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John Walker
& Outros
A Igreja do
Século X X
I
sm II
A História Que
Não Foi Contada
A Igreja do
Século X X
A História Qm ■
Nõq Foi Contada
Ao longo da história, a igreja
experimentou sucessivas ondas
de despertamento. No século XX,
movimentos como o Carismático,
Chuva Serôdia, Discipulado,
Paiavra da Fé, entre tantos, fazem
parte da fascinante história
recente da igreja.
Compreender e identiflcar tais
movimentos requer estudo
profundo e sério. Este livro tem
como objetivo mostrar os acertos
e erros, apontando novos
caminhos à igreja atual.
Por outro lado, as grandes ondas de
despertamento são sinais claros de
que a igreja de Cristo está sendo
preparada para um avivamento sem
precedentes e para a volta gloriosa
de Jesus.
A igreja do século X X - A história
que não foi contada é um livro
imparcial, equilibrado e
comprometido com a verdadeira
história da igreja. Um livro que trará
fogo ao seu coração, desafia ndo-o a
orar pela vinda desta última e
grande onda.
0 Movimento Palavra da Fé é de Deus ou não?
Por que e como cresceu a maior igreja do mundo?
Quais os resultados, para a igreja, do Movimento do Discipulado?
Você sabe o que é o Movimento Chuva Serôdia, de 1948?
Que recado Deus quer dar à igreja contemporânea com a queda dos
tetevangelistas?
9 7 8 8 5 8 6 5 2 2 5 1 A
A morte de um gigante!
Hoje, quinta-feira 26 de Julho de 2014 às 22hl6min morreu
o digitalizador Mazinho Rodrigues quando digitalizava seu
último livro. Seu scanner(coração) começou a falhar aos poucos
e aproximadamente às 20h32min deu seu último ''suspiro". Sua
dedicação e esforço em compartilhar livros teológicos para a
edificação do povo de Deus é conhecido por ''muitos".
A pergunta que fazemos é: Porque homens desse tipo
morrem?
A resposta está no comentário de Matthew Henry falando
sobre a morte de Moisés - {Os servos de Deus devem morrer poro que
possom desconsor de seus esforços, receber o suo recompenso, e dor lugor
o outros. Quondo os servos de Deus sdo levodos, e já ndo mois devem
servi-lo no terro, võo poro servi-lo melhor, poro servi-lo dio e noite no seu
templo}. Comentário Bíblico Matthew Henry - Antigo testamento -
Pentateuco. Pg.682.
É claro que Matthew Henry estava falando de morte física e
eu no sentido figurado. 0 certo é que não digitalizo mais,
motivos: consciência, financeiros, cansado, outras prioridades...
outros.
Agradeço a todos por tudo.
Att: Mazinho Rodrigues!
mazang
Realce
John Walker
& O utros
A Igreja do
Século X X
A História Que
Não Foi Contada
Copyright © 1996, por Worship Produções.
Publicado originalm ente por W orship Produções.
Republicado por Editora Atos Ltda
Belo H orizonte — Fevereiro dc 2002.
Todos os direitos reservados.
Diagrawafão:
E dilson Ferreira
Capa:
Next Noveau
Todos os direitos em Hngua portuguesa reservados à Editora Atos Ltda.
N enhum a parte deste livro pode ser reproduzida, arquivada ou transmitida
po r qualquer meio - eletrônico, mecânico, fotocópias, etc - sem a devida permissão
dos editores, podendo ser usada apenas para citações breves.
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re serv ado s p e la E D IT O R A A TO S I/TDA.
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INDICE
PREFACIO........................................................................... 5
1 - SITUAÇÃO ESPIRITUAL NO FINAL DO SÉCULO X IX ......... 7
2 - 0 MOVIMENTO PENTECOSTAL......................................... 15
3 - AS GRANDES CAMPANHAS DE CURA............................... 33
4 - 0 MOVIMENTO CHUVA SERÔDIA...................................... 43
5 - 0 MOVIMENTO CARISMÁTICO.......................................... 67
6 - 0 MOVIMENTO CARISMÁTICO CATÓLICO...................... 81
7 - 0 PODER DO ESPÍRITO SANTO ENTRE OS JOVENS...... 95
8 - 0 MOVIMENTO DE DISCIPULADO NA ARGENTINA....... 109
9 - 0 MOVIMENTO DE DISCIPULADO NOS EUA................. 125
10 - AQUEDADOSTELEVANGELISTAS............................... 139
11 - 0 AVIVAMENTO NA CHINA.............................................. 147
12 - A CONTRIBUIÇÃO CHINESA PARA A
REFORMA DA IG R E JA ................................................. 183
13 - 0 MOVIMENTO PALAVRA DA F É .................................... 195
14 - A MAIOR IGREJA DO MUNDO....................................... 209
15 - 0 MOVIMENTO DE RESTAURAÇÃO
NA INGLATERRA....... ................................................... 235
16 - A RESSURREIÇÃO DE UM PROFETA................................259
17 - A ÚLTIMA O ND A ................................................................ 269
BIBLIOGRAFIA.................................................................. 299
Prefácio
REFORMA E AVIVAMENTO
A
inspiração para se fazer este livro surgiu com um curso minis
trado por Harold Walker num seminário para obreiros em agos
to de 1989, em Jundiaí, São Paulo. Não tem o propósito de ser
uma história exaustiva da igreja no século XX e sim de ressaltar alguns
dos acontecimentos marcantes no processo da restauração da igreja
neste século. Cremos que o conhecimento daquilo que Deus já fez na
história recente da igreja é imprescindível para se obter luna visão profé
tica daquilo que ele ainda fará nos próximos anos.
Apesar de ser um assunto muito importante para as reflexões de
todos aqueles que desejam enfrentar esta virada do século de uma for
ma sóbria e apercebida, não existem livros disponíveis que abranjam o
tema de forma global. Há apenas a história de uma ou outra igreja ou de
um movimento isolado. A constatação da carência desse tipo de materi
al e o sentimento da urgência de tê-lo para a formação de uma visão
profética na igreja nos motivaram a elaborar e publicar esse livro.
Existe uma forte tendência na natureza humana de ir a extremos e
de agir motivado por preconceitos. É sempre mais fácil chegar a um con
senso sobre o que Deus fez no passado distante do que concordar sobre o
que ele fez no passado recente. As pessoas tendem a tachar certos movi
mentos de heréticos sem ao menos conhecê-los. Por outro lado, muitos
são ingênuos a ponto de engolir por inteiro certas doutrinas e práticas no
vas quando deveriam julgar tudo e reter apenas o que é bom.
0 nosso desejo ao apresentar esse livro à igreja brasileira é con
tribuir de alguma forma para o seu amadurecimento, levando-a a uma
compreensão equilibrada de todo o cenário espiritual produzido pelos
tremendos acontecimentos deste século. Gostaríamos de ver pastores,
líderes, obreiros e leigos estudando e discutindo esses assuntos, dei-
xaiido de lado seus preconceitos e ampliando seus horizontes para ver o
plano global de Deus. Por um lado, precisamos reconhecer a preciosi
dade da obra de Deus em segmentos da igreja que, por serem tão dife
rentes de nós, temos descartado sem o devido conhecimento e apreço.
Por outro lado, precisamos ser “vacinados” contra novidades pernicio
sas através de conhecer os efeitos nefastos que idéias e doutrinas seme
lhantes já produziram na história da igreja.
0 estudo dos diversos movimentos que surgiram no século XX ten
de a produzir duas reações: Um senso de admiração diante das repetidas
e poderosas visitações do Espírito Santo e um senso de perplexidade di
ante das grandes divergências e aparente desarmonia entre os diversos
segmentos do corpo de Cristo. No meio de toda a confusão humana, po
rém, 0 Espírito de Deus está trabalhando para uma fmalidade específica—
a restauração da igreja para ser a noiva imaculada de Cristo na sua segunda
vinda. À medida que o leitor estuda a restauração da igreja no século XX
queremos chamar a sua atenção para a existência de dois temas distintos
mas inter-relacionados: avivamento e reforma. Deus não quer apenas re
novar 0 mover do seu Espírito na igreja. Ele deseja também restaurar a
revelação clara e pura da sua Palavra, produzindo assim mudançasradi
cais na nossa fé e em nossas estruturas. Dessa forma, unindo uma estrutu
ra reformada com o poder do Espírito derramado, ele pretende formar
uma casa adequada para sua habitação permanente.
Esta obra é fruto de trabalho em equipe. Os capítulos de 1 a 8,10
e 11 foram escritos por Elenir Eller Cordeiro e os capítulos 9 e de 12 a
16 foram escritos por John Walker em inglês e traduzidos por Elenir.
Ambos usaram como fonte de pesquisa vários livros e revistas inglesas
e americanas e incluíram no texto muitos trechos dos mesmos. 0 capí
tulo 17 foi transcrito por Ruth Walker a partir de duas mensagens gra
vadas de Bob Mumford e traduzido e adaptado por Christopher Walker.
John e Harold Walker supervisionaram o projeto. Sérgio Abrahão fez
uma revisão e a última revisão do português foi feita por Rubens Castilho.
Desejamos que suas meditações sobre esses assuntos sejam ilu
minadas pelo Espírito Santo a ponto de levá-lo a ter uma visão e uma
expectativa mais claras daquilo que Deus ainda fará nos anos vindouros
para consumar a restauração da sua igreja.
- Harold Walker
Algreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
Capítulo 1
SITUAÇÃO ESPIRITUAL NO
f in a l DO SÉCULO XIX
A
ntes de focalizarmos diretamente o primeiro mover de Deus do
século XX, seria proveitosa uma breve descrição da situação es
piritual e das expectativas no final do século XIX, para levantar
mos um pano de fundo do Movimento Pentecostal ocorrido logo no
início do século XX.
A situação das igrejas em geral era de apostasia e frieza. 0
Protestantismo Americano era rico, culto e influente, mas, com exce
ção de uns poucos grupos conservadores, seu estado espiritual era
de decadência. Imperavam o liberalismo, o formalismo, o munda-
nismo, 0 profissionalismo ministerial, a consciência de classes, a
ausência de experiência com Deus etc. Instituições teológicas e aca
dêmicas que haviam sido levantadas para preservar a fé tinham se
tornado o berço do Darwinismo e do cepticismo à inspiração da
Bíblia. 0 nascimento físico, ao invés do nascimento espiritual, se
tornou a base para pertencer a uma igreja, a ponto de os termos
“nascer de novo” ou “conversão repentina” terem se tornados arcai
cos. 0 conhecimento das doutrinas substituiu a experiência pessoal
com Deus. “Separação do mundo” tornou-se um termo tão em desu
so no vocabulário cristão que para os protestantes em geral isto só
tinha um significado — morte física! Os pregadores pioneiros que
recebiam com fervor o “chamado de Deus” para pregar o evangelho
foram substituídos por homens que consideravam o ministério uma
profissão e que se orgulhavam de sua posição. Denominações que
em outros tempos foram conhecidas como “igrejas dos pobres” grada-
tivamente se tornaram foram conhecidas como “igrejas dos pobres”
gradativamente se tornaram a ehte da sociedade.
Porém, paralelamente a essa apostasia e frieza espiritual, havia
também alguns sinais de avivamento indicando que nem todos haviam se
ajoelhado diante de Baal. Um chamado para arrependimento, oração e
intercessão estava soando e um texto muito usado nos últimos anos do
século XIX era Jeremias 33:3: “Clama a mim, e responder-te-ei, e anun
ciar-te-ei coisas grandes e ocultas que não sabes.” Outro sinal era a bus
ca e pesquisa das Escrituras resumidas na pergunta: “Que dizem as
Escrituras sobre isto?” Convenções bíblicas especiais eram realizadas e
ministros e missionários se reuniam para estudar a Palavra, a fim de
averiguar o pensamento de Deus para o fim da Era da Igreja.'
Havia também uma expectativa pela “Chuva Serôdia”. Esse era
um tópico enfatizado nas conferências bíblicas baseado na promessa de
Deus em Joel de derramar seu Espírito nos últimos dias. Uma boa
explanação desta expectativa pode ser encontrada no seguinte trecho de
um famoso comentário bíblico a respeito de Tiago 5:7:
“0 recebimento das primeiras e últimas chuvas não deve ser en
tendido como 0 objeto de sua esperança (do lavrador), mas a colheita
para a qual essas chuvas são preliminares e necessárias. As primeiras
chuvas caem no tempo da semeadura, aproximadamente em novembro
ou dezembro; as úlümas chuvas caem aproximadamente em março ou
abril para amadurecer o grão para a colheita. A chuva serôdia que pre
cederá a colheita espiritual que está por vir será provavelmente outra
efusão do Espírito Santo como a do Pentecoste.” ^
Pastores, professores de institutos bíblicos e líderes de igrejas
exortavam a todos “para pedir chuva no tempo da chuva serôdia” (Zc 10:1).
Ensinava-se que o Dia de Pentecoste não exaurira o cumprimento da pro
fecia de Joel, pois uma parte das profecias consiste de referências óbvias
a eventos ligados à vinda do Senhor. Conseqüentemente, com a expectativa
universal da iminente volta do Senhor, havia uma ávida antecipação pelos
“tempos de refrigério da presença do Senhor” (At 3:19). ‘
A Igreja do Sécub XX-A História que Não Foi Contada
O CONCEITO DO BATISMO NO ESPÍRITO
No processo de restauração da igreja, os dias de Lutero trouxe
ram à luz a verdade da justificação pela fé. Alguns séculos mais tarde
surgiu John Wesley pregando a santificação pela obra do Espírito San
to. Mais tarde esta experiência ficou sendo conhecida como “segunda
obra da graça” ou “batismo no Espírito”. Porém, no fmal do século XIX
surgiu um entendimento do batismo no Espírito como sendo um reves
timento de poder para evangelizar o mundo (At 1:8). Eles criam e ensi
navam que se o mundo estava para ser alcançado para Cristo, este reves
timento de poder era uma necessidade vital e que o mesmo Deus que
agiu e supriu as necessidades durante a era apostólica, ansiava por re
vestir todos os crentes. Mas um grupo de cristãos que identificava o
batismo no Espírito com a “segunda obra da graça” começou a entender
que há diferença entre “santidade” e “poder”. Por isso, elaboraram uma
“terceira obra da graça” que seria o “Batismo no Fogo” para alcançar
este poder para evangelizar. 0 importante em tudo isso foi que, ao se
estabelecer a natureza do batismo no Espírito Santo, como um revesti
mento de poder após a conversão, fez-se uma preparação para o grande
mover de Deus que viria no início do século XX.
ARESTAURAÇÂO DO SOBRENATURAL
0 Movimento Pentecostal não foi o inventor do elemento
miraculoso nem do ensinamento bíblico sobre milagres. É verdade que
através dos séculos poucos ousaram crer que era vontade de Deus curar
os doentes. Mas foi perto do fim do século XIX que a visão bíblica sobre
cura divina foi apresentada de forma sistemática. Entre os precursores
neste campo estão A. J. Gordon, A. B. Simpson (fundador da Aliança
Cristã e Missionária), Andrew Murray e John Alexander Dowie, um no
tável defensor de cura divina estabelecido em Illinois — alguns de seus
seguidores se tornaram os primeiros líderes pentecostais.'
São muitos os relatos de curas extraordinárias antes do século XX:
Por exemplo, uma cura notável aconteceu com Mary Reynolds,
de Indianápolis, em 1872. Após sete anos de tratamentos especializa
dos e à beira da morte, ela foi incentivada a crer em sua cura baseada
em Tiago 5:16. Numa manhã um homem de Deus orou especificamente
Situação Espiritual no Final do SécubXIX
por ela, ungindo-a com óleo em nome do Senhor. Ele deixou a casa
sem ver nenhuma aparente mudança, a não ser uma profunda paz e
certeza que invadiram o coração da mulher. Às três horas da tarde, de
repente onda após onda de glória inundou sua alma e um poder como
eletricidade enviou vibrações para as partes mais remotas de seu cor
po. Ela saltou sobre seus pés completamente curada. Toda doença e
enfermidade desapareceram. 0 Espírito encheu completamente seu
ser. A enfermeira ficou atordoada ao vê-la sair de seu quarto num
ímpeto e se juntar a vários vizinhos que estavam ali para verificar seu
estado de saúde. Ela se colocou de joelhos diante deles e derramou-
se numa torrente de ações de graças aDeus. Logo veio a hora do
jantar e ela foi para a mesa e comeu uma refeição normal, a primeira
depois de sete anos. Ela estava com 35 anos quando foi curada e de
pois disto viveu mais quarenta anos. Como resultado de sua cura e
testemunho muitos foram salvos, inclusive seu esposo e filhos. Suas
duas filhas mais velhas foram servir a Deus na China. ^
Outro exemplo foi a cura de John Easton, em 1900, na missão
de Dowie em Toronto, Canadá. Ele tinha as costas quebradas e por
seis anos vivera numa moldura de gesso com um equipamento em
seus ombros, no qual se penduravam pesos. Dormia num vagão em
que durante o dia vendia pequenas mercadorias. À noite dirigia seu
cavalo e o vagão para um galpão onde morava com sua esposa e filhos.
Suas pernas eram tão insensíveis que uma agulha podia ser espetada
na sua carne sem causar reação de dor. Seus calcanhares eram repu
xados fazendo com que os pés fossem uma continuação das pernas,
impossibilitando-o totalmente de andar. *
Todas as sextas-feiras à noite, durante mais de um ano, foram
realizadas reuniões de orações para ele com instruções de salvação e
cura. No dia de sua cura Easton recebeu a certeza de que seria curado e
pediu que sua esposa providenciasse roupas e sapatos para ele .'
Houve um sentimento de expectativa desde o início da reunião até o
momento em que o líder, com a ajuda de outros, serrou a moldura. Sob a
ordem “Em nome de Jesus”, John Easton sentou-se! Seus pés e pernas
pairaram sobre os lados do vagão como dois sacos. Numa segunda or
dem, ele caiu sobre seus pés, que se tomaram imediatamente normais. Ele
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
10
pegou 0 líder em seus braços e depois virou-se para abraçar sua esposa.
Ao ouvirem o som de regozijo, os vizinhos e depois os jomaüstas começa
ram a chegar. Toda a noite andou e louvou ao Senhor até que pela manhá a
carne tenra de seus “novos” pés estava coberta de bolhas. ‘
FALANDO EM OUTRAS LÍNGUAS
Estas duas curas são apenas exemplos de muitos milagres ocorridos
neste período. Com o avivamento de cura veio o interesse por outros sinais
e dons mencionados no Novo Testamento. Os filhos de Deus começaram a
crer na restauração dos dons como um todo. Isto também foi verdade em
relação ao falar em outras línguas. Apesar do mover do Espírito com lín
guas e dons só ter rompido no início do século XX com o Movimento
Pentecostal, houve experiências singulares de falar em outras línguas antes
desse movimento.
R. B. Swan, um pastor em Providence, Rhode Island, descreveu
num panfleto um derramamento do Espírito perto da sua cidade:
“No ano de 1874 para 1875, enquanto estávamos buscando ao
Senhor, juntaram-se a nós vários que tinham recebido o batismo no
Espírito e o dom de línguas alguns anos antes disto, e eles foram uma
boa ajuda para nós. Em 1875, nosso Senhor começou a derramar seu
Espírito sobre nós; minha esposa e eu, com alguns outros, começamos
a proferir umas poucas palavras numa ‘língua desconhecida’.” ‘
Marie Woodworth-Etter, cujo ministério viria a tornar-se uma
bênção para o inexperiente Movimento Pentecostal, entrou para o minis
tério em 1876 na Igreja dos Irmãos Unidos. Ela testificou:
“Quase desde o início do meu ministério alguns falaram em lín
guas estranhas. Mas eu não entendia isto, e como eu era a única líder
não tive muito tempo para investigar e explicar isto; mas eu sabia que
era de Deus.” '
Um derramamento do Espírito na Igreja Missionária Sueca, em
Minnesota, ocorreu durante o ministério de John Thompson:
“Esse avivamento espiritual começou em 1892 e continuou por
muitos anos. Houve muitas curas notáveis, e muitas vezes, enquanto o
Pastor Thompson estava pregando, o poder de Deus caía e pessoas se
prostravam no chão e falavam em outras línguas como o Espírito con
Situação Espiritual no Final do SécubXIX
11
cedia que falassem. Uma irmã em particular, Augusta Johnson, recebeu
um poderoso batismo no Espírito Santo, falou em outras línguas, profe
tizou e teve muitas visões maravilhosas. 0 Senhor deu a ela um chama
do defmido para África, onde ela trabalhou por mais de trinta anos. Não
somente era Moorehead foi o Espírito derramado naqueles dias, mas
também em Lake Eunice, Evansville e Torkenskjold.” ̂
0 Pastor C. M. Hanson de Dalton, Minnesota, testificou:
“Em 1895, enquanto realizava reuniões e pregações do evangelho
completo, uma pessoa rompeu toda resistência e falou em línguas como
em Atos 2:4. Dois anos mais tarde eu orei por outra pessoa pelo batis
mo no Espírito Santo. Pouco tempo depois, o Espírito veio sobre ela e
ela saltou, gritou, louvou a Deus, cantou, profetizou e falou em outras
línguas. Dois anos depois disto, fui levado a estar sozinho com o Se
nhor. De repente, como um vento poderoso e impetuoso, a atmosfera
espiritual foi clareada e todo o meu interior iluminado. 0 sangue expiador
de Cristo, justificando-me diante de Deus, tornou claras todas as coi
sas. 0 Espírito Santo, então, como uma pessoa, tomou posse de seu
templo, falando em outras línguas, enquanto eu via a mim mesmo como
um ouvinte e instrumento na mão do Todo-Poderoso.” '
A HISTÓRIA DA FAMÍLIASHAKARIAN
Surpreendente é a história dos ascendentes do armênio Demos
Shakarian Junior, fundador da Associação de Homens de Negócio do
Evangelho Pleno, que relata a manifestação de línguas e dons no século
XIX na Velha Rússia e Armênia:
“Em 1855, um garoto russo de onze anos de idade que vivia na
Armênia recebeu uma visitação sobrenatural e maravilhosa. Por sete dias
e sete noites ele esteve sob o poder de Deus escrevendo profecias sobre
coisas vindouras. Embora fosse analfabeto, escreveu com boa letra e de
senhou figuras, mapas e gráficos. Ele profetizou que a paz seria tirada da
terra e que Armênia seria devastada pelos turcos e os cristãos armênios
seriam massacrados, a menos que fossem para uma terra do outro lado
do oceano, a qual as figuras, mapas e gráficos mostraram ser a América.
Deus prometeu abençoar e fazer prosperar todo aquele que atentasse para
seu aviso e fosse para o país onde seriam livres da perseguição.” ̂
A Igreja do SéculoXX-A História que Não Foi Contada
12
A profecia ficou guardada por décadas esperando seu cumpri
mento. Quando o derramamento Pentecostal chegou na Armênia, um
dos primeiros a receber o batismo no Espírito foi a família de Demos
Shakarian Senior, Presbiteriano. Ele tinha cinco filhas e naqueles dias
considerava-se uma vergonha uma mulher não dar à luz um filho. Mas
em 1891 sua esposa, como Sara, recebeu uma profecia de que dentro de
um ano daria à luz um menino. Isto se cumpriu em 25 de maio de 1892
e deram-lhe o nome de Isaac.
Quando Isaac tinha 7 anos, um grupo de cristãos Pentecostais
Russos veio à vila Kara Kala para ter comunhão com os Pentecostais
Armênios. Como falava com fluência o russo. Demos Shakarian foi es
colhido para acomodar os cristãos russos em várias casas da vila e
também cedeu seu lar para reuniões à noite por uma semana. Como
preparativos para receber os visitantes, ele saiu para selecionar entre
seu gado o melhor novilho para ser oferecido ao Senhor. Apesar de
saber pelas Escrituras que deveria escolher um animal sem defeito,
escolheu um que era o mais gordo mas só com um olho. Ele o matou,
decepou rapidamente sua cabeça e, por não ter tempo de enterrá-la,
colocou-a num saco e o escondeu no canto de um celeiro debaixo de
uma grande pilha de trigo em grãos. Depois preparou a carne.
Aquela noite, como era de costume, Demos e toda sua família
foram para frente e se ajoelharam para receber a bênção de um dos
líderes russos enquanto um dos profetas permanecia ao seu lado. De
pois desta bênção, a carne ofertada deveria ser abençoada e então
viria a festa e a noite de adoração. De repente, sem dizer uma palavra, o
profeta cruzou a sala e saiu. 0 líder não quis continuar sem a presença
do profeta e pediu que cantassem um hino até que ele voltasse. ^
Quandoo profeta voltou, trouxe o saco que estava escondido e o
abriu em frente da família Shakarian ajoelhada, revelando a cabeça do
novilho com o olho defeituoso. Ele disse que o Senhor lhe revelara tudo
enquanto se preparavam para pedir a bênção de Deus sobre a família e sua
oferenda.^
Demos Shakarian confessou que errara e pediu perdão. Isto Uie foi
concedido pela congregação em nome do Senhor. Tão impressivo foi este
Situação Espintual no Final do Século XIX
13
incidente que não somente os Shakarians, mas também as outras famílias
armênias e russas determinaram que daquele dia em diante ofereceriam
a Deus somente o serviço e a oferta que Deus exigisse deles, mesmo que
pudesse parecer na época que um substituto, como no caso do novilho
defeituoso que era o mais gordo, servisse melhor para o propósito. ̂ .
Passaram-se quarenta e cinco anos desde que a profecia fora re
cebida pelo garoto que agora estava com 56 anos. Aparentemente, quase
já podia ser considerado um falso profeta, mas depois de todos esses
anos 0 Senhor o instruiu para avisar os armênios que chegara o tempo
de deixarem o país! A palavra se espalhou rapidamente entre os armênios
e, em 1900, sob a zombaria de muitos, o êxodo de famílias armênias e
também de famüias russas começou rumo à América. A família Shakarian
chegou a Nova Iorque em 1905 e se estabeleceu em Los Angeles com
suas cinco filhas e o filho Isaac, agora com treze anos. A última família
saiu em 1912 e dois anos depois veio a Primeira Guerra Mundial, e num
ataque violento os turcos invadiram a Armênia e varreram a vila de Kara
Kala do mapa, matando todos os habitantes. ^
Quase imediatamente após a chegada dos Shakarians a Los Angeles,
0 derramamento do Espírito começou na Rua Azusa, em 1906. Demos,
seu cunhado e outro armênio se aproximaram da Rua Azusa e qual não foi
sua surpresa ao ouvir sons de gritos e cânticos no Espírito semelhantes
aos que estavam acostumados a ouvir na Armênia e na igreja estabelecida
por eles em Los Angeles na casa de Demos Shakarian. Ao alcançarem o
galpão que se transformara numa Missão — descobriram vários falando
em línguas. Eles voltaram para casa com notícias emocionantes— o mes
mo Deus que tinha movido na igreja primitva em Jerusalém, na Armênia
e na Rússia, estava começando a mover na América. ®
Então, 0 derramamento do Espírito ocorrido na Rússia e na
Armênia no final do século XIX com manifestações de línguas e dons,
precedeu ao derramamento Pentecostal no início do século XX, Quando
Demos Shakarian Senior faleceu em 1908, seu filho Isaac estava com
dezesseis anos. Em 1913, já casado, a esposa de Isaac deu à luz a
Demos Shakarian Junior, que se tornou o fundador no início dos anos
50 da famosa Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno.
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
14
O MOVIMENTO PENTECOSTAL
0
avivamento Pentecostal do século XX não começou num galpão,
mas numa mansão! Ao estilo de um castelo inglês, essa cons
trução de pedra vermelha e branca possuía dois domos, imia cú
pula atrás e um observatório elevado alcançado por escadas espiraladas.
Em outubro de 1900 Charles Parham alugou essa “Mansão de Pedra”, como
era conhecida, em Topeka, Kansas, para estabelecer uma escola bíblica
chamada Betei. Cerca de 40 estudantes (alguns Já tinham cursado outros
institutos bíbhcos) ingressaram na escola para seu primeiro e único ano
atraídos pelo seguinte propósito — descobrir o poder que os capacitaria
a enfrentar o desafio do nouo século. Era uma escola de fé nenhuma
taxa era cobrada para moradia e alimentação. Eles confiaram em Deus
para cada necessidade “e tinham tudo em comum”. A idéia completa era
um período de treinamento intensivo na Palavra, oração e evangelismo.
Esperava-se que Deus faria uma “obra repentina” em seus corações que os
tornaria testemunhas eficazes de Cristo até os confins da terra. De acordo
com as palavras de Parham, todos aqueles que “quisessem se entregar ao
ministério da Palavra e oração” estavam livres para participar. Foi
estabelecida uma ‘Torre de Oração” numa das cúpulas para os estudantes
manterem um período de oração de três horas, cada um. Alguns passavam
noites inteiras em intercessão na torre. ‘
0 método de estudo era escolher um assunto, pesquisar e estu
dar todas as citações bíblicas sobre ele e apresentá-lo para a classe em
forma de sabatina oral, orando para que a unção do Espírito estivesse
sobre a mensagem trazendo convicção. Parham também ensinava atra
vés de palestras.
15
Até dezembro de 1900 eles já tinham estudado sobre arrependi
mento, conversão, consagração, santificação, cura e a iminente vinda do
Senhor No dia 25 de dezembro. Charles Parham iria se ausentar por
alguns dias, tendo deixado a seguinte instrução para eles: “Nós nos de
paramos em nossos estudos com um problema. E sobre o segundo capí
tulo de Atos?... Tendo ouvido tantas entidades religiosas diferentes rei
vindicarem diferentes provas como a evidência do recebimento do ba
tismo pentecostal, eu quero que vocês alunos estudem dihgentemente
qual é a evidência bíblica do batismo no Espírito, para que possamos
apresentar ao mundo alguma coisa incontestável que corresponda de
forma absoluta com a Palavra.” Três dias depois, ao apresentarem o
resultado de seus trabalhos, todos os alunos tinham a mesma história
— embora diferentes coisas tivessem ocorrido quando a bênção
pentecostal caiu, a prova irrefutável em cada ocasião era que eles fala
vam em outras línguas. Então línguas eram a evidência ou sinal do batis
mo no Espírito nos tempos apostólicos. Foi esta descoberta que fez com
que surgisse o Movimento Pentecostal do Século X X .'
No primeiro dia de janeiro de 1901 (considerado por algumas
autoridades como o primeiro dia do século XX) os alunos estavam orando
e uma estudante de 18 anos, Agnes N. Ozman, resolveu fazer um pedi
do. Eis 0 seu testemunho:
“Nós estudávamos a BíbUa durante o dia e fazíamos muitos tra
balhos no centro da cidade à noite... Oração era oferecida noite e dia
continuamente num cenáculo especial separado como uma torre de ora
ção. Tive muitas horas abençoadas de oração nesse cenáculo durante as
vigílias da noite... Como alguns outros, eu pensava que tinha recebido o
batismo no Espírito Santo num tempo de consagração, mas, quando
aprendi que o Espírito Santo estava para ser derramado em maior ple
nitude, meu coração tornou-se faminto pelo Consolador prometido, e
comecei a clamar por um revestimento de poder do alto. Às vezes, ansi
ava mais pela vinda do Espírito Santo do que por minha comida diária.
À noite tinha um desejo maior por ele do que por dormir...'
“Durante o primeiro dia de 1901, a presença de Deus estava co
nosco de maneira marcante, levando os corações a esperar nele para
coisas maiores. 0 espírito de oração estava sobre nós à noite. Eram
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFoi Contada
16
quase onze horas quando senti em meu coração desejo de pedir que
mãos fossem impostas sobre mim para que eu pudesse receber o dom
do Espírito Santo. Logo que as mãos foram colocadas sobre minha
cabeça, o Espírito Santo caiu sobre mim e comecei a falar em línguas,
glorificando a Deus. Falei várias línguas. Era como se rios de água viva
fluíssem de meu interior.” '
Parham também testificou sobre a experiência de Ozman:
“Impus minhas mãos sobre ela e orei. Mal tinha pronunciado três
dúzias de frases quando uma glória desceu sobre ela, uma auréola pare
cia envolver sua cabeça e rosto, e ela começou a falar em língua chinesa
e ficou impossibilitada de falar em inglês por três dias.”“*
As aulas foram suspensas e toda a escola esperou diante de Deus.
Durante a segunda noite, Ozman recebeu a língua boêmia confirmada
por um tcheco que estava presente, e em poucos dias Parham e a maio
ria dos outros estudantes receberam a experiência pentecostal. Um
após outro começou a falar em línguas e alguns receberam o domde
interpretação. Por cinco anos Parham e seu grupo de estudantes viaja
ram através dos estados do sudoeste americano proclamando o evange
lho da “Fé Apostólica”, como ele chamava seu movimento, mas recusou-
se a encorajar todo e qualquer tipo de organização eclesiástica. Apesar
de terem provocado vários avivamentos locais, Parham e seus estudan
tes não conseguiram captar o interesse da nação para o novo batismo
autenticado pelas línguas. Na verdade, o fogo só começou a se alastrar
em 1906 com os acontecimentos da RuaAzusa, em Los Angeles.
Em 1905 Parham mudou-se para Houston, Texas, onde formou
outra escola bíblica. Foi lá que recebeu como aluno William J. Seymour,
um negro, cego de um olho e humilde. Apesar do preconceito racial do
Sul, Seymour participou da escola e aprendeu sobre a “evidência ini
cial” do batismo no Espírito. Pregava sobre isto em outras igrejas, mas
ele mesmo ainda não tinha recebido o batismo no Espírito com línguas.
Seymour foi convidado por uma senhora que o ouvira pregar no
Texas para pregar em Los Angeles numa igreja de negros Holiness, e
assim se tornou um dos instrumentos de Deus para fazer explodir um
dos mais importantes avivamentos da história da igreja.
0 Movimento Pentecostal
17
Seu primeiro sermão baseado em Atos 2:4 deixou a pastora furi
osa com a implicação de que desde que ela não falara em línguas como
os primeiros discípulos, ela ainda não recebera a plenitude do Espírito.
Na sua segunda noite de pregação Seymour encontrou a porta da igreja
fechada por ordem da pastora que não queria ouvir mais sua mensa
gem. Sendo assim, ele e mais sete pessoas se reuniram num lar para
buscar o Senhor, e naquela noite de 9 de abril de 1906 todos foram
batizados no Espírito e falaram em línguas — menos Seymour. Os gri
tos eram tão fervorosos — e tão altos — que uma multidão se juntou do
lado de fora indagando: “0 que significa isto?” Logo foi propagado pela
cidade que Deus estava derramando seu Espírito. Pessoas brancas se
juntaram às pessoas de cor e também foram cheias do Espírito. No dia
12 de abril o próprio Seymour teria sua experiência pentecostal com
línguas.
O INÍCIO DAM1S5À0 AZUSA
Frank Bartleman era um evangelista Holiness que recebera notí
cias do avivamento em Gales ocorrido em 1904 e desde então dedicou
sua vida para orar e publicar literatura conclamando outros a orar e
buscar avivamento para Los Angeles. Ele entrou em contato com
Seymour, que, por falta de espaço, alugara um velho galpão na Rua Azusa
e então o fogo se alastrou. Ele se tornou a pessoa chave para espalhar as
notícias do avivamento através de folhetos e publicações. A seguir (até a
página 16), temos a descrição impressionante do início do avivamento
nas palavras do próprio Bartleman, extraída do seu livro “A História do
Avivamento Azusa”: ^
Depois de um período de oração, o Senhor me mostrou que deveria
voltar para a reunião que havia sido transferida da Rua Bonnie Brae para a
RuaAzusa,312.Haviamalugadoumavelhacasademadeiraqueforaantes
uma igreja metodista, no centro da cidade, e que durante muito tempo não
Jora usada para reuniões. Tomara-se um depósito de madeira velha e cimen
to, mas agora limparamasujeira e o entulho suficiente para colocar umas
tábuas no meio, em cima de barris velhos. Desta forma, dava lugarpara cerca
de trinta pessoas, se me lembro corretamente. Sentavam-seformando um
quadrado olhando uns para os outros.
A Igreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
18
Senti tremenda pressão interior para ir à reunião daquela noite. Era
minhaprimeiravisitaàMissáoAzusa.MamãeWheaton, que estava vivendo
conosco naquela época, iria conosco. Ela andava tão devagar que eu mal
conseguia esperá-la. Chegamos láflnabnente e encontrei cerca de doze
irmãos, algunsbrancosea^unsnegros.OirmãoSeymourestavaládirigin-
do. A “arca do Senhor" começou a se nwver vagarosamente, mas com firme
za emAzusa. No princípio era carregada nos ombros de sacerdotes indicados
por ele mesmo. Não tínhamos nenhuma “carroça nova” naqueles dias para
agradar as multidões mistas e carnais. Tínhamos de combater contra Sata
nás, masa“arca”nãoerapwoadaporbois(bestasignorantes). Ossacerdotes
estavam “uivos para Deus”, através de muita preparação e oração. 0 discer
nimento não eraperfeito, e o inimigo tirou algum proveito disto, e trouxe
algumas críticas ao trabalho, mas os irmãos logo aprenderam a “apartar o
precioso do vil”.
Tbdas asforças do infemo estavam combinadas contra nós no princípio.
Nemtudoerabênção.Na realidade, a luta/oi terrível Satanás procurava
espíritos imperfeitos, como sempre, para destruir o trabalho, se possível.
Mas ofogo não podia ser apagado. Irmãosfortes haviam se reunido com a
cyuda do Senhor. Aos poucos levantou-se uma onda de vitória. Mas tudo isto
veio de umpequeno começo, uma pequenina chama
Preguei uma mensagem na minha primeira reunião emAzusa. Dois ir-
mãosjalaram em línguas. Muitas bênçãos pareciam acompanhar estas mani
festações. Em breve muitos já sabiam que o Senhor estava operando na Rua
Azusa e pessoas de todas as classes começaram a vir às reuniões. Muitos
estavam apenas curiosos e não acreditavam, mas outros tinham fome da
presença de Deus. Os jomais começaram a ridicularizar e a debochar das
reuniões, oferecendo-nos desta maneta muitapubUddade gratuita. Isto trouxe
os multidões. 0 Diabo superou-se asi mesmo outra vez. Perseguições exter
nas nuncajazem mal à obra. Tínhamos de nos preocupar mais com os espí
ritos maUgnos que trabalhavam dentro da obra.Méespíriías e hipnotizadores
vieram investigar o quefazíamos e tentar nos influenciar. Apareceram então
todos os descontentes religiosos e charlatães procurando um lugar para
trabalhar. Estes é que nos causavam mais temor, porquanto constituem sem
pre perigo para todos os trabalhos que estão sendo iniciados, e não encon-
tramguarida noutros lugares. Estasitiiação lançou tal medo sobre muitas
pessoasqueJoiquaseinsuperáveleimpediumuitoaaçãodoEspírito. Várias
temiam buscar a Deus por pensar que o Diabo poderia pegá-las.
o Movimento Pentecostal
19
Descobrimos logo no início que, quando tentávamos segurar a arca (1 Cr
13:9), 0 Senhorparavade trabalhar. Não ousáuamos chamar rnuiíoaaíenção
do povo para o que o maligno tentava realizar, pois o resultado seria medo.
Só podíamos orar. Então Deus deu-nos a vitória. Havia a presença de Deus
coriosco através da oração; nós podíamos contar com ela Os líderes tinham
uma experiência bastante limitada, e a grande maravilha é que o trabalho
tenha sobrevivido contra seuspoderosos adversários. Mas era de Deus. E era
este 0 segredo.
EXPERIÊNCIAS COM O ESPÍRITO EM AZUSA
Nos primeiros dias daMissãoAzusa, tanto o céu como o infemo pareciam
ter chegado à cidade. Os homens estavam a ponto de estourar e havia uma
poderosa convicção sobreopovoem geral As pessoas paredam cair aos peda-
çosaténarua,semnenhumaprovocaçáo.Haviacomoqueumacercaemvolta
daMissãoAzusaJeitapeloEspírito. Quando o povo aatravessava, adoisou
tês quarteirões de distância, era tomado pela corwicção dos seus pecados.
0 trabalho era cada vez mais claro eforte em Azusa. Deus operavapode-
rosamente. Parecia que todos tinham de ir a Azusa. Havia rrüssionários vindos
daÁfrica, índia e ilhas oceânicas. Pregadores e obreiros atravessavam o conti
nente, e vinham de ilhas distantes, motivados por uma atração irresistíixl por
LosAngeles. “Coryregaiosmeussantos” (Sl50:l-7). Haviam sido chamados
para assistir ao Pentecoste, embora não soubessem Era o chamado de Deus.
Reuniões independentes, embnasemissões, começaramafediarporfaltade
gente.SeusmembrosestcwamtodosemAzusaOúmãoeimnãGarrfecharam
oauditório“SarçaArdente”evieramaAzusaparaserembatizadosnoEspíri-
to,elogoforamparaaíndiaespalharachama
Houve muitaperseguição, principalmente por parte da imprensa Escre
viam coisas incríveis, mas isso só fazia com que mais gente viesse. Muitos
deram ao movimento seis meses de vida. Em pouco tempo havia reuniõesnoite e dia sem interrupção. Todas as noites a casa estava lotada. Todo o
prédio em cima e embaixo havia sido esvaziado e estava sendo utilizado.
Havia muito mais brancos do que pessoas de corjreqüentando as reurúões.
Asegregaçãoracialjoiapagadapebsanguede Jesus. AS. Worrell tradutor
do Novo Testamento, declarou que o trabalho de Azusa havia redescoberto o
sangue de Jesus para a igreja naquela época. Dava-se grande ênjase ao
sangue como elemento pwficador. Colocavam-se padrões morais elevados
para quem queria ter uma vida limpa.
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
20
Ocmrior divino se manifestcaxL maravilhosamente nestas reuniões. Não se
permitia nem sequer uma palavra indelicada contra os inimigos ou outras
igrejas. A mensagem era o amor de Deus. Era como se o primeiro amor da
igreja primitiva houvesse retomado. 0 batisnw, corra o recebíamos no prin
cípio, não permitia que pensássenKS,falássemos ou ouvíssemos o mal con
tra qualquer criatura. 0 Espírito era muito sensível como uma pomba delica
da. Apomba não temfeL Sabíamos imediatamente quando magoávamos o
Espírito através de um pensamento ou de uma palavra. Parecíamos viver
num mar depuro amor divino. 0 Senhor lutava por nós naqueles dias. Nós
nos submetíamos ao seu julgamento em todos os assuntos, nunca buscando
defender0 nosso trabalhoouanossapessoa Vivíarmsemsuamaravilhosa
e real presençcL E nada contrário ao seu puro Espírito era permitido.
Ofabo era separado do real pelo Espírito de Deus. A própria palavra de
Deus era que resolvia todos os assuntos. 0 coração do povo, tanto em ação
como em motivação, era descoberto até o cerne mais profundo. Não era
nenhuma brincadeira tomar-se membro do grupo. “Ninguém ousava qjuntar-
se a eles ” (At 5:13) a não ser que levasse as coisas a sério, e quisesse ir até
ofim. Naquele tempo, para receber o batismo era necessário passar pela
morte e por um processo de purificação. Tínhamos uma sala especial em
cima para aqueles que buscavam com mais ardor o batismo embora muitos
fossem batizados também em plena reunião. Muitas vezes eram batizados
enquanto estavam sentados. Na parede da sala especial estava escrito: “É
proibido falar alto; sussurre apenas. "Não sabíamos nada a respeito de “con
quistar pelo barulho" naquela época'
OE^Mooperavaprçfijndamente. Umapessoainquietaouquefalassesem
pensar era logo repreendidapeb Espírito. Estávamosem terrasanta. Estaat-
mosfera era insuportávelpara os camais. Geralmente passavam bem bnge
daquela sala a não ser que já houvessem sido subjugados e esvaziadospeb
Espírito. Só iampara lá os que verdadeiramente buscavamaDeus, os que
estavam sérios com ele. Este não era um lugar para manifestações emotivas
nem para desmaios ou dar vazão asentimentos negativos. Os homens não
gritavamnaqueleiempo.EksbuscavamamisericórdiadoSenhor,diantedoseu
tono.Suaatitudeeraadequemtiravaossapatosporestaremterrasanta.
AAÇÃO DO ESPÍRITO NAMÚSICA
Sexta-feira, 15 dejunho, emAzusa, o Espírito derramou o coro celestial
dentro de minha alma Encontrei-me, de repente, unindo-me aos demais que
0 Movimento Pentecostal
21
Já haviam recebido este dom sobrenatural Era uma manifestação espontâ
nea e de tal arrebatamento que nenhuma língua hunmruipoderia descrever
No início esta manifestação era maravilhosamente pura e poderosa. Temía-
nws reproduzi-la, como também com as línguas estranhas. Hoje em dia,
muitos parecem não ter nenhum constrangimento de imitar todos os dons. É
por isso que elesperderamgrande parte do seu poder einfluêru:ia Ninguém
podia compreender esse dom de cânticos espirituais além daqueles através
dos quais se manifestcwa. Era realmente um novo cântico no Espírito. Quan
do 0 ouvi pela primeira vez numa reunião, um grande desejo entrou em
minha alma de recebê-lo. Achava que expressaria muito bem todos os meus
sentimentos reprimidos. Eu ainda nãojalara em línguas. A nova canção, no
entanto, me conquistou. Era um dom de Deus de alto nível e apareceu erúre
nós logo que começou o trabalho em Azusa. Ninguém havia pregado sobre
isso. OSenhorohaviaden-amadosoberanamenteJuntocomoderramamen-
to do “restante do azeite”, o batismo no Espírito da chuva serôdia. Manifes
tava-se à medida que o Espínto impulsionava as pessoas que tinham o dom,
individualmente ou em grupo. Às vezes era sem palavras, outras vezes em
línguas. 0 efeito sobre o povo era maravilhoso. Havia uma atmo^era celestial
como se os próprios anjos estivessem presentes e houvessem se unido a nós.
ProvavelnKnte isto ocorria mesmo. Parecia fazer cessar toda crítica e oposi
ção, e era difícil até para os ímpios negá-lo ou rídicularizá-b.
Alguns condenam esses cânticos novos sem palavras. Mas nãojoi o som
dado antes da linguagem? E não há inteligência sem linguagem? Quem
compôs a primeira música? Temos sempre de seguir acomposição de algum
homem que veio antes de nós? Somos por demais adoradores da tradição. 0
Jcúar emlínguasnãoestáde acordo com a sabedoria ou com o conhecimento
humano. Epor que não um dom de cânticos espirituais? De fato, estes são
um desafio aos cânticos religiosos de ritmo moderno que usamos hoje. E
provavelmente/oram dados com este propósito. Entretanto alguns dos ve
lhos hinos são muito bons de cantar também, e não devem ser desprezados.
Alguém disse que cada novo avivamento traz sua própria hinologia. E isto
realmente aconteceu conosco.
No princípio, emAzusa, não tínhamos instivmentos musicais. Na reoMa-
de, não sentimos necessidade deles. Não havia lugar para eks em nosso
louvor. Tudo era espontâneo. Não cantávamos nem com hinários. Todos os
hinos antigos eram cantados de memória vivificados pelo Espírito de Deus.
“Veio 0 Consolador” eraprovavelmente o mais cantado. Cantávamos com
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
22
corações cheios dessa experiência nova e poderosa. Oh, como o poder de
Deus nos enchia e nos comovia! Os hinos sobre o "sangue” também eram
muito populares. “A vida está no sangue. ”As experiências do Sinai, Calvário
e Pentecoste todas tinham seus lugares certos no trabalho de Azusa. Contu
do, as novas canções eram totalmente diferentes, pois não eram de compo-
siçãohumana, enãopodíamserjalsiflcadascomsucesso. Ocorvonãopode
innitarapombcL
Mais tardecomeçaramadesprezarestedomquandooespíritohumano
se impôs outra vez. Colocaram-no para fora com o uso do hinário e hinos
selecionados pelos líderes. Era como assassinar o Espírito eisto entrístecia
muito a alguns de nós; porém a corrente contrária eraforte demais. Os
hinários hoje em dia são em grande parte uma produção comercial e não
perderíamos muito se não os tivéssemos. Os velhos hinos são violados pelas
mudanças, e procuram produzir novos estilos todos os anos para que haja
mais lucro. Há muito pouco espírito de adoração neles. Mexem com os pés,
mas não com os corações dos homens! Os cânticos espirituais dados por
Deus, no intio, eramsen^elhantesaumaharpaeólicaporsuaespontaneida-
de e doçura Na realidade, era o próprio sopro de Deus tocando nas cordas
dos corações humanos ou nas cordas vocais humanas. As notas eram mara
vilhosamente doces tanto no volume como naduração.Eramàs vezes impos
síveis humanamente. Era o cantar no Espírito.
AUDERANÇADAS REUNIÕES EMAZUSA
0 irmão Seymourfoi aceito como o líder nominoL Mas não havia papa ou
hiercvquia. Éramos todos irmãos. Não tínhamos programas humanos. 0 Se
nhor mesmo liderava Não havia uma classe sacerdotal, nem ações sacerdo
tais. Estas coisas surgiram depois, à medida que o movimento apostatou. No
princípio não tínhamos nem plataforma, nem púlpito. Todos estavam no
mesmo nível Os ministros eram servos na verdadeira concepção da palavra
Não homenageavam os homens pelo que tinham a mais de recursos ou de
instrução, mas pelos dons que Deus lhes dera Ele colocava os membros no
lugar certo do seu corpo. J^ora “coisa espantosa e horrenda se anda fazendo
na terra; osprofetasprofetizamfalscmiente e os sacerdotes dominam de
mãos dadas com eles; eéoque desejao meu povo. Porém quefareis quando
estas coisas chegarem ao seufim?” (Jr 5;30,31).
0 irmão Seymourgeralmentefioavasentado atrás de duas caixas vazias,
umaemdmadaoutra Usualnieníemantinhaacabeçadentrodeumadelas,
0 Movimento Pentecostal
23
durante o culto, em oração. Não havia orgulho aqui. Os cultos eram quase
que contínuos. Almas sequiosas podiam ser encontradas sob o poder de
Deus quase a qualquer hora, dediaoude noite. Nunca o local estava fechado
ou vazio. 0 povo vinha encontrar-se com Deus. Ele estava ali. Por isso a
reuniãoeracontínuaenãocareciadeliderançahumanaApresençadeDeus
tomava-se mais e mais maravilhosa. Naquele velho prédio de teto baixo e
piso descoberto Deusfazia empedaços homens e mulheresfortes e tomava
a Juntá-los outra vez para sua glória. Era um formidável processo de
desmontagem e revisão geral. 0 orgulho e a auto-qfumação, a auto-impor-
tância e a auto-estima, não podiam sobreviver alt 0 ego religioso pregava
rapidamente seu próprio sermão de enterro.
Nenhum assunto ou pregação era anundado de oníemõo e nenhum pre
gador especial havia para essa hora. Ninguém sabia o que iria acontecer e
nemoqueDeusfaria. Tudo era espontâneo, comandado pelo Espírito. Que
ríamos ouvir Deus através de quem ele falasse. Nãofazíamos acepção de
pessoas. Os ricos e cultos eram iguais aos pobres e ignorantes, e era muito
mais diftcilpara aqueles morrerem. Só reconhecíamos aDeus. Todos eram
yuais.Nenhumacamepodiagbriar-senasuapresença,eelenãopodiausar
quem tivesse opiniões próprias. Eram reuniões do Espírito Santo, guiadas
pelo Senhor. 0 avivamento tinha de começar num ambiente humilde para
que 0 elemento egoísta e humano não entrasse. Todos caíam aseus pés com
humildade. Todosseassemelhavametinhamtudoemcomum, nestesentido
pelo menos. 0 teto era baixo e por isso as pessoas altas deviam dobrar-se. Ao
chegaremaAzusajá tinhamse humilhado, e estavam preparadas para as
bênçãos. Aforragemesiavapreparadaparaovelhas, nãoparagirqfas. Todos
podiamalcançá-la
Fbmos libertos ali mesmo das hierarquias eclesiásticas e dos seus abusos.
