positivista chegou ao Brasil por volta de 1850, e foi trazido 
por brasileiros que estudaram na França; alguns foram até alunos de Comte. A 
partir deste ano, torna-se mais evidente na Escola Militar, depois no Colégio Pedro 
II, na Escola da Marinha, na Escola de Medicina e na Escola Politécnica, no Rio 
de Janeiro. Já o positivismo como forma de religião se destaca no Apostolado 
Positivista, a partir de 1881, criado por Miguel Lemos e Raimundo Teixeira.
IMPORTANT
E
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
22
FONTE: Disponível em: <http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/
ordem_e_ progresso_9.html>. Acesso em: 24 maio 2010.
Durante um bom tempo o positivismo atuou como uma reação filosófica 
contra a doutrina confessional católica, que era, até então, a única no país. Nesta 
luta de ideias, surge em 1876 a fundação da Sociedade Positivista Brasileira no Rio 
de Janeiro. Entretanto, o núcleo central do positivismo foi transferido para Recife, 
por iniciativa de Tobias Barreto, Sílvio Romero e Clóvis Bevilácqua.
A doutrina positivista acabou moldando-se ao país, sendo aceita por um 
grupo reduzido de estudiosos. Teve destaque a atuação doutrinária de Benjamin 
Constant Botelho de Magalhães (1833-1891), professor da Escola Militar e defensor 
do princípio positivista de valorização do ensino para que fosse alcançado um 
estado democrático. Entretanto, se, para Comte, o ensino na Europa deveria se 
destinar às camadas pobres, no Brasil acontece o contrário: os ensinamentos 
positivistas se restringiram aos poucos que estudavam nas escolas militares. 
A filosofia positivista tornou-se fundamental no debate político brasileiro 
no século XIX, porque o regime republicano foi instalado sob sua base teórica. 
Podemos considerar o dia 15 de novembro como o apogeu do pensamento positivista 
no Brasil, devido ao enorme número de adeptos de Comte que assumiram cargos 
importantes no governo de Benjamin Constant.
FIGURA 1 – FACHADA DA IGREJA POSITIVISTA NO RIO DE JANEIRO
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
23
FONTE: Disponível em: <http://maniadehistoria.files.wordpress. 
com/2009/10/bandeira-do-brasil1.jpg>. Acesso em: 24 maio 2010.
FIGURA 2 – BANDEIRA DO BRASIL
Dentre as numerosas influências do positivismo no Brasil podemos 
destacar: o lema Ordem e Progresso da bandeira; a separação da Igreja e do 
Estado; o decreto dos feriados; o estabelecimento do casamento civil e o exercício 
da liberdade religiosa e profissional; o fim do anonimato da imprensa; a revogação 
das medidas anticlericais e a reforma educacional.
A Bandeira do Brasil foi adotada pelo Decreto no 4, de 19 de novembro de 1889. 
Este decreto foi preparado por Benjamin Constant, membro do Governo Provisório. A ideia 
da nova bandeira do Brasil deve-se ao professor Raimundo Teixeira Mendes, presidente do 
Apostolado Positivista do Brasil. Com ele colaboraram o Dr. Miguel Lemos e o professor Manuel 
Pereira Reis, catedrático de astronomia da Escola Politécnica. O desenho foi executado pelo 
pintor Décio Vilares.
É indiscutível a influência do Positivismo na Proclamação da República 
e na formação intelectual dos militares. Também esteve presente na organização 
estatal elaborada por Vargas e no seu projeto burguês de desenvolvimento para o 
país, e na tomada de poder pelos militares em 1964. Além disso, podemos destacar 
que, de forma direta ou indireta, as matizes do Positivismo tiveram influência na 
forma de pensar a educação no Brasil.
NOTA
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
24
O positivismo não compartilha dos princípios da representação eleitoral 
recomendados pela democracia liberal burguesa. Para os positivistas, o direito ao voto é um 
dogma metafísico ou popular.
3 ÉMILE DURKHEIM
Émile Durkheim nasceu em 15 de agosto de 1858, em Epinal, no noroeste 
da França, próximo à fronteira com a Alemanha. Filho de judeus, optou por não 
seguir o caminho do rabinato. Formou-se em Direito e Economia, porém sua obra 
inteira é dedicada à Sociologia. Morreu em 15 de dezembro de 1917, supostamente 
pela tristeza de ter perdido o filho na guerra, no ano anterior. Na segunda metade 
do século XIX, é com Émile Durkheim que a Sociologia realmente passa a existir, 
com objeto, método e objetivos claros e definidos.
FONTE: Disponível em: <http://www.mundociencia.com.br/wp-content/
uploads/2016/07/durkheim_emile.jpg>. Acesso em: 24 maio 2010.
FIGURA 3 – ÉMILE DURKHEIM
Durkheim salienta que a compreensão da sociedade deve ser feita como 
sendo um conjunto de ideias, continuamente alimentadas pelos homens que fazem 
parte dela. Em 1895, escreve as Regras do Método Sociológico, dando caráter 
científico à Sociologia.
NOTA
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
25
Para ele, a sociedade é superior ao indivíduo, afirmando que a explicação 
da vida social é determinada na sociedade, não no indivíduo. Ressalta que uma 
vez criadas pelo homem, as estruturas sociais funcionam de modo isolado dos 
indivíduos, influenciando suas ações. Identificou a sociedade como um fato sui 
generis e irredutível a outros, ou seja, os homens passam, mas a sociedade fica. 
A sociedade age sobre o indivíduo, impondo a ele um conjunto de normas de 
conduta social.
3.1 FATO SOCIAL
Para Durkheim, a Sociologia deve ser um instrumento científico da busca 
de soluções para os desvios da vida social, tendo, portanto, uma finalidade dupla: 
além de explicar os códigos de funcionamento da sociedade, teria como missão 
intervir nesse funcionamento por meio da aplicação de antídotos que pudessem 
mitigar os males da vida social. Em sua compreensão, a sociedade, como qualquer 
outro organismo vivo, passaria por etapas com manifestação de estados normais 
e patológicos. O estado saudável seria o de convivência harmônica da sociedade 
consigo mesma e com as demais sociedades, harmonia essa a ser obtida pelo 
exercício imperativo do consenso social. O estado mórbido ou patológico seria 
caracterizado por fatos que colocassem em risco essa harmonia, os acordos de 
convivência, o consenso e, portanto, a adaptação e a evolução histórica natural da 
sociedade. (FERREIRA, 2001).Pelo fato de a Sociologia ser, nessa concepção, uma espécie de medicina 
social, Durkheim criou o objeto que lhe permitisse explicar os códigos de 
funcionamento da sociedade: os fatos sociais. Em sua definição de fato social, 
Durkheim (1972, p. 11) afirma que é:
[...] toda a maneira de agir, fixa ou não, suscetível de exercer sobre 
o indivíduo uma coerção exterior, que é geral na extensão de uma 
sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente 
das manifestações individuais que possa ter.
Nesta definição podemos destacar que, de acordo com Durkheim, o 
modo como o homem age é sempre condicionado pela sociedade. Dessa forma 
verifica-se que o fato social teria a capacidade de constranger, de vir de fora e de 
ter validade para todos os membros da sociedade. Os fatos sociais possuem três 
características fundamentais: a primeira delas é a coerção social, ou seja, a força 
que os fatos exercem sobre os indivíduos, levando-os a conformarem-se às regras 
da sociedade em que vivem, independentemente de suas vontades e escolhas. Essa 
força se manifesta quando o indivíduo adota um determinado idioma, quando se 
submete a um determinado tipo de formação familiar ou quando está subordinado 
a determinado código de leis. Aqui, a medida da coerção seria estabelecida pelas 
sansões a que os indivíduos estariam sujeitos a partir do momento em que não se 
conformassem com as regras sociais.
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
26
O grau de coerção dos fatos sociais se torna evidente pelas punições a que 
o indivíduo está sujeito, quando se está contra elas e tenta se rebelar. As punições 
podem ser legais ou espontâneas. Legais são as prescritas pela sociedade, sob 
a forma de leis, nas quais se identifica a infração e a penalidade subsequente. 
Espontâneas seriam as que aflorariam como decorrência de uma conduta não 
adaptada à estrutura do grupo ou da sociedade à qual o indivíduo pertence. 
Durkheim (1972, p. 14) exemplifica este último tipo de sanção:
[...] se, ao me vestir, não levo em consideração os usos seguidos em meu 
país e na minha classe o riso que provoco, o afastamento em que os 
outros me conservam, produzem, embora de maneira mais atenuada, 
os mesmos efeitos que uma pena propriamente dita.
A segunda característica dos fatos sociais é que eles existem e atuam sobre 
os indivíduos independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente, 
ou seja, eles são exteriores aos indivíduos. As regras sociais, os costumes, as leis, 
já existem antes do nascimento das pessoas, são a elas impostos por mecanismos 
de coerção social, como a educação. Outro exemplo seriam os sistemas de 
moedas, os instrumentos de crédito, as práticas profissionais, que funcionariam 
independentemente do uso que os indivíduos fizessem delas.
Por fim, a terceira característica apontada por Durkheim é a generalidade. 
É social todo fato que é geral, que se repete em todos os indivíduos ou, pelo menos, 
na maioria deles. Desse modo, os fatos sociais manifestam sua natureza coletiva 
ou um estado comum ao grupo, como as formas de habitação, de comunicação, os 
sentimentos e a moral.
O fenômeno do suicídio, na sociedade industrial do século XIX, foi um fato 
social que despertou a atenção de Durkheim. Ele queria saber por que as taxas 
de suicídio apresentavam padrões tão diferentes, quando se comparavam regiões 
geográficas, religiões, número de filhos, etc. Desenvolveu sua investigação a partir 
da tese de que o suicídio é um fato social e que, portanto, deveria ser explicável 
através de outro fato social. Com o apoio da estatística e do método comparativo, o 
sociólogo francês percebeu que esta variação estava diretamente relacionada com 
o grau de integração. Assim, quanto maior era o grau de integração do indivíduo 
numa comunidade ou grupo familiar, menores eram os índices de suicídio. 
Durkheim concluiu que o fenômeno não possuía uma origem exclusivamente 
psicológica, mas também sociológica, isto é, ele podia ser compreendido a partir 
de outros fatos sociais como a religião, situações econômicas etc.
O sociólogo Émile Durkheim admitia que seu método era “conservador”, 
já que os fatos sociais eram difíceis de serem modificados; mas ele não estava 
imaginando que estes estavam imunes às transformações. Durkheim é visto 
como um “evolucionista”, porque defendia que a sociedade seria cada vez mais 
justa e o indivíduo alcançaria sua “felicidade”, a partir de “um sentimento de 
solidariedade”, que viria conjuntamente com uma “nova ordem moral”.
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
27
Extraído do livro de Delson Ferreira, “Manual de Sociologia” (2001, p. 50-
51), o texto que segue apresenta os dois tipos de solidariedade desenvolvidos por 
Émile Durkheim.
Na concepção durkheimiana, a Sociologia deveria voltar-se também 
para outro objetivo fundamental: a comparação entre as diversas sociedades. 
Para isso, esse autor estabeleceu um novo campo de estudo, morfologia social, 
que consistiria na classificação do que ele chamou de espécies sociais. Em seu 
entendimento, essa atividade só poderia ser realizada partindo de um rigoroso 
controle do processo de observação experimental. Fundamentando-se nesse 
parâmetro, fixou que o percurso de passagem da solidariedade mecânica para 
a solidariedade orgânica seria o motor de transformação histórica de toda e 
qualquer espécie de sociedade.
A seu ver, a divisão do trabalho concebida pela formação da estrutura 
de produção industrial capitalista incentivava e levava ao exercício de uma nova 
forma de solidariedade entre os homens, impelindo-os a uma interdependência 
e não aos conflitos sociais. Ele acreditava que a ciência social poderia, por meio 
de suas investigações, encontrar soluções para os problemas fundamentais de 
sua época ao largo desses conflitos. O primado da especialização, necessária 
ao desempenho das novas funções no mundo do trabalho, estabelecidas pela 
lógica da organização industrial, levaria os indivíduos a essa nova forma de 
solidariedade, conferindo-lhes maior autonomia pessoal e emancipando-os 
da tutela dos antigos costumes vigentes nas formas anteriores de organização 
produtiva. Essa nova interdependência funcional é que os afastaria dos choques 
sociais.
Em sua compreensão, o que ele denominou de solidariedade mecânica 
imperou na história de todas as sociedades anteriores ao advento da Revolução 
Industrial e do capitalismo. Nelas, os códigos de identificação social dos 
indivíduos eram diretos e se davam por meio dos laços familiares, religiosos, 
de tradição e costumes, sendo completamente autônomos em relação ao 
problema da divisão social do trabalho, que não interferiria nos mecanismos 
de constituição da solidariedade. Nesse caso, a consciência coletiva exerceria 
todo o seu poder de coerção sobre os indivíduos, uma vez que aqueles laços os 
envolviam em uma teia de relações próximas que acentuavam o controle social 
direto por parte da comunidade.
A solidariedade orgânica se manifestaria, por sua vez, nas palavras 
de Durkheim, de modo inteiramente diferente da mecânica. Peculiar da 
sociedade capitalista moderna, em função direta da divisão acelerada do 
trabalho, que nessa sociedade exerceria influência decisiva em todos os 
setores da organização social, a solidariedade orgânica levaria os indivíduos 
a se tornarem interdependentes entre si, garantindo a constituição de novas 
formas de unidade social no lugar dos antigos costumes, das tradições ou das 
relações sociais estreitas, que caracterizavam a vida pré-moderna. Os antigos 
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
28
4 KARL MARX
Karl Marx nasceu no dia 5 de maio de 1818, em Trier, província alemã do 
Reno. Economista, filósofo, historiador, sociólogo e socialista, Marx perdeu suas forças 
para viver após a morte de sua mulher, em 1881, e de sua filha mais velha em 1882, 
falecendo em 14 de março de 1883. Na cerimônia de enterro, apenas com a presença 
de amigos e representantes operários de vários países,Engels pronunciou a oração 
fúnebre: “[...] ele foi o mais odiado e mais caluniado de todo seu tempo... Morreu 
amado e venerado por milhões de operários revolucionários, das minas da Sibéria, das 
costas da Califórnia e de todos os pontos da Europa e da América... Seu nome e sua 
obra passarão à posteridade”. Ainda hoje, quem for ao cemitério de Highgate, poderá 
ler na lápide, ou quem sabe até ouvir a palavra de ordem do manifesto: “Operários de 
todos os países, uni-vos!”
Inicialmente, seguiu os passos do pai estudando Direito em Bonn e Berlim, 
onde encontrou sua futura mulher, a aristocrata Jenny von Westphalen. Sua trajetória 
o levou a Colônia, Paris, Bruxelas – onde publicou com Engels o Manifesto Comunista, 
de 1848 – até ser forçado ao exílio em Londres, pelo governo da Prússia, em 1849. Marx 
viveu na capital britânica pelo resto da vida. Em Londres, morou no Soho, depois em 
Kentish Town. Passava os dias devorando obras de economia e filosofia na sala de 
leitura do Museu Britânico, onde escreveu seu trabalho mais influente, O Capital.
O primeiro volume de O Capital foi publicado enquanto ainda vivia, mas 
os demais foram editados por Engels após a morte de seu amigo, em 1883. Marx foi 
enterrado no cemitério de Highgate, norte de Londres. Poucas pessoas estiveram em 
seu funeral, quando Engels previu: “O seu nome e sua obra vão perdurar ao longo do 
tempo”.
laços diretos da consciência coletiva se afrouxariam, conferindo aos indivíduos 
maior autonomia pessoal e cedendo espaço aos mecanismos de controle social 
indiretos, definidos por sistemas e códigos de conduta consagrados na forma 
da lei.
Se, em Comte a Teoria da História pressupunha a passagem contínua das 
sociedades por etapas, ou estágios de desenvolvimento, que iriam do teológico 
ao positivo, findando a marcha histórica da humanidade neste, em Durkheim 
a postura finalista quanto ao devir do processo histórico não muda, apenas 
sofistica-se, uma vez que sua compreensão continuou sendo etapista e fatalista. 
Ou seja, seguiu prescrevendo para as civilizações o percurso único e inevitável 
que as levaria dos estágios inferiores aos superiores de cultura e organização 
social, que findariam, necessariamente, com o advento da sociedade capitalista 
industrial. A visão de História dos positivistas padeceu de seu fascínio pela 
modernidade burguesa, a ponto de admitir que, além dela, restava para o 
homem apenas o aperfeiçoamento da ordem que ela fundou, por meio das 
revoluções liberais.Labem iam dum pesi firterfirtic re.
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
29
Documentos exibidos pelos arquivos nacionais em Kew, em Londres, 
revelaram recentemente detalhes sobre os anos em que Marx viveu na Grã-Bretanha. 
Os documentos revelam que Marx, um dos principais pensadores do mundo, investiu 
4 libras como um dos acionistas fundadores de um jornal da classe operária britânica, 
o The Industrial, que parou de circular em 1883.
Os documentos também mostram por que a polícia impediu que Marx 
conseguisse obter cidadania britânica. Há um relatório da polícia metropolitana 
londrina, de 1874, que rejeita a tentativa de Marx de se naturalizar cidadão britânico. 
“Ele é um notório agitador alemão, o líder da Sociedade Internacional, e defensor 
de princípios comunistas. Este homem não tem sido leal ao rei”, escreve o sargento 
Reinners, justificando a negativa a Marx. Apesar disso, Marx passou em Londres a 
maior parte do final de sua vida.
Embora ele não tenha vivido para ver a aplicação de suas ideias na prática, 
seu trabalho teve grande influência na formação dos regimes comunistas no início do 
século XX.
Karl Marx possuía amplo domínio sobre tudo o que a Ciência Econômica 
tinha realizado antes dele. Contribuiu muito para o campo da economia, sendo um 
dos principais intelectuais que surgiram no século XIX, influenciando o cenário 
político-econômico do século XX, criando a ideologia socialista em contraposição ao 
capitalismo.
Seus trabalhos mais importantes se encontram anteriores a Durkheim, mas, ao 
contrário deste sociólogo, Marx era discreto quanto à ideia de que a Sociologia pudesse 
englobar leis gerais e externas como aquelas das ciências naturais. Para Marx cada 
época histórica é construída em torno de um tipo específico de produção econômica, 
organização de trabalho e controle de propriedade, criando sua própria dinâmica.
FONTE: Disponível em: <http://infed.org/mobi/wp-content/
uploads/2013/01/karl-marx-wikimedia-commons.jpg>. Acesso em: 
24 maio 2010.
FIGURA 4 – KARL MARX
A partir de Marx a Sociologia assume uma postura mais crítica, buscando 
desmascarar e criar um novo sistema que supere o sistema capitalista. Além de sua 
vigorosa crítica ao sistema capitalista, Marx foi um modelo de intelectual que soube 
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
30
muito bem unir a teoria com a prática. A maioria de suas obras aborda os assuntos 
mais variados possíveis, desde filosofia, política, história, religião e economia, 
por isso tentar entender todo o seu pensamento é uma tarefa muito complexa. 
Podemos afirmar que a contribuição teórica de Marx consiste, em síntese, na criação 
de paradigmas que até o momento não haviam sido discutidos pelo pensamento 
sociológico. O historiador inglês Eric Hobsbawm (apud TREVISAN, 1997, p. 2) 
analisa os benefícios e os limites da contribuição marxista:
[...] o marxismo tem contribuído de algum modo para entender a 
História, mas, realmente, não o suficiente. Por exemplo, o marxismo 
vulgar diz que todas as coisas ocorrem em virtude de fatores econômicos 
e obviamente isso não é uma explicação adequada. Insisto que o 
importante é distinguir o marxismo vulgar de uma interpretação mais 
sofisticada do sentido da obra de Marx ou em verdade de Karl Marx por 
ele mesmo. Acho que o marxismo pode fazer isso. Hoje podemos falar 
sobre isso, como estamos fazendo, porque hoje nós podemos distinguir 
aqueles trechos das análises marxistas que pareciam ser válidos, mas 
claramente não o são. Por exemplo, se você realmente lê o Manifesto 
Comunista de 1848, ficará surpreso com o fato de que o mundo, hoje, 
é muito mais parecido com aquele que Marx predisse em 1848. A ideia 
do poder capitalista dominando o mundo inteiro, como também uma 
sociedade burguesa destruindo todos os velhos valores tradicionais, 
parece ser muito mais válida hoje do que quando Marx morreu. Por 
outro lado, por exemplo, a previsão de que a classe trabalhadora ficaria 
cada vez mais pauperizada não é verdade. Isso não quer dizer que a 
classe trabalhadora não tenha suficientes boas razões para protestos. 
Uma coisa interessante que faz a análise marxista bastante moderna é a 
análise das tendências de longa duração.
Karl Marx não falou somente da exploração econômica do trabalhador; 
não se tratava apenas de uma crítica da distribuição de renda no capitalismo, mas 
criticava a escravização do homem (trabalhador e capitalista) por coisas feitas por 
ele mesmo. 
Um dos temas discutidos por Marx, cuja força ainda hoje podemos verificar, 
é o fetichismo da mercadoria, que seria a interpretação de como o modo capitalista 
de produção mercantiliza as relações, as pessoas e as coisas, como ele transforma 
as próprias pessoas em mercadorias. O fetichismo representa uma contradição 
fundamental do capitalismo: há “relações materiais entre pessoas e relações sociais 
entre coisas”.
Fetichismo é o exemplo mais simples do modo pelo qual as formas 
econômicas do capitalismo (valor, capital, lucro) ocultam as relações sociais 
subjacentes. A reificação significa a transformação dos seres humanos em seres 
semelhantes a coisas, que se comportam de acordo com as leis do mundo das 
coisas: caso especial de alienação.
Caro(a) acadêmico(a)! De Karl Marx, para que possamos refletir acerca de 
nossas ações do dia a dia, podemos extrair este pensamento: 
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
31
“A burguesia rasgou o véu sentimental da família, reduzindo as 
relações familiaresa meras relações monetárias. Não é a consciência dos 
homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que 
determina sua consciência”.
Karl Marx 
Extraído de um dos textos de Silvio Luiz de Oliveira (2002, p. 33-35), o texto 
que segue procura apresentar outros pensamentos e contribuições das obras de 
Karl Marx.
Qualquer pessoa que inicie a leitura da obra de Marx precisa ler da primeira 
à última linha porque os três volumes de seu trabalho são de um só molde, as 
diferentes partes de sua doutrina econômica dependem estruturalmente umas 
das outras, e nenhuma seria bem compreendida sem o conhecimento das demais.
Existe a necessidade da leitura dos três volumes com o agravante de que 
Marx escreveu o primeiro volume em 1867 e os outros dois foram publicados 
post mortem por Friedrich Engels.
No volume III, capítulos 1 e 2, Marx mostra que a Economia Política trata 
do modo pelo qual os homens procuram os bens dos quais têm necessidade 
para viver. Ao demonstrar a questão da mercadoria, preço e lucro, os homens 
procuram os bens exclusivamente pela compra e venda de mercadorias. As 
pessoas tomam posse delas comprando-as com dinheiro, que constitui sua renda.
Na análise desse aspecto social o indivíduo satisfaz suas necessidades 
de adquirir os produtos e Marx mostra formas bastante diversas de renda que 
podem ser classificadas em três grupos:
• o capital: rende a cada ano ao capitalista um lucro;
• a terra: rende ao proprietário rural uma renda fundiária; e
• a força de trabalho, em condições normais e enquanto permanece útil, rende 
ao operário um salário.
Para o capitalista, o capital, para o proprietário rural, a sua terra e para o 
operário sua força de trabalho, ou melhor: lucro, renda fundiária e salário. Essas 
rendas todas lhes aparecem como frutos, para consumir anualmente, de uma 
árvore que não morre jamais, ou mais exatamente de três árvores; essas rendas 
constituem rendas anuais de três classes sociais:
• dos capitalistas;
• dos proprietários rurais (fundiários);
• dos operários.
No capítulo 11, do volume 1, Marx mostra a estrutura das organizações 
produtivas, onde a produção capitalista começa quando o capital individual 
chega simultaneamente a um grande número de operários, quando o processo de 
trabalho estende seu centro de ação e fornece produtos em grande quantidade.
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
32
A oportunidade de um número maior de operários, trabalhando ao 
mesmo tempo e no mesmo lugar, ou seja, na mesma área de trabalho, sob as 
ordens do mesmo capitalista, visando à produção da mesma espécie de produtos, 
constitui o ponto de partida histórico e formal da produção capitalista.
Ao desenvolver os métodos para o aumento da mais-valia, Marx mostra 
criticamente que a mais-valia é produzida nas organizações pelo emprego da 
força de trabalho. O capital compra a força de trabalho e paga em troca o salário. 
Trabalhando, o operário produz um novo valor, que não lhe pertence e sim ao 
capitalista. É preciso que ele trabalhe um certo tempo para restituir unicamente 
o valor do salário. Mas isso feito, ele não para, trabalha ainda mais. O novo valor 
que ele vai produzir agora e que passa então ao montante do salário se chama 
mais-valia.
Na época, verificou ainda os efeitos desses progressos na situação da classe 
operária, hoje vivendo o fantasma do desemprego. Aborda, dentre outras teses, o 
trabalho da mulher e das crianças, suas formas de exploração, do prolongamento 
da jornada de trabalho. Hoje o mundo capitalista procura reduzir a jornada de 
trabalho para que não haja aumento do desemprego, monotonia de trabalho, 
aumento dos acidentes de trabalho e a luta entre os operários e a máquina está 
ocupando seu espaço.
O Capital abriu campo para a evolução das ideias socialistas que 
marcaram as décadas de 60, 70 e 80, criando turbulências políticas e sociais no 
mundo, a Guerra Fria entre Moscou e Washington e, na década de 90, que marca 
o final do século XX, o capitalismo acabou triunfando. A URSS quebrou com a 
Perestroika de Mikhail Gorbatchev e a estátua de Lênin, símbolo da Revolução 
Russa, foi ao chão; a China, aos poucos, assume o sistema de livre comércio; 
Fidel Castro, com a visita do Papa a Cuba em janeiro de 1998, acabou rezando o 
pai-nosso.
Rosa Luxemburgo em A Acumulação do Capital, um clássico da literatura 
econômica, defende a tese de que a necessidade de expansão permanente do 
capitalismo é a causa básica do imperialismo – a submissão econômica dos 
países de economia atrasada aos altamente industrializados. Mas também é aí, 
afirma, que se encontra a causa determinante do colapso final do imperialismo, 
incapaz de resistir ao peso acumulado das contradições, que carrega em seu bojo 
o processo de produção capitalista.
Entretanto, o que se assiste no final do século XX não foi o que se previu 
em A Acumulação do Capital, de Rosa Luxemburgo, pois houve a unificação 
dos mercados de consumo, transformados em mercados comuns: UE – Unidade 
Europeia, NAFTA – mercado comum entre Estados Unidos, Canadá e México; 
o MERCOSUL, formado pelos países do Cone Sul – Brasil, Argentina, Uruguai, 
Chile e Paraguai e a ALCA – Área de Livre Comércio das Américas, que 
começará a funcionar após 2010/2015, reunindo o maior mercado comum da 
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
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5 MAX WEBER
Max Weber nasceu na cidade de Erfurt, na Turíngia, em 21 de abril de 
1864. Em 1893, casou-se e, no ano seguinte, tornou-se professor de economia na 
Universidade de Freiburg, da qual se transferiu para a de Heidelberg, em 1896. 
Dois anos depois, sofreu sérias perturbações nervosas que o levaram a deixar os 
trabalhos docentes, só voltando à atividade em 1903. A partir dessa época, Max 
Weber somente leciona aulas particulares, salvo em algumas ocasiões, quando 
proferia conferências. Seu falecimento ocorre no dia 14 de junho de 1920, na cidade 
de Munique.
FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/
commons/1/16/Max_Weber_1894.jpg>. Acesso em: 24 maio 2010.
FIGURA 5 – MAX WEBER
Enfim, o pensamento de Marx teve e ainda tem influência no Brasil, 
por exemplo: em teorias da educação, na política, em ideologias. Entretanto, há 
também os que combatem acidamente os postulados de Marx na atualidade.
Terra, conforme ficou decidido na Reunião de Cúpula das Américas feita em 
Santiago em abril de 1998.
A fusão de duas megacorporações capitalistas: Citicorp e TraveI Group 
marcou o apogeu do sistema capitalista quando apenas duas empresas passaram 
a ter economicamente força de Estado. Na França, a fusão dos bancos Paribas e 
Societé Générale (SG), criou o segundo maior banco da Europa e o quarto maior 
do mundo, um negócio de US$ 17,5 bi, pago pelo SG ao Paribas. No Brasil, a fusão 
do Bradesco com o BCN criou o maior banco da América do Sul. O surgimento 
da internet, a globalização da Economia, o avanço extraordinário da tecnologia e 
uma massa muito grande de desempregados marcam o final do século XX.
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
34
Na mesma linha de pensamento de Karl Marx, Weber duvidava de 
quaisquer alegações de que a Sociologia poderia ser como as ciências naturais e 
formular “leis” universais e eternas. Já, ao contrário de Karl Marx, Weber afirmava 
que a análise sociológica deveria ser isenta de juízos de valor, ou objetiva e 
neutra em questões morais. Segundo ele, o objetivo da Sociologia é identificar e 
entender como e por que nascem as regras na sociedade e como elas funcionam. 
Também ao contrário de Marx, a aparição do capitalismo não surgia unicamente 
das transformações econômicas, porque as ideias e valores culturais ajudam na 
constituição de uma sociedade e influenciam as nossas ações individuais.
Max Weber afirmou que a Sociologia deve sempre buscar compreender os 
fenômenos “no nível do significado” dos atores, o que os atores veem e sentem 
durante suas ações na sociedade. Também é necessário examinar o contexto 
cultural criado quandoos atores sociais interagem. A análise sociológica deve 
ater-se a duas situações: a primeira, às experiências dos atores e, a segunda, aos 
sistemas culturais e sociais nos quais os atores estão inseridos. 
Para Weber, a desigualdade não é uma simples questão de a pessoa “ter 
e não ter” com relação a quem detém os meios de produção; ela é parte de um 
processo mais amplo de diferenças e hierarquias. Em Marx, o status e o poder 
simplesmente derivam da classe; já para Weber, isso nem sempre foi verdadeiro.
A obra de Weber é marcada pela análise teórica e empírica dos fatos 
econômicos, históricos e culturais, bem como pelo seu compromisso em fazer 
ciência, sem cair em pressupostos valorativos ou em concepções de mundo. 
Algumas vezes a sua escolha pelo ecletismo e o seu ponto de vista particular sobre 
o papel da ciência causou certo entrevero entre ele e alguns intelectuais e suas teses 
acadêmicas da época.
Estudar os escritos de Max Weber é tentar compreender muito do que está 
acontecendo no hodierno. Sem dúvida, ele continua a influenciar a Sociologia 
em razão de seu interesse em isolar e entender as forças motrizes das sociedades 
modernas. Preocupou-se com o surgimento e funcionamento do capitalismo, 
a dominação da vida social pelas burocracias, o poder crescente do Estado, o 
significado das leis nas relações sociais, os processos de urbanização de populações 
nas cidades, as consequências dos sistemas de crenças e valores, ou seja, da cultura.
As questões que seguem são extraídas do Livro “Manual de Sociologia”, 
de Delson Ferreira (2001, p. 66-72), no qual ele procura responder às dúvidas ou 
questões mais frequentes com relação ao pensamento weberiano. Leia atentamente 
cada um dos temas apresentados.
LEITURA COMPLEMENTAR
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
35
Olá!!! Acredito que você deve estar cansado(a). Pare um pouquinho, tome um 
copo d’água e, antes de prosseguir, descanse... Isso fará bem ao seu aprendizado.
A SOCIEDADE NÃO É SUPERIOR AOS INDIVÍDUOS
Delson Ferreira
Para ele, a sociedade e seus sistemas não pairam acima e não são superiores 
ao indivíduo. As regras e normas sociais não são analisadas como exteriores 
à vontade dos indivíduos. Muito ao contrário, elas seriam o resultado de um 
conjunto complexo de ações individuais, nas quais os agentes escolheriam, a todo o 
momento, diferentes formas de conduta. As grandes ideias coletivas que norteiam 
a sociedade, como o Estado, o mercado e as religiões, só existiriam porque muitos 
indivíduos orientariam reciprocamente suas ações em determinado sentido 
comum. De fundamento individualista, o pensamento weberiano privilegia a parte 
sobre o todo, uma vez que sua perspectiva pressupõe que o coletivo se origina no 
individual. O primado da ação do indivíduo sobre a sociedade é que determinaria 
a relação indivíduo-sociedade, item fundamental para os estudos sociológicos.
 
Sua principal contribuição metodológica para as ciências sociais foi a 
elaboração do conceito de tipo ideal. Estudou a História de um ponto de vista 
comparativo e foi um dos principais autores a analisar as problemáticas do 
funcionamento do capitalismo e da burocracia, além de ter levantado temas 
fundamentais na área da Sociologia da religião.
 
Seu conceito de tipo define-se pela ênfase (COHN, 1997, p. 8) “[...] 
em determinados traços da realidade até concebê-los na sua concepção mais 
pura e consequente, que jamais se apresenta assim nas situações efetivamente 
observáveis”. Daí esses tipos serem construídos, por necessidade, “no pensamento 
do pesquisador”, existindo “no plano das ideias sobre os fenômenos e não nos 
próprios fenômenos” em si. Weber, ao conceber essa ferramenta metodológica de 
pesquisa, partiu do pressuposto de que a realidade social só pode ser conhecida 
quando aqueles traços que interessam ao pesquisador são metodicamente 
exagerados, para em seguida se poderem formular com clareza as questões 
relevantes sobre as relações entre os fenômenos observados.
A concepção weberiana de História foi elaborada a partir de uma 
impossibilidade teórica: para Weber, um período histórico não engendra nem 
configura o seguinte. Como diz Cohn (1997, p. 14-15), “[...] seja em termos de 
‘progresso’ ou de qualquer noção similar, que pressuponha a presença das mesmas 
causas operando ao longo do tempo em diferentes configurações históricas”. Em 
seu ponto de vista, não há uma sequência causal única e abrangente na História 
e toda causa apon tada para um determinado fenômeno será uma entre múltiplas 
outras possíveis e igualmente acessíveis ao conhecimento científico. 
UNI
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
36
A saída encontrada por seu intelecto foi realizar a pesquisa por meio de 
um exame comparativo que permitisse o resgate das peculiaridades de cada 
período histórico. O estudo comparativo teria por finalidade a caracterização e a 
compreensão do mundo ocidental moderno em face dos períodos anteriores, uma 
vez que as peculiaridades de cada período revelariam as causas de suas diferenças 
em relação a este mundo, pautado pela racionalização. Essa seria a função principal 
da análise comparativa, ferramenta fundamental da pesquisa histórica.
 
Outra contribuição importante de Weber para o enriquecimento do 
instrumental teórico das ciências sociais foi a elaboração conceitual do que ele 
chamou de “três tipos puros de dominação legítima”. Esses conceitos encontram 
seu sentido no conjunto da análise social que ele estruturou ao longo de sua vida, 
voltada para a compreensão dos problemas que envolvem a dominação e o poder. 
Os três tipos de dominação são os seguintes: o legal, o tradicional e o carismático 
(apud COHN, 1997, p. 128-141). No tipo legal, a dominação ocorre em virtude 
de estatuto. Seu tipo mais puro é a dominação burocrática. Sua ideia básica é: 
qualquer direito pode ser criado e modificado mediante um estatuto sancionado 
corretamente quanto à forma. [...] Correspondem naturalmente ao tipo da 
dominação ‘legal’ não apenas a estrutura moderna do Estado e do município, mas 
também a relação de domínio numa empresa capitalista privada, numa associação 
com fins utilitários ou numa união de qualquer outra natureza que disponha de 
um quadro administrativo numeroso e hierarquicamente articulado.
A dominação tradicional é estabelecida em virtude da crença na santidade 
das ordenações e dos poderes senhoriais de há muito existentes. Seu tipo mais 
puro é o da dominação patriarcal. [...] Obedece-se à pessoa em virtude de sua 
dignidade própria, santificada pela tradição: por fidelidade.
E a dominação carismática fundamenta-se na devoção afetiva à pessoa 
do senhor e a seus dotes sobrenaturais (carisma) e, particularmente: faculdades 
mágicas, revelações de heroísmo, poder intelectual ou de oratória. [...] Seus tipos 
mais puros são a dominação do profeta, do herói guerreiro e do grande demagogo.
MAX WEBBER E A SOCIEDADE: ÉTICA PROTESTANTE 
E ESPÍRITO DO CAPITALISMO
Delson Ferreira
O livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, de 1905, ao lado de 
sua principal obra, Economia e sociedade, de 1922 (póstumo), compõe o núcleo 
central do trabalho de Weber. Foi uma das obras paradigmáticas dos estudos da 
Sociologia da religião, por ter tentado compreender o universo de relações existentes 
entre as manifestações religiosas organizadas e a vida social. Esse livro produziu 
controvérsias teóricas que chegam aos dias de hoje, uma vez que tem também 
por objeto desvendar o que o autor denominou de “espírito do capitalismo”. 
Nele, revela-se a preocupação primeira das análises weberianas: compreender a 
tendência à racionalização progressiva da sociedade moderna. 
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
37
Seu ponto de partida metodológico (COSTA, 1987, p. 66-67) consistiu 
na análise de informações que revelaram existir, entre o setor empresarial e 
de mão de obra especializada, muitos simpatizantesda Reforma Protestante 
promovida por Lutero a partir da Alemanha. Sua conclusão, após interpretação 
dessas informações, foi de que os valores protestantes, entre eles individualismo, 
disciplina, austeridade, senso do dever, inclinação e apego ao trabalho, passaram 
a agir fortemente sobre o comportamento dos indivíduos. Em consequência, 
procurou demonstrar que estava em curso o surgimento de uma peculiaridade 
histórica do mundo moderno: a formação de um novo tipo de mentalidade 
racional, vinculada à lógica organizacional do capitalismo e contrária ao caráter 
contemplativo característico do comportamento católico.
No entendimento weberiano, o relacionamento entre as esferas da religião 
e da sociedade não se estabelece pela via institucional. As relações entre esses 
âmbitos se dariam por meio dos valores, que seriam internalizados pelos indivíduos 
e convertidos em motivação para sua ação social. Esses motivos, que mobilizariam 
internamente os indivíduos, seriam conscientes, e a tarefa do cientista social seria 
descobrir e compreender as conexões existentes entre a motivação dos indivíduos 
e os efeitos de sua ação no meio social.
Seguindo estes passos metodológicos, Weber comparou os conjuntos 
de valores do catolicismo e do protestantismo, procurando demonstrar que 
esses últimos revelariam uma tendência ao racionalismo econômico que viria a 
predominar no sistema capitalista. No intuito de definir o tipo ideal que pudesse 
caracterizar esse sistema econômico e social, Weber estudou comparativamente as 
peculiaridades de diversos sistemas econômicos, em épocas e culturas diferentes, 
antes e após o advento do mercantilismo. Sua conclusão foi de que o capitalismo, 
em sua forma característica, constituiu a única organização econômica da História 
das civilizações fundada na racionalidade, que se diferenciava das demais devido 
ao fato de ser estruturada logicamente sobre o trabalho livre e orientada de forma 
coerente para a operação de um mercado real.
Dois outros comentadores contribuíram para o esclarecimento dos objetivos 
dessa obra: Charles-Henry Cuin e Gabriel Cohn. Segundo Cuin e Gresle (1994, 
p. 88-89), Weber não pensou que o protestantismo tivesse estado, historicamente, 
na origem do capitalismo, e ainda menos que tenha sido a sua causa. Ao propor 
um modelo (ou ‘tipo ideal’) que tem o mérito de simplificar – aumentando-as – 
as relações entre os fenômenos em questão, ele aventa sutilmente a hipótese de 
que o protestantismo pôde fornecer ao capitalismo diversos elementos essenciais 
que distinguem nitidamente o capitalismo europeu, em suas origens, e justificam 
sua superioridade intrínseca sobre os mundos concorrentes, particularmente os 
asiáticos.
 
Cohn (1997, p. 22-23), por seu turno, entende que Weber objetivava 
demonstrar a existência de uma íntima afinidade entre a ideia protestante de 
“vocação” e a contenção do impulso irracional para o lucro através da atividade 
metódica e racional, em busca do êxito econômico representado pela empresa.
 
