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1 Referência: aula do prof. Otacílio Conceito Trata-se da formação de placas de gordura e cálcio na camada íntima das artérias. É a doença que mais mata no mundo ocidental, quando atinge as artérias coronárias, causando IAM; e também a que mais deixa sequelas, que é a formação de placas de gordura nas artérias intracerebrais ou carotídeas, causando o AVC. A doença carotídea, o aneurisma da aorta e a obstrução das artérias das pernas são locais em que a doença se apresenta, mas deve-se lembrar que a aterosclerose é uma doença sistêmica, podendo afetar qualquer local do corpo. As artérias têm três camadas: íntima, média e adventícia. A aterosclerose acomete a camada mais interna, que é a íntima. Fatores de risco 1. Diabetes Mellitus 2. Hipertensão arterial sistêmica 3. Dislipidemia 4. Tabagismo 5. Obesidade 6. Sedentarismo 7. História familiar 8. Circunferência abdominal alta 9. Personalidade A: paciente super estressado. 10. Marcadores bioquímicos o Ácido úrico o Homocisteína o PCR alta 11. Idade acima de 50/55 anos Os quatro primeiros não podem ser esquecidos, porque eles são os fatores prioritários na formação de placas em todos os trabalhos. Quando mais fatores, mais chance de ter a doença. Anatomia das artérias periféricas A grosso modo, a anatomia das artérias é a seguinte: a artéria aorta sai do coração e faz uma curva (artéria aorta ascendente). Depois, temos a crossa da aorta ou cajado da aorta, então essa artéria desce, passando o diafragma e chegando ao umbigo. Ainda na parte torácica, torna-se aorta torácica descendente, passou daí, muda de nome, tornando-se aorta abdominal. A partir desta última, temos vários ramos: tronco celíaco, por onde saem as artérias hepática e esplênica, artéria mesentérica superior, que irriga principalmente intestino delgado, e a. mesentérica inferior. Por fim, a aorta se bifurca em duas artérias ilíacas, mais ou menos na altura do umbigo. Na parte torácica, logo no início da aorta ascendente sai o tronco das coronárias. Do lado direito da crossa da aorta, sai o tronco braquiocefálico. Direto da crossa, são emitidas as artérias carótida comum esquerda e subclávia esquerda. O tronco braquiocefalico dá origem à subclávia direita e carótida comum direita. Na aorta descendente, temos a artéria radicular magna, que irriga a medula. Ela é importante porque, na lesão da artéria ou quando trata aneurisma de aorta torácica, como a irrigação fica deficiente, a pessoa pode ter isquemia medular e ficar paraplégica. Após cruzar o diafragma, temos tronco celíaco, mesentérica superior e 2 inferior. A partir daí, ocorre a bifurcação da aorta, na região do umbigo, como já foi citado. Na parte das ilíacas, temos a artéria ilíaca comum e, imediatamente depois, ela se divide em duas, sendo uma que desce para a perna (ilíaca externa), e outra que irriga os órgãos da pelve (ilíaca interna ou a. hipogástrica). A artéria ilíaca externa, quando cruza o ligamento inguinal, muda de nome, transformando-se em a. femoral comum. Quando se fala da aorta descendente e abdominal, deve-se lembrar que essa artéria, que é a principal do corpo, corre colada na coluna, então ela fica lá atrás. Se colocarmos a mão na virilha, é possível sentir uma pulsação, que é justamente da artéria femoral. Então, a aorta fica atrás e a femoral em cima, essa distância entre a parte distal e a mais proximal, é exatamente a artéria ilíaca externa. Ela sai de baixo, sobe e cruza o ligamento, tornando-se femoral comum. Muitos imaginam que a artéria corre de maneira retilínea, mas não é assim. A a. femoral comum é pequena e se divide em profunda (irriga mm. profundos da coxa) e superficial, que desce em direção à perna e aos pés. Quando desce pela coxa, entra em um túnel muscular, chamado de canal dos adutores; como ele embarca toda a artéria femoral superficial, na pessoa que está fazendo atividade, esse músculo pressiona a artéria de várias