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John Walker
& Outros
A Igreja do 
Século X X
I
sm II
A História Que 
Não Foi Contada
A Igreja do 
Século X X
A História Qm ■
Nõq Foi Contada
Ao longo da história, a igreja 
experimentou sucessivas ondas 
de despertamento. No século XX, 
movimentos como o Carismático, 
Chuva Serôdia, Discipulado, 
Paiavra da Fé, entre tantos, fazem 
parte da fascinante história 
recente da igreja.
Compreender e identiflcar tais 
movimentos requer estudo 
profundo e sério. Este livro tem 
como objetivo mostrar os acertos 
e erros, apontando novos 
caminhos à igreja atual.
Por outro lado, as grandes ondas de 
despertamento são sinais claros de 
que a igreja de Cristo está sendo 
preparada para um avivamento sem 
precedentes e para a volta gloriosa 
de Jesus.
A igreja do século X X - A história 
que não foi contada é um livro 
imparcial, equilibrado e 
comprometido com a verdadeira 
história da igreja. Um livro que trará 
fogo ao seu coração, desafia ndo-o a 
orar pela vinda desta última e 
grande onda.
0 Movimento Palavra da Fé é de Deus ou não?
Por que e como cresceu a maior igreja do mundo?
Quais os resultados, para a igreja, do Movimento do Discipulado? 
Você sabe o que é o Movimento Chuva Serôdia, de 1948?
Que recado Deus quer dar à igreja contemporânea com a queda dos 
tetevangelistas?
9 7 8 8 5 8 6 5 2 2 5 1 A
A morte de um gigante!
Hoje, quinta-feira 26 de Julho de 2014 às 22hl6min morreu 
o digitalizador Mazinho Rodrigues quando digitalizava seu 
último livro. Seu scanner(coração) começou a falhar aos poucos 
e aproximadamente às 20h32min deu seu último ''suspiro". Sua 
dedicação e esforço em compartilhar livros teológicos para a 
edificação do povo de Deus é conhecido por ''muitos".
A pergunta que fazemos é: Porque homens desse tipo 
morrem?
A resposta está no comentário de Matthew Henry falando 
sobre a morte de Moisés - {Os servos de Deus devem morrer poro que 
possom desconsor de seus esforços, receber o suo recompenso, e dor lugor 
o outros. Quondo os servos de Deus sdo levodos, e já ndo mois devem 
servi-lo no terro, võo poro servi-lo melhor, poro servi-lo dio e noite no seu 
templo}. Comentário Bíblico Matthew Henry - Antigo testamento - 
Pentateuco. Pg.682.
É claro que Matthew Henry estava falando de morte física e 
eu no sentido figurado. 0 certo é que não digitalizo mais, 
motivos: consciência, financeiros, cansado, outras prioridades... 
outros.
Agradeço a todos por tudo.
Att: Mazinho Rodrigues!
mazang
Realce
John Walker
& O utros
A Igreja do 
Século X X
A História Que 
Não Foi Contada
Copyright © 1996, por Worship Produções.
Publicado originalm ente por W orship Produções.
Republicado por Editora Atos Ltda 
Belo H orizonte — Fevereiro dc 2002.
Todos os direitos reservados.
Diagrawafão:
E dilson Ferreira
Capa:
Next Noveau
Todos os direitos em Hngua portuguesa reservados à Editora Atos Ltda. 
N enhum a parte deste livro pode ser reproduzida, arquivada ou transmitida 
po r qualquer meio - eletrônico, mecânico, fotocópias, etc - sem a devida permissão 
dos editores, podendo ser usada apenas para citações breves.
Pub licado com a devida autorização e com todos os direitos 
re serv ado s p e la E D IT O R A A TO S I/TDA.
Caixa Postal 402 
30161-970 - Belo Horizonte, M (.
Telefone: 0800-315580 
www.editoraatos.com .br
http://www.editoraatos.com.br
INDICE
PREFACIO........................................................................... 5
1 - SITUAÇÃO ESPIRITUAL NO FINAL DO SÉCULO X IX ......... 7
2 - 0 MOVIMENTO PENTECOSTAL......................................... 15
3 - AS GRANDES CAMPANHAS DE CURA............................... 33
4 - 0 MOVIMENTO CHUVA SERÔDIA...................................... 43
5 - 0 MOVIMENTO CARISMÁTICO.......................................... 67
6 - 0 MOVIMENTO CARISMÁTICO CATÓLICO...................... 81
7 - 0 PODER DO ESPÍRITO SANTO ENTRE OS JOVENS...... 95
8 - 0 MOVIMENTO DE DISCIPULADO NA ARGENTINA....... 109
9 - 0 MOVIMENTO DE DISCIPULADO NOS EUA................. 125
10 - AQUEDADOSTELEVANGELISTAS............................... 139
11 - 0 AVIVAMENTO NA CHINA.............................................. 147
12 - A CONTRIBUIÇÃO CHINESA PARA A
REFORMA DA IG R E JA ................................................. 183
13 - 0 MOVIMENTO PALAVRA DA F É .................................... 195
14 - A MAIOR IGREJA DO MUNDO....................................... 209
15 - 0 MOVIMENTO DE RESTAURAÇÃO
NA INGLATERRA....... ................................................... 235
16 - A RESSURREIÇÃO DE UM PROFETA................................259
17 - A ÚLTIMA O ND A ................................................................ 269
BIBLIOGRAFIA.................................................................. 299
Prefácio
REFORMA E AVIVAMENTO
A
 inspiração para se fazer este livro surgiu com um curso minis 
trado por Harold Walker num seminário para obreiros em agos­
to de 1989, em Jundiaí, São Paulo. Não tem o propósito de ser 
uma história exaustiva da igreja no século XX e sim de ressaltar alguns 
dos acontecimentos marcantes no processo da restauração da igreja 
neste século. Cremos que o conhecimento daquilo que Deus já fez na 
história recente da igreja é imprescindível para se obter luna visão profé­
tica daquilo que ele ainda fará nos próximos anos.
Apesar de ser um assunto muito importante para as reflexões de 
todos aqueles que desejam enfrentar esta virada do século de uma for­
ma sóbria e apercebida, não existem livros disponíveis que abranjam o 
tema de forma global. Há apenas a história de uma ou outra igreja ou de 
um movimento isolado. A constatação da carência desse tipo de materi­
al e o sentimento da urgência de tê-lo para a formação de uma visão 
profética na igreja nos motivaram a elaborar e publicar esse livro.
Existe uma forte tendência na natureza humana de ir a extremos e 
de agir motivado por preconceitos. É sempre mais fácil chegar a um con­
senso sobre o que Deus fez no passado distante do que concordar sobre o 
que ele fez no passado recente. As pessoas tendem a tachar certos movi­
mentos de heréticos sem ao menos conhecê-los. Por outro lado, muitos 
são ingênuos a ponto de engolir por inteiro certas doutrinas e práticas no­
vas quando deveriam julgar tudo e reter apenas o que é bom.
0 nosso desejo ao apresentar esse livro à igreja brasileira é con­
tribuir de alguma forma para o seu amadurecimento, levando-a a uma 
compreensão equilibrada de todo o cenário espiritual produzido pelos 
tremendos acontecimentos deste século. Gostaríamos de ver pastores, 
líderes, obreiros e leigos estudando e discutindo esses assuntos, dei-
xaiido de lado seus preconceitos e ampliando seus horizontes para ver o 
plano global de Deus. Por um lado, precisamos reconhecer a preciosi­
dade da obra de Deus em segmentos da igreja que, por serem tão dife­
rentes de nós, temos descartado sem o devido conhecimento e apreço. 
Por outro lado, precisamos ser “vacinados” contra novidades pernicio­
sas através de conhecer os efeitos nefastos que idéias e doutrinas seme­
lhantes já produziram na história da igreja.
0 estudo dos diversos movimentos que surgiram no século XX ten­
de a produzir duas reações: Um senso de admiração diante das repetidas 
e poderosas visitações do Espírito Santo e um senso de perplexidade di­
ante das grandes divergências e aparente desarmonia entre os diversos 
segmentos do corpo de Cristo. No meio de toda a confusão humana, po­
rém, 0 Espírito de Deus está trabalhando para uma fmalidade específica— 
a restauração da igreja para ser a noiva imaculada de Cristo na sua segunda 
vinda. À medida que o leitor estuda a restauração da igreja no século XX 
queremos chamar a sua atenção para a existência de dois temas distintos 
mas inter-relacionados: avivamento e reforma. Deus não quer apenas re­
novar 0 mover do seu Espírito na igreja. Ele deseja também restaurar a 
revelação clara e pura da sua Palavra, produzindo assim mudançasradi­
cais na nossa fé e em nossas estruturas. Dessa forma, unindo uma estrutu­
ra reformada com o poder do Espírito derramado, ele pretende formar 
uma casa adequada para sua habitação permanente.
Esta obra é fruto de trabalho em equipe. Os capítulos de 1 a 8,10 
e 11 foram escritos por Elenir Eller Cordeiro e os capítulos 9 e de 12 a
16 foram escritos por John Walker em inglês e traduzidos por Elenir. 
Ambos usaram como fonte de pesquisa vários livros e revistas inglesas 
e americanas e incluíram no texto muitos trechos dos mesmos. 0 capí­
tulo 17 foi transcrito por Ruth Walker a partir de duas mensagens gra­
vadas de Bob Mumford e traduzido e adaptado por Christopher Walker. 
John e Harold Walker supervisionaram o projeto. Sérgio Abrahão fez 
uma revisão e a última revisão do português foi feita por Rubens Castilho.
Desejamos que suas meditações sobre esses assuntos sejam ilu­
minadas pelo Espírito Santo a ponto de levá-lo a ter uma visão e uma 
expectativa mais claras daquilo que Deus ainda fará nos anos vindouros 
para consumar a restauração da sua igreja.
- Harold Walker
Algreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
Capítulo 1
SITUAÇÃO ESPIRITUAL NO 
f in a l DO SÉCULO XIX
A
ntes de focalizarmos diretamente o primeiro mover de Deus do 
século XX, seria proveitosa uma breve descrição da situação es­
piritual e das expectativas no final do século XIX, para levantar­
mos um pano de fundo do Movimento Pentecostal ocorrido logo no 
início do século XX.
A situação das igrejas em geral era de apostasia e frieza. 0 
Protestantismo Americano era rico, culto e influente, mas, com exce­
ção de uns poucos grupos conservadores, seu estado espiritual era 
de decadência. Imperavam o liberalismo, o formalismo, o munda- 
nismo, 0 profissionalismo ministerial, a consciência de classes, a 
ausência de experiência com Deus etc. Instituições teológicas e aca­
dêmicas que haviam sido levantadas para preservar a fé tinham se 
tornado o berço do Darwinismo e do cepticismo à inspiração da 
Bíblia. 0 nascimento físico, ao invés do nascimento espiritual, se 
tornou a base para pertencer a uma igreja, a ponto de os termos 
“nascer de novo” ou “conversão repentina” terem se tornados arcai­
cos. 0 conhecimento das doutrinas substituiu a experiência pessoal 
com Deus. “Separação do mundo” tornou-se um termo tão em desu­
so no vocabulário cristão que para os protestantes em geral isto só 
tinha um significado — morte física! Os pregadores pioneiros que 
recebiam com fervor o “chamado de Deus” para pregar o evangelho 
foram substituídos por homens que consideravam o ministério uma
profissão e que se orgulhavam de sua posição. Denominações que 
em outros tempos foram conhecidas como “igrejas dos pobres” grada- 
tivamente se tornaram foram conhecidas como “igrejas dos pobres” 
gradativamente se tornaram a ehte da sociedade.
Porém, paralelamente a essa apostasia e frieza espiritual, havia 
também alguns sinais de avivamento indicando que nem todos haviam se 
ajoelhado diante de Baal. Um chamado para arrependimento, oração e 
intercessão estava soando e um texto muito usado nos últimos anos do 
século XIX era Jeremias 33:3: “Clama a mim, e responder-te-ei, e anun­
ciar-te-ei coisas grandes e ocultas que não sabes.” Outro sinal era a bus­
ca e pesquisa das Escrituras resumidas na pergunta: “Que dizem as 
Escrituras sobre isto?” Convenções bíblicas especiais eram realizadas e 
ministros e missionários se reuniam para estudar a Palavra, a fim de 
averiguar o pensamento de Deus para o fim da Era da Igreja.'
Havia também uma expectativa pela “Chuva Serôdia”. Esse era 
um tópico enfatizado nas conferências bíblicas baseado na promessa de 
Deus em Joel de derramar seu Espírito nos últimos dias. Uma boa 
explanação desta expectativa pode ser encontrada no seguinte trecho de 
um famoso comentário bíblico a respeito de Tiago 5:7:
“0 recebimento das primeiras e últimas chuvas não deve ser en­
tendido como 0 objeto de sua esperança (do lavrador), mas a colheita 
para a qual essas chuvas são preliminares e necessárias. As primeiras 
chuvas caem no tempo da semeadura, aproximadamente em novembro 
ou dezembro; as úlümas chuvas caem aproximadamente em março ou 
abril para amadurecer o grão para a colheita. A chuva serôdia que pre­
cederá a colheita espiritual que está por vir será provavelmente outra 
efusão do Espírito Santo como a do Pentecoste.” ^
Pastores, professores de institutos bíblicos e líderes de igrejas 
exortavam a todos “para pedir chuva no tempo da chuva serôdia” (Zc 10:1). 
Ensinava-se que o Dia de Pentecoste não exaurira o cumprimento da pro­
fecia de Joel, pois uma parte das profecias consiste de referências óbvias 
a eventos ligados à vinda do Senhor. Conseqüentemente, com a expectativa 
universal da iminente volta do Senhor, havia uma ávida antecipação pelos 
“tempos de refrigério da presença do Senhor” (At 3:19). ‘
A Igreja do Sécub XX-A História que Não Foi Contada
O CONCEITO DO BATISMO NO ESPÍRITO 
No processo de restauração da igreja, os dias de Lutero trouxe­
ram à luz a verdade da justificação pela fé. Alguns séculos mais tarde 
surgiu John Wesley pregando a santificação pela obra do Espírito San­
to. Mais tarde esta experiência ficou sendo conhecida como “segunda 
obra da graça” ou “batismo no Espírito”. Porém, no fmal do século XIX 
surgiu um entendimento do batismo no Espírito como sendo um reves­
timento de poder para evangelizar o mundo (At 1:8). Eles criam e ensi­
navam que se o mundo estava para ser alcançado para Cristo, este reves­
timento de poder era uma necessidade vital e que o mesmo Deus que 
agiu e supriu as necessidades durante a era apostólica, ansiava por re­
vestir todos os crentes. Mas um grupo de cristãos que identificava o 
batismo no Espírito com a “segunda obra da graça” começou a entender 
que há diferença entre “santidade” e “poder”. Por isso, elaboraram uma 
“terceira obra da graça” que seria o “Batismo no Fogo” para alcançar 
este poder para evangelizar. 0 importante em tudo isso foi que, ao se 
estabelecer a natureza do batismo no Espírito Santo, como um revesti­
mento de poder após a conversão, fez-se uma preparação para o grande 
mover de Deus que viria no início do século XX.
ARESTAURAÇÂO DO SOBRENATURAL 
0 Movimento Pentecostal não foi o inventor do elemento 
miraculoso nem do ensinamento bíblico sobre milagres. É verdade que 
através dos séculos poucos ousaram crer que era vontade de Deus curar 
os doentes. Mas foi perto do fim do século XIX que a visão bíblica sobre 
cura divina foi apresentada de forma sistemática. Entre os precursores 
neste campo estão A. J. Gordon, A. B. Simpson (fundador da Aliança 
Cristã e Missionária), Andrew Murray e John Alexander Dowie, um no­
tável defensor de cura divina estabelecido em Illinois — alguns de seus 
seguidores se tornaram os primeiros líderes pentecostais.'
São muitos os relatos de curas extraordinárias antes do século XX: 
Por exemplo, uma cura notável aconteceu com Mary Reynolds, 
de Indianápolis, em 1872. Após sete anos de tratamentos especializa­
dos e à beira da morte, ela foi incentivada a crer em sua cura baseada 
em Tiago 5:16. Numa manhã um homem de Deus orou especificamente
Situação Espiritual no Final do SécubXIX
por ela, ungindo-a com óleo em nome do Senhor. Ele deixou a casa 
sem ver nenhuma aparente mudança, a não ser uma profunda paz e 
certeza que invadiram o coração da mulher. Às três horas da tarde, de 
repente onda após onda de glória inundou sua alma e um poder como 
eletricidade enviou vibrações para as partes mais remotas de seu cor­
po. Ela saltou sobre seus pés completamente curada. Toda doença e 
enfermidade desapareceram. 0 Espírito encheu completamente seu 
ser. A enfermeira ficou atordoada ao vê-la sair de seu quarto num 
ímpeto e se juntar a vários vizinhos que estavam ali para verificar seu 
estado de saúde. Ela se colocou de joelhos diante deles e derramou- 
se numa torrente de ações de graças aDeus. Logo veio a hora do 
jantar e ela foi para a mesa e comeu uma refeição normal, a primeira 
depois de sete anos. Ela estava com 35 anos quando foi curada e de­
pois disto viveu mais quarenta anos. Como resultado de sua cura e 
testemunho muitos foram salvos, inclusive seu esposo e filhos. Suas 
duas filhas mais velhas foram servir a Deus na China. ^
Outro exemplo foi a cura de John Easton, em 1900, na missão 
de Dowie em Toronto, Canadá. Ele tinha as costas quebradas e por 
seis anos vivera numa moldura de gesso com um equipamento em 
seus ombros, no qual se penduravam pesos. Dormia num vagão em 
que durante o dia vendia pequenas mercadorias. À noite dirigia seu 
cavalo e o vagão para um galpão onde morava com sua esposa e filhos. 
Suas pernas eram tão insensíveis que uma agulha podia ser espetada 
na sua carne sem causar reação de dor. Seus calcanhares eram repu­
xados fazendo com que os pés fossem uma continuação das pernas, 
impossibilitando-o totalmente de andar. *
Todas as sextas-feiras à noite, durante mais de um ano, foram 
realizadas reuniões de orações para ele com instruções de salvação e 
cura. No dia de sua cura Easton recebeu a certeza de que seria curado e 
pediu que sua esposa providenciasse roupas e sapatos para ele .'
Houve um sentimento de expectativa desde o início da reunião até o 
momento em que o líder, com a ajuda de outros, serrou a moldura. Sob a 
ordem “Em nome de Jesus”, John Easton sentou-se! Seus pés e pernas 
pairaram sobre os lados do vagão como dois sacos. Numa segunda or­
dem, ele caiu sobre seus pés, que se tomaram imediatamente normais. Ele
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
10
pegou 0 líder em seus braços e depois virou-se para abraçar sua esposa. 
Ao ouvirem o som de regozijo, os vizinhos e depois os jomaüstas começa­
ram a chegar. Toda a noite andou e louvou ao Senhor até que pela manhá a 
carne tenra de seus “novos” pés estava coberta de bolhas. ‘
FALANDO EM OUTRAS LÍNGUAS
Estas duas curas são apenas exemplos de muitos milagres ocorridos 
neste período. Com o avivamento de cura veio o interesse por outros sinais 
e dons mencionados no Novo Testamento. Os filhos de Deus começaram a 
crer na restauração dos dons como um todo. Isto também foi verdade em 
relação ao falar em outras línguas. Apesar do mover do Espírito com lín­
guas e dons só ter rompido no início do século XX com o Movimento 
Pentecostal, houve experiências singulares de falar em outras línguas antes 
desse movimento.
R. B. Swan, um pastor em Providence, Rhode Island, descreveu 
num panfleto um derramamento do Espírito perto da sua cidade:
“No ano de 1874 para 1875, enquanto estávamos buscando ao 
Senhor, juntaram-se a nós vários que tinham recebido o batismo no 
Espírito e o dom de línguas alguns anos antes disto, e eles foram uma 
boa ajuda para nós. Em 1875, nosso Senhor começou a derramar seu 
Espírito sobre nós; minha esposa e eu, com alguns outros, começamos 
a proferir umas poucas palavras numa ‘língua desconhecida’.” ‘
Marie Woodworth-Etter, cujo ministério viria a tornar-se uma 
bênção para o inexperiente Movimento Pentecostal, entrou para o minis­
tério em 1876 na Igreja dos Irmãos Unidos. Ela testificou:
“Quase desde o início do meu ministério alguns falaram em lín­
guas estranhas. Mas eu não entendia isto, e como eu era a única líder 
não tive muito tempo para investigar e explicar isto; mas eu sabia que 
era de Deus.” '
Um derramamento do Espírito na Igreja Missionária Sueca, em 
Minnesota, ocorreu durante o ministério de John Thompson:
“Esse avivamento espiritual começou em 1892 e continuou por 
muitos anos. Houve muitas curas notáveis, e muitas vezes, enquanto o 
Pastor Thompson estava pregando, o poder de Deus caía e pessoas se 
prostravam no chão e falavam em outras línguas como o Espírito con­
Situação Espiritual no Final do SécubXIX
11
cedia que falassem. Uma irmã em particular, Augusta Johnson, recebeu 
um poderoso batismo no Espírito Santo, falou em outras línguas, profe­
tizou e teve muitas visões maravilhosas. 0 Senhor deu a ela um chama­
do defmido para África, onde ela trabalhou por mais de trinta anos. Não 
somente era Moorehead foi o Espírito derramado naqueles dias, mas 
também em Lake Eunice, Evansville e Torkenskjold.” ̂
0 Pastor C. M. Hanson de Dalton, Minnesota, testificou:
“Em 1895, enquanto realizava reuniões e pregações do evangelho 
completo, uma pessoa rompeu toda resistência e falou em línguas como 
em Atos 2:4. Dois anos mais tarde eu orei por outra pessoa pelo batis­
mo no Espírito Santo. Pouco tempo depois, o Espírito veio sobre ela e 
ela saltou, gritou, louvou a Deus, cantou, profetizou e falou em outras 
línguas. Dois anos depois disto, fui levado a estar sozinho com o Se­
nhor. De repente, como um vento poderoso e impetuoso, a atmosfera 
espiritual foi clareada e todo o meu interior iluminado. 0 sangue expiador 
de Cristo, justificando-me diante de Deus, tornou claras todas as coi­
sas. 0 Espírito Santo, então, como uma pessoa, tomou posse de seu 
templo, falando em outras línguas, enquanto eu via a mim mesmo como 
um ouvinte e instrumento na mão do Todo-Poderoso.” '
A HISTÓRIA DA FAMÍLIASHAKARIAN
Surpreendente é a história dos ascendentes do armênio Demos 
Shakarian Junior, fundador da Associação de Homens de Negócio do 
Evangelho Pleno, que relata a manifestação de línguas e dons no século 
XIX na Velha Rússia e Armênia:
“Em 1855, um garoto russo de onze anos de idade que vivia na 
Armênia recebeu uma visitação sobrenatural e maravilhosa. Por sete dias 
e sete noites ele esteve sob o poder de Deus escrevendo profecias sobre 
coisas vindouras. Embora fosse analfabeto, escreveu com boa letra e de­
senhou figuras, mapas e gráficos. Ele profetizou que a paz seria tirada da 
terra e que Armênia seria devastada pelos turcos e os cristãos armênios 
seriam massacrados, a menos que fossem para uma terra do outro lado 
do oceano, a qual as figuras, mapas e gráficos mostraram ser a América. 
Deus prometeu abençoar e fazer prosperar todo aquele que atentasse para 
seu aviso e fosse para o país onde seriam livres da perseguição.” ̂
A Igreja do SéculoXX-A História que Não Foi Contada
12
A profecia ficou guardada por décadas esperando seu cumpri­
mento. Quando o derramamento Pentecostal chegou na Armênia, um 
dos primeiros a receber o batismo no Espírito foi a família de Demos 
Shakarian Senior, Presbiteriano. Ele tinha cinco filhas e naqueles dias 
considerava-se uma vergonha uma mulher não dar à luz um filho. Mas 
em 1891 sua esposa, como Sara, recebeu uma profecia de que dentro de 
um ano daria à luz um menino. Isto se cumpriu em 25 de maio de 1892 
e deram-lhe o nome de Isaac.
Quando Isaac tinha 7 anos, um grupo de cristãos Pentecostais 
Russos veio à vila Kara Kala para ter comunhão com os Pentecostais 
Armênios. Como falava com fluência o russo. Demos Shakarian foi es­
colhido para acomodar os cristãos russos em várias casas da vila e 
também cedeu seu lar para reuniões à noite por uma semana. Como 
preparativos para receber os visitantes, ele saiu para selecionar entre 
seu gado o melhor novilho para ser oferecido ao Senhor. Apesar de 
saber pelas Escrituras que deveria escolher um animal sem defeito, 
escolheu um que era o mais gordo mas só com um olho. Ele o matou, 
decepou rapidamente sua cabeça e, por não ter tempo de enterrá-la, 
colocou-a num saco e o escondeu no canto de um celeiro debaixo de 
uma grande pilha de trigo em grãos. Depois preparou a carne.
Aquela noite, como era de costume, Demos e toda sua família 
foram para frente e se ajoelharam para receber a bênção de um dos 
líderes russos enquanto um dos profetas permanecia ao seu lado. De­
pois desta bênção, a carne ofertada deveria ser abençoada e então 
viria a festa e a noite de adoração. De repente, sem dizer uma palavra, o 
profeta cruzou a sala e saiu. 0 líder não quis continuar sem a presença 
do profeta e pediu que cantassem um hino até que ele voltasse. ^
Quandoo profeta voltou, trouxe o saco que estava escondido e o 
abriu em frente da família Shakarian ajoelhada, revelando a cabeça do 
novilho com o olho defeituoso. Ele disse que o Senhor lhe revelara tudo 
enquanto se preparavam para pedir a bênção de Deus sobre a família e sua 
oferenda.^
Demos Shakarian confessou que errara e pediu perdão. Isto Uie foi 
concedido pela congregação em nome do Senhor. Tão impressivo foi este
Situação Espintual no Final do Século XIX
13
incidente que não somente os Shakarians, mas também as outras famílias 
armênias e russas determinaram que daquele dia em diante ofereceriam 
a Deus somente o serviço e a oferta que Deus exigisse deles, mesmo que 
pudesse parecer na época que um substituto, como no caso do novilho 
defeituoso que era o mais gordo, servisse melhor para o propósito. ̂ .
Passaram-se quarenta e cinco anos desde que a profecia fora re­
cebida pelo garoto que agora estava com 56 anos. Aparentemente, quase 
já podia ser considerado um falso profeta, mas depois de todos esses 
anos 0 Senhor o instruiu para avisar os armênios que chegara o tempo 
de deixarem o país! A palavra se espalhou rapidamente entre os armênios 
e, em 1900, sob a zombaria de muitos, o êxodo de famílias armênias e 
também de famüias russas começou rumo à América. A família Shakarian 
chegou a Nova Iorque em 1905 e se estabeleceu em Los Angeles com 
suas cinco filhas e o filho Isaac, agora com treze anos. A última família 
saiu em 1912 e dois anos depois veio a Primeira Guerra Mundial, e num 
ataque violento os turcos invadiram a Armênia e varreram a vila de Kara 
Kala do mapa, matando todos os habitantes. ^
Quase imediatamente após a chegada dos Shakarians a Los Angeles, 
0 derramamento do Espírito começou na Rua Azusa, em 1906. Demos, 
seu cunhado e outro armênio se aproximaram da Rua Azusa e qual não foi 
sua surpresa ao ouvir sons de gritos e cânticos no Espírito semelhantes 
aos que estavam acostumados a ouvir na Armênia e na igreja estabelecida 
por eles em Los Angeles na casa de Demos Shakarian. Ao alcançarem o 
galpão que se transformara numa Missão — descobriram vários falando 
em línguas. Eles voltaram para casa com notícias emocionantes— o mes­
mo Deus que tinha movido na igreja primitva em Jerusalém, na Armênia 
e na Rússia, estava começando a mover na América. ®
Então, 0 derramamento do Espírito ocorrido na Rússia e na 
Armênia no final do século XIX com manifestações de línguas e dons, 
precedeu ao derramamento Pentecostal no início do século XX, Quando 
Demos Shakarian Senior faleceu em 1908, seu filho Isaac estava com 
dezesseis anos. Em 1913, já casado, a esposa de Isaac deu à luz a 
Demos Shakarian Junior, que se tornou o fundador no início dos anos 
50 da famosa Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno.
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
14
O MOVIMENTO PENTECOSTAL
0
avivamento Pentecostal do século XX não começou num galpão, 
mas numa mansão! Ao estilo de um castelo inglês, essa cons­
trução de pedra vermelha e branca possuía dois domos, imia cú­
pula atrás e um observatório elevado alcançado por escadas espiraladas. 
Em outubro de 1900 Charles Parham alugou essa “Mansão de Pedra”, como 
era conhecida, em Topeka, Kansas, para estabelecer uma escola bíblica 
chamada Betei. Cerca de 40 estudantes (alguns Já tinham cursado outros 
institutos bíbhcos) ingressaram na escola para seu primeiro e único ano 
atraídos pelo seguinte propósito — descobrir o poder que os capacitaria 
a enfrentar o desafio do nouo século. Era uma escola de fé nenhuma 
taxa era cobrada para moradia e alimentação. Eles confiaram em Deus 
para cada necessidade “e tinham tudo em comum”. A idéia completa era 
um período de treinamento intensivo na Palavra, oração e evangelismo. 
Esperava-se que Deus faria uma “obra repentina” em seus corações que os 
tornaria testemunhas eficazes de Cristo até os confins da terra. De acordo 
com as palavras de Parham, todos aqueles que “quisessem se entregar ao 
ministério da Palavra e oração” estavam livres para participar. Foi 
estabelecida uma ‘Torre de Oração” numa das cúpulas para os estudantes 
manterem um período de oração de três horas, cada um. Alguns passavam 
noites inteiras em intercessão na torre. ‘
0 método de estudo era escolher um assunto, pesquisar e estu­
dar todas as citações bíblicas sobre ele e apresentá-lo para a classe em 
forma de sabatina oral, orando para que a unção do Espírito estivesse 
sobre a mensagem trazendo convicção. Parham também ensinava atra­
vés de palestras.
15
Até dezembro de 1900 eles já tinham estudado sobre arrependi­
mento, conversão, consagração, santificação, cura e a iminente vinda do 
Senhor No dia 25 de dezembro. Charles Parham iria se ausentar por 
alguns dias, tendo deixado a seguinte instrução para eles: “Nós nos de­
paramos em nossos estudos com um problema. E sobre o segundo capí­
tulo de Atos?... Tendo ouvido tantas entidades religiosas diferentes rei­
vindicarem diferentes provas como a evidência do recebimento do ba­
tismo pentecostal, eu quero que vocês alunos estudem dihgentemente 
qual é a evidência bíblica do batismo no Espírito, para que possamos 
apresentar ao mundo alguma coisa incontestável que corresponda de 
forma absoluta com a Palavra.” Três dias depois, ao apresentarem o 
resultado de seus trabalhos, todos os alunos tinham a mesma história
— embora diferentes coisas tivessem ocorrido quando a bênção 
pentecostal caiu, a prova irrefutável em cada ocasião era que eles fala­
vam em outras línguas. Então línguas eram a evidência ou sinal do batis­
mo no Espírito nos tempos apostólicos. Foi esta descoberta que fez com 
que surgisse o Movimento Pentecostal do Século X X .'
No primeiro dia de janeiro de 1901 (considerado por algumas 
autoridades como o primeiro dia do século XX) os alunos estavam orando 
e uma estudante de 18 anos, Agnes N. Ozman, resolveu fazer um pedi­
do. Eis 0 seu testemunho:
“Nós estudávamos a BíbUa durante o dia e fazíamos muitos tra­
balhos no centro da cidade à noite... Oração era oferecida noite e dia 
continuamente num cenáculo especial separado como uma torre de ora­
ção. Tive muitas horas abençoadas de oração nesse cenáculo durante as 
vigílias da noite... Como alguns outros, eu pensava que tinha recebido o 
batismo no Espírito Santo num tempo de consagração, mas, quando 
aprendi que o Espírito Santo estava para ser derramado em maior ple­
nitude, meu coração tornou-se faminto pelo Consolador prometido, e 
comecei a clamar por um revestimento de poder do alto. Às vezes, ansi­
ava mais pela vinda do Espírito Santo do que por minha comida diária. 
À noite tinha um desejo maior por ele do que por dormir...'
“Durante o primeiro dia de 1901, a presença de Deus estava co­
nosco de maneira marcante, levando os corações a esperar nele para 
coisas maiores. 0 espírito de oração estava sobre nós à noite. Eram
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFoi Contada
16
quase onze horas quando senti em meu coração desejo de pedir que 
mãos fossem impostas sobre mim para que eu pudesse receber o dom 
do Espírito Santo. Logo que as mãos foram colocadas sobre minha 
cabeça, o Espírito Santo caiu sobre mim e comecei a falar em línguas, 
glorificando a Deus. Falei várias línguas. Era como se rios de água viva 
fluíssem de meu interior.” '
Parham também testificou sobre a experiência de Ozman:
“Impus minhas mãos sobre ela e orei. Mal tinha pronunciado três 
dúzias de frases quando uma glória desceu sobre ela, uma auréola pare­
cia envolver sua cabeça e rosto, e ela começou a falar em língua chinesa 
e ficou impossibilitada de falar em inglês por três dias.”“*
As aulas foram suspensas e toda a escola esperou diante de Deus. 
Durante a segunda noite, Ozman recebeu a língua boêmia confirmada 
por um tcheco que estava presente, e em poucos dias Parham e a maio­
ria dos outros estudantes receberam a experiência pentecostal. Um 
após outro começou a falar em línguas e alguns receberam o domde 
interpretação. Por cinco anos Parham e seu grupo de estudantes viaja­
ram através dos estados do sudoeste americano proclamando o evange­
lho da “Fé Apostólica”, como ele chamava seu movimento, mas recusou- 
se a encorajar todo e qualquer tipo de organização eclesiástica. Apesar 
de terem provocado vários avivamentos locais, Parham e seus estudan­
tes não conseguiram captar o interesse da nação para o novo batismo 
autenticado pelas línguas. Na verdade, o fogo só começou a se alastrar 
em 1906 com os acontecimentos da RuaAzusa, em Los Angeles.
Em 1905 Parham mudou-se para Houston, Texas, onde formou 
outra escola bíblica. Foi lá que recebeu como aluno William J. Seymour, 
um negro, cego de um olho e humilde. Apesar do preconceito racial do 
Sul, Seymour participou da escola e aprendeu sobre a “evidência ini­
cial” do batismo no Espírito. Pregava sobre isto em outras igrejas, mas 
ele mesmo ainda não tinha recebido o batismo no Espírito com línguas.
Seymour foi convidado por uma senhora que o ouvira pregar no 
Texas para pregar em Los Angeles numa igreja de negros Holiness, e 
assim se tornou um dos instrumentos de Deus para fazer explodir um 
dos mais importantes avivamentos da história da igreja.
0 Movimento Pentecostal
17
Seu primeiro sermão baseado em Atos 2:4 deixou a pastora furi­
osa com a implicação de que desde que ela não falara em línguas como 
os primeiros discípulos, ela ainda não recebera a plenitude do Espírito. 
Na sua segunda noite de pregação Seymour encontrou a porta da igreja 
fechada por ordem da pastora que não queria ouvir mais sua mensa­
gem. Sendo assim, ele e mais sete pessoas se reuniram num lar para 
buscar o Senhor, e naquela noite de 9 de abril de 1906 todos foram 
batizados no Espírito e falaram em línguas — menos Seymour. Os gri­
tos eram tão fervorosos — e tão altos — que uma multidão se juntou do 
lado de fora indagando: “0 que significa isto?” Logo foi propagado pela 
cidade que Deus estava derramando seu Espírito. Pessoas brancas se 
juntaram às pessoas de cor e também foram cheias do Espírito. No dia
12 de abril o próprio Seymour teria sua experiência pentecostal com 
línguas.
O INÍCIO DAM1S5À0 AZUSA
Frank Bartleman era um evangelista Holiness que recebera notí­
cias do avivamento em Gales ocorrido em 1904 e desde então dedicou 
sua vida para orar e publicar literatura conclamando outros a orar e 
buscar avivamento para Los Angeles. Ele entrou em contato com 
Seymour, que, por falta de espaço, alugara um velho galpão na Rua Azusa 
e então o fogo se alastrou. Ele se tornou a pessoa chave para espalhar as 
notícias do avivamento através de folhetos e publicações. A seguir (até a 
página 16), temos a descrição impressionante do início do avivamento 
nas palavras do próprio Bartleman, extraída do seu livro “A História do 
Avivamento Azusa”: ^
Depois de um período de oração, o Senhor me mostrou que deveria 
voltar para a reunião que havia sido transferida da Rua Bonnie Brae para a 
RuaAzusa,312.Haviamalugadoumavelhacasademadeiraqueforaantes 
uma igreja metodista, no centro da cidade, e que durante muito tempo não 
Jora usada para reuniões. Tomara-se um depósito de madeira velha e cimen­
to, mas agora limparamasujeira e o entulho suficiente para colocar umas 
tábuas no meio, em cima de barris velhos. Desta forma, dava lugarpara cerca 
de trinta pessoas, se me lembro corretamente. Sentavam-seformando um 
quadrado olhando uns para os outros.
A Igreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
18
Senti tremenda pressão interior para ir à reunião daquela noite. Era 
minhaprimeiravisitaàMissáoAzusa.MamãeWheaton, que estava vivendo 
conosco naquela época, iria conosco. Ela andava tão devagar que eu mal 
conseguia esperá-la. Chegamos láflnabnente e encontrei cerca de doze 
irmãos, algunsbrancosea^unsnegros.OirmãoSeymourestavaládirigin- 
do. A “arca do Senhor" começou a se nwver vagarosamente, mas com firme­
za emAzusa. No princípio era carregada nos ombros de sacerdotes indicados 
por ele mesmo. Não tínhamos nenhuma “carroça nova” naqueles dias para 
agradar as multidões mistas e carnais. Tínhamos de combater contra Sata­
nás, masa“arca”nãoerapwoadaporbois(bestasignorantes). Ossacerdotes 
estavam “uivos para Deus”, através de muita preparação e oração. 0 discer­
nimento não eraperfeito, e o inimigo tirou algum proveito disto, e trouxe 
algumas críticas ao trabalho, mas os irmãos logo aprenderam a “apartar o 
precioso do vil”.
Tbdas asforças do infemo estavam combinadas contra nós no princípio. 
Nemtudoerabênção.Na realidade, a luta/oi terrível Satanás procurava 
espíritos imperfeitos, como sempre, para destruir o trabalho, se possível. 
Mas ofogo não podia ser apagado. Irmãosfortes haviam se reunido com a 
cyuda do Senhor. Aos poucos levantou-se uma onda de vitória. Mas tudo isto 
veio de umpequeno começo, uma pequenina chama
Preguei uma mensagem na minha primeira reunião emAzusa. Dois ir- 
mãosjalaram em línguas. Muitas bênçãos pareciam acompanhar estas mani­
festações. Em breve muitos já sabiam que o Senhor estava operando na Rua 
Azusa e pessoas de todas as classes começaram a vir às reuniões. Muitos 
estavam apenas curiosos e não acreditavam, mas outros tinham fome da 
presença de Deus. Os jomais começaram a ridicularizar e a debochar das 
reuniões, oferecendo-nos desta maneta muitapubUddade gratuita. Isto trouxe 
os multidões. 0 Diabo superou-se asi mesmo outra vez. Perseguições exter­
nas nuncajazem mal à obra. Tínhamos de nos preocupar mais com os espí­
ritos maUgnos que trabalhavam dentro da obra.Méespíriías e hipnotizadores 
vieram investigar o quefazíamos e tentar nos influenciar. Apareceram então 
todos os descontentes religiosos e charlatães procurando um lugar para 
trabalhar. Estes é que nos causavam mais temor, porquanto constituem sem­
pre perigo para todos os trabalhos que estão sendo iniciados, e não encon- 
tramguarida noutros lugares. Estasitiiação lançou tal medo sobre muitas 
pessoasqueJoiquaseinsuperáveleimpediumuitoaaçãodoEspírito. Várias 
temiam buscar a Deus por pensar que o Diabo poderia pegá-las.
o Movimento Pentecostal
19
Descobrimos logo no início que, quando tentávamos segurar a arca (1 Cr 
13:9), 0 Senhorparavade trabalhar. Não ousáuamos chamar rnuiíoaaíenção 
do povo para o que o maligno tentava realizar, pois o resultado seria medo. 
Só podíamos orar. Então Deus deu-nos a vitória. Havia a presença de Deus 
coriosco através da oração; nós podíamos contar com ela Os líderes tinham 
uma experiência bastante limitada, e a grande maravilha é que o trabalho 
tenha sobrevivido contra seuspoderosos adversários. Mas era de Deus. E era 
este 0 segredo.
EXPERIÊNCIAS COM O ESPÍRITO EM AZUSA
Nos primeiros dias daMissãoAzusa, tanto o céu como o infemo pareciam 
ter chegado à cidade. Os homens estavam a ponto de estourar e havia uma 
poderosa convicção sobreopovoem geral As pessoas paredam cair aos peda- 
çosaténarua,semnenhumaprovocaçáo.Haviacomoqueumacercaemvolta 
daMissãoAzusaJeitapeloEspírito. Quando o povo aatravessava, adoisou 
tês quarteirões de distância, era tomado pela corwicção dos seus pecados.
0 trabalho era cada vez mais claro eforte em Azusa. Deus operavapode- 
rosamente. Parecia que todos tinham de ir a Azusa. Havia rrüssionários vindos 
daÁfrica, índia e ilhas oceânicas. Pregadores e obreiros atravessavam o conti­
nente, e vinham de ilhas distantes, motivados por uma atração irresistíixl por 
LosAngeles. “Coryregaiosmeussantos” (Sl50:l-7). Haviam sido chamados 
para assistir ao Pentecoste, embora não soubessem Era o chamado de Deus. 
Reuniões independentes, embnasemissões, começaramafediarporfaltade 
gente.SeusmembrosestcwamtodosemAzusaOúmãoeimnãGarrfecharam 
oauditório“SarçaArdente”evieramaAzusaparaserembatizadosnoEspíri- 
to,elogoforamparaaíndiaespalharachama
Houve muitaperseguição, principalmente por parte da imprensa Escre­
viam coisas incríveis, mas isso só fazia com que mais gente viesse. Muitos 
deram ao movimento seis meses de vida. Em pouco tempo havia reuniõesnoite e dia sem interrupção. Todas as noites a casa estava lotada. Todo o 
prédio em cima e embaixo havia sido esvaziado e estava sendo utilizado. 
Havia muito mais brancos do que pessoas de corjreqüentando as reurúões. 
Asegregaçãoracialjoiapagadapebsanguede Jesus. AS. Worrell tradutor 
do Novo Testamento, declarou que o trabalho de Azusa havia redescoberto o 
sangue de Jesus para a igreja naquela época. Dava-se grande ênjase ao 
sangue como elemento pwficador. Colocavam-se padrões morais elevados 
para quem queria ter uma vida limpa.
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
20
Ocmrior divino se manifestcaxL maravilhosamente nestas reuniões. Não se 
permitia nem sequer uma palavra indelicada contra os inimigos ou outras 
igrejas. A mensagem era o amor de Deus. Era como se o primeiro amor da 
igreja primitiva houvesse retomado. 0 batisnw, corra o recebíamos no prin­
cípio, não permitia que pensássenKS,falássemos ou ouvíssemos o mal con­
tra qualquer criatura. 0 Espírito era muito sensível como uma pomba delica­
da. Apomba não temfeL Sabíamos imediatamente quando magoávamos o 
Espírito através de um pensamento ou de uma palavra. Parecíamos viver 
num mar depuro amor divino. 0 Senhor lutava por nós naqueles dias. Nós 
nos submetíamos ao seu julgamento em todos os assuntos, nunca buscando 
defender0 nosso trabalhoouanossapessoa Vivíarmsemsuamaravilhosa 
e real presençcL E nada contrário ao seu puro Espírito era permitido.
Ofabo era separado do real pelo Espírito de Deus. A própria palavra de 
Deus era que resolvia todos os assuntos. 0 coração do povo, tanto em ação 
como em motivação, era descoberto até o cerne mais profundo. Não era 
nenhuma brincadeira tomar-se membro do grupo. “Ninguém ousava qjuntar- 
se a eles ” (At 5:13) a não ser que levasse as coisas a sério, e quisesse ir até 
ofim. Naquele tempo, para receber o batismo era necessário passar pela 
morte e por um processo de purificação. Tínhamos uma sala especial em 
cima para aqueles que buscavam com mais ardor o batismo embora muitos 
fossem batizados também em plena reunião. Muitas vezes eram batizados 
enquanto estavam sentados. Na parede da sala especial estava escrito: “É 
proibido falar alto; sussurre apenas. "Não sabíamos nada a respeito de “con­
quistar pelo barulho" naquela época'
OE^Mooperavaprçfijndamente. Umapessoainquietaouquefalassesem 
pensar era logo repreendidapeb Espírito. Estávamosem terrasanta. Estaat- 
mosfera era insuportávelpara os camais. Geralmente passavam bem bnge 
daquela sala a não ser que já houvessem sido subjugados e esvaziadospeb 
Espírito. Só iampara lá os que verdadeiramente buscavamaDeus, os que 
estavam sérios com ele. Este não era um lugar para manifestações emotivas 
nem para desmaios ou dar vazão asentimentos negativos. Os homens não 
gritavamnaqueleiempo.EksbuscavamamisericórdiadoSenhor,diantedoseu 
tono.Suaatitudeeraadequemtiravaossapatosporestaremterrasanta.
AAÇÃO DO ESPÍRITO NAMÚSICA
Sexta-feira, 15 dejunho, emAzusa, o Espírito derramou o coro celestial 
dentro de minha alma Encontrei-me, de repente, unindo-me aos demais que
0 Movimento Pentecostal
21
Já haviam recebido este dom sobrenatural Era uma manifestação espontâ­
nea e de tal arrebatamento que nenhuma língua hunmruipoderia descrever 
No início esta manifestação era maravilhosamente pura e poderosa. Temía- 
nws reproduzi-la, como também com as línguas estranhas. Hoje em dia, 
muitos parecem não ter nenhum constrangimento de imitar todos os dons. É 
por isso que elesperderamgrande parte do seu poder einfluêru:ia Ninguém 
podia compreender esse dom de cânticos espirituais além daqueles através 
dos quais se manifestcwa. Era realmente um novo cântico no Espírito. Quan­
do 0 ouvi pela primeira vez numa reunião, um grande desejo entrou em 
minha alma de recebê-lo. Achava que expressaria muito bem todos os meus 
sentimentos reprimidos. Eu ainda nãojalara em línguas. A nova canção, no 
entanto, me conquistou. Era um dom de Deus de alto nível e apareceu erúre 
nós logo que começou o trabalho em Azusa. Ninguém havia pregado sobre 
isso. OSenhorohaviaden-amadosoberanamenteJuntocomoderramamen- 
to do “restante do azeite”, o batismo no Espírito da chuva serôdia. Manifes­
tava-se à medida que o Espínto impulsionava as pessoas que tinham o dom, 
individualmente ou em grupo. Às vezes era sem palavras, outras vezes em 
línguas. 0 efeito sobre o povo era maravilhoso. Havia uma atmo^era celestial 
como se os próprios anjos estivessem presentes e houvessem se unido a nós. 
ProvavelnKnte isto ocorria mesmo. Parecia fazer cessar toda crítica e oposi­
ção, e era difícil até para os ímpios negá-lo ou rídicularizá-b.
Alguns condenam esses cânticos novos sem palavras. Mas nãojoi o som 
dado antes da linguagem? E não há inteligência sem linguagem? Quem 
compôs a primeira música? Temos sempre de seguir acomposição de algum 
homem que veio antes de nós? Somos por demais adoradores da tradição. 0 
Jcúar emlínguasnãoestáde acordo com a sabedoria ou com o conhecimento 
humano. Epor que não um dom de cânticos espirituais? De fato, estes são 
um desafio aos cânticos religiosos de ritmo moderno que usamos hoje. E 
provavelmente/oram dados com este propósito. Entretanto alguns dos ve­
lhos hinos são muito bons de cantar também, e não devem ser desprezados. 
Alguém disse que cada novo avivamento traz sua própria hinologia. E isto 
realmente aconteceu conosco.
No princípio, emAzusa, não tínhamos instivmentos musicais. Na reoMa- 
de, não sentimos necessidade deles. Não havia lugar para eks em nosso 
louvor. Tudo era espontâneo. Não cantávamos nem com hinários. Todos os 
hinos antigos eram cantados de memória vivificados pelo Espírito de Deus. 
“Veio 0 Consolador” eraprovavelmente o mais cantado. Cantávamos com
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
22
corações cheios dessa experiência nova e poderosa. Oh, como o poder de 
Deus nos enchia e nos comovia! Os hinos sobre o "sangue” também eram 
muito populares. “A vida está no sangue. ”As experiências do Sinai, Calvário 
e Pentecoste todas tinham seus lugares certos no trabalho de Azusa. Contu­
do, as novas canções eram totalmente diferentes, pois não eram de compo- 
siçãohumana, enãopodíamserjalsiflcadascomsucesso. Ocorvonãopode 
innitarapombcL
Mais tardecomeçaramadesprezarestedomquandooespíritohumano 
se impôs outra vez. Colocaram-no para fora com o uso do hinário e hinos 
selecionados pelos líderes. Era como assassinar o Espírito eisto entrístecia 
muito a alguns de nós; porém a corrente contrária eraforte demais. Os 
hinários hoje em dia são em grande parte uma produção comercial e não 
perderíamos muito se não os tivéssemos. Os velhos hinos são violados pelas 
mudanças, e procuram produzir novos estilos todos os anos para que haja 
mais lucro. Há muito pouco espírito de adoração neles. Mexem com os pés, 
mas não com os corações dos homens! Os cânticos espirituais dados por 
Deus, no intio, eramsen^elhantesaumaharpaeólicaporsuaespontaneida- 
de e doçura Na realidade, era o próprio sopro de Deus tocando nas cordas 
dos corações humanos ou nas cordas vocais humanas. As notas eram mara­
vilhosamente doces tanto no volume como naduração.Eramàs vezes impos­
síveis humanamente. Era o cantar no Espírito.
AUDERANÇADAS REUNIÕES EMAZUSA
0 irmão Seymourfoi aceito como o líder nominoL Mas não havia papa ou 
hiercvquia. Éramos todos irmãos. Não tínhamos programas humanos. 0 Se­
nhor mesmo liderava Não havia uma classe sacerdotal, nem ações sacerdo­
tais. Estas coisas surgiram depois, à medida que o movimento apostatou. No 
princípio não tínhamos nem plataforma, nem púlpito. Todos estavam no 
mesmo nível Os ministros eram servos na verdadeira concepção da palavra 
Não homenageavam os homens pelo que tinham a mais de recursos ou de 
instrução, mas pelos dons que Deus lhes dera Ele colocava os membros no 
lugar certo do seu corpo. J^ora “coisa espantosa e horrenda se anda fazendo 
na terra; osprofetasprofetizamfalscmiente e os sacerdotes dominam de 
mãos dadas com eles; eéoque desejao meu povo. Porém quefareis quando 
estas coisas chegarem ao seufim?” (Jr 5;30,31).
0 irmão Seymourgeralmentefioavasentado atrás de duas caixas vazias, 
umaemdmadaoutra Usualnieníemantinhaacabeçadentrodeumadelas,
0 Movimento Pentecostal
23
durante o culto, em oração. Não havia orgulho aqui. Os cultos eram quase 
que contínuos. Almas sequiosas podiam ser encontradas sob o poder de 
Deus quase a qualquer hora, dediaoude noite. Nunca o local estava fechado 
ou vazio. 0 povo vinha encontrar-se com Deus. Ele estava ali. Por isso a 
reuniãoeracontínuaenãocareciadeliderançahumanaApresençadeDeus 
tomava-se mais e mais maravilhosa. Naquele velho prédio de teto baixo e 
piso descoberto Deusfazia empedaços homens e mulheresfortes e tomava 
a Juntá-los outra vez para sua glória. Era um formidável processo de 
desmontagem e revisão geral. 0 orgulho e a auto-qfumação, a auto-impor- 
tância e a auto-estima, não podiam sobreviver alt 0 ego religioso pregava 
rapidamente seu próprio sermão de enterro.
Nenhum assunto ou pregação era anundado de oníemõo e nenhum pre­
gador especial havia para essa hora. Ninguém sabia o que iria acontecer e 
nemoqueDeusfaria. Tudo era espontâneo, comandado pelo Espírito. Que­
ríamos ouvir Deus através de quem ele falasse. Nãofazíamos acepção de 
pessoas. Os ricos e cultos eram iguais aos pobres e ignorantes, e era muito 
mais diftcilpara aqueles morrerem. Só reconhecíamos aDeus. Todos eram 
yuais.Nenhumacamepodiagbriar-senasuapresença,eelenãopodiausar 
quem tivesse opiniões próprias. Eram reuniões do Espírito Santo, guiadas 
pelo Senhor. 0 avivamento tinha de começar num ambiente humilde para 
que 0 elemento egoísta e humano não entrasse. Todos caíam aseus pés com 
humildade. Todosseassemelhavametinhamtudoemcomum, nestesentido 
pelo menos. 0 teto era baixo e por isso as pessoas altas deviam dobrar-se. Ao 
chegaremaAzusajá tinhamse humilhado, e estavam preparadas para as 
bênçãos. Aforragemesiavapreparadaparaovelhas, nãoparagirqfas. Todos 
podiamalcançá-la
Fbmos libertos ali mesmo das hierarquias eclesiásticas e dos seus abusos. 