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
38
Por essa via, apresentava-se a ideia de que um determinado tipo de 
orientação da conduta na esfera religiosa – a ética protestante – poderia ser 
encarado como uma causa do desenvolvimento da conduta racional em moldes 
capitalistas na esfera econômica. [...] O próprio Weber, respondendo a um dos 
seus primeiros críticos, procurou explicitar a problemática que o preocupava ao 
escrevê-la. Afirmava ele nessa ocasião que estava [...] preocupado com o estudo de 
“aspectos da moderna conduta da vida e seu significado prático para a Economia”, 
especialmente no que dizia respeito ao desenvolvimento de uma “regulação 
prático-racionalista da conduta da vida”.
MAX WEBER E AÇÃO SOCIAL
Delson Ferreira
A formulação sociológica weberiana é, em geral, denominada de 
compreensiva, em virtude do esforço interpretativo que ela realiza, voltado para 
a compreensão do passado histórico e de sua repercussão nas características 
peculiares de cada sociedade. Do ponto de vista de Weber, o ato de definição do 
objeto da Sociologia implica a reconstrução do sentido subjetivo original da ação e 
o reconhecimento de que a visão do observador – o cientista – é sempre parcial. O 
pensamento weberiano recusa as concepções que atribuem causas únicas para os 
fenômenos sociais e ressalta o que esse autor denominou de adequação de sentido, 
ou seja, a necessidade da congruência da ação em duas ou mais esferas da vida 
social.
Weber definiu como objeto de estudo da Sociologia a ação social. Para ele, 
ela compreende qualquer ação que o indivíduo faz orientando-se pela ação dos 
outros, sendo dotada e associada a um sentido. Essa ação, a seu ver, teria sempre 
um caráter subjetivo. Dessa forma, seu objetivo é compreender a conduta social 
humana, fornecendo explicações das causas e consequências de sua origem. Essa 
tal visão seriam as atitudes que explicariam a conduta social dos indivíduos.
Segundo Weber, a ação social é representada por tipos ideais e é 
caracterizada de quatro modos distintos, a partir de motivos orientados ora pela 
tradição, ora por interesses racionais, ora pelos afetos ou emoções. No campo real, 
o conjunto complexo das ações dos indivíduos na sociedade seria configurado por 
uma mescla diversificada dessas quatro características.
A ação tradicional seria determinada pelos costumes e pelas ações 
cotidianas vinculadas aos hábitos arraigados nos indivíduos. As ações movidas 
pelos interesses racionais abrir-se-iam em dois campos: no racional, visando aos 
fins, o indivíduo agiria conforme sua expectativa em relação à conduta de outros 
membros da sociedade, agindo racionalmente por calcular sua ação de acordo com 
os fins, meios e consequências. A ação política exemplificaria esse tipo de atuação. 
No campo da ação racional visando aos valores, ela seria orientada por princípios 
ou valores éticos, estéticos, religiosos e morais, sem cálculos prévios ou vínculos 
diretos com os resultados, residindo seu sentido na própria ação em si. As condutas 
ligadas às manifestações religiosas serviriam de modelo para esse tipo de ação. 
Finalmente, ação afetiva ou emocional seria ligada às motivações determinadas 
TÓPICO 2 | BREVE APROXIMAÇÃO COM OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA
39
por esses estados vivenciais internos, baseando-se também na própria ação e não 
nos possíveis resultados.
Vinculado ao conceito de ação social está o de relação social, que não 
pode ser confundido com o primeiro. Necessário para que a análise atinja o plano 
sociológico, esse conceito desdobra o significado da ação individual para o âmbito 
coletivo, buscando compreender o sentido da ação de grupos de indivíduos em 
uma direção comum.
De acordo com Gabriel Cohn (1997, p. 30), esse conceito é concernente à 
conduta de múltiplos agentes que se orientam reciprocamente em conformidade 
com um conteúdo específico do próprio sentido das suas ações. A diferença entre 
‘ação social’ e ‘relação social’ é importante: na primeira, a conduta do agente está 
orientada significativamente pela conduta de outro (ou outros), ao passo que na 
segunda a conduta de cada qual, entre múltiplos agentes envolvidos (que tanto 
podem ser apenas dois e em presença direta, quanto um grande número e sem 
contato direto entre si no momento da ação), orienta-se por um conteúdo de 
sentido reciprocamente compartilhado. 
Weber entende ser fundamental que o pesquisador exerça um papel 
ativo diante dos processos pertinentes ao seu trabalho sociológico e à sociedade, 
mantendo necessariamente uma postura de distanciamento de seu objeto de 
estudo, de modo a resguardar a cientificidade da abordagem e da compreensão das 
ações e relações sociais. Esse distanciamento deve ser entendido, todavia, em uma 
perspectiva diversa da que foi definida pela Sociologia positivista. Esclarecendo 
essas questões, Cohn (1997, p. 28) diz ser necessário “[...] frisar que a compreensão 
nada tem a ver com qualquer forma de ‘intuição’nem se reduz à captação imediata 
de vivências, mas somente é possível através da reconstrução do encadeamento 
significativo do processo de ação”. 
Finalmente, fica também enfatizado que a referência à compreensão 
do sentido ‘subjetivamente visado’ nada tem a ver com processos psicológicos 
que ocorram no agente, visto que o que se compreende não é o agente, mas o 
sentido da sua ação. Por isso mesmo Weber formula a exigência de que o recurso 
à compreensão se dê mediante um ‘distanciamento’ do pesquisador em relação ao 
seu objeto e nunca através de algum procedimento de identificação empática com 
o agente em questão.
40
RESUMO DO TÓPICO 2
Caro(a) acadêmico(a), neste tópico você viu que:
• A Sociologia é muito importante para cada dia de nossas vidas, permitindo 
entendermos as forças externas que influenciam nossas percepções, pensamentos 
e ações.
• A corrente de pensamento positivista influenciou de forma contundente o Brasil, 
país latino-americano que se transformou numa segunda pátria do Positivismo.
• Karl Marx enfatizou a natureza contraditória da sociedade, acreditando na 
razão como possibilidade de construção de uma sociedade mais justa.
• Na opinião de Marx, as desigualdades que ocorrem através da distribuição dos 
meios de produção geram um ambiente para a transformação da sociedade.
• Para Durkheim, a sociedade prevalece sobre o indivíduo e o conceito 
durkheimiano de fato social e suas características fundamentais.
• Com a divisão do trabalho social propiciada pela formação da produção 
industrial capitalista tivemos o surgimento da solidariedade orgânica. 
• Na concepção weberiana, a sociedade não é exterior nem superior ao indivíduo.
• Na sociologia weberiana, a análise é centrada nos atores sociais e suas ações.
41
1 No século XIX surgiram, no Brasil, novas discussões e teorias provenientes 
da Europa. Neste sentido, é importante ressaltar que vários intelectuais 
brasileiros eram:
a) ( ) Padres e juízes que buscavam acordos políticos e europeus.
b) ( ) Coronéis que defendiam as grandes capitanias.
c) ( ) Oriundos das grandes teorias positivistas.
d) ( ) Sociólogos que usavam as ideias de Adam Smith e Habermas para 
explicar suas teorias.
2 Como ciência, a Sociologia procura constituir um conhecimento sobre a 
realidade social, tendo suas pesquisas confrontadas com essa realidade. 
a) Nesse sentido, redija um texto no qual você trabalhe o seguinte tópico:
• A relação entre a Sociologia e o seu dia a dia.
b) Agora, escreva como você avalia os motivos que fizeram os primeiros 
sociólogos se preocupar com a questão da individualidade e da ação coletiva 
e social.
3 Explique a noção de progresso na teoria positivista de Auguste Comte.
4 Assista ao filme Beleza Americana (American Beauty – 
1999), identificando no filme aspectos típicos da sociedade 
de consumo, relacionando-os em um quadro, verificando 
também em que medida aborda temas e teorias dos 
autores estudados neste Tópico 2.
5 “Segundo Marx, o modo de produção capitalista 
desenvolveu um mecanismo de separação dos 
trabalhadores e da propriedade das condições da 
realização do trabalho, ou seja, separou radicalmente 
os trabalhadores dos meios de produção. Ao se 
desenvolver, o capitalismo não apenas mantém esta 
separação, mas a reproduz em escala sempre crescente. O capitalismo, além 
de separar os trabalhadores das condições de trabalho, transforma também os 
meios de subsistência e de produção em capital e os trabalhadores diretos em 
trabalhadores assalariados.”
FONTE: BATISTA, Ricardo L. O trabalho sob a égide do capital: uma análise marxista. In: 
TUMOLO, Paulo S.; BATISTA, Ricardo L. (Org.). Trabalho, economia e educação: perspectivas 
do capitalismo global. Maringá: Práxis; Massoni, 2008. p. 41.
Considerando a análise marxista acerca do capital e do trabalho, 
conforme exposto pelo autor, analise as proposições:
AUTOATIVIDADE
42
I - O capital se valoriza através da extração da mais-valia, ou seja, pela expropriação 
de trabalho excedente, não pago aos trabalhadores.
II- São condições objetivas no processo de produção os objetos e os meios de 
trabalho, isto é, as matérias-primas e os instrumentos de trabalho, elementos 
auxiliares do trabalhador. Por sua vez, a força de trabalho se constitui 
condição subjetiva no processo de produção, sendo responsável por garantir a 
valorização e expansão do capital.
III - São alguns dos fatores que influenciam diretamente a elevação da 
produtividade do trabalho, contribuindo para o processo de racionalização 
e valorização do capital: os investimentos na capacitação e especialização da 
força de trabalho; o desenvolvimento de formas para garantir o fluxo contínuo 
no processo de produção; a melhoria dos instrumentos de trabalho através do 
desenvolvimento tecnológico e a garantia do controle, disciplina e vigilância 
sobre o trabalho. 
Agora, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a proposição III está correta.
b) ( ) Somente a proposição I está correta.
c) ( ) As proposições I, II e III estão corretas.
d) ( ) As proposições I e III estão corretas.
6 Considerando os antecedentes históricos da Sociologia, assinale a alternativa 
CORRETA:
a) ( ) A Sociologia começou a se consolidar como disciplina acadêmica a 
partir das reflexões de Karl Marx e Émile Durkheim, durante o século 
XXI. Tal ciência esteve voltada, de início, para a definição das virtudes 
morais e das virtudes políticas, tendo como objeto central de suas 
investigações a moral e a política, isto é, as ideias e práticas que norteiam 
os comportamentos dos seres humanos tanto como indivíduos quanto 
como cidadãos.
b) ( ) O período formativo da Sociologia como ciência ocupa a segunda 
metade do século XX e início do século XXI. Foi concebida como uma 
teologia e, além disso, em virtude de lidar com os problemas sociais 
provenientes das revoluções econômicas e políticas do século XV.
c) ( ) Auguste Comte foi um dos precursores da Sociologia e dentre as suas 
ideias estava que esta nova ciência deveria seguir os postulados do 
conhecimento científico. 
d) ( ) A Sociologia foi, de começo, uma ciência de cunho teológico, ou 
seja, ciência positivista que considerava as sociedades como etapas 
culturais e civilizatórias de um processo histórico universal. Desse 
modo, preocupou-se inicialmente com o estudo das estruturas e do 
desenvolvimento dos comportamentos humanos e animais.
7 Quem é o sociólogo que criticou fortemente o capitalismo, porque este sistema 
definiu o interesse pelo dinheiro e pelos ganhos materiais como o principal 
motivo do homem para viver e, além disso, apontou que no capitalismo há 
43
exploração do homem pelo homem?
a) ( ) Marx.
b) ( ) Weber.
c) ( ) Ramos. 
d) ( ) Gilberto Freyre.
8 Analise as afirmações a seguir e classifique-as em V verdadeiras e F falsas:
( ) Segundo Comte, para que a Sociologia fosse reconhecida como ciência e 
para que o homem se desenvolvesse completamente, a sociedade deveria 
passar por três estados: teológico, metafísico e positivo.
( ) Karl Marx e Max Weber, mesmo vivendo em períodos distintos, defendiam 
as mesmas ideias, entre estas, destaca-se: a de que todos devem ser 
iguais economicamente e para se deveria isso eliminar definitivamente o 
capitalismo.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V - V.
b) ( ) F - F.
c) ( ) F - V.
d) ( ) V - F.
44
45
TÓPICO 3
LIÇÕES IMPORTANTES DA SOCIOLOGIA 
CONTEMPORÂNEA
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Você, caro(a) acadêmico(a), já estudou o surgimento da Sociologia, os 
sociólogos clássicos e, na maneira do possível, deve ter verificado também o que 
estava acontecendo na sua área de estudo no período em que os sociólogos clássicos 
estavam escrevendo as suas teorias no âmbito da Sociologia. Ou ainda, deve ter 
visualizado se tais sociólogos clássicos serviram de base para estudos na sua área.
 
Entretanto, você poderia perguntar: se tivemos sociólogos clássicos namodernidade, atualmente quem são ou foram os sociólogos que fazem parte deste 
período contemporâneo? Ou ainda, o que os sociólogos têm investigado ou escrito 
na atualidade. 
 
Calma, nesta unidade, apresentaremos dentre vários sociólogos de destaque 
alguns que merecem atenção. Isso não significa que eles são mais importantes do 
que outros. Mas no decorrer da unidade serão indicados caminhos para que você 
possa, caso queira, aprofundar-se no assunto. 
2 PIERRE BOURDIEU
Pierre Bourdieu nasceu em Denguin, Sul da França, em 1º de agosto de 
1930. Frequentou o prestigiado liceu parisiense Louis-Le-Grand, em 1950, e 
completou sua agrégation em filosofia na École Normale Supérieure. Como parte 
de seu serviço militar, lecionou na Argélia e assim vivenciou o colonialismo francês 
em primeira mão. Essa experiência foi formativa, e o esforço de compreendê-la 
colocou o filósofo no caminho da antropologia e da filosofia. Mais tarde, entre 1959 
e 1962, Bourdieu lecionou Filosofia na Sorbonne e em meados dos anos 60 tornou-
se diretor de estudos na École des Hautes Études em Sciences Sociales de Paris e 
do Centre de Sociologie Européenne. Ficou conhecido na década de 60, através dos 
estudos sobre os mecanismos de construção da desigualdade social.
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
46
FONTE: Disponível em: <https://ensaiosdegenero.files.wordpress.
com/2012/05/pierre-bourdieu.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2008.
FIGURA 6 – PIERRE BOURDIEU
Em 1982 foi eleito para a cadeira de Sociologia no Collége de France. Crítico 
acérrimo do liberalismo econômico, faleceu em 23 de janeiro de 2002, em Paris, 
com 71 anos. Bourdieu é considerado uma das maiores referências das ciências 
sociais no mundo contemporâneo.
Dada a complexidade da obra de Pierre Bourdieu, sempre existe o risco de 
que seu projeto seja mal interpretado. É preciso cuidado na leitura de suas obras; 
o mesmo cuidado que o próprio Bourdieu aplica a seus escritos. Sua sociologia 
cresceu em torno de uma ideia-força, que ele desenvolveu e aplicou em diferentes 
problemáticas. Entre elas se destacam: 
a) Uma preocupação em analisar a desigualdade e a diferença de classes em um 
nível estrutural e não ideológico, mas sem sucumbir à ilusão “objetivista” do 
estruturalismo.
b) Uma preocupação em permitir que a ciência vá além dos clichês, estereótipos e 
classificações dos doxa universalmente inquestionáveis e, como consequência, 
explicar as relações de poder inscritas na realidade social, em um campo social. 
Enquanto muitos de seus colegas pensadores evocam uma sociologia em 
estado de crise, ele reconhece sua importância e acredita que ela pode ser elevada a 
um alto grau de cientificidade e de objetividade. Ele considera que essa disciplina 
possui uma função crítica fundamental que consiste em desvelar os processos de 
funcionamento social, especialmente os de dominação.
Desde que realizou trabalhos de campo na Argélia nos anos 60, Bourdieu 
comprometeu-se a revelar os modos subjacentes de dominação de classe em 
sociedades capitalistas que apareçam em todos os aspectos da educação e da arte. 
Sua tese é de que a classe dominante não exerce um domínio explícito, tampouco 
domina a sociedade capitalista por meio de uma conspiração em que os privilegiados 
manipulam de modo consciente a realidade de acordo com seus próprios interesses. 
TÓPICO 3 | LIÇÕES IMPORTANTES DA SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA
47
Antes, a classe dominante na sociedade capitalista é, estaticamente, a beneficiária 
do poder econômico, social e simbólico, poder incorporado no capital econômico 
e cultural, sobreposto a todas as instituições e práticas da sociedade e reproduzido 
por essas próprias instituições e práticas.
No meu tempo de estudante, aqueles que se distinguiam por um 
‘brilhante currículo’ não podiam, sob pena de rebaixar-se, executar 
tarefas práticas tão vulgarmente banais como aquelas que fazem parte 
do ofício de sociólogo. As ciências sociais são difíceis por razões sociais: o 
sociólogo é alguém que vai para a rua, interroga o primeiro que aparece, 
escuta-o e tenta aprender com ele. (BOURDIEU; WACQUANT, 1992, 
p. 176).
 
Em grande parte, a postura teórica subjacente de Bourdieu foi apresentada 
em seu ensaio de 1970, com o título An Outline of a Theory of Pratic. Ali, no contexto 
de estudos etnográficos, Bourdieu delineia uma estrutura de três segmentos de 
conhecimento teórico, cujo nível mais reflexível acabará sendo empregado para 
classificar os “classificadores”, para “objetivar o sujeito objetivante” e para “julgar 
os próprios árbitros de gosto”. 
O primeiro elemento, “experiência primária”, ou que Bourdieu também 
denomina nível “fenomenológico”, é conhecido de todos os pesquisadores de 
campo porque é a fonte de seus dados descritivos básicos a respeito do mundo 
familiar cotidiano – seja de sua própria sociedade ou de outra. 
O segundo nível, quase tão familiar quanto o anterior, é o do “modelo” 
ou do conhecimento “objetivista”. Aqui, o conhecimento “constrói as relações 
objetivas” (por exemplo, econômicas ou linguísticas) que estruturam a prática 
e as representações da prática. Assim, em um nível “primário”, o pesquisador 
poderia observar que, em cada casamento, nascimento ou Natal, as pessoas trocam 
presentes. Em nível “objetivista”, o pesquisador poderia teorizar a respeito de que, 
apesar do que sugere o senso comum, a troca de presentes é um meio de manter o 
prestígio e confirmar uma hierarquia social e talvez a troca enquanto tal é um modo 
de coesão social. O ponto que Bourdieu enfatiza a respeito desse conhecimento é 
que ele é fundamentalmente o do observador neutro e distanciado que se dedica 
a desenvolver uma teoria da prática implícita nos dados primários. Tratando 
de estudar a linguagem ou troca de presentes em particular, o conhecimento do 
teórico distanciado é significativamente limitado. É evidente que se a linguagem 
for estudada apenas do ponto de vista do ouvinte, e não do ponto de vista do 
falante, uma forma imperfeita de conhecimento é derivada.
Dessa maneira vemos como Bourdieu argumenta que uma teoria adequada 
à prática deve também ser uma teoria do maior defeito da abordagem objetivista 
à prática, devendo ser muito rigidamente distanciada da prática. Portanto, não 
consegue encaixar elementos integrais à prática: como “estilo”, “tato”, “destreza” 
e, em particular, “improvisação”. Da mesma forma, ao construir um modelo de 
prática – por exemplo, troca de presentes – o conhecimento objetivista não pode 
encaixar “falhas” ou “estratégias” que possam solapar a universalidade do modelo. 
Em outras palavras, o tempo é deixado de fora do modelo, juntamente com a ideia 
48
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
de “estratégia”. “A estratégia”, diz Bourdieu, “permite a intervenção individual 
contra o modelo”. Isso a postura estruturalista, conforme enunciada por Lévi-
Strauss, não conseguiu fazer.
Alguns conceitos importantes na sociologia de Pierre Bourdieu merecem 
destaque. 
Vejamos:
• Habitus: são disposições inculcadas pelas práticas familiares e sociais, que agem 
como automatismos nas maneiras de agir e designam o comportamento regular 
sem ser conscientemente coordenado e regido por alguma regra. O habitus 
assegura a interiorização da exterioridade, ajustando a ação do agente à sua 
posição social. O centro das experiências infantis ocupa um lugar determinante 
na constituição do habitus. As disposições assim produzidas são igualmente 
estruturadas, refletindo inevitavelmente as condições sociais no interior das 
quais elas foram adquiridas. Sendo duráveis, elas estão enraizadas no corpo de 
tal maneira que perduram ao longo da existência dos indivíduos e operam quase 
que inconscientemente, tornando-se dificilmente acessíveis a uma reflexão e a 
uma transformação consciente. Essas disposições são generativas e transferíveis, 
pois podem engendrar uma multiplicidade de práticas e de percepções em 
outros campos.
• Hexis corporal: (mitologia política realizada, incorporada,que se torna 
disposição permanente, maneira durável de se portar, de andar, de sentir e 
de pensar): designa os mecanismos pelos quais a identidade social é inscrita 
no corpo, na linguagem e nas maneiras de ser. O corpo é um lugar da história 
incorporada.
Esses conceitos (de hexis e habitus) ajudam a compreender os princípios ou 
esquemas generativos que sustentam práticas, as percepções e os julgamentos de 
valor. 
• Campo: (espaço social no interior do qual ocorrem lutas por apropriação 
de diferentes bens): corresponde às esferas das atividades profissionais (e/
ou públicas), que interagem entre si formando o que qualifica como rede de 
campos. O espaço social é composto de pluralidade de campos relativamente 
autônomos; cada um desses campos define suas maneiras específicas de 
dominação e estabelece suas próprias regras: campo cultural (sistema de 
classificação que oferece aos agentes a oportunidade de colocar em prática suas 
estratégias de distinção), campo de poder (espaços de força onde os indivíduos 
agem em função de suas respectivas posições, como num jogo de xadrez), campo 
político (onde predomina o “ilusionismo democrático”: as classes dominantes 
têm o monopólio da política, enquanto os dominados tendem a se considerar 
incompetentes, delegando seu poder de decisão e se autoexcluindo). Segundo 
Bourdieu (1968, p. 42-43):
TÓPICO 3 | LIÇÕES IMPORTANTES DA SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA
49
Todo sociólogo deve combater em si mesmo o profeta social que 
seu público lhe pede que encarne... A sociologia profética converge 
naturalmente com a lógica segundo a qual o senso comum constrói as 
suas explicações quando ela se contenta em sistematizar falsamente 
as respostas da sociologia espontânea às indagações existenciais 
que a experiência comum encontra em ordem dispersa: de todas as 
explicações simples, as explicações simples e pelas naturezas simples 
são as mais frequentemente invocadas pelos sociólogos proféticos, que 
encontram em fenômenos tão familiares quanto a televisão o princípio 
explicativo de ‘mutações planetárias’.
• Capital: considera que existem diferentes espécies de capital e não apenas o 
capital econômico no sentido estrito (riqueza material, dinheiro, bens, valores 
imobiliários) e oferece os meios de conversão em outros capitais: campo social 
(ligado ao acesso durável de uma rede de relações ou ao fato de pertencer a um 
grupo estável, onde o indivíduo pode mobilizar suas estratégias e multiplicar 
seu capital inicial); capital cultural (constituído pelos saberes, competências e 
outras aquisições culturais, este capital releva as desigualdades de performances 
e das honrarias, este capital assinala as diferenças e remarca a distinção entre 
classes sociais); capital linguístico (a variedade linguística do grupo dominante 
se impõe como marca de prestígio, qualificando a maneira de falar e de se 
expressar dos dominados); capital escolar (exemplo da distribuição diferenciada 
dos diversos capitais contribui com a legitimação e reprodução da posição no 
espaço social).
• Poder simbólico: (poder invisível conhecido como tal e reconhecido como 
legítimo): designa não uma única forma, mas numerosas formas de exercício do 
poder, presentes na vida social. Pressupõe como condições de seu sucesso que 
os indivíduos a ele submetidos acreditem na legitimidade do poder daqueles 
que o exercem.
• Violência simbólica: (designa a confiança, a obrigação, a fidelidade pessoal, 
a hospitalidade, o dom, a dívida, a recompensa, a piedade, a generosidade e 
todas as demais virtudes que honram a moral do honrado): opõe-se à violência 
declarada e está baseada nos efeitos da autoridade, geradora de disciplina. Sob 
o véu de uma relação encantada, as estratégias doces e serenas dissimulam a 
dominação.
• Distinção: (maneira de cultivar a diferença): designa a superioridade que coloca 
um indivíduo ou uma categoria social acima das outras. A distinção define a 
hierarquia das práticas sociais, mas também das práticas esportivas e culturais, 
gerando um sentimento de superioridade ou inferioridade, segundo a posição 
na estrutura social.
• Legitimidade: para executar certas funções é necessário obter autorização e 
estar investido de uma autoridade legítima: somente o indivíduo autorizado a 
falar, e no qual os outros reconhecem esse direito, é susceptível de ser aceito em 
certas circunstâncias. As diferenças de classe se objetivam nas disposições que 
50
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
possuem os indivíduos em escolher – legitimidade – os elementos considerados 
como legítimos.
• Sociabilização: (processo que se desenvolve ao longo de uma produção de 
habitus distintos): designa a obtenção ao longo do período de formação das 
categorias e valores, que fundamentam, justificam e explicam as práticas futuras 
do ator. As pessoas têm a maneira de ser de sua formação.
 
• Reprodução: finalidade última dos mecanismos de exercício de poder, de 
legitimação, de socialização. Como componentes do esforço das classes 
médias, Bourdieu destaca o ascetismo (disposição para renunciar aos prazeres 
imediatos em benefício de um projeto futuro, concretizados pelo que chama de 
“rigorismo ascético”, que valoriza a disciplina, o autocontrole e exige dedicação 
contínua e intensiva aos estudos), o malthusianismo (propensão ao controle da 
fecundidade) e a boa vontade cultural (reconhecimento da cultura legítima e o 
empenho contínuo e sistemático para adquiri-la).
Pesquise nas revistas científicas da sua área acerca da influência de Pierre Bourdieu.
Anthony Giddens, sociólogo contemporâneo britânico, 
nasceu em 1938. Postulou a teoria da estruturação e é teórico do novo 
trabalhismo britânico e pioneiro na discussão sobre a Terceira Via e 
Globalização. Podemos dizer que as suas discussões se configuram em 
torno de temáticas como a história do pensamento social, elites e poder, 
a estrutura de classes, nações e nacionalismos, identidade pessoal e social, 
relações e sexualidade, elites e poder dentre outras.
3 ZYGMUNT BAUMANN
Na história contemporânea, existem vários sociólogos estudando diversas 
áreas. Neste tópico, você estudou Bourdieu, conheceu Giddens e posteriormente 
conhecerá Touraine. Agora, estudaremos Zygmunt Bauman que nasceu na 
Polônia, em 1925, e exerceu suas atividades também no Canadá, Estados Unidos 
e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde, em 1971, se tornou professor titular 
da Universidade de Leeds. Atualmente é professor emérito de Sociologia das 
DICAS
NOTA
TÓPICO 3 | LIÇÕES IMPORTANTES DA SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA
51
universidades de Leeds e Varsóvia. A trajetória intelectual de Bauman tem início 
nos anos 50, mas o sociológo tem se feito presente no cenário brasileiro somente 
nos últimos anos. 
Bauman é também conhecido por ser o profeta da pós-modernidade, sendo 
reconhecido pela sua expressão intelectual por intermédio de diversas obras. A 
seguir faremos breves comentários de obras de Bauman e, a título de sugestão, 
você pode investigar se tais obras têm influenciado nas discussões ou pesquisas 
da sua área. 
Modernidade líquida (2000): o sociólogo retrata que a modernidade 
líquida é leve, fluida e dinâmica e está em oposição ao que a modernidade sólida 
suplantou. Podemos dizer que os líquidos, diferentemente dos sólidos, não 
mantêm sua forma com tanta facilidade como o sólido. Assim, enquanto o sólido 
tem a sua dimensão clara e em formato uniforme, o líquido está constantemente 
pronto (e propenso) a mudar. E a forma de pensar está em consonância com os 
postulados da modernidade e pós-modernidade (você irá estudar na Unidade 2, 
Tópico 1).
Na sociedade líquida tudo é fluidez, maleabilidade, flexibilidade e tem 
a capacidade de moldar-se de acordo com as infinitas estruturas já existentes 
ou que poderão vir a existir. Esta sociedade foi transformada pelo mercado, 
e tudo foi reduzido em valor de mercadoria de consumo, ou seja, ter um preço 
materializado. Desta forma, até os valores mais importantes da vida passama ter 
valor na esfera econômica. Assim, o amor, numa cultura da sociedade líquida é 
tratado à semelhança de outras mercadorias. 
A violenta destruição da vida e da propriedade inerente à guerra, o 
esforço e o alarme contínuos resultantes de um estado de perigo constante, 
vão compelir as nações mais vinculadas à liberdade a recorrerem, para seu 
repouso e segurança, a instituições cuja tendência é destruir seus direitos civis 
e políticos. Para serem mais seguras, elas acabam se dispondo a correr o risco 
de serem menos livres. Agora essa profecia está se tornando realidade. Uma 
vez investido sobre o mundo humano, o medo adquire um ímpeto e uma lógica 
de desenvolvimento próprio e precisa de poucos cuidados e praticamente 
nenhum investimento adicional para crescer e se espalhar – irrefreavelmente. 
Nas palavras de David L. Altheide, o principal não é o medo do perigo, mas 
aquilo no qual esse medo pode se desdobrar, o que ele se torna. A vida social se 
altera quando as pessoas vivem atrás de muros, contratam seguranças, dirigem 
veículos blindados, portam porretes e revólveres, e frequentam aulas de artes 
marciais. O problema é que essas atividades reafirmam e ajudam a produzir o 
senso de desordem que nossas ações buscam evitar. 
Os medos nos estimulam a assumir uma ação defensiva. Quando isso 
ocorre, a ação defensiva confere proximidade e tangibilidade ao medo. São 
nossas respostas que reclassificam as premonições sombrias como realidade 
52
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
Amor líquido: sobre as fragilidades dos laços humanos (2003): para 
Bauman, na modernidade líquida os laços humanos tendem a ser mais frágeis 
tornando as relações menos seguras, incertas, duvidosas, ou seja, uma espécie de 
amor líquido, no qual os laços entre as pessoas não são de longo prazo.
Ainda, para Bauman as relações humanas na pós-modernidade são frágeis, 
duvidosas, frouxas, livres e inseguras. A fragilidade dos vínculos humanos são 
misteriosos, conflitantes e inseguros na medida em que o homem contemporâneo 
está abandonado ao seu próprio aparelho de sentido, de modo que tal aparelho 
tem, ao mesmo tempo, grande facilidade de conceder e descartar sentido nas 
relações amorosas. 
Desta maneira, de acordo com Bauman, as relações amorosas têm 
novos contornos e são designadas de relações líquidas, frouxas. Em termos de 
exemplificação: o homem moderno busca o outro em virtude do medo da solidão, 
porém busca preservar uma distância para assegurar o exercício da liberdade. 
O mal-estar da Pós-Modernidade (1997): para Bauman o mundo em que 
nos encontramos é um mundo de incertezas, insegurança, medo, tecnologia que 
exclui, desemprego e ameças diversas. Além disso, o mundo vem mudando os 
seus contornos em velocidade “galopante”. Esse momento em que a humanidade 
está transitando tem trazido, de certa forma, um mal-estar, pois, por exemplo, 
pessoas são excluídas e não podem ser consumidoras e participar de um mercado 
consumidor. Enfim, Bauman de certa maneira aponta que as incertezas estão nos 
diversos setores em que o ser humano atua. Além disso, Bauman publicou outras 
obras como: Ética pós-moderna (1993); Medo Líquido (2006); Modernidade e 
Ambivalência (1991); Vida para o consumo (2008); Tempos líquidos (2006); Vida 
Líquida (2005), dentre outras.
diária, dando corpo à palavra. O medo agora se estabeleceu, saturando nossas 
rotinas cotidianas; praticamente não precisa de outros estímulos exteriores, já 
que as ações que estimula, dia após dia, fornecem toda a motivação e toda a 
energia de que ele necessita para se reproduzir. Entre os mecanismos que buscam 
aproximar-se do modelo de sonhos do moto-perpétuo, a autorreprodução do 
emaranhado do medo e das ações inspiradas por esse sentimento está perto 
de reclamar uma posição de destaque. É como se os nossos medos tivessem 
ganhado a capacidade de se autoperpetuar e se autofortalecer; como se tivessem 
adquirido um ímpeto próprio – e pudessem continuar crescendo com base 
unicamente nos seus próprios recursos. [...]
FONTE: BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 2007. p. 15.
TÓPICO 3 | LIÇÕES IMPORTANTES DA SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA
53
EM NOVO LIVRO, SOCIÓLOGO ZYGMUNT BAUMAN VOLTA O 
SEU ‘PESSIMISMO’ CONTRA O CAPITALISMO
Sexta-feira, 14 de maio de 2010 | 19:25 
Bastante conhecido no Brasil por livros como Amor Líquido, em que 
analisa o padrão volátil dos relacionamentos atuais, o sociólogo polonês 
Zygmunt Bauman volta ao mercado brasileiro, no próximo dia 21, com um 
título em que dirige seu olhar ao sistema capitalista. Em Capitalismo Parasitário 
(Zahar; 96 páginas; 19 reais), que chega às livrarias no próximo dia 21, Bauman 
destila crítica em frases como “o capitalismo se destaca por criar problemas, e 
não por solucioná-los”.
Bauman é perspicaz e procura retratar a realidade sem maquiá-la. A 
metáfora escolhida para nomear o livro, no entanto, é rasa, como se vê no trecho 
a seguir. 
Sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário. Como 
todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde 
que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça 
alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, 
destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade 
ou mesmo de sua sobrevivência.
Soa ingênuo, como a passagem, “Os indivíduos que têm uma caderneta 
de poupança e nenhum cartão de crédito são vistos como um desafio para as 
artes do marketing: ‘terras virgens’ clamando pela exploração lucrativa”.
Soa, aliás, óbvio. Porque não deixamos de lhe dar razão. E é preciso dizer 
que o livro tem linhas melhores, como quando ele diz que “A alegria de ‘livrar-
se’ de algo, o ato de descartar e jogar no lixo, esta é a verdadeira paixão do nosso 
mundo”. Aqui, o sociólogo se reconecta ao grande tema de sua produção, ao 
assunto que perpassa toda a sua obra, a liquidez. O foco de Bauman, em seus 
livros – no Brasil, foram lançados vinte, que venderam juntos 200.000 exemplares 
– são os elementos que podem ser considerados em estado de liquidez e que, por 
isso, geram mal-estar social.
Bauman pode ser acusado de um pessimismo à la José Saramago, embora 
o próprio rejeite se definir como otimista ou o oposto – um sistema binário em 
que não vê como se encaixar. É no último capítulo de Capitalismo Parasitário, 
Um Homem com Esperanças, que ele faz essa revelação, e que dá um passo no 
sentido de escapar da pecha de pessimista.
Nele, como o título indica, Bauman lembra que a humanidade ainda 
não chegou à falência e que há caminhos que podem desviá-la deste destino. 
54
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
LEITURA COMPLEMENTAR
Para concluir os seus estudos, leia atentamente a Resenha da Obra Amor 
líquido: sobre as fragilidades dos laços humanos (2003) feita por Cláudia Hausman 
Silveira, doutoranda em Ciências Humanas, no Programa de Pós-Graduação em 
Ciências Humanas (DICH/UFSC), mestre em Sociologia das Organizações (UFPR), 
professora do Departamento de Saúde Comunitária – UFPR, publicado na Revista 
Internacional Interdisciplinar Interthesis – PPGICH, UFSC. 
[...] a tradução do livro de Zigmunt Bauman Amor Líquido, uma 
interpretação lúcida e pertinente das relações modernas, a partir da perspectiva de 
um judeu polonês quase octogenário que passou pelos horrores da II Guerra, bem 
como pelas perseguições ao comunismo, nos anos 60.
 
