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Autora: Profa. Daniela Emilena Santiago Colaboradores: Profa. Amarilis Tudella Prof. Mauro Kiehn Serviço Social e Processo de Trabalho Professora conteudista: Daniela Emilena Santiago É assistente social graduada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), especialista em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus Assis/SP. Mestre em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus Assis/SP e doutoranda em História pela mesma instituição. Atualmente, é funcionária pública do município de Quatá/SP, atuando como assistente social na Secretaria Municipal de Promoção Social. É docente dos cursos de Psicologia e Pedagogia da UNIP, campus Assis-SP, e coordenadora dos cursos de pós-graduação em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes e Gestão de Políticas Sociais e Trabalho com Famílias, também no campus Assis-SP. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S235s Santiago, Daniela Emilena. Serviço Social e Processo de Trabalho / Daniela Emilena Santiago. – São Paulo: Editora Sol, 2021. 116 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Assistente social. 2. Planejamento. 3. Política social. I. Título. CDU 331 U511.42 – 21 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcello Vannini Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Deise Alcantara Carreiro – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Irana Magalhães Vitor Andrade Sumário Serviço Social e Processo de Trabalho APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................9 Unidade I 1 O ASSISTENTE SOCIAL COMO TRABALHADOR COLETIVO E SUA INSERÇÃO EM PROCESSOS DE TRABALHO ..................................................................................................................... 11 1.1 Breve histórico da institucionalização do Serviço Social no Brasil.................................. 11 1.2 O assistente social como trabalhador coletivo e sua inscrição em processos de trabalho ..................................................................................................................................................... 17 1.2.1 O assistente social como trabalhador coletivo ........................................................................... 17 1.2.2 O assistente social inscrito em processos de trabalho ............................................................ 22 2 OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO SOCIAL ......................................................................................................... 30 3 A INTERVENÇÃO PROFISSIONAL E SUA RELAÇÃO COM O PLANEJAMENTO ........................... 36 3.1 Planejamento estratégico e planejamento participativo ..................................................... 44 3.2 Os dispositivos básicos do planejamento: planos, programas e projetos ...................... 47 4 A ATUAÇÃO DOS ASSISTENTES SOCIAIS COMO GESTORES DE POLÍTICAS SOCIAIS ............. 55 Unidade II 5 A ATUAÇÃO DOS ASSISTENTES SOCIAIS NOS CONSELHOS GESTORES DE POLÍTICAS SOCIAIS ............................................................................................................................................. 66 6 A INTERVENÇÃO PROFISSIONAL NA GESTÃO DE ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL – TERCEIRO SETOR .................................................................................................................................. 73 7 O ASSISTENTE SOCIAL E A ATUAÇÃO COM ASSESSORIA, CONSULTORIA E NA DOCÊNCIA ................................................................................................................................................... 80 8 O EXERCÍCIO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL COMO SUPERVISOR E NOS CONSELHOS PROFISSIONAIS COMO AGENTE FISCAL ........................................................................... 91 7 APRESENTAÇÃO Para que possamos dar início a esta disciplina, convidamos você para ler a notícia a seguir: Em tempos de pandemia, dia do assistente social conta com agenda de valorização Conselho Regional de Serviço Social promove uma série de debates e publicações para a categoria durante pandemia Nesta sexta-feira, é comemorado o dia do assistente social e, em meio à pandemia do coronavírus, os Conselhos Regionais e Federais de Serviço Social (Cress e CFESS) prepararam uma programação especial para celebrar a data. Com o tema ‘trabalhamos em vários espaços, sempre com a população. Serviço Social: conheça e valorize essa profissão’, os conselhos têm levantado o debate de valorização e reconhecimento do profissional do Serviço Social por meio de ações nas redes sociais. Em Alagoas, as ações organizadas pelo Conselho Regional de Serviço Social (Cress-Alagoas) trazem uma série de debates e publicações de materiais para a categoria em tempos de pandemia, refletindo o papel e a importância do Serviço Social no atual contexto que vive o país. No manifesto publicado pelo Cress-Alagoas em valorização ao trabalho dos assistentes sociais, o Conselho destaca que “em tempos de calamidade pública, o Serviço social tem papel de destaque na linha de frente das ações que possam diminuir o impacto da pandemia na vida da população, em especial das que estão em situação de vulnerabilidade social”, afirma trecho do material. É nesse contexto que se posiciona a comemoração do 15 de maio em 2020. De acordo com Marciângela Gonçalves, conselheira presidenta do Cress-Alagoas, as consequências do cenário de pandemia são refletidas diretamente nas condições de vida da população mais pobre, população com a qual os profissionais assistentes sociais desenvolvem seu trabalho cotidiano. “Nossa categoria atua em espaços estratégicos nesse momento. Os equipamentos sociais, a exemplo dos Centros de Referência de Assistência Social, os Cras, devem contribuir significativamente para favorecer o acesso aos serviços socioassistenciais e prestar informação qualificada à população nesse contexto”, comentou Marciângela. Ainda de acordo com a presidenta do Conselho, a atuação do profissional do Serviço Social possibilita a efetividade de ações essenciais para a manutenção da vida da população mais pobre. “As diversas estratégias interventivas que reduzem os impactos da política econômica e crise sanitária que estamos vivendo contribuem diretamente para que a população tenha acesso aos serviços de saúde, assistência e previdência social, fundamentais para a sobrevivência de inúmeros sujeitos em seus territórios”, explicou. 8 “Sempre estivemos na luta e construção de uma sociedade mais justa e igualitária e não podemos,nesse momento, recuar das nossas defesas e das nossas funções”, concluiu Gonçalves. Ações em Alagoas A agenda pela passagem do dia do assistente social em Alagoas é marcada por uma série de atividades promovidas pelo Cress junto à categoria. As ações que acontecem desde o início do mês contemplam uma diversidade de debates transmitidos on-line, publicação de materiais orientativos aos profissionais, além do acompanhamento e fiscalização das condições de trabalho dos assistentes sociais nesse período. As atividades que dialogam sobre o exercício profissional deles com o atual momento de crise sanitária que vive o país devem ocorrer durante todo o mês, mobilizando, mesmo que por ações on-line, orientando e aprofundando as reflexões com os profissionais no estado. Fonte: Lima (2020). A notícia reproduzida mostra como o trabalho dos assistentes sociais mostrou-se ainda mais relevante no contexto da epidemia de Covid-19 que afetou o mundo em 2020. Vemos que a entrevistada, Marciângela Gonçalves, conselheira presidenta do Cress-AL, destaca a importância da ação profissional frente às intercorrências vivenciadas pela população mais vulnerável, tendo em vista as mudanças no cotidiano desse público causadas pela pandemia. Na narrativa, Marciângela dá ênfase à ação do assistente social no Cras, destacando a potencialidade de sua prática no direcionamento dos serviços socioassistenciais. Escolhemos esse texto, dentre muitos possíveis, pois nele vemos que a necessidade por nossa profissão ganhou notoriedade no contexto do ano de 2020, por conta das demandas decorrentes da pandemia. Isso nos faz pensar na transitoriedade que perpassa toda a realidade e que nos permite compreender que essa realidade está em constante construto, constante devir. À medida que a realidade muda, fortemente influenciada por fatores econômicos, políticos, sociais e, até mesmo, epidemiológicos, nossa profissão também muda e é afetada. Isso traz a necessidade de romper com abordagens antigas e se apropriar das novas possibilidades que são apresentadas à categoria. Essa realidade de mutação é algo inerente às profissões e esteve presente em toda a história de desenvolvimento do serviço social brasileiro. Novas demandas vêm sendo apresentadas à nossa categoria cotidianamente e outras vêm se reatualizando, assumindo nossas configurações e formatos. É exatamente isso que propomos por meio desta disciplina: uma reflexão sobre a prática do assistente social, partindo de demandas já presentes em nosso exercício profissional por meio do desempenho de ações relacionadas ao planejamento das atividades, mas também discutindo sobre novas possibilidades do fazer profissional, refletindo sobre a ação profissional na gestão de políticas sociais, na intervenção dos Conselhos de Direitos, em práticas com assessoria e consultoria, com a docência, nos conselhos regionais e outras possibilidades afins. 9 Portanto, vamos conhecer e refletir sobre outros espaços de exercício profissional, algo que é extremamente válido e necessário para a sua formação. Esse conhecimento nos levará a contemplar o objetivo da disciplina, que é “compreender o serviço social como uma especialização do trabalho social e a condição assalariada do trabalho do assistente social” e, nesse sentido, apreender as mais variadas dimensões teórico-metodológicas que são apresentadas a nós e ao nosso exercício profissional nos espaços diversificados de ação que têm sido constituídos. INTRODUÇÃO A ação do profissional será o objeto de discussão desta disciplina e, para que possamos entender o papel do assistente social, é essencial retomar a constituição do serviço social como profissão no Brasil. Dito isso, daremos início aos nossos estudos por meio da discussão sobre a consolidação da profissão no Brasil e sua inserção em processos de trabalho. Esses conceitos, dispostos na unidade I, servirão de mote inicial para a discussão subsequente, relacionada aos projetos de classe, os projetos profissionais e os projetos de trabalho do serviço social. Na sequência, ainda na unidade I, apresentaremos conceitos vinculados à ação concreta, por meio de questões relacionadas ao planejamento. Pensar a dimensão do planejamento requer reflexão sobre os dispositivos privilegiados que são os planos, programas e os projetos de intervenção. Por meio dessas aproximações, também consideraremos a ação cotidiana do assistente social como gestor de políticas sociais. Essa introdução é o substrato necessário para que possamos pensar sobre as ações cotidianas do assistente social e seguir para a unidade II, na qual apresentaremos outros exemplos de intervenção profissional. Na unidade II, abordaremos outros espaços e práticas possíveis aos assistentes sociais, como a intervenção em Conselhos de Direitos, os quais, como sabemos, são responsáveis pela gestão de políticas sociais. Também discorreremos sobre a prática profissional por meio da assessoria e consultoria e, ainda, sobre a docência. A atuação profissional na docência abre um leque amplo, que nos permitirá abordar, também, o exercício do assistente social como supervisor de estágio. Para concluir a unidade II, apresentaremos a ação do assistente social nos Conselhos Regionais. Dessa maneira, convidamos você a repensar a inserção profissional do assistente social e, ainda, conhecer e refletir sobre a nossa intervenção nos mais variados espaços laborais. 11 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Unidade I 1 O ASSISTENTE SOCIAL COMO TRABALHADOR COLETIVO E SUA INSERÇÃO EM PROCESSOS DE TRABALHO Para começar, buscamos apresentar uma discussão que estimule a reflexão sobre a consolidação da nossa área como profissão no Brasil. Para isso, organizamos o texto por meio de dois subitens. No primeiro deles, apresentaremos uma caracterização histórica sobre as mutações pelas quais passou a nossa profissão. No item seguinte, abordaremos o conceito de processo de trabalho e sua aplicação ao Serviço Social, discutindo também aspectos relacionados ao entendimento do assistente social como trabalhador coletivo. 1.1 Breve histórico da institucionalização do Serviço Social no Brasil No Brasil, a consolidação de nossa profissão está ligada à sua aceitação social como categoria de trabalho. É o momento em que nossa área deixa de ser uma ação de caridade e passa a ser uma intervenção profissional. Isso só acontece à medida que essa profissão passa a ser necessária. Vamos recuperar um pouco desse contexto para entender melhor quais foram as bases que tivemos para a institucionalização do Serviço Social. Bem, essa história é como aquelas histórias de família, compostas por informações que sempre conhecemos e escutamos nos encontros familiares. Essa é a nossa história, que define a nossa profissão, e ela começa, no Brasil, em meados dos anos 20 do século XX. Marilda Iamamoto (1982) coloca que nos anos 1920, sobretudo na segunda metade, tínhamos condições sociais, econômicas e políticas que favoreciam a organização da caridade, sobretudo por meio da intervenção voltada à caridade por parte da Igreja Católica. A Igreja buscava recuperar poder e fiéis, algo que vinha perdendo no Brasil. Suas ações aconteceram por várias frentes, sendo uma delas a organização da caridade. A caridade consistia em oferecer auxílio às demandas emergenciais apresentadas pelos segmentos mais vulneráveis da sociedade. Essa “ajuda” era custeada com recursos arrecadados pela Igreja. Quem fazia essa caridade eram os leigos, ou seja, pessoas que frequentavam a Igreja Católica. Via de regra, essas pessoas eram mulheres, pertencentes às famílias de maior poder aquisitivo da sociedade, e, preferencialmente, que não fossem casadas. A Igreja, visando preparar as mulheres para essa ação, passou a oferecer, no mesmo período, formação para as moças. A formação era viabilizada por meio de cursos oferecidos pelo Centro de Estudos e Ação Social (Ceas), organização que foi criada com tal finalidade em São Paulo, em 1932.As pessoas que desenvolviam essa ação foram nomeadas agentes sociais. 12 Unidade I Observação A institucionalização do Serviço Social no Brasil como profissão está associada à criação das primeiras escolas de formação, as quais foram necessárias para qualificar a intervenção das profissionais e prepará-las para a administração das expressões da questão social. Iamamoto (1982) afirma ainda que, nos anos 1930, a ação leiga em prol do atendimento das necessidades dos segmentos mais vulneráveis foi mantida, sobretudo, por meio do estímulo das formações oferecidas através do Ceas. No entanto, mesmo os cursos oferecidos pelo Ceas não se mostraram capazes de minimizar as demandas apresentadas pela sociedade. A autora ressalta que no período em questão, no Brasil, tivemos uma ampliação da classe trabalhadora, associada a uma crescente organização dos trabalhadores e à correspondente exigência dos direitos de tais segmentos. Os agentes sociais passaram então a ser requisitados para também atuar junto à classe trabalhadora. Junto aos trabalhadores, a ação profissional esteve orientada para o controle dos perfis, influindo junto às famílias, buscando a consolidação de um padrão idealizado de ser, além do controle sobre os corpos e condutas. Assim, percebemos que as requisições que delineavam as ações dos agentes sociais mudaram, já que eram requisitados tanto para a administração das mazelas geradas pelo capitalismo quanto para o controle das famílias. As novas requisições despertaram o interesse da Igreja e da burguesia para essas agentes e, sob influência do Estado, foram criados os primeiros cursos de Serviço Social no Brasil, em meados dos anos 1930. Em São Paulo, a primeira escola foi criada sob influência de Albertina Ferreira Ramos e Maria Kiehl, no ano de 1936. Essa escola substituiu o Ceas e buscou oferecer formação às moças, uma espécie de técnica para que pudessem lidar com as novas demandas apresentadas frente às mudanças políticas, sociais e econômicas que se manifestavam no país. A autora afirma que a formação, nesse período, foi estruturada em torno da influência dos dogmas católicos. Associado a esses conceitos, difundidos pela Igreja Católica e reproduzidos nos espaços da sala de aula, também observamos uma grande influência norte-americana, por meio de técnicas que buscavam ensinar os assistentes sociais sobre como intervir em seu público-alvo. Tivemos no Brasil grande influência da perspectiva do método de casos individuais, proposto por Mary Richmond, além do positivismo e do funcionalismo. Em linhas gerais, as abordagens se complementam e têm como objetivo preparar o técnico para intervir nos segmentos específicos. Tempos depois, tivemos também os métodos de grupo e comunidade. Fato é que novas abordagens metodológicas foram surgindo à medida que as demandas profissionais foram sendo alteradas (IAMAMOTO, 1982). José Paulo Netto (2001) e Marilda Iamamoto (2001) nos colocam que o surgimento das primeiras escolas está ligado às necessidades geradas pelo sistema capitalista. Para eles, a adesão de novas técnicas e a busca por qualificar melhor a ação estão ligadas aos novos dispositivos 13 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO que são apresentados aos assistentes sociais para que eles possam exercer bem o seu papel e assim atender às novas necessidades que são geradas pelo capitalismo. Assim, para esses autores, a institucionalização do Serviço Social como profissão no Brasil só aconteceu em virtude da sua necessidade social. Netto (2001) ainda destaca que foi a necessidade capitalista que demandou a consolidação do Serviço Social como profissão. Para ele, não tivemos uma evolução natural da ajuda, que resultou no Serviço Social com bases profissionais, mas sim a necessidade do sistema capitalista. Em relação ao contexto político, sabemos que nos anos 1930 ocorreu a ascensão do governo militar por meio do Governo Provisório de Getúlio Vargas, que intensificou a industrialização nacional, instituiu direitos trabalhistas e conferiu novas bases para a relação entre trabalhador, empresa e Estado. Ofereceu ainda elementos básicos necessários para a ampliação do desenvolvimento capitalista, como a oferta de serviços de infraestrutura mínimos para o escoamento da produção, por meio da melhoria das estradas e afins. Constituiu, ainda no primeiro mandato, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), com o objetivo de preparar a mão de obra para o trabalho. Ou seja, ofereceu um rol amplo de serviços visando a garantia do amplo desenvolvimento capitalista no Brasil. Saiba mais Os filmes a seguir apresentam aspectos relacionados ao contexto dos anos 1930. O filme Adágio ao Sol é a narrativa de um triângulo amoroso vivenciado em uma fazenda de café que está em declínio e no qual temos a questão política e econômica como pano de fundo. ADÁGIO ao Sol. Brasil. Direção: Xavier de Oliveira. Brasil: California Filmes, 1996. 100 min. Outro clássico que apresenta o período é o filme Memórias do Cárcere, que retrata a prisão do escritor Graciliano Ramos sob acusação de envolvimento com a chamada Intentona Comunista. O filme recebeu premiações no festival de Cannes de 1984. MEMÓRIAS do Cárcere. Direção: Nelson Pereira dos Santos. Brasil: Embrafilme, 1984. 