QueríannosDeus. Quandochegávamosàreunião, evitávarnosornáxinTopossí- 
velcumprimentareconversarunscomosoutros. Queríamosprimetochegara 
Deus. Colocávamosacabeçaembaixodealgumlxmcoemoraçãoeentráva- 
mos em contato com os homens só no Espirito; não os conhedamos mais na 
came.Asreuniõescomeçavamespontaneamentecomtestemunhos, buvore 
adoração. Ostestemunhosnuncaeramapressadospebagitaçãodohomem. 
Não tínhamos umprogramapreestabekcido que tinha de ser empurrado de 
qualquermaneircuNossotempopertenciaaDeus.Tínhanvosverdadeirostes- 
temunhos v í i k í o s diretamente de corações vibrantes com as experiências. Se 
nãofor assim, quanto menoresforemos testemunhos melhor é. Umadúziade
A Igreja do Séailo XX-A História que Não Foi Contada
24
pessoas, àsvezes, estavamdepé tremendosobopoderdeDeus. Nãoprecisá- 
vamosqwimlídernosindicasseoquejazer,mastambémnãohaviadesor- 
dem Estávamos absowidos emDeus nas reuniões, através da oração. Nossas 
mentes estavam voltadas exclusiixtmeníeparaele, e todos lhe obedeciam com 
mansidãoehumildade.Emhonranospreferíamosunsaosoutros (Rm 12:10). 
OSenhorpodiairromperatravésdequaiquerwn. Orávamosporissooontinu- 
amente. Alguémflnalmenteficcwa de pé, ungido com a mensagem. Todos 
reconheciam isso e permitiam que acontecesse. Podia ser uma criança, um 
homem ou uma mulher. Podia ser do banco de trás ou do dafrente. Não fazia 
diferença.Regozyávamo-nosnaobradoSenhor.Ninguémqueriaaparecer. Só 
pensávamos em obedecer ao Senhor. Na verdade, havia uma tal atmosfera 
dtvinaquesóumtobsecolocariadepésemverdadeiraunção.Emesmoassim 
não duraria muib. As reuniões eram controladas peb Espírito diretamente do 
trono da graça Verdadeiramente foram dias maravilhosos. Eu muitas vezes 
disse que preferiria viver seis meses naqueb época do que cinqüenta anos de 
umavidanormaLMasDeusaindaéomesmohqje.Sónóséque mudamos.
Alguém podia estarfalando. Repentinamente, o Espírito caía sobre toda 
a congregação. Deus mesmofazia os apebs. Homens caíam por toda a casa 
comomortosnumabatalhaoucorriamaoaltaremmassabuscandoaDeus. 
Acenamuitasvezesparedaumafbrestacheiadeárvorescaídas. Umacena 
assim não podia ser imitada. Não me lembro de ter visto um apelo sequer 
naqueles dias. Deus mesmo os chamava E o pregador sabia quando parar. 
Quando Deusfalava todos obedecíamos. Parecia algo temerário impedir a 
operação do Espírito ou entristecê-lo. 0 local todo estava cheio de orações. 
Deus estava no seu santo templo. A humanidade cabiaficar em silêncb. A 
glória do Shekinah* estava ali. Aliás alguns diziam ter visto a glória do 
Senhor envolvendo o prédb durante a noüe. Eu não duvido. Mcds de uma vez 
porei quando me aproximava deste local e orei pedindoforças antes de ousar 
continuar. A presença do Senhor era muito real.
DEUS TRATA COM ACARNEPELO BATISMO
Homens presunçosos às vezes apareciam em nosso meb. Especialmente 
pregadores que tentavam espalhar suas próprias idéias e auto-promover-se.
0 Movimento Pentecostal
‘Palavra hebraica que significa “habitação de Deus", e foi usada por alguns escritores 
para referir-se à manifestação sensível da presença de Deus no tabernáculo e no templo, 
geralmentenumanuvem:Êx40:34; lRs8:10,ll;2Cr5:14;>^ 15:8.
25
Seus esforços, porém, duravam pouco. Ficavam semfôlego. Suas mentes 
vagavam, seus cérebros pareciam girar. Tudoficava escuro diante de seus 
olhos. Não podiam continuar. Nunca vi ninguém que tivesse tido sucesso 
naqueles dias; pois estavam lutando contra o próprio Deus. Ninguémprecisa- 
va interrompê-los. Simplesmente orávamos e o Espírito Santo fazia o resto. 
Queríamos que o Espírito controlasse tudo. Ele os confundia logo. Eram 
carregados parafora mortos, espiritualmentefalando. Geralmente se humi­
lhavam até 0 pó, passando pelo mesmo processo porque passáramos. Em 
outraspalavras, eramesvaziadosdesimesmos;depoisseviamcomtodasas 
suasfraquezas, e com humildade de criança confessavam tudo; Deus os 
pegavaentãoetran^ormavaospoderosamenteatravésdobatismonoEspí- 
rito. “Ovelhohomemmorria”comtodoseuorgulho, arrogânciae boas obras. 
No meu caso, passei a não me suportar. Supliquei a Deus que colocasse uma 
cortina ente mim e meu passado, de talforma que apagasse até mesmo as 
minhas derradeiras ações. 0 Senhor me ordenou que esquecesse cada boa 
ação como se nunca tivesse ocorrido, assim que fosse realizada; e que pros­
seguisse adiante como se nunca tivessefetío nada para ele para que minhas 
boas obras não se tomassem uma armadilha voltada contra mim mesmo.
Víamos coisas maravilhosas naqueles dias. Até homens muito bons che­
garam a desprezar-se quando se viam na luz mais clara de Deus. Os prega­
dores é que custavam a se entregar. Tinham muito para entregar à morte. 
Tantafama e boas obras! Quando, entretanto, Deusfmalizava sua obra 
neles, com alegria viravam umapágina e começavam outro capitulo. Portan­
to, havia uma razão para eles lutarem tanto. A morte não é uma experiência 
agradável e os homensfortes custam a morrer
0 irmão AnselPost, umpregador batista, estavasentadonumacadeira 
no meio da sala numa reunião à noite. De repente veio sobre ele o Espírito. 
Deu um salto e começou a louvar a Deus em línguas e a correr de um lado 
para o outro, abraçando todos os irmãos que pôde. Estava cheio do amor de 
Deus. Mais tardefoi para o Egito como missionário.
CAPACTERÍSTICAS DO AVIVAMENTO: 
IMPERFEIÇÃO, OPOSIÇÃO EDOMÍN10 DO ESPÍRITO
Escreviem “WayofFaith”, emprtmeiro de agosto de 1906; “OPentecoste 
chegouaLos Angeles, aJerusalémamericana. Todaseita, credo e doutrina 
debaixo do céu são encontrados em Los Angeles, assim como todas as na­
ções são representadas ali Muitas vezesfui tentado a duvidar que minhas
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
26
forças resistissem até o JinaL 0 peso da oração tem sido muito grande. Mas 
desde aprimavera de 1905, quarulo tive a primeira visão e recebi ofardo para 
sustentar emoraçâo, nunca tive dúvidaquanto ao resultadofinaL Os homens 
em todosos lugares estão com suas almas perturbadas e o avivamento com 
seusfenômenos sobrenaturais éo assunto do dia Grande oposição também 
se manifesta Osjomaissão muito venenosos, injustos e inverídicos nos seus 
pronunciamentos. Ospseudosistemas religiosos também estão lutandofor- 
temente, mas a ‘saraiva varrerá o refúgio da mentira’ (Is 28:17). Seus escon­
derijos estão sendo descobertos. Um riacho purificador estápassando pelo 
meio da cidade. APcüavra de Deus prevalece.
‘Todasasfcúsasreligiõesdebaixodocéuencontram-serepresentadasaquL 
AnãoseravelhaJerusalémnãohánadaigualnomundo. (Ficadoladoopæto 
do mwido com condições naturais muito semelhantes.) Todas as naipes são 
representadascomoemJerusalémMíiharesvindosdetodaparíedopaísede 
muitoslugaresdomundo, mandadosporDeuspcmestarnoF^ntecosíes, levarão 
ofogo ao redor do mundo. 0 zeb missbnárb está atingindo sua temperatura 
máxima Os dons do E^íríto estão sendo derramados, aarmaduradaigreja 
restaurada Verdadeimmenteestarnosnosdiasdarestauração,os‘últimosdias'; 
sãodiasmaravilhosos, diasgbríosos, masdiashorríveisparaosquecontinuam 
resistindo. São dias deprivilégb, responsabilidade eperigo.
“Os demônios estão sendo expulsos, os doentes curados, muitos abenço­
ados com salvação, restaurados e batizados com o Espirito Santo e poder. 
Heróis estão sendo desenvolvidos, os fracos sefortalecendo no Senhor Os 
corações humanos estão sendo revistos como por uma vela acesa. É uma 
época de grandepeneiração não só de ações, como de motivos interiores 
secretos. Ncuda pode escapar aos olhos do Senhor que a tudo perscrutam. 
Jesus está sendo levantado, o ‘sangue’ magn^icado, e o Espírito Santo ho­
menageado mais uma vez. Muito poder para prostar as pessoas se manfes­
ta É esta aprincipal causa de resistência por parte daqueles que se recusam 
a obedecer. 0 trabalho é para valer Deus está conosco com grande autenti­
cidade. Não ousamos pensar em ninharias. Homensfortes ficam durante 
horas prosti-adossob o poder de Deus, cortados como grama 0 avivamento 
será mundialsem dúvida ”
O FUTURO DESTE AVIVAMENTO
EscreviparaoutroJomalreligbso o seguinte, em 1906: ‘̂ itoscomamal- 
clitainaeckdidade,prosseguirnospciradmacomarnaiord^ícukiade, lutando
0 Movimento Pentecostal
27
pela restauração dagbriosa luz epoderda igreja, antes derramados com tanía 
abundância, mas agora há muttoperdidos. Temos estado por tanto tempo na 
escuridão da descrença causada pela queda da igreja, que nossa tendência é 
resistir à luz, pois nossos olhos estãofracos. A igreja caiu tanto que, quando 
Lutero tentou restaurar a verdade daJustiJbaçãopelafé, a igreja de seu tempo 
resistiuelutaucontraelacomosejosseapiorheresia;algunspagaramporisso 
com suas próprias vidas. Ocorreu o mesmo na época de Wesley. Mas agora te- 
mosaprópriarestauroçãodaexperiêndadoPerüecostecomaschujvasserôdi- 
as, umarestauração do poder, edemaiorglória, afimde acabar aobraquefoi 
inidada Seremoselevadosaonívelprimttivodaigrejaparaterminarmososeu 
trabalho, partiruio do ponto onde nossos antecessorespararam quando ojra- 
casso os conquistou, erapidamentecumprindoaídtimagrandecomissãopara 
abrírocaminhoparaavoltadeCristo.
“Devemos interromperosséculosdejracassosdaigrejaeabnga, sombria 
idade escura, e apressando o tempo, ser totatnente restaurados ao poder, à 
vitóriaeàgbriaprimitivos.Procuremossair, pehgraçadeDeus,deumcristi- 
anismo corrupto, retrógrado e espúrb. As sinagogas de uma yrga orgulhosa e 
hipócriíaestãovoltadascontranósparadesacrediíar-nos.Osmercenárioscb- 
mampornosso sangue. Os escribas eosfariseus, os sumo sacerdotes, osprin- 
cipais das sinagogas estão todos contra nós e contra Cristo.
“LosAngeles parece ser o lugar e esta a ocasião, no pkmo de Deus, para 
a restauração da igreja ao seu liujar,favor e poder primitivos. Chegou a hora 
da completa restauração da igreja. Deusfalou com seus servos em todas as 
partes do mundo, e todas as nações, como antigamente, vieram para o 
Pentecoste, para depois sair e levar as boas novas de salvação. A base de 
operação para o último Pentecoste mudou-se da antiga Jerusalémpara Los 
Angeles. Por toda parte Deus tem criado umforte anseio por essa experiên­
cia OPaísdeGalesfoidesignadoapenascomooberçoparaestarestaura- 
çãonumdial do poder de Deus.”
O FOGO SE ESPALHA
A partir de Azusa o fogo do avivamento espalhou-se por todo 
Estados Unidos. Através de toda a nação centenas de congregações in­
dependentes eram formadas da noite para o dia, providenciando a base 
para o que se tornaria mais tarde as Igrejas Assembléias de Deus.
A A liança Cristã e M issionária, uma obra Uderada na época 
pelo seu fundador A. B. Simpson, que estabelecia institutos bíblicos e
Algreja do SéculoXX-AHistóna que Não Foi Contada
28
enviava missionários para vários lugares do mundo, também foi 
grandemente atingida pelo avivamento. Eles criam que a igreja estava 
prestes a receber a chuva serôdia, e quando ouviram sobre o derrama­
mento do Espírito em Los Angeles ficaram alegres mas cautelosos, pois 
não estavam interessados em fanatismo.
A partir de maio de 1907 houve extraordinárias visitações do 
Espírito em seus acampamentos e convenções. Seus estudantes, minis­
tros e missionários eram inundados pelo Espírito com manifestações 
de línguas e sinais. Numa dessas reuniões um jovem estudante, David 
McDowell, estava tão cheio do fogo do Espírito que ficou com as mãos 
erguidas por mais de uma hora louvando ao Senhor. Quando ele as 
abaixou, inesperadamente caíram sobre as cabeças das esposas de dois 
líderes da Aliança que instantaneamente romperam em línguas!
Mas quando descobriu que o novo movimento ensinava que o 
batismo no Espírito era sempre acompanhado de línguas, Simpson to­
mou uma posição que fez com que o fogo apagasse e uma divisão ocor­
resse dentro da Aliança Missionária. Ele publicou um manifesto decla­
rando firmemente que renunciava à doutrina de que todos deveriam 
falar em línguas e que estas eram apenas uma das evidências do batismo 
no Espírito. Com esta posição, que se tornou conhecida como a “posi­
ção da Aliança”, eles perderam muitos homens proeminentes na socie­
dade e em algumas cidades congregações inteiras passaram para o lado 
do Movimento Pentecostal. A Aíiança M issionária poderia ter equili­
brado 0 Movimento Pentecostal e evitado numerosos erros, mas, ao 
rejeitá-lo, falhou em acompanhar o mover de restauração do século XX. 
Conta-se que nos últimos dias de sua vida Simpson teria dito a McDowell: 
“David, eu fiz o que pensei ser melhor, mas receio que tenha falhado.”
Muitos missionários vieram de vários continentes para experi­
mentar 0 seu próprio pentecoste e levar o avivamento para seus países. 
Outros foram influenciados por grupos de outros lugares dos Estados 
Unidos que tinham tido contato com Azusa. Por exemplo, dois imigran­
tes suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, participaram em Chicago de 
uma reunião de oração com alguns amigos cheios do Espírito. Lá rece­
beram uma profecia de que seriam enviados para algum lugar no mimdo 
chamado Pará. Após pesquisarem e descobrirem que se tratava de um
o Movimento Pentecostal
29
estado do Brasil, foram enviados miraculosamente para cá em 1910, 
onde fundaram a Igreja Assem bléia de Deus, quatro anos antes das 
Igrejas Assembléias de Deus dos Estados Unidos serem organizadas.
Thomas Ball Barratt, um ministro metodista na Noruega, 
ficou conhecido como o “apóstolo do pentecoste” para a Europa. Em 
viagem aos Estados Unidos, na cidade de Nova Iorque, ouviu sobre o 
avivamento Azusa e pensou que teria de ir a Los Angeles para receber o 
batismo. Enquanto esperava para viajar, decidiu buscar a experiência, 
orando até 12 horas por dia, e recebeu o batismo no Espírito ali mesmo 
em Nova Iorque, em outubro de 1906.
“Fui inundado de luz e de tal poder que comecei a gritar o mais 
alto que podia numa língua estrangeira. Devo ter falado sete ou oito 
línguas, baseado nos vários sons e modos de falar usados... o momento 
mais maravilhoso foi quando explodi numlindo solo barítono, usando 
uma das linguagens mais puras e deleitosas que já ouvira.”'̂
Em dezembro de 1906 Barratt retornou a Oslo, Noruega, onde 
alugou um ginásio com 2.000 lugares para realizar as primeiras reuni­
ões pentecostais da Europa.
“Pessoas de todas as denominações estão sendo impelidas para 
as reuniões. Muitos têm recebido o seu pentecoste e estão falando em 
línguas... Pessoas que têm participado das reuniões estão levando o fogo 
com eles para as cidades ao redor.
Em pouco tempo, Barratt se estabeleceu como o profeta do pen- 
tecostalismo europeu. Visitando-o e recebendo seu próprio batismo no 
Espírito estiveram pastores da Suécia, Inglaterra e Alemanha.“*
DECLÍN10 E CRISTALIZAÇÃO DO MOVIMENTO 
PENTECOSTAL
Já no primeiro ano o avivamento demonstrou sinais de declínio. 
Em agosto de 1906 Seymour escreveu a Parham para que viesse ajudá-
lo a discernir algumas manifestações estranhas que estavam acontecen­
do. Parham não teve orientação para ir imediatamente e quando esteve 
presente não foi bem aceito. Separaram-se e o mesmo aconteceu com 
Seymour e Bartleman. Bartleman era totalmente contra a organização e 
institucionalização do movimento e quando Seymour mandou escrever
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
30
na parede do prédio da RuaAzusa “Missão Fé Apostólica”, ele se reti­
rou e em agosto de 1906 abriu outra obra também famosa, “Rua Eighth 
com Maple” (assim designada como ponto de referência) cuja profundi­
dade e poder se igualaram a Azusa.
A ênfase do Movimento Pentecostal eram línguas como evidência do 
batismo no Espírito e poder para pregar o evangelho para o mundo intei­
ro, pois criam na iminente volta de Jesus. Por isso desde o início os Hde- 
res não viam necessidade de formar qualquer organização eclesiástica, 
pois eles mesmos já haviam se desiludido e sido perseguidos pelas deno­
minações que rejeitaram o mover do Espírito. Mas com o passar dos anos 
0 movimento entrou em perigo de caos com muitas divisões sobre doutri­
nas (e até heresias) e desonestidade fmanceira. A solução bíblica para es­
tabelecer ordem e purificar o movimento seriam apóstolos e profetas, mas 
como não tinham esses lundamentos foi quase inevitável a sua organização. 
Isso aconteceu em 1914 com uma chamada geral (debaixo de muitos pro­
testos) para realizar uma grande convenção em Hot Springs, Arkansas, 
que reuniu de 200 a 300 líderes de 20 estados dos Estados Unidos e de 
vários lugares do mundo. Ali o Movimento Pentecostal se organizou com 
0 nome de Igrejas Assembléias de Deus.
Uma grande polêmica que abalou as recém-organizadas Igrejas 
Assembléias de Deus foi gerada pela doutrina da unicidade da Divindade. 
Esta doutrina surgiu em 1913 com a revelação de um homem sobre o 
nome de Jesus, e seus defensores pregavam que o verdadeiro batismo de­
veria ser em nome de Jesus somente e não da Trindade, e os que não fos­
sem assim batizados deveriam ser rebatizados. 0 resultado desta doutri­
na foi a negação da existência da Trindade e quando o Conselho Geral, 
após muitos debates e discussões, condenou esta doutrma, um quarto 
dos 585 ministros das Assembléias de Deus deixou a igreja em 1916.
Durante os anos 20 e 30, apesar do esfriamento do Movimento 
Pentecostal, Deus continuou a operar e ministérios poderosos foram 
levantados. Entre eles estão Aimee Semple MacPherson (fundadora da 
Igreja do Evangelho Quadrangular), Smith Wi^lesworth (o “Apóstolo 
da Fé”) e Charles Price (um conhecido pastor tradicional convertido 
numa campanha de Aimee Semple MacPherson que se tornou um famo­
so pregador pentecostal com um ministério profético e de cura).
0 Movimento Pentecostal
31
Capítulo 3
AS GRANDES CAMPANHAS 
DE CURA
A ' '/ Vn
s grandes campanhas de cura, juntamente com o movimento Chu 
va Serôdia, que será tratado no próximo capítulo, ocorreram no 
etade do século após a Segunda Guerra Mundial e na mesma 
época da formação do Estado de Israel. Apesar de terem começado no 
mesmo período (46-48) foram movimentos distintos, mas com certa 
ligação. Foi uma campanha de Branham no Canadá que despertou al­
guns irmãos canadenses a buscarem o avivamento que surgiu com o 
nome de “Chuva Serôdia”.
William Branham nasceu num lar pobre a 6 de abril de 1909, em 
Kentucky. Seu pai era um lenhador que passava longos períodos fora de 
casa trabalhando. Uma dessas ocasiões foi no inverno de 1909, quando 
a mãe e filho (com seis meses de vida) escaparam de morrer congelados 
durante uma terrível tempestade. Sem comida e sem calor teriam su­
cumbido se Deus providencialmente não despertasse um vizinho para ir 
até lá. Diante da falta de sinal de vida, arrombou a cabana e encontrou 
mãe e filho enrolados em roupas de cama famintos e quase congelados.
Branham teve sua primeira experiência com Deus aos sete anos 
de idade. Contrariado por não ter podido ir pescar com seus amigos, 
estava carregando água para sua mãe e, ao parar debaixo de uma árvore 
para descansar, ouviu de repente um som de um vento soprando as 
folhas da árvore. “Eu sabia que não estava soprando em nenhum outro 
lugar. Afastei-me alguns passos e notei que num certo lugar mais ou
33
menos do tamanho de um barril, o vento parecia estar soprando através 
das folhas da árvore. Então veio uma voz dizendo: ‘Nunca beba, fume, 
ou contamine seu corpo de maneira alguma, pois eu tenho uma obra 
para você fazer quando ficar mais velho’.” Muitas outras vezes ele iria 
ouvir esse som impelindo-o a se separar para Deus. ®
Passaram-se anos, seu irmão e pai faleceram. Com 21 anos estava 
trabalhando numa companhia quando foi envenenado com gás. Seu esta­
do de saúde estava cada vez mais precário, quando os médicos decidi­
ram hospitalizá-lo para operar uma possível apendicite. No quarto do 
hospital sentiu a morte sobre si, e mesmo nunca tendo fumado, bebido 
ou tido quaisquer maus hábitos, sabia que não estava pronto para se 
encontrar com Deus. “Começou a ficar escuro no quarto e eu me senti 
numa grande floresta. Eu podia ouvir o vento soprando através das 
folhas... 0 vento chegou mais perto, mais e mais alto. As folhas sussur­
ravam e de repente eu parti. Parecia então que eu voltava a ser novamen­
te um garotinho de pés descalços, lá naquele caminho debaixo da mes­
ma árvore. Ouvi aquela mesma voz que disse: ‘Nunca beba ou fume’. 
Mas desta vez a voz dizia: ‘Eu chamei você e você não foi.’ As palavras se 
repetiram três vezes. Então eu disse: ‘Senhor, se é você, deixe-me voltar 
novamente para a terra e eu pregarei seu evangelho dos eirados, ruas e 
esquinas. Eu falarei a todo mundo sobre isto’!” ®
Quando voltou a si o próprio médico viu que ele tinha se encon­
trado com Deus e fora curado. Depois disto começou a buscar a Deus e, 
numa noite, tentava orar num barracão atrás da casa quando, de repen­
te, uma luz chegou e formou uma cruz. Uma voz lhe falou numa lingua­
gem que não podia entender e foi-se. Ele se sentiu transformado e des­
de aquele dia sabia que teria de sair e pregar o evangelho.
Tornou-se um pregador aos 24 anos de idade e sua igreja prospe­
rou. Nessa época, já casado, conheceu um grupo pentecostal em Michigan, 
onde ouviu sobre o batismo no Espírito. Inesperadamente, pregou nes­
sa conferência e recebeu muitos convites para fazer pregações em outras 
cidades. Mas, ao acatar conselhos de parentes e amigos, adiou por 5 
anos 0 chamado de Deus para sair pela fé pregando o evangelho e muitas 
tragédias aconteceram em sua vida. A unção de Deus que estava sobre 
ele 0 deixou, sua igreja desmoronou e, finalmente, sua esposa e filha
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFoi Contada
34
morreram tragicamente numa enchente do rio Ohio, em 1937. Entrou 
em desespero, mas naquela noite Deus o visitou em sonho e ele recebeu 
força e graça para prosseguir.
Foi em maio de 1946 (já casado novamente), quando trabalhava 
como guarda-florestal, que William Branham recebeu a extraordinária 
visita angélica que delineou todo o seu ministériode cura que estava 
para vir. Inquietado por outra manifestação sobrenatural de Deus, reti­
rou-se a uma cabana para orar e ler a Bíbha. Suplicava a Deus que o 
perdoasse por ter negligenciado seu chamado e que falasse com ele 
novamente. Uma luz se espalhou pela cabana e ele viu uma grande estre­
la como uma bola de fogo derramando luz sobre o chão. Aterrorizado, 
ouviu passos e, vindo em sua direção através da luz, os pés de um 
homem. “Ele tinha um rosto hso, sem barba, cabelos pretos até os om­
bros, uma compleição mais para escura, um semblante muito agradável. 
Chegando mais perto seus olhos fixaram os meus. Vendo quão aterrori­
zado eu estava, ele começou a falar: ‘Não temas. Fui enviado da presença 
de Deus Todo-Poderoso para lhe dizer que sua vida peculiar e seus 
caminhos mal-entendidos têm sido para indicar que Deus tem enviado 
você para levar um dom de cura divina para as pessoas do mundo. Se 
você for sincero e levar as pessoas a crer em você, nada resistirá diante 
de sua oração, nem mesmo câncer’.” Dois sinais lhe foram dados pelo 
anjo para seu ministério de cura: ®
1° - Com sua mão esquerda discerniria ou detectaria doenças das 
pessoas. ®
2° - Ele leria pensamentos e fatos da vida passada das pessoas. 
Ao dar-lhe este dom, o anjo acrescentou: “Os pensamentos dos homens 
falam mais alto no céu do que suas palavras na terra.” ®
Logo após a visitação do anjo (nesta época ele morava em 
Jeffersonville, Indiana) Branham foi chamado para ir a St. Louis, 
Missouri, orar por uma criança, filha de um pastor, que estava há três 
meses confinada na cama, só pele e ossos, desenganada pelos médicos. 
Após várias horas de oração, Branham recebeu orientação específica de 
Deus sobre sua cura, que foi muito propagada na cidade. Por causa 
desta cura, ele realizou naquela cidade, em junho de 1946, a primeira 
de suas numerosas campanhas de curas. Pregando com humildade e
As Grandes ChmpíM̂ has de Cura
35
simplicidade (sem fazer grande publicidade), em pouco tempo sua fama 
se espalhou e ele ia de cidade em cidade armando sua tenda, onde 
milhares de pessoas vinham ouvi-lo pregar e receber cura. Notáveis 
milagres ocorreram. Curou cegos, surdos, mudos, paralíticos e até res­
suscitou mortos.
Muitas vezes o anjo chegava às reuniões para ministrar através dele 
às multidões e muitas vezes tinha visões detalhadas de curas que ocorri­
am exatamente como Deus lhe mostrara. Ele tinha tanta compaixão pelas 
pessoas que permanecia até de madrugada orando pelos enfermos. Pesso­
as que trabalharam junto com ele e viram a operação dos dois sinais 
dados pelo anjo, disseram que eram perfeitos como nenhum outro exerci­
do por um ser humano. Ele falava detalhes da vida de desconhecidos 
(nome, endereço, fatos passados, doenças etc). Certa vez, numa campanha 
em Houston, um fotógrafo profissional tirou uma foto de Branham e ao 
revelá-la ficou surpreso com o que viu: sobre a cabeça de Branham havia 
uma auréola sobrenatural de luz. Maravilhado, o fotógrafo informou 
Branham sobre a foto e este não se mostrou surpreso pois coisas seme­
lhantes a essa haviam acontecido em seu ministério. Uma foto como esta 
tem sido publicada nos livros sobre William Branham.
DESVIOS DEBMNHAMESEUSSEGUIDORES
Embora fosse poderosamente usado por Deus para introduzir 
um dos maiores moveres do Espírito Santo na história da igreja, temos 
de declarar com tristeza que nos últimos anos de seu ministério Branham 
começou a fazer reivindicações exaltadas e absurdas a respeito de sua 
posição pessoal na economia divina dos eventos dos finais dos tempos. 
Ele arrumou um plano de sete épocas na história da igreja (baseado nas 
sete igrejas de Apocalipse 2 e 3), onde cada época tinha um mensageiro 
especial. 0 primeiro mensageiro foi o apóstolo Paulo. Entre os mensa­
geiros posteriores estão Lutero e Wesley. E ao chegarmos à sétima e 
última época somos informados por Branham que ele mesmo é o men­
sageiro que introduzirá a segunda vinda de Cristo. Assim como João 
Batista veio no espírito de Elias para anunciar a primeira vinda, do 
mesmo modo William Branham seria o profeta do século XX que, no 
Espírito de Elias (Ml 4:5), anunciaria a segunda vinda de Cristo. Ele 
chegou a predizer que o fim do tempo ocorreria em 1977.
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
36
Certamente Deus não aprovou tais exaltadas e tolas reivindica­
ções, e 0 tirou de cena em 1965 através de um acidente de carro apenas 
vinte anos após o início do seu ministério. Depois de sua morte, surgiu 
uma seita que a princípio afirmava que ele ressuscitaria dos mortos, e 
como isto não aconteceu, continuaram a idolatrá-lo como o profeta do 
século XX, colocando suas palavras no mesmo nível da Bíblia.
OUTROS PROEMINENTES MIN ISTÉRIOS
Nos anos 40 e 50, poderosos ministérios de cura foram levanta­
dos, muitos deles influenciados pelo ministério de William Branham. 
Um deles foi T. L. Osborn. Em 1947 ele assistiu a algumas reuniões de 
Branham em Portland, Oregon e o viu libertar uma menina surda-muda 
de um espírito maligno. Osbom diz ter ouvido naquele momento milha­
res de vozes dizendo-lhe que podia fazer o mesmo. Naquela época ele 
era um pastor das Assembléias de Deus, em Portland, e por um certo 
período entregou a igreja aos cuidados de sua esposa para se dedicar à 
oração e jejum. Foi então que Deus falou com ele que, assim como levan­
tara Smith Wi^lesworth, Aimee Semple McPherson e Charles Price, 
poderia levantá-lo e usá-lo em sua geração. Com a ajuda de Gordon 
Lindsay ele se lançou a um ministério independente de evangelismo e 
cura.
Porém, é interessante notar que o ministério de Osborn causou 
mais impacto fora dos Estados Unidos. Ele realizou poderosas cruza­
das em vários países da América Latina, África, Ásia e Europa. Em 
alguns países ocorreram ajuntamentos de mais de 100.000 pessoas e os 
milagres eram tidos como sensacionais. As curas simplesmente come­
çaram a espocar no meio da multidão, pois era-lhe impossível impor as 
mãos sobre todos. Alguns países foram abalados com suas cruzadas e 
numa campanha singular foram curados 125 surdos-mudos, 90 cegos e 
centenas de outras libertações ocorreram.
Outro proeminente ministério de cura deste período foi Oral 
Roberts. Foi convertido e curado aos 17 anos e se tornou um pregador 
“Pentecostal Holiness” desde 1935 até 1946. Fteqüentou a Universidade 
Phillips e ensinou no Colégio Bíblico SouÜiwestern. Em 1947, enquanto 
jejuava, orava e ha os Evangelhos de joelhos, recebeu uma revelação de
As Grcuules Campanhas de Cura
37
que Deus é bom e quer curar a todos, e sentiu-se chamado para levar o 
poder de cura de Deus à sua geração.
Resignou ao seu pastorado e mudou-se para Tulsa, Oklahoma 
onde começou seu ministério independente de cura. Sobre suas campa­
nhas, Wilham Branham declarou que “a autoridade de Roberts sobre 
demônios, doença e pecado era a coisa mais maravilhosa que ele já 
tinha visto na obra de Deus”. ^
Oral Roberts testificou sentir uma manifestação da presença de 
Deus em sua mão direita que seria um ponto de contato entre o crente e 
0 poder de cura de Deus. Ele publicou sua própria revista, “Healing 
Waters”, que mais tarde recebeu o nome de “Abundant Life”. Foi um dos 
primeiros a utilizar a televisão para pregar o evangelho. Em 1966 fun­
dou uma universidade cristã com várias faculdades que alcançou muito 
prestígio, inclusive no meio secular, e que introduziu a mensagem 
pentecostal no meio acadêmico.
Outro homem importante nos anos 40 e 50 foi Gordon Lindsay 
que foi usado para coordenar e equilibrar o movimento de cura. Publi­
cou uma revista muito famosa, “The Voice of Healing”, que serviu para 
propagar e dar coesão ao movimento. Em um número editado em 1952 
a revista trouxe estampada na capa as fotos de 20 ministérios de cura 
atuantes na época.
Paralelo a esses dois movimentos, de cura e Chuva Serôdia, hou­
ve um poderoso avivamento nas ilhas Hébridas, na Escócia, e outro na 
Coréia, onde mais de4.000 pessoas se reuniam para orar às cinco ho­
ras da manhã.
BlLLyCRAHAM
Apesar de não exercer ministério de cura, Billy Graham se desta­
ca no século XX como o maior evangelista de todos os tempos. Por 
vários anos fora um jovem evangelista comum mas durante uma confe­
rência em 1949 num acampamento nas montanhas perto de Los Angeles, 
Califórnia (da qual ele era um dos preletores), teve uma experiência que 
mudou sua vida e ministério. Naqueles dias passava por um conflito 
interior muito grande devido a um comentário de um colega de ministé­
rio que lhe dissera que sua visão das Escrituras era muito estreita e que
Algreja do Século XX-AHistória que Não Foi Cbnínda
38
isto acabaria prejudicando seu ministério. Conforme consta em sua bi­
ografia, uma noite, caminhando e orando pela floresta, ele teve a seguin­
te experiência:®
Depois do jantar, em vez de assistir à reunião, ele se retirou para seu 
alojamento e leu novamente as passagens bíblicas que falam sobre sua 
autoridade. Ele lembrou que alguém dissera que os profetas usaramfrases 
como “veio apalavra do Senhor”, ou “assim diz o Senhor” mais de 2.000 
vezes. Ele meditou sobre a atitude de Cristo que cunnpnu a lei e os profetas:
“Ele amavaas Escrituras, citando-as constantemente, enuncaemnenhuma 
ocasião insinuou que pudessem ser erradas”.
Billy saiupeb mato, vagando e orando enquanto subiao monte: “Senhor, 
que farei? Que direção darei à minha vida?”Ele sabia que chegara a um 
ponto de crise. Ele sabia que só o intelecto não poderia resolver o problema 
de autoridade. Ele teria de ir além do intelecto. Meditou sobre afé constan­
temente exercida na vida diária. Ele não sabia como um trem ou um avião ou 
umcarrofimcbnava, masandavaneks.ElenãosabíacomouTnavacamar- 
rom podia comer grama e dar leite branco, mas ele bebia leite. Será que 
somente nas coisas espirituais estafé não dava certo?
“Então eu voltei, peguei minha Bíblia e saí para a luz do luar... Arrumei 
um toco e coloquei a Bíblia no toco, qjoelhei-me e disse: ‘Ó Deus, eu não 
posso provar certas coisas, não posso responder algumas perguntas que 
meus colegas estãofazendo, mas eu aceito este livro petafé como a Palavra 
deDeus.”
Ele permaneceu orando perto do toco inconsciente do mundo ao redor, 
seusolhosestavamúmidos... “TiveumtremendosensodapresençadeDeus. 
Tive grande paz de que a decisão que tomara era certa. ”
Depois desta experiência Billy Graham nunca mais tentou expli­
car a Bíblia. Começou a proclamar simplesmente “A Bíblia diz...” e mul­
tidões foram convertidas. Sua primeira grande campanha em Los Angeles, 
considerada o início de seu ministério às multidões, estava planejada 
para durar três semanas e foi estendida para dois meses (25 de setem­
bro a 25 de novembro de 1949). 0 impacto causado pela conversão de 
algumas celebridades de Hollywood e o interesse dos meios de comuni­
cação atraíram multidões de mais de 6.000 pessoas diariamente.
Esta campanha o tornou uma celebridade nacional, abrindo espa­
ço para futuras campanhas e por mais de 40 anos Billy Graham tem
AsGrandesCampanhasdeCura
39
viajado por todo o mundo, sendo a pessoa que tem pregado para o 
maior número de pessoas até hoje. Numa cruzada marcante realizada 
em Seul, Coréia do Sul, em junho de 1973, estima-se que mais de 3,2 
milhões de pessoas assistiram as cinco reuniões de campanha. Calcula- 
se que na última reunião havia 1,1 milhão de participantes. Foi provavel­
mente 0 maior ajuntamento de pessoas na história da igreja.
CONCLUSÃO
Acabamos de relatar uma época de sinais e milagres que rara­
mente acontece na história. De fato este irrompimento do sobrenatural 
ocorreu apenas quatro vezes na história: no tempo de Moisés e Josué, 
no tempo de Elias e Eliseu, no tempo de Jesus e dos apóstolos e agora 
no século XX, quando todos os milagres relatados na Bíblia acontece­
ram. Como vimos, no fmal da década de 40 e no decorrer da década de 
50, houve ministérios de sinais e milagres numa escala nunca vista an­
tes. 0 cego viu, 0 aleijado andou, o surdo ouviu e mortos foram ressus­
citados. Através desses vasos muitas vezes imperfeitos o poder de Deus 
foi manifesto ao ponto de nações serem sacudidas por seu poder.
Porém, a um desses renomados evangelistas de cura o Senhor te­
ria dito audivelmente no fim de sua vida: “Tudo que você construiu é 
apenas madeira, palha e feno” (1 Co 3:10-15). E assim o movimento de 
cura não produziu os permanentes “ouro, prata e pedras preciosas”. Ele 
preencheu o vácuo que o declínio do Pentecostaüsmo institucional criara, 
mas no meio de demonstrações miraculosas havia muitas vezes duvido­
sas práticas fmanceiras e morais, lutas por poder, egoísmo e arrogância 
humanos, independência, rivalidade e dissensão. Como aconteceu com 
Sansão, o poder de Deus foi inegavelmente evidente, mas também é inegá­
vel que 0 caráter de Deus esteve muitas vezes lamentavelmente em falta. ®
David Edwin Harrel Jr., em seu livro “Tudo é Possível”, comenta 
sobre essa época: “Gordon Lindsay, que continuou a crer que o aviva­
mento era um grande mover de Deus, manifestou-se mais e mais contra 
a ambição pessoal e as manobras para obter posição entre os evangelistas. 
Em 1962, ele admitiu que muitos evangelistas adotavam métodos ques­
tionáveis e condenou aqueles que continuamente enfatizavam temas mui­
to sensacionalistas. 0 evangelista David Nunn recorda que Lindsay falou
A Igreja do Sécub XX-A História que Não Foi Contada
40
com ele particularmente: ‘0 dia do evangelista acabou.’ Muitos dos mi­
nistros declinaram, de acordo com Lindsay, ‘em grande parte por falta 
de humildade e por causa de uma tendência a auto-exaltação’. Ele se 
entristeceu com a ênfase crescente sobre dinheiro. 0 público, Lindsay 
creu, tinha toda razão para crer que o avivamento era ‘falso’; conduta 
não ética de alguns dos evangelistas tinha se tornado imi sério obstáculo 
para a mensagem carismática. Lindsay mais tarde concluiu que mesmo 
no auge do avivamento, muitos dos evangelistas ‘não tinham prevalecido 
em oração, não tinham tocado em Deus para seu ministério, simples­
mente levantaram sua bandeira’. No fmal dos anos 50 ele estava profun­
damente aborrecido e desencorajado.”®
No início dos anos 60 os avivamentos de cura obviamente tinham 
em grande parte esgotado seus recursos. Uma por uma, idolatradas 
personalidades de cura foram tiradas de cena por morte prematura; 
outros simplesmente declinaram em relativa obscuridade. Alguns pou­
cos têm sobrevivido até os dias atuais. ®
0 Brasil também foi bastante afetado por esse mover de cura, e 
homens como Manoel de Melo, Davi Miranda e Doriel de Oliveira levan­
taram fortes movimentos de cura. Mais recentemente temos tido o con­
troverso “Bispo” Macedo e sua Igrejaz Universal do Reino de Deus. 
Todos eles têm atuado nas camadas sociais mais baixas e preocupado a 
Igreja Católica com a conversão de milhares de seus adeptos.
Em geral muita confusão e mistura têm ocorrido nos movimen­
tos de cura devido à ênfase exagerada nos dons do Espírito Santo sem 
0 equilíbrio da Palavra. No livro de Atos o Espírito Santo foi derrama­
do sobre a palavra que Jesus deixara e isto produziu uma igreja glorio­
sa com sinais e milagres, mas com equilíbrio. Hoje estamos num pro­
cesso inverso do tempo de Atos. Temos tido muito derramamento do 
Espírito Santo, mas precisamos da restauração da palavra apostóhca 
para formar imia estrutm-a onde sinais e milagres ocorrerão em harmo­
nia com a palavra, evitando assim erros e extremos do passado.
Portanto, em lugar de rejeitar os sinais e milagres devido aos 
excessos que têm havido, devemos entender que no contexto da Palavra 
com 0 Espírito eles são importantes para mostrar às nações que Jesus 
está vivo e vai voltar.
As Grandes Campanhas de Cura
41
Capítulo 4
O MOVIMENTO CH UVA 
SERÔDIA
R
alph Mahoney, fundador da WORLD MAP (uma organização que 
dá assistência a missionários em todo o mundo e pubhca a re­
vista ATOS), tem afirmado que há três sinaissignificativos que 
precedem um novo mover de Deus:
a) algum evento histórico na nação de Israel;
b) um evento espiritual paralelo na igreja;
c) a remoção de líderes do mover anterior com levantamento de 
novos líderes. ^
Esses sinais se aplicam ao mover de 1948, que ficou conhecido 
como Chuva Serôdia. Foi um mover paralelo a um grande acontecimen­
to histórico — a formação do Estado de Israel em 1948. Tanto a Chuva 
Serôdia como as grandes campanhas de cura (que ocorreram no mesmo 
período, mas eram distintas entre si) aconteceram dentro do ambiente 
pentecostal (quase a totalidade dos novos Hderes era de pastores das 
Assembléias de Deus), ambos foram rejeitados pela maioria das gran­
des denominações pentecostais e ambos influenciaram em parte o de­
senvolvimento do Movimento Carismático dos anos 60 e 70.
0 Movimento Chuva Serôdia se assemelhou ao Movimento Pente­
costal do início do século XX em seu zelo pelo sobrenatural, em sua expec­
tativa da Iminente volta de Jesus Cristo, em seu repúdio pela organização 
religiosa formal, e em seu entusiasmo pela presença de Deus, a qual, sen­
tia-se, estava para ser manifestada no derramamento da chuva serôdia do 
Espírito de Deus, da qual as primeiras poucas gotas já estavam começando 
a cair em preparação para a volta imediata de Cristo.
43
0 cenário que antecedeu a este mover de Deus foi a preocupação, 
trauma e conseqüência da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e um 
forte anseio dentro do meio pentecostal por uma nova visitação de Deus. 
Era uma época de considerável sequidão espiritual e, de acordo com 
Gari Brumback, “a profundidade de adoração e a operação dos dons do 
Espírito, tão em evidência nas décadas anteriores, não eram tão proe­
minentes nos anos 30 e 40”. ' Outro ministro, Reg Layzell, descreveu 
este período da seguinte maneira:
“Nos corações de todos aqueles famintos de Deus havia um cla­
mor por uma nova visitação. Os que estavam no ministério, como tam­
bém os que estavam nos bancos, sentiam uma fome profunda e ardente 
por mais do céu. Havia um reconhecimento da parte de muitos no mi­
nistério e também daqueles em posições oficiais desta necessidade... 
Numa discussão com um pastor-superintendente de um distrito, foi fei­
ta esta declaração: ‘Nosso povo precisa de uma nova visitação de Deus e 
sem isto não temos futuro...’ Antes de Deus nos visitar havia uma sequidão 
geral na terra e isto foi reconhecido.”
GEORGE HAVl̂ lN
Em 1935, enquanto este período de sequidão espiritual estava 
apenas começando, um pastor das Assembléias Pentecostais do Cana­
dá, em Star City, Canadá, chamado George Havrtin, que viria a se tornar 
uma figura chave nas origens do Movimento Chuva Serôdia, fundou um 
instituto bíblico (que para variar se chamava Betei), freqüentado por 
oito estudantes naquele ano. Em 1937 o instituto mudou-se para 
Saskatoon, e em 1942, se tornou propriedade Assembléias Pente­
costais do Canadá para que fosse legalizado e reconhecido como uma 
Escola B íblica das Assembléias Pentecostais. Por causa de sua manei­
ra independente de agir, Hawtin entrou em crise com a organização e, 
em 1947, teve de renunciar à sua posição de diretor da escola, mudan­
do-se naquele mesmo ano para outra cidade do Canadá, North Battleford, 
onde as cenas iniciais do avivamento se desenrolaram.
Haw^ln e outro membro da direção da escola, PG. Hunt, se junta­
ram ao ex-pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, Herrick Holt,
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
44
que tinha um trabalho independente já estabelecido chamado “Orfanato 
e Escolas Sharon”. Para que o empreendimento se auto-sustentasse, Holt 
comprara uma fazenda a 16 quilômetros da cidade. Foi depois desta 
compra que Herrick Holt convidara George Hawtin e P G. Hunt para se 
estabelecerem em North Battleford. Setenta estudantes deixaram o Ins­
tituto Bíblico Betei para se tomarem parte do trabalho do Sharon. Müford 
Kirkpatrick, cunhado de Hawtin, e Ern Hawtin, irmão de Hawtin, logo 
se juntaram ao ministério Sharon em North Battleford. Quando Hawtin 
se mudou para ali. Holt havia recebido uma vivificação dos versículos
18 e 19 de Isaías 43 e estava fazendo campanhas de pregação sobre a 
“coisa nova” que Deus estava para fazer na terra. ̂
Pouco tempo depois que George Hawtin e P G. Hunt se juntaram 
a Herrick Holt, vários irmãos de North Battleford assistiram a uma 
campanha de Wüliam Branham, em Vancouver, e ficaram extremamente 
impressionados com as manifestações sobrenaturais nas reuniões. Um 
editorial apareceu na edição de 1 de janeiro de 1948 do “The Sharon 
Star”, um periódico publicado pelos irmãos de North Battleford, descre­
vendo a campanha de Branham em Vancouver:
Estáse tomando bemconheddoqueoRev. Branham temoájmsobrena- 
tural de cura Nunca em minha vida vi coisa igualaqueeuviem Vancouver. 
AsreuniõesJoramreaUzadasr}oE>âiíbitionGarden, umprédiocomcapacida- 
de talvez para quatro a cinco mil pessoas. Houve muito poucapropaganda 
sobre as reuniões— apenas uns poucos cartazes aqui e acolá dando a hora 
e local das reuniões. A primeira reunião e todas a seguir estavam btndas até 
às portas, e amenos que se chegasse cedo paraareunião da tarde, nãohavia 
esperança nenhuma de entrar à noite.
...Seus sermões têm efeito de inspirar/é em seus ouvintes... Eu vi os 
surdos recuperaremsua audição. Eu ouvi os mudosfalarem.. Eu vi um bócio 
desaparecer. Eu vipessoas doentes se levantarem de seus leitos... Que eu 
saiba náoviumapessoaquenãofossecuradaquandoirmáoBranhamtirou 
0 tempo para orar especificamente por ela
Eu retomei daquelas reuniões compreendendo como nunca antes que os 
verdadeiros dons do Espirito são muito mais poderosos do que qualquer outra 
coisaque temos imaginado emnossos mais espetaculares sonhos... Tbdosos 
grandesderramamenÈosdopassadotiveramsuasverdadesprindpais.Averda-
0 Movimento Chuva Serôdia
45
de de LuterofoiJustifíccupopela Fé. A de Weslegfoi Santificação... 0 derrama­
mento Pentecostal restaurou o Batismo no Espírito Sanb ao seu devido lugar. 
Mas opró>dmogrande derramamentovaiser marcado por todas essas verda­
des e ainda de uma tal demonstração dos nove dons do Espírito que o mundo, 
nemrnesnTOonTundoapostoIkx),Jarnaistestemiinhouantes. Este avivamento 
será curto e será o último antes do arrebatamento da igreja
Estas declarações, feitas quase um mês e meio antes do avivamento 
começar, mostram a expectativa dos irmãos de North Battleford naqueles 
dias. Devemos levar em consideração que nem tudo se cumpriu como foi 
predito. Esse avivamento não foi o último e nem houve tal impacto no 
mundo com a demonstração dos dons do Espírito, mas não podemos ne­
gar que, mesmo após 40 anos, ainda é possível sentir os efeitos e resulta­
dos deste mover em nossos dias. Sobre isso falaremos mais tarde.
Alguns Pontos de Influência
Temos a seguir alguns fatores que influenciaram os irmãos de 
North Battleford:
1) Im posição de mãos. A imposição de mãos se tornaria mais 
tarde um importante ponto de controvérsia entre as denominações pen­
tecostais estabelecidas e os participantes do avivamento de 1948. Antes 
de 1947, era quase uma heresia, entre os pentecostais, afirmar que não 
eram necessários períodos de busca e espera para receber o Espírito 
Santo. Porém, de acordo com James Watt (que esteve com os irmãos de 
North Battleford de 1945 a 1949) um livro escrito por um episcopal, J. 
E. Stiles, “0 Dom do Espírito Santo”, influenciou os irmãos Hawtin em 
North Battleford a afirmar que o Espírito Santo era um dom. Se alguém 
tivesse realmente se arrependido e crido no Senhor Jesus, tudo que ele 
tinha de fazer era receber a imposição de mãos de um irmão e assim 
receberia o Espírito Santo sem demora.
2) Forma de governo local. Outra influência foi o modelo de gover­
no da igreja usado pelas Assembíéias de Deus Independentes suecas, 
que foi adotado e usado pelos irmãos de North Battleford. Este grupo de 
assembléias locais era mais uma comunhão de igrejas do que uma 
denominação,e consideravam o governo da igreja local como a autorida­
de máxima da igreja... A influência do modelo de governo das Assembléi­
as de Deus Independentes sobre o ‘Orfanato e Escolas Sharon’ pode ser
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
46
vista em alguns artigos que apareceram no periódico Th e Sharon Star”. Os 
números de janeiro e fevereiro de 1948 trouxeram artigos de A. W. Ras­
mussen, um pastor das A ssem b léias de D eus In d epen den tes, 
intitulados “Ordem Bíblica ou Não Bíblica da Igreja”, estabelecendo prin­
cípios de governo na igreja. Rasmussen escreveu o seguinte: ^
No início do “Pentecoste” nós morríamos de medo de “denominacionalis- 
nw”enunjcadeixamosdelevantarnossavozparaprockunarquenãoéramos 
uma denominação, mas um movimento. 0 que acontece hoje? 0 “Pentecoste" 
estádivididoemmuitosgruposdederu)nmacionalismo. Temtomado o cami­
nho de todo avivamento espiritual anterior Parece que cada avivamento 
produz suaprópriaaposlasicL..
A igreja não é uma organização nem uma ordemfraternal construída 
pelo homenv a igreja é um organismo vivo. É o corpo de Cristo do qual ele é 
0 cabeça. Isto é um mistério oculto ao homem natural e à mente carnal. As 
coisas de Deus não podem ser discernidas pela mente natural, elas são 
discernidas espiritualmente...
Tenho examinado diligentemente as Escrituras para ver se há qualquer 
organização instituída pelos apóstolos além e acima da igreja locai Nãofui 
capaz de achar isto. Por outro lado, a ordem da igreja local é claramente 
ensinada.
Por exemplo: a primeira igreja do Novo Testamentofoi instituída em 
Jerusalém com um número de membros e eles por sua vez tiverampresbíte- 
ros e diáconos para supervisionar o rebanho. Os apóstolos seguiram este 
padrão ao estabelecerem igrejas em todo lugar por toda a era da igreja 
apostólica. Somente os santos realmente nascidos de novo e batizados se 
tomaram membros da igreja, verAt2:41; 5:13,38.
A simplicidade da forma de governo usado pelas Assembléias 
de Deus Independentes agradou mais aos irmãos de North Battleford, 
especialmente porque isto lhes pareceu mais afinado com o padrão bí­
blico do que as formas centralizadas de governo da igreja.
3) 0 livro “Poder Atôm ico com Deus Através de Jejum e Oração”. 
Este livro, escrito por Franklin Hall, providenciou informações detalha­
das sobre métodos e benefícios do jejum. Franklin Hall saiu da Igreja 
Metodista e viajou como evangelista independente durante a Grande De­
pressão e a Segunda Guerra Mundial. A influência de Hall sobre os ir­
mãos de North Battleford foi inegável. Ern Hawtin escreveu o seguinte: ^
0 Movimento ChumSerôdia
47
A verdade dojejumfoi um dos grandes/atores que contribuíram para o 
avivamento. Um ano antes disto lemos o livro de Franklin Hall, intitulado 
“Poder Atômico com Deus Através de Jejum e Oração”. Imediatamente 
começamos a praticar ojejum Antes não tínhamos entendido sobre a possi­
bilidade dejejuar grandes períodos. 0 avivamento nunca teriasido possível 
sem a restauração desta grande verdade através de nosso irmão HalL
De acordo com George Hawtin, “alguns jejuaram por três dias; 
alguns por sete dias; alguns jejuaram por dez dias; alguns por duas 
semanas; algims por três semanas; alguns jejuaram por trinta dias; e um 
homem jejuou por quarenta dias”.