Difere da maior parte das abordagens sobre o mundo virtual, a internet e 
os sites de relacionamento na construção da afetividade e das relações no mundo 
moderno. Das pesquisas realizadas e publicadas sobre o tema no Brasil, podemos 
citar “Sexo, afeto e era tecnológica: um estudo de chats na internet” organizado por 
Sergio Dayrell Porto, da Faculdade de Comunicação da UNB, 1999, ou “Amor na 
internet: quando o virtual cai na real”, da jornalista Alice Sampaio, 2001, ou ainda, 
“Blog: comunicação e escrita íntima na internet”, da também jornalistaDenise 
Schittine, de 2004. Os dois primeiros abordam, fundamentalmente, os diálogos 
eróticos das salas de encontro virtual, enquanto que o terceiro focaliza espaços 
onde a modernidade “publiciza” o privado e, nesse sentido, traz uma discussão 
interessante sobre o público e o privado no mundo moderno.
Bauman, em última análise, nos leva a perceber a estreita relação existente 
entre a forma de organização econômica e da produção de nossa sociedade e a 
construção da sociabilidade. Ou seja, uma sociedade que exige competência 
profissional para trabalhar com as incertezas do mercado (e cria sistemas 
informatizados capazes de incluir um número infinito de variáveis), não é capaz 
de instrumentalizar seres humanos para transformar variáveis desfavoráveis em 
condições favoráveis. Assim, nas relações afetivas pessoais, essa sociedade precisa 
ser capaz de oferecer alternativas à falta de capacidade de seus indivíduos em 
formar vínculos, excluindo aqueles que são a exceção.
“Acredito que é possível um mundo diferente e de alguma forma melhor do que 
o que temos agora.”
Adaptado de: Maria Carolina Maia
FONTE: Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/meus-livros/livros-da-semana/zygmunt-
bauman-volta-seu-pessimismo-para-o-capitalismo/>. Acesso em: 14 maio 2010.
TÓPICO 3 | LIÇÕES IMPORTANTES DA SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA
55
As relações são substituídas pelas redes, nas quais os indivíduos se 
conectam, da mesma forma que se desconectam, sem a necessidade de formação 
de vínculo. Afinal, “Sempre se pode apertar a tecla de deletar” (entrevista, jovem 
de 28 anos, Universidade de Bath), como cita o autor em sua obra. No entanto, a 
ansiedade não desaparece, apenas se distribui de outra forma; e esta é a grande 
contradição. Ainda que se substitua o investimento em longo prazo na formação 
de vínculo, os riscos e a dor permanecem, acrescidos da sensação de vazio.
Bauman recorre à história para formular uma observação interessante, a 
de que, assim como os Estados modernos não toleravam homens desgovernados, 
os impérios expansionistas não suportavam a existência de terras sem dono, 
os mercados modernos não conseguem coexistir com a ideia de uma vida 
autossustentável fora deste mercado. E mais, na visão do autor, essas relações 
transcenderam o nível estrutural e se representaram nas relações individuais 
através dos laços indissolúveis do matrimônio, que passaram a ser solúveis 
através do divórcio, que se transformaram em morar junto, adquiriram a incrível 
capacidade de durar algumas horas ou ainda de não se concretizar no mundo real, 
apenas no espaço virtual (como as transações na bolsa de valores).
Segundo ele, na economia de mercado, dois atores são importantes: o 
homo economicus, solitário, autorreferente e autocentrado, que se guia pela escolha 
racional e que reconhece apenas o homo consumens, também solitário, autorreferente 
e autocentrado, comprador, para quem as compras são a única terapia e sua 
comunidade é o enxame de compradores dos shopping centers ou da internet. Desta 
forma, o homem sem qualidades (não qualificável) da modernidade, ao amadurecer 
(ou ser amadurecido pela sociedade de massas), torna-se o homem sem vínculos.
Para Bauman (2003, p. 90), tanto o homo economicus quanto o homo consumens 
“[...] são homens e mulheres sem vínculos sociais. São os representantes ideais da 
economia de mercado... Eles também são ficções”.
As preocupações do autor sobre a economia são hoje compartilhadas por 
diversos pensadores, Agamben entre eles. Por que não existe boa ou má economia? 
Por que ela é sacralizada a ponto de não ser qualificável? Por que somente o que 
está fora dela (a economia dos economistas) é adjetivado?
Será consequência da modernidade fluida e veloz, considerar perdido o 
tempo necessário à construção do afeto? A técnica parece ser capaz de expressar a 
razão, mas qual a expressão da emoção?
Assim, Bauman consegue fazer uma análise dialética da sociedade 
moderna, na qual, sem perder de vista os determinantes estruturais das relações 
sociais, incorpora a subjetividade humana ao discutir temas como “amar o próximo 
como a si mesmo” relacionado ao “amor-próprio”. Nesta perspectiva, desmonta 
os argumentos daqueles que tentam justificar como “necessária” ou “inevitável” a 
perda de vidas de civis nas guerras. Atribui um valor único e insubstituível a cada 
indivíduo.
56
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
O autor parece nunca esquecer que o bem é a liberdade de poder escolher 
o fazer. Quando podemos prever o futuro, deixamos de ser livres e a liberdade é 
fundamental à Condição Humana, um conceito que surge exatamente quando as 
incertezas da modernidade a tornam fluida, quando a certeza da tradição começa 
a ruir. A lucidez de Bauman nos faz mais livres.
FONTE: Adaptado de: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view 
File/640/10771>. Acesso em: 24 maio 2010.
Alain Touraine nasceu na França em 1925 e também 
estudou os movimentos sociais. O trabalho de Touraine 
abarca desde estudos de campo na América Latina, com 
pesquisas sobre o trabalho e a consciência de classe 
dos trabalhadores, até os movimentos estudantis de 68 
e golpes de Estado na América Latina. Tem estudado o 
papel do indivíduo nos movimentos sociais e analisado a 
sociedade pós-industrial.
NOTA
57
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico você estudou que:
• Pierre Bourdieu tentou manter, de forma implacavelmente lúcida, os limites 
que se colocam ao intelectual na sua intervenção cívica. De um lado, persistia o 
intransigente rigor intelectual e acadêmico aplicado aos diversos mecanismos 
de dominação que atravessam a sociedade.
• O poder simbólico surge como todo poder que consegue impor significações, 
tirar como legítimas.
• Os símbolos são instrumentos por excelência de integração social, tornando 
possível a reprodução da ordem estabelecida.
• O campo surge como uma configuração de relações socialmente distribuídas. 
Através da distribuição das diversas formas de capital – no caso da cultura, 
o capital simbólico –, os agentes participantes em cada campo são munidos 
com as capacidades adequadas ao desempenho das funções e à prática das 
lutas que o atravessam. As relações existentes no interior de cada campo 
se definem objetivamente, independentemente da consciência humana. 
• Bauman é um sociólogo contemporâneo com uma vasta produção intelectual e 
apenas recentemente as suas obras têm sido traduzidas no Brasil.
• O sociólogo retrata que a modernidade líquida é leve, fluida e dinâmica a qual 
está em oposição ao que a modernidade sólida suplantou.
• Na sociedade líquida tudo é fluidez, maleabilidade, flexibilidade e tem a 
capacidade de se moldar de acordo com as infinitas estruturas já existentes ou 
que poderão vir a existir.
58
1 Após a leitura do texto extraído do livro de Luis Fernando Veríssimo (As 
mentiras que os homens contam, 2001, p. 57-60), identifique quais conceitos 
de Bourdieu encontramos no texto. Explique o motivo de sua escolha. 
Exéquias
Quis o destino, que é um gozador, que aqueles dois se encontrassem na 
morte, pois na vida jamais se encontrariam.
De um lado Cardoso, na juventude conhecido como Dosão, depois 
Doso, finalmente – quando a vida e a bebida e as mulheres erradas o tinham 
reduzido à metade – Dozinho. Do outro lado Rodopião Farias Mello Nogueira 
Neto, nenhum apelido, comendador, empresário, um dos pró-homens da 
República, grande chato. Grande e gordo. O seu caixão teve que ser feito 
sob medida. Houve quem dissesse que seriam necessários dois caixões, um 
para o Rodopião, outro para o seu ego. Já Dozinho parecia uma criança no 
seu caixãozinho. Um anjo encardido e enrugado. De Dozinho no seu caixão, 
disseram:
— Coitadinho.
De Rodopião:
— Como ele está corado!
Ficaram em capelas vizinhas antes do enterro. Os dois velórios 
começaram quase ao mesmo tempo. O de Rodopião (Rotary, ex-ministro, 
benemérito do Jockey), concorridíssimo.
O de Dozinho, em termos de público, um fracasso. Dozinho sótinha 
dois ao lado do seu caixão quando começaram os velórios. Por coincidência, 
dois garçons.
Tanto Dozinho quanto Rodopião tinham morrido por vaidade.
Dozinho, apesar de magro (“esquálido”, como o descrevia, 
carinhosamente, Dona Judite, professora, sua única mulher legítima), se 
convencera de que estava ficando barrigudo e dera para usar um espartilho. 
Para não fazer má figura no Dança Brasil, onde passava as noites. As mulheres 
do Dança Brasil, só por brincadeira, diziam sempre: “Você está engordando, 
Dozinho. Olhe essa barriga”. E Dozinho apertava mais o espartilho. Um dia 
caiu na calçada com falta de ar. Não recuperou mais os sentidos. Claro que não 
morreu só disso.
Bebia demais. Se metia em brigas. Arriscava a vida por um amigo. 
Deixava a vida por um amigo. Deixava de comer para ajudar os outros. Se não 
fosse o espartilho, seria uma navalha ou uma cirrose.
Rodopião tinha ido aos Estados Unidos fazer um implante de cabelo e 
na volta houve complicações, uma infecção e – suspeita-se – uma certa demora 
deliberada de sua mulher em procurar ajuda médica.
E ali estavam, Dozinho e Rodopião, sendo velados lado a lado. 
Dozinho, o bom amigo, por dois amigos. Rodopião, o chato, por uma 
AUTOATIVIDADE
59
multidão. O destino etc.
Perto da meia-noite chegaram Dona Judite, que recém-soubera da 
morte do ex-marido e se mandara de Del Castilho e Magarra, o maior amigo 
de Dozinho. Magarra chorava mais que Dona Judite. “Que perda, que perda”, 
repetia, e Dona Judite sacudia a cabeça, sem muita convicção. A capela onde 
estava sendo velado Rodopião lotara e as pessoas começavam a invadir o 
velório de Dozinho, olhando com interesse para o morto desconhecido, mas 
sem tomar intimidades. Magarra quis saber quem era o figurão da capela ao 
lado. Estava ressentido com aquela afluência. Dozinho é que merecia uma 
despedida assim.
Um homem grisalho explicou para Magarra quem era Rodopião. 
Revoltado. Não era homem de aceitar o destino e as suas ironias sem 
uma briga. Apontou com o queixo para Dozinho e disse:
— Sabe quem é aquele ali?
— Quem?
— Cardoso. O ex-senador.
— Ah... – disse o homem grisalho, um pouco incerto.
— Sabe a Lei Cardoso? Autoria dele.
Em pouco tempo a notícia se espalhou. Estavam sendo velados ali não 
um, mas dois notáveis da nação. A frequência na capela de Dozinho aumentou. 
Magarra circulava entre os grupos enriquecendo a biografia de Cardoso.
— Lembra a linha média do Fluminense? Década de 40. Tatu, Matinhos 
e Cardoso.
O Cardoso é ele.
Também revelou que Cardoso fora um dos inventores do raio laser, só 
que um americano roubara a sua parte. E tivera um caso com a Maria Callas na 
Europa. Algumas pessoas até se lembravam.
— Ah, então é aquele Cardoso?
— Aquele.
A capela de Dozinho também ficou lotada. As pessoas passavam pelo 
caixão de Rodopião, comentavam: “Está com um ótimo aspecto”, e passavam 
para a capela de Dozinho. Cumprimentavam Dona Judite, que nunca podia 
imaginar que Dozinho tivesse tanto prestígio (até um representante do 
governador!), os dois garçons e Magarra.
— Grande perda.
— Nem me fale – respondia Magarra.
Veio a televisão. Magarra foi entrevistado. Comentou a ingratidão 
da vida. Um homem como aquele – autor da Lei Cardoso, cientista, com sua 
fotografia no salão nobre do Fluminense, homem do mundo, um dos luminares 
do seu tempo – só era lembrado na hora da morte. As pessoas esquecem 
depressa.
O mundo é cruel. A câmara fechou nos olhos lacrimejantes de Magarra. 
A esta altura tinha mais público para o Dozinho do que para o Rodopião. Pouco 
antes de fecharem os caixões chegou uma coroa, para Dozinho. Do Fluminense.
O acompanhamento dos dois caixões foi parelho, mas a televisão 
acompanhou o de Dozinho. O enterro de Rodopião foi mais rápido porque 
o acadêmico que ia fazer o discurso esqueceu o discurso em casa. Todos se 
dirigiram rapidamente para o enterro do Cardoso, para não perder o discurso 
60
de Magarra.
— Cardoso! – bradou Magarra, do alto de uma lápide. – Mais do que 
exéquias, aqui se faz um desagravo. A posteridade trará a justiça que a vida 
te negou! Teus amigos e concidadãos aqui reunidos não dizem adeus, dizem 
bem-vindo à glória eterna! 
Naquela noite, no Dança Brasil, antes de subir ao palco e anunciar 
o show de Rúbio Roberto, a voz romântica do Caribe, Magarra disse para 
Mariúza, a favorita do Dozinho, que estranhara a sua ausência no cemitério 
àquela manhã. Mariúza se defendeu:
— Como é que eu ia saber que ele era tão importante?
E chorou, sinceramente.
2 Assista ao filme Laranja Mecânica procurando identificar as pessoas 
estranhas ao modo de vida imposto pela sociedade capitalista, dentre elas, 
no filme, em especial, Alex. Logo após, digite um texto descrevendo sua 
percepção sobre o que o filme apresentou para você, relacionando-o com o 
que foi visto nesta unidade.
a) ( ) É constituído pelos saberes, competências e outras aquisições culturais 
e revela as desigualdades das performances e das honrarias ou, ainda, assinala 
as diferenças e remarca a distinção entre classes sociais.
b) ( ) É constituído de uma variedade de palavras de um grupo dominante 
ao qual poucas pessoas têm acesso.
c) ( ) É constituído das ideias das classes dominantes que têm o monopólio 
político e divulgam que os dominados tendem a ser incompetentes nas 
questões políticas.
d) ( ) Designa os mecanismos pelos quais a identidade social é inscrita no 
corpo, na linguagem e nas maneiras de ser.
3 Para Bourdieu existem diferentes espécies de capitais e não 
apenas o capital econômico no sentido estrito (riqueza material, 
dinheiro, bens, valores imobiliários) que oferece os meios de 
conversão para outros capitais, a exemplo, o capital cultural que:
61
TÓPICO 4
PERCORRENDO A SOCIOLOGIA 
BRASILEIRA
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
No Brasil, o número de pessoas interessadas em conhecer a Sociologia vem 
crescendo. Muitas pessoas escolhem ser sociólogos como primeira opção e outras 
procuram conhecer essa ciência após já estarem formados em outra área. 
Muitos sociólogos contribuíram para a difusão da Sociologia no Brasil, 
dentre eles, podemos destacar: Oliveira Viana, Octávio Ianni, Betinho, Alberto 
Guerreiro Ramos, Ricardo Antunes, José Pastore, Fernando Henrique Cardoso, 
Francisco de Oliveira, entre outros. 
Neste tópico, optamos por apresentar quatro deles que se destacam como 
referências fundamentais no campo da sociologia brasileira – Gilberto Freyre, 
Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Sérgio Buarque de Holanda. 
Cada qual à sua maneira utiliza abordagens distintas, e muitas vezes 
radicalmente opostas. Por exemplo, Florestan adota a perspectiva marxista, 
Gilberto Freyre é considerado conservador, Fernando Henrique Cardoso se destaca 
pela social-democracia e Sérgio Buarque de Holanda por tratar da cordialidade do 
povo brasileiro.
2 UM AUTOR PARA ESTUDAR, NÃO PARA LER: GILBERTO 
FREYRE
Não tenho o hábito de adular nem os velhos dos institutos históricos, nem 
as glórias pós-balzaquianas das academias, nem a mocidade das faculdades e das 
escolas.
O saber deve ser como um rio, cujas águas doces, grossas, copiosas, 
transbordem do indivíduo, e se espraiem, estancando a sede dos outros. Sem um 
fim social, o saber será a maior das futilidades. Gilberto Freyre 
Gilberto de Melo Freyre, nasceu na cidade de Recife, no estado de 
Pernambuco, em 15 de março de 1900, filho do Dr. Alfredo Freyre, educador, Juiz 
62
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
de Direito e catedrático de Economia Política da Faculdade de Direito do Recife 
e autor do livro “Dos 8 aos 80 anos”, UFPE. Inicia seus estudos frequentando o 
Jardim de Infância até completar seus estudos secundários no Colégio Americano 
Gilreath. Bacharelou-se em Artes Liberais, na Universidade de Baylor, no Texas 
(EUA). Em seguida, fez pós-graduação em Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais na 
Universidade de Colúmbia, em Nova York. 
Publicou sua tese de mestrado em 1933, com o título Casa-Grande e Senzala, 
trabalho queteve repercussão mundial e tornou-se obra de referência para os 
estudos sociológicos sobre o Brasil. Entre outros livros de sua autoria destacam-se 
Sobrados e mocambos (1936) e Ordem e progresso (1959), os três formam uma 
trilogia. Ele escreveu mais de 60 livros e muitos artigos em jornais e revistas, sendo 
o ganhador de prêmios internacionais com obras traduzidas em vários países. 
Gilberto Freyre morreu no dia 18 de julho de 1987, em Recife.
FONTE: O autor (acervo pessoal)
FIGURA 7 – GILBERTO FREYRE
Em Casa-Grande e Senzala, fez um estudo da colonização portuguesa, 
descrevendo a formação da família e do patriarcado brasileiro, bem como a 
importância da miscigenação étnica como traço cultural. Alertou que há sempre 
um motivo econômico, no caso brasileiro a monocultura latifundiária, por trás das 
relações raciais. Por exemplo, na cultura do açúcar tivemos um número grande de 
escravos, traço marcante da escravatura no Brasil, dessa forma ficando estabelecidas 
e consolidadas as relações entre brancos e negros, baseadas na formação patriarcal. 
Neste livro, Casa-Grande, complementada pela senzala, nucleia um sistema 
econômico que influenciou muito a vida brasileira por vários anos. 
No livro seguinte, Sobrados e mocambos, apresentou a decadência 
do patriarcado rural e o desenvolvimento das elites urbanas. No livro, Freyre 
demonstra claramente a europeização das elites brasileiras: 
a) no que tange às opções sexuais dos homens, que deixaram de preferir as mulatas 
em troca das francesas; 
TÓPICO 4 | PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
63
b) na sala de estar das casas os pianos substituindo os instrumentos de percussão; 
c) o aparecimento das carruagens, das instituições bancárias, dos cafés, hotéis. 
Ocorre também o surgimento do romantismo no meio intelectual brasileiro, 
influenciando o nascimento de uma “civilização brasileira”, expressa nas pequenas 
coisas: nos talheres, nas saias das mulheres, nas cartolas dos homens, nos hábitos 
amorosos, as casas-grandes se transformam em sobrados europeus e as relações de 
poder também se modificam.
A música é também um instrumento de imaginação sociológica. Nesta de Zezé 
di Camargo intitulada Meu País, vemos uma postura crítica e um alerta à sociedade brasileira:
“Aqui não falta sol. Aqui não falta chuva. A terra faz brotar qualquer semente. Se a mão de 
Deus. Protege e molha o nosso chão. Por que será que tá faltando pão? Se a natureza nunca 
reclamou da gente. Do corte do machado, a foice, o fogo ardente. Se nessa terra tudo que se 
planta dá. Que é que há, meu país? O que é que há? Tem alguém levando lucro. Tem alguém 
colhendo o fruto. Sem saber o que é plantar. Tá faltando consciência. Tá sobrando paciência. 
Tá faltando alguém gritar. Feito um trem desgovernado. Quem trabalha tá ferrado. Nas mãos de 
quem só engana. Feito mal que não tem cura. Estão levando à loucura. O país que a gente ama. 
Feito mal que não tem cura. Estão levando à loucura. O Brasil que a gente ama”.
No último livro da trilogia, Ordem e progresso, apresenta-se a derrocada 
final do patriarcado no Brasil, principalmente após o surgimento do trabalho 
livre. Nesta obra, Freyre aborda o Brasil republicano, logo após a monarquia e a 
escravatura, demonstrando a presença de um novo país, marcado pelo nascimento 
da industrialização, da chegada de imigrantes e pela urbanização.
Prezado(a) acadêmico(a)!!! Leia parte da entrevista feita com Gilberto Freyre em 
que duas perguntas referem-se à Casa-Grande e Senzala. Leia com atenção!
NOTA
IMPORTANT
E
64
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
GILBERTO FREYRE, UM MENINO AOS 83 ANOS
Ganhador do Prêmio Moinho Santista em 1964, o autor de Casa-Grande 
e Senzala mantém acesa a chama da criatividade e trabalha como nunca.
Aos 83 anos, ele ainda tem muito do menino de engenho que convivia com 
antigos escravos da família em Pernambuco, onde nasceu, e demonstra pleno 
vigor físico e intelectual, participando das comemorações do cinquentenário 
de sua principal obra, Casa-Grande e Senzala, marca raras vezes registrada 
na história da cultura brasileira. Sociólogo, escritor, cientista político e autor 
respeitado no Brasil e fora dele. Gilberto Freyre é detentor de inúmeras láureas 
concedidas por diversos países e tem ministrado constantes cursos no exterior 
a respeito do homem brasileiro e suas raízes. Supremamente criativo, como ele 
mesmo se define, está escrevendo o livro de suas memórias, cujo nome revelou a 
SANTISTA, nesta entrevista exclusiva realizada na Fundação Joaquim Nabuco, 
em Recife. Fala de sua vida e de sua obra, lembrando que Casa-Grande e Senzala 
começou a ser escrita na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, como 
resultado de uma constatação que se tornou angustiante na época: não sabia o 
que era o Brasil e o que era ser brasileiro. Conta sua paixão por uma filha de ex-
escravos de sua família e confessa: “Sou intratável de manhã”.
SANTISTA: — Como nasceu Casa-Grande e Senzala?
Freyre — Desde os meus tempos de estudante no exterior eu verificara 
que não sabia o que era o Brasil. Meus colegas europeus, asiáticos, africanos e 
americanos tinham perfeita noção do que era seu país e sua nacionalidade. Aí, 
você vai dizer – “então, você era inteiramente ignorante das coisas do Brasil?” 
Não, eu sempre estava muito bem informado sobre o meu país. Para a minha 
idade, 19 anos, eu estava muitíssimo lido sobre o Brasil e conhecia bem os 
principais autores nacionais, mas nenhum deles me dava a ideia do que era o 
Brasil e do que era ser brasileiro. Daí é que me veio a ideia de me descobrir a 
mim mesmo e de descobrir o que era o Brasil. Portanto, eu tinha uma nebulosa 
de livros que eu ainda não sabia o que viesse a ser. A ideia tomou corpo na 
Universidade de Stanford, na Califórnia, que me havia convidado para dar 
dois cursos sobre o Brasil, um de bacharelado e outro de doutorado. Tive, 
então, de sistematizar uma síntese do Brasil para estudantes americanos de 
primeira ordem, pois Stanford é a universidade americana mais seletiva, social e 
intelectualmente. Aí, nasceu Casa-Grande e Senzala. Em Stanford havia a maior 
coleção de livros brasileiros da época, uma brasiliana montada por um geólogo 
que estivera no Brasil e se entusiasmara pelo nosso país. Seu nome era John 
Casper Branner.
Santista — Quanto tempo o senhor gastou escrevendo Casa-Grande e Senzala?
Freyre — Uns dois anos. Comecei em 1931, em Stanford, continuei no 
Rio de Janeiro e acabei em Recife.
Santista — Alguns críticos afirmam que Casa-Grande e Senzala é uma obra 
puramente regionalista, que retrata as raízes do homem nordestino e não do homem 
TÓPICO 4 | PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
65
FONTE: GILBERTO FREYRE: um menino aos 83 anos. Santista, São Paulo, v. 1, n. 2, nov. 1983, p. 
16-18. Disponível em: <http://bvgf.fgf.org.br>. Acesso em: 28 fev. 2010.
3 PENSADOR MARXISTA: FLORESTAN FERNANDES
brasileiro. O senhor concorda com essa crítica?
Freyre — Não. Acho isso uma imbecilidade de quem não conhece o 
Brasil. O livro dá atenção a Pernambuco, sobretudo, porque em Pernambuco 
começou a haver civilização no Brasil. Não foi em São Paulo. Em São Paulo, 
fundou-se um engenho no século XVI. Enquanto se fundava esse engenho, perto 
de Santos, surgia uma constelação de engenhos e casas grandes em Pernambuco, 
constituindo a verdadeira raiz do Brasil. Esta é a tese de Casa-Grande e Senzala, 
pois a família – e não o governo ou a Igreja – é que foi a raiz brasileira, cuja força 
germinal você encontra aqui, e não em outro lugar do Brasil. Essa crítica é de 
gente do sul e você sabe como seus conterrâneos são exclusivistas. Eles querem 
que tudo tenha começado por lá. Veja bem. Eu admiro o bandeirante, mas ele 
foi um nômade, de pouca fixação. A fixação em algum ponto do Brasil – vamos 
dizer, vertical – começou aqui. Daí, o símbolo casa grande e senzala ser muito 
importante, pois foi uma fixação natural. A casa grande era aceita não só como 
residência, mas também como banco, escola e uma série de funções.Sou um marxista que acha que a solução para os problemas dos países 
capitalistas está na revolução. Dizer isso não é uma fanfarronice. É 
assumir, de forma explícita, o dever político mínimo que pesa sobre 
alguém que é militante, embora não esteja em um partido comunista 
e que, afinal de contas, tentou, durante toda a vida, manter uma 
coerência que liga a responsabilidade intelectual à condição de 
socialista militante e revolucionário.
Florestan Fernandes
Nascido em São Paulo, no dia 22 de julho de 1920, sua luta pela vida começou 
já na infância, para conquistar o próprio nome – já que a patroa de sua mãe o chamava 
de Vicente, por considerar que Florestan não era nome de pobre – e sobreviver. 
Começou a trabalhar aos seis anos, o que o impediu de completar o curso primário 
e o levou a se formar no curso de madureza (supletivo). Em seguida, ingressou na 
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em 1947, 
formando-se em Ciências Sociais. Doutorou-se em 1951 e foi assistente catedrático, 
livre-docente e professor titular na cadeira de Sociologia, substituindo o sociólogo e 
professor francês Roger Bastide em caráter interino até 1964, ano em que se efetivou 
na cátedra. Florestan Fernandes morreu em São Paulo, no dia 10 de agosto de 1995.
Afirmo que iniciei a minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando 
precisei ganhar a vida como se fosse um adulto e penetrei, pelas vias da experiência 
concreta, no conhecimento do que é a convivência humana e a sociedade.
Florestan Fernandes
66
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
FONTE: Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br /
florestan.htm>. Acesso em: 24 maio 2010.
FIGURA 8 – FLORESTAN FERNANDES
Sociólogo e professor universitário com mais de cinquenta obras 
publicadas, transformou as Ciências Sociais no Brasil e estabeleceu um novo estilo 
de pensamento. Seu trabalho de professor o fez reconhecido internacionalmente. 
Foi mestre de sociólogos renomados, como Octavio Ianni e Fernando Henrique 
Cardoso. Cassado com base no AI-5, em 1969, deixou o país e lecionou nas 
universidades de Columbia (EUA), Toronto (Canadá) e Yale (EUA). Retornou ao 
Brasil em 1972 e passou a lecionar na PUC-SP. Não procurou reintegrar-se à USP, 
da qual recebeu o título de professor emérito em dezembro de 1985. 
Florestan sempre incentivou o uso da crítica sociológica para o entendimento 
das contradições profundas da sociedade brasileira. Para ele, o ponto de partida 
para uma análise crítica da sociedade estava em seus padrões ou estruturas, ou 
seja, nos fundamentos da organização social. 
Seus principais temas de interesse na Sociologia foram: “[...] análise crítica 
do capitalismo dependente no contexto do capitalismo monopolista, relações sociais, 
estruturas de classes da sociedade brasileira, Estado, ideologia e papel do intelectual 
nos embates sociais e políticos”. (FERREIRA, 2001, p. 101). 
O conjunto de suas obras está relacionado com a dominação burguesa e a 
busca de uma alternativa para a emancipação desta dominação.
Segundo o sociólogo Celso Frederico, na visão florestaniana o 
subdesenvolvimento caracteriza, com traços nítidos e quem sabe definitivos, a 
sociedade brasileira. Ainda para o sociólogo (1998, p. 3):
[...] a peculiaridade da formação social brasileira deixou de herança 
“uma sociedade civil não civilizada”, uma burguesia débil, incapaz 
de propor um projeto nacional e ampliar a democracia. [...] o modelo 
clássico de revolução burguesa foi substituído pela acomodação 
da classe dominante com o imperialismo e a manutenção de uma 
“democracia restrita” com todos os seus subprodutos (patrimonialismo, 
mandonismo, paternalismo, clientelismo e fisiologismo político). 
TÓPICO 4 | PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
67
Caro(a) acadêmico(a), a seguir veremos um texto em que Florestan 
Fernandes apresenta sua opinião sobre a civilização humana e a violência na 
sociedade. Ótima leitura!
ODIAI-VOS UNS AOS OUTROS
A violência destrutiva cresce mais depressa que a fome, os milhões de 
miseráveis ou subumanos e que a corrupção. O capitalismo selvagem encontra 
no Brasil o seu laboratório natural. Países capitalistas pobres e ricos carregam 
e multiplicam “a maldição do sistema”. Tomando-se dois extremos: os EUA 
concentram em suas minorias raciais e étnicas o “mundo dos outros”, dos que 
nasceram para pôr em evidência a negação da ordem, o seu avesso, o que ela seria 
sem a civilização. O “nosso mundo” não é o paraíso. Mas o preço de ficar dentro 
dele consiste na neurose, no consumo do álcool e de drogas, a convivência com 
uma dualidade ética descomunal, ignorada nessa escala por outras civilizações 
anteriores, a exportação de guerras localizadas, regionais ou mundiais de defesa 
da democracia e do cristianismo... Os que penetram nesse “nosso mundo”, em 
uma situação modesta ou em toda a plenitude, julgam-se (e são considerados no 
exterior), seres que descobriram a felicidade. Constituem quase 75% da nação e 
podem ser considerados felizes, enquanto não se questionar a natureza e o custo 
social dessa felicidade. Ali, perto dos EUA, deparamos com o Haiti. Lá, nem os 
ricos e poderosos podem imaginar o que seja felicidade. O “estado normal das 
coisas” é o terror. A miséria mais abjeta, o servilismo mais completo, a barbárie 
pura se mostram sem disfarce. O homem não é lobo de outro homem. Só os 
que são lobos são homens. O “nosso mundo” não é a contraface do “mundo 
dos outros”. Os “outros” não pertencem a nenhum mundo. Trata-se da barbárie 
sem dimensão humana. Os melhores da terra, os únicos que são humanos por 
seu sofrimento e por sua coragem, que lutam sem tréguas contra a barbárie, 
são excluídos, temidos e dilacerados pelo terrível engenho de poder que a 
civilização e o colonialismo colocaram nas mãos de uma minoria intrínseca e 
organicamente criminosa. 
O que gera o “nosso mundo” nos EUA e uma casta de “vampiros de 
almas” no Haiti? Os mesmos fatores, que se expressam através dos mesmos 
efeitos. Contradições insolúveis da herança colonial, racionalizada em um país e 
ignorada no outro; e a objetificação do ser humano, conduzida a seus extremos 
sob o capitalismo monopolista da era atual na superpotência, incubada no outro 
como a necessidade maldita de impedir a anarquia “lá em baixo”... Jamais a 
civilização alcançou tamanha perversidade no disfarce e na defesa da barbárie 
– nem na história antiga, nem na história moderna, diga-se o que se quiser dos 
romanos ou dos ingleses. A sociedade civil, engendrada pelo capital e pela 
dominação burguesa, distribuiu desigualmente o progresso e o aplica com 
critérios diferentes dentro de seus muros e na imensa periferia, que se erige no 
seu império. 
 
Confrontadas ao Brasil, tais reflexões parecem incômodas e incoerentes. 
E a “confraternização do Natal”, o nosso estranhado amor à família, a nossa 
68
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
moderação “centrista” na preservação da ordem, a nossa vocação cristã? Onde 
estariam os “mores”, os fundamentos morais do nosso medo de ser e da nossa 
sociedade, se o que existe de materialismo vulgar nos EUA e de carnificina 
coletiva impiedosa no Haiti se reproduzissem aqui? Segundo tradição 
secular, “Deus corrige de noite o que fazemos de errado durante o dia”. Isso é 
infantilidade! A noite e o dia estão engolfados em um mesmo processo, que faz 
com que o desenvolvimento capitalista origine um mundo só, uma composição 
compacta, graças à qual o Brasil cresce e se expande como uma nação que é, 
dialeticamente, EUA e Haiti, não como entidades distintas ou superpostas, mas 
como uma unidade complexa e indissociável, em sua diversidade. O que há de 
EUA no Brasil sobrevive, se reforça e se agiganta à medida que aquilo que é 
Haiti se perpetue. Quem não acreditar nisso pergunte a sério por que “os dois 
Brasis” são, na verdade, um só e a seiva e os dinamismos capitalistas de ambos 
se entrecruzam e se fundem. A interpenetração é tão forte, que cada um deles 
possuialgo, em proporções variáveis, de EUA e de Haiti. A civilização que 
importamos e que nos sateliza como parte estrutural, funcional e histórica do 
império, requer que caminhemos nessa direção, como povo e como nação. 
 
O corolário matemático dessa equação – e sua comprovação experimental 
– procede da evolução da violência. Os bandeirantes, os senhores de escravos 
ou os antigos donos do poder são justamente tidos como os picos da violência. 
Ora, eles refletiam a barbárie de uma civilização que jamais poderia dar a 
medida exata dos limites da violência pessoal autodestrutiva e da violência 
coletiva institucional, paridas pela civilização do capitalismo monopolista de 
nossa era. Os indígenas, os negros, os miseráveis da terra, os párias urbanos 
de nossos dias oferecem os contornos desse tipo de violência em massa e em 
profundidade. O modo pelo qual primeiro se busca desumanizar, em seguida 
se tenta desagregar e destruir o que “é diferente”, o “divergente”, atesta quão 
longe chegamos não mais do padrão do “homem lobo de outro homem”, mas na 
indiferença diante do que é humano. Já não poderíamos dizer como Marx: “tudo 
que é humano me interessa”. No fim do século XX e no limiar do século XXI, os 
que são cultos e poderosos cultivam outro aforismo: “tudo que é humano me 
incomoda e me desilude”. Por quê? Presumivelmente, porque o ser humano 
deixou de ser “a medida de todas as coisas”. É dessa perspectiva que vejo o 
massacre infame e covarde contra os divergentes, aqueles que têm a coragem de 
ostentar a sua condição humana diferente e não temem o amor, na miséria ou 
na grandeza, porque é dentro dele e através dele que constroem o seu mundo 
à parte e as condições sociais e morais de sua existência. Estou naturalmente 
falando da morte a que foi cruelmente destinado Luiz Antonio Martinez Corrêa. 
O talento é malvisto em nosso meio. Vinculado a uma condição divergente, 
ele se alça às mentes sem corações como um crime, um crime contra a essência 
sagrada da sociedade, como diria o velho Durkheim, e que só poderia receber 
a punição exemplar. A morte pelo crime real, dos criminosos reles e de sarjeta. 
O talento pode ser tolerado. A divergência, em suas várias modalidades, pode 
ser tolerada. A fusão dos dois e, em particular, o grau de liberdade que ambos 
pressupõem desequilibram os pratos da balança. O atentado ao elemento 
sagrado da “boa sociedade”, daquela sociedade que oculta a barbárie atrás da 
TÓPICO 4 | PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
69
TEMPO!
“Escrever é a melhor maneira de pensar. Quando escrevemos,  o pensamento perde a 
arrogância e se deixa guiar pelo que desconhece. Escrever, portanto, é pensar no escuro” 
(José Castello).
4 O INTELECTUAL INFLUENTE: FERNANDO HENRIQUE 
CARDOSO
UNI
civilização imaginária, exige o sacrifício do que atentou contra as vigas morais 
mestras do “nosso mundo”. 
Eis aí por que tem razão José Celso Martinez Corrêa: esse é um crime 
político. Ele é político por várias razões. Quando a defesa da ordem passa pela 
condenação e pela destruição do “ofensor”, a punição é expiatória e emerge, 
em primeiro plano, em sua razão política essencial. Ele é um crime político 
porque toleramos que tal espécie de punição sangrenta se dissemine e aumente, 
como se fosse uma gangrena. Cada um de nós, todos nós, temos uma parcela 
da culpa e uma participação direta ou vicária no crime. Ele é um crime político 
porque é um crime da “pólis”: a cidade, ao civilizar-se, solta a barbárie de suas 
amarras. Ficamos cúmplices dessa disseminação e multiplicação da barbárie, 
cooperando na fabricação das premissas históricas antiéticas do capitalismo 
monopolista da era atual. Os que são socialistas e, em particular, os que se 
dizem cristãos colaboram, assim, na criação dessa barbárie, que é requerida 
pelo esplendor e pela reprodução do império. Contra esse crime, não adianta 
perseguir “criminosos” – individuais ou coletivos, espontâneos ocasionais ou 
institucionais. O “criminoso” também é uma vítima, o instrumento da “punição” 
e, sem o saber, do “poder do império”. A alternativa está em outro padrão de 
civilização, em uma civilização sem barbárie, que converta cada ser humano 
em combatente da propagação de um humanismo socialista e em agente da 
transformação socialista do mundo, da conquista da liberdade com igualdade.
FONTE: Adaptado de: <http://almanaque.folha.uol.com.br/florestan9.htm>. Acesso em: 25 maio 
2010.
Nascido no Rio de Janeiro em 1931, é casado e tem três filhos. Sociólogo 
graduado na Universidade de São Paulo, afirmou-se desde o final dos anos 
sessenta como um dos mais influentes intelectuais latino-americanos na análise 
de temas como os amplos processos de mudança social, desenvolvimento e 
dependência, democracia e reforma do Estado. A partir de uma bem-sucedida 
carreira acadêmica e intelectual, Cardoso teve participação ativa na luta pela 
70
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
Seus principais livros publicados no Brasil são: Capitalismo e escravidão 
no Brasil meridional (1962), Empresário industrial e desenvolvimento 
econômico no Brasil (1964), Mudanças sociais na América latina (1969), 
Política e desenvolvimento em sociedades dependentes (1971), O 
modelo político brasileiro (1972), Autoritarismo e democratização (1975), 
Democracia para mudar (1978), As ideias e seu lugar (1980), Perspectivas: 
ideias e atuação política (1983), A democracia necessária (1985), A 
construção da democracia (1993), Negros em Florianópolis: relações sociais 
e econômicas (2000). 
É também coautor de: Dependência e desenvolvimento na América 
Latina (com Enzo Faletto, 1969), São Paulo 1975: crescimento e pobreza 
(et al., 1975), Os partidos e as eleições no Brasil (com B. Lamounier, 1975), 
Amazônia: expansão do capitalismo (com G. Muller, 1977), O Presidente 
segundo o sociólogo, Entrevista a Roberto Pompeu de Toledo (1998),. O mundo 
em português. Um diálogo (com Mário Soares, 1998).
FONTE: Disponível em: < http://blogdovalente.com.br/wp-content/
uploads/2016/09/fhc2.jpg>. Acesso em: 22 de Junho de 2017.
FIGURA 9 – FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
FONTE: Disponível em: < http://www.ifhc.org.br>. Acesso em: 24 maio 2010.
redemocratização do Brasil. Eleito Senador do Estado de São Paulo, foi membro 
fundador do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em 1988 e liderou a 
bancada desse partido no Senado até outubro de 1992. Foi Ministro do governo 
do Presidente Itamar Franco nas pastas das Relações Exteriores (10/92 a 05/93), e 
da Fazenda (05/93 a 03/94). Foi também Presidente da República Federativa do 
Brasil por dois mandatos consecutivos (de 01/01/1995 a 01/01/2003).
Ex-professor catedrático de Ciência Política e atual Professor Emérito 
da Universidade de São Paulo; foi Diretor Associado de Estudos na École des 
Hautes Études en Sciences Sociales em Paris, e professor visitante no Collège de 
France e na Universidade de Paris-Nanterre. Ocupou a cátedra Simon Bolívar 
na Universidade de Cambridge e ensinou nas universidades de Stanford e de 
Berkeley.
TÓPICO 4 | PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
71
Nos últimos anos, a chamada globalização financeira vem dando 
crescentemente as cartas no concerto das nações. Neste sentido, a Teoria da 
Dependência, uma das teorias mais estudadas no campo acadêmico, tem a nos 
ensinar, ou a nos lembrar, que as situações de dependência assumem muitas 
formas, que cada uma delas exige atenção especial e que dependência e crescimento 
econômico não são incompatíveis. Portanto, crescimento não significa “entrar no 
Primeiro Mundo”.
Para explicar de forma clara e explícita esta teoria, vamos nos reportar ao 
excelente texto de Delson Ferreira (2001, p. 104-110). Leia-o atentamente!
O recurso ao autoritarismo militar foi voltado para dar seguimento ao 
proces so de modernização capitalista que, a partir daquele momento, devia ser 
implemen tado sob qualquer custo. O populismo havia esgotado, na visão 
dos mentores políti cos, militares e empresariais do golpe, suas possibilidadesde encaminhar tal mo dernização. Para essa concepção, desenvolvimento e 
insegurança eram incompatí veis; daí a imposição do novo lema ao país, que vinha 
sendo elaborado pela Escola Superior de Guerra desde 1949, desenvolvimento e 
segurança. Como já disse Fer nando Henrique Cardoso, 
[...] os militares, apesar do autoritarismo e da truculência, modernizaram 
o país e instauraram em definitivo o capitalismo, inaugurando uma nova ordem 
ca pitalista que gerou transformações agudas na sociedade brasileira, integran do 
o país ao sistema de produção internacional, produzindo, para o bem e para o 
mal, consequências sociais profundas. (CASTELO, 1995). 
Retomando as duas décadas anteriores ao golpe militar, Celso Furtado 
foi um dos mentores maiores da reflexão econômica brasileira e latino-
americana. Foi di retor (1949) da Divisão de Desenvolvimento Econômico da 
Cepal e ajudou na cria ção da escola cepalina de pensamento econômico. A 
proposta teórica de Furtado baseou-se, em termos gerais, em uma interpretação 
histórica da realidade econômi ca latino-americana e mundial, que definiu o 
subdesenvolvimento como fruto das relações internacionais. Dessa forma, a 
saída da condição do subdesenvolvimento passaria pelo incremento acelerado 
de um processo de “industrialização com prote cionismo, planejamento e 
forte influência do Estado”. (TOLEDO, 1993). Juntamente com o economis ta 
argentino Raúl Prebisch, foi responsável pela elaboração do conceito cepalino 
de subdesenvolvimento, fonte primeira dos debates que norteiam, ainda nos 
dias de hoje, parte das discussões sobre os obstáculos, as possibilidades e os 
caminhos do desenvolvimento econômico brasileiro.
Essa é, em resumo, a base teórica sobre a qual foi alicerçada a teoria 
da depen dência, formulada por Fernando Henrique Cardoso e pelo sociólogo 
chileno Enzo Faletto. De acordo com Francisco de Oliveira, a teoria da dependência 
consiste, na verdade, em “um epígono da teoria do subdesenvolvimento 
cepalino-furtadiana”, ou seja, existiria uma relação de descendência direta entre 
a formulação de Cardoso e Faletto e as concepções furtadianas. No entender de 
Celso Furtado (FREYRE; SILVA, 1995), essa relação tem outra dimensão. Para 
72
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
Autores tão diversos quanto Tocqueville, Spencer e Comte foram mobilizados 
para nos ditar o caminho da modernidade. O resultado foi uma adulteração do sentido das 
ideias, assimiladas para atender a fins, por vezes, opostos àqueles a que serviam nos países de 
origem, o que nem sempre implicou a legitimação do atraso. Vejamos, por exemplo, como 
se deu a adoção do Positivismo no Brasil. De emblema da ordem em Comte, a doutrina se 
resumiu entre nós a signo do progresso. Seus ímpetos uniformizadores se viram mitigados pela 
formação social brasileira, plural, desordenada. (CARDOSO, 1986).
UNI
ele, “[...] o conceito de dependência foi vulgarizado nos anos 60 por sociólogos 
latino-americanos e só indiretamente se liga à teoria do subdesen volvimento”. 
[...].
O conceito de dependência, uma de suas principais contribuições para 
a So ciologia, fundamenta-se em uma relação de subordinação entre as partes 
compo nentes do sistema capitalista, ou seja, entre as chamadas economias 
centrais (paí ses desenvolvidos) e periféricas (países subdesenvolvidos). Nessa 
concepção, os países de economia dependente viveram, necessariamente, a 
condição colonial e a experiência do desenvolvimento industrial tardio.
Dependeriam, dessa forma, para a continuidade e incremento do 
processo de desenvolvimento industrial, de capitais e tecnologia adquiridos no 
centro do siste ma capitalista. Esses aportes de financiamento e as importações 
de maquinário e indústrias não bastariam para engendrar um processo 
de desenvolvimento autô nomo, que se promovesse de modo sustentado e 
desenvolvesse tecnologia própria, para gerar uma economia exportadora forte 
o bastante a ponto de poder pagar os empréstimos e as importações. Esse 
vínculo de subordinação é que impediria, con sequentemente, o controle local 
das decisões sobre as políticas de produção e con sumo nos países periféricos.
A formulação do problema da dependência que Cardoso escreveu com 
Fa letto, entre 1966 e 1967, que consta no livro Dependência e desenvolvimento 
na América Latina, levou adiante o pensamento sociológico que se organizou 
a partir do final da década de 40 na América Latina, prosseguindo em 
outras pesquisas e vertentes de interpretação até meados da década de 70. O 
trabalho desses dois in telectuais apresentou problemas novos ao debate e ao 
conhecimento sociológico relativo à questão da dependência. Para eles, “[...] a 
relação interna das classes sociais é que torna possível e dá fisionomia própria 
à dependência”. Isso significa que, a des peito de ser derivado da própria 
estrutura das economias periféricas e, ao mesmo tempo, do conjunto da 
economia capitalista mundial, a situação de dependência só operaria baseada 
em decisões que seriam resultantes de lutas políticas internas, tomadas no bojo 
do processo político de cada país.
TÓPICO 4 | PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
73
Na compreensão de ambos, a dependência não implicaria 
necessariamente a estagnação econômica. O quadro de subordinação aos 
países centrais, se analisado o contexto internacional da época e os interesses 
dominantes no âmbito do empre sariado nacional, demonstraria o contrário. 
Após o advento da “internacionaliza ção do mercado interno (entrada das 
multinacionais) e da nova divisão internacional do trabalho”, que possibilitou 
alguma industrialização a países que antes eram me ros exportadores de 
produtos agrícolas, a situação de dependência não colidiria “mais com o 
desenvolvimento das economias dependentes”. O que se ressalta é que esse 
desenvolvimento, no entanto, não implicaria a ideia de resolução do proble ma 
da promoção de maior justiça social. Como dizem os autores,
[...] evidentemente, esse tipo de industrialização vai intensificar o padrão 
de sis tema social excludente que caracteriza o capitalismo nas economias 
periféri cas, mas nem por isso deixará de converter-se em uma possibilidade 
de desen volvimento, ou seja, um desenvolvimento em termos de acumulação 
e trans formação da estrutura produtiva para níveis de complexidade crescente. 
Esta é a forma que o capitalismo industrial adota no contexto de uma situação 
de dependência.
Os beneficiários desse processo estariam situados entre as empresas 
estatais, que teriam puxado o desenvolvimento industrial de base (siderurgias e 
outros), os conglomerados empresariais multinacionais e as empresas nacionais 
associadas a esses dois setores, configurando o que ficou denominado de “tripé 
do desenvolvi mento dependente-associado”.
Cardoso retomou o tema da dependência em 1995, já na condição de 
Presi dente da República. Em texto preparado para um seminário do Centro 
de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, cujo objetivo era 
“fazer um exercício comparativo para mostrar o que mudou na perspectiva de 
desenvolvimento entre os anos 60 e os dias de hoje”, ele diz que sua ambição e 
de Faletto, relativamente ao fato de suas reflexões sobre a dependência serem 
consideradas uma teoria, “sempre foi mais modesta”. Em suas palavras, o 
que eles objetivavam era dentro da análise geral do capitalismo, mostrar que 
as relações entre cen tro e periferia haviam mudado. Ou seja, em oposição às 
visões determinis tas que uniam a teoria do imperialismo à impossibilidade 
do desenvolvi mento capitalista nos países periféricos, descrevíamos as novas 
relações de dependência que permitiam a industrialização das economias 
subdesen volvidas. 
Esta era a novidade da nossa visão sociológica e econômica. Por outro 
lado, enquanto sociólogos, colocávamos ênfase na dinâmica interna dos países 
subdesenvolvidos. Dizíamos que as relações econômicas eram também políticas 
e, naturalmente, sociais. Em vez de repetir que havia barreiras, impasses e 
impossibilidadesde desenvolvimento, dizíamos que havia – dependendo 
das opções políticas e de surgirem atores sociais novos – oportunidades de 
74
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
desenvolvimento econômico, apesar da relação geral de dependência. Nos anos 
70, desenvolvi melhor a nova forma de relacio namento entre centro e periferia 
através do conceito de desenvolvimento dependente-associado e passei a 
interessar-me, crescentemente, pelas op ções políticas que levariam a situações 
de maior liberdade de escolha, a co meçar pela quebra do autoritarismo e, mais 
tarde, pela existência de novas formas de desenvolvimento econômico e social. 
Neste ponto, critiquei, am plamente, o estatismo e o que chamei de “burguesia 
de Estado”, ou seja, a burocracia econômica herdeira do autoritarismo político 
e filha dileta dos monopólios oficiais.
Sobre o conceito de desenvolvimento, Cardoso entende que, nos anos 
60, talvez ele
[...] se identificasse essencialmente com o progresso material, com 
o crescimento econômico. A análise de suas implicações tinha uma certa 
simplicidade: ad mitia-se que era o centro do processo social. Para alguns, o 
progresso material levaria espontaneamente à melhoria dos padrões sociais. 
Para outros, os “dependentistas”, a relação era mais complexa. O jogo político 
intervinha e, em função das formas pelas quais se organizava, o crescimento 
tomaria rumos diferenciados, com efeitos também diferenciados na estrutura 
social.
Quanto ao problema das possibilidades de inserção dos países 
subdesenvolvi dos no âmbito desenvolvido do sistema capitalista, o autor 
afirma que esse era
[...] um segundo tema articulado pela “teoria da dependência”: a 
influência dos modos de inserção internacional dos países sobre as modalidades 
concretas do desenvolvimento. É, na teoria, a dimensão mais original, a da 
dependência propriamente dita. [...] imaginávamos que a dependência fosse um 
fator homogeneizador das possibilidades dos países em desenvolvimento para 
sair de sua condição de pobreza. Haveria, lembro, diferenças nas possibilidades 
de crescimento basicamente em função do controle do processo de acumulação 
de capital. Mas, em sua essência, os capitalismos central e periférico se afasta-
vam. Mesmo que um país periférico crescesse – e meu livro foi controvertido 
porque admitia a simultaneidade da dependência e do desenvolvimento – o 
faria de forma distorcida. Era como se condição periférica se tornasse fatal. Um 
destino de injustiça.
O problema do papel do Estado foi de fundamental importância, uma 
vez que ele constituiria o motor do processo de desenvolvimento. Para Cardoso:
[...] nos anos 60, tínhamos uma crença, ainda forte, na capacidade que o 
Estado tinha de moldar o progresso. Era promotor, estimulador e, acima de tudo, 
uma força potencialmente autônoma. Para muitos teóricos da dependência, a 
solução só viria através da exacerbação das atribuições do Estado e, no limite, 
o próprio socialismo. [...] a teoria da dependência não pretendia desenvolver 
TÓPICO 4 | PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
75
Este texto que você está lendo é extenso em significados. Não fique angustiado(a), 
prezado(a) estudante. É nossa tarefa, junto a esta unidade, esclarecermos a Teoria da 
Dependência. Vamos lá!!! Estamos quase acabando!!!
UNI
uma visão das relações internacionais em sentido estrito. [...] os anos 60 veem 
o início das negociações Norte-Sul e a perspectiva de que, através de ar-
ranjos negociados, balizados por algum critério de justiça – os pobres não se 
submeteriam a critérios de reciprocidade – seriam atenuadas as disparidades 
internacionais de renda. Entendíamos que os governos poderiam transformar 
as relações econômicas entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvi-
mento. Isto era a contrapartida de uma espécie de ‘subestimação’ da necessi-
dade de reformas no interior de cada país, derivada, como indiquei, de uma 
crença quase mágica no poder libertador da democracia.
Na conclusão de seu texto, após refletir sobre os quatro pontos expostos, 
Cardoso diz não ter pretendido apenas voltar com nostalgia aos problemas 
levan tados pela teoria da dependência, mas
[...] chamar a atenção para um problema central de nosso tempo, o 
desenvolvi mento. Ainda mais do que nos anos 60, o tema se tornou político 
no sentido forte da expressão. A fragmentação e ampliação do conceito de 
desenvolvi mento, os novos dilemas da inserção internacional dos países, a 
difusão, entre ricos e pobres, do problema do desemprego, a reforma do Estado, 
a complexi dade da gestão do Estado, são todos parcelas de uma questão central: 
o que queremos que nossas sociedades sejam no futuro.
Crítico das formulações de Cardoso, em cujos escritos considera conter 
“[...] mais frases contorcidas do que os comentadores gostariam de admitir”, 
David Lehmann (CARDOSO, 1986), com base na ideia de que o capitalismo 
dependente poderia resultar em desenvolvi mento, traz à tona o que, a seu ver, 
caracterizou a ação deste intelectual-político. Para ele:
[...] em lugar da “ruptura” postulada por teóricos como Frank, 
Cardoso enge nhou-se em construir o que se poderia chamar de “deslizamento 
ideológico”. Não é difícil ver como isso se produziu. Num primeiro momento, 
seu argu mento destinou-se a fazer reconhecer que o capitalismo dependente 
também poderia constituir um processo dinâmico de desenvolvimento, e que 
suas ca racterísticas de desigualdade e injustiça não justificavam a negação dessa 
tese; desenvolveu uma explicação que procurava reavaliar a estrutura social 
76
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
e o sistema político do Brasil, e que só marginalmente se referia – e mesmo 
en tão como se o fizesse apenas em atenção à moda dominante – às empresas 
multinacionais e ao sistema capitalista mundial.
Ainda da perspectiva da crítica à teoria da dependência, ao demarcar 
a dis tinção existente entre o conceito de capitalismo dependente, formulado 
por Flores tan Fernandes, e a compreensão dos teóricos da dependência, Miriam 
Limoeiro Cardoso (1997, p. 14-15) entende que os:
[...] dependentistas tentam dar conta do presente das nações 
periféricas e dependentes recorrendo ao passado destas nações, 
especialmente na sua relação de tipo colonial com as suas metrópoles 
e o fazem como se com isso estivessem de fato recorrendo à história. 
Para eles, a dependência revelaria uma marca que teria ficado 
indelével e que teria sido constituída na época colonial, pela rela-
ção tipicamente colonial. Com isso, recuperam um passado e o nexo 
estrutu ral que o construiu. No entanto, ao tratar o presente sob essa 
ótica, como resto de algo que deveria ter sido superado para poder 
ter se tornado efetivamente passado, perdem a visão dinâmica do 
próprio presente, turvando ou impedin do a percepção das novas 
relações estruturadas pelos diferentes períodos do desenvolvimento 
capitalista, no caso a fase monopolista do capital. [...] a investigação 
dependentista não se orienta de modo a tomar o capitalismo como 
totalidade histórica significativa que por isso deva ser referência 
totalizante para sua análise.
Daí seus teóricos, da matriz cepalino-furtadiana a Fernando Henrique 
Car doso, acabarem caminhando em direção diversa daquela que inicialmente 
preten diam, uma vez que eles
[...] denunciam a dependência, mas a própria forma como a pensam 
e como for mulam a sua denúncia encaminha não para o enfraquecimento 
da domina ção, mas para o seu fortalecimento pela via interna, buscando a 
construção de um consenso nacional em torno da burguesia local e sob a direção 
dela. Sob a aparência de uma crítica radical, portanto, se esconde a submissão 
ao projeto hegemônico do capital, por meio do fortalecimento da fração local 
deste capital, como se tal fortalecimento por si só e sem a pressão dos demais 
setores da sociedade conduzisse à autonomização nacional. Neste sentido, o 
recurso à nação é usado como camuflagem dos mecanismos diretos de domi-
nação, que ocorrem a partir da produçãoenquanto exploração e dominação do 
trabalho.
Os anos 60 findaram sob as perspectivas sombrias do Ato Institucional 
nº 5 e da radicalização da ditadura militar, sob o governo do General Médici até 
1974. Os cientistas sociais, debaixo de condições mais que adversas, uma vez 
que o oxi gênio da atividade intelectual e científica é a liberdade de elaboração 
e de crítica, buscavam, como disse Florestan, com base na Sociologia que havia 
sido construída até aquele momento, refinar e consolidar aquela escora de 
reflexão sobre a lógica e o destino da sociedade brasileira.
TÓPICO 4 | PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
77
5 SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA E O HOMEM CORDIAL
De Sérgio Buarque de Holanda deve-se falar com a mesma alegria que 
ele sempre manteve. Nunca houve homem mais sábio, nunca houve homem 
mais erudito, nunca houve homem de maior seriedade intelectual. Mas também 
nunca houve ninguém mais brincalhão, alegre e até moleque, quando fosse o caso. 
Antonio Candido
Sérgio Buarque de Holanda nasceu em São Paulo, em 1902, e faleceu em 
1982. Depois de lecionar em várias instituições de educação superior, tornou-
se, em 1956, catedrático de História da Civilização Brasileira na Faculdade de 
Filosofia da Universidade de São Paulo. É autor de vários livros, dentre os quais 
se destacam: Cobra de vidro (1944), Caminhos e fronteiras (1956; Companhia 
das Letras, 1994), Visão do paraíso (1958), Livro dos prefácios (Companhia das 
Letras, 1996) e O espírito e a letra (Companhia das Letras, 1996). Entretanto, a sua 
obra mais conhecida na contemporaneidade é Raízes do Brasil (1936), que está 
na vigésima sexta edição (Companhia das Letras, 1995), e foi traduzida para o 
italiano, espanhol, japonês, alemão e francês.
FONTE: Disponível em: <www2.uol.com.br>. Acesso em: 24 maio 2010.
FIGURA 10 – SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA
Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, revela alguns aspectos 
importantes da cultura brasileira e do comportamento dos brasileiros. Na obra ele 
também procurou diferenciar a América colonizada pelos portugueses da América 
colonizada pelos espanhóis, evidenciando e criticando a formação patrimonialista 
brasileira.
No capítulo IV do livro “O semeador e o ladrilhador”, Sérgio Buarque 
de Holanda compara a presença espanhola com a presença portuguesa. Afirma 
que a presença espanhola deixou registrada sua grande vontade de criar cidades 
78
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
mais organizadas, diferentemente dos portugueses, que ele considerava mais 
desorganizados em termos geométricos.
No capítulo V, que é o mais comentado no campo acadêmico, Sérgio Buarque 
apresenta “O Homem Cordial”. Neste capítulo ele faz uma crítica às “virtudes 
brasileiras”, porque, para ele, é o homem do coração, que se opõe ao homem 
da razão. O cordial não quer dizer ser “bom”, ser cortês, mas sim quer dizer da 
“emoção”, a qual perturba a instituição das regras democráticas. Raízes do Brasil 
contribui para uma crítica de nossa sociedade não democrática, principalmente 
quando trata, ainda no capítulo V, sobre a compreensão e a distinção fundamental 
entre os domínios do público e do privado, buscando em Max Weber uma definição 
do funcionário patrimonial. 
Para o funcionário ‘patrimonial’, a própria gestão política apresenta-
se como assunto de seu interesse particular; as funções, os empregos 
e os benefícios que deles aufere relacionam-se a direitos pessoais do 
funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro 
Estado burocrático, em que prevalecem a especialização das funções 
e o esforço para se assegurarem garantias jurídicas aos cidadãos. 
A escolha dos homens que irão exercer funções públicas faz-se de 
acordo com a confiança pessoal que mereçam os candidatos, e muito 
menos de acordo com as suas capacidades próprias. Falta a tudo a 
ordenação impessoal que caracteriza a vida no Estado burocrático. O 
funcionalismo patrimonial pode, com a progressiva divisão de funções e 
com a racionalização, adquirir traços burocráticos. Mas em sua essência 
ele é de fato mais diferente do burocrático, quanto mais caracterizados 
estejam os dois tipos. (HOLANDA, 1995, p.146).
Sérgio Buarque de Holanda (1995, p. 146) sustenta ainda que: 
No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema 
administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a 
interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível 
acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das 
vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos 
fechados e poucos acessíveis a uma ordenação impessoal. 
Em suma, o que Sérgio Buarque discute em sua compreensão é que o 
famoso jeitinho brasileiro e a suposta falta de formalidade do brasileiro fariam 
com que ele fosse avesso à impessoalidade da burocracia estatal.
A seguir, sugerimos a leitura do texto de Alberto Pirró Ruggiero, sobre o 
estilo do líder brasileiro.
TÓPICO 4 | PERCORRENDO A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
79
LEITURA COMPLEMENTAR
O ESTILO PRIMORDIAL DO LÍDER BRASILEIRO É O PATERNALISMO?
Alberto Pirró Ruggiero
Recentemente foi realizada uma pesquisa pela doutora Elizabeth Zamerul 
com 386 gestores da Região Sudeste e constatou-se que a maioria absoluta deles se 
percebe como racional, isto é, pouco emocional, no seu cotidiano. Outra pesquisa, 
também recente, de Motta e Caldas, realizada com 2500 dirigentes e gerentes de 
520 empresas de grande e médio porte do Sudeste e Sul do Brasil, mostrou que o 
estilo brasileiro de liderar é o paternalismo.
Ainda neste estudo, os principais traços da administração brasileira, 
apontados por estes gestores, foram: 88% concentração de poder, 77% paternalismo; 
76% dependência, 71% lealdade às pessoas; 69% impunidade, 67% postura de 
espectador etc.
 