QueríannosDeus. Quandochegávamosàreunião, evitávarnosornáxinTopossí-
velcumprimentareconversarunscomosoutros. Queríamosprimetochegara
Deus. Colocávamosacabeçaembaixodealgumlxmcoemoraçãoeentráva-
mos em contato com os homens só no Espirito; não os conhedamos mais na
came.Asreuniõescomeçavamespontaneamentecomtestemunhos, buvore
adoração. Ostestemunhosnuncaeramapressadospebagitaçãodohomem.
Não tínhamos umprogramapreestabekcido que tinha de ser empurrado de
qualquermaneircuNossotempopertenciaaDeus.Tínhanvosverdadeirostes-
temunhos v í i k í o s diretamente de corações vibrantes com as experiências. Se
nãofor assim, quanto menoresforemos testemunhos melhor é. Umadúziade
A Igreja do Séailo XX-A História que Não Foi Contada
24
pessoas, àsvezes, estavamdepé tremendosobopoderdeDeus. Nãoprecisá-
vamosqwimlídernosindicasseoquejazer,mastambémnãohaviadesor-
dem Estávamos absowidos emDeus nas reuniões, através da oração. Nossas
mentes estavam voltadas exclusiixtmeníeparaele, e todos lhe obedeciam com
mansidãoehumildade.Emhonranospreferíamosunsaosoutros (Rm 12:10).
OSenhorpodiairromperatravésdequaiquerwn. Orávamosporissooontinu-
amente. Alguémflnalmenteficcwa de pé, ungido com a mensagem. Todos
reconheciam isso e permitiam que acontecesse. Podia ser uma criança, um
homem ou uma mulher. Podia ser do banco de trás ou do dafrente. Não fazia
diferença.Regozyávamo-nosnaobradoSenhor.Ninguémqueriaaparecer. Só
pensávamos em obedecer ao Senhor. Na verdade, havia uma tal atmosfera
dtvinaquesóumtobsecolocariadepésemverdadeiraunção.Emesmoassim
não duraria muib. As reuniões eram controladas peb Espírito diretamente do
trono da graça Verdadeiramente foram dias maravilhosos. Eu muitas vezes
disse que preferiria viver seis meses naqueb época do que cinqüenta anos de
umavidanormaLMasDeusaindaéomesmohqje.Sónóséque mudamos.
Alguém podia estarfalando. Repentinamente, o Espírito caía sobre toda
a congregação. Deus mesmofazia os apebs. Homens caíam por toda a casa
comomortosnumabatalhaoucorriamaoaltaremmassabuscandoaDeus.
Acenamuitasvezesparedaumafbrestacheiadeárvorescaídas. Umacena
assim não podia ser imitada. Não me lembro de ter visto um apelo sequer
naqueles dias. Deus mesmo os chamava E o pregador sabia quando parar.
Quando Deusfalava todos obedecíamos. Parecia algo temerário impedir a
operação do Espírito ou entristecê-lo. 0 local todo estava cheio de orações.
Deus estava no seu santo templo. A humanidade cabiaficar em silêncb. A
glória do Shekinah* estava ali. Aliás alguns diziam ter visto a glória do
Senhor envolvendo o prédb durante a noüe. Eu não duvido. Mcds de uma vez
porei quando me aproximava deste local e orei pedindoforças antes de ousar
continuar. A presença do Senhor era muito real.
DEUS TRATA COM ACARNEPELO BATISMO
Homens presunçosos às vezes apareciam em nosso meb. Especialmente
pregadores que tentavam espalhar suas próprias idéias e auto-promover-se.
0 Movimento Pentecostal
‘Palavra hebraica que significa “habitação de Deus", e foi usada por alguns escritores
para referir-se à manifestação sensível da presença de Deus no tabernáculo e no templo,
geralmentenumanuvem:Êx40:34; lRs8:10,ll;2Cr5:14;>^ 15:8.
25
Seus esforços, porém, duravam pouco. Ficavam semfôlego. Suas mentes
vagavam, seus cérebros pareciam girar. Tudoficava escuro diante de seus
olhos. Não podiam continuar. Nunca vi ninguém que tivesse tido sucesso
naqueles dias; pois estavam lutando contra o próprio Deus. Ninguémprecisa-
va interrompê-los. Simplesmente orávamos e o Espírito Santo fazia o resto.
Queríamos que o Espírito controlasse tudo. Ele os confundia logo. Eram
carregados parafora mortos, espiritualmentefalando. Geralmente se humi
lhavam até 0 pó, passando pelo mesmo processo porque passáramos. Em
outraspalavras, eramesvaziadosdesimesmos;depoisseviamcomtodasas
suasfraquezas, e com humildade de criança confessavam tudo; Deus os
pegavaentãoetran^ormavaospoderosamenteatravésdobatismonoEspí-
rito. “Ovelhohomemmorria”comtodoseuorgulho, arrogânciae boas obras.
No meu caso, passei a não me suportar. Supliquei a Deus que colocasse uma
cortina ente mim e meu passado, de talforma que apagasse até mesmo as
minhas derradeiras ações. 0 Senhor me ordenou que esquecesse cada boa
ação como se nunca tivesse ocorrido, assim que fosse realizada; e que pros
seguisse adiante como se nunca tivessefetío nada para ele para que minhas
boas obras não se tomassem uma armadilha voltada contra mim mesmo.
Víamos coisas maravilhosas naqueles dias. Até homens muito bons che
garam a desprezar-se quando se viam na luz mais clara de Deus. Os prega
dores é que custavam a se entregar. Tinham muito para entregar à morte.
Tantafama e boas obras! Quando, entretanto, Deusfmalizava sua obra
neles, com alegria viravam umapágina e começavam outro capitulo. Portan
to, havia uma razão para eles lutarem tanto. A morte não é uma experiência
agradável e os homensfortes custam a morrer
0 irmão AnselPost, umpregador batista, estavasentadonumacadeira
no meio da sala numa reunião à noite. De repente veio sobre ele o Espírito.
Deu um salto e começou a louvar a Deus em línguas e a correr de um lado
para o outro, abraçando todos os irmãos que pôde. Estava cheio do amor de
Deus. Mais tardefoi para o Egito como missionário.
CAPACTERÍSTICAS DO AVIVAMENTO:
IMPERFEIÇÃO, OPOSIÇÃO EDOMÍN10 DO ESPÍRITO
Escreviem “WayofFaith”, emprtmeiro de agosto de 1906; “OPentecoste
chegouaLos Angeles, aJerusalémamericana. Todaseita, credo e doutrina
debaixo do céu são encontrados em Los Angeles, assim como todas as na
ções são representadas ali Muitas vezesfui tentado a duvidar que minhas
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
26
forças resistissem até o JinaL 0 peso da oração tem sido muito grande. Mas
desde aprimavera de 1905, quarulo tive a primeira visão e recebi ofardo para
sustentar emoraçâo, nunca tive dúvidaquanto ao resultadofinaL Os homens
em todosos lugares estão com suas almas perturbadas e o avivamento com
seusfenômenos sobrenaturais éo assunto do dia Grande oposição também
se manifesta Osjomaissão muito venenosos, injustos e inverídicos nos seus
pronunciamentos. Ospseudosistemas religiosos também estão lutandofor-
temente, mas a ‘saraiva varrerá o refúgio da mentira’ (Is 28:17). Seus escon
derijos estão sendo descobertos. Um riacho purificador estápassando pelo
meio da cidade. APcüavra de Deus prevalece.
‘Todasasfcúsasreligiõesdebaixodocéuencontram-serepresentadasaquL
AnãoseravelhaJerusalémnãohánadaigualnomundo. (Ficadoladoopæto
do mwido com condições naturais muito semelhantes.) Todas as naipes são
representadascomoemJerusalémMíiharesvindosdetodaparíedopaísede
muitoslugaresdomundo, mandadosporDeuspcmestarnoF^ntecosíes, levarão
ofogo ao redor do mundo. 0 zeb missbnárb está atingindo sua temperatura
máxima Os dons do E^íríto estão sendo derramados, aarmaduradaigreja
restaurada Verdadeimmenteestarnosnosdiasdarestauração,os‘últimosdias';
sãodiasmaravilhosos, diasgbríosos, masdiashorríveisparaosquecontinuam
resistindo. São dias deprivilégb, responsabilidade eperigo.
“Os demônios estão sendo expulsos, os doentes curados, muitos abenço
ados com salvação, restaurados e batizados com o Espirito Santo e poder.
Heróis estão sendo desenvolvidos, os fracos sefortalecendo no Senhor Os
corações humanos estão sendo revistos como por uma vela acesa. É uma
época de grandepeneiração não só de ações, como de motivos interiores
secretos. Ncuda pode escapar aos olhos do Senhor que a tudo perscrutam.
Jesus está sendo levantado, o ‘sangue’ magn^icado, e o Espírito Santo ho
menageado mais uma vez. Muito poder para prostar as pessoas se manfes
ta É esta aprincipal causa de resistência por parte daqueles que se recusam
a obedecer. 0 trabalho é para valer Deus está conosco com grande autenti
cidade. Não ousamos pensar em ninharias. Homensfortes ficam durante
horas prosti-adossob o poder de Deus, cortados como grama 0 avivamento
será mundialsem dúvida ”
O FUTURO DESTE AVIVAMENTO
EscreviparaoutroJomalreligbso o seguinte, em 1906: ‘̂ itoscomamal-
clitainaeckdidade,prosseguirnospciradmacomarnaiord^ícukiade, lutando
0 Movimento Pentecostal
27
pela restauração dagbriosa luz epoderda igreja, antes derramados com tanía
abundância, mas agora há muttoperdidos. Temos estado por tanto tempo na
escuridão da descrença causada pela queda da igreja, que nossa tendência é
resistir à luz, pois nossos olhos estãofracos. A igreja caiu tanto que, quando
Lutero tentou restaurar a verdade daJustiJbaçãopelafé, a igreja de seu tempo
resistiuelutaucontraelacomosejosseapiorheresia;algunspagaramporisso
com suas próprias vidas. Ocorreu o mesmo na época de Wesley. Mas agora te-
mosaprópriarestauroçãodaexperiêndadoPerüecostecomaschujvasserôdi-
as, umarestauração do poder, edemaiorglória, afimde acabar aobraquefoi
inidada Seremoselevadosaonívelprimttivodaigrejaparaterminarmososeu
trabalho, partiruio do ponto onde nossos antecessorespararam quando ojra-
casso os conquistou, erapidamentecumprindoaídtimagrandecomissãopara
abrírocaminhoparaavoltadeCristo.
“Devemos interromperosséculosdejracassosdaigrejaeabnga, sombria
idade escura, e apressando o tempo, ser totatnente restaurados ao poder, à
vitóriaeàgbriaprimitivos.Procuremossair, pehgraçadeDeus,deumcristi-
anismo corrupto, retrógrado e espúrb. As sinagogas de uma yrga orgulhosa e
hipócriíaestãovoltadascontranósparadesacrediíar-nos.Osmercenárioscb-
mampornosso sangue. Os escribas eosfariseus, os sumo sacerdotes, osprin-
cipais das sinagogas estão todos contra nós e contra Cristo.
“LosAngeles parece ser o lugar e esta a ocasião, no pkmo de Deus, para
a restauração da igreja ao seu liujar,favor e poder primitivos. Chegou a hora
da completa restauração da igreja. Deusfalou com seus servos em todas as
partes do mundo, e todas as nações, como antigamente, vieram para o
Pentecoste, para depois sair e levar as boas novas de salvação. A base de
operação para o último Pentecoste mudou-se da antiga Jerusalémpara Los
Angeles. Por toda parte Deus tem criado umforte anseio por essa experiên
cia OPaísdeGalesfoidesignadoapenascomooberçoparaestarestaura-
çãonumdial do poder de Deus.”
O FOGO SE ESPALHA
A partir de Azusa o fogo do avivamento espalhou-se por todo
Estados Unidos. Através de toda a nação centenas de congregações in
dependentes eram formadas da noite para o dia, providenciando a base
para o que se tornaria mais tarde as Igrejas Assembléias de Deus.
A A liança Cristã e M issionária, uma obra Uderada na época
pelo seu fundador A. B. Simpson, que estabelecia institutos bíblicos e
Algreja do SéculoXX-AHistóna que Não Foi Contada
28
enviava missionários para vários lugares do mundo, também foi
grandemente atingida pelo avivamento. Eles criam que a igreja estava
prestes a receber a chuva serôdia, e quando ouviram sobre o derrama
mento do Espírito em Los Angeles ficaram alegres mas cautelosos, pois
não estavam interessados em fanatismo.
A partir de maio de 1907 houve extraordinárias visitações do
Espírito em seus acampamentos e convenções. Seus estudantes, minis
tros e missionários eram inundados pelo Espírito com manifestações
de línguas e sinais. Numa dessas reuniões um jovem estudante, David
McDowell, estava tão cheio do fogo do Espírito que ficou com as mãos
erguidas por mais de uma hora louvando ao Senhor. Quando ele as
abaixou, inesperadamente caíram sobre as cabeças das esposas de dois
líderes da Aliança que instantaneamente romperam em línguas!
Mas quando descobriu que o novo movimento ensinava que o
batismo no Espírito era sempre acompanhado de línguas, Simpson to
mou uma posição que fez com que o fogo apagasse e uma divisão ocor
resse dentro da Aliança Missionária. Ele publicou um manifesto decla
rando firmemente que renunciava à doutrina de que todos deveriam
falar em línguas e que estas eram apenas uma das evidências do batismo
no Espírito. Com esta posição, que se tornou conhecida como a “posi
ção da Aliança”, eles perderam muitos homens proeminentes na socie
dade e em algumas cidades congregações inteiras passaram para o lado
do Movimento Pentecostal. A Aíiança M issionária poderia ter equili
brado 0 Movimento Pentecostal e evitado numerosos erros, mas, ao
rejeitá-lo, falhou em acompanhar o mover de restauração do século XX.
Conta-se que nos últimos dias de sua vida Simpson teria dito a McDowell:
“David, eu fiz o que pensei ser melhor, mas receio que tenha falhado.”
Muitos missionários vieram de vários continentes para experi
mentar 0 seu próprio pentecoste e levar o avivamento para seus países.
Outros foram influenciados por grupos de outros lugares dos Estados
Unidos que tinham tido contato com Azusa. Por exemplo, dois imigran
tes suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, participaram em Chicago de
uma reunião de oração com alguns amigos cheios do Espírito. Lá rece
beram uma profecia de que seriam enviados para algum lugar no mimdo
chamado Pará. Após pesquisarem e descobrirem que se tratava de um
o Movimento Pentecostal
29
estado do Brasil, foram enviados miraculosamente para cá em 1910,
onde fundaram a Igreja Assem bléia de Deus, quatro anos antes das
Igrejas Assembléias de Deus dos Estados Unidos serem organizadas.
Thomas Ball Barratt, um ministro metodista na Noruega,
ficou conhecido como o “apóstolo do pentecoste” para a Europa. Em
viagem aos Estados Unidos, na cidade de Nova Iorque, ouviu sobre o
avivamento Azusa e pensou que teria de ir a Los Angeles para receber o
batismo. Enquanto esperava para viajar, decidiu buscar a experiência,
orando até 12 horas por dia, e recebeu o batismo no Espírito ali mesmo
em Nova Iorque, em outubro de 1906.
“Fui inundado de luz e de tal poder que comecei a gritar o mais
alto que podia numa língua estrangeira. Devo ter falado sete ou oito
línguas, baseado nos vários sons e modos de falar usados... o momento
mais maravilhoso foi quando explodi numlindo solo barítono, usando
uma das linguagens mais puras e deleitosas que já ouvira.”'̂
Em dezembro de 1906 Barratt retornou a Oslo, Noruega, onde
alugou um ginásio com 2.000 lugares para realizar as primeiras reuni
ões pentecostais da Europa.
“Pessoas de todas as denominações estão sendo impelidas para
as reuniões. Muitos têm recebido o seu pentecoste e estão falando em
línguas... Pessoas que têm participado das reuniões estão levando o fogo
com eles para as cidades ao redor.
Em pouco tempo, Barratt se estabeleceu como o profeta do pen-
tecostalismo europeu. Visitando-o e recebendo seu próprio batismo no
Espírito estiveram pastores da Suécia, Inglaterra e Alemanha.“*
DECLÍN10 E CRISTALIZAÇÃO DO MOVIMENTO
PENTECOSTAL
Já no primeiro ano o avivamento demonstrou sinais de declínio.
Em agosto de 1906 Seymour escreveu a Parham para que viesse ajudá-
lo a discernir algumas manifestações estranhas que estavam acontecen
do. Parham não teve orientação para ir imediatamente e quando esteve
presente não foi bem aceito. Separaram-se e o mesmo aconteceu com
Seymour e Bartleman. Bartleman era totalmente contra a organização e
institucionalização do movimento e quando Seymour mandou escrever
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
30
na parede do prédio da RuaAzusa “Missão Fé Apostólica”, ele se reti
rou e em agosto de 1906 abriu outra obra também famosa, “Rua Eighth
com Maple” (assim designada como ponto de referência) cuja profundi
dade e poder se igualaram a Azusa.
A ênfase do Movimento Pentecostal eram línguas como evidência do
batismo no Espírito e poder para pregar o evangelho para o mundo intei
ro, pois criam na iminente volta de Jesus. Por isso desde o início os Hde-
res não viam necessidade de formar qualquer organização eclesiástica,
pois eles mesmos já haviam se desiludido e sido perseguidos pelas deno
minações que rejeitaram o mover do Espírito. Mas com o passar dos anos
0 movimento entrou em perigo de caos com muitas divisões sobre doutri
nas (e até heresias) e desonestidade fmanceira. A solução bíblica para es
tabelecer ordem e purificar o movimento seriam apóstolos e profetas, mas
como não tinham esses lundamentos foi quase inevitável a sua organização.
Isso aconteceu em 1914 com uma chamada geral (debaixo de muitos pro
testos) para realizar uma grande convenção em Hot Springs, Arkansas,
que reuniu de 200 a 300 líderes de 20 estados dos Estados Unidos e de
vários lugares do mundo. Ali o Movimento Pentecostal se organizou com
0 nome de Igrejas Assembléias de Deus.
Uma grande polêmica que abalou as recém-organizadas Igrejas
Assembléias de Deus foi gerada pela doutrina da unicidade da Divindade.
Esta doutrina surgiu em 1913 com a revelação de um homem sobre o
nome de Jesus, e seus defensores pregavam que o verdadeiro batismo de
veria ser em nome de Jesus somente e não da Trindade, e os que não fos
sem assim batizados deveriam ser rebatizados. 0 resultado desta doutri
na foi a negação da existência da Trindade e quando o Conselho Geral,
após muitos debates e discussões, condenou esta doutrma, um quarto
dos 585 ministros das Assembléias de Deus deixou a igreja em 1916.
Durante os anos 20 e 30, apesar do esfriamento do Movimento
Pentecostal, Deus continuou a operar e ministérios poderosos foram
levantados. Entre eles estão Aimee Semple MacPherson (fundadora da
Igreja do Evangelho Quadrangular), Smith Wi^lesworth (o “Apóstolo
da Fé”) e Charles Price (um conhecido pastor tradicional convertido
numa campanha de Aimee Semple MacPherson que se tornou um famo
so pregador pentecostal com um ministério profético e de cura).
0 Movimento Pentecostal
31
Capítulo 3
AS GRANDES CAMPANHAS
DE CURA
A ' '/ Vn
s grandes campanhas de cura, juntamente com o movimento Chu
va Serôdia, que será tratado no próximo capítulo, ocorreram no
etade do século após a Segunda Guerra Mundial e na mesma
época da formação do Estado de Israel. Apesar de terem começado no
mesmo período (46-48) foram movimentos distintos, mas com certa
ligação. Foi uma campanha de Branham no Canadá que despertou al
guns irmãos canadenses a buscarem o avivamento que surgiu com o
nome de “Chuva Serôdia”.
William Branham nasceu num lar pobre a 6 de abril de 1909, em
Kentucky. Seu pai era um lenhador que passava longos períodos fora de
casa trabalhando. Uma dessas ocasiões foi no inverno de 1909, quando
a mãe e filho (com seis meses de vida) escaparam de morrer congelados
durante uma terrível tempestade. Sem comida e sem calor teriam su
cumbido se Deus providencialmente não despertasse um vizinho para ir
até lá. Diante da falta de sinal de vida, arrombou a cabana e encontrou
mãe e filho enrolados em roupas de cama famintos e quase congelados.
Branham teve sua primeira experiência com Deus aos sete anos
de idade. Contrariado por não ter podido ir pescar com seus amigos,
estava carregando água para sua mãe e, ao parar debaixo de uma árvore
para descansar, ouviu de repente um som de um vento soprando as
folhas da árvore. “Eu sabia que não estava soprando em nenhum outro
lugar. Afastei-me alguns passos e notei que num certo lugar mais ou
33
menos do tamanho de um barril, o vento parecia estar soprando através
das folhas da árvore. Então veio uma voz dizendo: ‘Nunca beba, fume,
ou contamine seu corpo de maneira alguma, pois eu tenho uma obra
para você fazer quando ficar mais velho’.” Muitas outras vezes ele iria
ouvir esse som impelindo-o a se separar para Deus. ®
Passaram-se anos, seu irmão e pai faleceram. Com 21 anos estava
trabalhando numa companhia quando foi envenenado com gás. Seu esta
do de saúde estava cada vez mais precário, quando os médicos decidi
ram hospitalizá-lo para operar uma possível apendicite. No quarto do
hospital sentiu a morte sobre si, e mesmo nunca tendo fumado, bebido
ou tido quaisquer maus hábitos, sabia que não estava pronto para se
encontrar com Deus. “Começou a ficar escuro no quarto e eu me senti
numa grande floresta. Eu podia ouvir o vento soprando através das
folhas... 0 vento chegou mais perto, mais e mais alto. As folhas sussur
ravam e de repente eu parti. Parecia então que eu voltava a ser novamen
te um garotinho de pés descalços, lá naquele caminho debaixo da mes
ma árvore. Ouvi aquela mesma voz que disse: ‘Nunca beba ou fume’.
Mas desta vez a voz dizia: ‘Eu chamei você e você não foi.’ As palavras se
repetiram três vezes. Então eu disse: ‘Senhor, se é você, deixe-me voltar
novamente para a terra e eu pregarei seu evangelho dos eirados, ruas e
esquinas. Eu falarei a todo mundo sobre isto’!” ®
Quando voltou a si o próprio médico viu que ele tinha se encon
trado com Deus e fora curado. Depois disto começou a buscar a Deus e,
numa noite, tentava orar num barracão atrás da casa quando, de repen
te, uma luz chegou e formou uma cruz. Uma voz lhe falou numa lingua
gem que não podia entender e foi-se. Ele se sentiu transformado e des
de aquele dia sabia que teria de sair e pregar o evangelho.
Tornou-se um pregador aos 24 anos de idade e sua igreja prospe
rou. Nessa época, já casado, conheceu um grupo pentecostal em Michigan,
onde ouviu sobre o batismo no Espírito. Inesperadamente, pregou nes
sa conferência e recebeu muitos convites para fazer pregações em outras
cidades. Mas, ao acatar conselhos de parentes e amigos, adiou por 5
anos 0 chamado de Deus para sair pela fé pregando o evangelho e muitas
tragédias aconteceram em sua vida. A unção de Deus que estava sobre
ele 0 deixou, sua igreja desmoronou e, finalmente, sua esposa e filha
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFoi Contada
34
morreram tragicamente numa enchente do rio Ohio, em 1937. Entrou
em desespero, mas naquela noite Deus o visitou em sonho e ele recebeu
força e graça para prosseguir.
Foi em maio de 1946 (já casado novamente), quando trabalhava
como guarda-florestal, que William Branham recebeu a extraordinária
visita angélica que delineou todo o seu ministériode cura que estava
para vir. Inquietado por outra manifestação sobrenatural de Deus, reti
rou-se a uma cabana para orar e ler a Bíbha. Suplicava a Deus que o
perdoasse por ter negligenciado seu chamado e que falasse com ele
novamente. Uma luz se espalhou pela cabana e ele viu uma grande estre
la como uma bola de fogo derramando luz sobre o chão. Aterrorizado,
ouviu passos e, vindo em sua direção através da luz, os pés de um
homem. “Ele tinha um rosto hso, sem barba, cabelos pretos até os om
bros, uma compleição mais para escura, um semblante muito agradável.
Chegando mais perto seus olhos fixaram os meus. Vendo quão aterrori
zado eu estava, ele começou a falar: ‘Não temas. Fui enviado da presença
de Deus Todo-Poderoso para lhe dizer que sua vida peculiar e seus
caminhos mal-entendidos têm sido para indicar que Deus tem enviado
você para levar um dom de cura divina para as pessoas do mundo. Se
você for sincero e levar as pessoas a crer em você, nada resistirá diante
de sua oração, nem mesmo câncer’.” Dois sinais lhe foram dados pelo
anjo para seu ministério de cura: ®
1° - Com sua mão esquerda discerniria ou detectaria doenças das
pessoas. ®
2° - Ele leria pensamentos e fatos da vida passada das pessoas.
Ao dar-lhe este dom, o anjo acrescentou: “Os pensamentos dos homens
falam mais alto no céu do que suas palavras na terra.” ®
Logo após a visitação do anjo (nesta época ele morava em
Jeffersonville, Indiana) Branham foi chamado para ir a St. Louis,
Missouri, orar por uma criança, filha de um pastor, que estava há três
meses confinada na cama, só pele e ossos, desenganada pelos médicos.
Após várias horas de oração, Branham recebeu orientação específica de
Deus sobre sua cura, que foi muito propagada na cidade. Por causa
desta cura, ele realizou naquela cidade, em junho de 1946, a primeira
de suas numerosas campanhas de curas. Pregando com humildade e
As Grandes ChmpíM̂ has de Cura
35
simplicidade (sem fazer grande publicidade), em pouco tempo sua fama
se espalhou e ele ia de cidade em cidade armando sua tenda, onde
milhares de pessoas vinham ouvi-lo pregar e receber cura. Notáveis
milagres ocorreram. Curou cegos, surdos, mudos, paralíticos e até res
suscitou mortos.
Muitas vezes o anjo chegava às reuniões para ministrar através dele
às multidões e muitas vezes tinha visões detalhadas de curas que ocorri
am exatamente como Deus lhe mostrara. Ele tinha tanta compaixão pelas
pessoas que permanecia até de madrugada orando pelos enfermos. Pesso
as que trabalharam junto com ele e viram a operação dos dois sinais
dados pelo anjo, disseram que eram perfeitos como nenhum outro exerci
do por um ser humano. Ele falava detalhes da vida de desconhecidos
(nome, endereço, fatos passados, doenças etc). Certa vez, numa campanha
em Houston, um fotógrafo profissional tirou uma foto de Branham e ao
revelá-la ficou surpreso com o que viu: sobre a cabeça de Branham havia
uma auréola sobrenatural de luz. Maravilhado, o fotógrafo informou
Branham sobre a foto e este não se mostrou surpreso pois coisas seme
lhantes a essa haviam acontecido em seu ministério. Uma foto como esta
tem sido publicada nos livros sobre William Branham.
DESVIOS DEBMNHAMESEUSSEGUIDORES
Embora fosse poderosamente usado por Deus para introduzir
um dos maiores moveres do Espírito Santo na história da igreja, temos
de declarar com tristeza que nos últimos anos de seu ministério Branham
começou a fazer reivindicações exaltadas e absurdas a respeito de sua
posição pessoal na economia divina dos eventos dos finais dos tempos.
Ele arrumou um plano de sete épocas na história da igreja (baseado nas
sete igrejas de Apocalipse 2 e 3), onde cada época tinha um mensageiro
especial. 0 primeiro mensageiro foi o apóstolo Paulo. Entre os mensa
geiros posteriores estão Lutero e Wesley. E ao chegarmos à sétima e
última época somos informados por Branham que ele mesmo é o men
sageiro que introduzirá a segunda vinda de Cristo. Assim como João
Batista veio no espírito de Elias para anunciar a primeira vinda, do
mesmo modo William Branham seria o profeta do século XX que, no
Espírito de Elias (Ml 4:5), anunciaria a segunda vinda de Cristo. Ele
chegou a predizer que o fim do tempo ocorreria em 1977.
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
36
Certamente Deus não aprovou tais exaltadas e tolas reivindica
ções, e 0 tirou de cena em 1965 através de um acidente de carro apenas
vinte anos após o início do seu ministério. Depois de sua morte, surgiu
uma seita que a princípio afirmava que ele ressuscitaria dos mortos, e
como isto não aconteceu, continuaram a idolatrá-lo como o profeta do
século XX, colocando suas palavras no mesmo nível da Bíblia.
OUTROS PROEMINENTES MIN ISTÉRIOS
Nos anos 40 e 50, poderosos ministérios de cura foram levanta
dos, muitos deles influenciados pelo ministério de William Branham.
Um deles foi T. L. Osborn. Em 1947 ele assistiu a algumas reuniões de
Branham em Portland, Oregon e o viu libertar uma menina surda-muda
de um espírito maligno. Osbom diz ter ouvido naquele momento milha
res de vozes dizendo-lhe que podia fazer o mesmo. Naquela época ele
era um pastor das Assembléias de Deus, em Portland, e por um certo
período entregou a igreja aos cuidados de sua esposa para se dedicar à
oração e jejum. Foi então que Deus falou com ele que, assim como levan
tara Smith Wi^lesworth, Aimee Semple McPherson e Charles Price,
poderia levantá-lo e usá-lo em sua geração. Com a ajuda de Gordon
Lindsay ele se lançou a um ministério independente de evangelismo e
cura.
Porém, é interessante notar que o ministério de Osborn causou
mais impacto fora dos Estados Unidos. Ele realizou poderosas cruza
das em vários países da América Latina, África, Ásia e Europa. Em
alguns países ocorreram ajuntamentos de mais de 100.000 pessoas e os
milagres eram tidos como sensacionais. As curas simplesmente come
çaram a espocar no meio da multidão, pois era-lhe impossível impor as
mãos sobre todos. Alguns países foram abalados com suas cruzadas e
numa campanha singular foram curados 125 surdos-mudos, 90 cegos e
centenas de outras libertações ocorreram.
Outro proeminente ministério de cura deste período foi Oral
Roberts. Foi convertido e curado aos 17 anos e se tornou um pregador
“Pentecostal Holiness” desde 1935 até 1946. Fteqüentou a Universidade
Phillips e ensinou no Colégio Bíblico SouÜiwestern. Em 1947, enquanto
jejuava, orava e ha os Evangelhos de joelhos, recebeu uma revelação de
As Grcuules Campanhas de Cura
37
que Deus é bom e quer curar a todos, e sentiu-se chamado para levar o
poder de cura de Deus à sua geração.
Resignou ao seu pastorado e mudou-se para Tulsa, Oklahoma
onde começou seu ministério independente de cura. Sobre suas campa
nhas, Wilham Branham declarou que “a autoridade de Roberts sobre
demônios, doença e pecado era a coisa mais maravilhosa que ele já
tinha visto na obra de Deus”. ^
Oral Roberts testificou sentir uma manifestação da presença de
Deus em sua mão direita que seria um ponto de contato entre o crente e
0 poder de cura de Deus. Ele publicou sua própria revista, “Healing
Waters”, que mais tarde recebeu o nome de “Abundant Life”. Foi um dos
primeiros a utilizar a televisão para pregar o evangelho. Em 1966 fun
dou uma universidade cristã com várias faculdades que alcançou muito
prestígio, inclusive no meio secular, e que introduziu a mensagem
pentecostal no meio acadêmico.
Outro homem importante nos anos 40 e 50 foi Gordon Lindsay
que foi usado para coordenar e equilibrar o movimento de cura. Publi
cou uma revista muito famosa, “The Voice of Healing”, que serviu para
propagar e dar coesão ao movimento. Em um número editado em 1952
a revista trouxe estampada na capa as fotos de 20 ministérios de cura
atuantes na época.
Paralelo a esses dois movimentos, de cura e Chuva Serôdia, hou
ve um poderoso avivamento nas ilhas Hébridas, na Escócia, e outro na
Coréia, onde mais de4.000 pessoas se reuniam para orar às cinco ho
ras da manhã.
BlLLyCRAHAM
Apesar de não exercer ministério de cura, Billy Graham se desta
ca no século XX como o maior evangelista de todos os tempos. Por
vários anos fora um jovem evangelista comum mas durante uma confe
rência em 1949 num acampamento nas montanhas perto de Los Angeles,
Califórnia (da qual ele era um dos preletores), teve uma experiência que
mudou sua vida e ministério. Naqueles dias passava por um conflito
interior muito grande devido a um comentário de um colega de ministé
rio que lhe dissera que sua visão das Escrituras era muito estreita e que
Algreja do Século XX-AHistória que Não Foi Cbnínda
38
isto acabaria prejudicando seu ministério. Conforme consta em sua bi
ografia, uma noite, caminhando e orando pela floresta, ele teve a seguin
te experiência:®
Depois do jantar, em vez de assistir à reunião, ele se retirou para seu
alojamento e leu novamente as passagens bíblicas que falam sobre sua
autoridade. Ele lembrou que alguém dissera que os profetas usaramfrases
como “veio apalavra do Senhor”, ou “assim diz o Senhor” mais de 2.000
vezes. Ele meditou sobre a atitude de Cristo que cunnpnu a lei e os profetas:
“Ele amavaas Escrituras, citando-as constantemente, enuncaemnenhuma
ocasião insinuou que pudessem ser erradas”.
Billy saiupeb mato, vagando e orando enquanto subiao monte: “Senhor,
que farei? Que direção darei à minha vida?”Ele sabia que chegara a um
ponto de crise. Ele sabia que só o intelecto não poderia resolver o problema
de autoridade. Ele teria de ir além do intelecto. Meditou sobre afé constan
temente exercida na vida diária. Ele não sabia como um trem ou um avião ou
umcarrofimcbnava, masandavaneks.ElenãosabíacomouTnavacamar-
rom podia comer grama e dar leite branco, mas ele bebia leite. Será que
somente nas coisas espirituais estafé não dava certo?
“Então eu voltei, peguei minha Bíblia e saí para a luz do luar... Arrumei
um toco e coloquei a Bíblia no toco, qjoelhei-me e disse: ‘Ó Deus, eu não
posso provar certas coisas, não posso responder algumas perguntas que
meus colegas estãofazendo, mas eu aceito este livro petafé como a Palavra
deDeus.”
Ele permaneceu orando perto do toco inconsciente do mundo ao redor,
seusolhosestavamúmidos... “TiveumtremendosensodapresençadeDeus.
Tive grande paz de que a decisão que tomara era certa. ”
Depois desta experiência Billy Graham nunca mais tentou expli
car a Bíblia. Começou a proclamar simplesmente “A Bíblia diz...” e mul
tidões foram convertidas. Sua primeira grande campanha em Los Angeles,
considerada o início de seu ministério às multidões, estava planejada
para durar três semanas e foi estendida para dois meses (25 de setem
bro a 25 de novembro de 1949). 0 impacto causado pela conversão de
algumas celebridades de Hollywood e o interesse dos meios de comuni
cação atraíram multidões de mais de 6.000 pessoas diariamente.
Esta campanha o tornou uma celebridade nacional, abrindo espa
ço para futuras campanhas e por mais de 40 anos Billy Graham tem
AsGrandesCampanhasdeCura
39
viajado por todo o mundo, sendo a pessoa que tem pregado para o
maior número de pessoas até hoje. Numa cruzada marcante realizada
em Seul, Coréia do Sul, em junho de 1973, estima-se que mais de 3,2
milhões de pessoas assistiram as cinco reuniões de campanha. Calcula-
se que na última reunião havia 1,1 milhão de participantes. Foi provavel
mente 0 maior ajuntamento de pessoas na história da igreja.
CONCLUSÃO
Acabamos de relatar uma época de sinais e milagres que rara
mente acontece na história. De fato este irrompimento do sobrenatural
ocorreu apenas quatro vezes na história: no tempo de Moisés e Josué,
no tempo de Elias e Eliseu, no tempo de Jesus e dos apóstolos e agora
no século XX, quando todos os milagres relatados na Bíblia acontece
ram. Como vimos, no fmal da década de 40 e no decorrer da década de
50, houve ministérios de sinais e milagres numa escala nunca vista an
tes. 0 cego viu, 0 aleijado andou, o surdo ouviu e mortos foram ressus
citados. Através desses vasos muitas vezes imperfeitos o poder de Deus
foi manifesto ao ponto de nações serem sacudidas por seu poder.
Porém, a um desses renomados evangelistas de cura o Senhor te
ria dito audivelmente no fim de sua vida: “Tudo que você construiu é
apenas madeira, palha e feno” (1 Co 3:10-15). E assim o movimento de
cura não produziu os permanentes “ouro, prata e pedras preciosas”. Ele
preencheu o vácuo que o declínio do Pentecostaüsmo institucional criara,
mas no meio de demonstrações miraculosas havia muitas vezes duvido
sas práticas fmanceiras e morais, lutas por poder, egoísmo e arrogância
humanos, independência, rivalidade e dissensão. Como aconteceu com
Sansão, o poder de Deus foi inegavelmente evidente, mas também é inegá
vel que 0 caráter de Deus esteve muitas vezes lamentavelmente em falta. ®
David Edwin Harrel Jr., em seu livro “Tudo é Possível”, comenta
sobre essa época: “Gordon Lindsay, que continuou a crer que o aviva
mento era um grande mover de Deus, manifestou-se mais e mais contra
a ambição pessoal e as manobras para obter posição entre os evangelistas.
Em 1962, ele admitiu que muitos evangelistas adotavam métodos ques
tionáveis e condenou aqueles que continuamente enfatizavam temas mui
to sensacionalistas. 0 evangelista David Nunn recorda que Lindsay falou
A Igreja do Sécub XX-A História que Não Foi Contada
40
com ele particularmente: ‘0 dia do evangelista acabou.’ Muitos dos mi
nistros declinaram, de acordo com Lindsay, ‘em grande parte por falta
de humildade e por causa de uma tendência a auto-exaltação’. Ele se
entristeceu com a ênfase crescente sobre dinheiro. 0 público, Lindsay
creu, tinha toda razão para crer que o avivamento era ‘falso’; conduta
não ética de alguns dos evangelistas tinha se tornado imi sério obstáculo
para a mensagem carismática. Lindsay mais tarde concluiu que mesmo
no auge do avivamento, muitos dos evangelistas ‘não tinham prevalecido
em oração, não tinham tocado em Deus para seu ministério, simples
mente levantaram sua bandeira’. No fmal dos anos 50 ele estava profun
damente aborrecido e desencorajado.”®
No início dos anos 60 os avivamentos de cura obviamente tinham
em grande parte esgotado seus recursos. Uma por uma, idolatradas
personalidades de cura foram tiradas de cena por morte prematura;
outros simplesmente declinaram em relativa obscuridade. Alguns pou
cos têm sobrevivido até os dias atuais. ®
0 Brasil também foi bastante afetado por esse mover de cura, e
homens como Manoel de Melo, Davi Miranda e Doriel de Oliveira levan
taram fortes movimentos de cura. Mais recentemente temos tido o con
troverso “Bispo” Macedo e sua Igrejaz Universal do Reino de Deus.
Todos eles têm atuado nas camadas sociais mais baixas e preocupado a
Igreja Católica com a conversão de milhares de seus adeptos.
Em geral muita confusão e mistura têm ocorrido nos movimen
tos de cura devido à ênfase exagerada nos dons do Espírito Santo sem
0 equilíbrio da Palavra. No livro de Atos o Espírito Santo foi derrama
do sobre a palavra que Jesus deixara e isto produziu uma igreja glorio
sa com sinais e milagres, mas com equilíbrio. Hoje estamos num pro
cesso inverso do tempo de Atos. Temos tido muito derramamento do
Espírito Santo, mas precisamos da restauração da palavra apostóhca
para formar imia estrutm-a onde sinais e milagres ocorrerão em harmo
nia com a palavra, evitando assim erros e extremos do passado.
Portanto, em lugar de rejeitar os sinais e milagres devido aos
excessos que têm havido, devemos entender que no contexto da Palavra
com 0 Espírito eles são importantes para mostrar às nações que Jesus
está vivo e vai voltar.
As Grandes Campanhas de Cura
41
Capítulo 4
O MOVIMENTO CH UVA
SERÔDIA
R
alph Mahoney, fundador da WORLD MAP (uma organização que
dá assistência a missionários em todo o mundo e pubhca a re
vista ATOS), tem afirmado que há três sinaissignificativos que
precedem um novo mover de Deus:
a) algum evento histórico na nação de Israel;
b) um evento espiritual paralelo na igreja;
c) a remoção de líderes do mover anterior com levantamento de
novos líderes. ^
Esses sinais se aplicam ao mover de 1948, que ficou conhecido
como Chuva Serôdia. Foi um mover paralelo a um grande acontecimen
to histórico — a formação do Estado de Israel em 1948. Tanto a Chuva
Serôdia como as grandes campanhas de cura (que ocorreram no mesmo
período, mas eram distintas entre si) aconteceram dentro do ambiente
pentecostal (quase a totalidade dos novos Hderes era de pastores das
Assembléias de Deus), ambos foram rejeitados pela maioria das gran
des denominações pentecostais e ambos influenciaram em parte o de
senvolvimento do Movimento Carismático dos anos 60 e 70.
0 Movimento Chuva Serôdia se assemelhou ao Movimento Pente
costal do início do século XX em seu zelo pelo sobrenatural, em sua expec
tativa da Iminente volta de Jesus Cristo, em seu repúdio pela organização
religiosa formal, e em seu entusiasmo pela presença de Deus, a qual, sen
tia-se, estava para ser manifestada no derramamento da chuva serôdia do
Espírito de Deus, da qual as primeiras poucas gotas já estavam começando
a cair em preparação para a volta imediata de Cristo.
43
0 cenário que antecedeu a este mover de Deus foi a preocupação,
trauma e conseqüência da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e um
forte anseio dentro do meio pentecostal por uma nova visitação de Deus.
Era uma época de considerável sequidão espiritual e, de acordo com
Gari Brumback, “a profundidade de adoração e a operação dos dons do
Espírito, tão em evidência nas décadas anteriores, não eram tão proe
minentes nos anos 30 e 40”. ' Outro ministro, Reg Layzell, descreveu
este período da seguinte maneira:
“Nos corações de todos aqueles famintos de Deus havia um cla
mor por uma nova visitação. Os que estavam no ministério, como tam
bém os que estavam nos bancos, sentiam uma fome profunda e ardente
por mais do céu. Havia um reconhecimento da parte de muitos no mi
nistério e também daqueles em posições oficiais desta necessidade...
Numa discussão com um pastor-superintendente de um distrito, foi fei
ta esta declaração: ‘Nosso povo precisa de uma nova visitação de Deus e
sem isto não temos futuro...’ Antes de Deus nos visitar havia uma sequidão
geral na terra e isto foi reconhecido.”
GEORGE HAVl̂ lN
Em 1935, enquanto este período de sequidão espiritual estava
apenas começando, um pastor das Assembléias Pentecostais do Cana
dá, em Star City, Canadá, chamado George Havrtin, que viria a se tornar
uma figura chave nas origens do Movimento Chuva Serôdia, fundou um
instituto bíblico (que para variar se chamava Betei), freqüentado por
oito estudantes naquele ano. Em 1937 o instituto mudou-se para
Saskatoon, e em 1942, se tornou propriedade Assembléias Pente
costais do Canadá para que fosse legalizado e reconhecido como uma
Escola B íblica das Assembléias Pentecostais. Por causa de sua manei
ra independente de agir, Hawtin entrou em crise com a organização e,
em 1947, teve de renunciar à sua posição de diretor da escola, mudan
do-se naquele mesmo ano para outra cidade do Canadá, North Battleford,
onde as cenas iniciais do avivamento se desenrolaram.
Haw^ln e outro membro da direção da escola, PG. Hunt, se junta
ram ao ex-pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, Herrick Holt,
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
44
que tinha um trabalho independente já estabelecido chamado “Orfanato
e Escolas Sharon”. Para que o empreendimento se auto-sustentasse, Holt
comprara uma fazenda a 16 quilômetros da cidade. Foi depois desta
compra que Herrick Holt convidara George Hawtin e P G. Hunt para se
estabelecerem em North Battleford. Setenta estudantes deixaram o Ins
tituto Bíblico Betei para se tomarem parte do trabalho do Sharon. Müford
Kirkpatrick, cunhado de Hawtin, e Ern Hawtin, irmão de Hawtin, logo
se juntaram ao ministério Sharon em North Battleford. Quando Hawtin
se mudou para ali. Holt havia recebido uma vivificação dos versículos
18 e 19 de Isaías 43 e estava fazendo campanhas de pregação sobre a
“coisa nova” que Deus estava para fazer na terra. ̂
Pouco tempo depois que George Hawtin e P G. Hunt se juntaram
a Herrick Holt, vários irmãos de North Battleford assistiram a uma
campanha de Wüliam Branham, em Vancouver, e ficaram extremamente
impressionados com as manifestações sobrenaturais nas reuniões. Um
editorial apareceu na edição de 1 de janeiro de 1948 do “The Sharon
Star”, um periódico publicado pelos irmãos de North Battleford, descre
vendo a campanha de Branham em Vancouver:
Estáse tomando bemconheddoqueoRev. Branham temoájmsobrena-
tural de cura Nunca em minha vida vi coisa igualaqueeuviem Vancouver.
AsreuniõesJoramreaUzadasr}oE>âiíbitionGarden, umprédiocomcapacida-
de talvez para quatro a cinco mil pessoas. Houve muito poucapropaganda
sobre as reuniões— apenas uns poucos cartazes aqui e acolá dando a hora
e local das reuniões. A primeira reunião e todas a seguir estavam btndas até
às portas, e amenos que se chegasse cedo paraareunião da tarde, nãohavia
esperança nenhuma de entrar à noite.
...Seus sermões têm efeito de inspirar/é em seus ouvintes... Eu vi os
surdos recuperaremsua audição. Eu ouvi os mudosfalarem.. Eu vi um bócio
desaparecer. Eu vipessoas doentes se levantarem de seus leitos... Que eu
saiba náoviumapessoaquenãofossecuradaquandoirmáoBranhamtirou
0 tempo para orar especificamente por ela
Eu retomei daquelas reuniões compreendendo como nunca antes que os
verdadeiros dons do Espirito são muito mais poderosos do que qualquer outra
coisaque temos imaginado emnossos mais espetaculares sonhos... Tbdosos
grandesderramamenÈosdopassadotiveramsuasverdadesprindpais.Averda-
0 Movimento Chuva Serôdia
45
de de LuterofoiJustifíccupopela Fé. A de Weslegfoi Santificação... 0 derrama
mento Pentecostal restaurou o Batismo no Espírito Sanb ao seu devido lugar.
Mas opró>dmogrande derramamentovaiser marcado por todas essas verda
des e ainda de uma tal demonstração dos nove dons do Espírito que o mundo,
nemrnesnTOonTundoapostoIkx),Jarnaistestemiinhouantes. Este avivamento
será curto e será o último antes do arrebatamento da igreja
Estas declarações, feitas quase um mês e meio antes do avivamento
começar, mostram a expectativa dos irmãos de North Battleford naqueles
dias. Devemos levar em consideração que nem tudo se cumpriu como foi
predito. Esse avivamento não foi o último e nem houve tal impacto no
mundo com a demonstração dos dons do Espírito, mas não podemos ne
gar que, mesmo após 40 anos, ainda é possível sentir os efeitos e resulta
dos deste mover em nossos dias. Sobre isso falaremos mais tarde.
Alguns Pontos de Influência
Temos a seguir alguns fatores que influenciaram os irmãos de
North Battleford:
1) Im posição de mãos. A imposição de mãos se tornaria mais
tarde um importante ponto de controvérsia entre as denominações pen
tecostais estabelecidas e os participantes do avivamento de 1948. Antes
de 1947, era quase uma heresia, entre os pentecostais, afirmar que não
eram necessários períodos de busca e espera para receber o Espírito
Santo. Porém, de acordo com James Watt (que esteve com os irmãos de
North Battleford de 1945 a 1949) um livro escrito por um episcopal, J.
E. Stiles, “0 Dom do Espírito Santo”, influenciou os irmãos Hawtin em
North Battleford a afirmar que o Espírito Santo era um dom. Se alguém
tivesse realmente se arrependido e crido no Senhor Jesus, tudo que ele
tinha de fazer era receber a imposição de mãos de um irmão e assim
receberia o Espírito Santo sem demora.
2) Forma de governo local. Outra influência foi o modelo de gover
no da igreja usado pelas Assembíéias de Deus Independentes suecas,
que foi adotado e usado pelos irmãos de North Battleford. Este grupo de
assembléias locais era mais uma comunhão de igrejas do que uma
denominação,e consideravam o governo da igreja local como a autorida
de máxima da igreja... A influência do modelo de governo das Assembléi
as de Deus Independentes sobre o ‘Orfanato e Escolas Sharon’ pode ser
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
46
vista em alguns artigos que apareceram no periódico Th e Sharon Star”. Os
números de janeiro e fevereiro de 1948 trouxeram artigos de A. W. Ras
mussen, um pastor das A ssem b léias de D eus In d epen den tes,
intitulados “Ordem Bíblica ou Não Bíblica da Igreja”, estabelecendo prin
cípios de governo na igreja. Rasmussen escreveu o seguinte: ^
No início do “Pentecoste” nós morríamos de medo de “denominacionalis-
nw”enunjcadeixamosdelevantarnossavozparaprockunarquenãoéramos
uma denominação, mas um movimento. 0 que acontece hoje? 0 “Pentecoste"
estádivididoemmuitosgruposdederu)nmacionalismo. Temtomado o cami
nho de todo avivamento espiritual anterior Parece que cada avivamento
produz suaprópriaaposlasicL..
A igreja não é uma organização nem uma ordemfraternal construída
pelo homenv a igreja é um organismo vivo. É o corpo de Cristo do qual ele é
0 cabeça. Isto é um mistério oculto ao homem natural e à mente carnal. As
coisas de Deus não podem ser discernidas pela mente natural, elas são
discernidas espiritualmente...
Tenho examinado diligentemente as Escrituras para ver se há qualquer
organização instituída pelos apóstolos além e acima da igreja locai Nãofui
capaz de achar isto. Por outro lado, a ordem da igreja local é claramente
ensinada.
Por exemplo: a primeira igreja do Novo Testamentofoi instituída em
Jerusalém com um número de membros e eles por sua vez tiverampresbíte-
ros e diáconos para supervisionar o rebanho. Os apóstolos seguiram este
padrão ao estabelecerem igrejas em todo lugar por toda a era da igreja
apostólica. Somente os santos realmente nascidos de novo e batizados se
tomaram membros da igreja, verAt2:41; 5:13,38.
A simplicidade da forma de governo usado pelas Assembléias
de Deus Independentes agradou mais aos irmãos de North Battleford,
especialmente porque isto lhes pareceu mais afinado com o padrão bí
blico do que as formas centralizadas de governo da igreja.
3) 0 livro “Poder Atôm ico com Deus Através de Jejum e Oração”.
Este livro, escrito por Franklin Hall, providenciou informações detalha
das sobre métodos e benefícios do jejum. Franklin Hall saiu da Igreja
Metodista e viajou como evangelista independente durante a Grande De
pressão e a Segunda Guerra Mundial. A influência de Hall sobre os ir
mãos de North Battleford foi inegável. Ern Hawtin escreveu o seguinte: ^
0 Movimento ChumSerôdia
47
A verdade dojejumfoi um dos grandes/atores que contribuíram para o
avivamento. Um ano antes disto lemos o livro de Franklin Hall, intitulado
“Poder Atômico com Deus Através de Jejum e Oração”. Imediatamente
começamos a praticar ojejum Antes não tínhamos entendido sobre a possi
bilidade dejejuar grandes períodos. 0 avivamento nunca teriasido possível
sem a restauração desta grande verdade através de nosso irmão HalL
De acordo com George Hawtin, “alguns jejuaram por três dias;
alguns por sete dias; alguns jejuaram por dez dias; alguns por duas
semanas; algims por três semanas; alguns jejuaram por trinta dias; e um
homem jejuou por quarenta dias”.