O ROMPERDO AVIVAMENTO
A Escola Bíblica Sharon iniciou-se em 21 de outubro de 1947. De 
acordo com “The Sharon Star” (maio de 1948), em novembro de 1947 
cerca de vinte e cinco estudantes foram batizados no Espírito Santo. 
Então seguiu-se um longo período de oração e jejum. George Hawtin 
escreveu o seguinte:
Foi nos dias 12 e 13 defevereiro de 1948 que a grande restauração 
começou. Aqueles que estavam presentes nas salas de aula das Escolas 
Sharon naquela manhã inesquecível tinham dedicado meses emjejum e 
oração. Desde a abertura da escola na segunda parte de outubro até a 
grande visitação do Espírito, emfevereiro, nãopossopensaremumdia(com 
possível exceção de Natal eAno Novo) sem que alguém ou um grupo estives­
sejejuando e orando. Dia após dia, semana após semcma, as aulas eram 
suspensas, e os estudos interrompidos à medida que um grande peso de 
oração e súplica vinha sobre nós. Em nossos corações sabíamos que Deus 
estava parafazer uma coisa nova na igreja, mas não podíamos explicar 
exatamente o que era Umas poucas profecias de encorajamento nosforam 
dadas, impelindo-nos a buscar ajace do Senhor. As vezes tentávamos estu­
dar, mas não podíamos prosseguir; o desejo de orar era bem mcdor. As aulas, 
todavia, eramsemvidaeaoração sempre dijicíL
No dia 11 de fevereiro de 1948 uma profecia foi dada por uma 
das jovens da Escola Bíblica, dizendo “que nós estávamos na beiradinha 
de um grande avivamento, e tudo que tínhamos a fazer era abrir a porta 
e entrar”. Depois que ela deu a profecia, George Hawtin se levantou e
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
48
orou, “suplicando a Deus e falando que ele nos tinha informado que 
estávamos na beiradinha de um grande avivamento, e tudo que tínhamos 
que fazer era entrar pela porta — mas eu (George Havi t̂in) disse, ‘Pai, 
nós não sabemos onde está a porta — nem sabemos como entrar por 
ela’.” Ele continuou orando, pedindo ao Senhor para lhes mostrar o que 
teriam que fazer. ^
0 dia seguinte, 12 de fevereiro de 1948, foi descrito por Ern 
Hawtin da seguinte maneira:
Trêsprédios... compunhamo “OrfanatoeEscokisSharorí’noseuintio, no 
outonodel947. Cercade 70estudaniessereuriiramparaestudaraPalavrade 
Deus, orarejejuar.Depoisdetrêsmeses, dereperÉeoavivamentocomeçouem 
nossamaiorscdadeaulaondetodoocorpodeestudantesestavareunidopara 
exercíciosdevocionais. Umjovemcontou-meque, quando tinhacincoanosde 
idade, Deus lhe deu uma visão daquela saia de aula Tudo nela era idêntico.
Ele vvuDeus movendo de uma maneira que ele não podia entender.
... NuncaesquecereiamanháquandoDeus moveuem nosso meio nesta 
estranhaenovamaneiraAIgunsestudantesestavamsobopoderdeDeusno 
chão, outrosestaüamcgoeJhadosemadoraçãoelouvordiantedeDeus.Aunção 
se intens^ou até que o temor de Deus estava sobre todos. 0 Senhor disse a 
um dos irmãos: “Vá e imponha as mãos sobre certo estudante e ore por ele”. 
Enquantoeleestavaemdúvidaeemconteniplação, umadasirmãsqueesüve- 
ra scb opoderdeDeusJoi ao irmão dizendo as mesmas palavras, e nomeando 
0 mesmo estudante peb qualele deveria orar. Ele obedeceu e uma revelação 
Joi dada sobre a vida eJuturo ministérb do estudante. Depois disto uma bnga 
profeciafoi dada (por Em Hawtin) com detalhes minuciosos sobre agrande 
coisa que Deus estava parajazer. ..Até o presente dia ( Ide agosto de 1949) 
possolembraraessêndadaprqfeda,etentareirepettralgumascoisascomo 
foramditas:
“Esses são os últimos dias, meupovo.AvindadoSenhorestápróximaeeu 
movereinomebdosmeusescolhidos. OsdonsdoEspíritoserãorestauradosna 
minha igreja Se vocês meobedeceremeuimediatameníeos restaurarei Mas,
6 meu povo, seja reverente diante de mim como nunca antes. Tire os sapatos 
deseuspésporqueolugaremqueestãoésanto.Sevocêsnãoreverendarem 
0 Senhor e a sua casa o Senhor requererá isto de suas mãos. Nãojalem levia­
namente das coisas que estou parafazer, poiso Senhor os considerará culpa­
dos. Não tagarelemsobre essas coisas. Não esaevamcaríaspamseus amigos 
nKdschegadossobreanovamaneíradoSenhoragir, pois eles não entenderão.
0 Movimento Chuva Serôdia
49
SevocêsdesobedeceremaoSenhornessascoisas, tomemcuidadoparaque 
seus dias não sejam contados em tristeza e vão cedo para a sepultura Vocês 
têm me obedecido e eu restaurarei meus dons. Indicarei de tempo em tempo 
aqueles que estão prontí^para receber os dons de meu Espírito. Eles serão 
recebidos por profecia e imposição de mãos do presbitério. ”
Imediatamenteapósestaprojecia,umairmãrecebeuumarevelaçãodos 
nomes de cirvx> estudantes que estavam prontos para receber oração. Mãos 
foram impostas sobre eles peb presbitério. Este procedimentofoi bem hesi­
tante e imperfeito naquela manhã, mas depois de dois dias examinandoa 
PalavradeDeusparaversetínhamosbasebíblica, grande unidade prevale­
ceu e 0 Senhor veio em maior poder egbria dia após dia. Logo uma manifes­
tação visíveldos donsfoi concedida à medida que candidatos recebiam ora­
ção e muitos, como resultado, começaram a ser curados, à medida que dons 
de curaforam dados.
Diaapósdiaagbriae poder de Deus vieramentre nós. Grande arrepen­
dimento, humildade,jejum e oração predominarem sobre todos.
George Hawtin em seu relato confirma a profecia dada por seu 
irmão:^
Todos os estudantes estavamqjoelhadosnasaladeaula Emprofetizou 
peb Espírito de Deus por cerca de meia hora Durante aprqfeda ele chamou 
todaaescolaàsantidade, àgrandereverênciadlantedeDeus...íhtãohouve 
um aviso de que não devíamos mencionar o que estava acontecendo em 
cartas, porque as pessoas não entenderiam.. Essas palavrasforam dadas 
peb Espírito de Deus: “Nesta época eu restaurarei os nove dons do Espírito 
para minha igreja, e eles serão restaurados por profecia, com a imposição de 
mãos do presbitério”. Durante o próximo dia, 13 defevereiro, nós examina­
mos a Palavra de Deus praticamente o dia todo para ver se essas coisas que 
tinhamsido profetizadas estavamde acordo comaPalavra... NodiaMde 
fevereiro—nunca poderei descrever as coisas que aconteceram naquele dia 
Parecia que todo o céu expbdiasobre nossas abnas, e o alto céu abaixava-se 
para nossaudar. O poder e a glória de Deusforam indescritíveis.
UMA ANÁLISE
Como pode ser visto na profecia de Ern Hawtin, segundo a qual 
“os dons do Espírito serão restaurados na minha igreja”, houvera prati­
camente um cessar da operação dos dons do Espírito que tinham se
A Igreja do Século XX -A História que Não Fbi Contada
50
tornado tão difundidos com o advento do pentecostaüsmo na virada do 
século. Esta falta foi reconhecida por pentecostais de todo tipo e por 
todo 0 mundo de língua inglesa daquela época. Foi esta necessidade que 
trouxe notoriedade aos eventos de North Battleford no início de 1948. 
Porque os irmãos de North Battleford tiveram sucesso em transmitir 
dons especiais por imposição de suas mãos, pessoas vieram de todo 
lugar para que eles, também, pudessem participar dos dons espirituais 
que por tanto tempo oravam e ansiavam. ^
A necessidade de os irmãos de North Battleford diligentemente 
examinarem a Palavra de Deus por dois dias depois da profecia para veri­
ficar se tinham base bíblica, surgiu por eles (como também todo o pente- 
costalismo) estarem condicionados a pensar serem necessários períodos 
de busca e espera para receber o dom do Espírito Santo. A imposição de 
mãos para aquele propósito não fora praticada por várias décadas, e por 
alguma razão, viera a ser vista como herética pela maioria dos grupos 
pentecostais. Por causa do perigo de desentendimento em relação ao uso 
da imposição de mãos, não é de admirar que todas as pessoas fossem 
exortadas a não tagarelarem sobre o que tinha acontecido.
0 uso do termo “o presbitério” no contexto da profecia merece 
um pouco mais de atenção. 1 Timóteo 4:14 diz: “Não negligencieis o 
dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição de 
mãos do presbitério.” 0 presbitério neste caso consistia de líderes de 
uma determinada igreja local. Porém, no caso dos irmãos de North 
Battleford, parece que, à medida que eles ministraram em outros luga­
res além do contexto de sua própria localidade, começaram a referir a 
si mesmos como “o presbitério”, em vez de aos líderes da localidade 
específica que estavam visitando.
Numa folha intitulada “Uma Análise Histórica do Desenvolvimento 
dos Dois Conceitos de ‘Presbitério’”, James Watt (associado aos irmãos 
de North Battleford de 1945 a 1949) escreveu: “Eu mesmo tenho sido 
solicitado a submeter-me a um presbitério de sete homens viajantes... 
‘Presbitério’ no início deste mover significava os professores do ‘Orfa­
nato e Escolas Sharori comum pastor local de North BatÜeford. Quan­
do este grupo viajava para outras cidades, eles reservavam a palavra 
‘presbitério’ para si mesmos, permitindo a alguns pastores locais de
o Movimento Chuva Serôdia
51
também participarem.” Ao avaliar o procedimento dos irmãos de North 
Battleford sobre isto, James Watt escreveu que “o papel do presbitério 
itinerante como iniciado por North BatÜeford não é o ideal de Deus, 
nem é o padrão bíblico. Um único verso na Bíblia se refere a um presbi­
tério no Novo Testamento (1 Tm 4:14), e isto não se refere necessaria­
mente a um presbitério itinerante indo para uma igreja local. Antes, isto 
se refere aos irmãos de uma igreja local que foram ordenados por Paulo 
e Barnabé como presbíteros” (At 14:23).
AREPERCUSSÃODOAVIVAMENTO
Em obediência à exortação de não mencionar em cartas o que 
tinha acontecido, a edição de 1 de março de 1948 de “The Sharon Star” 
não trouxe nem uma palavra sobre os eventos das duas semanas anteri­
ores. Porém, a edição de 1 de abril de 1948 trouxe um editorial sobre 
“0 Avivamento em Sharon”:
Durante as últimas seis semanas temos nos regozijado com urrui grande 
visita/^ do Espírito de Deus. Alguns de nós estiveram orando por vinte anos 
para que os nove dons do Espíritofossem restaurados na igreja 0 espírito de 
JeJum e oração tem estado sobre toda a escola durante todo o inverno. Final­
mente 0 grande ‘rompimento’ veio e os dons espirituais começaram a operar 
entrenós...Oavivamentoestáseespalhandoportodaaprovíncia.. Osdons 
espirituais estão definitivamente sendo restaurados na igreja Uma nova era 
está raiando.
Talvez a edição de abril de 1948 de “The Sharon Star” tenha 
exercido grande influência para atrair pessoas para as reuniões da Festa 
Anual de Pentecoste de 30 de março a 4 de abril. A primeira página 
trouxe manchetes descrevendo “Dois Milagres Modernos” de cura na 
Escola BíbUca Sharon, 0 número anterior (março de 1948) declarou 
que a circulação alcançara quase 5.000, incluindo pessoas de todo Esta­
dos Unidos e Canadá, como também da Inglaterra. A vasta representa­
ção geográfica de seus leitores sem dúvida criou um grande interesse 
nas reuniões do acampamento. Pessoas de diversos lugares visitaram 
Sharon durante as reuniões da Festa de Pentecoste. Müford Kirkpatrick 
escreveu: “Nunca vimos tal variedade de carros e placas antes, vindos 
de muitas províncias do Canadá e de muitos estados além fronteira.
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
52
Pessoas viajaram por muitos quilômetros.” George Hawtin descreveu as 
reuniões da seguinte maneira: ^
Depois desses meses de oração e espera em Deus, tudo estava prepara­
do para a Festa de Pentecoste. Pessoas famintas de encontrar com Deus 
tinham vindo de várias centenas de quilômetos, e Deus as encontrou. Uma 
Jovempossessa de espírito maligno foi libertada em resposta à oração dafé; 
dois dias depois elafoi curada e, no mesmo dia, foi cheia do E^irito Santo.
Fbi maravilhoso demais versuaface brilhando com a glória de Deus...
Estamos relutantes em publicar ou mesmo dizer as notícias que se se­
guem porque sabemos que muitas pessoas não crêem nisto. Sem dúvida, é 
verdade que Deus está definitivamente restaurando os dons na igreja e os 
nove dons do Espírito estão em operação entre nós, kmto na Escola Bíblica 
como durante aFestadePentecoste. Muitos comentários mórbidos esarcás­
ticos têm sido feitos a respeito do que Deus estáfazendo aqui, mas perma­
nece ofato de que os doentes estão sendo curados, os demônios estão sendo 
expulsos, santos estão sendo edificados, pecadores estão sendo convertidos 
e nós não temos tido tempo nem espaço para argumentar com os que não 
crêem. ‘‘PodealgumacoisaboavirdeNazaré?”VenhaeveJcL
Um pastor de uma cidade do Canadá escreveu uma carta aos 
irmãos de North Battleford dizendo que depois de sua volta da Festa de 
Pentecoste “a primeira reunião... com sua igreja foi maravilhosa; a pró­
xima foi gloriosa, e a próxima mais gloriosa e assim por diante”. Parte 
desta carta apareceu no “The Sharon Star”, e no mês seguinte outro 
pastorda região escreveu:
Notei no editorial um parágrafofalando de um pastor de Ontário que 
conta sobre suas reuniões depois de assistir à Festa de Pentecoste. Acontece 
que sou um pastor colega no mesmo distrito e posso testificar tudo que ele 
afirma e mais ainda. Sua igreja tem se tomado um centro na região para 
aqueles que querem as coisas mais profundas de Deus e vários dons do 
Espírito estão operando nas reuniões empeifeita harmonia, principalmente 
osdonsdecuraeprofecia Muitoscoraçõesfamintos estãojejuandoeorando 
porumdenamamentopoderoso.
Outro ajuntamento importante para espalhar o avivamento foi o 
Acampamento Sharon em julho de 1948 que reuniu milhares de pessoas 
de todo 0 continente. Ali receberam ensinamentos sobre a unidade do
0 Movimento Chuva Serôdia
53
corpo de (Cristo, os ministérios fundamentais, os dons do Espírito e o 
governo da igreja local. 0 acampamento foi precedido por uma semana 
de jejum que foi bem freqüentada. Pessoas vieram dos quatro cantos do 
Canadá. As novas do avivamento e do derramamento dos dons espü-itu- 
ais tinham se espalhado por toda parte. James Watt afirmou que “vinte 
estados dos Estados Unidos tinham grande número de representantes 
lá em julho, porque eles ouviram que Deus estava derramando seu Espí­
rito.” Eis um relato das reuniões por G. Hawtin:
DiaapósdiaaPcüavrafoiensinadaeentãoossinaisseguiamseuensina- 
mento. Pela manhã, à tarde e à noite pessoas/oram prostradas sob o poder 
de Deus e cheias do Espírito Santo... Nós tínhamos orado pela volta dos dias 
em que pessoas seriam cheias do Espírito imediatamente quando mãos 
fossem impostas sobre elas, como aconteceu em Samaria e Éfeso. Foi gran­
de nossa alegría quando uma noite duas senhoras se levantaram diante de 
toda a multidão e receberam o Espírito dessaforma. Quando mãos foram 
colocadas sobre elas, uma caiu sob o poder de Deus e a outra começou afalar 
em línguas. A alegría da multidão em ver e ouvir isso dificilmente pode ser 
imaginada Era como retroceder dois mií anos na históría da igreja
Embora as antigas reuniões de busca ainda estivessem muito em evidên­
cia Deus poderosamente usou o ministério de imposição de mãos. Aqueles que 
receberam esse ministérioforam especiabnente usados por Deus de talforma 
quebuscadoresaônicosque tinhamesperadoquinze, vinte anosforamcheios 
do Espírito... Longasfilas de doentes receberam ministração por aqueles que 
tinham recebido o dom de cura Depois da primeira reunião de cura uma se- 
nhoratestifkouque, quandooraramporela umrimqueosmédicosdisseram 
ter-se deslocado para afrente do seu abdômen retomou à sua posição correta 
Váriosfatoresforammaisevidentesduranteoaccimpamento. Emprimei- 
ro lugar, o amor e desejo pelapalavra de Deus. Pessoas se sentaram literal­
mente por horas para ouvir o ensinamento bíblico... Às vezes não havia 
nenhum buvor, outras vezes nenhuma pregação, mas a presença de Deus e 
a manifestação dos dons do seu Espínto proporcionaram-nos aquilo que 
nossos corações tinham ansiado.
Foi nesse encontro que George Warnock, ex-secretário de Ern 
Baxter, foi impressionado pela referência de um dos preletores, James 
Watt, de que a terceira das grandes festas de Israel, a Festa dos 
Tabernáculos, ainda não fora cumprida. Ele meditou, estudou, minis­
trou sobre isso e mais tarde escreveu o livro “A Festa dos Tabernáculos”
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Foi Contada
54
que foi publicado em 1951 pela Editora Sharon e que se tornou a mais 
famosa publicação do movimento.
Os irmãos de North Battleford viajaram para muitos lugares do 
Canadá e dos Estados Unidos levando o fogo do avivamento e, assim, 
muitos outros centros importantes se levantaram. Entre eles podemos ci­
tar: Vancouver, Canadá, com Reg Layzell, e Detroit, Michigan, com a pas­
tora Myrtle D. Beall, da famosa igreja Bethesda Missionary Temple (pes­
soas de muitos lugares foram até lá receber confirmação de seu chamado 
e ministério). Outros centros importantes se estabeleceram em Portland, 
Oregon, com Thomas Wyatt; em Lima, Nova lorque, com Ivan Spencer, 
diretor do Instituto B M co Elim; em Los Angeles, Califórnia, com A. Earl 
Lee etc. Em sua maioria essas igrejas tiveram de se desligar das denomi­
nações pentecostais e se tomaram independentes e autônomas. Muitas se 
tomaram igrejas-mãe para numerosas outras igrejas. Nenhuma denomina­
ção, porém, se levantou do Movimento Chuva Serôdia.
SOBREONOME^^CHUVASERÒDIA^
0 nome “Chuva Serôdia” foi dado ao avivamento em virtude da 
expectativa e profecia de alguns irmãos de que o Senhor derramaria a 
chuva serôdia antes da volta de Jesus. Myrtle D. Beall, de Detroit, che­
gou a declarar fervorosamente em 1949: “Está aqui, amigos. A chuva 
serôdia está aqui. É verdade que ainda não Irrompeu em sua plenitude, 
mas a chuva serôdia está aqui.” É interessante notar que no início o 
Movimento Pentecostal também ficou conhecido como Movimento Chu­
va Serôdia pelo mesmo motivo. As pessoas concluíram que o derrama­
mento do Espírito naquela época seria o último mover do Espírito de 
Deus que introduziria a vinda de Cristo. Mas George Hawtin fez decla­
rações veementes contra tais afirmações: ^
Há algumassemanas foi-me cpreseniada uma Usta de quase cem “Igre­
jas da Chuva Serôdia”. Eu não sei de onde veio a Usta, embora meu nome 
estivesse nela... isto é juiKktmentalrnente e basicamentee escriturísticamenie 
ERRADO. Se você é membro da seita da “Chuva Serôdia”, você é tão separa­
tista esectarista como se vocêfosse membro da seita Pentecostal ou Apos­
tólica,oaBatista, ouMetodistaetc...
Que hipocrisia é esta de condenar outros porque eles são Pentecostais, 
Presbiterianos, Batistas, Metodistas, Quadranguktres e milhares deoutas 
rarrújkxições,e depois nos autodenorrmarmos “Chuva Serôdia.’?... Nãohave-
0 Movimento Chum Serôdia
55
rá seitas ou denominações, mas os lavados no sangue de Jesus de todas as 
raçaselínguasserãobatizadosporumEspíritoniimcorpo, e este corpo será 
aigreja, eestaigrejaseráanoiva, eestanoivaseráaNova Jerusalém.
Ele também afirmou:^
...Estou certo de que o avivamento dos últimos 40 anos (avivamento 
pentecostal) e em particular o grande mover do Espirito rws últimos dois 
anos são apenas as primeiras gotas do derramamento da chuva serôdia que 
estáparavir.Euqflrmo, apesar de íodaaconversasobrechuvaserôdia que 
ela ainda não chegou. E se já chegou, foi somente numa medida muito, muito 
limitada
Então, George Hawtin e os outros irmãos de North Battleford se 
posicionaram fortemente contra qualquer tipo de rótulo ou de denomi- 
nacionalismo. E de fato nenhuma denominação surgiu do Movimento 
Chuva Serôdia. 0 que não foi o caso do Movimento Pentecostal do início 
do século, que também se posicionou contra o denominacionalismo, 
mas não tão fortemente, e no fim se organizou como as Assembléias de 
Deus e outras denominações pentecostais. Aliás, o Movimento Pentecostal 
é um exemplo típico e famoso na história da igreja de um movimento 
que gradativamente se desenvolveu em direção ao mesmo tipo de deno­
minacionalismo, contra o qual ele, como um movimento de reforma, se 
levantara no início. E da mesma forma que foi perseguido pelas deno­
minações estabelecidas daquela época, ele se levantou para perseguir o 
Movimento Chuva Serôdia. Desde o início da história da igreja isto está 
sempre se repetindo — aquele que fora o último mover de Deus se 
levanta contra o mover atual de Deus.
CORO CELESTIAL
Em outubro de 1948 os irmãos Hawtin e outros líderes de North 
Battleford foram convidados a pregar numa convenção das Igrejas As­
sembléias de Deus Independentes, em Edmonton, Canadá. Um dos 
acontecimentos marcantes desse encontro foi o coro celestial que já 
havia acontecido no início do século. James Watt, um dos preletores, 
pregou sobre isto influenciado pela leitura de um livro da pastora- 
evangelista Marie B. Woodworth-Etter, que descrevia tal manifestação 
em suas reuniões. Eis um trecho do livro descrevendo uma reunião em 
Long Hill, Connecticut, em 1913:^
A Igreja do SéculoXX-A História que Não Foi Contada
56
...Derepentecaiusobremeuouvido—poisosoni é estanho dizer, todo 
ele parecia se derramar em meu ouvido direito— uma canção da mais 
maravilhosadescrição. Não paredademaneiraalgumacomvozes humanas, 
mas parecia com os tons de algum instrumento musical maravilhoso, tais 
como ouvidos humanos nunca ouviram antes. Começou do lado direito da 
audiência, eondulavadeláparatodaacompanhiadesantosbaíizados, num 
volume de sons semelhantes em suas subidas e descidas, em suas ondula­
ções e quedas, em seus crescendos e decrescendos, às ondas do oceano 
quando são agitadas pelaforça maravilhosa que produz as marés.
Talcombinaçãodeíons, talperfeitaharmoniadesons, talmelodiamusi- 
cal, meus ouvidos nunca ouviram antes, e nunca espero ouvir novamente 
neste mundo sob qualquer outra circunstância, nem mesmo vindo da mais 
perfeita orquestra musical que a engenhosidade humana possa produzir, 
apesar de que todos esses sons/oram produzidos por uma companhia de 
pessoas que tinham se juntado de todo o continente da América do Norte, a 
maioria das quais nunca tinham visto um ao outro.
Fbi-nospemútidoouviraquelagloriosaccuiçãoduasou trêsvezesaodia. 
Tbdodiaenqucmioestivelá,eàmedidaqueossantosentravammaise,maisno 
EspíritoenapresençadeDeus,ovolumeepoderdaquelamúsícaiacrescendo 
até que muitas vezes rebentava como um perfeito bramido que quase fazia 
tremer nossa respiração, assim como quando alguém permanece ao lado de 
um poderoso órgão quando as notas mais graves estão sendo tocadas.
Naquele dia James Watt pregou sobre o assunto e exortou o povo a 
esperar diante de Deus pela restauração disto. Ele declarou também que 
algumas das antífonas ainda entoadas naigreja Católica eram cópias da­
quelas originalmente cantadas no Espírito. Terminada a pregação, estan­
do para se sentar, ele mesmo rompeu em canção profética. Imediatamente 
o espírito de profecia veio sobre outros na congregação que cantaram pro­
feticamente e depois toda a congregação se juntou a eles com antífonas 
espirituais de louvor. Desde aquele dia em Edmonton os irmãos de North 
Battleford enfatizaram o cantar no Espírito nas reuniões e falaram sobre 
0 coro celesüá que se tomou freqüente naqueles anos. Eis uma descrição 
de Hawtin sobre uma destas manifestações em Hibbüig, Minnesota: ’’
“Logo na primeira noite em Hibbing... nós ouvimos o mesmo 
coro celestial que tínhamos ouvido pela primeira vez em Edmonton. 
Começou com um som grave muito semelhante ao das gaitas de fole, 
mas logo rompeu poderosamente até que prevaleceram os tons de um
0 Movimento Chuva Serôdia
57
grande órgão de tubos, aumentando o volume para subir e descer em 
perfeita unissonância e harmonia. Aleluia! “
James Watt também descreveu o coro celestial em Edmonton:
“A melodia do próprio céu encheu toda a igreja. Era como um 
poderoso órgão, com belos acordes crescentes, entremeados por solos, 
porém em perfeita harmonia. Todos que ouviram isto a alguns quartei­
rões de distância disseram que isto tocou áreas de seu ser que nenhum 
poder na terra tocara antes.
“Curas especiais foram operadas: surdos ouviram, cegos viram, 
cânceres foram curados, e corpos doentes se fizeram sãos. Pecadores 
foram salvos, e o sangue precioso de Jesus beneficiou a todos.”
Outra descrição de George Hawtin:
“Nós ouvimos rumores vagos sobre o então chamado ‘coro 
celestial’ associado com o derramamento do Espírito que ocorrera na 
virada do século e ansiávamos por ouvi-lo. Mas ao ouvi-lo devemos 
confessar que ele supera totalmente não somente a descrição mas em 
grande parte tanto a apreciação como o entendimento... Uma profunda 
percepção do espírito de adoração e música sempre permeia as reuni­
ões como um prelúdio para o coro... A coisa mais evidente sobre isto é 
a surpreendente e complicada profundidade de harmonia... A pouca 
distância soa como um coro mestre acompanhado por uma orquestra 
sinfônica inigualável. Parece difícil acreditar que tal som possa ser re­
produzido por cordas vocais humanas. Há tanta perfeição de ordem e 
ritmo à medida que acordes poderosos se elevam e ressoam que alguém 
é forçado a admitir que há um maestro invisível.”
Vemos assim que o coro celestial, ocorrido no início do século 
no Movimento Pentecostal, voltou a acontecer na metade do século com 
0 Movimento Chuva Serôdia. Isto deve criar um anseio em nós para que 
no mover destes últimos dias os anjos desçam para entoar junto conos­
co esta música celestial. Deus quer que esperemos nele para ouvir a 
música dos anjos, a canção da criação, o louvor que há eternamente ao 
redor do seu trono. Nós e a criação precisamos de uma cura profunda. 
Esse som celestial cantado juntamente com os anjos vai curar nossa 
alma e consertar as discordâncias do nosso ser. Ainda há de se ouvir no 
meio do povo de Deus uma expressão de música que nos comoverá e 
nos desafiará além de nossas emoções naturais. Esta música não con­
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
58
sistirá de belos hinos sobre nossas doutrinas ou idéias. Ao contrário, 
ela nos elevará e nos colocará na presença do Rei dos reis.
CONTROVÉRS IAS E CONFLITOS 
Foram vários os motivos de controvérsia entre os participantes do 
Movimento Chuva Serôdia e as denominações pentecostais estabelecidas, 
especialmente as Assembléias de Deus. Os motivos de controvérsia mais 
destacados foram o recebimento do Espírito Santo e a transmissão de 
dons e ministérios por imposição de mãos e a crença na existência de 
apóstolos e profetas nos dias de hoje, Uma das primeiras indicações de 
controvérsia sobre apóstolos e profetas apareceu na edição de junho de
1948 de “The Sharon Star”, De acordo com George Hawtin:
“Quando alguém começa a falar sobre apóstolos e profetas estarem 
na igreja em nossos dias, os pobres santos são chocados quase até à mor­
te, Eles levantam suas mãos em santo terror e gritam: ‘Heresia! Heresia!’, 
Agora MINHA BÍBLIA DIZ: ‘DEUS PÔS NA IGREJA, PRIMEIRAMENTE 
APÓSTOLOS, EM SEGUNDO LUGAR PROFETAS, EM TERCEIRO MES­
TRES, depois operadores de milagres, dons de curar etc.”’ (1 Co 12:28).^ 
Também apareceu nesta mesma edição uma declaração de que 
“nenhuma igreja exerce ou tem qualquer direito de exercer autoridade 
ou jurisdição sobre outra igreja, sobre seus pastores ou membros”. Isto 
ele disse combatendo a forma de governo centralizada da maioria das 
denominações pentecostais existentes. Teria sido útil se esta declaração 
de Hawtin tivesse sido aplicada aos excessos que mais tarde acontece­
ram com 0 presbitério itinerante de North Battleford, do qual ele fazia 
parte e que exerceu autoridade sobre pessoas através de profecia diretiva 
quando viajava para outras cidades. ’’
Como foi dito por James Watt, esse entendimento dos irmãos de 
North Battleford sobre o termo “presbitério” não foi correto desde o 
início. Biblicamente, presbitério é a liderança plural de cada igreja (or­
denada pelos ministérios fundamentais de apóstolos e profetas) e não 
um grupo Itinerante de homens com ministério extralocal. Para fazer 
parte de um presbitério o apóstolo deve estar morando na localidade e 
assim exercer influência no governo da igreja. No caso dos irmãos de 
North Battleford, teria sido mais correto usar o termo “equipe apostóli­
ca” ao invés de “presbitério”, mas talvez tenham agido assim por receio 
de se declararem abertamente “apóstolos e profetas” naqueles dias. Por
OMouimentoChiwaSerôdia
59
outro lado, pela maneira como exerceram autoridade sobre outras loca­
lidades e pela força com que defenderam a existência de apóstolos e 
profetas hoje, ao ponto de gerar tanta controvérsia com as Assembléias 
de Deus (que por sua vez não crêem que apóstolos e profetas são os 
fundamentos da igreja), é praticamente evidente que eles se considera­
vam como tais. É isto que mostra a seguinte declaração de George Hawtin: 
“Temos imposto nossas mãos sobre certos homens que têm rece­
bido de Deus esses ministérios (de apóstolos e profetas), os quais têm 
sido confirmados por profecia e imposiçãode mãos. (A seguir alguns 
nomes e seus endereços são citados.) Temos imposto nossas mãos so­
bre esses homens e reconhecido seu ministério apostóhco. Ficaríamos 
muito gratos a todos os que estão desejosos de ver o avivamento come­
çando em suas cidades se entrarem em contato conosco, para que pos­
samos recomendar um homem que tem entendimento dos fundamentos 
deste grande derramamento da chuva serôdia. Infelizmente, agora e como 
sempre houve, há OPORTUNISTAS circulando entre o povo sem um 
entendimento verdadeiro do avivamento, e zelando apenas por seus pró­
prios interesses. Rogamos, portanto, que você indague diretamente a 
nós se certos homens são ou não reconhecidos por nós.”^
Essa posição dos irmãos de North Battleford, colocando-se como 
os guardiães do avivamento, gerou conflitos com outros centros de avi­
vamento que não aceitaram este tipo de exclusivismo e sectarismo.
Cari Brumback observou em sua “História das Assembléias de 
Deus” que no início deste movimento “uma vibração de esperança pul­
sou entre milhares de corações; um novo derramamento do Espírito 
estava caindo sobre a terra seca e estéril! Tragicamente, certos elemen­
tos começaram a aparecer na ‘Nova Ordem’ que criaram dúvidas e desi­
lusões em muitos corações sinceros”. '■
Em 1949 0 Concího Geral das Assembléias de Deus declarou o 
seguinte sobre o novo mover: “Desaprovamos estas práticas e ensinos ex­
tremistas que, não tendo base bíblica, servem apenas para quebrar a co­
munhão da fé igualmente preciosa e tendem a confimdir e causar divisão 
entre os membros do corpo de Cristo, e seja, portanto, conhecido que este 
23° ConcíUo Geral desaprova a chamada ‘Nova Ordem da Chuva Serôdia’.”® 
Através deste ato de conservadorismo, as Assembléias de Deus 
fecharam suas portas a este novo derramamento do Espírito e à posteri­
or restauração do corpo de Cristo que viria neste século. Também, ao
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Foi Contada
60
isolar desta forma este novo movimento, elas apenas contribuíram para 
sua rápida degeneração através de erros e desequilíbrios. ®
Devemos acrescentar, porém, que o próprio Hawtin confessou 
depois seu exclusivismo e sectarismo:
Nunca poderei esquecer aglória, o temor, a reverência, a santidade e o 
poderquevieramànossasaladeaulaenquantoesperávamosemDeusnaque- 
le glorioso 13 dejevereiro de 1948, quando Deus começou ajazer uma nova 
coisa que estava destinada a abalar por um tempo o sistema eclesiástico de 
todaaAméricci..Àmedidaquefaçoumaretrospectivaagora, tristementeposso 
veroomcJarezaqueograndeeabençxidomoverdeDeusnãocompleiaradois 
anos quando o espírito de sectarismo começou a mostarsua cabeça horren- 
da..Éverdadequenegawosvociferantenientequetínhamosnostomadouma 
seita.. Não haveria comunhão com ninguém que estivesse fora dos limites de 
nosso sempre restrito círcub. Éramos a verdadeira igrejcu Éramos os eleitos. 
Permanecêramosnosfundamentosetodososoutroshamenspermaneciamem 
areia movediça. Nenhum homem poderia e^ulsar um demônio sem que ek 
nos seguisse. Nenhum ensinamento teria vedor se nãofosse originado de nós. 
ÉraTnosaspessoasrnaisespiritucdsdomundo.íríamosreinarnoreinoemesmo 
agoraestávamoscomeçandoareinar.TínhamososdonsdoEspírito, esería- 
mos os “manda-chuvas” na tribulação... Mas não sabíamos que, como os 
efésios, tínhamosperdidonossoprimeiroamor,edeveríamosnosarrependere 
praücarasprimeirasobrasnovamente.
Nunca cessarei de agradecer a Deus por ter sido vomitado do ventre 
desta baleia também pois nunca sabemos até que ponto temos chegado até 
que possamos visualizar Babel à distância. Nesta hora, e somente nesta 
hora nossocoraçãodágraçasaDeuspelalibertaçãodemaisoutradasJilhas 
meretrizesdeBabilônia.
DUAS HERESIAS DO MOVIMENTO CHUVASERÒDIA
I. GRAÇA E LIBERDADE
Como dissemos, houve muitos erros e ensinos extremistas no 
Movimento Chuva Serôdia. Falaremos agora rapidamente sobre duas 
heresias principais. A primeira se chama “Graça e Liberdade”, que se­
ria melhor expressada como “Graça e Libertinagem”, pois resultou em 
Imoralidade e pecado — graça barata. Esta doutrina surgiu por dois 
motivos. Primeiro, foi uma forte reação contra o legalismo das Assem­
bléias de Deus e de outras denominações pentecostais. 0 segundo mo-
0 Movimento Chuva Serôdki
61
tivo foi que enfatizaram tanto os dons e a “palavra viva” transmitida por 
profecia, que acabaram desvalorizando a Bíblia e entrando em exaltação.
Devemos salientar que uma grande falha do Movimento Chuva Serô­
dia foi a supervalorização dos dons e a absoluta falta de ênfase na cruz e 
quebrantamento. Dons do Espírito fora do contexto da cruz dão lugar à 
atuação de outros espíritos e à libertinagem e pecado. Esta doutrina de 
graça e liberdade (liberdade da carne e não do Espírito) levou para munda- 
nismo e imoralidade, e até deu origem ao “casamento espiritual”, isto é, se 
você é casado e tem um melhor entrosamento espiritual com outra mulher, 
pode se divorciar e casar com esta mulher, pois sua primeira escolha não 
foi espiritualmente correta. Uma declaração feita por um ministro das As­
sembléias deDeus do Canadá, em outubro de 1948, expressa multo bem 
0 perigo de enfatizar os dons fora do contexto da cruz:
“A história da igreja demonstra que, se qualquer grupo de cris­
tãos rejeita o ensinamento correto do enchimento do Espírito e suas 
operações, certamente esterilidade virá como resultado. Por outro lado, 
se houver uma ênfase exagerada no Espírito e nos dons do Espírito em 
detrimento da pessoa de Jesus e de sua obra consumada no Calvário, e 
jusliíicação pela fé e mais nada, o resultado será dedínio, emocionalismo 
desequilibrado e fanatismo. Se a revelação da cruz e graça de Deus 
dada ao apóstolo Paulo é deixada de lado, mais cedo ou mais tarde o 
inimigo entrará em cena.”
Portanto, podemos concluir que santificação não vem através de 
legaüsmo e nem graça produz libertinagem. 0 derramamento do Espírito 
é baseado na obra da cruz e este espírito é um espírito de santidade. A 
graça de Jesus Cristo não produz liberdade da carne, mas o fruto do Es­
pírito Santo. “Porque a graça de Deus se manifestou... ensinando-nos, para 
que, renunciando à impiedade e às paixões mundanas, vivamos no presente 
mundo sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperan­
ça e o aparecimento da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Je­
sus, que se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda iniqüidade, e 
purificar para si um povo todo seu, zeloso de boas obras” (Tito 12:11-14).
2. MAN IFESTAÇÀO DOS FILHOS DE DEUS 
A principal heresia do Movimento Chuva Serôdia e a mais conhe­
cida se chama “Manifestação dos Filhos de Deus”. Baseados na profecia
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
62
de Joel, criam que a chuva temporã fora o derramamento do Espírito 
ocorrido na igreja de Atos e que a chuva serôdia consistia de três fases. 
A primeira fase acontecera no derramamento pentecostal do início do 
século XX. A segunda fase seria o derramamento do Espírito daqueles 
dias quando os nove dons do Espírito, os cinco ministérios de Efésios
4, a adoração e louvor no Espírito e uma igreja gloriosa estavam sendo 
restaurados no meio do povo de Deus.
Mas, com base em profecias e em Romanos 8:19-23, criam que uma 
companhia de pessoas seria aperfeiçoada em preparação para um terceiro 
derramamento (a terceira fase), através do qual alcançariam a plenitude, 
a medida da estatura de Cristo para verdadeiramente destronar Satanás, 
expulsando-o dos lugares celestiais, amarrando-o e trazendo libertação e 
vida para todas as famílias da terra. Esta terceira grande obra do Espírito 
traria à luz os filhos manifestos ou maduros que alcançariam a redenção 
de seus corpos— Hvres de maldição, pecado, carnalidade, doença e mor­
te. ® Diziam mais, que assim como existem dois corpos no casamento — 
do homem e da mulher— no sentido espiritual existiam o corpo da noiva. 
(a igreja) e o corpo de Jesus (os filhos manifestos).
0 grande problema desta doutrina é queessa adoção ou manifes­
tação descrita em Romanos 8 só acontecerá na vinda de Cristo, quando 
receberemos a redenção ou glorificação do nosso corpo, e nunca antes. 
Outro problema é que no final essa companhia de vencedores se torna­
ria uma elite separada da igreja, cuja ação tão poderosa e abrangente 
quase dispensaria a volta de Jesus. Então o resultado prático da doutri­
na da manifestação dos fllhos de Deus foi uma supervalorização do 
reino e uma desvalorização da igreja e da própria vinda de Cristo. Fica­
ram tão empolgados com a manifestação dos filhos de Deus que deixa­
ram de lado a igreja e anteciparam o reino.
É verdade que tanto o derramamento do início do século como o 
derramamento do meio do século fazem parte da chuva serôdia prome­
tida para os últimos dias. E cremos que mais ondas do Espírito virão 
para levantar a igreja gloriosa que brilhará no meio das trevas e dificul­
dades, e que trará a vinda de Jesus que introduzirá o reino de Deus na 
terra, no milênio.
OMovimentoChiwaSerôdia
63
FRUTOS DO MOVIMENTO CHUVASERÒDIA 
I. VERDADES RESTAURADAS
Apesar dos erros e desvios do Movimento Chuva Serôdia não 
podemos negar que ele nos deixou como legado um rico depósito de 
verdades que foram restauradas na igreja no século XX. De fato o aspec­
to “reforma” na restauração da igreja no século XX foi introduzido pelo 
Movimento Chuva Serôdia, pois o Movimento Pentecostal que restaurou 
0 batismo no Espírito Santo com línguas representa mais o aspecto 
“avivamento”.
Entre as verdades que foram restauradas podemos citar: (1) os 
cinco ministérios de Efésios 4, apóstolos, profetas, evangelistas, pasto­
res e mestres, sendo enfatizada a existência de apóstolos e profetas 
hoje, os quais são os fundamentos da igreja; (2) o corpo de Cristo, um 
organismo vivo e não uma organização; (3) a igreja gloriosa, antes da 
vinda de Cristo a igreja será restaurada para ser pura e sem defeitos; (4) 
os nove dons do Espírito, que eram recebidos pela (5) imposição de 
mãos, pela qual se recebia o batismo no Espírito Santo sem necessida­
de de demora e pela qual os dons e ministérios eram confirmados; (6) 
adoração no Espírito e cânticos proféticos; e finalmente (7) o entendi­
mento da Festa dos Tabernáculos. Há três festas na Bíblia que são figu­
ras da obra de Cristo e que precisam ser cumpridas antes de sua volta. 
A primeira é Páscoa, que representa nossa salvação, e a segunda é 
Pentecoste, que representa o batismo no Espírito. A terceira. 
Tabernáculos, é um maior e último mover do Espírito que aperfeiçoará 
a igreja e formará o corpo de Cristo — o batismo no corpo (1 Co 12:13).
Hoje estas verdades são amplamente aceitas por aqueles que crê­
em na restauração da igreja, mas muitos não sabem que o entendimento 
delas só surgiu com o Movimento Chuva Serôdia e muitos até rejeitam o 
movimento como algo herético. Por outro lado, o processo de integração 
e incorporação destas verdades na vida da igreja precisa ser mais de­
senvolvido para que haja uma verdadeira reforma.
z. RAMIFICAÇÕES - NEGATIVAS E POSITIVAS
Dois tipos de ramificações resultaram do Movimento Chuva Se­
rôdia. Do lado negativo temos aqueles que, por falta de equilíbrio, en­
traram em erros e heresias. 0 exemplo mais forte é John Robert Stevens,
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
64
de Los Angeles, Califórnia, que na década de 70 dava cobertura para 
cerca de 100 igrejas do “Caminhar”. Durante uma visita a Tacoma, Wa­
shington, em 1950, Stevens recebeu a imposição de mãos de Winston I. 
Nunes, um pastor de Toronto, Ontário, que se tornou um proeminente 
líder da Chuva Serôdia no Canadá. Naquela época, Stevens era um 
pastor das Assembléias de Deus, mas seu envolvimento com as cren­
ças e práticas da Chuva Serôdia provocou sua eventual separação das 
Assembléias de Deus. Ele tinha dons excepcionais, especialmente a 
palavra de conhecimento, mas entrou em exaltação e tomou-se exclusivista. 
Como muitos líderes da Chuva Serôdia, considerava-se o precursor de 
uma nova era e autodenominou-se “apóstolo do reino”, pois a era da 
igreja terminara e a era do reino chegara com a “palavra viva”.
A influência desta ala da Chuva Serôdia no Brasil foi grande na 
década de 70. Aconteceu através de Harold Williams, cunhado de Stevens 
e ex-missionário da Igreja Quadrangular no Brasil, e de Adiei Almeida 
de Oliveira, um ex-pastor da Quadrangular, advogado e tradutor. Adiei 
trouxe ao Brasil Bill Britton, de Springfield, Missouri, e vários outros 
homens, além de traduzir a hteratura de Bill Britton.
No início, isto teve um impacto muito proveitoso para a igreja no 
Brasil, pois muitas das verdades mencionadas acima, que foram restau­
radas pela Chuva Serôdia, foram divulgadas no Brasil pela primeira 
vez. 0 ministério de Bill Britton, que tinha enriquecido a muitos nos 
EUA, abrindo seus olhos para a existência de algo além do Pentecoste, a 
“Festa dos Tabernáculos”, e para muitas outras verdades preciosas da 
Palavra, agora passou a ser conhecido pela igreja brasileira. Os encon­
tros anuais organizados por Adiei em Ribeirão Preto e denominados 
“Festas de Tabernáculos” foram no final da década de 60 e durante a 
década de 70 importantes ajuntamentos desta nova visão.
Mas grande polêmica surgiu quando Adiei publicou literatura de 
Bill Britton e Stevens que continha doutrinas controversas. Muitos que 
ünham ligação com ele começaram a se desligar e Adiei tornou-se mais 
e mais fixado em Stevens. Só Stevens tinha a “palavra viva” que introdu­
ziria 0 reino. Desse modo houve uma desvalorização da Bíblia e uma 
valorização da “palavra viva” transmitida por Stevens, resultando em 
imoralidade e pecado no movimento. 0 próprio Stevens divorciou-se 
de sua esposa e casou-se com sua secretária. Ele faleceu em 1983 de
0 Movimento Chuva Serôdia
65
câncer. Bill Britton, mesmo defendendo algumas heresias como a mani­
festação dos filhos de Deus, era menos extremista que Stevens e moral­
mente equilibrado. Ele faleceu em 1985.
Se por um lado existiu um segmento da Chuva Serôdia que en­
trou em desequilíbrio e heresia, por outro lado houve igrejas e organi­
zações paraeclesiásticas que foram positivamente influenciadas por esta 
visitação. Fazem parte desta ramificação positiva as chamadas Igrejas 
do Avivamento na costa oeste dos Estados Unidos; Bethesda Temple, 
em Detroit; Elim Fellowship de Igrejas, em Lima, Nova Iorque; World 
M.A.R (Plano de Assistência Missionária Mundial), de Ralph Mahoney, 
na Califórnia; e a famosa Bible Temple, pastoreada por Dick Iverson, 
em Portland, Oregon, que tem enfatizado imposição de mãos, adoração 
no Espírito e cânticos proféticos, profecias e liderança plural. Todas 
elas são igrejas e organizações dinâmicas e respeitáveis que preservaram 
os ensinamentos da Chuva Serôdia e enfatizaram equilíbrio, mas que 
infelizmente não prosseguiram adiante — institucionalizaram as dou­
trinas da Chuva Serôdia e se cristalizaram.
3. CONCLUSÃO
Qual deve ser, então, nossa atitude em relação ao Movimento Chuva 
Serôdia? Como vimos, alguns preservaram as verdades restauradas mas 
estacionaram naquele ponto. Outros têm rejeitado totalmente 0 movimen­
to, jogando fo ra todas as restaurações, por causa dos erros e 
desequilíbrios. Estes também não têm como prosseguir, pois como acon­
tece com os Pentecostais e Carismáticos, só sabem enfatizar 0 aspecto “avi­
vamento”, desejando mais derramamentos do Espírito; mas para quê? A 
atitude correta seria rejeitar a parte herética do movimento e reconhecer 
as tremendas verdades que foram restauradas na igreja. Devemos 
incorporar 0 legado que nos foi deixado e prosseguir além, aprendendo 
com a reforma e crendo para receber mais avivamento. Houve avivamento 
no começo do século e houve avivamento no meio do século (com início de 
reforma) e haverá mais avivamento e mais reforma no final do século para 
formar 0 corpo de Cristo, a igreja gloriosa, que receberá a volta de Jesus.
A Igreja do SéculoXX-A História que Não Foi Contada
66Capítulo 5
O MOVIMENTO CARISMÁTICO
V
imos que os pentecostais clássicos do início do século XX não 
criam, a princípio, em denominacionalismo. Eles criam que o 
derramamento do Espírito na época era para unir a igreja e pro­
mover uma evangelização mundial, tendo em vista a iminente volta de 
Jesus Cristo. Mas, em pouco tempo, eles se organizaram como denomi­
nação para proteger o movimento de heresias e confusão. Assim surgi­
ram as Assembléias de Deus e outras denominações pentecostais com 
suas escolas e institutos bíblicos para treinar seus líderes e defender 
suas doutrinas básicas.
Com 0 novo derramamento do Espírito na metade do século, os 
participantes deste movimento, conhecido como “Chuva Serôdia”, se le­
vantaram mais fortemente ainda contra o denominacionalismo. De fato, 
eles tiveram grande sucesso em não formar outra denominação, contudo 
entraram em muitas heresias e desequilíbrios. Eles foram tão longe em 
suas “revelações” que muitos historiadores da igreja do século XX, como 
Vinson Synan, nem o mencionam, como se fosse algo totalmente falso.
Já 0 Movimento Carismático dos anos 60 e 70, considerado pelos 
seus participantes a “segunda onda” do Espírito, caracterizou-se pela va­
lorização e fortalecimento das denominações. Eles nem cogitaram de sair 
delas, antes queriam o mover do Espírito infiltrando nas principais deno­
minações e, assim, ter uma igreja renovada pelo Espírito, No início eles 
se autodenominaram neo-pentecostais para diferir dos pentecostais clás­
sicos mais barulhentos, mas depois ficaram conhecidos como 
carismáticos.
0 Movimento Carismático pode ser considerado a mais extensa e 
difundida manifestação do Espírito, o cumprimento mais completo até
67
hoje da profecia de Joel. Atingiu as mais antigas denominações tradici­
onais e depois, de modo espetacular, apropria Jgre/a Católica em 1967 
— 0 mesmo ano da tomada de Jerusalém por Israel. Porém, ao visualizar 
a história da igreja do século XX podemos notar claramente que, en­
quanto 0 Movimento Chuva Serôdia representa mais o aspecto “Refor­
ma” (pois grandes verdades da Palavra foram restauradas naquela épo­
ca), 0 Movimento Carismático representa o aspecto “Avivamento”, pois 
foi uma extensão da visitação do Espírito iniciada no começo do século, 
só que dentro das denominações.
Mais recentemente, nos anos 80 surgiram alguns líderes falando 
de uma “terceira onda” do Espírito que sucederia as primeiras duas, o 
Movimento Pentecostal Clássico e o Movimento Carismático. Um forte 
promulgador desta terceira onda é Peter Wagner, professor do Seminá­
rio Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia, que fala em línguas mas 
se recusa a ser chamado de pentecostal ou carismático. A “terceira onda” 
seria uma obra sobrenatural do Espírito nas principais denominações 
tradicionais levando as pessoas a exercer os dons do Espírito, mas sem 
aceitar rótulos, sem se tornarem carismáticos ou pentecostais. Há dois 
motivos básicos para esta posição. Primeiro, os defensores da “terceira 
onda” não querem trocar sua teologia evangélica por uma duvidosa teo­
logia pentecostal. Em segundo lugar, querem apenas integrar os dons 
do Espírito como uma prática normal da vida da igreja.
Então, enquanto os pentecostais saíram das denominações exis­
tentes na época e formaram uma nova igreja e uma nova teologia, os 
carismáticos não saíram mas formaram um novo movimento dentro de 
qualquer denominação. Os carismáticos se tornaram um departamento 
dentro da igreja. Já os promulgadores da “terceira onda” não querem 
sair nem ser um departamento, mas querem permear toda a Igreja com 
a normalidade da prática dos dons do Espírito.
Para um melhor entendimento do Movimento Carismático vamos 
tratá-lo em vários aspectos:
1 ° - ASSOCIAÇÃO DE HOMENS DE NEGÓCIOS DO EVANGELHO 
PLENO. A “Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno” foi 
fundada por Demos Shakarian, um homem de negócios pentecostal de 
origem armênia, em 1952, com a ajuda de Oral Roberts. Tinha como
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Cbntada
68
propósito alcançar homens de negócios com o evangelho que incluía 
batismo no Espírito. Daí o nome “Evangelho Pleno”.