Segundo o dicionário Aurélio: paternal é próprio de pai. O paternalismo 
ocorre quando uma pessoa decide por outra, colocando limites à autonomia 
individual daquela. Geralmente, o objetivo explícito é ajudá-la. A intenção é 
louvável, resta saber se esta ajuda é a mais adequada.
A nossa sociedade cultua, desde cedo, a realização e a felicidade através 
do prêmio sem esforço. É grande a audiência de programas que premiam pessoas 
pobres. Ganhar na loteria é o sonho da maioria das pessoas. Por outro lado, o 
trabalho é ensinado, em muitos lares, como um sacrifício ou a única saída digna 
para quem não teve sorte na vida, de nascer num lar rico, de se casar com um 
milionário ou de ganhar na loteria.
 
Num dia destes, a própria autora deste artigo organizava uma palestra com 
a profissional de uma grande empresa e ela contou que, nas palestras anteriores, 
por melhor que fosse o tema, a audiência só era expressiva quando havia sorteios 
ao final. Isto nos faz refletir.
Excesso de autoridade dissimulado – as empresas paternalistas 
complementam esta visão cultural e se tornam protetoras dos seus empregados, 
atuando com excesso de complacência com os seus erros, dando benefícios não 
merecidos e dando-lhes afeto, e em troca, cobram lealdade e respeito. Isto se encaixa 
no que Maria Tereza Fleury denomina mito da grande família, que revela as duas 
faces presentes nas relações de trabalho: a visível, de solidariedade, de cooperação; 
e a face oculta, da dominação e submissão. Isto confirma a outra versão do Aurélio, 
de que o paternalismo é a tendência a dissimular o excesso de autoridade sob a 
forma de proteção.
 
Por outro lado, por que os empregados aceitam isto? Sérgio Buarque de 
80
UNIDADE 1 | SOCIOLOGIA: HISTÓRIA E CIÊNCIA
Holanda, contando sobre a origem da identidade brasileira, define o homem 
cordial como este ser que constrói suas relações sociais por meio dos motivos 
do coração, em detrimento dos da razão, ou seja, ele precisa “gostar” de alguém 
para se relacionar. Por isto, ele tem aversão às relações impessoais, movidas por 
interesses ou apenas ligadas a objetivos efêmeros, econômicos e políticos e requer 
relações duradouras,regidas pela fidelidade da palavra e pela segurança.
 
O autor ilustra com a relação senhor-escravo na qual, em caso de 
desobediência, o negro não era castigado por atrapalhar o processo produtivo 
(o que caracterizaria um princípio mais ligado à racionalidade marcante de uma 
economia voltada para princípios de mercado e lucro), mas por trair a confiança e 
o cuidado nele depositados pelo seu senhor.
 
Armadilha – o paternalismo se configura, então, como uma relação 
emocional, autoritária, hipnótica, que guarda uma armadilha ou um pacto 
oculto, o de privar o trabalhador de parte da própria autonomia, estimulando-o 
a permanecer na zona do conforto e emocionalmente dependente ou infantil, 
conformando-se com pouco reconhecimento, baixos salários, dedicando-se de 
forma desequilibrada, até desumana, em relação às outras áreas da vida, em nome 
da produtividade, e leva-o a se tornar institucionalizado, ou seja, muito inseguro e 
dependente da empresa.
Por outro lado, ele também se comporta como um filho mimado, que exige 
que a empresa cuide do seu futuro e reclama da empresa, até pelo que não fez por 
merecer. Nesta posição, ele não percebe necessidades de buscar melhorias e não 
assume a responsabilidade pela própria carreira.
Desta forma, como teremos empresas vencedoras e colaboradores fortes e 
protagonistas, que cuidam da sua própria história profissional e têm prazer em se 
dedicar ao trabalho, que contribuem com o melhor de si, para buscar realizações 
genuínas para todos? Se for isto o que buscamos, precisamos repensar nossos 
modelos de relações e criar condições que permitam o verdadeiro amadurecimento 
de todos. Neste contexto, um pouco mais de racionalidade não faria nada mal.
FONTE: Disponível em: <http://www.rh.com.br/Portal/Geral/Blog_Alberto_Ruggiero/5459/o-
estilo-primordial-do-lider-brasileiro-e-o-paternalismo.html>. Acesso em: 24 mar. 2010.
81
RESUMO DO TÓPICO 4
Caro(a) acadêmico(a), neste tópico você viu que:
• A visão de importantes sociólogos brasileiros: Gilberto Freyre, Florestan 
Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Sérgio Buarque de Holanda, que 
contribuíram para a compreensão da realidade social brasileira.
• Florestan se aplicou, a partir de certa altura, a estudar o mecanismo do privilégio, 
a natureza das oligarquias, a formação da burguesia, a exclusão do negro depois 
da Abolição e os vícios elitistas.
• Em Casa-Grande e Senzala, Gilberto Freyre fez um estudo da colonização 
portuguesa, descrevendo a formação da família e do patriarcado brasileiro, bem 
como a importância da miscigenação étnica como traço cultural. Alertou que há 
sempre um motivo econômico, no caso brasileiro a monocultura latifundiária, 
por trás das relações raciais.
• Gilberto Freyre gostaria de ver o Brasil desempenhando mais efetivamente 
do que agora uma missão benéfica ao Homem; em geral a missão que, 
transbordando das fronteiras nacionais, marcasse a presença brasileira em 
várias áreas do mundo: sobretudo naquelas de populações, culturas, passados, 
prováveis futuros, mais afins dos brasileiros.
• Cardoso e Faletto imaginavam que a dependência era um fator homogeneizador 
das possibilidades dos países em desenvolvimento para sair da sua condição de 
pobreza.
• O sociólogo Fernando Henrique Cardoso tem grande preocupação com o que 
queremos que nossas sociedades sejam no futuro.
• Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, revela alguns aspectos 
importantes da cultura brasileira e do comportamento dos brasileiros. 
• Sérgio Buarque discute em sua compreensão que o famoso jeitinho brasileiro 
e a suposta falta de formalidade do brasileiro fariam com que ele fosse avesso à 
impessoalidade da burocracia estatal.
82
AUTOATIVIDADE
1 Após ter lido todo o texto sobre a Teoria da Dependência, procure destacar 
três ideias que você considera importantes sobre esta teoria.
2 Para refletir um pouco mais sobre 
questões relacionadas ao conteúdo 
deste tópico, assista ao filme Avatar. 
Logo após, descreva quais trechos do 
filme remetem ao que foi discutido 
neste tópico. Não se esqueça 
de relacioná-los com os autores 
apresentados. Bom trabalho!
3 Sobre Gilberto Freyre podemos 
afirmar:
a) ( ) Na obra Casa-Grande e Senzala, o autor faz um estudo da colonização 
portuguesa, descrevendo a formação da família, do patriarcado brasileiro e 
da importância da miscigenação étnica como traço cultural na formação do 
povo brasileiro.
b) ( ) Que este argumentava que o desenvolvimento da sociedade abrange o 
crescimento e a complexidade, que são administrados pela interdependência 
e pelo poder.
c) ( ) Em sua compreensão, a sociedade brasileira, como qualquer outro 
organismo vivo, passaria por etapas com manifestação de estados normais e 
patológicos. E o estado mórbido ou patológico da sociedade brasileira seria 
caracterizado por fatos que colocassem em risco essa harmonia, os acordos 
de convivência, o consenso e, portanto, a adaptação e a evolução histórica 
natural da sociedade. 
d) ( ) Que nas suas obras defendia claramente a necessidade de implementar 
uma revolução socialista no Brasil, seguindo a orientação de Marx.
4 Assinale a alternativa na qual TODOS os nomes são de sociólogos brasileiros:
a) ( ) Fernando Henrique Cardoso, Max Weber, Karl Marx.
b) ( ) Florestan Fernandes, Gilberto Freyre e Fernando Henrique Cardoso.
c) ( ) Max Weber, Florestan Fernandes, Gilberto Freyre.
d) ( ) Roberto DaMatta, Fernando Henrique, Max Weber.
83
UNIDADE 2
PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM 
ÁREAS DIVERSAS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade, você será capaz de compreender:
• as discussões que envolvem modernidade e pós-modernidade;
 
• as possíveis influências das ideias moderna e pós-moderna na sua área de 
estudo;
• a diversidade de enfoque sobre as organizações;
• a evolução da teoria administrativa na visão de Alberto Guerreiro Ramos;
• as concepções de trabalho;
• os desafios e tendências no mundo do trabalho;
• a educação para o mercado de trabalho na legislação brasileira.
Esta unidade está dividida em quatro tópicos. Em cada um deles você encon-
trará atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados.
TÓPICO 1 – MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE EM DISCUSSÃO
TÓPICO 2 – ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
TÓPICO 3 – HOMEM CONTEMPORÂNEO: CONSCIENTE DA QUALIDA-
DE DE VIDA
TÓPICO 4 – TRABALHO E EDUCAÇÃO
84
85
TÓPICO 1
MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE EM 
DISCUSSÃO
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Na Unidade 1, você estudou que com a modernidade Deus foi substituído 
pela ciência, ou seja, buscou-se amparo na ciência com o intuito de entender o 
funcionamento do mundo e mais: até mesmo alterar muitas das estruturas 
existentes, como a física e a química, por exemplo. E assim, de certa forma, o 
homem moderno abandona Deus e busca com a razão seguir os seus próprios 
passos. Todavia, na atualidade, tem-se questionado muito se o que se postulava na 
modernidade ainda é plausível de se aceitar. Ou se novas ideias estão surgindo ou 
já surgiram e se substituem as postuladas na modernidade. 
 
Neste sentido, na atualidade tem-se postulado que estamos vivendo um 
novo período, conhecido como pós-modernidade. É claro que esta posição não 
é unânime, porém é possível encontrarmos referências da pós-modernidade 
no campo da Sociologia ou até mesmo em outras áreas, com maior ou menor 
intensidade.
2 PÓS-MODERNIDADE
Como já mencionado, não há unanimidade quanto à pós-modernidade. 
Outrossim, grosso modo, a pós-modernidade é o nome designado para as mudanças 
que aconteceram por volta dos anos 50 em diante, em diversos campos, entre eles: 
as ciências, as artes, avanços tecnológicos (computação, ciências cognitivas etc.). E, 
além disso, a pós-modernidade tomou corpo por volta dos anos 60 na arte pop e 
nos anos 70 quando chega à filosofia. (FERREIRA, 1987).
Com a chegada do pós-moderno no campo da economia, a produção de 
modo geral é em grande escala, tanto de bensnão duráveis quanto descartáveis. 
A cada dia marcas novas vão surgindo e novos produtos surgem, como que num 
passe de mágica, buscando atender os mais variados estilos de personalidade. O 
mercado faz envelhecer os produtos em curto espaço de tempo (tecnologias se 
tornam obsoletas em espaços de tempo cada vez menores). Este ritmo de produção 
tem levado as pessoas a consumir cada vez mais, pois fazer parte do mercado na 
atualidade é poder consumir, é ter cartão de crédito, ou seja, o mercado reconhece 
quem consome. Por essa característica, define-se também a pós-modernidade 
como a era do consumo. (FERREIRA, 1987). 
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
86
No entendimento de Sung (1992), a pós-modernidade é uma crítica radical 
aos postulados da modernidade. No campo da filosofia, as ideias pós-modernas 
têm como propósito desmontar, demolir o discurso filosófico da modernidade que 
tem se sustentado na razão, na felicidade e na liberdade, que são os baluartes da 
modernidade. De acordo com Sell (2006, p. 230-231):
[...] se o projeto da modernidade foi gestado e implementado ao longo 
da era moderna (séculos XV a XIX, o sonho de produzir a emancipação 
humana a partir da razão começa a ser questionado. Fenômenos como 
as duas grandes guerras e o questionamento de filósofos como Friedrich 
Nietszche (2000) e Martin Heidegger (1997), ou mesmo da chamada 
Escola de Frankfurt (ADORNO e HORHEIMER,1985), entre outros, 
começam a mostrar também o lado regressivo e negativo da razão. Diante 
deste contexto, teóricos sociais e filósofos como Jean François Lyotard 
(1988), Jacques Derrida (1973) Michel Foucault (1988), Vattimo (1996), 
Boaventura Souza Santos (1987), Zigmunt Baumann (1999) e outros 
apontam para o esgotamento da modernidade. Diante do fracasso do 
projeto da razão iluminista para construir uma sociedade supostamente 
livre e emancipada eles decretam o fim da era moderna. Estaríamos 
em uma nova etapa da vida social: a “pós-modernidade”. Apesar de 
aceitarem a crítica aos limites da razão ocidental, encarnada na ciência 
e na técnica, teóricos sociais como Jurgen Habermas (1985), Anthony 
Giddens (1991), Ulrich Beck (1997), Alain Touraine e outros discordam 
deste ponto de vista. Para eles, o processo de autoquestionamento da 
modernidade não indica os deslocamentos da modernidade para além 
do horizonte moderno. Na verdade as transformações da modernidade 
não conduzem ao seu fim, a uma relação mais crítica e consistente para 
o horizonte moderno. 
Ainda, dentre as mais diversas posições, há quem diga que a pós-
modernidade é um movimento de ruptura, de crise ou de incredulidade. E muitos 
dos discursos postulados ou até mesmo sustentáculos do pensamento moderno 
têm perdido sentido, tais como razão, verdade, progresso, dentre outros. 
Os adeptos da pós-modernidade postulam que ela traz novos estilos de 
vida e de filosofias e, além disso, perpassam pelo cotidiano ideias como: o vazio, 
o niilismo, o nada e principalmente a falta de valores e sentido da vida (ou valor 
à vida). Conforme Castro (2007, p. 195), “[...] o pós-modernismo implica uma 
ruptura com o passado, imprimindo no espírito humano um estado dominante de 
ansiedade e confusão”. Ou ainda, a pessoas são a mistura de diversos estilos, ou 
cada um tem o seu estilo, cada um tem o seu gosto, o que interessa é viver o agora 
e aproveitar tudo o que a vida tem, sem se preocupar com o futuro. 
Além disso, estamos vivendo em um período no qual a privacidade das 
pessoas está aberta ao público, como, por exemplo, Orkut, Facebook, dentre 
outros. Ou ainda, pode-se sem maiores dificuldades saber muitas coisas da 
individualidade da pessoa, ou seu histórico profissional ou pessoal, ou até mesmo 
aspectos da sua conduta moral, que está aberta ao mundo, principalmente se seus 
atos foram filmados. Quando menos se espera, pessoas de diversos cantos do 
mundo podem ter acesso, ou como menciona Naisbitt (1994, p. 169-170):
TÓPICO 1 | MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE EM DISCUSSÃO
87
 
Em seu livro de 1993, The moral sense, o sociólogo James Q. Wilson 
escreve que as qualidades morais universalmente importantes derivam 
de e são sustentadas por práticas e relacionamentos locais, na maioria 
em “[...] famílias, amigos e agrupamentos íntimos”. A despeito do que 
os cínicos e os pessimistas nos querem fazer acreditar, a situação moral 
do mundo não está mais ou menos frágil do que outrora. A diferença 
entre a segunda metade do século XX, particularmente as duas últimas 
décadas, e todos os períodos anteriores da história é que, atualmente, 
quando os padrões éticos ou morais são feridos em qualquer lugar, 
todos ficam sabendo. As comunicações instantâneas globais abriram 
as portas para todos nós uma janela para o mundo, através da qual 
podemos observar tanto as coisas maravilhosas como aquelas que nos 
espantam. No decorrer da história, alguns trilham a estrada do elevado 
padrão moral e outros desafiaram os padrões morais até os últimos 
limites. Perseguições, “limpezas étnicas”, corrupção, escândalos e 
falcatruas não são monopólios do século atual. 
Além de a vida privada ser, via de regra, aberta ao público e os padrões 
éticos serem relativizados, ainda na atualidade há uma série de palavras novas que 
surgiram e fazem parte do vocabulário das pessoas. Entre elas destacamos: Era da 
Informação, Gestão do Conhecimento, Globalização, Era pós-industrial, Fim do 
emprego, Era do Serviço, Onda do Social (Responsabilidade social, balanço social, 
marketing social etc.), óbito de algumas profissões, Cibercultura, Multiculturalismo, 
cibercrimes, second life, Ciberespaço (era virtual X era bits), pós-humano. 
Além destes novos arsenais de palavras, presenciamos ainda novas invenções 
como: laser, internet, clonagem, fax, celular, skype, neurochip, biochip, avanços das 
neurociências, biogenética, drogas inteligentes, transgênicos (superssementes), 
androides, ciborgues, inteligência artificial, robótica, biocomputação, entre outras 
inúmeras inovações que não param de emergir. E, dependendo do ponto de vista, 
o que mencionamos pode ser tido como característica da pós-modernidade ou não.
Enfim, no contexto atual, este é um momento ímpar na história da 
humanidade devido às questões mencionadas anteriormente e às discussões 
em defesa da vigência da pós-modernidade, ainda a pleno vapor em algumas 
áreas de estudo. Entretanto, há quem faz distinção entre a modernidade e a pós-
modernidade, como, por exemplo, na proposta de Castro (2007).
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
88
MODERNA PÓS-MODERNA
Industrial Pós-industrial
Fordismo, capitalismo organizado Pós-fordismo, capitalismo 
desorganizado
Período histórico Categoria meta-histórica
Propósito e projeto Jogo e aleatoriedade
Integração e concentração Dispersão e fragmentação
Grande narrativa Pequena narrativa, antinarrativa
Hierarquia, crença no progresso e na 
razão, análise, antirromantismo
Anarquia, indeterminação, 
irracionalidade, apocalipse, 
romantismo
Criação, totalização Desconstrução, destotalização
Compreensão, problematização e 
desestabilização da representação da 
realidade
Interpretação, problematização e 
desestabilização da realidade em si
Transcendência Imanência 
Produção de bens Produção de informação
Sociedade industrial, energia, recursos, 
tecnologia mecânica
Sociedade da informação, 
conhecimento e informação
Mecanização Informática
Valor do trabalho Valor do conhecimento
Distinção entre processamento e 
disseminação do conhecimento
 União de processamento e 
disseminação de conhecimento
FONTE: Adaptado de: Castro (2007)
QUADRO 1 – DISTINÇÃO ENTRE MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE
Para ilustrar as divergências acerca da modernidade e pós-modernidade, 
leia parte do texto do professor Queiroz (2006, p. 1-23), que aponta sobre Pós-
Modernidade: sim ou não? 
Sobre o pós-moderno pairam mais indagações do que certezas. 
Quando teve início? Como se caracteriza? Qual a sua abrangência?Rompe com a Modernidade ou é apenas um prolongamento 
dela? Frente a esses quesitos, variam as posições. Há os críticos 
que manifestam inteira rejeição ao nome e ao conceito. Segundo 
Habermas (1985), o projeto da Modernidade não está terminado, 
o que torna inverídico atribuir o “pós” a uma realidade ainda 
em construção. Latour (1994) escreve um livro para demonstrar, 
paradoxalmente, que jamais fomos modernos, e assim coloca em 
crise o conceito de Modernidade e, por consequência, rejeita as 
pretensões pós-modernas. Eagleton (1998) estabelece uma crítica 
radical a todos os aspectos do pós-modernismo. Giddens (1991) não 
TÓPICO 1 | MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE EM DISCUSSÃO
89
vê nenhuma ruptura ou descontinuidade que justifique um “pós” 
para além do moderno.
Há, entretanto, autores que admitem o pós-moderno como algo que veio 
para ficar, embora estejam longe de um consenso sobre as suas características. 
Lyotard (1993) publica, em 1979, a obra considerada pioneira, La condition 
postmoderne, na qual desconstrói os pilares da ciência moderna e as suas 
narrativas e indica a ciência pós-moderna como jogo de linguagem, no qual a 
instabilidade, o paradoxo e o dissenso prevalecem sobre as certezas.
Vattimo (1996) acredita que a Modernidade já se extinguiu. Jameson 
(1997), embora alertando que se trata de um termo “intrinsecamente conflitante 
e contraditório”, admite que “por bem ou por mal não podemos não usá-lo” 
(Ibid., p. 25) e vê o pós-modernismo como a tradução e a expressão da lógica 
cultural do capitalismo tardio. Maffesoli (2000) analisa o pós-moderno como 
uma nova forma de tribalismo e o caracteriza como um nomadismo no qual a 
errância se apresenta como “fundadora de todo o conjunto social”. (Id., 2001, 
p.16). Connor (1993) faz um amplo inventário da presença do pós-modernismo 
na arquitetura, nas artes visuais, na literatura, na TV, em vídeos, em filmes, na 
cultura popular.
Entre a rejeição total e a admissão pura e simples, julgamos plausível 
caminhar na linha do “tertium inclusum” (o terceiro incluído) assumindo uma 
posição intermediária que liga os opostos. Temos por certo que não se pode falar 
de uma era pós-moderna em total ruptura com as estruturas da Modernidade, 
pois o sistema socioeconômico que a sustenta – o capitalismo – ainda está em 
vigor, embora se lhe atribua um “neo” (neoliberalismo) e até haja quem já 
admita um “pós-neoliberalismo”. (SADER; GENTILI, 2004). Mas é sempre o 
velho paradigma com novas caras: globalização, flexibilização, descentralização, 
comunidades mercadológicas.
A cultura, também, embora adquira novas conotações, permanece 
gravitando na esfera do capitalismo, seja para reforçá-lo (cultura de massa, 
consumismo), seja para contestá-lo (movimentos ecológicos, experiências de 
economia alternativa), seja para expressar as suas perversidades (cultura da 
violência, exclusão, limpeza étnica, genocídios, terrorismo). Por isso, não deixam 
de ter razão os que apontam que a Pós-Modernidade é ainda a Modernidade 
gerindo e parindo as suas crises. (ver HABERMAS, 1980; TOURAINE, 1994).
Mas não há como negar que, nas profundezas da crise, algo novo 
desponta no horizonte, uma realidade híbrida, mesclando verdades e ilusões. 
Vive-se uma atmosfera de busca, uma fase heurística, que alia ao pessimismo, 
ao desalento e ao niilismo – sequelas da profunda decepção pelas promessas 
frustradas da Modernidade – um vislumbre de esperança.
Mudança de visão, novas tendências e atitudes caracterizam o que Capra 
(1997), com base na superação da visão mecanicista e fragmentária de Descartes 
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
90
Você pode fazer uma pesquisa para averiguar quais discussões deste tema têm-se 
feito presentes na sua área de estudo, como, por exemplo, em artigos científicos.
Para efeito de ilustração, apontam-se algumas das ideologias presentes na 
vida do homem pós-moderno, segundo Barth (2007): 
DICAS
Caro(a) acadêmico(a), com a leitura do texto de Queiroz, você observou 
que não há consenso sobre o tema em discussão entre os diversos pensadores: se 
estamos na modernidade ou pós-modernidade, ou se atingimos a modernidade ou 
é apenas um período de transição. Contudo, é correto dizer que estamos vivendo 
um período de constantes mudanças, avanços científicos extraordinários e, muitas 
vezes, questionáveis, e também de muitas mudanças de comportamento, como 
ausência de valores, cada um faz o que quer, não se está nem aí com os outros, 
entre diversas outras manifestações que ocorrem no nosso cotidiano. Ou seja, na 
atualidade vive-se um período de imprevisibilidade nos cenários e de constantes 
mudanças. Conforme Drucker (2002), a sociedade em poucas décadas tem se 
organizado e mudado a sua visão de mundo, valores básicos fundamentais, a 
estrutura social e política, as artes, etc. 
Entretanto, podemos dizer que a “crise da modernidade”, seja ela entendida 
em si mesma ou como um processo de passagem para a pós-modernidade, é 
um momento no qual a sociedade tem buscado afastar-se da racionalização e 
cientificismo. Mas há os que defendem que os hostes modernos devem ser seguidos 
pela sociedade e atacam veementemente os postulados da pós-modernidade.
e Newton, pela teoria da relatividade e da física quântica, indica como um 
“ponto de mutação”. Isso leva a admitir que já não se pode mais falar de simples 
Modernidade. Mesmo os que rejeitam o termo pós-moderno não deixam de 
convir que há algo novo na Modernidade, tanto assim que sentem a necessidade 
de adjetivá-la.
a) Materialismo: faz com que o indivíduo obtenha certo reconhecimento social 
pelo simples fato de ganhar muito dinheiro, ou ainda, o que importa é ter e 
não o ser e, para isso, não se medem esforços para se ter, mesmo se necessário 
cancelar os valores éticos. b) Hedonismo: o que se postula é o prazer acima de 
tudo, a qualquer preço, não importando muitas das vezes as consequências. 
c) Permissivismo: tudo é permitido, e neste sentido, tudo é bom, desde que 
você se sinta bem. d) Relativismo: a subjetividade dita as regras, e não há 
nada absoluto, nada totalmente bom ou mau e as verdades são oscilantes. 
e) Consumismo: o ideal de consumo da sociedade capitalista não tem outro 
horizonte, além da multiplicação ou da contínua substituição de objetos (ainda 
em perfeito estado de uso) por outros cada vez melhores. O resultado disto é 
a cultura do desperdício, onde se vive para consumir e essa é a única imagem 
TÓPICO 1 | MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE EM DISCUSSÃO
91
LEITURA COMPLEMENTAR
[...]
MODERNIDADE OU PÓS-MODERNIDADE?
Antonio Giddens
Neste ponto podemos vincular a discussão da reflexivi dade aos debates 
sobre a pós-modernidade. “Pós-modernidade” é usado frequentemente como se 
fosse sinônimo de pós-modernismo, sociedade pós-industrial etc. Embora a ideia 
de sociedade pós-industrial, como desenvolvida por Daniel Bell, pelo menos,34 seja 
bem explicada, os outros dois conceitos mencionados acima certamente não o são. 
Devo aqui traçar uma distinção entre eles. Pós-modernisno, se é que significa 
alguma coisa, é mais apropriado pa ra se referir a estilos ou movimentos no interior 
da literatu ra, artes plásticas e arquitetura. Diz respeito a aspectos da reflexão estética 
sobre a natureza da modernidade. Embo ra às vezes apenas um tanto vagamente 
designado, o mo dernismo é ou foi uma perspectiva distinguível nestas vá rias áreas 
e pode-se dizer que tem sido deslocado por ou tras correntes de uma variedade 
pós-moderna. (Uma obra separada poderia ser escrita sobre esta questão, que não 
devo analisar aqui.)
A pós-modernidade se refere a algo diferente, ao menos como eu defino 
a noção. Se estamos nos encaminhando para um fase de pós-modernidade, 
isto significa que a trajetória do desenvolvimento social está nos tirando das 
34. Daniel Bell, The Comming of Post-Industrial Society (London: Heinemann, 1974).
Além disso, Barth (2007) aponta que a marca registrada ou constante do 
homem pós-moderno configura-se na pluralidade,novidade, secularização, 
irracionalidade e imersão no universo.
 