formas, rotacionando, contraindo e estirando. Esse trauma repetitivo é uma das causas da formação das placas de aterosclerose. Qual o local periférico em que é mais comum ter aterosclerose? Exatamente nesse canal dos adutores, por conta do trauma exagerado que a artéria recebe por causa da musculatura. Quando a femoral superficial ultrapassa o canal dos adutores, ela muda de nome, sendo agora chamada de poplítea. Esta última desce atrás do joelho e, quando chega abaixo dele, vira tibial anterior, posterior e fibular, as quais descem para o pé. Assim seguem a tibial anterior (vira a. pediosa) e posterior (desce por trás do maléolo interno), formando o arco plantar do pé. A fibular, quando chega no terço distal da perna, para e manda ramos para essas tibiais. A aterosclerose é a doença mais comum que atinge essa circulação, é uma doença da camada interna das artérias. Antes de falar da parte das carótidas e do aneurisma, devemos falar sobre a doença aterosclerótica das pernas, que é muito mais comum. Fisiopatologia O sangue arterial sai do coração, bombeado principalmente pelo ventrículo esquerdo (VE), mas é um sangue que já vem oxigenado do pulmão, metabolizado do fígado e filtrado pelos rins, é o que se chama de sangue bom, pois é limpo e oxigenado. É ele que vai mandar nutrientes, defesa e oxigênio para o corpo. Quando a pessoa tem placas em algum seguimento da artéria, naturalmente, o sangue não consegue passar. As placas vão obstruindo cada vez mais e a quantidade de sangue que chega na periferia vai reduzindo. Com relação ao metabolismo, por exemplo, da musculatura da perna, o que mais sofre é o músculo e os nervos. Se a pessoa tem múltiplos fatores de risco e obstrução de fluxo nas pernas, o músculo sofre por falta de oxigênio e nutrientes, o que causa complicações. O metabolismo normal do músculo é aeróbio. Quando a quantidade de sangue que passa para o músculo fica insuficiente, o metabolismo se torna anaeróbio, o que forma ácido lático. Na medida em que esse ácido é produzido, ele vai estimulando os nervos, que dão sensibilidade na perna. Isso causa uma dor, que é chamada de claudicação intermitente. A claudicação intermitente, portanto, é decorrente de uma dor por falta de irrigação sanguínea na musculatura, que muda metabolismo de aeróbio para anaeróbio, com produção de ácido lático e estímulo aos nervos sensitivos. Na medida em que se anda, aumenta- se a produção de ácido lático e, consequentemente, a dor, a ponto de a pessoa parar de andar na hora. Quando se para de andar, o músculo entra em repouso, então o metabolismo volta a ser aeróbio, interrompendo a produção de ácido lático e fazendo a dor desaparecer. 3 A claudicação intermitente tem relação com o movimento, quanto mais movimento mais dor. A claudicação intermitente é um dos sintomas mais clássicos da medicina. Tem muita relação com a gravidade do doente – em quanto tempo que o paciente começa a andar e começa a claudicar, pois indica se a obstrução é grande ou não. Onde produz o ácido lático já não tem sangue, então, se a pessoa produz ácido lático na panturrilha, provavelmente a obstrução é mais alta, no segmento femoropoplíteo. Se é na região da coxa, a obstrução é no segmento ilíaco-femoral. Se é na aorta, provavelmente a primeira área a sentir dor é a região da nádega, onde a musculatura é mais bem desenvolvida. Exame físico Se a pessoa tem uma obstrução à passagem do sangue, ou seja, ele não chega bem nas extremidades, tudo que o sangue nutre e oxigena vai estar prejudicado. 1. Inspeção: sinais de má nutrição, pois o sangue não está chegando bem na extremidade. • Pilificação diminuída ou ausente • Musculatura atrofiada • Pele ressecada e endurecida • Unhas quebradiças e esbranquiçadas 2. Palpação de pulsos Por convenção médica, define-se que o pulsonormal é um pulso de quatro cruzes. Se palpar um pulso mais embaixo já não igual ao anteriormente palpado, pode colocar 3+/4+. 