O ROMPERDO AVIVAMENTO
A Escola Bíblica Sharon iniciou-se em 21 de outubro de 1947. De
acordo com “The Sharon Star” (maio de 1948), em novembro de 1947
cerca de vinte e cinco estudantes foram batizados no Espírito Santo.
Então seguiu-se um longo período de oração e jejum. George Hawtin
escreveu o seguinte:
Foi nos dias 12 e 13 defevereiro de 1948 que a grande restauração
começou. Aqueles que estavam presentes nas salas de aula das Escolas
Sharon naquela manhã inesquecível tinham dedicado meses emjejum e
oração. Desde a abertura da escola na segunda parte de outubro até a
grande visitação do Espírito, emfevereiro, nãopossopensaremumdia(com
possível exceção de Natal eAno Novo) sem que alguém ou um grupo estives
sejejuando e orando. Dia após dia, semana após semcma, as aulas eram
suspensas, e os estudos interrompidos à medida que um grande peso de
oração e súplica vinha sobre nós. Em nossos corações sabíamos que Deus
estava parafazer uma coisa nova na igreja, mas não podíamos explicar
exatamente o que era Umas poucas profecias de encorajamento nosforam
dadas, impelindo-nos a buscar ajace do Senhor. As vezes tentávamos estu
dar, mas não podíamos prosseguir; o desejo de orar era bem mcdor. As aulas,
todavia, eramsemvidaeaoração sempre dijicíL
No dia 11 de fevereiro de 1948 uma profecia foi dada por uma
das jovens da Escola Bíblica, dizendo “que nós estávamos na beiradinha
de um grande avivamento, e tudo que tínhamos a fazer era abrir a porta
e entrar”. Depois que ela deu a profecia, George Hawtin se levantou e
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
48
orou, “suplicando a Deus e falando que ele nos tinha informado que
estávamos na beiradinha de um grande avivamento, e tudo que tínhamos
que fazer era entrar pela porta — mas eu (George Havi t̂in) disse, ‘Pai,
nós não sabemos onde está a porta — nem sabemos como entrar por
ela’.” Ele continuou orando, pedindo ao Senhor para lhes mostrar o que
teriam que fazer. ^
0 dia seguinte, 12 de fevereiro de 1948, foi descrito por Ern
Hawtin da seguinte maneira:
Trêsprédios... compunhamo “OrfanatoeEscokisSharorí’noseuintio, no
outonodel947. Cercade 70estudaniessereuriiramparaestudaraPalavrade
Deus, orarejejuar.Depoisdetrêsmeses, dereperÉeoavivamentocomeçouem
nossamaiorscdadeaulaondetodoocorpodeestudantesestavareunidopara
exercíciosdevocionais. Umjovemcontou-meque, quando tinhacincoanosde
idade, Deus lhe deu uma visão daquela saia de aula Tudo nela era idêntico.
Ele vvuDeus movendo de uma maneira que ele não podia entender.
... NuncaesquecereiamanháquandoDeus moveuem nosso meio nesta
estranhaenovamaneiraAIgunsestudantesestavamsobopoderdeDeusno
chão, outrosestaüamcgoeJhadosemadoraçãoelouvordiantedeDeus.Aunção
se intens^ou até que o temor de Deus estava sobre todos. 0 Senhor disse a
um dos irmãos: “Vá e imponha as mãos sobre certo estudante e ore por ele”.
Enquantoeleestavaemdúvidaeemconteniplação, umadasirmãsqueesüve-
ra scb opoderdeDeusJoi ao irmão dizendo as mesmas palavras, e nomeando
0 mesmo estudante peb qualele deveria orar. Ele obedeceu e uma revelação
Joi dada sobre a vida eJuturo ministérb do estudante. Depois disto uma bnga
profeciafoi dada (por Em Hawtin) com detalhes minuciosos sobre agrande
coisa que Deus estava parajazer. ..Até o presente dia ( Ide agosto de 1949)
possolembraraessêndadaprqfeda,etentareirepettralgumascoisascomo
foramditas:
“Esses são os últimos dias, meupovo.AvindadoSenhorestápróximaeeu
movereinomebdosmeusescolhidos. OsdonsdoEspíritoserãorestauradosna
minha igreja Se vocês meobedeceremeuimediatameníeos restaurarei Mas,
6 meu povo, seja reverente diante de mim como nunca antes. Tire os sapatos
deseuspésporqueolugaremqueestãoésanto.Sevocêsnãoreverendarem
0 Senhor e a sua casa o Senhor requererá isto de suas mãos. Nãojalem levia
namente das coisas que estou parafazer, poiso Senhor os considerará culpa
dos. Não tagarelemsobre essas coisas. Não esaevamcaríaspamseus amigos
nKdschegadossobreanovamaneíradoSenhoragir, pois eles não entenderão.
0 Movimento Chuva Serôdia
49
SevocêsdesobedeceremaoSenhornessascoisas, tomemcuidadoparaque
seus dias não sejam contados em tristeza e vão cedo para a sepultura Vocês
têm me obedecido e eu restaurarei meus dons. Indicarei de tempo em tempo
aqueles que estão prontí^para receber os dons de meu Espírito. Eles serão
recebidos por profecia e imposição de mãos do presbitério. ”
Imediatamenteapósestaprojecia,umairmãrecebeuumarevelaçãodos
nomes de cirvx> estudantes que estavam prontos para receber oração. Mãos
foram impostas sobre eles peb presbitério. Este procedimentofoi bem hesi
tante e imperfeito naquela manhã, mas depois de dois dias examinandoa
PalavradeDeusparaversetínhamosbasebíblica, grande unidade prevale
ceu e 0 Senhor veio em maior poder egbria dia após dia. Logo uma manifes
tação visíveldos donsfoi concedida à medida que candidatos recebiam ora
ção e muitos, como resultado, começaram a ser curados, à medida que dons
de curaforam dados.
Diaapósdiaagbriae poder de Deus vieramentre nós. Grande arrepen
dimento, humildade,jejum e oração predominarem sobre todos.
George Hawtin em seu relato confirma a profecia dada por seu
irmão:^
Todos os estudantes estavamqjoelhadosnasaladeaula Emprofetizou
peb Espírito de Deus por cerca de meia hora Durante aprqfeda ele chamou
todaaescolaàsantidade, àgrandereverênciadlantedeDeus...íhtãohouve
um aviso de que não devíamos mencionar o que estava acontecendo em
cartas, porque as pessoas não entenderiam.. Essas palavrasforam dadas
peb Espírito de Deus: “Nesta época eu restaurarei os nove dons do Espírito
para minha igreja, e eles serão restaurados por profecia, com a imposição de
mãos do presbitério”. Durante o próximo dia, 13 defevereiro, nós examina
mos a Palavra de Deus praticamente o dia todo para ver se essas coisas que
tinhamsido profetizadas estavamde acordo comaPalavra... NodiaMde
fevereiro—nunca poderei descrever as coisas que aconteceram naquele dia
Parecia que todo o céu expbdiasobre nossas abnas, e o alto céu abaixava-se
para nossaudar. O poder e a glória de Deusforam indescritíveis.
UMA ANÁLISE
Como pode ser visto na profecia de Ern Hawtin, segundo a qual
“os dons do Espírito serão restaurados na minha igreja”, houvera prati
camente um cessar da operação dos dons do Espírito que tinham se
A Igreja do Século XX -A História que Não Fbi Contada
50
tornado tão difundidos com o advento do pentecostaüsmo na virada do
século. Esta falta foi reconhecida por pentecostais de todo tipo e por
todo 0 mundo de língua inglesa daquela época. Foi esta necessidade que
trouxe notoriedade aos eventos de North Battleford no início de 1948.
Porque os irmãos de North Battleford tiveram sucesso em transmitir
dons especiais por imposição de suas mãos, pessoas vieram de todo
lugar para que eles, também, pudessem participar dos dons espirituais
que por tanto tempo oravam e ansiavam. ^
A necessidade de os irmãos de North Battleford diligentemente
examinarem a Palavra de Deus por dois dias depois da profecia para veri
ficar se tinham base bíblica, surgiu por eles (como também todo o pente-
costalismo) estarem condicionados a pensar serem necessários períodos
de busca e espera para receber o dom do Espírito Santo. A imposição de
mãos para aquele propósito não fora praticada por várias décadas, e por
alguma razão, viera a ser vista como herética pela maioria dos grupos
pentecostais. Por causa do perigo de desentendimento em relação ao uso
da imposição de mãos, não é de admirar que todas as pessoas fossem
exortadas a não tagarelarem sobre o que tinha acontecido.
0 uso do termo “o presbitério” no contexto da profecia merece
um pouco mais de atenção. 1 Timóteo 4:14 diz: “Não negligencieis o
dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição de
mãos do presbitério.” 0 presbitério neste caso consistia de líderes de
uma determinada igreja local. Porém, no caso dos irmãos de North
Battleford, parece que, à medida que eles ministraram em outros luga
res além do contexto de sua própria localidade, começaram a referir a
si mesmos como “o presbitério”, em vez de aos líderes da localidade
específica que estavam visitando.
Numa folha intitulada “Uma Análise Histórica do Desenvolvimento
dos Dois Conceitos de ‘Presbitério’”, James Watt (associado aos irmãos
de North Battleford de 1945 a 1949) escreveu: “Eu mesmo tenho sido
solicitado a submeter-me a um presbitério de sete homens viajantes...
‘Presbitério’ no início deste mover significava os professores do ‘Orfa
nato e Escolas Sharori comum pastor local de North BatÜeford. Quan
do este grupo viajava para outras cidades, eles reservavam a palavra
‘presbitério’ para si mesmos, permitindo a alguns pastores locais de
o Movimento Chuva Serôdia
51
também participarem.” Ao avaliar o procedimento dos irmãos de North
Battleford sobre isto, James Watt escreveu que “o papel do presbitério
itinerante como iniciado por North BatÜeford não é o ideal de Deus,
nem é o padrão bíblico. Um único verso na Bíblia se refere a um presbi
tério no Novo Testamento (1 Tm 4:14), e isto não se refere necessaria
mente a um presbitério itinerante indo para uma igreja local. Antes, isto
se refere aos irmãos de uma igreja local que foram ordenados por Paulo
e Barnabé como presbíteros” (At 14:23).
AREPERCUSSÃODOAVIVAMENTO
Em obediência à exortação de não mencionar em cartas o que
tinha acontecido, a edição de 1 de março de 1948 de “The Sharon Star”
não trouxe nem uma palavra sobre os eventos das duas semanas anteri
ores. Porém, a edição de 1 de abril de 1948 trouxe um editorial sobre
“0 Avivamento em Sharon”:
Durante as últimas seis semanas temos nos regozijado com urrui grande
visita/^ do Espírito de Deus. Alguns de nós estiveram orando por vinte anos
para que os nove dons do Espíritofossem restaurados na igreja 0 espírito de
JeJum e oração tem estado sobre toda a escola durante todo o inverno. Final
mente 0 grande ‘rompimento’ veio e os dons espirituais começaram a operar
entrenós...Oavivamentoestáseespalhandoportodaaprovíncia.. Osdons
espirituais estão definitivamente sendo restaurados na igreja Uma nova era
está raiando.
Talvez a edição de abril de 1948 de “The Sharon Star” tenha
exercido grande influência para atrair pessoas para as reuniões da Festa
Anual de Pentecoste de 30 de março a 4 de abril. A primeira página
trouxe manchetes descrevendo “Dois Milagres Modernos” de cura na
Escola BíbUca Sharon, 0 número anterior (março de 1948) declarou
que a circulação alcançara quase 5.000, incluindo pessoas de todo Esta
dos Unidos e Canadá, como também da Inglaterra. A vasta representa
ção geográfica de seus leitores sem dúvida criou um grande interesse
nas reuniões do acampamento. Pessoas de diversos lugares visitaram
Sharon durante as reuniões da Festa de Pentecoste. Müford Kirkpatrick
escreveu: “Nunca vimos tal variedade de carros e placas antes, vindos
de muitas províncias do Canadá e de muitos estados além fronteira.
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
52
Pessoas viajaram por muitos quilômetros.” George Hawtin descreveu as
reuniões da seguinte maneira: ^
Depois desses meses de oração e espera em Deus, tudo estava prepara
do para a Festa de Pentecoste. Pessoas famintas de encontrar com Deus
tinham vindo de várias centenas de quilômetos, e Deus as encontrou. Uma
Jovempossessa de espírito maligno foi libertada em resposta à oração dafé;
dois dias depois elafoi curada e, no mesmo dia, foi cheia do E^irito Santo.
Fbi maravilhoso demais versuaface brilhando com a glória de Deus...
Estamos relutantes em publicar ou mesmo dizer as notícias que se se
guem porque sabemos que muitas pessoas não crêem nisto. Sem dúvida, é
verdade que Deus está definitivamente restaurando os dons na igreja e os
nove dons do Espírito estão em operação entre nós, kmto na Escola Bíblica
como durante aFestadePentecoste. Muitos comentários mórbidos esarcás
ticos têm sido feitos a respeito do que Deus estáfazendo aqui, mas perma
nece ofato de que os doentes estão sendo curados, os demônios estão sendo
expulsos, santos estão sendo edificados, pecadores estão sendo convertidos
e nós não temos tido tempo nem espaço para argumentar com os que não
crêem. ‘‘PodealgumacoisaboavirdeNazaré?”VenhaeveJcL
Um pastor de uma cidade do Canadá escreveu uma carta aos
irmãos de North Battleford dizendo que depois de sua volta da Festa de
Pentecoste “a primeira reunião... com sua igreja foi maravilhosa; a pró
xima foi gloriosa, e a próxima mais gloriosa e assim por diante”. Parte
desta carta apareceu no “The Sharon Star”, e no mês seguinte outro
pastorda região escreveu:
Notei no editorial um parágrafofalando de um pastor de Ontário que
conta sobre suas reuniões depois de assistir à Festa de Pentecoste. Acontece
que sou um pastor colega no mesmo distrito e posso testificar tudo que ele
afirma e mais ainda. Sua igreja tem se tomado um centro na região para
aqueles que querem as coisas mais profundas de Deus e vários dons do
Espírito estão operando nas reuniões empeifeita harmonia, principalmente
osdonsdecuraeprofecia Muitoscoraçõesfamintos estãojejuandoeorando
porumdenamamentopoderoso.
Outro ajuntamento importante para espalhar o avivamento foi o
Acampamento Sharon em julho de 1948 que reuniu milhares de pessoas
de todo 0 continente. Ali receberam ensinamentos sobre a unidade do
0 Movimento Chuva Serôdia
53
corpo de (Cristo, os ministérios fundamentais, os dons do Espírito e o
governo da igreja local. 0 acampamento foi precedido por uma semana
de jejum que foi bem freqüentada. Pessoas vieram dos quatro cantos do
Canadá. As novas do avivamento e do derramamento dos dons espü-itu-
ais tinham se espalhado por toda parte. James Watt afirmou que “vinte
estados dos Estados Unidos tinham grande número de representantes
lá em julho, porque eles ouviram que Deus estava derramando seu Espí
rito.” Eis um relato das reuniões por G. Hawtin:
DiaapósdiaaPcüavrafoiensinadaeentãoossinaisseguiamseuensina-
mento. Pela manhã, à tarde e à noite pessoas/oram prostradas sob o poder
de Deus e cheias do Espírito Santo... Nós tínhamos orado pela volta dos dias
em que pessoas seriam cheias do Espírito imediatamente quando mãos
fossem impostas sobre elas, como aconteceu em Samaria e Éfeso. Foi gran
de nossa alegría quando uma noite duas senhoras se levantaram diante de
toda a multidão e receberam o Espírito dessaforma. Quando mãos foram
colocadas sobre elas, uma caiu sob o poder de Deus e a outra começou afalar
em línguas. A alegría da multidão em ver e ouvir isso dificilmente pode ser
imaginada Era como retroceder dois mií anos na históría da igreja
Embora as antigas reuniões de busca ainda estivessem muito em evidên
cia Deus poderosamente usou o ministério de imposição de mãos. Aqueles que
receberam esse ministérioforam especiabnente usados por Deus de talforma
quebuscadoresaônicosque tinhamesperadoquinze, vinte anosforamcheios
do Espírito... Longasfilas de doentes receberam ministração por aqueles que
tinham recebido o dom de cura Depois da primeira reunião de cura uma se-
nhoratestifkouque, quandooraramporela umrimqueosmédicosdisseram
ter-se deslocado para afrente do seu abdômen retomou à sua posição correta
Váriosfatoresforammaisevidentesduranteoaccimpamento. Emprimei-
ro lugar, o amor e desejo pelapalavra de Deus. Pessoas se sentaram literal
mente por horas para ouvir o ensinamento bíblico... Às vezes não havia
nenhum buvor, outras vezes nenhuma pregação, mas a presença de Deus e
a manifestação dos dons do seu Espínto proporcionaram-nos aquilo que
nossos corações tinham ansiado.
Foi nesse encontro que George Warnock, ex-secretário de Ern
Baxter, foi impressionado pela referência de um dos preletores, James
Watt, de que a terceira das grandes festas de Israel, a Festa dos
Tabernáculos, ainda não fora cumprida. Ele meditou, estudou, minis
trou sobre isso e mais tarde escreveu o livro “A Festa dos Tabernáculos”
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Foi Contada
54
que foi publicado em 1951 pela Editora Sharon e que se tornou a mais
famosa publicação do movimento.
Os irmãos de North Battleford viajaram para muitos lugares do
Canadá e dos Estados Unidos levando o fogo do avivamento e, assim,
muitos outros centros importantes se levantaram. Entre eles podemos ci
tar: Vancouver, Canadá, com Reg Layzell, e Detroit, Michigan, com a pas
tora Myrtle D. Beall, da famosa igreja Bethesda Missionary Temple (pes
soas de muitos lugares foram até lá receber confirmação de seu chamado
e ministério). Outros centros importantes se estabeleceram em Portland,
Oregon, com Thomas Wyatt; em Lima, Nova lorque, com Ivan Spencer,
diretor do Instituto B M co Elim; em Los Angeles, Califórnia, com A. Earl
Lee etc. Em sua maioria essas igrejas tiveram de se desligar das denomi
nações pentecostais e se tomaram independentes e autônomas. Muitas se
tomaram igrejas-mãe para numerosas outras igrejas. Nenhuma denomina
ção, porém, se levantou do Movimento Chuva Serôdia.
SOBREONOME^^CHUVASERÒDIA^
0 nome “Chuva Serôdia” foi dado ao avivamento em virtude da
expectativa e profecia de alguns irmãos de que o Senhor derramaria a
chuva serôdia antes da volta de Jesus. Myrtle D. Beall, de Detroit, che
gou a declarar fervorosamente em 1949: “Está aqui, amigos. A chuva
serôdia está aqui. É verdade que ainda não Irrompeu em sua plenitude,
mas a chuva serôdia está aqui.” É interessante notar que no início o
Movimento Pentecostal também ficou conhecido como Movimento Chu
va Serôdia pelo mesmo motivo. As pessoas concluíram que o derrama
mento do Espírito naquela época seria o último mover do Espírito de
Deus que introduziria a vinda de Cristo. Mas George Hawtin fez decla
rações veementes contra tais afirmações: ^
Há algumassemanas foi-me cpreseniada uma Usta de quase cem “Igre
jas da Chuva Serôdia”. Eu não sei de onde veio a Usta, embora meu nome
estivesse nela... isto é juiKktmentalrnente e basicamentee escriturísticamenie
ERRADO. Se você é membro da seita da “Chuva Serôdia”, você é tão separa
tista esectarista como se vocêfosse membro da seita Pentecostal ou Apos
tólica,oaBatista, ouMetodistaetc...
Que hipocrisia é esta de condenar outros porque eles são Pentecostais,
Presbiterianos, Batistas, Metodistas, Quadranguktres e milhares deoutas
rarrújkxições,e depois nos autodenorrmarmos “Chuva Serôdia.’?... Nãohave-
0 Movimento Chum Serôdia
55
rá seitas ou denominações, mas os lavados no sangue de Jesus de todas as
raçaselínguasserãobatizadosporumEspíritoniimcorpo, e este corpo será
aigreja, eestaigrejaseráanoiva, eestanoivaseráaNova Jerusalém.
Ele também afirmou:^
...Estou certo de que o avivamento dos últimos 40 anos (avivamento
pentecostal) e em particular o grande mover do Espirito rws últimos dois
anos são apenas as primeiras gotas do derramamento da chuva serôdia que
estáparavir.Euqflrmo, apesar de íodaaconversasobrechuvaserôdia que
ela ainda não chegou. E se já chegou, foi somente numa medida muito, muito
limitada
Então, George Hawtin e os outros irmãos de North Battleford se
posicionaram fortemente contra qualquer tipo de rótulo ou de denomi-
nacionalismo. E de fato nenhuma denominação surgiu do Movimento
Chuva Serôdia. 0 que não foi o caso do Movimento Pentecostal do início
do século, que também se posicionou contra o denominacionalismo,
mas não tão fortemente, e no fim se organizou como as Assembléias de
Deus e outras denominações pentecostais. Aliás, o Movimento Pentecostal
é um exemplo típico e famoso na história da igreja de um movimento
que gradativamente se desenvolveu em direção ao mesmo tipo de deno
minacionalismo, contra o qual ele, como um movimento de reforma, se
levantara no início. E da mesma forma que foi perseguido pelas deno
minações estabelecidas daquela época, ele se levantou para perseguir o
Movimento Chuva Serôdia. Desde o início da história da igreja isto está
sempre se repetindo — aquele que fora o último mover de Deus se
levanta contra o mover atual de Deus.
CORO CELESTIAL
Em outubro de 1948 os irmãos Hawtin e outros líderes de North
Battleford foram convidados a pregar numa convenção das Igrejas As
sembléias de Deus Independentes, em Edmonton, Canadá. Um dos
acontecimentos marcantes desse encontro foi o coro celestial que já
havia acontecido no início do século. James Watt, um dos preletores,
pregou sobre isto influenciado pela leitura de um livro da pastora-
evangelista Marie B. Woodworth-Etter, que descrevia tal manifestação
em suas reuniões. Eis um trecho do livro descrevendo uma reunião em
Long Hill, Connecticut, em 1913:^
A Igreja do SéculoXX-A História que Não Foi Contada
56
...Derepentecaiusobremeuouvido—poisosoni é estanho dizer, todo
ele parecia se derramar em meu ouvido direito— uma canção da mais
maravilhosadescrição. Não paredademaneiraalgumacomvozes humanas,
mas parecia com os tons de algum instrumento musical maravilhoso, tais
como ouvidos humanos nunca ouviram antes. Começou do lado direito da
audiência, eondulavadeláparatodaacompanhiadesantosbaíizados, num
volume de sons semelhantes em suas subidas e descidas, em suas ondula
ções e quedas, em seus crescendos e decrescendos, às ondas do oceano
quando são agitadas pelaforça maravilhosa que produz as marés.
Talcombinaçãodeíons, talperfeitaharmoniadesons, talmelodiamusi-
cal, meus ouvidos nunca ouviram antes, e nunca espero ouvir novamente
neste mundo sob qualquer outra circunstância, nem mesmo vindo da mais
perfeita orquestra musical que a engenhosidade humana possa produzir,
apesar de que todos esses sons/oram produzidos por uma companhia de
pessoas que tinham se juntado de todo o continente da América do Norte, a
maioria das quais nunca tinham visto um ao outro.
Fbi-nospemútidoouviraquelagloriosaccuiçãoduasou trêsvezesaodia.
Tbdodiaenqucmioestivelá,eàmedidaqueossantosentravammaise,maisno
EspíritoenapresençadeDeus,ovolumeepoderdaquelamúsícaiacrescendo
até que muitas vezes rebentava como um perfeito bramido que quase fazia
tremer nossa respiração, assim como quando alguém permanece ao lado de
um poderoso órgão quando as notas mais graves estão sendo tocadas.
Naquele dia James Watt pregou sobre o assunto e exortou o povo a
esperar diante de Deus pela restauração disto. Ele declarou também que
algumas das antífonas ainda entoadas naigreja Católica eram cópias da
quelas originalmente cantadas no Espírito. Terminada a pregação, estan
do para se sentar, ele mesmo rompeu em canção profética. Imediatamente
o espírito de profecia veio sobre outros na congregação que cantaram pro
feticamente e depois toda a congregação se juntou a eles com antífonas
espirituais de louvor. Desde aquele dia em Edmonton os irmãos de North
Battleford enfatizaram o cantar no Espírito nas reuniões e falaram sobre
0 coro celesüá que se tomou freqüente naqueles anos. Eis uma descrição
de Hawtin sobre uma destas manifestações em Hibbüig, Minnesota: ’’
“Logo na primeira noite em Hibbing... nós ouvimos o mesmo
coro celestial que tínhamos ouvido pela primeira vez em Edmonton.
Começou com um som grave muito semelhante ao das gaitas de fole,
mas logo rompeu poderosamente até que prevaleceram os tons de um
0 Movimento Chuva Serôdia
57
grande órgão de tubos, aumentando o volume para subir e descer em
perfeita unissonância e harmonia. Aleluia! “
James Watt também descreveu o coro celestial em Edmonton:
“A melodia do próprio céu encheu toda a igreja. Era como um
poderoso órgão, com belos acordes crescentes, entremeados por solos,
porém em perfeita harmonia. Todos que ouviram isto a alguns quartei
rões de distância disseram que isto tocou áreas de seu ser que nenhum
poder na terra tocara antes.
“Curas especiais foram operadas: surdos ouviram, cegos viram,
cânceres foram curados, e corpos doentes se fizeram sãos. Pecadores
foram salvos, e o sangue precioso de Jesus beneficiou a todos.”
Outra descrição de George Hawtin:
“Nós ouvimos rumores vagos sobre o então chamado ‘coro
celestial’ associado com o derramamento do Espírito que ocorrera na
virada do século e ansiávamos por ouvi-lo. Mas ao ouvi-lo devemos
confessar que ele supera totalmente não somente a descrição mas em
grande parte tanto a apreciação como o entendimento... Uma profunda
percepção do espírito de adoração e música sempre permeia as reuni
ões como um prelúdio para o coro... A coisa mais evidente sobre isto é
a surpreendente e complicada profundidade de harmonia... A pouca
distância soa como um coro mestre acompanhado por uma orquestra
sinfônica inigualável. Parece difícil acreditar que tal som possa ser re
produzido por cordas vocais humanas. Há tanta perfeição de ordem e
ritmo à medida que acordes poderosos se elevam e ressoam que alguém
é forçado a admitir que há um maestro invisível.”
Vemos assim que o coro celestial, ocorrido no início do século
no Movimento Pentecostal, voltou a acontecer na metade do século com
0 Movimento Chuva Serôdia. Isto deve criar um anseio em nós para que
no mover destes últimos dias os anjos desçam para entoar junto conos
co esta música celestial. Deus quer que esperemos nele para ouvir a
música dos anjos, a canção da criação, o louvor que há eternamente ao
redor do seu trono. Nós e a criação precisamos de uma cura profunda.
Esse som celestial cantado juntamente com os anjos vai curar nossa
alma e consertar as discordâncias do nosso ser. Ainda há de se ouvir no
meio do povo de Deus uma expressão de música que nos comoverá e
nos desafiará além de nossas emoções naturais. Esta música não con
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
58
sistirá de belos hinos sobre nossas doutrinas ou idéias. Ao contrário,
ela nos elevará e nos colocará na presença do Rei dos reis.
CONTROVÉRS IAS E CONFLITOS
Foram vários os motivos de controvérsia entre os participantes do
Movimento Chuva Serôdia e as denominações pentecostais estabelecidas,
especialmente as Assembléias de Deus. Os motivos de controvérsia mais
destacados foram o recebimento do Espírito Santo e a transmissão de
dons e ministérios por imposição de mãos e a crença na existência de
apóstolos e profetas nos dias de hoje, Uma das primeiras indicações de
controvérsia sobre apóstolos e profetas apareceu na edição de junho de
1948 de “The Sharon Star”, De acordo com George Hawtin:
“Quando alguém começa a falar sobre apóstolos e profetas estarem
na igreja em nossos dias, os pobres santos são chocados quase até à mor
te, Eles levantam suas mãos em santo terror e gritam: ‘Heresia! Heresia!’,
Agora MINHA BÍBLIA DIZ: ‘DEUS PÔS NA IGREJA, PRIMEIRAMENTE
APÓSTOLOS, EM SEGUNDO LUGAR PROFETAS, EM TERCEIRO MES
TRES, depois operadores de milagres, dons de curar etc.”’ (1 Co 12:28).^
Também apareceu nesta mesma edição uma declaração de que
“nenhuma igreja exerce ou tem qualquer direito de exercer autoridade
ou jurisdição sobre outra igreja, sobre seus pastores ou membros”. Isto
ele disse combatendo a forma de governo centralizada da maioria das
denominações pentecostais existentes. Teria sido útil se esta declaração
de Hawtin tivesse sido aplicada aos excessos que mais tarde acontece
ram com 0 presbitério itinerante de North Battleford, do qual ele fazia
parte e que exerceu autoridade sobre pessoas através de profecia diretiva
quando viajava para outras cidades. ’’
Como foi dito por James Watt, esse entendimento dos irmãos de
North Battleford sobre o termo “presbitério” não foi correto desde o
início. Biblicamente, presbitério é a liderança plural de cada igreja (or
denada pelos ministérios fundamentais de apóstolos e profetas) e não
um grupo Itinerante de homens com ministério extralocal. Para fazer
parte de um presbitério o apóstolo deve estar morando na localidade e
assim exercer influência no governo da igreja. No caso dos irmãos de
North Battleford, teria sido mais correto usar o termo “equipe apostóli
ca” ao invés de “presbitério”, mas talvez tenham agido assim por receio
de se declararem abertamente “apóstolos e profetas” naqueles dias. Por
OMouimentoChiwaSerôdia
59
outro lado, pela maneira como exerceram autoridade sobre outras loca
lidades e pela força com que defenderam a existência de apóstolos e
profetas hoje, ao ponto de gerar tanta controvérsia com as Assembléias
de Deus (que por sua vez não crêem que apóstolos e profetas são os
fundamentos da igreja), é praticamente evidente que eles se considera
vam como tais. É isto que mostra a seguinte declaração de George Hawtin:
“Temos imposto nossas mãos sobre certos homens que têm rece
bido de Deus esses ministérios (de apóstolos e profetas), os quais têm
sido confirmados por profecia e imposiçãode mãos. (A seguir alguns
nomes e seus endereços são citados.) Temos imposto nossas mãos so
bre esses homens e reconhecido seu ministério apostóhco. Ficaríamos
muito gratos a todos os que estão desejosos de ver o avivamento come
çando em suas cidades se entrarem em contato conosco, para que pos
samos recomendar um homem que tem entendimento dos fundamentos
deste grande derramamento da chuva serôdia. Infelizmente, agora e como
sempre houve, há OPORTUNISTAS circulando entre o povo sem um
entendimento verdadeiro do avivamento, e zelando apenas por seus pró
prios interesses. Rogamos, portanto, que você indague diretamente a
nós se certos homens são ou não reconhecidos por nós.”^
Essa posição dos irmãos de North Battleford, colocando-se como
os guardiães do avivamento, gerou conflitos com outros centros de avi
vamento que não aceitaram este tipo de exclusivismo e sectarismo.
Cari Brumback observou em sua “História das Assembléias de
Deus” que no início deste movimento “uma vibração de esperança pul
sou entre milhares de corações; um novo derramamento do Espírito
estava caindo sobre a terra seca e estéril! Tragicamente, certos elemen
tos começaram a aparecer na ‘Nova Ordem’ que criaram dúvidas e desi
lusões em muitos corações sinceros”. '■
Em 1949 0 Concího Geral das Assembléias de Deus declarou o
seguinte sobre o novo mover: “Desaprovamos estas práticas e ensinos ex
tremistas que, não tendo base bíblica, servem apenas para quebrar a co
munhão da fé igualmente preciosa e tendem a confimdir e causar divisão
entre os membros do corpo de Cristo, e seja, portanto, conhecido que este
23° ConcíUo Geral desaprova a chamada ‘Nova Ordem da Chuva Serôdia’.”®
Através deste ato de conservadorismo, as Assembléias de Deus
fecharam suas portas a este novo derramamento do Espírito e à posteri
or restauração do corpo de Cristo que viria neste século. Também, ao
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Foi Contada
60
isolar desta forma este novo movimento, elas apenas contribuíram para
sua rápida degeneração através de erros e desequilíbrios. ®
Devemos acrescentar, porém, que o próprio Hawtin confessou
depois seu exclusivismo e sectarismo:
Nunca poderei esquecer aglória, o temor, a reverência, a santidade e o
poderquevieramànossasaladeaulaenquantoesperávamosemDeusnaque-
le glorioso 13 dejevereiro de 1948, quando Deus começou ajazer uma nova
coisa que estava destinada a abalar por um tempo o sistema eclesiástico de
todaaAméricci..Àmedidaquefaçoumaretrospectivaagora, tristementeposso
veroomcJarezaqueograndeeabençxidomoverdeDeusnãocompleiaradois
anos quando o espírito de sectarismo começou a mostarsua cabeça horren-
da..Éverdadequenegawosvociferantenientequetínhamosnostomadouma
seita.. Não haveria comunhão com ninguém que estivesse fora dos limites de
nosso sempre restrito círcub. Éramos a verdadeira igrejcu Éramos os eleitos.
Permanecêramosnosfundamentosetodososoutroshamenspermaneciamem
areia movediça. Nenhum homem poderia e^ulsar um demônio sem que ek
nos seguisse. Nenhum ensinamento teria vedor se nãofosse originado de nós.
ÉraTnosaspessoasrnaisespiritucdsdomundo.íríamosreinarnoreinoemesmo
agoraestávamoscomeçandoareinar.TínhamososdonsdoEspírito, esería-
mos os “manda-chuvas” na tribulação... Mas não sabíamos que, como os
efésios, tínhamosperdidonossoprimeiroamor,edeveríamosnosarrependere
praücarasprimeirasobrasnovamente.
Nunca cessarei de agradecer a Deus por ter sido vomitado do ventre
desta baleia também pois nunca sabemos até que ponto temos chegado até
que possamos visualizar Babel à distância. Nesta hora, e somente nesta
hora nossocoraçãodágraçasaDeuspelalibertaçãodemaisoutradasJilhas
meretrizesdeBabilônia.
DUAS HERESIAS DO MOVIMENTO CHUVASERÒDIA
I. GRAÇA E LIBERDADE
Como dissemos, houve muitos erros e ensinos extremistas no
Movimento Chuva Serôdia. Falaremos agora rapidamente sobre duas
heresias principais. A primeira se chama “Graça e Liberdade”, que se
ria melhor expressada como “Graça e Libertinagem”, pois resultou em
Imoralidade e pecado — graça barata. Esta doutrina surgiu por dois
motivos. Primeiro, foi uma forte reação contra o legalismo das Assem
bléias de Deus e de outras denominações pentecostais. 0 segundo mo-
0 Movimento Chuva Serôdki
61
tivo foi que enfatizaram tanto os dons e a “palavra viva” transmitida por
profecia, que acabaram desvalorizando a Bíblia e entrando em exaltação.
Devemos salientar que uma grande falha do Movimento Chuva Serô
dia foi a supervalorização dos dons e a absoluta falta de ênfase na cruz e
quebrantamento. Dons do Espírito fora do contexto da cruz dão lugar à
atuação de outros espíritos e à libertinagem e pecado. Esta doutrina de
graça e liberdade (liberdade da carne e não do Espírito) levou para munda-
nismo e imoralidade, e até deu origem ao “casamento espiritual”, isto é, se
você é casado e tem um melhor entrosamento espiritual com outra mulher,
pode se divorciar e casar com esta mulher, pois sua primeira escolha não
foi espiritualmente correta. Uma declaração feita por um ministro das As
sembléias deDeus do Canadá, em outubro de 1948, expressa multo bem
0 perigo de enfatizar os dons fora do contexto da cruz:
“A história da igreja demonstra que, se qualquer grupo de cris
tãos rejeita o ensinamento correto do enchimento do Espírito e suas
operações, certamente esterilidade virá como resultado. Por outro lado,
se houver uma ênfase exagerada no Espírito e nos dons do Espírito em
detrimento da pessoa de Jesus e de sua obra consumada no Calvário, e
jusliíicação pela fé e mais nada, o resultado será dedínio, emocionalismo
desequilibrado e fanatismo. Se a revelação da cruz e graça de Deus
dada ao apóstolo Paulo é deixada de lado, mais cedo ou mais tarde o
inimigo entrará em cena.”
Portanto, podemos concluir que santificação não vem através de
legaüsmo e nem graça produz libertinagem. 0 derramamento do Espírito
é baseado na obra da cruz e este espírito é um espírito de santidade. A
graça de Jesus Cristo não produz liberdade da carne, mas o fruto do Es
pírito Santo. “Porque a graça de Deus se manifestou... ensinando-nos, para
que, renunciando à impiedade e às paixões mundanas, vivamos no presente
mundo sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperan
ça e o aparecimento da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Je
sus, que se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda iniqüidade, e
purificar para si um povo todo seu, zeloso de boas obras” (Tito 12:11-14).
2. MAN IFESTAÇÀO DOS FILHOS DE DEUS
A principal heresia do Movimento Chuva Serôdia e a mais conhe
cida se chama “Manifestação dos Filhos de Deus”. Baseados na profecia
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
62
de Joel, criam que a chuva temporã fora o derramamento do Espírito
ocorrido na igreja de Atos e que a chuva serôdia consistia de três fases.
A primeira fase acontecera no derramamento pentecostal do início do
século XX. A segunda fase seria o derramamento do Espírito daqueles
dias quando os nove dons do Espírito, os cinco ministérios de Efésios
4, a adoração e louvor no Espírito e uma igreja gloriosa estavam sendo
restaurados no meio do povo de Deus.
Mas, com base em profecias e em Romanos 8:19-23, criam que uma
companhia de pessoas seria aperfeiçoada em preparação para um terceiro
derramamento (a terceira fase), através do qual alcançariam a plenitude,
a medida da estatura de Cristo para verdadeiramente destronar Satanás,
expulsando-o dos lugares celestiais, amarrando-o e trazendo libertação e
vida para todas as famílias da terra. Esta terceira grande obra do Espírito
traria à luz os filhos manifestos ou maduros que alcançariam a redenção
de seus corpos— Hvres de maldição, pecado, carnalidade, doença e mor
te. ® Diziam mais, que assim como existem dois corpos no casamento —
do homem e da mulher— no sentido espiritual existiam o corpo da noiva.
(a igreja) e o corpo de Jesus (os filhos manifestos).
0 grande problema desta doutrina é queessa adoção ou manifes
tação descrita em Romanos 8 só acontecerá na vinda de Cristo, quando
receberemos a redenção ou glorificação do nosso corpo, e nunca antes.
Outro problema é que no final essa companhia de vencedores se torna
ria uma elite separada da igreja, cuja ação tão poderosa e abrangente
quase dispensaria a volta de Jesus. Então o resultado prático da doutri
na da manifestação dos fllhos de Deus foi uma supervalorização do
reino e uma desvalorização da igreja e da própria vinda de Cristo. Fica
ram tão empolgados com a manifestação dos filhos de Deus que deixa
ram de lado a igreja e anteciparam o reino.
É verdade que tanto o derramamento do início do século como o
derramamento do meio do século fazem parte da chuva serôdia prome
tida para os últimos dias. E cremos que mais ondas do Espírito virão
para levantar a igreja gloriosa que brilhará no meio das trevas e dificul
dades, e que trará a vinda de Jesus que introduzirá o reino de Deus na
terra, no milênio.
OMovimentoChiwaSerôdia
63
FRUTOS DO MOVIMENTO CHUVASERÒDIA
I. VERDADES RESTAURADAS
Apesar dos erros e desvios do Movimento Chuva Serôdia não
podemos negar que ele nos deixou como legado um rico depósito de
verdades que foram restauradas na igreja no século XX. De fato o aspec
to “reforma” na restauração da igreja no século XX foi introduzido pelo
Movimento Chuva Serôdia, pois o Movimento Pentecostal que restaurou
0 batismo no Espírito Santo com línguas representa mais o aspecto
“avivamento”.
Entre as verdades que foram restauradas podemos citar: (1) os
cinco ministérios de Efésios 4, apóstolos, profetas, evangelistas, pasto
res e mestres, sendo enfatizada a existência de apóstolos e profetas
hoje, os quais são os fundamentos da igreja; (2) o corpo de Cristo, um
organismo vivo e não uma organização; (3) a igreja gloriosa, antes da
vinda de Cristo a igreja será restaurada para ser pura e sem defeitos; (4)
os nove dons do Espírito, que eram recebidos pela (5) imposição de
mãos, pela qual se recebia o batismo no Espírito Santo sem necessida
de de demora e pela qual os dons e ministérios eram confirmados; (6)
adoração no Espírito e cânticos proféticos; e finalmente (7) o entendi
mento da Festa dos Tabernáculos. Há três festas na Bíblia que são figu
ras da obra de Cristo e que precisam ser cumpridas antes de sua volta.
A primeira é Páscoa, que representa nossa salvação, e a segunda é
Pentecoste, que representa o batismo no Espírito. A terceira.
Tabernáculos, é um maior e último mover do Espírito que aperfeiçoará
a igreja e formará o corpo de Cristo — o batismo no corpo (1 Co 12:13).
Hoje estas verdades são amplamente aceitas por aqueles que crê
em na restauração da igreja, mas muitos não sabem que o entendimento
delas só surgiu com o Movimento Chuva Serôdia e muitos até rejeitam o
movimento como algo herético. Por outro lado, o processo de integração
e incorporação destas verdades na vida da igreja precisa ser mais de
senvolvido para que haja uma verdadeira reforma.
z. RAMIFICAÇÕES - NEGATIVAS E POSITIVAS
Dois tipos de ramificações resultaram do Movimento Chuva Se
rôdia. Do lado negativo temos aqueles que, por falta de equilíbrio, en
traram em erros e heresias. 0 exemplo mais forte é John Robert Stevens,
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
64
de Los Angeles, Califórnia, que na década de 70 dava cobertura para
cerca de 100 igrejas do “Caminhar”. Durante uma visita a Tacoma, Wa
shington, em 1950, Stevens recebeu a imposição de mãos de Winston I.
Nunes, um pastor de Toronto, Ontário, que se tornou um proeminente
líder da Chuva Serôdia no Canadá. Naquela época, Stevens era um
pastor das Assembléias de Deus, mas seu envolvimento com as cren
ças e práticas da Chuva Serôdia provocou sua eventual separação das
Assembléias de Deus. Ele tinha dons excepcionais, especialmente a
palavra de conhecimento, mas entrou em exaltação e tomou-se exclusivista.
Como muitos líderes da Chuva Serôdia, considerava-se o precursor de
uma nova era e autodenominou-se “apóstolo do reino”, pois a era da
igreja terminara e a era do reino chegara com a “palavra viva”.
A influência desta ala da Chuva Serôdia no Brasil foi grande na
década de 70. Aconteceu através de Harold Williams, cunhado de Stevens
e ex-missionário da Igreja Quadrangular no Brasil, e de Adiei Almeida
de Oliveira, um ex-pastor da Quadrangular, advogado e tradutor. Adiei
trouxe ao Brasil Bill Britton, de Springfield, Missouri, e vários outros
homens, além de traduzir a hteratura de Bill Britton.
No início, isto teve um impacto muito proveitoso para a igreja no
Brasil, pois muitas das verdades mencionadas acima, que foram restau
radas pela Chuva Serôdia, foram divulgadas no Brasil pela primeira
vez. 0 ministério de Bill Britton, que tinha enriquecido a muitos nos
EUA, abrindo seus olhos para a existência de algo além do Pentecoste, a
“Festa dos Tabernáculos”, e para muitas outras verdades preciosas da
Palavra, agora passou a ser conhecido pela igreja brasileira. Os encon
tros anuais organizados por Adiei em Ribeirão Preto e denominados
“Festas de Tabernáculos” foram no final da década de 60 e durante a
década de 70 importantes ajuntamentos desta nova visão.
Mas grande polêmica surgiu quando Adiei publicou literatura de
Bill Britton e Stevens que continha doutrinas controversas. Muitos que
ünham ligação com ele começaram a se desligar e Adiei tornou-se mais
e mais fixado em Stevens. Só Stevens tinha a “palavra viva” que introdu
ziria 0 reino. Desse modo houve uma desvalorização da Bíblia e uma
valorização da “palavra viva” transmitida por Stevens, resultando em
imoralidade e pecado no movimento. 0 próprio Stevens divorciou-se
de sua esposa e casou-se com sua secretária. Ele faleceu em 1983 de
0 Movimento Chuva Serôdia
65
câncer. Bill Britton, mesmo defendendo algumas heresias como a mani
festação dos filhos de Deus, era menos extremista que Stevens e moral
mente equilibrado. Ele faleceu em 1985.
Se por um lado existiu um segmento da Chuva Serôdia que en
trou em desequilíbrio e heresia, por outro lado houve igrejas e organi
zações paraeclesiásticas que foram positivamente influenciadas por esta
visitação. Fazem parte desta ramificação positiva as chamadas Igrejas
do Avivamento na costa oeste dos Estados Unidos; Bethesda Temple,
em Detroit; Elim Fellowship de Igrejas, em Lima, Nova Iorque; World
M.A.R (Plano de Assistência Missionária Mundial), de Ralph Mahoney,
na Califórnia; e a famosa Bible Temple, pastoreada por Dick Iverson,
em Portland, Oregon, que tem enfatizado imposição de mãos, adoração
no Espírito e cânticos proféticos, profecias e liderança plural. Todas
elas são igrejas e organizações dinâmicas e respeitáveis que preservaram
os ensinamentos da Chuva Serôdia e enfatizaram equilíbrio, mas que
infelizmente não prosseguiram adiante — institucionalizaram as dou
trinas da Chuva Serôdia e se cristalizaram.
3. CONCLUSÃO
Qual deve ser, então, nossa atitude em relação ao Movimento Chuva
Serôdia? Como vimos, alguns preservaram as verdades restauradas mas
estacionaram naquele ponto. Outros têm rejeitado totalmente 0 movimen
to, jogando fo ra todas as restaurações, por causa dos erros e
desequilíbrios. Estes também não têm como prosseguir, pois como acon
tece com os Pentecostais e Carismáticos, só sabem enfatizar 0 aspecto “avi
vamento”, desejando mais derramamentos do Espírito; mas para quê? A
atitude correta seria rejeitar a parte herética do movimento e reconhecer
as tremendas verdades que foram restauradas na igreja. Devemos
incorporar 0 legado que nos foi deixado e prosseguir além, aprendendo
com a reforma e crendo para receber mais avivamento. Houve avivamento
no começo do século e houve avivamento no meio do século (com início de
reforma) e haverá mais avivamento e mais reforma no final do século para
formar 0 corpo de Cristo, a igreja gloriosa, que receberá a volta de Jesus.
A Igreja do SéculoXX-A História que Não Foi Contada
66Capítulo 5
O MOVIMENTO CARISMÁTICO
V
imos que os pentecostais clássicos do início do século XX não
criam, a princípio, em denominacionalismo. Eles criam que o
derramamento do Espírito na época era para unir a igreja e pro
mover uma evangelização mundial, tendo em vista a iminente volta de
Jesus Cristo. Mas, em pouco tempo, eles se organizaram como denomi
nação para proteger o movimento de heresias e confusão. Assim surgi
ram as Assembléias de Deus e outras denominações pentecostais com
suas escolas e institutos bíblicos para treinar seus líderes e defender
suas doutrinas básicas.
Com 0 novo derramamento do Espírito na metade do século, os
participantes deste movimento, conhecido como “Chuva Serôdia”, se le
vantaram mais fortemente ainda contra o denominacionalismo. De fato,
eles tiveram grande sucesso em não formar outra denominação, contudo
entraram em muitas heresias e desequilíbrios. Eles foram tão longe em
suas “revelações” que muitos historiadores da igreja do século XX, como
Vinson Synan, nem o mencionam, como se fosse algo totalmente falso.
Já 0 Movimento Carismático dos anos 60 e 70, considerado pelos
seus participantes a “segunda onda” do Espírito, caracterizou-se pela va
lorização e fortalecimento das denominações. Eles nem cogitaram de sair
delas, antes queriam o mover do Espírito infiltrando nas principais deno
minações e, assim, ter uma igreja renovada pelo Espírito, No início eles
se autodenominaram neo-pentecostais para diferir dos pentecostais clás
sicos mais barulhentos, mas depois ficaram conhecidos como
carismáticos.
0 Movimento Carismático pode ser considerado a mais extensa e
difundida manifestação do Espírito, o cumprimento mais completo até
67
hoje da profecia de Joel. Atingiu as mais antigas denominações tradici
onais e depois, de modo espetacular, apropria Jgre/a Católica em 1967
— 0 mesmo ano da tomada de Jerusalém por Israel. Porém, ao visualizar
a história da igreja do século XX podemos notar claramente que, en
quanto 0 Movimento Chuva Serôdia representa mais o aspecto “Refor
ma” (pois grandes verdades da Palavra foram restauradas naquela épo
ca), 0 Movimento Carismático representa o aspecto “Avivamento”, pois
foi uma extensão da visitação do Espírito iniciada no começo do século,
só que dentro das denominações.
Mais recentemente, nos anos 80 surgiram alguns líderes falando
de uma “terceira onda” do Espírito que sucederia as primeiras duas, o
Movimento Pentecostal Clássico e o Movimento Carismático. Um forte
promulgador desta terceira onda é Peter Wagner, professor do Seminá
rio Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia, que fala em línguas mas
se recusa a ser chamado de pentecostal ou carismático. A “terceira onda”
seria uma obra sobrenatural do Espírito nas principais denominações
tradicionais levando as pessoas a exercer os dons do Espírito, mas sem
aceitar rótulos, sem se tornarem carismáticos ou pentecostais. Há dois
motivos básicos para esta posição. Primeiro, os defensores da “terceira
onda” não querem trocar sua teologia evangélica por uma duvidosa teo
logia pentecostal. Em segundo lugar, querem apenas integrar os dons
do Espírito como uma prática normal da vida da igreja.
Então, enquanto os pentecostais saíram das denominações exis
tentes na época e formaram uma nova igreja e uma nova teologia, os
carismáticos não saíram mas formaram um novo movimento dentro de
qualquer denominação. Os carismáticos se tornaram um departamento
dentro da igreja. Já os promulgadores da “terceira onda” não querem
sair nem ser um departamento, mas querem permear toda a Igreja com
a normalidade da prática dos dons do Espírito.
Para um melhor entendimento do Movimento Carismático vamos
tratá-lo em vários aspectos:
1 ° - ASSOCIAÇÃO DE HOMENS DE NEGÓCIOS DO EVANGELHO
PLENO. A “Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno” foi
fundada por Demos Shakarian, um homem de negócios pentecostal de
origem armênia, em 1952, com a ajuda de Oral Roberts. Tinha como
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Cbntada
68
propósito alcançar homens de negócios com o evangelho que incluía
batismo no Espírito. Daí o nome “Evangelho Pleno”.