Para finalizar, caro(a) acadêmico(a), você terá um texto que exigirá uma 
leitura mais exaustiva e muita concentração (aliás, um exercício para aqueles que 
estão na academia e desejam estar à altura dos debates ferrenhos das investigações 
de ponta). Ou seja, a leitura exigirá de você uma postura acadêmica, verificando as 
ideias em discussão, sua consistência, bem como o entendimento do contexto da 
discussão e, em última instância, refutando ou não as propostas em pauta no texto. 
Por isso, sugere-se que você leia o texto complementar e aponte as principais ideias 
em discussão e busque refutá-las ou não com consistência. 
Boa leitura!!!
valorizada. f) Niilismo: o homem liberal é aberto, pluralista, transigente, 
tolerante, capaz de dialogar com quem defende posturas totalmente distintas 
e contrárias às suas, o que somente o leva a uma indiferença relaxada.
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
92
instituições da modernidade rumo a um novo e diferente tipo de ordem social. O 
pós-modernismo, se ele existe de forma válida, po de exprimir uma consciência de 
tal transição, mas não mos tra que ela existe.
Ao que se refere comumente a pós-modernidade? Afora o sentido geral 
de se estar vivendo um período de nítida disparidade do passado, o termo com 
frequência tem um ou mais dos seguintes significados: descobrimos que nada 
po de ser conhecido com alguma certeza, desde que todos os “fundamentos” 
preexistentes da epistemologia se revelaram sem credibilidade; que a “história” 
é destituída de teleologia e consequentemente nenhuma versão de “progresso” 
pode ser plausivelmente defendida; e que uma nova agen da social e política 
surgiu com a crescente proeminência de preocupações ecológicas e talvez de 
novos movimentos so ciais em geral. Dificilmente alguém hoje em dia parece iden-
tificar a pós-modernidade com o que ela tão amplamente já chegou a significar – a 
substituição do capitalismo pelo socialismo. O deslocamento desta transição para 
longe do centro do palco, na verdade, é um dos principais fatores que estimularam 
as discussões correntes sobre a possível dis solução da modernidade, dada a 
concepção totalizante da história de Marx. [...]
É difícil resistir à conclusão de que a ruptura com a aceitacão de fundamentos 
é uma linha divisória significativa no pensamento filosófico, tendo suas origens 
entre os meados e o fim do século XIX. Mas certamente faz sentido ver isto como 
“a modernidade vindo a entender-se a si mesma” ao invés da superação da 
modernidade enquanto tal.36 Isto po de ser interpretado em termos do que rotulo 
como perspec tivas providenciais. O pensamento iluminista, e a cultura ocidental em 
geral, emergiram de um contexto religioso que enfatizava a teologia e a obtenção 
da graça de Deus. A di vina providência foi por muito tempo uma ideia diretiva do 
pensamento cristão. Sem estas orientações precedentes, o Iluminismo, em primeiro 
lugar, dificilmente teria sido pos sível. Não é de forma alguma surpreendente que a 
defesa da razão desagrilhoada apenas remodele as ideias do pro videncial, ao invés 
de removê-las. Um tipo de certeza (lei divina) foi substituído por outro (a certeza 
de nossos senti dos, da observação empírica), e a providência divina foi substituída 
pelo progresso providencial. Além disso, a ideia providencial da razão coincidiu 
com a ascensão do domí nio europeu sobre o resto do mundo. O crescimento 
do poder europeu forneceu o suporte material para a suposição de que a nova 
perspectiva sobre o mundo era fundamentada sobre uma base sólida que tanto 
proporcionava segurança como oferecia emancipação do dogma da tradição.
No entanto as sementes do niilismo estavam no pensa mento iluminista 
desde o início. Se a esfera da razão está inteiramente desagrilhoada, nenhum 
conhecimento pode se basear sobre um fundamento inquestionado, porque mes-
mo as noções mais firmemente apoiadas só podem ser vis tas como válidas “em 
princípio” ou “até ulterior conside ração”. De outro modo elas reincidiriam no 
dogma e se se parariam da própria esfera da razão que determina qual va lidez está 
em primeiro lugar. Embora a maioria visse a evi dência de nossos sentidos como 
36. Existem muitas discussões na literatura sobre o pós-modernismo como uma simples extensão da modernidade. 
Para uma versão anterior, ver Frank Kermode, “Modernisms”, em seu Constinuities (London: Routledge, 1968). 
Para discussões mais recentes ver as contribuições a Hal Foster, ed. Post-modern Culture (London: Pluto, 1983).
TÓPICO 1 | MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE EM DISCUSSÃO
93
a informação mais segura que podemos obter, mesmo os primeiros pensadores 
iluministas estavam bem cônscios de que tal “evidência” é sem pre suspeita em 
princípio. Os dados dos sentidos nunca po deriam fornecer uma base inteiramente 
segura para as rei vindicações do conhecimento. Hoje, dada a maior consciên cia 
de que a observação sensorial é permeada por catego rias teóricas, o pensamento 
filosófico em suas correntes prin cipais afastou-se decididamente do empirismo. 
Além dis so, desde Nietzsche, estamos mais claramente cônscios da circularidade 
da razão, bem como das relações problemá ticas entre conhecimento e poder.
Ao invés destes desenvolvimentos nos levarem para “além da 
modernidade”, eles nos proporcionam uma compreen são mais plena da 
reflexividade inerente à própria moder nidade. A modernidade não é perturbadora 
apenas devido à circularidade da razão, mas porque a natureza desta cir cularidade 
é decisivamente intrigante. Como podemos jus tificar um compromisso com a razão 
em nome da razão? Paradoxalmente, foram os positivistas lógicos que trope çaram 
mais diretamente nesta questão, como resultado da própria extensão na qual 
eles procuraram remover todos os resíduos de tradição e dogma do pensamento 
racional. A modernidade revela-se enigmática em seu cerne e parece não haver 
maneira de este enigma poder ser “superado”. Fomos deixados com perguntas que 
uma vez pareceram ser respos tas, e devo argumentar ulteriormente que não são 
apenas os filósofos que se dão conta disto. Uma consciência geral deste fenômeno 
se filtra em ansiedades cuja pressão todos sentem.
O pós-modernismo tem sido associado não apenas com o fim da aceitação 
de fundamentos, mas com o “fim da his tória”. Como já me referi a isto antes, não 
é necessário aqui discutir esta noção detalhadamente. A “história” não tem forma 
intrínseca nem teleologia total. Uma pluralidade de histórias pode ser escrita, 
e estas não podem ser ancoradas por referência a um ponto arquimediano (tal 
como a ideia de que a história tem uma direção evolucionária). A histó ria não 
deve ser equacionada à “historicidade”, pois esta última está claramente ligada às 
instituições da modernidade.
O materialismo histórico de Marx identifica equivocadamente uma à outra 
e assim não apenas atribui uma falsa unida de ao desenvolvimento histórico como 
também falha em dis cernir adequadamente as qualidades específicas da moder-
nidade. O ponto aqui em questão foi bem coberto no cele brado debate entre Lévi-
Strauss e Sartre.37 O “uso da his tória para fazer história” é substancialmente um 
fenôme no da modernidade e não um princípio generalizado que pode ser aplicado 
a todas as épocas – é uma versão da re flexividade da modernidade. Mesmo a 
história como datação, o mapeamento das sequências entre datas, é uma ma neira 
específica de codificar a temporalidade.
Devemos ser cuidadosos com o modo de entender a his toricidade. Ela 
pode ser definida como o uso do passado para ajudar a moldar o presente, mas 
não depende de um respeito pelo passado. Pelo contrário, historicidade signi-
37. Ver Claude Lévi-Strauss, The Savage Mind (Chicago: University of Chicago Press, 1966).
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
94
fica o conhecimento sobre o passado como um meio de rom per com ele – ou, 
ao menos, manter apenas o que pode ser justificadode uma maneira proba.38 A 
historicidade, na verdade, nos orienta primeiramente para o futuro. O futu ro é 
visto como essencialmente aberto, embora como contrafatualmente condicional 
sobre linhas de ação assumidas com possibilidades futuras em mente. Este é 
um aspecto fun damental do “alongamento” tempo-espaço que as condi ções da 
modernidade tornam possível e necessário. A “futurologia” – o mapeamento de 
futuros possíveis/desejá veis/disponíveis – se torna mais importante que mapear 
o passado. Cada um dos tipos de mecanismo de desencaixe mencionados acima 
pressupõe uma orientação futura des te tipo.
A ruptura com as concepções providenciais da história, a dissolução da 
aceitação de fundamentos, junto com a emergência do pensamento contrafatual 
orientado para o futuro e o “esvaziamento” do progresso pela mudança con tínua, 
são tão diferentes das perspectivas centrais do Iluminismo que chegam a justificar 
a concepção de que ocorre ram transições de longo alcance. Referir-se a estas, no 
entan to, como pós-modernidade, é um equívoco que impede uma compreensão 
mais precisa de sua natureza e implicações. As disjunções que tomaram lugar 
devem, ao contrário, ser vis tas como resultantes da autoelucidação do pensamento 
mo derno, conforme os remanescentes da tradição e das perspec tivas providenciais 
são descartados. Nós não nos deslocamos para além da modernidade, porém 
estamos vivendo precisa mente através de uma fase de sua radicalização. [...]
E os outros conjuntos de mudanças frequentemente li gados, num sentido 
ou outro, à pós-modernidade: a ascensão de novos movimentos sociais e a criação 
de novas agendas políticas? Eles são de fato importantes, como tentarei mostrar 
posteriormente. Temos, contudo, de escolher nosso caminho circunspectamente 
através das várias teorias ou interpretações que têm avançado com base neles. 
Devo analisar a pós-modernidade como uma série de transições imanentes 
afastadas – ou “além” – dos diversos feixes institucionais da modernidade que 
serão distinguidos ulteriormente. Não vivemos ainda num universo social pós-
moderno, mas podemos ver mais do que uns poucos relances da emergência de 
modos de vida e formas de organização social que divergem daquelas criadas 
pelas instituições modernas. [...]
FONTE: GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991, p. 51-58.
38. Cf. Haus Blumenberg, Wirklichkeiten in denen wir leben (Stuttgart: reclam,1981).
95
RESUMO DO TÓPICO 1
Caro(a) acadêmico(a), neste tópico você viu que:
• Não há consenso sobre se estamos ou não na modernidade.
• Sobre o pós-moderno pairam mais indagações do que certezas. 
• Segundo Habermas (apud QUEIROZ, 2006), o projeto da Modernidade não está 
terminado, o que torna inverídico atribuir o “pós” a uma realidade ainda em 
construção.
• De acordo com Latour (apud QUEIROZ, 2006), jamais fomos modernos e rejeita 
as pretensões pós-modernas. 
• Giddens (1991) não vê nenhuma ruptura ou descontinuidade que justifique um 
“pós” para além do moderno.
 
• Vattimo (apud QUEIROZ, 2006) acredita que a Modernidade já se extinguiu.
• A filosofia pós-moderna critica de forma radical os discursos da modernidade.
• A obra “A condição pós-moderna”, de Lyotard, desconstrói os pilares da ciência 
moderna e as suas narrativas.
• As ideologias na vida pós-moderna, segundo Barth, são o materialismo, o 
hedonismo, permissivismo, relativismo, consumismo e niilismo.
96
AUTOATIVIDADE
2 Na sua opinião, estamos na pós-modernidade? Justifique com três 
argumentos.
3 Pesquise um texto na sua área que tenha como discussão modernidade ou 
pós-modernidade e, na sequência:
a) Escreva as principais ideias discutidas.
b) Escreva se você concorda ou não com as ideias discutidas no texto que você 
pesquisou. Justifique com três argumentos.
4 Sintetize as ideias ou argumentos em favor e contra a pós-modernidade.
1 A partir do estudo deste tópico aponte as principais 
características da modernidade e pós-modernidade.
97
TÓPICO 2
ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE 
ENFOQUES
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos 
extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem [...] levantou no 
mundo as muralhas do ódio [...] e tem-nos feito marchar a passo de 
ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, 
mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz 
abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos 
fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. 
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máqui nas, 
precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos 
de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e 
tudo será perdido. Charles Chaplin
Caro(a) acadêmico(a), não se pode negar que, antes do surgimento das 
organizações nos moldes em que as conhecemos hoje, já existiam preocupações 
sobre qual seria a fórmula mais adequada para governar, planejar e conduzir de 
forma organizada uma determinada sociedade. Por exemplo: Platão com a obra 
República e Aristóteles com a obra A Política. Ou ainda, você pode encontrar 
na história da humanidade exemplos de organizações bem-sucedidas por um 
determinado tempo, a exemplo: Império Persa e Romano, na Antiguidade.
Entretanto, com a Revolução Industrial e o surgimento das indústrias, houve 
sobremaneira a necessidade de pensar modelos de gerenciar as organizações a fim 
de que elas funcionassem segundo as necessidades, a exemplo de teóricos: Ford, 
Taylor e Fayol, e, é claro, cada qual com suas peculiaridades teóricas. Entretanto, 
no decorrer da história outros enfoques quanto às organizações foram surgindo 
com características próprias, tiveram seus pontos fortes, mas também não ficaram 
imunes a críticas.
Assim, neste tópico, inicialmente, você estudará uma das formas de se 
conceber as organizações, no caso, como máquinas e posteriormente de outras 
formas, tendo como guia as postuladas por Morgan na obra Imagens das 
organizações. 
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
98
2 ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE METÁFORAS
Atualmente, as organizações não são mais aquelas de um único ponto 
de vista, pois, devido à complexidade, demandam maiores esforços e novos 
olhares para sua compreensão. Nas organizações existem diversos elementos que 
a compõem, a exemplo: máquinas, pessoas, finanças, tecnologia, contabilidade, 
missão e visão, ainda as necessidades do mercado. Frente a este cenário, muitas 
organizações podem crescer e prosperar e outras simplesmente desaparecem. 
Além dos elementos que compõem as organizações, ainda, é possível pensar 
por que, em termos históricos, temos organizações com longa data de existência, 
outras, com um tempo razoável de existência, e ainda as que não conseguem chegar 
a dois anos de existência, e um número reduzidíssimo que conseguiu completar 
um século de existência. 
Assim, analisar as organizações, seja seus elementos internos ou externos 
ou até mesmo a sua existência, demanda um esforço neste sentido. Cada vez 
mais se tem buscado compreender as organizações a fim de planejá-las para uma 
existência longa num mercado cada vez mais competitivo, onde poucos conseguem 
se manter e corresponder às expectativas dos investidores e dos consumidores. 
Então, cada vez mais é primordial conhecer as organizações, seus pontos 
fracos ou fortes, seus limites, sua real capacidade de adaptação e inovação. Por 
isso, é necessário usar o maior número de instrumentos para conhecer e planejar 
as organizações a fim de que elas alcancem o que se propõem e minimizem as 
possibilidades de erro na tomada de decisão ou planejamento. E, para isso, é 
salutar que os mentores ou gerenciadores das organizações tenham conhecimento 
prévio ou que sejam assessorados por pessoas de outras áreas do conhecimento a 
fim de atingirem com excelência os seus propósitos.
Frente ao exposto, Morgan (1999) postula que é necessário ler as 
organizações dasmais variadas formas e, para isso, na sua obra Imagens da 
Organização, apresenta metáforas para as organizações: 
• as organizações vistas como máquinas; 
• as organizações vistas como organismos; 
• as organizações vistas como cérebros; 
• as organizações vistas como cultura; 
• as organizações vistas como unidades políticas;
• as organizações vistas como prisões psíquicas; 
• as organizações vistas como fluxo e transformações;
TÓPICO 2 | ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
99
Administradores eficazes e profissionais de todos os tipos e estágios, não importa 
que sejam executivos, administradores públicos, consultores organizacionais, políticos ou 
sindicalistas, precisam desenvolver suas habilidades na arte de “ler” as situações que estão 
tentando organizar ou administrar. (MORGAN, 1999, p. 15).
• as organizações vistas como instrumento de dominação. 
Entretanto, é importante salientar que focalizaremos nossos estudos nas 
organizações vistas como máquinas, organismos, cérebros e cultura, em virtude da 
abrangência da obra de Morgan.
2.1 ORGANIZAÇÕES VISTAS COMO MÁQUINAS
Um sábio chinês chamado Chuang-tzu, que viveu no século IV a.C., relata 
a seguinte história:
Durante a viagem de Tzu-gung por regiões ao norte do rio Han, ele 
viu um velho trabalhando em sua horta. Ele tinha cavado um sulco de 
irrigação. O homem descia até o poço, pegava uma vasilha de água nos 
braços e despejava a água no sulco. Embora seu esforço fosse enorme, os 
resultados pareciam ser muito insignificantes. Tzu-gung disse: “Existe 
uma forma pela qual você pode irrigar uma centena de sulcos por 
dia, fazendo mais com menos esforço. Você gostaria de ouvir como?” 
O velho ficou de pé, olhou para ele e disse: “E qual seria ela?”.Tzu-
gung respondeu: “Você pega uma alavanca de madeira, pesada atrás e 
leve na frente. Desse modo, a água pode subir tão rapidamente que vai 
praticamente jorrar. Isto é chamado de bomba d’água”. Então a raiva 
apareceu na face do velho, que disse: “Eu ouvi meu professor dizer que 
todo aquele que usa uma máquina faz todo seu trabalho como uma 
máquina. Aquele que faz seu trabalho como uma máquina desenvolve 
um coração que é como máquina e aquele que carrega, em seu peito, 
um coração de máquina perde a simplicidade. Aquele que perdeu sua 
simplicidade torna-se inseguro nas lutas da sua alma. Incerteza nas 
lutas da alma é algo que não combina com o sentido de honestidade. 
Não é que eu não conheça essas máquinas; eu tenho é vergonha de usá-
las”. (MORGAN,1999, p. 21).
A partir do relato da breve história acima, é provável que o ancião ficasse 
desanimado ao ver que as máquinas influenciam em muitos aspectos a existência 
humana. Além disso, poderia até dizer que alguns aspectos da nossa vida são 
condicionados pelas máquinas.
 
Assim, se a mecanização trouxe ganhos elevados para alguns e para outros 
significou a transição de uma produção artesanal para a industrial, a mecanização 
IMPORTANT
E
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
100
teve um preço muito alto, haja vista o êxodo da comunidade rural para os centros 
urbanos, a degradação geral do ambiente, a agressão da racionalidade sobre o 
espírito humanístico e a exploração humana.
A palavra organização deriva do grego organon, que significa uma 
ferramenta ou instrumento. Há uma instrumentalidade evidente nas práticas das 
primeiras organizações formais, das quais se têm notícia, tais como aquelas que 
construíram as grandes pirâmides, impérios, igrejas e armadas. Todavia, é com 
a invenção e a proliferação das máquinas, particularmente durante a Revolução 
Industrial na Europa e na América do Norte, que os conceitos de organização 
realmente se tornaram mecanizados. Devido ao uso das máquinas, especialmente 
na indústria, foi necessário que as organizações passassem por um processo de 
adaptação. 
Muitos grupos familiares que trabalhavam por conta própria, bem como 
artesãos habilitados, abandonaram a autonomia do trabalho corporativo nas suas 
casas e oficinas para labutar em atividades que exigiam relativamente pouca 
habilidade, em ambientes fabris. 
A divisão do trabalho privilegiada por Adam Smith, no seu livro “A 
riqueza das nações” (1776), tornou-se crescentemente especializada, à medida que 
os fabricantes buscavam aumentar a eficiência, reduzindo a liberdade de ação dos 
trabalhadores em favor do controle exercido por suas máquinas e supervisores.
Muito foi aprendido através do militarismo que, pelo menos desde os 
tempos de Frederico, o Grande, da Prússia, emergiu como protótipo da organização 
mecanicista. Fascinado pelo funcionamento dos brinquedos mecânicos, e na busca 
de tornar o exército um instrumento confiável e eficiente, introduziu muitas 
reformas que serviram para reduzir os seus soldados a autômatos. Entre as reformas 
estavam a introdução de soldados rasos e uniformes, a extensão e padronização 
de regulamentos, especialização crescente de tarefas, o uso de equipamento 
padronizado, linguagem de comando e treinamento sistêmico que envolvia 
exercícios de guerra e disciplina. Sua tentativa visava transformar o exército em 
um mecanismo eficiente que funcionasse por meio de peças padronizadas.
Frederico desenvolveu o princípio de que os homens deveriam ser ensinados 
a temer os seus oficiais mais que ao inimigo. A nova tecnologia foi acompanhada e 
reforçada pela mecanização do pensamento e da ação humana.
Em 1832, Charles Babbage, inventor de uma das primeiras formas de 
computador matemático, publicou um tratado defendendo o enfoque científico 
da organização e da administração, bem como enfatizando a importância do 
planejamento e da adequada divisão do trabalho. 
Com o passar do tempo, aprendemos a usar a máquina como uma metáfora 
para nós mesmos e a nossa sociedade, adaptando o nosso mundo em concordância 
com princípios mecânicos. Em nenhum lugar isso é mais evidente do que na 
organização moderna. Pode-se perceber isso na vida organizacional moderna a 
TÓPICO 2 | ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
101
qual é constantemente rotinizada com a precisão exigida de um relógio. Espera-
se das pessoas que elas cheguem ao trabalho em determinada hora, façam um 
conjunto predeterminado de atividades, descansem em horas marcadas e então 
retomem as suas atividades até que o trabalho termine. Em muitas organizações, 
um turno de trabalho substitui outro de maneira metódica de tal forma que o 
trabalho possa continuar continuadamente 24 horas por dia, todos os dias do ano. 
Desse modo, o trabalho se torna frequentemente mecânico e repetitivo.
Ao agir mecanicamente, o indivíduo enfatiza a rapidez (tempo) e o controle 
de tarefas específicas (produção). Sendo assim, o profissional é uma engrenagem e sua 
potencialidade corporal, desta forma, fica engessada e o raciocínio semibloqueado.
Qualquer pessoa pode observar o trabalho de produção em massa na 
fábrica, ou em algum grande “escritório-fábrica” que processa formulários de 
papel, tais como pedidos de seguro, devoluções de impostos, serviços bancários, e 
notará a maneira maquinal pela qual tais organizações operam. Elas são planejadas 
à imagem das máquinas, sendo esperado que seus empregados se comportem 
essencialmente como se fossem partes de máquinas.
As cadeias de “refeições rápidas” e organizações de serviços de muitos 
tipos operam de acordo com princípios semelhantes, sendo cada ação pré-
planejada de maneira minuciosa, mesmo nas áreas que dizem respeito às interações 
dos empregados com outras pessoas. Esses empregados são frequentemente 
monitorados quanto ao seu desempenho em cumprir os códigos de instruções 
estabelecidos. Mesmo o mais simples dos sorrisos, cumprimentos ou sugestões 
feitos por um assistente de vendas são frequentemente programados pela política 
da companhia e ensaiados para produzirem resultados autênticos.
As organizações planejadas e operadas como se fossem máquinas são 
comumente chamadas de burocracias. Quando se fala de organização, habitualmente 
se pensa num estadode relações ordenadas entre partes claramente definidas que 
possuem alguma ordem determinada. Embora a imagem não possa ser explícita, 
fala-se de um conjunto de relações mecânicas. Verificam-se organizações como 
se fossem máquinas e, consequentemente, existe uma tendência em esperar que 
operem como tais: de maneira rotinizada, eficiente, confiável e previsível.
Assim, em algumas organizações o modo de ser mecânico da organização 
pode oferecer as bases para uma operação eficaz. Em outras, porém, pode ter 
consequências muito infelizes. É, então, importante compreender como e quando 
se está engajado em uma forma de pensar mecanicista e como tantas teorias 
populares e ideias tidas como certas sobre a organização apoiam esse tipo de 
IMPORTANT
E
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
102
pensamento. Um dos maiores desafios com que se deparam muitas organizações 
modernas é substituir esse tipo de pensamento por ideias e enfoques novos.
A mais importante contribuição a essa teoria foi do sociólogo alemão 
Max Weber, concluindo que as formas burocráticas rotinizam os processos de 
administração exatamente como a máquina rotiniza a produção. Weber definiu 
primeiramente a organização burocrática como uma forma de organização que 
enfatiza a precisão, a rapidez, a clareza, a regularidade, a confiabilidade e a 
eficiência, atingidas através da criação de uma divisão de tarefas fixas, supervisão 
hierárquica, regras detalhadas e regulamentos.
Para Weber, o tipo puro de organização burocrática é o mais eficiente no sentido 
técnico e o melhor aparelhado para exercer dominação sobre os seres humanos. Pode ser 
aplicado a qualquer tipo de situação e contexto. O seu traço mais racional é o exercício do 
poder com base no saber técnico.
Como sociólogo, Max Weber estava interessado nas consequências sociais 
da proliferação da burocracia e, como o velho Chuang-tzu da história contada 
anteriormente, estava preocupado com o efeito que ela teria sobre o lado humano 
da sociedade. Ele viu que a abordagem burocrática tinha a capacidade de rotinizar 
e mecanizar quase todos os aspectos da vida humana, corroendo o espírito humano 
e a capacidade de julgamentos independentes. Também reconheceu que ela teria 
graves consequências políticas ao minar o potencial de formas de organização 
democráticas.
 
Entretanto, Morgan (1999) aponta algumas forças e limitações da metáfora 
da máquina. Para Morgan (1999, p. 37) o enfoque mecanicista da organização 
funciona bem somente sob condições nas quais as máquinas operam bem, ou seja:
a) quando existe uma tarefa contínua a ser desempenhada;
b) quando o ambiente é suficientemente estável para assegurar que os produtos 
oferecidos sejam os apropriados;
c) quando se quer produzir sempre exatamente o mesmo produto;
d) quando a precisão é a meta; 
e) quando as partes humanas da máquina são submissas e comportam-se de 
acordo com o planejado. 
NOTA
TÓPICO 2 | ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
103
Entretanto, pensar as organizações sob o enfoque da metáfora mecânica 
tem os seus pontos fortes, mas também há limitações. Em particular elas podem ser 
(MORGAN,1999, p. 38):
a) criar formas organizacionais que tenham grande dificuldades em se adaptar a 
circunstâncias de mudança;
b) desembocar num tipo de burocracia sem significado e indesejável;
c) ter consequências imprevisíveis e indesejáveis à medida que os interesses 
daqueles que trabalham na organização ganhem precedência sobre os objetivos 
que foram planejados para ser atingidos pela organização;
d) ter um efeito desumanizante sobre os empregados, especialmente sobre aqueles 
posicionados em níveis mais baixos de hierarquia organizacional.
Para efeito de ilustração, sugere-se o filme “Vida de inseto”. 
No filme podem-se ver as forças e as fraquezas da metáfora 
mecanicista.
2.1.1 Paradigma mecanicista na formação humana
Para explicar as consequências do mecanicismo para a humanidade, 
extraímos um texto do livro “O Despertar da Inteireza”, da professora Marilda 
Olzbrzymek (2001, p. 61-65). Leia atentamente, boa leitura!
Não resta a menor dúvida de que o paradigma mecanicista trouxe avanços 
científicos e tecnológicos jamais vistos na história das civilizações. Surgiu num 
momento em que era necessário romper com dogmatismos e democratizar o 
conhecimento. Contudo, de alguma forma, a ciência e o racionalismo quase se 
transformaram numa religião e, como todo radicalismo é doente, o paradigma 
mecanicista trouxe também algumas consequências drásticas para a humanidade.
A ciência investe exorbitâncias em armamentos, enquanto uma grande 
parte da humanidade vive sem atendimento às necessidades básicas de 
sobrevivência, expressa na ineficiência das políticas públicas de saneamento 
DICAS
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
104
básico, saúde e educação adequada, falta de condições de moradia e ausência 
de respeito à condição humana. O comprometimento ambiental, causado pelo 
lixo atômico e industrial, pelo vazamento de reatores nucleares, pelo uso de 
agrotóxicos e pesticidas, pela destruição de florestas... degenera em grandes 
proporções o ar, a água e os alimentos, atingindo a espécie humana com altos 
índices de doenças nutricionais e infecciosas crônicas, cânceres, doenças genéticas 
e degenerativas. É o próprio homem destruindo o sistema ecológico do qual 
depende e, consequentemente, destruindo a si mesmo e à própria espécie.
É preciso que o humano seja resgatado, em nível planetário e, nesse 
momento, faz sentido recorrer a um pequeno trecho da música de Oswaldo 
Montenegro que diz:
Cada irmão, todo irmão de cada credo e cor, despertai!
Se cada irmão, se todo irmão sem preconceito de credo e cor despertar 
Ganhar clareza e força dos elementos,
da força da chuva, do vento e do sol
Diz o ditado, pior cego é aquele que não quer ver a um palmo esse 
farol...
(MONTENEGRO, 2000).
A industrialização e a tecnologia robotizaram o humano e a valorização 
exacerbada de bens materiais levou a uma competitividade sem limites e à idolatria 
do ter. As pessoas possuem bens materiais, mas não têm qualidade de vida. A 
luta pela sobrevivência diante dos problemas sociais e econômicos caracterizados 
pelo desemprego, inflação, má distribuição de renda e esgotamento dos recursos 
energéticos naturais, produz consequências como a violência, o suicídio, o 
alcoolismo, as drogas, o desamor, a desunião. As pessoas não se olham mais, 
nem para si nem para o outro que convive a seu lado, vivem correndo contra o 
relógio, justificando a correria com a crença de que tempo é dinheiro. O sociólogo 
Boaventura dos Santos nos revela que:
Um relance pelas agendas políticas de diferentes países revela-nos 
que os problemas mais absorventes são, como nunca, problemas 
de natureza econômica... Contudo, em aparente contradição com 
isso, a teoria e análise sociológica dos últimos dez anos têm vindo a 
desvalorizar o econômico em detrimento do político, do cultural e 
do simbólico. Têm vindo a desvalorizar os modos de produção em 
detrimento dos modos de vida. (BOAVENTURA, 1997, p. 20).
Além da ciência como instrumento de controle da natureza, o paradigma 
mecanicista fragmentou o pensamento humano, supervalorizou o trabalho mental 
em detrimento do manual, enfatizou a especialização e o especialismo, produziu 
um mundo de certezas e previsibilidades e valorizou o conhecimento utilitário e 
funcional. Enfim, produzimos tecnologia tão sofisticada que agora somos movidos 
pelo medo e a impotência de lidar com tudo isso.
Na educação e também nas sociedades, embora alguns teóricos e 
pensadores já tenham acenado para concepções de mundo, de ser humano e 
TÓPICO 2 | ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
105
de conhecimentos mais dinâmicos, o que vivenciamos na prática tem origens e 
permanece de acordo com o pensamento mecanicista – o retalhamento do ser, do 
saber e do fazer humanos.
A escola reproduziu e ajuda a manter as estruturas dessa sociedade 
caótica. No sentidoteórico, através da pedagogia tradicional, que valoriza as 
aptidões inatas e defende a transmissão e assimilação do conhecimento acumulado 
pela humanidade; ou pela pedagogia humanista, que valoriza o homem no 
seu aspecto “integral” e o conhecimento das coisas tais como são na natureza; 
ou ainda através de tendências pedagógicas como a tecnicista, que entende o 
homem como uma tábula rasa, na qual o comportamento pode ser instalado, e 
o conhecimento é visto como instrução programada com objetivo funcional e 
utilitário; ou como a interacionista, que privilegia o aspecto cognitivo do indivíduo 
e defende a construção do conhecimento pela interação do mesmo com o objeto 
de conhecimento, de acordo com a maturação biológica; seja ainda por tendências 
sociointeracionistas, que veem o homem numa dimensão mais dinâmica e, tal 
como o conhecimento, construído de forma histórica e social.
 
O que observamos na prática educacional cotidiana é permeado 
pelos seguintes aspectos: compartimentalização do conhecimento através 
da fragmentação das disciplinas acadêmicas que separam o ser humano em 
cabeça, tronco e membros; ensinam a história como fatos isolados vivenciados e 
construídos apenas por grandes homens, sem interferência na vida do indivíduo; 
além disso, privilegiam as ciências exatas como a matemática, a física e a química 
em detrimento das humanas.
Geração de comportamentos preestabelecidos que ensinam a não 
questionar e não expressar pensamentos próprios, levando à passividade, 
incentivando a competição e a reprodução. Também classificam através de uma 
avaliação seletiva que premia os “acertos” e pune os “erros”, vinculando-se mais 
à geração de comportamentos do que à construção do conhecimento.
 
Metodologia obsoleta com aulas expositivas, exercícios de repetição, 
decoreba – o aluno ouve, repete várias vezes e vomita tudo na avaliação. Conteúdo 
e produto são mais valorizados do que o processo de construção do conhecimento. 
A educação é vista como transmissão e assimilação de ideias prontas e acabadas, 
é uma “educação bancária e domesticadora”, como enfatizava Paulo Freire. O 
professor detém o saber, a autoridade, dirige o processo e representa o modelo a 
ser seguido.
Ênfase à racionalidade, estimulando muito pouco a criatividade, a 
comunicação espontânea, bem como a exploração corporal. Aliás, parece que a 
escola está “preparada” só para receber a cabeça do aluno, o corpo deve ficar do 
portão para fora. Os próprios espaços reduzidos e a distribuição dos mesmos 
levam à imobilidade, priorizando o aspecto cognitivo. Como nos diz Rubem 
Alves, é “[...] preciso unir o saber que vem da cabeça com a sabedoria que vem do 
mais profundo do nosso corpo”.
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
106
O que se observa na realidade escolar é o desencantamento do educador, 
que continua a reproduzir uma prática que não traz prazer nem a ele, nem ao 
educando. Mas como falar de prazer para esse educador, geralmente fruto de uma 
formação deficiente, que o levou à reprodução de uma política educacional que 
emperra iniciativas, favorece o corporativismo e colabora para a baixa autoestima, 
marginalizando econômica, cultural e socialmente a pessoa do educador? A esse 
respeito, Hugo Assmann (1996, p. 19) nos revela que:
 
Não dá mais para silenciar o fato de que, também em instituições 
educativas, há tanta gente encalhada no mero negativismo que esse 
até parece ter virado um pretexto frívolo para a omissão e estagnação 
na mediocridade corporati vista. Está na hora de fazermos, sem 
ingenuidades políticas, um esforço para reencantar deveras a educação, 
porque nisso está em jogo a autovalorização pessoal do professorado, 
a autoestima de cada pessoa envolvida, além do fato de que a privação 
da educação representa, sem dúvida, na sociedade do conhecimento 
na qual já entramos, uma verdadeira causa mortis.
A educação hoje acontece de forma muito mais interessante fora da escola, 
através dos meios de comunicação e das necessidades reais da vida, do que dentro 
da escola, a qual continua a reproduzir modelos antiquados que se propõem a 
instruir e adestrar. Enquanto se cumprem tarefas mecanicamente e seguem-
se regras sem questionar, atrofia-se a capacidade de pensar, refletir, comparar, 
sintetizar e emitir opiniões. Precisamos descortinar o potencial humano, a 
tecnologia nos permite alçar voos inimagináveis, mas é preciso colocá-la a serviço 
do ser humano com o objetivo de tornar sua existência plena de prazer e satisfação. 
A questão é que nem mesmo o aspecto instrucional ela está conseguindo atingir.
O caos está instalado! Onde buscar respostas? Que ações devemos 
desencadear para reverter esse panorama? Começar pela formação dos educadores, 
reencantando a função pedagógica? Que caminhos seguir? A questão é de cunho 
pessoal, social, político, cultural, econômico e alcança dimensões planetárias.
 
É importante, no entanto, salientarmos que já existem iniciativas que 
buscam articular a fundamentação teórica com a prática, através de propostas 
pedagógicas que visam despertar a totalidade do ser, do saber, e do sabor do 
fazer humanos. Embora essas iniciativas estejam acontecendo de forma isolada 
e quase anônima, elas nos revestem de muita esperança. Esperança de um novo 
tempo para a caminhada.
Investigue se, na sua área de estudo, as ideias de Morgan serviram de referência 
para estudos.
DICAS
TÓPICO 2 | ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
107
2.2 AS ORGANIZAÇÕES VISTAS COMO ORGANISMOS
Você estudou anteriormente, mesmo com as forças apontadas por Morgan, 
há uma série de limitações, a metáfora vista como máquina e até mesmo críticas 
a essa forma de pensar as organizações. Por isso, outra forma de pensar as 
organizações, conforme Morgan (1999), é conceber as organizações como sistemas 
vivos, as quais existem em um ambiente, mas para sobreviverem dependem da 
satisfação das suas várias necessidades. Assim, se olharmos para a natureza, 
veremos diversas espécies, cada qual com as suas particularidades, mas de modo 
geral, é possível ver no interior de cada espécie as que se adaptam, as que morrem, 
as que têm anomalias, dentre outras características. 
Em virtude das limitações existentes na forma de pensar as organizações 
como máquinas, pensadores começaram a refletir sobre as organizações tendo 
como inspiração a biologia, principalmente a teoria de evolução de Darwin, da 
qual é possível abstrair algumas analogias, conforme já postulado anteriormente. 
Se, no mundo da natureza, a lei da sobrevivência ou do mais forte impera, onde 
somente os que se adaptam às contingências externas, no caso específico as 
organizações, pode-se dizer que elas estão em um ambiente de competição e, para 
sobreviverem neste cenário, precisam de habilidades para adaptar-se e inovar-se, 
pois, de certa forma, somente as mais adaptadas sobrevivem. Assim, esta forma de 
pensar permite encorajar para a necessidade de aprender a arte da sobrevivência 
corporativa tendo inspiração na natureza.
Desta forma, como analogia, ao olharmos para o mundo dos negócios é 
possível verificar diferentes tipos de organizações em diferentes tipos de ambientes 
que, conforme as suas características, se adaptam mais a uma estrutura do que à 
outra. Ou ainda, algumas organizações podem adaptar-se com mais facilidade e 
flexibilidade às contingências externas, outras simplesmente desaparecem por não 
conseguirem se adaptar ou encontrar novos meios para sobreviverem no seu habitat. 
Neste sentido, cada organização terá ambientes que lhe serão mais propícios para 
a sua existência, assim como na natureza algumas espécies se adaptam mais em 
determinados ambientes que outros. Assim, de acordo com Morgan (1999, p. 44):
Descobre-se que organizações burocráticas tendem a funcionar mais 
eficazmente em ambientes que são estáveis ou, de alguma forma, 
protegidos, e que tipos muito diferentes são encontrados em regiões 
mais competitivase turbulentas, tais como empresas de alta tecnologia, 
nos campos aeroespacial e microeletrônica. 
Entretanto, esta metáfora tem as suas forças e limitações. Assim Morgan 
(1999, p. 76), aponta as seguintes forças: 
 
Usando a imagem de um organismo em constante troca com o 
ambiente, fica-se encorajado a assumir uma visão da organização aberta 
e flexível. [...] um segundo ponto forte da metáfora: a administração 
das organizações com frequência pode ser melhorada por meio da 
atenção sistemática às “necessidades” que precisam ser satisfeitas, caso 
a organização deva sobreviver. [...] uma terceira principal vantagem da 
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
108
metáfora é que, ao identificar diferentes “espécies” de organizações, fica-
se alertado para o fato de que na organização sempre se tem um conjunto 
de opções. [...] uma quarta importante força da metáfora é que ela põe 
em evidência a virtude de formas orgânicas de organização no processo 
de inovação. Seria um exagero sugerir que as organizações mecanicistas 
não inovam, mas esse aspecto contém importante núcleo de verdade. As 
ideias exploradas [...] sugerem que, se a inovação é prioridade, então, as 
formas de organização flexível, dinâmicas, matriarcais orientadas por 
projeto ou orgânicas serão superiores à mecanicista burocrática. 
 
Quanto às limitações, expõe Morgan (1999, p. 77-78):
A primeira delas reside no fato de que se é levado a ver as organizações 
e seus ambientes de maneira muito distante do concreto. [...] Uma 
segunda limitação da metáfora orgânica permanece na suposição da 
“unidade funcional”. Caso olhe para os organismos no mundo natural, 
descobre-se que se caracterizam por uma interdependência funcional 
em que cada elemento do sistema sob circunstâncias trabalha para 
todos os outros elementos. [...] A maior parte das organizações não é 
tão funcionalmente unificada como os organismos. E por fim, outra 
limitação da metáfora é o perigo de a mesma transformar-se em 
ideologia.
Enfim, pensar as organizações vistas como organismo, mesmo com as 
limitações, é uma maneira de verificar que certas organizações devem estar 
atentas às condições externas para acompanhar as mudanças a fim de se inovarem 
adequadamente e atenderem às necessidades externas, bem como se auto-
organizarem. E, para efeito de ilustração, o que foi mencionado tem impactos 
no mundo dos negócios nos dias atuais. Então, leia atentamente o texto a seguir, 
retirado da HSM, e faça a sua análise no sentido de confrontar o que foi mencionado 
anteriormente com o que postula o texto.
AS EMPRESAS VIVEM
Se a sua parece não respirar, revitalize-a: basta que pessoas e grupos 
descubram e incorporem conceitos arquetípicos ao seu jeito de ser e à sua 
atuação – e, portanto, ao seu processo de gestão. Esse é o segredo dos deuses. 
Por Jair Moggi.
As empresas são organismos vivos por excelência. Em primeiro lugar, 
porque, sendo uma criação do ser humano – o ser vivo que é a obra-prima 
da natureza, podemos dizer –, têm com ele uma ligação ontológica, ou seja, a 
criatura divide aspectos comuns com o criador.
 
Antes de existir de fato, uma empresa já existe imaterialmente, na 
mente de uma pessoa ou de um grupo de pessoas que têm como intenção um 
projeto, um ideal, uma ideia, um desejo ou um sonho. É como se fosse uma 
gravidez. É preciso lembrar que o que precede uma gravidez é muita emoção, 
como característica básica do ser humano vivo. Normalmente é o empresário 
TÓPICO 2 | ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
109
que se “engravida” dessa ideia e ou engravida/seduz outras pessoas como 
futuros sócios, financiadores, clientes, fornecedores, familiares, amigos etc. A 
gravidez pode ser emulada por uma necessidade de mercado, o desejo de fazer 
algo diferente, a vontade de ganhar dinheiro prestando um serviço ou criando 
um produto para atender a uma necessidade humana específica – às vezes, até 
inconsciente. 
 
Em algum momento “dessa gravidez”, as dores do parto se fazem fortes 
e algo é parido no mundo. Qual é a primeira providência dos pais quando nasce 
uma criança? É ir ao cartório – à Junta Comercial, no caso – e registrar esse ser 
que o Direito Civil Romano, já há 2 mil anos, chama de “pessoa jurídica”. Na 
Junta Comercial, os pais têm de declarar o nome do novo ser (sua identidade), 
os sócios-fundadores (seus pais), entre outros requisitos.
 
Então, a empresa, como todo ser vivo ao nascer, já traz uma história 
pré-natal, vem ao mundo impregnada dos valores e crenças das pessoas que 
a geraram, tem identidade e potenciais de realização, é depositária de sonhos 
e esperanças etc. Assim como o ser humano nasce, tem infância, adolescência, 
maturidade, velhice e desaparece fisicamente, também as empresas passam por 
fases de vida, ainda que possam não desaparecer fisicamente.
 
Todos os seres vivos, sejam pessoas físicas ou jurídicas, caracterizam-
se, entre outros aspectos, por apresentar processos vitais simultâneos para que 
seus objetivos possam ser atingidos. Desde que nasce até sua morte, o ser vivo 
está em constante processo de transformação e crescimento, sem perder sua 
identidade básica.
 
Entre as principais características do ser vivo que são observadas 
também nas empresas – e cada vez mais – estão capacidade de reprodução e de 
regeneração, reação rápida aos impulsos externos, capacidade de aprendizado 
e desenvolvimento contínuo em seu nível de consciência, capacidade de 
adaptação rápida ao meio. O ser vivo, seja empresa ou indivíduo, é, além disso, 
interdependente, está sempre conectado com outros organismos e com o meio 
ambiente externos.
 
O ser vivo é composto por órgãos complexos (nos animais superiores há 
coração, pulmão, estômago, rins etc.) e organiza-se a partir dos sistemas simples 
para os mais complexos, formando teias sutis e sensíveis numa verdadeira 
simbiose ou espírito de parceria, para que um todo exista de forma harmônica. 
Assim como há todo um sistema bioecologógico, podemos ver também que há 
um sistema ecológico empresarial.
 
Em determinado nível de complexidade do organismo, certos 
componentes celulares são polivalentes, como os neurônios, que são capazes de 
assumir funções de outros neurônios. Essa polivalência tornou-se igualmente 
essencial no contexto empresarial nos dias de hoje.
 
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
110
FONTE: HSM Management Update, n. 52, jan. 2008. Disponível em: <www.adigo.com.br/
UserFiles/.../Artigo_HSM_update_jan_08.pdf>. Acesso em: 24 maio 2010.
Recebendo impulsos do exterior, o ser vivo é dependente do seu meio 
ecológico, nutrindo-se nele ou dele. Sua ligação com o meio vai além, pois 
recebe e procura estímulos e recursos, processando e devolvendo contribuições 
ao ambiente que poderão criar e suprir carências de organismos externos 
maiores ou menores. É orientado por forte instinto de sobrevivência, mantém 
funções vitais básicas como alimentação, digestão, reprodução, respiração e 
movimentação. Reproduz-se, evolui e se perpetua, aprimorando e sempre 
mantendo a ligação com o modelo original.
 