Essa organização exerceu importante papel na disseminação da 
experiência pentecostal entre milhares de pessoas de igrejas tradicio­
nais, que talvez nunca tivessem interesse em assistir às reuniões de imia 
igreja pentecostal. Até então, a experiência pentecostal tinha se difundi­
do principalmente no meio de pessoas simples, de classe média para 
baixo, mas com sua técnica de organizar banquetes para homens de 
negócios, onde um convidado cheio do Espírito dava seu testemunho, 
pessoas ricas e influentes foram também cheias do Espírito. Walter 
Hollenweger, autor da obra “Os Pentecostais”, declarou que esta organi­
zação contribuiu muito para a propagação das idéias pentecostais pelo 
mundo, apesar do “ensinamento incompreensível de que a pessoa que é 
cheia do Espírito terá mais sucesso nos negócios, fará melhores trato­
res e automóveis que seus competidores,viverá numa casa mais confor­
tável e, se for jogador de futebol, marcará mais gols do que uma pessoa 
que não é convertida ou não é batizada no Espírito”. *
2° - DAVID D U PLESSIS. David du Plessis era natural da África do 
Sul, convertido numa igreja pentecostal chamada Missão Fé Apostólica 
(fundada por John G. Lake, que teve ligações com a Missão da RuaAzusa, 
em Los Angeles). Teve contato com o famoso evangelista Smith 
Wi^esworth, que profetizou sobre ele em 1936 sobre a obra mundial que 
Deus faria através de sua vida. A seguir, temos um resumo da sua experi­
ência relatada pelo próprio du Plessis, extraído do livreto “Perdão”:
Em 1936, como secretário geral da Missão Fé Apostólica na África do 
SulJUi responsável por convidar o evangelista Smith Wigglesworth, da Ingla­
terra, para vir ao nosso país. Nossos espíritos combinaram imediatamente e 
eu 0 acompanhei o máximo possível como seu intérprete. Destaforma,Jica- 
mos conhecendo um ao outro intimamerúe. Nojinal da sua estadia elejicou 
em minha casa durante uns quinze dias a fim de ministrar naquela região.
Certo dia [corforme minha esposa me contouposteríormente), ek entrou 
naco2inhaàsseishorasdannanhâedissesimplesmente:“OndeestáoDauid?”
Eu tinha o costume de leoantar-me às cinco horas e, portanto, nesta hora 
euJá estava no meu escritório. Então ela lhe disse: “Irmão Wigglesworth, ele 
JáJoipara o escritório. ”
0 Movimento Carismático
69
Eu estava sentado na minha escrívaninha, lendo a correspondência que 
acabara de chegar, quando de repente a porta se abriu de uma vez! Sem 
nenhumsinaldeoviso, sembaterantes, aportasimplesmentejoiaberta. E 
0 irmão Wigglesuxirthentroucomoquemestácom umapressadesesperada 
Olhando para mim com uma expressão um tantoferoz, ele disse: “Saia daí! 
Venha aqui parafora!”
Levantei-me de detrás da escrivaninha e andei para onde ele estava Ele 
colocou a mão sobre meu ombro, empurrou-me para aparede, olhou direta­
mente nos meus olhos e disse: “Deus disse que você tem permanecido o 
bastante em Jerusalém! Ele vai enviá-lo aos corfins da terra Ele vai operar 
através de você e permitir que você presencie o maior mover do Espírito na 
história da igreja!” E assim ele continuou profetizando: “Assim diz o Senhor: 
Hei de vivificar os cadáveres. Através das igrejas tradicionais virá um aviva­
mento que transtornará o mundo inteiro. ”
Bem, eu não acreditava em nada disso. Estas eram as “coisas novas” (Is 
48:6). Eu não podia compreender eperguntei a mim mesmo: “0 que aconte­
ceu com 0 velho?” (Ele tinha setenta e tcmtos arws nessa época)
“Eu quisera ter vinte anos a menos”, ele me disse, “para que eu pudesse 
ver 0 início do seu cumprimento. Mas quando começar, eu não estarei mais 
aqui Portanto, não se preocupe. Erjquartío eu estiver vivo, nada vai aconte­
cer. Só depois que eu morrer. ”
Em seguida ele curvou a cabeça e orou pedindo ao Senhor para me 
abençoar. Depois saiu efechou a porta.
Fldsentar-me.Estavacori/usoeperplexo.Eudisse: “Senhor,sejaqualfor 
0 significado de tudo isto, aceito a advertência. Tu não me falaste nada a 
respeito de todas estas coisas. Eu nunca pensei que as igrejasfossem recu­
perar-se dasuamorte!”
E então ouvi alguém batendo suavemente àporta “Entre!” eu disse. A 
porta se abriu e quem entroufoi o irmão Wigglesworth.
“Bomdia irmãoDavid Comovocêestánestamanhã?”
“Muito bem”, respondi, “mas terrivelmente corfuso. ”
Ele perguntow “Por quê?"
“Você não sabe que esteve aqui há poucos minutos? Você nem me cum­
primentou, e entregou-me uma mensagem que me abcdou. ”
“Ah, sim”, ele respondeu. “Eu não cumprimentei ninguém hoje de manhã 
Você não sabe o que aconteceu ao profeta que cumprimentou as pessoas 
peb caminho?”
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Fbi Contada
70
“Ele entrou em problemas sérios”, eu disse.
“E eu não tinha nenhuma intenção de entrar em problema!”
Ele aceitava a Palavra literalmente! Nunca conheci um homem que en- 
contrasseaverdadenaPalavradeuma maneira tão literal! (lRsl3; Lc 10:4).
‘Agora”, ele disse, “Já enteguei a mensagem e podemos conversar. Não 
cumprimentei sua esposa e não cumprimentei você. Eu tinha de entregar a 
mensagem Às quatro horas da manhã tive uma visão. Vi coisas tão extraor­
dinárias que eu mesmo tenho dificuldade para crer! Depois Deusfcdou comi­
go para levantar-me e contar a visão a você. E você estará vivo quando tudo 
isto acontecer!”
E aí ele deu maiores detalhes. Mas isto não ajudou, porque estava tudo 
errado. Meu passado, minhaformaçáo, nossa maneira de pregar, de crer, 
nossas tradições tudo era diferente! Era o oposto daquilo que ele estava 
dizendo.
Eu disse: “Bem, irmão Wigglesworth, eu não sei o que você acha que 
devo Jazer Vou lembrar daquilo que você disse, mas não vou agir até que o 
Senhorfcde comigo. Não me importa quem é o profeta que trouxe a palavra, 
eucreio que o Senhor vaifalar comigo ecor^vmarapalauranomeucoração.”
“Ótimo", ele respondeu. “Lembre-se, porém, de que Deus me disse que a 
condição é você permanecer fiel e humilde. Não é difícil lembrar-se disto. 
Apenas duas coisas: Fidelidade e humildade. Fidelidade para ouvir e humil­
dade quando ele abençoar ”
E então me perguntou: “Vocêfica erijoado quando viaja de navio?"
“Eu nunca vüyei no mar”, respondi
“E de avião?"
“Eu também nunca vicyei de avião. ”
Ele disse: “Então venha aqui!”
Mais um vez empurrou-me contra a parede e orou. E eu dou graças a 
Deus por aquela oração! Ele disse: “Senhor, tu me mostraste que estejovem 
vai viajar mais que outraspessoas. JVoo é bom adoecer em casa, mas épior 
adoecerbngedecasa.Porfavor, riãopemitasqueehjcmaisadoeçaquando 
estiver uiqjando a teu serviço. ”
A profecia e visão de Wigglesworth permaneceram sem cumpri­
mento por 10 anos, mas pouco antes de sua morte ele disse a David du 
Plessis; “Meu irmão David, não recebi mais nada do Senhor sobre o 
assunto. Mas tenho certeza absoluta do cumprimento daquilo que ele 
revelou na África do Sul, e que você é o homem que será usado,”
0 Movimento Ckwismático
71
Em 1948 du Plessis ficou prostrado num hospital por causa de imi 
desastre de seu carro com lun trem, e Deus começou a falar com ele;
“Chegou a hora para se cumprir a profecia dada a você por Smith 
Wigglesuxyrth. É hora de começar. Quero que você vá aos líderes do Conselho 
Mundial de Igrejas. ”
Respondiemtomde argumento: “Senhor, mas o que posso dizer àquelas 
igrejas mortas?"
“Eu ressuscito os mortos!”A resposta veio com unnasiniplicidade chocante. 
“Mas, Senhor, elessãonossosinimigos!”Euestavaquasechoramingando. 
“Sim, mas eujá lhe disse que deve amar seus inimigos.” 
IgnorandoaverdadedasEscriturasemminhaJrustração, continueiargu- 
mentando. “Como posso amar pessoas assim? Não concordo nem comsuas 
doutrinas nem com suas práticas. ”
“Bem", 0 Senhor respondeu firmemente no meu interior, “você terá de 
perdoá-los."
“Meu Senhor” — agora estava choramingando de verdade— “como 
posso perdoá-los se não possoJustificá-los?”
“Eu nunca lhe dei autoridade paraJustificar pessoa alguma. Eu lhe dei 
autoridade apenas para perdocw. Ese perdoá-los, você vai amá-los. Eseos 
amar, você vai querer perdoar. Agora pode escolher. ”
AconversaestavaterminadaMasabaíalhatinhaapenasiniciado. Uma 
pequena luz tinha raiado, suficiente para mostrar-me quão pouco eu conhe­
cia a respeito do perdão aos olhos do Senhor. Nos dias vindouros eu teria de 
bitar com o Senhor, aprender, sofrer as dores internas de uma genuína revo­
lução. Um novo rei teria de dominar aquela parte da minha vida
Enquanto eu meditam ali, durante a noite, com as luzes apagadas, vi o 
tamanho do meu erro. Eu estava esperando que Jesus me usasse como um 
pentecostal para abalar as igrejas. Pensava que poderiaforçar as pessoas a 
entenderem a verdade, dizendo-lhes onde estavam erradas e sacudindo-as 
emJusta indignação. Mas o Senhor disse que este não é o caminho. “0 
avivamento viráse você perdoar. Se você lutar— não acontecerá nada!"
Então a revelação básica que Deus deu a du Plessis foi perdão aos 
tradicionais e suas práticas. Seu primeiro contato ecumênico foi em 
1951 com John A. Mackay, presidente do Seminário Teológico de 
Princeton, que se mostrou muito amável e interessado no Movimento 
Pentecostal. Poucos dias depois, pela primeira vez, um pentecostal en­
A Igrejado SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
72
trou no escritório central do Conselho Mundial de Igrejas em Nova lorque, 
na 5 ̂Avenida, e foi bem recebido. Em 1952 participou do Conselho 
Missionário Internacional realizado na Alemanha, onde pôde comparti­
lhar sua experiência pentecostal. Foi ali que foi chamado pela primeira 
vez “Senhor Pentecoste”.
Em 1954 participou da Segunda Assembléia do Conselho Mundi­
al de Igrejas como representante das Igrejas Pentecostais, o que causou 
muitas críticas por parte de líderes pentecostais que haviam denuncia­
do 0 Conselho Mundial como a principal força da igreja apóstata dos 
últimos dias. Em 1956, falando a um grupo de líderes ecumênicos, 
entregou uma das suas mais famosas mensagens. Comparando a verda­
de do evangelho a um bife, ele declarou que as igrejas tradicionais ti­
nham a verdade “congelada” enquanto os pentecostais tinham a mesma 
verdade “no fogo”. Explicou que os apóstolos “tinham uma experiência e 
nenhuma doutrina”, enquanto a maioria das igrejas modernas “tinham 
doutrina sem nenhuma experiência”. Esta mensagem ressoou pelo mun­
do, depois desse encontro."
Naquela época vários pastores e ministros tradicionais recebe­
ram línguas e outros dons e foram aconselhados por du Plessis a “per­
manecer em suas igrejas e florescer onde foram plantados”.
Seis anos antes do advento da renovação carismática católica, du 
Plessis fez seu primeiro contato com líderes católicos. Quando de sua 
participação no Conselho Mundial de Igrejas em Nova Delhi foi convida­
do a visitar o Vaticano para explicar o pentecostalismo a vários teólogos 
e historiadores que estavam fazendo um estudo detalhado do movimen­
to. No caminho de volta da índia encontrou-se no Vaticano com o Carde­
al Bea, chefe da Secretaria para a Promoção da Unidade Cristã, a quem 
disse: “Tudo o que quero dizer é isto: Torne a Bíblia disponível a todo 
catóUco no mundo em sua própria língua. Se os catóUcos lerem a Bí­
blia, 0 Espírito Santo vivrficará o livro, e isto transformará suas vidas. 
E com catóhcos transformados haverá renovação da igreja”. Sobre o 
batismo no Espírito ele disse: “Não, isto não vem por sucessão apostó­
lica — embora traga o sucesso apostólico. Você tem que receber isto do 
Senhor Jesns. Ele é o único batizador no Espírito”.
Quando este diálogo foi reportado ao Papa João XXIII, ele allrmcu 
serem as palavras de du Plessis “uma revelação de Deus” à qual oscatóli-
OMovimenín Carismático
73
cos “deveriam atentar”. Se o envolvimento de du Plessis com líderes tra­
dicionais já causava críticas e rejeição dos líderes pentecostais, a visita ao 
Vaticano causou íliror. As Assembléias de Deus americanas, às quais ele 
transferira sua ordenação em 1955,revogaram suas credenciais de minis­
tro, 0 que significou para ele não ter qualquer elo oficial com qualquer 
grupo pentecostal. Mesmo assim prosseguiu com determinação.''
Embora desprezado pelos pentecostais, líderes das igrejas tradi­
cionais e católicos romanos continuaram a cercá-lo. Em 1964 foi convi­
dado pelo Cardeal Bea para ser o único observador pentecostal do 
Vaticano II. Nesta histórica assembléia de cardeais du Plessis ofereceu 
perdão aos católicos e viu esperança para renovação. Somente dois anos 
depois do término do Vaticano 11, a renovação carismática começou en­
tre católicos romanos em Pittsburgh, Pensilvãnia. "
Du Plessis dirigiu a equipe pentecostal nos diálogos entre católi­
cos e pentecostais de 1972 a 1982. Ele também participou da Conferên­
cia Carismática Católica em Roma, em 1976, quando ouviu o Papa Paulo
VI pronunciar suas bênçãos sobre a renovação carismática.
Du Plessis exerceu um papel profético e tornou-se a figura-chave 
para lançar o fogo do movimento carismático nas igrejas tradicionais. Seu 
trabalho como presidente da equipe pentecostal nos diálogos entre pente­
costais e católicos romanos e como principal preletor em centenas de en­
contros carismáticos-pentecostais ao redor do mundo confirmaram-lhe o 
título não oficial de “Senhor Pentecoste”. Em 1974 um grupo de repórteres 
da revista “Time” nomearam du Plessis como um dos onze “principais 
teólogos do século XX”. Também, por seu trabalho no diálogo e outras con­
tribuições ao Movimento Carismático Católico, ele recebeu do Papa João 
Paulo 11 a medalha de ouro “Benemerente” por excelente “serviço a toda 
Cristandade”. É a mais alta honra que um Papa pode conferir, e du Plessis 
foi 0 primeiro protestante a recebê-la. Em 1979 seu ministério foi genero­
samente reconhecido pelos pentecostais quando as Assembléias de Deus 
restauraram totalmente seus papéis de ordenação. ^
Embora seu trabalho às vezes tenha causado controvérsias, du 
Plessis é sem dúvida uma das mais importantes figuras pentecostais na 
história. Ele faleceu em 2 de fevereiro de 1987, cinco dias antes de 
completar 82 anos.
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Fbi Contada
74
3° - DENNIS BENNETT. Dennis Bennett tornou-se vim precursor 
do movimento carismático (também chamado Movimento Neo- 
Pentecostal) na América. No fmal da década de 50 Padre Bennett era 
reitor da elegante e moderna Paróquia Episcopal de São Marcos em 
Van Nuys, Califórnia. Graduado na Universidade de Chicago e na Escola 
de Divindade de Chicago, era a personificação do clero sofisticado, res­
peitável e levemente mundano da sua igreja. Por volta de 1959 São 
Marcos crescera ao ponto de incluir 2.600 membros e uma equipe de 
quatro ministros, quando ele ouviu sobre o batismo no Espírito através 
de um colega clérigo episcopal.
Depois de observar alguns leigos em sua igreja que exibiam um 
alto grau de compromisso e espiritualidade, Bennett começou a buscar 
respostas sobre suas experiências pentecostais. Depois de uma verda­
deira investigação, ele se tornou convencido da realidade do batismo no 
Espírito, embora tendesse a ver o falar em línguas como algo quase 
desnecessário. Porém, ansiava por uma realidade mais profunda em 
sua experiência cristã. A medida que estudou o assunto, ficou surpreso 
em ver tantas referências ao Espírito Santo no Novo Testamento, no 
“Livro de Oração Comum”, nos escritos dos Pais da igreja primitiva, 
nos livros-textos de teologia, nos livros de história da igreja, “e até 
mesmo nos hinários”. *
No início de 1959, Bennett finalmente começou a buscar o batis­
mo no Espírito com a ajuda de um colega sacerdote episcopal e de um 
jovem casal da igreja que já tinha recebido a experiência através de um 
outro casal das Assembléias de Deus. Numa reunião de oração no lar 
do casal, mãos foram impostas sobre Bennett enquanto seus amigos 
oravam por ele.
Eis um trecho de sua experiência extraída de seu livro “Nine 
o’clock in the Morning” :
Hauia quatro pessoas presentes: eu, um amigo que era sacerdote episco­
pal em nossa diocese, e John e Joan (o casal que já recebera o batismo). Nós 
estávamos sentados na sola de estar do casal nossos hospedeiros na escri- 
vardnliadebaixodaJcinela,eunuirKicadeirasuper-€Stqfadadooutroladoda 
salaeo outroclérigoàminhadireita..EueslavaconscientBdemimmesmo, 
e deterrrúnadoanãoperderrrmha dignidade!
0 Movtmenb Carismático
75
“0 que eu faço?” Perguntei a eles novamente.
“Peça a Jesus para batizá-b no Espírito Santo”, disse John. “Nósorare- 
nvos com você, e você apenas orará e louvará ao Senhor. ”
Eu disse: ‘Agora lembrem-se, eu quero esta proximidade a Deus que 
vocês têm, só isso; eu não estou interessado emfalarem línguas!”
“Bem, disseram eles, tudo o que podemos dizer a você sobre isto éque 
vemjunto com o pacote!”
John atravessou a sala e impôs as mãos primeiro em minha cabeça, e 
depois na de meu amigo. Ele começou a orar, muito calmamente, e eu reco­
nheci.. que ele estavafalandoumalínguaqueeunão entendia, efalando-a 
comjluência. Ele não estava nem um pouco agitado sobre isto. Então ele 
orou em inglês, pedinck) a Jesus para me batizar no Espírito.
Comecei a orar, como ele me disse, e orei muito calmamente também Eu 
não tinhaintençãodejicarnemumpoucoexcitado!Estavasimplesmentese- 
guindo instruções. Acho que devo ter orado alto por uns vinte minutos —peb 
menos isto pareceu um longo tempo — e estava para desistir quando algo 
muito estranho aconteceu. Minha língua topeçou, assim como quando você 
está tentando recitar um trocadilho e eu comecei afalar numa nova língua!
Na mesma hora reconheci várias coisas: primeiro, não era alguma espé­
cie de truque ou compulsão psicológica Não havia nada de compulsivo nisto.
Eu estavapermitindo estas novas palavras virem aos meus lábios e estava 
Jalando-as de minha própria vontade, sem de qualquerforma ser forçado a 
fazer isso. Eu não estava “arrebatado”em nenhum sentido do mundo, mas 
estava totalmente em possessão de meujuízo eforça de vontade. Eufalei a 
nova língua porque era interessante falar uma língua que eu nunca tinha 
aprendido, apesar de não saber o que estavafalando... Em segundo lugar, 
era uma língua recd, não algum tipo de conversa de nenê. Eh tinhagramática 
e sintaxe; tinha irflexão e expressão— e era até bonita!
Em pouco tempo, vários membros da paróquia também recebe­
ram a mesma experiência. Em sua alegria e contentamento começaram a 
usar expressões típicas pentecostais como “Louvado seja o Senhor” e 
“Aleluia” no escritório da igreja e na casa paroquial. A medida que a 
notícia se espalhou entre os membros da igreja sobre a nova e estranha 
experiência do pastor, alguns membros do conselho paroquial começa­
ram a acusá-lo de fanático.^
A fim de acalmar falsos rumores e responder às perguntas que 
estavam circulando na congregação, Bennett logo sentiu que era neces­
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
76
sário falar à sua igreja sobre sua experiência de falar em outras línguas. 
Assim, em 3 de abril de 1960, ele compartilhou seu testemunho nos três 
cultos matinais de sua igreja.
A reação na primeira reunião foi “aberta e afável”, de acordo com 
Bennett, mas na segunda reunião “a coisa explodiu”. Ultrajado, o pároco 
auxiliar arrancou suas vestimentas, atirou-as no altar e saiu pisando 
duro e gritando: “Não posso mais trabalhar com este homem”. Então, 
depois que a reunião terminou, do lado de fora, aqueles que tinham se 
decidido a se livrar do movimento do Espírito Santo começaram a dis­
cursar eloqüentemente aos paroquianos que chegavam e partiam. Um 
homem ficou em pé numa cadeira gritando: “Fora com esses malditos 
faladores de línguas”.̂
Depois que alguns membros reclamaram que “nós somos episco­
pais e não um bando de ignorantes fanáticos”, o tesoureiro do conselho 
paroquial convidou Bennett a resignar. Em vez de causar mais desar­
monia na congregação, o meigo e amável reitor prontamente renunciou à 
sua paróquia. Logo depois o bispo enviouum sacerdote temporário 
para São Marcos armado de uma carta inflexível para os oficiais da 
paróquia proibindo qualquer outra manifestação em línguas.^
0 tumulto na paróquia São Marcos causou uma sensação na im­
prensa nacional, à medida que a história foi captada pelas principais 
estações de rádio e televisão. A revista “Time” publicou que “agora 
glossolalia parece estar de volta nas igrejas dos Estados Unidos — não 
somente nas desinibidas seitas pentecostais mas até mesmo entre epis­
copais, que têm sido denominados ‘God’s frozen people’ (o povo gelado 
de Deus) trocadilho em inglês com ‘God’s chosen people’ (o povo esco­
lhido de Deus)” . “Newsv^feek” publicou que para conservadores episco­
pais da paróquia de São Marcos “houve perplexidade, ira e até mesmo 
uma pitada de inveja” embora alguns sentissem que “tudo isto foi uma 
espécie de vergonhoso vodu”. Porém, Bennett e aproximadamente seten­
ta de seus paroquianos estavam dispostos a pagar um preço alto por sua 
nova experiência pentecostal — o de serem banidos de sua igreja. '*
Bermett foi então convidado a assumir algreJaEpiscopal de São 
Lucas, uma pequena paróquia na cidade interiorana de Seattle, Washing­
ton. Seu novo e amável bispo ofereceu-se para apoiá-lo, até mesmo em
0 Movimento Carismático
77
suas práticas pentecostais, levando em consideração que de qualquer 
maneira a igreja estava prestes a fechar. Livre agora para promover suas 
experiências sem qualquer impedimento oficial, Bennett logo converteu 
sua igreja num centro do neo-pentecostalismo para o Noroeste dos Es­
tados Unidos. Em lugar de fechar, o bispo viu a igreja de São Lucas 
crescer para se tornar a maior paróquia da denominação em toda a 
área. Em pouco tempo, Bennett estava ministrando para perto de 2.000 
pessoas por semana. Por mais de vinte anos, uma média de vinte pesso­
as foram batizadas no Espírito toda semana na igreja. ^
0 caso Dennis Bennett foi somente a parte mais visível de um 
processo que vinha sendo calmamente desenvolvido por anos. De fato, 
por volta de 1960, praticamente toda denominação já tinha muitos “pen­
tecostais secretos” que tinham recebido a experiência, mas permanece­
ram quietos por medo de desagradar os oficiais da igreja. 0 incidente 
em Van Nuys trouxe à luz a situação. Vários meses depois que Bennett 
renunciou à paróquia de São Marcos, a “Igreja Viva”, um jornal episco­
pal, trouxe 0 seguinte editorial a respeito de glossolalia na igreja:^
“Falar em línguas não é mais um fenômeno de alguma seita esqui­
sita do outro lado da rua. Está em nosso meio e está sendo praticado 
por clérigos e leigos que têm estatura e boa reputação na igreja. Sua 
aplicação em larga escala abalaria nosso senso estético e alguns de nos­
sos mais fortemente entrincheirados preconceitos. Mas nós sabemos 
que somos membros de uma igreja que definitivamente precisa ser aba­
lada — se Deus escolheu esta época para dinamitar o que o Bispo Sterling, 
de Montana, chamou de ‘respeitabilidade episcopal’, nós não conhece­
mos uma explosão mais assustadoramente eficaz.”
Durante a maior parte dos anos 60, o pentecostalismo começou a 
aparecer nos mais inesperados lugares e entre as mais inesperadas pesso­
as. Um irrompimento de glossolalia na Universidade de Yale em 1963 foi 
profético em relação ao que ocorreria nos campi de faculdades de toda a 
nação no fmal da década. Os então chamados “glossayalies” (mistura de 
glossolalia comyalies, designação dada aos estudantes da Universidade) 
eram muito diferentes dos estereótipos “roladores no chão”. Entre os vin­
te estudantes da Universidade de Yale que causaram uma leve sensação no 
campus estavam cinco que pertenciam à sociedade de honra, Phi Beta
Algreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
78
Kappa (formada pelos estudantes que obtinham as melhores notas), que 
por coincidência eram episcopais, luteranos, presbiterianos e metodistas. 
0 preletor que levou esses estudantes a falar em línguas não era nem mes­
mo um pregador pentecostal, mas um pastor da Igreja Reformada Holan­
desa de Mt. Vernon, Nova lorque, Harald Bredeson.
A revista “Time” pubhcou a seguinte reportagem sobre os pente­
costais de Yale: “Eles não caem em nenhum ataque ou transe místico, em 
vez disso, observadores relatam que eles parecem totalmente em con­
trole, à medida que murmuram ou cantarolam frases que às vezes soam 
como hebraico, às vezes como sueco rude.”
Então, 0 tumulto causado em volta da experiência de Dermis Bennett 
serviu para propagar ainda mais o Movimento Carismático e romper a 
vergonha de todos os tradicionais que já possuíam a experiência. A rea­
ção da maioria dos líderes das igrejas em relação ao movimento foi de 
prudência e paciência. Foram poucos os que forçaram a nova onda de 
pentecostais a sair de suas igrejas como acontecera no início do século. 
Um dos motivos de não serem tão perseguidos foi o fato de serem 
menos emocionais e mais ordeiros. Mesmo assim alguns se declararam 
fortemente contra o movimento. Por outro lado, milhares de pessoas, 
tanto clérigos como leigos, sentiram que o avivamento pentecostal era a 
melhor esperança para a igreja.'*
Uma década depois da experiência de Bennett estima-se que 10% 
dos clérigos e 1.000.000 de leigos das igrejas tradicionais tinham rece­
bido 0 batismo no Espírito Santo e permanecido em suas igrejas. De 
fato, é quase impossível que tenha havido uma denominação sequer da 
Cristandade que não fosse atingida pelo Movimento Carismático, Come­
çando com os episcopais o fogo se alastrou entre luteranos, 
presbiterianos, batistas, metodistas, menonitas etc. e por fim atingiu a 
Igreja Católica.
Muitos dos pentecostais clássicos mais antigos flcaram desnorte­
ados com esse desenvolvimento e não puderam entender por que seus 
irmãos carismáticos pareciam haver escapado do sofrimento e perse­
guição que os pioneiros pentecostais do início sofreram. Porém, houve 
um sentimento geral de alegria e gratidão por outros estarem finalmente 
gozando a realidade da plenitude do Espírito. ^
0 Movimento Carismátto
79
Capítulo 6
O MOVIMENTO 
CARISMÁTICO CATÓLICO
C
 Movimento Carismático Católico encaixa-se perfeitamente no prin 
cípio de Ralph Mahoney de que um novo mover de Deus está 
ligado a algum evento histórico na nação de Israel. 0 derrama­
mento do Espírito sobre os católicos aconteceu no mesmo ano da toma­
da de Jerusalém — 1967. Foi chamado pelo Cardeal Suenens de “a 
surpresa do Espírito Santo”.
Na década de 60 a Igreja Católica estava passando por uma fase 
de falência e decadência. Milhares de sacerdotes, monges e freiras aban­
donaram suas vocações e retornaram à vida secular. 0 sistema de es­
colas paroquiais católicas romanas, que foi o orgulho da igreja ameri­
cana, começou a fechar suas portas, atingindo a média de uma escola 
fechada por semana. 0 número de seminários alcançou declínio seme­
lhante.
VATICANO U
Vários fatores e contribuições foram chaves para preparar o ce­
nário para o mover do Espírito Santo na Igreja Católica. Um deles 
aconteceu em 1962, quando o Papa João XXIII causou mn reboliço no 
mundo religioso ao convocar o primeiro concilio depois de quase um 
século, chamado Vaticano II. Nunca houve um concilio mais intimamen­
te ligado aos “ventos do Espírito” que estavam soprando na igreja. De 
acordo com o Papa João XXIIl, o propósito do concilio era “abrir as
81
janelas para que a igreja pudesse respirar ar fresco”. Dois mil e qui­
nhentos bispos de todas as partes do mundo se reuniram em Roma e 
falaram abertamente de uma “nova reforma” dentro da igreja — incluin­
do até “reformulação de doutrinas”. Nunca tal linguagem fora usada na 
igreja desde os dias de Martinho Lutero. ^
0 Papa João também falou profeticamente sobre o concílio, refe­
rindo-se a ele como “um novo Pentecoste”, e pedindo a todo católico do 
mundo que orasse diariamente durante os três anos de duração das as­
sembléias do concílio para que “Deus renove suas maravilhas em nossosdias através de um novo Pentecoste”. Poderia ele imaginar que essa oração 
seria cumprida depois de um ano do encerramento do concílio? ̂
Um dos quatro presidentes do concílio foi o Primaz da Bélgica, 
Cardeal Suenens, que ficou conhecido como um dos prelados “liberais” 
que exigiu mudança e renovação na igreja. 0 único hder pentecostal 
clássico presente foi David du Plessis, que compareceu como “observa­
dor” oficial. Tanto ele como Suenens estavam destinados a exercer pa­
péis importantes na renovação carismática católica. ^
À medida que o Vaticano II avançava, muitos documentos refleti­
am uma ênfase ao Espírito Santo e à natureza carismática da igreja. 
Liderando o movimento para enfatizar a pessoa e a obra do Espírito 
Santo estavam os bispos do Chile. Esta nação havia experimentado um 
poderoso movimento pentecostal desde 1909 e isto talvez tenha influenci­
ado os prelados chilenos. Ao todo o Espírito Santo foi mencionado 258 
vezes nos documentos do concflio.
Quando a velha questão da cessação dos dons veio à tona, o con­
cflio pendeu totalmente para o lado da manifestação nos dias de hoje 
de todos os dons do Espírito. 0 problema foi levantado depois da pri­
meira leitura da Constituição sobre a Igreja, na qual se afirmava que o 
Senhor reparte seus dons “particularmente a cada um como quer (1 
Co 12:11), e ele distribui dons especiais entre os fiéis de todo nível” . 
Ainda declarava que os dons carismáticos foram “largamente difundi­
dos” e são “para serem recebidos com ações de graça e consolação, 
pois eles são muitíssimo apropriados e úteis para as necessidades da 
igreja”. ^
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
82
Durante as discussões depois desta leitura, o Cardeal da Itália, 
Ruffini di Palermo, protestou fortemente contra a atuação dos dons do 
Espírito hoje dizendo que eram “extremamente raros e quase excepcio­
nais”. Muitos dos bispos imediatamente discordaram desta declaração 
que representava a visão tradicional da igreja. Em favor desses bispos, 
0 Cardeal Suenens deu a clássica réplica que mais tarde se tornou uma 
“Carta Magna” para os carismáticos da igreja: ^
“Este documento fala muito pouco sobre os ‘carismas’ dos fiéis; 
isto pode causar a impressão de que nós estamos tratando aqui com um 
fenômeno meramente periférico e acidental à vida da igreja. Mas é che­
gada a hora de expor mais explícita e completamente a importância vital 
desses carismas para a formação do Corpo Místico. Devemos a qual­
quer custo evitar dar a impressão de que a estrutura hierárquica da 
Igreja é um aparato administrativo sem nenhuma ligação íntima com os 
dons carismáticos do Espírito Santo que estão difundidos por toda a 
igreja. ^
“Para o apóstolo Paulo, a igreja de Cristo não aparece como algu­
ma organização administrativa, mas como um conjunto orgânico e vivo 
de dons, carismas e serviços. 0 Espírito Santo é dado a todos os cris­
tãos, e a cada um em particular; e ele por sua vez dá a cada um e a todos 
‘diferentes dons segundo agraça que nos foi dada’ (Rm 12:6).” *
A réplica de Suenens prevaleceu sobre a visão tradicionalista e o 
alicerce estava lançado para a aprovação da renovação carismática que 
viria apenas três anos mais tarde.
0 Vaticano II terminou em 1965 com um programa revolucionário 
que levou anos para ser totalmente implantado nas igrejas catóUcas ao 
redor do mundo. A mudança mais impressionante exigiu a realização 
da missa nas línguas dos povos em lugar do latim. Exigiu-se também 
que os sacerdotes ficassem de frente para a congregação durante a mis­
sa. Os hinos deveriam ser cantados pela congregação, ao invés de serem 
entoados somente pelos sacerdotes e corais. As Escrituras seriam lidas 
tanto pelos leigos como também pelo clero. Os católicos foram encora­
jados a orar com outros cristãos, embora a participação mútua da mesa 
do Senhor ainda fosse proibida. A informal “missa popular” foi permiti­
0 Movimento Carismático Católico
83
da. As freiras tiveram permissão para abandonar seus hábitos tradicio­
nais por vestes convencionais. '*
Por causa dessas mudanças, que na verdade pareceram revoluci­
onárias demais para os tradicionalistas, a igreja se tornou menos “es­
tranha” para os protestantes, especialmente quando católicos começa­
ram a cantar o “hino-tema da Reforma”, “Castelo Forte”, de Martinho 
Lutero. Pela primeira vez, sacerdotes católicos começaram a participar 
de reuniões protestantes e protestantes foram convidados a falar em 
reuniões catóUcas. Uma nova era ecumênica começou em 1960 com o 
estabelecimento da Secretaria para Unidade Cristã em Roma, que ime­
diatamente iniciou diálogos com igrejas protestantes. 0 fato de João 
XXIII ter chamado os protestantes de “irmãos separados” abriu cami­
nho para imi respeito e apreciação mútuos que tornaram possível o diá­
logo ecumênico. *
Geralmente o Espírito move “onde ele quer”, e os teólogos ten­
tam explicar os fatos depois. Desta vez, os teólogos expUcaram e aprova­
ram a renovação carismática antes de ela acontecer. Esta é uma daque­
las raras vezes na história em que os teólogos estiveram à frente dos 
profetas. Portanto, antes que o “novo Pentecoste” profetizado por João 
XXIII acontecesse na Igreja Católica, foram tomadas medidas no concí- 
ho para assegurar que tal Pentecoste fosse aceito quando ocorresse. *
O MOVIMENTO DE CURSILHO
0 Movimento de Cursilho foi outro fator que contribuiu para pre­
parar 0 terreno para a Renovação Carismática Católica. Foi iniciado em
1949 na Espanha como uma tentativa de renovar a fé dos católicos atra­
vés de um retiro de três dias chamado “cursilho” (mini-curso). Foi rea­
lizado pela primeira vez pelo Bispo Juan Hervas, na Espanha, e espa­
lhou-se pela América Latina na década de 50, chegando finalmente aos 
Estados Unidos através dos hispânicos do Sudeste.^
0 cursilho consiste de cinco “meditações” e cinco lições sobre 
doutrina cristã ministradas por sacerdotes e leigos para membros da 
igreja que desejam aprofundar sua fé. Sessões de discussões mostram
A Igreja do Século XX~A História que Não Fbi Contada
84
como fazer aplicações práticas das dez preleções. 0 número de partici­
pantes é em geral de aproximadamente 40 pessoas, o que contribni para 
que as sessões sejam estimuladas com um espírito de jovialidade inclu­
indo músicas e esquetes.“*
0 efeito do cursilho foi evangelizar católicos que tinham sido 
“sacramentados”, mas que não tinham um entendimento mais profundo 
do que significava ser um cristão. Muitos dos primeiros pentecostais 
católicos não somente tinham freqüentado cursilhos, mas eram líderes 
no movimento.^
UMASURPRESADO ESPÍRITO SANTO
0 Movimento Católico Pentecostal começou em Pittsburgh, 
Pensilvãnia, Estados Unidos, na Universidade de Duquesne, tão apro­
priadamente dirigida pela fundação “Padres do Espírito Santo”. Em 
1966, dois professores leigos de teologia da Universidade de Duquesne, 
Ralph Kiefer e Bill Storey, começaram uma busca espiritual que os le­
vou a 1er “A Cruz e o Punhal”, de David Wilkerson, e “Eles Falam em 
Outras Línguas”, de John Sherrill. Depois de lerem esses livros, os 
dois homens começaram a procurar alguém na região de Pittsburgh 
que tivesse recebido o batismo no Espírito Santo com acompanhamen­
to de línguas. Com o tempo e com a ajuda de um sacerdote episcopal 
num grupo de oração hderado por presbiterianos, Kiefer e Storey fo­
ram batizados no Espírito e falaram em línguas que nunca tinham apren­
dido.^
Esses dois professores cheios do Espírito planejaram então um 
retiro de fim de semana para vários amigos, a flm de buscarem um 
derramamento do Espírito Santo na Igreja Católica. Cerca de vinte 
professores, estudantes formados e suas esposas reuniram-se durante 
0 fim de semana de 17 a 19 de fevereiro de 1967, em Pittsburgh, para a 
primeira reunião de oração pentecostal católica na história. Os parti­
cipantes foram solicitados a 1er os primeiros quatro capítulos de Atos e 
0 hvro “ACruz e o Punhal” . As reuniões se realizaram numa grande casa 
de retiro conhecida como “A Arca e a Pomba”. Com o passar do tempo, 
este encontro foi apelidado de “o fim de semana de Duquesne”.'*
0 Movimento Carismático Católico
85
0 Espírito Santo pairou sobre “A Arca e a Pomba” durante aquele 
fim de semana fantástico. Depois de um estudo intensivo do livro de 
Atos e de um dia devotado à oração e estudo, muitos dos participantes 
estavam ansiosos para buscar o batismo no Espírito Santo. Mas uma 
festa de aniversário de lun dos padres estava programada para o sábado 
à noite. À medida que a festa começou, um senso de convicção e expec­
tativa permeou o ambiente. Logo, um estudante após outro escapuliu da 
festa e subiu as escadas da capela para orar.^
Coisas estranhas começaram a acontecer àqueles jovens, à medi­
da que começaram a buscar do Senhor a plenitude pentecostal. Um 
estudante chamado David Mangan entrou na sala e foi de repente lança­
do por terra pelo Espírito. Ele relatou a seguinte experiência: ^
“Gritei 0 mais forte que já gritara em minha vida, mas não derra­
mei uma lágrima. De repente, Jesus Cristo era tão real e tão presente 
que eu podia senti-lo ao redor. Fui dominado por tal sentimento de 
amor que não posso descrevê-lo.” ^
Mais tarde todo o grupo abandonou a festa lá embaixo e reuniu-se 
na capela para a primeira reunião de oração pentecostal totalmente cató­
lica. Patrícia Gallagher descreveu a reunião neste novo “cenáculo”: ̂
“Naquela noite o Senhor levou todo o grupo para a capela. Ora­
ções emanavam de mim para que outros viessem a conhecê-lo também. 
Minha antiga timidez para orar em voz alta foi-se completamente, à me­
dida que 0 Espírito Santo falava através de mim. Os professores então 
impuseram as mãos sobre alguns dos estudantes, mas a maioria de nós 
recebeu o “Batismo no Espírito” enquanto estávamos ajoelhados diante 
do bendito sacramento em oração. Alguns de nós começaram a falar em 
línguas, outros receberam dons de discernimento, profecia e sabedo­
ria. Mas o dom mais importante foi o fruto do amor que uniu toda a 
comunidade. No Espírito do Senhor nós achamos uma unidade pela 
qual tentáramos há muito tempo alcançar por nossa força.” ̂
À medida que esses buscadores católicos oraram até alcançar o 
Pentecoste, muitas coisas semelhantes aos pentecostais clássicos come­
çaram a ocorrer Alguns riam incontrolavelmente “no Espírito”, enquan­
to um jovem rolava pelo chão em êxtase. Gritar louvores ao Senhor,
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Fbi Contada
86
chorar e falar em línguas caracterizaram este início do movimento na 
Igreja Católica. Não é à-toa que foram chamados de “Católicos Pente­
costais” pelo público e imprensa quando as notícias sobre os estranhos 
eventos em Pittsburgh se espalharam. ^
0 fogo que foi aceso na Universidade de Duquesne logo se alastrou 
pela Universidade de Notre Dame em South Bend, Indiana. Este rompi­
mento veio depois da carta de Ralph Kiefer, que incitou o interesse de 
vários líderes entre os estudantes e professores que também estavam inte­
ressados na renovação espiritual da igreja. Depois de alguma investigação 
e cepticismo inicial, mais ou menos nove estudantes se reuniram no apar­
tamento de Bert Ghezzi e foram batizados no Espírito Santo. ^
Porém, eles não manifestaram nenhum dom espiritual evidente. 
Para solicitar ajuda, contataram Ray Bullard, um membro das Assem­
bléias de Deus e presidente da Associação de Homens de Negócios do 
Evangelho Pleno em South Bend. Ghezzi descreve como este grupo de 
intelectuais católicos recebeu o dom de línguas: *
“Fomos à casa de Ray na semana seguinte e nos reunimos em 
seu porão com onze ministros pentecostais de toda Indiana, acompa­
nhados de suas esposas. Eles passaram a noite tentando persuadir-nos 
de que se tivéssemos sido batizados no Espírito teríamos falado em 
línguas. Nós os deixamos cientes de que estávamos abertos para falar 
em línguas, mas ficamos firmes em nossa convicção de que já fôramos 
batizados no Espírito porque podíamos ver isto em nossas vidas. 0 
problema ficou resolvido porque nós estávamos querendo falar em lín­
guas desde que isto não fosse visto como uma necessidade teológica 
para ser batizado no Espírito. A certa altura, dissemos que estávamos 
dispostos a fazer uma experiência, e um homem exphcou-nos as impli­
cações disto. Bem tarde naquela noite, passando da meia-noite, lá em­
baixo naquele porão, os irmãos nos alinharam em um lado do cômo­
do e os ministros se colocaram do outro lado. Então começaram a 
orar em línguas e a caminhar em nossa direção com as mãos estendi­
das. Antes de eles nos alcançarem, muitos de nós começaram a falar e 
cantar em línguas.”
0 Movimento Carismático Católico
87
Depois de ficarem um tempo orando em línguas, Ghezzi diz que 
os amigos pentecostais perguntaram a eles quando deixariam a Igreja 
Católica e se juntariam a uma igreja pentecostal.
“Realmente a pergunta nos deixou um pouco chocados. Nossa res­
posta foi que não deixaríamos a Igreja Católica, pois o fato de sermos 
batizados no Espírito estava totalmente compatível com nossa crença na 
Igreja Católica. Asseguramos aos nossos amigos que tínhamos um gran­
de respeito por eles e que teríamos comunhão com eles, mas que perma­
neceríamos naigreja Católica. *
“Penso que é significativo o fato de que aqueles entre nós que 
foram batizados no Espírito Santo naquela época nunca pensaram em 
abandonar a Igreja Católica Romana. *
“Nossos amigos pentecostais tinham visto católicos se juntarem a 
igrejas pentecostais quando foram batizados no Espírito. Mas porque 
não fizemos isto, a renovação carismática católica se tornou possível.”“* 
Os eventos de Duquesne foram agora repetidos em Notre Dame 
— a capital intelectual do catolicismo americano. Os jornais dos campi 
logo começaram a publicar as inacreditáveis notícias do que estava acon­
tecendo ali. Apesar de serem considerados por alguns como “fanáticos” 
e “extremistas”, os novos pentecostais de Notre Dame incluíam vários 
respeitáveis professores de teologia e destacados estudantes que se tor­
naram líderes nacionais do movimento. A maioria deles estava na faixa 
dos vinte anos. Sob sua hábil e inspirada orientação, o pentecostalismo 
alastrou-se como fogo entre catóhcos nos Estados Unidos e posterior­
mente ao redor do mundo.
0 crescimento inicial do movimento foi espantoso. Novos gru­
pos de oração se espalharam diariamente por toda a nação. Uma rede 
de comunicações revelou uma enorme aceitação do movimento, tanto 
entre clérigos como entre leigos. Em pouco tempo, o movimento 
pentecostal católico foi reconhecido como o movimento de maior cres­
cimento na igreja. Este crescimento foi dramatizado através das con­
ferências internacionais realizadas anualmente em South Bend depois 
de 1967. A assistência às conferências tendeu a tripUcar a cada ano 
por vários anos. ^
A Igreja do Século XX-AHistória que Não Fbi Contada
Por volta de 1974, o movimento abandonou o termo “pentecostal” 
por outro mais neutro, “carismático”, para não ser confundido com os 
pentecostais mais antigos. Durante aquele ano, calcula-se que o núme­
ro de grupos de oração na América tenha sido de 1.800 e no mundo 
todo de 2.400. 0 número de participantes ao redor do mundo foi 
estimado em 350.000. Entre esses calcula-se que 2.000 sacerdotes se 
juntaram ao movimento. Duas chaves para o rápido desenvolvimento 
do pentecostalismo na Igreja Católica foram a cuidadosa atenção teo­
lógica devotada a ele desde o início e a positiva mas cautelosa atitude 
dos bispos. Em seu “Relatório do Comitê sobre a Doutrina”, em 1969, 
os bispos concluíram que “teologicamente o movimento tem razões 
legítimas para existir. Tem uma forte base bíblica”. Também observa­
ções indicaram que os participantes “experimentaram progresso em 
sua vida espiritual”, foram “atraídos para 1er em as Escrituras”, e de­
senvolveram “um entendimento mais profundo de suafé”. No fim do 
relatório, os bispos declararam: “É a conclusão do Comitê sobre a 
Doutrina que o movimento não deve neste ponto ser inibido, mas per­
mitido a desenvolver-se”.
E como se desenvolveu! Por volta de 1975, a “chuva serôdiá’ 
alcançara a própria Roma. Numa conferência internacional realizada 
numa tenda sobre as antigas catacumbas, mais de 10.000 carismáticos 
católicos se reuniram para expressar seu testemunho no próprio domí­
nio do papado. Na festa de Pentecoste, em 1975, esses fiéis cheios do 
Espírito fizeram parte de uma multidão de 25.000 pessoas que lotaram 
a Catedral de São Pedro para ouvir o Papa Paulo VI. Perto do final do 
culto, os pentecostais começaram a “cantar no Espírito”. No fim, o orga­
nista e 0 coral se uniram no cântico improvisado do “Octeto Aleluia”, a 
antífona internacional do movimento. '*
Na segunda-feira do Pentecoste, a primeira missa especificamente 
carismática foi celebrada na Catedral de São Pedro pelo Cardeal Suenens. 
Jovens líderes carismáticos americanos de Ann Arbor, Michigan, entre­
garam profecias do alto do altar da basílica. Cânticos jubilosos e ungi­
dos encheram a igreja. Em sua mensagem para os carismáticos no fim 
da missa, o Papa Paulo disse profeticamente: ^
0 Movimento Carismático CatóUco
89
“Como entáo poderia esta ‘renovação espiritual’ não ser uma opor­
tunidade para a igreja e para o mundo? E como, neste caso, poderia 
alguém não usar todos os meios para assegurar que isto permaneça 
assim?... Isto deve rejuvenescer o mundo, devolver a ele uma espiritua­
lidade, uma alma, um pensamento religioso. Isto deve reabrir seus lábi­
os selados para orar e abrir suas bocas para cantar, jubilar, entoar hi­
nos e testemunhar. Será muito vantajoso para nossos tempos, para nos­
sos irmãos, que haja uma geração, asua geração de jovens, que procla­
me ao mundo a grandeza do Deus do Pentecoste...” *
As águas da chuva serôdia estavam verdadeiramente caindo em
Roma!
A CON FERÊN CIA DE 1<AN S AS CITY DE 1977 
Na metade dos anos 70 as três correntes do Movimento Caris­
mático (os pentecostais clássicos, os protestantes neo-pentecostais e 
os catóhcos carismáticos) voltaram suas atenções para planejar um 
maciço encontro público para imprimir a mensagem deles na alma 
da igreja e na mente da nação. Resultante de uma visão compartilha­
da por vários líderes pentecostais e carismáticos em 1975, um apelo 
foi publicado em 1976 para uma “conferência geral” que reuniria 
todos os carismáticos e pentecostais em Kansas City, Missouri, em 
1977, para uma conferência ecumênica internacional com todos os 
setores da renovação pela primeira vez. 0 propósito da conferência 
era demonstrar a unidade do movimento e dar um “testemunho co­
mum” para a igreja e 0 mundo do tema da conferência: “Jesus é 
Senhor” . ^
A conferência carismática de Kansas City serviu como 0 ponto 
culminante da história do povo da chuva serôdia. Pela primeira (e única) 
vez, todos os grupos importantes de todo 0 movimento se reuniram ao 
mesmo tempo e no mesmo lugar. Nas manhãs, diferentes grupos deno­
minacionais se reuniram em arenas e auditórios separados na cidade. 
Foram incluídas sessões matinais para católicos, luteranos, presbiteria­
nos, episcopais, metodistas e judeus messiânicos. À tarde, “workshops”
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
90
(seminários) foram oferecidos por todos os grupos e abertos a todos. À 
noite, todos se reuniram no Estádio Arrowhead para reuniões ecumênicas 
de adoração e louvor. 0 presidente Kevln Ranaghan declarou que a con­
ferência foi provavelmente o maior encontro ecumênico de cristãos em 
800 anos. ^
A palavra mais poderosa saiu através de um chamado profético 
para unidade que levou a enorme assembléia a ajoelhar-se com lágrimas 
de arrependimento:
Apresentem-se diante de mim, com corações quebrantados e espíriios 
contritos. Poiso corpo de meu Filho está quebrado.
Apresentem-se diante de mim, com lágrimas e lamentações. Pois o corpo 
de meu Filho está quebrado.
A luz está amortecida, meu povo está disperso. 0 corpo de meu Filho 
estáquebrado.
Eu dei tudo o que tinha no corpo e sangue de meu Filho. Ele derramou- 
se na terra. 0 corpo de meu Filho está quebrado.
Abandonemos pecados de seus pais,
EandemnoscaminhosdemeuFilho,
Retomem para o plano de seu Pai 
Retomempara o propósito de seu Deus.
0 corpo de meu Filho está quebrado.
0 Senhor diz para vocês: pemvmeçam em unidade um com o outro,
Enão deixem nadasepará-los.
E, demodonenhumseseparemumdooutro.
Por causa de suas desconfianças e amarguras,
Edesuas preferênciaspessoais.
Mas segurem-se um ao outro.
Porque estou para deixar vocês passarem por 
Um tempo de prova e teste severos,
E vocês terão de estar em unidade um com o outro.
Mas eu digo também isto: Eu sou Jesus, o Rei Vitorioso.
Eeu tenho prometido a vocês vitória.
0 Movimento Carismático Católico
91
Representativo da unidade exigida nesta profecia foi a presença 
de líderes das mais divergentes tradições cristãs que compartilharam a 
mesma plataforma em Kansas City. Numa memorável reunião, o Cardeal 
Suenens (católico romano), Thomas Zimmerman (Assembléias de Deus), 
J. 0. Patterson [Igreja de Deus em Cristo) e Arcebispo Bill Burnett 
(anglicano) permaneceram juntos diante da vasta multidão numa de­
monstração nunca vista de unidade. *
0 momento mais inesquecível da conferência aconteceu quando 
Bob Mumford chegou ao clímax da sua mensagem numa das sessões da 
noite no Estádio. Erguendo sua Bíblia no ar, Mumford exclamou: “Se 
você der uma olhadinha no final do livro,verá que Jesus vence!” Uma 
multidão de cerca de 50.000 pessoas bradaram sua aprovação com 15 
minutos de louvor e aplausos extáticos. ^
Kansas City, em 1977, representou o clímax do movimento caris­
mático na América. Foi o maior e mais visível sinal de unidade em toda 
a história do povo carismático. Depois de Kansas City os vários grupos 
carismáticos denominacionais retornaram para suas conferências anu­
ais separadas.
CONCLUSÕES FINAIS 
SOBREO MOVIMENTO CARISMÁTICO
Apesar de notarmos até hoje (anos 90) por todos os lados os 
efeitos do Movimento Carismático e de haver de vez em quando um 
novo irromper do batismo no Espírito em diversos lugares, é inegável 
que 0 movimento já passou do seu auge e em muitos aspectos apresenta 
sinais de declínio. Isto não quer dizer que o Espírito Santo esteja atuan­
do menos no mundo. Pelo contrário, apesar do Movimento Carismático 
demonstrar suas fraquezas e limitações, os milhões de pessoas renova­
das pelo Espírito representam uma forte promessa e potencial para a 
“coisa nova” que o Espírito deseja fazer nestes últimos dias.
Não podemos menosprezar a grande importância do Movimento 
Carismático, pois tem sido, como dissemos no início do capítulo 5, a 
mais extensa e difundida manifestação do Espírito na história da igreja. 