115 min. Contudo, a consolidação do sistema capitalista poderia ser um fator influente para o Serviço Social? Poderia ser um dos fatores que influenciou a institucionalização dessa profissão no Brasil? Se você respondeu afirmativamente a essas duas perguntas, você está de acordo como o pensamento de Netto (2001) e Iamamoto (2001), uma vez que ambos compreendem a institucionalização do Serviço Social como profissão no Brasil em decorrência de tais fenômenos. Porém, o que fez com que essa profissão fosse mantida, ou seja, porque não tivemos a extinção do Serviço Social anos depois? Possivelmente, porque o Serviço Social mostrou-se como uma profissão socialmente necessária. 14 Unidade I Porém, a partir da institucionalização da profissão, outros eventos são importantes e necessários, já que demonstram o caminhar do Serviço Social na constituição de sua maturidade profissional. Dentre eles, temos a criação da Associação Brasileira de Ensino de Pesquisa em Serviço Social, a ABEPSS. Inicialmente, a instituição foi denominada Abess, Associação de Ensino em Serviço Social, no ano de 1946. No ano de 1996, a Abess teve sua nomenclatura alterada para ABEPSS, visando representar a Pesquisa, daí o acréscimo da letra P à sigla. O objetivo da ABEPSS foi o de orientar o processo de formação dos assistentes sociais. No início, a instituição surge também influenciada pelo positivismo e pelas doutrinas sociais da Igreja Católica, mas, com o tempo, a organização foi mudando junto com a maturidade da profissão (NETTO, 2001). Saiba mais Visando conhecer mais sobre a ABEPSS, recomendamos que você assista ao documentário elaborado por essa organização em 2016, no qual temos uma narrativa interessante dessa história. ABEPSS 70 anos. 2016. 1 vídeo (13:33). Publicado por ABEPSS. Disponível em: https://cutt.ly/KxQ8y4b. Acesso em: 3 out. 2020. Segundo Maria Lúcia Barroco (2006), também foi nesse período que criaram no Brasil, mais especificamente no ano de 1947, o primeiro Código Profissional de Ética dos Assistentes Sociais, que ofereceu parâmetros morais para a ação profissional ainda com o aporte à religião, fortemente influenciado pelas normas da Igreja Católica. Observação A Lei Federal n. 3.252, de 27 de agosto de 1957, foi a primeira legislação de regulamentação da profissão no Brasil. No aspecto da regulamentação legal desse exercício, vemos que, na década de 1950, foi realizada a promulgação da Lei Federal n. 3.252, de 27 de agosto de 1957. Essa legislação indica que somente pessoas graduadas podem exercer o ofício e ainda destaca as atribuições do cargo, enfatizando que somente assistentes sociais poderiam assumir cargos na área. A legislação especificaainda que os agentes sociais poderiam exercer a função desde que estivessem, até dezembro de 1960, matriculados nos cursos de Serviço Social. Dessa forma, veta que o agente social atue como assistente social (BRASIL, 1950). Anos depois, em 1962, a lei em questão recebeu regulamentação por meio do Decreto n. 994/62. O decreto, por sua vez, apresenta mais detalhes se comparado à lei e define o assistente social como um profissional liberal, indica quem poderá exercer essa profissão, quais seriam as prerrogativas desse profissional e disciplina como órgãos de fiscalização do exercício o Conselho Federal de Assistentes Sociais e os Conselhos Regionais de Assistentes Sociais, apresentados respectivamente pelas siglas CFAS e Cras. Também 15 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO destaca a questão da manutenção por meio das contribuições e enfatiza sobre a importância do Cress na emissão das carteiras profissionais (BRASIL, 1962). A Lei Federal n. 3.252/57 e o Decreto n. 994/62 são importantes dispositivos legais que buscam regulamentar o exercício profissional dos assistentes sociais no Brasil. Entretanto, por que esses documentos são tão importantes? Ou melhor, qual a relevância de se regulamentar uma profissão? A regulamentação, expressa por meio de um arcabouço legal define legalmente os limites, as competências e as habilidades de uma determinada profissão. Regulamentar corresponde a conferir um estatuto legal a uma profissão. Mas regulamentar também faz menção à representação social de uma profissão em um determinado contexto. Isso trouxe ao Serviço Social um status frente à sociedade. Porém, esse não foi o único acontecimento que estabeleceu a maturidade da categoria. No ano de 1965 tivemos uma revisão do Código Profissional de Ética, elaborado em 1947, que resultou no Código Profissional de Ética de 1965. Nesse novo Código de Ética, tivemos a indicação da necessidade de intervenção do Serviço Social junto aos indivíduos com os quais atuava. É um documento simples, que enfatiza valores éticos e morais que são idealizados aos assistentes sociais (BARROCO, 2006). Um dos fenômenos extremamente importantes no direcionamento do amadurecimento da categoria profissional foi o Movimento de Reconceituação. Esse movimento, presente na América Latina e no Brasil em meados dos anos 1970, se consolidou como uma fase em que o Serviço Social passou a rever suas bases tradicionais. As reflexões da categoria em torno dessa questão resultaram em três perspectivas diferentes, a saber: a modernizadora, com forte caráter positivista e que buscava apenas tornar a ação do assistente social um pouco mais técnica; a reatualização do conservadorismo, que defendia a manutenção do viés religioso junto ao Serviço Social e, por fim, a intenção de ruptura, que buscava romper com o tradicionalismo e também compreendia como necessária uma vinculação maior da profissão ao marxismo (IAMAMOTO, 1982). Esse movimento foi importante pelo fato de mudar a perspectiva do Serviço Social sobre si e sobre a realidade, além de ter exercido forte influência na ABEPSS, que adotou um posicionamento mais crítico em relação à própria formação dos assistentes sociais. Também foi nesse período que tivemos a ampliação dos cursos de graduação e pós-graduação provenientes de instituições públicas e privadas, ou seja, cada vez menos os espaços de formação eram controlados e mantidos pela Igreja. Barroco (2006) chama a nossa atenção para o fato de que, no ano de 1975, foi criado um novo Código Profissional de Ética, revisto e que substituiu o antigo documento, de 1965. Apesar de esse momento ter trazido muitas reflexões críticas aos assistentes sociais, observamos que o Código Profissional de Ética aprovado não representava essa criticidade. Antes, o documento fortalecia a dimensão técnica do fazer profissional, valorizando a importância de sua ação mostrar-se qualificada e capaz de atender as demandas que lhes são apresentadas. No entanto, no ano de1986, surge um novo documento. O Código Profissional de Ética dos Assistentes Sociais de 1986 já incorpora a criticidade presente na categoria e destacou a importância de valores relacionados ao respeito das diferenças, da diversidade, assim como a necessidade de uma 16 Unidade I sociedade mais justa e menos desigual. O documento também apresenta referências normativas para o desenvolvimento da atuação dos assistentes sociais. Lembrete A intervenção dos assistentes sociais no Brasil tem início em meados dos anos 1930 a partir da constituição das primeiras escolas de Serviço Social. Em 1993, a profissão teve uma nova lei de regulamentação aprovada. Foi nesse ano que tivemos a promulgação da Lei n. 8.663, de 7 de junho. Além de fortalecer a importância de que somente quem fez um curso de graduação pode ser considerado assistente social, a lei ainda disciplina atribuições privativas e competências dos profissionais, apresenta as responsabilidades do CFESS e do Cress e disciplina até mesmo os aspectos relacionados à punição dos profissionais (BRASIL, 1993). Também é de 1993 a última versão do Código Profissional de Ética dos Assistentes Sociais, que ainda está em vigor e fortalece a noção dos princípios fundamentais assentados no respeito à diversidade, assim como na ênfase à consolidação de uma sociedade mais justa e menos desigual. O documento oferece ainda parâmetros para orientar a relação do assistente social com instituições, empregadores, com usuários, outros profissionais, além de dispor aspectos relacionados ao sigilo e às relações do assistente social com a Justiça. Saiba mais Para conhecer um pouco mais sobre os Códigos de Ética que embalaram o desenvolvimento do Serviço Social no Brasil, recomendamos que faça sua leitura. Eles estão disponibilizados para consulta nas plataformas digitais citadas. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ASSISTENTES SOCIAIS (ABAS). Código de ética profissional dos assistentes sociais. Seção de São Paulo, 1947. Disponível em: https://bit.ly/3eOh5eq. Acesso em: 4 out. 2020. CONSELHO FEDERAL DE ASSISTENTES SOCIAIS (CFAS). Código de Ética Profissional do Assistente Social. Brasília, 1965. Disponível em: https://bit.ly/311YXp8. Acesso em: 4 out. 2020. CONSELHO FEDERAL DE ASSISTENTES SOCIAIS (CFAS). Código de Ética Profissional do Assistente Social. Brasília, 1975. Disponível em: https://bit.ly/3sgmuP2. Acesso em: 4 out. 2020. CONSELHO FEDERAL DO SERVIÇO SOCIAL (CFESS). Código de Ética Profissional do Assistente Social. Brasília, 1993. Disponível em: https://bit.ly/3vHpTZA. Acesso em: 4 out. 2020. 17 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO A imagem a seguir representa as mudanças em eventos específicos, na legislação e nos Códigos, observadas ao longo do desenvolvimento do Serviço Social no Brasil. Surgimento das primeiras escolas de formação ABEPSS Formação leiga Lei de Regulamentação de 1957 Decreto 994/62 Lei de Regulamentação de 1993 Código de Ética de 1947 Código de Ética de 1965 Códigos de Ética de 1975, 1986 e 1993 Figura 1 – Representação do desenvolvimento da institucionalização do Serviço Social no Brasil Para além de um rol amplo de datas aleatórias, vemos nessa representação e na discussão empreendida que tivemos inúmeras mudanças no Serviço Social. Essas mudanças e amadurecimento foram basais para a consolidação da nossa imagem profissional do que corresponde a ser um assistente social. Dito de outra forma, o que todos esses documentos e legislações indicam? Que o Serviço Social deixou seu estatuto de uma ação desenvolvida com base na caridade e no princípio doutrinário para ser considerado uma produção inscrita nas relações trabalhistas. E é exatamente esse conceito que estudaremos no item subsequente. 1.2 O assistente social como trabalhador coletivo e sua inscrição em processos de trabalho Nesse item, aprofundaremos a discussão em torno do conceito de trabalhador coletivo e da inserção do assistente social em processos de trabalho. Optamos porsubdividir a discussão apenas com finalidade pedagógica, dando início à abordagem por meio da argumentação sobre o assistente social como trabalhador coletivo. 1.2.1 O assistente social como trabalhador coletivo O entendimento do assistente social como um trabalhador coletivo pressupõe compreender que esse profissional está inscrito em uma relação de trabalho, inscrito na divisão sociotécnica do trabalho. Mas, antes de ingressarmos nessa reflexão, vamos conhecer um pouco mais sobre a divisão do trabalho. 18 Unidade I Harry Braverman (1977) nos coloca que, em tese, a divisão do trabalho se refere aos meios pelos quais os seres humanos organizam a produção e a reprodução da vida. A divisão do trabalho corresponde às formas com que cada sociedade estrutura a sua sobrevivência. Por conseguinte, cada sociedade, ao longo de seu desenvolvimento histórico e social, consolida e institui meios pelos quais consegue atender às necessidades de seus membros e, segundo o autor, essas formas são estruturadas em torno do trabalho. Para Braverman (1977), o conceito de divisão do trabalho envolve pensarmos sobre o trabalho, sobre o trabalho na sociedade capitalista, sobre a divisão sexual do trabalho e sobre a divisão internacional do trabalho. Bem, o trabalho é apresentado pelo autor como algo que acontece em virtude da nossa necessidade. O trabalho, ato desempenhado pelo ser humano, é acionado sempre que há uma necessidade a ser desenvolvida. O trabalho na sociedade capitalista assume feições particulares e fortemente influenciadas pelo estágio de desenvolvimento do capital. Dessa forma, no contexto do taylorismo e do fordismo, por exemplo, teremos o trabalho estável, consolidado no interior das fábricas (pensando sobretudo nas empresas privadas). Já no contexto da acumulação flexível, por outro lado, o trabalho muda, perdendo o seu caráter estável e podendo ser realizado pelo trabalhador de outros espaços para além do chão da fábrica. Dito de outra forma, as alternativas de organização do trabalho sofrem a influência da organização da sociedade capitalista. A questão da divisão sexual é abordada a fim de apontar que, no processo de trabalho, há diferença entre homens e mulheres. O autor indica que nas sociedades primitivas as mulheres eram responsáveis pela caça, pela atenção das necessidades de um determinado grupo. Os homens se ocupavam de outras funções. Já na sociedade capitalista, temos uma alteração e, inicialmente, é atribuída ao homem a função de provedor, algo que muda na sociedade contemporânea. Assim como o trabalho é alternado na sociedade, a divisão sexual do trabalho também muda a depender do contexto histórico vivenciado. E, por fim, a divisão internacional do trabalho compreende à especialização da produção dos países. É uma divisão, uma organização da produção no cenário internacional. Cada país, a depender de seu desenvolvimento, produz e comercializa determinados itens. Observação A divisão social do trabalho está vinculada às formas de trabalho que são consolidadas em uma sociedade visando a atenção de suas necessidades. E é partindo de tais abordagens que o autor insere o conceito de divisão social do trabalho. A divisão social do trabalho corresponde ao formato de organização de tarefas em um espaço relacionado ao trabalho. A divisão social permite a definição de atividades, funções de cada profissão, de cada profissional, para que assim seja possível a produção de elementos necessários para uma dada sociedade. No aspecto micro, as empresas adotam a atribuição de tarefas para que cada trabalhador possa colaborar com o processo de produção. Já no aspecto macro, a divisão social corresponde às funções laborais desempenhadas pelo conjunto de trabalhadores para garantir a satisfação das necessidades de uma sociedade. 19 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Em Braverman (1977), observamos que a divisão social do trabalho é uma especialização das atividades humanas que está presente em todas as sociedades que possuem uma organização complexa. E essa divisão se expressa em atividades produtivas ou por meio de ramos de atividades necessárias para a reprodução da vida, por meio do trabalho humano. Temos uma divisão do trabalho em especialidades produtivas. Observação O trabalhador coletivo faz menção ao agrupamento de pessoas em um esforço conjunto para produzir mercadorias necessárias à sociedade. Dentro das colocações citadas, o autor destaca a noção do trabalhador coletivo. Mas o que seria isso? O trabalhador coletivo é aquele que está inscrito em uma relação de trabalho e que, como tal, faz atividades de acordo com um padrão estabelecido. O trabalhador coletivo produz para atender uma necessidade da espécie, da sociedade em que ele está inserido. Podemos produzir vários itens, vários objetos, vários produtos usando padrões diferentes e para finalidades distintas. O que caracteriza o trabalhador coletivo é o fato de sua ação resultar em algo que é necessário socialmente. Todos os trabalhadores que hoje produzem algo necessário à sociedade são trabalhadores coletivos. Por conseguinte: “[...] o trabalho não é a ação isolada de um indivíduo, é sempre atividade coletiva de caráter eminentemente social” (RAICHELIS, 2011, p. 423). Lembrete O Serviço Social se institucionaliza no Brasil a partir de 1936 com a criação das primeiras escolas. E nós, assistentes sociais? Somos trabalhadores coletivos? Maria Carmelita Yazbek (2009) coloca que somos trabalhadores coletivos a partir de nossa inserção na divisão social do trabalho. Para a autora, nossa inserção está vinculada a dois processos: a consolidação das primeiras escolas de formação no Brasil e a sua regulamentação enquanto profissão. Mas o que isso significa? Significa que o assistente social também produz algo necessário para essa sociedade. Isso o torna um trabalhador coletivo. A intervenção, no nosso caso, é nas expressões da questão social. De certa forma, quando mudam as expressões da questão social também muda a atribuição, a forma de intervenção do Serviço Social, mas não muda o fato de que temos a colaboração do assistente social na produção de elementos que são necessários à sociedade. Importante pensar que as demandas apresentam caráter histórico e mutável. O profissional busca se adequar às novas necessidades geradas para a “[...] reprodução social da vida das classes subalternas na sociedade” (YAZBEK, 2009, p. 16). A autora afirma que, nessa relação laboral, atuamos com usuários e com as instituições empregadoras. Assim sendo, somos classe trabalhadora, estamos expostos a todos os aspectos presentes nessa relação e, nesse cotidiano profissional, somos subjugados a todas as questões 20 Unidade I laborais presentes em qualquer processo de trabalho. Também estamos expostos a outros condicionantes como a precarização das relações trabalhistas, a subalternização às necessidades do mercado. Também sofremos com a restrição dos postos de trabalho, com a ampliação das atribuições laborais frente ao arrocho salarial e com outros condicionantes presentes no exercício profissional. Somos classe trabalhadora assim como outros trabalhadores. Saiba mais Os vídeos a seguir foram promovidos pelo CFESS com o objetivo de viabilizar a reflexão sobre o Serviço Social como integrante da classe trabalhadora e como uma profissão socialmente necessária. 1º DE MAIO: Dia Mundial do/a Trabalhador/a. 2019. 1 vídeo (2:18). Publicado por CFESS. Disponível em: https://bit.ly/31bc1IM. Acesso em: 3 out. 2020. 80 ANOS de Serviço Social: uma profissão inscrita no Brasil. 2016. 1 vídeo (0:15). Publicado por CFESS. Disponível em: https://bit.ly/2QvbkrX. Acesso em: 3 out. 2020. Pensando no sentido em voga, Yazbek (2009) ainda nos diz que nossa inserção no mercado de trabalho é influenciada por dois aspectos: a restrição do Estado nas políticas sociais e a ampliação das organizações da sociedade civil. Esse processo em curso no Brasil em meados dos anos 1990 e consolidadosobretudo nos anos 2000 opera sob um duplo viés: se por um lado vemos a restrição do Estado na manutenção das políticas sociais, por outro lado vemos também o fortalecimento das organizações da sociedade civil para intervirem nas expressões da questão social. Ocorre que o Estado diminui os recursos destinados para a área social, aderindo ao padrão neoliberal, sob o argumento da necessidade de ajuste ou reforma gerencial. A diminuição estatal demanda que outros organismos assumam o seu papel, como as organizações que também atendem às expressões da questão social. Por exemplo, não temos intervenções estatais que buscam acolher mulheres vítimas de violência doméstica. Temos como exemplo a organização da sociedade civil Artemis, apresentada a seguir. Essas ações são desenvolvidas assim, uma vez que o Estado não as empreende. Saiba mais Veja o site da organização da sociedade civil Artemis, que atua nas questões de violência doméstica contra a mulher. Trata-se de apenas um exemplo, dentre muitos, que deflagra a ação da sociedade civil em prol das expressões da questão social. ARTEMIS. Disponível em: https://bit.ly/3cfqmut. Acesso em: 22 mar. 2021. 