Essa organização exerceu importante papel na disseminação da
experiência pentecostal entre milhares de pessoas de igrejas tradicio
nais, que talvez nunca tivessem interesse em assistir às reuniões de imia
igreja pentecostal. Até então, a experiência pentecostal tinha se difundi
do principalmente no meio de pessoas simples, de classe média para
baixo, mas com sua técnica de organizar banquetes para homens de
negócios, onde um convidado cheio do Espírito dava seu testemunho,
pessoas ricas e influentes foram também cheias do Espírito. Walter
Hollenweger, autor da obra “Os Pentecostais”, declarou que esta organi
zação contribuiu muito para a propagação das idéias pentecostais pelo
mundo, apesar do “ensinamento incompreensível de que a pessoa que é
cheia do Espírito terá mais sucesso nos negócios, fará melhores trato
res e automóveis que seus competidores,viverá numa casa mais confor
tável e, se for jogador de futebol, marcará mais gols do que uma pessoa
que não é convertida ou não é batizada no Espírito”. *
2° - DAVID D U PLESSIS. David du Plessis era natural da África do
Sul, convertido numa igreja pentecostal chamada Missão Fé Apostólica
(fundada por John G. Lake, que teve ligações com a Missão da RuaAzusa,
em Los Angeles). Teve contato com o famoso evangelista Smith
Wi^esworth, que profetizou sobre ele em 1936 sobre a obra mundial que
Deus faria através de sua vida. A seguir, temos um resumo da sua experi
ência relatada pelo próprio du Plessis, extraído do livreto “Perdão”:
Em 1936, como secretário geral da Missão Fé Apostólica na África do
SulJUi responsável por convidar o evangelista Smith Wigglesworth, da Ingla
terra, para vir ao nosso país. Nossos espíritos combinaram imediatamente e
eu 0 acompanhei o máximo possível como seu intérprete. Destaforma,Jica-
mos conhecendo um ao outro intimamerúe. Nojinal da sua estadia elejicou
em minha casa durante uns quinze dias a fim de ministrar naquela região.
Certo dia [corforme minha esposa me contouposteríormente), ek entrou
naco2inhaàsseishorasdannanhâedissesimplesmente:“OndeestáoDauid?”
Eu tinha o costume de leoantar-me às cinco horas e, portanto, nesta hora
euJá estava no meu escritório. Então ela lhe disse: “Irmão Wigglesworth, ele
JáJoipara o escritório. ”
0 Movimento Carismático
69
Eu estava sentado na minha escrívaninha, lendo a correspondência que
acabara de chegar, quando de repente a porta se abriu de uma vez! Sem
nenhumsinaldeoviso, sembaterantes, aportasimplesmentejoiaberta. E
0 irmão Wigglesuxirthentroucomoquemestácom umapressadesesperada
Olhando para mim com uma expressão um tantoferoz, ele disse: “Saia daí!
Venha aqui parafora!”
Levantei-me de detrás da escrivaninha e andei para onde ele estava Ele
colocou a mão sobre meu ombro, empurrou-me para aparede, olhou direta
mente nos meus olhos e disse: “Deus disse que você tem permanecido o
bastante em Jerusalém! Ele vai enviá-lo aos corfins da terra Ele vai operar
através de você e permitir que você presencie o maior mover do Espírito na
história da igreja!” E assim ele continuou profetizando: “Assim diz o Senhor:
Hei de vivificar os cadáveres. Através das igrejas tradicionais virá um aviva
mento que transtornará o mundo inteiro. ”
Bem, eu não acreditava em nada disso. Estas eram as “coisas novas” (Is
48:6). Eu não podia compreender eperguntei a mim mesmo: “0 que aconte
ceu com 0 velho?” (Ele tinha setenta e tcmtos arws nessa época)
“Eu quisera ter vinte anos a menos”, ele me disse, “para que eu pudesse
ver 0 início do seu cumprimento. Mas quando começar, eu não estarei mais
aqui Portanto, não se preocupe. Erjquartío eu estiver vivo, nada vai aconte
cer. Só depois que eu morrer. ”
Em seguida ele curvou a cabeça e orou pedindo ao Senhor para me
abençoar. Depois saiu efechou a porta.
Fldsentar-me.Estavacori/usoeperplexo.Eudisse: “Senhor,sejaqualfor
0 significado de tudo isto, aceito a advertência. Tu não me falaste nada a
respeito de todas estas coisas. Eu nunca pensei que as igrejasfossem recu
perar-se dasuamorte!”
E então ouvi alguém batendo suavemente àporta “Entre!” eu disse. A
porta se abriu e quem entroufoi o irmão Wigglesworth.
“Bomdia irmãoDavid Comovocêestánestamanhã?”
“Muito bem”, respondi, “mas terrivelmente corfuso. ”
Ele perguntow “Por quê?"
“Você não sabe que esteve aqui há poucos minutos? Você nem me cum
primentou, e entregou-me uma mensagem que me abcdou. ”
“Ah, sim”, ele respondeu. “Eu não cumprimentei ninguém hoje de manhã
Você não sabe o que aconteceu ao profeta que cumprimentou as pessoas
peb caminho?”
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Fbi Contada
70
“Ele entrou em problemas sérios”, eu disse.
“E eu não tinha nenhuma intenção de entrar em problema!”
Ele aceitava a Palavra literalmente! Nunca conheci um homem que en-
contrasseaverdadenaPalavradeuma maneira tão literal! (lRsl3; Lc 10:4).
‘Agora”, ele disse, “Já enteguei a mensagem e podemos conversar. Não
cumprimentei sua esposa e não cumprimentei você. Eu tinha de entregar a
mensagem Às quatro horas da manhã tive uma visão. Vi coisas tão extraor
dinárias que eu mesmo tenho dificuldade para crer! Depois Deusfcdou comi
go para levantar-me e contar a visão a você. E você estará vivo quando tudo
isto acontecer!”
E aí ele deu maiores detalhes. Mas isto não ajudou, porque estava tudo
errado. Meu passado, minhaformaçáo, nossa maneira de pregar, de crer,
nossas tradições tudo era diferente! Era o oposto daquilo que ele estava
dizendo.
Eu disse: “Bem, irmão Wigglesworth, eu não sei o que você acha que
devo Jazer Vou lembrar daquilo que você disse, mas não vou agir até que o
Senhorfcde comigo. Não me importa quem é o profeta que trouxe a palavra,
eucreio que o Senhor vaifalar comigo ecor^vmarapalauranomeucoração.”
“Ótimo", ele respondeu. “Lembre-se, porém, de que Deus me disse que a
condição é você permanecer fiel e humilde. Não é difícil lembrar-se disto.
Apenas duas coisas: Fidelidade e humildade. Fidelidade para ouvir e humil
dade quando ele abençoar ”
E então me perguntou: “Vocêfica erijoado quando viaja de navio?"
“Eu nunca vüyei no mar”, respondi
“E de avião?"
“Eu também nunca vicyei de avião. ”
Ele disse: “Então venha aqui!”
Mais um vez empurrou-me contra a parede e orou. E eu dou graças a
Deus por aquela oração! Ele disse: “Senhor, tu me mostraste que estejovem
vai viajar mais que outraspessoas. JVoo é bom adoecer em casa, mas épior
adoecerbngedecasa.Porfavor, riãopemitasqueehjcmaisadoeçaquando
estiver uiqjando a teu serviço. ”
A profecia e visão de Wigglesworth permaneceram sem cumpri
mento por 10 anos, mas pouco antes de sua morte ele disse a David du
Plessis; “Meu irmão David, não recebi mais nada do Senhor sobre o
assunto. Mas tenho certeza absoluta do cumprimento daquilo que ele
revelou na África do Sul, e que você é o homem que será usado,”
0 Movimento Ckwismático
71
Em 1948 du Plessis ficou prostrado num hospital por causa de imi
desastre de seu carro com lun trem, e Deus começou a falar com ele;
“Chegou a hora para se cumprir a profecia dada a você por Smith
Wigglesuxyrth. É hora de começar. Quero que você vá aos líderes do Conselho
Mundial de Igrejas. ”
Respondiemtomde argumento: “Senhor, mas o que posso dizer àquelas
igrejas mortas?"
“Eu ressuscito os mortos!”A resposta veio com unnasiniplicidade chocante.
“Mas, Senhor, elessãonossosinimigos!”Euestavaquasechoramingando.
“Sim, mas eujá lhe disse que deve amar seus inimigos.”
IgnorandoaverdadedasEscriturasemminhaJrustração, continueiargu-
mentando. “Como posso amar pessoas assim? Não concordo nem comsuas
doutrinas nem com suas práticas. ”
“Bem", 0 Senhor respondeu firmemente no meu interior, “você terá de
perdoá-los."
“Meu Senhor” — agora estava choramingando de verdade— “como
posso perdoá-los se não possoJustificá-los?”
“Eu nunca lhe dei autoridade paraJustificar pessoa alguma. Eu lhe dei
autoridade apenas para perdocw. Ese perdoá-los, você vai amá-los. Eseos
amar, você vai querer perdoar. Agora pode escolher. ”
AconversaestavaterminadaMasabaíalhatinhaapenasiniciado. Uma
pequena luz tinha raiado, suficiente para mostrar-me quão pouco eu conhe
cia a respeito do perdão aos olhos do Senhor. Nos dias vindouros eu teria de
bitar com o Senhor, aprender, sofrer as dores internas de uma genuína revo
lução. Um novo rei teria de dominar aquela parte da minha vida
Enquanto eu meditam ali, durante a noite, com as luzes apagadas, vi o
tamanho do meu erro. Eu estava esperando que Jesus me usasse como um
pentecostal para abalar as igrejas. Pensava que poderiaforçar as pessoas a
entenderem a verdade, dizendo-lhes onde estavam erradas e sacudindo-as
emJusta indignação. Mas o Senhor disse que este não é o caminho. “0
avivamento viráse você perdoar. Se você lutar— não acontecerá nada!"
Então a revelação básica que Deus deu a du Plessis foi perdão aos
tradicionais e suas práticas. Seu primeiro contato ecumênico foi em
1951 com John A. Mackay, presidente do Seminário Teológico de
Princeton, que se mostrou muito amável e interessado no Movimento
Pentecostal. Poucos dias depois, pela primeira vez, um pentecostal en
A Igrejado SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
72
trou no escritório central do Conselho Mundial de Igrejas em Nova lorque,
na 5 ̂Avenida, e foi bem recebido. Em 1952 participou do Conselho
Missionário Internacional realizado na Alemanha, onde pôde comparti
lhar sua experiência pentecostal. Foi ali que foi chamado pela primeira
vez “Senhor Pentecoste”.
Em 1954 participou da Segunda Assembléia do Conselho Mundi
al de Igrejas como representante das Igrejas Pentecostais, o que causou
muitas críticas por parte de líderes pentecostais que haviam denuncia
do 0 Conselho Mundial como a principal força da igreja apóstata dos
últimos dias. Em 1956, falando a um grupo de líderes ecumênicos,
entregou uma das suas mais famosas mensagens. Comparando a verda
de do evangelho a um bife, ele declarou que as igrejas tradicionais ti
nham a verdade “congelada” enquanto os pentecostais tinham a mesma
verdade “no fogo”. Explicou que os apóstolos “tinham uma experiência e
nenhuma doutrina”, enquanto a maioria das igrejas modernas “tinham
doutrina sem nenhuma experiência”. Esta mensagem ressoou pelo mun
do, depois desse encontro."
Naquela época vários pastores e ministros tradicionais recebe
ram línguas e outros dons e foram aconselhados por du Plessis a “per
manecer em suas igrejas e florescer onde foram plantados”.
Seis anos antes do advento da renovação carismática católica, du
Plessis fez seu primeiro contato com líderes católicos. Quando de sua
participação no Conselho Mundial de Igrejas em Nova Delhi foi convida
do a visitar o Vaticano para explicar o pentecostalismo a vários teólogos
e historiadores que estavam fazendo um estudo detalhado do movimen
to. No caminho de volta da índia encontrou-se no Vaticano com o Carde
al Bea, chefe da Secretaria para a Promoção da Unidade Cristã, a quem
disse: “Tudo o que quero dizer é isto: Torne a Bíblia disponível a todo
catóUco no mundo em sua própria língua. Se os catóUcos lerem a Bí
blia, 0 Espírito Santo vivrficará o livro, e isto transformará suas vidas.
E com catóhcos transformados haverá renovação da igreja”. Sobre o
batismo no Espírito ele disse: “Não, isto não vem por sucessão apostó
lica — embora traga o sucesso apostólico. Você tem que receber isto do
Senhor Jesns. Ele é o único batizador no Espírito”.
Quando este diálogo foi reportado ao Papa João XXIII, ele allrmcu
serem as palavras de du Plessis “uma revelação de Deus” à qual oscatóli-
OMovimenín Carismático
73
cos “deveriam atentar”. Se o envolvimento de du Plessis com líderes tra
dicionais já causava críticas e rejeição dos líderes pentecostais, a visita ao
Vaticano causou íliror. As Assembléias de Deus americanas, às quais ele
transferira sua ordenação em 1955,revogaram suas credenciais de minis
tro, 0 que significou para ele não ter qualquer elo oficial com qualquer
grupo pentecostal. Mesmo assim prosseguiu com determinação.''
Embora desprezado pelos pentecostais, líderes das igrejas tradi
cionais e católicos romanos continuaram a cercá-lo. Em 1964 foi convi
dado pelo Cardeal Bea para ser o único observador pentecostal do
Vaticano II. Nesta histórica assembléia de cardeais du Plessis ofereceu
perdão aos católicos e viu esperança para renovação. Somente dois anos
depois do término do Vaticano 11, a renovação carismática começou en
tre católicos romanos em Pittsburgh, Pensilvãnia. "
Du Plessis dirigiu a equipe pentecostal nos diálogos entre católi
cos e pentecostais de 1972 a 1982. Ele também participou da Conferên
cia Carismática Católica em Roma, em 1976, quando ouviu o Papa Paulo
VI pronunciar suas bênçãos sobre a renovação carismática.
Du Plessis exerceu um papel profético e tornou-se a figura-chave
para lançar o fogo do movimento carismático nas igrejas tradicionais. Seu
trabalho como presidente da equipe pentecostal nos diálogos entre pente
costais e católicos romanos e como principal preletor em centenas de en
contros carismáticos-pentecostais ao redor do mundo confirmaram-lhe o
título não oficial de “Senhor Pentecoste”. Em 1974 um grupo de repórteres
da revista “Time” nomearam du Plessis como um dos onze “principais
teólogos do século XX”. Também, por seu trabalho no diálogo e outras con
tribuições ao Movimento Carismático Católico, ele recebeu do Papa João
Paulo 11 a medalha de ouro “Benemerente” por excelente “serviço a toda
Cristandade”. É a mais alta honra que um Papa pode conferir, e du Plessis
foi 0 primeiro protestante a recebê-la. Em 1979 seu ministério foi genero
samente reconhecido pelos pentecostais quando as Assembléias de Deus
restauraram totalmente seus papéis de ordenação. ^
Embora seu trabalho às vezes tenha causado controvérsias, du
Plessis é sem dúvida uma das mais importantes figuras pentecostais na
história. Ele faleceu em 2 de fevereiro de 1987, cinco dias antes de
completar 82 anos.
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Fbi Contada
74
3° - DENNIS BENNETT. Dennis Bennett tornou-se vim precursor
do movimento carismático (também chamado Movimento Neo-
Pentecostal) na América. No fmal da década de 50 Padre Bennett era
reitor da elegante e moderna Paróquia Episcopal de São Marcos em
Van Nuys, Califórnia. Graduado na Universidade de Chicago e na Escola
de Divindade de Chicago, era a personificação do clero sofisticado, res
peitável e levemente mundano da sua igreja. Por volta de 1959 São
Marcos crescera ao ponto de incluir 2.600 membros e uma equipe de
quatro ministros, quando ele ouviu sobre o batismo no Espírito através
de um colega clérigo episcopal.
Depois de observar alguns leigos em sua igreja que exibiam um
alto grau de compromisso e espiritualidade, Bennett começou a buscar
respostas sobre suas experiências pentecostais. Depois de uma verda
deira investigação, ele se tornou convencido da realidade do batismo no
Espírito, embora tendesse a ver o falar em línguas como algo quase
desnecessário. Porém, ansiava por uma realidade mais profunda em
sua experiência cristã. A medida que estudou o assunto, ficou surpreso
em ver tantas referências ao Espírito Santo no Novo Testamento, no
“Livro de Oração Comum”, nos escritos dos Pais da igreja primitiva,
nos livros-textos de teologia, nos livros de história da igreja, “e até
mesmo nos hinários”. *
No início de 1959, Bennett finalmente começou a buscar o batis
mo no Espírito com a ajuda de um colega sacerdote episcopal e de um
jovem casal da igreja que já tinha recebido a experiência através de um
outro casal das Assembléias de Deus. Numa reunião de oração no lar
do casal, mãos foram impostas sobre Bennett enquanto seus amigos
oravam por ele.
Eis um trecho de sua experiência extraída de seu livro “Nine
o’clock in the Morning” :
Hauia quatro pessoas presentes: eu, um amigo que era sacerdote episco
pal em nossa diocese, e John e Joan (o casal que já recebera o batismo). Nós
estávamos sentados na sola de estar do casal nossos hospedeiros na escri-
vardnliadebaixodaJcinela,eunuirKicadeirasuper-€Stqfadadooutroladoda
salaeo outroclérigoàminhadireita..EueslavaconscientBdemimmesmo,
e deterrrúnadoanãoperderrrmha dignidade!
0 Movtmenb Carismático
75
“0 que eu faço?” Perguntei a eles novamente.
“Peça a Jesus para batizá-b no Espírito Santo”, disse John. “Nósorare-
nvos com você, e você apenas orará e louvará ao Senhor. ”
Eu disse: ‘Agora lembrem-se, eu quero esta proximidade a Deus que
vocês têm, só isso; eu não estou interessado emfalarem línguas!”
“Bem, disseram eles, tudo o que podemos dizer a você sobre isto éque
vemjunto com o pacote!”
John atravessou a sala e impôs as mãos primeiro em minha cabeça, e
depois na de meu amigo. Ele começou a orar, muito calmamente, e eu reco
nheci.. que ele estavafalandoumalínguaqueeunão entendia, efalando-a
comjluência. Ele não estava nem um pouco agitado sobre isto. Então ele
orou em inglês, pedinck) a Jesus para me batizar no Espírito.
Comecei a orar, como ele me disse, e orei muito calmamente também Eu
não tinhaintençãodejicarnemumpoucoexcitado!Estavasimplesmentese-
guindo instruções. Acho que devo ter orado alto por uns vinte minutos —peb
menos isto pareceu um longo tempo — e estava para desistir quando algo
muito estranho aconteceu. Minha língua topeçou, assim como quando você
está tentando recitar um trocadilho e eu comecei afalar numa nova língua!
Na mesma hora reconheci várias coisas: primeiro, não era alguma espé
cie de truque ou compulsão psicológica Não havia nada de compulsivo nisto.
Eu estavapermitindo estas novas palavras virem aos meus lábios e estava
Jalando-as de minha própria vontade, sem de qualquerforma ser forçado a
fazer isso. Eu não estava “arrebatado”em nenhum sentido do mundo, mas
estava totalmente em possessão de meujuízo eforça de vontade. Eufalei a
nova língua porque era interessante falar uma língua que eu nunca tinha
aprendido, apesar de não saber o que estavafalando... Em segundo lugar,
era uma língua recd, não algum tipo de conversa de nenê. Eh tinhagramática
e sintaxe; tinha irflexão e expressão— e era até bonita!
Em pouco tempo, vários membros da paróquia também recebe
ram a mesma experiência. Em sua alegria e contentamento começaram a
usar expressões típicas pentecostais como “Louvado seja o Senhor” e
“Aleluia” no escritório da igreja e na casa paroquial. A medida que a
notícia se espalhou entre os membros da igreja sobre a nova e estranha
experiência do pastor, alguns membros do conselho paroquial começa
ram a acusá-lo de fanático.^
A fim de acalmar falsos rumores e responder às perguntas que
estavam circulando na congregação, Bennett logo sentiu que era neces
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
76
sário falar à sua igreja sobre sua experiência de falar em outras línguas.
Assim, em 3 de abril de 1960, ele compartilhou seu testemunho nos três
cultos matinais de sua igreja.
A reação na primeira reunião foi “aberta e afável”, de acordo com
Bennett, mas na segunda reunião “a coisa explodiu”. Ultrajado, o pároco
auxiliar arrancou suas vestimentas, atirou-as no altar e saiu pisando
duro e gritando: “Não posso mais trabalhar com este homem”. Então,
depois que a reunião terminou, do lado de fora, aqueles que tinham se
decidido a se livrar do movimento do Espírito Santo começaram a dis
cursar eloqüentemente aos paroquianos que chegavam e partiam. Um
homem ficou em pé numa cadeira gritando: “Fora com esses malditos
faladores de línguas”.̂
Depois que alguns membros reclamaram que “nós somos episco
pais e não um bando de ignorantes fanáticos”, o tesoureiro do conselho
paroquial convidou Bennett a resignar. Em vez de causar mais desar
monia na congregação, o meigo e amável reitor prontamente renunciou à
sua paróquia. Logo depois o bispo enviouum sacerdote temporário
para São Marcos armado de uma carta inflexível para os oficiais da
paróquia proibindo qualquer outra manifestação em línguas.^
0 tumulto na paróquia São Marcos causou uma sensação na im
prensa nacional, à medida que a história foi captada pelas principais
estações de rádio e televisão. A revista “Time” publicou que “agora
glossolalia parece estar de volta nas igrejas dos Estados Unidos — não
somente nas desinibidas seitas pentecostais mas até mesmo entre epis
copais, que têm sido denominados ‘God’s frozen people’ (o povo gelado
de Deus) trocadilho em inglês com ‘God’s chosen people’ (o povo esco
lhido de Deus)” . “Newsv^feek” publicou que para conservadores episco
pais da paróquia de São Marcos “houve perplexidade, ira e até mesmo
uma pitada de inveja” embora alguns sentissem que “tudo isto foi uma
espécie de vergonhoso vodu”. Porém, Bennett e aproximadamente seten
ta de seus paroquianos estavam dispostos a pagar um preço alto por sua
nova experiência pentecostal — o de serem banidos de sua igreja. '*
Bermett foi então convidado a assumir algreJaEpiscopal de São
Lucas, uma pequena paróquia na cidade interiorana de Seattle, Washing
ton. Seu novo e amável bispo ofereceu-se para apoiá-lo, até mesmo em
0 Movimento Carismático
77
suas práticas pentecostais, levando em consideração que de qualquer
maneira a igreja estava prestes a fechar. Livre agora para promover suas
experiências sem qualquer impedimento oficial, Bennett logo converteu
sua igreja num centro do neo-pentecostalismo para o Noroeste dos Es
tados Unidos. Em lugar de fechar, o bispo viu a igreja de São Lucas
crescer para se tornar a maior paróquia da denominação em toda a
área. Em pouco tempo, Bennett estava ministrando para perto de 2.000
pessoas por semana. Por mais de vinte anos, uma média de vinte pesso
as foram batizadas no Espírito toda semana na igreja. ^
0 caso Dennis Bennett foi somente a parte mais visível de um
processo que vinha sendo calmamente desenvolvido por anos. De fato,
por volta de 1960, praticamente toda denominação já tinha muitos “pen
tecostais secretos” que tinham recebido a experiência, mas permanece
ram quietos por medo de desagradar os oficiais da igreja. 0 incidente
em Van Nuys trouxe à luz a situação. Vários meses depois que Bennett
renunciou à paróquia de São Marcos, a “Igreja Viva”, um jornal episco
pal, trouxe 0 seguinte editorial a respeito de glossolalia na igreja:^
“Falar em línguas não é mais um fenômeno de alguma seita esqui
sita do outro lado da rua. Está em nosso meio e está sendo praticado
por clérigos e leigos que têm estatura e boa reputação na igreja. Sua
aplicação em larga escala abalaria nosso senso estético e alguns de nos
sos mais fortemente entrincheirados preconceitos. Mas nós sabemos
que somos membros de uma igreja que definitivamente precisa ser aba
lada — se Deus escolheu esta época para dinamitar o que o Bispo Sterling,
de Montana, chamou de ‘respeitabilidade episcopal’, nós não conhece
mos uma explosão mais assustadoramente eficaz.”
Durante a maior parte dos anos 60, o pentecostalismo começou a
aparecer nos mais inesperados lugares e entre as mais inesperadas pesso
as. Um irrompimento de glossolalia na Universidade de Yale em 1963 foi
profético em relação ao que ocorreria nos campi de faculdades de toda a
nação no fmal da década. Os então chamados “glossayalies” (mistura de
glossolalia comyalies, designação dada aos estudantes da Universidade)
eram muito diferentes dos estereótipos “roladores no chão”. Entre os vin
te estudantes da Universidade de Yale que causaram uma leve sensação no
campus estavam cinco que pertenciam à sociedade de honra, Phi Beta
Algreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
78
Kappa (formada pelos estudantes que obtinham as melhores notas), que
por coincidência eram episcopais, luteranos, presbiterianos e metodistas.
0 preletor que levou esses estudantes a falar em línguas não era nem mes
mo um pregador pentecostal, mas um pastor da Igreja Reformada Holan
desa de Mt. Vernon, Nova lorque, Harald Bredeson.
A revista “Time” pubhcou a seguinte reportagem sobre os pente
costais de Yale: “Eles não caem em nenhum ataque ou transe místico, em
vez disso, observadores relatam que eles parecem totalmente em con
trole, à medida que murmuram ou cantarolam frases que às vezes soam
como hebraico, às vezes como sueco rude.”
Então, 0 tumulto causado em volta da experiência de Dermis Bennett
serviu para propagar ainda mais o Movimento Carismático e romper a
vergonha de todos os tradicionais que já possuíam a experiência. A rea
ção da maioria dos líderes das igrejas em relação ao movimento foi de
prudência e paciência. Foram poucos os que forçaram a nova onda de
pentecostais a sair de suas igrejas como acontecera no início do século.
Um dos motivos de não serem tão perseguidos foi o fato de serem
menos emocionais e mais ordeiros. Mesmo assim alguns se declararam
fortemente contra o movimento. Por outro lado, milhares de pessoas,
tanto clérigos como leigos, sentiram que o avivamento pentecostal era a
melhor esperança para a igreja.'*
Uma década depois da experiência de Bennett estima-se que 10%
dos clérigos e 1.000.000 de leigos das igrejas tradicionais tinham rece
bido 0 batismo no Espírito Santo e permanecido em suas igrejas. De
fato, é quase impossível que tenha havido uma denominação sequer da
Cristandade que não fosse atingida pelo Movimento Carismático, Come
çando com os episcopais o fogo se alastrou entre luteranos,
presbiterianos, batistas, metodistas, menonitas etc. e por fim atingiu a
Igreja Católica.
Muitos dos pentecostais clássicos mais antigos flcaram desnorte
ados com esse desenvolvimento e não puderam entender por que seus
irmãos carismáticos pareciam haver escapado do sofrimento e perse
guição que os pioneiros pentecostais do início sofreram. Porém, houve
um sentimento geral de alegria e gratidão por outros estarem finalmente
gozando a realidade da plenitude do Espírito. ^
0 Movimento Carismátto
79
Capítulo 6
O MOVIMENTO
CARISMÁTICO CATÓLICO
C
Movimento Carismático Católico encaixa-se perfeitamente no prin
cípio de Ralph Mahoney de que um novo mover de Deus está
ligado a algum evento histórico na nação de Israel. 0 derrama
mento do Espírito sobre os católicos aconteceu no mesmo ano da toma
da de Jerusalém — 1967. Foi chamado pelo Cardeal Suenens de “a
surpresa do Espírito Santo”.
Na década de 60 a Igreja Católica estava passando por uma fase
de falência e decadência. Milhares de sacerdotes, monges e freiras aban
donaram suas vocações e retornaram à vida secular. 0 sistema de es
colas paroquiais católicas romanas, que foi o orgulho da igreja ameri
cana, começou a fechar suas portas, atingindo a média de uma escola
fechada por semana. 0 número de seminários alcançou declínio seme
lhante.
VATICANO U
Vários fatores e contribuições foram chaves para preparar o ce
nário para o mover do Espírito Santo na Igreja Católica. Um deles
aconteceu em 1962, quando o Papa João XXIII causou mn reboliço no
mundo religioso ao convocar o primeiro concilio depois de quase um
século, chamado Vaticano II. Nunca houve um concilio mais intimamen
te ligado aos “ventos do Espírito” que estavam soprando na igreja. De
acordo com o Papa João XXIIl, o propósito do concilio era “abrir as
81
janelas para que a igreja pudesse respirar ar fresco”. Dois mil e qui
nhentos bispos de todas as partes do mundo se reuniram em Roma e
falaram abertamente de uma “nova reforma” dentro da igreja — incluin
do até “reformulação de doutrinas”. Nunca tal linguagem fora usada na
igreja desde os dias de Martinho Lutero. ^
0 Papa João também falou profeticamente sobre o concílio, refe
rindo-se a ele como “um novo Pentecoste”, e pedindo a todo católico do
mundo que orasse diariamente durante os três anos de duração das as
sembléias do concílio para que “Deus renove suas maravilhas em nossosdias através de um novo Pentecoste”. Poderia ele imaginar que essa oração
seria cumprida depois de um ano do encerramento do concílio? ̂
Um dos quatro presidentes do concílio foi o Primaz da Bélgica,
Cardeal Suenens, que ficou conhecido como um dos prelados “liberais”
que exigiu mudança e renovação na igreja. 0 único hder pentecostal
clássico presente foi David du Plessis, que compareceu como “observa
dor” oficial. Tanto ele como Suenens estavam destinados a exercer pa
péis importantes na renovação carismática católica. ^
À medida que o Vaticano II avançava, muitos documentos refleti
am uma ênfase ao Espírito Santo e à natureza carismática da igreja.
Liderando o movimento para enfatizar a pessoa e a obra do Espírito
Santo estavam os bispos do Chile. Esta nação havia experimentado um
poderoso movimento pentecostal desde 1909 e isto talvez tenha influenci
ado os prelados chilenos. Ao todo o Espírito Santo foi mencionado 258
vezes nos documentos do concflio.
Quando a velha questão da cessação dos dons veio à tona, o con
cflio pendeu totalmente para o lado da manifestação nos dias de hoje
de todos os dons do Espírito. 0 problema foi levantado depois da pri
meira leitura da Constituição sobre a Igreja, na qual se afirmava que o
Senhor reparte seus dons “particularmente a cada um como quer (1
Co 12:11), e ele distribui dons especiais entre os fiéis de todo nível” .
Ainda declarava que os dons carismáticos foram “largamente difundi
dos” e são “para serem recebidos com ações de graça e consolação,
pois eles são muitíssimo apropriados e úteis para as necessidades da
igreja”. ^
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
82
Durante as discussões depois desta leitura, o Cardeal da Itália,
Ruffini di Palermo, protestou fortemente contra a atuação dos dons do
Espírito hoje dizendo que eram “extremamente raros e quase excepcio
nais”. Muitos dos bispos imediatamente discordaram desta declaração
que representava a visão tradicional da igreja. Em favor desses bispos,
0 Cardeal Suenens deu a clássica réplica que mais tarde se tornou uma
“Carta Magna” para os carismáticos da igreja: ^
“Este documento fala muito pouco sobre os ‘carismas’ dos fiéis;
isto pode causar a impressão de que nós estamos tratando aqui com um
fenômeno meramente periférico e acidental à vida da igreja. Mas é che
gada a hora de expor mais explícita e completamente a importância vital
desses carismas para a formação do Corpo Místico. Devemos a qual
quer custo evitar dar a impressão de que a estrutura hierárquica da
Igreja é um aparato administrativo sem nenhuma ligação íntima com os
dons carismáticos do Espírito Santo que estão difundidos por toda a
igreja. ^
“Para o apóstolo Paulo, a igreja de Cristo não aparece como algu
ma organização administrativa, mas como um conjunto orgânico e vivo
de dons, carismas e serviços. 0 Espírito Santo é dado a todos os cris
tãos, e a cada um em particular; e ele por sua vez dá a cada um e a todos
‘diferentes dons segundo agraça que nos foi dada’ (Rm 12:6).” *
A réplica de Suenens prevaleceu sobre a visão tradicionalista e o
alicerce estava lançado para a aprovação da renovação carismática que
viria apenas três anos mais tarde.
0 Vaticano II terminou em 1965 com um programa revolucionário
que levou anos para ser totalmente implantado nas igrejas catóUcas ao
redor do mundo. A mudança mais impressionante exigiu a realização
da missa nas línguas dos povos em lugar do latim. Exigiu-se também
que os sacerdotes ficassem de frente para a congregação durante a mis
sa. Os hinos deveriam ser cantados pela congregação, ao invés de serem
entoados somente pelos sacerdotes e corais. As Escrituras seriam lidas
tanto pelos leigos como também pelo clero. Os católicos foram encora
jados a orar com outros cristãos, embora a participação mútua da mesa
do Senhor ainda fosse proibida. A informal “missa popular” foi permiti
0 Movimento Carismático Católico
83
da. As freiras tiveram permissão para abandonar seus hábitos tradicio
nais por vestes convencionais. '*
Por causa dessas mudanças, que na verdade pareceram revoluci
onárias demais para os tradicionalistas, a igreja se tornou menos “es
tranha” para os protestantes, especialmente quando católicos começa
ram a cantar o “hino-tema da Reforma”, “Castelo Forte”, de Martinho
Lutero. Pela primeira vez, sacerdotes católicos começaram a participar
de reuniões protestantes e protestantes foram convidados a falar em
reuniões catóUcas. Uma nova era ecumênica começou em 1960 com o
estabelecimento da Secretaria para Unidade Cristã em Roma, que ime
diatamente iniciou diálogos com igrejas protestantes. 0 fato de João
XXIII ter chamado os protestantes de “irmãos separados” abriu cami
nho para imi respeito e apreciação mútuos que tornaram possível o diá
logo ecumênico. *
Geralmente o Espírito move “onde ele quer”, e os teólogos ten
tam explicar os fatos depois. Desta vez, os teólogos expUcaram e aprova
ram a renovação carismática antes de ela acontecer. Esta é uma daque
las raras vezes na história em que os teólogos estiveram à frente dos
profetas. Portanto, antes que o “novo Pentecoste” profetizado por João
XXIII acontecesse na Igreja Católica, foram tomadas medidas no concí-
ho para assegurar que tal Pentecoste fosse aceito quando ocorresse. *
O MOVIMENTO DE CURSILHO
0 Movimento de Cursilho foi outro fator que contribuiu para pre
parar 0 terreno para a Renovação Carismática Católica. Foi iniciado em
1949 na Espanha como uma tentativa de renovar a fé dos católicos atra
vés de um retiro de três dias chamado “cursilho” (mini-curso). Foi rea
lizado pela primeira vez pelo Bispo Juan Hervas, na Espanha, e espa
lhou-se pela América Latina na década de 50, chegando finalmente aos
Estados Unidos através dos hispânicos do Sudeste.^
0 cursilho consiste de cinco “meditações” e cinco lições sobre
doutrina cristã ministradas por sacerdotes e leigos para membros da
igreja que desejam aprofundar sua fé. Sessões de discussões mostram
A Igreja do Século XX~A História que Não Fbi Contada
84
como fazer aplicações práticas das dez preleções. 0 número de partici
pantes é em geral de aproximadamente 40 pessoas, o que contribni para
que as sessões sejam estimuladas com um espírito de jovialidade inclu
indo músicas e esquetes.“*
0 efeito do cursilho foi evangelizar católicos que tinham sido
“sacramentados”, mas que não tinham um entendimento mais profundo
do que significava ser um cristão. Muitos dos primeiros pentecostais
católicos não somente tinham freqüentado cursilhos, mas eram líderes
no movimento.^
UMASURPRESADO ESPÍRITO SANTO
0 Movimento Católico Pentecostal começou em Pittsburgh,
Pensilvãnia, Estados Unidos, na Universidade de Duquesne, tão apro
priadamente dirigida pela fundação “Padres do Espírito Santo”. Em
1966, dois professores leigos de teologia da Universidade de Duquesne,
Ralph Kiefer e Bill Storey, começaram uma busca espiritual que os le
vou a 1er “A Cruz e o Punhal”, de David Wilkerson, e “Eles Falam em
Outras Línguas”, de John Sherrill. Depois de lerem esses livros, os
dois homens começaram a procurar alguém na região de Pittsburgh
que tivesse recebido o batismo no Espírito Santo com acompanhamen
to de línguas. Com o tempo e com a ajuda de um sacerdote episcopal
num grupo de oração hderado por presbiterianos, Kiefer e Storey fo
ram batizados no Espírito e falaram em línguas que nunca tinham apren
dido.^
Esses dois professores cheios do Espírito planejaram então um
retiro de fim de semana para vários amigos, a flm de buscarem um
derramamento do Espírito Santo na Igreja Católica. Cerca de vinte
professores, estudantes formados e suas esposas reuniram-se durante
0 fim de semana de 17 a 19 de fevereiro de 1967, em Pittsburgh, para a
primeira reunião de oração pentecostal católica na história. Os parti
cipantes foram solicitados a 1er os primeiros quatro capítulos de Atos e
0 hvro “ACruz e o Punhal” . As reuniões se realizaram numa grande casa
de retiro conhecida como “A Arca e a Pomba”. Com o passar do tempo,
este encontro foi apelidado de “o fim de semana de Duquesne”.'*
0 Movimento Carismático Católico
85
0 Espírito Santo pairou sobre “A Arca e a Pomba” durante aquele
fim de semana fantástico. Depois de um estudo intensivo do livro de
Atos e de um dia devotado à oração e estudo, muitos dos participantes
estavam ansiosos para buscar o batismo no Espírito Santo. Mas uma
festa de aniversário de lun dos padres estava programada para o sábado
à noite. À medida que a festa começou, um senso de convicção e expec
tativa permeou o ambiente. Logo, um estudante após outro escapuliu da
festa e subiu as escadas da capela para orar.^
Coisas estranhas começaram a acontecer àqueles jovens, à medi
da que começaram a buscar do Senhor a plenitude pentecostal. Um
estudante chamado David Mangan entrou na sala e foi de repente lança
do por terra pelo Espírito. Ele relatou a seguinte experiência: ^
“Gritei 0 mais forte que já gritara em minha vida, mas não derra
mei uma lágrima. De repente, Jesus Cristo era tão real e tão presente
que eu podia senti-lo ao redor. Fui dominado por tal sentimento de
amor que não posso descrevê-lo.” ^
Mais tarde todo o grupo abandonou a festa lá embaixo e reuniu-se
na capela para a primeira reunião de oração pentecostal totalmente cató
lica. Patrícia Gallagher descreveu a reunião neste novo “cenáculo”: ̂
“Naquela noite o Senhor levou todo o grupo para a capela. Ora
ções emanavam de mim para que outros viessem a conhecê-lo também.
Minha antiga timidez para orar em voz alta foi-se completamente, à me
dida que 0 Espírito Santo falava através de mim. Os professores então
impuseram as mãos sobre alguns dos estudantes, mas a maioria de nós
recebeu o “Batismo no Espírito” enquanto estávamos ajoelhados diante
do bendito sacramento em oração. Alguns de nós começaram a falar em
línguas, outros receberam dons de discernimento, profecia e sabedo
ria. Mas o dom mais importante foi o fruto do amor que uniu toda a
comunidade. No Espírito do Senhor nós achamos uma unidade pela
qual tentáramos há muito tempo alcançar por nossa força.” ̂
À medida que esses buscadores católicos oraram até alcançar o
Pentecoste, muitas coisas semelhantes aos pentecostais clássicos come
çaram a ocorrer Alguns riam incontrolavelmente “no Espírito”, enquan
to um jovem rolava pelo chão em êxtase. Gritar louvores ao Senhor,
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Fbi Contada
86
chorar e falar em línguas caracterizaram este início do movimento na
Igreja Católica. Não é à-toa que foram chamados de “Católicos Pente
costais” pelo público e imprensa quando as notícias sobre os estranhos
eventos em Pittsburgh se espalharam. ^
0 fogo que foi aceso na Universidade de Duquesne logo se alastrou
pela Universidade de Notre Dame em South Bend, Indiana. Este rompi
mento veio depois da carta de Ralph Kiefer, que incitou o interesse de
vários líderes entre os estudantes e professores que também estavam inte
ressados na renovação espiritual da igreja. Depois de alguma investigação
e cepticismo inicial, mais ou menos nove estudantes se reuniram no apar
tamento de Bert Ghezzi e foram batizados no Espírito Santo. ^
Porém, eles não manifestaram nenhum dom espiritual evidente.
Para solicitar ajuda, contataram Ray Bullard, um membro das Assem
bléias de Deus e presidente da Associação de Homens de Negócios do
Evangelho Pleno em South Bend. Ghezzi descreve como este grupo de
intelectuais católicos recebeu o dom de línguas: *
“Fomos à casa de Ray na semana seguinte e nos reunimos em
seu porão com onze ministros pentecostais de toda Indiana, acompa
nhados de suas esposas. Eles passaram a noite tentando persuadir-nos
de que se tivéssemos sido batizados no Espírito teríamos falado em
línguas. Nós os deixamos cientes de que estávamos abertos para falar
em línguas, mas ficamos firmes em nossa convicção de que já fôramos
batizados no Espírito porque podíamos ver isto em nossas vidas. 0
problema ficou resolvido porque nós estávamos querendo falar em lín
guas desde que isto não fosse visto como uma necessidade teológica
para ser batizado no Espírito. A certa altura, dissemos que estávamos
dispostos a fazer uma experiência, e um homem exphcou-nos as impli
cações disto. Bem tarde naquela noite, passando da meia-noite, lá em
baixo naquele porão, os irmãos nos alinharam em um lado do cômo
do e os ministros se colocaram do outro lado. Então começaram a
orar em línguas e a caminhar em nossa direção com as mãos estendi
das. Antes de eles nos alcançarem, muitos de nós começaram a falar e
cantar em línguas.”
0 Movimento Carismático Católico
87
Depois de ficarem um tempo orando em línguas, Ghezzi diz que
os amigos pentecostais perguntaram a eles quando deixariam a Igreja
Católica e se juntariam a uma igreja pentecostal.
“Realmente a pergunta nos deixou um pouco chocados. Nossa res
posta foi que não deixaríamos a Igreja Católica, pois o fato de sermos
batizados no Espírito estava totalmente compatível com nossa crença na
Igreja Católica. Asseguramos aos nossos amigos que tínhamos um gran
de respeito por eles e que teríamos comunhão com eles, mas que perma
neceríamos naigreja Católica. *
“Penso que é significativo o fato de que aqueles entre nós que
foram batizados no Espírito Santo naquela época nunca pensaram em
abandonar a Igreja Católica Romana. *
“Nossos amigos pentecostais tinham visto católicos se juntarem a
igrejas pentecostais quando foram batizados no Espírito. Mas porque
não fizemos isto, a renovação carismática católica se tornou possível.”“*
Os eventos de Duquesne foram agora repetidos em Notre Dame
— a capital intelectual do catolicismo americano. Os jornais dos campi
logo começaram a publicar as inacreditáveis notícias do que estava acon
tecendo ali. Apesar de serem considerados por alguns como “fanáticos”
e “extremistas”, os novos pentecostais de Notre Dame incluíam vários
respeitáveis professores de teologia e destacados estudantes que se tor
naram líderes nacionais do movimento. A maioria deles estava na faixa
dos vinte anos. Sob sua hábil e inspirada orientação, o pentecostalismo
alastrou-se como fogo entre catóhcos nos Estados Unidos e posterior
mente ao redor do mundo.
0 crescimento inicial do movimento foi espantoso. Novos gru
pos de oração se espalharam diariamente por toda a nação. Uma rede
de comunicações revelou uma enorme aceitação do movimento, tanto
entre clérigos como entre leigos. Em pouco tempo, o movimento
pentecostal católico foi reconhecido como o movimento de maior cres
cimento na igreja. Este crescimento foi dramatizado através das con
ferências internacionais realizadas anualmente em South Bend depois
de 1967. A assistência às conferências tendeu a tripUcar a cada ano
por vários anos. ^
A Igreja do Século XX-AHistória que Não Fbi Contada
Por volta de 1974, o movimento abandonou o termo “pentecostal”
por outro mais neutro, “carismático”, para não ser confundido com os
pentecostais mais antigos. Durante aquele ano, calcula-se que o núme
ro de grupos de oração na América tenha sido de 1.800 e no mundo
todo de 2.400. 0 número de participantes ao redor do mundo foi
estimado em 350.000. Entre esses calcula-se que 2.000 sacerdotes se
juntaram ao movimento. Duas chaves para o rápido desenvolvimento
do pentecostalismo na Igreja Católica foram a cuidadosa atenção teo
lógica devotada a ele desde o início e a positiva mas cautelosa atitude
dos bispos. Em seu “Relatório do Comitê sobre a Doutrina”, em 1969,
os bispos concluíram que “teologicamente o movimento tem razões
legítimas para existir. Tem uma forte base bíblica”. Também observa
ções indicaram que os participantes “experimentaram progresso em
sua vida espiritual”, foram “atraídos para 1er em as Escrituras”, e de
senvolveram “um entendimento mais profundo de suafé”. No fim do
relatório, os bispos declararam: “É a conclusão do Comitê sobre a
Doutrina que o movimento não deve neste ponto ser inibido, mas per
mitido a desenvolver-se”.
E como se desenvolveu! Por volta de 1975, a “chuva serôdiá’
alcançara a própria Roma. Numa conferência internacional realizada
numa tenda sobre as antigas catacumbas, mais de 10.000 carismáticos
católicos se reuniram para expressar seu testemunho no próprio domí
nio do papado. Na festa de Pentecoste, em 1975, esses fiéis cheios do
Espírito fizeram parte de uma multidão de 25.000 pessoas que lotaram
a Catedral de São Pedro para ouvir o Papa Paulo VI. Perto do final do
culto, os pentecostais começaram a “cantar no Espírito”. No fim, o orga
nista e 0 coral se uniram no cântico improvisado do “Octeto Aleluia”, a
antífona internacional do movimento. '*
Na segunda-feira do Pentecoste, a primeira missa especificamente
carismática foi celebrada na Catedral de São Pedro pelo Cardeal Suenens.
Jovens líderes carismáticos americanos de Ann Arbor, Michigan, entre
garam profecias do alto do altar da basílica. Cânticos jubilosos e ungi
dos encheram a igreja. Em sua mensagem para os carismáticos no fim
da missa, o Papa Paulo disse profeticamente: ^
0 Movimento Carismático CatóUco
89
“Como entáo poderia esta ‘renovação espiritual’ não ser uma opor
tunidade para a igreja e para o mundo? E como, neste caso, poderia
alguém não usar todos os meios para assegurar que isto permaneça
assim?... Isto deve rejuvenescer o mundo, devolver a ele uma espiritua
lidade, uma alma, um pensamento religioso. Isto deve reabrir seus lábi
os selados para orar e abrir suas bocas para cantar, jubilar, entoar hi
nos e testemunhar. Será muito vantajoso para nossos tempos, para nos
sos irmãos, que haja uma geração, asua geração de jovens, que procla
me ao mundo a grandeza do Deus do Pentecoste...” *
As águas da chuva serôdia estavam verdadeiramente caindo em
Roma!
A CON FERÊN CIA DE 1<AN S AS CITY DE 1977
Na metade dos anos 70 as três correntes do Movimento Caris
mático (os pentecostais clássicos, os protestantes neo-pentecostais e
os catóhcos carismáticos) voltaram suas atenções para planejar um
maciço encontro público para imprimir a mensagem deles na alma
da igreja e na mente da nação. Resultante de uma visão compartilha
da por vários líderes pentecostais e carismáticos em 1975, um apelo
foi publicado em 1976 para uma “conferência geral” que reuniria
todos os carismáticos e pentecostais em Kansas City, Missouri, em
1977, para uma conferência ecumênica internacional com todos os
setores da renovação pela primeira vez. 0 propósito da conferência
era demonstrar a unidade do movimento e dar um “testemunho co
mum” para a igreja e 0 mundo do tema da conferência: “Jesus é
Senhor” . ^
A conferência carismática de Kansas City serviu como 0 ponto
culminante da história do povo da chuva serôdia. Pela primeira (e única)
vez, todos os grupos importantes de todo 0 movimento se reuniram ao
mesmo tempo e no mesmo lugar. Nas manhãs, diferentes grupos deno
minacionais se reuniram em arenas e auditórios separados na cidade.
Foram incluídas sessões matinais para católicos, luteranos, presbiteria
nos, episcopais, metodistas e judeus messiânicos. À tarde, “workshops”
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
90
(seminários) foram oferecidos por todos os grupos e abertos a todos. À
noite, todos se reuniram no Estádio Arrowhead para reuniões ecumênicas
de adoração e louvor. 0 presidente Kevln Ranaghan declarou que a con
ferência foi provavelmente o maior encontro ecumênico de cristãos em
800 anos. ^
A palavra mais poderosa saiu através de um chamado profético
para unidade que levou a enorme assembléia a ajoelhar-se com lágrimas
de arrependimento:
Apresentem-se diante de mim, com corações quebrantados e espíriios
contritos. Poiso corpo de meu Filho está quebrado.
Apresentem-se diante de mim, com lágrimas e lamentações. Pois o corpo
de meu Filho está quebrado.
A luz está amortecida, meu povo está disperso. 0 corpo de meu Filho
estáquebrado.
Eu dei tudo o que tinha no corpo e sangue de meu Filho. Ele derramou-
se na terra. 0 corpo de meu Filho está quebrado.
Abandonemos pecados de seus pais,
EandemnoscaminhosdemeuFilho,
Retomem para o plano de seu Pai
Retomempara o propósito de seu Deus.
0 corpo de meu Filho está quebrado.
0 Senhor diz para vocês: pemvmeçam em unidade um com o outro,
Enão deixem nadasepará-los.
E, demodonenhumseseparemumdooutro.
Por causa de suas desconfianças e amarguras,
Edesuas preferênciaspessoais.
Mas segurem-se um ao outro.
Porque estou para deixar vocês passarem por
Um tempo de prova e teste severos,
E vocês terão de estar em unidade um com o outro.
Mas eu digo também isto: Eu sou Jesus, o Rei Vitorioso.
Eeu tenho prometido a vocês vitória.
0 Movimento Carismático Católico
91
Representativo da unidade exigida nesta profecia foi a presença
de líderes das mais divergentes tradições cristãs que compartilharam a
mesma plataforma em Kansas City. Numa memorável reunião, o Cardeal
Suenens (católico romano), Thomas Zimmerman (Assembléias de Deus),
J. 0. Patterson [Igreja de Deus em Cristo) e Arcebispo Bill Burnett
(anglicano) permaneceram juntos diante da vasta multidão numa de
monstração nunca vista de unidade. *
0 momento mais inesquecível da conferência aconteceu quando
Bob Mumford chegou ao clímax da sua mensagem numa das sessões da
noite no Estádio. Erguendo sua Bíblia no ar, Mumford exclamou: “Se
você der uma olhadinha no final do livro,verá que Jesus vence!” Uma
multidão de cerca de 50.000 pessoas bradaram sua aprovação com 15
minutos de louvor e aplausos extáticos. ^
Kansas City, em 1977, representou o clímax do movimento caris
mático na América. Foi o maior e mais visível sinal de unidade em toda
a história do povo carismático. Depois de Kansas City os vários grupos
carismáticos denominacionais retornaram para suas conferências anu
ais separadas.
CONCLUSÕES FINAIS
SOBREO MOVIMENTO CARISMÁTICO
Apesar de notarmos até hoje (anos 90) por todos os lados os
efeitos do Movimento Carismático e de haver de vez em quando um
novo irromper do batismo no Espírito em diversos lugares, é inegável
que 0 movimento já passou do seu auge e em muitos aspectos apresenta
sinais de declínio. Isto não quer dizer que o Espírito Santo esteja atuan
do menos no mundo. Pelo contrário, apesar do Movimento Carismático
demonstrar suas fraquezas e limitações, os milhões de pessoas renova
das pelo Espírito representam uma forte promessa e potencial para a
“coisa nova” que o Espírito deseja fazer nestes últimos dias.
Não podemos menosprezar a grande importância do Movimento
Carismático, pois tem sido, como dissemos no início do capítulo 5, a
mais extensa e difundida manifestação do Espírito na história da igreja.
Por outro lado, não podemos parar no Movimento Carismático, pois ele
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFoi Contada
92
tem trazido mais perguntas do que respostas. 0 despertamento e vida
que ele trouxe às pessoas estão causando uma grande inquietação por
todo lado, 0 que mostra que precisamos de algo mais. “Vinho novo” é
bom, mas precisamos de “odres novos” também.