Por outro lado, não podemos parar no Movimento Carismático, pois ele
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFoi Contada
92
tem trazido mais perguntas do que respostas. 0 despertamento e vida 
que ele trouxe às pessoas estão causando uma grande inquietação por 
todo lado, 0 que mostra que precisamos de algo mais. “Vinho novo” é 
bom, mas precisamos de “odres novos” também.
A presença de vinho novo somada à ausência de odres novos têm 
produzido vários efeitos que queremos mencionar rapidamente:
1 .0 Movimento Carismático Protestante. A falta de uma base na 
palavra e de uma estrutura bíbhca têm causado uma proliferação de 
heresias e escândalos em tempos recentes. As revistas, programas de 
televisão, conferências e igrejas dos carismáticos estão muitas vezes 
cheias de mundanismo, autopromoção, culto à personalidade, pensa­
mento positivo, comercialização do evangelho (a tal ponto que, em com­
paração, a prática da Igreja Católica de vender indulgências no tempo 
de Lutero é fraca!), imoralidade sexual, ênfase exagerada no bem-estar 
pessoal (às custas da pregação da cruz e da renúncia), busca por suces­so no mundo e envolvimento com política. Deus tem derramado o Espí­
rito sobre toda carne sem exigir santidade como pré-requisito, mas, se 
0 Espírito não nos levar à santidade e a uma vida de acordo com a 
Palavra, certamente o Espírito Santo será retirado como aconteceu com 
0 rei Saul e espíritos maus tomarão o seu lugar.
2. 0 Movimento Carismático Católico. Uma característica bem 
pecuUar da Igreja Católica é sua flexibilidade para assimilar novas 
tendências sem dividir Isto aconteceu com o Movimento Carismático 
Católico que alcançou seu ápice na década de 70. Mas, com o tempo, a 
hierarquia católica começou a dar algumas diretrizes ao movimento para 
que se tornasse mais catóhco. Entre essas diretrizes estava uma ênfase 
maior na participação da missa e eucaristia e na veneração a Maria. 
Apesar de não repudiarem exphcitamente essas coisas, os católicos 
carismáticos tendiam a centralizar a pessoa de Jesus em detrimento ao 
culto a Maria e aos santos. Quando começaram a ser pressionados so­
bre isto, muitos que já tinham contato com grupos pentecostais ou pro­
testantes carismáticos deixaram a Igreja Católica e se vincularam a 
esses grupos. A maioria, porém, aceitou docilmente as posições defen­
didas pelo papa e pela hierarquia, e assim o movimento esfriou e tor-
0 Movimento Carismático Católico
93
nou-se mais um departamento dentro da Igreja Católica. Devido à ma­
neira liberal e tolerante que a Igreja Católica exerce seu governo, exis­
tem “comunidades” e “redes de grupos de oração” que, apesar de não 
deixarem a 7gre/a Católica, são praticamente “igrejas dentro da igreja” 
que possuem sua própria identidade, posições doutrinárias e práticas, 
e algumas não aceitam o papa ou o culto a Maria.
3. Tentativas de Restauração e Reforma. Não entraremos em 
detalhes sobre isto agora, pois será tratado em outros capítulos. Basta 
ressaltar que a grande necessidade de odres novos para conter o vinho 
novo produziu várias ênfases e movimentos que tentaram providenciar 
uma solução, dentre os quais o mais importante foi o Movimento de 
Discipulado que trataremos nos capítulos 8 e 9. Apesar de ninguém ter 
ainda descoberto a solução correta, as tentativas foram importantes para 
nos ensinar hções relevantes e necessárias, à medida que esta busca 
continua.
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
94
Capíiuio 7
O PODERDO ESPIRITO SANTO 
entre OSjOVENS
DAVID W1LKER50N
0 ministério de David Wilkerson foi um presságio do avivamento que ocorreria na cultura jovem drogada. Tlido começou em 1958, quando era um jovem pastor de uma tranqüila paróquia das Assembléias de Deus na pequena cidade de Philipsburg, Pensilvânia.
Numa noite de fevereiro daquele ano, bem tarde, ele desligou seu 
aparelho de televisão e sentou-se no seu escritório. Uma indagação veio 
à sua mente: “Quanto tempo eu gasto em frente daquela tela toda noite? 
No mínimo, duas horas. Senhor, que aconteceria se eu vendesse aquele 
aparelho de TV e gastasse esse tempo— orando?”
Muitas objeções vieram à sua mente contra essa idéia mas mes­
mo assim ele orou ao Senhor e pediu um sinal sobre isto: “Vou colocar 
um anúncio para vender esse aparelho no jornal. Se tu estás por trás 
desta idéia, faça um comprador aparecer Imediatamente. Que ele apare­
ça dentro de uma hora... dentro de mela hora... depois do jornal sair às 
ruas.” Vinte e nove minutos se passaram depois que o jornal com o 
anúncio chegou às suas mãos. Ele e sua esposa já estavam quase conven­
cidos de que a idéia não era de Deus quando o telefone tocou. Era um 
comprador que fechou o negócio pelo telefone sem nem sequer querer 
ver 0 aparelho e se dispôs a pegá-lo dentro de 15 minutos.
Desde este dia a vida de David Wilkerson não foi mais a 
mesma. Toda noite ia para seu escritório, fechava a porta e começava
95
a orar. Durante uma dessas noites, mesmo tendo tido um longo perí­
odo de oração com a presença de Deus, sentiu-se desconfortável e 
uma inexplicável sensação de tristeza. Sabia que Deus queria falar 
com ele mas não sabia como. Enquanto caminhava pelo escritório, 
deparou com uma revista “Life” em cima de sua escrivaninha e sen­
tiu-se impulsionado a lê-la. Um artigo sobre o julgamento de sete 
jovens, membros de uma quadrilha em Nova Iorque e acusados de 
um bárbaro assassinato, chamou sua atenção. Junto com o artigo 
havia um desenho dos garotos e o olhar de espanto, ódio e desespe­
ro de uma das feições fez com que começasse a chorar. Um pensa­
mento forte e insistente veio em sua mente: “Vá para Nova Iorque e 
ajude esses garotos”.
Na noite seguinte, na reunião de oração ele compartilhou com sua 
congregação sobre o artigo e a idéia de ir para Nova Iorque, onde nunca 
estivera antes, e esta levantou uma oferta suficiente para uma viagem de 
carro de ida e volta. Chegando à grande cidade, um tanto confuso e 
atrapalhado, ele tentou visitar os meninos na prisão, mas todos os seus 
esforços para conseguir autorização do juiz encarregado do caso foram 
inúteis. Informado de que uma sessão do julgamento seria realizada no 
próximo dia, compareceu à corte numa tentativa de falar com o juiz 
sobre sua missão. Sua ousadia ao se aproximar do juiz no fim da 
sessão, quebrando as regras da corte, causou um tumulto que, aprovei­
tado pelos jornalistas presentes, fez com que sua foto erguendo a Bíblia 
ao alto fosse estampada nos jornais do dia seguinte.
Apesar de abalado e humilhado com este episódio, ele creu que 
todas as coisas cooperam para o bem e viu que o propósito de Deus era 
muito além do que simplesmente ajudar aqueles meninos. A foto nos 
jornais tornou-o famUiar e bem aceito junto aos jovens dos guetos de 
Nova Iorque e levou-o a penetrar no submundo das drogas da cidade e 
a explorar um campo missionário abandonado. Um ano mais tarde ele 
fundou 0 primeiro centro de recuperação de drogas em Brooklyn, Nova 
Iorque, chamado “Desafio Jovem”. Este foi considerado um dos mais 
bem-sucedidos programas de reabilitação de drogas no país, de acordo 
com um estudo do governo federal em 1975. David Wilkerson declarou 
que sua “cura de trinta segundos” para viciados em drogas, o batismo
A Igreja do Século XX -A História que Não Fbi Contada
96
no Espírito Santo, superou de longe as estatísticas de cura dos progra­
mas federais para viciados em drogas pesadas.
0 programa do “Desafio Jovem” tornou-se modelo para progra­
mas similares que surgiram por todo o mundo. Tam-bém no Brasil o 
trabalho de recuperação de jovens viciados foi muito difundido na dé­
cada de 70. Cêntimos de recuperação foram fundados em muitas cidades 
e alguns deles, como em Belo Horizonte, Goiânia e Brasília, tornaram- 
se na época centros de encontros e avivamentos. Muitos dos ex-viciados 
se tornaram pastores e líderes de igrejas e movimentos de recuperação.
0 livro “A Cruz e o Punhal”, best-seller mundial, e o filme com o 
mesmo nome tornaram o trabalho mundialmente conhecido. Milhões 
leram e ouviram a miraculosa história de viciados, prostitutas e bandi­
dos sendo salvos e recebendo o Espírito Santo. Os dois últimos capítu­
los do livro, relatando o batismo no Espírito entre viciados e delin­
qüentes, despertaram o interesse de muitos dentro do Movimento Ca­
rismático. A revista “Time” declarou: “Em todo lugar onde a renovação 
carismática acontece, inevitavelmente aqueles que estão envolvidos le­
ram A Cruz e o Punhal’ ou ‘Eles Falam em Outras Línguas’ (John Sherill).”
Outro aspecto importante do ministério de David Wilkerson é 
seu lado profético. Ele tem se mostrado decepcionado e desiludido 
com a “Babilônia Cristã”. Durante os anos ele tem se colocado fortemen­
te contra a douti-ina evangélica de luxo e prosperidade para todos os 
crentes, defendida principalmente pelos televangelistas. Para ele isto é 
totalmente errado e um terrível engano.
Temos aqui algumas declarações suas extraídas de uma revista 
“Charisma” de 1973:
“...os dias de grande sucesso da religião estão contados, o sistema 
babilônicoque caracteriza muito o evangelismo moderno estáempengo. 
ElemisiuraosistemadomundocomCristianismo.Pararrvm, istoéummau 
cheiro às narinas de Deus. Lembra o VeJho Testamento quandofogo estra­
nho era oferecido no altar e homens coíam mortos. Há muito fogo estranho 
sendo oferecido no altar hoje. É uma sorte que alguns não estejam caindo 
mortos. Digo isto não comamargura, mas creio que Deus vai acabor com isto 
— com todo programa de televisão que náo está usando métodos divinos, 
que está uscwdo celebridades meio conuerüdas... Como disse o profeta, eles
0 Poder do Espírito Santo Entre os Jovens
97
curam aferida dajilha de meu povo levianamente. É uma cura leviana. Não 
há nada de profurvdidade. Você dá uma olhada nas condições da yreja hoje 
divórcio, comodismo, imoralidade, leviandade,falta de oração, supeificiali- 
dade evocêquertrovejarcomo Jeremias... ComoumhomemdeDeuspode 
pregar que, se temos fé, podemos ser mais e mais ricos e livres de dores e 
sofrimento, no meio de um mundofaminto e sofredor?... A mensagem de 
prosperidade tranqüiliza nossas consciências e nossos espíritos avarentos. 
Dá-nos uma desculpa para viver num alto nível É para esta igreja que Cristo 
voltará? Com uma teologia de Cadillac?”
Como profeta, David Wilkerson anunciou julgamento para a Amé­
rica por enfatizar um evangelho de sucesso e prosperidade sem sensibi­
lizar-se com a miséria do mundo. Como aconteceu com os profetas do 
Velho Testamento, isto não o tornou bem aceito e compreendido por 
muitos no meio cristão.
Outro ensinamento que ele condena é o que chama de “o culto de 
crescimento da igreja”. Sobre isto ele disse: “Não acho que Deus seja 
contra a grandeza se é um crescimento natural da sua palavra. Mas acho 
que Deus não está tão interessado em contar números como alguns pre­
gadores estão. Nós estamos empilhando pessoas em nossos bancos, mas 
não estamos preenchendo suas necessidades. 0 problema com grande­
za é que uma obra começa com unção, entra na carne e Deus a abandona. 
Mas ela prossegue em seu próprio embalo.”
Como profeta, David Wilkerson tem tido algumas profecias con­
troversas como as do seu livro “A Visão”. 0 livro relata uma visão que 
diz ter recebido de Deus em 1973. São cinco calamidades trágicas que 
estavam para vir sobre a terra. Algumas profecias se mostraram váli­
das, como as que previram o aumento da imoralidade, da pornografia e 
do ocultismo incentivados pelos meios de comunicação, principalmente 
a televisão com sua influência perniciosa nos lares. A estas coisas ele 
chamou de “dilúvio de imundícia”. Mas outras, como as que enfatizaram 
0 domínio do comunismo e até uma possível destruição dos Estados 
Unidos pela Rússia, não tiveram confirmação.
De qualquer forma, a história de David Wilkerson é a história 
singular de um homem que, ao se desfazer do seu aparelho de televisão 
para se dedicar a oração e ouvir de Deus, tornou-se um instrumento
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFbiContada
98
para levar libertação a milhares de vidas envolvidas no submundo das 
drogas. Seu ministério de introduzir o batismo no Espírito como o 
meio desta libertação e também sua maneira de se posicionar contra a 
corrupção e o mundanismo do Cristianismo o tornaram um homem 
importante na história da igreja do século XX.
O MOVIMENTO DE)E5US
Este foi um movimento iniciado no final dos anos 60 que envol­
veu milhares de jovens provenientes da cultura hippie drogada, como 
também jovens de denominações. Agitando cartazes e bandeiras colori­
das, usando camisetas, “buttons” e adesivos (nos quais se viam dizeres 
como esses, “Você tem muito para viver — Jesus tem muito para dar”, 
“Sorria, Jesus te ama”), com o braço estendido e o dedo indicador 
apontado para o céu (símbolo do movimento indicando que só havia um 
caminho — Jesus), esses jovens invadiram as ruas da Califórnia cantan­
do e testemunhando sobre Jesus. Abraçando o mais duradouro símbo­
lo de pureza, abnegação e amor fraternal da história do homem ociden­
tal, eles foram incendiados por uma paixão pentecostal para comparti­
lhar sua nova visão com outros, formando assim um grande exército 
para uma grande revolução — a revolução de Jesus.
0 movimento tornou-se realmente conhecido quando a mídia co­
meçou a publicar artigos e fotos sobre centenas de jovens sendo batizados 
nas praias do Pacífico, sobre dezenas de Cafés Cristãos que foram aber­
tos para ministrar aos jovens da rua, e sobre as “Christian Houses” 
(comunidades rurais ou urbanas) que se multiplicaram como pães e 
peixes para abrigar os jovens que fugiam do mundo institucional da 
igreja tradicional. Um artigo da revista “Time” de 2 1 de junho de 1971, 
que trouxe na capa uma figura de Jesus e o título “A Revolução de Je­
sus”, captou muito bem o espírito do movimento ao dizer:
HáumJrescorrnatiminestemoviTrierilo, immcÉrno^eraJiiíiianíedeespe- 
rança e antor unido avmtpíco zelo rebelde. Alguns convertidos gostam de tra- 
dmirsuanovafépciTaavídadiária, comoaquelesqueatendemotelefonecorrL 
‘Jesus ama você” em vezds“alô”. Masseuamorparecemaissinceroqueum 
slogan, maisprq/imdoqueossentirneníosdeurriaondapassageira.. oquesur- 
preende quem está de fora é o extraordinário senso de aleg ria que eles são
0 Poder do Espírito Santo Entre os Jovens
99
capazes de comunicar... Parte destajasdnação por Jesus entre osjovens pode 
sersimpksnmile um culto tardio da personalidade de um companheiro rebel­
de, 0 primeiro mártir da causa de paz e fraternidade. Não é assim, porém, com 
agrandemaioriadomovimentode Jesus. Seháumacaracterísticaqueclara- 
mente os identifica é sua aença total num Jesus Cristo terrível e sobrenatural 
nãoapenasumhomemmaravühosoqueviveuhá2.000anos,masumDeusvivo 
queétaníoSaluadorcomoJuiz.Suasvidasgtramemtomodanecessidadede 
um intenso relacionamento pessoal com este Jesus, e a crença de que tal 
reladonamentodeveseracondiçãodetodavidahumanaAgemcomoseain- 
tervenção divina guiasse cada momento de suas vidas e com a certeza de que 
pode resolver cada problenm...A revolução de Jesus rejeitanão somente os 
vcüoresmateriaisdaArriéricaconvencionalmastambémasabedoriadoml- 
naniedaíjeologiaamericana... OCrístianismotemenfatizado—pebmenoso 
tipopregadonospúlpitosesemináriosdeprestígíonasúltimasdécadas —um 
Deus presente na natureza e no movimento social, não o Deus pessoal e 
transcendentaldonovomovimento, quevemparaaterranapessoade Jesus, 
navidade indivíduos, mibgrosamente.Arevoluçãode Jesus, emresumo, nega 
asvirtudesdaCidadeSecukweamontoadesprezosobreamensagemdeque 
Deus sempre esteve morto.
A Revolução de Jesus foi um movimento à parte da religião orga­
nizada, formado por duas fortes correntes espirituais que, apesar de 
diferirem em usos, costumes e teologia, reforçaram de modo efetivo 
uma a outra:
1. “Jesus People” (Povo de Jesus). Também conhecido como “cris­
tãos de rua” ou “Jesus Freaks” (Excêntricos de Jesus). Foram os mais 
destacados. Muitos traçam seu começo no verão de 1967, em Haight- 
Ashbury, São Francisco, quando centenas de jovens abandonaram as 
drogas, sexo livre, ocultismo e misticismo oriental para seguir a Jesus. 
Porém, acontecimentos semelhantes ocorreram simultaneamente em 
outras áreas da Costa Oeste dos Estados Unidos. Entre os muitos rela­
tos de avivamentos ocorridos entre osjovens desta corrente, temos a 
história singular de um dos primeiros líderes do movimento. Chuck 
Smith, pastor de uma pequenina igreja Quadranguíar, Calvary Chapei 
(antes do avivamento ela tinha apenas 25 membros), em Costa Mesa, 
Califórnia. De acordo com Chuck Smith, tudo começou quando ele en­
controu um hippie cristão “transbordando com o amor de Deus”. Em
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
100
1969, através de um programa de evangelização nas ruas, doze hippies 
foram convertidos e aceitos na igreja, para horror dos membros mais 
velhos que não conseguiam entender o que estava acontecendo. Em dois 
frenéticos anos, Smith foi inundado com milhares de convertidos vin­
dos da culturahippie drogada que lotaram sua igreja para achar salva­
ção e libertação das drogas. Em poucos meses ele batizou cerca de 
15.000 convertidos nas águas do Oceano Pacífico. A seguir, temos uma 
comovente descrição de um desses batismos, extraída do mesmo artigo 
da revista “Time”:
Sob 0pôr-do-sol, várias centenas de convertidos entraram nas águas 
frias do Pacíftco, pacientemente esperando sua vez para a cerimônia Acima, 
nos morros, centenas mais assistiam. A maioría dos candidatos eram jovens, 
bronzeados e à vontade em bermudas cortadas de calçasJeans, camisetas e 
cúémesmoumocasionalbiquínL Umamoçarecém-batizada, pingando ágm 
de sua camiseta colorida e colada no corpo, atirou seus braços em tomo de 
uma mulher e gritou, “Mamãe, eu amo você!” Um ex-viciado, que vinha so­
frendo de freqüentes e inesperadas alucinações, de repente bradow “Meus 
horrores sefr)ram'"Enquanto o batismo terminam, a miMdâo vagarosamen- 
tesubiuumaestrettaescadariaemdireçãoaomorro,cantandoumcomovente 
PaiNossoaocairdatarde.
Smith foi obrigado a mudar sua jovem congregação para uma 
tenda com capacidade para 3.000 pessoas sentadas e, no fmal da década 
de 70, Calvary Chapei construiu um templo com 4.000 lugares, estiman­
do-se uma assistência de mais de 25.000 pessoas nos cultos regulares 
de domingo. Na metade da década de 70 as reuniões de jovens aos 
sábados à noite atraíam entre 4.000 e 5.000, e 2.500 compareciam às 
reuniões de estudo bíblico nas quintas-feiras à noite.
As reuniões de Calvary Chapei não tinham orientação carismática. 
Tinham somente uns poucos hinos tradicionais ou corinhos (geralmente 
sem instrumentos), nenhum erguer de mãos, nenhuma mensagem em 
línguas ou profecias, nenhum “cântico no Espírito”, nenhum grito de 
‘Amém”. Não havia coro (Smith disse que muitos problemas da igreja se 
originam com os membros do coro, e ele achava que toda a congregação 
devia ser um coro). Quase todo mundo levava sua Bíblia e fazia anota­
ções. Pessoas entrevistadas disseram que freqüentavam Calvaiy Chapei
0 Poder do Espírito Santo Entre os Jovens
101
principalmente por causa do ensino bíblico de Smith (que tinha o estilo 
de expor a Palavra versículo por versículo) e em parte por causa do 
amor que eles sentiam lá. Um outro líder do movimento, Cari Parks, 
disse na época que os jovens se juntarão a igrejas onde amor, propósito 
e ensino claro da Bíblia abundam e muitos pastores como Chuck Smith 
descobriram isto.
Centenas, provavelmente milhares, podem atribuir sua ascendên­
cia espiritual em Cristo a Ted Wise. Ele era um dos artistas boêmios 
que foram obrigados por pressões econômicas a sair do distrito North 
Beach, de São Francisco, e que se instalaram aos milhares em 1966 e 
1967 na vizinhança de baixa-renda de Haight-Ashbury, onde começou o 
movimento hippie caracterizado pela pregação da paz, uso de drogas e 
sexo livre. Wise, com seus vinte anos de idade e envolvido com proble­
mas conjugais, se tornou um cristão em 1966 depois de ler uma Bíblia 
extraviada que pertencia a um dos parentes de sua esposa. Ele e sua 
esposa começaram a freqüentar uma igreja batista no subúrbio de Mill 
Valley, São Francisco, mas não abriram mão de sua identidade cultural 
nem de seus amigos hippies. Dentro de meses, Wise levara seus amigos 
mais íntimos a Cristo. Eles se tornaram a primeira equipe do primeiro 
Café Cristão em Haight-Ashbury, aberto em 1967 por vários ministros 
evangéUcos da área. Por não receberem nenhum salário com o serviço, 
0 grupo realizava “bicos” para se manter. Como forma de economia, eles 
e suas esposas e filhos compartilharam uma casa velha e grande à qual 
deram o nome de “Casa de Atos” — uma das primeiras “Christian 
Houses”. Centenas de pessoas em dificuldades encontraram um lar tem­
porário na “Casa de Atos” e muitas delas também encontraram Cristo lá.
Arthur Blessit, um rústico evangelista que invadiu Sunset Strip 
(um centro de drogas e prostituição em Los Angeles), testemunhando 
nas ruas e bares para viciados, traficantes e prostitutas, também está 
entre os muitos líderes e evangelistas de rua que surgiram naqueles 
anos entre o Povo de Jesus. Ele se tornou um ministro hippie itinerante 
nos Estados Unidos e até hoje viaja por vários países, inclusive Brasil, 
evangelizando e carregando uma grande cruz pelas ruas das cidades 
onde se encontra. Junto com outros líderes ele também realizou muitas 
passeatas e festivais de música que converteram milhares de jovens.
Algreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
102
Uma das características do Movimento de Jesus foi que o evangelismo, 
até então feito por obreiros cristãos e pastores adultos, passou a ser 
realizado pelos jovens. 0 mesmo moço hippie que no último ano levara 
seus amigos para as drogas agora os levava para Jesus.
2. “Straight People” fPessoas Certinhas). Foi sem dúvida o maior 
grupo. Atuou principahnente nos campi universitários através de movi­
mentos de jovens evangélicos inter denominacionais. Embora esses mo­
vimentos existissem por décadas como um braço do Protestantismo, 
eles alcançaram um grande e novo crescimento com a Revolução de 
Jesus, tornando-se mais ecumênicos — uma força quase que indepen­
dente das igrejas que os geraram. A maioria dos jovens envolvidos per­
tencia à classe média americana e aos campi universitários. Ao contrá­
rio do “Jesus People”, eram bem trajados (daí o nome “Straight People”). 
Entre os principais líderes desta corrente temos Jack Sparks, um ex­
professor universitário e fundador da “Christian World Liberation Front” 
(CWLF), uma organização que se manifestava sobre problemas sociais, 
tomando parte em demonstrações, distribuindo grande quantidade de 
literatura, mas sempre apontando para Cristo em vigorosos apelos evan- 
gelísticos. Centenas foram convertidas através de seus esforços ex- 
pansionistas, e um programa constante de estudo bíblico e comunhão 
foi instituído pela CWLF Foi esta organização que pubhcou um dos 
primeiros jornais do Movimento de Jesus — o “Right On”. Outro líder 
destacado mundialmente é Bill Bríght, fundador da “Cruzada Estudan­
til para Cristo”, que trabalhou especialmente em escolas e faculdades.
Outro líder, convertido em 1969 quando o Movimento de Jesus 
estava em seu início na Califórnia e cujo ministério teve e ainda tem 
grande impacto entre osjovens, é o fundador das Igrejas Maranata, Bob 
Weiner. Desde o dia em que foi salvo lendo um livro de Don Basham 
numa biblioteca, ele começou seu ministério com jovens. No estaciona­
mento da biblioteca pregou para cerca de 65 adolescentes e de imediato 
27 aceitaram Cristo como seu Salvador
Desde então, por onde passava, mais jovens eram salvos. Nos 
anos que se seguiram ele começou um Café Cristão, serviu como pastor 
auxiliar e ministro de jovens nas Assemblé ias de Deus, viajou através 
da nação pregando nos campi de faculdades e estabeleceu uma socieda­
0 Poder do Espírito Santo Entre os Joœns .
103
de de estudantes de 1° e 2° Grau em Paducah, Kentucky. Foi através 
desta sociedade de estudantes que os “Ministérios de Campus Maranata” 
e as “Igrejas Cristãs Maranatas” surgiram.
A princípio ele e sua esposa, Rose, não queriam formar igrejas, 
mas Deus falou com ele profeticamente através de um irmão que ele 
teria que cuidar daqueles jovens, pois eles não conseguiam se adaptar 
às igrejas estabelecidas. Centenas de jovens foram convertidos através 
do ministério nos campi que se expandiu de três para oito e depois para 
quinze, alcançando numa época o número de 150. Eles pregaram o e v ^ 
gelho, organizaram estudos bíblicos e grupos de oração, fimdara 
jas e formaram muitos grupos musicais. Com o passar do tef 
sua esposa estabeleceram um escritório central em Gain6l^™e^ÍI0f ida, 
e no final da década de 80 tinham 70 congregações g n 22^^^^4laranata 
realizou congressos que atraíram mais de 5^0Q|í^ssQ^^m eçou uma 
publicação mensal, colocou uma equipe d^C®^kebk)ásxm ministério 
de tempo integral e lançou um prograpaaMlà^são via satélite.
Muitos outros m ov im en te^ ^ J ^ n s evangélicos surgiram na­
quela época, promovendo grande&raHcentrações em campi universitá­
rios, festivais de música e^jm seat^ que converteram milhares de jo ­
vens a Cristo. Alén3(4pst^k!d^ correntes principais — “Jesus People” 
e “Straight Peoptó^--^A^Io ecumênico do movimento atraiu também 
jovens católM ^SKècDstals e até judeus.
Algreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
as CLANDESTINOS EMUSICAROCK
Zenas de jornais clandestinos surgiram no Movimento de Je- 
í mais importantes foram “Hollywood Free Paper” (que alcançou a 
^aior circulação, 150.000, e foi reimpresso em seis grandes cidades), 
"Kignt un”, " irum ”, “Agape” e outros. n>sses jornais eram geralmente 
mensais e seus editoriais, testemunhos e caricaturas eram voltados para 
aqueles que estavam no mundo da droga. A falta de estrutura jornalística 
era compensada pela dedicação, compaixão e conhecimento íntimo da­
quilo que comunicavam, tendo sido muito úteis para espalhar as novas 
do Movimento de Jesus em outros lugares.
A música também teve papel importante no movimento. Foi com 
0 Movimento de Jesus que surgiu o controverso “rock evangélico” atra­
104
vés das conversões de grupos e cantores de rock que abandonavam as 
drogas e dedicavam seus talentos — e instrumentos — a Jesus. Suas 
novas músicas tinham como temas a morte de Cristo, sua suficiência 
para as necessidades da vida, sua segunda vinda e, principalmente, de­
safiavam outros a virem para Jesus. Os grupos e cantores individuais 
apresentavam-se em festivais (onde centenas de milhares de jovens que 
compareciam se entregavam a Cristo), em Cafés Cristãos, em ajunta­
mentos de rua, em assembléias de escolas, e em algumas igrejas. Entre 
os principais músicos podemos citar o popular cantor da corrente “Je­
sus People”, Larry Norman, que na época afirmou que “uma renascença 
espiritual está ocorrendo hoje. 0 Espírito Santo está na raiz disto... e 
os jovens estão expressando sua profunda alegria através da música 
rock”; e o artista e cantor Pat Boone que, em 1970, batizou mais de 200 
convertidos na piscina de sua própria casa.
REAÇÃO DAS IGREjAS
Em geral a reação das igrejas variou entre confusão, espanto, apre­
ensiva desaprovação e até declarada hostilidade a esta onda de fervor es­
piritual entre osjovens que abalava a ordem estabelecida das coisas. Um 
preocupado ministro escreveu a um outro ministro que apoiava o movi­
mento: “Há um ano incluímos um jovem clérigo em nossa equipe. Ele, por 
sua vez, encorajou um grupo de jovens a se tornar ativo em nossa igreja. 
Todos os rapazes têm cabelos compridos. Muitos freqüentam os cultos 
vestidos de jeans. Às vezes, se gostam do sermão, gritam Vai frrme!’ ou até 
mesmo aplaudem. Os membros mais velhos da congregação estão choca­
dos. Alguns têm saído, outros estão ameaçando sair se não demitirmos o 
jovem ministro e refrearmos a exuberância desses jovens. Nossa igreja 
está se tornando irremediavelmente dividida. Que devo fazer?”
Uma mãe escreveu a esse mesmo ministro suplicando: “Eu preci­
so desesperadamente de sua ajuda porque nosso filho de 18 anos se 
tornou um fanático. Ele carrega uma Bíblia para todo lugar e faz cita­
ções dela constantemente. Ele deixa a mim e a seu pai embaraçados ao 
saudar nossos amigos com slogans e perguntas religiosas. Nós costuma­
mos freqüentar uma Igreja, mas não podemos entender a obsessão de 
nosso filho. Por favor, fale-nos como lidar com Isto.”
0 Poder do Espirito Sanio Entre os Jovens
105
Estas duas cartas exemplificam a reação de muitos pastores e 
membros mais velhos das igrejas que não gostavam do fervor carismá­
tico (muitos dos jovens falavam em línguas) do movimento, de sua inter­
pretação simplista da Bíblia, sua música rock, sua aparente indiferença 
pela igreja institucional e sua falta de disciplina rígida. Mas centenas de 
outras igrejas — a maioria na Costa Oeste — se juntaram ao movimen­
to , sendo beneficiadas pelo seu calor e vitalidade.
Por outro lado, por não serem benvindos nas igrejas e por não se 
encaixarem em suas estruturas estabelecidas, muitas igrejas formadas 
essencialmente de jovens surgiram. Também, como sempre acontece, 
algumas seitas heréticas surgiram através do Movimento de Jesus. En­
tre elas estão os famosos “Meninos de Deus” que apostataram dos ensi­
nos de Jesus e entraram numa prática falsa de autoridade, amor e vida 
em comunidade.
CAPACTERÍSTICA5 DO MOVIMENTO
Vamos citar agora alguns trechos de uma palestra de Billy Graham, 
que viu o movimento como um “genuíno mover do Espírito de Deus”, 
proferida em agosto de 1971 no “Congresso Europeu sobre Evangeliza­
ção”, em Amsterdã. (Christianity Today, novembro, 1971).
Enquanto alguns dessesjovens olham para Jesus como “o primeiro hippie” 
ou “um herói revolucionário”, ou têm substituído uma “viagem com drogas” 
por uma “viagem com Jesus", milhares de outrosJovens têm tido uma verda­
deira experiência espiritual. Muitos deles estão devorando as Escrituras— 
um ex-”Black Panther” (Pantera Negra)já memorizou a maior parte do Novo 
Testamento. Uma grande quantidade de novos evangelistas estão surgin­
do. .. Há perigos. Há armadilhas. Há temores. E há críticas. Alguns dizem que 
é muito superficial e às vezes é verdade. Alguns dizem que é muito emocio- 
naleàs vezes o é. Alguns dizem que é alienado da igreja estabelecida e ás 
vezes 0 é. Mas mesmo na igreja primitivaforam encontrados íaisproblemas. 
Tenho tentado estudar este movimento e tenho achado louváveis caracte­
rísticas que se destacam:
1. 0 movimento até agora se centraliza na pessoa de Jesus Cristo. A 
revista “Look” declarou que “todos os cristãos concordam que Cristo é o 
grande denominador conwm do movimento”.
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
106
2. OMovimentodeJesiisébaseadonaBíblia.Arevista“Lífe”díz: “Esses 
novos cristãos vêem a Bíblia como a irrejutável e verdadeiraPahvra de Deus, 
que resolve todos seus problemas, do cósmico ao trivial”. Outra revista diz: 
“Bíblias abundam Desde as versões de capas mcds luxuosas até as de enca­
dernação mais simples, todas são invariavelmente bem manuseadas e fre­
qüentemente memorizadas. ”
3. A exigência de uma experiência com Jesus Cristo.
4. Osjovens deste movimento estão colocando uma ênfase renovada no 
Espírito Santo.
5. Os jovens têm achado uma cura para o vício das drogas, que tem de 
modo crescente escravizado os jovens da América.
6.AcontríbuiçãoqueomovimentoestúfazendopamasigrejasdaAmérica.
7. Uma ênfase no discipulado cristáo.
8. Evidência de responsabilidade social. 0 movimento é inteiramente 
inter-raciaL Mesmo em nossas cruzadas estamos vendo mais jovens negros 
do que há cinco anos atrás. Essesjovens estão resolvendo o problema de 
materialismo e deificação da tecnologia através de seu compromisso uns 
com os outros. Tem havido também um compromisso para ajudar resolver 
alguns dos problemas sociais de hoje. Todo tipo de novos projetos sociais 
estão sendo iniciados por esses novos cristãos...
9. Grande entusiasmo por evangelismo. Essesjovens vão para todo lugar 
pregando o evangelho—antros, cortiços, guetos, teatros, lojas de discos, 
até mesmo no submundo.
10. UmarenovadaênfasenasegundaviTKladeJesusCristo. Éreanimador 
ver um artigo de uma importante revista americana com o título “0 Novo 
Grito Rebelde —Jesus Está Voltando”, e ler “Existe umajirme convicção de 
que a segunda vindadeJesus está literalmente próxima".
Ainda poderíamos acrescentar outra característica do movimento: 
vida em comunidade. Havia um entusiasmo nos jovens em compartilhar, 
cultuar e crescer juntos. Um artigo na revista “Christianity Today” expres­
sou 0 seguinte: “Para esses novos cristãos não existe no nível pessoal a falsa 
dicotomia do evangelho social e do evangelho bíblico. Eles amam uns aos 
outros e mostram isto com uma mão estendida ou uma refeição”.
Centenas de “Christian Houses” foram abertas naquela época na 
Costa Oeste dos EstadosUnidos. 0 já mencionado artigo da revista 
“Time” fez a seguinte descrição de uma delas:
0 Poder do Espírito Santo Entre os Jovens
107
Embora sejam diferentes umas das outras, todas elas insistem que dro­
gas e sexo pré-marital são proibidos, e muitas têm regras bem rigorosas: 
levantar cedo e deitar por volta de 10 ou I I horas, tarefas determinadas, 
uma certa quantidade de leitura bíblica obrigatória e reuniões de oração. 
Mesmo assimgeralmentesão lugares alegres. Æ vozes são calmas, as pala­
vras que ocorrem são “amor”, “bênção”, “oSenhor”,”compartilhar”, “paz”e 
“irmãos e irmãs”... Os homens da comunidade trabalham na construção e 
pintura de casas para pagar as contas, mas o principal objetivo da casa é 
estruturar as vidas dentro dela ao redor de Cristo. Uma das mulheres descre­
ve 0 sucesso deste esforço de maneira simples: “Quando cheguei aqui pela 
primeira vez, não corúiecia Jesus. Mas aconteceu que eu cresci Eu acho que 
creio agora”.
CONCLUSÃO
0 Movimento de Jesus é um bom exemplo de um avivamento 
rápido, forte e sobrenatural, mas sem a presença de qualquer elemento 
de reforma. Surgiu na hora mais escura da juventude americana, cuja 
revolta contra a guerra no Vietnã e o “status quo” produziu duas reações
— tomar drogas ou voltar-se para Jesus. Deus mais uma vez quebrou 
as regras e agiu de forma soberana e surpreendente no meio de uma 
geração que fora constantemente acusada de envolver-se com sexo, dro­
gas e violência. Foi um mover tão imprevisível quanto fora o derrama­
mento do Espírito Santo sobre os católicos. A guerra do Vietnã passou, 
como também o próprio avivamento, mas a colheita não foi perdida. 
Grande parte dela está presente nas grandes igrejas carismáticas organi­
zadas durante as décadas de 70 e 80. Muitos dos líderes do Movimento 
de Jesus se engajaram em algum tipo de serviço cristão e identiflcaram- 
se com uma igreja organizada. Outros, como Bob Weiner, se Juntaram 
ao Movimento de Discipulado que trataremos no capítulo 9.
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
108
C a p ítu lo 8
OMOVIMENTODEDISCIPULADO 
NAARGENTINA
Grande parte do conteúdo deste capítubfoi baseada no livro “Tiempos 
de Restauracíón” de Orville Swindell e em entrevistas com Jorge 
Himitiaa
COMO COMEÇOU
0 Movimento de Discipulado na Argentina foi fruto de um aviva­mento que começou em 1967, em Buenos Aires. Albert Darling, filho argentino de um cristão irlandês, e executivo do departa­mento de marketing da Coca-Cola Export Corporation, foi batizado no 
Espírito Santo e começou uma reunião de oração toda segunda-feira em 
sua casa com xun grupo de uns vinte irmãos. À medida que se reuniam 
para orar por um avivamento nas igrejas da Argentina, irmãos de várias 
denominações começaram a ser cheios do Espírito e o grupo de oração 
cresceu de tal forma que logo se tornou impossível continuar reunindo­
se naquela casa. Alugaram um salão que também ficou pequeno e o mes­
mo aconteceu com um grande templo colocado à disposição deles, obri­
gando-os a mudar o grupo de oração para um teatro com capacidade 
para 1.500 pessoas.
A maior parte dos irmãos pertencia aos Irm ãos Livres (inclusive 
0 casal Darling), mas havia também batistas, menonitas, membros da 
Aliança Cristã e M issionária, da União Evangélica da Am érica do 
Sul e irmãos de grupos independentes. Predominavam nas reuniões a 
oração, a adoração e o amor uns pelos outros, e havia grande expectati-
109
va por coisas maravilhosas do Senhor. Os incrédulos que passavam em 
frente ao teatro entravam para ver o que Deus estava fazendo. A presen­
ça do Senhor os convencia de tal maneira que caíam com o rosto em 
terra. Outros sentiam as algemas e correntes do pecado caindo de suas 
vidas, enquanto entravam na presença do Senhor, e outros ainda eram 
curados.
Como resultado deste mover, cerca de uns dez pastores, partici­
pantes regulares das reuniões, começaram a encontrar-se todo sábado 
para desenvolver um relacionamento mais íntimo. Com o tempo este 
número chegaria a cerca de 25 líderes, mas entre esses os que mais se 
destacaram foram: O rville Swindoll, missionário americano na Argen­
tina desde 1959 e estabelecido em Buenos Aires desde 1967; Keith 
Bentson, missionário americano na Argentina desde 1958 e estabeleci­
do em Buenos Aires desde 1965; Ivan Baker, argentino de descendên­
cia inglesa e líder numa igreja dos Irm ãos Livres; Jorge H im itian, 
armênio nascido em Haifa, Palestina, cuja família se radicou na Argenti­
na quando ele era um garoto de 7 anos; e Juan Carlos Ortiz, pastor 
argentino das Assem bléias de Deus. Foram principalmente esses ho­
mens que delinearam os princípios deste movimento na Argentina.
0 SEN HORIO DE CRISTO E O EVANGELHO DO REINO
Em 1968 Jorge Himitian começou a compartilhar com seus cole­
gas a revelação que estava tendo na Palavra sobre o senhorio de Cristo. 
Em resumo, ele começou a questionar os sermões evangélicos que pre­
gavam a aceitação de Jesus Cristo como Salvador para obter perdão de 
pecados e deixavam o reconhecimento de Jesus como Senhor para um 
eventual momento de crise. Ao estudar as Escrituras percebeu que a 
palavra saíuador só aparecia umas poucas vezes, ao passo que a palavra 
senhor áparecia mais de trezentas vezes. Descobriu que para os primei­
ros cristãos 0 termo “senhor” (kurios, em grego) significava dono, sobe­
rano, uma pessoa com grande autoridade, mais particularmente, na épo­
ca, 0 imperador romano. Dirigir-se a uma pessoa como senhor implica­
va compromisso, sujeição e submissão a essa pessoa, assumindo a posi­
ção de servo. Todo escravo do primeiro século encarava o desejo do 
seu senhor como uma ordem, mas a tendência do Cristianismo atual era
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
110
raciocinar e argumentar com o Senhor, em vez de obedecer sem reser­
vas. A rendição dos cristãos primitivos ao Senhor Jesus foi total a pon­
to de pagarem com suas vidas a sua lealdade a Cristo. Diante disso, o 
cristão hoje deveria arrepender-se de seu pecado de rebelião e indepen­
dência e reconhecer a Jesus Cristo como Senhor, colocando-se sob seu 
governo, submetendo-lhe sua vida sem reserva, como servo obediente. 
Fazendo isto, tornamo-nos sua propriedade, seu povo, sua possessão, e 
ele nos molda ã sua própria imagem para sermos instrimientos efetivos 
para cumprir seu propósito eterno, por meio do Espírito Santo que 
habita em nós.
Assim surgiu a mensagem do “evangelho do reino de Deus”, que 
relacionava o senhorio de Cristo com a experiência de salvação. Em 
1968 Himitian expôs por vários domingos esta mensagem e Juan Carlos 
Ortiz foi 0 primeiro a pedir que a mesma série fosse dada em sua con­
gregação. Logo Himitian estava pregando o evangelho do governo de 
Deus, que deveria ser praticado aqui e agora, em várias cidades da 
Argentina. Mais tarde esta mensagem foi mais elaborada e cópias em fita 
cassete foram distribuídas. No ano de 1974 a série completa foi impres­
sa com 0 título “Jesus Cristo é o Senhor’’. Basicamente a mensagem do 
evangelho do reino se dividia em três pontos principais: 1. Jesus como 
Senhor de nossas vidas; 2. Jesus como Senhor da igreja; e 3. Jesus 
como Senhor do universo.
A IDÉIA DE DISCIP U LADO
Embora o grupo de pastores que se reuniam aos sábados de manhã 
e conduziam as reuniões de segunda à noite obtivesse consideráveis 
resultados evangelísticos, começaram a buscar uma forma descomplicada 
e não dispendiosa de conservar os frutos e edificar a igreja. De acordo 
com Orville Swlndoll, a resposta “teria de ser simples e prática, aplicá­
vel em qualquer situação: tanto entre pobres como entre ricos, em tem­
pos de perseguição ou de liberdade, em meio a um avivamento espiritu­
al ou em novos campos de trabalho, entre profissionais ou operários.”
Ivan Baker e Swlndoll tinham tido contato com os “Navegantes” , 
um movimento evangélico mterdenomlnacicnal Iniciado nos EUA entre 
os marinheiros durante a Segunda Guerra Mundial, cujos propósitos0 Movimento de Discipulado na Argentina
111
eram a evangelização e o treinamento de novos convertidos. Eles 
enfatizavam o estudo e a memorização de textos bíblicos e o trabalho 
pessoal de acompanhamento e discipulado. Foi especialmente Ivan Baker 
quem viu as tremendas possibilidades do plano dos “Navegantes”. Con­
sistia de um cristão ganhar e treinar uma outra pessoa no espaço de um 
ano, e logo os dois repetiriam o processo sucessivamente. Ao fim de 
dois anos haveria quatro, em três anos oito, em quatro anos dezesseis, 
e assim por diante. Ele viu que o crescimento numérico seria lento no 
princípio, mas, ao cabo de dez anos, haveria mais de mil novos crentes 
e em vinte anos haveria um mühão, e em trinta anos um bilhão. E, além 
disso, 0 plano poderia ser facilmente ensinado sem exigir equipamentos 
especiais, dinheiro ou demasiado tempo livre.
Ao estudar os Evangelhos, Baker viu que o método de Jesus para 
treinar e enviar os discípulos era simples e sem sofisticação. Eis as 
lições essenciais que descobriu nos quatro Evangelhos:
Ij Jesus deu de si mesmo mais do que deu sermões.
2) Jesusfoi até as pessoas; não pediu que viessem a ele para escutá-lo.
3) Ele aceitou as circunstâncias tais como eram- à tieira-mar, na montanha, 
no poço, nos lares etc. Seus maiores pronunciamentosforam em meio às 
circunstâncias mais simples.
4) Somente buscou aqueles que estavam com fomeesede de justiça.
5) Fez uma seleção dos seus discípulos. Nuncaprocurou segurar aqueles 
que desejavam deixá-b. Mais tarde, envbu aqueles que havia selecbna- 
do em missões específicas.
Q Ele levou somente três anos paraformar doze apóstolos.
7j Os discípulos estavam aparentemente sem preparação quando ele os 
enviou. Obviamente, ele dependia do Espírito Santo para completar o 
trabalho necessário neles.
Porém, ao expor para sua congregação essas condições básicas 
estabelecidas por Jesus para o discipulado, Ivan ficou frustrado e decep­
cionado. As pessoas estavam acomodadas e acostumadas a ter líderes 
sobre si, fazendo o trabalho de evangelismo e edificação. Não queriam 
assumir a responsabilidade pessoal por outros para produzir um 
evangelismo mais eficaz. Sendo assim, ele e sua esposa fizeram algo radi­
cal. Sem informar sua congregação, começaram a evangelizar os vizinhos
A Igreja do SéculoXX -A História que Não Fbi Contada
112
do bairro usando os princípios de discipulado que ele descobrira nos 
Evangelhos. Logo surgiu um pequeno grupo reunindo-se para tomar chá 
jvmtos, para orar bem cedo de manhã, para estudos bíblicos e para buscar 
conselho pastoral. Freqüentemente, nos domingos pela manhã, eles se 
reimiam e logo saíam para evangelizar. Depois de seis a oito meses tinham 
um grupo estável de umas doze pessoas. Durante todo este tempo ele 
continuara em vão tentando reorientar sua congregação de acordo com o 
plano acima mencionado, mas, mesmo assim, os resultados obtidos com 
este grupo o convenceram de suapraücidade. Foi então que resolveu apre­
sentar 0 grupo ã igreja na reunião geral do domingo à tarde.
Ao ver novas pessoas chegando, os irmãos pensaram que final­
mente alguns da redondeza estavam mostrando interesse no evangelho. 
Quando Ivan apresentou os novos convertidos e como ele e sua esposa 
os haviam ganho, a congregação ficou envergonhada, pois viu que esses 
“meninos em Cristo” estavam bem orientados e espiritualmente cresci­
dos, e que alguns deles já haviam levado seus parentes e amigos a Cris­
to. Ao terminar a reunião, um dos presbíteros veio a Ivan, confessou sua 
dureza de coração e sua vergonha e disse: “Diga-nos como fazer, Ivan. 
Estamos dispostos a obedecer.”
Ivan percebeu que não poderia assumir este plano sozinho. Viu 
que teria de preparar homens que por sua vez preparariam outros e 
assim por diante. Por três meses treinou seus presbíteros e depois divi­
diu todos os membros da congregação que estavam dispostos a traba­
lhar em três grupos sob a autoridade dos três presbíteros. Alterou tam­
bém a estrutura tradicional da igreja, pois viu que o excesso de reimiões 
não deixava tempo para se fazer discípulos.
Durante o ano de 1968 Ivan Baker e Jorge Himitian estiveram 
compartilhando com o grupo de pastores seus pensamentos e descober­
tas sobre o senhorio de Cristo, o evangelho do reino de Deus, e como 
fazer discípulos. Mas foi através de Juan Carlos Ortiz que essas verda­
des se tornariam mundialmente conhecidas.
A EXPERIÉNCIADE ORTIZ
Alguém afirmou haver três tipos de pessoas que se destacam nos 
movimentos da história da igreja: o teórico, o pragmático e o articulador
0 Movimento deDisdpulado naArgentina
113
Referlndo-se ao que estava acontecendo na Argentina, Orville Swindoll 
definiu Jorge Himitian como o teórico ou teólogo, Ivan Baker como o 
pragmático e Juan Carlos Ortiz como o articulador. Com sua mente 
brilhante e a capacidade incomum de comunicar as verdades que esta­
vam no seu coração, Ortiz se tornou na década de 70 o porta-voz do 
Movimento de Discipulado na Argentina. Foi um dos primeiros a se 
tornar plenamente convencido da validade e atualidade das verdades 
que estavam sendo descobertas e a colocá-las em prática em sua igreja.
Mesmo sendo pastor de uma próspera igreja pentecostal em Buenos 
Aires, que devido ao seu intenso trabalho e de sua esposa crescera de 180 
para 600 membros, ele não estava satisfeito e decidiu retirar-se da cidade 
por uma semana para buscar o Senhor Foi então que ouviu Deus falar-lhe: 
‘Juan, onde está o meu dedo em tudo isto?... Vocês não estão crescendo, 
estão apenas engordando. Vocês apenas têm mais pessoas do mesmo üpo. 
Havia 200 sem amor, depois 300,500 e agora 600 todos sem amor Mais 
do mesmo tipo... não crescendo... engordando... Sua igreja não é uma 
igreja; é um orfanato. Ninguém tem pai; todos são órfãos e você é o diretor 
do orfanato. Aos domingos você enche uma garrafa de leite e diz: ‘Agora 
abram suas bocas’. E você pensa que está alimentando seu povo.”
Por meses então ele pregou sobre o discipulado, o evangelho do 
reino e o senhorio de Cristo em sua igreja. Um dia viu que era hora de 
mudança. Eis com suas próprias palavras um pouco da sua experiência:
Umdia, lendo o Fhangelho segundo Mateus, vique Jesus disse que todas 
as multidões eram como ovelhas sempastor, e ele escolheu doze discípulos. 
Disse para mim mesmo: “É tempo de mudar ”Eu tinha uma congregação 
parecida com um clube. Era como um orfanato eeu era o Reverendo Juan 
Carlos Ortiz, diretor do orfanato. Quando compreendi isto, decidi começar 
uma nova igreja subterrânea em minha casa. E Joãozinho roubou um grupo 
de membros do Reverendo Ortiz e começou a discipulã-bs. Eu era Joãozinho. 
Nesta nova estrutura não precisava mais ser um “reverendo”. Apenas 
Joãozinho. Você sabe por quê? Clubes sãqfundamentados em pretensão e 
prestígio humanos. A verdadeira igreja éjimckmientada em Jesus. Se nós o 
chamamos peb seuprimeiro nome, por que não a mim?
Então dei minha vida a esses discípulos. Trabalhei com eles. Fbmos para 
0 campoJuntos. Vivemosjuntos. Comemosjuntos. Eu abri minha casa para
A Igreja do Século XX -A História que Não Fbi Contada
114
eles. Eles vieram dormir em minha casa... Nós nos tornamos como uma 
família. E depois de seis meses, mais ou menos— nãofoi de um dia para 
outro— essas pessoas estavam tão mudadas que todo o orfanato notou 
isto...Aspessoasiamaelesparaoraçõoeconselho. E, depois de seis meses, 
eu lhes permiti roubar outros membros da igreja do Reverendo Ortiz —para 
fazer deles discípulos. Sets meses mais tarde, esses tambémforampermiü- 
dos roubar mais membros. Levou quase três anos, mas finalmente todos os 
membrosforam roubados e o orfanatofoi transformado numafamília.
Duranteessetempopessoasestavamsendosalvasnospequenosgrupos 
celulares. Cada um de meus discípulos se reunia com seu grupo celular. 
Novas pessoas vinham para as células, mas nós proibimos os líderes de 
célulasdetrazê-lasparaalgrelaporqueexpô-ktsaovelhoclubecongr^acional 
as estragaria. Além domais, estávamos tentando acabar com a velha estru­
tura, não alargá-la
Cada um de meus discípulos tinha um grupo num ponto diferente da 
cidade... Estas células podiam reunir-se em casa, numparque, num restau­
rante, napraia emqualquerlugareaqualquerhora...Aospoucos,portanto, 
descobrimos o que um “membro de igreja" realmente é:
Primeiro, um membro de igreja é dependente do resto do corpo. Ninguém 
vê um nariz andando pela rua sozinho. O corpo precisa estar todo interliga­
do, como um só bloco. Segundo, um membro é umaparte do corpo que une 
duas outras partes. Terceiro, um membro é alguém que nutre. Ele recebe 
n u tri^ parasi mesmo e passa nutrição para outros membros submissos a 
ele. Quarto, um membro sustenta aqueies que estão acima dele. E quinto, os 
membrospassamoTdens.Acabeçaordenaamão, mas aordemé transmitida 
através de outros membros.