21 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Dessa forma, Iamamoto (2010) destaca que temos uma restrição nos postos de trabalho estáveis do assistente social, pois tais espaços são vinculados às políticas sociais, que passam a ser “diminuídas”. Nas organizações da sociedade civil, inclusive, os assistentes sociais enfrentam a situação de não possuírem trabalho estável e vivenciam ainda, em grande medida, a diferença nos salários, ou seja, o salário é sempre bem mais baixo se comparado com outras áreas. Essa realidade afeta o nosso trabalho, mas também condiciona a ação de outros trabalhadores da área social. A autora também nos coloca que nossa relação de trabalho deve ser entendida considerando as relações sociais estabelecidas pelo assistente social por meio do trabalho. O conceito de relação social está vinculado às relações que as pessoas estabelecem socialmente e que, por sua vez, são influenciadas pelo trabalho. Isso corresponde, nos termos da autora, a entender que temos na nossa sociedade o primado da produção social como agente regulador da vida. Por outro lado, ao eleger o trabalho como categoria influente para as relações sociais, a autora ainda chama a nossa atenção para a necessidade de compreendermos e considerarmos o desenvolvimento histórico e social das sociedades. Trabalho, relações sociais e história são conceitos fundamentais para que possamos problematizar nossa inserção no mundo do trabalho enquanto trabalhador coletivo. Em sua relação como trabalhadores coletivos, é necessário que os assistentes sociais olhem mais para a sociedade civil e para as demandas apresentadas por essa sociedade. Para ela, em nosso exercício temos privilegiado o aprofundamento de discussões em torno de políticas sociais e do Estado, no entanto, precisamos nos atentar para as determinações econômicas e sociais presentes na sociedade. Sobre a observação das demandas apresentadas, Iamamoto (2010) aponta que também temos tido em nossa categoria certo desprezo pelas necessidades apresentadas pela população da zona rural, algo que, segundo ela, precisa ser reposicionado para que possamos contemplar as necessidades também desse público. Por que isso é importante? Porque estamos em uma relação de compra e venda de trabalho e precisamos oferecer algo à sociedade. Nosso trabalho tem que provocar mudanças no público que atendemos e tem que, sobretudo, atender às necessidades sociais apresentadas pelos públicos que são nosso objeto de ação. Raquel Raichelis (2011) também partilha das perspectivas de Iamamoto (2010) e Yazbek (2009) ao afirmar que o assistente social participa de um processo de trabalho e está inscrito na divisão social de trabalho por meio de uma relação de compra e venda da força de trabalho. Porém, a autora agrega um elemento diferenciado a essa análise à medida que chama a nossa atenção para o fato de que nós, assistentes sociais, somos trabalhadores assalariados. Isso implica entender que estamos em uma relação de compra e venda da força de trabalho. Apesar de nossa profissão ser orientada por valores nobres e humanos, também trabalhamos porque precisamos ter as nossas necessidades atendidas, ou seja, vendemos nossa força de trabalho em troca de um salário. A autora ressalta, aliás, que nós precisamos nos compreender como trabalhadores, visto que lutamos pela defesa dos direitos de outras categorias de trabalho, mas nem sempre buscamos defender o nosso direito enquanto trabalhadores assalariados e participantes de um processo de trabalho. 22 Unidade I Raichelis (2011) destaca que somos trabalhadores vinculados às instituições empregadoras. Temos um estatuto legal de profissional liberal, porém dependemos da instituição empregadora para o desenvolvimento de muitas ações profissionais. O que Raichelis (2011) deseja, a nosso ver, é ressaltar que nossa relação de compra e venda também é permeada por relações de poder que são exercidas sobre todos os trabalhadores coletivos. Ter consciência de si, de sua categoria, é apresentado como um requisito basal para o assistente social se compreender como um trabalhador coletivo. Para o profissional, essa consciência de sua atuação como inscrita em um processo de trabalho, participando de uma relação laboral, é fundamental para que possamos orientar nossa ação. Esse entendimento crítico e reflexivo nos permite dar concreticidade aos nossos projetos de intervenção e às nossas propostas de ação. Na sequência, ainda buscando conhecer um pouco mais a respeito da inserção do assistente social no mercado de trabalho, avançamos no estudo sobre o processo de trabalho. Saiba mais Para entender melhor as consequências da pandemia sobre a atuação do assistente social, recomendamos a leitura da entrevista feita pelo CFESS, e publicada pelo Cress-SC, com a conselheira Kelly Melatti, trabalhadora do Suas. CONSELHO REGIONAL DE SERVIÇO SOCIAL (CRESS). Coronavírus: e quem trabalha na política de assistência social? Florianópolis: Cress-SC, 2020. Disponível em: https://bit.ly/2R74qJM. Acesso em: 26 mar. 2021. Nessa entrevista, podemos verificar uma nova necessidade apresentada à nossa profissão a partir da alteração do contexto social contemporâneo. A entrevistada aponta que a atuação do assistente social no SUAS sofreu novas configurações por causa da pandemia e foi necessário apreender formas de atuação diferenciadas para que pudéssemos alcançar o nosso público frente às mudanças significativas no contexto. A pandemia requisitou ainda novas habilidades aos assistentes sociais atuantes na Assistência Social e em outras políticas sociais. Podemos então pressupor que como trabalhadores também somos afetados pelas condições de trabalho que se apresentam no cotidiano das práticas profissionais dos assistentes sociais. 1.2.2 O assistente social inscrito em processos de trabalho A noção de processo de trabalho aplicada ao Serviço Social teve no livro Serviço Social na Contemporaneidade: trabalho e formação profissional, de Marilda Villela Iamamoto e Raul de Carvalho, o seu principal expoente. A autora, recorrendo ao pensamento marxista, analisa a inserção do assistente social em processos de trabalho. Ou seja, Iamamoto (2005) se baseia na noção de Marx de processo de trabalho e a aplica ao Serviço Social. A autora nos diz que para Marx o trabalho é, na verdade, algo processual, composto por vários elementos, a saber: uma 23 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO matéria-prima, instrumentos de trabalho, a ação do trabalhador e o resultado, ou produto. Marx compreendia que todo trabalho era composto por meio desses elementos, circunscrito em um processo de trabalho. Iamamoto (2005) passa então a compor a noção de processo de trabalho do assistente social, dizendo-nos que também temos, em nossa prática, uma matéria-prima, instrumentosou meios de trabalho, a ação do trabalhador e, também, um produto. Em seguida, a autora destaca em detalhes o que seria cada um desses elementos, considerando o exercício profissional do assistente social. A matéria-prima, também descrita pelo termo objeto de trabalho, se caracteriza como o elemento sob o qual a ação incide. Para Marx, todo trabalho demanda uma matéria-prima, um objeto. É a ação humana que interfere junto à matéria-prima, junto ao objeto buscando sua modificação. A análise marxista destaca que é a ação do trabalhador sobre a matéria-prima que resulta em um produto. Marx desenvolveu sua análise buscando apresentar uma explicação da relação entre o trabalho, a matéria-prima e a produção de valor. Lembrete O Movimento de Reconceituação do Serviço Social aconteceu no Brasil em meados dos anos 1960 e 1970 e consistiu em uma revisão, por parte dos profissionais, das bases e referências que norteavam a categoria. Partindo dessa definição, a autora destaca que o Serviço Social passou por um longo processo para identificar qual seria o seu objeto de intervenção, que em outros momentos, sobretudo no contexto da criação das primeiras escolas no Brasil, era o homem. A autora nos afirma que, nesse período, o assistente social tinha como meta intervir junto ao ser humano buscando mudá-lo, de forma a atender as necessidades sociais de um dado contexto. No entanto, a autora ressalta que é a partir da vinculação do Serviço Social ao marxismo que temos uma mudança no objeto de nossa profissão. Em meados dos anos 1970, o Serviço Social começa a compreender que seu objeto de intervenção são os problemas sociais gerados pelo capitalismo. Tendo isso em consideração, sob forte influência do pensamento de Gramsci e de Paulo Freire, os profissionais começaram a ver a transformação social como o objeto de sua ação. O amadurecimento teórico da categoria, no entanto, conduziu os assistentes sociais a um novo entendimento do seu objeto de trabalho e também da finalidade de sua ação. Netto (2001) nos coloca que a perspectiva de que caberia aos assistentes sociais a superação da ordem capitalista e a transformação social acabou sendo designada a uma segunda categoria e surge o entendimento de que os assistentes sociais deveriam empreender esforços para a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual. À medida que a perspectiva de entender sua ação muda, a forma de compreender nosso objeto de intervenção também muda. Desse modo, essa tendência, que se consolida nos anos 1990, nos apresenta um Serviço Social mais maduro e consciente em relação à sua própria ação. 24 Unidade I Observação Iamamoto (2005) apresenta a questão social como a matéria-prima e também como o objeto da ação do assistente social. Iamamoto (2005, p. 53) é representativa para esse entendimento e, como tal, afirma-nos que nossa ação profissional tem como objeto de intervenção a questão social, descrevendo-a como matéria-prima ou objeto de nossa intervenção profissional, ou, como a autora define, a questão social “[...] conforma a matéria-prima do trabalho profissional”. A autora ainda atenta para a importância de compreender a questão social como a “[...] gênese das desigualdades sociais, em um contexto em que a acumulação de capital não rima com a equidade” (IAMAMOTO, 2005, p. 53). Dito de outra maneira, a autora reforça que a questão social é produzida pelo capitalismo e é ampliada no contexto de acumulação capitalista. Netto (2000), por sua vez, nos coloca que a questão social são os problemas sociais gerados e aprofundados pelo capitalismo na idade monopolista. O autor diz que usamos o termo questão social apenas com a finalidade de designar esses problemas sociais, o qual tem o desenvolvimento capitalista como raiz de sua fundação. Cabe aqui a pergunta: afinal, o que é questão social? A pobreza é a questão social? Bem, tanto Netto (2000) quanto Iamamoto (2005) salientam que a pobreza é uma das expressões da questão social, uma vez que o empobrecimento de parcelas cada vez mais significativas da população guarda relação íntima e direta com o aprofundamento das condições capitalistas. O desenvolvimento capitalista faz crescer, ainda mais, o abismo que separa as classes sociais. Porém, para Netto (2000) é incorreto restringir a questão social a um termo ou a uma variável apenas. A questão social é formada por todos os problemas sociais gerados e aprofundados pelo capitalismo. Iamamoto (2005, p. 61), em concordância com Netto (2000), afirma que a questão social, nosso objeto de trabalho, nossa matéria-prima, deve ser entendida como todo problema social e “[...] como são experimentadas pelos sujeitos sociais que as vivenciam em suas relações sociais cotidianas” (IAMAMOTO, 2005, p. 61). Saiba mais Convidamos você a pensar sobre formas diferenciadas de expressão da questão social. Os textos a seguir provocam essas reflexões visto que abordam expressões da questão social que vão além da pobreza. CARVALHO, A. da C. et al. A questão social: violência contra a mulher. Cadernos de graduação – Ciências Humanas e Sociais, Sergipe, v. 1, n. 2, p. 201-210, 2013. Disponível em: https://bit.ly/3f9fwI0. Acesso em: 22 mar. 2021. 25 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO CARVALHO, A. da C. et al. A questão social: violência contra a mulher. Cadernos de Graduação – Ciências Humanas e Sociais, v. 1, n. 16, p. 201-210, mar. 2012. Disponível em: https://cutt.ly/ExQ98Q7. Acesso em: 22 mar. 2020. VELOSO, L. H. P.; ABREU, R. P. A questão social das drogas e a prática do serviço social (uma proposta de afirmação de direitos e de cidadania). Interagir: pensando a extensão, n. 8, ago./dez. 2005. Disponível em: https://cutt.ly/gxQ84zr. Acesso em: 2 out. 2020. Por conseguinte, a questão social não é uma categoria abstrata, mas concreta, expressa por meio da ausência de direitos, do acesso a serviços e a uma vida digna. No entanto, Iamamoto (2005) coloca que a questão social incorpora também possibilidades de luta e rebeldia daqueles que são por ela acometidos. Em tese, o que a autora quer nos dizer é que as condições concretas podem estimular a população que as vivencia na busca de melhores condições de vida. Isso pode resultar na construção de formas de luta, de superação de condições precárias, motivo pelo qual, para essa autora, a questão social “[...] também demonstra as particulares formas de luta e resistência, materiais e simbólicas, acionadas pelos indivíduos sociais à questão social” (IAMAMOTO, 2005, p. 53). Ao passo que a resistência material nos remete às ações concretas realizadas pelas pessoas para enfrentar as situações as quais estão expostos, a resistência simbólica, por sua vez, se refere às expressões culturais, artísticas e outras representações afins que buscam enfrentar e discutir violações de direitos consolidados na sociedade. Podemos dizer que os movimentos que lutam para minimizar os preconceitos com negros são formas de resistência simbólica? Sim, esses e outros que busquem a construção e a consolidação de uma sociedade igualitária. Por conseguinte, a questão social, que incorpora a sujeição e a dominação, também representa e retrata a luta, a insubordinação. Iamamoto (2005) afirma que nós precisamos, continuamente, compreender como a questão social, nossa matéria-prima, se produz, reproduz, muda e se torna complexa em nossa ação. O conhecimento da realidade é, portanto, fundamental para uma prática qualificada. Esse conhecimento não é restrito aos aspectos que conformam a questão social, mas abarca outros fatores como a organização política, social, dentre outros que se mostram importantes. Para a autora, o conhecimento da realidade não é uma opção, mas sim uma condição necessária ao exercício do assistente social. Dessa forma, com pleno conhecimento da realidade sobre a qual incidirá a ação, o assistente social conseguirá definir quais ações deseja desenvolver e com qual objetivo. Sem esse saber, é impossível que o assistentesocial possa desenvolver uma intervenção significativa em sua matéria-prima. Mas, como dissemos, a noção de processo de trabalho evoca os elementos: matéria-prima ou objeto, instrumentos ou meios de trabalho, a ação e o produto. Falamos da matéria-prima e do objeto até agora. Precisamos discutir outros componentes, como os instrumentos e os meios de trabalho. 26 Unidade I Observação Os instrumentos ou os meios de trabalho são dispositivos basais para a realização do trabalho. Iamamoto (2005) retoma o pensamento de Marx ao destacar que toda ação demanda, para ser realizada, instrumentos ou meios de trabalho. Para Marx, o trabalho foi o grande responsável por humanizar o homem. Tal entendimento pressupõe que o homem primitivo realizou todo o seu desenvolvimento influenciado pelo trabalho. O homem primitivo, quando passou a conviver em grandes agrupamentos e o trabalho se tornou coletivo, passou a usar de meios e instrumentos para a realização de uma ação. Foi assim que esse homem começou a usar pedras, por exemplo, ou ossos para extração de frutas. Marx entende que o homem incorpora esse instrumento à ação, mas essa incorporação provoca mudanças no desenvolvimento do ser humano, especializando os órgãos do sentido como visão, audição, fala, tato. Por isso, Marx entende que o trabalho e a incorporação de meios ou de instrumentos na ação é que faz com que o homem se constitua enquanto tal. Obviamente, não podemos pensar que essas mudanças, influenciadas pelo trabalho, aconteceram rapidamente. Elas passaram por um longo e lento período de desenvolvimento. Vygotsky (1991) nos diz que o trabalho influenciou a vida do homem primitivo e também exerce grande influência sobre o homem contemporâneo. Em sua análise, o autor destaca que os instrumentos e os meios de trabalho são elementos fundamentais que medeiam uma ação e que também são fortalecedores e influenciadores do desenvolvimento do ser humano. Vamos pensar essa ideia a partir de um exemplo? Nós somos uma sociedade em que as relações sociais, as relações de compra e venda têm sido sustentadas pelo desenvolvimento tecnológico expresso, dentre outros fatores, pela internet. Pois bem, vamos idealizar uma pessoa que tem algum acesso à internet e que, por uma dada circunstância de sua vida, vai trabalhar em um serviço de atendimento de aplicativo que pertence a um grande banco. Nesse caso, essa pessoa precisaria desenvolver outras habilidades, além das que já possui em relação à internet, dentre as quais podemos citar o controle de alguns comandos ligados ao aplicativo. Todo esse saber, construído a partir da necessidade do trabalho, tende a especializar os órgãos do sentido desse trabalhador. Condiciona a sua atenção, influencia também a sua subjetividade. São instrumentos e meios de trabalho, os quais são acessados pelo trabalhador para que a ação aconteça, mas que também o modificam e interferem junto ao objeto, à matéria-prima. Iamamoto (2005) nos coloca então que o assistente social também possui instrumentos, os quais também são nomeados pelo termo meios. Os instrumentos ou os meios de trabalho são elementos fundamentais para que o trabalho aconteça, pois sem eles a ação é impraticável. Assim como os instrumentos ou meios de trabalho modificam a matéria-prima, mudam também o trabalhador, influenciando no exercício cotidiano e em sua constituição enquanto tal. 27 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Historicamente, segundo a autora, temos tido o entendimento de que os instrumentos e os meios de trabalho são apenas as técnicas que o assistente social usa para desenvolver sua intervenção. Entrevistas, visitas, relatórios e outros elementos dessa natureza são frequentemente definidos como instrumentos da ação do assistente social. Porém, o que a autora destaca é que isso seria um reducionismo, uma vez que as técnicas e os instrumentais usados pelo assistente social não podem ser compreendidos como os únicos instrumentos do fazer profissional. As técnicas são instrumentos, meios de trabalho do assistente social, e o domínio desses elementos confere qualidade ao serviço técnico oferecido. Mas o que mais incorpora o entendimento dos meios e dos instrumentos de trabalho além do instrumental técnico? Iamamoto (2005) nos coloca que as bases teórico-metodológicas construídas pelo assistente social em seu processo formativo são também elementos fundamentais para o exercício profissional. O que são bases teórico-metodológicas? Correspondem ao saber construído pelos profissionais e que orientam a sua forma de ler e se relacionar com o mundo. São essas bases, fundamentais para o processo formativo, que irão orientar como o assistente social deverá interpretar os fenômenos sob os quais intervém. Não há, porém, como o profissional desenvolver uma ação qualificada e de acordo com os parâmetros éticos de sua categoria se a sua formação não oferecer a ele esse substrato. São as “[...] bases teórico-metodológicas que contribuem para iluminar a leitura da realidade e imprimir rumo à ação” (IAMAMOTO, 2005, p. 62). O conhecimento do assistente social não pode, sob hipótese alguma, ser dispensado. Ele comporta os instrumentos de trabalho desse profissional. Observação Para Iamamoto (2005), os instrumentos e os meios de trabalho do assistente social comportam instrumentos e técnicas, conhecimento e as organizações onde esse profissional irá atuar. Porém, a análise de Iamamoto (2005) vai além desses elementos. Ela também pondera que a lei de regulamentação da nossa profissão contém a indicação de que somos profissionais liberais. O profissional liberal, em tese, é aquele que detém os meios para a sua reprodução, para a reprodução da sua ação. No texto legal, o assistente social é apresentado como profissional liberal, porém, a autora entende que isso implicaria ter autonomia nas ações. Mas não somos, de fato, profissionais liberais, pois não detemos todos os meios necessários para a nossa ação. Por exemplo, um psicólogo, após a conclusão de sua graduação, pode, se tiver condições para fazê-lo, abrir um atendimento clínico que dependerá, inicialmente, do seu saber. Ele pode então ser considerado um profissional liberal. O assistente social, por sua vez, não tem condições de desenvolver uma prática dessa maneira. Ele precisa das instituições empregadoras para que possa desenvolver a sua ação, motivo pelo qual a autora elucida que o assistente social “[...] não detém todos os meios necessários para a efetivação de seu trabalho” (IAMAMOTO, 2005,p. 62). 