A presença de vinho novo somada à ausência de odres novos têm
produzido vários efeitos que queremos mencionar rapidamente:
1 .0 Movimento Carismático Protestante. A falta de uma base na
palavra e de uma estrutura bíbhca têm causado uma proliferação de
heresias e escândalos em tempos recentes. As revistas, programas de
televisão, conferências e igrejas dos carismáticos estão muitas vezes
cheias de mundanismo, autopromoção, culto à personalidade, pensa
mento positivo, comercialização do evangelho (a tal ponto que, em com
paração, a prática da Igreja Católica de vender indulgências no tempo
de Lutero é fraca!), imoralidade sexual, ênfase exagerada no bem-estar
pessoal (às custas da pregação da cruz e da renúncia), busca por sucesso no mundo e envolvimento com política. Deus tem derramado o Espí
rito sobre toda carne sem exigir santidade como pré-requisito, mas, se
0 Espírito não nos levar à santidade e a uma vida de acordo com a
Palavra, certamente o Espírito Santo será retirado como aconteceu com
0 rei Saul e espíritos maus tomarão o seu lugar.
2. 0 Movimento Carismático Católico. Uma característica bem
pecuUar da Igreja Católica é sua flexibilidade para assimilar novas
tendências sem dividir Isto aconteceu com o Movimento Carismático
Católico que alcançou seu ápice na década de 70. Mas, com o tempo, a
hierarquia católica começou a dar algumas diretrizes ao movimento para
que se tornasse mais catóhco. Entre essas diretrizes estava uma ênfase
maior na participação da missa e eucaristia e na veneração a Maria.
Apesar de não repudiarem exphcitamente essas coisas, os católicos
carismáticos tendiam a centralizar a pessoa de Jesus em detrimento ao
culto a Maria e aos santos. Quando começaram a ser pressionados so
bre isto, muitos que já tinham contato com grupos pentecostais ou pro
testantes carismáticos deixaram a Igreja Católica e se vincularam a
esses grupos. A maioria, porém, aceitou docilmente as posições defen
didas pelo papa e pela hierarquia, e assim o movimento esfriou e tor-
0 Movimento Carismático Católico
93
nou-se mais um departamento dentro da Igreja Católica. Devido à ma
neira liberal e tolerante que a Igreja Católica exerce seu governo, exis
tem “comunidades” e “redes de grupos de oração” que, apesar de não
deixarem a 7gre/a Católica, são praticamente “igrejas dentro da igreja”
que possuem sua própria identidade, posições doutrinárias e práticas,
e algumas não aceitam o papa ou o culto a Maria.
3. Tentativas de Restauração e Reforma. Não entraremos em
detalhes sobre isto agora, pois será tratado em outros capítulos. Basta
ressaltar que a grande necessidade de odres novos para conter o vinho
novo produziu várias ênfases e movimentos que tentaram providenciar
uma solução, dentre os quais o mais importante foi o Movimento de
Discipulado que trataremos nos capítulos 8 e 9. Apesar de ninguém ter
ainda descoberto a solução correta, as tentativas foram importantes para
nos ensinar hções relevantes e necessárias, à medida que esta busca
continua.
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
94
Capíiuio 7
O PODERDO ESPIRITO SANTO
entre OSjOVENS
DAVID W1LKER50N
0 ministério de David Wilkerson foi um presságio do avivamento que ocorreria na cultura jovem drogada. Tlido começou em 1958, quando era um jovem pastor de uma tranqüila paróquia das Assembléias de Deus na pequena cidade de Philipsburg, Pensilvânia.
Numa noite de fevereiro daquele ano, bem tarde, ele desligou seu
aparelho de televisão e sentou-se no seu escritório. Uma indagação veio
à sua mente: “Quanto tempo eu gasto em frente daquela tela toda noite?
No mínimo, duas horas. Senhor, que aconteceria se eu vendesse aquele
aparelho de TV e gastasse esse tempo— orando?”
Muitas objeções vieram à sua mente contra essa idéia mas mes
mo assim ele orou ao Senhor e pediu um sinal sobre isto: “Vou colocar
um anúncio para vender esse aparelho no jornal. Se tu estás por trás
desta idéia, faça um comprador aparecer Imediatamente. Que ele apare
ça dentro de uma hora... dentro de mela hora... depois do jornal sair às
ruas.” Vinte e nove minutos se passaram depois que o jornal com o
anúncio chegou às suas mãos. Ele e sua esposa já estavam quase conven
cidos de que a idéia não era de Deus quando o telefone tocou. Era um
comprador que fechou o negócio pelo telefone sem nem sequer querer
ver 0 aparelho e se dispôs a pegá-lo dentro de 15 minutos.
Desde este dia a vida de David Wilkerson não foi mais a
mesma. Toda noite ia para seu escritório, fechava a porta e começava
95
a orar. Durante uma dessas noites, mesmo tendo tido um longo perí
odo de oração com a presença de Deus, sentiu-se desconfortável e
uma inexplicável sensação de tristeza. Sabia que Deus queria falar
com ele mas não sabia como. Enquanto caminhava pelo escritório,
deparou com uma revista “Life” em cima de sua escrivaninha e sen
tiu-se impulsionado a lê-la. Um artigo sobre o julgamento de sete
jovens, membros de uma quadrilha em Nova Iorque e acusados de
um bárbaro assassinato, chamou sua atenção. Junto com o artigo
havia um desenho dos garotos e o olhar de espanto, ódio e desespe
ro de uma das feições fez com que começasse a chorar. Um pensa
mento forte e insistente veio em sua mente: “Vá para Nova Iorque e
ajude esses garotos”.
Na noite seguinte, na reunião de oração ele compartilhou com sua
congregação sobre o artigo e a idéia de ir para Nova Iorque, onde nunca
estivera antes, e esta levantou uma oferta suficiente para uma viagem de
carro de ida e volta. Chegando à grande cidade, um tanto confuso e
atrapalhado, ele tentou visitar os meninos na prisão, mas todos os seus
esforços para conseguir autorização do juiz encarregado do caso foram
inúteis. Informado de que uma sessão do julgamento seria realizada no
próximo dia, compareceu à corte numa tentativa de falar com o juiz
sobre sua missão. Sua ousadia ao se aproximar do juiz no fim da
sessão, quebrando as regras da corte, causou um tumulto que, aprovei
tado pelos jornalistas presentes, fez com que sua foto erguendo a Bíblia
ao alto fosse estampada nos jornais do dia seguinte.
Apesar de abalado e humilhado com este episódio, ele creu que
todas as coisas cooperam para o bem e viu que o propósito de Deus era
muito além do que simplesmente ajudar aqueles meninos. A foto nos
jornais tornou-o famUiar e bem aceito junto aos jovens dos guetos de
Nova Iorque e levou-o a penetrar no submundo das drogas da cidade e
a explorar um campo missionário abandonado. Um ano mais tarde ele
fundou 0 primeiro centro de recuperação de drogas em Brooklyn, Nova
Iorque, chamado “Desafio Jovem”. Este foi considerado um dos mais
bem-sucedidos programas de reabilitação de drogas no país, de acordo
com um estudo do governo federal em 1975. David Wilkerson declarou
que sua “cura de trinta segundos” para viciados em drogas, o batismo
A Igreja do Século XX -A História que Não Fbi Contada
96
no Espírito Santo, superou de longe as estatísticas de cura dos progra
mas federais para viciados em drogas pesadas.
0 programa do “Desafio Jovem” tornou-se modelo para progra
mas similares que surgiram por todo o mundo. Tam-bém no Brasil o
trabalho de recuperação de jovens viciados foi muito difundido na dé
cada de 70. Cêntimos de recuperação foram fundados em muitas cidades
e alguns deles, como em Belo Horizonte, Goiânia e Brasília, tornaram-
se na época centros de encontros e avivamentos. Muitos dos ex-viciados
se tornaram pastores e líderes de igrejas e movimentos de recuperação.
0 livro “A Cruz e o Punhal”, best-seller mundial, e o filme com o
mesmo nome tornaram o trabalho mundialmente conhecido. Milhões
leram e ouviram a miraculosa história de viciados, prostitutas e bandi
dos sendo salvos e recebendo o Espírito Santo. Os dois últimos capítu
los do livro, relatando o batismo no Espírito entre viciados e delin
qüentes, despertaram o interesse de muitos dentro do Movimento Ca
rismático. A revista “Time” declarou: “Em todo lugar onde a renovação
carismática acontece, inevitavelmente aqueles que estão envolvidos le
ram A Cruz e o Punhal’ ou ‘Eles Falam em Outras Línguas’ (John Sherill).”
Outro aspecto importante do ministério de David Wilkerson é
seu lado profético. Ele tem se mostrado decepcionado e desiludido
com a “Babilônia Cristã”. Durante os anos ele tem se colocado fortemen
te contra a douti-ina evangélica de luxo e prosperidade para todos os
crentes, defendida principalmente pelos televangelistas. Para ele isto é
totalmente errado e um terrível engano.
Temos aqui algumas declarações suas extraídas de uma revista
“Charisma” de 1973:
“...os dias de grande sucesso da religião estão contados, o sistema
babilônicoque caracteriza muito o evangelismo moderno estáempengo.
ElemisiuraosistemadomundocomCristianismo.Pararrvm, istoéummau
cheiro às narinas de Deus. Lembra o VeJho Testamento quandofogo estra
nho era oferecido no altar e homens coíam mortos. Há muito fogo estranho
sendo oferecido no altar hoje. É uma sorte que alguns não estejam caindo
mortos. Digo isto não comamargura, mas creio que Deus vai acabor com isto
— com todo programa de televisão que náo está usando métodos divinos,
que está uscwdo celebridades meio conuerüdas... Como disse o profeta, eles
0 Poder do Espírito Santo Entre os Jovens
97
curam aferida dajilha de meu povo levianamente. É uma cura leviana. Não
há nada de profurvdidade. Você dá uma olhada nas condições da yreja hoje
divórcio, comodismo, imoralidade, leviandade,falta de oração, supeificiali-
dade evocêquertrovejarcomo Jeremias... ComoumhomemdeDeuspode
pregar que, se temos fé, podemos ser mais e mais ricos e livres de dores e
sofrimento, no meio de um mundofaminto e sofredor?... A mensagem de
prosperidade tranqüiliza nossas consciências e nossos espíritos avarentos.
Dá-nos uma desculpa para viver num alto nível É para esta igreja que Cristo
voltará? Com uma teologia de Cadillac?”
Como profeta, David Wilkerson anunciou julgamento para a Amé
rica por enfatizar um evangelho de sucesso e prosperidade sem sensibi
lizar-se com a miséria do mundo. Como aconteceu com os profetas do
Velho Testamento, isto não o tornou bem aceito e compreendido por
muitos no meio cristão.
Outro ensinamento que ele condena é o que chama de “o culto de
crescimento da igreja”. Sobre isto ele disse: “Não acho que Deus seja
contra a grandeza se é um crescimento natural da sua palavra. Mas acho
que Deus não está tão interessado em contar números como alguns pre
gadores estão. Nós estamos empilhando pessoas em nossos bancos, mas
não estamos preenchendo suas necessidades. 0 problema com grande
za é que uma obra começa com unção, entra na carne e Deus a abandona.
Mas ela prossegue em seu próprio embalo.”
Como profeta, David Wilkerson tem tido algumas profecias con
troversas como as do seu livro “A Visão”. 0 livro relata uma visão que
diz ter recebido de Deus em 1973. São cinco calamidades trágicas que
estavam para vir sobre a terra. Algumas profecias se mostraram váli
das, como as que previram o aumento da imoralidade, da pornografia e
do ocultismo incentivados pelos meios de comunicação, principalmente
a televisão com sua influência perniciosa nos lares. A estas coisas ele
chamou de “dilúvio de imundícia”. Mas outras, como as que enfatizaram
0 domínio do comunismo e até uma possível destruição dos Estados
Unidos pela Rússia, não tiveram confirmação.
De qualquer forma, a história de David Wilkerson é a história
singular de um homem que, ao se desfazer do seu aparelho de televisão
para se dedicar a oração e ouvir de Deus, tornou-se um instrumento
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFbiContada
98
para levar libertação a milhares de vidas envolvidas no submundo das
drogas. Seu ministério de introduzir o batismo no Espírito como o
meio desta libertação e também sua maneira de se posicionar contra a
corrupção e o mundanismo do Cristianismo o tornaram um homem
importante na história da igreja do século XX.
O MOVIMENTO DE)E5US
Este foi um movimento iniciado no final dos anos 60 que envol
veu milhares de jovens provenientes da cultura hippie drogada, como
também jovens de denominações. Agitando cartazes e bandeiras colori
das, usando camisetas, “buttons” e adesivos (nos quais se viam dizeres
como esses, “Você tem muito para viver — Jesus tem muito para dar”,
“Sorria, Jesus te ama”), com o braço estendido e o dedo indicador
apontado para o céu (símbolo do movimento indicando que só havia um
caminho — Jesus), esses jovens invadiram as ruas da Califórnia cantan
do e testemunhando sobre Jesus. Abraçando o mais duradouro símbo
lo de pureza, abnegação e amor fraternal da história do homem ociden
tal, eles foram incendiados por uma paixão pentecostal para comparti
lhar sua nova visão com outros, formando assim um grande exército
para uma grande revolução — a revolução de Jesus.
0 movimento tornou-se realmente conhecido quando a mídia co
meçou a publicar artigos e fotos sobre centenas de jovens sendo batizados
nas praias do Pacífico, sobre dezenas de Cafés Cristãos que foram aber
tos para ministrar aos jovens da rua, e sobre as “Christian Houses”
(comunidades rurais ou urbanas) que se multiplicaram como pães e
peixes para abrigar os jovens que fugiam do mundo institucional da
igreja tradicional. Um artigo da revista “Time” de 2 1 de junho de 1971,
que trouxe na capa uma figura de Jesus e o título “A Revolução de Je
sus”, captou muito bem o espírito do movimento ao dizer:
HáumJrescorrnatiminestemoviTrierilo, immcÉrno^eraJiiíiianíedeespe-
rança e antor unido avmtpíco zelo rebelde. Alguns convertidos gostam de tra-
dmirsuanovafépciTaavídadiária, comoaquelesqueatendemotelefonecorrL
‘Jesus ama você” em vezds“alô”. Masseuamorparecemaissinceroqueum
slogan, maisprq/imdoqueossentirneníosdeurriaondapassageira.. oquesur-
preende quem está de fora é o extraordinário senso de aleg ria que eles são
0 Poder do Espírito Santo Entre os Jovens
99
capazes de comunicar... Parte destajasdnação por Jesus entre osjovens pode
sersimpksnmile um culto tardio da personalidade de um companheiro rebel
de, 0 primeiro mártir da causa de paz e fraternidade. Não é assim, porém, com
agrandemaioriadomovimentode Jesus. Seháumacaracterísticaqueclara-
mente os identifica é sua aença total num Jesus Cristo terrível e sobrenatural
nãoapenasumhomemmaravühosoqueviveuhá2.000anos,masumDeusvivo
queétaníoSaluadorcomoJuiz.Suasvidasgtramemtomodanecessidadede
um intenso relacionamento pessoal com este Jesus, e a crença de que tal
reladonamentodeveseracondiçãodetodavidahumanaAgemcomoseain-
tervenção divina guiasse cada momento de suas vidas e com a certeza de que
pode resolver cada problenm...A revolução de Jesus rejeitanão somente os
vcüoresmateriaisdaArriéricaconvencionalmastambémasabedoriadoml-
naniedaíjeologiaamericana... OCrístianismotemenfatizado—pebmenoso
tipopregadonospúlpitosesemináriosdeprestígíonasúltimasdécadas —um
Deus presente na natureza e no movimento social, não o Deus pessoal e
transcendentaldonovomovimento, quevemparaaterranapessoade Jesus,
navidade indivíduos, mibgrosamente.Arevoluçãode Jesus, emresumo, nega
asvirtudesdaCidadeSecukweamontoadesprezosobreamensagemdeque
Deus sempre esteve morto.
A Revolução de Jesus foi um movimento à parte da religião orga
nizada, formado por duas fortes correntes espirituais que, apesar de
diferirem em usos, costumes e teologia, reforçaram de modo efetivo
uma a outra:
1. “Jesus People” (Povo de Jesus). Também conhecido como “cris
tãos de rua” ou “Jesus Freaks” (Excêntricos de Jesus). Foram os mais
destacados. Muitos traçam seu começo no verão de 1967, em Haight-
Ashbury, São Francisco, quando centenas de jovens abandonaram as
drogas, sexo livre, ocultismo e misticismo oriental para seguir a Jesus.
Porém, acontecimentos semelhantes ocorreram simultaneamente em
outras áreas da Costa Oeste dos Estados Unidos. Entre os muitos rela
tos de avivamentos ocorridos entre osjovens desta corrente, temos a
história singular de um dos primeiros líderes do movimento. Chuck
Smith, pastor de uma pequenina igreja Quadranguíar, Calvary Chapei
(antes do avivamento ela tinha apenas 25 membros), em Costa Mesa,
Califórnia. De acordo com Chuck Smith, tudo começou quando ele en
controu um hippie cristão “transbordando com o amor de Deus”. Em
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
100
1969, através de um programa de evangelização nas ruas, doze hippies
foram convertidos e aceitos na igreja, para horror dos membros mais
velhos que não conseguiam entender o que estava acontecendo. Em dois
frenéticos anos, Smith foi inundado com milhares de convertidos vin
dos da culturahippie drogada que lotaram sua igreja para achar salva
ção e libertação das drogas. Em poucos meses ele batizou cerca de
15.000 convertidos nas águas do Oceano Pacífico. A seguir, temos uma
comovente descrição de um desses batismos, extraída do mesmo artigo
da revista “Time”:
Sob 0pôr-do-sol, várias centenas de convertidos entraram nas águas
frias do Pacíftco, pacientemente esperando sua vez para a cerimônia Acima,
nos morros, centenas mais assistiam. A maioría dos candidatos eram jovens,
bronzeados e à vontade em bermudas cortadas de calçasJeans, camisetas e
cúémesmoumocasionalbiquínL Umamoçarecém-batizada, pingando ágm
de sua camiseta colorida e colada no corpo, atirou seus braços em tomo de
uma mulher e gritou, “Mamãe, eu amo você!” Um ex-viciado, que vinha so
frendo de freqüentes e inesperadas alucinações, de repente bradow “Meus
horrores sefr)ram'"Enquanto o batismo terminam, a miMdâo vagarosamen-
tesubiuumaestrettaescadariaemdireçãoaomorro,cantandoumcomovente
PaiNossoaocairdatarde.
Smith foi obrigado a mudar sua jovem congregação para uma
tenda com capacidade para 3.000 pessoas sentadas e, no fmal da década
de 70, Calvary Chapei construiu um templo com 4.000 lugares, estiman
do-se uma assistência de mais de 25.000 pessoas nos cultos regulares
de domingo. Na metade da década de 70 as reuniões de jovens aos
sábados à noite atraíam entre 4.000 e 5.000, e 2.500 compareciam às
reuniões de estudo bíblico nas quintas-feiras à noite.
As reuniões de Calvary Chapei não tinham orientação carismática.
Tinham somente uns poucos hinos tradicionais ou corinhos (geralmente
sem instrumentos), nenhum erguer de mãos, nenhuma mensagem em
línguas ou profecias, nenhum “cântico no Espírito”, nenhum grito de
‘Amém”. Não havia coro (Smith disse que muitos problemas da igreja se
originam com os membros do coro, e ele achava que toda a congregação
devia ser um coro). Quase todo mundo levava sua Bíblia e fazia anota
ções. Pessoas entrevistadas disseram que freqüentavam Calvaiy Chapei
0 Poder do Espírito Santo Entre os Jovens
101
principalmente por causa do ensino bíblico de Smith (que tinha o estilo
de expor a Palavra versículo por versículo) e em parte por causa do
amor que eles sentiam lá. Um outro líder do movimento, Cari Parks,
disse na época que os jovens se juntarão a igrejas onde amor, propósito
e ensino claro da Bíblia abundam e muitos pastores como Chuck Smith
descobriram isto.
Centenas, provavelmente milhares, podem atribuir sua ascendên
cia espiritual em Cristo a Ted Wise. Ele era um dos artistas boêmios
que foram obrigados por pressões econômicas a sair do distrito North
Beach, de São Francisco, e que se instalaram aos milhares em 1966 e
1967 na vizinhança de baixa-renda de Haight-Ashbury, onde começou o
movimento hippie caracterizado pela pregação da paz, uso de drogas e
sexo livre. Wise, com seus vinte anos de idade e envolvido com proble
mas conjugais, se tornou um cristão em 1966 depois de ler uma Bíblia
extraviada que pertencia a um dos parentes de sua esposa. Ele e sua
esposa começaram a freqüentar uma igreja batista no subúrbio de Mill
Valley, São Francisco, mas não abriram mão de sua identidade cultural
nem de seus amigos hippies. Dentro de meses, Wise levara seus amigos
mais íntimos a Cristo. Eles se tornaram a primeira equipe do primeiro
Café Cristão em Haight-Ashbury, aberto em 1967 por vários ministros
evangéUcos da área. Por não receberem nenhum salário com o serviço,
0 grupo realizava “bicos” para se manter. Como forma de economia, eles
e suas esposas e filhos compartilharam uma casa velha e grande à qual
deram o nome de “Casa de Atos” — uma das primeiras “Christian
Houses”. Centenas de pessoas em dificuldades encontraram um lar tem
porário na “Casa de Atos” e muitas delas também encontraram Cristo lá.
Arthur Blessit, um rústico evangelista que invadiu Sunset Strip
(um centro de drogas e prostituição em Los Angeles), testemunhando
nas ruas e bares para viciados, traficantes e prostitutas, também está
entre os muitos líderes e evangelistas de rua que surgiram naqueles
anos entre o Povo de Jesus. Ele se tornou um ministro hippie itinerante
nos Estados Unidos e até hoje viaja por vários países, inclusive Brasil,
evangelizando e carregando uma grande cruz pelas ruas das cidades
onde se encontra. Junto com outros líderes ele também realizou muitas
passeatas e festivais de música que converteram milhares de jovens.
Algreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
102
Uma das características do Movimento de Jesus foi que o evangelismo,
até então feito por obreiros cristãos e pastores adultos, passou a ser
realizado pelos jovens. 0 mesmo moço hippie que no último ano levara
seus amigos para as drogas agora os levava para Jesus.
2. “Straight People” fPessoas Certinhas). Foi sem dúvida o maior
grupo. Atuou principahnente nos campi universitários através de movi
mentos de jovens evangélicos inter denominacionais. Embora esses mo
vimentos existissem por décadas como um braço do Protestantismo,
eles alcançaram um grande e novo crescimento com a Revolução de
Jesus, tornando-se mais ecumênicos — uma força quase que indepen
dente das igrejas que os geraram. A maioria dos jovens envolvidos per
tencia à classe média americana e aos campi universitários. Ao contrá
rio do “Jesus People”, eram bem trajados (daí o nome “Straight People”).
Entre os principais líderes desta corrente temos Jack Sparks, um ex
professor universitário e fundador da “Christian World Liberation Front”
(CWLF), uma organização que se manifestava sobre problemas sociais,
tomando parte em demonstrações, distribuindo grande quantidade de
literatura, mas sempre apontando para Cristo em vigorosos apelos evan-
gelísticos. Centenas foram convertidas através de seus esforços ex-
pansionistas, e um programa constante de estudo bíblico e comunhão
foi instituído pela CWLF Foi esta organização que pubhcou um dos
primeiros jornais do Movimento de Jesus — o “Right On”. Outro líder
destacado mundialmente é Bill Bríght, fundador da “Cruzada Estudan
til para Cristo”, que trabalhou especialmente em escolas e faculdades.
Outro líder, convertido em 1969 quando o Movimento de Jesus
estava em seu início na Califórnia e cujo ministério teve e ainda tem
grande impacto entre osjovens, é o fundador das Igrejas Maranata, Bob
Weiner. Desde o dia em que foi salvo lendo um livro de Don Basham
numa biblioteca, ele começou seu ministério com jovens. No estaciona
mento da biblioteca pregou para cerca de 65 adolescentes e de imediato
27 aceitaram Cristo como seu Salvador
Desde então, por onde passava, mais jovens eram salvos. Nos
anos que se seguiram ele começou um Café Cristão, serviu como pastor
auxiliar e ministro de jovens nas Assemblé ias de Deus, viajou através
da nação pregando nos campi de faculdades e estabeleceu uma socieda
0 Poder do Espírito Santo Entre os Joœns .
103
de de estudantes de 1° e 2° Grau em Paducah, Kentucky. Foi através
desta sociedade de estudantes que os “Ministérios de Campus Maranata”
e as “Igrejas Cristãs Maranatas” surgiram.
A princípio ele e sua esposa, Rose, não queriam formar igrejas,
mas Deus falou com ele profeticamente através de um irmão que ele
teria que cuidar daqueles jovens, pois eles não conseguiam se adaptar
às igrejas estabelecidas. Centenas de jovens foram convertidos através
do ministério nos campi que se expandiu de três para oito e depois para
quinze, alcançando numa época o número de 150. Eles pregaram o e v ^
gelho, organizaram estudos bíblicos e grupos de oração, fimdara
jas e formaram muitos grupos musicais. Com o passar do tef
sua esposa estabeleceram um escritório central em Gain6l^™e^ÍI0f ida,
e no final da década de 80 tinham 70 congregações g n 22^^^^4laranata
realizou congressos que atraíram mais de 5^0Q|í^ssQ^^m eçou uma
publicação mensal, colocou uma equipe d^C®^kebk)ásxm ministério
de tempo integral e lançou um prograpaaMlà^são via satélite.
Muitos outros m ov im en te^ ^ J ^ n s evangélicos surgiram na
quela época, promovendo grande&raHcentrações em campi universitá
rios, festivais de música e^jm seat^ que converteram milhares de jo
vens a Cristo. Alén3(4pst^k!d^ correntes principais — “Jesus People”
e “Straight Peoptó^--^A^Io ecumênico do movimento atraiu também
jovens católM ^SKècDstals e até judeus.
Algreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
as CLANDESTINOS EMUSICAROCK
Zenas de jornais clandestinos surgiram no Movimento de Je-
í mais importantes foram “Hollywood Free Paper” (que alcançou a
^aior circulação, 150.000, e foi reimpresso em seis grandes cidades),
"Kignt un”, " irum ”, “Agape” e outros. n>sses jornais eram geralmente
mensais e seus editoriais, testemunhos e caricaturas eram voltados para
aqueles que estavam no mundo da droga. A falta de estrutura jornalística
era compensada pela dedicação, compaixão e conhecimento íntimo da
quilo que comunicavam, tendo sido muito úteis para espalhar as novas
do Movimento de Jesus em outros lugares.
A música também teve papel importante no movimento. Foi com
0 Movimento de Jesus que surgiu o controverso “rock evangélico” atra
104
vés das conversões de grupos e cantores de rock que abandonavam as
drogas e dedicavam seus talentos — e instrumentos — a Jesus. Suas
novas músicas tinham como temas a morte de Cristo, sua suficiência
para as necessidades da vida, sua segunda vinda e, principalmente, de
safiavam outros a virem para Jesus. Os grupos e cantores individuais
apresentavam-se em festivais (onde centenas de milhares de jovens que
compareciam se entregavam a Cristo), em Cafés Cristãos, em ajunta
mentos de rua, em assembléias de escolas, e em algumas igrejas. Entre
os principais músicos podemos citar o popular cantor da corrente “Je
sus People”, Larry Norman, que na época afirmou que “uma renascença
espiritual está ocorrendo hoje. 0 Espírito Santo está na raiz disto... e
os jovens estão expressando sua profunda alegria através da música
rock”; e o artista e cantor Pat Boone que, em 1970, batizou mais de 200
convertidos na piscina de sua própria casa.
REAÇÃO DAS IGREjAS
Em geral a reação das igrejas variou entre confusão, espanto, apre
ensiva desaprovação e até declarada hostilidade a esta onda de fervor es
piritual entre osjovens que abalava a ordem estabelecida das coisas. Um
preocupado ministro escreveu a um outro ministro que apoiava o movi
mento: “Há um ano incluímos um jovem clérigo em nossa equipe. Ele, por
sua vez, encorajou um grupo de jovens a se tornar ativo em nossa igreja.
Todos os rapazes têm cabelos compridos. Muitos freqüentam os cultos
vestidos de jeans. Às vezes, se gostam do sermão, gritam Vai frrme!’ ou até
mesmo aplaudem. Os membros mais velhos da congregação estão choca
dos. Alguns têm saído, outros estão ameaçando sair se não demitirmos o
jovem ministro e refrearmos a exuberância desses jovens. Nossa igreja
está se tornando irremediavelmente dividida. Que devo fazer?”
Uma mãe escreveu a esse mesmo ministro suplicando: “Eu preci
so desesperadamente de sua ajuda porque nosso filho de 18 anos se
tornou um fanático. Ele carrega uma Bíblia para todo lugar e faz cita
ções dela constantemente. Ele deixa a mim e a seu pai embaraçados ao
saudar nossos amigos com slogans e perguntas religiosas. Nós costuma
mos freqüentar uma Igreja, mas não podemos entender a obsessão de
nosso filho. Por favor, fale-nos como lidar com Isto.”
0 Poder do Espirito Sanio Entre os Jovens
105
Estas duas cartas exemplificam a reação de muitos pastores e
membros mais velhos das igrejas que não gostavam do fervor carismá
tico (muitos dos jovens falavam em línguas) do movimento, de sua inter
pretação simplista da Bíblia, sua música rock, sua aparente indiferença
pela igreja institucional e sua falta de disciplina rígida. Mas centenas de
outras igrejas — a maioria na Costa Oeste — se juntaram ao movimen
to , sendo beneficiadas pelo seu calor e vitalidade.
Por outro lado, por não serem benvindos nas igrejas e por não se
encaixarem em suas estruturas estabelecidas, muitas igrejas formadas
essencialmente de jovens surgiram. Também, como sempre acontece,
algumas seitas heréticas surgiram através do Movimento de Jesus. En
tre elas estão os famosos “Meninos de Deus” que apostataram dos ensi
nos de Jesus e entraram numa prática falsa de autoridade, amor e vida
em comunidade.
CAPACTERÍSTICA5 DO MOVIMENTO
Vamos citar agora alguns trechos de uma palestra de Billy Graham,
que viu o movimento como um “genuíno mover do Espírito de Deus”,
proferida em agosto de 1971 no “Congresso Europeu sobre Evangeliza
ção”, em Amsterdã. (Christianity Today, novembro, 1971).
Enquanto alguns dessesjovens olham para Jesus como “o primeiro hippie”
ou “um herói revolucionário”, ou têm substituído uma “viagem com drogas”
por uma “viagem com Jesus", milhares de outrosJovens têm tido uma verda
deira experiência espiritual. Muitos deles estão devorando as Escrituras—
um ex-”Black Panther” (Pantera Negra)já memorizou a maior parte do Novo
Testamento. Uma grande quantidade de novos evangelistas estão surgin
do. .. Há perigos. Há armadilhas. Há temores. E há críticas. Alguns dizem que
é muito superficial e às vezes é verdade. Alguns dizem que é muito emocio-
naleàs vezes o é. Alguns dizem que é alienado da igreja estabelecida e ás
vezes 0 é. Mas mesmo na igreja primitivaforam encontrados íaisproblemas.
Tenho tentado estudar este movimento e tenho achado louváveis caracte
rísticas que se destacam:
1. 0 movimento até agora se centraliza na pessoa de Jesus Cristo. A
revista “Look” declarou que “todos os cristãos concordam que Cristo é o
grande denominador conwm do movimento”.
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
106
2. OMovimentodeJesiisébaseadonaBíblia.Arevista“Lífe”díz: “Esses
novos cristãos vêem a Bíblia como a irrejutável e verdadeiraPahvra de Deus,
que resolve todos seus problemas, do cósmico ao trivial”. Outra revista diz:
“Bíblias abundam Desde as versões de capas mcds luxuosas até as de enca
dernação mais simples, todas são invariavelmente bem manuseadas e fre
qüentemente memorizadas. ”
3. A exigência de uma experiência com Jesus Cristo.
4. Osjovens deste movimento estão colocando uma ênfase renovada no
Espírito Santo.
5. Os jovens têm achado uma cura para o vício das drogas, que tem de
modo crescente escravizado os jovens da América.
6.AcontríbuiçãoqueomovimentoestúfazendopamasigrejasdaAmérica.
7. Uma ênfase no discipulado cristáo.
8. Evidência de responsabilidade social. 0 movimento é inteiramente
inter-raciaL Mesmo em nossas cruzadas estamos vendo mais jovens negros
do que há cinco anos atrás. Essesjovens estão resolvendo o problema de
materialismo e deificação da tecnologia através de seu compromisso uns
com os outros. Tem havido também um compromisso para ajudar resolver
alguns dos problemas sociais de hoje. Todo tipo de novos projetos sociais
estão sendo iniciados por esses novos cristãos...
9. Grande entusiasmo por evangelismo. Essesjovens vão para todo lugar
pregando o evangelho—antros, cortiços, guetos, teatros, lojas de discos,
até mesmo no submundo.
10. UmarenovadaênfasenasegundaviTKladeJesusCristo. Éreanimador
ver um artigo de uma importante revista americana com o título “0 Novo
Grito Rebelde —Jesus Está Voltando”, e ler “Existe umajirme convicção de
que a segunda vindadeJesus está literalmente próxima".
Ainda poderíamos acrescentar outra característica do movimento:
vida em comunidade. Havia um entusiasmo nos jovens em compartilhar,
cultuar e crescer juntos. Um artigo na revista “Christianity Today” expres
sou 0 seguinte: “Para esses novos cristãos não existe no nível pessoal a falsa
dicotomia do evangelho social e do evangelho bíblico. Eles amam uns aos
outros e mostram isto com uma mão estendida ou uma refeição”.
Centenas de “Christian Houses” foram abertas naquela época na
Costa Oeste dos EstadosUnidos. 0 já mencionado artigo da revista
“Time” fez a seguinte descrição de uma delas:
0 Poder do Espírito Santo Entre os Jovens
107
Embora sejam diferentes umas das outras, todas elas insistem que dro
gas e sexo pré-marital são proibidos, e muitas têm regras bem rigorosas:
levantar cedo e deitar por volta de 10 ou I I horas, tarefas determinadas,
uma certa quantidade de leitura bíblica obrigatória e reuniões de oração.
Mesmo assimgeralmentesão lugares alegres. Æ vozes são calmas, as pala
vras que ocorrem são “amor”, “bênção”, “oSenhor”,”compartilhar”, “paz”e
“irmãos e irmãs”... Os homens da comunidade trabalham na construção e
pintura de casas para pagar as contas, mas o principal objetivo da casa é
estruturar as vidas dentro dela ao redor de Cristo. Uma das mulheres descre
ve 0 sucesso deste esforço de maneira simples: “Quando cheguei aqui pela
primeira vez, não corúiecia Jesus. Mas aconteceu que eu cresci Eu acho que
creio agora”.
CONCLUSÃO
0 Movimento de Jesus é um bom exemplo de um avivamento
rápido, forte e sobrenatural, mas sem a presença de qualquer elemento
de reforma. Surgiu na hora mais escura da juventude americana, cuja
revolta contra a guerra no Vietnã e o “status quo” produziu duas reações
— tomar drogas ou voltar-se para Jesus. Deus mais uma vez quebrou
as regras e agiu de forma soberana e surpreendente no meio de uma
geração que fora constantemente acusada de envolver-se com sexo, dro
gas e violência. Foi um mover tão imprevisível quanto fora o derrama
mento do Espírito Santo sobre os católicos. A guerra do Vietnã passou,
como também o próprio avivamento, mas a colheita não foi perdida.
Grande parte dela está presente nas grandes igrejas carismáticas organi
zadas durante as décadas de 70 e 80. Muitos dos líderes do Movimento
de Jesus se engajaram em algum tipo de serviço cristão e identiflcaram-
se com uma igreja organizada. Outros, como Bob Weiner, se Juntaram
ao Movimento de Discipulado que trataremos no capítulo 9.
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
108
C a p ítu lo 8
OMOVIMENTODEDISCIPULADO
NAARGENTINA
Grande parte do conteúdo deste capítubfoi baseada no livro “Tiempos
de Restauracíón” de Orville Swindell e em entrevistas com Jorge
Himitiaa
COMO COMEÇOU
0 Movimento de Discipulado na Argentina foi fruto de um avivamento que começou em 1967, em Buenos Aires. Albert Darling, filho argentino de um cristão irlandês, e executivo do departamento de marketing da Coca-Cola Export Corporation, foi batizado no
Espírito Santo e começou uma reunião de oração toda segunda-feira em
sua casa com xun grupo de uns vinte irmãos. À medida que se reuniam
para orar por um avivamento nas igrejas da Argentina, irmãos de várias
denominações começaram a ser cheios do Espírito e o grupo de oração
cresceu de tal forma que logo se tornou impossível continuar reunindo
se naquela casa. Alugaram um salão que também ficou pequeno e o mes
mo aconteceu com um grande templo colocado à disposição deles, obri
gando-os a mudar o grupo de oração para um teatro com capacidade
para 1.500 pessoas.
A maior parte dos irmãos pertencia aos Irm ãos Livres (inclusive
0 casal Darling), mas havia também batistas, menonitas, membros da
Aliança Cristã e M issionária, da União Evangélica da Am érica do
Sul e irmãos de grupos independentes. Predominavam nas reuniões a
oração, a adoração e o amor uns pelos outros, e havia grande expectati-
109
va por coisas maravilhosas do Senhor. Os incrédulos que passavam em
frente ao teatro entravam para ver o que Deus estava fazendo. A presen
ça do Senhor os convencia de tal maneira que caíam com o rosto em
terra. Outros sentiam as algemas e correntes do pecado caindo de suas
vidas, enquanto entravam na presença do Senhor, e outros ainda eram
curados.
Como resultado deste mover, cerca de uns dez pastores, partici
pantes regulares das reuniões, começaram a encontrar-se todo sábado
para desenvolver um relacionamento mais íntimo. Com o tempo este
número chegaria a cerca de 25 líderes, mas entre esses os que mais se
destacaram foram: O rville Swindoll, missionário americano na Argen
tina desde 1959 e estabelecido em Buenos Aires desde 1967; Keith
Bentson, missionário americano na Argentina desde 1958 e estabeleci
do em Buenos Aires desde 1965; Ivan Baker, argentino de descendên
cia inglesa e líder numa igreja dos Irm ãos Livres; Jorge H im itian,
armênio nascido em Haifa, Palestina, cuja família se radicou na Argenti
na quando ele era um garoto de 7 anos; e Juan Carlos Ortiz, pastor
argentino das Assem bléias de Deus. Foram principalmente esses ho
mens que delinearam os princípios deste movimento na Argentina.
0 SEN HORIO DE CRISTO E O EVANGELHO DO REINO
Em 1968 Jorge Himitian começou a compartilhar com seus cole
gas a revelação que estava tendo na Palavra sobre o senhorio de Cristo.
Em resumo, ele começou a questionar os sermões evangélicos que pre
gavam a aceitação de Jesus Cristo como Salvador para obter perdão de
pecados e deixavam o reconhecimento de Jesus como Senhor para um
eventual momento de crise. Ao estudar as Escrituras percebeu que a
palavra saíuador só aparecia umas poucas vezes, ao passo que a palavra
senhor áparecia mais de trezentas vezes. Descobriu que para os primei
ros cristãos 0 termo “senhor” (kurios, em grego) significava dono, sobe
rano, uma pessoa com grande autoridade, mais particularmente, na épo
ca, 0 imperador romano. Dirigir-se a uma pessoa como senhor implica
va compromisso, sujeição e submissão a essa pessoa, assumindo a posi
ção de servo. Todo escravo do primeiro século encarava o desejo do
seu senhor como uma ordem, mas a tendência do Cristianismo atual era
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
110
raciocinar e argumentar com o Senhor, em vez de obedecer sem reser
vas. A rendição dos cristãos primitivos ao Senhor Jesus foi total a pon
to de pagarem com suas vidas a sua lealdade a Cristo. Diante disso, o
cristão hoje deveria arrepender-se de seu pecado de rebelião e indepen
dência e reconhecer a Jesus Cristo como Senhor, colocando-se sob seu
governo, submetendo-lhe sua vida sem reserva, como servo obediente.
Fazendo isto, tornamo-nos sua propriedade, seu povo, sua possessão, e
ele nos molda ã sua própria imagem para sermos instrimientos efetivos
para cumprir seu propósito eterno, por meio do Espírito Santo que
habita em nós.
Assim surgiu a mensagem do “evangelho do reino de Deus”, que
relacionava o senhorio de Cristo com a experiência de salvação. Em
1968 Himitian expôs por vários domingos esta mensagem e Juan Carlos
Ortiz foi 0 primeiro a pedir que a mesma série fosse dada em sua con
gregação. Logo Himitian estava pregando o evangelho do governo de
Deus, que deveria ser praticado aqui e agora, em várias cidades da
Argentina. Mais tarde esta mensagem foi mais elaborada e cópias em fita
cassete foram distribuídas. No ano de 1974 a série completa foi impres
sa com 0 título “Jesus Cristo é o Senhor’’. Basicamente a mensagem do
evangelho do reino se dividia em três pontos principais: 1. Jesus como
Senhor de nossas vidas; 2. Jesus como Senhor da igreja; e 3. Jesus
como Senhor do universo.
A IDÉIA DE DISCIP U LADO
Embora o grupo de pastores que se reuniam aos sábados de manhã
e conduziam as reuniões de segunda à noite obtivesse consideráveis
resultados evangelísticos, começaram a buscar uma forma descomplicada
e não dispendiosa de conservar os frutos e edificar a igreja. De acordo
com Orville Swlndoll, a resposta “teria de ser simples e prática, aplicá
vel em qualquer situação: tanto entre pobres como entre ricos, em tem
pos de perseguição ou de liberdade, em meio a um avivamento espiritu
al ou em novos campos de trabalho, entre profissionais ou operários.”
Ivan Baker e Swlndoll tinham tido contato com os “Navegantes” ,
um movimento evangélico mterdenomlnacicnal Iniciado nos EUA entre
os marinheiros durante a Segunda Guerra Mundial, cujos propósitos0 Movimento de Discipulado na Argentina
111
eram a evangelização e o treinamento de novos convertidos. Eles
enfatizavam o estudo e a memorização de textos bíblicos e o trabalho
pessoal de acompanhamento e discipulado. Foi especialmente Ivan Baker
quem viu as tremendas possibilidades do plano dos “Navegantes”. Con
sistia de um cristão ganhar e treinar uma outra pessoa no espaço de um
ano, e logo os dois repetiriam o processo sucessivamente. Ao fim de
dois anos haveria quatro, em três anos oito, em quatro anos dezesseis,
e assim por diante. Ele viu que o crescimento numérico seria lento no
princípio, mas, ao cabo de dez anos, haveria mais de mil novos crentes
e em vinte anos haveria um mühão, e em trinta anos um bilhão. E, além
disso, 0 plano poderia ser facilmente ensinado sem exigir equipamentos
especiais, dinheiro ou demasiado tempo livre.
Ao estudar os Evangelhos, Baker viu que o método de Jesus para
treinar e enviar os discípulos era simples e sem sofisticação. Eis as
lições essenciais que descobriu nos quatro Evangelhos:
Ij Jesus deu de si mesmo mais do que deu sermões.
2) Jesusfoi até as pessoas; não pediu que viessem a ele para escutá-lo.
3) Ele aceitou as circunstâncias tais como eram- à tieira-mar, na montanha,
no poço, nos lares etc. Seus maiores pronunciamentosforam em meio às
circunstâncias mais simples.
4) Somente buscou aqueles que estavam com fomeesede de justiça.
5) Fez uma seleção dos seus discípulos. Nuncaprocurou segurar aqueles
que desejavam deixá-b. Mais tarde, envbu aqueles que havia selecbna-
do em missões específicas.
Q Ele levou somente três anos paraformar doze apóstolos.
7j Os discípulos estavam aparentemente sem preparação quando ele os
enviou. Obviamente, ele dependia do Espírito Santo para completar o
trabalho necessário neles.
Porém, ao expor para sua congregação essas condições básicas
estabelecidas por Jesus para o discipulado, Ivan ficou frustrado e decep
cionado. As pessoas estavam acomodadas e acostumadas a ter líderes
sobre si, fazendo o trabalho de evangelismo e edificação. Não queriam
assumir a responsabilidade pessoal por outros para produzir um
evangelismo mais eficaz. Sendo assim, ele e sua esposa fizeram algo radi
cal. Sem informar sua congregação, começaram a evangelizar os vizinhos
A Igreja do SéculoXX -A História que Não Fbi Contada
112
do bairro usando os princípios de discipulado que ele descobrira nos
Evangelhos. Logo surgiu um pequeno grupo reunindo-se para tomar chá
jvmtos, para orar bem cedo de manhã, para estudos bíblicos e para buscar
conselho pastoral. Freqüentemente, nos domingos pela manhã, eles se
reimiam e logo saíam para evangelizar. Depois de seis a oito meses tinham
um grupo estável de umas doze pessoas. Durante todo este tempo ele
continuara em vão tentando reorientar sua congregação de acordo com o
plano acima mencionado, mas, mesmo assim, os resultados obtidos com
este grupo o convenceram de suapraücidade. Foi então que resolveu apre
sentar 0 grupo ã igreja na reunião geral do domingo à tarde.
Ao ver novas pessoas chegando, os irmãos pensaram que final
mente alguns da redondeza estavam mostrando interesse no evangelho.
Quando Ivan apresentou os novos convertidos e como ele e sua esposa
os haviam ganho, a congregação ficou envergonhada, pois viu que esses
“meninos em Cristo” estavam bem orientados e espiritualmente cresci
dos, e que alguns deles já haviam levado seus parentes e amigos a Cris
to. Ao terminar a reunião, um dos presbíteros veio a Ivan, confessou sua
dureza de coração e sua vergonha e disse: “Diga-nos como fazer, Ivan.
Estamos dispostos a obedecer.”
Ivan percebeu que não poderia assumir este plano sozinho. Viu
que teria de preparar homens que por sua vez preparariam outros e
assim por diante. Por três meses treinou seus presbíteros e depois divi
diu todos os membros da congregação que estavam dispostos a traba
lhar em três grupos sob a autoridade dos três presbíteros. Alterou tam
bém a estrutura tradicional da igreja, pois viu que o excesso de reimiões
não deixava tempo para se fazer discípulos.
Durante o ano de 1968 Ivan Baker e Jorge Himitian estiveram
compartilhando com o grupo de pastores seus pensamentos e descober
tas sobre o senhorio de Cristo, o evangelho do reino de Deus, e como
fazer discípulos. Mas foi através de Juan Carlos Ortiz que essas verda
des se tornariam mundialmente conhecidas.
A EXPERIÉNCIADE ORTIZ
Alguém afirmou haver três tipos de pessoas que se destacam nos
movimentos da história da igreja: o teórico, o pragmático e o articulador
0 Movimento deDisdpulado naArgentina
113
Referlndo-se ao que estava acontecendo na Argentina, Orville Swindoll
definiu Jorge Himitian como o teórico ou teólogo, Ivan Baker como o
pragmático e Juan Carlos Ortiz como o articulador. Com sua mente
brilhante e a capacidade incomum de comunicar as verdades que esta
vam no seu coração, Ortiz se tornou na década de 70 o porta-voz do
Movimento de Discipulado na Argentina. Foi um dos primeiros a se
tornar plenamente convencido da validade e atualidade das verdades
que estavam sendo descobertas e a colocá-las em prática em sua igreja.
Mesmo sendo pastor de uma próspera igreja pentecostal em Buenos
Aires, que devido ao seu intenso trabalho e de sua esposa crescera de 180
para 600 membros, ele não estava satisfeito e decidiu retirar-se da cidade
por uma semana para buscar o Senhor Foi então que ouviu Deus falar-lhe:
‘Juan, onde está o meu dedo em tudo isto?... Vocês não estão crescendo,
estão apenas engordando. Vocês apenas têm mais pessoas do mesmo üpo.
Havia 200 sem amor, depois 300,500 e agora 600 todos sem amor Mais
do mesmo tipo... não crescendo... engordando... Sua igreja não é uma
igreja; é um orfanato. Ninguém tem pai; todos são órfãos e você é o diretor
do orfanato. Aos domingos você enche uma garrafa de leite e diz: ‘Agora
abram suas bocas’. E você pensa que está alimentando seu povo.”
Por meses então ele pregou sobre o discipulado, o evangelho do
reino e o senhorio de Cristo em sua igreja. Um dia viu que era hora de
mudança. Eis com suas próprias palavras um pouco da sua experiência:
Umdia, lendo o Fhangelho segundo Mateus, vique Jesus disse que todas
as multidões eram como ovelhas sempastor, e ele escolheu doze discípulos.
Disse para mim mesmo: “É tempo de mudar ”Eu tinha uma congregação
parecida com um clube. Era como um orfanato eeu era o Reverendo Juan
Carlos Ortiz, diretor do orfanato. Quando compreendi isto, decidi começar
uma nova igreja subterrânea em minha casa. E Joãozinho roubou um grupo
de membros do Reverendo Ortiz e começou a discipulã-bs. Eu era Joãozinho.
Nesta nova estrutura não precisava mais ser um “reverendo”. Apenas
Joãozinho. Você sabe por quê? Clubes sãqfundamentados em pretensão e
prestígio humanos. A verdadeira igreja éjimckmientada em Jesus. Se nós o
chamamos peb seuprimeiro nome, por que não a mim?
Então dei minha vida a esses discípulos. Trabalhei com eles. Fbmos para
0 campoJuntos. Vivemosjuntos. Comemosjuntos. Eu abri minha casa para
A Igreja do Século XX -A História que Não Fbi Contada
114
eles. Eles vieram dormir em minha casa... Nós nos tornamos como uma
família. E depois de seis meses, mais ou menos— nãofoi de um dia para
outro— essas pessoas estavam tão mudadas que todo o orfanato notou
isto...Aspessoasiamaelesparaoraçõoeconselho. E, depois de seis meses,
eu lhes permiti roubar outros membros da igreja do Reverendo Ortiz —para
fazer deles discípulos. Sets meses mais tarde, esses tambémforampermiü-
dos roubar mais membros. Levou quase três anos, mas finalmente todos os
membrosforam roubados e o orfanatofoi transformado numafamília.
Duranteessetempopessoasestavamsendosalvasnospequenosgrupos
celulares. Cada um de meus discípulos se reunia com seu grupo celular.
Novas pessoas vinham para as células, mas nós proibimos os líderes de
célulasdetrazê-lasparaalgrelaporqueexpô-ktsaovelhoclubecongr^acional
as estragaria. Além domais, estávamos tentando acabar com a velha estru
tura, não alargá-la
Cada um de meus discípulos tinha um grupo num ponto diferente da
cidade... Estas células podiam reunir-se em casa, numparque, num restau
rante, napraia emqualquerlugareaqualquerhora...Aospoucos,portanto,
descobrimos o que um “membro de igreja" realmente é:
Primeiro, um membro de igreja é dependente do resto do corpo. Ninguém
vê um nariz andando pela rua sozinho. O corpo precisa estar todo interliga
do, como um só bloco. Segundo, um membro é umaparte do corpo que une
duas outras partes. Terceiro, um membro é alguém que nutre. Ele recebe
n u tri^ parasi mesmo e passa nutrição para outros membros submissos a
ele. Quarto, um membro sustenta aqueies que estão acima dele. E quinto, os
membrospassamoTdens.Acabeçaordenaamão, mas aordemé transmitida
através de outros membros.