3. Ausculta Na ausculta, o grande sinal é a presença de sopro (sentidos como frêmitos, na palpação), que corresponde ao turbilhonamento do fluxo. Nesse caso, alguma coisa está fazendo com que haja um estreitamento da passagem do sangue. Ou seja, quando o sangue passa, existe um redemoinho, que ouvimos como um sopro. Esse estreitamento, em doente com múltiplos fatores de risco, pode significar placa de ateroma. Exames complementares 1. Índice tornozelo braquial: fluxo de sangue na área maior ou menor. • Normal: 0,8 ou 0,9. • Isquemia moderada: 0,6 a 0,8 • Isquemia grave: 0,3 a 0,6 • Isquemia crítica: < 0,3. Há risco de perda de membro. Para fazer esse exame, precisamos de duas coisas: aparelho de pressão e sonar de doppler. Como esse exame é feito? → Coloca o aparelho de pressão na região do braço e localiza o fluxo de sangue na artéria braquial (fica pulsando no sonar). Infla o manguito até sumir o som e desinfla lentamente até aparecer o primeiro som, que é a pressão sistólica. Mede a pressão sistólica do braço direito, e depois no braço esquerdo também. • Exemplo o Braço direito: 120 mmHg o Braço esquerdo: 110 mmHg Depois disso, vai para o pé direito, colocando o manguito um pouco acima do tornozelo. Localiza-se a artéria pediosa com o aparelho sonar, infla o manguito até sumir o som e desinfla lentamente; o primeiro barulho é a pressão sistólica. Depois, vai na artéria tibial posterior, que é atrás do maléolo, seguindo o mesmo raciocínio e anotando a pressão sistólica. • Exemplo o Artéria pediosa, que corre no dorso do pé, que é a continuação da tibial anterior: 60 mmHg o Tibial posterior, atrás do maléolo interno: 50 mmHg. Você pega o maior dos braços (no caso do exemplo, 120 mmHg) e o maior de cada perna (direita = 60 mmHg), dividindo a perna pelo braço. Ou seja, 60/120 = 0,5. Esse é o índice na perna DIREITA. Na perna esquerda, digamos que façamos o mesmo procedimento, obtendo valores de fluxo de 30 e 20 mmHg. Então, 30/120 = 0,25. Na perna esquerda, portanto, o índice é de 0,25. Assim, na perna direita, temos uma isquemia moderada, já na perna esquerda, temos uma isquemia grave, com risco de perder a perna. 2. USG com doppler ou duplex-scan Vê a artéria, a placa de ateroma e a obstrução, mas também consegue medir a quantidade de sangue que está passando no local. Pela velocidade do sangue, infere o grau de obstrução. Quando a velocidade é muito alta, significa obstrução acima de 70%. Quando a velocidade é mais baixa, significa obstrução menos grave. A curva normal é trifásica (curva para cima, para baixo e para cima). Quando o exame mostra uma curva 4 bifásica, isso já quer dizer que há obstrução ao fluxo de 50%. Se a curva dada pelo doppler é monofásica, significa que a obstrução é acima de 70%. Apesar de ser um exame muito bom, ele é operador dependente, portanto não devemos usá-lo como critério para indicar procedimentos invasivos no paciente. 3. Exames com imagem e contraste 3.1 Angiotomografia A vantagem é que a tomografia é o único exame que vê cálcio, o qual não aparece na ressonância. Portanto, a TC consegue mostrar placas de gordura e cálcio. Isso é importante porque, por exemplo, se fizer angioplastia em uma artéria muito calcificada, sendo ela muito dura, o balão pode simplesmente romper. Além disso, se for colocar um stent em uma artéria muito calcificada, ele pode não abrir. O único exame que mostra com detalhe a placa é a angiotomografia. A angiorresonância mostra o lúmen, mas não a placa. Assim, ela dá a suspeita da placa pelo estreitamento do lúmen, mas não consegue, de fato, mostrar o conteúdo dela. Se o paciente tiver problema renal ou alergia ao contraste, então lança mão de um artifício, que é a tomografia simples sem contraste, para ver onde está calcificado, e ressonância, para ver o lúmen. 