28 Unidade I Saiba mais O texto a seguir discute as categorias de processo de trabalho, aplicando-as ao Serviço Social, além de trazer questões a respeito dos instrumentos e dos meios de trabalho do assistente social. SILVA, M. G. da. Processo de trabalho e Serviço Social. Interações, v. 2, n. 2, 2007. Disponível em: https://bit.ly/39sXop9. Acesso em: 4 out. 2020. Ao afirmar esse conceito, a autora enfatiza que a instituição empregadora não deve ser percebida como algo ruim ou, então, como um órgão que irá comprometer, de forma negativa, a ação do assistente social. Porém, deve ser compreendida como um instrumento, um meio de trabalho fundamental ao assistente social. Ou que, nos termos da autora, “[...] a entidade não é um condicionante a mais do trabalho do assistente social. Ela organiza o processo de trabalho do qual ele participa” (IAMAMOTO, 2005, p. 62). As instituições nos conferem recursos e todos os elementos que são necessários para que a ação profissional aconteça. Motivo pelo qual, para a autora, a instituição também é considerada um instrumento de trabalho do assistente social, que, junto com os instrumentos, técnicas e a bagagem teórico-metodológica, integra o processo de trabalho desse profissional. Na sequência, a autora passa a discutir outros elementos que integram também a noção de processo de trabalho: o trabalho em si e o produto. Ao abordar a questão do trabalho em si, Iamamoto (2005) afirma queo trabalho é um dos elementos mais importantes para compreender a evolução do ser humano enquanto tal, já que é o grande responsável pelo desenvolvimento do gênero humano. Recorrendo ao pensamento marxista, a autora destaca que o desenvolvimento das habilidades do ser humano estão ligadas às modalidades de trabalho que vão sendo organizadas ao longo dos séculos. De acordo com a autora, o trabalho muda, assume novas feições e essas flutuações provocam também alterações na subjetividade do ser humano. É por meio da ação, do trabalho em si, que é possível modificar a matéria-prima, o objeto. No caso do Serviço Social, é preciso pensar que a nossa ação também produz alterações no objeto, em nossa matéria-prima. No entanto, pensar sobre o trabalho do Serviço Social demanda algumas problematizações. A autora suscita uma questão que demarca a ação do assistente social e que está vinculada à questão de gênero. A autora nos coloca que sempre teremos em nossos quadros a predominância feminina, ou seja, a maioria dos assistentes sociais vinculam-se ao gênero feminino e compreende que isso advém do passado da profissão, historicamente formado pela massiva predominância de mulheres. Para Iamamoto (2005), em uma sociedade patriarcal como a nossa, essa profissão acaba sendo associada a um trabalho que só pode ser desempenhado por mulheres, conferindo a esse trabalho um caráter subalterno, definido pelos preconceitos já enraizados em nossa sociedade. Pesquisa realizada pelo CFESS, em 2005, identificou que 97% dos profissionais eram do gênero feminino, ou seja, a imensa maioria (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2006). 29 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Quanto a esse aspecto, vemos que, por parte dos órgãos de defesa como o CFESS e o Cress, há uma busca por melhorar a qualificação dos profissionais e garantir o respeito à categoria. No entanto, é necessário destacar que ainda temos um julgamento equivocado sobre nossa profissão, uma vez que muitas pessoas ainda julgam o Serviço Social como uma profissão de segunda linha, algo inferior às demais profissões existentes na sociedade. Essa luta deve ser encampada por toda a nossa categoria se quisermos que o nosso trabalho seja valorizado endogenamente e também socialmente. No fim da discussão sobre a questão do trabalho, a autora nos coloca que, no caso do Serviço Social, temos valores nobres, éticos e morais que nos dão o caminho a seguir. Esses valores estão sempre orientados para atender às demandas e necessidades dos segmentos mais vulneráveis, visando a diminuição das desigualdades sociais. A ação do assistente social é, portanto, o trabalho que interfere junto à matéria-prima, junto às expressões da questão social e isso nos ajuda a compreender o que Iamamoto entende como produto. Afinal, um trabalho, uma ação incide sobre um objeto, sobre uma matéria-prima, mas tem como resultado a elaboração de um produto. Essa discussão nos leva a pensar: o que o Serviço Social produz? Bom, como sabemos, uma profissão só é socialmente necessária se produz algo, se traz um resultado de sua intervenção à sociedade. Quantas profissões que conhecemos foram extintas com o tempo? Pensamos na ação dos alfaiates, que antes eram requisitados sobretudo pelas classes sociais de maior poder aquisitivo. Hoje, com a produção em massa de vestuário, vemos que essa profissão não é mais tão atrativa. Mesmo que exista um ou outro alfaiate, vemos que agora poucos são os que conseguem sobreviver com tal ação. Lembrete O Serviço Social foi constituído no Brasil no ano de 1936 a partir do surgimento das primeiras escolas. Na década de 1950, a profissão foi regulamentada pela Lei n. 3.252/50. Pois bem, o Serviço Social é institucionalizado e se consolida porque oferece um produto à sociedade. Iamamoto (2005, p. 66) nos coloca que o produto faz menção às “[...] condições materiais e sociais daqueles cuja sobrevivência depende do trabalho”. Toda vez que o assistente social operacionaliza o acesso a um benefício, a um serviço, ele está garantindo a sobrevivência daqueles que atendeu. Essa atenção para uma necessidade material garante, muitas vezes, a sobrevivência dos atendidos, além de efetivar os direitos sociais garantidos constitucionalmente. Essa atenção seria um dos produtos da ação do assistente social. Além da reprodução material, o assistente social produz algo que é subjetivo, imaterial e que seria, segundo a autora, a construção de conceitos. Da mesma forma que a profissão interfere na reprodução material daqueles que atende, ela também atua na construção de conceitos, de uma subjetividade daqueles que atende, trabalhando em prol da “[...] criação de consensos” (IAMAMOTO, 2005, p. 67). Temos, assim, a intervenção do profissional junto à 30 Unidade I subjetividade, que é coletiva e construída culturalmente. Cabe ao profissional delimitar quais consensos deseja efetivar, quais consensos deseja construir por meio de sua ação, qual produto deseja ter como resultado. Recapitulando: somos inscritos em um processo de trabalho e possuímos uma matéria-prima ou um objeto (a questão social e suas múltiplas formas de expressão), temos instrumentos ou meios de trabalho (instrumentos, técnicas, conhecimento teórico-metodológico, instituição empregadora), praticamos uma ação e tudo isso, ao ser colocado em prática, resulta em um produto (condições materiais e consensos). A imagem que elaboramos a seguir sistematiza nossas colocações até o presente momento. Matéria-prima ou um objeto (questão social e suas múltiplas formas de expressão) Processo de trabalho do Serviço Social Produto (condições materiais e consensos) Instrumentos ou meios de trabalho (instrumentos, técnicas, conhecimento teórico-metodológico, instituição empregadora) Trabalho (ação do profissional) Figura 2 – Representação do conceito de processo de trabalho do Serviço Social Concluímos nossa discussão com relação ao conceito de processo de trabalho. A seguir, abordaremos os aspectos relacionados à constituição de projetos profissionais e ao projeto ético-político do Serviço Social, os quais estão ligados aos projetos de classes sociais. 2 OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO SOCIAL Na análise de Netto (2017), pensar sobre os projetos de profissão e de trabalho é algo que se mostra basal para a nossa intervenção e, principalmente, para uma ação crítica e qualificada. Para tanto, o autor indica-nos que é igualmente fundamental e importante a reflexão acerca dos projetos de classe, também nomeados como projetos societários. Para o autor, não é possível que tenhamos uma compreensão dos projetos de profissão de forma dissociada dos projetos societários. Aliás, tanto Netto (2017) quanto Iamamoto (2010) ressaltam que os projetos profissionais são fortemente influenciados pelos projetos societários. Observação Projetos societários correspondem aos ideais coletivos de determinadas classes sociais. 31 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Os projetos societários são projetos coletivos e que representam determinadas classes sociais. Promovem o ordenamento de valores e ações em níveis macroscópicos, ou seja, conferem propostas de ação para um conjunto mais amplo da sociedade. São conhecidos por sua amplitude e buscam universalizar, atingir um segmento maior da sociedade, conferindo a essa sociedade valores de classe. “Trata-se daqueles projetos que apresentam uma imagem de sociedade a ser construída, que reclamam determinados valores para justificá-la e que privilegiam certos meios (materiais e culturais) para concretizá-la” (NETTO, 2017, p. 2). Portanto, o projeto societário não é despossuído de valor e finalidade, mas tem algo que busca alcançar. Os projetos societários são extremamente carregados de uma conotação ou dimensão política, já que “[...]envolvem relações de poder” (NETTO, 2017, p. 3). Nem sempre esses projetos estão vinculados ou relacionados a partidos políticos.A dimensão política vincula-se à noção de valores políticos, valores a serem seguidos dentro de um dado projeto. Quando nos vinculamos a um determinado grupo, há atividades que desempenhamos para demonstrar essa adesão. Quando pertencemos a um grupo que tem um dado projeto societário, também adotaremos comportamentos, falas e condutas que demonstram essa associação. A tomada de posição também é um ato político. Portanto, não há, segundo Netto (2017), projetos societários que sejam neutros. A associação de projetos societários a projetos de classes sociais sinaliza que a classe burguesa possui um dado projeto societário. A classe trabalhadora, por outro lado, possui outro projeto societário. Assim, os projetos societários possuem configurações diferenciadas, distintas. Essa diferenciação provém da compreensão que cada classe possui sobre as finalidades que deseja alcançar por meio de cada projeto societário. Por analogia, é lícito supor que os projetos societários e os projetos de classe social são antagônicos entre si, pois teremos valores diferenciados difundidos pelas classes sociais. A classe trabalhadora e a classe burguesa possuem projetos societários diferentes para serem estruturados, construídos. O autor nos diz ainda que os projetos societários são mutáveis. Dessa maneira, em todo o desenvolvimento histórico, veremos situações em que os valores que norteiam a sociedade mudam. Isso evidencia que as mudanças históricas, culturais e sociais provocam alterações nos valores que são difundidos pelas classes sociais. À medida que os valores mudam, temos também alterações nos projetos societários que têm sido apresentados como referências. Segundo o autor, “[...] os projetos societários constituem estruturas flexíveis e cambiantes: incorporam novas demandas e aspirações, transformam-se e se renovam conforme as conjunturas históricas e políticas” (NETTO, 2017, p. 5). Joaquina B. Teixeira (2006), por sua vez, nos indica que os projetos societários podem ser conservadores ou transformadores. Os projetos conservadores são aqueles que buscam a manutenção de uma dada ordem social vigente e consolidada. Já os projetos transformadores seriam aqueles que visam a transformação da sociedade. Mas transformação para quê? Ou, ainda, transformação para quem? A transformação em questão evoca a necessidade da construção de uma sociedade justa, menos desigual e equitativa. 32 Unidade I Observação Os projetos profissionais estão ligados às categorias de trabalhadores. Mas, como dissemos, os projetos societários condicionam projetos pessoais e, também, profissionais. Os projetos profissionais são aqueles difundidos por categorias de trabalhadores. São projetos coletivos, porém que estão ligados a determinadas profissões que, via de regra, requerem nível superior. Netto (2017) afirma que os projetos profissionais, assim como os projetos societários, são coletivos. Teixeira (2006) salienta que o nosso projeto profissional está voltado para o projeto societário da classe trabalhadora, e, consequentemente, visa a transformação social, tendo como meta, a longo prazo, a minimização das desigualdades sociais. Ou seja, “[...] o projeto profissional vincula-se a um projeto societário que propõe a construção de uma nova ordem social sem a dominação e/ou exploração de classe, etnia e gênero” (TEIXEIRA, 2006, p. 6). Como esses projetos são representativos de uma categoria, de um grupo de trabalhadores, eles representam e retratam a autoimagem desse grupo, dessa categoria laboral. São carregados de valores, atributos e requisitos, de normas e propostas de comportamentos profissionais. Vincular-se a um projeto profissional demanda a adesão de seus postulados e uma prática profissional por ele embalada. Os projetos de cada categoria oferecem essas referências, esses valores de ação e, portanto, é correto afirmar que para cada ramo de trabalho temos um projeto profissional, que deve ser elaborado coletivamente. Netto (2017) atenta que, para serem representativos de uma profissão, os projetos precisam, essencialmente, de uma construção coletiva e democrática. No caso do Serviço Social, em especial, os locais de debate dos profissionais são o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), o Conselho Regional de Serviço Social (Cress), a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa de Serviço Social (ABEPSS) e a Executiva Nacional de Estudantes do Serviço Social (Enesso). Tais dispositivos são representativos dos valores difundidos no projeto profissional do Serviço Social e demonstram as discussões realizadas na nossa categoria. Para entender isso melhor, convidamos você para realizar a leitura do trecho a seguir: Racismo: um tema que não pode sair do nosso radar! Casos de racismo que ganharam repercussão na mídia reforçam a continuidade de ações antirracistas de assistentes sociais, para além da campanha do Conjunto CFESS – Cress Quando o Conjunto CFESS – Cress, durante o triênio 2017-2020, promoveu a campanha “Assistentes Sociais no Combate ao Racismo”, incentivando debates e ações da categoria no enfrentamento ao racismo no cotidiano profissional, estava nítido que a partir daquele momento a pauta assumiria maior centralidade no Serviço Social. 33 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO O Brasil reproduz relações sociais e econômicas profundamente desiguais, que resultam de uma formação histórica racialmente fundada e que se materializa na vida cotidiana da população negra. Isso pode ser evidenciado por meio de dados e fatos que demonstram como negras e negros, nas estatísticas de usuários/as de políticas sociais, estão associados aos maiores índices de subemprego e desemprego, pobreza, violações e violências, dentre outras condições que se originam da condição racial. Diante desse contexto, o trabalho de assistentes sociais tem relação direta com as demandas da população negra que reside nos morros, nas favelas, no sertão, no campo e na cidade, e o combate ao preconceito é um compromisso previsto no Código de Ética profissional. E recentes casos de racismo, que ganharam repercussão na mídia nas últimas semanas, servem de alerta para que assistentes sociais se atentem para a questão racial durante os atendimentos. No “Setembro Amarelo”, mês em que normalmente se debate (e se enfrenta) o suicídio, uma única reportagem (do Estadão) trouxe um dado impactante: pesquisa divulgada em 2019 pelo Ministério da Saúde apontou que jovens negros, entre 10 e 29 anos de idade, foram as pessoas que mais cometeram suicídio nos últimos quatro anos. E o racismo é, sem dúvida, um dos fatores de risco para suicídio. “A primeira coisa que percebemos é que o próprio movimento do real tem nos convocado, cada vez mais, a não apenas reconhecer a existência e as nefastas consequências do racismo – e, com isso, desmistificar o mito da democracia racial – mas, sobretudo, a criar estratégias coletivas para seu enfrentamento”, aponta o assistente social, pesquisador e professor da Universidade Federal de Goiás, Tales Fornazier. Segundo ele, o racismo estrutural é um elemento conformador das relações sociais, e não um fenômeno patológico ou anormal. “Portanto, ele se materializa nos diversos âmbitos da vida social em desigualdades, violências e iniquidades às pessoas negras”. Para Tales, que já trabalhou no Centro de Referência de Assistência Social de Guará (SP), o racismo, por ser estrutural, se coloca como a “forma normal” de funcionamento das instituições, as quais, não raras vezes, serão responsáveis por reforçar os processos de sofrimento derivados do racismo, exatamente por não reconhecerem as particularidades que envolvem a raça. Inclusive o suicídio. [...] Fonte: CFESS (2020). 34 Unidade I Saiba mais Veja também: CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL (CFESS). Assistentes sociais no combate ao racismo. [s.d.]