Analisando todos esses paralelos, é natural intuir que as empresas 
funcionam como seres vivos também. É por essa razão que eles passam a ser, 
cada vez mais, um paradigma para modelos de gestão.
INFLUÊNCIA NO MODELO DE GESTÃO
Podemos comprovar com facilidade que algumas qualidades 
predominantes nos seres vivos jamais estarão presentes em modelos 
organizacionais baseados em princípios de rigidez que negam a vida, como 
a hierarquia tradicional ou os modelos mecanicistas de gestão que moldaram 
nossa civilização e nossa cultura empresarial atual.
Quando as empresas trabalham com base nos princípios do modelo de 
gestão orgânico, elas metamorfoseiam e incorporam na cultura empresarial as 
qualidades e características típicas de um ser vivo, passando a responder com 
agilidade e flexibilidade às necessidades do mundo externo,usando a intuição 
com a razão nas decisões e enfrentando as dificuldades de forma criativa.
Assim como nos demais organismos vivos, as células empresariais 
(indivíduos primeiro e grupos em segundo) têm no mesmo DNA os genes que 
orientam as pessoas e os grupos em direção à “chama sagrada da empresa”, 
à razão da sua existência, à sua missão, mesmo que cada uma pertença a um 
sistema ou processo organizacional diferente.
Isso é o que possibilita às empresas condições de sobrevivência, 
crescimento e desenvolvimento em um ambiente de competitividade acelerada, 
à semelhança dos seres vivos que fazem isso ao longo de todo o seu processo 
evolutivo.
Para as pessoas, o modelo celular ou de gestão orgânica cria condições 
e oportunidades concretas para o real aprendizado existencial individual e 
organizacional, revelando novos talentos, novas habilidades, agregando novas 
competências à cultura organizacional.
TÓPICO 2 | ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
111
FILME RECOMENDADO:
Patch Adams: um estudante de medicina começa a usar amor e carinho 
como armas para ajudar as pessoas hospitalizadas, até que começa a 
despertar desconfiança e ciúme dentro da própria classe médica.
Diretor: Tom Shadyac. Elenco: Robin Williams, Daniel London, Monica 
Potter, Philip Seymour Hoffman. Duração: 114 minutos. 1998.
2.3 AS ORGANIZAÇÕES VISTAS COMO CÉREBRO
É comum, atualmente, em certas áreas falar sobre neurociência, cérebro 
artificial, neurochip, ciências cognitivas, neuromarketing. Salienta-se que os estudos 
sobre o cérebro têm demandado esforços de diversos estudiosos e diversas áreas. 
Entretanto, destaca-se que o cérebro também serviu/serve de metáfora para 
entendimento das organizações. Conforme Morgan (1999, p. 83):
[...] o cérebro dessa forma, oferece uma metáfora óbvia para a 
organização. Particularmente se a preocupação é melhorar a capacidade 
de inteligência organizacional. Muitos administradores e teóricos 
organizacionais apenas tocaram superficialmente neste ponto, limitando 
a sua atenção à ideia de que a organização necessita de um cérebro ou 
uma função semelhante ao do cérebro [...] que sejam capazes de pensar 
para o resto da organização, controlar e integrar sobre tudo na atividade 
organizacional.
Neste sentido, no momento histórico que estamos vivenciando, 
principalmente em termos de mercado, observa-se que a competição tem se tornado 
acirrada, onde se disputa mercado através de fusões e incorporações, cliente 
a cliente e investe-se em pesquisa de ponta. Entretanto, diante deste contexto, 
postula-se que o sucesso de uma organização está no ser humano, designado por 
muitos de capital humano. Este Ser Humano que pretende fazer parte do mundo 
do trabalho, tem se deparado que é necessário conhecer a si mesmo, seus limites 
e suas potencialidades, e além do mais, estar sempre aprendendo. E isso vale 
também para as organizações, que precisam saber seus pontos fortes, seus limites 
e precisam, acima de tudo, estar aptas a aprender a aprender.
Diante disso, algumas questões se apresentam: As nossas organizações são 
capazes de aprender? O ser humano é capaz de aprender a aprender? Quais as 
principais barreiras para aprendizagem? Qual é o melhor momento para aprender 
(para as organizações e para você)? O que deve ser ensinado para as organizações 
e pessoas? Como fazer isso? O que as organizações e pessoas devem aprender 
sozinhas? Podemos aprender tudo?
DICAS
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
112
Diante deste contexto a metáfora do cérebro é uma das formas de pensar 
as organizações principalmente no sentido de processar informações e ainda ser 
capaz de aprender, pois, de certa forma, pode-se auferir que as organizações são 
sistemas de processamento de informações, assim como o cérebro humano. A partir 
dessa concepção pensou-se na ideia de que é possível planejar tais organizações 
de forma que elas possam aprender a auto-organizar-se, como um cérebro em 
completo funcionamento. (MORGAN, 1999).
Desta forma, a ideia postulada nesta metáfora é de que a organização tendo 
capacidade de aprender será capaz de inovar, encontrar soluções e superar os 
desafios vigentes neste ambiente de constantes mudanças em que vivemos, pelo 
menos assim se espera. Neste sentido, o cérebro tem mostrado ter capacidade, 
via de regra, para se auto-organizar de diversas maneiras e de acordo com as 
necessidades postas. Conforme Morgan (1999, p. 101), “[...] o cérebro tem essa 
interessante capacidade de organizar e reorganizar a si mesmo para lidar com as 
contingências que enfrenta. [...] Os conhecimentos levam a ver o cérebro como um 
sistema no qual este desempenha parte importante em se autoplanejar no curso da 
evolução”.
Entretanto como mencionado nas metáforas já estudadas, esta metáfora 
também tem as suas forças e limitações, conforme Morgan (1999). Quanto às 
forças destacam-se: 
a) é aprendizagem organizacional (pessoal) e a capacidade de se auto-
organizarem; 
b) a compreensão de como a administração estratégica pode ser planejada para 
facilitar o aprender a aprender; 
c) ela oferece meios através dos quais podem ir além da limitada racionalidade 
que caracteriza muitas organizações presentes e nos quais há de se ver outro 
lado da capacidade cognitiva, capacidade holística, analógica, intuitiva e 
criativa do hemisfério direito do cérebro; 
d) proporciona meios valiosos de pensar sobre como desenvolvimentos na 
computação e outras tecnologias em microprocessamento podem ser usados 
para facilitar novos estilos de organização.
Quanto às fraquezas identificam-se (MORGAN, 1999, p. 113): 
a) existe um perigo de não se levar em conta importantes conflitos entre os 
requisitos da aprendizagem e auto-organização, por um lado, e das realidades 
de poder e controle, por outro; 
b) o fato de que, desde que qualquer movimento no sentido da auto-organização 
deva ser acompanhado por importantes mudanças de atitudes e valores, as 
realidades do poder podem ser reforçadas pela inércia que vem das suposições 
e crenças existentes. 
TÓPICO 2 | ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
113
Investigue em que os atuais estudos sobre o cérebro têm influenciado na maneira 
de pensar e agir na sua área de estudo. 
2.4 AS ORGANIZAÇÕES VISTAS COMO CULTURAS
Caro(a) acadêmico(a), você já deve ter refletido que, com a globalização, 
houve aumento sobremaneira do comércio internacional. Desta forma, os 
profissionais de diversas áreas estão atentos à cultura das empresas de outros 
países e têm contatos ou, até mesmo, conhecem a cultura individual de cada 
membro que compõe a organização. Por isso, é importante perceber como cada 
indivíduo pensa ou raciocina, de que escola de pensamento é oriundo, ou ainda, 
que aspectos culturais são importantes para aquele com quem se deseja negociar 
ou entrar em contato. 
 
Neste sentido, uma das formas de se ver as organizações é através da 
metáfora da cultura. Vale destacar que a palavra cultura deriva do verbo latino 
colore, que significa cultivar, ideia de cultivo, do processo de arar a terra. Atualmente 
a palavra cultura pode ser utilizada de forma genérica e com muitos sentidos. Ou 
seja, cada povo pode, em períodos históricos diferentes, ter mudado a sua maneira 
de pensar, ver e agir no mundo. Assim como existem culturas milenares, há outras 
que passam rapidamente e, se assim podemos dizer, não passam de modismo.
No âmbito organizacional também se tem pensado neste sentido (cultura 
organizacional) e, para Morgan (1999), as questões culturais envolvem valores, 
crenças, ritos, mitos, do lugar e das pessoas que rodeiam a empresa. E neste sentido, 
pode-se dizer que os aspectos culturais influenciam o comportamento, a forma de 
agir e pensar e até mesmo planejar a organização.
 
O cientista político Robert Presthus sugeriu que vivemos atualmente 
numa “sociedade organizacional”. Seja no Japão, Alemanha, Hong-
Kong, Inglaterra, Rússia, Estados Unidos ou Canadá, grandes 
organizações são capazes de influenciara maior parte do dia a dia das 
pessoas de maneira completamente estranha àquela encontrada numa 
remota tribo nas selvas da América do Sul. Isso parece óbvio, mas 
muitas características da cultura permanecem no óbvio. Por exemplo, 
porque tantas pessoas constroem as suas vidas em torno de conceitos 
distintos de lazer e trabalho, seguem rígidas rotinas de cinco ou seis 
horas/dia por semana, vivem em um lugar e trabalham em outro lugar, 
usam uniforme, aceitam autoridade e gastam tanto tempo em um único 
lugar desempenhando um único conjunto de atividades. Para alguém de 
fora, a vida diária em uma sociedade organizacional é cheia de crenças 
peculiares, rotinas e rituais que identificam como uma vida cultural 
distinta quando comparada com aquela em sociedades tradicionais. 
(MORGAN, 1999, p. 116). 
DICAS
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
114
Então, numa empresa no Brasil, podemos ter pessoas oriundas de diversas 
culturas, embora com o mesmo propósito na empresa. Entretanto, em momentos 
de decisão ou nas ações do dia a dia da empresa, estas divergências podem entrar 
(ou não) em conflito, principalmente quando de origem cultural, formação, escola 
de pensamento, dentre outros. Ou ainda, essas diferenças culturais serão mais 
visíveis quando envolve empresas que não são do mesmo país.
Uma pessoa de negócios em uma visita internacional ou mesmo 
visitando um cliente ou outra organização no seu país pode muito 
bem ser aconselhada a aprender as normas que lhe permitirão sentir-
se “nativo”. Por exemplo, visitando um estado árabe é importante 
compreender os diferentes papéis desempenhados pelo homem e 
pela mulher na sociedade árabe e as regras locais que dizem respeito 
à natureza flexível do tempo. Em geral, os árabes no seu país de 
origem têm reservas em negociar com mulheres. Eles também gostam 
de usar o tempo para construir a confiança nos negócios e sondar o 
relacionamento antes de tomarem decisões, recusam-se a ser apressados 
e não necessariamente veem um compromisso das duas horas da tarde 
como significando duas horas da tarde. (MORGAN, 1999, p. 133).
A metáfora da cultura também tem as suas forças e limitações. Quanto à 
força, nas palavras de Morgan (1999), temos: 
a) enfatiza o significado simbólico ou mesmo “mágico” da maioria dos aspectos 
racionais da vida organizacional. Em termos gerais, esta metáfora centraliza a 
atenção sobre o lado humano da organização, que outras metáforas ignoram 
ou encobrem;
b) repousa sobre sistemas de significados comuns e, portanto, em esquemas 
interpretativos que criam e recriam esse sentido, abrindo-se um novo foco 
e caminho para a criação da ação organizacional. A metáfora da cultura 
orienta-se na direção de outros meios, criando atividade organizada pela 
influência do linguajar, normas, folclore, cerimônias e outras práticas sociais 
que comunicam ideologias-chaves, valores e crenças que guiam a ação; 
c) interpreta a natureza e o significado das relações da organização com o 
ambiente. As organizações escolhem e estruturam o seu ambiente através de 
um conjunto de decisões interpretativas. Neste sentido, a natureza torna-se 
visível através da cultura;
d) ajuda a compreender a mudança organizacional, uma vez que mudanças 
também dependem da mudança de imagens e valores que devem guiar as 
ações, e não apenas de tecnologia, estrutura e habilidades.
Dentre suas limitações, aponta-se que a metáfora pode revelar-se 
manipuladora e totalitária na sua influência e todas as pessoas constroem ou 
representam as suas realidades, mas não necessariamente pela sua própria escolha. 
(MORGAN, 1999).
TÓPICO 2 | ORGANIZAÇÕES: DIVERSIDADES DE ENFOQUES
115
Caro(a) acadêmico(a), para aprofundar os seus estudos sobre MORGAN, consulte 
a obra completa “Imagens das Organizações”.
DICAS
• Alessandro Teixeira, da Apex-Brasil, conta a história de uma fabricante de cera 
depilatória que recebeu um pedido dos Emirados Árabes – onde mulheres 
usam burca. O produto foi embarcado com a embalagem tradicional, na qual 
havia a imagem das pernas de uma mulher. “A remessa voltou, e ela teve de 
reembalar e reenviar”, afirma Teixeira.
• Fabiano Gullane, da Gullane Filmes, é outro que passou por dificuldades 
por causa de diferenças culturais. O atrito começou durante as filmagens de 
uma coprodução entre Brasil, Japão e China. A produtora brasileira tem por 
norma filmar de dez a 11 horas por dia durante cinco a seis dias por semana. 
“Os chineses trabalham 15 a 16 horas por dia e não param até que terminem 
tudo”, destaca o empresário. Gullane contornou o problema entre as equipes 
e garante que a pendência foi resolvida.
FONTE: Adaptado de: Folha de São Paulo, domingo, 9 maio 2010. Disponível em: <http://www1.
folha.uol.com.br/fsp/negocios/cn0905201005.htm>. Acesso em: 24 maio 2010.
Entretanto, caro(a) acadêmico(a), como mencionado anteriormente, Morgan 
avança nas suas ideias, analisando as organizações através de outras metáforas. 
Assim, acadêmico(a), nas organizações, além das metáforas apresentadas por 
Morgan, para finalizar, você conhecerá a metáfora da selva e da batalha, exposta 
por Solomon.
Pouca informação sobre cultura estrangeira pode acabar em gafe: Barreiras 
culturais estão entre os fatores que impedem o sucesso da negociação. 
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
116
LEITURA COMPLEMENTAR
É UMA SELVA POR AÍ
Solomon
 
Entre os mitos e metáforas mais danosos da linguagem dos negócios estão 
os conceitos darwinianos machistas de “sobrevivência do mais apto” e “é uma selva 
por aí”. A ideia subentendida, é claro, é que a vida de negócios é competitiva e nem 
sempre justa. No entanto, esse óbvio par de ideias é muito diferente das imagens 
“pega para capar” e “cada um por si”, rotineira no mundo dos negócios. É verdade 
que os negócios são e devem ser competitivos, mas não é verdade que precisam 
ser implacáveis ou canibalísticos, ou que “as pessoas têm de fazer qualquer coisa 
para sobreviver”. Algumas metáforas de animais são, sem dúvida, encantadoras – 
um chefe ocasional pode ser um “ursinho de pelúcia” e um negociador combativo 
é um “tigre” –, mas o mais das vezes elas são aviltantes. Empregados, executivos 
e concorrentes são descritos como cascavéis, ratos e uma ampla variedade de 
roedores. As corporações, por sua vez, são associadas a tanques de peixes, ninhos 
de cobra e brigas de gato e, às vezes, as imagens da flora da própria selva são 
invocadas. Mas, além da implicarem um uso errado da biologia e serem injustas 
com os animais, as metáforas da selva são ruins, em particular, para os negócios, 
que são (ou deveriam ser) tudo menos incivilizados, desprovidos de regras e 
governados pelo instinto assassino.
As batalhas brutais dos negócios 
Semelhante à metáfora darwiniana, mas ainda mais machista e mais 
sintonizada com a natureza coletiva da maior parte da agressão e da competição 
humanas, é a conhecida metáfora da “guerra”, que ouvimos em tantas salas de 
conselhos corporativos. Muitas vezes se afirmou que as estruturas hierárquicas da 
maioria das corporações não só se assemelham a cadeias de militares de comando 
como foram moldadas por elas. O eticista militar Anthony Harde sugere que a 
perspectiva militar e, consequentemente, as metáforas militares são intrinsecamente 
nacionalistas, alarmistas, pessimistas, conservadoras e autoritárias. Num mundo 
coorporativo norte-americano, o chauvinismo substituiu o nacionalismo, mas 
em reuniões administrativas os empregados são mencionados como soldados e 
os concorrentes se tornam “inimigo”. A obediência costuma ser recompensada 
apesar da sua estupidez. Planos de ação são tipicamente chamados de “planos de 
ataque”, “estratégias de batalha”. [...] Entretanto, fazer negócios não é “guerrear” 
e a competição comercial, mesmo quando a sobrevivência da companhia está em 
jogo, não deveria ser confundida com a destrutividade mútua da guerra. O objetivo 
da competição nos negócios é produzir os melhores e menos carosprodutos e 
serviços.
 
FONTE: Solomon (2006, p. 52-53).
117
RESUMO DO TÓPICO 2
Caro(a) acadêmico(a), neste tópico você viu que:
• A vida organizacional social, de acordo com os propósitos mecanicistas, é 
constantemente rotinizada com a precisão exigida de um relógio. Aguarda-se 
que as pessoas cheguem ao trabalho em determinada hora, façam um conjunto 
predeterminado de atividades, descansem em horas marcadas e então retomem 
as suas atividades até que o trabalho termine.
• A mais importante contribuição sobre o estudo da burocracia foi do sociólogo 
alemão Max Weber, concluindo que as formas burocráticas rotinizam os 
processos de administração exatamente como a máquina rotiniza a produção.
• O próprio homem está destruindo o sistema ecológico do qual depende e, 
consequentemente, destruindo a si mesmo e à própria espécie.
• Na educação e também nas sociedades, embora alguns teóricos e pensadores 
já tenham acenado para novas concepções de mundo, ainda permanece o 
pensamento mecanicista – o retalhamento do ser, do saber e do fazer humanos.
 
• Para Morgan, é necessário desenvolver habilidades na arte de ler as situações 
que se está tentando organizar e administrar.
• As metáforas elencadas por Morgan têm seus pontos fortes, mas também 
limitações.
118
AUTOATIVIDADE
As perguntas, a seguir, referem-se aos principais pontos deste Tópico 2. 
Elas poderão ajudá-lo(a) a estudar e rever todo o conteúdo apresentado.
 A partir da leitura do poema de Mário Quintana, “Das ampulhetas e 
das clepsidras”, responda às questões 1 e 2:
“Antes havia os relógios d’água, antes havia os relógios de área. O 
tempo parte da natureza. Agora é uma abstração – unicamente denunciada 
por tic-tac mecânico, como o acionar contínuo de um gatilho numa espécie de 
roleta-russa. Por isso é que os antigos aceitavam mais naturalmente a morte.”
1 Aplique a referência do poeta ao uso do cronômetro, fazendo uma avaliação 
do sistema mecanicista das fábricas.
2 Aceitar a condição que nos é imposta, de que devemos obedecer a um relógio, 
não seria ao mesmo tempo negar a vivência natural dos seres em organização 
social? Reflita e disserte.
3 Sintetize as principais ideias das metáforas do cérebro, da cultura 
e do organismo.
4 Aponte as ideias principais do texto complementar.
 
5 Ao agir mecanicamente, o indivíduo enfatiza a rapidez (tempo) e o controle 
de tarefas (produção). Sendo assim, o profissional é uma engrenagem e 
sua potencialidade corporal, neste momento, fica engessada e o raciocínio 
semibloqueado. A afirmação refere-se ao pensamento:
a) ( ) Holístico.
b) ( ) Mecanicista.
c) ( ) Organicista.
d) ( ) Pós-moderno.
6 Analise as afirmações a seguir e classifique V para as sentenças 
verdadeiras e F para as falsas:
( ) Em algumas organizações, o modo mecanicista pode oferecer bases para 
uma operação eficaz. Em outras, porém, pode ter consequências muito 
desastrosas. Frente a isso, um dos maiores desafios com que se deparam 
muitas organizações é substituir esse tipo de organização e pensamento 
por ideias e enfoques novos. 
( ) Uma das críticas feitas ao modelo mecanicista pode ser observada no filme 
“Tempos Modernos”, de Charles Chaplin.
( ) A abordagem do homem mecanicista implica dizer que o trabalhador é livre 
para pensar e apontar ideias inovadoras. 
119
 Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V - V - F.
b) ( ) V - V - V.
c) ( ) F - V - F.
d) ( ) V - F - F. 
7 Entre as consequências do mecanicismo na educação podemos destacar:
a) ( ) Se incentivam os alunos a pensar de forma autônoma e crítica. 
b) ( ) A educação é vista como transmissão e assimilação de ideias prontas 
e acabadas. Não se ensina o aluno a questionar e nem a expressar 
pensamentos próprios. 
c) ( ) O conteúdo das disciplinas é ensinado de forma interdisciplinar. Os 
professores planejam as atividades em conjunto. 
d) ( ) O aluno é ativo na construção do conhecimento e busca transformar o 
meio em que vive.
8 Uma das mais importantes contribuições deste sociólogo foi o estudo da 
burocracia. Ele concluiu que as formas burocráticas rotinizam os processos 
de administração exatamente como a máquina rotiniza a produção. Esta 
afirmação se refere a:
a) ( ) Guerreiro Ramos.
b) ( ) Comte.
c) ( ) Weber.
d) ( ) Marx.
120
121
TÓPICO 3
HOMEM CONTEMPORÂNEO: CONSCIENTE DA 
QUALIDADE DE VIDA
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
O sociólogo Alberto Guerreiro Ramos se distingue no cenário intelectual 
brasileiro como um intelectual de grande importância internacional. Nascido em 
1915, na cidade de Santo Amaro da Purificação, Bahia, faleceu no dia 6 de abril 
de 1982, em Los Angeles, Califórnia, foi, em 1956, incluído pelo sociólogo clássico 
Pitirim A. Sorokin entre os autores eminentes que contribuíram para o progresso 
mundial da disciplina da Sociologia. Como professor, pesquisador e autor, Alberto 
Guerreiro Ramos esteve associado a quatro importantes instituições como DASP, 
ISEB/MEC, EBAP/FGV, University of Southern California (USC) e UFSC. Além da 
carreira acadêmica, exerceu mandato político como deputado federal.
Na concepção de Ramos, sobre a sociedade, as pessoas deveriam unir-
se em grupos naturalmente pela comunhão e não pelo interesse – característica 
da solidariedade orgânica. Ele tinha um pensamento conservador, valorizava a 
cultura, a moral do homem, criticando a sociedade moderna que torna as pessoas 
extremamente utilitaristas, fúteis e egoístas.
FONTE: Disponível em: <http://www.historiadaadministracao.
com.br/jl/ images/stories/Imagens/Guerreiro%20Ramos%202.jpg>. 
Acesso em: 24 maio 2010.
FIGURA 11 – ALBERTO GUERREIRO RAMOS
122
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
2 EM DEFESA DA ABORDAGEM SUBSTANTIVA NAS 
INSTITUIÇÕES
Uma das fontes de inspiração para Alberto Guerreiro Ramos foi o 
pensamento do amigo John Pfiffner:
A teoria administrativa não pode mais legitimar a racionalidade funcional 
da organização, como tem feito amplamente. O problema básico do passado era 
superar a escassez dos bens materiais e serviços elementares. Nesse período, grande 
parte do esforço no ambiente de trabalho foi técnico e socialmente necessário e 
mesmo inevitável, o que não ocorre hoje. O que leva as organizações atuais às crises 
é o fato de que, por sua estrutura organizacional e forma de operação, admitem 
que antigas carências continuem a ser básicas, enquanto, na realidade, o homem 
contemporâneo está consciente de que as carências críticas pertencem a outro 
grupo, isto é, relacionam-se a necessidades além do nível de simples sobrevivência. 
Assim, o darwinismo social, que tem validado tradicionalmente a teoria e a prática 
da administração, tornou-se obsoleto por força das circunstâncias. Este artigo é 
uma tentativa de reavaliação da evolução da teoria administrativa. Usa modelos de 
homem como ponto de referência (isto é, o homem operacional, o homem reativo 
e o homem parentético).
A partir do final do século XIX vem ocorrendo uma dramática mudança de 
orientação nas abordagens à organização e ao trabalho. Nesse contexto, o influente 
sociólogo William Graham Summer afirmou que não haveria maneira de integrar 
o interesse de empregados e empregadores.
Verifica-se que uma atmosfera de crise envolve as organizações 
contemporâneas e se reflete na teoria que sobre elas foram formuladas. 
Tanto no campo profissional como no acadêmico, os indivíduos vivenciam 
progressivamente esta crise no seu dia a dia. No hodierno, o ambiente 
interno e externo das organizações é influenciado por um elevado grau 
de falta de clareza e confusão. Diversos estudiosos concluíram que 
está surgindo um novo modelo de homem cujo desenvolvimento e 
esclarecimento são essenciais para ultrapassar o estado crítico da arte 
e da teoria da administração. James Carroll, por exemplo, vê uma “[...] 
conscientização crescente” que está “transbordando e inundando [...] os 
sistemas sociais existentes”. Também revela o surgimentode um novo 
tipo de personalidade que não mais “[...] se ajusta facilmente à estrutura 
de valores organizacionais e institucionais baseada em percepções e 
interesses previamente fixados”. (CARROL, 1969, p. 493).
As orientações propostas por Carroll, entre outros autores, estão baseadas 
na ideia de que necessitamos um ponto de referência, para desenvolver algum 
senso de direção no trato com os problemas administrativos e perceber que tipos de 
circunstâncias sociais contemporâneas estão afetando atualmente cada indivíduo 
e as organizações. De fato, afirma Ramos, a história contemporânea está gerando 
um novo tipo de homem, o qual denominou de “o homem parentético”.
TÓPICO 3 | HOMEM CONTEMPORÂNEO: CONSCIENTE DA QUALIDADE DE VIDA
123
Alberto Guerreiro Ramos procurou reavaliar a evolução da teoria 
administrativa, usando como pontos de referência modelos de homem, a saber, 
o homem operacional, o homem reativo e o homem parentético. Durante toda a 
história do estudo da administração, teóricos e profissionais escreveram e agiram, 
fazendo suposições acríticas a respeito da natureza do homem. Atualmente, 
porém, uma teoria administrava que não tenha consciência das suas implicações 
psicológicas dificilmente poderá ser aceita.
Na teoria administrativa o homem operacional corresponde ao Homo 
economicus da economia clássica, ao Homo sociologicus, amplamente adotado 
pelo modelo acadêmico de sociologia e ao Homo politicus que David Truman 
(1965), Christian Bay (1965) e Sheldon Wolin (1969) descreveram como o modelo 
predominante na ciência política vigente.
A validade do homem operacional está tacitamente aceita. Como recurso 
organizacional, essa abordagem implica: 1) um método autoritário de alocação de 
recursos, no qual o trabalhador é visto como ser passivo que deve ser programado 
por especialistas para atuar dentro da organização; 2) um conceito de treinamento 
como uma técnica para “ajustar” o indivíduo aos imperativos da maximização da 
produção; 3) uma visão de que o homem é calculista, motivado por recompensas 
materiais e econômicas e, como trabalhador, é psicologicamente diferente de 
outros indivíduos; 4) uma visão de que administração e teoria administrativa 
são isentas ou neutras; 5) uma indiferença sistemática às premissas éticas e de 
valores do ambiente externo; 6) o ponto de vista de que aspectos da liberdade 
pessoal são estranhos ao modelo operacional; 7) um conceito de que o trabalho é 
essencialmente um adiamento da satisfação.
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tornou um dos maiores nomes da medicina moderna. Acompanhando a 
juventude do doutor, a trama aborda sua luta para conseguir se formar e 
o apoio irrestrito que recebeu da mãe, nos momentos mais difíceis.
A alternativa para contrapor o homem operacional surgiu dos estudos de 
Hawthorne. Foi o início da Escola de Relações Humanas, que considerava o homem 
mais complexo do que consideravam os teóricos tradicionais. Os humanistas: 
a) tinham uma visão mais sofisticada da natureza da motivação do homem; b) 
não negligenciaram o ambiente social externo à organização e, por essa razão, 
definiram a organização como um sistema social aberto; c) perceberam o papel 
desempenhado, no processo de produção, pelos valores, sentimentos e atitudes.
DICAS
124
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
O modelo de homem desenvolvido pelos humanistas pode ser chamado 
de “homem reativo”. Para os humanistas, como também para seus antecedentes, 
o sistema industrial e a empresa funcionam como variáveis independentes e, 
embora estivessem sempre preocupados com os trabalhadores e suas motivações, 
os objetivos buscados não foram realmente alterados. Eles desenvolveram 
procedimentos para a cooptação de grupos informais, o uso de ‘aconselhamento 
pessoal’ e habilidade para lidar com as relações humanas individuais com o 
objetivo de estimular reações positivas em consonância com as metas da empresa. 
Os humanistas percebiam o trabalhador como “um ser reativo” (RAMOS, 1984, p. 
6), tendo como objetivo principal a adaptação do indivíduo ao contexto de trabalho 
e não seu crescimento individual. Isto ocasiona uma total inserção do trabalhador 
na organização, transformando-o no que W. H. Whyte Jr. chamou de “homem 
organizacional”.
Atualmente não é mais possível legitimar tal racionalidade funcional nas 
organizações, o que vem provocando questionamentos sobre o valor do homem operacional 
e de toda sua estrutura.
Já alguns aspectos do contexto operacional, deixados de lado no passado, 
estão recebendo, hoje, uma importante atenção. Por exemplo, agora o processo 
recebe maior atenção do que a estrutura; as tarefas do que as rotinas; estratégias 
ad hoc do que princípios e prescrições, bem como o que tem sido chamado 
de organização em mudança, organizações não hierárquicas e administração 
participativa. 
Apesar disso, Ramos destaca que estes progressos são consideráveis, mas 
periféricos. Do mesmo modo, a atual teoria e práticas administrativas não são 
adequadas às necessidades presentes. Segundo Ramos (1984, p. 6), “[...] conceitos 
de mudança organizacional, por exemplo, são formulados em termos reativos, isto 
é, testados quanto à sua capacidade de responder acriticamente às flutuações de 
seus ambientes e sem assumir a responsabilidade pelos padrões de qualidade e 
prioridade desse mesmo ambiente”. Essa teoria reativa baseia-se em uma visão 
ingênua da natureza dos insumos e produtos. Considera que os insumos consistem 
em pessoas, materiais e energia, neutralizando os fatores ético e valorativo do 
ambiente, cuja racionalidade e legitimidade são simultaneamente ignoradas.
Outro aspecto envolve a integração indivíduo/organização. Os defensores 
da integração omitem o caráter básico, duplo da racionalidade. Em outras palavras, 
existe uma racionalidade cujos padrões nada têm a ver com comportamento 
administrativo. Trata-se da racionalidade substantiva, de Mannheim, que é um 
atributo intrínseco do indivíduo como ser racional, e nunca pode ser vista como 
pertencente a qualquer organização.
ATENCAO
TÓPICO 3 | HOMEM CONTEMPORÂNEO: CONSCIENTE DA QUALIDADE DE VIDA
125
De fato, a racionalidade substantiva não está necessariamente relacionada a 
uma coordenação de meios e fins (razão funcional), do ponto de vista da eficiência. 
Deriva dos imperativos da própria razão, compreendida como uma faculdade 
específica do homem e que exclui a obediência cega às exigências de eficiência. 
Conforme Ramos (1984, p. 7), “[...] pode, historicamente, acontecer que um ‘alto 
grau de desenvolvimento na racionalidade pragmática’ coincida com um ‘alto 
grau de irracionalidade na esfera da razão substantiva’”. O nosso comportamento 
que ocorre sob o amparo da razão substantiva pode ser administrativo apenas 
por acaso, não por necessidade. A organização e seus líderes podem julgar se um 
comportamento é instrumental (funcional) para suas finalidades, mas nunca sua 
adequação à racionalidade substantiva. Com certeza, é privilégio da racionalidade 
substantiva julgar a organização. Por exemplo, é a tensão crônica entre as duas 
racionalidades que fez com que Daniel Ellsberg, tão inesperadamente, revelasse o 
conteúdo dos chamados documentos secretos do Pentágono (década de 80).
Para Ramos, o modelo do homem parentético pode prover a teoria 
administrativa de sofisticação teórica para enfrentar os desafios e problemas que 
provocam as tensões entre a racionalidade substantiva e a racionalidade funcional.
O sociólogo Karl Mannheim (1893-1947) teorizou sobre os tipos de racionalidade, 
vejamos.
FONTE: Disponível em: <http://www.nndb.com/
people/431/000099134/karl-mannheim-3-sized.jpg>. 
Acesso em: 24 maio 2010.
Racionalidade funcional: diz respeito a qualquer conduta, acontecimento ou objeto, na 
medida em que esse é reconhecido como apenas um meio de atingir uma determinada 
meta. Sua influência ilimitada sobre a vida humana solapa suas qualificações éticas. Essaracionalidade tende a despojar o indivíduo [...] de sua capacidade de sadio julgamento. Ele vê 
um declínio de crítica do indivíduo, na proporção do desenvolvimento da industrialização.
Racionalidade substantiva: é um ato de pensamento que revela percepções inteligentes 
das inter-relações de acontecimentos numa situação determinada, atos dessa natureza 
tornam possível uma pessoa orientada por “julgamentos independentes”. Essa racionalidade 
constitui a base da vida humana ética, responsável. É estreitamente relacionada com a 
preocupação em resguardar a liberdade. Nesta racionalidade seus pressupostos e seu 
sentido ganham importância, preferindo agir na esfera do “porquê”, participando da esfera 
do “como” apenas por acidente.
FIGURA 12 – KARL MANNHEIM
NOTA
126
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
Na realidade, o homem parentético não pode deixar de ser um participante 
na organização. Mas, mesmo ele sendo um ser autônomo, não pode ser 
psicologicamente enquadrado como aqueles indivíduos que se comportam de 
acordo com os modelos reativo e operacional. O homem parentético possui uma 
consciência crítica altamente desenvolvida dos princípios de valor presentes no 
dia a dia. Na realidade, o adjetivo “parentético” é derivado da noção de Husserl 
de “em suspenso” e “parênteses”. A atitude crítica suspende ou coloca entre 
parênteses a crença no mundo comum, permitindo ao indivíduo alcançar um nível 
de pensamento conceitual e, portanto, de liberdade.
De acordo com Ramos, o homem parentético é simultaneamente um reflexo 
das novas circunstâncias sociais, que ocorrem principalmente nas sociedades 
industriais avançadas como a dos EUA, que irão prevalecer ocasionalmente pelo 
mundo inteiro. De fato, os padrões de comportamentos tendem a se difundir nas 
sociedades industriais avançadas e só existem residualmente em sociedades em 
estágios anteriores de evolução. Por exemplo, tais padrões somente puderam ser 
percebidos em indivíduos excepcionais como Sócrates, Bacon e Maquiavel, o que 
Lane (1966, p. 654) chama de “[...] diferenciação entre o ego do ambiente interno 
e o ego do ambiente externo”, o que lhes possibilitou perceber suas respectivas 
sociedades, excluindo-se do ambiente interno, quanto do externo, podendo, dessa 
forma, examiná-los com uma visão crítica, enquanto a massa da população adotava 
interpretações convencionalmente estabelecidas.
Na realidade, a exclusão equivale aqui a incluir, a colocar o ambiente entre 
parênteses. O homem parentético está apto a classificar o fluxo da vida diária 
para examiná-lo e avaliá-lo como um expectador. Afasta-se do meio familiar, 
tenta romper com suas raízes; torna-se um estranho em seu próprio meio social, 
possibilitando maximizar sua compreensão da vida. Em outras palavras, a atitude 
parentética é a capacidade psicológica do indivíduo de separar a si mesmo de 
seu ambiente interno e externo. Ele se desenvolve quando termina o período 
da ingenuidade social; o que Lane chama de sociedade “informada”, é o habitat 
natural do homem parentético.
O homem parentético está eticamente comprometido com valores que 
conduzem à primazia da razão substantiva, tendo uma relação com o trabalho 
e com a organização muito peculiar. Não se esforça demasiadamente para obter 
sucesso, segundo os padrões convencionais. Ele atribui grande importância ao eu e 
teria urgência em encontrar um significado para a vida. Não aceitaria acriticamente 
padrões de desempenho, embora pudesse ser um grande empreendedor quando 
lhe atribuíssem tarefas criativas. Não trabalharia apenas para fugir à apatia ou 
indiferença, porque o comportamento passivo vai ferir seu senso de autoestima 
e autonomia. Esforçar-se para influenciar o ambiente, para retirar dele tanta 
satisfação quanto pudesse. Seria ambivalente em relação à organização, “[...] sua 
ambivalência seria derivada de sua compreensão de que as organizações, como são 
limitadas pela racionalidade funcional, têm de ser tratadas segundo seus próprios 
termos relativos”. (RAMOS, 1984, p. 9).
TÓPICO 3 | HOMEM CONTEMPORÂNEO: CONSCIENTE DA QUALIDADE DE VIDA
127
Na visão de Ramos, o reconhecimento da racionalidade funcional pela teoria 
administrativa não pode continuar. Anteriormente, o problema básico consistia em 
superar a escassez dos bens materiais e serviços elementares. Desse modo, grande 
parte do esforço no ambiente de trabalho foi técnica e socialmente necessária e até 
inevitável, o que não necessita hoje. Muitas crises nas organizações atuais vêm do 
fato de que sua estrutura organizacional e forma de operação admitem que essas 
antigas carências continuem sendo básicas.
Cada vez mais as pessoas estão conscientes da possibilidade de eliminação 
do trabalho desnecessário, condicionando suas atitudes para com o trabalho e a 
organização. Desse modo, é necessário que o desenvolvimento e a renovação da 
organização caminhem na tentativa de dar às pessoas uma sensação de verdadeira 
participação social.
Verifica-se que um dos problemas principais a ser considerado na 
administração global do sistema social é o esboço de novos tipos de organização 
ou novos padrões de trabalho. Na realidade, estamos vivenciando um sistema 
capaz de reduzir tarefas árduas até o ponto de completa eliminação do trabalho; 
todavia, muitas pessoas não estão levando em conta essa possibilidade concreta.
Alberto Guerreiro Ramos afirma que a grande maioria dos trabalhadores 
industriais não encontra a “motivação central de sua vida” em seu trabalho, 
havendo indicações crescentes de que suas vidas fora do trabalho sofrem influência 
da sua atual situação no emprego. Em outras palavras, seu descontentamento com 
o emprego pode gerar uma alienação da sociedade global.
A tecnologia, como uma força não controlada, pode ao invés de 
melhorar a qualidade de vida, colocar em perigo a viabilidade do 
homem como criatura racional. E, já que isso não é inerente à tecnologia, 
mas da estrutura política e institucional, está surgindo um novo 
nível de conscientização humana que estimula as pessoas a adotar 
comportamentos reativos. Desse modo, essas pessoas, principalmente 
os jovens, se sentem responsáveis pela redefinição das prioridades e 
metas tanto da organização como do sistema global para desenvolver 
suas próprias tendências e inclinações individuais, para consumir não 
apenas bens manufaturados, mas a própria liberdade. Paradoxalmente, 
a tecnologia é de fato o principal fator que contribui para essa revolução 
na sociedade moderna. (RAMOS, 1984, p. 11).
Atualmente a sociedade está cada vez mais se encaminhando em direção a 
estilos parentéticos de vida. E, muitos indivíduos, acadêmicos e profissionais estão 
tentando “derrotar ou desestabilizar” os sistemas administrativos tradicionais. 
Principalmente nas tentativas de projetos de organizações não hierárquicas e 
orientadas para a clientela, em órgãos e políticas voltadas para a proteção dos 
cidadãos e consumidores, bem como para o elevado crescimento de preocupações 
com questões da qualidade de vida humana no trabalho, preservação ambiental, 
autorrealização, desemprego, distribuição da riqueza e liberdade.
128
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
LEITURA COMPLEMENTAR
CORAÇÕES E MENTES – UMA REFLEXÃO SOBRE MUDANÇAS 
Maria Rita Gramigna
Pausa do cotidiano
Um cotidiano agitado, voltado para a sobrevivência. Lei da selva. Trabalho, 
projetos de conquistas de espaço na vida, no mercado, na empresa. A mente não 
para, já proclamava Cazuza! Férias ao normal! Viver o natural! 
O natural na descontração do rir à toa, andar sem destino, conversar fiado 
com desconhecidos, pular atrás do trio elétrico, andar de ônibus (e até gostar!), 
viajar de barco, fazer nada, acordar tarde, dançar, cantar, “viajar” ao som de uma 
viola, guardar para sempre o momento de êxtase ao fotografar o pôr do sol e o 
amanhecer, ver o mar, tomar uma cervejinha gelada sob 40 graus de calor, comer 
fruta no pé, andar com os pés no chão, sentir a suavidade da brisafresca, alimentar-
se de VIDA!
Pausa interrompida
Fim de feriado e retorno ao cotidiano do trabalho. E o retorno fez-me 
refletir sobre os “corações e mentes” que habitam em cada um de nós. Quem é 
mais poderoso? O coração ou a mente? 
Em nossa vida carregada das normas que criamos sem perceber ou que nos 
são impostas sutilmente vamos, aos poucos, deixando nosso lado coração de lado. 
O descompasso faz com que nossa vida pessoal, a cada dia, vá descendo graus e 
graus na escala da qualidade.
A luta entre os hemisférios cerebrais
Cisão. Separação. A luta entre nossos hemisférios cerebrais é reforçada a 
cada dia. Enquanto o direito, do coração, diz “SIM” o esquerdo, da mente, retruca 
“NÃO VAI DAR CERTO!”.
Surgem então as dissociações, tão normais que acabam tornando-se 
naturais aos nossos olhos:
• “o discurso é um e a ação é outra”;
• “o sentimento diverge da expressão”;
• “os sonhos não chegam a se concretizar. São interrompidos pela realidade”;
• “sorrisos amarelos disfarçam insatisfações”;
TÓPICO 3 | HOMEM CONTEMPORÂNEO: CONSCIENTE DA QUALIDADE DE VIDA
129
• “máscaras mostram as mentes e escondem corações”.
Por onde andam a alegria, o lúdico, a satisfação e o prazer de viver? Roger 
Sperry, Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1981, comprovou cientificamente 
a lateralização dos nossos hemisférios cerebrais e suas áreas de comando: um 
dirige a mente e outro o coração.
O hemisfério direito, cujas funções são pouco estimuladas nas culturas 
ocidentais devido a condicionantes familiares, educacionais e culturais, é o 
NATURAL. Ele orienta as ações espontâneas, intuitivas, prazerosas, lúdicas, 
cooperativas, éticas e imaginosas. É ele que nos permite ter emoções e sensações de 
toda ordem. Sua presença manifesta-se através da habilidade de perceber o todo, 
reunir, agir com sabedoria dentro do paradigma holístico.
O esquerdo, aquele reforçado em nossa cultura é o NORMAL. Orienta as 
ações planejadas, lógicas, racionais e competitivas. Ele comanda nossa habilidade 
de julgar, medir, classificar, separar, discriminar. Faz-nos perceber as partes e 
ignorar o todo.
O homem-razão, o homem-mente predomina até hoje. Batalhas foram 
vencidas pelo hemisfério NORMAL. Mas, a guerra ainda está de pé! Observando 
as principais instituições vigentes no Brasil (escola, empresa, sindicato, governo) e 
grupos de interesse, podemos constatar que a postura dissociativa está presente e 
a predominância das ações é do hemisfério esquerdo.
A realidade empresarial no Brasil
As formas de gestão, na maioria das empresas, (públicas ou privadas) 
refletem o comportamento do homem normal:
• A administração participativa é implantada por decretos, ordens de serviço e 
normas internas (Participamos que daí para frente nossa nova estrutura será 
etc., etc. etc.).
• A espontaneidade, a brincadeira, o humor e o lúdico, muitas vezes são 
confundidos com “falta de seriedade no trabalho [sic]”.
• Alguns programas de gestão estão com seu enfoque voltado para conceitos 
e instrumentos de padronização e racionalização do trabalho relegando, em 
segundo plano, o investimento na educação e nos programas de desenvolvimento 
pessoal.
• A qualidade de vida na empresa é pouco cuidada, resumindo-se a planos de 
benefícios e algumas melhorias físicas e materiais.
• “Furar o olho” do colega é considerado até esperteza.
130
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
• Raramente encontra-se um clima afetivo e de cooperação entre as pessoas.
• Áreas atropelam-se no jogo do “vence o melhor” (como se existissem várias 
empresas em uma só).
• A competição é interna, prejudicando a competitividade no mercado e gerando 
um clima insustentável.
• Promoções de colegas são contestadas a tal ponto que, mesmo diante da 
necessidade de enxugamento de áreas, alguns dirigentes incham a estrutura com 
“aspones, encarregados, supervisores, auxiliares do encarregado, substitutos 
dos substitutos”. Procuram fugir de seus algozes: aqueles que não foram 
promovidos e querem a sua cabeça.
• O estresse generalizou-se. Sintomas tais como colesterol alto, úlceras, enxaquecas, 
depressão e desânimo afetam um número significativo de pessoas que buscam o 
afastamento temporário do trabalho, por motivos de saúde.
• Gavetas estão com planos e projetos não implantados. O processo decisório é 
burocrático e lento em função das normas.
É, a situação está pouco animadora!
Em cada uma das ações citadas podemos constatar a influência da MENTE 
sobre o CORAÇÃO. Ainda não conseguimos trabalhar os dois hemisférios de 
forma harmonizada e integrada e isto se reflete em nosso modo de ser e agir. 
E nós, onde vamos?
Como reverter este quadro?
É necessário mudar paradigmas. E mudar paradigma implica adotar e 
acreditar em novos valores construtivos. Tenho identificado aqui e ali, um novo 
homem: o HOMEM PARENTÉTICO. Ele apresenta atitudes e valores contrários 
aos do HOMEM ORGANIZACIONAL predominante nas últimas décadas. É o 
que veste a camisa da empresa, não tem hora para si mesmo e nem para as pessoas 
ao seu redor, adoece ou morre, pois nada mais faz a não ser brigar pelo poder 
ilusório de seu papel. Sua meta é a ascensão profissional. Talvez, em sua lápide 
fique bem a frase: “MEU NOME É TRABALHO”. 
O HOMEM PARENTÉTICO chega aos poucos, e vai ocupando espaços 
com fluidez, sensibilidade, conhecimento, sabedoria e já apresenta vestígios de 
uma nova consciência.
TÓPICO 3 | HOMEM CONTEMPORÂNEO: CONSCIENTE DA QUALIDADE DE VIDA
131
Quem é o novo homem parentético?
Ele está em todos os lugares e em diversas funções. Tem consciência 
crítica altamente desenvolvida das premissas de valor desenvolvidas no dia a 
dia. Consegue graduar seu fluxo diário, colocando-se tanto como espectador 
quanto como sujeito ativo, percebendo-se como parte importante de um todo 
maior. Romper raízes institucionais é mais vantajoso do que permanecer onde 
não é o seu lugar. Seu compromisso é com resultados. A urgência em obter um 
significado de vida faz com que ele busque melhorar sua qualidade de vida e se 
esforce continuamente para influenciar no ambiente. É preocupado com a ecologia 
ambiental e humana. Luta contra sistemas rígidos e burocráticos. Suas principais 
armas são: a fluidez, o desapego, a sensibilidade e um profundo respeito e amor 
pelos outros.
Para ousar interferir no ambiente empresarial temos um grande PODER: 
o poder da transformAÇÃO. Através do empreendimento de ações geradoras 
de resultados vamos obtendo adesões, podemos formar um exército de agentes 
multiplicadores de mudança. A descoberta do homem parentético que habita em 
cada um de nós pode ser o começo de tudo. Conhecendo-nos podemos enxergar os 
outros à nossa volta. E percebendo-os vamos trazê-los para o nosso lado.
Esses homens-parentéticos estão em todos os níveis hierárquicos da 
empresa. Sem querer se expor muito não se fazem notar pelos menos perceptivos. 
Mas o HOMEM MENTE-CORAÇÃO existe. E temos que contar com ele. Tenho a 
convicção pessoal de que só vamos conseguir atuar de forma efetiva neste processo 
quando começarmos a trabalhar nossa MUDANÇA PESSOAL. Podemos oferecer 
somente aquilo que temos e se não melhorarmos nossa qualidade de vida como 
acreditar na qualidade “fora de nós?”.
Como enfrentar com pique e motivação este momento real e normal em 
nosso dia a dia de trabalho? A força e a coragem estão em nós. A partir da mudança 
de posturas, atitudes, filosofia de trabalho, formas de lidar com os problemas e 
com a vida, encarando medos e dificuldades de forma natural e simples, podemos 
transformar nosso ambiente. A convivência harmônica e equilibrada de “corações 
de mentes” é possível. Temos um potencial ilimitado.
Tudo inicia na própria pessoa!
FONTE: Adaptado de: MARIA RITA GRAMIGNA. Disponível em: <www.portaldomarketing.com.
br/.../Coracoes_e_Mentes_uma_reflexao_sobre_mudanca.htm>. Acesso em: 24 maio 2010.
132
RESUMO DO TÓPICO 3
Caro(a) acadêmico(a), neste tópico você viu que:
• Na sociedade as pessoas deveriam se unir em gruposnaturalmente pela 
comunhão e não pelo interesse – característica da solidariedade orgânica.
• Guerreiro Ramos procurou reavaliar a evolução da teoria administrativa, usando 
pontos de referência de modelos de homem, a saber, o homem operacional, o 
homem reativo e o homem parentético.
• Conceitos de mudança organizacional, por exemplo, são formulados em termos 
reativos, não pró-ativos.
• A racionalidade substantiva, de Mannheim, é um atributo intrínseco do 
indivíduo como ser racional e nunca pode ser vista como pertencente a qualquer 
organização.
• O modelo do homem parentético pode prover a teoria administrativa de 
sofisticação teórica para enfrentar os desafios e problemas que provocam as 
tensões entre a racionalidade substantiva e a racionalidade funcional.
133
Propomos para você um exercício de reflexão sobre sua própria prática 
diária tanto no ambiente de trabalho como na sua vida particular. Bem, 
responda às questões a seguir buscando se conscientizar sobre sua ação no dia 
a dia. 
1 Procure identificar no seu dia a dia aquelas pessoas que Alberto Guerreiro 
Ramos apontava como sendo trabalhadores que somente trabalhavam por 
recompensas materiais e econômicas.
2 Que tipo de racionalidade está sendo exigida do gerente quando a empresa 
lhe dá um arbítrio maior na escolha da mercadoria a estocar? Explique.
3 Cargos administrativos em que os funcionários são obrigados a “bater 
ponto” às nove da manhã e seguir um conjunto de procedimentos precisos 
ditados pela administração são exemplos da exigência de que racionalidade 
na organização? Explique.
4 Na sua área de estudo o estilo de homem predominante é:
a) ( ) Homem operacional.
b) ( ) Homem reativo.
c) ( ) Homem parentético.
5 Cite atividades profissionais em que predominam: homem operacional e 
homem parentético.
6 Na sociedade contemporânea não podemos mais incentivar somente 
o uso intensivo da racionalidade funcional, privilegiando os fins em 
detrimento aos meios. O homem contemporâneo está consciente de que 
carece de consciência crítica, estando ela relacionada à necessidade além 
do nível de simples sobrevivência. Diante deste contexto, verificamos que 
várias circunstâncias sociais contemporâneas estão afetando atualmente 
cada indivíduo e as instituições. Por isso, segundo o sociólogo Alberto 
Guerreiro Ramos, atualmente, está emergindo um novo tipo de homem, 
qual denominado de:
a) ( ) Parentético.
b) ( ) Reativo.
c) ( ) Colaborador.
d) ( ) Homem Operacional.
7 Na teoria de Alberto Guerreiro Ramos, funções administrativas em que os 
funcionários são obrigados a “bater ponto” às oito da manhã, seguir um 
conjunto de procedimentos precisos ditados pela administração e não têm 
AUTOATIVIDADE
134
liberdade de expressão se encaixam no modelo de homem:
a) ( ) Operacional.
b) ( ) Reativo.
c) ( ) Parentético.
d) ( ) Organicista.
8 Para o sociólogo Alberto Guerreiro Ramos, na teoria administrativa, o 
homem operacional é:
a) ( ) Um ser passivo que deve ser programado por especialistas para atuar 
dentro da organização.
b) ( ) Ágil e tem habilidades para lidar com relações humanas.
c) ( ) Um sujeito ativo, percebe-se como parte importante da organização e, 
por isso, é mais feliz e realizado.
d) ( ) Esforçado, luta contra sistemas rígidos e burocráticos e é interessado 
pelas questões socioambientais. 
135
TÓPICO 4
TRABALHO E EDUCAÇÃO
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
No decorrer da história, o trabalho em alguns períodos não foi visto 
com bons olhos. Porém, devido às necessidades, principalmente econômicas, 
a concepção de trabalho foi sofrendo mutações. Assim, se em um determinado 
período (Grécia e Roma antiga, ou Brasil colonial) o trabalho era executado pelos 
escravos, atualmente essa forma de trabalho não é mais adequada às necessidades 
econômicas e, inclusive, o trabalho escravo é tipificado como crime no art. 149, do 
Código Penal. 
Na história, tivemos o trabalho escravo, servil e até mesmo do proletário. 
Entretanto, com a globalização e inovações tecnológicas, tem se discutido qual será 
o futuro do trabalho, quais competências e habilidades serão necessárias para se 
estar no mercado de trabalho no futuro. Ou até mesmo, como se tem postulado, se 
a educação é um dos caminhos de qualificação para o trabalho e em que se deve 
pautar.
2 TRABALHO NA HISTÓRIA: BREVES CONSIDERAÇÕES
Ao buscar entender o que significa trabalho, veremos que ele está, grosso 
modo, associado à labuta, tortura. Na Antiguidade não era visto como atividade 
digna e, sim, atividade para escravos. 
 A título de exemplo, na Bíblia, Adão e Eva vivem felizes até que o pecado 
provoca sua expulsão do paraíso e a condenação ao trabalho com o “suor de seu 
rosto”. Para Platão, a finalidade dos homens livres é justamente a “contemplação 
das ideias”. Em Roma escravagista o trabalho era desvalorizado. É significativo o 
fato de a palavra negotium indicar a negação do ócio: ao enfatizar o trabalho como 
“ausência de lazer”, distingue-se o ócio como prerrogativa dos homens livres. Na 
Idade Média, como registro, salienta-se que o trabalho era desenvolvido pelos 
servos e, inclusive no Brasil, até 1888, o trabalho poderia ser feito pelos escravos 
principalmente nas lavouras e, em troca de seu serviço, recebiam os 3 p: pano 
(roupa), pau (surra) e pão (alimentação). 
Entretanto, com o surgimento do capitalismo, e este é regido pela 
necessidade de consumo dos bens produzidos, o trabalho escravo já não é mais 
compatível com este sistema. Surge o trabalho assalariado, desenvolvido pelos 
136
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
proletários, os quais em troca de salário vendiam a sua força física ou mental. E 
com este salário deveriam conseguir manter alimentação, moradia, saúde e dentre 
outros.
Conforme a CLT, art. 76, salário mínimo é a contraprestação mínima devida e paga 
diretamente pelo empregador a todo trabalhador, inclusive ao trabalhador rural, sem distinção 
de sexo, por dia normal de serviço, e capaz de satisfazer, em determinada época e região do 
país, as suas necessidades normais de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte.
Para efeito de análise, em termos econômicos, primeiro se comprava um 
escravo e depois ele trabalharia. Ou seja, já se fazia o investimento inicial de comprá-
lo, e já se tinha que dar casa, alimentação e cuidar da saúde, por mais rudimentar 
que fosse. Já o trabalhador assalariado, primeiro ele trabalhava e depois recebia o 
salário, com o qual tinha que se virar com alimentação, teto e outras necessidades.
O trabalho, em termos históricos, tem conotação de esforço, cansaço e por 
vezes atividade indigna para os seres humanos. Por exemplo: com a Revolução 
Industrial, mesmo que o homem fosse substituído pelas máquinas, os que ficaram 
trabalhando nas fábricas exerciam atividades monótonas e repetitivas. De acordo 
com De Masi (2003, p. 261): 
 