3.2 Angiografia: já foi o padrão ouro para diagnóstico, mas é muito invasivo, pois invade artéria, pondo cateter e fio guia dentro dela. Então, tudo que é invasivo, deixa como última opção. Ademais, também não vê calcificação das artérias. Diagnóstico O diagnóstico é suspeitado pelo duplex scan e comprovada pela angiotomografia. A angiografia é utilizada no tratamento endovascular, mas não para diagnóstico, porque é muito invasivo. Tratamento A placa de ateroma, por si só, autoriza o tratamento clínico. Contudo, chega um momento que só isso não dá conta. • Tratamento clínico: tratar os fatores de risco possíveis – HAS, DM, parar de fumar, perder peso, fazer atividade física etc. 1. Tratamento medicamentoso • Antiagregante • Estatina • Cilostazol: medicação feita basicamente para claudicação. 1.1 Antiagregante • Aspirina: melhor custo-benefício; geralmente começa com ele. Lembrando que não é o AAS normal, pois há muitos efeitos colaterais (gastrite, sangramento etc.). Atualmente, faz uso do AAS tamponado 100 mg (dose infantil), em que a absorção não é gástrica, mas intestinal. • Clopidogrel 1.2 Estatina: originalmente feita para quem tem colesterol alto, mas de uns anos para cá, foi descoberto que, além do efeito para diminuir colesterol sanguíneo, também tem efeito antinflamatório sobre a placa de ateroma. Assim, usa mesmo quando o colesterol está normal. 1.3 Cilostazol: efeito antiagregante, vasodilatador e função hemorreológica. • Função antiagregante: mais pobre; não tem comparação, pois é bem pequeno. • Efeito vasodilatador: já há vasodilatação máxima induzida pelo corpo na área com obstrução, portanto essa ação não é importante. • Ação hemorreológica: deforma hemácias e facilita entrada delas na microcirculação, aumentando a perfusão dos tecidos. 2. Tratamento cirúrgico Indicações • Lesão trófica: tecido morto. • Dor de repouso: é a dor da claudicação, estando parado. • Intratabilidade clínica: após 6 meses sem nenhuma resposta. O melhor tratamento é a formação de novas artérias limpas (colaterais), ou seja, angiogênese. O maior estímulo para a formação de novos vasos é o EXERCÍCIO FÍSICO. Se a pessoa fizer atividade física, como caminhar 60 minutos por dia, mesmo apresentando claudicação, isso já estimula a angiogênese. Em um ano, a distância que o indivíduo conseguia percorrer sem sentir dor é multiplicada por 10 (ex.: de 100 metros, a pessoa passa a conseguir caminhar 1 km). 5 • Claudicação limitante: indivíduo que apresenta claudicação muito curta e precisa das pernas para viver e dar comida à família. Ex.: carteiro. Essas duas últimas são polêmicas. 2.1 Tratamento endovascular: angioplastia e stent Faz punção à distância, leva cateter com balão para dilatar artéria entupida – angioplastia. Eventualmente, pode levar tubo de metal, que se abre com força radial e esmaga a placa contra a parede – é o famoso stent. O local de acesso mais comum é pela virilha (artéria femoral comum), mas pode também ser pelo braço (artéria braquial). É um tratamento pouco invasivo, o que diminui muito o risco do procedimento em relação à cirurgia aberta. Uma outra vantagem dessa terapia é que ela pode ser feita várias vezes. Quando faz balão e quando faz balão com stent? • Balão: casos de estenose. • Stent: faz em artéria entupida, em que já não passa sangue direito. Então, além de abrir a artéria, coloca stent, pois há uma chance muito alta de obstruir novamente. Depois que o sangue volta a circular, tira a área necrosada. Outras medidas • Curativo menos agressivo possível: soro (estéril e não agride células), curativo fechado (evita contaminação). • Cabeceira alta e perna na horizontal: se colocar a perna para cima o sangue não chega (piora circulação), se colocar a perna para baixo, inicialmentemelhora, por causa da gravidade; o problema é que pode inchar se passar muito tempo, o que comprime a circulação. A cabeceira alta facilita a chegada de sangue na extremidade. • Cuidado com temperatura baixa para evitar vasoconstrição. • Remédio para dor: dor por falta de sangue é uma neurite isquêmica, é sofrimento do nervo sensitivo. Dá medicação feita para dor neurítica, como amitriptilina, por exemplo.