Ortiz preparou cursos de estudos para usar nas sessões de trei­
namento com seus líderes. Pouco a pouco esses estudos foram 
mimeografados, corrigidos e impressos, e os líderes começaram a usar 
0 mesmo material para ensinar a seus grupos pequenos. A produção 
quase constante de novos materiais, além dos ensinamentos dados nas 
reuniões de segunda à noite e de sábado com os pastores produziu farto 
material que serviu de base para a publicação de vários livros. Seu 
primeiro livro em inglês “Call to Discipleship” (Chamado Para Discipu­
lado) foi escrito juntamente com Jamie Buckingham (famoso autor e 
ministro cristão carismático) a partir de seus ensinamentos numa con-
OMovimenlo de Discipulado naArgentina
115
ferência nos EUA. Foi traduzido para varias línguas e teve grande im­
pacto para espalhar os ensinamentos sobre o senhorio de Cristo e o 
discipulado.
Os anos de 1972 e 1973 foram uma época de muita divulgação da 
palavra que os irmãos em Buenos Aires tinham recebido. Muitos pasto­
res e líderes de outros países latino-americanos e dos EUA foram até a 
Argentina para conhecer os irmãos e para assistir aos encontros que 
começaram a promover. Além disso, os pastores de Buenos Aires co­
meçaram a viajar para outros países para pregar em encontros e confe­
rências.
Em janeiro de 1973 houve um grande encontro em Porto Alegre 
promovido pelos batistas renovados e Ortiz, Swindoll, Bentson e Baker 
estiveram lá como preletores. Tanto nas reuniões gerais com assistência 
de 6.000 a 7.000 pessoas (de toda parte do Brasil), quanto nas reuniões 
especiais com pastores, o impacto da palavra de Ortiz foi marcante. 
Numa das noites do encontro, enquanto Ortiz dirigia o louvor, após 
ensinar o corinho “Ao que está assentado no trono, e ao Cordeiro...”, 
parecia que o mesmo espírito de adoração que movera tão fortemente 
na Argentina, pousou por alguns momentos sobre a congregação, dando 
uma amostra aos brasileiros deste ambiente celestial.
A partir deste encontro, muitos pastores tomaram conhecimento 
do que Deus estava fazendo na Argentina e começaram a viajar para lá 
para assistir aos encontros e conhecer melhor a mensagem. Muitos mi­
nistérios foram transformados e não conseguiram mais se encaixar em 
suas igrejas e denominações tradicionais, começando a tentar colocar 
em prática os princípios do discipulado.
A ÊNFASE SOBRE A U N IDADE DA IGRE) A
Desde o princípio, o mover do Espírito Iniciado em 1967 em 
Buenos Aires e que resultou nas ênfases sobre o evangelho do reino, o 
senhorio de Cristo e o discipulado, ultrapassou barreiras tradicionais e 
denominacionais. Como já vimos, pastores de várias denominações se 
reuniam aos sábados e suas igrejas às segundas à noite; e os principais 
entre eles viajaram por toda Argentina e por vários países promovendo 
um ministério itinerante em igrejas, acampamentos, conferências, esco-
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
116
las bíblicas e seminários para pastores e líderes. Foi neste contexto que 
surgiu a ênfase sobre a unidade da igreja.
Foram Jorge Himitian e Orville Swindoll, que viajavam muito 
Juntos, que tiveram um interesse especial pelo assunto, pois entende­
ram que para aquele despertamento que estava acontecendo na igreja da 
Argentina continuar, ele não poderia ser limitado apenas a um contexto 
denominacional. Era preciso proclamar com intrepidez a unidade de 
todo 0 povo de Deus. 0 Espírito Santo não tinha Interesse em edificar 
estruturas denominacionais, mas a igreja, o corpo de Cristo. A morte 
de Jesus havia destruído a inimizade entre Deus e nós, e também entre 
nós mesmos e nossos irmãos em Cristo.
Swindoll incentivou Himitian a estudar o assunto de unidade da 
igreja nas Escrituras e apresentar uma mensagem sobre o tema nas 
reuniões de segunda à noite. Um fator que os encorajou a prosseguir 
nesta pesquisa foi a visita em 1969 de Arthur Wallls (um conhecido 
autor e conferencista mglês de grande maturidade que enfatizava o avi­
vamento), que ministrou sobre o livro de Neemias. Através de sua men­
sagem sentiram confirmação sobre as condições essenciais para recons­
truir os muros e assim definir a verdadeira característica da cidade de 
Deus. Acima de tudo o espírito sectário deveria ser quebrado, pois só 
servia para distrair e atrasar a edificação dos muros.
Em abril de 1969 Jorge Himitian deu sua primeira mensagem so­
bre a unidade da igreja numa reunião de segunda à noite. Enfatizou espe­
cialmente Efésios 4, sublinhando os seguintes conceitos sobre a igreja; (1) 
que a verdadeira configuração da igreja local abrange a totalidade dos 
redimidos de uma cidade; (2) que nesta mesma área Deus deu à igreja 
dons e ministérios, os quais devem ser reconhecidos por todos os cristãos 
ali e exercidos em unidade para a edificação de toda a comunidade.
Para ilustrar estes conceitos, ele mostrou que na igreja de Jeru­
salém todos os apóstolos ministravam a todos os santos. Devido em 
parte à enorme quantidade de cristãos ali, a vida em comunidade en­
controu sua expressão prática em dois níveis: (1) todos juntos e (2 ) nas 
casas, certamente em grupos pequenos. Os apóstolos não dividiram os 
convertidos em doze grupos diferentes, mas conservaram a prática da 
unidade do Espírito.
0 Movimento de Discipulado naArgenima
117
Este foi 0 início da ênfase sobre a unidade do corpo de Cristo 
que se espalhou pela igreja na Argentina, a ponto de mais tarde ocorrer 
a fusão de algumas congregações, e que também encontrou ressonância 
em vários países, inclusive o Brasil.
NÃO SÓ AVIVAMENTO, MAS FAMÍLIAS 
E NORMALIDADE
As várias ênfases que temos visto mostram que os irmãos da 
Argentina não estavam interessados apenas em avivamento, mas em re­
formar a estrutura da igreja. Swindoll insistiu em suas conversas com 
os pastores para que a base das congregações fosse concentrada em 
famílias. Em lugar de ver osjovens solteiros como únicos candidatos 
promissores a líderes, mais atenção deveria ser dedicada a homens que 
fossem cabeças de famílias para que houvesse famílias estáveis. Ele com­
preendeu que, se a vida em família fosse valorizada, a formação dos 
filhos e dos jovens e também dos novos cristãos seria mais exeqüível e 
coerente. Por isso, a ênfase crescente através dos anos no núcleo famili­
ar — que é a unidade básica tanto da igreja como da sociedade — fez 
com que as congregações passassem a ser caracterizadas pela sua com­
posição baseada em famílias.
Outra convicção dos irmãos, defendida principahnente por Keith 
Bentson e Juan Carlos Ortiz, era que sua preocupação maior não fosse 
buscar um avivamento, mas buscar a normalidade. 0 propósito de Deus 
em nos redimir é para normalizar nossas vidas. Segundo Bentson, Deus 
criou 0 homem na terra para levar uma vida santa e normal, para traba­
lhar, servir aos outros, e criar uma família. Se isto era a ordem e vontade 
de Deus para a criação, então a redenção deveria restaurar-nos ao mesmo 
nível de vida. Portanto, os irmãos concluíram que o Espírito os estava 
movendo a buscar imia volta à normalidade e não mn mero avivamento. 
Deveriam concentrar-seem tomar-se aqueles homens, mulheres, pais, es­
posas, maridos, empregados, profissionais e cidadãos que Deus os havia 
destinado a ser pela criação e redenção. Se houvesse algo mais, algo espe­
tacular, isto seria uma prerrogativa de Deus. 0 aspecto pragmático das coi­
sas seria responsabilidade deles, e deveriam adotar uma atitude de fé e 
obediência, caminhando cada dia no Espírito.
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
118
Resumindo, de acordo com uma mensagem de Ortiz em outubro 
de 1969,0 propósito de Deus não era apenas salvar almas, mas salvar 
homens. 0 evangelho de hoje é deficiente, pois procura só a salvação 
das almas, mas o evangelho do governo de Deus deve reorientar com­
pletamente a vida e conduta dos verdadeiros discípulos de Cristo, e os 
reunir numa comunidade de santos, onde aprendem a viver e a traba­
lhar com integridade, onde manifestam o amor, a graça e a verdade de 
Deus na vida diária.
PROBLEMAS E CONFLITOS
Como sempre acontece num novo mover de Deus, os irmãos de 
Buenos Aires enfrentaram problemas e conflitos exteriores e interiores. 
No primeiro caso foram acusados de muitas coisas: de serem excessiva­
mente “pentecostais”, “espiritualistas”, de promulgarem “falsas doutri­
nas”, de “ecumenismo”, “ladrões de ovelhas” etc.
Mas 0 conflito mais sério que enfrentaram foi entre eles mesmos 
com um dos líderes mais proeminentes do grupo — Juan Carlos Ortiz. 
Este discordou da posição tomada pela maioria do grupo de disciplinar 
um pastor que cometera pecado sexual, proibindo-o de exercer ministério 
público por um determinado tempo. Ele defendia a posição de que, quan­
do um pastor comete pecado e sinceramente se arrepende, por mais grave 
que seja sua falta, o sangue de Cristo o limpa de todo pecado e Deus se 
esquece totalmente de sua falta. Sendo assim, não há mais motivo nenhum 
para desqualificá-lo para o ministério. Apesar de concordarem com o con­
ceito do perdão de Deus, os outros irmãos ficaram preocupados com a 
confusão, leviandade e imoralidade que se criaria nas igrejas, se pastores 
e líderes surpreendidos em fornicação e adultério pudessem continuar 
ministrando só pelo fato de se declararem arrependidos.
Outra questão que causou tensão entre Ortiz e os demais mem­
bros do presbitério em Buenos Aires envolvia pontos de vista discor­
dantes sobre o nível de autoridade que o presbitério deveria ter sobre o 
seu ministério itinerante, Estes problemas levaram à separação de Ortiz 
do presbitério, e ele acabou mudando para os EUA.
0 desenrolar desta crise ocorreu durante o ano de 1974 e início 
de 1975 e, segundo Swindoll, “em todos os anos que temos estado jun­
0 Movimento de Discipulado na Argentina
119
tos, nada nos tem causado mais preocupação e desassossego que este 
assunto” (os problemas com Ortiz).'^Em maio de 1975, Bob Mumford 
foi a Buenos Aires para ajudar a resolver a situação e acabou aproveitan­
do a viagem para ministrar em outras áreas.
Apesar desta experiência ser muito dolorosa, segundo Swindoll, 
no fmi houve resultado positivo para a igreja em Buenos Aires. Vejamos 
mais uma vez o que ele diz: “0 laço de unidade entre os pastores foi 
duramente provado, mas se manteve firme, com exceção do colega men­
cionado (Ortiz). No meio do ano de 1975, a atmosfera era clara outra 
vez; os relacionamentos entre os pastores, como também entre eles e os 
homens responsáveis em suas congregações, eram muito mais precisas; 
e nossas metas se haviam defmido com clareza. A neblina havia se levan­
tado e começávamos a enxergar melhor” '̂
diferenças entre os m o v im e n t o s 
DAARGENTINAEDOS EUA
Como já mencionamos, os anos de 1972 e 1973 foram de muita 
proclamação e expansão da visão do discipulado através de viagens e 
conferências. Em 1974, porém, começaram a surgir problemas tanto na 
Argentina quanto nos EUA. Na Argentina surgiram os problemas menci­
onados acima. Nos EUA a mensagem do discipulado causou uma explo­
são semelhante à que seria produzida atirando-se um fósforo num de­
pósito de gasolina. Inicialmente parecia ser a resposta ideal para a ca­
rência que milhares de carismáticos sentiam de disciplina, aliança e 
desenvolvimento em maturidade. Devido a vários fatores, porém (como 
0 entusiasmo dos americanos em aplicar idéias novas em grande escala, 
pessoas imaturas ocupando posições de autoridade, ênfase exagerada 
na cadeia de comando dentro do discipulado, “embriaguez” com os 
fantásticos sucessos iniciais em termos da expansão numérica do movi­
mento levando à arrogância, e a tendência natural das igrejas atoladas 
no “status quo” de atacarem qualquer movimento revolucionário), logo 
surgiu um grande conflito entre os carismáticos com muitas acusações, 
difamações, mentiras e exageros.
Dada esta situação nos EUA, os irmãos na Argentina acharam 
mais sábio deixar de viajar por um tempo e dedicar-se mais à prática
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFoi Contada
120
local. Depois puderam constatar que esta decisão foi de muita valia para
0 desenvolvimento prático da visão. Perceberam que a visão do 
discipulado ainda estava numa fase experimental quando fora divulgada 
nos EUA e em outros lugares e que muitos ajustes precisavam ser feitos. 
Devido à natureza mais desconfiada do povo argentino, o sistema de 
discipulado expandia mais lentamente do que nos EUA, e isto foi bom 
porque deu tempo de evitar extremos e desequilíbrios e, conseqüente­
mente, escândalos e polêmica.
Outra diferença entre o movimento na Argentina e nos EUA foi a 
ênfase que os pastores em Buenos Aires deram à xmidade entre todos os 
pastores em cada cidade, o que não era o caso nos EUA, onde havia 
cadeias distintas de autoridade e submissão na mesma cidade.
CONCLUSÃO
Se você já leu nosso livro “A História do Avivamento na Argenti­
na” ou outra literatura sobre o assunto, certamente concordará que a 
Argentina tem sido visitada por Deus com avivamentos multo expressi­
vos. 0 Movimento de Discipulado, porém, que acabamos de descrever, 
representa algo diferente. É verdade que começou como um verdadeiro 
avivamento a partir das reuniões de segunda-feira na casa de Albert 
Darling, que acabaram produzindo as reuniões de sábado dos diversos 
pastores que, mais tarde, foram usados por Deus para conduzir o movi­
mento. Entretanto, rapidamente ultrapassou as características de um 
avivamento, tornando-se um dos movimentos de reforma mais signifi­
cativos do século XX.
Segundo uma mensagem que Jorge Himitian ministrou num en­
contro naArgentina, em 1974, há três características da obra de Deus 
no mundo que provam que não é apenas avivamento que Deus deseja, e 
sim uma total restauração da igreja: 1) O Espírito Santo não está restau­
rando verdades isoladas, e sim recuperando o conjunto completo da 
verdade de Deus e do seu propósito; 2) Não está havendo movimentos 
locais ou isolados, e sim uma renovação universal que está ocorrendo 
em nossos dias; 3) Não se trata de uma simples recuperação de concei­
tos ou teorias, e sim de que o Senhor está movendo para levantar um 
povo para sl, capaz de encarnar estas verdades. Isto significa que, mais
0 Movimento de Discipulado naArgentina
121
que crer ou anunciar uma verdade, o Senhor quer levar-nos à necessi­
dade de experimentá-la e encarná-la.
Com certeza, os irmãos naArgentina não alcançaram uma restau­
ração plena da doutrina e prática apostólica, e eles seriam os primeiros 
a concordar com isto. No epílogo do livro “Tiempos de Restauracíón”, 
Orville Swindoll diz: “Humildemente cremos que temos uma contribui­
ção a fazer para o presente processo de restauração da igreja. Entretan­
to, reconhecemos que necessitamos das contribuições de outras partes 
da igreja que estão experimentando uma renovação espiritual.” '“*
Gostaríamos de sugerir aqui, em síntese, três deficiências bási­
cas que impediram a tentativa de reforma naArgentina de alcançar di­
mensões apostólicas, essenciais para a restauração total da igreja.1) A/alta da revelação da graça de Deus. Jesus não pregou so­
bre a graça. Ele proclamava palavras duras! Mas ele era a graça de Deus. 
Se quisermos obedecer aos mandamentos de Jesus, teremos de entender 
e aceitar sua graça. Não é possível formar discípulos ou obedecer à Palavra 
de Deus nas nossas vidas sem ser através da pura graça de Deus, sem ne­
nhuma mistura de esforço humano (Rm 8:2-4; G15:4-5).
Apesar de os evangélicos, de modo geral, possuírem uma fé teó­
rica nesta graça, ninguém está demonstrando o poder de uma verdadei­
ra revelação dela na prática hoje. Os irmãos na Argentina, ao reagirem 
contra a “graça barata” tão predominante no meio evangéUco hoje, toca­
ram em pontos de equilíbrio vitais ao enfatizarem o senhorio de Cristo 
e os princípios do discipulado. Mas, para voltarmos à autêntica vida 
cristã demonstrada na primeira igreja, precisamos de algo mais do que 
isto. Necessitamos da revelação da graça de Deus no mesmo nível que 
os apóstolos (principalmente Paulo) receberam e proclamaram. Somen­
te graça pura levará à obediência pura!
2) A ausência de uma ênfase na verdadeira comunhão do 
Espírito Santo. Cremos que a comunhão entre o Pai e o Filho na Divin­
dade é 0 Espírito Santo, e que esta comunhão do Espírito forma o 
corpo de Cristo (I Co 12:13). Se dermos ênfase à obediência à Palavra 
por um lado, ou à liberdade no exercício dos dons do Espírito, por 
outro lado, sem cultivarmos assiduamente a comunhão no Espírito (que 
não é algo social ou superficial), teremos apenas um outro “movimento”,
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
122
com todas as limitações humanas, e não o corpo de Cristo. 0 Espírito 
Santo é uma pessoa, e ele precisa ter espaço em cada vida, relaciona­
mento e reunião. Não cremos que a obediência à Palavra de Deus ou a 
formação de discípulos será eíicaz sem este elemento da verdadeira 
comunhão (At 2:42; 2 Co 13:13; Fp 2:1).
Apesar de os irmãos naArgentina terem alcançado um admirável 
entendimento e prática do equilíbrio entre a Palavra escrita e o Espírito, 
mais uma vez notamos que falta algo para atingir a verdadeira doutrina 
apostólica. É possível escapar da rigidez e morte da letra e dos extremos 
e fanatismos do uso destemperado dos dons do Espírito e, mesmo assim, 
não alcançar a palavra viva (Hb 4:12). Não é suficiente misturar Moisés (a 
Palavra) e Elias (o Espírito) para produzir o evangelho. É necessário um 
terceiro elemento, Jesus (o evangelho encarnado — Mt 17:1-5).
Não dispomos de tempo ou espaço para discorrer sobre isto aqui, 
mas cremos que este terceiro elemento hoje tem a ver com a comunhão 
do Espírito Santo mencionado acima. Esta comunhão existe, em poten­
cial, no meio da igreja hoje, mas o problema é que por não ser enfatizada, 
reconhecida ou esperada, ela íica sem ação ou expressão. Estamos tão 
ocupados em estudar, interpretar ou pregar a Palavra ou em buscar e 
exercer os dons do Espírito que não sobra espaço ou tempo para nutrir 
e desenvolver esta comunhão.
3) A procura da unidazde do corpo de Cristo na base da união 
dos pastores na localidade. Se por um lado isto pode trazer muitos 
benefícios no sentido de quebrar barreiras denominacionais, orgulho, 
sectarismo etc., por outro lado pode cair no ecumenismo e no sacrifício 
da verdade em função da unidade. Apesar de precisarmos ser quebra­
dos em nossos preconceitos e “reinos próprios”, também precisamos 
tomar cuidado para não unirmos a igreja de uma maneira humana.
A verdadeira unidade do corpo de Cristo tem de ser centralizada 
na pessoa de Cristo. À medida que cultivamos a comunhão do Espírito 
eoespírito (nãoaletra) daPalavra(2 Co 3:6), o Cristo vivo se revelará 
em nosso meio (Mt 18:20) e sua igreja será formada em cada localidade
— um corpo, um Espírito, um Senhor (Ef 4:4-5).
Ao ressaltar, porém, estes aspectos que, ao nosso ver, constituem 
deficiências, não queremos de modo nenhum depreciar o significado
0 Movimento de Discipulado naArgentina
123
das contribuições positivas que o mover de Deus naArgentina tem para 
nos oferecer. Em primeiro lugar, precisamos dizer que estes aspectos 
que estão faltando na visão dos irmãos naArgentina também estão fal­
tando de modo geral na igreja no mundo. Em segundo lugar, é certo que 
qualquer prosseguimento na obra de restauração da igreja hoje depen­
derá da Incorporação dos princípios fundamentais proclamados pelos 
irmãos, tais como: 0 evangelho do reino, o senhorio de Cristo, os prin­
cípios gerais do discipulado (não uma cadeia humana de autoridade, 
mas os princípios que Jesus aplicou ao discipular os doze), a restaura­
ção da normalidade divina para toda a vida do homem (família, empre­
go etc. — não apenas a vida religiosa) e o alvo de Deus de unir sua igreja 
na terra para que o mundo creia (Jo 17:21-23).
A Igreja do Século X X -A História que Não Foi Contada
124
C a p ítu lo 9
O MOVIMENTO DE 
DISCIPULADO NOS EUA
C
 Movimento de Discipulado, que ganhou projeção mundial na 
década de 70, surgiu simultaneamente naArgentina e nos Esta­
dos Unidos. Porém, os proponentes do movimento na Argenti­
na exerceram uma influência marcante no movimento nos Estados Uni­
dos. Numa conferência em Filadélfia, Pensilvânia, em 1973, os missio­
nários Keith Bentson e Orville SvrâidoU levaram para lá a mensagem de 
discipulado vinda da Argentina. Também em 1973, Juan Carlos Ortiz 
começou a ministrar nos Estados Unidos e seu livro, “0 Discípulo”, 
causou grande impacto lá.
0 foco do movimento nos Estados Unidos aconteceu em Fort 
Lauderdale, Flórida, onde um grupo de mestres na Palavra havia come­
çado a estabelecer-se desde 1968.0 que os atraiu para aquele lugar foi 
uma organização formada em 1966 por lun grupo de homens de negóci­
os cristãos, que patrocinava conferências para ensinar a Palavra no con­
texto da renovação carismática. Nos anos que se seguiram, cinco proe­
minentes mestres na Palavra de Deus estabeleceram-se lá, formaram 
entre si um relacionamento de aliança e começaram a publicar a revista 
“NewWine” (Vinho Novo), para propagar seus ensinos. Os nomes desses 
homens são; Bob Mumford, Derek Prince, Don Basham (1926-1989), 
Charles Simpson e Ern Baxter.
A NECESSIDADE DE REFORMA PRODUZIU 
O MOVIMENTO DE DISCIPU U DO 
Como vimos nos capítulos anteriores desta série, a restauração 
da igreja no século XX é um processo contínuo de reforma e avivamen-
125
to. Arthur Wallis (conhecido preletor e autor inglês), expressou isto do 
seguinte modo:*®
Em síntese, queremos mostrar que cada onda de bênção para a igreja 
não veio apenas para trazera renovaçãoúnediatadavidaesptrttualdaque- 
la geração, mas também a recuperação de verdade espiritual Isto significa 
que em iodos os grandes movimentos através dos anos, o Senhor temprocu- 
rado recuperar averdadeperdida trazendo o seupovo de voltaao Cristianis­
mo Apostólico origiruil.
Podemos notar claramente esta linha de reforma ou recuperação de 
verdades nos moveres de Deus através dos séculos, os quais geralmente 
trouxeram um impulso de equilíbrio em uma de duas direções, ou para a 
verdade ou para a experiência. De fato, estas duas são inseparáveis, mas 
precisam estar em equilíbrio para atíngt o objetivo de Deus. Por esta razão. 
Deus sempre age para erfatizar doutrina e princípio, ou pureza e plenitude 
de vida e poder, dependendo de qual está em maior declínio.
Mas, qualquer que seja a êrfase ou verdade específim oufase de experi­
ência envolvidas num determinado mover, na mente e no propósito de Deus 
sempre há apenas um objetivo fmal emvistcLEste objetivo é uma igreja— 
lavada pela água da Palavra de Deus— que viverá e expressaráplenamerde 
a Cristo, não somente na terra mas em todo o universo”.
Com a forte ênfase em renovação espiritual que veio com o Movi­
mento Carismático, foi inevitável que o pêndulo oscilasse agora em fa­
vor da recuperação da verdade. A falta de uma base na Palavra, de uma 
estrutura para a formação de caráter e de maturidade no MovimentoCarismático produziram, então, o Movimento de Discipulado. Este 
movimento foi uma das tentativas mais sérias deste século para trazer 
iraia reforma profunda à igreja, tanto na doutrina como na prática. Numa 
de suas conferências, os preletores afu-maram ser este movimento “tão 
revolucionário quanto a Reforma, tão radical quanto o Movimento 
Anabatista”.
De acordo com as palavras de Bob Mumford: “0 Movimento de 
Discipulado nasceu diu-ante uma época em que todo tipo de autoridade 
estava sendo desafiado. As pessoas tinham necessidade de pertencer ou 
fazer parte de alguma coisa. Havia também um clamor generalizado por 
disciplina pessoal e as pessoas ansiavam por ter suas vidas mais
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi (Contada
126
estruturadas. Por causa da necessidade de pertencer a alguma coisa, 
veio uma ênfase em relacionamento de aliança. A partir da necessidade 
de disciplina, veio a idéia de líderes discipuladores que se responsabi­
lizariam pelo crescimento espiritual dos seus seguidores”'̂ '.
Temos a seguir trechos de uma carta publicada em 1974 na revis­
ta “New Wine” que expressa de maneira comovente a necessidade de 
estrutura e comunhão, ausentes no movimento carismático:
Li a revista sobre discipulado e chorei. Nosso primeiro encontro com 
Jesus fo i numa grande igreja carismática. A passagem por lá de todos os 
preletores famosos no movimento carismático era algo empolgante. A músi­
ca era excelente e sempre havia muitas conversões. Meu marido e eu come­
çamos a ministrar de diversas maneiras. No intio era tão emocionante impor 
as mãos sobre as pessoas e ver o Senhor batizá-las no Espírito Santo! Era 
umaalegriaministrarnasáladeoraçãoesaberqueDeusestavadando-nos 
sabedoriaeconhecimentosobrenaturaisparaministraraesíranhos. Oramos 
com tantas pessoas, a maioria das quais nunca mais vimos.
Mas depois de três anos ministrando a cada domingo na sala de oração, 
deparamo-nos com apossibãidade de mudar para outra cidade. Quando eu 
disse isso ao homem responsável pela sala de oração, ele replicou: “Como 
são mesmo os seus nomes?” Sini tínhamos o melhorensinamento naPalavra 
quealguémpoderiater—emclassescomoutras500ou600pessoas. Tínha­
mos grupos pequenos para comunhão— uma vez por mês com um grupo 
diferente cada vez.
Marcamos uma conversa com o pastor com duas semanas de antecedên­
cia, esperamos uma hora para vê-b, e ele rapidamente nos fez ouvir uma 
mensagem gravada em fta Havia aqueles mestres rrvaravilhosos. Deus os 
usavapoderosamente.Tentamostravarconhedmeniocomváriosdeles. Como 
ansiávamos por um reku:ionamento com algwTS cristãos maduros para que 
pudéssemos conversar com eles e receber deles sabedoria e experiência no 
Senhor. Eles nunca eram rudes. Eramapenas muito ocupados.
Sim, nós tínhamos amigos íntimos, mas na maioria, eram pessoas com 
quem tínhamos orado para receber o batismo no Espírito, e em muitas áreas 
práticas éramos como cegos tentando guiar outros cegos, trocandofitos 
gravadas numa tentativa de obter a^uma luz em vários assuntos.
Osgrandesencontrosaindacontinucmacontecendo. Raramente partid- 
pamos deles. Temos visto as curas, os milagres, as multidões sendo salvas.
0 Movimento deDisdpulado nos EUA
127
as longasfilas esperando por ministração. Mas eles não se especializaram 
na cura do anseio do coração por discipulado.
Louvamos a Deus e nos regozijamos pela maneta como ele está moven­
do. Somos gratos a Deus pelos meios que ele nos deu para alcançar as 
massas através do rádio e da televisão, mas somos gratos aDeus também, 
com lágrimas de corações quebrantados, por este último número de “New 
Wine”sobre discipulado.
Jack Hayford, um pastor carismático de Los Angeles, Califórnia, 
analisa o Movimento de Discipulado da seguinte maneira:
Nodisdpvhdo, euvejoumatentativadelevararenovaçãocarismáticaa 
um rwvo nível de maturidade. Esta renovação tem erfaüzado o ensino de 
verdades numa medida quase excessiva Multidões de santos cheios do Espí­
rito acumulam muita informação e conhecimento, mas poucos estão em 
situações de comunhão que produzam uma aplicação prática, interior ou 
exterior, daquilo quejoi aprendido. Em resumo, a Palavra não está se “tor­
nando came”. A revelação da verdade abunda enquanto a disciplina de apli­
car a verdade está quase sempre em faltcL
No discipulado, percebo um anseio por relacionamentos maisprojiindos 
entre os crentes. Nenhuma pessoa honesta pode deixar de ver na história 
recente da igreja as evidências dasuperfkioMade que avivamentos podem 
produzir nos santos. Crescimento pessoal requer relacionamento pessoal 
não somente com Jesus, o cabeça, mas com outros membros do seu corpo.
No discipulado, ouço um chamado para desenvolvermos líderes. E indis­
cutível que estamos testemunhando uma colheitafenomenal de almas em 
nossos dias. 0 cuidado desses crentes recém-nascidos e em fase de cresci­
mento exige que cultivemos homens e mulheres maduros para ajudar. Além 
disso, uma visão mais profunda do ministério em potencial que há em cada 
crente mostra a necessidade de levá-lo a crescer, não só em conhecimento, 
masemsabedoria também
Agora vejamos o que Derek Prince, um dos cinco de Fort 
Lauderdale, tem a nos dizer:
Em Mateus 24:12 Jesus nos alerta para a característica marcante do 
mundo no final dos tempos, que será a “iniqüidade”, ou, no grego, ‘falta de 
respeito à lei”. Todos nós temos de tomar cuidado para que este espírito não 
se irifiltre na igreja de Jesus Cristo nem a corrompa, mas antes que cultive­
mos exatamente o seu oposto: submissão, disciplina, respeito porautorida-
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Fbi Contada
128
de e ordem. A maneira bíblica de produzir esses resultados na vida dos 
crentes é discipulado. Discpuhdo, portanto, pode ser considerado um antí­
doto divino à crise espiritual no mundo, e a maneta de Deus de fortalecer e 
proteger seu povo. Porém, deve ser enfatizado que o discipulado não é um 
sistema unificado, mas a aplicação de princípios bíblicos. Precisamos distin­
guir entre os princípios que são permanentes e suas aplicações que devem 
serjlexíveis e adaptadas".
EXTREM05 OPOSTOS: 
TRIUNFALISMO VERSUS COMODISMO
A seguir, temos novamente uma declaração de Bob Mumford 
publicada na revista “New Wine” em junho de 1984:
Eu diria que, se há uma única mensagem que a igreja hoje precisa ouvir, 
é que Jesus veio para anunciar e estabelecer o reino de Deus. Um reino é 
umajorma de govemo, e os cristãos precisam ver o Novo Testamento nesta 
luz governamental. Nós perdemos contato com o aspecto governamental e 
com a autoridade do evangelho.
A igreja, em sua maior parte, não vê os apóstolos, profetas, pastores, 
mestres e evangelistas como homens governamentais, como agentes e re­
presentantes do governo de Deus. Não entendemos o reino de Deus em 
termos governamentais. Não entendemos que Jesus éwnreie que como tal 
emite ordens que ele espera sejam obedecidas. Esta é a mensagem que a 
igreja precisa ouvir.
Um novo passo que preveja para os próximos anos é a restauração na 
igreja dos ministérios apostólicos eproféticos. Creio de todo o meu coração 
que nos próximos cinco anos alguns homens realmente apostólicos e proféti­
cos estarão entrando em cena. Em contraste com alguns dos apóstolos 
“autodesignados” com sua visão um tanto estreita que alguns de nós temos 
visto no passado, esses serão homens de estatura com. grande reconheci­
mento, não só nas suas próprias denominações ou movimentos, mas fora 
também. Suas vozes apostólicas e proféticas serão ouvidas por grandes 
segmentos do corpo de Cristo.
0 desqflo estará no tipo de resposta que a igreja lhes dará Em tempos bí­
blicos, quando um prqfetaapareckL emcenaesedirigia aopouo de Deus, havia 
duasopções: ouelesrecebktmasuamensagem oquegeraLnentesgnificava 
umarrwckmçaemseuscaminhos, ouelestinhamqueseuerlivresdele. Irfeliz-
0 Movimento de Discpidado nos EUA
129
mente, o povo de Deus muitas vezes tem preferido livrar-se dos profetas. Acho 
que há um conflito potencial quanto ao tipo deresposta que a igreja dará a es­
ses ministérios, àmedtidaqueoSenhoroscolocaemevidência.
Outro aspecto do desafio é: Como esses ministénos hão de corresponder 
uns aos outros? Como irão verdadeiros homens apostólicos eproféticos 
corresponder uns aos outros? Creio que tem havido uma ‘mudança de clima’ 
na igreja no sentido de que líderes cristãos nãoparecemser tão inseguros e 
discordantes como no passado. Parece haver um verdadeiro anseio por uni­
dade e um sincero desejo entre muitos líderes cristãos de reconhecer e 
respeitar os ministérios uns dos outros, apesar das diferenças. Isto é cruciai 
Se homens com fortes vozes apostólicas e proféticas honrarem e respeita­
rem uns aos outros, então esse mesmo tipo de reconhecimentopodepermear 
a igreja e assim produzir um entendimento mais ampb do governo de Deus.
Há uma onda de interesse naAmérícapeva descobrir umapostî -a moral 
maisestáveL VeJoistocomoumaesperançabemrealepensoqueDeusquer 
levar seupovo e este país de volta a ele. Creio que isto pode acontecer Meu 
desejo, para mim mesmo e para a igreja, é quefaçamos nossa parte na cura 
e restauração tanto da igreja quanto da nossa nação.
Neste último comentário de Bob Mmnford podemos notar uma 
tendência importante do Movimento de Discipulado em direção ao 
“Triunfalismo” — ou seja, que Deus vai estabelecer seu governo na terra 
através da igreja.
Muitos líderes e movimentos nos EUA crêem que Deus vai res­
taurar “nossa nação” e não apenas a igreja. Biblicamente, porém, não há 
base para tal convicção. Nenhuma nação ou povo, com exceção de Israel, 
é especial aos olhos de Deus. 0 alvo de Deus é formar um povo “chama­
do para fora” de todas as nações, tribos, povos e línguas — uma igreja 
gloriosa, uma noiva preparada para casar-se com Jesus na sua vinda.
A ênfase sobre os aspectos governamentais do evangelho, pro­
mulgada pelo Movimento de Discipulado, é bíblica, válida e importante. 
0 perigo, porém, é ir ao extremo de achar que a igreja vai restaurar o 
governo de Deus sobre as nações antes da vinda de Cristo.
Um relatório de 1976 feito pelas Assem bléias de Deus afirmou 
que alguns líderes do Movimento de Discipulado “declaram que sua 
missão e a missão da igreja não é mais evangelismo, mas o estabeleci­
mento de uma nova ordem na terra com o propósito de trazer o reino.
Algreja do Século XX-A História que Náo Fbi Contada
130
Mas 0 Novo Testamento não indica que podemos estabelecer uma or­
dem exterior purificada nesta era”.
Manifestando a controvérsia que envolve este assunto dentro e 
fora do movimento, Charles Simpson, numa entrevista, negou qualquer 
desejo de estabelecer uma “igreja perfeita antes da volta de Cristo”. 
“Nunca ensinei que vamos introduzir o reino sem a volta do Senhor”, 
ele disse. Porém, reconhece ter contato íntimo com pessoas que defen­
dem tal visão.
Jack Hayford discute o problema com as seguintes observações:^®
Qual 0 objeüüojmal da renovação do Espírito Santo? Creio que a respos­
ta bíblica é conhecida por todos nós. A Epístola aos Efésios parece resumi-la 
ao declarar que a “estaturaplena” e o estar “sem manchas ou rugas” são 
alvos a serem esperados. Mas a questão prática que permanece éseo 
Senhor tem a intenção de criar um corpo visível, que possa ser identificado 
como algo diferente (a igreja “viva”), separado do corpus maior (a igreja 
“institucional”). Não creio que a Bíblia ensine que este seja o nosso alvo.
Aparábola de Jesus sobre o joio e o trigo (Mt 13:24-30) trata claramente 
desta questão. A visão de Ezequiel 37sobre o avivamento dos ossos secos 
prontamente sugere o desejo de Deus de dar vida a estruturas mortas, em 
qualquer lugar onde haja aqueles que “ouvem a voz do Senhor” (v. 4). Na 
metáfora dos odres (Mt 9:17) também não se pede para rejeitar os odres 
velhos, mas vê-se apossibüidade de renovar o velho eproduzir dele algo com 
qualidade de novo.
Um idealismo de visão parece entrar em choque com um realismo de 
circunstâncias. Nós, que proclamamos a invasão do poder de Deus nas cir­
cunstâncias da vida, estamos predispostos a crer que ele podefazer qual­
quer coisa. Mas aBíbliaea evidência da controvérsia em tomo ck) Movimen­
to de Discipulado não justificam afédequepossamos achar qualquer fórmu- 
lanova que produza um Corpo sem impeifeições.
Quero afirmar que “sem mancha ou ruga" nunca será a descrição do 
Corpo físico da igreja impeifeições da igreja do primeiro século, no meio 
de sua bênção primitiva, estavam claramente presentes. “0 que é perfeito” 
nãochegou, nemchegará até que o próprio noivo venhapara tomá-lopossí- 
vel no planofísico, assimcomo ele ofez no plano espiritual
Ocúvodoatualavivamsníonáoé,nomeuporÉode vista, aaboUçãode es­
truturas e denominações aflm de criar uma igrejafuncional perfeitamente
0 Movimento de Discipulado nos EUA
131
unificada— um novo corpo católico. Antes, o objetivo atual é que “o amor de 
Deus seja derramado em nossos corações peb Espírito Santo”para que este 
amorcubraamjultidão dos imperfeiçõespresentes no Corpo. Em Corinto exis­
tiam diferentes “casas”, cada uma representando uma ou ta irfiuênda. Não 
vejo Paulo denunciando a sua prática de denominar— como sendo de Apoio, 
Paulo, Cefas, Cristo. Eu o vejo denunciando a prática de diiM r. 0 coração da 
epístola é, sem dúvida, o capítub 13, que nos exorta a amar, enquanto espera­
mos a volta daquele que estabelecerá a era do govemoperfeito.
Sejam quaisforem as grandezas da graça santiftcudora que possamos 
experimentar pessoalmente, ou até mesmo coletivamente nas assembléias 
locais, não há nerúiuma razão bíblica para que esperemos o aparecimento 
nos últimos dias de uma igreja perfeita em uma estrutura visível.
Estas declarações de Jack Hayford expressam exatamente o cerne 
da controvérsia que envolve náo somente o Movimento de Discipulado 
mas, de fato, define duas posições teológicas antagônicas constantemen­
te em evidência através da história da restauração da igreja, desde a 
época dos Valdenses no século XII até os dias de hoje. Como Hayford 
coloca a questão: “Qual o objetivo fmal da renovação do Espírito San­
to?” Precisamos somente de avivamento ou também de reforma para 
restaurar a igreja? Precisamos somente de vinho novo, ou precisamos 
também de odres novos?
A resposta de Jesus está em Mateus 9:17. Nas palavras proferi­
das por Jesus neste versículo não existe a mínima referência à possibi­
lidade de se renovar os odres velhos. A ênfase central da metáfora é a 
necessidade de odres novos — e não de odres renovados — para con­
ter 0 vinho novo.
Será que Deus vai soprar nova vida nas velhas denominações ou 
rejeitará a velha ordem para levantar uma nova ordem? Na história da 
igreja, o institucionalismo sempre foi o inimigo da renovação. Os fariseus 
eram inimigos de Jesus. Osjudeus eram inimigos do apóstolo Paulo. A 
Igreja Católica era inimiga de \^cliffe, Hus, Savonarola e Lutero. A Igre­
ja Anglicana era inimiga de Wesley. As Igrejas Holiness eram inimigas 
dos Pentecostais. Os Pentecostais eram inimigos da Chuva Serôdia.
Cremos que a resposta é que tanto avivamento como reforma são 
necessários para a restauração da igreja. Ao examinar Atos 3:19-21,
A Igreja do Século X X -A História que Não Foi Contada
132
podemos ver que a economia de Deus inclui tanto “tempos de refrigé­
rio” como também “tempos de restauração” até a volta de Cristo. Para 
os ossos secos de Ezequiel 37 receberem o sopro do espírito de vida 
sobre eles, é necessário que primeiro sejam reagrupados. Cremos que 
a primeira reforma foi através do primeiro apóstolo, Jesus Cristo (Hb 
3:1), que aboliu a velha aliança da lei para introduzir a nova aliança da 
graça (Hb 8:13; 2 Co 3; 13-14). A segunda reforma veio no tempo de 
Lutero, quando as Sagradas Escrituras foram restauradas para o povo 
em sua própria língua, a salvação foi restaurada à base bíbhca de fé e 
não de obras (Ef 2:8-10), e a estrutura monolítica e não bíblica dalgreja 
Católica foi desestabilizada. A terceira reforma está seaproximando, 
na qual os apóstolos e profetas serão restaurados como os fundamentos 
da igreja (Ef 2:20), o corpo de Cristo será edificado com a palavra viva 
(Ef 4:11-13) e uma igreja gloriosa será apresentada (Ef 5:27) ao Senhor 
Jesus Cristo na sua vinda.
Esta igreja demonstrará ao mundo o governo de Deus tanto na 
vida mdividual dos seus membros quanto na sua vida coletiva. Ela será 
uma testemunha poderosa tanto da santidade divina quanto do poder 
divino, produzidos em fracos seres humanos pelo Espírito Santo. 0 
mesmo nível de perfeição que havia na Cabeça, Jesus, quando ele estava 
na terra num corpo humano, será manifestado no Corpo, a igreja, no 
fim da história. Jesus voltará, não para aperfeiçoar a igreja moralmen­
te, mas para transformá-la fisicamente segundo o seu próprio corpo 
glorioso (Hb 9:28; Fp 3:21). E assim, à frente dela, como um general à 
frente do seu exército, ele começará o processo de trazer toda a criação 
de volta ao domínio de Deus.
Da mesma forma que é errado presumir que a igreja possa trazer 
0 governo de Deus para as nações do mundo antes da volta de Cristo, 
também é errado duvidar do poder de Deus para santificar os homens 
agora. Se fizermos isto, estaremos relegando as qualidades da igreja 
descritas em Efésios 5:27 (gloriosa, sem mácula, santa e irrepreensível) 
a um nível apenas espiritual e não prático. Esta posição é bem semelhan­
te à de muitos na história da igreja que diziam que os sinais, os mila­
gres e os dons do Espírito eram só para o tempo do início da igreja e 
não deveriam ser esperados hoje. Nesses dias esta posição está rapida-
0 Movimento de Discipulado nos EUA
133
mente desaparecendo de cena diante das extraordinárias evidências 
ocorridas no século XX, que provam justamente o contrário. Da mesma 
forma, devemos crer que o mesmo Deus que restaurou os dons do 
Espírito à igreja em nossa geração, irá continuar a sua obra de restaura­
ção a ponto de fazer coisas até hoje inéditas tais como levantar apósto­
los e profetas, reformar radicalmente a estrutura da igreja e restaurar 
um nível de santidade, amor e poder nunca visto até então na igreja.
O d e s m o r o n a m e n t o d o m o v im e n t o 
DE DISCIPULADO
Toda revolução ou reforma produz controvérsia, excessos e abu­
sos. 0 Movimento de Discipulado não foi uma exceção. De fato, houve 
tanta controvérsia e tantos abusos que, apesar de várias reimiões duran­
te a década de 70 entre os líderes de ambos os lados para tentar uma 
reconciliação, o núcleo dos cinco que iniciou o movimento começou a se 
desintegrar em 1984 e por volta de 1986 o movimento acabou e a revista 
“New Wine” deixou de ser publicada.
Derek Prince, o primeiro a retirar-se do grupo dos cinco, enviou 
uma carta aos pastores e líderes-chave declarando sua posição. Eis uma 
porção desta carta:
Há doutrinas e práticas centrcãs nas igrejos císsociadas aos meus irmãos 
que não me parecem ter wna base bíblica correta: especificamente, que todo 
crístãodeueterumpastorhumaiiopessoal,eapráticadeumpasiordarcober- 
tura trcmslocalpara outro pastor. Não vejo nenhuma evidência no Novo Testa­
mento de que todo crente tivesse umpastor humanopessooL Nem tampouco 
vejo precedente bíblico para um pastor dar cobertura translocal para ouú-o 
pastor Creio que os ministérios apostólicos epastorais são distintos e não 
podemocuparolugarumdooutro. Umaaplicaçãoerrôneadedoutrinaepráti- 
ca nessas áreas pode ter um efeito restritivo no crente individual e no modo 
como 0 corpo coletivo de Cristo fimciona. Por causa de meu ministério de mes­
tre, creio que seja minha obrigação delinear claramente aquelas áreas nas 
quais meus pontos de visba diferem daqueles dos meus irmãos.
Bob Mumford leu uma declaração em uma reunião de pastores 
em 1989 a respeito de seu envolvimento no Movimento de Discipulado 
que dizia o seguinte:
A Igreja do Sécub XX-A História que Não Foi Contada
134
“Eu me arrependo. Eu estava errado. Eu peço perdão. ” Tomar pública 
esta. declaração era uma questãopessoolpara Mumford. Elefora incapaz de 
reencontar seu caminho depois de se desligar do movimento em 1984. Ele 
haviapedidodescuIpasnaquelaépoca,masachouqueistDnãoerasufíciente 
porqueJoravagodemais.Depoisdemuitoaconselhamentoeoração,Munford 
decidiu que precisava arrepender-se publicamente de sua responsabilidade 
em estabelecer umsistema através do qual tantas pessoasJoramJeridas 
peb uso inadequado de autoridade.
Tambémestavampresentesnestareunião, e apoiando estadeclaração,
0 ex-líder de discipulado Derek Prince e Alice Basham, viúva do ex-líder de 
discipulado DonBasham OqueMumfordnãoesperavaeraarespostadeex- 
segiÉdores e de cristãos que tinham desenvolvido atitudes de amargura em 
rehção às pessoas do movimento. Muitos, em lágrimas, expressaram grati- 
dão,equesentiamquesuasamargurassecretasestauamsendo removidas. 
Disseram a Mumford que tinham necessidade de ouvir o que ele disse, e 
pediram perdão por o terem julgado tão fortemente.
Muniford declarou que no inícto dos anos 70 os carismáticos independen­
tes precisavam de ensinamento sobre autoridade espiritual discipulado e 
cuidado pastoral Mas extrenvos “errôneos e prejudiciais” entraram no movi­
mento que logo ofuscaram o bem que alguns dos princípios de discipulado 
faziam às pessoas que os usavam corretamente. Ele admitiu que houvera 
uma “submissão nãosadiaqueresultouemobediênciaperversaermobíblica 
a líderes humanos”. Ele se responsabilizou por estes abusos, dizendo que 
muitos deles aconteceram sob sua esfera de autoridade.
Mumford insiste que prestar contas (ser responsável a alguém), 
treinamento pessoal sob a direção de outra pessoa, e cuidado pastoral 
efetivo são bíblicos e ainda muito necessários. Mas disse que devem ser 
praticados dentro dos limites do Novo Testamento.
“Prestar contas a alguém não significa que outra pessoa deva decidir por 
mim’’,disseMwriford. “Sigrüficaqueeununcatereidetomarumadecisãosozi- 
nho.lstoéumgrandeprivilégio.VeresteprincpbserdistorcidoJoiamaiordor 
daminhavida Prestarcontassimple^nenlEsignfficapermitirquemeusamigos 
medescfiematercertezadequeestoupraticandoascoiscisqueestoufalando”.
CharlesSimpson tcunbémapreseníoucúgwvas desculpas: “Pessoasforam 
feridas. Emmuitoscasoshouveabusodeauíoridade epessoasforamaconse- 
Ihadas afazer coisas que mincadeveriam ter sidoaconselhadas afazer".^
0 Movimento de Discipulado nos EUA
135
Os líderes agora admitem que o movimento cresceu muito de­
pressa e que cristãos imaturos foram colocados em posições de lide­
rança. Eles souberam de casos em que os líderes exigiam que seus 
discípulos recebessem sua aprovação antes de tomar decisões como 
noivado, casamento, mudança, e até mesmo visitas a parentes durante 
um feriado.
Ern Baxter recusou-se a comentar a declaração de Mumford. 
Charles Simpson declarou que apoiava a declaração de Mumford como 
uma declaração pessoal. Mas advertiu sobre o perigo das pessoas des­
cartarem os princípios de discipulado como resultado disto. Simpson 
disse que ações individuais de fato precisavam ser corrigidas. “Eu fiz 
coisas das quais me arrependo e quero realmente ser perdoado, e real­
mente quero ver restauração.” ®̂
Simpson disse que crê e ensina sobre relacionamentos de alian­
ça. “Não Justifico 0 fato de ter feito coisas erradas. Mas não posso re­
nunciar a todos os relacionamentos de aliança que tenho. Não posso 
fazer isto por motivo de consciência.” ®̂
Simpson acrescentou que sentia necessidade de desculpar-se com 
os outros mestres — Mumford, Prince, Basham e Baxter. “Assumimos 
compromissos uns com os outros”, ele disse. “Milhares e milhares de 
pessoas assumiram compromissos, pelo menos em parte, porque nós 
assumimos compromissos. Por várias vezes pensamos em nos separar, 
em 1976,1977,1978 e 1980. Nessas ocasiões, com exceção de 1980, fiz 
pressão sobre os outros mestres. Disse a eles: ‘Não podemos nos sepa­
rar.’ Eu tinha um sentimento errado de que perderíamos credibilidade 
e trairíamos as pessoas”.̂ ®
HojeSimpson dá cobertura às “Igrejas da Aliança”, a partir de 
sua base em Mobile, Alabama. Observadores dizem que estas igrejas 
usam princípios refmados de discipulado, enfatizam a formação de igrejas 
e o treinamento de líderes maduros. Mumford, Prince e Baxter têm 
ministérios de ensino independentes.
CONCLUSÕES 
E desta forma, o Movimento de Discipulado nos Estados Unidos 
esfacelou-se. 0 saldo tanto foi negativo como positivo. 0 principal fator
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Foi Contada
136
negativo é que o movimento violou a agente da obra de Deus no mundo
— a igreja. Uma verdadeira reforma deve mudar a igreja, levando-a de 
volta aos seus fundamentos bíblicos e apostólicos. 0 Movimento de 
Discipulado passou por cima da igreja em seu zelo de dar uma solução 
radical para a igreja acomodada. Ao estabelecer uma cadeia piramidal 
de autoridade formada de “super” pastores, que cuidavam pessoalmen­
te de outros pastores, que, por sua vez, cuidavam pessoalmente de seus 
discípulos, houve uma forte tendência de ignorar e violar o princípio do 
corpo de Cristo.
Houve uma forte ênfase nos métodos de Jesus Cristo para ti-einar 
seus doze discípulos, enquanto pouca importância foi dada aos dons e 
ministérios do Espírito Santo no corpo de Cristo. A ênfase era em obe­
diência ao homem e à palavra escrita, em vez de cultivar sensibiUdade e 
comunhão no Espírito Santo para manifestar o Cristo vivo na igreja.
0 mistério do reino é Cristo. 0 mistério de Cristo é a igreja. 0 
fundamento da igreja são os apóstolos e profetas (Ef 2:20). Nas palavras 
de Paulo, “pela revelação me foi manifestado o mistério...o qual em 
outras gerações não foi manifestado aos filhos dos homens, como se 
revelou agora no Espírito aos seus santos apóstolos e profetas, a saber, 
que os gentios são co-herdeiros e membros do mesmo corpo e co-parti- 
cipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (E f 3:3,5­
6). Quando tivermos em nossa geração um outro, “se revelou agora no 
Espírito” (v 5), aí teremos a verdadeira reforma da igreja com os mi­
nistérios fundamentais em ação.
Pelo lado positivo, há muita coisa que ficou do Movimento de 
Discipulado que contribuiu para a restauração da igreja no século XX. 
Para uma doença mortal (a igreja acomodada), uma cirurgia é melhor 
do que paliativos. Denunciar escolas bíblicas, escolas dominicais, títu­
los e outras instituições humanas foi uma boa terapia de choque para a 
igreja de Laodicéia. 0 movimento trouxe uma ênfase sadia na família e 
na comunhão no lar, em vez de uma programação frenética de reuniões 
que não permite tempo algum para a construção de relacionamentos 
verdadeiros.
Houve uma ênfase em dar bom testemunho na vida diária no lar, 
na escola e no local de trabalho, em lugar de injeções constantes de
0 Movimento de Discipulado nos EUA
137
experiências emocionais. A ênfase era crescimento e maturidade e não 
uma busca constante por algo novo e espetacular.
Na verdade, a década de 70 foi a década de restauração de mes­
tres na igreja. A palavra de Deus fluiu como um rio e deixou mn rico 
depósito e um forte incentivo à presente geração para “crescer na graça 
e no conhecimento de nosso Senhor c Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 
3:18). Apesar dos abusos, a ênfase em autoridade e submissão, presta­
ção de contas e cobertura foram correções importantes para a mentali­
dade geral de independência e rebelião — cada um por si e Deus por 
todos — que aflige a igreja acomodada de hoje.