Ortiz preparou cursos de estudos para usar nas sessões de trei
namento com seus líderes. Pouco a pouco esses estudos foram
mimeografados, corrigidos e impressos, e os líderes começaram a usar
0 mesmo material para ensinar a seus grupos pequenos. A produção
quase constante de novos materiais, além dos ensinamentos dados nas
reuniões de segunda à noite e de sábado com os pastores produziu farto
material que serviu de base para a publicação de vários livros. Seu
primeiro livro em inglês “Call to Discipleship” (Chamado Para Discipu
lado) foi escrito juntamente com Jamie Buckingham (famoso autor e
ministro cristão carismático) a partir de seus ensinamentos numa con-
OMovimenlo de Discipulado naArgentina
115
ferência nos EUA. Foi traduzido para varias línguas e teve grande im
pacto para espalhar os ensinamentos sobre o senhorio de Cristo e o
discipulado.
Os anos de 1972 e 1973 foram uma época de muita divulgação da
palavra que os irmãos em Buenos Aires tinham recebido. Muitos pasto
res e líderes de outros países latino-americanos e dos EUA foram até a
Argentina para conhecer os irmãos e para assistir aos encontros que
começaram a promover. Além disso, os pastores de Buenos Aires co
meçaram a viajar para outros países para pregar em encontros e confe
rências.
Em janeiro de 1973 houve um grande encontro em Porto Alegre
promovido pelos batistas renovados e Ortiz, Swindoll, Bentson e Baker
estiveram lá como preletores. Tanto nas reuniões gerais com assistência
de 6.000 a 7.000 pessoas (de toda parte do Brasil), quanto nas reuniões
especiais com pastores, o impacto da palavra de Ortiz foi marcante.
Numa das noites do encontro, enquanto Ortiz dirigia o louvor, após
ensinar o corinho “Ao que está assentado no trono, e ao Cordeiro...”,
parecia que o mesmo espírito de adoração que movera tão fortemente
na Argentina, pousou por alguns momentos sobre a congregação, dando
uma amostra aos brasileiros deste ambiente celestial.
A partir deste encontro, muitos pastores tomaram conhecimento
do que Deus estava fazendo na Argentina e começaram a viajar para lá
para assistir aos encontros e conhecer melhor a mensagem. Muitos mi
nistérios foram transformados e não conseguiram mais se encaixar em
suas igrejas e denominações tradicionais, começando a tentar colocar
em prática os princípios do discipulado.
A ÊNFASE SOBRE A U N IDADE DA IGRE) A
Desde o princípio, o mover do Espírito Iniciado em 1967 em
Buenos Aires e que resultou nas ênfases sobre o evangelho do reino, o
senhorio de Cristo e o discipulado, ultrapassou barreiras tradicionais e
denominacionais. Como já vimos, pastores de várias denominações se
reuniam aos sábados e suas igrejas às segundas à noite; e os principais
entre eles viajaram por toda Argentina e por vários países promovendo
um ministério itinerante em igrejas, acampamentos, conferências, esco-
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
116
las bíblicas e seminários para pastores e líderes. Foi neste contexto que
surgiu a ênfase sobre a unidade da igreja.
Foram Jorge Himitian e Orville Swindoll, que viajavam muito
Juntos, que tiveram um interesse especial pelo assunto, pois entende
ram que para aquele despertamento que estava acontecendo na igreja da
Argentina continuar, ele não poderia ser limitado apenas a um contexto
denominacional. Era preciso proclamar com intrepidez a unidade de
todo 0 povo de Deus. 0 Espírito Santo não tinha Interesse em edificar
estruturas denominacionais, mas a igreja, o corpo de Cristo. A morte
de Jesus havia destruído a inimizade entre Deus e nós, e também entre
nós mesmos e nossos irmãos em Cristo.
Swindoll incentivou Himitian a estudar o assunto de unidade da
igreja nas Escrituras e apresentar uma mensagem sobre o tema nas
reuniões de segunda à noite. Um fator que os encorajou a prosseguir
nesta pesquisa foi a visita em 1969 de Arthur Wallls (um conhecido
autor e conferencista mglês de grande maturidade que enfatizava o avi
vamento), que ministrou sobre o livro de Neemias. Através de sua men
sagem sentiram confirmação sobre as condições essenciais para recons
truir os muros e assim definir a verdadeira característica da cidade de
Deus. Acima de tudo o espírito sectário deveria ser quebrado, pois só
servia para distrair e atrasar a edificação dos muros.
Em abril de 1969 Jorge Himitian deu sua primeira mensagem so
bre a unidade da igreja numa reunião de segunda à noite. Enfatizou espe
cialmente Efésios 4, sublinhando os seguintes conceitos sobre a igreja; (1)
que a verdadeira configuração da igreja local abrange a totalidade dos
redimidos de uma cidade; (2) que nesta mesma área Deus deu à igreja
dons e ministérios, os quais devem ser reconhecidos por todos os cristãos
ali e exercidos em unidade para a edificação de toda a comunidade.
Para ilustrar estes conceitos, ele mostrou que na igreja de Jeru
salém todos os apóstolos ministravam a todos os santos. Devido em
parte à enorme quantidade de cristãos ali, a vida em comunidade en
controu sua expressão prática em dois níveis: (1) todos juntos e (2 ) nas
casas, certamente em grupos pequenos. Os apóstolos não dividiram os
convertidos em doze grupos diferentes, mas conservaram a prática da
unidade do Espírito.
0 Movimento de Discipulado naArgenima
117
Este foi 0 início da ênfase sobre a unidade do corpo de Cristo
que se espalhou pela igreja na Argentina, a ponto de mais tarde ocorrer
a fusão de algumas congregações, e que também encontrou ressonância
em vários países, inclusive o Brasil.
NÃO SÓ AVIVAMENTO, MAS FAMÍLIAS
E NORMALIDADE
As várias ênfases que temos visto mostram que os irmãos da
Argentina não estavam interessados apenas em avivamento, mas em re
formar a estrutura da igreja. Swindoll insistiu em suas conversas com
os pastores para que a base das congregações fosse concentrada em
famílias. Em lugar de ver osjovens solteiros como únicos candidatos
promissores a líderes, mais atenção deveria ser dedicada a homens que
fossem cabeças de famílias para que houvesse famílias estáveis. Ele com
preendeu que, se a vida em família fosse valorizada, a formação dos
filhos e dos jovens e também dos novos cristãos seria mais exeqüível e
coerente. Por isso, a ênfase crescente através dos anos no núcleo famili
ar — que é a unidade básica tanto da igreja como da sociedade — fez
com que as congregações passassem a ser caracterizadas pela sua com
posição baseada em famílias.
Outra convicção dos irmãos, defendida principahnente por Keith
Bentson e Juan Carlos Ortiz, era que sua preocupação maior não fosse
buscar um avivamento, mas buscar a normalidade. 0 propósito de Deus
em nos redimir é para normalizar nossas vidas. Segundo Bentson, Deus
criou 0 homem na terra para levar uma vida santa e normal, para traba
lhar, servir aos outros, e criar uma família. Se isto era a ordem e vontade
de Deus para a criação, então a redenção deveria restaurar-nos ao mesmo
nível de vida. Portanto, os irmãos concluíram que o Espírito os estava
movendo a buscar imia volta à normalidade e não mn mero avivamento.
Deveriam concentrar-seem tomar-se aqueles homens, mulheres, pais, es
posas, maridos, empregados, profissionais e cidadãos que Deus os havia
destinado a ser pela criação e redenção. Se houvesse algo mais, algo espe
tacular, isto seria uma prerrogativa de Deus. 0 aspecto pragmático das coi
sas seria responsabilidade deles, e deveriam adotar uma atitude de fé e
obediência, caminhando cada dia no Espírito.
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
118
Resumindo, de acordo com uma mensagem de Ortiz em outubro
de 1969,0 propósito de Deus não era apenas salvar almas, mas salvar
homens. 0 evangelho de hoje é deficiente, pois procura só a salvação
das almas, mas o evangelho do governo de Deus deve reorientar com
pletamente a vida e conduta dos verdadeiros discípulos de Cristo, e os
reunir numa comunidade de santos, onde aprendem a viver e a traba
lhar com integridade, onde manifestam o amor, a graça e a verdade de
Deus na vida diária.
PROBLEMAS E CONFLITOS
Como sempre acontece num novo mover de Deus, os irmãos de
Buenos Aires enfrentaram problemas e conflitos exteriores e interiores.
No primeiro caso foram acusados de muitas coisas: de serem excessiva
mente “pentecostais”, “espiritualistas”, de promulgarem “falsas doutri
nas”, de “ecumenismo”, “ladrões de ovelhas” etc.
Mas 0 conflito mais sério que enfrentaram foi entre eles mesmos
com um dos líderes mais proeminentes do grupo — Juan Carlos Ortiz.
Este discordou da posição tomada pela maioria do grupo de disciplinar
um pastor que cometera pecado sexual, proibindo-o de exercer ministério
público por um determinado tempo. Ele defendia a posição de que, quan
do um pastor comete pecado e sinceramente se arrepende, por mais grave
que seja sua falta, o sangue de Cristo o limpa de todo pecado e Deus se
esquece totalmente de sua falta. Sendo assim, não há mais motivo nenhum
para desqualificá-lo para o ministério. Apesar de concordarem com o con
ceito do perdão de Deus, os outros irmãos ficaram preocupados com a
confusão, leviandade e imoralidade que se criaria nas igrejas, se pastores
e líderes surpreendidos em fornicação e adultério pudessem continuar
ministrando só pelo fato de se declararem arrependidos.
Outra questão que causou tensão entre Ortiz e os demais mem
bros do presbitério em Buenos Aires envolvia pontos de vista discor
dantes sobre o nível de autoridade que o presbitério deveria ter sobre o
seu ministério itinerante, Estes problemas levaram à separação de Ortiz
do presbitério, e ele acabou mudando para os EUA.
0 desenrolar desta crise ocorreu durante o ano de 1974 e início
de 1975 e, segundo Swindoll, “em todos os anos que temos estado jun
0 Movimento de Discipulado na Argentina
119
tos, nada nos tem causado mais preocupação e desassossego que este
assunto” (os problemas com Ortiz).'^Em maio de 1975, Bob Mumford
foi a Buenos Aires para ajudar a resolver a situação e acabou aproveitan
do a viagem para ministrar em outras áreas.
Apesar desta experiência ser muito dolorosa, segundo Swindoll,
no fmi houve resultado positivo para a igreja em Buenos Aires. Vejamos
mais uma vez o que ele diz: “0 laço de unidade entre os pastores foi
duramente provado, mas se manteve firme, com exceção do colega men
cionado (Ortiz). No meio do ano de 1975, a atmosfera era clara outra
vez; os relacionamentos entre os pastores, como também entre eles e os
homens responsáveis em suas congregações, eram muito mais precisas;
e nossas metas se haviam defmido com clareza. A neblina havia se levan
tado e começávamos a enxergar melhor” '̂
diferenças entre os m o v im e n t o s
DAARGENTINAEDOS EUA
Como já mencionamos, os anos de 1972 e 1973 foram de muita
proclamação e expansão da visão do discipulado através de viagens e
conferências. Em 1974, porém, começaram a surgir problemas tanto na
Argentina quanto nos EUA. Na Argentina surgiram os problemas menci
onados acima. Nos EUA a mensagem do discipulado causou uma explo
são semelhante à que seria produzida atirando-se um fósforo num de
pósito de gasolina. Inicialmente parecia ser a resposta ideal para a ca
rência que milhares de carismáticos sentiam de disciplina, aliança e
desenvolvimento em maturidade. Devido a vários fatores, porém (como
0 entusiasmo dos americanos em aplicar idéias novas em grande escala,
pessoas imaturas ocupando posições de autoridade, ênfase exagerada
na cadeia de comando dentro do discipulado, “embriaguez” com os
fantásticos sucessos iniciais em termos da expansão numérica do movi
mento levando à arrogância, e a tendência natural das igrejas atoladas
no “status quo” de atacarem qualquer movimento revolucionário), logo
surgiu um grande conflito entre os carismáticos com muitas acusações,
difamações, mentiras e exageros.
Dada esta situação nos EUA, os irmãos na Argentina acharam
mais sábio deixar de viajar por um tempo e dedicar-se mais à prática
Algrejado SéculoXX-AHistóriaqueNãoFoi Contada
120
local. Depois puderam constatar que esta decisão foi de muita valia para
0 desenvolvimento prático da visão. Perceberam que a visão do
discipulado ainda estava numa fase experimental quando fora divulgada
nos EUA e em outros lugares e que muitos ajustes precisavam ser feitos.
Devido à natureza mais desconfiada do povo argentino, o sistema de
discipulado expandia mais lentamente do que nos EUA, e isto foi bom
porque deu tempo de evitar extremos e desequilíbrios e, conseqüente
mente, escândalos e polêmica.
Outra diferença entre o movimento na Argentina e nos EUA foi a
ênfase que os pastores em Buenos Aires deram à xmidade entre todos os
pastores em cada cidade, o que não era o caso nos EUA, onde havia
cadeias distintas de autoridade e submissão na mesma cidade.
CONCLUSÃO
Se você já leu nosso livro “A História do Avivamento na Argenti
na” ou outra literatura sobre o assunto, certamente concordará que a
Argentina tem sido visitada por Deus com avivamentos multo expressi
vos. 0 Movimento de Discipulado, porém, que acabamos de descrever,
representa algo diferente. É verdade que começou como um verdadeiro
avivamento a partir das reuniões de segunda-feira na casa de Albert
Darling, que acabaram produzindo as reuniões de sábado dos diversos
pastores que, mais tarde, foram usados por Deus para conduzir o movi
mento. Entretanto, rapidamente ultrapassou as características de um
avivamento, tornando-se um dos movimentos de reforma mais signifi
cativos do século XX.
Segundo uma mensagem que Jorge Himitian ministrou num en
contro naArgentina, em 1974, há três características da obra de Deus
no mundo que provam que não é apenas avivamento que Deus deseja, e
sim uma total restauração da igreja: 1) O Espírito Santo não está restau
rando verdades isoladas, e sim recuperando o conjunto completo da
verdade de Deus e do seu propósito; 2) Não está havendo movimentos
locais ou isolados, e sim uma renovação universal que está ocorrendo
em nossos dias; 3) Não se trata de uma simples recuperação de concei
tos ou teorias, e sim de que o Senhor está movendo para levantar um
povo para sl, capaz de encarnar estas verdades. Isto significa que, mais
0 Movimento de Discipulado naArgentina
121
que crer ou anunciar uma verdade, o Senhor quer levar-nos à necessi
dade de experimentá-la e encarná-la.
Com certeza, os irmãos naArgentina não alcançaram uma restau
ração plena da doutrina e prática apostólica, e eles seriam os primeiros
a concordar com isto. No epílogo do livro “Tiempos de Restauracíón”,
Orville Swindoll diz: “Humildemente cremos que temos uma contribui
ção a fazer para o presente processo de restauração da igreja. Entretan
to, reconhecemos que necessitamos das contribuições de outras partes
da igreja que estão experimentando uma renovação espiritual.” '“*
Gostaríamos de sugerir aqui, em síntese, três deficiências bási
cas que impediram a tentativa de reforma naArgentina de alcançar di
mensões apostólicas, essenciais para a restauração total da igreja.1) A/alta da revelação da graça de Deus. Jesus não pregou so
bre a graça. Ele proclamava palavras duras! Mas ele era a graça de Deus.
Se quisermos obedecer aos mandamentos de Jesus, teremos de entender
e aceitar sua graça. Não é possível formar discípulos ou obedecer à Palavra
de Deus nas nossas vidas sem ser através da pura graça de Deus, sem ne
nhuma mistura de esforço humano (Rm 8:2-4; G15:4-5).
Apesar de os evangélicos, de modo geral, possuírem uma fé teó
rica nesta graça, ninguém está demonstrando o poder de uma verdadei
ra revelação dela na prática hoje. Os irmãos na Argentina, ao reagirem
contra a “graça barata” tão predominante no meio evangéUco hoje, toca
ram em pontos de equilíbrio vitais ao enfatizarem o senhorio de Cristo
e os princípios do discipulado. Mas, para voltarmos à autêntica vida
cristã demonstrada na primeira igreja, precisamos de algo mais do que
isto. Necessitamos da revelação da graça de Deus no mesmo nível que
os apóstolos (principalmente Paulo) receberam e proclamaram. Somen
te graça pura levará à obediência pura!
2) A ausência de uma ênfase na verdadeira comunhão do
Espírito Santo. Cremos que a comunhão entre o Pai e o Filho na Divin
dade é 0 Espírito Santo, e que esta comunhão do Espírito forma o
corpo de Cristo (I Co 12:13). Se dermos ênfase à obediência à Palavra
por um lado, ou à liberdade no exercício dos dons do Espírito, por
outro lado, sem cultivarmos assiduamente a comunhão no Espírito (que
não é algo social ou superficial), teremos apenas um outro “movimento”,
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
122
com todas as limitações humanas, e não o corpo de Cristo. 0 Espírito
Santo é uma pessoa, e ele precisa ter espaço em cada vida, relaciona
mento e reunião. Não cremos que a obediência à Palavra de Deus ou a
formação de discípulos será eíicaz sem este elemento da verdadeira
comunhão (At 2:42; 2 Co 13:13; Fp 2:1).
Apesar de os irmãos naArgentina terem alcançado um admirável
entendimento e prática do equilíbrio entre a Palavra escrita e o Espírito,
mais uma vez notamos que falta algo para atingir a verdadeira doutrina
apostólica. É possível escapar da rigidez e morte da letra e dos extremos
e fanatismos do uso destemperado dos dons do Espírito e, mesmo assim,
não alcançar a palavra viva (Hb 4:12). Não é suficiente misturar Moisés (a
Palavra) e Elias (o Espírito) para produzir o evangelho. É necessário um
terceiro elemento, Jesus (o evangelho encarnado — Mt 17:1-5).
Não dispomos de tempo ou espaço para discorrer sobre isto aqui,
mas cremos que este terceiro elemento hoje tem a ver com a comunhão
do Espírito Santo mencionado acima. Esta comunhão existe, em poten
cial, no meio da igreja hoje, mas o problema é que por não ser enfatizada,
reconhecida ou esperada, ela íica sem ação ou expressão. Estamos tão
ocupados em estudar, interpretar ou pregar a Palavra ou em buscar e
exercer os dons do Espírito que não sobra espaço ou tempo para nutrir
e desenvolver esta comunhão.
3) A procura da unidazde do corpo de Cristo na base da união
dos pastores na localidade. Se por um lado isto pode trazer muitos
benefícios no sentido de quebrar barreiras denominacionais, orgulho,
sectarismo etc., por outro lado pode cair no ecumenismo e no sacrifício
da verdade em função da unidade. Apesar de precisarmos ser quebra
dos em nossos preconceitos e “reinos próprios”, também precisamos
tomar cuidado para não unirmos a igreja de uma maneira humana.
A verdadeira unidade do corpo de Cristo tem de ser centralizada
na pessoa de Cristo. À medida que cultivamos a comunhão do Espírito
eoespírito (nãoaletra) daPalavra(2 Co 3:6), o Cristo vivo se revelará
em nosso meio (Mt 18:20) e sua igreja será formada em cada localidade
— um corpo, um Espírito, um Senhor (Ef 4:4-5).
Ao ressaltar, porém, estes aspectos que, ao nosso ver, constituem
deficiências, não queremos de modo nenhum depreciar o significado
0 Movimento de Discipulado naArgentina
123
das contribuições positivas que o mover de Deus naArgentina tem para
nos oferecer. Em primeiro lugar, precisamos dizer que estes aspectos
que estão faltando na visão dos irmãos naArgentina também estão fal
tando de modo geral na igreja no mundo. Em segundo lugar, é certo que
qualquer prosseguimento na obra de restauração da igreja hoje depen
derá da Incorporação dos princípios fundamentais proclamados pelos
irmãos, tais como: 0 evangelho do reino, o senhorio de Cristo, os prin
cípios gerais do discipulado (não uma cadeia humana de autoridade,
mas os princípios que Jesus aplicou ao discipular os doze), a restaura
ção da normalidade divina para toda a vida do homem (família, empre
go etc. — não apenas a vida religiosa) e o alvo de Deus de unir sua igreja
na terra para que o mundo creia (Jo 17:21-23).
A Igreja do Século X X -A História que Não Foi Contada
124
C a p ítu lo 9
O MOVIMENTO DE
DISCIPULADO NOS EUA
C
Movimento de Discipulado, que ganhou projeção mundial na
década de 70, surgiu simultaneamente naArgentina e nos Esta
dos Unidos. Porém, os proponentes do movimento na Argenti
na exerceram uma influência marcante no movimento nos Estados Uni
dos. Numa conferência em Filadélfia, Pensilvânia, em 1973, os missio
nários Keith Bentson e Orville SvrâidoU levaram para lá a mensagem de
discipulado vinda da Argentina. Também em 1973, Juan Carlos Ortiz
começou a ministrar nos Estados Unidos e seu livro, “0 Discípulo”,
causou grande impacto lá.
0 foco do movimento nos Estados Unidos aconteceu em Fort
Lauderdale, Flórida, onde um grupo de mestres na Palavra havia come
çado a estabelecer-se desde 1968.0 que os atraiu para aquele lugar foi
uma organização formada em 1966 por lun grupo de homens de negóci
os cristãos, que patrocinava conferências para ensinar a Palavra no con
texto da renovação carismática. Nos anos que se seguiram, cinco proe
minentes mestres na Palavra de Deus estabeleceram-se lá, formaram
entre si um relacionamento de aliança e começaram a publicar a revista
“NewWine” (Vinho Novo), para propagar seus ensinos. Os nomes desses
homens são; Bob Mumford, Derek Prince, Don Basham (1926-1989),
Charles Simpson e Ern Baxter.
A NECESSIDADE DE REFORMA PRODUZIU
O MOVIMENTO DE DISCIPU U DO
Como vimos nos capítulos anteriores desta série, a restauração
da igreja no século XX é um processo contínuo de reforma e avivamen-
125
to. Arthur Wallis (conhecido preletor e autor inglês), expressou isto do
seguinte modo:*®
Em síntese, queremos mostrar que cada onda de bênção para a igreja
não veio apenas para trazera renovaçãoúnediatadavidaesptrttualdaque-
la geração, mas também a recuperação de verdade espiritual Isto significa
que em iodos os grandes movimentos através dos anos, o Senhor temprocu-
rado recuperar averdadeperdida trazendo o seupovo de voltaao Cristianis
mo Apostólico origiruil.
Podemos notar claramente esta linha de reforma ou recuperação de
verdades nos moveres de Deus através dos séculos, os quais geralmente
trouxeram um impulso de equilíbrio em uma de duas direções, ou para a
verdade ou para a experiência. De fato, estas duas são inseparáveis, mas
precisam estar em equilíbrio para atíngt o objetivo de Deus. Por esta razão.
Deus sempre age para erfatizar doutrina e princípio, ou pureza e plenitude
de vida e poder, dependendo de qual está em maior declínio.
Mas, qualquer que seja a êrfase ou verdade específim oufase de experi
ência envolvidas num determinado mover, na mente e no propósito de Deus
sempre há apenas um objetivo fmal emvistcLEste objetivo é uma igreja—
lavada pela água da Palavra de Deus— que viverá e expressaráplenamerde
a Cristo, não somente na terra mas em todo o universo”.
Com a forte ênfase em renovação espiritual que veio com o Movi
mento Carismático, foi inevitável que o pêndulo oscilasse agora em fa
vor da recuperação da verdade. A falta de uma base na Palavra, de uma
estrutura para a formação de caráter e de maturidade no MovimentoCarismático produziram, então, o Movimento de Discipulado. Este
movimento foi uma das tentativas mais sérias deste século para trazer
iraia reforma profunda à igreja, tanto na doutrina como na prática. Numa
de suas conferências, os preletores afu-maram ser este movimento “tão
revolucionário quanto a Reforma, tão radical quanto o Movimento
Anabatista”.
De acordo com as palavras de Bob Mumford: “0 Movimento de
Discipulado nasceu diu-ante uma época em que todo tipo de autoridade
estava sendo desafiado. As pessoas tinham necessidade de pertencer ou
fazer parte de alguma coisa. Havia também um clamor generalizado por
disciplina pessoal e as pessoas ansiavam por ter suas vidas mais
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi (Contada
126
estruturadas. Por causa da necessidade de pertencer a alguma coisa,
veio uma ênfase em relacionamento de aliança. A partir da necessidade
de disciplina, veio a idéia de líderes discipuladores que se responsabi
lizariam pelo crescimento espiritual dos seus seguidores”'̂ '.
Temos a seguir trechos de uma carta publicada em 1974 na revis
ta “New Wine” que expressa de maneira comovente a necessidade de
estrutura e comunhão, ausentes no movimento carismático:
Li a revista sobre discipulado e chorei. Nosso primeiro encontro com
Jesus fo i numa grande igreja carismática. A passagem por lá de todos os
preletores famosos no movimento carismático era algo empolgante. A músi
ca era excelente e sempre havia muitas conversões. Meu marido e eu come
çamos a ministrar de diversas maneiras. No intio era tão emocionante impor
as mãos sobre as pessoas e ver o Senhor batizá-las no Espírito Santo! Era
umaalegriaministrarnasáladeoraçãoesaberqueDeusestavadando-nos
sabedoriaeconhecimentosobrenaturaisparaministraraesíranhos. Oramos
com tantas pessoas, a maioria das quais nunca mais vimos.
Mas depois de três anos ministrando a cada domingo na sala de oração,
deparamo-nos com apossibãidade de mudar para outra cidade. Quando eu
disse isso ao homem responsável pela sala de oração, ele replicou: “Como
são mesmo os seus nomes?” Sini tínhamos o melhorensinamento naPalavra
quealguémpoderiater—emclassescomoutras500ou600pessoas. Tínha
mos grupos pequenos para comunhão— uma vez por mês com um grupo
diferente cada vez.
Marcamos uma conversa com o pastor com duas semanas de antecedên
cia, esperamos uma hora para vê-b, e ele rapidamente nos fez ouvir uma
mensagem gravada em fta Havia aqueles mestres rrvaravilhosos. Deus os
usavapoderosamente.Tentamostravarconhedmeniocomváriosdeles. Como
ansiávamos por um reku:ionamento com algwTS cristãos maduros para que
pudéssemos conversar com eles e receber deles sabedoria e experiência no
Senhor. Eles nunca eram rudes. Eramapenas muito ocupados.
Sim, nós tínhamos amigos íntimos, mas na maioria, eram pessoas com
quem tínhamos orado para receber o batismo no Espírito, e em muitas áreas
práticas éramos como cegos tentando guiar outros cegos, trocandofitos
gravadas numa tentativa de obter a^uma luz em vários assuntos.
Osgrandesencontrosaindacontinucmacontecendo. Raramente partid-
pamos deles. Temos visto as curas, os milagres, as multidões sendo salvas.
0 Movimento deDisdpulado nos EUA
127
as longasfilas esperando por ministração. Mas eles não se especializaram
na cura do anseio do coração por discipulado.
Louvamos a Deus e nos regozijamos pela maneta como ele está moven
do. Somos gratos a Deus pelos meios que ele nos deu para alcançar as
massas através do rádio e da televisão, mas somos gratos aDeus também,
com lágrimas de corações quebrantados, por este último número de “New
Wine”sobre discipulado.
Jack Hayford, um pastor carismático de Los Angeles, Califórnia,
analisa o Movimento de Discipulado da seguinte maneira:
Nodisdpvhdo, euvejoumatentativadelevararenovaçãocarismáticaa
um rwvo nível de maturidade. Esta renovação tem erfaüzado o ensino de
verdades numa medida quase excessiva Multidões de santos cheios do Espí
rito acumulam muita informação e conhecimento, mas poucos estão em
situações de comunhão que produzam uma aplicação prática, interior ou
exterior, daquilo quejoi aprendido. Em resumo, a Palavra não está se “tor
nando came”. A revelação da verdade abunda enquanto a disciplina de apli
car a verdade está quase sempre em faltcL
No discipulado, percebo um anseio por relacionamentos maisprojiindos
entre os crentes. Nenhuma pessoa honesta pode deixar de ver na história
recente da igreja as evidências dasuperfkioMade que avivamentos podem
produzir nos santos. Crescimento pessoal requer relacionamento pessoal
não somente com Jesus, o cabeça, mas com outros membros do seu corpo.
No discipulado, ouço um chamado para desenvolvermos líderes. E indis
cutível que estamos testemunhando uma colheitafenomenal de almas em
nossos dias. 0 cuidado desses crentes recém-nascidos e em fase de cresci
mento exige que cultivemos homens e mulheres maduros para ajudar. Além
disso, uma visão mais profunda do ministério em potencial que há em cada
crente mostra a necessidade de levá-lo a crescer, não só em conhecimento,
masemsabedoria também
Agora vejamos o que Derek Prince, um dos cinco de Fort
Lauderdale, tem a nos dizer:
Em Mateus 24:12 Jesus nos alerta para a característica marcante do
mundo no final dos tempos, que será a “iniqüidade”, ou, no grego, ‘falta de
respeito à lei”. Todos nós temos de tomar cuidado para que este espírito não
se irifiltre na igreja de Jesus Cristo nem a corrompa, mas antes que cultive
mos exatamente o seu oposto: submissão, disciplina, respeito porautorida-
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Fbi Contada
128
de e ordem. A maneira bíblica de produzir esses resultados na vida dos
crentes é discipulado. Discpuhdo, portanto, pode ser considerado um antí
doto divino à crise espiritual no mundo, e a maneta de Deus de fortalecer e
proteger seu povo. Porém, deve ser enfatizado que o discipulado não é um
sistema unificado, mas a aplicação de princípios bíblicos. Precisamos distin
guir entre os princípios que são permanentes e suas aplicações que devem
serjlexíveis e adaptadas".
EXTREM05 OPOSTOS:
TRIUNFALISMO VERSUS COMODISMO
A seguir, temos novamente uma declaração de Bob Mumford
publicada na revista “New Wine” em junho de 1984:
Eu diria que, se há uma única mensagem que a igreja hoje precisa ouvir,
é que Jesus veio para anunciar e estabelecer o reino de Deus. Um reino é
umajorma de govemo, e os cristãos precisam ver o Novo Testamento nesta
luz governamental. Nós perdemos contato com o aspecto governamental e
com a autoridade do evangelho.
A igreja, em sua maior parte, não vê os apóstolos, profetas, pastores,
mestres e evangelistas como homens governamentais, como agentes e re
presentantes do governo de Deus. Não entendemos o reino de Deus em
termos governamentais. Não entendemos que Jesus éwnreie que como tal
emite ordens que ele espera sejam obedecidas. Esta é a mensagem que a
igreja precisa ouvir.
Um novo passo que preveja para os próximos anos é a restauração na
igreja dos ministérios apostólicos eproféticos. Creio de todo o meu coração
que nos próximos cinco anos alguns homens realmente apostólicos e proféti
cos estarão entrando em cena. Em contraste com alguns dos apóstolos
“autodesignados” com sua visão um tanto estreita que alguns de nós temos
visto no passado, esses serão homens de estatura com. grande reconheci
mento, não só nas suas próprias denominações ou movimentos, mas fora
também. Suas vozes apostólicas e proféticas serão ouvidas por grandes
segmentos do corpo de Cristo.
0 desqflo estará no tipo de resposta que a igreja lhes dará Em tempos bí
blicos, quando um prqfetaapareckL emcenaesedirigia aopouo de Deus, havia
duasopções: ouelesrecebktmasuamensagem oquegeraLnentesgnificava
umarrwckmçaemseuscaminhos, ouelestinhamqueseuerlivresdele. Irfeliz-
0 Movimento de Discpidado nos EUA
129
mente, o povo de Deus muitas vezes tem preferido livrar-se dos profetas. Acho
que há um conflito potencial quanto ao tipo deresposta que a igreja dará a es
ses ministérios, àmedtidaqueoSenhoroscolocaemevidência.
Outro aspecto do desafio é: Como esses ministénos hão de corresponder
uns aos outros? Como irão verdadeiros homens apostólicos eproféticos
corresponder uns aos outros? Creio que tem havido uma ‘mudança de clima’
na igreja no sentido de que líderes cristãos nãoparecemser tão inseguros e
discordantes como no passado. Parece haver um verdadeiro anseio por uni
dade e um sincero desejo entre muitos líderes cristãos de reconhecer e
respeitar os ministérios uns dos outros, apesar das diferenças. Isto é cruciai
Se homens com fortes vozes apostólicas e proféticas honrarem e respeita
rem uns aos outros, então esse mesmo tipo de reconhecimentopodepermear
a igreja e assim produzir um entendimento mais ampb do governo de Deus.
Há uma onda de interesse naAmérícapeva descobrir umapostî -a moral
maisestáveL VeJoistocomoumaesperançabemrealepensoqueDeusquer
levar seupovo e este país de volta a ele. Creio que isto pode acontecer Meu
desejo, para mim mesmo e para a igreja, é quefaçamos nossa parte na cura
e restauração tanto da igreja quanto da nossa nação.
Neste último comentário de Bob Mmnford podemos notar uma
tendência importante do Movimento de Discipulado em direção ao
“Triunfalismo” — ou seja, que Deus vai estabelecer seu governo na terra
através da igreja.
Muitos líderes e movimentos nos EUA crêem que Deus vai res
taurar “nossa nação” e não apenas a igreja. Biblicamente, porém, não há
base para tal convicção. Nenhuma nação ou povo, com exceção de Israel,
é especial aos olhos de Deus. 0 alvo de Deus é formar um povo “chama
do para fora” de todas as nações, tribos, povos e línguas — uma igreja
gloriosa, uma noiva preparada para casar-se com Jesus na sua vinda.
A ênfase sobre os aspectos governamentais do evangelho, pro
mulgada pelo Movimento de Discipulado, é bíblica, válida e importante.
0 perigo, porém, é ir ao extremo de achar que a igreja vai restaurar o
governo de Deus sobre as nações antes da vinda de Cristo.
Um relatório de 1976 feito pelas Assem bléias de Deus afirmou
que alguns líderes do Movimento de Discipulado “declaram que sua
missão e a missão da igreja não é mais evangelismo, mas o estabeleci
mento de uma nova ordem na terra com o propósito de trazer o reino.
Algreja do Século XX-A História que Náo Fbi Contada
130
Mas 0 Novo Testamento não indica que podemos estabelecer uma or
dem exterior purificada nesta era”.
Manifestando a controvérsia que envolve este assunto dentro e
fora do movimento, Charles Simpson, numa entrevista, negou qualquer
desejo de estabelecer uma “igreja perfeita antes da volta de Cristo”.
“Nunca ensinei que vamos introduzir o reino sem a volta do Senhor”,
ele disse. Porém, reconhece ter contato íntimo com pessoas que defen
dem tal visão.
Jack Hayford discute o problema com as seguintes observações:^®
Qual 0 objeüüojmal da renovação do Espírito Santo? Creio que a respos
ta bíblica é conhecida por todos nós. A Epístola aos Efésios parece resumi-la
ao declarar que a “estaturaplena” e o estar “sem manchas ou rugas” são
alvos a serem esperados. Mas a questão prática que permanece éseo
Senhor tem a intenção de criar um corpo visível, que possa ser identificado
como algo diferente (a igreja “viva”), separado do corpus maior (a igreja
“institucional”). Não creio que a Bíblia ensine que este seja o nosso alvo.
Aparábola de Jesus sobre o joio e o trigo (Mt 13:24-30) trata claramente
desta questão. A visão de Ezequiel 37sobre o avivamento dos ossos secos
prontamente sugere o desejo de Deus de dar vida a estruturas mortas, em
qualquer lugar onde haja aqueles que “ouvem a voz do Senhor” (v. 4). Na
metáfora dos odres (Mt 9:17) também não se pede para rejeitar os odres
velhos, mas vê-se apossibüidade de renovar o velho eproduzir dele algo com
qualidade de novo.
Um idealismo de visão parece entrar em choque com um realismo de
circunstâncias. Nós, que proclamamos a invasão do poder de Deus nas cir
cunstâncias da vida, estamos predispostos a crer que ele podefazer qual
quer coisa. Mas aBíbliaea evidência da controvérsia em tomo ck) Movimen
to de Discipulado não justificam afédequepossamos achar qualquer fórmu-
lanova que produza um Corpo sem impeifeições.
Quero afirmar que “sem mancha ou ruga" nunca será a descrição do
Corpo físico da igreja impeifeições da igreja do primeiro século, no meio
de sua bênção primitiva, estavam claramente presentes. “0 que é perfeito”
nãochegou, nemchegará até que o próprio noivo venhapara tomá-lopossí-
vel no planofísico, assimcomo ele ofez no plano espiritual
Ocúvodoatualavivamsníonáoé,nomeuporÉode vista, aaboUçãode es
truturas e denominações aflm de criar uma igrejafuncional perfeitamente
0 Movimento de Discipulado nos EUA
131
unificada— um novo corpo católico. Antes, o objetivo atual é que “o amor de
Deus seja derramado em nossos corações peb Espírito Santo”para que este
amorcubraamjultidão dos imperfeiçõespresentes no Corpo. Em Corinto exis
tiam diferentes “casas”, cada uma representando uma ou ta irfiuênda. Não
vejo Paulo denunciando a sua prática de denominar— como sendo de Apoio,
Paulo, Cefas, Cristo. Eu o vejo denunciando a prática de diiM r. 0 coração da
epístola é, sem dúvida, o capítub 13, que nos exorta a amar, enquanto espera
mos a volta daquele que estabelecerá a era do govemoperfeito.
Sejam quaisforem as grandezas da graça santiftcudora que possamos
experimentar pessoalmente, ou até mesmo coletivamente nas assembléias
locais, não há nerúiuma razão bíblica para que esperemos o aparecimento
nos últimos dias de uma igreja perfeita em uma estrutura visível.
Estas declarações de Jack Hayford expressam exatamente o cerne
da controvérsia que envolve náo somente o Movimento de Discipulado
mas, de fato, define duas posições teológicas antagônicas constantemen
te em evidência através da história da restauração da igreja, desde a
época dos Valdenses no século XII até os dias de hoje. Como Hayford
coloca a questão: “Qual o objetivo fmal da renovação do Espírito San
to?” Precisamos somente de avivamento ou também de reforma para
restaurar a igreja? Precisamos somente de vinho novo, ou precisamos
também de odres novos?
A resposta de Jesus está em Mateus 9:17. Nas palavras proferi
das por Jesus neste versículo não existe a mínima referência à possibi
lidade de se renovar os odres velhos. A ênfase central da metáfora é a
necessidade de odres novos — e não de odres renovados — para con
ter 0 vinho novo.
Será que Deus vai soprar nova vida nas velhas denominações ou
rejeitará a velha ordem para levantar uma nova ordem? Na história da
igreja, o institucionalismo sempre foi o inimigo da renovação. Os fariseus
eram inimigos de Jesus. Osjudeus eram inimigos do apóstolo Paulo. A
Igreja Católica era inimiga de \^cliffe, Hus, Savonarola e Lutero. A Igre
ja Anglicana era inimiga de Wesley. As Igrejas Holiness eram inimigas
dos Pentecostais. Os Pentecostais eram inimigos da Chuva Serôdia.
Cremos que a resposta é que tanto avivamento como reforma são
necessários para a restauração da igreja. Ao examinar Atos 3:19-21,
A Igreja do Século X X -A História que Não Foi Contada
132
podemos ver que a economia de Deus inclui tanto “tempos de refrigé
rio” como também “tempos de restauração” até a volta de Cristo. Para
os ossos secos de Ezequiel 37 receberem o sopro do espírito de vida
sobre eles, é necessário que primeiro sejam reagrupados. Cremos que
a primeira reforma foi através do primeiro apóstolo, Jesus Cristo (Hb
3:1), que aboliu a velha aliança da lei para introduzir a nova aliança da
graça (Hb 8:13; 2 Co 3; 13-14). A segunda reforma veio no tempo de
Lutero, quando as Sagradas Escrituras foram restauradas para o povo
em sua própria língua, a salvação foi restaurada à base bíbhca de fé e
não de obras (Ef 2:8-10), e a estrutura monolítica e não bíblica dalgreja
Católica foi desestabilizada. A terceira reforma está seaproximando,
na qual os apóstolos e profetas serão restaurados como os fundamentos
da igreja (Ef 2:20), o corpo de Cristo será edificado com a palavra viva
(Ef 4:11-13) e uma igreja gloriosa será apresentada (Ef 5:27) ao Senhor
Jesus Cristo na sua vinda.
Esta igreja demonstrará ao mundo o governo de Deus tanto na
vida mdividual dos seus membros quanto na sua vida coletiva. Ela será
uma testemunha poderosa tanto da santidade divina quanto do poder
divino, produzidos em fracos seres humanos pelo Espírito Santo. 0
mesmo nível de perfeição que havia na Cabeça, Jesus, quando ele estava
na terra num corpo humano, será manifestado no Corpo, a igreja, no
fim da história. Jesus voltará, não para aperfeiçoar a igreja moralmen
te, mas para transformá-la fisicamente segundo o seu próprio corpo
glorioso (Hb 9:28; Fp 3:21). E assim, à frente dela, como um general à
frente do seu exército, ele começará o processo de trazer toda a criação
de volta ao domínio de Deus.
Da mesma forma que é errado presumir que a igreja possa trazer
0 governo de Deus para as nações do mundo antes da volta de Cristo,
também é errado duvidar do poder de Deus para santificar os homens
agora. Se fizermos isto, estaremos relegando as qualidades da igreja
descritas em Efésios 5:27 (gloriosa, sem mácula, santa e irrepreensível)
a um nível apenas espiritual e não prático. Esta posição é bem semelhan
te à de muitos na história da igreja que diziam que os sinais, os mila
gres e os dons do Espírito eram só para o tempo do início da igreja e
não deveriam ser esperados hoje. Nesses dias esta posição está rapida-
0 Movimento de Discipulado nos EUA
133
mente desaparecendo de cena diante das extraordinárias evidências
ocorridas no século XX, que provam justamente o contrário. Da mesma
forma, devemos crer que o mesmo Deus que restaurou os dons do
Espírito à igreja em nossa geração, irá continuar a sua obra de restaura
ção a ponto de fazer coisas até hoje inéditas tais como levantar apósto
los e profetas, reformar radicalmente a estrutura da igreja e restaurar
um nível de santidade, amor e poder nunca visto até então na igreja.
O d e s m o r o n a m e n t o d o m o v im e n t o
DE DISCIPULADO
Toda revolução ou reforma produz controvérsia, excessos e abu
sos. 0 Movimento de Discipulado não foi uma exceção. De fato, houve
tanta controvérsia e tantos abusos que, apesar de várias reimiões duran
te a década de 70 entre os líderes de ambos os lados para tentar uma
reconciliação, o núcleo dos cinco que iniciou o movimento começou a se
desintegrar em 1984 e por volta de 1986 o movimento acabou e a revista
“New Wine” deixou de ser publicada.
Derek Prince, o primeiro a retirar-se do grupo dos cinco, enviou
uma carta aos pastores e líderes-chave declarando sua posição. Eis uma
porção desta carta:
Há doutrinas e práticas centrcãs nas igrejos císsociadas aos meus irmãos
que não me parecem ter wna base bíblica correta: especificamente, que todo
crístãodeueterumpastorhumaiiopessoal,eapráticadeumpasiordarcober-
tura trcmslocalpara outro pastor. Não vejo nenhuma evidência no Novo Testa
mento de que todo crente tivesse umpastor humanopessooL Nem tampouco
vejo precedente bíblico para um pastor dar cobertura translocal para ouú-o
pastor Creio que os ministérios apostólicos epastorais são distintos e não
podemocuparolugarumdooutro. Umaaplicaçãoerrôneadedoutrinaepráti-
ca nessas áreas pode ter um efeito restritivo no crente individual e no modo
como 0 corpo coletivo de Cristo fimciona. Por causa de meu ministério de mes
tre, creio que seja minha obrigação delinear claramente aquelas áreas nas
quais meus pontos de visba diferem daqueles dos meus irmãos.
Bob Mumford leu uma declaração em uma reunião de pastores
em 1989 a respeito de seu envolvimento no Movimento de Discipulado
que dizia o seguinte:
A Igreja do Sécub XX-A História que Não Foi Contada
134
“Eu me arrependo. Eu estava errado. Eu peço perdão. ” Tomar pública
esta. declaração era uma questãopessoolpara Mumford. Elefora incapaz de
reencontar seu caminho depois de se desligar do movimento em 1984. Ele
haviapedidodescuIpasnaquelaépoca,masachouqueistDnãoerasufíciente
porqueJoravagodemais.Depoisdemuitoaconselhamentoeoração,Munford
decidiu que precisava arrepender-se publicamente de sua responsabilidade
em estabelecer umsistema através do qual tantas pessoasJoramJeridas
peb uso inadequado de autoridade.
Tambémestavampresentesnestareunião, e apoiando estadeclaração,
0 ex-líder de discipulado Derek Prince e Alice Basham, viúva do ex-líder de
discipulado DonBasham OqueMumfordnãoesperavaeraarespostadeex-
segiÉdores e de cristãos que tinham desenvolvido atitudes de amargura em
rehção às pessoas do movimento. Muitos, em lágrimas, expressaram grati-
dão,equesentiamquesuasamargurassecretasestauamsendo removidas.
Disseram a Mumford que tinham necessidade de ouvir o que ele disse, e
pediram perdão por o terem julgado tão fortemente.
Muniford declarou que no inícto dos anos 70 os carismáticos independen
tes precisavam de ensinamento sobre autoridade espiritual discipulado e
cuidado pastoral Mas extrenvos “errôneos e prejudiciais” entraram no movi
mento que logo ofuscaram o bem que alguns dos princípios de discipulado
faziam às pessoas que os usavam corretamente. Ele admitiu que houvera
uma “submissão nãosadiaqueresultouemobediênciaperversaermobíblica
a líderes humanos”. Ele se responsabilizou por estes abusos, dizendo que
muitos deles aconteceram sob sua esfera de autoridade.
Mumford insiste que prestar contas (ser responsável a alguém),
treinamento pessoal sob a direção de outra pessoa, e cuidado pastoral
efetivo são bíblicos e ainda muito necessários. Mas disse que devem ser
praticados dentro dos limites do Novo Testamento.
“Prestar contas a alguém não significa que outra pessoa deva decidir por
mim’’,disseMwriford. “Sigrüficaqueeununcatereidetomarumadecisãosozi-
nho.lstoéumgrandeprivilégio.VeresteprincpbserdistorcidoJoiamaiordor
daminhavida Prestarcontassimple^nenlEsignfficapermitirquemeusamigos
medescfiematercertezadequeestoupraticandoascoiscisqueestoufalando”.
CharlesSimpson tcunbémapreseníoucúgwvas desculpas: “Pessoasforam
feridas. Emmuitoscasoshouveabusodeauíoridade epessoasforamaconse-
Ihadas afazer coisas que mincadeveriam ter sidoaconselhadas afazer".^
0 Movimento de Discipulado nos EUA
135
Os líderes agora admitem que o movimento cresceu muito de
pressa e que cristãos imaturos foram colocados em posições de lide
rança. Eles souberam de casos em que os líderes exigiam que seus
discípulos recebessem sua aprovação antes de tomar decisões como
noivado, casamento, mudança, e até mesmo visitas a parentes durante
um feriado.
Ern Baxter recusou-se a comentar a declaração de Mumford.
Charles Simpson declarou que apoiava a declaração de Mumford como
uma declaração pessoal. Mas advertiu sobre o perigo das pessoas des
cartarem os princípios de discipulado como resultado disto. Simpson
disse que ações individuais de fato precisavam ser corrigidas. “Eu fiz
coisas das quais me arrependo e quero realmente ser perdoado, e real
mente quero ver restauração.” ®̂
Simpson disse que crê e ensina sobre relacionamentos de alian
ça. “Não Justifico 0 fato de ter feito coisas erradas. Mas não posso re
nunciar a todos os relacionamentos de aliança que tenho. Não posso
fazer isto por motivo de consciência.” ®̂
Simpson acrescentou que sentia necessidade de desculpar-se com
os outros mestres — Mumford, Prince, Basham e Baxter. “Assumimos
compromissos uns com os outros”, ele disse. “Milhares e milhares de
pessoas assumiram compromissos, pelo menos em parte, porque nós
assumimos compromissos. Por várias vezes pensamos em nos separar,
em 1976,1977,1978 e 1980. Nessas ocasiões, com exceção de 1980, fiz
pressão sobre os outros mestres. Disse a eles: ‘Não podemos nos sepa
rar.’ Eu tinha um sentimento errado de que perderíamos credibilidade
e trairíamos as pessoas”.̂ ®
HojeSimpson dá cobertura às “Igrejas da Aliança”, a partir de
sua base em Mobile, Alabama. Observadores dizem que estas igrejas
usam princípios refmados de discipulado, enfatizam a formação de igrejas
e o treinamento de líderes maduros. Mumford, Prince e Baxter têm
ministérios de ensino independentes.
CONCLUSÕES
E desta forma, o Movimento de Discipulado nos Estados Unidos
esfacelou-se. 0 saldo tanto foi negativo como positivo. 0 principal fator
A Igreja do Século XX-AHistóriaque Não Foi Contada
136
negativo é que o movimento violou a agente da obra de Deus no mundo
— a igreja. Uma verdadeira reforma deve mudar a igreja, levando-a de
volta aos seus fundamentos bíblicos e apostólicos. 0 Movimento de
Discipulado passou por cima da igreja em seu zelo de dar uma solução
radical para a igreja acomodada. Ao estabelecer uma cadeia piramidal
de autoridade formada de “super” pastores, que cuidavam pessoalmen
te de outros pastores, que, por sua vez, cuidavam pessoalmente de seus
discípulos, houve uma forte tendência de ignorar e violar o princípio do
corpo de Cristo.
Houve uma forte ênfase nos métodos de Jesus Cristo para ti-einar
seus doze discípulos, enquanto pouca importância foi dada aos dons e
ministérios do Espírito Santo no corpo de Cristo. A ênfase era em obe
diência ao homem e à palavra escrita, em vez de cultivar sensibiUdade e
comunhão no Espírito Santo para manifestar o Cristo vivo na igreja.
0 mistério do reino é Cristo. 0 mistério de Cristo é a igreja. 0
fundamento da igreja são os apóstolos e profetas (Ef 2:20). Nas palavras
de Paulo, “pela revelação me foi manifestado o mistério...o qual em
outras gerações não foi manifestado aos filhos dos homens, como se
revelou agora no Espírito aos seus santos apóstolos e profetas, a saber,
que os gentios são co-herdeiros e membros do mesmo corpo e co-parti-
cipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (E f 3:3,5
6). Quando tivermos em nossa geração um outro, “se revelou agora no
Espírito” (v 5), aí teremos a verdadeira reforma da igreja com os mi
nistérios fundamentais em ação.
Pelo lado positivo, há muita coisa que ficou do Movimento de
Discipulado que contribuiu para a restauração da igreja no século XX.
Para uma doença mortal (a igreja acomodada), uma cirurgia é melhor
do que paliativos. Denunciar escolas bíblicas, escolas dominicais, títu
los e outras instituições humanas foi uma boa terapia de choque para a
igreja de Laodicéia. 0 movimento trouxe uma ênfase sadia na família e
na comunhão no lar, em vez de uma programação frenética de reuniões
que não permite tempo algum para a construção de relacionamentos
verdadeiros.
Houve uma ênfase em dar bom testemunho na vida diária no lar,
na escola e no local de trabalho, em lugar de injeções constantes de
0 Movimento de Discipulado nos EUA
137
experiências emocionais. A ênfase era crescimento e maturidade e não
uma busca constante por algo novo e espetacular.
Na verdade, a década de 70 foi a década de restauração de mes
tres na igreja. A palavra de Deus fluiu como um rio e deixou mn rico
depósito e um forte incentivo à presente geração para “crescer na graça
e no conhecimento de nosso Senhor c Salvador Jesus Cristo” (2 Pe
3:18). Apesar dos abusos, a ênfase em autoridade e submissão, presta
ção de contas e cobertura foram correções importantes para a mentali
dade geral de independência e rebelião — cada um por si e Deus por
todos — que aflige a igreja acomodada de hoje.