. Disponível em: https://bit.ly/2Pt607K. Acesso em: 25 mar. 2021. No texto veiculado pelo CFESS temos indicações claras a respeito do posicionamentodo conjunto no sentido de combater o racismo e todas as suas formas de expressão. Isso nos diz como podemos inferir o compromisso de nossa profissão e que é expresso por meio dos projetos de nossa categoria. Com tais valores, sempre teremos projetos de ação que se contrapõem aos valores ligados ao preconceito e à discriminação. Os valores postos ao Serviço Social são apresentados e retratados por meio do nosso Código Profissional de Ética. Apesar da necessidade de garantia do pluralismo profissional, sabemos que nossa profissão é orientada pela defesa das minorias, dos segmentos vulnerabilizados e também dos que foram acometidos pela violação de direitos. Essa será a referência para as nossas intervenções profissionais. Lembrete O Código Profissional de Ética do Assistente Social foi aprovado no Brasil, pelo CFESS, no ano de 1993. Netto (2017) nos coloca que essa adesão de uma categoria a um projeto profissional provém de um aceite que congrega aspectos imperativos e indicativos. Os aspectos imperativos correspondem aos valores que são compulsórios e que devem integrar os projetos profissionais e os indicativos seriam aqueles em que há um consenso mínimo da categoria. Existem aspectos, portanto, que são fundamentais e outros que podem ser acordados em torno de uma harmonia entre os trabalhadores. Por conseguinte, o vínculo de uma categoria a um projeto profissional é “[...] uma espécie de acordo sobre aqueles aspectos que, no projeto, são imperativos e aqueles que são indicativos” (NETTO, 2006, p. 7). Além da adesão, é necessária uma organização mínima por parte dos trabalhadores. Observação O projeto profissional do Serviço Social é denominado como projeto ético-político. No âmbito do Serviço Social também teremos os aspectos imperativos e os indicativos, porém, conforme declaramos anteriormente, esses aspectos nos são postos pelo nosso Código Profissional de Ética. O projeto de nossa categoria, atualmente, é conhecido pelo termo projeto ético-político. Esse projeto representa um rol de valores, normativas e referências para o exercício 35 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO do assistente social. Dito de outra maneira, o projeto profissional do Serviço Social é o projeto ético-político, influenciado substancialmente pelos valores apresentados no Código Profissional de Ética do assistente social. Esse projeto também tem influência da lei que regulamenta a profissão do assistente social no Brasil. O projeto foi gestado nos anos 1980, mas se consolidou mesmo em meados dos anos 2000, aqui no Brasil. Hoje consideramos que esse projeto é hegemônico em nossa categoria, apesar de Netto (2017) e Iamamoto (2010) chamarem a nossa atenção para a presença de perspectivas conservadores em alguns segmentos da profissão. Os autores também afiançam a necessidade de rompimento com o conservadorismo profissional, por compreenderem que, para a efetivação do projeto ético-político, é essencial abandonar as tendências e perspectivas assentadas no tradicionalismo. Nesse sentido, temos a crítica à ausência de democracia, presente na sociedade e que busca fortalecer os espaços de participação com os assistentes sociais. Teixeira (2006) ainda afirma que esse projeto está em construção e que sempre pode sofrer alterações. Em tese, a autora salienta que o nosso projeto ético-político é composto pela produção teórica interna do Serviço Social, pelas indicações das instâncias político e administrativas como o ABEPSS, o CFESS, o Cress, e pela dimensão jurídico-política, que envolve a legislação oficial que disciplina o exercício profissional. Sendo assim, o projeto ético-político do Serviço Social engloba o amadurecimento teórico da categoria construído ao longo dos anos. Nesse projeto ético-político, o Serviço Social deve primar pela liberdade, valor ético central de suas ações, além de se opor aos preconceitos e todas as formas de discriminação. Esse projeto ético-político “[...] vincula-se a um projeto societário que propõe a construção de uma nova ordem social sem exploração/dominação de classe, etnia e gênero” (NETTO, 2017, p. 15). Ao defender esse projeto estamos também assumindo um projeto societário de defesa dos segmentos mais vulneráveis de nossa sociedade. Em nosso projeto também nos posicionamos a favor da equidade e da justiça social, compreendendo que a distribuição de renda de uma sociedade deve ser justa e precisa, em outras palavras, isso significa socializar a riqueza que é produzida e dividida de maneira totalmente desigual. Corresponde também ao posicionamento político de defesa da qualidade dos serviços e políticas sociais. Isso demonstra também que o projeto ético-político do Serviço Social possui uma forte expressão política, uma vez que “[...] posiciona-se a favor da equidade e da justiça social, na perspectiva da universalização do acesso a bens e serviços, às políticas e programas sociais” (NETTO, 2017, p. 16). Ademais, está relacionado com a efetivação dos valores de cidadania. Para que a efetivação desse projeto aconteça é preciso competência técnica por parte do assistente social, algo que só é concebido através do aperfeiçoamento intelectual, que deve ser estimulado desde a formação profissional, nos cursos de graduação. Porém, esse projeto, praticamente hegemônico na sociedade, não é algo consolidado, mas que está em constante reconstrução. Essa revisão não abdica dos valores éticos, políticos e morais que norteiam o nosso exercício. Porém, Netto (2017) ressalta que a consolidação desse projeto deve ser assentada no 36 Unidade I contributo de outras categorias que partilhem dos mesmos valores. Enfim, são postulados que buscam, de fato, colaborar com a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual. Saiba mais Para entender melhor a discussão sobre o projeto ético-político do assistente social, veja o texto a seguir: MOTA, A. M. A. Projeto ético político do serviço social: limites e possibilidades. Textos & Contextos, Porto Alegre, v. 10, n. 1, p. 56 - 68, jan./jul. 2011. Disponível em: https://bit.ly/3slSoK5. Acesso em: 22 out. 2020. Chegamos ao final desse percurso, mas, antes de orientarmos a discussão para outra perspectiva do fazer profissional, gostaríamos de convidá-lo para observar a figura a seguir, que sintetiza as discussões presentes neste capítulo. Projetos societários Projetos de trabalhos Projeto ético-político (projetos de trabalho) - Coletivos - Orientados por valores de classe - Coletivos - Construídos em torno de categorias de trabalhadores - Coletivo - Construído com base em valores humanitários - Visam consolidar uma nova ordem societária - Projetos de ambas as classes Representam a profissão na sociedade - Defesa dos segmentos mais vulneráveis - Defesa das políticas sociais Figura 3 – Representação dos conceitos: projetos societários, projetos de trabalho e projeto ético-político Agora, convidamos você a adentrar outra discussão sobre o cotidiano das ações do assistente social e que está vinculada à elaboração dos dispositivos de planejamento. Nesse item, vamos trazer os conceitos sobre os tipos de planejamento que mais se apresentam nas práticas profissionais dos assistentes sociais. 3 A INTERVENÇÃO PROFISSIONAL E SUA RELAÇÃO COM O PLANEJAMENTO Michelle A. A. de Carvalho (2016) nos diz que o planejamento das ações é hoje dimensão constitutiva do nosso cotidiano profissional. No entanto, temos no Serviço Social uma historicidade que demarca a relação firmada entre Serviço Social e planejamento. Desse modo, 37 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Carvalho (2016) nos apresenta essa discussão de forma a compreender as mudanças processadas na relação que o planejamento estabelece com nossa categoria e que se manifesta na profissão desde meados dos nos 1950. Para entender essa relação, a autora nos chama a rever o contexto dos anos 1950, quando o planejamento passa a participar dos discursos desenvolvimentistas de Jânio Quadros. Nesseperíodo, o país passa a ter, por meio do Estado, o ideal de desenvolvimento econômico visando a superação da situação de subdesenvolvimento em que estava o país. Esse entendimento, divulgado sobretudo pela Organização das Nações Unidas (ONU), pressupunha que os Estados encontrassem alternativas internas para o desenvolvimento econômico, superando, assim, a situação de atraso econômico vivenciado. Observação O método de Desenvolvimento de Comunidade emerge no Brasil em meados dos anos 1950. Nesse contexto, o planejamento econômico aparece inicialmente, dentro do Estado, como uma analogia entre eficiência, eficácia, ou seja, o planejamento é associado a uma forma de o poder público produzir ações com objetivos que estariam ligados ao desenvolvimento econômico. No mesmo período, os assistentes sociais passam a ter sua inserção laboral vinculada a espaços como o Sesi, a Legião Brasileira de Assistência (LBA), o Sesc e, ainda, em espaços como hospitais e nas favelas. Nesse contexto, a metodologia mais usada foi a dinâmica de grupo. Saiba mais Para que possamos refletir um pouco mais sobre o período em questão, recomendamos o documentário a seguir. Apesar de produzido nos anos 1980, atualmente já está digitalizado e nos permite ter uma noção sobre vários ideais do Estado, dentre os quais está a perspectiva desenvolvimentista. JÂNIO a 24 Quadros. Direção: Luiz Alberto Pereira. Brasil, 1981. 85 min. As abordagens voltadas ao desenvolvimento de comunidade demoraram um pouco a alcançar o Serviço Social. Essa abordagem, de forte influência norte-americana, pressupunha a implementação de um rol amplo de ações para ampliar o desenvolvimento econômico do país. O desenvolvimento proposto por meio dessa abordagem recomendava o investimento econômico na agricultura, por meio de sua modernização, e na educação de adultos. O Serviço Social acaba sendo socialmente necessário nesse período por conseguir propor intervenções 38 Unidade I que, em tese, modificavam o ser humano. E também porque, a longo prazo, poderiam colaborar com a educação popular e alcançar a população visando o desenvolvimento econômico futuro. Carvalho (2016) então nos diz que, gradativamente, a profissão foi se aproximando mais das ações de Desenvolvimento de Comunidade. Isso aconteceu, essencialmente, porque as demandas apresentadas à profissão mudaram, levando a profissão a mudar também, para atender às novas configurações apresentadas. Isso porque o mercado de trabalho também se amplia. Para ser inserido nesse espaço, foi preciso que o Serviço Social se ajustasse às novas demandas postas. “O Serviço Social deve urgentemente reestruturar-se. Readaptar-se procurando sintonizar seu discurso e métodos com as preocupações das classes dominantes e do Estado em relação a questão social e sua evolução” (CARVALHO, 2006, p. 34). Isso exigiu, segundo a autora, o desenvolvimento de novas capacidades técnicas e de intervenções voltadas ao planejamento. Nesse momento, aliás, o assistente social passou a ter a atribuição de planejador incorporada à sua prática profissional. Nos anos 1980 e 1990, foi fortalecido o entendimento de que os assistentes sociais deveriam atuar dentro de instituições e que, por isso, precisariam do planejamento para orientar a intervenção profissional nos mais variados contextos. A partir dessa reflexão, inicialmente endógena da categoria, mas que é representativa do contexto vivenciado, vemos que o planejamento passa a compor os currículos dos cursos de graduação em Serviço Social. O que isso significa? Que, a partir de então, os órgãos de formação passam a compreender a importância do preparo do aluno para atuar com planejamento. Na contemporaneidade, entretanto, já é consenso que o planejamento faz parte da atuação dos assistentes sociais. Na verdade, o planejamento faz parte da natureza humana. É algo que todos fazemos no nosso cotidiano. Sempre programamos, mesmo que sem um rigor científico, metodológico, o que faremos no nosso dia, na nossa semana, em que período do ano poderemos tirar férias e assim sucessivamente. Apesar de ser algo humano, que fazemos praticamente todos os dias, é um processo racional, tipicamente humano. Algo que somente o ser humano pode realizar dado seu desenvolvimento neurológico (BAPTISTA, 2002). Assim, [...] o planejamento é basicamente um processo de racionalidade, é indiscutível que todo homem é capaz de planejar, sendo inerente à sua natureza essa atitude, em si dialética, de tomar decisões em relação ao futuro (BAPTISTA, 2002, p. 17). O planejamento, no entanto, surge como uma forma de conhecimento somente no século XIX. Inicialmente esse saber esteve orientado para a área da administração. O planejamento é instituído para dar resultados positivos para as empresas privadas e é apresentado como um meio de conseguir alcançar algo, sobretudo o lucro, dentro das empresas. Com o tempo, o planejamento foi sendo incorporado também nas empresas públicas. No âmbito das empresas públicas, no entanto, os conceitos relacionados ao planejamento tornam-se mais populares nos anos 2000, quando se consolidam. O planejamento passa a ser vinculado à gestão social, orientando as fases de elaboração, execução e avaliação das ações. É por meio do planejamento, vinculado à gestão social ou gestão 39 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO pública que teremos a necessidade da elaboração de planos, programas e projetos sociais. Tais elementos são documentos que sistematizam ações nas mais variadas áreas, porém, considerando o universo das ações públicas. São tais documentos que nos permitem implementar as ações planejadas previamente. Para tanto, as ações de planejamento não estão restritas às ações dos assistentes sociais nos órgãos públicos, mas presentes em vários outros setores (CARVALHO, 2016). A partir disso, depreendemos outra questão que merece destaque: toda ação planejada possui uma finalidade, um objetivo a ser alcançado. O planejamento tem como objetivo, na verdade, orientar e disciplinar as ações desenvolvidas. Por conseguinte, não há como desenvolvermos uma ação planejada sem que tenhamos um objetivo a ser contemplado a curto, médio e longo prazo. Em nossa atuação profissional, cada vez mais somos chamados a atuar no planejamento das ações, comportando assim intervenções ligadas à elaboração das ações, à construção de mecanismos de implementação e de controle e fiscalização. No nosso caso, temos a materialização da ação por meio de planos, programas e projetos que elaboramos nas mais variadas políticas sociais. Podemos, então, elaborar planos na área da assistência social, da saúde ou de qualquer política social a que estejamos vinculados. Podemos ainda elaborar projetos de intervenção em organizações da sociedade civil ou em instituições privadas. Esse documento deve, como sabemos, orientar a nossa ação em qualquer espaço de intervenção. Geralmente, estamos mais próximos da elaboração de projetos, algo que é mais comum em nosso cotidiano profissional. O projeto profissional é o instrumento mais utilizado pelos assistentes sociais em sua prática, pois inúmeras vezes o processo de planejamento está implícito no cotidiano institucional, sem uma expressão formal (CARVALHO, 2016, p. 37). Observação É necessário compreender o planejamento como resultado de um processo técnico e político. No entanto, independentemente do tipo de documento que estejamos elaborando (planos, programas ou projetos), sempre temos que ter em mente que o planejamento, para o assistente social, é um ato técnico e político. É um ato técnico porque evoca, necessariamente, uma dimensão técnica, ligada às habilidades, saberes que o profissional precisa possuir para bem desempenhá-lo. E é um ato político, porque nos documentos de planejamento precisamos imprimir escolhas, opções, decisões. “[...] a dimensão política decorre do fato de ser o planejamento um processo contínuo de tomada de decisões, na busca de caminhos, sobre o que fazer,por que é e para que fazer, onde fazer e quando fazer, quer pela área governamental, quer pela área privada (BARBOSA, 1991, p. 49). Tais caminhos, segundo Baptista (2002), também são orientados por valores ético-políticos, pelo nosso projeto ético-político, de forma que só podemos endossar ações que colaborem para o fortalecimento dos valores que são difundidos por nossa categoria. 40 Unidade I Lembrete O projeto ético-político do Serviço Social é uma construção de valores éticos e morais que orientam nosso exercício profissional. O caráter político também está associado à noção de que o planejamento não é neutro. Todo planejamento comporta representações e valores, interesses individuais e coletivos. Nós, quando elaboramos um projeto, um plano ou um programa o fazemos imbuídos de uma ideologia, de valores que construímos ao longo do nosso processo formativo. Baptista (2002) ainda nos coloca que o planejamento deve ser compreendido pelos assistentes sociais como algo que representa uma totalidade. As ações pontuais, setoriais, estão ligadas a uma totalidade. Os planos, programas e projetos enfrentam situações pontuais, reais, mas que são representativas de um contexto mais amplo. Quando elaboramos um projeto, precisamos ter em mente que os fenômenos não acontecem isoladamente, mas que são resultado representativo de uma totalidade que engloba fenômenos econômicos, políticos e sociais. É importante salientar que, segundo Pfeiffer (2000), os assistentes sociais têm tido uma formação que os qualifica na elaboração de documentos de planejamento, observando-se a sua denotação de um elemento técnico, político, sem neutralidade e considerando-se a totalidade. Isso é possível porque temos uma formação sólida e bem estruturada em torno dos quesitos que envolvem o planejamento. Grande parte disso ocorre porque já temos a necessidade do planejamento apresentada em documentos que norteiam o nosso fazer profissional como a lei que regulamenta a profissão e o Código Profissional de Ética. Na lei que regulamenta a profissão do assistente social, por exemplo, em seu artigo 4º podemos ler: I – elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organizações populares; II – elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da sociedade civil [...]; VI – planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais [...]; VII – planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais; 41 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO VIII – prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo [...]; X – planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social (BRASIL, 1993). Nele podemos observar alguns termos como elaborar, implementar, executar e avaliar, que se aplicam às políticas, planos, programas e projetos, além de planejar benefícios, planejar e executar pesquisas e planejar e administrar instituições prestadoras em Serviço Social. São atividades relacionadas ao planejamento, como podemos ver. No artigo 5º da referida legislação, temos o destaque de competências dos assistentes sociais. As competências são atividades profissionais que podemos desenvolver, visto que temos habilidades que foram adquiridas em nosso processo formativo e que nos permitem tal empreitada. Já o artigo 5º nos apresenta as atribuições privativas. Atribuições privativas são atividades restritas ao assistente social. Somente os habilitados e devidamente inscritos nos Conselhos Regionais que podem desempenhá-las. Nossa leitura do referido artigo nos permite inferir que há atividades específicas de planejamento que só podem ser desenvolvidas por assistentes sociais, sendo essas: I – coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social; II – planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Serviço Social; III – assessoria e consultoria e órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social [...] (BRASIL, 1993). Assim, vemos aqui as menções sobre a elaboração e a execução de planos, programas e projetos em matéria de Serviço Social. Vemos ainda que é atribuída responsabilidade ao assistente social em realizar ações de planejamento em unidades de Serviço Social e em atividades de consultoria. Nesse caso, observamos que o profissional tem garantidas por lei que algumas atividades de planejamento lhe sejam inerentes e não