A humildade e o quebrantamento dos homens responsáveis por 
este movimento, ao reconhecerem seus erros e acertar as coisas com 
outros irmãos no ministério e com todos os membros do corpo de 
Cristo que foram prejudicados de alguma forma, é talvez o mais impor­
tante legado de todos. Este é o “caminho sobremodo excelente” que leva 
ao avivamento. “Porque assim diz o Alto e Excelso que habita na eterni­
dade e cujo nome é Santo. Num alto e santo lugar habito, e também com 
0 contrito e humilde de espírito, para vivificar o espírito dos humildes 
e para vivificar o coração dos contritos” (Is 57:15).
A Igreja do Século X X -A História que Não Foi Contada
138
Capítulo 10
AQUEDADOS 
TELEVANGELISTAS
L
ma nova geração de evangelistas, em sua grande maioria pente­
costais ou carismáticos, se levantou nas décadas de 70 e 80 usan 
do a televisão como principal meio de divulgação do evangelho. 
São os chamados televangelistas, que surgiram principahnente nos Es­
tados Unidos para pastorear a “igreja eletrônica” do século XX. Entre 
os mais proeminentes podemos citar: Pat Robertson com sua rede de 
televisão CBN, Jim Bakker com sua rede de televisão PTL, Rex Humbard, 
Oral Roberts, Jimmy Swa^art, Robert Schuller, Kenneth Copeland, 
James Robison e muitos outros.
Alguns alcançaram projeção mundial com a transmissão de seus 
programas para vários países da América Latina, África e Ásia. Algims 
propagaram fortemente um evangelho de prosperidade e sucesso, como 
Robert Schuller com seu programa “Hora de Poder” ; outros pregaram 
uma mensagem carismática enfatizando cura e libertação. Jimmy 
Swa^art, em particular, ficou conhecido por combater ferozmente o 
comunismo, o mundanismo e muitas outras coisas. De todos eles, os 
que mais alcançaram popularidade no Brasil foram Rex Humbard, Pat 
Robertson e Jimmy Swa^art,
Mas 0 que mais marcou a era dos televangelistas foi a queda de 
alguns deles envolvendo sexo e dinheiro no final da década de 80. Nos 
jornais e revistas do mundo inteiro apareceram manchetes como estas: 
“Guerra Santa: Dinheiro, Sexo e Poder”, “Deus e o Dinheiro: Escândalo 
Sexual, Luxúria e Ganância por Poder Explodem o Mundo da Pregação 
na TV”.
139
Principalmente dois pastores das Assembléias de Deus foram en­
volvidos nesses escândalos — Jim Bakker e Jimmy Swa^art. Este últi­
mo denunciou um pecado sexual de Jim Bakker, ocorrido sete anos an­
tes, e Bakker foi obrigado a resignar em março de 1987 da presidência da 
PTL e do programa de TV que apresentava com sua esposa Tammy Bakker 
Ao resignar ele entregou o controle da PTL nas mãos de outro 
televangelista (só que fundamentalista), Jerry FalweU, que trouxe à luz re­
velações mais chocantes ainda sobre o uso inadequado do dinheiro 
ofertado pelos contribuintes, o qual proporcionava ao casal Bakker uma 
vida de luxo e riqueza, com salários anuais de milhões de dólares. Isto 
levantou um fogo cruzado de acusações e declarações que, bem aproveita­
do pelos meios de comunicação, deixou chocado e perplexo o meio evan- 
géhco. PTL (que significa Praise the Lord— Louvai ao Senhor) foi interdi­
tada pela justiça comum que averiguou suas muitas irregularidades finan­
ceiras. Em 1989 Jim Bakker foi considerado culpado de fraude através 
de correspondência, rádio e televisão, e de conspiração por desviar fun­
dos para seu uso pessoal, sendo, então, sentenciado à prisão.
Mas um novo choque viria quando aproximadamente um ano de­
pois do escândalo Bakker, foi revelado que o próprio Jimmy Sv^raggart 
também estava em pecado sexual. É verdade que ele confessou em feve­
reiro de 1988 diante de sua igreja em Baton Rouge, Louisiana, ter peca­
do contra Deus e o povo, mas infelizmente isto só aconteceu depois que 
seu pecado foi descoberto pela imprensa, e mais triste amda é que antes 
de ter acusado Bakker ele mesmo Já estava em pecado. Nem é preciso 
dizer o quanto a imprensa secular tirou proveito de mais esse escânda­
lo, ainda mais que a pessoa de Swa^art Já era famosa por seus ataques 
mordazes contra quase todas as coisas. Em março de 1988 o Presbité­
rio Executivo das Assem bléias de Deus o proibiu de pregar por um 
ano. Swa^art insistiu em retornar a pregar depois de três meses e 
resignou como ministro das Assembléias de Deus.
Paralelamente a esses acontecimentos, dois outros fatos en­
volvendo dois outros televangelistas foram amplamente divulgados e 
explorados pelos meios de comunicação. 0 primeú-o envolveu Oral 
Roberts que, em janeiro de 1987, declarou aosouvintes de seu progra­
ma nacional de televisão que teria de levantar 8 milhões de dólares para 
trehiar médicos para serem missionários no Terceiro Mundo ou do
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
140
contrário Deus iria tirar sua vida. De fato, o dinheiro foi levantado, só 
que foi usado para saldar dívidas da Escola de Medicina em vez de 
subsidiar os estudos dos futuros médicos, e no final a escola fechou 
suas portas por falta de recursos e Oral Roberts não morreu!
Pat Robertson também contribuiu para que houvesse mais sensa- 
cionalismo em torno dos evangélicos. Em outubro de 1987 ele afirmou 
ter ouvido do Senhor para candidatar-se à presidência dos Estados 
Unidos, pois Já era tempo de ter um homem que ouve de Deus na Casa 
Branca. Mas não conseguiu passar nem pelas preliminares, em maio de 
1988 estava oficialmente fora da corrida presidencial e de volta à sua 
rede de televisão CBN, que com sua ausência caíra muito em audiência 
e em contribuição fmanceira.
QUALOSIGNIFICADO DESSES ACONTECIMENTOS?
Jamie Buckingham, um equilibrado escritor e ministro carismá­
tico dos Estados Unidos, escreveu em Junho de 1987 uma análise franca 
e sensata, porém amorosa, sobre esses acontecimentos (menos o que se 
refere a Swa^art que viria à luz no ano seguinte). 0 título do artigo é 
“Deus Está Abalando Sua Igreja” e foi publicado na revista americana 
“Charisma”. Para entender melhor o significado desses fatos, citaremos 
agora alguns trechos desse artigo:
UnncoisaeracertaDeusesíajüausandoaimprensaparaejqxrcoisasque 
opovodeDeustentaraesconder— coisasqueestavamerradas... Lembrei-me 
dapakivraqueDeushauiamedadoanteriormentedequeeletinhainstigadoa 
imprensasobre a igreja assim como instigara as locustas sobre IsraeL Em ou­
tras palavras, não podíamos culpar os meios de comurwxiçãopelo que estava 
acontecendo.EleseraminsírumentosdeDeusparasaquearoscampos... Tbr- 
nou-se evidente que não era importante o que Bakker, Falwell ou Swoggart 
disseram Aquesião era: OqueDeusestáfakindoeoqueDeusestáfazendo?
Há certas épocas na história quando “Deus desce”. Os carismáticos gos­
tam de pensar sobre o Pentecoste como uma dessas épocas, quando o sopro 
suave do Espírito veio sobre a igreja e a encheu de poder. Mas nós precisa­
mos lembrar que o Espírito Santo não é somente pnetana, queéo conceito 
do Novo Testamento para um espírito manso e encorajador. Ele é também 
ruach que é a pakwra do Velho Testamento para bramido, um vento destrui­
dor Embora osfundamentalistas neguem o poder miraculoso do pneuma, 
eles entendem o propósito do niach. Talvez seja esta uma das razões por
A Queda dos Televangelistas
141
que Deus permitiu que o líderfundamentalista, Jerry Fcãweü, entrasse no 
campocarísmático—paraexecutarjustiça
A geração de hoje é caracterizada por incontáveis líderes cristãos que 
têm intitulado seus ministérios com seus próprios nomes. Não há nada erra­
do em identificar-se com um nome, o problema está na síndrome de super- 
estreh. Quando perguntei a um líder de um dos maiores ministérios nacio­
nais, a quem ele se submetia, ele prontamente respondeu: “ADeus”.
Acontecimentos recentes, porém, provam que isto não é mais uma res­
posta adequada Não basíasubmeter-seaDeus. Você deve tambémsubme- 
ter-se ao povo de Deus. Jerry FalweU estava cerio quando disse que, se um 
ministro recebe dinheiro do público, ele precisa prestar contas ao público. E, 
além disso, ele precisa prestar contas a uma igreja local e aos líderes locais. 
É tempo de se levantar um padrão de éticas, de responsabilidade fiscal, de 
comportamento e de estilo de vida.
E difícil, quando se é importante, rico e poderoso, humilhar-se a si mes­
mo. Muitos de nós suspeitavam que Deus teria de, mais cedo ou mais tarde, 
tratar com a PTL. 0 programa tomara-se uma hora inteira de comercial de 
imóveis. Era um embaraço para muitos cristãos sérios.
Eu estremeço quando ouço alguns televangelistas dizendo, como um 
quefreqüentemente diz: “Este ministériofoi comissionado por Deus para 
introduzir a volta de Jesus Cristo. ” Um dos mais conhecidos televangelistas 
da América recentemente enviou um cartão dizendo que Deus lhe falara que 
somente seu ministério era abençoado por Deus — porque ele era puro.
Estremeço diante da arrogância pessoal e dafalta deprestação de contas 
entreoslíderes—quesãoasprincipaiscausasdoestiberradodevidaeesban- 
Jamento. Conheço apenasumhomem entreoslíderesdosmaioresministérios 
daAmérica, quesubmetesuavidapessoalacokgasdemirtistérioquenãosão 
seus empregados oucegamente leais àsuaposição. CreioqueDeusestácha- 
mando os líderes, não apenas os televangelistas, mas todos os pastores e líde­
res leigos, para estarem pessoalmente recebendo cobertura de colegas no 
ministério. As tentações para tomar-se orgulhoso ou iludido são imensas. 0 
abalo de hoje está forçando os líderes a buscarem uns aos outros.
Esü-emeço diante das técnicas usadas para levantar dinheto pela maio­
ria dos principais ministérios daAmérica A maioria da correspondência 
enviadapor mala direta torce a verdade. Como pode Deus abençoar uma 
cartaproduzidapor um computador, assinadapor uma caneta automática, 
falando ao destinatário que o líder está orando por ele naquele momento? 
Como Deus pode usar um televangelista que vaiaoaredizao povo que tem 
gasto todo o seu dinheiro e necessita desesperadamente de mais contribui­
ções —enquanto ele e toda suafamãia estão dirigindo automóveis de50.000 
dólares e vivendo em mansões?
A Igreja do Século X X -A História que Não Fbi Contada
142
Creio que há maneiras legítimas de se levantar dinheiro. Mas, enquanto 
os líderes desses ministérios náo estiverem dispostos a usar esses métodos 
em vez dos métodos do sistema do mundo, o poderoso ruach de Deus conti- 
nuaráasoprar sobre toda a igreja.
Um profissional em levantar dinheiro, que se tornou rico escrevendo 
cartas de apelo para dezenas de ministérios, estava vangloríando-se numa 
reuntâo de evangélicos recentemente que levantar dinheiro era apenas um 
problema demográfico. Ele disse queé como as listas atuariais de seguro. j4s 
companhiasdesegurosabemquantaspessoasmorrerãonaqueleano —só 
não sabem quem. Do mesmo modo, os levantadores defundos sabem que 
através de certos apelos para certos grupos demográficos, eles conseguirão 
uma certa quantidade de dinheiro. Este levantador defundos zombou de 
alguns de seus próprios clientes de ministério que crêem ser um milagre 
quando o dinheiro entra através dos contribuintes— dizer isto é o mesmo 
que crer queé um milagre que o sol se levante a cada manhã.
Lembro-me do dia em que o homem número dois de um dos maiores 
ministérios da TV resignou e veio a mim chorando. Ele não podia mais 
agüentar a hipocrisia e as blasfêmias constantes no levantamento de dinhei­
ro. Duas vezes ao mês, ele disse, eles se sentavam no escritório do 
televcuyelista, rindo sobre apróximaíáticaparalevantar dinheiro. Oúltimo 
casofoi uma campanha de mala direta usando cartas que diziam que, en­
quanto 0 televangelista estava orando especificamente pela pessoa (nome 
do destinatário). Deusfalara com ele para escrever a ela esta carta “pessoal” 
dizendo que, se desse 25,50, lOOouLOOO dólares (dependendo da quantia 
costumeira registrada nos arquivos). Deus lhe concederia umfavor especiaL
Isto é nada mais do que uma atualização pentecostal da prática da Igreja 
Católica de vender indulgências na Idade Escura Deus aboliu isto com um 
abalo poderoso naReformaProtestante.Ao mesmo tempo, umpouco seme­
lhante ao que fez na Torre de Babel, Deus confiindiu as línguas (doutrinas), 
de modo que ainda hoje os cristãos têm problema de comunicação.
Agora este abolo está oconendo novamente. Fbiprecipitadopeb escân- 
dab sexual e financeiro na PTL, mas istofoi simplesmente o pcwb que Deus 
usou para detonar a bomba. Desta vez, por envober ministérics altamente 
conhecidos epor vivermos numa era de comunicação instantânea, o mover 
deDeus, ao invés de levar anos paraser compreendido, estásendo revelado 
náo mais tarde do queno noticiário das seis horas.
DeusnãoseparouoscidadãosdeBabelparapuni-los, masparalhesdevol- 
versuahumanidade. OpnMemacomeçouquandoeles disseram- “Vamoscons- 
tnMrumaddade.”Deu3 nuncaabençx)uoconceitodeadade.Elechamapara 
umadistríbuiçãodapapukiçáo.Masaspessoascontinuamaconcentrar-seem 
grandes ministérios, assjuntaradenominações,aidentjficarsecomwndeter- 
mtadopastor— tudoissocomopropósitodefalaremamesmalíngua.
AQueda dos Televangelistas
143
Meulwro,“JesusWorld”,fcJousobreosperigosinereníesemgrandesmmis- 
térios. 0 livro tomou-se impopular, pois convidava os líderes a retomarem aos 
métodos e estilo de vida simples de Jesus, submetendo-se um ao outro, em 
kigar de viver como reis e ditadores. Poucos, talvezninguém, comexceçãodo 
evangeUstacatólicoromanoJohnBertohicci, estão dispostos apraticar o estib 
devklado televangelista David Mainse, de Toronto, Canadá Mainse decidiu 
viver num apartamento no cento da cidade para estar perto das pessoas a 
quemnunistra. Ocasionalmente, aindavaitrcáxÉiardebiddetaparaquepossa 
testemunhar para pessoas ao longo do caminho. Que Deus nos dê mais ho­
mens como ele— e menos que vivamcomo reis, que, além degrandessaláríos, 
têmgarantido todas as despesas pagas, enquanto proclamam que “acabaram 
de gastar seu último centavo para missões e precisam de mais dinheiro”.
Agora, mois uma vez. Deus desceu eestá caminhando entre nós. Ele não 
se agrada de nossa tentativa de currprir nossas obrigações individuais atra­
vés de doações a grandes ministérios. Devíamos estar abrindo nossos lares 
em lugar de mandar ofertas para instituições de caridade. Devíamos estar 
evangelizando em vez de alugar um televangelista para fazer isso por nós. 
Deusestáforçando-nosavoltarparanossasigrejaslocais,oúnicokyaronde 
0 verdadeiro ministério— o ministério pessoal — pode acontecer.
A televisão tem sido o maior meio de difusão do evangelho desde a 
invenção da imprensa Mas com grande oportunidade vemgrande responsa­
bilidade. Este é um tempo de prestar contas. Deus está checando os livros. 
Aqueles que gostam de aparecer em público estão sendoJulgados em públi­
co. Mais uma vez, parece que Deus entrou no tempb para virar as mesas dos 
cambistas. Seu sopro está passando através do seu reino, limpando e pur^i- 
cando.OresultadoJinalserácomosempre:formarumpovoàimagemdeseu 
Filho e dar glória a ele mesmo.
Tudo isto está acontecendo por uma razão: revelarasoberaniadeDeus. 
Eleé,aànKidetudo, “umfogoconsunvdor...removendoascoisasabaláveis isto 
é, coisas criadas para que permaneçam as coisas inabaláveis” (Hb 12:27).
BAKKERDESCU LPA-SEPORSEU 
EVANGELHO DA PROSPERIDADE
Aseguir citamos trechos de um artigo da revista Charisma de dezem­
bro, 1992,^ que mostra como Deus tem trabalhado na vida de Jim 
Bakker nestes anos de prisão, levando-o ao arrependimento eaum 
entendimento mais claro do evangelho.
Bakker fo i inicialmente sentenciado a 45 anos de prisão, mas em 1991 
teveapenareduzidapara ISanos, depois que uma corte de apelação deci­
diu que ela era muito severa. Seus aduogadcs airKla tentam nova redução.
Algreja do Século XX-AHistória que Não Foi Contada
144
Bakker deve ser libertado em 9 de abril do ano 2.000, mas pode receber 
liberdade condicional antes desse prazo.
Em uma carta enviada a amigos em 1992, Jim Bakker (56 anos] descul­
pou-se por pregar “um evangelho que dá ênjase à prosperidade material”. 
‘Atualmente muitos acreditam que os sinais das bênçãos de Deus sobre eles 
são um carro novo, uma casa, um bom emprego etc. ”, escreveu Bakker. “Se 
estefosse o caso, os proprietários de cassinos, os chefões do tráfico de 
drogas e os artistas de cinema são abençoados por Deus. ”
Nacarta,Bakkerqfírmaquetemdedtadováriosmeseslendo, relendoe 
anotando cada palavra de Jesus registrada na Bíblia. “Se você levar em 
contatodaaorientaçãodaPalavradeDeus,nãoencontraránenhumaindica- 
ção deque possa cot}sickrar as riquezas ou bens materiais como sinais das 
bênçãos de Deus”, disse Bakker.
Eleperguntcu “Seatribuirmosasposses terrenas... aosfavoresdeDeus, 
0 que dizer dos bilhões de seres que vivem em pobreza, ou como nos compor­
tarmos se uma recessão econômica nos atinge, ou o que dizer àqueles que 
perdem um ente querido?Muitos cristãos ‘apenas de nome’ bla^emariam 
contra Deus se perdessem todas as suas posses materiais. ”
Bakker acrescenta: “Peço a todos os que acompanharam meu ministério 
quemeperdoemporpregarumevangelhoqueexaltavaapro^)eridademate- 
rial. Jesus disse, ‘Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra’. Ele 
deseJaqueoamemosacimadetodasessascoisas."Bakkerdissetambémque 
umUvro sobre José no Egito, DeusoTbmouemBem, mudousuavida
0 advogado James Toms, de Hendersonville, Corolinado Norte, qflrmou 
que a carta é o retrato de um novo Jim Bakker. Tendo perdido a PTL, a 
Heritage USA, estando naprisão e tendo de conceder o divórcio asuaespo- 
sa, Tommy Fhye, seu cliente ficou grandemente afetado. “Eleperdeu tudo o 
que podia perder menos suafé”, acrescentou Toms.
NessacartaBakker explicou: “Penseiquetinhasuperadoadorinsuportá- 
vel de perder minha esposa... Bem, de repente, sem que eu esperasse, a 
tristeza tomou conta de mim novamente. Fui cbminado pela solidão e pelo 
sentimento de abandono e angústia, que somente os que tiveram a experiên­
cia de perder um cnmpanheiro ou umapessoa a quem amapode compreen­
der. No meio deste sofrimento. Deusfabu ao meu coração, üim, o que imagi- 
naqueeu sinto quando você se afasta de mim?’ ”
Naprisão, além deprestar serviços de zeladoriapor 12 centavos de dólar 
por hora, Bakker dedica tempo à leitura e a respostas a 100 ou mais cartas 
que recebe por mês. Além disso, ele faz cursos de nível universitário em 
religião, psicologia e computação, iiforma seu advogado, James Toms.
AQuedadosTeleixmgelistas
145
CONCLUSÃO
o Movimento Carismático alcançou seu clímax com o sucesso dos 
televangelistas, mas, assim como Deus julgou o reinado de Belsazar, rei 
de Babilônia, que foi pesado na balança e achado em falta e por isso foi in­
vadido pelos medos e persas (Dn 5), assim também o reinado dos tele­
vangelistas foi pesado na balança e achado em falta. Deus desceu para jul­
gar a “Babilônia eletrônica” e expor toda sua corrupção, luxo e riqueza.
Diante desses acontecimentos surge a pergunta: Que papel, então, 
exercerá a televisão no mover de Deus dos últimos dias para proclamar a 
palavra profética que levantará um povo preparado para a volta de Jesus 
Cristo? Nenhum, por dois motivos. Primeiro, porque a televisão como 
principal veículo do sistema de Satanás exige muito dinheiro, luxo e vaida­
de. João Batista se levantou no deserto, fora do sistema, para anunciar a 
primeira vinda de Jesus. Nós também não podemos pregar a palavra pro­
fética, que exige desprendimento do sistema, envolvendo-nos com as arti­
manhas do sistema deste mundo que estão por trás da televisão.
Em segundo lugar, não haverá espaço no mover destes dias para 
uma celebridade pregando para uma multidão passiva de telespectadores. 
Porém, muitos vão sair com poder pelas ruas, praças e de casa em casa 
profetizando a palavra do Senhor (pois o testemunho de Jesus é o espí­
rito da profecia Ap 19:10), num contato pessoal e vivo. Será como diz 
em Atos 2:16-18: “Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E aconte­
cerá nos últimos dias diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito 
sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os 
vossos mancebos terão visões, os vossos anciãos terão sonhos; e sobre 
os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito 
naqueles dias, e eles profetizarão.” Então, não haverá um ou dois ho­
mens pregando a palavra do Senhor, mas toda a carne profetizará: ho­
mens, mulheres, velhos, jovens, crianças, ricos, pobres, negros, bran­
cos, muitos vão levantar-se com poder nos últimos dias para anunciar 
ao mundo que a vinda de Jesus está próxima.
A Igreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
146
Capítulo 11
O AVIVAMENTO N A CHIN A
0 œnteùdo deste capítubfoi extraído de um livroeminglês intitulado “China 
Miracle-A Silent Explosion”̂ (Milagre naChina-UmaExpbsõo Silenciosa), 
escrito peb conhecido preletor e autor inglês, Arthur Wallis (1922-1988). A pri­
meira edição deste livrofoi publicadamlnglaterra em 1985; portanto, o leitor 
deve compreender que os aœrÉecimentos rwrrados neste capítub se referem 
àprimeirarneiadedadécaàadedO.CabelernbraTtambémquetodareJerênàa 
à primeira pessoa neste capítub pertence ao autor Arthur Wallis. Ele escreveu 
seu livro baseado empesquisas exaustivas, consultas com outros peritos sobre 
a China e em algumas viagens ao país. Em uma destas viagens, WaUis teve a 
raraoportunidadedeconhecerpessoalmenteumadasigrejascasetasnaChi- 
na.Aextensa&q]erienciaematuridadedoautor,Juntocomsuagrandecapcici- 
dade de expressão, proporctarvarão ao leitor uma oportunidade inédita de co- 
nhecernãosomenteaquibqueDeusJeznaChinarecentemente, mastambém 
a importância que isto tem para nós no Ocidente hoje.
INTRODUÇÃO
Sem dúvida, o período mais escuro para a igreja na China, duran­te os trinta e cinco anos de governo comunista, foi por ocasião da “Grande Revolução Cultural”. Igrejas foram fechadas, pastores 
aprisionados, e fogueiras de Bíblias e livros cristãos foram acesas. Pa­
recia aos observadores de fora que a igreja na China tinha sido aniqui­
lada. Se Deus tivesse reavivado sua igreja no contexto político normal 
da China comunista teria sido notável, mas a ressurreição de sua igreja 
das cinzas da Revolução Cultural deve ser considerada um milagre.
Geograficamente, a China é um dos maiores países do mundo. 0 
movimento do Espírito Santo não tem ficado restrito a alguns poucos 
lugares nem só a áreas onde os missionários trabalharam no início. 
Tem alcançado quase todas as 29 províncias, regiões autônomas e 
municipalidades da China — desde as estepes Isoladas da Mongólia
147
Interior, ao norte, até as tribos das montanhas do sudeste; e desde as 
províncias costeiras, com seus milhões de habitantes, até os Umites 
montanhosos do Tibete. 0 incrível raio de ação deste movimento o qua­
lifica a ser considerado um milagre.
A China é numericamente a maior nação do planeta, com sua 
população de mais de um bilhão. De cada quatro seres humanos um é 
chinês. Quando os comunistas tomaram o poder em 1949, havia aproxi­
madamente quatro milhões de católicos e um milhão de protestantes na 
China, mas este quadro foi drasticamente reduzido durante a Revolução 
Cultural (1966-1969). Em 1983 foi estimada a existência de provavelmente 
50 milhões de cristãos evangélicos, ou seja 5% da população.
Considerando que esta multiplicação fenomenal ocorreu quando 
tantos pastores e líderes maduros estavam na prisão e quando o estoque 
de Bíblias e literatura cristã havia sido drástica e dolorosamente reduzi­
do, isto deve ser considerado, de acordo com qualquer critério, realmente 
um milagre. 0 movimento tem sido descrito como “o mais rápido cresci­
mento da igreja na história da Cristandade”. Outros têm salientado que a 
igreja na China representa agora o maior corpo de crentes no mundo.
UMPEQUENO HISTÓRICO
A China é a civilização mais antiga do mundo. Em sua longa e turbu­
lenta história, que abrange 50 séculos, ela tem chegado às alturas do suces­
so e realização, e tem mergulhado nas profundezas da derrota e humilha­
ção. Foi a China, com seu grande amor pelo aprendizado e pelo estudo, 
que nos deu o papel em 105 d.C., e o primeiro dicionário, com 10.000 
caracteres. Por volta de 1.000 d.C., eles inventaram a pólvora, a princípio 
para fazer bombinhas para espantar maus espíritos. A palavra chinesa 
“China” significa “o país central” e no pensamento chinês China é “o cen­
tro”, 0 centro do mundo. Além de suas fronteiras estão as raças inferio­
res. Este orgulho nacional e autocentralização levou-a a desdenhar tudo 
quanto estava acontecendo no mundo em matéria de desenvolvimento. 
Qualquer tentativa de intercâmbio comercial com outros países era rejei­
tada, pois em seu pensamento a China Ünha tudo e não precisava de nada. 
Isto a tornou até o início do século XIX um país fechado. Porém, este iso­
lamento seria quebrado à força de tal maneira que deixaria esta orgulhosa 
e culta nação envergonhada e humilhada. Neste ponto os poderes ociden­
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
148
tais, especialmente a Grã-Bretanha, devem assumir a principal res­
ponsabilidade. Nesta épocaforam semeadas as sementes que dariam fruto 
no levantamento e triunfo do Marxismo Chinês.
No início do século XIX o fumo do ópio estava se tornando uma 
ameaça social na China, sendo a droga adquirida na índia e Turquia 
através de contrabando. Seguindo o desprezível exemplo de Portugal, a 
Grã-Bretanha, através da poderosa East India Trading Company e com 
0 consentimento do governo britânico, envolveu-se no contrabando do 
ópio para custear a compra de chá e seda chineses, já que a China se 
recusava a comprar produtos britânicos que então fluíam da revolução 
industrial. Alarmado, o governo chinês reagiu contra este abominável 
tráfico que estava trazendo tanta miséria a seu povo. Isto resultou nas 
duas guerras do ópio (em 1842 e 1856), quando a China foi derrotada e 
obrigada a entregar a ilha de Hong Kong e outras terras ao redor aos 
britânicos, e a permitir a residência de estrangeiros ali com o propósito 
de promover o comércio e outras atividades legítimas. Isto foi o início 
da violação da China pelo Ocidente.
0 fato de os primeiros missionários protestantes para China pro­
cederem da mesma nação, Grã-Bretanha, que apoiava o fumo do ópio, 
tornou-se outro aspecto infeliz dessa situação. Foi somente através dos 
bons ofícios da East Índia Company que missionários ocidentais conse­
guiram a princípio entrar no país. Assim, na mente de muitos chineses, 
“diabos estrangefros” (os ocidentais), “lama estrangeira” (como eles cha­
mavam 0 ópio) e religião estrangeira eram tudo uma coisa só.
0 raiar do século XX encontrou a China fraca e vulnerável. As 
incursões do Ocidente a tinham enfraquecido grandemente e, depois de 
séculos de isolamento, ela não estava de maneira nenhuma preparada 
para tomar seu lugar ao lado de outros poderes mundiais. 0 governo 
imperial Manchu, a dinastia que governara a China por 260 anos, era 
ineficiente e corrupto. Ele terminou quando o imperador foi forçado a 
resignar em 1911, e os anos que se seguiram à formação de um governo 
republicano na China foram tempestuosos.
Outro evento decepcionante para a China ocorreu logo após a 
conclusão da Primeira Guerra Mundial, na qual ela lutou ao lado dos 
Aliados. Ela esperava que o território chinês ocupado pelos alemães, 
certamente lhe seria restaurado, como havia prometido o presidente
OAüivamenío na China
149
americano, Woodrow Wilson; mas em lugar disso, o território foi dado 
ao Japão que o capturara dos alemães durante a guerra. Isto produziu 
profundo ressentimento e grande reação política. Para muitos chineses 
a fé na democracia e no Ocidente estava abalada, e muitos se voltaram 
para a Rússia e a Revolução Bolchevista como uma solução para os 
problemas da China. 0 marxismo se tornou a grande exportação russa 
para a China, e agentes foram treinados em Moscou para incitar a revo­
lução e formar células comunistas. Como resultado desta atividade, o 
Partido Comunista Chinês foi formado em 1921.
Duas forças lutavam agora na China os nacionalistas e os comu­
nistas. Localizados naquela época no sudeste da China, os comunistas, 
diante da superioridade do exército nacionalista, decidiram fazer uma 
retirada estratégica para as montanhas do noroeste. Isto envolveu um 
percurso de 6.000 milhas atravessando 18 cadeias de montanhas e 24 
rios. A viagem durou de 1934 a 1936 e, através desta incrível jornada, 
conhecida como a Longa Marcha, as forças comunistas, constantemente 
atacadas pelos nacionalistas, foram grandemente reduzidas em núme­
ros através de doenças e mortes. Também foi durante esta marcha que 
a posição de Mao Tsé-tung como líder dos comunistas foi consolidada.Até hoje, os chineses consideram a Longa Marcha como um dos mo­
mentos mais admiráveis da sua história. Ela inspirou muitos jovens 
chineses a se juntarem ao partido comunista.
A vitória final dos comunistas sobre as forças nacionalistas em 
1949 foi um notável acontecimento. Talvez a maior razão tenha sido o 
fato de os comunistas terem uma visão, uma causa e um ideal pelos 
quais sentiram que valia a pena lutar e morrer. Sua excitação e fé nesta 
visão os faziam buscar “converter” outros para sua causa.
OMOVERDEDEUS EAREVOLUÇÀO CULTURAL
A China é basicamente uma nação camponesa ligada à tradição, 
especialmente a do Confucionismo. Havia um forte elo entre governante 
e súdito, pai e filho, marido e esposa. Embora Mao se propusesse a 
melhorar a sorte dos camponeses, ele sentiu que esses laços, junto com 
os laços da religião, capitalismo e autocracia, eram os maiores obstácu­
los para estabelecer uma nova sociedade marxista, e assim decidiu des­
truí-los. Para isso conclamou sua famosa Revolução Cultural em 1966,
A Igreja do Século XX-A História que Não Pbi Ck>ntada
150
que acabou se tornando um dos fatores mais importantes para o mover 
de Deus na Chtaa.
Por não confiar no exército nem no partido, Mao convocou um mi­
lhão de jovens, os chamados Guardas Vermelhos, e os comissionou para 
viajar através da nação destruindo velhos conceitos, costumes e hábitos, 
esmagando tudo o que suspeitassem estar tomando um rumo capitalista.
A revolução tornou-se praticamente um “quebra-quebra”. Casas 
foram saqueadas, velhos foram abusados, pessoas inocentes condenadas. 
Os jovens Guardas Verm elhos eram, muitas vezes, totalm ente 
indisciplinados. É dito que um milhão de bebês ile^timos nasceram du­
rante este período. Obras de arte de valor incalculável foram destruídas.
Embora a Revolução Cultural fosse o período mais difícil para os 
cristãos chineses, desde a tomada comunista em 1949, a igreja da China 
esteve sob perseguição. Os comunistas tornaram bem claro que o novo 
regime não queria nada com missionários e, no início de 1952, todos 
eles, exceto os católicos romanos, tinham deixado o país. Muitos líde­
res cristãos chineses que não concordaram em apoiar a igreja oficial 
controlada pelo Movimento Patriótico de TrípUce Autonomia (programa 
do governo para controlar a igreja que pregava governo, sustento e dis­
seminação autônomos), foram para a prisão (entre eles Watchman Nee).
Mas, sem dúvida, a pior fase veio com a Revolução Cultural, es­
pecialmente quando os jovens Guardas Vermelhos estiveram no contro­
le ( 1966-69). Porém, todo o processo durou 10 anos, presidido no final 
pela “Gangue dos Quatro”. No final, todas as igrejas, até mesmo as que 
estavam sob a autoridade do Movimento de Tríplice Autonomia e todos 
os outros prédios religiosos (os templos e lugares sagrados do 
Confucionismo e Budismo), foram fechados e até destruídos. No meio 
desta revolução, Jiang Qing, esposa de Mao e líder da “Gangue dos 
Quatro”, declarou: “0 Cristianismo na China foi colocado num museu. 
Não existem mais cristãos na China.”
Wang Mingdao, líder na época da maior igreja em Pequim, fora 
constantemente uma pedra no sapato dos comunistas. No início, as au­
toridades tinham dificuldade em achar uma acusação contra ele. Ele se 
recusara a freqüentar um seminário, por sentir que era dominado pelos 
missionários, e nunca fora ordenado ou sustentado financeiramente pelos 
missionários estrangeiros. Como Watchman Nee, ele multas vezes criti­
OAvivarnento na China
151
cava os métodos dos missionários ocidentais. Sua única formação para 
0 ministério viera do Espírito Santo. Como um homem de Deus, os 
comunistas não podiam achar falta nele.
Talvez Wang tenha pregado para mais chineses do que qualquer 
outro homem. Sua igreja estava sempre lotada e muitas vezes havia mil 
ou mais pessoas do lado de fora para ouvir a palavra que era transmiti­
da por alto-falantes. No dia do seu julgamento, toda sua congregação foi 
forçada a assistir. Ele foi acusado de ser contra o governo, contra o 
Movimento Patriótico de Tríplice Autonomia, e de pregar mensagens 
erradas. Ura quarto dos cristãos e outros presentes, por causa da pres­
são da igreja oficial, pediu a sentença de morte. Não foi dada a ele 
nenhuma oportunidade de se defender, mas tão forte era o sentimento 
público em seu favor que as autoridades foram forçadas a libertá-lo.
Mais tarde, ele foi novamente levado a julgamento. Embora nunca 
falasse contra o regime, Wang criticou destemidamente os clérigos de te­
ologia liberal e os que participavam do Movimento de Tríplice Autonomia, 
aos quais ele acusou de trair a Cristo. Ele recebeu uma sentença de 15 anos 
de prisão e imediatamente foi submetido ao processo de reeducação co­
munista. Dois turnos de “experts” policiais trabalharam com ele dia e noite. 
Depois de treze meses de tortura mental, ele cedeu e assinou uma confis­
são, que teve de ler publicamente para uma grande audiência. Sua capitula­
ção virou manchete nas páginas de todos os jornais: “Eu sou um criminoso 
anti-revolucionário. Estou grato ao governo por perdoar-me e salvar-me 
das profundezas do pecado...”, e assim por diante.
Poucos dias depois da sua libertação, ele foi visto caminhando para 
baixo e para cima nas ruas de Pequim gritando: “Eu sou um Judas, eu traí 
meu Senhor.” Na verdade, sua confissão não envolvera uma negação de 
Cristo. Poucos dias depois, quando o equilíbrio de sua mente foi restaura­
do, ele foi com sua esposa para as autoridades governamentais e retirou 
sua confissão. “Prendam-me se quiserem”, ele disse, “mas não trairei meu 
Senhor.” Imediatamente ele foi enviado de volta para a prisão junto com 
sua esposa e lá este corajoso homem de Deus permaneceu vinte e dois 
anos de sua vida, sendo libertado somente em 1980 com 80 anos de idade.
Experiências desse tipo se repeüram muitas vezes na história da 
igreja da China Vermelha. Muitas histórias nunca foram contadas. Os 
santos que sofreram não eram todos líderes e muitos nomes nunca vira-
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
152
ram manchetes. Através da longa noite escura, eles nunca vacilaram em 
sua lealdade a Cristo.
Em Julho de 1976, Mao Tsé-tung, o homem que fora idolatrado e 
cujos pensamentos do Llvrinho Vermelho se tornaram a bíblia do povo 
chinês, morreu, deixando uma nação desanimada e desiludida. Eis as 
palavras de um jovem escritas num dos jornais chineses:
“A palavra ‘amanhã’ tem sido uma palavra de grande fascínio para 
mim. Quando eu estava na escola primária, o ‘Grande Salto Para Frente’ 
(política lançada por Mao para industrializar o país rapidamente) era o 
sonho do amanhã; nós viveríamos felizes em prosperidade. Mas o que 
conseguimos? Desastres!
“Depois veio a Revolução Cultural: o amanhã significava total li­
beração e que nós conquistaríamos o mundo. 0 que conseguimos? De­
sastre! Agora os jovens da China podem apenas aprender esta lição: Não 
espere muito! Não seja otimista! Não pense no amanhã!”
LIMPANDO OTERRENO
Após esta longa noite escura, quando os controles foram relaxa-. 
dos e as restrições suspensas, cristãos de Hong Kong e outros lugares 
examinaram ansiosamente através da Cortina de Bambu para ver se algo 
sobrevivera. Eles ficaram pasmados com o que começou a emergir da 
poeira e entulho da Revolução Cultural. Não havia dúvida sobre o fato 
de a fé cristã ter sobrevivido ou não. Ela estava bem e com saúde, e 
explodindo com nova vida para todos os lados. Do outro lado do mun­
do começou-se a ouvir sobre “milhões vindo para Cristo”, de comunida­
des inteiras se tornando cristãs. Compreensivelmente isto foi saudado 
com incredulidade em muitos lugares: “Isto não pode ser verdade — 
não na China Comunista!” Mas as reportagens começaram a ser confirma­
das por muitas testemunhas e organizações.
Durante aqueles anos de escuridão Deus estivera silenciosamente, 
porém poderosamente, em ação, purificando seu povo e limpando o 
terreno para um novo plantio do qual ele mesmo se encarregara. AChi­
na não era um solo virgem esperando pela primeira aradura e semeadu­
ra. Mais de cem anos de atividade missionária se passaram e a situação 
era confusa e misturada. Deus usou a Revolução Comunista para reali­
zar uma espécie de operação de limpeza. Em primeiro lugar, a tomada
OAuivamerÉonaChina
153
comunista significou a remoção de todos os missionários da China. Não 
que eles tenham falhado em sua tarefa, pois sem a semeadura do passa­
do não haveria a colheita do presente, mas era necessário agora que eles 
partissem para outras esferas. Dessa forma a próxima fase da obra de 
Deus poderia ser cumprida.
Deus também usou os comunistas na China para acabar com as 
estruturas denominacionais do Ocidente. Isto aconteceu porque eles as 
consideravam ferramentas do imperialismo. A Igreja Católica, com 
sua subserviência a Roma, foi substituída pela Associação Patriótica Ca­
tólica, liderada por marxistas e totalmente independente do Vaticano. 
Ela foi um equivalente católico ao movimento protestante de Tríplice 
Autonomia.
Apesar da mistura que havia no Cristianismo antes do comunis­
mo, certamente Deus preservou tudo o que era de fato obra do Espíri­
to. 0 ouro, a prata, e as pedras preciosas encontraram seu lugar no 
novo edifício que Deus estava erigindo, mas muito da madeira, palha 
e feno foi queimado na conflagração marxista. Como os três hebreus 
na fornalha flamejante de Nabucodonosor, a única coisa que as igrejas 
perderam foram suas ataduras, e no meio das chamas elas encontra­
ram Deus.
A obra purificadora não foi simplesmente de efeito corporativo; 
foi também inevitavelmente individual e pessoal. A tomada comunista 
colocou cada discípulo professo de Cristo à prova. Todo crente seria 
testado a respeito da realidade de sua fé. As impurezas seriam retira­
das da mistura derretida. “Cristãos de arroz” rapidamente desaparece­
riam de cena. Materialmente não teriam nada a ganhar e muito para 
perder com uma profissão de fé. Em tais circunstâncias, quem iria que­
rer ser um cristão só de nome?
Um trabalho de preparação foi também efetuado através de 
toda a sociedade chinesa. Sem dúvida, o comunismo fez muito pela 
China, mesmo do ponto de vista cristão. A unificação da escrita numa 
língua chinesa uniforme e moderna facilitaria grandemente a rápida 
evangelização da nação, assim como aconteceu com a língua grega no 
tempo do Novo Testamento. 0 comunismo tem libertado os chineses 
da resistência inata para deixar as tradições paralisadoras, e tem 
grandemente libertado a nação — pelo menos a geração mais nova
A Igreja do SéculoXX-AHistória que Não R>i Contada
154
— das influências prejudiciais do Budismo e da adoração de ances­
trais.
Outra grande conquista dos comunistas tem sido a construção de 
estradas e o suprimento de transporte e comunicação. Isto pode ser 
comparado aos romanos construindo suas estradas através do Império, 
que prepararam o caminho para a propagação do evangelho no primeiro 
século. Desta forma agora o evangelista na China pode transmitir sua 
mensagem de lugar em lugar, de uma maneira que era impossível na 
China pré-comunista.
A Revolução Cultural foi uma ferida auto-infligida que deixou uma 
cicatriz profunda na vida da nação. As pessoas adoraram Mao como Deus 
e agora ele caíra como Dagom, com o rosto em terra diante da arca, sem 
cabeça ou mãos. Os heróis de ontem se tomaram os vilões de hoje e o povo 
ficou confuso e inseguro. Muitos dos trabalhadores urbanos perderam sua 
oportunidade de progredir através de uma melhor educação, uma perda 
grave para a maioria dos chineses, deixando-os deprimidos e desiludi­
dos. Alguém resumiu a situação pós-Mao nas seguintes palavras: “Os co­
rações de um bilhão de chineses estão buscando algo que os satisfaça” — 
0 “algo” que o comunismo não providenciou. Esta é uma razão por que 
milhões estão correspondendo às boas novas de Jesus.
IGREjA FALSA E IGREj A VERDADEIRA
Há dois tipos de igrejas na China — a igreja oficial, controlada 
pelo governo com aparente liberdade religiosa, e as igrejas caseiras 
independentes onde tem ocorrido o avivamento. A igreja oficial tem 
seus lugares de culto nos prédios reabertos para reuniões com permis­
são do Departamento de T^suntos Religiosos. Ela opera sob a vigilância 
do Movimento de Tríplice Autonomia apesar de gozar certa indepen­
dência. Embora tenha liberdade para apontar seus próprios pregadores 
e manejar suas finanças, seus líderes devem freqüentar as aulas de dou­
trinação do Movimento de Tríplice Autonomia para estarem a par das 
diretrizes do Partido. Já as Igrejas caseiras, que têm experimentado 
esse crescimento tão fenomenal, consideram as restrições impostas pelo 
Movimento de Tríplice Autonomia totalmente inaceitáveis. Tome como 
exemplo esses “Dez Mandamentos” divulgados no início dos anos 80 
pelo Movimento numa província da China:
OA)iixxmento na China
155
1. Náoorganizeumaigrejasemaprovaçãodogovemo.
2. Somente clérigos apontados pelo govemo poderão batizar as pessoas.
3. Não mantenha contatos com organizações religiosas do estrangeiro nem 
compre livros estrangeiros.
4. Não imprima ou reproduzaBiblias e outros livros religiosos sem permis­
são.
5. Não viaje de ddade em ddade para propagar religião.
6. Mantenhaareligiãopara você mesmo.
7. Não ore todo dia. Ore só aos domingos.
8. Não transmita pensamentos religiosos para menores de 18 anos de ida­
de.
9. Não cante canções relyiosas para menores de 18 anos de idade.
10. Nãosolicitecontribuiçõesparapromover religião, aumentando as cargas 
dos crentes.
Talvez o que esteja acontecendo na China seja uma prefiguração 
do que ocorrerá em todo o mundo antes do final dos tempos — uma 
igreja verdadeira e uma igreja falsa, diferenciadas pela atitude de cora­
ção para com o senhorio de Cristo. 0 livro do Apocalipse nos mostra 
estas duas igrejas em sua expressão final: a noiva “adereçada para seu 
noivo”, e a meretriz “embriagada com o sangue dos santos e com o 
sangue das testemunhas de Jesus”. Porque haverá muitos verdadeiros 
filhos de Deus achados com a meretriz, assim como há no Movimento 
de Tríplice Autonomia na China, uma voz soará do céu antes do julga­
mento: “Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus 
pecados e para que não incorras nas suas pragas.”
AlGREjACASElRA
A igreja na China, como a igreja do Novo Testamento, tem de­
monstrado que possuir prédios para se reunir não é essencial para um 
crescimento rápido. Algumas, especialmente nas áreas rurais onde é 
possível haver grandes congregações, possuem seus próprios prédios, 
mas a maioria é, literalmente, de igrejas caseiras.
Igrejas caseiras na China não são um desenvolvimento recente. 
Tornaram-se luna característica distinta do Cristianismo chdnês durante 
os primeiros anos do governo comunista. Não surgiram de um movi­
mento de reforma que rejeitou os edifícios tradicionais em favor de um 
retomo à simpHcidade neotestamentária. Nenhum propagandista de igre­
Algreja do SéculoXX-A História que Não Foi Contada
156
jas caseiras viajou pelo país para espalhar a visão. Antes, as igrejas 
caseiras surgiram por causa de pressão e perseguição. Nasceram por 
necessidade. Eram a melhor, e na maioria dos casos, a única maneira 
de se reunir. Porém, por trás das circunstâncias exteriores, havia uma 
estratégia do Espírito Santo, armando o cenário para o tremendo cres­
cimento que haveria de vir.
Se por um lado esta estrutura simples adotada pelos crentes chi­
neses estava totalmente de acordo com o Novo Testamento, por outro 
lado possuía características chinesas bem distintas. Já vimos que um 
forte laço familiar é uma característica nacional e todos os esforços dos 
comunistas para destruir isto falharam. Quando as pressões sobre a 
família cristã se tornaram grandes, foi natural que o lar se tornasse um 
lugar de refúgio onde membros da família pudessem ainda cultuar, orar, 
1er as Escrituras e encorajar um ao outro.
Alguns observadores chineses vêem três fases no movimento da 
igreja caseira. Aprimeira fase ocorreu durante os anos 50 como um 
resultado direto da política comunista, e em particular por causa das 
atividades do Movimento de Tríplice Autonomia contra líderes cristãos 
e suas igrejas. Quem não estivesse disposto a se reunir com as igrejas 
da Tríplice Autonomia não tinha outra alternativa a não ser se reimir em 
suas próprias casas.
A segunda fase veio com a Revolução Cultural em 1966, quando 
até mesmo as igrejas da Tríplice Autonomia foram fechadas. Quem ain­
da quisesse cultuar a Deus não tinha outro lugar a não ser o lar.
Depois veio o relaxamento das restrições na era pós-Mao e jun­
to com isto uma explosão do movimento da igreja caseira. Isto foi o 
início da terceira fase. Começou antes que as igrejas da Tríplice Auto­
nomia fossem reabertas, contrariando a reivindicação dos hderes da 
Tríplice Autonomia de que eles são responsáveis pelo ressurgimento 
do Cristianismo na China. Muitos dos que haviam deixado as igrejas 
da Tríplice Autonomia quando foram fechadas, retornaram quando 
foram reabertas, mas a grande maioria não o fez nem se filiou à orga­
nização.
Eis 0 testemunho de Arthur WalHs sobre uma reunião em numa 
igrej a caseira quando esteve na China:
0 Avivamento na China
157
Nós despedimos o táxi e descerrwspor um caminho bem comprido e 
estreito, semelhante a uma ruela. Felizmente não havia luzes na rua. As 
lojas e apartamentos térreos providenciavam luz suficiente para enxergar­
mos nosso caminho até que chegamos a uma entrada sem nenhuma placa 
Um estreito vão de escadas de madeira nos levou ao segundo andar do 
prédio. As escadas abrigavam as pessoas que não cabiam na reunião, a qual 
Já estava em andamento. Ali estavam cristãos chineses, comBíblias e cader­
nos à mão, ouvindo uma voz que vinha do altofalante. Subindo outro vão de 
escadas chegamos a um andar apinhado de pessoas de todas as classes. 
Havia profissionais e estudantes misturados com operários em seus maca­
cões, todos sentados em bancos simples de madeira.
Fbmos conduzidos para os únicos lugares vazios que podíamos ver. Eles 
tinham sido provavelmente reservados para nós, visto que os líderes sabiam 
que viríamos. Nós nos encontramos a poucos metros do pregador, cuja men­
sagem era transmitida por toda a casa. Eu tinha lido sobre igrejas caseiras 
na China com duzentos ou mais pessoas e muitas vezes questionara como 
caberia este número de pessoas numa casa particular. Aqui estava eu, bem 
num lugar assim. Contei mais de 150 pessoas somente naquele andar e, 
mesmoassim, nãopodiaveraqueksqueestavamcomprimidosemsaletase 
cubículos.
Nesta igrga caseta havia quatro reuniões regulares toda semana: uma 
para adoração, uma para oração, uma para compartilhar, e o estudo bíblico 
no meiodasemana, ao qual estávamos assistindo. 0 líder da igreja caseira 
que estava pregando quando chegamos, cüém de um sorriso de boas vindas, 
pareceu estar totalmente desligado de nossa presença As pessoas também 
pareciam estar mais preocupadas com a mensagem do que com a presença 
de visitantes estrangeiros. Houve uma pausa na pregação, uma cançãofoi 
anunciada, e o povo começou a acompanhar a música que saía pelo sistema 
de altojalante. Depois o ensinamento bíblico continuou.
O líder da igreja caseira, que eu diría ter cerca de 50 anos, transmitia a 
palavracom entusiasmo e autoridade. Suafacebrilhavaenquanto ele minis­
trava, mas só depois entendi o porquê. Nosso guia chinês explicou que ele 
era um homem de Deus muito corajoso, que passara muitos anos na prisão 
por causa de sua fé. Ele era altamente respeitado por outros líderes de 
igrejas caseiras naárea. Ao indagarmos, descobrimosquehauiacercadeõOO 
outras igrejas caseiras nesta grande cidade.
Por causa do risco— não para os visitantes estrangeiros, mas para seus 
hospedeiros —permanecemos ali somente uma hora, e então saímos furtim- 
mente para a escuridão da rua. Senti que tinha por apenas uns poucos 
minutos entrado nas páginas do Novo Testamento.
A Igreja do Séaúo XX-A História que Não Fhi Contada
158
De acordo com uma estimativa recente, mais de metade da popu­
lação da China (um bilhão de habitantes), tem menos de 20 anos de 
idade. Não deve nos surpreender, portanto, o fato de as igrejas caseiras 
terem um número predominante de pessoas na faixa dos vinte e trinta 
anos. Algims desses jovens são ex-Guardas Vermelhos. Outros são sim­
plesmente vítimas do vácuo político deixado pela Revolução Cultural. 
São pessoas desiludidas com as atividades políticas do Partido e por 
suas promessas não cumpridas. Outras estão amarguradas porque fo­
ram forçadas a sacrificar uma educação superior pela causa da Revolu­
ção. De repente, esses jovens desiludidos se viram confrontados por 
um espírito revolucionário de outro tipo. Eles encontraram cristãos 
comprometidos que têm sido purificados em vez de amargurados pelo 
sofrimento, que têm uma alegria e um otimismo santo e que testemu­
nham sem temor sobre um outro rei e um outro reino. Milhares têm 
achado este apelo irresistível e comunidades inteiras se voltam para 
Cristo, incluindo até oficiais do Partido.
Desde que 80% da nação vive em áreas rurais, é ali que se encon­
tra a maioria dos crentes chineses. Assim eles têm a vantagem de esca-. 
par da pressão exercida nas cidades pelo Movimento de Tríphce Auto­
nomia para que os cristãos abandonem as igrejas caseiras e participem 
de uma igreja oficial.
As igrejas caseiras têm uma forte orientação bíblica. Desde que 
se convertem os crentes novos têm uma fome muito grande pelas Es­
crituras. A deficiência de Bíblias, ao invés de diminuir, tem aguçado 
esta fome. Muitas vezes, num grupo, o único possuidor de uma Bíblia 
arranca páginas que distribuídas ao redor — demonstrando mais uma 
vez 0 espírito comunitário — são então laboriosamente copiadas à mão. 