A humildade e o quebrantamento dos homens responsáveis por
este movimento, ao reconhecerem seus erros e acertar as coisas com
outros irmãos no ministério e com todos os membros do corpo de
Cristo que foram prejudicados de alguma forma, é talvez o mais impor
tante legado de todos. Este é o “caminho sobremodo excelente” que leva
ao avivamento. “Porque assim diz o Alto e Excelso que habita na eterni
dade e cujo nome é Santo. Num alto e santo lugar habito, e também com
0 contrito e humilde de espírito, para vivificar o espírito dos humildes
e para vivificar o coração dos contritos” (Is 57:15).
A Igreja do Século X X -A História que Não Foi Contada
138
Capítulo 10
AQUEDADOS
TELEVANGELISTAS
L
ma nova geração de evangelistas, em sua grande maioria pente
costais ou carismáticos, se levantou nas décadas de 70 e 80 usan
do a televisão como principal meio de divulgação do evangelho.
São os chamados televangelistas, que surgiram principahnente nos Es
tados Unidos para pastorear a “igreja eletrônica” do século XX. Entre
os mais proeminentes podemos citar: Pat Robertson com sua rede de
televisão CBN, Jim Bakker com sua rede de televisão PTL, Rex Humbard,
Oral Roberts, Jimmy Swa^art, Robert Schuller, Kenneth Copeland,
James Robison e muitos outros.
Alguns alcançaram projeção mundial com a transmissão de seus
programas para vários países da América Latina, África e Ásia. Algims
propagaram fortemente um evangelho de prosperidade e sucesso, como
Robert Schuller com seu programa “Hora de Poder” ; outros pregaram
uma mensagem carismática enfatizando cura e libertação. Jimmy
Swa^art, em particular, ficou conhecido por combater ferozmente o
comunismo, o mundanismo e muitas outras coisas. De todos eles, os
que mais alcançaram popularidade no Brasil foram Rex Humbard, Pat
Robertson e Jimmy Swa^art,
Mas 0 que mais marcou a era dos televangelistas foi a queda de
alguns deles envolvendo sexo e dinheiro no final da década de 80. Nos
jornais e revistas do mundo inteiro apareceram manchetes como estas:
“Guerra Santa: Dinheiro, Sexo e Poder”, “Deus e o Dinheiro: Escândalo
Sexual, Luxúria e Ganância por Poder Explodem o Mundo da Pregação
na TV”.
139
Principalmente dois pastores das Assembléias de Deus foram en
volvidos nesses escândalos — Jim Bakker e Jimmy Swa^art. Este últi
mo denunciou um pecado sexual de Jim Bakker, ocorrido sete anos an
tes, e Bakker foi obrigado a resignar em março de 1987 da presidência da
PTL e do programa de TV que apresentava com sua esposa Tammy Bakker
Ao resignar ele entregou o controle da PTL nas mãos de outro
televangelista (só que fundamentalista), Jerry FalweU, que trouxe à luz re
velações mais chocantes ainda sobre o uso inadequado do dinheiro
ofertado pelos contribuintes, o qual proporcionava ao casal Bakker uma
vida de luxo e riqueza, com salários anuais de milhões de dólares. Isto
levantou um fogo cruzado de acusações e declarações que, bem aproveita
do pelos meios de comunicação, deixou chocado e perplexo o meio evan-
géhco. PTL (que significa Praise the Lord— Louvai ao Senhor) foi interdi
tada pela justiça comum que averiguou suas muitas irregularidades finan
ceiras. Em 1989 Jim Bakker foi considerado culpado de fraude através
de correspondência, rádio e televisão, e de conspiração por desviar fun
dos para seu uso pessoal, sendo, então, sentenciado à prisão.
Mas um novo choque viria quando aproximadamente um ano de
pois do escândalo Bakker, foi revelado que o próprio Jimmy Sv^raggart
também estava em pecado sexual. É verdade que ele confessou em feve
reiro de 1988 diante de sua igreja em Baton Rouge, Louisiana, ter peca
do contra Deus e o povo, mas infelizmente isto só aconteceu depois que
seu pecado foi descoberto pela imprensa, e mais triste amda é que antes
de ter acusado Bakker ele mesmo Já estava em pecado. Nem é preciso
dizer o quanto a imprensa secular tirou proveito de mais esse escânda
lo, ainda mais que a pessoa de Swa^art Já era famosa por seus ataques
mordazes contra quase todas as coisas. Em março de 1988 o Presbité
rio Executivo das Assem bléias de Deus o proibiu de pregar por um
ano. Swa^art insistiu em retornar a pregar depois de três meses e
resignou como ministro das Assembléias de Deus.
Paralelamente a esses acontecimentos, dois outros fatos en
volvendo dois outros televangelistas foram amplamente divulgados e
explorados pelos meios de comunicação. 0 primeú-o envolveu Oral
Roberts que, em janeiro de 1987, declarou aosouvintes de seu progra
ma nacional de televisão que teria de levantar 8 milhões de dólares para
trehiar médicos para serem missionários no Terceiro Mundo ou do
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
140
contrário Deus iria tirar sua vida. De fato, o dinheiro foi levantado, só
que foi usado para saldar dívidas da Escola de Medicina em vez de
subsidiar os estudos dos futuros médicos, e no final a escola fechou
suas portas por falta de recursos e Oral Roberts não morreu!
Pat Robertson também contribuiu para que houvesse mais sensa-
cionalismo em torno dos evangélicos. Em outubro de 1987 ele afirmou
ter ouvido do Senhor para candidatar-se à presidência dos Estados
Unidos, pois Já era tempo de ter um homem que ouve de Deus na Casa
Branca. Mas não conseguiu passar nem pelas preliminares, em maio de
1988 estava oficialmente fora da corrida presidencial e de volta à sua
rede de televisão CBN, que com sua ausência caíra muito em audiência
e em contribuição fmanceira.
QUALOSIGNIFICADO DESSES ACONTECIMENTOS?
Jamie Buckingham, um equilibrado escritor e ministro carismá
tico dos Estados Unidos, escreveu em Junho de 1987 uma análise franca
e sensata, porém amorosa, sobre esses acontecimentos (menos o que se
refere a Swa^art que viria à luz no ano seguinte). 0 título do artigo é
“Deus Está Abalando Sua Igreja” e foi publicado na revista americana
“Charisma”. Para entender melhor o significado desses fatos, citaremos
agora alguns trechos desse artigo:
UnncoisaeracertaDeusesíajüausandoaimprensaparaejqxrcoisasque
opovodeDeustentaraesconder— coisasqueestavamerradas... Lembrei-me
dapakivraqueDeushauiamedadoanteriormentedequeeletinhainstigadoa
imprensasobre a igreja assim como instigara as locustas sobre IsraeL Em ou
tras palavras, não podíamos culpar os meios de comurwxiçãopelo que estava
acontecendo.EleseraminsírumentosdeDeusparasaquearoscampos... Tbr-
nou-se evidente que não era importante o que Bakker, Falwell ou Swoggart
disseram Aquesião era: OqueDeusestáfakindoeoqueDeusestáfazendo?
Há certas épocas na história quando “Deus desce”. Os carismáticos gos
tam de pensar sobre o Pentecoste como uma dessas épocas, quando o sopro
suave do Espírito veio sobre a igreja e a encheu de poder. Mas nós precisa
mos lembrar que o Espírito Santo não é somente pnetana, queéo conceito
do Novo Testamento para um espírito manso e encorajador. Ele é também
ruach que é a pakwra do Velho Testamento para bramido, um vento destrui
dor Embora osfundamentalistas neguem o poder miraculoso do pneuma,
eles entendem o propósito do niach. Talvez seja esta uma das razões por
A Queda dos Televangelistas
141
que Deus permitiu que o líderfundamentalista, Jerry Fcãweü, entrasse no
campocarísmático—paraexecutarjustiça
A geração de hoje é caracterizada por incontáveis líderes cristãos que
têm intitulado seus ministérios com seus próprios nomes. Não há nada erra
do em identificar-se com um nome, o problema está na síndrome de super-
estreh. Quando perguntei a um líder de um dos maiores ministérios nacio
nais, a quem ele se submetia, ele prontamente respondeu: “ADeus”.
Acontecimentos recentes, porém, provam que isto não é mais uma res
posta adequada Não basíasubmeter-seaDeus. Você deve tambémsubme-
ter-se ao povo de Deus. Jerry FalweU estava cerio quando disse que, se um
ministro recebe dinheiro do público, ele precisa prestar contas ao público. E,
além disso, ele precisa prestar contas a uma igreja local e aos líderes locais.
É tempo de se levantar um padrão de éticas, de responsabilidade fiscal, de
comportamento e de estilo de vida.
E difícil, quando se é importante, rico e poderoso, humilhar-se a si mes
mo. Muitos de nós suspeitavam que Deus teria de, mais cedo ou mais tarde,
tratar com a PTL. 0 programa tomara-se uma hora inteira de comercial de
imóveis. Era um embaraço para muitos cristãos sérios.
Eu estremeço quando ouço alguns televangelistas dizendo, como um
quefreqüentemente diz: “Este ministériofoi comissionado por Deus para
introduzir a volta de Jesus Cristo. ” Um dos mais conhecidos televangelistas
da América recentemente enviou um cartão dizendo que Deus lhe falara que
somente seu ministério era abençoado por Deus — porque ele era puro.
Estremeço diante da arrogância pessoal e dafalta deprestação de contas
entreoslíderes—quesãoasprincipaiscausasdoestiberradodevidaeesban-
Jamento. Conheço apenasumhomem entreoslíderesdosmaioresministérios
daAmérica, quesubmetesuavidapessoalacokgasdemirtistérioquenãosão
seus empregados oucegamente leais àsuaposição. CreioqueDeusestácha-
mando os líderes, não apenas os televangelistas, mas todos os pastores e líde
res leigos, para estarem pessoalmente recebendo cobertura de colegas no
ministério. As tentações para tomar-se orgulhoso ou iludido são imensas. 0
abalo de hoje está forçando os líderes a buscarem uns aos outros.
Esü-emeço diante das técnicas usadas para levantar dinheto pela maio
ria dos principais ministérios daAmérica A maioria da correspondência
enviadapor mala direta torce a verdade. Como pode Deus abençoar uma
cartaproduzidapor um computador, assinadapor uma caneta automática,
falando ao destinatário que o líder está orando por ele naquele momento?
Como Deus pode usar um televangelista que vaiaoaredizao povo que tem
gasto todo o seu dinheiro e necessita desesperadamente de mais contribui
ções —enquanto ele e toda suafamãia estão dirigindo automóveis de50.000
dólares e vivendo em mansões?
A Igreja do Século X X -A História que Não Fbi Contada
142
Creio que há maneiras legítimas de se levantar dinheiro. Mas, enquanto
os líderes desses ministérios náo estiverem dispostos a usar esses métodos
em vez dos métodos do sistema do mundo, o poderoso ruach de Deus conti-
nuaráasoprar sobre toda a igreja.
Um profissional em levantar dinheiro, que se tornou rico escrevendo
cartas de apelo para dezenas de ministérios, estava vangloríando-se numa
reuntâo de evangélicos recentemente que levantar dinheiro era apenas um
problema demográfico. Ele disse queé como as listas atuariais de seguro. j4s
companhiasdesegurosabemquantaspessoasmorrerãonaqueleano —só
não sabem quem. Do mesmo modo, os levantadores defundos sabem que
através de certos apelos para certos grupos demográficos, eles conseguirão
uma certa quantidade de dinheiro. Este levantador defundos zombou de
alguns de seus próprios clientes de ministério que crêem ser um milagre
quando o dinheiro entra através dos contribuintes— dizer isto é o mesmo
que crer queé um milagre que o sol se levante a cada manhã.
Lembro-me do dia em que o homem número dois de um dos maiores
ministérios da TV resignou e veio a mim chorando. Ele não podia mais
agüentar a hipocrisia e as blasfêmias constantes no levantamento de dinhei
ro. Duas vezes ao mês, ele disse, eles se sentavam no escritório do
televcuyelista, rindo sobre apróximaíáticaparalevantar dinheiro. Oúltimo
casofoi uma campanha de mala direta usando cartas que diziam que, en
quanto 0 televangelista estava orando especificamente pela pessoa (nome
do destinatário). Deusfalara com ele para escrever a ela esta carta “pessoal”
dizendo que, se desse 25,50, lOOouLOOO dólares (dependendo da quantia
costumeira registrada nos arquivos). Deus lhe concederia umfavor especiaL
Isto é nada mais do que uma atualização pentecostal da prática da Igreja
Católica de vender indulgências na Idade Escura Deus aboliu isto com um
abalo poderoso naReformaProtestante.Ao mesmo tempo, umpouco seme
lhante ao que fez na Torre de Babel, Deus confiindiu as línguas (doutrinas),
de modo que ainda hoje os cristãos têm problema de comunicação.
Agora este abolo está oconendo novamente. Fbiprecipitadopeb escân-
dab sexual e financeiro na PTL, mas istofoi simplesmente o pcwb que Deus
usou para detonar a bomba. Desta vez, por envober ministérics altamente
conhecidos epor vivermos numa era de comunicação instantânea, o mover
deDeus, ao invés de levar anos paraser compreendido, estásendo revelado
náo mais tarde do queno noticiário das seis horas.
DeusnãoseparouoscidadãosdeBabelparapuni-los, masparalhesdevol-
versuahumanidade. OpnMemacomeçouquandoeles disseram- “Vamoscons-
tnMrumaddade.”Deu3 nuncaabençx)uoconceitodeadade.Elechamapara
umadistríbuiçãodapapukiçáo.Masaspessoascontinuamaconcentrar-seem
grandes ministérios, assjuntaradenominações,aidentjficarsecomwndeter-
mtadopastor— tudoissocomopropósitodefalaremamesmalíngua.
AQueda dos Televangelistas
143
Meulwro,“JesusWorld”,fcJousobreosperigosinereníesemgrandesmmis-
térios. 0 livro tomou-se impopular, pois convidava os líderes a retomarem aos
métodos e estilo de vida simples de Jesus, submetendo-se um ao outro, em
kigar de viver como reis e ditadores. Poucos, talvezninguém, comexceçãodo
evangeUstacatólicoromanoJohnBertohicci, estão dispostos apraticar o estib
devklado televangelista David Mainse, de Toronto, Canadá Mainse decidiu
viver num apartamento no cento da cidade para estar perto das pessoas a
quemnunistra. Ocasionalmente, aindavaitrcáxÉiardebiddetaparaquepossa
testemunhar para pessoas ao longo do caminho. Que Deus nos dê mais ho
mens como ele— e menos que vivamcomo reis, que, além degrandessaláríos,
têmgarantido todas as despesas pagas, enquanto proclamam que “acabaram
de gastar seu último centavo para missões e precisam de mais dinheiro”.
Agora, mois uma vez. Deus desceu eestá caminhando entre nós. Ele não
se agrada de nossa tentativa de currprir nossas obrigações individuais atra
vés de doações a grandes ministérios. Devíamos estar abrindo nossos lares
em lugar de mandar ofertas para instituições de caridade. Devíamos estar
evangelizando em vez de alugar um televangelista para fazer isso por nós.
Deusestáforçando-nosavoltarparanossasigrejaslocais,oúnicokyaronde
0 verdadeiro ministério— o ministério pessoal — pode acontecer.
A televisão tem sido o maior meio de difusão do evangelho desde a
invenção da imprensa Mas com grande oportunidade vemgrande responsa
bilidade. Este é um tempo de prestar contas. Deus está checando os livros.
Aqueles que gostam de aparecer em público estão sendoJulgados em públi
co. Mais uma vez, parece que Deus entrou no tempb para virar as mesas dos
cambistas. Seu sopro está passando através do seu reino, limpando e pur^i-
cando.OresultadoJinalserácomosempre:formarumpovoàimagemdeseu
Filho e dar glória a ele mesmo.
Tudo isto está acontecendo por uma razão: revelarasoberaniadeDeus.
Eleé,aànKidetudo, “umfogoconsunvdor...removendoascoisasabaláveis isto
é, coisas criadas para que permaneçam as coisas inabaláveis” (Hb 12:27).
BAKKERDESCU LPA-SEPORSEU
EVANGELHO DA PROSPERIDADE
Aseguir citamos trechos de um artigo da revista Charisma de dezem
bro, 1992,^ que mostra como Deus tem trabalhado na vida de Jim
Bakker nestes anos de prisão, levando-o ao arrependimento eaum
entendimento mais claro do evangelho.
Bakker fo i inicialmente sentenciado a 45 anos de prisão, mas em 1991
teveapenareduzidapara ISanos, depois que uma corte de apelação deci
diu que ela era muito severa. Seus aduogadcs airKla tentam nova redução.
Algreja do Século XX-AHistória que Não Foi Contada
144
Bakker deve ser libertado em 9 de abril do ano 2.000, mas pode receber
liberdade condicional antes desse prazo.
Em uma carta enviada a amigos em 1992, Jim Bakker (56 anos] descul
pou-se por pregar “um evangelho que dá ênjase à prosperidade material”.
‘Atualmente muitos acreditam que os sinais das bênçãos de Deus sobre eles
são um carro novo, uma casa, um bom emprego etc. ”, escreveu Bakker. “Se
estefosse o caso, os proprietários de cassinos, os chefões do tráfico de
drogas e os artistas de cinema são abençoados por Deus. ”
Nacarta,Bakkerqfírmaquetemdedtadováriosmeseslendo, relendoe
anotando cada palavra de Jesus registrada na Bíblia. “Se você levar em
contatodaaorientaçãodaPalavradeDeus,nãoencontraránenhumaindica-
ção deque possa cot}sickrar as riquezas ou bens materiais como sinais das
bênçãos de Deus”, disse Bakker.
Eleperguntcu “Seatribuirmosasposses terrenas... aosfavoresdeDeus,
0 que dizer dos bilhões de seres que vivem em pobreza, ou como nos compor
tarmos se uma recessão econômica nos atinge, ou o que dizer àqueles que
perdem um ente querido?Muitos cristãos ‘apenas de nome’ bla^emariam
contra Deus se perdessem todas as suas posses materiais. ”
Bakker acrescenta: “Peço a todos os que acompanharam meu ministério
quemeperdoemporpregarumevangelhoqueexaltavaapro^)eridademate-
rial. Jesus disse, ‘Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra’. Ele
deseJaqueoamemosacimadetodasessascoisas."Bakkerdissetambémque
umUvro sobre José no Egito, DeusoTbmouemBem, mudousuavida
0 advogado James Toms, de Hendersonville, Corolinado Norte, qflrmou
que a carta é o retrato de um novo Jim Bakker. Tendo perdido a PTL, a
Heritage USA, estando naprisão e tendo de conceder o divórcio asuaespo-
sa, Tommy Fhye, seu cliente ficou grandemente afetado. “Eleperdeu tudo o
que podia perder menos suafé”, acrescentou Toms.
NessacartaBakker explicou: “Penseiquetinhasuperadoadorinsuportá-
vel de perder minha esposa... Bem, de repente, sem que eu esperasse, a
tristeza tomou conta de mim novamente. Fui cbminado pela solidão e pelo
sentimento de abandono e angústia, que somente os que tiveram a experiên
cia de perder um cnmpanheiro ou umapessoa a quem amapode compreen
der. No meio deste sofrimento. Deusfabu ao meu coração, üim, o que imagi-
naqueeu sinto quando você se afasta de mim?’ ”
Naprisão, além deprestar serviços de zeladoriapor 12 centavos de dólar
por hora, Bakker dedica tempo à leitura e a respostas a 100 ou mais cartas
que recebe por mês. Além disso, ele faz cursos de nível universitário em
religião, psicologia e computação, iiforma seu advogado, James Toms.
AQuedadosTeleixmgelistas
145
CONCLUSÃO
o Movimento Carismático alcançou seu clímax com o sucesso dos
televangelistas, mas, assim como Deus julgou o reinado de Belsazar, rei
de Babilônia, que foi pesado na balança e achado em falta e por isso foi in
vadido pelos medos e persas (Dn 5), assim também o reinado dos tele
vangelistas foi pesado na balança e achado em falta. Deus desceu para jul
gar a “Babilônia eletrônica” e expor toda sua corrupção, luxo e riqueza.
Diante desses acontecimentos surge a pergunta: Que papel, então,
exercerá a televisão no mover de Deus dos últimos dias para proclamar a
palavra profética que levantará um povo preparado para a volta de Jesus
Cristo? Nenhum, por dois motivos. Primeiro, porque a televisão como
principal veículo do sistema de Satanás exige muito dinheiro, luxo e vaida
de. João Batista se levantou no deserto, fora do sistema, para anunciar a
primeira vinda de Jesus. Nós também não podemos pregar a palavra pro
fética, que exige desprendimento do sistema, envolvendo-nos com as arti
manhas do sistema deste mundo que estão por trás da televisão.
Em segundo lugar, não haverá espaço no mover destes dias para
uma celebridade pregando para uma multidão passiva de telespectadores.
Porém, muitos vão sair com poder pelas ruas, praças e de casa em casa
profetizando a palavra do Senhor (pois o testemunho de Jesus é o espí
rito da profecia Ap 19:10), num contato pessoal e vivo. Será como diz
em Atos 2:16-18: “Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E aconte
cerá nos últimos dias diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito
sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os
vossos mancebos terão visões, os vossos anciãos terão sonhos; e sobre
os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito
naqueles dias, e eles profetizarão.” Então, não haverá um ou dois ho
mens pregando a palavra do Senhor, mas toda a carne profetizará: ho
mens, mulheres, velhos, jovens, crianças, ricos, pobres, negros, bran
cos, muitos vão levantar-se com poder nos últimos dias para anunciar
ao mundo que a vinda de Jesus está próxima.
A Igreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
146
Capítulo 11
O AVIVAMENTO N A CHIN A
0 œnteùdo deste capítubfoi extraído de um livroeminglês intitulado “China
Miracle-A Silent Explosion”̂ (Milagre naChina-UmaExpbsõo Silenciosa),
escrito peb conhecido preletor e autor inglês, Arthur Wallis (1922-1988). A pri
meira edição deste livrofoi publicadamlnglaterra em 1985; portanto, o leitor
deve compreender que os aœrÉecimentos rwrrados neste capítub se referem
àprimeirarneiadedadécaàadedO.CabelernbraTtambémquetodareJerênàa
à primeira pessoa neste capítub pertence ao autor Arthur Wallis. Ele escreveu
seu livro baseado empesquisas exaustivas, consultas com outros peritos sobre
a China e em algumas viagens ao país. Em uma destas viagens, WaUis teve a
raraoportunidadedeconhecerpessoalmenteumadasigrejascasetasnaChi-
na.Aextensa&q]erienciaematuridadedoautor,Juntocomsuagrandecapcici-
dade de expressão, proporctarvarão ao leitor uma oportunidade inédita de co-
nhecernãosomenteaquibqueDeusJeznaChinarecentemente, mastambém
a importância que isto tem para nós no Ocidente hoje.
INTRODUÇÃO
Sem dúvida, o período mais escuro para a igreja na China, durante os trinta e cinco anos de governo comunista, foi por ocasião da “Grande Revolução Cultural”. Igrejas foram fechadas, pastores
aprisionados, e fogueiras de Bíblias e livros cristãos foram acesas. Pa
recia aos observadores de fora que a igreja na China tinha sido aniqui
lada. Se Deus tivesse reavivado sua igreja no contexto político normal
da China comunista teria sido notável, mas a ressurreição de sua igreja
das cinzas da Revolução Cultural deve ser considerada um milagre.
Geograficamente, a China é um dos maiores países do mundo. 0
movimento do Espírito Santo não tem ficado restrito a alguns poucos
lugares nem só a áreas onde os missionários trabalharam no início.
Tem alcançado quase todas as 29 províncias, regiões autônomas e
municipalidades da China — desde as estepes Isoladas da Mongólia
147
Interior, ao norte, até as tribos das montanhas do sudeste; e desde as
províncias costeiras, com seus milhões de habitantes, até os Umites
montanhosos do Tibete. 0 incrível raio de ação deste movimento o qua
lifica a ser considerado um milagre.
A China é numericamente a maior nação do planeta, com sua
população de mais de um bilhão. De cada quatro seres humanos um é
chinês. Quando os comunistas tomaram o poder em 1949, havia aproxi
madamente quatro milhões de católicos e um milhão de protestantes na
China, mas este quadro foi drasticamente reduzido durante a Revolução
Cultural (1966-1969). Em 1983 foi estimada a existência de provavelmente
50 milhões de cristãos evangélicos, ou seja 5% da população.
Considerando que esta multiplicação fenomenal ocorreu quando
tantos pastores e líderes maduros estavam na prisão e quando o estoque
de Bíblias e literatura cristã havia sido drástica e dolorosamente reduzi
do, isto deve ser considerado, de acordo com qualquer critério, realmente
um milagre. 0 movimento tem sido descrito como “o mais rápido cresci
mento da igreja na história da Cristandade”. Outros têm salientado que a
igreja na China representa agora o maior corpo de crentes no mundo.
UMPEQUENO HISTÓRICO
A China é a civilização mais antiga do mundo. Em sua longa e turbu
lenta história, que abrange 50 séculos, ela tem chegado às alturas do suces
so e realização, e tem mergulhado nas profundezas da derrota e humilha
ção. Foi a China, com seu grande amor pelo aprendizado e pelo estudo,
que nos deu o papel em 105 d.C., e o primeiro dicionário, com 10.000
caracteres. Por volta de 1.000 d.C., eles inventaram a pólvora, a princípio
para fazer bombinhas para espantar maus espíritos. A palavra chinesa
“China” significa “o país central” e no pensamento chinês China é “o cen
tro”, 0 centro do mundo. Além de suas fronteiras estão as raças inferio
res. Este orgulho nacional e autocentralização levou-a a desdenhar tudo
quanto estava acontecendo no mundo em matéria de desenvolvimento.
Qualquer tentativa de intercâmbio comercial com outros países era rejei
tada, pois em seu pensamento a China Ünha tudo e não precisava de nada.
Isto a tornou até o início do século XIX um país fechado. Porém, este iso
lamento seria quebrado à força de tal maneira que deixaria esta orgulhosa
e culta nação envergonhada e humilhada. Neste ponto os poderes ociden
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
148
tais, especialmente a Grã-Bretanha, devem assumir a principal res
ponsabilidade. Nesta épocaforam semeadas as sementes que dariam fruto
no levantamento e triunfo do Marxismo Chinês.
No início do século XIX o fumo do ópio estava se tornando uma
ameaça social na China, sendo a droga adquirida na índia e Turquia
através de contrabando. Seguindo o desprezível exemplo de Portugal, a
Grã-Bretanha, através da poderosa East India Trading Company e com
0 consentimento do governo britânico, envolveu-se no contrabando do
ópio para custear a compra de chá e seda chineses, já que a China se
recusava a comprar produtos britânicos que então fluíam da revolução
industrial. Alarmado, o governo chinês reagiu contra este abominável
tráfico que estava trazendo tanta miséria a seu povo. Isto resultou nas
duas guerras do ópio (em 1842 e 1856), quando a China foi derrotada e
obrigada a entregar a ilha de Hong Kong e outras terras ao redor aos
britânicos, e a permitir a residência de estrangeiros ali com o propósito
de promover o comércio e outras atividades legítimas. Isto foi o início
da violação da China pelo Ocidente.
0 fato de os primeiros missionários protestantes para China pro
cederem da mesma nação, Grã-Bretanha, que apoiava o fumo do ópio,
tornou-se outro aspecto infeliz dessa situação. Foi somente através dos
bons ofícios da East Índia Company que missionários ocidentais conse
guiram a princípio entrar no país. Assim, na mente de muitos chineses,
“diabos estrangefros” (os ocidentais), “lama estrangeira” (como eles cha
mavam 0 ópio) e religião estrangeira eram tudo uma coisa só.
0 raiar do século XX encontrou a China fraca e vulnerável. As
incursões do Ocidente a tinham enfraquecido grandemente e, depois de
séculos de isolamento, ela não estava de maneira nenhuma preparada
para tomar seu lugar ao lado de outros poderes mundiais. 0 governo
imperial Manchu, a dinastia que governara a China por 260 anos, era
ineficiente e corrupto. Ele terminou quando o imperador foi forçado a
resignar em 1911, e os anos que se seguiram à formação de um governo
republicano na China foram tempestuosos.
Outro evento decepcionante para a China ocorreu logo após a
conclusão da Primeira Guerra Mundial, na qual ela lutou ao lado dos
Aliados. Ela esperava que o território chinês ocupado pelos alemães,
certamente lhe seria restaurado, como havia prometido o presidente
OAüivamenío na China
149
americano, Woodrow Wilson; mas em lugar disso, o território foi dado
ao Japão que o capturara dos alemães durante a guerra. Isto produziu
profundo ressentimento e grande reação política. Para muitos chineses
a fé na democracia e no Ocidente estava abalada, e muitos se voltaram
para a Rússia e a Revolução Bolchevista como uma solução para os
problemas da China. 0 marxismo se tornou a grande exportação russa
para a China, e agentes foram treinados em Moscou para incitar a revo
lução e formar células comunistas. Como resultado desta atividade, o
Partido Comunista Chinês foi formado em 1921.
Duas forças lutavam agora na China os nacionalistas e os comu
nistas. Localizados naquela época no sudeste da China, os comunistas,
diante da superioridade do exército nacionalista, decidiram fazer uma
retirada estratégica para as montanhas do noroeste. Isto envolveu um
percurso de 6.000 milhas atravessando 18 cadeias de montanhas e 24
rios. A viagem durou de 1934 a 1936 e, através desta incrível jornada,
conhecida como a Longa Marcha, as forças comunistas, constantemente
atacadas pelos nacionalistas, foram grandemente reduzidas em núme
ros através de doenças e mortes. Também foi durante esta marcha que
a posição de Mao Tsé-tung como líder dos comunistas foi consolidada.Até hoje, os chineses consideram a Longa Marcha como um dos mo
mentos mais admiráveis da sua história. Ela inspirou muitos jovens
chineses a se juntarem ao partido comunista.
A vitória final dos comunistas sobre as forças nacionalistas em
1949 foi um notável acontecimento. Talvez a maior razão tenha sido o
fato de os comunistas terem uma visão, uma causa e um ideal pelos
quais sentiram que valia a pena lutar e morrer. Sua excitação e fé nesta
visão os faziam buscar “converter” outros para sua causa.
OMOVERDEDEUS EAREVOLUÇÀO CULTURAL
A China é basicamente uma nação camponesa ligada à tradição,
especialmente a do Confucionismo. Havia um forte elo entre governante
e súdito, pai e filho, marido e esposa. Embora Mao se propusesse a
melhorar a sorte dos camponeses, ele sentiu que esses laços, junto com
os laços da religião, capitalismo e autocracia, eram os maiores obstácu
los para estabelecer uma nova sociedade marxista, e assim decidiu des
truí-los. Para isso conclamou sua famosa Revolução Cultural em 1966,
A Igreja do Século XX-A História que Não Pbi Ck>ntada
150
que acabou se tornando um dos fatores mais importantes para o mover
de Deus na Chtaa.
Por não confiar no exército nem no partido, Mao convocou um mi
lhão de jovens, os chamados Guardas Vermelhos, e os comissionou para
viajar através da nação destruindo velhos conceitos, costumes e hábitos,
esmagando tudo o que suspeitassem estar tomando um rumo capitalista.
A revolução tornou-se praticamente um “quebra-quebra”. Casas
foram saqueadas, velhos foram abusados, pessoas inocentes condenadas.
Os jovens Guardas Verm elhos eram, muitas vezes, totalm ente
indisciplinados. É dito que um milhão de bebês ile^timos nasceram du
rante este período. Obras de arte de valor incalculável foram destruídas.
Embora a Revolução Cultural fosse o período mais difícil para os
cristãos chineses, desde a tomada comunista em 1949, a igreja da China
esteve sob perseguição. Os comunistas tornaram bem claro que o novo
regime não queria nada com missionários e, no início de 1952, todos
eles, exceto os católicos romanos, tinham deixado o país. Muitos líde
res cristãos chineses que não concordaram em apoiar a igreja oficial
controlada pelo Movimento Patriótico de TrípUce Autonomia (programa
do governo para controlar a igreja que pregava governo, sustento e dis
seminação autônomos), foram para a prisão (entre eles Watchman Nee).
Mas, sem dúvida, a pior fase veio com a Revolução Cultural, es
pecialmente quando os jovens Guardas Vermelhos estiveram no contro
le ( 1966-69). Porém, todo o processo durou 10 anos, presidido no final
pela “Gangue dos Quatro”. No final, todas as igrejas, até mesmo as que
estavam sob a autoridade do Movimento de Tríplice Autonomia e todos
os outros prédios religiosos (os templos e lugares sagrados do
Confucionismo e Budismo), foram fechados e até destruídos. No meio
desta revolução, Jiang Qing, esposa de Mao e líder da “Gangue dos
Quatro”, declarou: “0 Cristianismo na China foi colocado num museu.
Não existem mais cristãos na China.”
Wang Mingdao, líder na época da maior igreja em Pequim, fora
constantemente uma pedra no sapato dos comunistas. No início, as au
toridades tinham dificuldade em achar uma acusação contra ele. Ele se
recusara a freqüentar um seminário, por sentir que era dominado pelos
missionários, e nunca fora ordenado ou sustentado financeiramente pelos
missionários estrangeiros. Como Watchman Nee, ele multas vezes criti
OAvivarnento na China
151
cava os métodos dos missionários ocidentais. Sua única formação para
0 ministério viera do Espírito Santo. Como um homem de Deus, os
comunistas não podiam achar falta nele.
Talvez Wang tenha pregado para mais chineses do que qualquer
outro homem. Sua igreja estava sempre lotada e muitas vezes havia mil
ou mais pessoas do lado de fora para ouvir a palavra que era transmiti
da por alto-falantes. No dia do seu julgamento, toda sua congregação foi
forçada a assistir. Ele foi acusado de ser contra o governo, contra o
Movimento Patriótico de Tríplice Autonomia, e de pregar mensagens
erradas. Ura quarto dos cristãos e outros presentes, por causa da pres
são da igreja oficial, pediu a sentença de morte. Não foi dada a ele
nenhuma oportunidade de se defender, mas tão forte era o sentimento
público em seu favor que as autoridades foram forçadas a libertá-lo.
Mais tarde, ele foi novamente levado a julgamento. Embora nunca
falasse contra o regime, Wang criticou destemidamente os clérigos de te
ologia liberal e os que participavam do Movimento de Tríplice Autonomia,
aos quais ele acusou de trair a Cristo. Ele recebeu uma sentença de 15 anos
de prisão e imediatamente foi submetido ao processo de reeducação co
munista. Dois turnos de “experts” policiais trabalharam com ele dia e noite.
Depois de treze meses de tortura mental, ele cedeu e assinou uma confis
são, que teve de ler publicamente para uma grande audiência. Sua capitula
ção virou manchete nas páginas de todos os jornais: “Eu sou um criminoso
anti-revolucionário. Estou grato ao governo por perdoar-me e salvar-me
das profundezas do pecado...”, e assim por diante.
Poucos dias depois da sua libertação, ele foi visto caminhando para
baixo e para cima nas ruas de Pequim gritando: “Eu sou um Judas, eu traí
meu Senhor.” Na verdade, sua confissão não envolvera uma negação de
Cristo. Poucos dias depois, quando o equilíbrio de sua mente foi restaura
do, ele foi com sua esposa para as autoridades governamentais e retirou
sua confissão. “Prendam-me se quiserem”, ele disse, “mas não trairei meu
Senhor.” Imediatamente ele foi enviado de volta para a prisão junto com
sua esposa e lá este corajoso homem de Deus permaneceu vinte e dois
anos de sua vida, sendo libertado somente em 1980 com 80 anos de idade.
Experiências desse tipo se repeüram muitas vezes na história da
igreja da China Vermelha. Muitas histórias nunca foram contadas. Os
santos que sofreram não eram todos líderes e muitos nomes nunca vira-
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
152
ram manchetes. Através da longa noite escura, eles nunca vacilaram em
sua lealdade a Cristo.
Em Julho de 1976, Mao Tsé-tung, o homem que fora idolatrado e
cujos pensamentos do Llvrinho Vermelho se tornaram a bíblia do povo
chinês, morreu, deixando uma nação desanimada e desiludida. Eis as
palavras de um jovem escritas num dos jornais chineses:
“A palavra ‘amanhã’ tem sido uma palavra de grande fascínio para
mim. Quando eu estava na escola primária, o ‘Grande Salto Para Frente’
(política lançada por Mao para industrializar o país rapidamente) era o
sonho do amanhã; nós viveríamos felizes em prosperidade. Mas o que
conseguimos? Desastres!
“Depois veio a Revolução Cultural: o amanhã significava total li
beração e que nós conquistaríamos o mundo. 0 que conseguimos? De
sastre! Agora os jovens da China podem apenas aprender esta lição: Não
espere muito! Não seja otimista! Não pense no amanhã!”
LIMPANDO OTERRENO
Após esta longa noite escura, quando os controles foram relaxa-.
dos e as restrições suspensas, cristãos de Hong Kong e outros lugares
examinaram ansiosamente através da Cortina de Bambu para ver se algo
sobrevivera. Eles ficaram pasmados com o que começou a emergir da
poeira e entulho da Revolução Cultural. Não havia dúvida sobre o fato
de a fé cristã ter sobrevivido ou não. Ela estava bem e com saúde, e
explodindo com nova vida para todos os lados. Do outro lado do mun
do começou-se a ouvir sobre “milhões vindo para Cristo”, de comunida
des inteiras se tornando cristãs. Compreensivelmente isto foi saudado
com incredulidade em muitos lugares: “Isto não pode ser verdade —
não na China Comunista!” Mas as reportagens começaram a ser confirma
das por muitas testemunhas e organizações.
Durante aqueles anos de escuridão Deus estivera silenciosamente,
porém poderosamente, em ação, purificando seu povo e limpando o
terreno para um novo plantio do qual ele mesmo se encarregara. AChi
na não era um solo virgem esperando pela primeira aradura e semeadu
ra. Mais de cem anos de atividade missionária se passaram e a situação
era confusa e misturada. Deus usou a Revolução Comunista para reali
zar uma espécie de operação de limpeza. Em primeiro lugar, a tomada
OAuivamerÉonaChina
153
comunista significou a remoção de todos os missionários da China. Não
que eles tenham falhado em sua tarefa, pois sem a semeadura do passa
do não haveria a colheita do presente, mas era necessário agora que eles
partissem para outras esferas. Dessa forma a próxima fase da obra de
Deus poderia ser cumprida.
Deus também usou os comunistas na China para acabar com as
estruturas denominacionais do Ocidente. Isto aconteceu porque eles as
consideravam ferramentas do imperialismo. A Igreja Católica, com
sua subserviência a Roma, foi substituída pela Associação Patriótica Ca
tólica, liderada por marxistas e totalmente independente do Vaticano.
Ela foi um equivalente católico ao movimento protestante de Tríplice
Autonomia.
Apesar da mistura que havia no Cristianismo antes do comunis
mo, certamente Deus preservou tudo o que era de fato obra do Espíri
to. 0 ouro, a prata, e as pedras preciosas encontraram seu lugar no
novo edifício que Deus estava erigindo, mas muito da madeira, palha
e feno foi queimado na conflagração marxista. Como os três hebreus
na fornalha flamejante de Nabucodonosor, a única coisa que as igrejas
perderam foram suas ataduras, e no meio das chamas elas encontra
ram Deus.
A obra purificadora não foi simplesmente de efeito corporativo;
foi também inevitavelmente individual e pessoal. A tomada comunista
colocou cada discípulo professo de Cristo à prova. Todo crente seria
testado a respeito da realidade de sua fé. As impurezas seriam retira
das da mistura derretida. “Cristãos de arroz” rapidamente desaparece
riam de cena. Materialmente não teriam nada a ganhar e muito para
perder com uma profissão de fé. Em tais circunstâncias, quem iria que
rer ser um cristão só de nome?
Um trabalho de preparação foi também efetuado através de
toda a sociedade chinesa. Sem dúvida, o comunismo fez muito pela
China, mesmo do ponto de vista cristão. A unificação da escrita numa
língua chinesa uniforme e moderna facilitaria grandemente a rápida
evangelização da nação, assim como aconteceu com a língua grega no
tempo do Novo Testamento. 0 comunismo tem libertado os chineses
da resistência inata para deixar as tradições paralisadoras, e tem
grandemente libertado a nação — pelo menos a geração mais nova
A Igreja do SéculoXX-AHistória que Não R>i Contada
154
— das influências prejudiciais do Budismo e da adoração de ances
trais.
Outra grande conquista dos comunistas tem sido a construção de
estradas e o suprimento de transporte e comunicação. Isto pode ser
comparado aos romanos construindo suas estradas através do Império,
que prepararam o caminho para a propagação do evangelho no primeiro
século. Desta forma agora o evangelista na China pode transmitir sua
mensagem de lugar em lugar, de uma maneira que era impossível na
China pré-comunista.
A Revolução Cultural foi uma ferida auto-infligida que deixou uma
cicatriz profunda na vida da nação. As pessoas adoraram Mao como Deus
e agora ele caíra como Dagom, com o rosto em terra diante da arca, sem
cabeça ou mãos. Os heróis de ontem se tomaram os vilões de hoje e o povo
ficou confuso e inseguro. Muitos dos trabalhadores urbanos perderam sua
oportunidade de progredir através de uma melhor educação, uma perda
grave para a maioria dos chineses, deixando-os deprimidos e desiludi
dos. Alguém resumiu a situação pós-Mao nas seguintes palavras: “Os co
rações de um bilhão de chineses estão buscando algo que os satisfaça” —
0 “algo” que o comunismo não providenciou. Esta é uma razão por que
milhões estão correspondendo às boas novas de Jesus.
IGREjA FALSA E IGREj A VERDADEIRA
Há dois tipos de igrejas na China — a igreja oficial, controlada
pelo governo com aparente liberdade religiosa, e as igrejas caseiras
independentes onde tem ocorrido o avivamento. A igreja oficial tem
seus lugares de culto nos prédios reabertos para reuniões com permis
são do Departamento de T^suntos Religiosos. Ela opera sob a vigilância
do Movimento de Tríplice Autonomia apesar de gozar certa indepen
dência. Embora tenha liberdade para apontar seus próprios pregadores
e manejar suas finanças, seus líderes devem freqüentar as aulas de dou
trinação do Movimento de Tríplice Autonomia para estarem a par das
diretrizes do Partido. Já as Igrejas caseiras, que têm experimentado
esse crescimento tão fenomenal, consideram as restrições impostas pelo
Movimento de Tríplice Autonomia totalmente inaceitáveis. Tome como
exemplo esses “Dez Mandamentos” divulgados no início dos anos 80
pelo Movimento numa província da China:
OA)iixxmento na China
155
1. Náoorganizeumaigrejasemaprovaçãodogovemo.
2. Somente clérigos apontados pelo govemo poderão batizar as pessoas.
3. Não mantenha contatos com organizações religiosas do estrangeiro nem
compre livros estrangeiros.
4. Não imprima ou reproduzaBiblias e outros livros religiosos sem permis
são.
5. Não viaje de ddade em ddade para propagar religião.
6. Mantenhaareligiãopara você mesmo.
7. Não ore todo dia. Ore só aos domingos.
8. Não transmita pensamentos religiosos para menores de 18 anos de ida
de.
9. Não cante canções relyiosas para menores de 18 anos de idade.
10. Nãosolicitecontribuiçõesparapromover religião, aumentando as cargas
dos crentes.
Talvez o que esteja acontecendo na China seja uma prefiguração
do que ocorrerá em todo o mundo antes do final dos tempos — uma
igreja verdadeira e uma igreja falsa, diferenciadas pela atitude de cora
ção para com o senhorio de Cristo. 0 livro do Apocalipse nos mostra
estas duas igrejas em sua expressão final: a noiva “adereçada para seu
noivo”, e a meretriz “embriagada com o sangue dos santos e com o
sangue das testemunhas de Jesus”. Porque haverá muitos verdadeiros
filhos de Deus achados com a meretriz, assim como há no Movimento
de Tríplice Autonomia na China, uma voz soará do céu antes do julga
mento: “Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus
pecados e para que não incorras nas suas pragas.”
AlGREjACASElRA
A igreja na China, como a igreja do Novo Testamento, tem de
monstrado que possuir prédios para se reunir não é essencial para um
crescimento rápido. Algumas, especialmente nas áreas rurais onde é
possível haver grandes congregações, possuem seus próprios prédios,
mas a maioria é, literalmente, de igrejas caseiras.
Igrejas caseiras na China não são um desenvolvimento recente.
Tornaram-se luna característica distinta do Cristianismo chdnês durante
os primeiros anos do governo comunista. Não surgiram de um movi
mento de reforma que rejeitou os edifícios tradicionais em favor de um
retomo à simpHcidade neotestamentária. Nenhum propagandista de igre
Algreja do SéculoXX-A História que Não Foi Contada
156
jas caseiras viajou pelo país para espalhar a visão. Antes, as igrejas
caseiras surgiram por causa de pressão e perseguição. Nasceram por
necessidade. Eram a melhor, e na maioria dos casos, a única maneira
de se reunir. Porém, por trás das circunstâncias exteriores, havia uma
estratégia do Espírito Santo, armando o cenário para o tremendo cres
cimento que haveria de vir.
Se por um lado esta estrutura simples adotada pelos crentes chi
neses estava totalmente de acordo com o Novo Testamento, por outro
lado possuía características chinesas bem distintas. Já vimos que um
forte laço familiar é uma característica nacional e todos os esforços dos
comunistas para destruir isto falharam. Quando as pressões sobre a
família cristã se tornaram grandes, foi natural que o lar se tornasse um
lugar de refúgio onde membros da família pudessem ainda cultuar, orar,
1er as Escrituras e encorajar um ao outro.
Alguns observadores chineses vêem três fases no movimento da
igreja caseira. Aprimeira fase ocorreu durante os anos 50 como um
resultado direto da política comunista, e em particular por causa das
atividades do Movimento de Tríplice Autonomia contra líderes cristãos
e suas igrejas. Quem não estivesse disposto a se reunir com as igrejas
da Tríplice Autonomia não tinha outra alternativa a não ser se reimir em
suas próprias casas.
A segunda fase veio com a Revolução Cultural em 1966, quando
até mesmo as igrejas da Tríplice Autonomia foram fechadas. Quem ain
da quisesse cultuar a Deus não tinha outro lugar a não ser o lar.
Depois veio o relaxamento das restrições na era pós-Mao e jun
to com isto uma explosão do movimento da igreja caseira. Isto foi o
início da terceira fase. Começou antes que as igrejas da Tríplice Auto
nomia fossem reabertas, contrariando a reivindicação dos hderes da
Tríplice Autonomia de que eles são responsáveis pelo ressurgimento
do Cristianismo na China. Muitos dos que haviam deixado as igrejas
da Tríplice Autonomia quando foram fechadas, retornaram quando
foram reabertas, mas a grande maioria não o fez nem se filiou à orga
nização.
Eis 0 testemunho de Arthur WalHs sobre uma reunião em numa
igrej a caseira quando esteve na China:
0 Avivamento na China
157
Nós despedimos o táxi e descerrwspor um caminho bem comprido e
estreito, semelhante a uma ruela. Felizmente não havia luzes na rua. As
lojas e apartamentos térreos providenciavam luz suficiente para enxergar
mos nosso caminho até que chegamos a uma entrada sem nenhuma placa
Um estreito vão de escadas de madeira nos levou ao segundo andar do
prédio. As escadas abrigavam as pessoas que não cabiam na reunião, a qual
Já estava em andamento. Ali estavam cristãos chineses, comBíblias e cader
nos à mão, ouvindo uma voz que vinha do altofalante. Subindo outro vão de
escadas chegamos a um andar apinhado de pessoas de todas as classes.
Havia profissionais e estudantes misturados com operários em seus maca
cões, todos sentados em bancos simples de madeira.
Fbmos conduzidos para os únicos lugares vazios que podíamos ver. Eles
tinham sido provavelmente reservados para nós, visto que os líderes sabiam
que viríamos. Nós nos encontramos a poucos metros do pregador, cuja men
sagem era transmitida por toda a casa. Eu tinha lido sobre igrejas caseiras
na China com duzentos ou mais pessoas e muitas vezes questionara como
caberia este número de pessoas numa casa particular. Aqui estava eu, bem
num lugar assim. Contei mais de 150 pessoas somente naquele andar e,
mesmoassim, nãopodiaveraqueksqueestavamcomprimidosemsaletase
cubículos.
Nesta igrga caseta havia quatro reuniões regulares toda semana: uma
para adoração, uma para oração, uma para compartilhar, e o estudo bíblico
no meiodasemana, ao qual estávamos assistindo. 0 líder da igreja caseira
que estava pregando quando chegamos, cüém de um sorriso de boas vindas,
pareceu estar totalmente desligado de nossa presença As pessoas também
pareciam estar mais preocupadas com a mensagem do que com a presença
de visitantes estrangeiros. Houve uma pausa na pregação, uma cançãofoi
anunciada, e o povo começou a acompanhar a música que saía pelo sistema
de altojalante. Depois o ensinamento bíblico continuou.
O líder da igreja caseira, que eu diría ter cerca de 50 anos, transmitia a
palavracom entusiasmo e autoridade. Suafacebrilhavaenquanto ele minis
trava, mas só depois entendi o porquê. Nosso guia chinês explicou que ele
era um homem de Deus muito corajoso, que passara muitos anos na prisão
por causa de sua fé. Ele era altamente respeitado por outros líderes de
igrejas caseiras naárea. Ao indagarmos, descobrimosquehauiacercadeõOO
outras igrejas caseiras nesta grande cidade.
Por causa do risco— não para os visitantes estrangeiros, mas para seus
hospedeiros —permanecemos ali somente uma hora, e então saímos furtim-
mente para a escuridão da rua. Senti que tinha por apenas uns poucos
minutos entrado nas páginas do Novo Testamento.
A Igreja do Séaúo XX-A História que Não Fhi Contada
158
De acordo com uma estimativa recente, mais de metade da popu
lação da China (um bilhão de habitantes), tem menos de 20 anos de
idade. Não deve nos surpreender, portanto, o fato de as igrejas caseiras
terem um número predominante de pessoas na faixa dos vinte e trinta
anos. Algims desses jovens são ex-Guardas Vermelhos. Outros são sim
plesmente vítimas do vácuo político deixado pela Revolução Cultural.
São pessoas desiludidas com as atividades políticas do Partido e por
suas promessas não cumpridas. Outras estão amarguradas porque fo
ram forçadas a sacrificar uma educação superior pela causa da Revolu
ção. De repente, esses jovens desiludidos se viram confrontados por
um espírito revolucionário de outro tipo. Eles encontraram cristãos
comprometidos que têm sido purificados em vez de amargurados pelo
sofrimento, que têm uma alegria e um otimismo santo e que testemu
nham sem temor sobre um outro rei e um outro reino. Milhares têm
achado este apelo irresistível e comunidades inteiras se voltam para
Cristo, incluindo até oficiais do Partido.
Desde que 80% da nação vive em áreas rurais, é ali que se encon
tra a maioria dos crentes chineses. Assim eles têm a vantagem de esca-.
par da pressão exercida nas cidades pelo Movimento de Tríphce Auto
nomia para que os cristãos abandonem as igrejas caseiras e participem
de uma igreja oficial.
As igrejas caseiras têm uma forte orientação bíblica. Desde que
se convertem os crentes novos têm uma fome muito grande pelas Es
crituras. A deficiência de Bíblias, ao invés de diminuir, tem aguçado
esta fome. Muitas vezes, num grupo, o único possuidor de uma Bíblia
arranca páginas que distribuídas ao redor — demonstrando mais uma
vez 0 espírito comunitário — são então laboriosamente copiadas à mão.