Taylor e outros engenheiros progressistas consideravam o trabalho físico 
uma desgraça a ser eliminada com o aperfeiçoamento das máquinas e 
a adoção de uma administração científica: uma vez expurgada a fadiga 
brutal, o trabalho seria transformado em arte e perderia suas conotações 
bíblicas. Segundo Taylor, a monótona e alienante repetitividade da 
organização parcelizada constituía apenas uma passagem temporária 
e obrigatória que, reduzindo o trabalho humano à medida do trabalho 
mecânico, permitiria mais cedo ou mais tarde descarregá-lo sobre as 
máquinas, liberando os trabalhadores da sua condenação. 
Além disso, desta pretensa ideia de liberar o homem do fardo do trabalho, 
tem-se cada vez mais implementado inovações que diminuem a participação 
humana na produção de produtos, a exemplo das fábricas, nas quais os robôs 
têm sido usados com mais frequência. Mas, de acordo com Brym et al. (2006), 
mesmo que o trabalho e a economia tenham mudado, com frequência no decorrer 
da história, o que se tem percebido é que as empresas buscam na sua essência 
diminuircustos e aumentar os lucros. Para isso, tem-se usado organizar o trabalho 
de forma mais eficiente e introduzir novas tecnologias. Mesmo com as incertezas 
sobre o futuro do trabalho, as empresas terão como propósito aumentar seus 
lucros, diminuir custos e eliminar sempre que possível o ser humano. 
IMPORTANT
E
TÓPICO 4 | TRABALHO E EDUCAÇÃO
137
Para atingir os seus propósitos, as empresas introduziram a automação e 
a robótica em larga escala com a intenção de aumentar a produtividade, reduzir 
custos, manter-se no mercado e principalmente aumentar os lucros para os acionistas 
e os investidores. E nem que para isso, tenham que substituir demasiadamente a 
força de trabalho humana, principalmente no que tange ao aspecto físico. Neste 
sentido, Kurz (1993, p. 11) diz que:
A concorrência no mercado mundial torna obrigatório o novo padrão 
de produtividade, configurado pela combinação da ciência, tecnologia 
avançada e grandes investimentos. Tanto o mercado como o padrão, 
na sua forma atual, são resultados tardios e consistentes da evolução 
do sistema capitalista, que chegando a este patamar [...] alcança o 
seu limite, criando condições novas. Pela primeira vez o aumento de 
produtividade está significando a dispensa de trabalhadores também 
em números absolutos, ou seja, o capital começa a perder a faculdade 
de explorar o trabalho. 
Vivemos em um cenário de complexidade, novas profissões têm aparecido 
com frequência e outras perdendo o espaço ou até mesmo sendo eliminadas. Face a 
isso, novos cursos são lançados frequentemente, novas oporTunidades e negócios 
surgem diariamente. Entretanto, novas são as exigências para os que querem fazer 
parte do mundo do trabalho e muitas ainda não se sabe quais serão. Ou ainda, o 
que tem preocupado muitas pessoas é o fato de a robótica ser usada para fazer as 
atividades antes feitas pelos homens, por isso muitos buscam novos campos de 
atuação ou ainda outros não sabem muito bem o que fazer.
Pesquise quais as profissões que desapareceram nos últimos anos e quais estão 
por findar, bem como quais profissões surgiram recentemente.
Ainda é salutar mencionar que com o desenvolvimento do capital fixo, 
através da inovação tecnológica, a riqueza tende a aumentar e o trabalho árduo e 
rotineiro tende cada vez mais a ser executado por máquinas. E, neste cenário, os 
homens tendem a ter maior tempo livre para se dedicarem a atividades espirituais 
e culturais, aquelas tidas como humanas. 
A inovação tecnológica pode ser percebida em diversos setores da economia. 
Podemos perceber inovações no campo em que, até então, trabalhadores cortavam 
cana, colhiam o café, laranjas, trigo, arroz, feijão. Atualmente e de maneira 
constante são lançadas máquinas agrícolas que fazem o trabalho de dezenas de 
homens, com maior eficiência. Na indústria, diversos produtos são feitos em 
grande quantidade, sem a interferência humana ou ainda no setor de serviços, onde 
secretárias eletrônicas fazem o trabalho de diversas pessoas. Por um lado, para os 
empresários o uso da máquina é viável, pois produz em grande quantidade, não 
IMPORTANT
E
138
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
precisa pagar férias, FGTS, horas extraordinárias, licença-paternidade (ou faltas 
justificadas) e, além do mais, a máquina não fica estressada, mal-humorada, dentre 
outros comportamentos que fazem parte do ser humano. Por outro lado, temos o 
desemprego estrutural e outras consequências sociais.
Entretanto, este cenário tem levado a discussões que, de certa forma, 
postulam a necessidade de liberar o homem do trabalho árduo e repetitivo para 
que ele possa trilhar novos horizontes. Entretanto, se por um lado os avanços 
tecnológicos têm liberado o homem do trabalho, de outro, muitas questões 
merecem ser respondidas: O homem está se preparando para os novos horizontes 
do mundo do trabalho. Atualmente as pessoas têm trabalhado mais ou menos 
em relação a tempos passados. As pessoas estão tendo tempo para dedicar-se a 
atividades espirituais, culturais ou até mesmo atividades de voluntariado.
AUTOATIVIDADE
A partir da leitura deste tópico, responda às seguintes questões:
 
1 Qual a função do conhecimento na atualidade?
 
2 Qual a importância do conhecimento aplicado à sua futura profissão?
Além dos avanços tecnológicos que têm impactos no mundo do trabalho, 
outros cenários se fazem presentes no mundo do trabalho. Outros segmentos da 
sociedade têm sido incluídos no mercado de trabalho que, em períodos históricos, 
estavam ausentes desafiando as organizações a se redimensionarem em diversos 
quesitos. Por isso, leia atentamente o fragmento a seguir, “Mistura corporativa”, 
e posteriormente faça as suas reflexões.
MISTURA CORPORATIVA
Cresce a preocupação das empresas em promover a inclusão e a 
ascensão das minorias em seus postos estratégicos. 
As mulheres são o principal alvo
 
Por Roberta Queiroz
 
Em janeiro deste ano, a executiva americana Ellen Kullman assumiu o cargo 
de CEO global da DuPont, gigante da indústria química. Foi a primeira mulher na 
empresa a alcançar esse cargo. Mas não deverá ser a última. Fruto de um longo trabalho 
de diversidade, a ascensão de mulheres a posições de liderança vem crescendo 
na empresa. Em 2003, elas representavam apenas 1% dos postos estratégicos na 
TÓPICO 4 | TRABALHO E EDUCAÇÃO
139
filial brasileira. Hoje, 14% dos cargos de gestão são ocupados por mulheres. “O 
nosso objetivo é manter o crescimento percentual da presença das mulheres em 
cargos de liderança de 2% ao ano, como vem acontecendo nos últimos três anos”, 
afirma Ana Cristina Piovan, diretora de recursos humanos da DuPont Brasil. 
 
O movimento feito pela DuPont vem sendo, cada vez mais, acompanhado 
por outras companhias. Preocupadas em aumentar a diversidade de seus times, 
empresas de diferentes portes e setores estão empenhadas em criar estratégias de 
inclusão e ascensão não apenas de mulheres, mas das chamadas minorias. Segundo 
um levantamento feito pelo Instituto Ethos e pelo Ibope Inteligência, com o apoio 
institucional da Inter-American Foundation (IAF), em 2007, 79% das 500 maiores 
empresas do Brasil promoveram ações em favor da diversidade. Dois anos antes, 
apenas 52% delas se preocupavam com o tema. “Apesar de esse tipo de discussão 
não ser brasileiro, acabou chegando também aqui”, diz a antropóloga carioca Livia 
Barbosa, professora da Universidade Federal Fluminense. “O que era um assunto 
periférico passou a ser um tema importante.”
 
A discussão ganhou importância à medida que as empresas perceberam 
que o discurso de “ser diferente”, mais do que bonito, realmente fazia diferença 
nos negócios. Há dez anos, um estudo realizado pela revista americana Fortune 
demonstrou que as ações de 50 companhias dos Estados Unidos que estimulavam 
a gestão da diversidade tiveram desempenho superior à média de mercado. De 
lá para cá, os olhos dos gestores começaram a se voltar para essa questão. “A 
diversidade não é mais uma política de RH, mas uma estratégia do negócio”, 
afirma Alessandro Bonorino, diretor de recursos humanos da IBM para a América 
Latina. “A principal vantagem é que isso permite ter o melhor time de talentos para 
enfrentar o mercado, também formado por diferenças.” 
 
A IBM conta com anos de tradição na história da diversidade. Muito antes 
de o assunto entrar na pauta de discussão dos movimentos sociais, em 1935, a 
empresa já havia iniciado a política de equidade salarial entre homens e mulheres. 
No Brasil, as ações ganharam mais foco em 2002. Com 17.000 funcionários na 
subsidiária brasileira, a companhia convidou os profissionais que fazem parte dos 
grupos de minoria a liderar junto com os executivos as iniciativas de diversidade. 
Foram criadas equipes de trabalho para discutir dificuldades e construir ações. 
São comitês de mulheres, portadores de deficiência, afrodescendentes e GLBTs 
(gays, lésbicas, bissexuais e transexuais). “Criamos esses grupos porque não são 
executivostentando adivinhar as necessidades, mas as pessoas que vivem na pele 
as dificuldades encontradas no dia a dia”, afirma Bonorino. 
 
Aproveitando a expertise de quem realmente entende das minorias, há 
oito anos a IBM criou grupos de vendas para esse público. Com eles, a empresa 
fatura 500 milhões de dólares por ano em todo o mundo. “Para conseguir esses 
resultados, a IBM precisou contratar pessoas que integravam minorias e que 
pudessem apoiá-la em seu processo de aproximação com esse público”, afirma 
Ralph Arcanjo Chelotti, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos 
e vice-presidente da Região Sul da Federação Interamericana de Associações de 
140
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
Gestão Humana. Ao longo desses anos investindo em minorias, a IBM provou 
que a diversidade traz vantagem competitiva para o negócio. “É o que faz uma 
empresa ser ou não inovadora”, acredita Bonorino. [...]
Mulheres na linha de frente 
Embora o tema diversidade inclua negros, homossexuais, portadores de 
deficiências etc., as mulheres parecem ser o alvo preferido das empresas. A história 
pode explicar esse fenômeno. Os negros e as mulheres foram os primeiros a se fazer 
ouvir, como consequência de seu pioneirismo na luta por direitos iguais. “Passou de um 
pedido de discriminação para um pedido de reconhecimento do direito às diferenças”, 
afirma Livia Barbosa. Hoje, tornou-se parte da estratégia de muitas companhias. 
O plano de retenção e promoção da população feminina vem surtindo – 
a passos lentos, é verdade – seus primeiros efeitos. Segundo o Instituto Ethos, a 
presença de mulheres, que formam 43,5% da população economicamente ativa, 
saltou de 6% para 11,5% nos últimos oito anos. “O crescimento ainda é pequeno, 
mas já sentimos a evolução”, afirma Paulo Itacarambi, vice-presidente do Ethos. 
Na DuPont, o primeiro passo na disseminação da diversidade também 
foi o trabalho de inserção nos postos de liderança. Para isso, a empresa investiu 
no desenvolvimento do time feminino para que, quando chegasse a hora, elas 
estivessem prontas para assumir as posições. Há sete anos, a empresa criou um 
programa chamado Network de Mulheres, pelo qual elas dividem experiências 
de carreira. Hoje, com os resultados já garantidos, o programa não existe mais. 
“Quando uma ação funciona naturalmente, não precisa mais da intervenção da 
empresa”, diz Ana Cristina Piovan, da DuPont. “Deixou de ser uma atribuição e 
passou a ser um compromisso das mulheres que já chegaram lá de preparar outras 
para também alcançar posições de liderança.” 
Também na IBM, que mantém seus vários grupos de minoria, o 
investimento em desenvolvimento para garantir a ascensão de mulheres é uma 
das ações prioritárias. Com o treinamento denominado Tomando Palco, a empresa 
orienta as 100 profissionais com potencial de crescimento a se posicionar no 
mundo corporativo. A companhia também identificou 15 mulheres com potencial 
acima da média e desenhou programas específicos de desenvolvimento para elas. 
Um deles é o Programa Sombra, pelo qual elas acompanham outros executivos, 
recebem mentoring e podem mudar de cargo para adquirir experiência em outros 
setores. Hoje, as mulheres representam 35% do time da IBM. Nos cargos de gestão, 
elas já são 32%. 
O horário flexível – adotado pela Unilever para segurar suas mulheres – 
também foi abraçado pela IBM e pela DuPont. Ambas perceberam que a flexibilidade 
de horários permite que as mulheres encarem de outra forma o trabalho. A IBM 
chegou a criar até um programa que dá suporte aos filhos dos funcionários, uma 
preocupação bastante presente na população feminina. O site Família 24 Horas 
ajuda as crianças na rotina escolar e conta com professores para tirar dúvidas. 
TÓPICO 4 | TRABALHO E EDUCAÇÃO
141
A Fersol, fabricante de defensivos agrícolas, foi além no plano de segurar 
suas funcionárias. Ainda quando ninguém falava no assunto, a empresa adotou a 
licença-maternidade de seis meses, esticada com mais um mês de férias. Para o pai, 
a licença é de dois meses, também com direito a completar com férias de 30 dias. Os 
processos de produção da empresa também foram revistos. Para que elas pudessem 
trabalhar em posições antes apenas ocupadas pelos homens, a Fersol colocou, por 
exemplo, máquinas na linha de montagem para carregar as caixas dos produtos. 
Antes, o trabalho era manual, impossibilitando que as mulheres fizessem esforço. 
Com as ações, as mulheres chegaram a representar 64% do quadro da empresa, 
que conta com 200 funcionários. Dos 13 cargos de liderança, oito eram ocupados 
por mulheres. A companhia chegou a ter de repensar a estratégia para manter o 
equilíbrio entre as populações. 
A vez dos homossexuais 
Desde 1996, a Fersol vem investindo em diversidade, passando a contratar 
pessoas que fazem parte de minorias. Na época, com 90% do quadro formado 
por homens brancos com idade entre 20 e 40 anos, a companhia começou a fazer 
parcerias com ONGs para selecionar mulheres, negros e portadores de deficiência. 
“A qualificação é fundamental, mas, quando não conseguimos um profissional que 
tenha todos os requisitos necessários para o cargo, criamos uma posição com menor 
responsabilidade para treiná-lo”, diz Michael Haradom, presidente da Fersol. 
“Dessa forma, conseguimos mudar a formação da empresa.” Já em 2004, a Fersol 
contava com 64% de mulheres, 53% de afro-brasileiros, 26% de pessoas acima de 
45 anos, 3% de portadores de deficiência, 3% de homossexuais e 5% de pessoas em 
processo de liberdade assistida. No mesmo ano, a empresa bateu recorde em seu 
faturamento: 100 milhões de dólares. 
Os homossexuais também foram conquistando seu respeito no ambiente 
corporativo. Prova disso é o crescimento de empresas que passaram a estender 
os benefícios do plano de saúde para parceiros do mesmo sexo. Segundo a 
terceira edição da pesquisa sobre benefícios de assistência à saúde da consultoria 
Watson Wyatt, em 2008 houve aumento de 13% na concessão da assistência pelas 
companhias em relação ao ano anterior, quando esse índice era de 20%. 
Os especialistas fazem um alerta para esse tipo de ação. “Algumas empresas 
optaram por um caminho mais conservador, como oferecer benefícios”, afirma 
Klecius Borges, terapeuta de homossexuais. “Isso é importante para mostrar 
que elas se preocupam com essa questão, mas não vai eliminar a insegurança do 
profissional.” O mais importante, segundo ele, é tornar as políticas claras e educar 
os funcionários a praticar o respeito às diferenças.
Tendo a diversidade como um dos pilares de seu negócio, a DuPont deixa 
claro, desde o início, que não tolera o trato desrespeitoso. Assim que o funcionário 
entra, passa por treinamentos que envolvem a questão da diversidade. O código 
de conduta da empresa também inclui essa questão e estabelece padrões de 
convivência. 
142
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
FONTE: Disponível em: <http://revistavocerh.abril.com.br/noticia/conteudo_448482.shtml>. 
Acesso em: 12 maio 2010.
Além dos benefícios no plano de saúde, a IBM trabalha a conscientização 
para garantir um ambiente tolerante. Realiza palestras sobre o assunto nas quais 
os funcionários, que já viveram discriminação, contam suas experiências. No 
grupo de diversidade GLBT participam cerca de 20 profissionais. Uma das ações 
lideradas por esse grupo são os workshops com duração de três dias, voltados para 
as lideranças. Neles, os homossexuais se reúnem com executivos para discutir 
como acelerar a carreira. “É um mentoring reverso, no qual eles orientam os líderes 
sobre o processo de entendimento da vivência desse grupo”, explica Alessandro 
Bonorino. 
Além das cotas
 
Começou como uma exigência da legislação brasileira, que, a partir de 1999, 
determinou que as empresas com mais de 1.000 funcionários tivessem 5% de seu 
quadro composto de pessoas com deficiência. A necessidade se transformou num 
desafio e tanto para os profissionais de recursoshumanos, exigindo ações rápidas. 
Segundo o Instituto Ethos, programas para inclusão de pessoas com deficiência 
tornaram-se os campeões entre as ações afirmativas listadas em sua pesquisa. Em 
2003, apenas 32% das empresas diziam possuir algum programa específico para 
essa finalidade. Em 2007, ano da pesquisa, 67% das organizações disseram “sim” 
à questão. A Unilever contratou uma assessoria especializada para recrutar os 
profissionais. Até o ano passado, a companhia saltou de 0,4% para 4,3% no número 
de funcionários com deficiência. 
Uma alternativa encontrada pelas organizações foi a flexibilização das 
atividades. “Quando um profissional desse grupo não possui todos os requisitos 
para a função, flexibilizamos as exigências e criamos um plano de desenvolvimento 
para que eles fiquem aptos”, diz Ana Cristina, da DuPont. Preparada antes mesmo 
do decreto federal, a multinacional já atingiu a meta de 5%. O programa Network, 
que nasceu para as mulheres, agora migrou para os deficientes. Nas reuniões 
são trabalhados desde a formação dos profissionais até o relacionamento com os 
chefes. Ao todo, 200 pessoas participam do grupo no Brasil. 
Desenvolver os deficientes também foi a solução encontrada pela IBM para 
incluí-los em sua força de trabalho. Em 2008, a empresa realizou uma parceria 
com o Instituto Eldorado, em Campinas, interior de São Paulo, para formar 20 
profissionais em tecnologia, programação de sistemas e inglês. Para acelerar a 
capacitação dos profissionais e ter massa crítica para contratar, especialmente as 
pessoas com deficiência, a empresa está realizando um projeto em parceria com 
o Centro Paula Souza. “O perfil da IBM é mais alto que o de muitas indústrias. 
A maioria possui curso superior”, diz Bonorino. “Nosso desafio é investir na 
preparação de mais pessoas desde a base.” O desafio dele e de muitas outras 
empresas que buscam efetivamente levar o discurso de diversidade para a prática.
TÓPICO 4 | TRABALHO E EDUCAÇÃO
143
Enfim, caro(a) acadêmico(a), o cenário do mundo do trabalho tem mudado 
constantemente, inovações tecnológicas, novos profissionais e oportunidades 
profissionais, a inclusão de pessoas no mercado de trabalho que até pouco tempo 
atrás não tinham oportunidades de ocupar um posto no mundo do trabalho. 
Entretanto este cenário tem levado muitos a postular que a educação é um dos 
meios para abrir portas para e inserir-se no mercado de trabalho que, em termos 
de futuro, não se sabe ao certo como será.
3 EDUCAÇÃO: PREOCUPAÇÃO PARA COM O TRABALHO
Caro(a) acadêmico(a), não podemos negar que estamos vivenciando um 
período de constantes mudanças em vários setores. E o mercado de trabalho não 
está imune a estas mudanças. Por isso, ao se refletir sobre o trabalho, é usual 
encontrarmos afirmações que dizem que a educação é um dos caminhos para os 
indivíduos poderem fazer parte do mercado do trabalho, pois várias foram as ideias 
postuladas para libertar o homem do trabalho. De certa forma, essas ideias têm se 
feito presentes quando as inovações tecnológicas, ou até mesmo máquinas e robôs, 
fazem os trabalhos que antes eram executados pelos homens. Neste contexto, a 
educação terá um papel relevante, pois de certa forma, ela terá que conduzir o ser 
humano para um novo contexto do mundo do trabalho que ainda não sabemos ao 
certo como será. 
Entretanto, historicamente, a educação não necessariamente teve como 
finalidade educar para o trabalho, ou seja, as preocupações quanto aos propósitos 
de educação variam de época para época (necessidades do contexto) e de pensador 
para pensador. 
 
Platão (TEIXEIRA, 1999), por exemplo, através do Mito da Caverna, postula 
que a Educação tem como papel tirar o homem de seu estado de alienação. E para 
isso é dever do filósofo libertar o homem que está preso ao mundo das aparências 
e das imagens. A Educação, neste sentido, deve conduzir o homem à visão do 
Verdadeiro Ser a fim de superar as concepções ilusórias da realidade, e vislumbrar 
o verdadeiro mundo real, ou seja, o Mundo das Ideias. Educar consiste em ajudar 
o homem a ascender para o alto, a fim de poder contemplar o mundo superior, a 
episteme (conhecimento) e não o mundo da doxa (opinião). Ou ainda, de acordo 
com Aranha (1996, p. 148), “Platão, por exemplo, considera que a verdadeira 
educação ajuda o homem a superar a sua existência empírica, dimensão em que 
se encontra de certa forma asfixiado pelos sentidos e pelas paixões, e atingir a 
essência verdadeira, no mundo das ideias”. 
 No contexto medieval a preocupação com a Educação era objeto de 
reflexão, principalmente de pensadores que, de forma direta ou indireta, pensavam 
de acordo com as ideias vigentes naquele contexto. Neste sentido, ao retratar a 
educação medieval, diz Suchodolski (1992, p. 20), “[...] a verdadeira educação 
cumpre ligar o homem à sua verdadeira pátria, a pátria celeste, e destruir ao mesmo 
144
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
tempo tudo o que prende o homem à sua existência terrestre”. Ou ainda, Craver 
e Ozmon (2004, p. 65) apontam que, para Santo Agostinho, um dos pensadores 
medievais: “[...] o grande objetivo da educação [...] é a perfeição do ser humano e 
a derradeira reunião da alma com Deus [...] uma educação adequada direciona o 
aprendiz para um conhecimento que conduz ao verdadeiro ser, progredindo de 
uma forma inferior para uma forma mais elevada”.
 A mentalidade moderna (como você já estudou anteriormente) teve 
impactos na Educação e, de acordo com Ponce (1988, p. 135), o ideal educativo do 
homem burguês era “[...] formar indivíduos aptos para a competição do mercado 
[...]”. Já para Marx, a Educação deveria seguir outros objetivos imediatos, entre os 
quais um “[...] era moldar uma consciência e uma sociedade socialista. Tal esforço 
foi bastante impulsionado por meio de uma educação que visava desenvolver um 
novo ser humano socialista”. (OZMON; CRAVER, 2004, p. 318). Esta Educação, 
postulada pelo ideal de Marx, não estava em consonância com os princípios dos 
burgueses, pois “o Estado Burguês usou a educação para finalidades da classe 
dominante, e não para as crianças, ou para uma sociedade mais livre e humana”. 
(OZMON; CRAVER, 2004, p. 319).
 Ao investigar as propostas quanto aos objetivos da Educação, encontraremos 
as mais diversas e que, de forma direta ou indireta ou não, têm se feito presentes 
com maior ou menor intensidade no decorrer da história e não necessariamente 
estavam ligadas às necessidades do mercado de trabalho. 
No caso do Brasil, ao nos remetermos à sua história, veremos que a Educação 
era privilégio de poucos, pois aqueles que não precisavam trabalhar e que eram 
descendentes de classes sociais privilegiadas dedicavam-se exclusivamente aos 
estudos, inclusive indo estudar no exterior. Já os que tinham que trabalhar para a 
sua subsistência, aprendiam o necessário para desempenhar o seu ofício. 
Outrossim, na atualidade, pelo menos pela força da lei, na CF/88 este é um 
direito de todos, algo que na história, via de regra, era de direito de um número 
reduzido de pessoas, aquelas que tinham condições econômicas para dedicar-se aos 
estudos e com interesses predeterminados, tanto sociais, políticos e econômicos. 
No Título VIII, Da Ordem Social, capítulo III, da CF/88 – Da Educação, 
da Cultura e do Desporto, Seção I, no quesito Educação, o art. 205 referenda que 
“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e 
incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento 
da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o 
trabalho”. Desta forma, em termos de norma, além de ser um direito, a educação 
deve visar ao pleno desenvolvimento da pessoa, e também deve prepará-la para o 
exercício da cidadania e qualificá-la para o trabalho. 
Na LDB/96, encontramos no art. 2º, dos Princípios e Fins da Educação 
Nacional, o qual menciona que a “Educação é dever da família e do Estado, 
inspirada nos princípiosde liberdade e nos ideais de solidariedade humana, e 
tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o 
TÓPICO 4 | TRABALHO E EDUCAÇÃO
145
exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Desta forma na LDB/96, 
conforme exposto, há primeiramente uma preocupação, em termos de lei, que a 
Educação esteja em consonância com o mundo do trabalho e com a prática social.
 
O art. 53, do ECA/90, prescreve que a criança e o adolescente têm direito 
à Educação, como também esta deve visar ao pleno desenvolvimento da pessoa, 
prepará-la para o exercício da cidadania e ainda qualificá-la para o trabalho. Ou 
seja, essas ideias estão em sintonia com a CF/88 e a LDB/96 quanto às finalidades 
da Educação.
 
Na preocupação com a educação, em termos da legislação, postula-se que 
ela prepare para o mercado de trabalho. Entretanto, os desafios à educação são os 
mais variados, principalmente na atualidade: as inovações acontecem rapidamente, 
atividades profissionais deixam de existir e outras aparecem num piscar de olhos. 
Neste sentido, a educação para o trabalho é desafiadora, pois deve-se educar, 
conforme a legislação, para o mercado de trabalho, incerto em termos de futuro, 
não se sabe como será e o que exigirá do indivíduo. E em termos estratégicos, uma 
nação com educação de ponta terá possibilidades ampliadas para competir com 
outras nações ou organizações. Porém, se a educação for frágil, principalmente no 
Ensino Fundamental, as organizações terão dificuldades de encontrar profissionais 
qualificados, não só tecnicamente, mas em termos de formação humana.
 
Atualmente tem se postulado que, via de regra, buscam-se profissionais 
que estejam sobremaneira acompanhando as exigências e necessidades atuais. 
Assim, aos que pretendem ingressar no mercado de trabalho, há a necessidade 
de qualificação técnica, aprimoramento na formação humana nos vários quesitos 
(ético, científico, cultural) e, em última instância, atingir o ideal das virtudes 
humanas, num sentido aristotélico. Ainda tem se postulado que o ser humano 
almeja uma formação que possibilite enfrentar com maior tranquilidade e prudência 
os desafios presentes e futuros e que apresente soluções criativas e viáveis. 
 
No art. 482, da CLT, a conduta inadequada pode ser motivo de dispensa 
do trabalhador por justa causa. Assim a educação, tida como alicerce para que 
a sociedade se desenvolva, tem sido desafiada: em primeira instância, educar 
todos e fazer valer o propósito de Educação para Todos e, em segunda instância, 
possibilitar meios para que o ser humano esteja apto para enfrentar os desafios 
do mercado de trabalho, incertos para o futuro. Também, de certa maneira, deve 
alertar quanto às condutas que se esperam de um profissional, pois como consta na 
CLT, art. 482, a conduta inadequada constitui justa causa para rescisão do contrato 
de trabalho.
146
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
Conforme a CLT, Art. 482 – Constituem justa causa para rescisão do contrato de 
trabalho pelo empregador: 
a) ato de improbidade;
b) incontinência de conduta ou mau procedimento; 
c) negociação habitual por conta própria ou alheia sem permissão do empregador, e quando 
constituir ato de concorrência à empresa para a qual trabalha o empregado, ou for prejudicial 
ao serviço; 
d) condenação criminal do empregado, passada em julgado, caso não tenha havido suspensão 
da execução da pena; 
e) desídia no desempenho das respectivas funções; 
f) embriaguez habitual ou em serviço; 
g) violação de segredo da empresa;
h) ato de indisciplina ou de insubordinação;
i) abandono de emprego;
j) ato lesivo da honra ou da boa fama praticado no serviço contra qualquer pessoa, ou ofensas 
físicas, nas mesmas condições, salvo em caso de legítima defesa, própria ou de outrem; 
k) ato lesivo da honra ou da boa fama ou ofensas físicas praticadas contra o empregador e 
superiores hierárquicos, salvo em caso de legítima defesa, própria ou de outrem; 
l) prática constante de jogos de azar.
Parágrafo único – Constitui igualmente justa causa para dispensa de empregado a prática, 
devidamente comprovada em inquérito administrativo, de atos atentatórios à segurança 
nacional.
Entretanto, se você, acadêmico(a), fizer uma investigação mais apurada 
sobre educação e trabalho seja ou não na sua área, é certo que encontrará diversas 
discussões sobre o assunto, seja em palestras, em artigos ou em livros. A título de 
ilustração e para incentivá-lo(a) à pesquisa, leia o breve trecho escrito por Peter 
Drucker, um dos pensadores de destaque no âmbito das organizações.
IMPORTANT
E
A PESSOA INSTRUÍDA
Peter Drucker
 
A sociedade pós-capitalista lida com o meio ambiente no qual os seres 
humanos vivem, trabalham e aprendem. Ela não lida com a pessoa. Mas na 
sociedade do conhecimento na qual estão se movimentando os indivíduos 
são fundamentais. O conhecimento não é impessoal como o dinheiro. O 
conhecimento não reside em um livro, em um banco de dados, em um programa 
de software; estes itens apenas contêm informações. O conhecimento está sempre 
incorporado a uma pessoa, é transportado por uma pessoa, é criado, ampliado 
ou aperfeiçoado por uma pessoa, é aplicado, ensinado e transmitido por uma 
pessoa e é usado, bem ou mal, por uma pessoa. Portanto, a passagem para a 
sociedade do conhecimento coloca a pessoa no centro. Ao fazê-lo, ela levanta 
TÓPICO 4 | TRABALHO E EDUCAÇÃO
147
Caro(a) acadêmico(a), você percebeu que as inovações no mundo do trabalho 
são constantes, profissões surgem, outras padecem, surgem constantemente novos 
desafios, dentre outras. Entretanto, discussões têm ainda surgido no mundo do 
trabalho sobre o encontro de gerações diferentes no mercado de trabalho e isso 
tem levado as organizações a se adequarem também a este novo cenário que se 
apresenta. Por isso, o texto complementar é uma prévia de uma discussão sobre as 
gerações no mundo do trabalho, no caso em específico, da geração X e Y. Após a 
leitura do texto que segue, procure verificar quem são a geração X e Y na sua área 
de trabalho e algumas características próprias de cada um das gerações.
FONTE: DRUCKER, Peter. Sociedade pós-capitalista. São Paulo: Pioneira,1999. p. 205.
novos desafios, novas questões e novas perguntas, sem precedentes, a respeito 
do representante da sociedade do conhecimento, a pessoa instruída.
 