sejam desempenhadas por outros profissionais. Temos ainda menções sobre a questão do planejamento expressas no Código Profissional de Ética dos assistentes sociais. Tais menções são apresentadas nos artigos: 2º, 3º, 8º, nos quais podemos ler: Art. 2º – [...] participação na elaboração e gerenciamento das políticas sociais, e na formulação e implementação de programas sociais; 42 Unidade I Art. 3º – [...] participar de programas de socorro à população em situação de calamidade pública, no atendimento e defesa de seus interesses e necessidades; Art. 8º – [...] programar, administrar, executar e repassar os serviços sociais assegurados institucionalmente; [...] empenhar-se na viabilização dos direitos sociais dos usuários através dos programas e políticas sociais (CFESS, 1993). No artigo 2º, observamos que é apresentado como um direito do assistente social a realização do acompanhamento das políticas e dos programas sociais. Já o artigo 3º indica um dever do assistente social. Como dever vemos que é apresentada a participação do assistente social em atividades de socorro em casos de calamidade pública. Mas isso seria planejamento? Podemos dizer que as ações de execução comportam planejamento? De acordo com os estudos que realizamos, o planejamento evoca também a execução e o acompanhamento das ações desenvolvidas. E, por fim, no artigo 8º vemos que cabe ao profissional serem assegurados os direitos de administração dos serviços sociais visando a construção de direitos por meio de programas e políticas sociais. Dentre as discussões que temos observado nessa relação entre planejamento e Serviço Social, a disciplina pretende aprimorar e discutir dois conceitos de planejamento que são fundamentais: o planejamento estratégico e o participativo. Tais conceitos também são hegemonicamente apresentados por autores como Baptista (2002), que é, como sabemos, uma valiosa referência no estudo do planejamento aplicado ao Serviço Social. Abordaremos tais conteúdos nos próximos itens. Por enquanto, convidamos você para refletir sobre a matéria a seguir. MS tem 131 crianças disponíveis para adoção Em Dourados, há cerca de 50 acolhidos, sendo seis à espera de uma família O Estado de Mato Grosso do Sul tem 131 crianças disponíveis para a adoção. São meninos e meninas que já foram destituídas completamente do convívio dos pais biológicos e que aguardam nova família. Em Dourados cerca de 50 crianças e adolescentes estão vivendo em casas de acolhimento. Apesar do número expressivo de acolhidos, apenas seis estão aptos para adoção, sendo cinco adolescentes e uma criança de 8 anos. A assistente social e coordenadora do “Projeto Adotar”, da Vara da Infância, Valdirene Campos Schmitz Pereira, diz que o principal desafio continua sendo encontrar famílias dispostas a fazer a adoção tardia, além de grupos de irmãos e crianças com algum tipo de deficiência. O Projeto Adotar existe em Dourados desde 2005 e tem parceria com a maternidade. A mãe, no ato de dar à luz, pode expressar o desejo de entregar a criança para a adoção. A partir daí o juizado é informado, ambos serãoassistidos e a adoção ocorrerá de forma legal. O projeto também faz o curso de preparação e contato com os pretendentes, mantém o cadastro atualizado, faz a busca de famílias para crianças que estão disponíveis, acompanhamento das gestantes que pretendem entregar a criança para a adoção, além de 43 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO acolher e orientar a entrega voluntária. No mês da criança o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), indicaram que mais de 30 mil crianças e adolescentes estão em situação de acolhimento em mais 4.533 unidades em todo o país. Deste total, 5.154 mil estão aptas a serem adotadas. Uma criança ou adolescente pode receber a medida protetiva de acolhimento institucional ao se detectar uma situação de risco, negligência, abandono, maus-tratos, entre outras violações de direitos. A medida tem caráter temporário, até o retorno da acolhida, por adoção ou reintegração familiar, considerando o interesse da criança e do adolescente. Para o presidente da Associação Brasileira dos Magistrados da Infância e da Juventude (Abraminj) e desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), José Antônio Daltoé Cezar, o Poder Judiciário tem implementado uma visão integral no acolhimento. “Temos observado um grande esforço judicial, desde audiências on-line até a busca por capacitação dos agentes de direito, para que a criança tenha seus direitos como indivíduo respeitados. O próprio CNJ, com uma iniciativa de aprimorar os cadastros de adoção para dar celeridade ao processo, contribui para esse contexto mais ágil e buscando sempre a melhor condição para a criança.” Programas em Dourados A Vara da Infância de Dourados oferece três principais projetos de adoção, auxílio e bem-estar das crianças abrigadas em Dourados. O “Adotar” faz triagem com os casais interessados em crianças já destituídas do poder familiar. Criado em setembro de 2005, tem uma média de adoções de 2 a 3 crianças por ano. Para adotar, os casais (solteiro também pode) passam por triagem e curso de adaptação. A principal dificuldade é que a maioria dos casais se interessam por crianças recém-nascidas ou com, no máximo, um ano. Isto faz com que as maiores permaneçam mais tempo nos abrigos. Padrinho O Projeto Padrinho existe desde 2003 em Mato Grosso do Sul e há dois anos em Dourados. Beneficia crianças que moram nos abrigos e as que estão em situação de risco, inclusive assistidas pala Vara da Infância e Juventude de Dourados. O projeto conta com padrinhos doadores de bens e materiais, prestadores de serviços, como médicos, psicólogos entre outros profissionais e nove são afetivos, que levam as crianças para dias de lazer. Qualquer pessoa acima de 18 anos pode se cadastrar como padrinho. Não há limite de vagas. A função do apadrinhamento é contribuir de alguma maneira com a criança. Fica a critério do padrinho o tempo e tipo de ajuda, que pode ser material, afetiva, profissional e educacional. 44 Unidade I Pai de verdade Criado em outubro de 2007 na Comarca de Dourados, o projeto Pai de Verdade tem como foco informar e conscientizar os pais da importância do reconhecimento de seus filhos [...]. Fonte: Araújo (2020). A matéria menciona vários dispositivos de planejamento. Vemos, citados ali, o Projeto Adotar e outros projetos como o Padrinho e o Pai de Verdade. Notamos, em tais ações, que o Padrinho e o Pai de Verdade estão ligados a um Programa voltado para a adoção. Podemos dizer que aqui há expressões do planejamento? Afinal, aqui temos uma finalidade a alcançar? Tais projetos ajudariam a pensar e orientar o cotidiano das práticas profissionais? Após refletir sobre essas questões, podemos continuar a apresentar os tipos de planejamento. 3.1 Planejamento estratégico e planejamento participativo O planejamento estratégico é aquele que pressupõe uma intervenção que atenda as necessidades geradas em situações complexas, sendo que se busca sua transformação. Desse modo, a ação visa tornar a instituição mais eficiente. Essas ações podem ser desenvolvidas tanto em instituições públicas quanto em espaços privados. O planejamento estratégico, assim como os demais modelos, demanda a instituição de ações concretas para alcançar uma dada finalidade (PFEIFFER, 2000). Carlos Matus, importante economista do governo chileno entre 1965 e 1970, elaborou o conceito de planejamento estratégico situacional. O planejamento estratégico situacional é uma manifestação contrária ao planejamento tradicional, contra a morosidade e a falha na gestão das organizações. Essa perspectiva de planejamento pressupunha ainda a organização do processo por meio de três fases, sendo essas: o momento explicativo, o momento normativo e o momento estratégico. O momento explicativo é aquele em que explicitamos o que foi, o que é e o que tende a ser. No momento explicativo buscamos caracterizar a ação a ser desenvolvida, demonstrando a realidade da instituição anteriormente. A fase explicativa é a primeira delas. Na sequência à fase explicativa, conforme Pfeiffer (2000), teremos então a fase normativa. No momento normativo devemos descrever detalhadamente como desenvolveremos a ação. As ações que descreveremos nessa fase do planejamento são idealizadas a partir da fase explicativa que a precedeu. Afinal de contas, na primeira fase fazemos um diagnóstico a respeito da situação atual e das mudanças necessárias ou pretendidas. A última fase, conforme nos indica a autora, foi nomeada como momento estratégico, que é quando apresentamos o que poderá ser. Em outras palavras, na fase normativa apresentamos as propostas e na estratégica buscamos detalhar o que pode ser, ou seja, quais são as mudanças pretendidas por meio das ações realizadas. 45 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Observação O planejamento estratégico pressupõe a indução de mudanças por meio de ações concretas. Além de propor a indução de mudanças nas situações estudadas, o planejamento estratégico situacional é objeto de execução nas organizações públicas e nas organizações privadas. O planejamento estratégico é o elo de articulação entre a gestão e a intervenção e visa, com a ação, provocar mudanças significativas em situações específicas. Seu objetivo é, a longo prazo, tornar a organização mais eficiente e eficaz. Observação O planejamento participativo evoca a inserção da população nas atividades ligadas à ação. O planejamento participativo, por sua vez, é uma modalidade de ação que demanda a consolidação de objetivos de ação, de um diagnóstico prévio e de propostas de ação, assim como no planejamento estratégico. Porém, nessa modalidade observamos que há possibilidade de distribuição de poder para definir quais medidas serão tomadas para cada ação proposta. quebrar pessoas podem colaborar na escolha das decisões adotadas em um projeto ou intervenção social. Esse planejamento é descrito por Pfeiffer (2000) como uma forma de se corrigir uma injustiça social através da inserção da população nos espaços de discussão de debate. Há a associação da participação no planejamento com a correção de deficiências ou desigualdades presentes em um dado contexto. Matus (1996) destaca que o planejamento participativo evoca a necessidade da realização de ações grupais para a discussão de temas específicos. Esse tipo de planejamento tem como objetivo solucionar problemas que sejam comuns a uma determinada comunidade ou grupo. Por abordar problemas que são comuns aos grupos, esse tipo de planejamento coloca as pessoas como protagonistas da ação. Esse tipo de planejamento surgiu, inicialmente, nos anos 1990, em instituições que não visavam lucro. Hoje, as organizações públicas recorrem, em sua maioria, a esse tipo de planejamento, uma vez que tais organismos são subjugados pela ótica da democratização. No entanto, há empresas privadas que buscam também consolidar espaços de participação em suas ações, visando dar voz aos envolvidos em determinadasações. Espera-se que a realidade mude a partir da participação dos envolvidos frente à situação sob a qual se pretende interferir no sentido da mudança. Aliás, é a participação popular que auxilia na elaboração dos parâmetros postos para a organização de ações focadas no bem comum. 46 Unidade I Lembrete Todo planejamento tem um objetivo, uma finalidade a ser alcançada. O planejamento participativo pode apresentar três fases em seu desenvolvimento. São elas: preparação, acompanhamento e revisão. A preparação é a fase inicial em que delimitamos os problemas comuns, de forma coletiva, e que têm afetado mais um determinado grupo ou segmento social. Na fase da preparação definimos coletivamente quais serão as medidas mais eficazes para enfrentar a situação apresentada. Após a deliberação coletiva de tais temas, passamos à ação. A ação passa a ser executada, implementada, e isso requer acompanhamento. No acompanhamento comparamos o que foi idealizado inicialmente e o que está sendo executado a partir das ações concretas. É o momento da avaliação, compreendida como algo que acontece durante o desenrolar da ação. A fase final, por sua vez, seria a de revisão, que é quando olhamos com certo distanciamento para todo o processo, buscando superar as deficiências possíveis e identificando também os avanços conquistados (MATUS, 1996). Importante ressaltar que a avaliação é recomendada por vários autores como algo que aconteça em todo o processo de planejamento e de desenvolvimento das ações. Carvalho (2001) nos diz que realizar uma avaliação é um dever ético, visando melhor qualificar a prática desenvolvida. É também um componente estratégico, pois nos permite dimensionar a nossa ação proposta. E a autora ainda nos coloca que a avaliação nos auxilia até mesmo na captação de recursos. Ou seja, a avaliação é essencial para a consolidação de um planejamento, de fato, eficiente e eficaz. Uma avaliação indica ainda a necessidade de decisões políticas (no sentido da escolha) e é também um meio de aprendizado para que os responsáveis pela ação possam orientá-la de maneira adequada. Todas essas fases de planejamento acontecem de maneira ininterrupta. O que desejamos declarar com tal afirmação? Que sempre podemos preparar novamente as nossas ações, que devemos acompanhá-las e também revisá-las sempre que for necessário. O planejamento não é um processo estanque, congelado e rígido, mas sim um processo de constante construção e reconstrução. A questão do planejamento participativo, que o define enquanto tal, é realizar a inserção da população durante todo o desenvolvimento da atividade. Podemos organizar um planejamento que seja estratégico e participativo? Será que essas modalidades de organização são antagônicas? Pfeiffer (2000) afirma que podemos agregar esses dois formatos, visto que o planejamento estratégico estará mais orientado para o desenvolvimento de ações em prol de situações complexas e objetiva a transformação, enquanto o planejamento participativo busca inserir a população na elaboração e na execução das ações, tornando o processo de planejamento mais representativo dos pares que estão envolvidos. Desse modo, podemos inferir que sim, podemos ter um planejamento estratégico e participativo. 47 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Aliás, Cury (2001) destaca que é fundamental que façamos a incorporação da gestão estratégica nas áreas públicas e nas organizações da sociedade civil. Para a autora, a gestão e o planejamento estratégico são aplicados em empresas privadas, mas também podem trazer benefícios para a gestão das áreas públicas e de organizações que prestam serviço com finalidade social. Ela ressalta algumas atividades ou condutas comuns na gestão estratégica e que podem ser incorporadas para a área pública, começando pela importância substancial de realizarmos uma análise minuciosa do contexto sobre o qual pretendemos realizar a intervenção. Nessa análise, também precisamos considerar o contexto interno e externo, sendo o contexto interno aquele do espaço institucional e o externo corresponde a todos os fenômenos e eventos que influenciam o problema sobre o qual pretendemos intervir. Essa análise do contexto, de acordo com a autora, faz menção a conceitos relacionados ao planejamento estratégico. Visando associar o planejamento estratégico ao participativo, a gestão social tem como proposta a incorporação de algumas ações, dentre elas: a realização de entrevistas e reuniões grupais a serem realizadas com o público-alvo das intervenções e a equipe vinculada à organização. Isso daria, segundo Cury (2001), substrato para que pudessem ser elaborados documentos relacionados ao planejamento, como planos, programas e projetos. Essas aproximações permitiriam a identificação dos objetivos das ações, das atividades a serem desenvolvidas, dos recursos necessários para cada intervenção e das formas de avaliação que poderemos usar em cada tipo de intervenção. Quando apresentarmos os modelos de planos, programas e projetos, aprofundaremos a discussão sobre a avaliação. O planejamento se torna concreto ao ser representado por meio de documentos específicos. Dentre eles, podemos citar os planos, programas e projetos. Vamos conhecê-los. 3.2 Os dispositivos básicos do planejamento: planos, programas e projetos Para colaborar com a sua formação, tornando esse processo de construção do conhecimento mais significativo, optamos por estruturar esse item por meio da discussão das principais especificidades de um plano, de um programa e de um projeto. Na sequência, apresentaremos alguns exemplos dessas ações. Observação O plano confere linhas gerais, discussões amplas dentro do processo de planejamento. Vamos começar, então, com o plano, que é responsável por oferecer o referencial teórico e político para que possamos pensar as ações políticas e também específicas. No plano temos a relação entre meios e fins das ações. É um documento amplo, de maior alcance, genérico. É no plano que traçamos “[...] as grandes estratégias e diretrizes que permitirão a elaboração 48 Unidade I de programas e projetos específicos” (CURY, 2001, p. 41). O plano oferece a sustentação para implementar as ações mais próximas da execução, por meio de programas e de projetos. Mas como são definidas as ações a serem desenvolvidas por meio de um plano? A partir de um diagnóstico detalhado sobre os principais problemas que desejamos atacar com nossas ações. O plano é o meio de apresentar, de forma lógica, coerente e organizada, quais problemas serão enfrentados. Para cada problema social apresentado, há uma área de concentração, que define a tônica para a elaboração dos programas e dos projetos. Vamos considerar que em um município foi realizado um amplo estudo diagnóstico e se constatou, com vários dados colhidos no território, um elevado índice de adolescentes evadidos da escola e envolvidos com tráfico de drogas. Os dados apontam que há um número elevado de mortes desse público em regiões periféricas, controladas pelo tráfico. Isso é avistado e trazido para o plano nas áreas relacionadas à assistência social e à saúde. Como o plano é algo amplo, ele apresenta como proposta de ação um programa que irá viabilizar a inserção do adolescente em atividades de convivência e fortalecimento de vínculos oferecidas pelo Cras e também indica a necessidade de intervenções na área da saúde, para atender os casos que, porventura, apresentem dependência química. Partindo disso, a assistência social, realizada por meio do Cras, elabora um projeto de intervenção para esse público e seus familiares, envolvendo nessa ação a rede de atendimento, enquanto os profissionais da área da saúde elaboram outra frente de ação mais ligada com questões decorrentes da dependência química. Ambas trabalham de forma articulada e estruturada. Tais ações, somadas, colaborarão para que seja possível sanar o problema que foi inicialmente tratado no plano desse município. Pensandoem um modelo de plano, optamos por destacar o modelo usado pelo município de Sooretama, no Espírito Santo, apenas a título de exemplo. O plano em questão refere-se à Assistência Social e é composto pelos seguintes itens: 1. Identificação: apresentação de informações sobre o gestor municipal da assistência social, sobre o órgão que faz a gestão assistencial, sobre o Conselho Municipal de Assistência Social e sobre o Fundo Municipal de Assistência Social. 2. Apresentação: introdução ao Plano Municipal da Assistência Social. 3. Conhecendo o município: apresentação do município onde será desenvolvida a ação, incluindo aspectos relacionados à história. 4. Caracterização do órgão gestor da assistência social: desenvolvimento histórico do órgão gestor e da estrutura atual, que delimita tal espaço. 