Relatos de uma única Bíblia entre centenas de crentes são comuns nas
áreas rurais. Como a maioria dos orientais, os chineses têm uma me
mória prodigiosa. Passagens enormes, até mesmo livros inteiros, são
memorizados. Conta-se de um cristão que sabia todo o Novo Testa
mento de cor
Algumas das maiores igrejas caseiras são lideradas por pastores
idosos que foram libertados depois de passarem vinte ou mais anos na
prisão. Esses heróis da fé que passaram pelo fogo têm realizado uma
grande obra de ensinar novos convertidos e pastorear o rebanho.
0 Avivamento na China
159
As igrejas em geral não são centralizadas no pastor ou no ser
mão. Os chineses têm redescoberto o sacerdócio de todos os crentes.
Na maioria das vezes, o líder dá uma breve mensagem da Bíblia, e então
as pessoas presentes compartilham o que acharam na passagem. Em
alguns grupos, na semana anterior à reunião todos copiam a passagem
relevante e já vêm para a reunião com um pensamento preparado.
Numa região montanhosa de uma das províncias costeiras há uma
vila com uma população de 10.000 pessoas. Um terço dos habitantes é
formado de crentes. Eles começaram a se reunir abertamente em 1976,
e agora há quinze locais de reunião com uma freqüência média de 200
pessoas em cada local. As reuniões são geralmente à noite, das 7 às 11
horas, consistindo de cânticos, testemunhos, súphcas e ensino bíblico
de um dos dez ou mais pregadores que viajam de reunião em reunião.
Suas mensagens duram uma hora ou mais.
Os novos convertidos são ensinados a evangelizar e muitas vezes se
vêem em problemas por causa disto. Mas isto, em vez de enfraquecer sua
fé, os faz mais fortes e efetivos. 0 trabalho prmcipal é feito pelos novos
convertidos que estão ainda na faixa dos vinte anos. Quando eles alcançam
a casa dos trinta são vistos como pessoas realmente experimentadas.
Os líderes cristãos das igrejas caseiras têm desenvolvido tanto
equipes de instrução como equipes de evangelismo. Nas sessões de trei
namento dos obreiros os novos cristãos são ensinados a pregar. Quan
do os hderes os julgam capazes, eles são comissionados e depois se
juntam à equipe de evangelismo. Em muitas dessas vilas o único desejo
nos coraçõesdos crentes é pregar e construir igrejas. Seu trabalho de
agricultura é feito simplesmente para garantir sustento, mas a maioria
do tempo deles é dedicada ao trabalho do Senhor,
À medida que esses camponeses buscam o reino de Deus em
primeiro lugar, eles vêem que “todas essas coisas” — as necessidades
da vida — lhes são acrescentadas. 0 Senhor abençoa suas plantações
abundantemente. Enquanto outras plantações sofrem com a seca, as deles
prosperam; enquanto outras plantações são prejudicadas por fortes chu
vas, nas deles o sol brilha!
0 evangelismo é feito à noite ou fora da época de plantio. Desde
1982 0 governo tem devolvido aos mdivíduos grande parte da terra que
fora cultivada por comunas. A partir do momento em que a terra está
A Igreja do Século XX -A História que Não Foi Contada
160
convenientemente cultivada, eles estão livres para fazer outras coisas.
Esposas e crianças ajudam na aradura da terra para possibilitar que
seus homens saiam pregando. Na época da colheita eles ajudam xmi ao
outro, e depois voltam para seu trabalho evangelístico.
Uma característica notável do movimento de igrejas caseiras na
China é a forma como Deus usa os idosos que agora estão livres depois
de anos na prisão. Muitos estão aposentados e assim estão livres para
viajar sem precisar ganhar seu sustento. Eles são a coluna dorsal da
liderança das igrejas caseiras. Pastores de idade avançada experimen
tam uma alegria sem limite à medida que ensinam e pregam novamente
e vêem a correspondência dos jovens ao seu ministério. Um pastor de
99 anos retornou à sua vila no sul da China, e uma igreja de 700 mem
bros surgiu lá em apenas três semanas!
PREPARADOS PARA50FRER
Watchman Nee ministrou sobre este assunto antes que as autori
dades comunistas o encerrassem naprisão por vinte anos. Deus o esta
va preparando, à medida que ele preparava o rebanho para o que viria.
Ele enfatizou fortemente que temos que ter uma mente preparada para
sofrer.
“Há muito sofrimento que podemos evitar se quisermos: mas se
queremos ser úteis na obra do Senhor, é fundamental que façamos uma
escolha deliberada do caminho de sofrimento por causa do Senhor A
não ser que tenhamos uma disposição para sofrer por ele, a obra que
realizamos será de qualidade bem superficial... A questão não é o quan
to de sofrimento talvez sejamos chamados a enfrentar, mas nossa atitu
de em relação a isto. Sofrimento pode não ser sua porção diária, mas
você deve estar preparado para sofrer.”
A igreja na China conclama: “Preparem suas mentes para sofrer!”
Se você espera até ouvir o sibilo das balas ou o estrondo dos explosi
vos, você tem esperado muito. Não espere o sofrimento ou a persegui
ção surpreender você. Agora é o tempo de entrar em treinamento.
Eis 0 testemunho de uma irmã que passou 24 anos na prisão:
Ela estava orando quando as autoridades chegaram para prendê-
la. Ela não ficou surpresa pois o Senhor já preparara seu coração. De
fato, no momento em que a prenderam, o Espírito Santo veio e a encheu
0 Avivamento na China
161
com uma alegria incontrolável. Enquanto o carro no qual estava sendo
transportada rodava aos solavancos pela estrada, ela transbordava de
alegria e cantava por todo o caminho. As autoridades naturalmente a
imaginaram mentalmente desequilibrada.
Enquanto estava sendo registrada na prisão, ela teve bastante tem
po para testemunhar a um dos oficiais. Tão poderoso e ungido foi seu
testemunho que imediatamente e ali mesmo ele aceitou a Cristo. En
quanto ele a registrava, ela lhe disse: “Hoje não é o dia em que vim para
me registrar, e de fato eu nunca serei prisioneira aqui — Cristo estará
constantemente comigo. Estou livre. Este é o dia em que você registrou
sua residência no reino de Deus.”
Algum tempo depois, todos os companheiros receberam um en
velope contendo a duração de suas sentenças. Quando os outros compa
nheiros perguntaram a ela de quanto tempo era sua sentença ela respon
deu: “Eu não sei. Guardei o edito sem olhar”.
“Por quê?” eles perguntaram. “Você não quer saber quantos anos
de prisão terá?”
“Não importa,” ela replicou, “Sejam dez ou cem anos, cada dia
vai ser um dia com meu Senhor.”
Numa prisão eles estavam desumanamente apertados — dez pri
sioneiros para um pequenino cubículo. Não tinham permissão para con
versar um com 0 outro ou cochilar durante o dia. Um guarda periodica
mente examinava o cômodo através de uma abertura de vidro na porta.
Muitos caíam doentes, outros perdiam suas mentes. Um prisioneiro lhe
sussurrou: “Podemos ver que sua fé religiosa realmente lhe dá força.”
Um dia o guarda irrompeu na cela gritando: “Pare de sorrir.”
“Eu não estou sorrindo”, ela replicou.
“Está sim” , gritou o guarda.
Quando ele saiu, os outros prisioneiros disseram: “Seus olhos
estão sempre sorrindo e sua face brilha com alegria, mesmo quando
você não está sorrindo.” A maioria de seus companheiros de prisão não
era cristã, isto é, não era até que ela levou muitos deles ao Senhor.
A questão do sofrimento por Cristo é o grande teste para ver
onde 0 coração de um crente realmente está. Se as coisas celestiais
realmente têm cativado o seu coração, se as coisas terrestres têm desva
Algreja do SéculoXX-AHistória que Não Foi Contada
162
necido à luz das realidades eternas, então sua atitude em relação ao
sofrimento muda radicalmente.
Além de produzir um efeito purificador e maturador na igreja,
parece que o sofrimento, de uma maneira inexplicãvel, libera o poder
de Deus às vezes de forma eletrizante. 0 princípio da cruz em ação
numa vida rendida pode romper oposição, amolecer o coração endure
cido e abrir uma mente totalmente fechada para a luz da verdade. Isto
tem sido demonstrado continuamente na China.
Uma carta escrita em 1982, vinda da província de Henan, fala de
dez jovens que, depois de orarem intensamente, saíram para pregar.
Enquanto proclamavam o evangelho com lágrimas, transeuntes paravam
para ouvir, adivinhadores (dos quais há muitos na China) quebranta
vam-se e choravam, e trabalhadores vindos das fábricas a caminho de
casa esqueciam sua fome e paravam para ouvir,pois o poder de Deus
estava presente. A grande multidão não os deixava parar, embora eles
estivessem cansados. Então vieram os oficiais do Departamento de Se
gurança Pública, que amarraram os jovens pregadores, arrastaram-nos
dali e bateram neles até ficaram inconscientes.
No grupo havia uma garota de apenas 14 anos de idade. Depois
de apanhar desta forma, ela recobrou-se e continuou a testemunhar e
todo tipo de pessoa se quebrantou, se arrependeu e creu em Jesus. Algo
parecido aconteceu com quatro rapazes do grupo. Eles foram forçados
a se ajoelharem por três dias sem comida ou água. Mesmo quando esta
vam sendo batidos até o sangue fluir, eles continuaram orando, cantan
do e louvando ao Senhor, até que mesmo seus torturadores se converte
ram e creram no evangelho. Eles poderiam ter olhado bem nos olhos
dos oficiais e ousadamente declarado: “Em nós opera a morte, mas em
vós opera a vida.”
Eis outro testemunho relatado por David Wang:
“Marta tinha 18 anos, era jovem tanto em idade como em experi
ência cristã, quando eu a encontrei pela primeira vez na China Central.
Convertera-se através de nosso programa de rádio. Ela se correspondia
conosco em Hong Kong e nós a alimentávamos espiritualmente. Dois
anos mais tarde tive a oportunidade de encontrar estajovem chinesa
novamente. Estava trabalhando numa fábrica, mas insistiu que a deixás
semos fazer alguma coisa para o Senhor. Não queria dinheiro ou uma
OAvnxmienlo na China
163
bicicleta. 0 que ela queria é ser regularmente suprida com Bíblias para
que pudesse distribuí-las para as províncias mais remotas da China.
“Marta nunca esteve em nossa folha de pagamento. Mas de tem
pos em tempos ajudávamos a cobrir suas despesas de viagens. Ela esta
va viajando e ministrando, olhando para Deus para suprir suas necessi
dades. Lembro-me de uma vez em que a encontrei na cidade de Xian,em 1981. Nós combináramos de nos encontrarmos às 9 da noite, mas
ela só apareceu à 1 da madrugada. Estivera entregando Bíblias numa
vila próxima quando os líderes da comuna local descobriram o que ela
estava fazendo. Bateram nela, roubaram-na e atiraram-na numa estrada
deserta. Foi somente por um milagre que conseguiu pegar uma carona
para nosso lugar de encontro.
“Mesmo na escuridão do parque notei que algo estava errado
com Marta. Sua cabeça estava inchada como uma bola de basquete.
“‘Qual é 0 problema?’, eu perguntei. ‘Eles fizeram isto com você?’
‘“Oh não’, ela disse. ‘Tenho tido este problema por quase dois
meses agora.’ Então ela arregaçou as pernas de sua calça para me mos
trar suas pernas cobertas com feridas e picadas de mosquitos. ‘Eu acho
que é algum tipo de veneno no sangue.’ Enquanto ela viajava para as
partes mais remotas do país, muitas vezes dormira em cabanas deser
tas e templos abandonados. Ela estava sendo literalmente ‘comida’ por
bichos e mosquitos.
‘“Amanhã temos que ir a um médico,’ eu insisti com ela.
‘“Não, não,’ ela disse. ‘Tenho de pegar um trem amanhã cedo para
a Mongólia Interior Onde estão as Bíblias?’ Sua única preocupação era
levar as Bíblias para a Mongólia Interior.
“Dois anos mais tarde, em agosto de 1983, de repente perdemos
0 contato com Marta. Por muito tempo não tivemos notícias dela nem
sobre ela. Era época da ‘Campanha Anti-Crime’ na China. Muitos foram
presos e executados por toda a China. Nós ficamos bem preocupados
com Marta.
“Mais tarde recebemos uma carta dela através de seus amigos. De
fato não era uma carta, mas apenas um pedaço de papel. Ela fora presa e
acusada de distribuir ‘materiais supersticiosos’ na República do Povo da
China. 0 papelzinho dizia: ‘Eu não sei qual será minha pena, mas por favor’
— citando as palavras de Paulo — ‘ore por mim para que me seja dada a
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
164
palavra, no abrir de minha boca para com intrepidez, fazer conhecido o
mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias.’ Algumas
semanas mais tarde, recebemos notícias de que Marta com 24 anos de ida
de partira para estar ‘com Cristo’. Ela fora executada.”
OPAÇÂO DINÂM ICA
Os chineses têm um ditado: “Muita oração — muito poder! Pouca
oração pouco poder! Nenhuma oração — nenhmn poder!” Sem dúvida
a pressão da perseguição tem aprofundado e intensificado a vida de
oração da igreja chinesa. Foi um processo lento que começou depois do
terrível período de 1966-69 da Revolução Cultural. Uns poucos servos
de Deus, movidos pela desolação espiritual que enfrentavam, começa
ram a orar por avivamento. Eles insistiram com outros para lançar fora
seus temores e fazer o mesmo. Esses pequenos grupos secretos de ora
ção resultaram nas igrejas caseiras cheias do Espírito. Destituídos de
líderes “ordenados”, líderes “leigos” se levantaram para tomar seus
lugares. 0 Espírito de Deus estava movendo por toda a China, e igrejas
caseiras surgiram em cada cidade e em incontáveis vilarejos. A nova
igreja chinesa, mais uma vez, surgiu em função de oração.
Numa cidade costeira, em 1967, o reinicio de reuniões pequenas
trouxe um tempo de intensa oposição e perseguição. Por um período de
três meses as igrejas foram convocadas por seus pastores para se engajar
em oração e jejum. Crentes estavam sendo humilhados, torturados e
ameaçados. Muitos morreram na prisão, enquanto outros foram mortos
ou mutilados por surras bárbaras. Então, em 1978, uma obra poderosa
do Espírito Santo trouxe milhares para Cristo. Conta-se que numa cida
de, 50.000 cristãos se reúnem em 600 lares, constituindo um cristão
para cada oito pessoas, ou 12,5 por cento da população.
Uma senhora cristã retornou do estrangeiro para sua vila natal,
em 1974, temerosa do que ela poderia encontrar. Ela encontrou oito
crentes jubilosos com uma fé forte e pura. Os que tinham sido enviados
para a prisão tinham testemunhado para outros prisioneiros. Oração e
jejum eram atividades normais da vida, e Deus estava demonstrando
seu poder para curar, confundindo o cepticismo dos incrédulos.
Em algumas comunidades os cristãos se reúnem todos os dias
para orar por seu país. Os que têm tido o privilégio de se reunir com eles.
OAvivamento na China
165
falam do espírito de urgência que caracteriza suas orações. Alguém que
tem investigado o crescimento das igrejas caseiras descreve a “vida disci
plinada de oração” dos crentes como sua característica principal. Não há
nada de egocentrismo em sua forma de orar. Sua vida de oração engloba
0 mundo. Numa das cidades mais importantes da China, um grupo se re
úne todo sábado das 9 horas da manhã até às 3 da tarde para um tempo de
oração e jejum. Nesta ocasião, seu principal pedido é que as escolas
bíblicas e seminários do Ocidente permaneçam fiéis à Palavra de Deus.
David Wang, criado em Xangai, numa visita recente à China com
um co-obreiro, visitou uma senhora que acabara de ser hbertada depois
de 23 anos na prisão. Eles levaram para ela comida, remédios, roupas,
dinheiro, e é claro, uma Bíblia. “Aquela mulher era uma santa”, relembra
David. Antes de partirem, ela pediu para orar com as visitas. Muito
calmamente ela começou a orar. Eles sentiram como se os “íons e as
moléculas da atmosfera fossem de repente carregados”. Parecia que
podiam “sentir as vibrações da presença de Deus”. “Embora ela orasse
tão mansamente, toda ela estava transpirando. Fomos imergidos numa
atmosfera de graça, comunhão e intercessão em batalha espiritual. Ela
estava lembrando Deus de suas promessas e se comprometendo a obe
decer a sua Palavra.” Atemorizados, eles deixaram o quarto de seu pe
queno barracão como se tivessem estado na entrada do céu.
Sem dúvida, aqui no Ocidente estamos vendo Deus mover pelo
seu Espírito. Muitos de nós temos nos acostumado a assistir a celebra
ções e convenções que podem ser descritas como “carismáticas”. Geral
mente, a atmosfera tem sido boa, a adoração viva, e os dons do Espírito
evidentes. A pregação da palavra tem sido abençoada e até ungda. Conver
sões, curas e libertações têm sido testemunhadas. Mas toda a operação
tem sido grandemente centralizada no homem, nas necessidades e nos
resultados. Temos olhado para o carisma do pregador para “atirar as
redes” e produzir resultados, com a ajuda dos conselheiros. A medida
de bênção pode variar, mas a maneira da operação do Espírito tem se
tornado previsível. Nós quase sabemos de antemão o que vai acontecer
e agora temos uma geração de crentes sem expectativa de algo mais.
Será que o elemento vital que está faltando não é esta Presença
aterradora, cativante, enternecedora e esmagadora, este elemento
indefinível que transforma uma reunião centi-alizada no homem numa
A Igreja do Século XX-A História que Não Fbi Contada
166
reunião centralizada em Deus? Esta presença transforma o mundano
em sublime, o esperado em espontâneo e imprevisível. Pode liberar o
povo de Deus para entrar em rapsódias de louvor, nas quais eles sentem
como se juntassem aos corais angélicos. Ou pode fazê-los prostrar suas
faces num süêncio atemorizador na presença da sua Majestade. Preocu
pação com resultados ficará então longe de seus pensamentos. Todos
estarão totalmente envolvidos com Deus. Será suficiente saber que aquele
que é “poderoso em majestade, terrível em louvores, operando mila
gres” tem tomado o controle.
Por que tão raramente experimentamos isto? Não é por que co
nhecemos tão pouco sobre o tipo de oração descrito neste capítulo? Os
líderes simplesmente não têm tempo. Eles estão muito ocupados com
suas agendas e seus programas. E o povo, que segue o exemplo dos
líderes, está da mesma forma envolvido numa roda viva de atividades.
Ninguém tem tempo para este tipo de oração.
Se queremos ainda conhecer a presença do Deus de majestade e
poder, devemos ajustar nosso modo de pensar e descobrir quais são
realmente nossas prioridades. 0 Espírito Santo quer nos conduzir para
a oração dinâmica,mas antes que isto possa acontecer devemos permi
tir que ele destrua nossa auto-satisfação com aquilo que estamos atual
mente procurando. A base para tal redescoberta de Deus é um descon
tentamento santo e um coração faminto.
FOMElNTtNSA
A um jovem refugiado da China que se convertera dois anos antes
foi perguntado se possuía Bíblia.
“Não”, respondeu ele.
“Um Novo Testamento?”
“Não.”
“Você não tinha nenhuma literatura cristã quando era um novo
convertido?”
“Sim. Uma senhora idosa que era cristã arrancou uma página do
seu livro de devoções diárias e deu para mim.”
Eis a primeira razão para a fome intensa dos crentes chineses pela
Palavra de Deus— a grande falta de Bíblias e literatura cristã. É estranho
0 fato de não valorizarmos muito as coisas preciosas que temos, até que
OAvivamento na China
167
nos vemos privados delas. Aqui no Ocidente temos uma superabundância
de Bíblias, muitos de nós têm duas ou três, além de todo tipo imaginável
de literatura cristã. Até que ponto realmente valorizamos tudo isto?
Outro fator por trás desta fome é o mover poderoso do Espírito
Santo. Fome por Deus é uma característica de avivamento, e onde hou
ver fome por Deus haverá fome pela sua Palavra. Em muitos lugares da
China as Bíblias são escassas e preciosas demais para serem levadas
para as reuniões cristãs. Uma batida do governo no local de reuniões é
sempre lun perigo, desta forma tudo que se leva para a reunião é cader
nos, nos quais as Escrituras são copiadas.
Um pregador foi convidado para passar o dia numa pequena cidade
realizando reuniões. De manhãzinha, o prédio estava abarrotado com 600
pessoas, com outros amontoados do lado de fora. Eles estavam dispostos a
sofrer o clima extremamente frio para ouvir a mensagem do Senhor Antes
que 0 pregador chegasse, eles cantaram hinos a fmi de preparar seus cora
ções para receber a Palavra de Deus. 0 pregador pregou três vezes e os
cristãos sentaram-se e ouviram desde manhã cedo até tarde da noite. Ainda
assim não queriam se dispersar. Eles puxaram a manga do pregador e
disseram: “Nunca ouvimos imia pregação tão boa.” Eles estavam extraordi
nariamente famintos por ouvir a exposição da verdade da Bíbha.
Um pregador itinerante contou como, quando perguntado sobre
qual seria seu assunto, ele respondeu, “Sobre Jesus Cristo no livro de
Mateus.”
“Oh”, eles replicaram, “ele vai pregar o livro de Mateus. 0 livro
todo é sobre Jesus Cristo!” Eles o fizeram manter sua palavra. Trinta e
sete horas depois ele terminou uma exposição versículo por versículo
da vida de Jesus no livro de Mateus.
Um camponês foi convertido em 1962 através da leitura de uma
Bíblia que uma senhora cristã idosa lhe emprestara. Com o passar do
tempo ela deu a Bíblia a ele, temendo que os Guardas Vermelhos da
Revolução Cultural pudessem achá-la e queimá-la. À medida que os cren
tes cresciam em número, o camponês viu que ensinar era tão importante
quanto evangelizar. Com somente imias poucas Bíblias na vüa toda, como
as pessoas seriam ensinadas? Ele foi dirigido a compüar um Manual
Bíblico por tópicos que lhe custou sete anos de trabalho. Levou tanto
tempo porque cada vez que sua esposa não convertida achava o livro, ela
Algreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
168
0 despedaçava ou queimava. Além desta dificuldade, o único tempo que
tinha para escrever era entre o fim do seu dia de trabalho e o pôr do sol,
pois eles não tinham eletricidade na cidadezinha. Depois de terminado,
o livro foi mimeografado pelos crentes e 10.000 cópias foram distribu
ídas em dez municípios daquela província.
Um pregador itinerante de Xangai visitou uma vila na província de
Henan. Ele era desconhecido lá. Alguns da vila o levaram para suas casas,
deixando-o num quarto com Escrituras coladas em todas as paredes.
Eles queriam compartilhar o evangelho com ele. Quando descobriram
que ele era um cristáo. Imediatamente lhe pediram para pregar. Levaram-
no para um cômodo onde outro pregador estava concluindo sua mensa
gem para 400 ou mais pessoas. A congregação estava transbordando pelo
quintal. Ele tomou a palavra e pregou das 9 horas da manhã até 11 horas
da noite. Então os crentes lhe pediram para passar a noite na casa de uma
senhora idosa e pregar novamente no próximo dia.
Ele foi despertado no meio da noite e deram a ele um desjejum
completo às 4 da manhã. Então o levaram apressadamente para outra
reunião, que deveria começar às 6 horas. Para satisfazer sua grande
fome pela Palavra de Deus sem prejudicar a produção, os crentes mui
tas vezes se reúnem horas antes do trabalho, e depois novamente horas
após 0 trabalho.
David Wang conta de uma visita que ele fez a uma região remota
no noroeste da China, onde pregou por cerca de três horas para 70
jovens. Seu tema era “A Oração do Pai-Nosso” . Os ouvintes estavam
sentados no chão ou encostados na parede do pequeno barracão de
adobe. Eles não estavam apenas ouvindo, estavam anotando cada pala
vra; e estavam chorando.
Quando David terminou, o líder da igreja caseira deu a ele um
pouco de chá, dizendo: “Depois de tomar o chá, você pode pregar para
nós novamente.” Isto foi depois de três horas de pregação ininterrupta!
Ele tomou o chá e depois pregou por outras quatro ou cinco horas.
Durante todo o tempo os jovens estavam tomando notas e exclamando,
“Amém! Amém!” Finalmente, totalmente exausto, ele se sentou.
“Agora vamos cantar”, disse o líder.
David ficou chocado quando ouviu as palavras do cântico: “Não
ouça sermões! Não ouça sermões! Não ouviremos sermões...”
OADimmento na China
169
Que tipo de resposta era aquela para dois sermões com duração
de 7 ou 8 horas? Então veio a verdadeira resposta quando cantaram de
coração e alma, apertando seus punhos: “Viveremos os sermões! Vive
remos os sermões!”
Ele partiu dali sabendo que eles realmente fariam isto.
A oração fervorosa e o apetite insaciável pela Palavra de Deus que
temos visto, simplesmente nos mostram que os crentes chineses estão
famintos por Deus famintos de uma forma que raramente vemos na
igreja em geral. Sua disposição para abraçar a cruz e sofrer, sua deter
minação para testemunhar, sua avidez e fervor em oração, seu amor
para a comunhão dos santos, seu anseio por mais e mais da Palavra de
Deus, sua correspondência de todo o coração a esta palavra tudo fala
de um coração responsivo a Deus.
Aqui no Ocidente temos a mesma Bíblia, o mesmo acesso a Deus
em oração, a mesma— ou mais— oportunidade para comunhão, o mesmo
Espírito Santo. Por que então não vemos esta mesma fome? Não é porque
temos tanta coisa para tirar nosso apetite espiritual? Quer estejamos en
volvidos no meio evangélico, ou de renovação, ou pentecostal, ou de res
tauração, a situação em geral é a mesma. A igreja tem sido invadida por
uma influência que “não é de Deus, mas do mimdo” ( IJ o 2:16) e a maioria
de nós está inconsciente de que temos sido afetados por isto.
Os cristãos hoje, sejam evangélicos, carismáticos ou de “restau
ração” precisam ser crucificados para o mundo, e o mundo crucificado
para eles. Eles estão provando o mundo, e assim têm perdido sua fome
para Deus. A igreja chinesa, em contraste, ensina a cruz, abraça a cruz,
morre para o mundo, vive no céu — com os pés firmes na terra— e tem
uma fome insaciável de Deus.
QUANDO 0 SOBRENATURALSETORNANATURAL
Um obreiro cristão, que está constantemente saindo e entrando
da China, falou comigo em Hong Kong: “Os cristãos da China não consi
deram curas e milagres coisas incomuns. Para eles o sobrenatural tem
se tornado natural.”
Apesar da atitude oficial de encarar curas e müagres como meras
superstições, o poder de cura de Deus tem constantemente irrompido
nas fileiras dos membros do Partido. Um correspondente especial de
Algreja do Século XX-AHistóriaque Não Fhi Contada
170
Hong Kong recorda-se de encontrar “vários membros do Partido” en
quanto viajava pela China, “alguns até ocupando posições bem altas, que
tinham se tornado cristãos”. Havia um oficialem Xangai cuja filha fora
curada de leucemia em resposta a oração. Isto levou o pai ao conheci
mento de Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Ele está agora testemu
nhando a respeito de Jesus, embora tenha perdido sua alta posição e
fosse designado para o cargo de zelador.
Numa vila na província de Shaanxi, os cristãos estavam no meio
de um tempo de oração quando o chefe da brigada de produção e outros
irromperam contra eles. “Vocês estão proibidos de crer em Jesus e
proibidos de orar”, ele gritou. Muitos que estavam ajoelhados ergueram
os olhos alarmados, mas poucos minutos depois foi a vez dos intrusos
barulhentos ficarem alarmados ao olharem para seu chefe. Seu pescoço
e boca começaram a inchar terrivelmente e ele estava ofegante. “Você
deve se arrepender e crer em Cristo”, disseram os cristãos. 0 homem
consentiu, começou a orar, e imediatamente o inchaço diminuiu e ele
começou a louvar a Deus em voz alta. Desta forma, o chefe de produção
transformou-se de um perseguidor de cristãos em dedicado discípulo
de Cristo. Agora ele testemunha aonde quer que vai e já tem levado
muitas pessoas a Cristo. A igreja não só foi protegida, mas também
pôde expandir seu ministério.
Palavras proféticas de aviso têm sido dadas a cristãos em tempos
de perigo. Trezentos pastores de diferentes cidades estavam reunidos
para um encontro de três dias. As autoridades descobriram e enviaram
a polícia secreta para investigar. Enquanto os pastores estavam orando,
a palavra do Senhor veio a um deles: “A situação aqui é muito perigosa.
A polícia está vindo para prender vocês.” Um por um os pastores se
dispersaram por caminhos diferentes.
Assim que o último se fora, a polícia chegou e cercou o prédio.
Eles esperaram a saída dos pastores para que pudessem prendê-los.
Finalmente eles se tornaram impacientes e estavam prontos para arre
bentar a porta. Para surpresa deles, ela estava entreaberta e a sala vazia.
0 líder exclamou mais admirado do que irado: “Esses cristãos são
diferentes. Eles sabem exatamente o que estamos fazendo”.
É notável a forma como o ministério dos anjos tem sido usado
para servir ao corpo de Cristo na China. Anjos têm sido usados não
OAvivamento na China
171
somente para libertação e proteção, mas até mesmo em milagres de
cm â. Talvez porque a situação na China seja de muitas maneiras seme
lhante aos tempos do Novo Testamento, as visitações angélicas não são
algo incomum lá.
Durante a Revolução Cultural um pastor no extremo norte da
China foi sentenciado à execução pública pelo pelotão de fogo, porque se
recusara a parar de pregar o evangelho. Enquanto o pelotão se prepara
va, perguntaram a ele se tinha um último pedido. Ele respondeu que
gostaria de cantar uma música. Por ser uma execução pública, a permis
são lhe foi concedida. Ele cantou com uma voz poderosa, e à medida
que cantava o céu começou a iluminar-se com o esplendor da glória de
Deus. Todas as pessoas que estavam reunidas ao redor, ouviram o que
soou como milhares de vozes cantando junto com o pastor.
Abaladas com o incidente, as autoridades decidiram adiar a execu
ção, enquanto um telegrama urgente foi enviado para Pequim pedindo
conselho. Por causa de seu teor, o telegrama rapidamente encontrou seu
caminho através da hierarquia burocrática até chegar ao primelro-minis-
tro Chou En-lai. Informado do assimto em detalhes, ele comunicou de
volta: “Realmente este homem não é um homem comum. Libertem-no e
não 0 aborreçam mais.” 0 pastor foi rapidamente liberado para fazer o
que quisesse e ele imediatamente começou a pregar. Ao que se sabe ele
ainda está fazendo isto hoje. Eis uma parte da música que ele cantou:
“Senhor, eu te amo!
Meu coração anseia por ti.
Por tua causa abandono tudo o mais,
Mesmo riqueza e ja m a .”
Um jovem cristão foi enviado para trabalhar numa comuna na
ilha de Hainan, que ficava a centenas de milhas de sua cidade natal. Por
causa do seu isolamento, sua fé esfriou. Uma noite quando estava dor
mindo no dormitório com seus companheiros de trabalho, um tufão
veio sobre a ilha. Tais tempestades, que produzem ventos de até 150 km
por hora, são comuns lá. No meio da tempestade, o rapaz ficou assusta
do com alguém chamando seu nome do lado de fora do dormitório. Ele
sentou-se na cama, mas estava relutante em ir por causa do perigo.
Finalmente, a voz tornou-se tão insistente que ele foi. Naquele momento
A Igreja do Século XX -A História que Não Fbi Contada
172
o prédio desmoronou por trás dele. Vários morreram e todos ficaram
feridos. Como resultado desta experiência, o jovem adquiriu uma ousa
dia para testemunhar que nunca tivera antes. Mais de 200 pessoas vie
ram a Cristo nos 18 meses seguintes.
Um obreiro cristáo falou de tun garoto que foi com a avó para o
campo. Ele morreu ao ser atropelado por uma carroça superlotada.
A avó estava aterrorizada e enterrou o garoto ela mesma. Com
medo de contar à sua filha o que aconteceu, ela disse que ele se perdera
pelas ruas. A família aflita estava jantando quando o pequeno garoto entrou
na casa. Ele explicou que um homem vestido de branco o desenterrara do
chão, tirara a sujeira da sua roupa e face, e disse que voltasse para casa.
Da província de Zhejiang, famosa pelo grande número de cris
tãos, vem esta história de uma aldeã que tinha um tumor no cérebro.
Por nove anos ela tentara encontrar cura, gastando todo seu dinheiro em
vão. Então perdeu toda sua esperança e resignou-se a morrer.
Um dia, estando deitada em sua cama sozinha na casa, ela viu
três pessoas de roupas brancas entrando no quarto. Uma delas lhe per
guntou: “Você quer ser curada?”
Um pouco surpresa ela replicou: “Você é um médico? Sim, eu
quero ser curada.”
0 homem de branco aproximou-se e afagou sua cabeça no lugar
onde estava o tumor Ela sentiu um fluido saindo de sua cabeça e uma
protuberância sendo removida. 0 homem então pareceu fechar a abertu
ra com uns poucos e rápidos movimentos dos dedos. Ela sentiu alívio
imediato. Ela então perguntou: “Qual é o seu nome, doutor?”
‘Jesus”, 0 homem de branco respondeu. “Você pode me achar na
cidadezinha mais próxima.” Então ele desapareceu.
Quando a família retornou à noite, ela contou-lhes sobre o médi
co que dera a ela tratamento gratuito. Eles não prestaram atenção a ela,
pensando que estivesse delirando. Mas ela íicou mais forte a cada dia;
seu tumor no cérebro se fora. Então ela foi à cidadezinha vizinha para
encontrar o médico que a curara, a fim de agradecer-lhe.
“Há por aqui um médico chamado Jesus?” A mulher a quem ela
se dirigiu era uma cristá, que pensou por um segundo, e então decidiu
levar a Inquiridora para sua casa onde os cristãos se reuniam para orar.
Ela contou a história. Os cristãos não se surpreenderam ao ouvir sobre
OAvivamento na China
173
sua cura, pois isto era comum na China rural. Mas ela ficou atemorizada
quando eles lhe contaram quem era Jesus. Eles pregaram arrependi
mento e salvação e ela foi para casa com Jesus em seu coração. Pouco
tempo depois toda sua família veio a Cristo. Seu testemunho se espa
lhou rapidamente pela vila, e muitos creram em Jesus.
Por várias gerações a família do Dr. Wang vivera numa casa de
dois andares. Apesar de suas apreensões na época da Revolução Comu
nista, ele trabalhou duro para servir ao povo. Quando a Revolução Cul
tural irrompeu, o velho Dr Wang, formado em medicina no Ocidente e
conhecido como cristão, foi um dos primeiros alvos da perseguição.
Pouco se sabe o que fizeram com ele, pois ele nunca falou sobre seus
sofrimentos; mas o Dr. Wang não podia mais andar. Ficou confinado à
sua cama num quarto no andar superior, aos cuidados da família.
Uma noite, enquanto a nora do Dr. Wang estava deitada acordada,
incapaz de dormir, ela ouviu o rangido do grande portão de madeira se
abrindo no pátio. Levantando-se, correu para a estreita varanda a tempo
de ver uma figura vestida de branco entrando na casa. Ela desceu as
escadas para investigar, mas ninguém estava lá, exceto membrosda fa
mília profundamente adormecidos.
Enquanto isso, no pequeno quarto no andar superior, o D r Wang
ressonava em seu sono. Uma luz fulgente brilhou sobre ele; seus olhos
se abriram para uma visão do Senhor Jesus em pé ao lado da cama.
“Filho”, ele ouviu Jesus dizer, “levanta-te e anda.”
“Eu não posso andar”, ele replicou com surpresa. Então Jesus
estendeu as mãos para ele e o levantou.
“Você crê em mim?”, Jesus perguntou.
“Sim, Senhor, eu creio”, ele respondeu.
“Se crês em mim”, Jesus disse, “levanta-te e anda.”
Sem hesitar o velho homem obedeceu. Levantou-se de sua cama e
começou a andar. Depois começou a rir alto com alegria, e parecia que
0 Senhor ria com ele. Eram duas e meia da madrugada. A risada des
pertou seu sobrinho que dormia no mesmo quarto. Ele pensou que seu
tio enlouquecera e correu para apoiá-lo para que não caísse.
Em outro quarto, o filho mais velho do Dr. Wang foi despertado pela
agitação. Pulou da cama e íicou chocado ao ver o pai em pé perto da cama,
rindo. Ele também pensou que o velho homem enlouquecera. Estava para
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
174
agarrá-lo quando seu pal disse com firmeza: ‘Tire suas mãos de mim! Eu
náo estou doido. 0 Senhor Jesus veio neste quarto! Ele me curou!” Com
estas palavras ele desceu a íngreme escada para o primeiro andar, virou-se
e sorriu para sua fartiflia aterrorizada. Então ele começou a subir novamen
te os degraus com passos vigorosos. Quando chegou lá em cima, a alegria
da família não teve limites. A excitação deles despertou todos na casa.
Notícias tão boas não poderiam esperar até o amanhecer. A famí
lia toda marchou para a casa do segundo filho numa outra rua. “Olhe!
Vovô está andando!”, gritou o filho mais novo, enquanto um por um dos
membros da família se juntavam ao excitado grupo. Rindo e regozijan
do-se, eles deram graças ao Senhor juntos.
0 Dr. Wang queria prosseguir para o local de reunião dos cren
tes, mas seus filhos o convenceram a esperar pelo amanhecer. De ma
nhãzinha a família foi ao atônito pastor e depois a outros parentes. Eles
encontraram a sobrinha do Dr. Wang, que estava a caminho do serviço.
Ela arregalou os olhos e ficou de boca aberta ao vê-lo caminhando. Ao
ouvir 0 que aconteceu, ela começou a louvar ao Senhor dizendo: “Bendi
to seja Deus! Ele é tão maravilhoso!”
No domingo seguinte, a casa onde os crentes se reuniam estava
lotada. Pessoas ficaram no jardim olhando através das janelas. Outros
encheram os corredores. Todos os olhos estavam sobre o Dr. Wang que
ia de quarto em quarto cumprimentando os cristãos.
0 Dr. Wang agora viaja por todo lado com sua bicicleta, falando a
todos que o ouvem sobre o poder de Jesus. Pessoas não somente o
estão ouvindo, mas estão invocando o nome do Senhor e sendo salvas.
Muitos desejarão saber se estas igrejas caseiras independentes
da China são “carismáticas”. Isto depende de como você entende o ter
mo. Se você está perguntando: “Esses cristãos são abertos para o enchi
mento e os dons do Espírito Santo? Eles esperam Deus fazer hoje o que
ele fez nos tempos da Bíblia? Eles encaram essas coisas como normais
quando elas ocorrem?”, a resposta com certeza seria “sim” para todas
essas perguntas. No que se refere à cura, há certamente mais fé entre as
igrejas caseiras da China, do que há na maioria dos crentes do Ocidente
que se autodenominam “pentecostais” ou “carismáticos”.
Se você, porém, está perguntando: “Há ensino claro sobre o ba
tismo no Espírito Santo e os dons espirituais? Há verdadeira liberdade
OAvivamento na China
175
no louvor e adoração? Eles praticam o dom de línguas, de interpretação
de línguas e de profecia em suas reuniões?”, a resposta em grande parte
seria “não”. É claro que estou generalizando, e haverá muitas exceções
para essas respostas.
Os cristãos chineses quase universalmente aceitam o fato que Deus
cura hoje. Eles crêem na validade dos dons e das manifestações do Espí
rito e estão abertos para eles; mas há provavelmente pouca ênfase sobre
“procurar com zelo os dons espirituais” (I Co 14:1), como Paulo nos exorta
a fazer, e pouco ensino bíblico sobre o seu exercício certo na igreja.
0 que Deus quer dizer-nos através deste aspecto do seu trabalho na
China? Numa nação que é em grande parte Uvre da influência do Ocidente,
e onde não há nenhum “lobby” forte a favor ou contra manifestações sobre
naturais, Deus está todavia movendo espontaneamente desta maneira.
Outra lição é a abertma dos crentes chineses e a simpUcidade de
sua fé. É verdade que eles têm tido pouco ensinamento. Pela misericór
dia de Deus, não há ninguém ao redor deles alertando-os de que “essas
coisas” são “só para a época do Cristianismo primitivo” e que “Deus não
opera mais assim hoje”, e que, portanto, qualquer uma destas manifesta
ções é “falsa”.
Nós precisamos sair de nossa posição de negativismo ou neutra
lidade, se a temos adotado. Precisamos começar a clamar ao Senhor,
como a igreja primitiva fez, e como a igreja na China está fazendo agora,
pedindo que ele estenda sua mão para curar e que sinais e maravilhas
possam seguir-se.
NOTÍCIAS DAlGREjANACHlNAEMi994
o QUE 05 CRISTÃOS CHINESES ENSINARAMÁ UMA
DELEGAÇÃO DO CONGRESSO NORTE-AMERICANO
A seguir reproduzimos um artigo da revista Christianity Jbday, de maio de
1994, ̂que traz notícias mais recentes do avivamento na China.
Nos últimos meses de 1993, as autoridades chinesas emBeijing intensi-
Jicaram seus tradicionais e^orços contra a propagação “não-autorizada” do
Cristianismo na China comunista, Novas leis forampromulgadas no sentido
de refrear a atividade “subversiva” de missionários estrangeiros e de igrgas
casetas “secretas” do país. Emjaneirode 1994, KarenFeaver, umaassisten-
te do congressistaFrank Wô , do Estado de Virgínia (EUA), participou de uma
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
176
delegação americana a Beijing. Embora a viagem tivesse caráter político,
Feaver viu-se atraídapeb aspecto espiritual. Aqui ela faz considerações
sobre a coragem e ardor de uma igreja sob perseguição.
três senhoras chinesas estavam esperando calmamente, com suas
faces serenas escondendo a magnitude de seus testemunhos, quandoentra-
mos na sala. Elas tinham percorrido um longo caminho desde seus lares,
arriscando-se a ser presas ou coisa pior, somente para se encontrar com a
delegação do Congresso dos Estados Unidos. Mas, apesar de tudo, vieram 0
que elas disseram deveriaser um estimulante tônico para os cristãos ameri
canos, que perderam o contato com o poder e a visão da igreja perseguida.
Depois de nos certificarmos de que as cortinas estavamfechadas para
evitar os olhares espreitadores do serviço de segurança chinês, nossa tradu
tora convidou as três senhoras a apresentar suas histórias. Durante três
horas, nossa delegação de ameríainos privilegiados, chefada peb congres
sista Chris Smith, de Nova Jersey, e que incluía membros da Solidariedade
Cristã Internacional, ouviu como um novo capítulo de Atos está sendo escrito
por toda aChina.
Embora as piores perseguições da igreja tenham acontecido durante a
Revolução Cultural dos anos 60 e 70, a igreja subterrânea ainda enfrenta
implacável perseguição em nível locaL 0 govemo chinês agora está dizendo
que há real liberdade religiosa na China eque ninguém épreso por causa da
fé. Porém, nas províncias, os crentes são multados, aprisionados e tortura
dos; as leis locais ainda proíbem reuniões da igreja não-ojicial, proíbem
ensinar os menores de 18 anos a respeito de Cristo, viajar para divulgar o
evangelho, ouvir programas radiofônicos de outros países, receber materiais
religiosos serh a aprovação estatal, bem comojejuar e orar para cura.
A mais idosa das três senhorasfalou de uma experiência recente, tendo
saído haviapouco tempo de suasegwidaprisáo. Durante seus 110 dias em
cativeiro, elafoi pendurada de cabeça para baixo e açoitada comfos elétri
cos. Outras mulheres presas com elaforam ai^ítadas com arame da cintura
para baixo.Seu crime: reunião com um evangelista de Hong Kong. Como os
mártires da igreja apostólica, ela disse que a presença de Deus era tão
palpávelduranteatorturaque,narealidade, elase sentia alegre. “Por causa
dessasqfllções,amamosaindamaisasalmasdaClma”,disseela “eoramos
poraquelesque estavam nos torturando.”
Apesar de sua provação, eb. sorria várias vezes enquanto falava. Eu já
oLwi a respeito da extraordináriafalta de ressentimento eiúre os que sofrem
na China. Seu testemunho conflnvou esta brandura de espírito.
‘As leis locais são contra a Palavra de Deus", explicou uma das senhoras
maisnovas, “portanto, nósasignoramosetemosvicyadoemgruposde 10a
0 Avivamento na China
177
20pessoasparaproclamaroemngeIhodescleoconveçodosanos80.Aúmca
forma de a igreja sobreviver épor meio da evangelização. ” Os congressistas
normalmentenãotomamnotapcvasimesmos, masChrisSmithempunhou
sua caneta para registrarpessoalmente o grito de batalha dos cristãos chine
ses: “Estamos prontos para pregar o evangelho, prontos para ser presos, e
prontos para morrer por amor de Jesus. ”
“Aorvdequerquevarnos,siriaisernaravílhasacon\panhcmir}ossasinriãse
irmãos”, aaescentaramelas.DurantesuamissãoàProvínciadeSichuan, elas
afirmaram ter visto multes milagres: cegos que viam, surdos que ouviam Elas
contaramcomo, diu-cuÉeunvireuniãoondeninguémqueríaaernoEvangelho,
umapessoaqueestavaaleijadabaviaTOanosleuantou-seeandou.
Duas histórias chamaram mais minha atenção. As senhorasfalaram de
umagentedasegurançapública, tipoSaubdeTarso, queestavadispostoa
encontrar e perseguir os crentes clandestinos. Em 1993 sua esposa cristã
ficou tão doente que não podia falar nem andar. Afamília gastou 80.000
iuanes (cerca de dez mil reais) procurando curá-la Os crentes locais decidi
ram mostrar ao agente seu espírito de perdão eforam orar por sua esposa
Elafoi curada miraculosamente e seu marido entregou sua vida ao Senhor.
Ele lhes disse, ‘Agora sei que vocês, cristãos, são realmente boas pessoas.
Antes eu sempre perseguia os cristãos, mas agora eu os avisarei quando o
governo quiser causar-lhes danos. ” “Deus usou seus milagres para nos prote
ger”, umadassenhorasacrescentoucalmamente.
Outro testemunho girou em tomo de um irmão que apresentava a sim
ples mensagem de arrependimento eféa uma multidão que ouvia o evange
lho pela primeira vez. Uma visão de Jesus caminhando ente eles e, depois,
sofrendo na cruz, careceu a todos os que estavam ali. Quando o preletor
falou que Jesus tinha se levantado dentre os mortos, a visão mostrou Jesus
subindo “gloriosamente ao céu”. Dicmte dessa visão, mnitas pessoas entre-
garamsuasvidasaoSenhor.
Os únicos pedidos de oração que as senhoras nos fizeramforam para
mais Bíblias e liberdade. A necessidade de Bíblias é dramática devido ao
espantoso crescimento da igreja chinesa Disseram que o contrabando de
Bíbliascontinuasendonecessârio,umavezqueosregulamentosdogovemo
impedem sua distribuição aos crentes subterrâneos.
A yreja na China conta entre 30e80 milhões de crentes, e está crescen
do depressa 0 líder de uma igreja caseira rdatou a grande fome espiritual
entre osJovens que participaram dos eventos da Praça Tiananmen. Um
Jovem empresário cristão corüou-nos que levou 70 por cento de seus operá
rios a Cristo em questão de meses, senhorasfalaram de 40.000 que se
entregaramaCristoduraníeumúnicomêsem 1993.
A Igreja do Século XX-A História que Não Foi Contada
178
Ekistambémnospediramqueorâssernœpor liberdade naChina, demodo
que possam viajar abertamente para pregar o evangelho por todo o país, na
Amérícae,depois, “portodoocaminhodevoUaaJerusalémporatermmara
tareja!'.
0 reavivamento atual na China pode bem ser o maior da história da
igreja até agora, de acordo com o sinólogo eJornalista David Aikman, da
revista “Time” Enquanto ainda estou às voltas com todas as lições que a
igreja chinesa pode nos ensinar, acho que as seguintes diferenças são espe
cialmente instrutívas:
Primeiro, creio que há umapalavra de advertênciapara nós na natureza
apolítica da igreja subterrânea chinescL Eles oram com fervorpebs líderes,
porémmantêmumacautelosaindependência. Somosprivilegiadosporviver-
mosnurnadenwcraciaparticipcitím mas, tendotrabcúhadonapolíticanoríe-
americana durcmte quase uma década, tenho visto não poucos crentes ven
derem seu direito de cristão por um prato de guisado terreno. Devemos
perguntar-nos continuamente: Nossoprinnetro alvo é mudar nosso govemo
ou ver vidas dentro ejora do govemo mudadas para Cristo?
A segunda diferença é o enfoque da igreja chinesa sobre a centralidade
do evangelho e sobre a obediência da Grande Comissão. Enquanto ouvia o
relato daquelas irmãs, não pude evitar de pensar nos intermináveis debates
sobre temas periféricos, tais como a validade dos dons carismáticos, os
papéis das mulheres na igreja, e assbnpor diante. Paraessas três senhoras,
a realidade do poder miraculoso de Deus foi a única explicação para asobre-
vivência e crescimento da igreja na China. E o falar das maravilhas de Deus
não era certamente limitado pelo sexo.
A terceira diferença é a maisforte—ao menos para mim Quando as três
senhoras nos deixaram, perguntei à nossa tradutora se elas precisavam de
alguma ajudafmanceira Ela me olhou pensativamente e disse, “Oh, elas
precisam ..e não precisam. ” Eu sabia o que ela queria dizer. Até a igreja dos
Estados Unidos, a mais rica do mundo, sempre parece estar ela mesma sem
recursos suficientes; entretanto, a igreja chinesa está muito ocupada em
cumpriraGrandeComissão parapercebersuapobreza.
Fhríamos bem em considerar os Julgamentos contrastantes da igreja em
J^xxxilipse3e7.Etestêmressoadoemmeucoraçãodesdeminhavoltaefalacb
intensamente sobre o nosso Cristicuiismo de hoje e a pureza quevina igreja
chinesa.
ÀigrejaemLaodicéia disse Deus, “Conheço as tuas obras, quenemés
friorvemquente. ..Jissim, porque és momo, e nem és quente nemfrio, estou
a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes, ‘Estou rico e abastado, e
não preciso de coisa alguma', e nem sobes que tu és irÿéliz, sim, miserável
0 Avivamento na China
179
pobre, cego e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro rejinado pelo Jogo
para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, afim de que não
seja mcmifestaavergonhadatiia nudez” (Ap 3:15-18).
Com referência à visão do apóstob João dos que se vestiam de vestidu
ras brancas, adorando diante do trono de Deus, foi-lhe dito: “São estes os
que vêm da grande tribulação, lavaramsuas vestiduras, easaluejaramno
sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o
servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no tono
estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais
terão sede... pois o Cordeiro que se encontra no meio do tono os apascenta
rá... E Deus lhes ervcugará dos olhos toda a lágrima” (Ap 7:14-17).
Sentei-me aos pés dos crentes da China, os quais estão sendo prepara
dos agora mesmo para receber aquelas vestiduras brancas que adornarão os
santos. Comparando-me com seus vistosos ornatos, eume senti espiritual
mente nua.
CONCLUSÃO
A última fase da história da hmnanidade antes da volta de Cristo
será uma época quando, de acordo com a própria profecia de Jesus,
“Este evangelho do reino será pregado por todo o mundo, para testemu
nho a todas as nações. Então virá o flm” (Mt 24:14). Com a frase “este
evangelho do reino”, Jesus estava identificando o evangelho de sinais e
maravilhas que ele e seus discípulos haviam pregado como sendo a
mensagem que precederia o final dos tempos (Mt 10:7,8). Curas e mila
gres serão uma característica da última fase da pregação do evangelho,
assim como na primeira fase o foram. Seria possível encontrar hoje em
algum lugar do mundo uma igreja tão preparada para esta tarefa mundi
al como a igreja na China?
Jonathan Chao, do Centro de Pesquisa da Igreja Chinesa, disse:
“Depois de dez anos estudando a China e de cinco anos pesquisando a
igreja na China, cheguei à conclusão que dentro