Relatos de uma única Bíblia entre centenas de crentes são comuns nas 
áreas rurais. Como a maioria dos orientais, os chineses têm uma me­
mória prodigiosa. Passagens enormes, até mesmo livros inteiros, são 
memorizados. Conta-se de um cristão que sabia todo o Novo Testa­
mento de cor
Algumas das maiores igrejas caseiras são lideradas por pastores 
idosos que foram libertados depois de passarem vinte ou mais anos na 
prisão. Esses heróis da fé que passaram pelo fogo têm realizado uma 
grande obra de ensinar novos convertidos e pastorear o rebanho.
0 Avivamento na China
159
As igrejas em geral não são centralizadas no pastor ou no ser­
mão. Os chineses têm redescoberto o sacerdócio de todos os crentes. 
Na maioria das vezes, o líder dá uma breve mensagem da Bíblia, e então 
as pessoas presentes compartilham o que acharam na passagem. Em 
alguns grupos, na semana anterior à reunião todos copiam a passagem 
relevante e já vêm para a reunião com um pensamento preparado.
Numa região montanhosa de uma das províncias costeiras há uma 
vila com uma população de 10.000 pessoas. Um terço dos habitantes é 
formado de crentes. Eles começaram a se reunir abertamente em 1976, 
e agora há quinze locais de reunião com uma freqüência média de 200 
pessoas em cada local. As reuniões são geralmente à noite, das 7 às 11 
horas, consistindo de cânticos, testemunhos, súphcas e ensino bíblico 
de um dos dez ou mais pregadores que viajam de reunião em reunião. 
Suas mensagens duram uma hora ou mais.
Os novos convertidos são ensinados a evangelizar e muitas vezes se 
vêem em problemas por causa disto. Mas isto, em vez de enfraquecer sua 
fé, os faz mais fortes e efetivos. 0 trabalho prmcipal é feito pelos novos 
convertidos que estão ainda na faixa dos vinte anos. Quando eles alcançam 
a casa dos trinta são vistos como pessoas realmente experimentadas.
Os líderes cristãos das igrejas caseiras têm desenvolvido tanto 
equipes de instrução como equipes de evangelismo. Nas sessões de trei­
namento dos obreiros os novos cristãos são ensinados a pregar. Quan­
do os hderes os julgam capazes, eles são comissionados e depois se 
juntam à equipe de evangelismo. Em muitas dessas vilas o único desejo 
nos coraçõesdos crentes é pregar e construir igrejas. Seu trabalho de 
agricultura é feito simplesmente para garantir sustento, mas a maioria 
do tempo deles é dedicada ao trabalho do Senhor,
À medida que esses camponeses buscam o reino de Deus em 
primeiro lugar, eles vêem que “todas essas coisas” — as necessidades 
da vida — lhes são acrescentadas. 0 Senhor abençoa suas plantações 
abundantemente. Enquanto outras plantações sofrem com a seca, as deles 
prosperam; enquanto outras plantações são prejudicadas por fortes chu­
vas, nas deles o sol brilha!
0 evangelismo é feito à noite ou fora da época de plantio. Desde 
1982 0 governo tem devolvido aos mdivíduos grande parte da terra que 
fora cultivada por comunas. A partir do momento em que a terra está
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
160
convenientemente cultivada, eles estão livres para fazer outras coisas. 
Esposas e crianças ajudam na aradura da terra para possibilitar que 
seus homens saiam pregando. Na época da colheita eles ajudam xmi ao 
outro, e depois voltam para seu trabalho evangelístico.
Uma característica notável do movimento de igrejas caseiras na 
China é a forma como Deus usa os idosos que agora estão livres depois 
de anos na prisão. Muitos estão aposentados e assim estão livres para 
viajar sem precisar ganhar seu sustento. Eles são a coluna dorsal da 
liderança das igrejas caseiras. Pastores de idade avançada experimen­
tam uma alegria sem limite à medida que ensinam e pregam novamente 
e vêem a correspondência dos jovens ao seu ministério. Um pastor de 
99 anos retornou à sua vila no sul da China, e uma igreja de 700 mem­
bros surgiu lá em apenas três semanas!
PREPARADOS PARA50FRER 
Watchman Nee ministrou sobre este assunto antes que as autori­
dades comunistas o encerrassem naprisão por vinte anos. Deus o esta­
va preparando, à medida que ele preparava o rebanho para o que viria. 
Ele enfatizou fortemente que temos que ter uma mente preparada para 
sofrer.
“Há muito sofrimento que podemos evitar se quisermos: mas se 
queremos ser úteis na obra do Senhor, é fundamental que façamos uma 
escolha deliberada do caminho de sofrimento por causa do Senhor A 
não ser que tenhamos uma disposição para sofrer por ele, a obra que 
realizamos será de qualidade bem superficial... A questão não é o quan­
to de sofrimento talvez sejamos chamados a enfrentar, mas nossa atitu­
de em relação a isto. Sofrimento pode não ser sua porção diária, mas 
você deve estar preparado para sofrer.”
A igreja na China conclama: “Preparem suas mentes para sofrer!” 
Se você espera até ouvir o sibilo das balas ou o estrondo dos explosi­
vos, você tem esperado muito. Não espere o sofrimento ou a persegui­
ção surpreender você. Agora é o tempo de entrar em treinamento.
Eis 0 testemunho de uma irmã que passou 24 anos na prisão: 
Ela estava orando quando as autoridades chegaram para prendê- 
la. Ela não ficou surpresa pois o Senhor já preparara seu coração. De 
fato, no momento em que a prenderam, o Espírito Santo veio e a encheu
0 Avivamento na China
161
com uma alegria incontrolável. Enquanto o carro no qual estava sendo 
transportada rodava aos solavancos pela estrada, ela transbordava de 
alegria e cantava por todo o caminho. As autoridades naturalmente a 
imaginaram mentalmente desequilibrada.
Enquanto estava sendo registrada na prisão, ela teve bastante tem­
po para testemunhar a um dos oficiais. Tão poderoso e ungido foi seu 
testemunho que imediatamente e ali mesmo ele aceitou a Cristo. En­
quanto ele a registrava, ela lhe disse: “Hoje não é o dia em que vim para 
me registrar, e de fato eu nunca serei prisioneira aqui — Cristo estará 
constantemente comigo. Estou livre. Este é o dia em que você registrou 
sua residência no reino de Deus.”
Algum tempo depois, todos os companheiros receberam um en­
velope contendo a duração de suas sentenças. Quando os outros compa­
nheiros perguntaram a ela de quanto tempo era sua sentença ela respon­
deu: “Eu não sei. Guardei o edito sem olhar”.
“Por quê?” eles perguntaram. “Você não quer saber quantos anos 
de prisão terá?”
“Não importa,” ela replicou, “Sejam dez ou cem anos, cada dia 
vai ser um dia com meu Senhor.”
Numa prisão eles estavam desumanamente apertados — dez pri­
sioneiros para um pequenino cubículo. Não tinham permissão para con­
versar um com 0 outro ou cochilar durante o dia. Um guarda periodica­
mente examinava o cômodo através de uma abertura de vidro na porta. 
Muitos caíam doentes, outros perdiam suas mentes. Um prisioneiro lhe 
sussurrou: “Podemos ver que sua fé religiosa realmente lhe dá força.” 
Um dia o guarda irrompeu na cela gritando: “Pare de sorrir.” 
“Eu não estou sorrindo”, ela replicou.
“Está sim” , gritou o guarda.
Quando ele saiu, os outros prisioneiros disseram: “Seus olhos 
estão sempre sorrindo e sua face brilha com alegria, mesmo quando 
você não está sorrindo.” A maioria de seus companheiros de prisão não 
era cristã, isto é, não era até que ela levou muitos deles ao Senhor.
A questão do sofrimento por Cristo é o grande teste para ver 
onde 0 coração de um crente realmente está. Se as coisas celestiais 
realmente têm cativado o seu coração, se as coisas terrestres têm desva­
Algreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
162
necido à luz das realidades eternas, então sua atitude em relação ao 
sofrimento muda radicalmente.
Além de produzir um efeito purificador e maturador na igreja, 
parece que o sofrimento, de uma maneira inexplicãvel, libera o poder 
de Deus às vezes de forma eletrizante. 0 princípio da cruz em ação 
numa vida rendida pode romper oposição, amolecer o coração endure­
cido e abrir uma mente totalmente fechada para a luz da verdade. Isto 
tem sido demonstrado continuamente na China.
Uma carta escrita em 1982, vinda da província de Henan, fala de 
dez jovens que, depois de orarem intensamente, saíram para pregar. 
Enquanto proclamavam o evangelho com lágrimas, transeuntes paravam 
para ouvir, adivinhadores (dos quais há muitos na China) quebranta­
vam-se e choravam, e trabalhadores vindos das fábricas a caminho de 
casa esqueciam sua fome e paravam para ouvir,pois o poder de Deus 
estava presente. A grande multidão não os deixava parar, embora eles 
estivessem cansados. Então vieram os oficiais do Departamento de Se­
gurança Pública, que amarraram os jovens pregadores, arrastaram-nos 
dali e bateram neles até ficaram inconscientes.
No grupo havia uma garota de apenas 14 anos de idade. Depois 
de apanhar desta forma, ela recobrou-se e continuou a testemunhar e 
todo tipo de pessoa se quebrantou, se arrependeu e creu em Jesus. Algo 
parecido aconteceu com quatro rapazes do grupo. Eles foram forçados 
a se ajoelharem por três dias sem comida ou água. Mesmo quando esta­
vam sendo batidos até o sangue fluir, eles continuaram orando, cantan­
do e louvando ao Senhor, até que mesmo seus torturadores se converte­
ram e creram no evangelho. Eles poderiam ter olhado bem nos olhos 
dos oficiais e ousadamente declarado: “Em nós opera a morte, mas em 
vós opera a vida.”
Eis outro testemunho relatado por David Wang:
“Marta tinha 18 anos, era jovem tanto em idade como em experi­
ência cristã, quando eu a encontrei pela primeira vez na China Central. 
Convertera-se através de nosso programa de rádio. Ela se correspondia 
conosco em Hong Kong e nós a alimentávamos espiritualmente. Dois 
anos mais tarde tive a oportunidade de encontrar estajovem chinesa 
novamente. Estava trabalhando numa fábrica, mas insistiu que a deixás­
semos fazer alguma coisa para o Senhor. Não queria dinheiro ou uma
OAvnxmienlo na China
163
bicicleta. 0 que ela queria é ser regularmente suprida com Bíblias para 
que pudesse distribuí-las para as províncias mais remotas da China.
“Marta nunca esteve em nossa folha de pagamento. Mas de tem­
pos em tempos ajudávamos a cobrir suas despesas de viagens. Ela esta­
va viajando e ministrando, olhando para Deus para suprir suas necessi­
dades. Lembro-me de uma vez em que a encontrei na cidade de Xian,em 1981. Nós combináramos de nos encontrarmos às 9 da noite, mas 
ela só apareceu à 1 da madrugada. Estivera entregando Bíblias numa 
vila próxima quando os líderes da comuna local descobriram o que ela 
estava fazendo. Bateram nela, roubaram-na e atiraram-na numa estrada 
deserta. Foi somente por um milagre que conseguiu pegar uma carona 
para nosso lugar de encontro.
“Mesmo na escuridão do parque notei que algo estava errado 
com Marta. Sua cabeça estava inchada como uma bola de basquete.
“‘Qual é 0 problema?’, eu perguntei. ‘Eles fizeram isto com você?’
‘“Oh não’, ela disse. ‘Tenho tido este problema por quase dois 
meses agora.’ Então ela arregaçou as pernas de sua calça para me mos­
trar suas pernas cobertas com feridas e picadas de mosquitos. ‘Eu acho 
que é algum tipo de veneno no sangue.’ Enquanto ela viajava para as 
partes mais remotas do país, muitas vezes dormira em cabanas deser­
tas e templos abandonados. Ela estava sendo literalmente ‘comida’ por 
bichos e mosquitos.
‘“Amanhã temos que ir a um médico,’ eu insisti com ela.
‘“Não, não,’ ela disse. ‘Tenho de pegar um trem amanhã cedo para 
a Mongólia Interior Onde estão as Bíblias?’ Sua única preocupação era 
levar as Bíblias para a Mongólia Interior.
“Dois anos mais tarde, em agosto de 1983, de repente perdemos 
0 contato com Marta. Por muito tempo não tivemos notícias dela nem 
sobre ela. Era época da ‘Campanha Anti-Crime’ na China. Muitos foram 
presos e executados por toda a China. Nós ficamos bem preocupados 
com Marta.
“Mais tarde recebemos uma carta dela através de seus amigos. De 
fato não era uma carta, mas apenas um pedaço de papel. Ela fora presa e 
acusada de distribuir ‘materiais supersticiosos’ na República do Povo da 
China. 0 papelzinho dizia: ‘Eu não sei qual será minha pena, mas por favor’ 
— citando as palavras de Paulo — ‘ore por mim para que me seja dada a
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
164
palavra, no abrir de minha boca para com intrepidez, fazer conhecido o 
mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias.’ Algumas 
semanas mais tarde, recebemos notícias de que Marta com 24 anos de ida­
de partira para estar ‘com Cristo’. Ela fora executada.”
OPAÇÂO DINÂM ICA
Os chineses têm um ditado: “Muita oração — muito poder! Pouca 
oração pouco poder! Nenhuma oração — nenhmn poder!” Sem dúvida 
a pressão da perseguição tem aprofundado e intensificado a vida de 
oração da igreja chinesa. Foi um processo lento que começou depois do 
terrível período de 1966-69 da Revolução Cultural. Uns poucos servos 
de Deus, movidos pela desolação espiritual que enfrentavam, começa­
ram a orar por avivamento. Eles insistiram com outros para lançar fora 
seus temores e fazer o mesmo. Esses pequenos grupos secretos de ora­
ção resultaram nas igrejas caseiras cheias do Espírito. Destituídos de 
líderes “ordenados”, líderes “leigos” se levantaram para tomar seus 
lugares. 0 Espírito de Deus estava movendo por toda a China, e igrejas 
caseiras surgiram em cada cidade e em incontáveis vilarejos. A nova 
igreja chinesa, mais uma vez, surgiu em função de oração.
Numa cidade costeira, em 1967, o reinicio de reuniões pequenas 
trouxe um tempo de intensa oposição e perseguição. Por um período de 
três meses as igrejas foram convocadas por seus pastores para se engajar 
em oração e jejum. Crentes estavam sendo humilhados, torturados e 
ameaçados. Muitos morreram na prisão, enquanto outros foram mortos 
ou mutilados por surras bárbaras. Então, em 1978, uma obra poderosa 
do Espírito Santo trouxe milhares para Cristo. Conta-se que numa cida­
de, 50.000 cristãos se reúnem em 600 lares, constituindo um cristão 
para cada oito pessoas, ou 12,5 por cento da população.
Uma senhora cristã retornou do estrangeiro para sua vila natal, 
em 1974, temerosa do que ela poderia encontrar. Ela encontrou oito 
crentes jubilosos com uma fé forte e pura. Os que tinham sido enviados 
para a prisão tinham testemunhado para outros prisioneiros. Oração e 
jejum eram atividades normais da vida, e Deus estava demonstrando 
seu poder para curar, confundindo o cepticismo dos incrédulos.
Em algumas comunidades os cristãos se reúnem todos os dias 
para orar por seu país. Os que têm tido o privilégio de se reunir com eles.
OAvivamento na China
165
falam do espírito de urgência que caracteriza suas orações. Alguém que 
tem investigado o crescimento das igrejas caseiras descreve a “vida disci­
plinada de oração” dos crentes como sua característica principal. Não há 
nada de egocentrismo em sua forma de orar. Sua vida de oração engloba 
0 mundo. Numa das cidades mais importantes da China, um grupo se re­
úne todo sábado das 9 horas da manhã até às 3 da tarde para um tempo de 
oração e jejum. Nesta ocasião, seu principal pedido é que as escolas 
bíblicas e seminários do Ocidente permaneçam fiéis à Palavra de Deus.
David Wang, criado em Xangai, numa visita recente à China com 
um co-obreiro, visitou uma senhora que acabara de ser hbertada depois 
de 23 anos na prisão. Eles levaram para ela comida, remédios, roupas, 
dinheiro, e é claro, uma Bíblia. “Aquela mulher era uma santa”, relembra 
David. Antes de partirem, ela pediu para orar com as visitas. Muito 
calmamente ela começou a orar. Eles sentiram como se os “íons e as 
moléculas da atmosfera fossem de repente carregados”. Parecia que 
podiam “sentir as vibrações da presença de Deus”. “Embora ela orasse 
tão mansamente, toda ela estava transpirando. Fomos imergidos numa 
atmosfera de graça, comunhão e intercessão em batalha espiritual. Ela 
estava lembrando Deus de suas promessas e se comprometendo a obe­
decer a sua Palavra.” Atemorizados, eles deixaram o quarto de seu pe­
queno barracão como se tivessem estado na entrada do céu.
Sem dúvida, aqui no Ocidente estamos vendo Deus mover pelo 
seu Espírito. Muitos de nós temos nos acostumado a assistir a celebra­
ções e convenções que podem ser descritas como “carismáticas”. Geral­
mente, a atmosfera tem sido boa, a adoração viva, e os dons do Espírito 
evidentes. A pregação da palavra tem sido abençoada e até ungda. Conver­
sões, curas e libertações têm sido testemunhadas. Mas toda a operação 
tem sido grandemente centralizada no homem, nas necessidades e nos 
resultados. Temos olhado para o carisma do pregador para “atirar as 
redes” e produzir resultados, com a ajuda dos conselheiros. A medida 
de bênção pode variar, mas a maneira da operação do Espírito tem se 
tornado previsível. Nós quase sabemos de antemão o que vai acontecer 
e agora temos uma geração de crentes sem expectativa de algo mais.
Será que o elemento vital que está faltando não é esta Presença 
aterradora, cativante, enternecedora e esmagadora, este elemento 
indefinível que transforma uma reunião centi-alizada no homem numa
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
166
reunião centralizada em Deus? Esta presença transforma o mundano 
em sublime, o esperado em espontâneo e imprevisível. Pode liberar o 
povo de Deus para entrar em rapsódias de louvor, nas quais eles sentem 
como se juntassem aos corais angélicos. Ou pode fazê-los prostrar suas 
faces num süêncio atemorizador na presença da sua Majestade. Preocu­
pação com resultados ficará então longe de seus pensamentos. Todos 
estarão totalmente envolvidos com Deus. Será suficiente saber que aquele 
que é “poderoso em majestade, terrível em louvores, operando mila­
gres” tem tomado o controle.
Por que tão raramente experimentamos isto? Não é por que co­
nhecemos tão pouco sobre o tipo de oração descrito neste capítulo? Os 
líderes simplesmente não têm tempo. Eles estão muito ocupados com 
suas agendas e seus programas. E o povo, que segue o exemplo dos 
líderes, está da mesma forma envolvido numa roda viva de atividades. 
Ninguém tem tempo para este tipo de oração.
Se queremos ainda conhecer a presença do Deus de majestade e 
poder, devemos ajustar nosso modo de pensar e descobrir quais são 
realmente nossas prioridades. 0 Espírito Santo quer nos conduzir para 
a oração dinâmica,mas antes que isto possa acontecer devemos permi­
tir que ele destrua nossa auto-satisfação com aquilo que estamos atual­
mente procurando. A base para tal redescoberta de Deus é um descon­
tentamento santo e um coração faminto.
FOMElNTtNSA
A um jovem refugiado da China que se convertera dois anos antes 
foi perguntado se possuía Bíblia.
“Não”, respondeu ele.
“Um Novo Testamento?”
“Não.”
“Você não tinha nenhuma literatura cristã quando era um novo 
convertido?”
“Sim. Uma senhora idosa que era cristã arrancou uma página do 
seu livro de devoções diárias e deu para mim.”
Eis a primeira razão para a fome intensa dos crentes chineses pela 
Palavra de Deus— a grande falta de Bíblias e literatura cristã. É estranho 
0 fato de não valorizarmos muito as coisas preciosas que temos, até que
OAvivamento na China
167
nos vemos privados delas. Aqui no Ocidente temos uma superabundância 
de Bíblias, muitos de nós têm duas ou três, além de todo tipo imaginável 
de literatura cristã. Até que ponto realmente valorizamos tudo isto?
Outro fator por trás desta fome é o mover poderoso do Espírito 
Santo. Fome por Deus é uma característica de avivamento, e onde hou­
ver fome por Deus haverá fome pela sua Palavra. Em muitos lugares da 
China as Bíblias são escassas e preciosas demais para serem levadas 
para as reuniões cristãs. Uma batida do governo no local de reuniões é 
sempre lun perigo, desta forma tudo que se leva para a reunião é cader­
nos, nos quais as Escrituras são copiadas.
Um pregador foi convidado para passar o dia numa pequena cidade 
realizando reuniões. De manhãzinha, o prédio estava abarrotado com 600 
pessoas, com outros amontoados do lado de fora. Eles estavam dispostos a 
sofrer o clima extremamente frio para ouvir a mensagem do Senhor Antes 
que 0 pregador chegasse, eles cantaram hinos a fmi de preparar seus cora­
ções para receber a Palavra de Deus. 0 pregador pregou três vezes e os 
cristãos sentaram-se e ouviram desde manhã cedo até tarde da noite. Ainda 
assim não queriam se dispersar. Eles puxaram a manga do pregador e 
disseram: “Nunca ouvimos imia pregação tão boa.” Eles estavam extraordi­
nariamente famintos por ouvir a exposição da verdade da Bíbha.
Um pregador itinerante contou como, quando perguntado sobre 
qual seria seu assunto, ele respondeu, “Sobre Jesus Cristo no livro de 
Mateus.”
“Oh”, eles replicaram, “ele vai pregar o livro de Mateus. 0 livro 
todo é sobre Jesus Cristo!” Eles o fizeram manter sua palavra. Trinta e 
sete horas depois ele terminou uma exposição versículo por versículo 
da vida de Jesus no livro de Mateus.
Um camponês foi convertido em 1962 através da leitura de uma 
Bíblia que uma senhora cristã idosa lhe emprestara. Com o passar do 
tempo ela deu a Bíblia a ele, temendo que os Guardas Vermelhos da 
Revolução Cultural pudessem achá-la e queimá-la. À medida que os cren­
tes cresciam em número, o camponês viu que ensinar era tão importante 
quanto evangelizar. Com somente imias poucas Bíblias na vüa toda, como 
as pessoas seriam ensinadas? Ele foi dirigido a compüar um Manual 
Bíblico por tópicos que lhe custou sete anos de trabalho. Levou tanto 
tempo porque cada vez que sua esposa não convertida achava o livro, ela
Algreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
168
0 despedaçava ou queimava. Além desta dificuldade, o único tempo que 
tinha para escrever era entre o fim do seu dia de trabalho e o pôr do sol, 
pois eles não tinham eletricidade na cidadezinha. Depois de terminado, 
o livro foi mimeografado pelos crentes e 10.000 cópias foram distribu­
ídas em dez municípios daquela província.
Um pregador itinerante de Xangai visitou uma vila na província de 
Henan. Ele era desconhecido lá. Alguns da vila o levaram para suas casas, 
deixando-o num quarto com Escrituras coladas em todas as paredes. 
Eles queriam compartilhar o evangelho com ele. Quando descobriram 
que ele era um cristáo. Imediatamente lhe pediram para pregar. Levaram- 
no para um cômodo onde outro pregador estava concluindo sua mensa­
gem para 400 ou mais pessoas. A congregação estava transbordando pelo 
quintal. Ele tomou a palavra e pregou das 9 horas da manhã até 11 horas 
da noite. Então os crentes lhe pediram para passar a noite na casa de uma 
senhora idosa e pregar novamente no próximo dia.
Ele foi despertado no meio da noite e deram a ele um desjejum 
completo às 4 da manhã. Então o levaram apressadamente para outra 
reunião, que deveria começar às 6 horas. Para satisfazer sua grande 
fome pela Palavra de Deus sem prejudicar a produção, os crentes mui­
tas vezes se reúnem horas antes do trabalho, e depois novamente horas 
após 0 trabalho.
David Wang conta de uma visita que ele fez a uma região remota 
no noroeste da China, onde pregou por cerca de três horas para 70 
jovens. Seu tema era “A Oração do Pai-Nosso” . Os ouvintes estavam 
sentados no chão ou encostados na parede do pequeno barracão de 
adobe. Eles não estavam apenas ouvindo, estavam anotando cada pala­
vra; e estavam chorando.
Quando David terminou, o líder da igreja caseira deu a ele um 
pouco de chá, dizendo: “Depois de tomar o chá, você pode pregar para 
nós novamente.” Isto foi depois de três horas de pregação ininterrupta! 
Ele tomou o chá e depois pregou por outras quatro ou cinco horas. 
Durante todo o tempo os jovens estavam tomando notas e exclamando, 
“Amém! Amém!” Finalmente, totalmente exausto, ele se sentou.
“Agora vamos cantar”, disse o líder.
David ficou chocado quando ouviu as palavras do cântico: “Não 
ouça sermões! Não ouça sermões! Não ouviremos sermões...”
OADimmento na China
169
Que tipo de resposta era aquela para dois sermões com duração 
de 7 ou 8 horas? Então veio a verdadeira resposta quando cantaram de 
coração e alma, apertando seus punhos: “Viveremos os sermões! Vive­
remos os sermões!”
Ele partiu dali sabendo que eles realmente fariam isto.
A oração fervorosa e o apetite insaciável pela Palavra de Deus que 
temos visto, simplesmente nos mostram que os crentes chineses estão 
famintos por Deus famintos de uma forma que raramente vemos na 
igreja em geral. Sua disposição para abraçar a cruz e sofrer, sua deter­
minação para testemunhar, sua avidez e fervor em oração, seu amor 
para a comunhão dos santos, seu anseio por mais e mais da Palavra de 
Deus, sua correspondência de todo o coração a esta palavra tudo fala 
de um coração responsivo a Deus.
Aqui no Ocidente temos a mesma Bíblia, o mesmo acesso a Deus 
em oração, a mesma— ou mais— oportunidade para comunhão, o mesmo 
Espírito Santo. Por que então não vemos esta mesma fome? Não é porque 
temos tanta coisa para tirar nosso apetite espiritual? Quer estejamos en­
volvidos no meio evangélico, ou de renovação, ou pentecostal, ou de res­
tauração, a situação em geral é a mesma. A igreja tem sido invadida por 
uma influência que “não é de Deus, mas do mimdo” ( IJ o 2:16) e a maioria 
de nós está inconsciente de que temos sido afetados por isto.
Os cristãos hoje, sejam evangélicos, carismáticos ou de “restau­
ração” precisam ser crucificados para o mundo, e o mundo crucificado 
para eles. Eles estão provando o mundo, e assim têm perdido sua fome 
para Deus. A igreja chinesa, em contraste, ensina a cruz, abraça a cruz, 
morre para o mundo, vive no céu — com os pés firmes na terra— e tem 
uma fome insaciável de Deus.
QUANDO 0 SOBRENATURALSETORNANATURAL 
Um obreiro cristão, que está constantemente saindo e entrando 
da China, falou comigo em Hong Kong: “Os cristãos da China não consi­
deram curas e milagres coisas incomuns. Para eles o sobrenatural tem 
se tornado natural.”
Apesar da atitude oficial de encarar curas e müagres como meras 
superstições, o poder de cura de Deus tem constantemente irrompido 
nas fileiras dos membros do Partido. Um correspondente especial de
Algreja do Século XX-AHistóriaque Não Fhi Contada
170
Hong Kong recorda-se de encontrar “vários membros do Partido” en­
quanto viajava pela China, “alguns até ocupando posições bem altas, que 
tinham se tornado cristãos”. Havia um oficialem Xangai cuja filha fora 
curada de leucemia em resposta a oração. Isto levou o pai ao conheci­
mento de Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Ele está agora testemu­
nhando a respeito de Jesus, embora tenha perdido sua alta posição e 
fosse designado para o cargo de zelador.
Numa vila na província de Shaanxi, os cristãos estavam no meio 
de um tempo de oração quando o chefe da brigada de produção e outros 
irromperam contra eles. “Vocês estão proibidos de crer em Jesus e 
proibidos de orar”, ele gritou. Muitos que estavam ajoelhados ergueram 
os olhos alarmados, mas poucos minutos depois foi a vez dos intrusos 
barulhentos ficarem alarmados ao olharem para seu chefe. Seu pescoço 
e boca começaram a inchar terrivelmente e ele estava ofegante. “Você 
deve se arrepender e crer em Cristo”, disseram os cristãos. 0 homem 
consentiu, começou a orar, e imediatamente o inchaço diminuiu e ele 
começou a louvar a Deus em voz alta. Desta forma, o chefe de produção 
transformou-se de um perseguidor de cristãos em dedicado discípulo 
de Cristo. Agora ele testemunha aonde quer que vai e já tem levado 
muitas pessoas a Cristo. A igreja não só foi protegida, mas também 
pôde expandir seu ministério.
Palavras proféticas de aviso têm sido dadas a cristãos em tempos 
de perigo. Trezentos pastores de diferentes cidades estavam reunidos 
para um encontro de três dias. As autoridades descobriram e enviaram 
a polícia secreta para investigar. Enquanto os pastores estavam orando, 
a palavra do Senhor veio a um deles: “A situação aqui é muito perigosa. 
A polícia está vindo para prender vocês.” Um por um os pastores se 
dispersaram por caminhos diferentes.
Assim que o último se fora, a polícia chegou e cercou o prédio. 
Eles esperaram a saída dos pastores para que pudessem prendê-los. 
Finalmente eles se tornaram impacientes e estavam prontos para arre­
bentar a porta. Para surpresa deles, ela estava entreaberta e a sala vazia. 
0 líder exclamou mais admirado do que irado: “Esses cristãos são 
diferentes. Eles sabem exatamente o que estamos fazendo”.
É notável a forma como o ministério dos anjos tem sido usado 
para servir ao corpo de Cristo na China. Anjos têm sido usados não
OAvivamento na China
171
somente para libertação e proteção, mas até mesmo em milagres de 
cm â. Talvez porque a situação na China seja de muitas maneiras seme­
lhante aos tempos do Novo Testamento, as visitações angélicas não são 
algo incomum lá.
Durante a Revolução Cultural um pastor no extremo norte da 
China foi sentenciado à execução pública pelo pelotão de fogo, porque se 
recusara a parar de pregar o evangelho. Enquanto o pelotão se prepara­
va, perguntaram a ele se tinha um último pedido. Ele respondeu que 
gostaria de cantar uma música. Por ser uma execução pública, a permis­
são lhe foi concedida. Ele cantou com uma voz poderosa, e à medida 
que cantava o céu começou a iluminar-se com o esplendor da glória de 
Deus. Todas as pessoas que estavam reunidas ao redor, ouviram o que 
soou como milhares de vozes cantando junto com o pastor.
Abaladas com o incidente, as autoridades decidiram adiar a execu­
ção, enquanto um telegrama urgente foi enviado para Pequim pedindo 
conselho. Por causa de seu teor, o telegrama rapidamente encontrou seu 
caminho através da hierarquia burocrática até chegar ao primelro-minis- 
tro Chou En-lai. Informado do assimto em detalhes, ele comunicou de 
volta: “Realmente este homem não é um homem comum. Libertem-no e 
não 0 aborreçam mais.” 0 pastor foi rapidamente liberado para fazer o 
que quisesse e ele imediatamente começou a pregar. Ao que se sabe ele 
ainda está fazendo isto hoje. Eis uma parte da música que ele cantou:
“Senhor, eu te amo!
Meu coração anseia por ti.
Por tua causa abandono tudo o mais,
Mesmo riqueza e ja m a .”
Um jovem cristão foi enviado para trabalhar numa comuna na 
ilha de Hainan, que ficava a centenas de milhas de sua cidade natal. Por 
causa do seu isolamento, sua fé esfriou. Uma noite quando estava dor­
mindo no dormitório com seus companheiros de trabalho, um tufão 
veio sobre a ilha. Tais tempestades, que produzem ventos de até 150 km 
por hora, são comuns lá. No meio da tempestade, o rapaz ficou assusta­
do com alguém chamando seu nome do lado de fora do dormitório. Ele 
sentou-se na cama, mas estava relutante em ir por causa do perigo. 
Finalmente, a voz tornou-se tão insistente que ele foi. Naquele momento
A Igreja do Século XX -A História que Não Fbi Contada
172
o prédio desmoronou por trás dele. Vários morreram e todos ficaram 
feridos. Como resultado desta experiência, o jovem adquiriu uma ousa­
dia para testemunhar que nunca tivera antes. Mais de 200 pessoas vie­
ram a Cristo nos 18 meses seguintes.
Um obreiro cristáo falou de tun garoto que foi com a avó para o 
campo. Ele morreu ao ser atropelado por uma carroça superlotada.
A avó estava aterrorizada e enterrou o garoto ela mesma. Com 
medo de contar à sua filha o que aconteceu, ela disse que ele se perdera 
pelas ruas. A família aflita estava jantando quando o pequeno garoto entrou 
na casa. Ele explicou que um homem vestido de branco o desenterrara do 
chão, tirara a sujeira da sua roupa e face, e disse que voltasse para casa.
Da província de Zhejiang, famosa pelo grande número de cris­
tãos, vem esta história de uma aldeã que tinha um tumor no cérebro. 
Por nove anos ela tentara encontrar cura, gastando todo seu dinheiro em 
vão. Então perdeu toda sua esperança e resignou-se a morrer.
Um dia, estando deitada em sua cama sozinha na casa, ela viu 
três pessoas de roupas brancas entrando no quarto. Uma delas lhe per­
guntou: “Você quer ser curada?”
Um pouco surpresa ela replicou: “Você é um médico? Sim, eu 
quero ser curada.”
0 homem de branco aproximou-se e afagou sua cabeça no lugar 
onde estava o tumor Ela sentiu um fluido saindo de sua cabeça e uma 
protuberância sendo removida. 0 homem então pareceu fechar a abertu­
ra com uns poucos e rápidos movimentos dos dedos. Ela sentiu alívio 
imediato. Ela então perguntou: “Qual é o seu nome, doutor?”
‘Jesus”, 0 homem de branco respondeu. “Você pode me achar na 
cidadezinha mais próxima.” Então ele desapareceu.
Quando a família retornou à noite, ela contou-lhes sobre o médi­
co que dera a ela tratamento gratuito. Eles não prestaram atenção a ela, 
pensando que estivesse delirando. Mas ela íicou mais forte a cada dia; 
seu tumor no cérebro se fora. Então ela foi à cidadezinha vizinha para 
encontrar o médico que a curara, a fim de agradecer-lhe.
“Há por aqui um médico chamado Jesus?” A mulher a quem ela 
se dirigiu era uma cristá, que pensou por um segundo, e então decidiu 
levar a Inquiridora para sua casa onde os cristãos se reuniam para orar. 
Ela contou a história. Os cristãos não se surpreenderam ao ouvir sobre
OAvivamento na China
173
sua cura, pois isto era comum na China rural. Mas ela ficou atemorizada 
quando eles lhe contaram quem era Jesus. Eles pregaram arrependi­
mento e salvação e ela foi para casa com Jesus em seu coração. Pouco 
tempo depois toda sua família veio a Cristo. Seu testemunho se espa­
lhou rapidamente pela vila, e muitos creram em Jesus.
Por várias gerações a família do Dr. Wang vivera numa casa de 
dois andares. Apesar de suas apreensões na época da Revolução Comu­
nista, ele trabalhou duro para servir ao povo. Quando a Revolução Cul­
tural irrompeu, o velho Dr Wang, formado em medicina no Ocidente e 
conhecido como cristão, foi um dos primeiros alvos da perseguição. 
Pouco se sabe o que fizeram com ele, pois ele nunca falou sobre seus 
sofrimentos; mas o Dr. Wang não podia mais andar. Ficou confinado à 
sua cama num quarto no andar superior, aos cuidados da família.
Uma noite, enquanto a nora do Dr. Wang estava deitada acordada, 
incapaz de dormir, ela ouviu o rangido do grande portão de madeira se 
abrindo no pátio. Levantando-se, correu para a estreita varanda a tempo 
de ver uma figura vestida de branco entrando na casa. Ela desceu as 
escadas para investigar, mas ninguém estava lá, exceto membrosda fa­
mília profundamente adormecidos.
Enquanto isso, no pequeno quarto no andar superior, o D r Wang 
ressonava em seu sono. Uma luz fulgente brilhou sobre ele; seus olhos 
se abriram para uma visão do Senhor Jesus em pé ao lado da cama. 
“Filho”, ele ouviu Jesus dizer, “levanta-te e anda.”
“Eu não posso andar”, ele replicou com surpresa. Então Jesus 
estendeu as mãos para ele e o levantou.
“Você crê em mim?”, Jesus perguntou.
“Sim, Senhor, eu creio”, ele respondeu.
“Se crês em mim”, Jesus disse, “levanta-te e anda.”
Sem hesitar o velho homem obedeceu. Levantou-se de sua cama e 
começou a andar. Depois começou a rir alto com alegria, e parecia que 
0 Senhor ria com ele. Eram duas e meia da madrugada. A risada des­
pertou seu sobrinho que dormia no mesmo quarto. Ele pensou que seu 
tio enlouquecera e correu para apoiá-lo para que não caísse.
Em outro quarto, o filho mais velho do Dr. Wang foi despertado pela 
agitação. Pulou da cama e íicou chocado ao ver o pai em pé perto da cama, 
rindo. Ele também pensou que o velho homem enlouquecera. Estava para
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
174
agarrá-lo quando seu pal disse com firmeza: ‘Tire suas mãos de mim! Eu 
náo estou doido. 0 Senhor Jesus veio neste quarto! Ele me curou!” Com 
estas palavras ele desceu a íngreme escada para o primeiro andar, virou-se 
e sorriu para sua fartiflia aterrorizada. Então ele começou a subir novamen­
te os degraus com passos vigorosos. Quando chegou lá em cima, a alegria 
da família não teve limites. A excitação deles despertou todos na casa.
Notícias tão boas não poderiam esperar até o amanhecer. A famí­
lia toda marchou para a casa do segundo filho numa outra rua. “Olhe! 
Vovô está andando!”, gritou o filho mais novo, enquanto um por um dos 
membros da família se juntavam ao excitado grupo. Rindo e regozijan­
do-se, eles deram graças ao Senhor juntos.
0 Dr. Wang queria prosseguir para o local de reunião dos cren­
tes, mas seus filhos o convenceram a esperar pelo amanhecer. De ma­
nhãzinha a família foi ao atônito pastor e depois a outros parentes. Eles 
encontraram a sobrinha do Dr. Wang, que estava a caminho do serviço. 
Ela arregalou os olhos e ficou de boca aberta ao vê-lo caminhando. Ao 
ouvir 0 que aconteceu, ela começou a louvar ao Senhor dizendo: “Bendi­
to seja Deus! Ele é tão maravilhoso!”
No domingo seguinte, a casa onde os crentes se reuniam estava 
lotada. Pessoas ficaram no jardim olhando através das janelas. Outros 
encheram os corredores. Todos os olhos estavam sobre o Dr. Wang que 
ia de quarto em quarto cumprimentando os cristãos.
0 Dr. Wang agora viaja por todo lado com sua bicicleta, falando a 
todos que o ouvem sobre o poder de Jesus. Pessoas não somente o 
estão ouvindo, mas estão invocando o nome do Senhor e sendo salvas.
Muitos desejarão saber se estas igrejas caseiras independentes 
da China são “carismáticas”. Isto depende de como você entende o ter­
mo. Se você está perguntando: “Esses cristãos são abertos para o enchi­
mento e os dons do Espírito Santo? Eles esperam Deus fazer hoje o que 
ele fez nos tempos da Bíblia? Eles encaram essas coisas como normais 
quando elas ocorrem?”, a resposta com certeza seria “sim” para todas 
essas perguntas. No que se refere à cura, há certamente mais fé entre as 
igrejas caseiras da China, do que há na maioria dos crentes do Ocidente 
que se autodenominam “pentecostais” ou “carismáticos”.
Se você, porém, está perguntando: “Há ensino claro sobre o ba­
tismo no Espírito Santo e os dons espirituais? Há verdadeira liberdade
OAvivamento na China
175
no louvor e adoração? Eles praticam o dom de línguas, de interpretação 
de línguas e de profecia em suas reuniões?”, a resposta em grande parte 
seria “não”. É claro que estou generalizando, e haverá muitas exceções 
para essas respostas.
Os cristãos chineses quase universalmente aceitam o fato que Deus 
cura hoje. Eles crêem na validade dos dons e das manifestações do Espí­
rito e estão abertos para eles; mas há provavelmente pouca ênfase sobre 
“procurar com zelo os dons espirituais” (I Co 14:1), como Paulo nos exorta 
a fazer, e pouco ensino bíblico sobre o seu exercício certo na igreja.
0 que Deus quer dizer-nos através deste aspecto do seu trabalho na 
China? Numa nação que é em grande parte Uvre da influência do Ocidente, 
e onde não há nenhum “lobby” forte a favor ou contra manifestações sobre­
naturais, Deus está todavia movendo espontaneamente desta maneira.
Outra lição é a abertma dos crentes chineses e a simpUcidade de 
sua fé. É verdade que eles têm tido pouco ensinamento. Pela misericór­
dia de Deus, não há ninguém ao redor deles alertando-os de que “essas 
coisas” são “só para a época do Cristianismo primitivo” e que “Deus não 
opera mais assim hoje”, e que, portanto, qualquer uma destas manifesta­
ções é “falsa”.
Nós precisamos sair de nossa posição de negativismo ou neutra­
lidade, se a temos adotado. Precisamos começar a clamar ao Senhor, 
como a igreja primitiva fez, e como a igreja na China está fazendo agora, 
pedindo que ele estenda sua mão para curar e que sinais e maravilhas 
possam seguir-se.
NOTÍCIAS DAlGREjANACHlNAEMi994 
o QUE 05 CRISTÃOS CHINESES ENSINARAMÁ UMA 
DELEGAÇÃO DO CONGRESSO NORTE-AMERICANO
A seguir reproduzimos um artigo da revista Christianity Jbday, de maio de 
1994, ̂que traz notícias mais recentes do avivamento na China.
Nos últimos meses de 1993, as autoridades chinesas emBeijing intensi- 
Jicaram seus tradicionais e^orços contra a propagação “não-autorizada” do 
Cristianismo na China comunista, Novas leis forampromulgadas no sentido 
de refrear a atividade “subversiva” de missionários estrangeiros e de igrgas 
casetas “secretas” do país. Emjaneirode 1994, KarenFeaver, umaassisten- 
te do congressistaFrank Wô , do Estado de Virgínia (EUA), participou de uma
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
176
delegação americana a Beijing. Embora a viagem tivesse caráter político, 
Feaver viu-se atraídapeb aspecto espiritual. Aqui ela faz considerações 
sobre a coragem e ardor de uma igreja sob perseguição.
três senhoras chinesas estavam esperando calmamente, com suas 
faces serenas escondendo a magnitude de seus testemunhos, quandoentra- 
mos na sala. Elas tinham percorrido um longo caminho desde seus lares, 
arriscando-se a ser presas ou coisa pior, somente para se encontrar com a 
delegação do Congresso dos Estados Unidos. Mas, apesar de tudo, vieram 0 
que elas disseram deveriaser um estimulante tônico para os cristãos ameri­
canos, que perderam o contato com o poder e a visão da igreja perseguida.
Depois de nos certificarmos de que as cortinas estavamfechadas para 
evitar os olhares espreitadores do serviço de segurança chinês, nossa tradu­
tora convidou as três senhoras a apresentar suas histórias. Durante três 
horas, nossa delegação de ameríainos privilegiados, chefada peb congres­
sista Chris Smith, de Nova Jersey, e que incluía membros da Solidariedade 
Cristã Internacional, ouviu como um novo capítulo de Atos está sendo escrito 
por toda aChina.
Embora as piores perseguições da igreja tenham acontecido durante a 
Revolução Cultural dos anos 60 e 70, a igreja subterrânea ainda enfrenta 
implacável perseguição em nível locaL 0 govemo chinês agora está dizendo 
que há real liberdade religiosa na China eque ninguém épreso por causa da 
fé. Porém, nas províncias, os crentes são multados, aprisionados e tortura­
dos; as leis locais ainda proíbem reuniões da igreja não-ojicial, proíbem 
ensinar os menores de 18 anos a respeito de Cristo, viajar para divulgar o 
evangelho, ouvir programas radiofônicos de outros países, receber materiais 
religiosos serh a aprovação estatal, bem comojejuar e orar para cura.
A mais idosa das três senhorasfalou de uma experiência recente, tendo 
saído haviapouco tempo de suasegwidaprisáo. Durante seus 110 dias em 
cativeiro, elafoi pendurada de cabeça para baixo e açoitada comfos elétri­
cos. Outras mulheres presas com elaforam ai^ítadas com arame da cintura 
para baixo.Seu crime: reunião com um evangelista de Hong Kong. Como os 
mártires da igreja apostólica, ela disse que a presença de Deus era tão 
palpávelduranteatorturaque,narealidade, elase sentia alegre. “Por causa 
dessasqfllções,amamosaindamaisasalmasdaClma”,disseela “eoramos 
poraquelesque estavam nos torturando.”
Apesar de sua provação, eb. sorria várias vezes enquanto falava. Eu já 
oLwi a respeito da extraordináriafalta de ressentimento eiúre os que sofrem 
na China. Seu testemunho conflnvou esta brandura de espírito.
‘As leis locais são contra a Palavra de Deus", explicou uma das senhoras 
maisnovas, “portanto, nósasignoramosetemosvicyadoemgruposde 10a
0 Avivamento na China
177
20pessoasparaproclamaroemngeIhodescleoconveçodosanos80.Aúmca 
forma de a igreja sobreviver épor meio da evangelização. ” Os congressistas 
normalmentenãotomamnotapcvasimesmos, masChrisSmithempunhou 
sua caneta para registrarpessoalmente o grito de batalha dos cristãos chine­
ses: “Estamos prontos para pregar o evangelho, prontos para ser presos, e 
prontos para morrer por amor de Jesus. ”
“Aorvdequerquevarnos,siriaisernaravílhasacon\panhcmir}ossasinriãse 
irmãos”, aaescentaramelas.DurantesuamissãoàProvínciadeSichuan, elas 
afirmaram ter visto multes milagres: cegos que viam, surdos que ouviam Elas 
contaramcomo, diu-cuÉeunvireuniãoondeninguémqueríaaernoEvangelho, 
umapessoaqueestavaaleijadabaviaTOanosleuantou-seeandou.
Duas histórias chamaram mais minha atenção. As senhorasfalaram de 
umagentedasegurançapública, tipoSaubdeTarso, queestavadispostoa 
encontrar e perseguir os crentes clandestinos. Em 1993 sua esposa cristã 
ficou tão doente que não podia falar nem andar. Afamília gastou 80.000 
iuanes (cerca de dez mil reais) procurando curá-la Os crentes locais decidi­
ram mostrar ao agente seu espírito de perdão eforam orar por sua esposa 
Elafoi curada miraculosamente e seu marido entregou sua vida ao Senhor. 
Ele lhes disse, ‘Agora sei que vocês, cristãos, são realmente boas pessoas. 
Antes eu sempre perseguia os cristãos, mas agora eu os avisarei quando o 
governo quiser causar-lhes danos. ” “Deus usou seus milagres para nos prote­
ger”, umadassenhorasacrescentoucalmamente.
Outro testemunho girou em tomo de um irmão que apresentava a sim­
ples mensagem de arrependimento eféa uma multidão que ouvia o evange­
lho pela primeira vez. Uma visão de Jesus caminhando ente eles e, depois, 
sofrendo na cruz, careceu a todos os que estavam ali. Quando o preletor 
falou que Jesus tinha se levantado dentre os mortos, a visão mostrou Jesus 
subindo “gloriosamente ao céu”. Dicmte dessa visão, mnitas pessoas entre- 
garamsuasvidasaoSenhor.
Os únicos pedidos de oração que as senhoras nos fizeramforam para 
mais Bíblias e liberdade. A necessidade de Bíblias é dramática devido ao 
espantoso crescimento da igreja chinesa Disseram que o contrabando de 
Bíbliascontinuasendonecessârio,umavezqueosregulamentosdogovemo 
impedem sua distribuição aos crentes subterrâneos.
A yreja na China conta entre 30e80 milhões de crentes, e está crescen­
do depressa 0 líder de uma igreja caseira rdatou a grande fome espiritual 
entre osJovens que participaram dos eventos da Praça Tiananmen. Um 
Jovem empresário cristão corüou-nos que levou 70 por cento de seus operá­
rios a Cristo em questão de meses, senhorasfalaram de 40.000 que se
entregaramaCristoduraníeumúnicomêsem 1993.
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
178
Ekistambémnospediramqueorâssernœpor liberdade naChina, demodo 
que possam viajar abertamente para pregar o evangelho por todo o país, na 
Amérícae,depois, “portodoocaminhodevoUaaJerusalémporatermmara 
tareja!'.
0 reavivamento atual na China pode bem ser o maior da história da 
igreja até agora, de acordo com o sinólogo eJornalista David Aikman, da 
revista “Time” Enquanto ainda estou às voltas com todas as lições que a 
igreja chinesa pode nos ensinar, acho que as seguintes diferenças são espe­
cialmente instrutívas:
Primeiro, creio que há umapalavra de advertênciapara nós na natureza 
apolítica da igreja subterrânea chinescL Eles oram com fervorpebs líderes, 
porémmantêmumacautelosaindependência. Somosprivilegiadosporviver- 
mosnurnadenwcraciaparticipcitím mas, tendotrabcúhadonapolíticanoríe- 
americana durcmte quase uma década, tenho visto não poucos crentes ven­
derem seu direito de cristão por um prato de guisado terreno. Devemos 
perguntar-nos continuamente: Nossoprinnetro alvo é mudar nosso govemo 
ou ver vidas dentro ejora do govemo mudadas para Cristo?
A segunda diferença é o enfoque da igreja chinesa sobre a centralidade 
do evangelho e sobre a obediência da Grande Comissão. Enquanto ouvia o 
relato daquelas irmãs, não pude evitar de pensar nos intermináveis debates 
sobre temas periféricos, tais como a validade dos dons carismáticos, os 
papéis das mulheres na igreja, e assbnpor diante. Paraessas três senhoras, 
a realidade do poder miraculoso de Deus foi a única explicação para asobre- 
vivência e crescimento da igreja na China. E o falar das maravilhas de Deus 
não era certamente limitado pelo sexo.
A terceira diferença é a maisforte—ao menos para mim Quando as três 
senhoras nos deixaram, perguntei à nossa tradutora se elas precisavam de 
alguma ajudafmanceira Ela me olhou pensativamente e disse, “Oh, elas 
precisam ..e não precisam. ” Eu sabia o que ela queria dizer. Até a igreja dos 
Estados Unidos, a mais rica do mundo, sempre parece estar ela mesma sem 
recursos suficientes; entretanto, a igreja chinesa está muito ocupada em 
cumpriraGrandeComissão parapercebersuapobreza.
Fhríamos bem em considerar os Julgamentos contrastantes da igreja em 
J^xxxilipse3e7.Etestêmressoadoemmeucoraçãodesdeminhavoltaefalacb 
intensamente sobre o nosso Cristicuiismo de hoje e a pureza quevina igreja 
chinesa.
ÀigrejaemLaodicéia disse Deus, “Conheço as tuas obras, quenemés 
friorvemquente. ..Jissim, porque és momo, e nem és quente nemfrio, estou 
a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes, ‘Estou rico e abastado, e 
não preciso de coisa alguma', e nem sobes que tu és irÿéliz, sim, miserável
0 Avivamento na China
179
pobre, cego e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro rejinado pelo Jogo 
para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, afim de que não 
seja mcmifestaavergonhadatiia nudez” (Ap 3:15-18).
Com referência à visão do apóstob João dos que se vestiam de vestidu­
ras brancas, adorando diante do trono de Deus, foi-lhe dito: “São estes os 
que vêm da grande tribulação, lavaramsuas vestiduras, easaluejaramno 
sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o 
servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no tono 
estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais 
terão sede... pois o Cordeiro que se encontra no meio do tono os apascenta­
rá... E Deus lhes ervcugará dos olhos toda a lágrima” (Ap 7:14-17).
Sentei-me aos pés dos crentes da China, os quais estão sendo prepara­
dos agora mesmo para receber aquelas vestiduras brancas que adornarão os 
santos. Comparando-me com seus vistosos ornatos, eume senti espiritual­
mente nua.
CONCLUSÃO
A última fase da história da hmnanidade antes da volta de Cristo 
será uma época quando, de acordo com a própria profecia de Jesus, 
“Este evangelho do reino será pregado por todo o mundo, para testemu­
nho a todas as nações. Então virá o flm” (Mt 24:14). Com a frase “este 
evangelho do reino”, Jesus estava identificando o evangelho de sinais e 
maravilhas que ele e seus discípulos haviam pregado como sendo a 
mensagem que precederia o final dos tempos (Mt 10:7,8). Curas e mila­
gres serão uma característica da última fase da pregação do evangelho, 
assim como na primeira fase o foram. Seria possível encontrar hoje em 
algum lugar do mundo uma igreja tão preparada para esta tarefa mundi­
al como a igreja na China?
Jonathan Chao, do Centro de Pesquisa da Igreja Chinesa, disse: 
“Depois de dez anos estudando a China e de cinco anos pesquisando a 
igreja na China, cheguei à conclusão que dentro

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