5. Instâncias de controle social: apresentação do Conselho Municipal da Assistência Social, do Conselho Gestor do Fundo Municipal de Assistência Social e dos demais conselhos vinculados à pasta. 49 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO 6. Conferência municipal da assistência social: dados sobre as últimas conferências já realizadas, incluindo metas a serem alcançadas na área da assistência social. 7. Conhecimento da realidade socioeconômica: dados que buscam apresentar e caracterizar a situação econômica do território. 8. Rede de políticas públicas intersetoriais: apresentação dos serviços desenvolvidos na saúde, na educação e nas instituições conveniadas com a assistência social, destacando o papel de cada um deles na atenção das demandas geradas no âmbito da assistência social. 9. Instância de Proteção Social à Criança e Adolescente: apresentação de uma repartição da Assistência Social voltada especificamente para esse público. 10. Rede privada da assistência social do município: dados sobre as instituições privadas que colaboram com a assistência social e a vinculação das referidas instituições aos programas estabelecidos. 11. Objetivos: objetivos gerais e específicos da assistência social a curto, médio e longo prazo. 12. Diretrizes e prioridades: referências ético-políticas da assistência social definidas a partir da Política Nacional de Assistência Social e delimitação das ações prioritárias de intervenção com as respectivas justificativas. 13. Detalhamento das ações estratégicas e metas: apresentação de quais intervenções serão desenvolvidas e quantas pessoas serão beneficiadas por elas. 14. Monitoramento e avaliação: apresentação dos critérios elencados a fim de mensurar se a ação desenvolvida em cada programa e projeto contemplou o seu objetivo final e quais serão os meios utilizados para realizar o monitoramento. 15. Financiamento: apresentação das fontes de recursos para o desenvolvimento de cada uma das intervenções que foram propostas. Fonte: Sooretama (2017). Esse é um modelo que pode auxiliar no contexto de elaboração do referido documento. Porém, os modelos são ajustáveis às necessidades de cada contexto, de cada território. É preciso considerar que os modelos usados também podem ser flexibilizados a depender do estado, do município, já que os órgãos públicos em questão podem apresentar modelos próprios e específicos. Outro aspecto que merece atenção refere-se ao fato de que muitos estados e municípios, atualmente, têm um sistema próprio para o registro dessas informações. No estado de São Paulo há um sistema informatizado em que são alocados, na área da Assistência Social, os planos municipais. Esse sistema é atualizado anualmente, mas as ações têm uma proposta de 50 Unidade I execução pensada para o período de quatro anos. O roteiro apresentado é apenas um exemplo, que pode estar presente em planos municipais ou não, a depender da realidade sobre a qual a ação será empreendida. Observação Os planos municipais são elaborados de acordo com a política social a que estão vinculados. Outro aspecto de grande relevância para a compreensão dos planos municipais é ter em mente que cada documento, como nos diz Cury (2001), dependerá em grande medida da área de atuação. Pensando em política social, é preciso pressupor que o plano deverá ser idealizado a partir das referências e normativas de cada área. No caso da Assistência Social, usando o exemplo citado, vemos que as ações e intervenções advém do que é prerrogativa desse escopo. No caso da saúde, a descrição das ações aconteceria tomando como base os objetivos de tal área. A atuação em rede pressupõe, no entanto, ações interdisciplinares entre as diversas áreas em questão, porém, cada qual tem uma contribuição a ser oferecida. Observação Programas são o detalhamento do plano. Nos programas temos a apresentação das ações propostas em cada setor. Sendo assim, os planos são documentos gerais, amplos e neles temos a apresentação de programas e projetos que serão desenvolvidos em cada esfera de atuação, visando o enfrentamento dos problemas sociais e das necessidades sociais apresentadas em cada contexto. Isso nos leva a discutir outro aspecto de grande importância e que se refere ao programa. Cury (2001) descreve o programa como sendo o aprofundamento do plano. É o detalhamento, por setor, das políticas propostas e das diretrizes que foram discutidas no plano. O programa é “[...] um conjunto de projetos que buscam os mesmos objetivos” (CURY, 2001, p. 41). Tais projetos, de maneira associada, colaboram para contemplar os objetivos do programa e, a longo prazo, do plano. No programa temos o estabelecimento de prioridades, que resulta no ordenamento dos projetos e dos recursos para cada esfera de atuação. Os parâmetros elencados e sumariados nos programas resultam em projetos de intervenção. Partindo do exemplo citado anteriormente, percebemos que, no Plano Municipal de Sooretama, há uma instância voltada à atenção de crianças e adolescentes, visto que as análises territoriais demonstraram a necessidade de uma intervenção mais específicas para essa demanda. Como elaborar, então, um programa de ação direcionado para essa demanda? Veja, a seguir, o que foi proposto: 51 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO 1. Identificação: apresentação dos dados do município, do órgão gestor responsável pela ação, dos profissionais que irão responder por tal intervenção. 2. Antecedentes e diagnóstico: descrição pormenorizada dos aspectos relacionados no plano e que justificam a constituição do programa em questão. 3. Objetivos e metas: detalhamento geral e específico do programa a curto, médio e longo prazo e definição das metas de atendimento. 4. Metodologia: apresentação das atividades que serão desenvolvidas em cada projeto que estará vinculado ao programa, sendo recomendada a inserção de um cronograma de atividades. 5. Avaliação: sumário dos critérios utilizados, em cada projeto, para analisar se a ação proposta tem conseguido contemplar o seu objetivo geral. 6. Recursos: definição dos recursos necessários para a ação, lembrando que não indicamos aqui apenas os recursos financeiros, mas também os materiais e os recursos humanos necessários para o desenvolvimento dos projetos. Fonte: Sooretama (2017). Observação O projeto é a menor dimensão do planejamento. É a que está mais próxima da intervenção. Os programas são documentos que estão mais próximos da ação. E cada programa resulta em uma série de projetos. O projeto, por sua vez, é um documento construído de forma racional e lógica, que corresponde a pensar a ação concretamente. É um documento que comunica sob quais bases, no cotidiano das práticas, as ações serão desenvolvidas. Um projeto representa os objetivos específicos idealizados no programa, vinculando-os a um orçamento reduzido, apenas o necessário para o desenvolvimento de ações mais específicas e pontuais. O projeto é uma ação que possui um tempo menor de execução e, por analogia, é mais delimitado. Porém, os temas de planos, programas e projetos estão articulados, interligados e relacionados, partindo de níveis de maior complexidade paraaqueles de menor complexidade. “Quanto maior o âmbito e menor o detalhe, mais o documento se caracteriza como um plano; quanto menor o âmbito e maior o grau de detalhamento mais ele terá as características de um projeto” (CURY, 2001, p. 42). 52 Unidade I Vamos pensar em um modelo de projeto? Vejamos a proposta de Cury (2001, p. 50-51), conforme indicado a seguir: 1. Título do projeto: descrição do nome por meio do qual o projeto será identificado. 2. Sumário executivo: resumo de todas as questões que envolvem a ação proposta no projeto, vinculando-o ao programa e ao plano. 3. Apresentação da organização: descrição pormenorizada das informações que permitem o conhecimento da realidade institucional. 4. Análise de contexto e justificativa: apresentação da realidade do território e sua relação com a ação proposta, enfatizando porque a intervenção desenvolvida precisa ser desenvolvida, ou seja, qual é a relevância social dessa proposta. 5. Objetivos e metas: objetivo geral e objetivos específicos a alcançar por meio da ação e das metas contempladas para um determinado período. 6. Público-alvo: quais são os segmentos prioritários de intervenção. 7. Metodologia: quais abordagens de ação serão desenvolvidas dentro do projeto. 8. Sistema de avaliação: quais serão os meios necessários para realização de avaliação, quais os critérios necessários e indicadores pactuados. 9. Cronograma de atividades: quais atividades e em que período que serão desenvolvidas. 10. Cronograma físico-financeiro do projeto e composição do orçamento: quais serão as fontes de recursos usados no projeto, compreendendo valores destinados para a ação e também os órgãos financiadores, sendo necessário também destacar em que natureza de despesa o recurso será custeado. 11. Anexos: informações complementares e que sejam vitais para o entendimento da ação proposta. Fonte: Sooterama (2017). Aqui retomamos o que já havíamos apresentado anteriormente, quando discutimos o plano. Os projetos também podem possuir modelos próprios, a depender do agente financiador das ações. No entanto, precisam estar articulados a planos e programas, e manter a coerência com a lógica das políticas sociais com as quais estão vinculados. Pensando uma vez mais nesse programa de ação dedicado a crianças e adolescentes, poderíamos pensar em projetos que estivessem voltados, na área da Assistência Social, para atuar com crianças por meio das atividades de convivência em contraturno escolar, por meio do oferecimento de formação para adolescentes via cursos de capacitação e outras ações afins. 53 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Um programa pode resultar em diversos projetos e o que define isso é, na verdade, o diagnóstico realizado em relação às ações necessárias em um dado território. Saiba mais Nos sites a seguir, vemos várias ações já desenvolvidas por organismos diferenciados, com projetos muito interessantes: Instituto Reação – organização da sociedade civil que atua com crianças e adolescentes, desenvolvendo projetos voltados para a prática de atividades esportivas, atividades de formação complementar e preparo esportivo para a formação de atletas. Promove a integração social por meio do esporte e da educação. INSTITUTO REAÇÃO. Disponível em: https://bit.ly/39cQLXS. Acesso em: 24 mar. 2021. IDE projetos sociais – organização da sociedade civil que desenvolve projetos com crianças e adolescentes nas áreas da saúde, esporte, assistência social e profissionalização. IDE PROJETOS SOCIAIS. Disponível em: https://bit.ly/3tT8uex. Acesso em: 24 mar. 2021. Os conteúdos apresentados são necessários para o nosso exercício profissional e consideramos que poderão auxiliar substantivamente no planejamento e desenvolvimento de ações propostas em planos, programas e projetos. Observe também as indicações disponíveis nos itens Saiba Mais, nos quais dispusemos algumas experiências de projetos já realizados. Ver outros projetos nos ajuda a refletir sobre as ações sociais em pauta e sobre dispositivos que já foram executados com sucesso. É importante ter em mente que cada realidade é particular e única, mas também que podemos aprender a partir de outras experiências. Para concluir, inserimos, a seguir, uma síntese do conteúdo discutido nesse item. Planos Programas Projetos Diretrizes gerais das ações Intervenções setorizadas Documento mais próximo da ação Apresentação de programas e projetos Define prioridades, projetos e recursos Ação específica e menor âmbito da intervenção Figura 4 – Diferenciação de planos, programas e projetos 54 Unidade I Vemos que há diferenciações em relação à abrangência da ação a depender do documento, sendo o plano o mais amplo e o projeto o mais específico. Ainda dentro do conceito de planejamento, vimos que o item avaliação está presente em planos, programas e projetos. Dentre todos os itens aqui apresentados, esse, especificamente, exige de nós uma atenção especial, devido à sua importância na hora de pensar nossa intervenção nos problemas sociais enfrentados por meio dos dispositivos que aqui estudamos. Inclusive porque há certa confusão entre os conceitos de eficiência, eficácia e efetividade. A delimitação conceitual é importante na elaboração de planos, programas e projetos, pois evita que tais quesitos sejam elaborados erroneamente. Carvalho (2001) salienta que a eficiência é mensurada por meio da comparação entre os recursos destinados para uma ação e os benefícios que esta proporcionou. Na avaliação de eficiência analisamos se uma ação teve o menor custo frente ao atendimento de sua demanda. Uma ação será considerada mais eficiente à medida que conseguir otimizar recursos e atender ao número idealizado como meta ou mais. Uma ação extremamente eficiente é aquela que consegue, com um valor estimado de recursos, atender a um número maior de beneficiários. “A gestão de um projeto será tão mais eficiente quanto menor for o seu custo e maior benefício introduzido pelo projeto” (CARVALHO, 2001, p. 71). Por sua vez, a avaliação de eficácia está vinculada ao alcance dos objetivos propostos pela ação. Uma ação eficaz se dá quando é possível atender o que foi idealizado. A eficácia é contemplada quando os objetivos e as metas foram contemplados. E, por fim, temos a avaliação de efetividade, que acontece quando conseguimos realizar mudanças sociais por meio da ação desenvolvida. A efetividade corresponde às mudanças realizadas na qualidade de vida dos atendidos e são mais comuns para ações desenvolvidas na área social. A avaliação de efetividade corresponde ao “[...] atendimento das reais demandas sociais, ou seja, à relevância de sua ação, à sua capacidade de alterar as situações encontradas (CARVALHO, 2001, p. 71). Todos esses quesitos podem ser sumariados em cada plano, programa ou projeto de intervenção. A sua delimitação advém da reflexão e do diagnóstico realizado a partir de cada ação e de cada território. Não há como definir quais critérios podem ser apresentados com tal objetivo, uma vez que isso vem da ação desenvolvida frente às necessidades apresentadas. 55 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Eficiência Eficácia Efetividade Mensura a relação de recursos versus benefícios Alcance dos objetivos e metas Atendimento das demandas reais Menor custo para um maior número de beneficiários Possibilidade de atender à meta ou mais Mudanças na qualidade de vida Figura 5 – Diferenciação dos conceitos de eficiência, eficácia e efetividade É importante compreender as diferenças dos conceitos em relação aos critérios que podem ser sumariados no processo de avaliação. Incorporá-los ao nosso processo de planejamento é vital para a condução e elaboração de um planejamento ético e coerente. Além disso, ter critérios bem delimitados de avaliação garante a qualidade do planejamento e, consequentemente, das intervenções propostas. Observação A avaliação ex-ante acontece antes do desenvolvimento da ação. Jáa avaliação post-facto é a que realizamos após o desenvolvimento da ação. O conceito de avaliação, de Carvalho (2001), ainda incorpora as noções de avaliação ex-ante e post-facto. A avaliação ex-ante é aquela que se antecipa a ação. Também é nomeada como avaliação diagnóstica e precede a elaboração dos projetos. Ela é realizada com o objetivo de analisar se a abordagem proposta é, de fato, interessante para ser desenvolvida. Já a avaliação post-facto é aquela que acontece após a conclusão da ação. A avaliação post-facto deve ser realizada após cada ação desenvolvida. 4 A ATUAÇÃO DOS ASSISTENTES SOCIAIS COMO GESTORES DE POLÍTICAS SOCIAIS Pensar o exercício profissional do assistente social exige compreender o surgimento e a consolidação do Serviço Social no Brasil bem como os diferentes contextos que nos vão apresentando, ou seja, as demandas diferenciadas que precisamos atender. A intervenção por meio da gestão se apresenta como uma dessas demandas postas ao assistente social na contemporaneidade, mas que está ligada com o surgimento da nossa profissão no Brasil. 56 Unidade I Lembrete A institucionalização do Serviço Social no Brasil acontece em virtude das expressões da questão social. Cardoso e Fagundes (2013) nos colocam que assistentes sociais são chamados para intervir nas expressões da questão social. Essa intervenção, no contexto do surgimento da profissão acontece por meio da ação desenvolvida em políticas e serviços sociais. Tais políticas e serviços sociais são desenvolvidos pelo Estado e isso faz com que o poder público se destaque como o maior empregador dos assistentes sociais. Por conta disso, no começo dessa consolidação, os assistentes sociais eram chamados para intervir na execução das políticas sociais. Inicialmente, as(os) profissionais eram contratadas(os) apenas para a operacionalização das políticas públicas/sociais, dado o amadurecimento e reformulação que o Serviço Social passou no sentido da sua perspectiva teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativo as(os) profissionais se deslocaram ao âmbito do planejamento e gestão das políticas públicas (CARDOSO; FAGUNDES, 2013, p. 3) Em meados dos anos 1940, alguns assistentes sociais foram chamados para participar da organização de algumas instituições. Isso demonstra que alguns profissionais passaram a ocupar cargos muito semelhantes ao que se idealiza hoje na função do gestor. No entanto, no período em questão, alguns profissionais atuavam mais como administradores. A maioria dos profissionais atuava como um técnico que buscava executar as políticas e os serviços sociais. Os autores apontam que somente em meados dos 1980 os conceitos de administração passam a ser entendidos como importantes para o Serviço Social. E isso aconteceu devido à ampliação de profissionais que tiveram maior inserção laboral no campo privado e, também, aos que passaram a integrar equipes de gestão de alguns serviços públicos. Já nos anos 1990, temos a revisão curricular dos cursos de graduação em Serviço Social no Brasil. Foi nesse momento que a administração passou a compor o currículo mínimo do Serviço Social. Além dos conceitos relacionados à Teoria Geral da Administração, vemos a incorporação de conceitos ligados à gestão social. Isso aconteceu por causa da ampliação da quantidade de profissionais vinculados à gestão social, gestão das políticas sociais (CARDOSO; FAGUNDES, 2013). Outro fator importante foi o processo de democratização vivido no Brasil. A democratização resultou em um processo de descentralização político-administrativa, algo que viabilizou a tomada de decisões sobre as políticas sociais junto aos estados e municípios. Apesar de a democratização ter sido desenhada na realidade do Brasil em meados dos anos 1980, é somente nos anos 1990 que temos a abertura de possibilidades de descentralização político-administrativa. Antes não tínhamos oportunidades de participação e de gestão. Quando essa possibilidade é avistada, o assistente social passa a ser requisitado como o técnico que irá atuar nessa mediação, ou seja, 57 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO que irá desenvolver as atividades ligadas à gestão dessas políticas sociais. Cardoso e Fagundes (2013) ainda nos colocam que essas necessidades, de profissionais atuando na gestão de políticas sociais, são o resultado do processo de desenvolvimento econômico, social e político que o país vivenciava nesse contexto. Nos anos 2000, a quantidade de profissionais da nossa área atuando na gestão de políticas sociais se amplia