Em todas as sociedades anteriores a pessoa instruída era um ornamento. 
Ela incorporava a Kultur – termo alemão que, em sua mistura de admiração e 
escárnio, é intraduzível. Mas na sociedade do conhecimento a pessoa instruída 
é o emblema, o símbolo, o porta-bandeira da sociedade. A pessoa instruída é 
o “arquétipo” social – para usar o termo sociológico. Ela define a capacidade 
de desempenho da sociedade, mas também incorpora seus valores, crenças e 
compromissos. Se o cavaleiro feudal era a mais clara personificação da sociedade 
no início da Idade Média e o “burguês” a do capitalismo, a pessoa instruída irá 
representar a sociedade na sociedade pós-capitalista, na qual o conhecimento 
tornou-se o recurso principal.
Isso deve mudar o sentido da expressão “pessoa instruída”. E deve mudar 
o próprio significado de ser instruído. Assim, a definição de “pessoa instruída” 
tornou-se uma questão crucial. Com a transformação do conhecimento em 
recurso-chave, a pessoa instruída enfrenta novas demandas, novos desafios, 
novas responsabilidades. A pessoa instruída agora é importante.
Nos últimos dez ou quinze anos, os meios acadêmicos vêm discutindo 
acaloradamente sobre a pessoa instruída. Deve haver uma! Ela pode existir! E o 
que deve ser considerado “instrução”!
148
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
QUEM É A GERAÇÃO Y
Pilar García
Guido Stein
José Ramon
Estudo de Pilar García, Guido Stein e José Ramón, especialistas do IESE, 
explica o que motiva os profissionais nascidos nos anos 80 e 90 e o que eles esperam 
dar às empresas, a partir da análise do contexto emque cresceram e das mudanças 
sociopolíticas por que passaram.
Pela primeira vez na história do mercado de trabalho, as organizações 
estão acolhendo pessoas cujas idades cobrem um espectro de mais de 40 anos. Essa 
tendência vai aumentar na próxima década, devido ao necessário prolongamento 
dos anos de trabalho motivado pela escassez de profissionais. Na União Europeia, 
por exemplo, a porcentagem de pessoas entre 65 e 90 anos saltará dos 16% da 
população total registrados em 2000 para 21% em 2020, enquanto aquelas entre 
15 e 24 anos representarão apenas 11%. Diante disso, vários países europeus 
decidiram começar a regulamentar a permanência de trabalhadores além das 
idades “clássicas” de aposentadoria e a integrar outros grupos tradicionalmente 
marginais, como mulheres e imigrantes.
 Trata-se de um contexto em que a gestão da diversidade passa a falar 
mais alto, não por razões humanistas, mas por ser um imperativo dos negócios. 
Fora da União Europeia, mesmo em países mais jovens e em economias emergentes, 
também deparamos com a diversidade. Mas ela tem outra característica: a 
convivência forçada, porque necessária, de diferentes gerações de funcionários. 
 Para administrar bem tal convivência, é imprescindível conhecer 
suas motivações e seus valores, especialmente os dos recém-chegados, ou seja, o 
grupo que poderíamos denominar recém-formados em sentido amplo: a geração 
Y, nascida nos anos 80. Só compreendendo o contexto em que seus membros 
cresceram, as tendências culturais às quais estiveram expostos e as mudanças 
políticas e sociais por que passaram será possível compreender o que os motiva e 
o que são capazes de oferecer. [...]
QUEM É QUEM
A mera proximidade de idade não basta para considerar um grupo parte 
da mesma geração. É necessário identificar um conjunto de vivências históricas 
compartilhadas – obviamente, de caráter macrossocial – que determinam alguns 
princípios de visão de vida, contexto e, certamente, valores comuns. Sob essa 
lógica, podemos afirmar que estamos em um momento em que quatro gerações 
trabalham e convivem nas empresas, cobrindo um espectro de mais de 40 anos, 
LEITURA COMPLEMENTAR
TÓPICO 4 | TRABALHO E EDUCAÇÃO
149
cada uma com aspirações e contratos psicológicos diferentes com o empregador.
Focalizaremos duas gerações em particular, a X e a Y, especialmente nos 
Estados Unidos e na Espanha, onde desenvolvemos a pesquisa.
GERAÇÃO X
Os integrantes da geração X são as pessoas nascidas entre meados dos anos 
60 e início dos 80. Essa geração viveu momentos importantes na política: a Guerra 
Fria, o ataque dos Estados Unidos à Líbia, a perestroika precipitando a queda do 
Muro de Berlim.
Foi a época dos últimos grandes estadistas, como Mikhail Gorbatchov, 
Ronald Reagan, Margareth Thatcher, ... As pessoas X não veem o êxito da mesma 
forma que seus pais. Ao contrário, nutrem certo cinismo e desilusão em relação aos 
valores deles. São mais céticas, mais difíceis de atingir pelos meios de comunicação 
e marketing convencionais. É a geração da MTV, do Nirvana, das Tartarugas Ninjas 
e da junky food.
Do ponto de vista social, alguns acontecimentos marcaram essa 
geração, entre eles o aparecimento da Aids, em 1981. Essa doença provocou um 
posicionamento ideológico de dimensões muito relevantes, provavelmente nunca 
associado a uma enfermidade, tendo assim grande influência na mudança de 
pautas de comportamento da geração seguinte.
Diante de tal panorama de incerteza e sensação de mudança, não é de 
estranhar que, ao ir ao cinema, esses jovens tenham assistido a Blade Runner (1982), 
um dos maiores expoentes do movimento cultural conhecido como cyberpunk. A 
atual geração Y possivelmente desconhece que as origens ideológicas de alguns de 
seus ícones culturais, como Matrix, venha diretamente dessa visão apocalíptica e 
obscura, própria da evolução do movimento punk.
Compreendemos agora, em parte, a surpresa dos X quando, no início do 
século XXI, ficaram privados de seu protagonismo como “a geração que viveu 
a grande mudança cultural”. Porque essa mudança, mesmo que pareça mentira, 
ficou antiga em menos de dez anos.
Os Y veem a experiência dos X como “ruptura e evolução”, uma antiguidade 
a mais. Em certa medida, a geração Y roubou os sonhos da geração X e a destronou 
antes que esta tivesse tempo de reagir. E o fez em resposta, precisamente, ao que viu 
de seus irmãos mais velhos ou de seus pais, aos modelos que lhe foram propostos. 
De certa forma, pode ser que a falta de compreensão dos valores e motivações 
dessa geração provenha de uma espécie de animosidade por parte dos membros 
da geração X.
Em meados da década de 80, surgiu uma subcategoria da geração X, os 
yuppies (acrônimo do inglês young urban professionals, ou jovens profissionais 
urbanos). É um segmento caracterizado pelo alto poder aquisitivo e paixão pelo 
150
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
sucesso social, profissional e econômico.
No final dos anos 80, o termo yuppie começou a incorporar conotações 
negativas, fruto do esgotamento de um modelo e estilo de vida que propunha 
certo “vale-tudo” para o êxito social e econômico.
Os yuppies que levaram ao extremo sua filosofia são os dinkies (double income 
no kids yet, ou duas rendas, sem filhos ainda): casais que adiam a criação de uma 
família para se dedicar exclusivamente a suas carreiras, porque não se sentem 
capazes de educar os filhos ou simplesmente porque não gostam de crianças. 
Costumam ser profissionais de alto nível e suas motivações estão relacionadas com 
a manutenção de seu nível socioeconômico.
Têm sido fortemente criticados pela atitude egoísta e hedonista, em que o 
consumismo prevalece sobre outros valores, como os familiares.
GERAÇÃO Y
A nova geração abrange os nascidos nos anos 80 e 90. Os mais velhos estão 
chegando aos 25; os mais jovens acabam de sair da adolescência. Trata-se de uma 
geração de filhos desejados e protegidos por uma sociedade preocupada com 
sua segurança. As crianças Y são alegres, seguras de si e cheias de energia. É a 
geração dos Power Rangers e da internet, da variedade, das tecnologias que mudam 
contínua e vertiginosamente.
A geração Y só conhece a democracia, e as histórias sobre a transição, na 
Espanha, da ditadura para o estado atual [o que se aplica perfeitamente ao Brasil] 
começam a lhe soar como batalhas de seus pais. Não deixam de se surpreender 
com o fato de que a geração anterior tenha sobrevivido sob a tirania de poucas 
redes de televisão, sob controle governamental estrito, e com telefones pregados 
na parede.
Possivelmente a velocidade das mudanças vividas pela geração Y, ao 
lado de importantes transformações sofridas por seus pais, introduziu um salto 
qualitativo que os Y ainda estão digerindo (e que deixa perdidos os X, seus pais e 
praticamente seus criadores). É indigesto para um X ouvir de um Y que recusou 
uma oferta de trabalho com alto salário porque esta não lhe permitiria desfrutar a 
vida pessoal.
Na geração Y não ocorreu uma ruptura social evidente; não houve 
Woodstock nem maio de 1968. Os Y são silenciosos e contundentes, parecem 
saber exatamente o que querem. Eles não reivindicam: executam a partir de suas 
decisões, dos blogs e dos SMS.
 
Não polemizam nem pedem autorização: agem. Enquanto os X enfrentam 
o mundo profissional com relativo ceticismo, os Y adotam uma visão mais 
esperançosa. Seu alto nível de formação os torna mais decididos. Sua atitude 
diante da hierarquia é cortês, mas não de estrito respeito ou amor/ódio, como a 
TÓPICO 4 | TRABALHO E EDUCAÇÃO
151
das gerações anteriores.
A integração dos Y às empresas está sendo especialmente complicada. Suas 
expectativas são novas e eles se consideram “a geração excluída”.
Chegaram ao mundo em clima de mudança, transformação e certo 
desassossego político. Quase sempre são filhos únicos ou têm poucos irmãos. 
Possivelmente suas mães trabalham e ainda não entenderam a importância 
(ou a possibilidade de) conciliarvida pessoal e profissional. Talvez acreditem 
ser supermulheres e seus modelos profissionais oscilem entre a abnegada e 
empreendedora Melanie Griffith e a implacável e ambiciosa Sigourney Weaver, do 
filme Uma Secretária de Futuro.
Esses jovens, além de ver televisão, começaram a dar seus primeiros passos 
com os computadores de seus pais ou irmãos: a tecnologia nunca vai ser um 
problema para eles. Cerca de 91,6% dos que têm entre 16 e 24 anos são usuários da 
internet, porcentagem que cai para 63,4% no caso das pessoas entre 35 e 44 anos. 
Já se acostumaram ao bombardeio de imagens, à informação imediata e visual, à 
realidade em 3D. Não desenvolveram a paciência e a laboriosidade, e sim o “ já” 
e o “agora”. Não aprenderam a desfrutar um livro, uma vez que podem obter a 
mesma informação em minutos, com um clique. É uma geração de resultados, 
não de processos. E do curto prazo: eles sabem, por experiência, que as coisas, 
as informações, as novidades morrem em pouco tempo – até mesmo a ordem 
mundial, que parecia tão imutável. Alguns especialistas afirmam até que essa 
geração desenvolveu mais o hemisfério direito do cérebro. Parece que os estímulos 
da internet e dos videogames se dirigem a esse hemisfério, enquanto atividades 
como leitura exigem o uso do esquerdo. 
Mesmo que essa interpretação esteja errada, fica claro que a geração Y 
responde a estímulos e motivações diferentes dos que moviam seus antecessores. 
Por exemplo, para eles, o futuro já não é uma ameaça insondável em mãos de 
megacorporações; ele simplesmente não existe. Essa visão apocalíptica se 
incorporou aos videogames e os jovens Y se sentem à vontade com ela.
Outra diferença importante: se as gerações anteriores se caracterizavam por 
receber as mensagens, as modas, a música de modo uniforme, a Y, ao contrário, 
destaca-se pela diversidade. Não que a geração Y não tenha nenhuma tribo ou 
subgrupo. Ela tem, sim. É a elite urbana, que, de alguma forma, cristaliza seus valores 
e estilos de vida: são os CBP (cosmopolitan business people, ou pessoas de negócios 
cosmopolitas). A globalização está criando um coletivo social transversal, situado 
em todo o mundo (ou quase todo), com traços homogêneos, independentemente 
da origem cultural, racial ou geográfica.
Características comuns diferenciam essa tribo de outros coletivos. Entre as 
mais significativas estão:
• Costumam conhecer vários idiomas. Concretamente, seu inglês é fluente, mesmo 
152
UNIDADE 2 | PENSAMENTO DA SOCIOLOGIA EM ÁREAS DIVERSAS
não sendo sua língua materna.
• Seu nível de educação é alto. Têm pós-graduação (MBA ou mestrado) ou 
especialização em alguma instituição de ensino superior de prestígio.
• De idade mediana, poderiam se manter CBP a vida toda, apesar de ser possível 
que até os 50 anos variem suas metas e objetivos vitais.
• São solteiros ou casados com poucos filhos. Às vezes o casal também é um CBP. 
Suas famílias tendem à instabilidade.
• A rede de amizades e conhecidos está distribuída por todo o mundo ou em 
região ampla.
• Raça, nacionalidade e religião são secundárias. Os laços profissionais ou de 
gostos pessoais é que contam.
• No mercado de trabalho, possuem experiências multinacionais, facilitadas pela 
educação e pelo nomadismo profissional. Suas raízes geográficas são fracas e 
não limitam sua mobilidade.
• Têm gostos variados, em que sobressaem os esportes, as artes, a leitura e, 
sobretudo, as viagens.
• O manejo das novas tecnologias é inerente a seu cotidiano – tanto profissional 
como pessoal.
• Buscam carreiras brilhantes, altos salários e adoram os headhunters e as 
multinacionais.
FONTE: Adaptado de: <http://br.hsmglobal.com/notas/53873-quem-e-gera%E7%E3o-y?utm_
source=news_espm_agosto_09&utm_medium=news_espm_agosto_09&utm_content=news_
espm_agosto_09_quem_e_geracao_y&utm_campaign=news_espm_agosto_09>. Acesso em: 
24 maio 2010.
153
RESUMO DO TÓPICO 4
Caro(a) acadêmico(a), neste tópico você viu que:
• A concepção de trabalho varia de época para época.
• Dentre as concepções de trabalho, temos a que ele não era visto como atividade 
digna de homens livres.
• Na história do trabalho, idealizou-se que o homem deveria se livrar do trabalho 
árduo e repetitivo.
• Na legislação atual do Brasil, a educação tem como um dos propósitos preparar 
para o mercado de trabalho.
• Atualmente, os desafios e tendências no mercado de trabalho são os mais 
diversos. 
• No mercado de trabalho atual, duas gerações (geração y e x) têm se encontrado 
nas organizações, cada qual com suas peculiaridades.
154
1 A partir do estudo deste tópico, escreva a sua concepção de trabalho.
2 Você concorda com o que prescreve a legislação brasileira sobre a finalidade 
da educação? Argumente em defesa da sua posição. 
3 Leia um texto da sua área que retrate desafios, tendências ou futuro do 
trabalho e depois faça as suas considerações.
4 Aponte profissões que desapareceram e surgiram nos últimos anos.
5 Quais as competências e habilidades que são essenciais para exercer a 
atividade profissional da sua área de estudo? Argumente por que, no seu 
ponto de vista, elas são essenciais.
6 Pesquise e escreva as principais características da geração X e Y.
AUTOATIVIDADE
155
UNIDADE 3
TEMAS DIVERSOS EM DISCUSSÃO 
SOB O OLHAR DA SOCIOLOGIA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade, você será capaz de compreender:
• o significado da cultura;
• como a cultura é a mais importante atividade da humanidade;
• os diversos elementos que estruturam uma cultura;
• as ideias referentes ao multiculturalismo, etnocentrismo, relativismo cul-
tural e terrorismo;
• os principais problemas que envolvem a vida urbana;
• as principais influências da sociedade da informação nos diversos setores 
sociais;
• os fatores que incentivam a necessidade do consumo;
• a necessidade de buscar alternativas para um desenvolvimento econômico 
sustentável;
• as diversas formas de ser, pensar e agir do povo brasileiro.
Esta unidade está dividida em cinco tópicos. Em cada um deles você encon-
trará atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados.
TÓPICO 1 – DIVERSIDADE CULTURAL
TÓPICO 2 – DESAFIOS E PERSPECTIVAS NA VIDA URBANA 
TÓPICO 3 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO
TÓPICO 4 – CONSUMO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
TÓPICO 5 – SOCIEDADE BRASILEIRA: MULTIFACES
156
157
TÓPICO 1
DIVERSIDADE CULTURAL
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
[...] Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como 
um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, demais: a 
salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o 
socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei 
mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. 
Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas.
Darcy Ribeiro
A palavra cultura pode ser entendida de diversas maneiras e postulados, 
pois a cultura varia de povo para povo e de época para época. Além disso, além 
do termo cultura, outros termos ligados ao mesmo estão presentes no nosso dia 
a dia, como: multiculturalismo, relativismo cultural, subcultura, diversidade 
cultural, cibercultura, transculturalismo. É claro que não há unanimidade quanto 
ao conceito destes termos. Entretanto, são termos que podem aparecer na sua área 
de estudo com maior ou menor intensidade.
2 ASPECTOS CULTURAIS EM DISCUSSÃO
Caro(a) acadêmico(a), se você perguntar a diversas pessoas, o que entendem 
por cultura, as respostas serão as mais diversas, refinadas ou não. Para Machado 
(2002, p. 24), o conceito de cultura pode ser relacionado aos seguintes pontos:
1) A cultura determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações.
2) O ser humano age de acordo com os seus padrões culturais. Os seus instintos 
foram parcialmente anulados ao longo do processo evolutivo por que passou.
3) A cultura é um meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Para 
tanto, em vez de modificar o seu aparelho biológico, o homemaltera o seu 
aparelho superorgânico.
4) Ao adquirir cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado 
do que de agir através de atitudes geneticamente determinadas.
UNIDADE 3 | TEMAS DIVERSOS EM DISCUSSÃO SOB O OLHAR DA SOCIOLOGIA
158
Segundo Da Matta (1986), a cultura é que nos faz humanos e é a mais 
importante das atividades humanas. Com ela, criamos comunidades linguísticas, 
costumes, valores, moral, nossa adaptação ecológica ao ambiente em que vivemos. 
Enfim, ganhamos nossa identificação étnica.
DIVERSIDADE CULTURAL
A diversidade cultural existente no mundo faz com que determinados 
hábitos e costumes sejam absolutamente estranhos e exóticos quando 
confrontados com cultura diversa. Para os ocidentais, em particular, 
alguns atos realizados em algumas culturas são inexplicáveis, como 
o casamento de um cão com uma menina, como ocorreu na Índia, 
neste início de século, numa cerimônia acompanhada por mais de cem 
convidados. Devido à crença de que a garota precisava quebrar o feitiço, 
pois seus dentes haviam nascido primeiro na gengiva superior – o que 
sua tribo considera um feitiço maléfico –, ela teve de casar-se o mais 
rápido possível. Como seu pai não tinha condições financeiras para 
casá-la com um garoto, resolveu que o noivo seria um cão.
INDIANA de 9 anos se casa com cão. (Jornal Folha de São Paulo, São 
Paulo, 20 jun. 2003, p. A-10).
 
Dentre os vários tipos de culturas que existem, temos: a cultura erudita, que 
é monopólio da minoria, sendo de grande valia para a sociedade; a cultura vulgar, 
que é de domínio das massas, diferente apenas pelas culturas regionais, onde 
encontramos a música popular e o futebol; a cultura elitista, que nos dá os espelhos 
em que nos mostramos, revelando-nos através da música, da nossa literatura, nas 
artes gráficas e plásticas, sempre com a possibilidade de nos alienarmos (RIBEIRO, 
1995). Temos que incentivar a cultura, como nos afirma Petrônio na sua bela frase: 
“A cultura é um tesouro e uma habilidade que nunca morre”.
 
Caro(a) estudante, o antropólogo Roberto DaMatta escreveu há algum tempo 
o que consideramos um dos melhores textos para abordar o tema da cultura. De 
forma clara e sucinta, este autor consegue repassar todo o seu conhecimento sobre 
este tema. O texto foi extraído de seu livro “Explorações” (1986), com o título.
5) A cultura determina o comportamento humano e a sua capacidade artística 
ou profissional.
6) A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência 
histórica das gerações anteriores.
VOCÊ TEM CULTURA?
Roberto DaMatta
OUTRO dia ouvi uma pessoa dizer que “Maria não tinha cultura”, era 
“ignorante dos fatos básicos da política, economia e literatura”. Uma semana 
depois, no museu onde trabalho, conversava com alunos sobre “a cultura dos 
índios Apinayé de Goiás”, que havia estudado de 1962 até 1976, quando publiquei 
um livro sobre eles (Um mundo dividido). Refletindo sobre os dois usos de 
uma mesma palavra, decidi que essa era a melhor forma de discutir a ideia ou 
TÓPICO 1 | DIVERSIDADE CULTURAL
159
o conceito de cultura tal como nós, estudantes da sociedade, a concebemos. Ou, 
melhor ainda, apresentar algumas noções sobre a cultura e o que ela quer dizer 
não como uma simples palavra, mas como uma categoria intelectual: um conceito 
que pode nos ajudar a entender melhor o que acontece no mundo em nossa volta.
No caso do conceito de cultura ocorre o mesmo, embora nem todos 
saibam disso. De fato, quando um antropólogo social fala em “cultura”, ele usa 
a palavra como um conceito-chave para a interpretação da vida social. Porque, 
para nós, “cultura” não é simplesmente um referente que marca uma hierarquia 
de “civilização”, mas a maneira de viver total de um grupo, sociedade, país ou 
pessoa. Cultura é, em Antropologia Social e Sociologia, um mapa, um receituário, 
um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, 
estudam e modificam o mundo e a si mesmas. É justamente porque compartilham 
de parcelas importantes deste código (a cultura) que um conjunto de indivíduos 
com interesses e capacidades distintas e até mesmo opostas transforma-se num 
grupo e podem viver juntos sentindo-se parte de uma mesma totalidade. Podem, 
assim, desenvolver relações entre si porque a cultura lhes forneceu normas que 
dizem respeito aos modos mais (ou menos) apropriados de comportamento 
diante de certas situações. Por outro lado, a cultura não é um código que se escolhe 
simplesmente. É algo que está dentro e fora de cada um de nós, como as regras 
de um jogo de futebol, que permitem o entendimento do jogo e, também, a ação 
de cada jogador, juiz, bandeirinha e torcida. Quer dizer, as regras que formam a 
cultura (ou a cultura como regra) são algo que permite relacionar indivíduos entre 
si e o próprio grupo com o ambiente onde vive.
Em geral, pensamos a cultura como algo individual que as pessoas 
inventam, modificam e acrescentam na medida de sua criatividade e poder. 
Daí falarmos que Fulano é mais culto que Sicrano e distinguirmos formas de 
“cultura” supostamente mais avançadas ou preferidas que outras. Falamos 
então em “alta cultura” e “baixa cultura” ou “cultura popular”, preferindo 
naturalmente as formas sofisticadas que se confundem com a própria ideia de 
cultura. Assim, teríamos a cultura e culturas particulares e adjetivadas (popular, 
indígena, nordestina, de classe baixa etc.) como formas secundárias, incompletas 
e inferiores de vida social. Mas a verdade é que todas as formas culturais ou todas 
as “subculturas” de uma sociedade são equivalentes e, em geral, aprofundam 
algum aspecto importante que não pode ser esgotado completamente por uma 
outra “subcultura”. Quer dizer, existem gêneros de cultura que são equivalentes a 
diferentes modos de sentir, celebrar, pensar e atuar sobre o mundo e esses gêneros 
podem estar associados a certos segmentos sociais. O problema é que sempre 
que nos aproximamos de alguma forma de comportamento e de pensamento 
diferente, tendemos a classificar a diferença hierarquicamente, o que é uma forma 
de excluí-la. Um outro modo de perceber e enfrentar a diferença cultural é tomar 
a diferença como um desvio, deixando de buscar seu papel numa totalidade. 
Desta forma, podemos ver o carnaval como algo desviante de uma festa 
religiosa, sem nos darmos conta de que as festas religiosas e o carnaval guardam 
uma profunda relação de complementaridade. Realmente, se no terreno da festa 
UNIDADE 3 | TEMAS DIVERSOS EM DISCUSSÃO SOB O OLHAR DA SOCIOLOGIA
160
religiosa somos marcados pelo mais profundo comedimento e respeito pelo foco 
no “outro mundo”, é porque no carnaval podemos nos apresentar realizando o 
justo oposto. Assim, o carnavalesco e o religioso não podem ser classificados em 
termos de superior ou inferior ou como articulados a uma “cultura autêntica” e 
superior, mas devem ser vistos nas suas relações que são complementares. O que 
significa dizer que tanto há cultura no carnaval quanto na procissão e nas festas 
cívicas, pois cada uma delas é um código capaz de permitir um julgamento e uma 
atuação sobre o mundo social no Brasil. Como disse uma vez, essas festas nos 
revelam leituras da sociedade brasileira por nós mesmos e é nesta direção que 
devemos discutir o conteúdo e a forma de cada cultura ou subcultura em uma 
sociedade (ver o meu livro, Carnavais, Malandros e Heróis).
No sentido antropológico, portanto, a cultura é um conjunto de regras 
que nos diz como o mundo pode e deve ser classificado. Ela, como os textos 
teatrais, não pode prever completamente como iremos nos sentir em cada papel 
que devemos ou temos necessariamente que desempenhar, mas indica maneiras 
gerais e exemplos de como pessoas que viveram antes de nós os desempenharam. 
Mas isso não impede, conforme sabemos, emoções. Do mesmo modo que um 
jogo de futebol com suas regras fixas não impede renovadas emoções em cada 
partida. É que as regras apenas indicam os limites e apontam os elementos e suas 
combinações explícitas.O seu funcionamento e, sobretudo, o modo pelo qual elas 
engendram novas combinações em situações concretas são algo que só a realidade 
pode dizer. Porque embora cada cultura contenha um conjunto finito de regras, 
suas possibilidades de atualização, expressão e reação em situações concretas são 
infinitas.
Apresentada assim, a cultura parece ser um bom instrumento para 
compreender as diferenças entre os homens e as sociedades. Elas não seriam dadas, 
de uma vez por todas, através de um meio geográfico ou de uma raça, como diziam 
os estudiosos do passado, mas em diferentes configurações ou relações que cada 
sociedade estabelece no decorrer de sua história. Mas é importante acentuar que 
a base dessas configurações é sempre um repertório comum de potencialidades. 
Certas sociedades desenvolveram algumas dessas potencialidades mais e 
melhor do que outras, mas isso não significa que sejam mais pervertidas ou 
mais adiantadas. O que isso parece indicar é, antes de qualquer coisa, o enorme 
potencial que cada cultura encerra como elemento plástico, capaz de receber as 
variações e motivações dos seus membros, bem como os desafios externos. Nosso 
sistema caminhou na direção de um poderoso controle sobre a natureza, mas 
isso é apenas um traço entre muitos outros. Há sociedades na Amazônia onde o 
controle da natureza é muito pobre, mas existe uma enorme sabedoria relativa ao 
equilíbrio entre os homens e os grupos cujos interesses são divergentes. O respeito 
pela vida que todas as sociedades indígenas nos apresentam de modo tão vivo, 
pois os animais são seres incluídos na formação e discussão de sua moralidade e 
sistema político, parece se constituir, não em exemplo de ignorância e indigência 
lógica, mas em verdadeira lição, pois respeitar a vida deve certamente incluir 
toda a vida e não apenas a vida humana. Hoje estamos mais conscientes do preço 
que pagamos pela exploração desenfreada do mundo natural sem a necessária 
TÓPICO 1 | DIVERSIDADE CULTURAL
161
moralidade que nos liga inevitavelmente às plantas, aos animais, aos rios e aos 
mares.
 
Realmente, pela escala dessas sociedades tribais, somos uma sociedade 
de bárbaros, incapazes de compreender o significado profundo dos elos que nos 
ligam com todo o mundo em escala global. Pois é assim que pensam os índios 
e por isso suas histórias são povoadas de animais que falam e homens que se 
transformam em animais. Conosco, são as máquinas que tomam esse lugar.
O conceito de cultura, ou a cultura como conceito, então, permite uma 
perspectiva mais consciente de nós mesmos. Precisamente porque diz que não há 
homens sem cultura e permite comparar culturas e configurações culturais como 
entidades iguais, deixando de estabelecer hierarquias em que inevitavelmente 
existiriam sociedades superiores e inferiores. Mesmo diante de formas culturais 
aparentemente irracionais, cruéis ou pervertidas, existe o homem, e entendê-las – 
ainda que seja para evitá-las, como fazemos com o crime – é uma tarefa inevitável 
que faz parte da condição do ser humano de viver num universo marcado e 
demarcado pela cultura. Em outras palavras, a cultura permite traduzir melhor 
a diferença entre nós e os outros e, assim fazendo, resgatar a nossa humanidade 
no outro e a do outro em nós mesmos. Num mundo como o nosso, tão pequeno 
pela comunicação em escala planetária, isso me parece muito importante. Porque 
já não se trata somente de fabricar mais e mais automóveis, conforme pensávamos 
em 1950, mas desenvolver nossa capacidade de enxergar melhores caminhos para 
os pobres, os marginais e os oprimidos. E isso só se faz com uma atitude aberta 
para as formas e configurações sociais que, como revela o conceito de cultura, 
estão dentro e fora de nós.
Num país como o nosso, onde as formas hierarquizantes de classificação 
cultural sempre foram dominantes, onde a elite sempre esteve disposta a 
autoflagelar-se dizendo que nós não temos uma cultura, nada mais saudável do 
que esse exercício antropológico de descobrir que a fórmula negativa – esse dizer 
que não temos cultura – é, paradoxalmente, um modo de agir cultural que deve 
ser visto, pesado e talvez substituído por uma fórmula mais confiante no nosso 
futuro e nas nossas potencialidades.
Retomemos os exemplos mencionados, porque eles encerram os dois 
sentidos mais comuns da palavra. No primeiro, usa-se cultura como sinônimo de 
sofisticação, de sabedoria, de educação no sentido restrito do termo. Quer dizer, 
quando falamos que “Maria não tem cultura!”, e que “João é culto”, estamos nos 
referindo a certo estado educacional destas pessoas, querendo indicar com isso 
sua capacidade de compreender ou organizar certos dados e situações. Cultura 
aqui é equivalente a volume de leituras, a controle de informações, a títulos 
universitários e chega até mesmo a ser confundida com inteligência, como se a 
habilidade para realizar certas operações mentais e lógicas (que definem de fato 
a inteligência) fosse algo a ser medido ou arbitrado pelo número de livros que 
uma pessoa leu, as línguas que pode falar, ou os quadros e pintores que pode, 
de memória, enumerar. Como uma espécie de prova desta associação, temos o 
UNIDADE 3 | TEMAS DIVERSOS EM DISCUSSÃO SOB O OLHAR DA SOCIOLOGIA
162
Viana (2005) destaca que a própria definição de cultura já tem que incluir a 
diversidade de visões de mundo e estilos de vida que convivem, harmoniosamente 
ou não, em qualquer sociedade. 
Subculturas? Por exemplo, as tensões entre as gerações jovem e mais 
velha têm produzido mudança. Os anos 50, por exemplo, criaram 
agrupamentos rebeldes de jovens, personificados por James Dean, 
ou Marlon Brando, e até mesmo Elvis Presley; que forçaram uma 
velho ditado informando sabiamente que “cultura não traz discernimento”..., ou 
inteligência, conforme estou discutindo aqui. Neste sentido, cultura é uma palavra 
usada para classificar as pessoas e, às vezes, grupos sociais, servindo como uma 
arma discriminatória contra algum sexo, idade (“as gerações mais novas são 
incultas”), etnia (“determinado povo não tem cultura”) ou mesmo sociedades 
inteiras, quando se diz que “os franceses são cultos e civilizados” em oposição aos 
americanos, que são “ignorantes e grosseiros”. 
Do mesmo modo é comum ouvir-se referências à humanidade, cujos 
valores seguem tradições diferentes e desconhecidas, como a dos índios, como 
sendo sociedades que estão “na Idade da Pedra” e se encontram em “estágio 
cultural muito atrasado!”. A palavra cultura, enquanto categoria do senso comum, 
ocupa, como vemos, um importante lugar no nosso acervo conceitual, ficando 
lado a lado de outras, cujo uso na vida quotidiana é também muito comum. Estou 
me lembrando da palavra “personalidade” que, tal como ocorre com a palavra 
“cultura”, penetra o nosso vocabulário com dois sentidos bem diferenciados.
 No campo da Psicologia, personalidade define o conjunto de traços que 
caracterizam todos os seres humanos. É aquilo que singulariza todos e cada 
um de nós como uma pessoa diferente, com interesses, capacidades e emoções 
particulares. Mas na vida diária, personalidade é usada como um marco para algo 
desejável e invejável de uma pessoa. Assim, certas pessoas teriam “personalidade”, 
outras não! É comum dizer que “João tem personalidade” quando, de fato, se 
quer indicar que “João tem magnetismo”, sendo uma pessoa “com presença”. Do 
mesmo modo, dizer que “João não tem personalidade” quer apenas dizer que ele 
não é uma pessoa atraente ou inteligente.
Mas, no fundo, todos temos personalidade, embora nem todos possamos 
ser pessoas belas ou magnetizadoras como um artista de novela das oito! Mesmo 
uma pessoa “sem personalidade” tem, paradoxalmente, personalidade na medida 
em que ocupa um espaço social e físico e tem desejos e necessidades. Pode ser 
uma pessoa sumamente apagada, mas ser assim é precisamente o traço marcante 
de sua personalidade.
Quanto à cultura, podem-se encontrar diversas concepções ou aplicações 
do termo. Entretanto, vale salientarque é possível encontrar no decorrer da 
história momentos em que se afirmou que a cultura de um povo é superior à 
outra, ou que a cultura erudita é superior à popular. Ou ainda, a cultura tem sido 
usada em um único sentido. 
TÓPICO 1 | DIVERSIDADE CULTURAL
163
3 CONSIDERAÇÕES SOBRE ETNOCENTRISMO, 
RELATIVISMO CULTURAL E MULTICULTURALISMO
Atualmente tem se postulado que a diversidade cultural deve ser respeitada 
em oposição à visão etnocêntrica, ou seja, um indivíduo ou um grupo social se 
considera como referência em termos culturais, à luz de seus próprios valores. Em 
termos gerais, o termo etnocentrismo corresponde a atitudes e hábitos culturais 
que são encarados como sendo superiores a de outros povos. Em termos históricos 
é comum encontrarmos posturas etnocêntricas, como, por exemplo: a cultura 
portuguesa e a cultura dos índios na época da chegada dos portugueses ao Brasil 
(Vide Tópico 5 desta unidade). 
Entretanto, se com o etnocentrismo postulou-se que uma determinada 
cultura é o centro, com o relativismo cultural tem-se que os sistemas culturais são 
intrinsecamente iguais em valor, e que os aspectos característicos de cada um têm 
de ser avaliados e explicados dentro do contexto do sistema em que aparecem. 
Para Brym (2006, p. 88):
[...] o relativismo cultural é oposto ao etnocentrismo. Refere-se à crença 
de que todas as culturas e todas as práticas culturais têm o mesmo valor. 
O problema desta visão é que uma cultura particular pode se opor aos 
valores de outra. E muitas culturas promovem práticas que a maioria 
considera “desumana”.
Neste sentido, todas as culturas são consideradas de igual valor. Assim, os 
padrões ou valores considerados certos em uma determinada sociedade e outra 
não, não significa que um hábito diferente em outra cultura deva ser repudiado ou 
inaceitável. Desta forma, pode-se dizer que a posição cultural relativista postula 
que os indivíduos adquirem próprios de valores e a sua própria integridade 
cultural no interior da sua sociedade, mas isso não necessariamente que a sua 
cultura é inferior a outra cultura.
A noção de relativismo cultural abrange três significados, conforme 
Meneses (1999, p. 21-22): 
a) Todo e qualquer elemento de uma cultura é relativo aos elementos 
que compõem aquela cultura, só tem sentido em função do conjunto; 
que sua validade depende do contexto em que está inserido, de sua 
posição em meio de outros níveis e conteúdos da cultura de que faz 
parte;
mudança de normas comportamentais; a juventude dos anos 60 
quebrou essas normas ainda mais claramente, criando maior tolerância 
pelos modos distintos e diferentes de viver. Até mesmo subculturas 
desviantes geraram mudança, como é ilustrado agora pelos norte-
americanos em relação ao homossexualismo. Assim, quando as 
subculturas divergentes entram em contato, a mudança é inevitável, 
à medida que as acomodações e os compromissos são estabelecidos. 
E sociedades grandes, complexas, como os Estados Unidos, que têm 
tantas subculturas diversas, inevitavelmente enfrentarão essa fonte de 
mudança. (TURNER, 2000, p. 201).
UNIDADE 3 | TEMAS DIVERSOS EM DISCUSSÃO SOB O OLHAR DA SOCIOLOGIA
164
b) As culturas são relativas: não há cultura, nem elemento dela, que 
tenha caráter absoluto, que seja, em si e por si, a perfeição. Será certa e 
boa para a sociedade que a vivencia e na medida em que nela se realiza 
e em que a exprime. Não há, pois, um padrão absoluto para julgar “a 
priori” o certo e o errado, o belo e o feio entre as culturas, pois cada uma 
traz em si mesma seu padrão de medida.
c) As culturas são equivalentes, não pode fazer uma escala em que cada 
cultura receba uma nota, de acordo com critério que defina o que é mais 
ou menos perfeito [...]. O relativismo não é só uma suspensão do juízo, 
devido a não se encontrar critério decisivo para classificar as culturas; e 
mais que isso: afirma positivamente que uma cultura é tão válida como 
outra qualquer, por ser uma experiência diversa que o ser social faz de 
sua humanidade. 
 
Além das discussões sobre cultura, etnocentrismo, relativismo 
cultural, você poderá encontrar outros termos ligados à cultura, a exemplo, o 
multiculturalismo. As discussões quanto ao multiculturalismo têm ganhado mais 
força principalmente com a queda do Muro de Berlim e o início da globalização. 
E que a partir deste último evento, as relações entre os povos têm sido as mais 
variadas, sejam econômicas, políticas, intelectuais e sociais. E nestas relações as 
diferenças culturais entre os povos têm se evidenciado nitidamente. Por isso, de 
certa maneira tem se almejado que as diferenças culturais não devem ser mais 
obstáculos para que os povos convivam de forma harmoniosa e consigam 
respeitar a cultura alheia nas suas peculiaridades. Neste sentido, para Machado 
(2002, p. 37), “[...] o multiculturalismo apregoa uma visão da vida e da fertilidade 
do espírito humano, na qual cada indivíduo transcende o marco estreito da sua 
própria formação cultural e é capaz de ver, sentir e interpretar por meio de outras 
tendências culturais”. 
O multiculturalismo postula a necessidade de reconhecer as diferenças 
que existem entre os indivíduos e os grupos sociais, pois são diferentes entre si, 
mas acima de tudo assegure que o reconhecimento e a representação das formas 
culturais minoritárias e diversas pela cultura majoritária.
Caro(a) acadêmico(a), leia atentamente parte do trecho a seguir, extraído do 
texto: Multiculturalismo versus Interculturalismo: Por uma proposta intercultural 
do Direito, de Eloise da Silveira Petter Damázio, retirado de: DESENVOLVIMENTO 
EM QUESTÃO. Sistema de Información Científica, Rio Grande do Sul, ano 6, n. 
12, jul./dez. 2008, p.71-75.
FORMAS DE MULTICULTURALISMO
Eloise da Silveira Petter Damázio
Hall (2003, p. 53) identifica várias concepções diferentes de multiculturalismo 
na atualidade: o conservador, o liberal, o comercial, o corporativo e o crítico. 
O multiculturalismo conservador insiste na assimilação da diferença às 
tradições e costumes da maioria. O liberal busca integrar os diferentes grupos 
TÓPICO 1 | DIVERSIDADE CULTURAL
165
culturais à sociedade majoritária, “baseado em uma cidadania individual 
universal, tolerando certas práticas culturais particularistas apenas no domínio 
privado” (p. 53).
O multiculturalismo comercial pressupõe que, se a diversidade dos 
indivíduos de distintas comunidades for publicamente reconhecida, então os 
problemas de diferença cultural serão resolvidos (e dissolvidos) no conjunto 
privado, sem qualquer necessidade de redistribuição do poder e dos recursos. 
Já o multiculturalismo corporativo (público ou privado) busca administrar as 
diferenças culturais da minoria, visando aos interesses do centro. E, por fim, o 
multiculturalismo crítico enfoca o poder, o privilégio, a hierarquia das opressões 
e os movimentos de resistência (p. 53).
McLaren (1997, p. 110-135) também distingue diversos multiculturalismos: 
o conservador, o humanista liberal, o liberal de esquerda e o multiculturalismo 
crítico.
O multiculturalismo conservador refere-se a uma postura etnocêntrica, 
que deslegitima culturas consideradas inferiores (p. 111-119). O humanista liberal 
defende igualdade entre as pessoas, no entanto os liberais compartilham com os 
conservadores uma postura universalista, caracterizando-se por uma tentativa 
de integração dos grupos culturais no padrão, amparado numa cidadania 
individual universal (p. 119-120). Para o multiculturalismo liberal de esquerda as 
diferenças são enfatizadas de modo essencialista, ao invés de destacar que estas 
são construções históricas e culturais, permeadas por relações de poder (p. 120-
122). O multiculturalismo crítico recusa-se a ver a cultura como não conflitiva, 
argumentando que a diversidade deve ser afirmada “dentro de uma política de 
crítica e compromisso com a justiça social” (p. 123-135). 
Segundo Santos (2003, p. 11), é fundamental que se distinga entre as formas 
conservadoras ou reacionárias

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