consideravelmente. As autoras, assim como Torres e Lanza (2013), acentuam que a gestão de políticas sociais é, por excelência, um processo de planejamento. Isso pressupõe, essencialmente, um profissional que tenha domínio técnico nesses quesitos e que esteja preparado para esse tipo de intervenção. Aliás, Torres e Lanza (2013, p. 207) destacam que é necessário que o assistente social abandone a perspectiva de “[...] mero executor terminal [...]” de políticas e serviços sociais para assumir o papel de “[...] planejador do processo de gestão, a executar a gestão das políticas sociais” (TORRES; LANZA, 2013, p. 208). As primeiras intervenções do assistente social na gestão de políticas sociais são concentradas na seguridade social, em especial nas políticas sociais de saúde, previdência social e assistência social. Há também intervenções na habitação e na educação, porém em menor escala se comparada à inserção dos assistentes sociais na seguridade social, sobretudo na saúde e na assistência social. Hoje, essa é uma tendência ainda presente no mercado de trabalho daqueles que estão vinculados à gestão das políticas sociais (CARDOSO; FAGUNDES, 2013). Observação A atuação do assistente social na gestão requer conhecimentos de planejamento estratégico e planejamento participativo. Hoje, a inserção de grande parte dos assistentes sociais acontece por meio de intervenções nas quais se evoca a gestão democrática e participativa. As gestões democrática, participativa ou social trazem, como vimos anteriormente, os parâmetros da participação popular para as políticas sociais. Para isso, vimos que é necessário inserir a população nas discussões propostas em relação aos serviços e políticas sociais, inclusive aqueles conveniados com o poder público. Por exemplo, as organizações da sociedade civil que têm convênio com o Estado para o desenvolvimento de suas ações são instituições organizadas pela sociedade civil. Porém, também são organismos sujeitos à ótica do controle porque recebem recursos públicos. Outrossim, para atuar em qualquer um desse serviços é necessário aos assistentes sociais o conhecimento estratégico, de planejamento das ações que requerem mudanças e também o saber e o comprometimento com o planejamento participativo, social. Ao desenvolver uma intervenção voltada à gestão social, os profissionais devem estimular a consolidação de alternativas que permitam o exercício do controle social, algo que também entrou em discussão no cenário nacional a partir da Constituição Federal de 1988. Os meios de controle social são garantidos em lei e devem ser incorporados na gestão de políticas sociais. A consolidação de espaços de controle e de possibilidades reais de participação popular é avistada 58 Unidade I como um meio de se colocar contra a hegemonia neoliberal e segundo a qual o Estado tem que diminuir os recursos na área social. O controle, a participação e a inserção da população nessas discussões são um elemento vital, segundo os autores, para interromper o avanço neoliberal em políticas sociais. Cardoso, Fagundes (2013), Torres e Lanza (2013) nos dizem ainda que a gestão desempenhada pelo assistente social deve ser guiada por valores nobres e que orientam o nosso exercício profissional. Por conseguinte, sua prática deve sempre orientar-se pela defesa de direitos dos segmentos mais vulneráveis. O assistente social, gestor de políticas sociais, tem acondição e a responsabilidade de mediar as relações firmadas entre Estado e sociedade civil, tendo como meta a atenção das necessidades apresentadas pela população. Torres e Lanza (2013) ressaltam que os assistentes sociais gestores de políticas públicas também são atores que podem e devem fazer a gestão das demandas e das necessidades dos cidadãos, assim como sua atenção, com base nos recursos e serviços públicos disponibilizados pelo Estado. O assistente social teria potencialidade para elaborar também novos serviços não instituídos a partir da identificação das necessidades concretas dos públicos que têm sob sua responsabilidade. Torres e Lanza (2013) ainda indicam que o assistente social, de posse do seu saber técnico, consegue fazer a interpretação das necessidades apresentadas pela população de seu território. Tal competência permite ainda que o gestor interfira na rede de serviços consolidados em um município ou região. Essa intervenção na rede tem a potencialidade de fortalecer os serviços públicos, motivo pelo qual a gestão das políticas sociais pode produzir resultados benéficos para além da política social em que o gestor está inserido. Intervir em gestão também tem o seu lado mais amargo e que tem relação com a gestão financeira e a análise de recursos (CARDOSO; FAGUNDES, 2013), e isso evidencia a importância da habilidade técnica. A gestão financeira, nesse caso, é também uma atividade a ser desempenhada pelo gestor. Ter o domínio dessa leitura é um dos quesitos que confere eficácia à gestão. Muitas vezes é um saber que não foi construído no processo formativo da graduação, mas que, a partir de uma demanda apresentada à profissão, precisará ser construído. A intervenção na gestão financeira comporta a condição de analisar ainda: “[...] orçamentos públicos, elaboração de metas, planejamento público, a exemplo do plano plurianual, orçamentos participativos, diagnósticos socioeconômicos, entre outros instrumentos de gestão” (HORA, 2014, p. 76). Os orçamentos públicos são os documentos nos quais os entes federados apresentam suas fontes de recursos e a natureza de despesa, e o plano plurianual é o documento no qual as fontes de recursos de cada área de atuação do município, estado e Distrito Federal são apresentadas. O orçamento é mais detalhado e elaborado de um ano para outro. Por exemplo, o orçamento gasto em 2020 foi elaborado em 2019. O plano plurianual é pensado para os quatro anos de gestão pública. Os orçamentos participativos são meios de gestão social em que a população é chamada para discutir sobre os recursos e sua destinação. Cabe ao assistente social, gestor das políticas sociais, interpretar e decodificar toda essa linguagem e utilizá-la de forma ética e coerente na gestão de políticas sociais. A adoção de uma postura, de uma escolha para atender uma necessidade social é, na verdade, um comportamento político do assistente social. Porém, 59 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO essa escolha e a incorporação das demandas sociais requer, essencialmente, o pleno domínio de todos os instrumentos do seu trabalho, incluindo os documentos financeiros. Retomamos aqui a discussão que esteve presente no início desta unidade. Somos trabalhadores. Somos classe trabalhadora. Estamos inscritos em relações de compra e venda do nosso trabalho. Dessa maneira, novas oportunidades como a gestão de políticas sociais têm sido apresentadas à nossa categoria. A apropriação desses espaços que também são possibilidades de efetivação de direitos sociais cabe a nossa categoria. Mas, para isso, é vital uma ação ética, coerente com nosso projeto ético-político e que demonstre nossa capacidade técnica. Antes de concluirmos, leia o texto a seguir: Responsabilidades do(a) ordenador(a) de despesas do Fundo de Assistência Social O chefe do poder executivo local tem a missão de ofertar à população políticas públicas planejadas conforme demandas apresentadas; para isso, elabora seu programa de trabalho, que deverá ser desenvolvido durante todo o seu mandato. Objetivando cumprir com tal missão nomeia pessoas, sendo agentes políticos também, que terão a incumbência de gerir os orçamentos específicos dos Órgãos que estarão à frente. A partir do ato de nomeação, estas pessoas são consideradas ordenadoras de despesas primárias, mas, considerando ser uma atribuição bem complexa, alguns municípios adotam a nomeação de um(a) agente administrativo para assumir como ordenador(a) de despesas secundário(a), devendo esta pessoa possuir conhecimentos na área de Finanças Públicas e atuar junto ao gestor(a) da pasta. Porém, muitas vezes, essa função é assumida mesmo pelo(a) gestor(a). Segundo o Decreto-lei n. 200, de 25 de fevereiro de 1967: “§ 1° Ordenador de despesas é toda e qualquer autoridade de cujos atos resultarem emissão de empenho, autorização de pagamento, suprimento ou dispêndio de recursos da União ou pela qual esta responda”. Com relação à Política de Assistência Social, o(a) ordenador(a) de despesas necessita de um amplo conhecimento da legislação relacionada, conhecimento de toda a sistemática para administração do Fundo, onde e como os recursos recebidos através de cofinanciamento podem ser aplicados, entender sobre reprogramação de saldos e apresentação de relatórios e documentos para prestação de contas ao conselho, entre outras questões. Alguns municípios ainda não possuem subdivisão administrativa formalizada, junto ao órgão gestor da Assistência Social, para a gestão financeira e orçamentária, ficando esta função a cargo da Secretária de Finanças ou setor contábil. Segundo o Censo Suas de 2016, de 4.279 Secretarias Municipais de Assistência Social, 66,1% já têm a subdivisão administrativa formalizada para a gestão financeira e orçamentária, num total de 2.828. 60 Unidade I Sobre a questão, quem é o(a) ordenador(a) de despesas do FMAS: do total de 5.481 secretarias, 69% são o(a) secretário(a) de assistência social e 23,7% ainda são o prefeito. Buscando qualificar a gestão e execução financeira A organização e qualificação da gestão do Fundo de Assistência Social tem importância no alcance dos objetivos do Suas, que propõe como novo modelo de gestão a definição clara de competências dos entes das esferas de governo e a articulação entre os três eixos balizadores dessa política: a gestão, o financiamento e o controle social. A criação de canais institucionais de participação do controle social e, consequentemente, de usuários (as), promovem práticas participativas na organização e execução das ações socioassistenciais, bem como na utilização e otimização dos recursos destinados à Assistência Social. O(a) ordenador(a) de despesas não pode ser apenas uma pessoa que assina documentos autorizando o gasto de recursos. A responsabilidade da sua função requer planejamento, organização e controle do uso dos recursos, pois isso será expresso na qualidade do que é ofertado para as famílias [...]. Fonte: Oliveira (2018). Nele, vemos que é apresentada a figura do ordenador de despesas, pessoa especialmente destinada para realizar a gestão orçamentária da Assistência Social. O ordenador de despesas pode ser um assistente social? Poderíamos colaborar com a gestão financeira nesse aspecto? Deixaremos essas questões para você pensar. Resumo Nesta unidade, buscamos problematizar questões que envolvem a inserção do Serviço Social como profissão no Brasil. Nesse sentido, começamos apresentando informações sobre a institucionalização do Serviço Social. Partindo de tais aspectos, apresentamos a discussão do Serviço Social como uma profissão inscrita na divisão social e técnica do trabalho e que participa de um trabalho coletivo. Em seguida, discutimos ainda o conceito de processo de trabalho, aplicando-o ao Serviço Social e compreendendo, por meio da análise de Iamamoto, quais categorias integram o processo de trabalho do assistente social na contemporaneidade. Partindo do entendimento de que somos classe trabalhadorae que participamos de um processo de trabalho, abordamos outros aspectos do exercício profissional do assistente social discutindo a elaboração de projetos profissionais e de sua relação com projetos de classe social. 61 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Partindo de tais discussões, orientamos nossa reflexão para os conceitos dos projetos societários, os projetos de classe social e os projetos ético-políticos do Serviço Social. Esses conceitos são fundamentais porque oferecem o pano de fundo para o nosso exercício profissional, para o desenvolvimento de ações concretas e em prol da população mais vulnerável. Tais colocações nos levaram a pensar também sobre questões práticas da ação do assistente social, avançando nossa discussão sobre o planejamento das ações assistenciais. O planejamento, como vimos, integra o fazer desse profissional, que tem sua ação expressa por meio de planos, programas e projetos, documentos que devem ser elaborados para sistematizar e orientar as ações profissionais. Buscamos apresentar definições sobre tais elementos e, ainda, alguns exemplos que podem auxiliar na elaboração de documentos. Essa discussão, junto com os exemplos, busca viabilizar a junção entre teoria e prática, demonstrando a relação entre tais conceitos e a vivência cotidiana dos profissionais. E, por fim, apresentamos a discussão, também ligada à prática profissional do assistente social, sobre da gestão de políticas sociais. O debate em torno da questão da gestão de políticas sociais também esteve orientado por colocações teóricas e pela apresentação de exemplos de ações já realizadas por assistentes sociais na gestão de políticas sociais. 62 Unidade I Exercícios Questão 1. A noção de Iamamoto (2001) sobre o Serviço Social, enquanto partícipe dos processos de trabalho, nos mostra a aplicação do conceito marxista de processo de trabalho. Adotando como base os conceitos de Iamamoto (2001) sobre processo de trabalho, analise a situação representada a seguir: “Mariana Dias é assistente social no município de Sucupira, onde trabalha na gestão da Política de Assistência Social. Sua intervenção consiste na organização de todos os aspectos ligados à gestão da Assistência Social do município, motivo pelo qual realiza a gestão orçamentária e das ações desenvolvidas pela Assistência Social do local”. Refletindo sobre a situação representada e aplicando a ela o conceito de processo de trabalho, conforme definido por Iamamoto, analise as afirmativas a seguir: I – A matéria-prima, no trabalho de Mariana, é expressa por meio das múltiplas expressões da questão social. Na Assistência Social também temos tais expressões. II – Na situação exemplificada, Mariana Dias não trabalha com a matéria-prima ou com o objeto de trabalho do assistente social, porque atua na gestão da Assistência Social. III – Mariana Dias participa de um processo de trabalho e, como tal, na Assistência Social, devendo apresentar um resultado de sua ação, um produto. IV – A ação profissional de Mariana Dias, ou seja, o trabalho, é um componente fundamental para que a intervenção aconteça. V – A Assistência Social, enquanto política social, é um condicionante a mais para o trabalho de Mariana, que não detém instrumentos de trabalho. É correto o que se afirma em: A) I, II e III, apenas. B) I, II e V, apenas. C) I, III e IV, apenas. D) III, IV e V, apenas. E) II, IV e V, apenas. Resposta correta: alternativa C. 63 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: a matéria-prima, segundo Iamamoto (2001), incorpora as múltiplas expressões da questão social e que são potencializadas pelo desenvolvimento capitalista em sua fase madura e consolidada. Consequentemente, na política social de Assistência Social também temos as expressões da questão social. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: Mariana Dias trabalha na gestão da Política de Assistência Social e suas ações visam o enfrentamento às expressões da questão social. Por isso, podemos dizer que a assistente social atua em prol das expressões da questão social, visto que ela intervém nesse objeto. Sua ação é direcionada para atender às mazelas geradas pela questão social. III – Afirmativa correta. Justificativa: a noção de processo de trabalho pressupõe que a ação profissional precisa apresentar um resultado. No sentido em pauta, da Assistência Social, Mariana também irá precisar conferir um resultado de sua ação, um produto. IV – Afirmativa correta. Justificativa: Iamamoto (2001) acentua que a ação, ou seja, o trabalho em si, é um dos elementos que integram a noção de processo de trabalho. Assim, a ação profissional de Mariana é um dos elementos que integram a noção de processo de trabalho, partindo da perspectiva da autora. A afirmativa em questão também está correta. V – Afirmativa incorreta. Justificativa: Iamamoto (2001) compreende que a Assistência Social não é um condicionante a mais para a intervenção do assistente social, antes, ela conforma a prática desse profissional. A alternativa em pauta indica o oposto. Dessa maneira, a presente afirmativa está incorreta. Questão 2. Leia a situação descrita a seguir, considerando os estudos que empreendemos: “Maria Lucia e Mariana cursam Serviço Social na UNIP. Após a aula da disciplina de Processo de Trabalho e Serviço Social passaram a discutir sobre os conceitos abordados, ao que Maria Lucia diz: – O lado positivo é que o Serviço Social não sofre pelas condições de trabalho e pela precarização, pois somos pertencentes a uma profissão nobre, guiada por valores humanitários. 64 Unidade I Já Mariana argumentou: – Você não leu direito o material e também não prestou atenção na videoaula”. Tendo em vista o conteúdo estudado e a situação narrada, analise as afirmativas a seguir: I – Tanto Maria Lucia quanto Mariana estão corretas, pois cada uma construiu a sua interpretação sobre a profissão. II – Maria Lucia está incorreta, pois o assistente social participa dos processos de trabalho. É um profissional que também está condicionado pelas alterações vivenciadas no mercado de trabalho. III – A precarização e a subalternização do assistente social também são uma realidade que nos afeta enquanto classe trabalhadora. IV – Maria Lucia está correta, afinal o Serviço Social não é uma profissão inscrita na divisão sociotécnica do trabalho. V – Mariana está incorreta em suas colocações, pois o Assistente Social não é condicionado pelas condições laborais presentes em uma sociedade. É correto apenas o que se afirma em: A) I e IV. B) III e IV. C) IV e V. D) II e III. E) I e II. Resposta correta: alternativa D. Análise das afirmativas I – Afirmativa incorreta. Justificativa: o Serviço Social também é subjugado pelas relações trabalhistas. Portanto, é incorreto pensar, como Maria Lucia, que o Serviço Social não é influenciado pelas atuais condições de trabalho que afetam a classe trabalhadora. 65 SERVIÇO SOCIAL E PROCESSO DE TRABALHO II – Afirmativa correta. Justificativa: o Serviço Social participa dos processos de trabalho, ou seja, é uma profissão que está vinculada ao mercado de trabalho. Como vimos, a nossa categoria também é influenciada por todas as condições de trabalho que a classe trabalhadora vivencia. III – Afirmativa correta. Justificativa: o trabalho precário, subalterno, também afeta o fazer do assistente social e a sua relação laboral. Não há profissões que não sejam influenciadas pelas condições de trabalho, portanto somos classe trabalhadora e estamos expostos a essas condições laborais que se apresentam na sociedade. IV – Afirmativa incorreta. Justificativa: o Serviço Social é uma profissão inscrita no mercado de trabalho. A partir do momento que surge a necessidade dessa ação, o Serviço Social passa a compor o rol de profissões que integra o mercado de trabalho. Diante disso, é incorreta a premissa de que o Serviço Social não é uma profissão inscritana divisão sociotécnica do trabalho. V – Afirmativa incorreta. Justificativa: as mudanças processadas no mercado de trabalho também exercem grande influência na ação do Assistente Social. Como classe trabalhadora também sofremos as alterações, privações e todos os outros aspectos que demarcam a ação de um trabalhador. Afirmar que o assistente social não sofre pelas condições laborais é uma premissa que não se sustenta e torna a afirmativa incorreta.